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Fetichização e Banalização da Violência: a clivagem do eu e a “foraclusão” do sujeito Pedro Humberto Faria Campos Denise Teles Freire Campos

O presente trabalho constitui uma reflexão sobre a violência que endossa a perspectiva de trazer (repatriar) o sujeito de volta ao centro da cena (Wierviorka, 2004), sem almejar a desvalorização ou negação dos determinantes histórico-sociais do fenômeno. O esforço faz sentido a medida que o enfrentamento do problema não se aloja somente na dimensão institucional, com maior responsabilidade do Estado nesta tarefa, e na implantação de políticas públicas de segurança. Como fenômeno “banalizado” a violência deve ser enfrentada nas escolas, no trânsito, nas relações familiares e amorosas, nos consultórios. De modo complementar e aquém da chamada “crise das instituições modernas”, parece haver um grande limbo –mais que um hiatoentre o imaginário e o simbólico. Imaginário de uma sociedade que se representa como fragmentada, ineficiente, inescrupulosa, descontrolada, desconfiada de seus políticos e autoridades e inapta para lidar com o problema da violência, o qual, por sua vez, também é representado como em crescimento descontrolado. Simbólico de um sujeito que se constrói, se representa em agonia face a uma alteridade líquida, insípida e inodora. Destinos da pulsão e possibilidades “culturais” de subjetivação parecem convergir na legitimação social da violência como modo de relação. De fato, é pertinente pensar, com Lacan, na “contaminação do simbólico pelo imaginário”. Porém o quadro desenhado deve ser examinado com mais rigor. A hipótese de uma “sociedade violenta”, cuja sombra cai sobre o sujeito (como a sombra do objeto cai sobre o eu na melancolia), seria verdade se pudéssemos considerar o ato violento como um recurso voluntário do sujeito para impor sua vontade. sobre a vontade de outro ator social. Ou seja, seria verdadeira se toda violência fosse sobredeterminada inconscientemente pelas pulsões de ordem narcísica. Seria compreensível se o sujeito se fizesse “ator”, se realizasse na ação. A “hipótese” pressupõe o recurso voluntário para impor seu sentido ao real, impor o significado por ele construído e no qual ele se reconhece e se afirma como sujeito e ator.

Tal perspectiva pressupõe a não-alienação do sujeito na violência, uma vez que ele seria ator social que se consolida na sua ação. Ou ainda, seria pressupor que, dentro do quadro dantesco da sociedade que se significa pela violência, todo sujeito autor de violência seria estruturalmente perverso: aquele que impõe seu desejo sobre o real. Retomemos o quadro com as mesmas tintas fortes, porém sem carregar na moldura e na iluminação: se as sociedades modernas, e particularmente a mídia, fazem da violência um espetáculo (Débord, 1984) e lhe atribui um sobrevalor de mercadoria, isto não significa que ela possa ser entendida como “unidade de todas as determinações”, base de todas as possibilidades de vínculo social, incluindo os relacionamentos íntimos. Se a violência é uma marca das sociedades modernas ela não é a única e talvez, não exatamente a marca essencial. Considerando os debates abertos sobre a centralidade do trabalho ( Codo, Sampaio & Hitomi, 1993; Costa, 2003; Dejours, 2004) ou do consumo (Baudrillard, 1970) ou da mercadoria (Kosik, 1976) ou do sexo-rei (Foucault, 1985) ou da subjetividade narcísica (Birman, 2001). Não nos parece um aposição frutífera ou sustentável esta de colocar a “violência” na fila do pleito a ser considerada a dimensão central das subjetividades, dimensão central nas formas de subjetivação. Assim, nosso objetivo é recompor alguns elementos através dos quais se pode observar que a fase atual acelerou as conseqüências da modernidade (Giddens, 1991, 1993), induzindo um efeito de desencaixe dos vínculos sociais, de desenraízamento (Castel, 1995), de apartheid do sujeito com relação à alteridade próxima; efeitos de fragmentação no real e deposição dos substitutos culturais do Outro. Este quadro pode ser associado ao limite apontado por Wierviorka (2004), no qual o sujeito não se torna sempre, ou não facilmente, ator. E é no espaço que separa o sujeito e o ator que a violência se desenha. Para este autor, a violência será então freqüentemente a marca de um sujeito contrariado, interditado ou infeliz. O fato de se tratar de um fenômeno social e cultural não exclui a existência de um sujeito (ainda que interdito, impedido, barrado ou negado) que sofre o impacto da alienação no real. “ No real, há também uma multiplicação dos objetos, dos engodos de satisfação, que chega até a pulverização dos efeitos de gozo. A essa dispersão do simbólico e essa fragmentação do real somam-se aind aos reflexos plurais do imaginário (...) Assim, vemos a ação do simbólico no real reduzir-se cada vez mais a seu nível básico: a visão, o corte em

Moser. Apesar das dificuldades de delimitação conceitual. quanto freudiano do termo. 1976). 1997) a concepção de violência enquanto fenômeno multifacetado que assume formas e sentidos variados. Elas. ocupando papéis sociais e orientados por valores que definem e modelam as possibilidades dessa interação. Ela existe num determinado contexto e se efetiva na relação com o outro. Velho. 2004. tomando-a como “um ato de excesso. Nesse sentido. Em suas reflexões sobre a violência. 2007. enfim. qualitativamente distinto. a coerção e o dano são percebidos como formas de violência enquanto ato de excesso presente tanto nas estratégias de dominação do poder soberano quanto nas redes de micropoder entre grupos sociais. o imaginário de uma sociedade que se representa pela violência e dela faz objeto de mídia e de gozo. A Violência Como um Fenômeno Representado Em suas múltiplas formas de manifestação. A força. Daí parte a perspectiva de análise da violência enquanto dado cultural e societário. à negação da castração. parece consensual entre os pesquisadores (Michaud. Tavares dos Santos (2004) busca compreendê-la nos diferentes conjuntos relacionais.116) Duas figuras da atualidade nos ajudam a pensar o fenômeno da violência: de um lado. Estas duas figuras devem ser examinadas de perto. Velho. A violência não se encontra necessariamente articulada ao uso de instrumentos de força bruta e não há uma fronteira claramente delineada que nos permite distinguir a .detrimento do efeito de ligação.p. se associam à violência nos movimentos históricos através dos quais a modernidade implantou um longo e sólido processo de fetichização da existência. a esquizofrenia é realmente da nossa época. Wieviorka. Trata-se de uma “interação” entre indivíduos situados em uma dada estrutura social. 2000. a violência deve ser compreendida sempre como um fenômeno que tem uma dimensão social (Campos. em conformidade com o momento histórico e a cultura em que ele é produzido. que se verifica no exercício de cada relação de poder presente nas relações sociais”(p. no espetáculo da exterioridade pura. um mundo propício ao “sintoma perverso”.8). à “submissão do outro”.” (Soller. cujas manifestações variam de acordo com o contexto sociocultural e são dotadas de valores complexos e diversificados. como figuras da atualidade. à clivagem do eu (Dejours. tanto no sentido marxiano (Kosik. de outro lado. 2001. 1986). que produz uma rede de representações sociais que findam por valorizar e legitimar a própria violência como recurso da subjetividade para o “sucesso”. Torres e Guimarães. 2000). 1991.

Wierviorka. “Ao ser estilizada. material ou simbólica.violência física da violência simbólica. na sua absorção pelos meios de comunicação. 1999. a não aceitação de limites para a satisfação de qualquer tipo de prazer e o desejo de consumir leva a condutas que. portanto. praticada pelo simples prazer da violência. Assim. no limite. Velho. 2004. Desse modo a violência pode ser considerada. portanto. 1999). 2004. diversos autores (Tavares dos Santos. em última instância..) como um dispositivo de excesso de poder. encontra respaldo no atual modo de vida das sociedades capitalistas. visam à destruição do outro. uma prática disciplinar que produz um dano social. Segundo Costa (1999). Este procedimento se apóia no poder de fascinação da violência. bem como tornar os indivíduos menos sensíveis às diferentes realidades expostas”. 2001) reconhecem a violência como a expressão de um conflito no interior de uma dinâmica de poder. . daqueles que são atingidos pelo agente da violência” (Tavares dos Santos et al. uma vasta gama de eventos e fenômenos nos quais o ato violento é a expressão da imposição das necessidades. a violência representada passa por um processo de tradução que favorece e estimula seu consumo por um público mais amplo.. atuando em um diagrama espaço-temporal. a qual exclui e domina por meio da linguagem. efetiva ou simbólica. 2000. que é potencializado por sua espetacularização. a qual se instaura com uma justificativa racional. se produz visibilidade e se constroem os sentidos de algumas práticas culturais. podendo alterar os sentidos iniciais das manifestações. o episódio violento da vida real cotidiana transforma-se em um espetáculo produzido pelos meios de comunicação em massa. Pereira et al.. Essa relação de excesso de poder configura.(2000) destaca o modo como a violência se apresenta enquanto produto cultural em circulação no sistema midiático. atrás dela. Zaluar e Leal. expectativas e vontades de outro ator. O fenômeno da violência é. (p. uma relação social inegociável porque atinge. A noção de violência cobre.18). Trata-se de uma real possibilidade de eliminação do outro se este resiste e faz obstáculo ao gozo do sujeito. Assim. expectativas e vontades de um ator social sobre as necessidades. “(. 1997. desde a prescrição de estigmas até a exclusão. Sawaia. entretanto. essa violência percebida como gratuita. na ideologia do lucro fácil e da busca da satisfação imediata do desejo de consumir. Reconhecendo a importância da mídia na contemporaneidade e que. Nesse sentido. a condição de sobrevivência.

oportunidade. este autor põe em evidência as falhas nas explicações baseadas no modelo da frustração-agressão. reforçando um quadro de exclusão social e. não se trata de tentar estabelecer uma relação direta simplista entre a mídia e a violência. em especial. dentre outras possibilidades. contra outro agente. Contudo. sem dúvida. Obviamente. aproxima o conceito de violência do campo da violência interpessoal e do campo da agressão como disposição básica do indivíduo. Cortelezzis. destruir.transformado em um produto com grande poder de venda no mercado da informação e em objeto de consumo. seria. se a frustração está . se a mídia não pode ser responsabilizada pelo aumento da violência ela é. na Suíça. que passa a fazer parte do dia-a-dia de grande parte da população. contribui para uma estigmatização de agentes e grupos envolvidos em tais práticas. excesso na difusão de manifestações de violência na mídia. Ao iniciar um grande levantamento sobre manifestações e representações da violência na escola. legitima a instauração de modelos de sociabilidade e de construções identitárias pautadas na violência. por um lado. um meio que favorece e fortalece sociabilidades estruturadas na e pela violência. mesmo daqueles que nunca tiveram experiência de contato direto com o objeto. Rochat. ofender e coagir. na concepção de Porto (2002). envolvendo sobretudo adolescentes. de um agente (grupo ou indivíduo). Egloff & Kaiser (2001). se colocam uma questão intrigante: a escalada da violência nas escolas. de fato. dado que nem toda frustração gera automaticamente uma conduta agressiva. Nesse sentido. Clémence. segundo a qual a agressão. preenche funções essenciais à sobrevivência do indivíduo e mesmo à continuação da espécie. engrossado pela sede de público dos canais de comunicação de massa? A mesma questão está presente na sociedade brasileira. um fenômeno nas proporções veiculadas na mídia. envolvendo os “jovens”? Definir a violência como intervenção física e voluntária. Evidentemente. explosão de raiva. visando intencionalmente impor a vontade do primeiro e/ou causar dano. retoma uma premissa fundamental. Dumont. frustração. ou dever-se-ia pensar que o fenômeno real seria uma escalada do sentimento de inseguridade. Não são raras as oportunidades em que a violência é apresentada como um comportamento valorizado e tratada como um recurso onde sua utilização passa a ser uma questão de eficácia. mas não somente em relação à violência nas escolas: estaríamos de fato diante de um aumento assustador da violência. Em uma análise cuidadosa. afirmação de identidade. por outro lado. Em um trabalho importante de síntese das teorias e modelos de estudo sobre a agressão Moser (1991).

que ocupam papéis sociais. A noção de agressão é. mas o termo “violência”. O uso “inadequado” da noção de exclusão consiste em tratá-la como fenômeno “em si”. deve-se compreender que um ato agressivo. e reintroduz o tema da exclusão nas discussões sobre violência. Esta noção estabelece uma relação não automática entre miséria e violência (Zaluar.associada a condutas agressivas. permite um “repensar” das relações entre miséria. Almeida. um abuso. excesso de um ato cujas motivações profundas não são do registro do racional: a agressão se torna violência quando irracionalmente ela se torna um ultrapassar dos limites de uma norma aceitável do uso da agressão nas relações. Em trabalhos anteriores (Campos. 2002. a noção de exclusão causa um grande impacto. descontextualizado. reativamente ou não. como construto ela não é suficiente para explica-las. pela variável intencionalidade e pela avaliação geral do comportamento dos outros agentes envolvidos na interação. um contexto de indivíduos que se situam em uma estrutural social. Do mesmo modo. Adotamos uma perspectiva segundo a qual a violência interpessoal é compreendida como um construto próximo à agressão e corresponde a um excesso do irracional (Santos. No sentido contrário. de algum modo consubstancial ao universo das interações interpessoais. Berkowitz & Lepage (1967) e Buss (1966) demonstram o caráter relativo da frustração como causa da agressão. 2000. o uso corrente da expressão “violência social” remete mais diretamente às condições de vida geradas pela exclusão e pela injustiça social. assim nos parece mais coerente falar de formas precárias. 2001. 1997). deve se inscrever para além da perspectiva do dano causado. Que isto agrade ou não. destacando a noção de violência estrutural.. mesmo um ato inserido no estrito espaço do que se chama de “relação interpessoal”. é sempre um social: ele sempre existe em um contexto. que se orientam por valores que definem a natureza e as possibilidades desta mesma relação. mediada pela presença ou ausência de indicadores evocativos. 1995). estrutura social e violência. segundo os diferentes tipos de motivação e os diferentes graus de aceitabilidade social. ela sendo vaga e polissêmica. Mas sobretudo. intencionalmente ou não. pois ela remete a um excesso. instáveis e marginais de inclusão (Campos P. porque. 1996). O uso mecânico da noção de exclusão oblitera a visão da pobreza como fenômeno político . 2001) já havíamos assinalado a necessidade de se trabalhar com uma abordagem mais dinâmica e histórica dos fenômenos de violência. Ribeiro e Campos. não se pode esquecer que existem diferentes tipos de violência. O termo violência exige a referência a uma norma. Martins.

quando. No caso da sociedade brasileira. Torres e Guimarães. devemos salientar os seguintes aspectos: a) a situação de miséria vem se acompanhando de um aumento da violência e expansão do crime organizado. Com a atual mudança cultural e as transformações do sistema de valores e das relações sociais. Velho. c) o caráter “inseguro” das instituições brasileiras (Pinheiro. 2004. em realidade. mais a violência torna-se inerente às relações sociais. como se as populações vítimas da chamada exclusão estivessem totalmente “à parte” (“apartadas”) da sociedade. quanto mais desigual for uma dada sociedade. São níveis de análise que se complementam. Zaluar. A “Banalização” da Violência Considerando a configuração própria adquirida pela violência nas sociedades ocidentais contemporâneas. devemos assinalar que. de algum modo. Velho. 1996). 1998) e acaba por esconder o conflito. 1996) e a fragilidade do estatuto da cidadania. instável e marginalmente. d) uma tendência assinalada por vários autores. Das três dimensões. observa-se que as tensões sociais que anteriormente apresentavam desfechos em que tendiam a predominar acordos e negociações atualmente encontram na violência física ou verbal uma tendência predominante. sobretudo no campo da violência que exige uma abordagem interdisciplinar e plurimetodológica.(Demo. b) os “jovens” constituem o maior agressor e a maior vítima. exercendo “de dentro” uma resistência. Zaluar. de banalização da violência (Lucinda. 2000) que enfatizam a existência de uma disposição cultural de se considerar fenômenos de violência explícita (atos agressivos) como sendo. Assim. Essa tendência à banalização da violência tem merecido a atenção de diversos autores (Campos. 1998. mas sim em termos de inclusão. sinteticamente apontadas nos itens anteriores (interpessoal. nas quais grupos (indivíduos e famílias) vivem cotidianamente relações conflituosas. 1999. além . na tentativa de permanecer incluídos. social e estrutural). estas “perspectivas” de se olhar para o fenômeno da violência não são excludentes entre si. alguns aspectos têm merecido destaque entre os pesquisadores desta temática. dentre os quais se pode destacar a banalização da violência e o grande envolvimento de jovens. ou como diria Adorno (1998) “não se trata de histeria coletiva”. elas continuam. mesmo que precária. Nascimento & Candau. 2000. O problema das sociedades modernas não pode ser definido em termos de possuir ou não os bens materiais.

de freqüentes. como também nos discursos do cotidiano onde agressões consideradas “leves” não são caracterizadas como violências. Esta percepção denuncia outra face da banalização da violência. Diante destas informações sugere-se que uma representação social da violência como forma “natural” de solucionar conflitos encontra-se presente nos mais diversos segmentos da sociedade. uma vez que o que encontramos em nossas pesquisas (sejam qualitativas ou quantitativas) são sinais de uma regulação social das formas de solução de conflito. 2002). seja entre pessoas ou grupos. diferença de interesses e não necessariamente . “comuns”. ao ato agressivo resultante em morte. Voltaremos sobre este ponto adiante. aqui empregada como “conflito de interesses”. Waiselfisz. Andrade e Rua. É uma conseqüência da transformação das normas sociais. “corriqueiros”. destituindo a violência do lugar da excepcionalidade para tornar-se uma marca do cotidiano. A tendência à banalização tem merecido grande destaque nos estudos sobre a representação social da violência. contra crianças (Gonçalves. que mostram assassinatos e brutalidades por motivos cada vez mais banais e que não mais chocam os telespectadores. 2004). 2004) e sobre a violência nas escolas (Abramovay e Rua. Uma naturalização e normatização do fenômeno são apontadas por estudos específicos sobre a violência doméstica dirigida contra mulheres (Santos. “naturais”. A noção de banalização da violência diz respeito a essa legitimação do uso da agressão (especialmente a física) como forma de regulação/resolução de conflitos de interesses. sobre a violência envolvendo gangues (Abramovay. em que o reconhecimento da violência acontece somente nas situações marcadas pela existência da violência física. 2003). A Banalização é um efeito normativo. Trata-se de uma tendência verificada principalmente em estudos com adolescentes (Campos e Guimarães. Duas precisões devem ser feitas. prioritariamente. “banais”. Um reflexo desta disposição pode ser observada tanto nos jornais televisivos. uma assimilação da noção ou representação da violência ao ato agressivo e. ou seja. 2003). No nosso entender a principal modalidade de pensamento que opera e sustenta esse tipo de normas sociais. A idéia de que só a força resolve os conflitos tem se generalizado no nível cotidiano ao ponto de verificarmos uma rotinização da violência física. A primeira refere-se à noção de conflito. agora voltemos à banalização e à solução de conflitos. são as representações sociais: nelas encontramos a materialidade simbólica e lingüística das regulações das práticas dos sujeitos coletivos.

O fenômeno conhecido como “banalização” não remete a uma incitação da violência. isto não demonstra. não acolhendo a ruptura ou a imposição pela força.antagonismos de posição ou de classe social. nem único. de vontades. A segunda precisão remete à noção de violência como mecanismo de “solução de conflito”. sustente a diversidade de interesses. pode-se afirmar que ela é representada como um mecanismo legítimo de eliminação (“solução”) do conflito. Deste modo se pode falar da diferença de interesses. Contudo. como recurso do qual não deve fazer uso imediato. como “modo de conflito” uma vez que. nem induz a idéia que a violência se tornou o principal mecanismo operando. violência e submissão ou violência e resistência. Se o conflito evolui. se o outro não quer ceder/aceitar/acatar a vontade do ator que se coloca em posição de protagonista. é normatizado em certos casos. A violência continua sendo contraditoriamente representada como um valor negativo. pouco importa). se há evolução do conflito. para uma norma . Observações de grupos com socialização marcada pela agressão mostram que o uso da violência é “legítimo”. em situações específicas. cuja qualidade de ator passa a ser negada. o conflito de interesses se interrompe e aparece a ruptura: imposição da vontade de um ator sobre um outro. Quando não há evolução. Segundo os estudos de banalização. que entram em conflito desencadeando um processo dinâmico de negociação. Nos parece mais coerente pensar que a violência passa a ser tolerada como um modo de regulação ou seja. que pode ser entendida como contra-violência. há interação. chegando ou não a uma solução de fato (equitável ou não. A evolução dos conflitos supõe uma interação e uma estrutura sociais que sejam continentes. automático ou sem restrições. e não somente na sociedade brasileira a uma “mudança de norma social”. em cenários pré-marcados com finalidades pré-estabelecidas. nem prioritário. justa ou não. “respeito” entre as partes. Sociabilidade Violenta: um a “nova norma social”? Uma questão central organiza o conjunto de nossas reflexões sobre a violência e os estudos de representações sociais que temos empreendido: estaríamos assistindo. negociação de sentidos. há gestão das diferenças e não impasse e esta evolução (qualquer que seja a solução encontrada ou uma longa e infindável “negociação”) pressupõe que a estrutura social dê suporte. Dito de outro modo: se os estudos demonstram claramente efeitos de banalização em diferentes contextos e grupos. isto é lido como ruptura da negociação e abertura ao espaço vazio de regulação. isto não quer dizer que se instalou uma norma social que impõe a violência como recurso nem primeiro.

. as fábricas. as mudanças no cenário mundial promoveram a fragmentação social e a fragilização dos laços sociais. 2004) sugere que uma nova forma de sociabilidade está se desenhando no contexto moderno.social “violenta”. portanto. As representações sociais da violência ou mesmo de certas práticas educativas (violentas) estariam na base das práticas sociais violentas. os fenômenos da violência doméstica e da violência na escola. Ao que parece. “As relações de sociabilidade passam por uma nova mutação. definida por estilos violentos de sociabilidade. Se antes as relações de sociabilidade construídas nessas instituições eram marcadas prioritariamente pela afetividade e pela solidariedade. afigura-se nas sociedades do século XXI o fenômeno da violência difusa. estariam vivendo um processo de crise e desinstitucionalização. mediante processos simultâneos de integração comunitária e de fragmentação social. Assim. inserem-se as práticas de violência como norma social particular de amplos grupos da sociedade. A violência difusa seria. etc. a qual. . cujo um dos principais esteios culturais seria a banalização da própria violência? A perspectiva aqui esboçada refere-se à necessidade de se reconhecer e de se tratar da dimensão simbólica da violência. Tavares dos Santos (1999. Nesse sentido as instituições socializadoras. na visão do autor. Foram esses processos que possibilitaram a emergência do que seria um novo modo de interação social. a escola. tais como a família. de massificação e de individualização. p. Como efeito dos processos de exclusão social e econômica.20). como demonstram. que invertem as expectativas do processo civilizatório. o incremento de processos de exclusão e a “desfiliação” de algumas categorias. segundo a Teoria das Representações Sociais. porém estrutural ao capitalismo. exerce uma mediação nas relações concretas entre os indivíduos. de ocidentalização e de desterritorialização. 1999. tais como a juventude. presentes em múltiplas dimensões da violência social e política contemporânea” (Tavares dos Santos. onde as conflitualidades encontrariam espaço privilegiado. cujas raízes localizam-se nos processos de fragmentação social. a religião. Afirmando que as transformações verificadas na contemporaneidade têm produzido uma nova morfologia dos processos sociais. por exemplo. hoje reaparecem como preferencialmente conflitivas. orientando-nas e justificando-nas. um novo modelo de sociabilidade verificado na atualidade e que perpassaria os diferentes contextos de interação social.

a códigos normativos distintos e igualmente legitimados. 2004. Nesse sentido. os atores sociais articulam suas práticas cotidianas a essa dupla inserção: como participantes da ordem estatal e. nestas concepções. Sem perdão da metáfora. Segundo o autor. mas sim a epidemiologia. Assim. as ciências que deveriam se ocupar da violência não seriam nem a psicologia social. mais do que um conjunto de comportamentos isolados. conscientes ou pelo menos claramente ‘monitoradas’. p. paralelamente. “não há luta. nem a sociologia. Silva (2004) aponta que os padrões de sociabilidade convencionais. mas convivência de referências. nem paternidade? Norma Social Violenta ou Norma Social Narcísica? . mas que fornece um caminho de reflexão a partir das formas de organização social das relações de força. o autor sugere que o uso da força como princípio de regulação das relações sociais convive com o modelo de sociabilidade regulada pelo Estado. trata-se de uma perspectiva que não pretende respostas conclusivas. a representação da violência urbana tem como característica central a expressão de uma ordem social. em determinados contextos e sob certas condições. perdem a validade e são substituídos por um complexo de práticas estruturadas na relação de forças. Buscar uma apreensão da violência a partir dos novos processos sociais que se configuram na atualidade não é uma tarefa simples. Ao considerar a existência desse modelo de ordem social. A noção de sociabilidade violenta tenta captar a natureza e o sentido da radical transformação na qualidade das relações sociais como uma possibilidade de compreensão da violência enquanto questão social global.Esboçando a noção de sociabilidade violenta a partir de uma análise da natureza e sentido da radical transformação de qualidade das relações sociais. isto é. Assim. nem antropologia. nem a psicopatologia.73). regulados no âmbito do Estado. e as práticas de criminosos comuns. da sociabilidade violenta. Afinal. um complexo orgânico de práticas. mais exatamente as “condições sociais” ou “fatores de risco” determinam a emergência do ato violento. que implicam a adoção de cursos de ação divergentes” (Silva. a violência não tem autor. parecem criar um cenário no qual a sociedade cria as condições de emergência da violência. Wierviorka (2004) já alertava para o fato que estas análises acabam por ocultar ou negar o espaço do sujeito. Certas leituras que chamaremos aqui de “socializantes”.

Utilizando o narcisismo como metáfora da condição humana. o declínio do espírito lúdico. . o padrão narcisista de personalidade ao mesmo tempo em que é incentivado pelos atuais padrões sociais. particularmente no que concerne às formas de construção da subjetividade. das gerações anteriores etc) e o exagero do individualismo ideológico (Velho. Diante disso. 2002) A pós-modernidade – com o perdão do uso flexível deste conceito . Trata-se de uma exaltação gloriosa do próprio eu. coabitando com a queda de toda autoridade (contestação da legitimidade e do poder de controle do estado. as relações deterioradas entre homens e mulheres” (p. de modo que o sujeito vale aquilo que parece ser.Um traço marcante a ser observado é a forma pela qual se estrutura a vida mental do sujeito moderno. O autor afirma que a construção da organização social vigente exigiu novas formas de personalidade. Segundo Birman (1999). da política. 2000). (Santos. Do mesmo modo. Para o autor.parece estar constituída de uma dupla exigência: uma espécie de norma social cujo pleito é a satisfação narcísica. se comparado com a história do mundo Ocidental. como emergência de uma norma social individualista. 1998. parece representar também a melhor maneira de lutar em igualdade de condições com as tensões e ansiedades da vida moderna. que não mensura os atos em busca desta mesma satisfação (inclusive os atos destrutivos de si e do outro). Tomemos então a liberdade de falar de uma massificação violenta do individualismo. dos pais. o senso de tempo alterado. Birman. o medo da competição. da escola. pode-se afirmar que a globalização está dentro do sujeito. Trata-se de uma busca da felicidade através de estratégias narcísicas de sobrevivência que reproduzem os piores aspectos da crise geral da cultura ocidental. novos modos de socialização e novos modos de organizar a experiência. O autocentramento pode ser considerado o traço fundamental da chamada cultura do narcisismo. Dentre estes pode-se apontar “o temor intenso da velhice e da morte. o autocentramento se apresenta inicialmente sob a forma da estetização da existência. 1996). Lasch (1983) afirma que existem conexões entre o tipo de personalidade narcisista e certos padrões característicos da cultura contemporânea.57). Uma das características fundamentais deste movimento de massificação cultural é o intenso investimento na libido narcísica (Bauman. onde o eu encontra-se situado em posição privilegiada. baseada principalmente na aparência. o fascínio pela celebridade. o autocentramento do sujeito atingiu limiares impressionantes e espetaculares.

Públicas. violência sem sujeito. em vez de clandestinas. a injustiça. A forma de fugir ou negar a interpenetração teórica é adotar uma concepção restrita de violência. banalizadas. Um remete-se ao outro. Qualificamos aqui como mal todas essas condutas quando elas são: • • Instituídas como sistema de direção. trata-se da banalização do mal. Por exemplo.. da violência como imanente às instituições. assim sintetizada: “ É sabido que todos esses sofrimentos e injustiças infligidos a outrem são comuns em todas sociedades. como conceitos. A pós-modernidade pode ser pensada como espaço onde convergem o ódio constitutivo. deliberadas. “apesar” dele próprio ou independente de sua vontade. violência. Neste sentido. é uma operação simbólica (o reconhecimento da castração e a entrada na ordem fálica) que permite ao sujeito reconstituir o vínculo e se inserir em uma ordem social. Dejours (1999) justamente denuncia a ideologia de um sistema “sem intencionalidade” que produz. Se ocorre uma falha na construção da subjetividade (na castração simbólica) o sujeito encontra-se excluído da ordem simbólica. No outro extremo. . estariam as concepções sociologizantes. admitidas ou reivindicadas. organicista ou psicopatologizante: a violência será então percebida como inerente ao sujeito. quando a referência são as sociedades modernas. e até quando são consideradas corajosas.). Lacan. uma vez que a heterogeneidade nasce do ódio (Freud. e. conscientes. ocasionais ou excepcionais. deuses e demônios se tornam então os autores do ato violento). portanto anterior às relações sociais. para aqueles que adotam uma concepção psicologizante. Para ele. exclusão e injustiça são conceitos que derivam em uma relativa tautologia. de comando. 1958/1971).O ódio e a violência são constitutivos do sujeito. de organização (. A Violência é uma Linguagem? Em toda evidência teórica. portanto. até mesmo as democráticas. Ao analisar a banalização do mal. assim como a figura do Outro é negada (foracluída) também a paternidade do ato violento: a violência não é reconhecida como tal ou não é reconhecida como ato do sujeito (os mitos. mais exatamente ao indivíduo. a norma sem-pai sem castração simbólica e “sem controle” da autoridade representada como ilegítima (Lesourd. 2001) e a libido narcísica. 1914/1987..

disseminado e resistente entre sofrimento. Isto porque o sentido dado à “restrição” não é o da causalidade. A identidade entre as duas dinâmicas concerne à banalização e não à banalidade do mal. sofrimento e violência.Hoje. Como analisamos anteriormente esta não é uma afirmação generalizável.. se a “pós-modernidade” tem algum “mérito” foi o de constituir um vínculo profundo. trabalho e injustiça. 1999. p.139) Toda violência se inscreve em uma relação. Isto porque. na atualidade. “ Não me parece que seja possível evidenciar nenhuma diferença entre banalização do mal no sistema neo-liberal (ou num “grande estabelecimento industrial”. exclusão e violência. esta dimensão é o trabalho. 1999) de uma “concepção restrita de violência”. se como caminho ou .. em muitas empresas. É especialmente no mundo do trabalho que tal postura tem mais conseqüências.77) O que não chega a ser paradoxal é sua defesa (Dejours. Pode-se interrogar se a violência se constitui. tende a tornar-se norma de um sistema de administração das questões humanas no mundo do trabalho: ei-nos portanto diante do universo do mal. tendo em vista a retomada do espaço do sujeito. como um modo de relação com os outros e com o mundo.” (Dejours. mas sim da prudência ao nominar os eventos como “manifestações de violência”: ao rotularmos toda injustiça e exclusão de violência corremos o grave risco de não dar a esses fenômenos a devida atenção. Entendendo aqui “violência” pela conduta de infligir sofrimento e injustiça a outrem. o que até recentemente era considerado uma falta moral. desigualdade. nas palavras de Primo Levi) e banalização do mal no sistema nazista. A questão mais pungente é saber se a violência pode significar o eu. relação no trabalho que nos ajuda a problematizar relações teóricas entre injustiça. mas a relação peculiar entre injustiça. O que nos interessa em particular não é o exame do mundo do trabalho. p. que se podia evitar ou mesmo combater graças a uma coragem nada excepcional. E esta postulação em prol de uma “restrição” teórica acerca do que se define ou não como violência tem conseqüências frutíferas para a compreensão dos fenômenos. Se existe uma dimensão da vida humana moderna na qual a “violência” é uma marca incontornável. vale dizer as etapas de um processo de atenuar a consciência moral em face do sofrimento infligido a outrem e de criar um estado de tolerância ao mal” (Dejours. 1999.

em quais condições e quais as conseqüências. A interrogação que retorna é da autonomia do sujeito face à violência como “escolha”. dentre os possíveis. No entanto. ela não se apresenta como um objeto privilegiado da psicologia. p. uma quebra de sentido e vazio. 2004.” (Wierviorka. nela o sujeito se instala e se perde naquilo que ela tem de excesso. que é corolariamente o aniquilamento do próprio sujeito. “É por causa disto que o protagonista pode passar da autonomia. em marcar o mundo com sua subjetividade de modo ativo. não aquela causa pela qual ele operou a passagem à violência.um quadro sindrômico. que significa que ele se torna vetor de um sentido que não lhe pertence –no limite. de desmesura: ela constitui o apagar da alteridade. é que não se fala mais de perversão enquanto tal: as formas “diversas”. não se fala mais de perversão. mercenário de uma causa que não é a sua. Com grande prudência Wierviorka (2004) discute a questão. 2001. e ela escapa ao controle do “autor” do ato. enfim as sexualidades prégenitais ou as “sexualidades periféricas" na expressão incômoda e imprecisai de . O impasse vem do fato que a violência em si instala um não-sentido. Campos & Campos.possibilidade de ação. nem negligenciável (Birman. “chez l’Autre”). ou “transtorno” que pudesse nominar esta desordem em particular. quer dizer de uma relativa capacidade de se fixar para ele próprio as orientações e as modalidades de sua ação. Entretanto. na aniquilação do conflito enquanto tal e estabelecimento da ruptura. Neste sentido o ato violento pode significar o esforço do sujeito em se constituir como ator social. matador de aluguel. para a heteronomia. Também não existe registro dela no DSM-IV. ela tem valor de significante do eu. um não-reconhecimento do outro. uma vez que toda subjetividade somente pode se constituir em referência e através da alteridade (no Outro. polimorfas (para retomar o registro freudiano). não se encontrou – se é que foi buscado. ele se torna sicário. A violência pode ser um sentido. como passagem da alienação e da passividade para a ação. ou. o movimento é outro.41) Da “Implantação Perversa” à “Posição Perversa” A afirmação que as perversões são uma forma privilegiada de subjetivação na atualidade não é nova. 2005). de todo modo. Se a violência pode ser lida como um esforço de autonomia. da evolução do conflito ou da expressão da subjetividade. psiquiatria ou psicopatologia. que corresponde ao final das contas.

abrindo espaço para cada um gozar como lhe aprouver? As diversas formas da sexualidade não são permitidas ou. se basta um clique para encontrar o parceiro perfeito para seu gozo? Quando Foucault fala da “implantação perversa” ele indica um conjunto de operações. as perversões serão. ao menos. relativamente aceitas? Por que o sujeito iria procurar seu gozo em “produtos”. criativa e generosa) na sociedade do consumo e do espetáculo. processo de formação da escolha de objeto. a existência de múltiplas e variadas “sexualidades” é re-inserida como vitrine. nem tidos como casos de polícia. Retomamos aqui uma afirmação anterior: o perverso não mais será caso de polícia. Não serão também e de modo algum considerados criminosos ou sofrendo de alguma degeneração moral qualquer. Se ele buscou dar unidade ao processo de implantação perversa. a verdade que o sujeito constrói sobre seu gozo. Em uma sociedade na qual a identidade sexual é uma tarefa.Foucault são valorizadas. assunto de mídia. o estranho. Não serão perseguidos em praça pública. ao contrário. para a qual a sexualidade do tipo “hetero-genital” não é referência. não resta dúvida. o “pervertido” compõem um espetáculo de pura exterioridade. sem. Indubitavelmente sua análise aponta para o fato que a diversidade das formas sexuais foi classificada. objeto de uma verdadeira taxonomia criteriosa e reguladora. Os perversos. objetos valorizados na sociedade do espetáculo. reguladas e integradas no campo da normalidade “pósmoderna”. Porém. em sua pluralidade de destinos libidinais não serão encontrados nos consultórios ou nos serviços especializados de atenção à saúde mental. o estrangeiro. não mais será reconhecido como pertencente ao sujeito: a verdade do sujeito será objeto de investigação científica e de uma aceitação pela via da explicação: algo ou aluem se desviou durante o processo de subjetivação. Não mais caso de polícia. nem alvo de preconceito (explícito). ao vivo e . Em seguida. a “sociedade” e a ciência (medicina e psicologia. isto não nos parece o eixo da questão. Cultura intrigante esta da atualidade. na qual o saber sobre seu destino pulsional. incluindo os produtos em carne e osso. aqui de mãos dadas) exercerão outra forma de regulação. não mais pela interdição ou punição. O diferente. o exótico. As perversões serão objetos mediáticos privilegiados. contudo. não vivemos em uma sociedade que baniu a repressão sexual. as formas foram objeto de inscrição (detalhada. Quanto a isto. poderem ser nominados como perversos. doravante. sobretudo a televisiva. de micro-poderes. através de um mecanismo ou agente “perverso”. ele encontrará agora as lojas e produtos adequados. em objetos materiais.

reconhecer a falta do falo na mãe. Desde Granoff e Perrier (1991) se reconhece o fetichismo como modelo paradigmático das perversões. De volta à Birman (2001) e à valorização. o recurso à “agir de modo perverso”. As banalizações da violência e da injustiça. ou de cisão do ego. sem conseguir voltar para trás. a primeira reconhece a castração e a segunda busca ativamente negá-la.. Mundo perverso. subjetividades perversas? Desde os Três Ensaios Sobre a Sexualidade. a metonímia. “ambas as tendências terão sua quota”. das formas perversas de expressão da subjetividade. A alteridade se apresenta no campo da ambivalência. ao contrário. Depois de muito vagar. Antes mesmo que o próprio sujeito saiba quem ele é. pois não é da absoluta ausência do Outro e de seus substitutos do que se trata. Se a alteridade é fundamental na constituição do sujeito. a do espaço da ambivalência face ao outro. seu estilo de prazer. no portal do Édipo. fundada no deslocamento. na atualidade. é como se pelo recurso à clivagem do eu e de modo defensivo. ao nosso ver. no qual um objeto (de onde vem o termo “fetichização”. o sujeito tivesse sempre à mão. De fato.. mas. As banalizações são processos de instalação de uma predisposição á infligir sofrimento.em cores. a noção de “implantação perversa” remete mais à idéia de um “polimorfismo sexual” nãodominante. que ele sabe por antecipação o exato produto capaz de trazer o gozo ao sujeito. tão eficaz. c) entrada em um processo metonímico. da naturalização dos “desvios . e é esta posição que permite o desafio perverso. ou seja. também como “coisificação”) é eleito para obliterar a falta. A cultura se tornou tão perfeita. na qual duas tendências opostas coabitam. como uma alteridade líquida. sem suportar entrar completamente. nem liberado de toda repressão. na cultura da atualidade ela não estará ausente. predisposição à violência. Em Foucault. elucidado no paradigma do fetichismo: tentativa de tamponar a falta para aplacar o desamparo. sempre ao bolso. Sob o controle da ciência moderna. como afirma Freud. a figura do fetiche. sob os efeitos de poder da ordem moderna. b) uma cisão do ego. mudanças de objeto ou de alvo sexuais. para atender ao seu estilo de consumo. estão organicamente (bem que se poderia dizer corporalmente) associadas ao que Dejours (1999) chamou de “posição perversa”. Freud (1905/1987) já nos convidava à prudência na hora de analisar as “inversões”. 2004): a) a recusa (denegação) em reconhecer a castração materna. O fetichismo é delineado pela conjunção de três elementos (Campos D. mas de uma simbolização líquida. O outro fetichizado tem a função de tampão: o processo não é mais metafórico. de novo.. Desenha-se a posição do perverso. A simbolização possível é mais vaga.

Num mundo cruel. tendo como característica comum a não-mentalização.” (p. p. ao infligir o sofrimento e praticar a injustiça e o mal. no sentido de negação da alteridade que engendra a alienação do sujeito em uma exterioridade pura ou ofuscante. em certas fases de sua vida. sabe-se que esses pacientes nem sempre estão doentes e que são capazes.. um tanto quanto provocativo.82). pois a sociedade não tem aparelho psíquico. Voltemos ao título.” (Dejours. seria somente um abuso de linguagem ou uma má-metáfora dizer que vivemos no reino dos perversos. perversos se instalaram na ordem. A implantação perversa como explicação da cultura ganha mais sentido se vinculada à noção de “posição perversa”. de permanecer ao abrigo de descompensações. assim. Isso constitui o conjunto dos sintomas não-neuróticos que forma a patologia psiquiátrica. da atuação violenta. não se configura como real do encontro com o outro.. Dejours (1986) nos oferece uma saída para começarmos a repensar o problema do sujeito no campo da violência: “. Ainda sim. apesar de que “o líder do trabalho do mal é antes de tudo perverso. Tampouco o mundo poderia foracluir o sujeito. 1999. por sua vez. ao invés de se pleitear o aumento das estruturas perversas! O mundo perverso não é um mundo exclusivamente ou majoritariamente de perversos. Há inúmeros sinais clínicos e sociais desta operação pela qual o sujeito. como consumidores. assim ele não poderia “ocultar” a si mesmo. do limite que é o desejo do outro. pois o sujeito mesmo é irrepresentável enquanto totalidade. a clínica dos pacientes não-neuróticos nos revela cada dia brotos desse inconsciente sob a forma da violência. Trata-se finalmente da “foraclusão” do outro. da qual pode se valer quando as circunstâncias externas se tornam ameaçadoras. mas partes concretas do real. Além disso. Ao explicar a “Terceira Tópica”.. sem . opera por uma clivagem do eu. do texto: não se trata propriamente de foraclusão do sujeito.. Realidade que.110-111) A tese da “implantação perversa” só tem plausibilidade se pensarmos em termos de manifestações perversas às quais a cultura convida. Não poderíamos deixar de pensar que a economia libidinal dos sujeitos foi canalizada para o mercado público das trocas econômicas. exterioridade sem interioridade. quem é o “sujeito normal”? O normópata é aquele para quem a injustiça e a violência não são metáforas. da perversão e da somatização. parte do sujeito clivado nega a castração e efetiva a foraclusão do outro.sexuais” (afinal “explicados” por tendências genéticas ou disfuncionamentos orgânicos). ou até mesmo durante toda a vida. Neste sentido.

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