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Ao Tempo Que Não Servimos Carapauzinhos De Escabeche

Ao Tempo Que Não Servimos Carapauzinhos De Escabeche

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Ao Tempo Que Não Servimos Carapauzinhos De Escabeche

Länge:
426 Seiten
6 Stunden
Herausgeber:
Freigegeben:
Feb 16, 2015
ISBN:
9789895130269
Format:
Buch

Beschreibung

Já me tinha dito que quem viria a ter parte essencial no magno evento, na reviravolta da ordem natural da vida que tínhamos conhecido até aí, eram os altos traficantes de droga à escala mundial, e mais esses, bem vistas as coisas, do que os banqueiros, e assim até ao dia em que ambas as actividades se confundissem – dia esse que podia ser aquele preciso dia em vias de nascer. Os altos traficantes de droga estavam a mudar a fisionomia do mundo, da vida, da convivência. A droga estava a chegar ao consumidor com um grau de pureza nunca visto. Só por falar da heroína, já se vendia com um grau de pureza na ordem dos 60%. Era o progresso.
- Então, ouve lá, o progresso é o mais alto nível de alucinação que se possa arranjar? –perguntei.
- Claro que é! A chave dos segredos da vida, a pedra filosofal dos sistemas...
A próxima revolução mundial não precisava de tiros. Seria toda feita com dinheiro e drogas, o que iria dar no mesmo e aumentaria exponencialmente o nível de alucinação. Porque o tempo já não produzia revolucionários daqueles do passado, muito teóricos, muito inteligentes. Hoje, no mercado da revolução, já só se encontravam boçais terroristas religiosos.

Herausgeber:
Freigegeben:
Feb 16, 2015
ISBN:
9789895130269
Format:
Buch

Über den Autor

Personagem atípica e poli-disciplinar, Joel Costa nasceu em Lisboa e não tem a mínima formação universitária. Foi exercendo na vida e nas circunstâncias intersticiais do tempo, o inteiro e o parcial, diversas actividades: paquete, bancário, empregado de escritório, contra-guerrilheiro forçado, contabilista incompetente, dactilógrafo temporário, auxiliar de cartografias, cantor lírico, sindicalista, actor de cinema, novelista, dramaturgo, conferencista de pequeno (e por vezes mau) porte, assessor político, censor de espectáculos e ghost writer. Numa colaboração de dezassete anos com a RDP-Antena 2 foi autor de trabalhos que mereceram o reconhecimento do público e da crítica: QUESTÕES DE FAMÍLIA e QUESTÕES DE MORAL. Ainda em colaboração com a RDP-Antena 2, manteve a crónica semanal Recitativos a Seco no programa da manhã daquela estação, O Despertar dos Músicos. Como comediógrafo é autor de Isto é a Gente a Falar, peça levada à cena pelo grupo de teatro independente Intervalo. Como romancista publicou: BALADA PARA SÉRGIO VARELLA CID O ASSASSINO DE SALAZAR AQUELA MADRUGADA NO RITZ


Buchvorschau

Ao Tempo Que Não Servimos Carapauzinhos De Escabeche - Joel Costa

PASCOAES

1

E se eu estava ali feito parvo a olhar para eles sem saber o que fazer era porque a bela mulher com quem vivia me tinha fugido de casa.

– Com os ossos do grande Albuquerque, afirmava el-rei João que por segura tinha a Índia – disse o velho do boné de pala ao bater estrondosamente uma carta. – E se estava segura a Índia com os ossos mortos de um capitão, quanto mais seguro estará Portugal com o sangue vivo de tantos!

Não sei se estavam combinados, mas o velho da saqueta à tiracolo, atalhou logo:

– Todos os que morreram nas conquistas de Portugal vivem hoje no sangue dos que assistem à defesa dele!

Conversa parecida com algumas que eu julgava ter ouvido horas antes. Caso intrigante. Eu estava ali, como digo, de pé, feito parvo, mirone, a fingir que seguia o jogo mas só a retardar o doloroso regresso a minha própria casa, atento aos gestos deles, às mãos, às caras, velhos reformados como eu, análises hoje, raios X amanhã, prova de esforço, hipertensão, colesterol, glicémia, hemorroidal, acidez, dores articulares, duas, três, quatro pastilhas obrigatórias por dia. Próstata. E reconhecendo em redor os sinais de um fim inaceitável.

Começo por aqui, doutora. Não se lembra de mim? Não, claro que não. Nem se lembra do caderninho que me deu para eu ir anotando o que me passasse pela cabeça. Já lá vão uns bons quatro anos e eu nunca toquei no caderninho, não escrevi nele nem uma linha. Começo agora. E começo por aqui. Quero eu dizer, começo pelo fim, ou quase fim, da estranha história da estranha noite que vivi e que lhe quero contar como preliminar de uma consulta.

Era eu o único mirone ali, àquela hora da manhã. E porque não queria chamar muito a atenção dos jogadores para a minha pessoa, disfarçava, afastava-me uns passos, fingia ver as horas como se estivesse à espera de alguém, olhava como um idiota para a secura da Fonte Luminosa, lia os graffitti gigantescos das paredes, ACORDA PORTUGAL...

Não me considero mau diabo, no fundo, não, mas isso não quer dizer nada, porque ao longo da vida houve quem dissesse de mim muitas cobras e muitos lagartos, incluindo duas das minhas ex-mulheres, que eu era um grandessíssimo cínico, um ambicioso, um machista incorrigível, um amoral antipático, um mandão e um sacana. Nunca aceitei na sua totalidade tais maldizeres, já se vê, mas naquela manhã, a sentir-me mais do que nunca um caminhante na orla do tempo irremediável, um reformado, estive tentado a dar-lhes razão. Alguma razão. Nalgumas coisas.

Estes casos que lhe passo a contar aconteceram no dia e na noite daqueles tumultos em Lisboa, naquele Outubro que parecia a continuação do verão, lembra-se de certeza. Lisboa estivera à mercê de bandos armados e de insurreições dispersas, as autoridades sem saberem como lidar com a situação, as comunicações e os sistemas informáticos do governo vitimados, ao que se disse, por um ciber-ataque. Não há quem não se lembre dessa noite abafada de Outubro. O povo fora aconselhado a não sair de casa. Mas eu saí. Talvez não devesse ter saído...

Um momento, por favor, não se precipite que eu também não me quero complicar mais a triste vida. Tenho é que lhe dizer que às vezes sinto os meus actos, alguns, e até os pensamentos, alguns, como se fossem de outro. Sabe que às vezes consigo separar-me mentalmente da minha própria personagem? Não é sempre; nem com frequência; só às vezes. Nunca lhe cheguei a falar disto. Não houve tempo.

Ex-oficial miliciano de reconhecimento e informação na Guiné, 1969, sexagenário reformado da banca a viver a enfiada galopante dos dias indiferentes que vivem os reformados. Aqueles ali na jogatina, por exemplo. Muitos outros, demasiados, ao que dizem as estatísticas, os que não há meio de morrerem para alívio das contas públicas, os portadores da dita peste grisalha que arruína o país. Dizem.

A doutora já não se lembrará de mim, mas eu é que lhe quero devolver este caderninho de capa amarelada que me deu para eu tomar nota do que me viesse à cabeça. E isso foi quando eu e a minha então mulher, Delphine (não se lembra do nome?, pois não; talvez se lhe disser Martinha se lembre), a consultámos, porque o nosso casamento não andava bem. Não se lembra? Martinha? Delphine? Na realidade Delfina, nome que ela detestava, e acho que com razão.

As coisas entre mim e La Dauphine resolveram-se entretanto. Isto é, nunca se resolveram. Separámo-nos. Divorciámo-nos. Não tivemos outro remédio. E nunca mais me lembrei deste caderninho de capa amarelada. A minha vida sentimental deu algumas voltas. Quer dizer, deu e continua a dar. E ontem, por acaso, ao revolver a minha casa quase de alto a baixo por motivos que mais adiante poderei esclarecer, encontrei-o numa daquelas gavetas esquecidas que sempre existem nas nossas casas.

Estava então eu ali, a surpreender-me com os velhotes reformados que abancavam à sueca e que não aparentavam medo algum do tempo seguinte de uma vida que nunca mais lhes acabava. Havia um de camisa encarnada que só olhava fixamente para o jogo que tinha e não dizia uma nem duas.

– Ó senhor, ponha aí copas, caralho! – ouvi gritar o da bolsa à tiracolo.

Reparava com alguma estranheza naquele entusiasmo competitivo dos velhos. Bem feitas as contas à desgraçada da existência humana, este deve ser o galardão mais próprio para um fim de vida triste e pobre, uma vitória à sueca numa manhã de sol.

– Copas ou espadas?

O maior e mais verdadeiro problema que decidi confiar a este caderninho começara dois dias antes deste tempo de velhos e de sueca na Alameda que agora lhe estava a contar. Começara no anteontem.

Manhãzinha cedo. Estava eu ainda na cama, a emergir de um sonho qualquer. E começava com ela, sim, a que poderia considerar como minha actual mulher, que se chama Silvana, curvada na obscuridade do quarto, curvada sobre mim e já pronta para sair de casa. Ainda nem são oito horas e já há um perfume forte em redor. Faz parte do sonho? O Cerruti... não, o Chloe... o La Perla. Não? Às vezes fazíamos apostas patetas sobre isso, os perfumes dela, os perfumes do dia...

Que foi?, sobressalto meu, o busto dela inclinado para a minha cara, o perturbante rego das... dos seios...

Doce... querido doce... amor... deixa-te estar a dormir sossegadinho. Só vim dar um beijinho. Hoje tenho que me despachar cedo. Até já estou um bocado atrasada.

(O decote, o rego das mamas, desculpe, doutora, mas é assim, as coisas têm os seus nomes, e fosse eu um homem daqueles antigos, às direitas, inseguro de si, nunca a deixaria andar na rua decotada daquela maneira.)

Atrasada para quê?

O material que prometi ao Rodrigues. E as entregas. Já as devia ter feito há uma semana. O Rodrigues tem que ir hoje para o Porto, logo a seguir ao almoço. E tem que levar as coisas. E aquela senhora, lembras-te, a senhora daquela loja da Cova da Piedade. Marcou-me a entrevista para hoje e só lá está da parte da manhã.

Fui-me levantando aos poucos.

Não queres que te vá levar ao comboio?

(Andava ao tempo para lhe comprar um carrito barato.)

Encostados à parede, junto da porta da escada, vi um malão e um saco de viagem.

Que levas tu naquela mala?

Oh, amor! São fios, fitas, tecidos, colas, coisas assim, o material que esse tal Rodrigues lhe pedira. E também levo a mala porque tenho que passar pelo Martim Moniz e comprar uma quantidade de coisas para o atelier.

Não podes ir carregada. Eu tomo um banho rápido e vou-te lá levar...

Ó amor, aquilo não pesa nada. Aquilo é só volume. E eu levantei-me mais cedo já para não te chatear com os meus problemazitos.

Verdade. Não me chateava. Nunca me pedira nada. Procurava não me incomodar com o que costumava considerar ninharias pouco dignas da minha pessoa. Enfiei o roupão.

Espera, vou só tomar um banho rápido...

Tom quase implorativo:

Ó amor eu nem te queria acordar! Apanho um táxi e ponho-me lá num instante.

Já chamaste o táxi?

Não é preciso. Apanho um ali em Almirante Reis com a maior das facilidades.

Acho melhor chamares um táxi.

Amor querido... é uma perda de tempo... primeiro que o táxi apareça...

Então vou-te dar dinheiro para o táxi.

Isso aceito.

Fui à carteira, peguei em vinte euros, estendi-lhe a nota, achei que estava a ser sovina, tirei outra de dez, estendi-lhas, trinta, chega? Chegava. Não, é melhor quarenta. Querida, há sempre imprevistos. Uma nota de vinte em lugar da de dez. Estávamos à porta. Despedida. Grande beijo. Ela pega na mala e no saco, abre a porta e sai para o patamar. Nesse momento não reparo que o peso da mala lhe faz descair o corpo para a direita. Ela promete telefonar assim que se despachar.

Só me apercebo do peso real da mala quando a vejo da janela a atravessar a rua para o lado de Almirante Reis, e porque gostava de lhe observar o corpo de longe. Nem a mala nem o saco de viagem eram só volume. Aquilo pesava mesmo. Devia ter insistido, devia ter ido levá-la. Um remorso muito breve. Coitada. Carregada. Mas era uma mulher que se desenrascava bem.

Às duas e meia da tarde estranhei que ela ainda não me tivesse ligado. E resolvi ligar-lhe eu. Nunca quisera dar a mais pálida ideia de que pudesse andar a tomar-lhe conta dos passos, mas dessa vez decidi-me – parece que adivinhava que alguma coisa não estava a bater certo. Atendeu o voice-mail. Deixei recado, então como te correram as coisas?, ainda não te despachaste?, está difícil?, não te esqueças de me ligar assim que te despachares.

O que fiz no resto do dia não interessa para o caso, entretive-me por casa a reler uns papéis antigos do banco e pouco mais. Chegam as seis da tarde e volto a ligar. Voice-mail. Deixo mensagem. Insisto. Ela que me ligue. E às sete e meia outra vez. Voice-mail. Não tenho mais recados para dar. Sinto-me numa terra-de-ninguém, entre o irritado e o preocupado.

Atendo o telemóvel às nove da noite, acabado de comer qualquer coisa. Ela. Que desculpasse. As coisas não tinham de facto corrido muito bem, alguns problemas, é verdade, depois me explicaria melhor, o material, o Rodrigues, que não tinha pago ao homem umas poucas de latas de cola; o homem, que fizera uma peixeirada e exigira o dinheiro e mais não sei quê; vira jeitos de o Rodrigues e o homem se engalfinharem.

E eu também me lembrei daqueles cem euros de umas tintas e de umas latas de cola que ele me devia há uma porção de meses, o Rodrigues, sim.

Esse Rodrigues é um trafulha.

O pior é que nos chateámos uns com os outros e fiquei com tudo atrasado, não resolvi nada, nem fui à senhora da Cova da Piedade, e só agora é que cheguei ao atelier, e se tu não te importasses, amor, eu dormia aqui esta noite... e não te preocupes comigo, é só uma noite, se não te importares...

Pois com certeza, e tu também não te preocupes comigo.

Pronto, amor.

Só se queres que eu vá aí ter ao atelier...

Não, amor, não é preciso, é só uma noite, e uma noite que será passada a trabalhar.

Às onze abria eu uma garrafa do melhor tinto que tinha em casa e punha-me a beberricar. A olhar para a televisão. A pensar nela, Silvana. A pensar que devia ter ido ter com ela. A pensar nas estatísticas que tinha lido há tempos: em Portugal, a cada três dias morria uma pessoa a tiro ou à facada. E ainda a pensar que uma mulher jeitosa como ela (com aqueles decotes) está sempre mais sujeita à violência dos tarados do que qualquer outra pessoa.

Seguia os lances da sueca dos velhos da Alameda e desconsolava-me quanto a algumas das instintivas manobras de diversão que fazia, eu fazia, contra as arremetidas do tempo; e desconsolava-me a pensar na falsa vida em que entretinha a minha verdadeira vida de reformado. Ou vice--versa, dava igual. O grupo do bridge das terças, o squash ao sábado para não continuar a ser o sedentário que sempre fui; os festivos almoços à primeira sexta-feira de cada mês com os ex-colegas do banco, agora colegas de aposentação que continuavam a falar do serviço como se ainda estivessem no activo, tão velhos como eu e continuando a viver e a pensar em gargalhadas sonantes como se tivessem a vida aberta à sua frente, e optimistas, como se ainda riscassem alguma coisa na vida dos filhos, das noras, dos netos, e até nas suas pobres vidas inúteis, acabadas e sem regresso. Bom. Mas nunca esses tinham levado com um... desculpe o termo... com um valente par de cornos aos sessenta e tal anos. Pois não. Deviam ser bastante ajuizados para evitar tal infelicidade.

– Ó homem, fiquei sem dois naipes!

Assim que acordei no outro dia, a primeira coisa que fiz foi ligar para ela (nove da manhã). Número indisponível. Ainda estaria a dormir. Ou desligou o telemóvel para não ser incomodada. Ao meio-dia outra vez, voice-mail, deixe a sua mensagem, sim, com certeza, e deixo, e deixo beijos. E vou à minha vida, e desço, e troco dois dedos de conversa com o meu vizinho engenheiro. E vou almoçar à Mexicana uma posta de pargo assado no forno.

Às duas e meia da tarde dou uma volta pela casa. A começar pela casa de banho. E fico ciente. Pois sim senhora, fico ciente. Tudo quanto eram artigos de cosmética feminina já lá não estava, pincéis, espelhinho de aumentar, pinças, rímeis, lápis, cremes, tudo tinha desaparecido. E senti-me transpirar. Um suor gelado e uma impressão na garganta. E um ataque de tosse nervosa. No quarto. A cómoda. Perfumes. Que é deles? Cremes, escovas de cabelo. Nada. Gavetas, as dela. Praticamente vazias. Uma bluzita azul, dois pares de cuecas mínimas (as mais sexy, de propósito), dois soutiens velhos. Armário. Um vestidito de malha, só – de que eu muito gostava, apesar de já passado de moda, porque a fazia mais bem feita ainda do que ela já era. E o resto? Que é do resto da roupa dela?

Premeditado! Premeditado e bem premeditado. Com tempo. Fugiu-me! Mas deixara a maior parte dos sapatos. Porquê? Os livros, também, aquela cangalhada de inutilidades meio místicas, aquelas pseudo-filosofias orientais, e mais os anjos e as estrelas de Avalon, anciãos, arcanjos, oh, importantíssimo para o trabalho dela! Os livros estavam lá todos. Não eram muitos. Livros e revistas brasileiras, ou abrasileiradas. Estava tudo, as dimensões superiores, a protecção energética, a luz...

Mas ainda agora me pergunto como é que eu pudera dormir aquela noite, fazer a barba logo de manhã, tomar banho, e sem dar pela falta das coisas dela. Só podia atribuir-se às crises de concentração, aos hiatos da atenção que a velhice nos oferece, só.

(E na gaveta de uma cómoda encontro este caderninho de capa amarelada, intacto. Que instantaneamente me fez lembrar de um outro tempo meu de vida, sim, sim.)

Atiro-me para um sofá. A transpirar. Com alguma coisa cá dentro a doer. Pego na carta astrológica que ela me tinha feito e que eu encontrara lá bem no fundo de uma gaveta. Andara ceguinho de todo, embalado nos prazeres carnais e na vaidade espúria de velho. Um cego que não quisera ver. E agora se lembrava ele (eu), só agora: nos últimos tempos, nos últimos dias, uma semana, por aí, ela saía de casa carregada de sacos de plástico. Não dera importância. Não costumava ligar às peripécias do dia-a-dia de uma dona de casa. Ela disse que aquilo eram roupas, umas para dar a alguém necessitado, outras para levar à mãe, que por sua vez as mandava arranjar a uma senhora de Almada – e queixando--se constantemente de que o corpo dela já não era o mesmo, que estava a engordar sem saber porquê, a alargar, a barriga, as ancas, o peito. Ó querida, vamos aí a um centro comercial amanhã ou depois e compra-se um guarda-roupa novo para ti, qual é o problema? O problema não era a roupa, o problema era o corpo dela a alargar.

E eu estivera desatento. Nem tal coisa me passaria pela cabeça. O quê, que ela andava a pouco e pouco a tirar os trapos lá de casa e a preparar-se para me fugir? Nem tal coisa me passaria pela cabeça, repito! Mas assim era. Levara tudo. O casaco de peles! Tudo. Fora levando gradualmente tudo, e guardara para o último dia o conteúdo daquele malão e daquele saco. Contava comigo já acordado naquela manhã e por isso se fora despedir. Tivesse ela a certeza de que eu ainda estaria a dormir, e a sonhar, e ter-se-ia safado sem uma palavra. E estava explicado porque não fora dormir a casa nessa noite. Porque tinha fugido de casa. Porque me tinha fugido! Claro como água! Fugido de casa. Fugido de mim. Isso dói. Ó doutora, então não dói? A Delphine e a Martinha, com todos os muitos defeitos delas, nunca me fugiram. Nunca mulher alguma fugira de mim.

A Silvana era uma mulher nova. Trinta e cinco anos. Era o que se costuma chamar de boa (muita boa, na expressão popular). A mulher boa que por uma contingência de ordem prática acabara metida com um sexagenário, comigo.

Que me diz? Seria de esperar outra coisa, mais tarde ou mais cedo? Não? E vá lá, mesmo assim ainda me poderia dar à vaidade estúpida de pensar que a aguentara comigo por dois anos e uns meses.

O que seria de esperar era uma discussão, uma grande zanga. Então não seria? Ou uma conversa franca, simpatizo contigo, filho, és muito boa pessoa, mas estás velho demais para mim que estou na pujança dos meus trinta e cinco anos, e tens de compreender que a vida é mesmo assim...

Senti-me em vias de perder a cabeça. Mas não queria perder a cabeça. Nunca entre nós acontecera o mais pequeno desaguisado, tudo entre nós eram ternuras, compreensão e prazer físico...

A sentir-me em vias de perder a cabeça e a pensar ir ter com ela ao atelier e tirar satisfações. Quem sabe se encontrá-la deitada com um tipo qualquer? Com esse tal de Rodrigues, por exemplo. Quem sabe?

Pobre estúpido!, grito para comigo mesmo. O atelier? Onde iria ela a essa hora? O Rodrigues ia para o Porto, não ia? Pois metia-se pelos olhos dentro, mesmo os de um crédulo cretino como eu, que o marmanjo dela era o Rodrigues (que eu nunca vira mais gordo) e que ela tinha fugido com ele para o Porto.

Como pudera eu ter sido enganado por tão suave mulher? Mas também pergunto que outro qualquer no meu lugar não se deixaria enganar? Pensara um pouco nisso, sim, claro, na eventualidade de um par de chavelhos. Mas se pensei nisso foi só no princípio da relação. Com a continuação de vida nunca achara que tal fosse possível. E nunca achara porquê? Porque era um imbecil convencido. Não, não havia outra justificação. O cego imbecil e toleirão que não quer ver.

Às três e meia da tarde falo-lhe para o voice-mail e intimo-a a ligar-me de volta com toda a urgência.

Às quatro e dez recebo um sms e respiro aliviado. Que não me preocupasse. Daí a uma hora ela estaria em casa.

Um susto. Pronto. Um susto. Não passara disso. Um susto ou um aviso? Bom. Não importa. Sei dizer é que cresceu em mim uma enorme e repentina alegria de viver. Daí em diante passaria a estar mais atento. Ela estaria em casa daí a uma hora, muito bem, mas teria muito que explicar. E não era tarde nem era cedo: um sms de mim para ela: porquê, e quando, levara cá de casa a roupa toda, os perfumes e as pinturas?, que significava tal coisa? E por todo o resto do dia e da noite esperei uma resposta a esse sms. Que nunca chegou.

Facto consumado. As promessas de aparecer em casa seriam para quê? Ganhar tempo? Tempo para quê? E ainda se permitiu fazer pouco de mim, a cabra, a megera! Que estaria em casa daí a uma hora. Vamos a ver se está.

Bom, não me respondeu porque me quer explicar tudo pessoalmente, penso. É razoável. Esperemos.

Não tinha whisky em casa. Só vinho tinto.

Passou uma hora e passaram duas.

Os exames médicos. Dois dias antes conhecera os resultados. Eu. Resultados que não eram absolutamente nada encorajantes.

Eram cinco e tal quando os helicópteros sobrevoaram a zona da Alameda, a espadanar rentes aos telhados, Almirante Reis abaixo. Dois.

Meto-me no carro, vou ao Seixal, faço uma cena canalha? Faço? Não, não é o meu género. Enfim, foi. Um pouco, só. Outros tempos. Umas chapadas bem dadas, mais nada. Outros tempos, pois. Não senhor! Estúpido tenho eu sido, e é bom que deixe de continuar a sê-lo, isso mesmo, estúpido, ingénuo, confiante, positivo, convencido da minha excelência de homem (de macho), marido (pff...), sim, praticamente isso, com a Silvana, marido sem o ser, eu, homem com algumas posses (uma boa reforma) que pode impressionar uma pobre rapariga do povo. (Ao mesmo tempo só me apetecia rir de mim próprio.) Além do mais, só lá tinha ido (ao Seixal, ao atelier) umas duas vezes. Ou três. Não tinha a certeza de dar facilmente com o sítio. Mas não, não valia a pena. A essa hora estava ela metida na cama de uma pensão do Porto com o Rodrigues. Com esse ou com outro Rodrigues qualquer.

Marco o número. O número que marcou não está disponível, tente mais tarde, responde-me a voz.

Há mulheres que viram completamente a cabeça de um homem. Já se sabe. E só pela parte do sexo. Sem ser preciso mais nada. Não sei se a doutora concorda comigo...

– É esta!

– Paus!

– Já sabia.

E outras há que não. As que nos fazem um apelo de outra natureza. E que não lhes dará tanto resultado, tantas garantias. Que não agarrará tão fortemente um homem à ideia delas. Pelo menos de forma tão rápida, ou, que sei eu, tão eficaz, tão explosiva. Tão perigosa para a integridade mental de um ancião. O amor é o sexo, nada mais. É o desejo físico, o amor. A outra coisa é isso mesmo, outra coisa.

Tiros na Mouraria. Era o que estava a correr em rodapé na SIC, última hora. Uma desordem.

Veio o noticiário das sete. Entretanto já tinha ligado o rádio. A TSF noticiava tiroteios espaçados. E dois mortos de etnia indefinida, mais um ferido grave natural do Bangla Desh. Esquisito. Sai um homem do Bangla Desh para vir morrer à Mouraria...

Às sete a TVI mostra chamas alterosas, um carro a arder e uma fumarada negra a sair de uma esquina. E daí a nada um prédio velho a jorrar chamas por uma janela baixa. A Antena 1 fala de atiradores furtivos. A SIC mostra duas risonhas máscaras carnavalescas de plástico muito lustroso, que passam, olham para a câmara e desaparecem a correr – imagens não editadas. A coisa parecia feia para aqueles lados. Fui à janela e não vi nada de especial. O trânsito, mais buzina menos buzina, fluía na Almirante Reis como de costume.

Tanto quanto fosse do meu conhecimento não estava marcada para aquele dia nenhuma greve, nenhuma manifestação, nada estava anunciado, nada fazia prever uma coisa daquelas. E claro está que a minha angústia particular passava por algum tempo a segundo plano.

Às sete e meia não havia imagens novas. Mas iam aparecendo os opinadores. Os que culpavam as sucessivas medidas do governo, que não tinha feito mais do que abrir o caminho à revolta popular. O que me deixou um tanto interdito. Uma revolta popular desencadeada por naturais do Bangla Desh? Diziam os opinadores que aquilo era filme já visto, que tudo aquilo já tinha repetidamente acontecido na Grécia e em Espanha. E alguém falou daquele verão londrino de 2011, com gente comum a deitar fogo às lojas e a partir coisas. Outro opinador afirmava que estávamos a assistir ao fim da Europa que tínhamos conhecido – aliás, um fim que há muito vinha sendo anunciado. Um deputado pôs-se a dizer que os desacatos eram obra de grupos de anarquistas profissionais armados, infiltrados no país com a complacência (evitava com esforço chamar-lhe cumplicidade) de algumas forças políticas da esquerda radical.

E eu a regressar às minhas apoquentações de corno, a marcar o número dela, a confirmar que a cabra tinha desligado o telemóvel, indisponível... tente mais tarde....

O noticiário das oito. SIC. As mesmas imagens das sete, o carro a arder, o velho prédio a arder, fumos negros, os mascarados a correr. RTP e TVI, o mesmo. Um repórter a aparecer na Expo, para dizer que se tinham ouvido tiros dispersos por ali. Notícia de correrias em Chelas. A TSF falava de um morto na Calçada dos Cavaleiros, identificado como comerciante e natural de Peshawar. Peshawar...

Ao sair para jantar ouvi uma ambulância ao longe – ou um carro de bombeiros. Fui a um restaurantezeco aqui perto. Os fregueses olhavam para a televisão de boca aberta. O número dela. Indisponível. Sou teimoso, sou.

A minha suspeita persistente quanto aos acontecimentos era de que as rádios e as televisões não estariam a dar toda a informação que com certeza tinham. E eu, reformado da banca com a tentação antiga da margem das coisas a que sempre resistira em função da posição profissional e social que tinha, dessa vez estava a ouvir as vozes, essas, as vozes da sem-razão, sim, as tais vozes que se ouvem na véspera de se fazer alguma coisa disparatada. Não devia sair de casa, não devia ir para a rua. Mas saí e fui para a rua.

Foi a curiosidade, só, o que me impeliu para a rua? Foi a esperança estapafúrdia de poder ir ao encontro dela ainda que sem saber como? Foi a intenção de pôr os pés a caminho do Seixal, entrar no atelier, apanhá-la com outro e aplicar-lhe um enxugo de porrada naquele corpo?

E já agora, creia-me, doutora, não me sentirei de forma alguma ofendido se aquilo que lhe estou a contar aqui não seja aceite por si como verdade.

Punhadas nas mesas. É espadas! É copas! Ó senhor jogue lá a puta da carta!

No bater daquelas cartas, muitas das vezes iracundo, percebia-se alguma transferência de agressividades. Mas também a moínha funda da incerteza. Um lançar de cartas, um destino, a sueca e a vida. A sueca, a vida e a morte para amanhã ou depois. Naquela manhã, depois de me acontecer o que aconteceu, carregava em mim uma maior disposição para interpretar dessa forma o olhar sem cor daqueles velhos reformados e violentos. Moribundos inúteis. Tão inúteis quanto eu.

– Doze.

– Vinte e seis.

– Espadas!

E se naquela noite eu tivesse encontrado a Silvana? Ter-lhe-ia falado do inferno, ou das inomináveis loucuras criadas dentro de mim depois de ter compreendido que ela me fugira de casa deixando dois pares de cuecas sexy (que eu, note bem, indecorosamente acariciei e beijei), um vestido fora de moda, dois soutiens, uns tocos de baton? Ter-lhe--ia falado da loucura de uma noite de guerra para que o pé me puxara, e que significava a loucura de um espaço interior meu, secreto, a loucura que escabujava no subsolo da minha básica normalidade bancária? E se naquela noite o nosso homem (eu) a tivesse mesmo encontrado no divã do atelier qual de baixo qual de cima com outro? Ter-se-ia vindo embora o nosso homem (eu) fingindo nada ter visto? Teria dado cabo dos dois? Teria dado cabo dele (eu) a seguir?

A SIC mostrava estragos, um quiosque derrubado (derretido) no Martim Moniz. Massas de fumo negro. Contentores de lixo em chamas. Um rapazola a correr em tronco nu com os calções a cair-lhe. Estava ainda no restaurante a acabar de jantar (não comi quase nada). Um casal de idosos e dois sujeitos isolados comiam num silêncio comprometido. O empregado aumentou o volume de som do aparelho. Um dos pivôs de serviço anunciou daí a pouco que a situação estava dominada e controlada pelas forças de segurança, apesar das dificuldades resultantes da dispersão dos distúrbios.

Peço o café e a conta. Anunciava-se para breve um comunicado do governo. Pego no telemóvel e ligo. O mesmo. Indisponível. Vem a conta do jantar. Pago. E depois um político qualquer a falar e eu com um pé fora e outro dentro do restaurante. A população de Lisboa devia mobilizar-se para a defesa da democracia. Dizia ele.

Queria lá saber da democracia! O que eu gostaria de saber respeitava àquele tal Rodrigues. Quem era o Rodrigues? Existiria mesmo aquele Rodrigues? Mas se não era aquele Rodrigues era outro Rodrigues. Que importava o nome? Quem era? Que aspecto tinha? Que idade?

Atravessei a Alameda. A noite estava boa. Raro trânsito, é verdade. Silêncio. Não passava ninguém. Nenhum brasileiro estiraçado no relvado a beber cerveja, não. Nenhum burguês a passear o cãozinho. Meti-me no elevador e entrei em casa. Ela podia ter sido apanhada pela confusão ao voltar lá do Seixal. Nesse caso teria ligado a pedir ajuda, não? Se assim foi porque não ligou? E se não ligou é porque não foi assim. Ou teria ficado sem telemóvel? Podia ter-lhe acontecido alguma, atropelada, ferida, assassinada por um louco, por um cigano, por um preto (africano), por um natural do Bangla Desh. Ou pelo Rodrigues! A Silvana, a minha mulher!, podia estar a viver um drama sem eu saber.

O crepitar distante de um helicóptero.

Ah, os credores! Ela falara numa discussão brava entre o Rodrigues e o tal homem. Dívidas. E o Rodrigues também lhe devia dinheiro. E aquilo por um pouco não acabara tudo à chapada. Os pensamentos mais negros assaltaram-me. Àquela hora a minha Silvana podia não ser mais do que um cadáver abandonado na berma de uma estrada lá para a margem sul, lá para o Canal Caveira. Ela devia dinheiro a alguém. Deveria? Não sei. O Rodrigues devia dinheiro a alguém. E a ela? Não sei. A vida estava violenta. Assaltavam-se e matavam-se pessoas por meia dúzia de euros...

Na TVI chega a notícia de petardos a rebentar na zona de S. Bento. Um directo. A ver-se o repórter a falar mas sem se ver mais nada. Notícia de feridos, naturais do Senegal, de Cabo Verde e do Sudão. Em que terra de asilo o país se transformara!

Faltavam cinco para as dez e eu estava sem saber o que pensar, o que fazer. Não, não tinha qualquer contacto com família dela, não, nem tinha o telefone da mãe, não.

O que me impeliu para a aventura daquela noite não o saberei explicar – talvez nunca o saiba. Sei de uma indecisão primeira e de uma decisão súbita e irreflectida logo a seguir. Já me acontecera algumas vezes. Não tantas vezes assim, felizmente, e menos ainda nesta idade. Dizia a mim mesmo: não vou fazer ou dizer isto ou aquilo assim-assim, porque não posso, porque não devo, porque não quero fazê-lo, dizê-lo (não me caso com a Martinha porque não posso nem devo nem quero), e na fracção de segundo que se seguia decidia irracional e irremediavelmente fazer ou dizer o que não quisera, não devera, ou não pudera fazer ou dizer. E assim me casara com a Martinha. E com mais uma ou duas antes dela. Mulheres com quem quisera coisa e tal mas com quem nunca quisera casar. E com quem desavisadamente casei. Isto só para lhe dar um exemplo.

Pensei vou sair de casa na noite em que o povo revoltado abandonou finalmente a sua inércia? Vou agora meter-me à cidade perigosa? Para quê? Porquê? E no momento seguinte estava eu vestido para sair, molho de chaves a chocalhar-me na mão.

A rádio: intensificaram-se por alguns minutos os tiroteios na zona dos Poiais de S. Bento, Calçada do Combro e Poço dos Negros. Alguns feridos, a maioria de origem indiana, africana e magrebina. Seria tudo por causa da droga? Sabia-se lá. Alguém havia de saber, isso sim. Na televisão: os populares arrebanhados pelos repórteres escondiam as caras e desapareciam no escuro. Um falou, um negro ofegante, falou, falou no português lá dele, não sabia nada de nada e só queria fugir dali. Um rebentamento repentino fez correr o acagaçado repórter, que de caminho foi informando que os vultos que se conseguiam ver andavam ou encapuçados ou de máscaras carnavalescas na cara. A Renascença falava em confrontos de tipo étnico no Campo de Santa Clara. A reportagem de exteriores da TVI foi suspensa e continuou a novela. E novelas e concursos nas outras. Um debate sobre economia e negócios na SIC Notícias...

Começo a revolver a casa, de volta ao (meu) problema, a esvaziar gavetas (o caderninho amarelado), a ver debaixo da cama e dos sofás, a despensa, tudo para o chão, toda a roupa, tudo o que estava em cima de armários, quero um indício de qualquer coisa, a cozinha, o frigorífico, o fogão, queria encontrar papéis, um bilhete dela, um bloco de notas, uma agenda, qualquer coisa. Fui aos livros dela. Todos no chão e todos folheados um a um. Nada de relevante lá dentro.

Um morto de nacionalidade romena e um moldavo ferido lá para os lados da Expo – diz a TSF. Faltava um quarto para as onze. Num dos canais do cabo alguém falava dos anarquistas internacionais do Black Bloc à solta em Lisboa, e que só a pronta e eficaz intervenção das forças de segurança teria evitado danos maiores.

Ouvi outra ambulância ao longe e lembrei-me de telefonar para os hospitais a perguntar por ela. E telefonei, telefonei, telefonei. Não consegui falar. Impedidos. Todos. Só indo lá, São José, Santa Maria, pelo menos. Deviam estar num caos. Torno a marcar o número dela. Para nada. Vou à janela. Não há vivalma nas

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