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Ao meu redor

Ao meu redor

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Ao meu redor

Länge:
244 Seiten
3 Stunden
Herausgeber:
Freigegeben:
Apr 5, 2019
ISBN:
9788582468869
Format:
Buch

Beschreibung

São Paulo, 1923. Depois de passar anos escondida na Europa, Maria Antônia regressa ao Brasil para atender ao pedido desesperado de sua melhor amiga, Sophia. A partir desse momento, a vida que ela criou em Paris começa a desmoronar. Ao chegar a São Paulo, ela começa a reviver seu passado e os piores momentos de sua vida, onde ela e Sophia foram mantidas em cativeiro por anos. As marcas e as cicatrizes do passado que ela esconde por trás dos vestidos e saias longas, estão mais vivas do que nunca. Dessa vez, porém, ela terá que encarar um contexto totalmente diferente: uma paixão inesperada e, ao mesmo tempo, o reencontro com o seu carrasco.
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Apr 5, 2019
ISBN:
9788582468869
Format:
Buch

Über den Autor


Buchvorschau

Ao meu redor - Elysanna Louzada

três

um

K

Maio de 1911

Cheguei aos vinte e sete anos sendo tudo, exceto o que imaginei que seria. Quando saí da casa dos meus tios para encontrar a felicidade, ainda não tinha noção do quanto essa ideia poderia ser inalcançável, especialmente para uma pessoa ingênua e tola o bastante para acreditar em amor.

Eu tinha apenas quinze anos. O que se sabe sobre viver quando se tem essa idade? Nada. E eu não podia prever o futuro, que se apresentava naquele dia, na cozinha da fazenda de café no interior de São Paulo, onde me matava de trabalhar, quando ele se materializou no momento em que eu acabava de lavar a louça do almoço.

Ele era trinta e cinco anos mais velho do que eu e cheirava a colônia forte, mas agradável. Vestia um terno alinhado, tinha um porte grande, porém não era intimidador. Muito diferente dos homens com quem o senhor Juca Queiroz realizava suas transações comerciais. Ele era negociante de café, entre outras coisas. Foi à fazenda onde morávamos comprar um montante de sacas do grão para enviá-las ao exterior através do Porto de Santos. Em geral, esse tipo de comprador frequentava apenas o armazém, o escritório do patrão e a sala da Casa Grande. Mas ele não. Não era alguém convencional, por assim dizer. Pelo menos, foi dessa forma que se mostrou quando nos vimos pela primeira vez.

Cumprimentou-me com uma voz marcante e, ao mesmo tempo, gentil. Em seguida, pediu-me, por favor, que lhe servisse um almoço tardio. Respondi um sim, senhor ligeiro e atrevi-me a levantar os olhos por uma fração de segundos, o que foi suficiente para notar que ele me analisava. Perguntei-lhe se gostaria de esperar na sala de jantar. Ele recusou. Sentou-se à mesa da cozinha onde nós, os empregados, e anos antes, os antigos escravos, fazíamos nossas refeições. Essa atitude somada ao fato de ele me tratar com educação e gentileza foram as iscas perfeitas para chamar minha atenção.

Requentei a comida do almoço e me preparei para colocar os alimentos à disposição dele na mesa, mas ele interrompeu-me e pediu que lhe preparasse o prato.

— Do que o senhor gosta?

— Só de coisas simples. Arroz, galinha, quiabo, feijão e couve — acrescentou em resposta à minha expressão de dúvida.

Entreguei-lhe a refeição.

— Qual o seu nome?

— Maria — respondi.

— Você tem mãos delicadas. Nunca trabalhou na lavoura?

Neguei com um tímido movimento de cabeça.

— Seus dedos... são lindos. Esguios, compridos, parecem ter sido feitos para tocar piano. Uma lástima usá-los descascando legumes ou lavando louça. — Roçou minha pele causando-me um arrepio totalmente inesperado. Encaramo-nos por alguns segundos ou vários minutos, não sei a precisão do tempo, porém aqueles instantes foram suficientes para me arrancar do meu mundinho e me transportar para uma realidade difusa. Seus olhos pareciam capazes de despir-me, como se ele pudesse me enxergar nua, mesmo que estivesse vestida.

— Mas isso é o que eu faço na vida. — Assustada com a sensação, puxei meu braço rapidamente e refugiei-me junto à pia. Nunca alguém havia me olhado daquela forma. Até então, ninguém havia sequer me notado de maneira alguma. Eu circulava invisível por onde quer que andasse naquela maldita terra.

Sem demostrar qualquer abalo com minha ação repentina, ele deu a primeira garfada na comida. Perguntou se eu a havia preparado.

— Foi minha tia.

— Sua mãe também é cozinheira na casa?

— Não.

— Trabalha na lavoura, então.

— Eu não tenho mãe... quero dizer, ela morreu. Meu pai também está morto.

— Sinto muito.

— Não por ele. Ele não prestava.

— Entendo.

Terminou de comer, agradeceu novamente e despediu-se com um Até logo. Espero tornar a vê-la em breve. Sem compreender o que a despedida significava, observei-o sair. Sua voz e o cheiro do seu perfume impregnaram-se em minha memória pelas semanas seguintes. Quase como uma obsessão, pensava naquele homem misterioso dia e noite. Rezava pela oportunidade de encontrá-lo de novo. Naquela época, ainda não conhecia a máxima: cuidado com o que deseja, pode se tornar realidade.

Quase dois meses depois, Álvaro de Castro — havia descoberto o nome dele — retornou à fazenda. Encontrei-o, dessa vez, na sala de estar onde conversava com o patrão. Eu trazia uma bandeja contendo duas xícaras de café e biscoitos de polvilho e quase derrubei o objeto ao deparar-me com ele. Deixei a bandeja sobre a mesa de centro e esqueci que deveria ter servido o patrão e seu convidado.

Agitada, voltei para a cozinha.

— E, então, o tal comprador de café vai ficar para o jantar? — minha tia perguntou com sua habitual impaciência.

— O quê?

— Mandei perguntar ao seu Juca se o homem ia comer aqui. Onde está com a cabeça?

— Eu esqueci. Desculpe. — Ofereci-me para voltar, mas recusou a oferta. Disse que ela mesmo faria isso e saiu praguejando baixo.

Minha tia não suportava erros ou esquecimentos, por menores que fossem. Sua paciência era tão curta quanto o pavio de uma lamparina.

— Ele vai jantar — sentenciou num tom seco ao retornar de sua incursão pela sala.

A notícia provocou certo rebuliço dentro de mim. A simples certeza de que estávamos debaixo do mesmo teto e, talvez, pudéssemos nos falar novamente deixou-me aérea. Esse fato causou certos inconvenientes em meu desempenho na cozinha, como deixar queimar o alho ou derrubar as batatas já descascadas no chão. Isso, é claro, fez com que minha tia me detestasse um pouco mais naquele dia. Como punição, deixou-me sozinha para cuidar da limpeza e foi para casa mais cedo. Quando terminei já era tarde da noite. Estava um pouco decepcionada por Álvaro não ter ido me ver. Senti-me uma boba por ter imaginado que ele estava, de alguma forma, interessado em mim. Que tolice! Eu era apenas uma empregada em uma fazenda. Sem dinheiro ou outras qualificações. Sequer sabia falar corretamente. Passei o trinco na porta dos fundos e virei-me para seguir meu caminho. Foi quando uma voz me sacudiu por dentro.

— Boa noite, pequena.

Álvaro. Sim, era ele.

Não respondi ao cumprimento. As palavras se perderam em algum lugar dentro de mim.

Ele saiu da invisibilidade da penumbra, deu uma longa tragada no cigarro e, antes de soltar a fumaça, perguntou:

— Sentiu saudades?

Ainda muda, fiz que sim com a cabeça.

Ele se aproximou e ajeitou meu cabelo atrás da orelha.

— Gostei muito de você.

— Também gostei do senhor. — Minha fala apareceu repentinamente e respondi como se essa fosse a única certeza da minha vida.

Ele acariciou de leve meu rosto. Depois, seus dedos deslizaram lentamente pelo meu pescoço e nuca. Meu corpo derreteu sob o efeito daquele que era o primeiro toque masculino em minha pele.

— Gostaria de lhe fazer um convite — sussurrou próximo ao meu ouvido. — Queria que fosse para São Paulo comigo.

Eu deveria ter feito um milhão de perguntas quando ele me fez essa proposta, ou mesmo ter prestado atenção à postura dele: um felino em caça e não um homem apaixonado. Mas como poderia? Não tinha experiência suficiente para distinguir o caráter de um homem bem-intencionado de um pilantra sem alma. Somado a isso, havia minha vontade de deixar a casa dos meus parentes e me libertar das cobranças de minha tia. Ela não se cansava de me lembrar de como minha mãe doente apareceu em sua porta trazendo com ela uma menina desnutrida e remelenta. Dizia que a irmã era uma tola. Havia se apaixonado por um canalha, feito o favor de morrer e deixar uma criança para ela tomar conta. A ladainha repetia-se quase diariamente e meus ouvidos já não suportavam mais aquela tortura. Dessa forma, agarrei-me àquele pedido como um náufrago abraça um bote de salvamento.

Esse foi o primeiro erro da minha vida.

dois

K

A transição do passado para o futuro promissor com o qual sonhava foi um rompimento repleto de ameaças e ultimatos.

— Um homem na posição dele não pode querer coisa boa com você — minha tia começou depois que anunciei minha partida.

— Ele gostou de mim.

— Não seja estúpida, menina. Ele tem mais de cinquenta anos. O que acha que fará de você quando chegar a São Paulo? Pensa que ele a tomará como esposa? Claro que não! Você vai servir a mesa dele de dia e a cama à noite.

— Pelo menos, ele gosta de mim.

— Gosta? Isso é o que ele disse, mas o que deseja é se embriagar na sua juventude.

— Não me importo.

— O que foi que disse?

— Que eu não ligo.

— Quer dizer que não vê problema em se tornar uma rapariga? Você é bem filha da minha irmã mesmo.

— Não fale mal da minha mãe.

— Falo do jeito que quiser, tenho esse direito. Acha que foi fácil te sustentar?

— Sei que não foi. A senhora faz questão de me lembrar isso todo dia.

— E ainda é ingrata!

— Pois é, tia. Sou ingrata e filha de rapariga. A senhora deveria estar feliz em me ver longe daqui.

— Quem disse que não estou? Só quero deixar uma coisa bem clara: não pense que te aceitarei de volta como fiz com sua mãe, porque isso não vai se repetir.

— Pode ficar sossegada. Eu nunca mais voltarei aqui.

L

Duas semanas depois de ter aceitado a proposta de Álvaro de Castro, ele retornou para me buscar. Fomos de trem para São Paulo, na primeira classe. Durante todo o trajeto, portou-se como um cavalheiro. Cortejou-me. Acariciou-me o rosto. Serviu-me de boa comida e excelente vinho. Tantos mimos dissiparam as dúvidas lançadas pela minha tia. Também ficaram esquecidas perguntas como para onde exatamente estávamos indo ou que lugar eu ocuparia na vida dele. Minha ingenuidade levava-me a crer que eu seria a mulher que ocuparia o lugar de sua esposa falecida há alguns anos.

Não poderia estar mais enganada. Porém, demorei ainda quatro dias para descobrir a verdade sobre meu destino.

O trem chegou a São Paulo por volta das nove da noite. Pegamos um carro de aluguel. Álvaro estendeu a mão para que eu entrasse, fazendo com que me sentisse uma princesa de contos de fadas. Sensação que só crescia, sobretudo quando o veículo parou e deparei-me com a casa à minha frente. A construção suntuosa plantava-se em meio a outras mansões igualmente bonitas, mas não tão luxuosas. Aquela primeira visão da fachada, que aos meus olhos era de um palácio, ficaria gravada em minha memória e marcada a ferro em meu cérebro.

Uma empregada recebeu-nos à porta. Álvaro disse um frio boa noite em resposta ao cumprimento da mulher. Em seguida, ordenou a ela que me preparasse um banho e me arrumasse roupas. Segui a governanta até um quarto. Ela destrancou a porta e entramos.

O ambiente estava escuro e um forte cheiro de mofo atingiu minhas narinas. Acendeu um lampião que estava em uma cômoda e reparei em muitos objetos cobertos por lençóis brancos. Uma pintura enquadrada com uma moldura dourada chamou minha atenção. Uma mulher de cabelos negros e longos, lábios fartos, pintados discretamente de rosa, sorria ladeada de duas crianças. Dois meninos. Um era muito parecido com ela: os mesmos olhos e o mesmo rosto fino. O outro não tinha nenhuma semelhança com a mulher. Parecia, na verdade, a cópia mais nova de Álvaro de Castro.

— A falecida... — A governanta meneou o queixo na direção do quadro confirmando o que eu já suspeitava. Senti uma ponta de inveja da beleza e da postura segura da mulher retratada. Soube, naquele momento, que nunca estaria à altura dela.

A governanta abriu um baú e de lá retirou um vestido de musseline perfeitamente acabado com rendas finas. Olhei para a peça e para mim mesma e imediatamente percebi o quanto destoava daquela roupa. Minha pele encardida, minhas unhas quebradas e repletas de nódoa das frutas e legumes que eu descascava todos os dias não combinavam com o luxo de tudo aquilo. Encolhi os ombros e a empregada pareceu ler meus pensamentos:

— Vai precisar de um belo banho para vestir isto aqui. Vamos.

Com uma dose generosa de mau humor, a governanta levou-me para o banheiro. Despiu-me sem paciência e enfiou-me em uma tina com água fria. Congelei da cabeça aos pés. Meu queixo tremia e fazia um barulho difícil de ignorar. Nenhum sinal de sofrimento, no entanto, comoveu-a.

Ela esfregou minhas mãos e pés com uma escova até retirar toda a sujeira encrustada na minha carne, que terminou esfolada e dolorida. Em seguida, passou para o restante do meu corpo. Minhas pernas tinham marcas de mordidas de mosquitos e de alguns machucados. Ela franziu o cenho.

— Onde você morava, menina? Num chiqueiro?

— Não, senhora.

— Pois parece. É a mais suja que já apareceu aqui. Se bem que o senhor Álvaro sequer irá notar suas roupas ou sua aparência. O que ele quer mesmo está aqui. — Ela me tocou entre as pernas e eu me encolhi inteira. Minha atitude a irritou. — Vai ficar tímida agora? Vamos, abra as pernas! Tenho que garantir que isso aí estará bem limpo para ser usado. Também tenho que me certificar de que está livre de doença. — Enquanto ela me examinava, abracei a mim mesma tentando manter o mínimo de dignidade. Mas quando ela me invadiu com o dedo, pulei para trás com os olhos arregalados. A governanta riu com sarcasmo:

— Eu só queria saber se era virgem mesmo.

Saí da enorme bacia e enrolei-me em uma toalha áspera. Entrei no lindo vestido e a governanta insuportável borrifou uma quantidade absurda de perfume em mim.

— Agora está pronta para ele.

Lembrei das palavras que minha tia costumava dizer, de que me tornaria uma rapariga, e estremeci por dentro. Então, pensei em como Álvaro havia me tratado até aquele momento. Ele gostava de mim. Não me transformaria em uma mulher da vida. Álvaro de Castro gostava de mim. Fiquei repetindo a mesma frase várias vezes e meu medo dissipou-se.

Fui conduzida até o quarto onde ele me esperava. Vestia um robe preto, com detalhes num tom de vinho, e fumava um charuto. Nunca me esqueceria daquela roupa ou do cheiro da fumaça que impregnava o quarto.

— O senhor precisa de mais alguma coisa? — a governanta perguntou num tom formal.

— Não. Pode se recolher.

A porta se fechou às minhas costas. Olhei para o chão envergonhada.

— Está tudo bem, querida.

Sim, ele gostava de mim. Tomada de uma súbita coragem, encarei-o decidida a apagar a ameaça de minha tia que pairava sobre mim. Agora que estava em São Paulo precisava ter alguma certeza sobre meu futuro.

— Eu vou morar nessa casa?

Ele aproximou-se e acariciou-me os cabelos antes de responder:

— Não. Essa é a casa onde vivi com minha esposa. Você não poderia morar aqui.

— Vamos para outro lugar, então?

Ele afastou-se alguns passos e tragou o charuto.

— Você irá. Eu não.

— Mas eu pensei... — Um leve tremor me acometeu e minhas palavras saíram vacilantes.

— Pensou o quê?

— Que gostasse de mim.

— E gosto, caso contrário não a teria trazido daquela fazenda no meio do nada.

— Mas a gente não vai viver junto...

— Ah, então foi isso que quis dizer? Já se olhou no espelho? Você é apresentável, mas está longe de ser uma mulher elegante. É só uma matuta com um rosto bonito. Nunca estaria à altura de se colocar na condição de minha mulher.

— O que o senhor quer de mim, então?

— Tem certeza de que ainda não sabe? — Ele riu num tom debochado que me machucou tanto quanto um soco no estômago. Pela primeira vez, eu me senti uma prostituta.

Dali em diante tudo se tornou um pesadelo. Parecia que o diabo em pessoa havia encarnado naquele homem para me torturar, para roubar minha esperança e jogá-la em uma cela escura e sombria. Acorrentada pelo medo, fiquei imóvel enquanto ele se servia da minha carne. Quando terminou, deixou-se cair ao meu lado e começou a roncar antes que eu fosse capaz de me mover.

Meu

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