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Alex, a biografia

Alex, a biografia

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Alex, a biografia

Länge:
461 Seiten
5 Stunden
Herausgeber:
Freigegeben:
Nov 30, 2015
ISBN:
9788542206593
Format:
Buch

Beschreibung

Fatos marcantes, relatos surpreendentes!

A trajetória de um dos maiores nomes do futebol brasileiro.

Na lista de mais vendidos da VEJA!

Contém caderno exclusivo com tabelas de jogos - somente no livro digital.
Herausgeber:
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Nov 30, 2015
ISBN:
9788542206593
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Alex, a biografia - Marcos Eduardo Neves

Copyright © Marcos Eduardo Neves, 2015

Copyright © Alexsandro de Souza, 2015

Copyright © Editora Planeta do Brasil, 2015

Todos os direitos reservados.

PREPARAÇÃO: Elisa Martins

REVISÃO: Beth Gobbi e Pamela Oliveira

DIAGRAMAÇÃO: Futura

CAPA: Departamento de Criação Editora Planeta do Brasil

IMAGENS DE CAPA: © Daryan Dornelles

ADAPTAÇÃO PARA EBOOK: Hondana

N425a   Neves, Marcos Eduardo

Alex, a biografia / Marcos Eduardo Neves. - 1. ed. - São Paulo : Planeta, 2015.

ISBN 978-85-422-0632-6

1. Alex, 1977-. 2. Jogadores de futebol - Brasil - Biografia. I. Título.

2015

Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA PLANETA DO BRASIL LTDA.

Rua Padre João Manoel, 100 – 21o andar

Ed. Horsa II – Cerqueira César

01411-000 – São Paulo-SP

www.planetadelivros.com.br

atendimento@editoraplaneta.com.br

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

1O INÍCIO – 1977-1994

2O MENINO DE OURO – CORITIBA 1994-1997

3A AMÉRICA AOS PÉS – PALMEIRAS 1997-2000

4VIA-CRÚCIS – PARMA 2000; SELEÇÃO OLÍMPICA 2000; FLAMENGO 2000; PALMEIRAS 2001; PARMA 2001; CRUZEIRO 2001

5A DECEPÇÃO – PALMEIRAS 2002; SELEÇÃO BRASILEIRA 2002

6A REVIRAVOLTA – PARMA 2002; CRUZEIRO 2002

7A MAGIA – CRUZEIRO 2003-2004

8A DESCOBERTA – FENERBAHÇE 2004-2006; COPA AMÉRICA 2004

9ANOS DOURADOS – FENERBAHÇE 2006-2008

10 A CONSAGRAÇÃO – FENERBAHÇE 2008-2011

11 O TRISTE ADEUS – FENERBAHÇE 2011-2012

12 SONHO REALIZADO – CORITIBA 2012-2013

13 BOM SENSO FC - 2013

14 A DESPEDIDA – CORITIBA 2014

AGRADECIMENTOS

CRÉDITOS DAS IMAGENS

Dedico este livro à minha avó, aos meus pais,

à minha esposa, aos meus filhos e a todos que,

de alguma forma, participaram dessa trajetória.

Alex

INTRODUÇÃO

Istambul, outubro de 2012. Redação do Hürriyet, um dos principais jornais da Turquia. Süleyman Arat, repórter com mais de trinta anos de profissão – um quarto de século a cobrir política, os últimos oito no esporte – é chamado pelo editor. A ideia é enviá-lo ao Brasil para receber o craque Alex, maior ídolo recente da história do Fenerbahçe. O jogador havia acabado de rescindir com o clube turco.

– Todo mundo estava atrás do Alex depois que o presidente do clube, o Aziz Yıldırım, decidiu não contar mais com ele. Todos queriam vê-lo pela última vez. Como jornalista, eu também queria poder conversar com ele. Quando recebíamos notícias de que ele estava numa agência bancária, corríamos para lá, mas não o encontrávamos. A única vez que o vi foi em frente à sua casa, mas tinha tanta gente lá que não consegui entrevistá-lo – conta o jornalista.

No aquário, a sala de reuniões de pauta da chefia, o editor pede sigilo absoluto. Süleyman pegaria Alex de surpresa no aeroporto brasileiro. De repórter, enviado da Turquia, ninguém além dele estaria no Brasil. Pelo plano estrategicamente traçado, o jornalista chegaria cerca de duas horas antes do desembarque do jogador.

– Eu não sabia para onde o Alex iria, qual cidade, nem quando chegaria. Não consegui falar com ninguém do clube, nem com Samet Güzel, seu intérprete. Para piorar, não conhecia nada nem ninguém no Brasil e tinha que encontrar Alex de qualquer jeito – confessa Süleyman.

O repórter pensou rápido e encontrou uma forma de adivinhar o paradeiro do camisa 10 do Fenerbahçe. Lembrou-se de um amigo que trabalhava no aeroporto de onde o ídolo partiria. Pediu para que tentasse descobrir em que cidade brasileira o jogador desembarcaria. Na redação, pairava a dúvida: Alex optaria por jogar a reta final da carreira no Coritiba ou no Cruzeiro?

– Esse meu amigo me ligou em minutos dizendo que o avião fretado pelo Alex pararia para reabastecer em Dakar. E que ele iria para o Cruzeiro – diz o jornalista.

Houve um agito nos clubes do Brasil, quando rompi com o Fenerbahçe. Milhares de notícias chegavam à Turquia. No que aconteceu uma movimentação de cruzeirenses pelas ruas de Belo Horizonte, o que o povo turco pensou? Que, como o meu último clube no país foi o Cruzeiro, eu voltaria para lá.

– Pesquisei no Google a cidade de Cruzeiro – conta Süleyman. – Aqui na Turquia, a maioria dos times tem o nome da cidade. Realmente, não desconfiei de que o Cruzeiro ficasse em outro lugar. Falei com a agência para marcar a minha ida a essa cidade brasileira.

Não conseguiram viabilizar um voo que o levasse a tal destino. A solução foi ligar para uma agência melhor. Ligação feita, o gerente garantiu: Até se você me pedir para ir à lua eu te mando lá. Pode ficar sossegado.

Em pouco mais de meia hora, Süleyman recebia as passagens que o levariam a Cruzeiro. No mesmo dia, arrumou as malas.

– Quando recebi o trajeto, pensei: Caralho, o que é isso?. Falei com o meu chefe e ele me incentivou: Olha, você trabalhou com política durante anos, acompanhou várias guerras no Iraque, na Síria, em Kosovo… você vai conseguir. Não desista. Você chegará onde todos sonhamos – relata o jornalista.

Só restava acreditar.

Iniciando a maratona aérea, Süleyman seguiu de Istambul a Paris. Cruzou o oceano e chegou a São Paulo. Do aeroporto de Guarulhos foi para Fortaleza. Da capital cearense, foi destino a Belém. De lá a Manaus. E do Amazonas voou a Porto Velho, de onde rumou a Rio Branco, no Acre. Tudo de avião. Por fim, de Rio Branco prosseguiu até a mínima Cruzeiro do Sul, num teco-teco caindo aos pedaços.

Mesmo com tantas paradas, e esperando cerca de duas ou três horas a cada troca de avião, conseguiu desembarcar no Brasil antes de Alex. Estava fedendo. Não trocara de roupa em momento algum. Encontrava-se faminto. Levava dinheiro contado em dólar, mas ninguém trocava. Entregava as notas sem receber troco, fazer o quê? Digamos que um saco de batata frita valesse uma cédula de US$ 50 a quem o vendesse. Preocupado em economizar ao máximo, não comeu praticamente nada. Sequer bebeu café ou fumou.

Foram praticamente três dias durante os quais mal se alimentou. Até então, as aeromoças só lhe deram biscoitinhos, que, mal ou bem, o impediram de morrer de fome. A certa altura, com dó, uma comissária ofertou-lhe um sanduíche. Seu bafo era insuportável – os dentes não viam escova fazia tempo. Sem ter como retribuir a gentileza, Süleyman catou um cortador de unhas e presenteou a boa alma, como forma de agradecimento.

Prestes a aterrissar em Cruzeiro do Sul, do avião enxergou apenas um mundo verde e água, muita água. Pensou: Poxa vida, o Alex, morando em Istambul, agora vem morar aqui?". Começou a desconfiar.

– Saí do avião perguntando em inglês sobre o Alex, Alex de Souza, pois a cidade parecia ser pequena e pensei: todos devem saber onde ele mora. Aí um rapaz falou: Alex? Alex de Souza? Quem é?. Ao ouvir isso, praticamente desmoronei.

Não conheço Cruzeiro do Sul, deve ser uma cidadezinha pequena, com todas as dificuldades de uma cidade do interior do norte do Brasil. E o cara falando turco e só com dólar, sem um real no bolso, sem falar português e sem ninguém para falar inglês com ele. Imagino que deva ter dito algo como Alex de Souza… Fenerbahçe… Cruzeiro… futebol! Qualquer coisa que pudesse criar uma ligação que chegasse a mim.

Decepcionado, atordoado e perdido, ainda no modesto aeroporto de Cruzeiro do Sul, Süleyman encontrou um homem com a camisa do Flamengo. Perguntou-lhe sobre Alex de Souza. O rapaz falou que conhecia Alex, mas que morava naquela cidade desde pequeno e não sabia que ele tinha casa ali. Com espírito altruísta, acompanhou o forasteiro na tentativa de obter informações. Encontraram duas pessoas que falavam mal e parcamente inglês, mas houve comunicação. Quando o gerente do aeroporto confirmou que nenhum avião privado chegaria nos próximos dias, Süleyman percebeu que estava no lugar errado.

De um orelhão, o repórter ligou para o amigo que lhe informara o destino final de Alex: Porra, você me ferrou, cara! Sabe onde estou? Em Cruzeiro do Sul, entre anacondas e cobras. Checa essa informação direito!.

O sujeito respondeu: Süleyman, tenho certeza de que ele está aí. Está escrito ‘CUR’ aqui na tela que estou olhando. Após soletrar a sigla, ao conferir o paradeiro, da Turquia o rapaz se tocou do erro. É, Süleyman, foi mal. Está errado mesmo. É CUR… Curitiba…

E como sair de Cruzeiro do Sul, no Acre, para a capital do Paraná naquele mesmo dia? Impossível. O repórter turco começou a pensar que, pela vergonha que vinha passando, chegaria a Istambul e, como primeira providência, pediria demissão.

– Em Cruzeiro do Sul, o pessoal tentou me ajudar arranjando vaga num próximo voo, e eu dizendo que não precisava, pois pegaria um táxi até Curitiba. No que disse isso, o pessoal riu na minha cara – confessou o jornalista.

Süleyman teria de voltar a Rio Branco. A distância de Cruzeiro do Sul à capital do Acre é de cerca de 650 quilômetros. Perguntou quanto dava de táxi. Cobraram US$ 400. Nisso, conheceu Ayrton, um boliviano que falou que, por motivo de trabalho, precisaria ir a Rio Branco na manhã seguinte, cedinho, de caminhão. Se quisesse, lhe daria carona. Ótimo, nem precisaria gastar seu dinheiro.

Na boleia, Süleyman viajou ao lado de uma grávida que vomitava de quando em vez. Para que despejasse o mal súbito que lhe ascendia à garganta, era necessário interromper a viagem e descer. Paravam a toda hora.

– Eu a mandava vomitar no caminhão mesmo, pois precisava chegar depressa ao aeroporto – conta o repórter.

Quando pisou em Rio Branco, Süleyman pegou um avião para Brasília. Do Distrito Federal, outro voo até Curitiba. No Paraná, sentindo frio e sem dinheiro, necessitava com urgência de um hotel.

– Com o cartão de crédito, paguei um táxi até o hotel, que era horroroso.

No dia seguinte, ligou para Samet, que lhe disse para bater ponto no Parque Barigui. Alex estava pela região. Mais informações, infelizmente, não podia dar.

"O Samet me ligou de Istambul dizendo que tinha um repórter do Hürriyet em Curitiba querendo me encontrar. ‘Claro que não’, respondi. ‘Não quero falar com ninguém, acabei de chegar, estou ajeitando as minhas coisas. Tudo o que tinha a dizer, falei naquela coletiva em Istambul.’ Me despedi e desliguei."

Dia após dia, Süleyman dava intermináveis voltas no parque, aguardando a oportunidade de bater de frente com Alex. Resolveu que faria o trabalho mas, ao voltar, não trabalharia mais no jornal. Seu chefe enrolava, driblava, o acalmava, dizendo que conseguiria encontrar o jogador. Confio em você, dizia.

Ele deve ter se hospedado num hotel próximo ao Parque Barigui e deu plantão diário por lá. Aquele movimento o dia inteiro: bicicleta, patins, skate, gente caminhando, namorando, estudando, e ele só no ‘cadê o Alex, cadê o Alex’, enquanto eu seguia a minha vida normal.

Süleyman contorcia-se de fome e frio todos os dias à espera de Alex. Como havia se transferido para um hotel de luxo, fez as contas: caso permanecesse na cidade por mais quatro ou cinco dias, ficaria sem dinheiro. Deu entrada num hotel menor.

Dias depois, precisou trocar de novo, mas, dessa vez, ao voltar, o staff do antigo ficou receoso. Pediram para pagar na hora, antes de se hospedar. Süleyman tirou todo o dinheiro do bolso, faltou apenas R$ 14 para a primeira diária e, ainda assim, não o aliviaram. Até tinha, mas em dólar – como era noite, achou que não daria para trocar. Instigaram-no: Vá ao Shopping Barigui, a casa de câmbio de lá só fecha às dez.

Saiu do hotel caminhando, trocou o dinheiro no centro comercial, e no que bateu a fome, resolveu parar para um lanche, na praça de alimentação. Estava na fila da lanchonete quando recebeu um tapa amigo nas costas de alguém que começou a falar turco com ele: O que você está fazendo por aqui?.

Era Alex.

A partir das próximas páginas, você vai entender quem é esse personagem que motiva uma redação de jornal a mandar um de seus repórteres a tão longe com a intenção de encontrá-lo de qualquer jeito, custe o que custar, o tempo que for. Compreenderá os motivos que fazem com que um país de cultura tão distinta da brasileira venere tanto esse homem. E descobrirá quem na verdade é Alex, ou Alexsandro de Souza, e tudo o que ele pensa, sabe e diz.

Prepare-se para uma viagem de fôlego. Numa história intensa.

1

O INÍCIO 1977-1994

Minha mãe começou a trabalhar muito cedo, como cozinheira. Para falar a verdade, segue assim até hoje. Meu pai, desde que me conheço por gente, é pintor de parede. Eles saíam cedo de casa para trabalhar e me deixavam com a minha avó materna, que também é minha madrinha. Meus avós paternos e maternos viviam na região de Maringá, no interior do Paraná, onde meu pai e minha mãe se conheceram e se juntaram, migrando em meados dos anos 1970 para tentar a sorte na capital, Curitiba.

Adenir Rodrigues de Souza, seu pai, era boia fria. Cortava cana desde os nove anos de idade. Toda a família, inclusive sua mãe junto com as irmãs, ajudava no trabalho pesado. Acordavam às cinco da matina, pegavam o caminhão e rumavam até à roça. Na cara e na coragem, Adenir se mudou para Curitiba, aos 22 anos. Ao lado da esposa Leni Vieira dos Santos.

Leni tinha vida semelhante. Pegava na enxada desde criança. Já aos sete anos, lidava com café, amendoim, algodão:

– A gente não teve infância, era trabalho direto. Depois que casei tentei ser babá, mas não deu certo. Entrei numa panificadora e não parei mais – conta Leni.

No final de 1976, o casal engravidou:

– Geralmente, quando a gente engravida, imagina um grande enxoval, né, com banheira, berço. Com a gente não foi assim, não – recorda Leni. – Ao nascer, o Alex dormia no jornal que uma vizinha me emprestava. A gente nem tinha cama para ele ainda.

Mais velho dos três irmãos, Alex, ou melhor, Alexsandro de Souza, é cria do bairro de Jardim Campo Alto, em Curitiba. Com três quilos e cinquenta gramas, nasceu vinte minutos depois das duas horas da manhã, no dia 14 de setembro de 1977, na maternidade Santa Brígida, centro de Curitiba. Cresceria, porém, em Colombo.

"A minha infância deve ser dividida. Até os dez anos, não havia pracinha onde eu morava. Tinha, sim, um campo enorme, onde eu jogava pelada. O pessoal o chamava de Sapolândia, pois não havia saneamento, as valas ficavam abertas e, quando chovia, subia tudo, fazendo com que sapos aparecessem.

Fazíamos tudo nesse campo. Os meninos jogavam bolinha de gude, outros brincavam de raia ou pipa – o que nunca fiz –, alguns soltavam balão, eu jogava bola. Só parava quando chegavam os adultos. Morar em frente a esse campo facilitava. Era só atravessar a rua."

– Eu brigava demais com ele – entrega a piauiense Adália Vieira dos Santos, sua avó e madrinha. – Mesmo chovendo, o Alex arrumava outros moleques na favela para jogar com ele. Aquele campo era de barro e, quando chovia, ele chegava em casa todo sujo. Nunca pensei que seria jogador. Dizia para ele que futebol só servia para sujar a roupa.

Desde pequeno, Alex mostrava notável habilidade com a bola nos pés. Fazia misérias com a canhota. Um dia foi com o pai a uma festa junina. Visualizaram uma gincana na qual quem acertasse o meio de um pneu ganhava prêmios. Aos oito anos de idade, Alex chutou dez vezes e acertou todas. Recebeu como brinde balas e doces, mas logo o pessoal da barraca pediu para ele parar de brincar. Estavam tendo um prejuízo danado.

"Não vi o Coritiba ser campeão brasileiro, em 1985. As lembranças que tenho são do rádio e da folia no bairro. Na verdade, eu nem era Coritiba. Gostava do Flamengo e do Corinthians, os times da moda. O Flamengo do Zico e o Corinthians do Sócrates, da ‘Democracia’. Já meu pai sempre foi santista doente, por causa do Pelé, enquanto minha mãe se dizia corintiana.

Um pouco mais velho, aos onze ou doze anos, comecei a jogar botão. Eu tinha o time do Flamengo, do Zico, e o Vasco, do Bebeto e do Roberto Dinamite. Apreciava os caras. A gente sentava no boteco para assistir ao Flamengo. Quando não estava vendo, estava jogando. Ou torcendo pelo meu pai e pelo meu tio, que jogavam com os amigos naquele nosso campo de barro, num time do bairro. Havia a equipe feminina também, na qual a minha mãe era goleira e as minhas três tias jogavam.

Esse time do meu pai pegava um caminhão e rodava a região metropolitana de Curitiba para jogar disputando troféus. Comecei a jogar com esse pessoal, aos sete ou oito anos de idade. Meu pai tentava me proteger, os adultos tinham medo de me machucar, mas eu sabia como levar. Aos doze ou treze anos, aprendi a me virar sozinho. Aí ele me pôs de vez no time. Mandava eu ficar aberto na esquerda cruzando para os caras. Quando era rival de bairro, a gente sabia em quem podia chegar e em quem não podia. Conhecíamos os que vinham para machucar. Ainda assim, os caras do time me protegiam, já que eu era mirradinho, mas nunca fui de fugir do pau, estava sempre no bolo.

Nessa de ficar na rua jogando, Sílvio, um menino do bairro, que era um ano mais velho do que eu, me contou que toda quinta-feira ele ia ao Coritiba tentar a sorte na peneira do clube. Perguntou se eu queria ir. Pedi a meu pai. O velho falou que não tinha dinheiro. Passado um tempo, ele me deu um trocado e falou para eu ir. Isso em 1987.

Fui com o Sílvio. Descemos na frente do campo do Fortaleza, um time tradicional de bairro. Era um campo parecido com o Sapolândia, terrão batido, gente pra cacete. Estava confiante. Vi o Professor Miro chegando com o carro e descendo com o saco de bolas. Ele tinha o time específico dele, categoria infantil, e perguntava aos piás quem jogava em que posição. Avisei que era ponta-esquerda. Ele me deu o colete e me colocou num dos times. No outro, estava um menino que pertencia a uma família de jogadores que defenderam o Coritiba, o Castorzinho, dois anos mais novo do que eu. No que entrei, fiz minhas graças, e como não dava para decorar o nome de tanta gente, o Miro me apelidou de ‘Biscuit’.

Acabados os dez ou quinze minutos da brincadeira, o Miro falou alguma coisa com os moleques, chegou para mim e para o Castorzinho e nos mandou sentar num canto e esperá-lo. Perguntou a nossa idade, onde morávamos, e disse que nos levaria naquela mesma hora para a Associação Atlética Banco do Brasil. Ele era funcionário do banco. Argumentei que não podia. Primeiro, por não ter dinheiro. Depois, meu pai estava me esperando em casa. Ansioso, ele falou que me levaria, sim, para treinar lá; em seguida me deixaria em casa e explicaria tudo ao meu pai. Sendo assim, aceitei. Ele nos colocou no carro e fomos para a AABB, onde fui apresentado ao futsal."

– O Alex caiu no peneirão que eu comandava – conta Alzemiro Bueno, mais conhecido como Professor Miro. – Vi aquele menininho sobressaindo aos demais. Tive de pensar rápido no que fazer, pois ele era um diamante bruto que precisava ser lapidado.

– O Professor Miro avisou que ia me trazer um craquinho para jogar futsal – lembra o vice-presidente esportivo da AABB, Carlos Roberto Socha. – A equipe jogava junta desde os seis anos de idade, mas o Alex apareceu e se adaptou de forma rápida. Tive o prazer de ver a sua primeira vez numa quadra, o seu primeiro treino. Mesmo sendo do pré-mirim, era uma joia, a ponto de logo integrar o mirim, atuando ao lado de meninos três anos mais velhos.

O Coritiba teve um jogador chamado Pachequinho, que talvez tenha sido o maior ídolo do clube na década de 1990. Ele e todos os irmãos Pacheco jogaram futsal na AABB. Quando cheguei lá, o Miro me apresentou para o Luciano Melo, o treinador, dizendo que eu precisava ser observado e era para ser tratado como o ‘último dos Pachecos’. Bom, a partir daquele dia, de Alex virei ‘Pachequinho’. Mesmo sem entender o que significava aquilo.

– Aos nove anos, enquanto a bola batia na canela de alguns meninos, o Alex arredondava tudo. Matava no peito e saía driblando – conta Luciano Melo. – Na hora de chutar, nem olhava para a bola, só para o gol.

No jogo, Alex era generoso. Tocava, nunca foi fominha. Se caísse para resolver, resolvia, mas se tivesse a oportunidade de entregar a outro companheiro mais bem colocado, não pensava duas vezes.

– Aquilo era um diferencial – explica Luciano Melo. – Não é normal criança dessa idade ter essa concepção. O Alex sabia que, se fosse para cima, driblaria zagueiro, goleiro, entraria com bola e tudo. Ainda assim, preferia dar o gol para os outros fazerem também.

Acabado o treino, o Miro me levou para casa. Conversou com o meu pai, que aceitou que eu treinasse. O único problema era financeiro. Não havia grana para me manter indo à AABB e ao Coritiba.

– Quando ele passou no teste – lembra Leni –, seria um ônibus a mais para a gente pagar. Ele me pedia: mãe, me dá um dinheiro, que um dia eu juro que devolvo. Isso que era um piazinho de nove anos de idade. Ele jurava e eu pensava: como vai conseguir me devolver um dia?.

"Como o Coritiba não tinha campeonatos para meninos da minha idade, o Miro falou que queria me ver toda quinta-feira treinando aqueles dez ou quinze minutinhos. Em contrapartida, conversou com o pessoal da AABB, que aceitou me ajudar no pagamento das passagens para que eu jogasse lá.

Depois dos treinos, eu saía da portaria da AABB olhando para trás, para ver se o ônibus estava chegando. Numa dessas, vi um e corri para o ponto, que ficava a cem metros. Estava com o meu irmão Alexandre, quatro anos mais novo. O apressei dizendo: ‘Tá vindo, vamos correr!’. Nisso, olhando ora para o ônibus atrás, ora para o ponto na frente, bati com a cabeça num poste. Sangrou muito. Voltei até o departamento médico do clube e de lá fomos a um hospital. Tomei catorze pontos. Depois nos levaram para casa. O engraçado é que chegamos muito antes do que se tivéssemos ido de ônibus. Foi o único lado bom, porque a cicatriz na testa ficou para sempre.

Nos treinos do Coritiba, por ser mais novo do que eu, o Castorzinho ficou na ponta esquerda e eu comecei a jogar mais pelo meio. Brincávamos no lado esquerdo. O Miro pedia para a gente fazer o que quisesse perto da entrada da área, onde uma trombada seria pênalti. Foi assim que estreei no Couto Pereira. Não lembro em que jogo, mas recordo a situação.

Digamos que a partida principal da tarde fosse Coritiba x Vasco. O Miro separava onze meninos de forma aleatória para jogar com o uniforme do Coritiba e outros onze para vestir o uniforme do Vasco. No intervalo dos profissionais, diante da torcida no estádio, os times principais deixavam o campo e a gente entrava. O Miro atuava como árbitro e a gente brincava. Combinávamos de sempre o Coritiba ganhar. Dessa forma, aos nove anos de idade, com um chutinho de fora da área aqui ou um pênalti sofrido ali, nasceu a minha relação com o Coxa.

A paixão real começou em 1989, quando o time principal ganhou o Campeonato Paranaense e quase chegou à final do Campeonato Brasileiro. O técnico era o Edu Coimbra, irmão do Zico. No meio, jogavam o Oswaldo, campeão mundial com o Grêmio, o Serginho ‘Cabeção’, o Tostão, que era bom demais, e o Carlos Alberto Dias, que estava surgindo. Na frente, Kazu e Chicão. A gente fazia o intervalo desses caras. Virei coxa-branca nessa época, vendo-os jogar de pertinho.

Certa vez, o Professor Miro avisou que não daria mais para seguir com as peneiras. Sobrou a AABB. Quando pudéssemos ir para o infantil do Coritiba, aos doze ou treze anos, ele nos chamaria. Passei a jogar apenas salão. Campo eu jogava no Bola de Ouro, o time do bairro. Para falar a verdade, achava futebol de campo uma chatice. Éramos pequeninos. Para chegar até o gol a distância era enorme.

No salão eu atuava como ala esquerdo ou fixo. Tive um treinador todo tático, o Ricardo José Cruz. Lembro até hoje das suas preleções. Os outros times não entendiam nada e a gente metia vários gols. Contudo, aos doze anos, em 1990, perdemos um título estadual, a Taça Paraná, com uma falha minha no jogo decisivo. Fiquei arrasado, mas o Ricardo me apoiou. Disse que eu seria jogador profissional em breve e que teria muitas vitórias e derrotas, por isso precisava estar preparado para os revezes da vida."

Quem agarrava no time da AABB era Marcelo Nascimento da Rocha, goleiro que ficaria famoso virando até filme – Vips, interpretado por Wagner Moura. Ao se tornar adulto, Marcelo assumiria identidades diversas. A mais famosa: filho do dono da companhia aérea Gol. Ter jogado com Alex talvez seja uma das poucas verdades que ele conte na vida.

Preocupado com a grana que o filho gastava nas idas e vindas de ônibus, Adenir perguntou a Carlos Socha se Alex tinha bola mesmo para ser profissional do futebol. A dúvida tinha sua razão. Adenir pagava um servente para ajudá-lo; se o menino não tivesse futuro, seria melhor que trabalhasse com ele. Socha garantiu que Alex seria jogador e fez mais. Amigo do gerente do Carrefour, de Pinhais, conseguiu duas cestas básicas mensais para o garoto, além de uma ajuda de custo.

"Na época em que o Brasil passou por diversas crises financeiras, o dinheirinho que ganhei na AABB segurou a onda em casa, principalmente quando o meu pai ou a minha mãe estavam desempregados. O terror era o valor do aluguel. Sempre ouvi os dois dizerem que precisavam achar um terreno e levantar uma casa.

Minha alimentação era boa, nunca tive dificuldades. Meus pais não tinham muito dinheiro, mas arroz, feijão, macarrão e pão com mortadela a gente sempre comeu. Havia um clube de tiro perto de casa. Os caras matavam pombos e os distribuíam no bairro. Muitas vezes comi pombinhos. Passamos dificuldades, mas fome e frio nunca. O desejo dos meus pais era ter uma geladeira; televisão nem era prioridade. Tanto que só tivemos a primeira quando completei onze anos.

Em casa havia uma cozinha e dois quartos. Nem banheiro tinha, só latrina, e no fundo do quintal. Quando ela atingia o limite, tapavam o buraco e abriam outra em outro lugar do terreno. Curitiba tem um inverno rigoroso. Se você quisesse fazer suas necessidades de madrugada, era preciso sair de casa e, no frio, ir até não sei onde para isso."

"Depois que o Brasil foi campeão olímpico em 1992, passei a jogar voleibol também. A seleção do Lazaroni tinha perdido a Copa do Mundo de futebol de 1990 e, dois anos depois, graças à febre do vôlei, o pessoal amarrava uma fita de poste a poste e jogava vôlei na rua. Daquele ano até 1997 joguei muito vôlei. Até então, era só futebol. Se alguém falasse que a fulana de tal era bonita, eu não estava nem aí. Só queria jogar bola. Era futebol de qualquer jeito. Dois contra dois, três contra três, na rua, na grama, na areia, na terra batida.

Sempre me cobrei para aprender a bater faltas. Nas peladas, metia gol pra caramba dessa maneira. Comecei a me chamar de Neto; achava que ele batia na bola como ninguém. O Zico estava de saída para o Japão e era destro, por isso eu gostava do Neto, do Pita, apreciava os canhotos. Como o Rivellino, que ainda desfilava o seu talento pela seleção de masters.

Meu irmão Alexandre chegaria a jogar de zagueiro e volante na base do Coritiba. Depois rodaria por times da segunda e da terceira divisão do Paraná, mas ao ver que não seria reconhecido, desistiu. Ao menos, tentou. O mais novo, Alan, nem isso. Se a nossa história de vida tivesse de mudar por causa do esporte, teria de ser comigo mesmo.

Em Colombo, pelo Bola de Ouro, enfrentei Atlético, Coritiba, vários times, em torneios para crianças de treze ou catorze anos. Detalhe: eu tinha dez. Sempre joguei com gente mais velha. Só fui jogar com o pessoal da minha idade no futsal da AABB, mas mesmo sendo mirim eu atuava no infantil e assim sucessivamente, sempre numa categoria acima.

Desde que me conheço por gente, todo mundo dizia que eu levava jeito. Tocava de forma diferente e surpreendia nos chutes. Não era para menos: eu ficava com a bola o dia todo! A minha roupa era um short e uma bola. Jogava o dia inteiro contra quem estivesse no campo. Só não jogava quando estava na escola.

Estudei até a quarta série primária na Escola Monteiro Lobato. Era bom aluno. Mas a partir do momento em que entrei no ginásio, passei a treinar direto e virei um aluno mediano. Empurrava com a barriga para passar de ano. A AABB, assim que notou que eu estava com dificuldade para estudar, me pôs em outra escola pública, o Colégio Cecília Meireles. Era um saco ir para lá. Tinha que pegar dois ônibus e andar bastante entre um e outro. Saía de casa às seis da manhã para chegar às sete e meia.

Nessas viagens, percebi, entre o terminal e o trevo, um campo onde a molecada jogava bola cedinho. Vinha pensando todo dia se descia ou não para jogar. Num belo dia, fui. Passei a fazer isso direto, achando que ninguém descobriria. Até que um dia cheguei à AABB e me disseram que minhas notas estavam boas mas o meu número de faltas era fora do normal. Questionaram o que eu vinha fazendo.

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