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D IREITO PROCESSUAL PENAL O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO

DIREITO PROCESSUAL PENAL

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

Aulas leccionadas pelo Dr. Leopoldo Carvalhais

Direito Penal Substantivo: visa a definição dos pressupostos do crime e das suas concretas formas de aparecimento, bem como a determinação das consequências jurídicas do crime. O direito penal apenas intervém nos casos de violação de bens jurídicos penalmente relevantes, quanto nenhum outro meio jurídico oneroso seja eficaz para levar a cabo tal protecção.

Direito Processual Penal: visa a regulamentação jurídica do modo de realização prática do poder punitivo estadual, mediante investigação e esclarecimento do crime concreto permitindo a aplicação da sanção jurídica ao criminoso.

Direito Penal Executivo: visa a regulamentação jurídica da concreta execução da pena ou medida de segurança decretada na condenação e proferida em sede de processo penal.

Há entre as disciplinas referidas uma complementaridade funcional, pois o processo penal tem para o efeito um papel de grande relevo, uma vez que sendo instrumental ao direito penal substantivo, confere-lhe aplicabilidade prática.

Não podemos contudo esquecer, que o processo penal, não obstante da sua complementaridade funcional, é autónomo em relação ao direito substantivo, destacando-se inclusive algumas diferenças:

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Vigora no

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Vigora no direito penal a regra segundo a qual é proibida a retroactividade da lei penal, salvo nos casos em que seja mais favorável para o arguido, ao contrário do que se passa no direito processual penal, onde a aplicação da lei é imediata, artigo 5.º A aplicação imediata apenas não se efectiva nos dois casos previstos no artigo 5/2:

a) Nos casos em que ela grave, ainda que de modo sensível a

situação processual do arguido;

b) Quanto tal conduza a uma quebra de harmonia e de

unidade dos vários actos do processo;

No direito penal a integração de lacunas por via da analogia é, em regra proibida, quanto tal prejudique o arguido, artigo 1/3 CP. Já no direito processual penal a analogia é uma importante fonte de preenchimento de lacunas, artigo 4,onde se estabelece que os casos omissos, se devem resolver com recurso à analogia, sob pena de se aplicar as normas do processo civil que se harmonizem com o processo penal, e na falta deles os princípios gerais de direito processual penal.

FINALIDADES DO PROCESSO PENAL

1. Realização da justiça e descoberta da verdade material: A exigência da verdade material e da justiça estão intrinsecamente ligadas a uma finalidade de prevenção geral de prevenção. Contudo, a descoberta da verdade material não pode ser admitida a todo o custo, mas com respeito integral pelos direitos fundamentais das pessoas que intervém no processo. Precisamente por isso, é que o artigo 126.º estabelece quais os meios de prova admitidos.

2. Protecção dos direitos fundamentais das pessoas: esta é uma das questões fundamental num estado de direito, e como tal não pode estar desligada do processo penal. Como garantia destes direitos fundamentais, é que qualquer decisão que ponha termo a um processo, tem necessariamente que ser assente num modelo processualmente válido.

3. Restabelecimento da paz jurídica: o restabelecimento da paz jurídica comunitária posta em causa pela prática de um crime decorre da reafirmação da validade da norma. Esta finalidade implica que do ponto de

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vista do arguido o processo seja julgado o mais rapidamente possível, de modo a que na comunidade acredite na justiça.

AS PRINCIPAIS DIFERENÇAS ENTRE O PROCESSO CIVIL E O PROCESSO PENAL

PROCESSO CIVIL

PROCESSO PENAL

Tem como causas uma relação de direito privado, pelo que o objecto de litígio é disponível pelas partes.

Tem como base uma relação de direito público decorrente da prática de um crime, pelo que o objecto de litígio não é disponível pelas partes.

Recurso com frequência a meios alternativos de resolução de litígios, através da arbitragem.

A mediação penal ainda se encontra numa fase embrionária, apenas do artigo 280.º e 281.º fazem referencia a ela.

Princípio da auto responsabilidade probatória das partes, através da aplicação do ónus da prova.

Não há ónus da prova formal, apesar do MP ter de fazer prova dos factos que alega, sob pena de absolvição do arguido.

Princípio do dispositivo, embora já com alguns afloramentos do princípio do inquisitório.

Princípio fundamental é o do inquisitório, o juiz tem de guiar o processo como entender.

Apesar das diferenças estruturais que existe entre o processo civil e o processo penal, há que salientar a sua semelhança, ao nível do saneamento do processo. Quer no fim da instrução, aquando do despacho de pronúncia ou não pronúncia, quer antes da discussão e julgamento da causa, o juiz (de instrução ou da causa conforme o caso) deve começar por sanear o processo, decidindo eventuais nulidades ou outras questões prévias incidentais que possa conhecer, artigo 308/3 e 311/1

PROCESSO PENAL DE ESTRUTURA ACUSATÓRIA INTEGRADO POR UM PRINCÍPIO DE INVESTIGAÇÃO

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO O enquadramento

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O enquadramento do processo penal nos quadros do Estado de direito, deve partir do

reconhecimento da tensão dialéctica entre a tutela dos interesses do arguido e dos

interesses do estado.

A melhor estrutura do processo penal, capaz de responder a esta exigência, é a de um

processo penal de estrutura acusatória integrado por um princípio de investigação, que respeitando a natureza publicista do processo, vai de encontro aos direitos fundamentais

dos cidadãos. Este modelo processual, adoptado entre nós, pretende traduzir o poder-dever que pertence ao tribunal de esclarecer o facto sujeito a julgamento, criando ele próprio as bases necessárias à sua decisão. Com este princípio acentua-se convenientemente o carácter indisponível do objecto e conteúdo do processo penal, bem como a sua intenção dirigida à procura da verdade material que garante simultaneamente a integridade e dignidade do arguido.

O juiz não possui uma posição meramente passiva, o objecto processual não fica da

disponibilidade das partes, pelo que não há um princípio da auto responsabilização probatória das partes.

O juiz deve, quanto tal se mostre necessário procurar a verdade material, ainda que tal

não seja requerido pelas partes.

ÂMBITO DE APLICAÇÃO DO PROCESSO PENAL

1. Âmbito material: o âmbito material de aplicação do direito processual penal coincide com os limites da jurisdição portuguesa em matéria penal. O âmbito exacto da delimitação da aplicabilidade do direito processual penal, é-nos fornecido pela jurisdição civil, existindo ainda várias zonas de intercepção, porque a maior parte dos crimes penais, comportam simultaneamente a existência de um ilícito civil. A nossa ordem jurídica resolver esta questão, através do princípio da adesão, previsto no artigo 71, através do qual, se institui que o pedido de indemnização cível, fundado na prática de um crime, deve ser deduzido em processo penal, conforme estipula o artigo 377.º O princípio da adesão é obrigatório, sendo permitido a sua dedução em separado, nos casos expressamente previstos no artigo 72. Tenha-se em atenção que, não obstante da indemnização ser deduzida em processo penal, não perde, por isso, a sua natureza civil, e continua a ser regulada pela lei civil, valendo para a sua aplicação os pressupostos processuais do processo civil.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO 2. Âmbito

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2. Âmbito espacial: assenta na ideia de que a jurisdição penal se contém estritamente dentro dos limites do estado, aplicando-se aqui sim, o princípio da

territorialidade, previsto no artigo 6. A lei processual penal, pode aplicar-se em território estrangeiro, nos limites definidos pelos tratados, convenções e regras de direito internacional, nos termos previstos no artigo 229.º A respeito do âmbito espacial do direito processual penal, cumpre diferenciar:

a. Cartas pregatórias: carta emitida por um tribunal português dirigida a outro tribunal português, requerendo a prática de determinada diligência, por exemplo a audição de um testemunha.

b. Cartas rogatórias: carta emitida por um tribunal estrangeiro para outro

tribunal estrangeiro, requerendo a prática de determinada diligência, por exemplo a audição de um testemunha

3. Âmbito temporal: o âmbito temporal de aplicação do direito processual penal, resulta da aplicação das regras gerais do artigo 12.º d código civil. Assim, a lei

apenas dispões para futuro, pelo que a nova lei processual, terá aplicação aos novos processos, mas também aos processos pendentes já em curso, uma vez que, estando no âmbito do direito adjectivo, não há a necessidade de salvaguardar expectativas jurídicas dos cidadãos. Como vimos, há duas excepções imediatas à aplicação da lei nova, que constam do artigo 5.

4. Âmbito pessoal: o direito processual penal, aplica-se a todas as pessoas que se encontrem a residir no território nacional, sejam de nacionalidade portuguesa ou não. há contudo algumas limitações ao âmbito pessoal do processo penal, a saber:

a. Isenções decorrente de aplicação de normas do direito público, como a convenção de Viena, que confere isenção penal aos chefes de estado diplomadas, que cometendo um crime, são enviados ara o seu ais de origem para aí serem julgados.

b. Isenções resultantes do direito constitucional português, que estabelece que o PR, deputados, membros do governo, conselho de estado, demais titulares de cargos públicos, possuem imunidades penais, sendo julgados por tribunais superiores, no fim do mandato para o qual foram eleitos.

R EQUERIMENTOS O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO

REQUERIMENTOS

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No processo penal existem dois meios de se fazerem requerimentos: os escritos e os

orais.

PRINCÍPIOS DE PROCESSO PENAL

I. PRINCÍPIOS ATINENTES À INICIATIVA OU PROMOÇÃO PROCESSUAL

1. Princípio da oficialidade

2. Princípio da legalidade

3. Princípio da acusação

II. PRINCÍPIOS ATINENTES À PROSSECUÇÃO OU DECURSO DO PROCESSO

1. Princípio da investigação

2. Princípio do contraditório

3. Princípio da suficiência

4. Princípio da concentração

III. PRINCÍPIOS ATINENTES À PROVA

1. Princípio da investigação

2. Princípio da investigação da prova

3. Princípio in dubio pro réu

IV. PRINCÍPIOS ATINENTES À FORMA

1. Princípio da oralidade

2. Princípio da publicidade

3. Princípio da imediação

I. Princípios atinentes à iniciativa ou promoção processual

Princípio da oficialidade, artigo 48

O princípio da oficialidade responde à questão, a quem compete a iniciativa de investigação da prática de um crime, e a decisão de a submeter ou não a julgamento.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Entre nós,

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Entre nós, o princípio da oficialidade está contido no artigo 48.º, onde é consagrado a competência exclusiva do MP na iniciativa de investigação de prática de um crime. Ao MP cabe, de acordo com o disposto no artigo 53.º a colaboração com o tribunal na descoberta da verdade e na realização do direito, obedecendo em todas as intervenções processuais de estrita objectividade. Assim, cabe-lhe:

a. Receber as denúncias, as queixas e as participações e apreciar o seguimento a dar-lhes;

b. Dirigir o inquérito;

c. Deduzir a acusação, sustentá-la efectivamente na instrução e no julgamento; ou arquivar o inquérito;

d. Impor recurso, ainda que no exclusivo interesse da defesa;

e. Promover a execução das penas e das medidas de segurança.

O princípio da oficialidade, ou da promoção oficiosa do processo, não se afirma contudo, sem limitações derivada da natureza dos crimes: públicos, semi-públicos e particulares.

CRIMES PÚBLICOS: são crimes em que o MP promove oficiosamente e por sua própria iniciativa o processo penal sem necessidade de apresentação de queixa. O MP tem notícia do crime, nos termos do artigo 241.º por conhecimento próprio, por intermédios dos órgãos de polícia criminal, ou mediante denúncia, que pode ser obrigatória, artigo 242.º ou facultativa, artigo 244. Não é possível desistir do processo. É exemplo deste tipo de crime o homicídio.

CRIMES PARTICULARES EM SENTIDO AMPLO: são crimes em que o MP necessita para a promoção do processo penal de queixa do ofendido. Os crimes particulares em sentido amplo comportam duas sub-modalidades:

a. CRIME SEMI-PÚBLICO: São crimes em que é necessário que exista queixa do ofendido para que o MP tenha legitimidade para promover o processo. Ou seja para que se inicie o processo é necessário sempre existência de queixa. É exemplo deste tipo de crimes, o artigo 143 onde se prevê o crime de ofensas à integridade física.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO b. C

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b. CRIMES PARTICULARES EM SENTIDO ESTRITO: são crimes em que além da denúncia do

mesmo ao MP, o ofendido tem necessariamente que deduzir acusação particular, nos termos do artigo 50/1, pelo que no caso em que seja levado a julgamento, deverá o ofendido constituir-se assistente. A queixa, a acusação particular e a constituição de assistente são pressupostos processuais, do crime particular, sendo que neste caso, estamos perante uma verdadeira excepção ao princípio da oficialidade. É exemplo de um crime particular em sentido estrito, o crime de injúria.

Quer nos crimes semi-públicos quer nos crimes particulares em sentido estrito, é possível a desistência ou renúncia da queixa ou da acusação particular, artigo 51.

Assim, aquando da leitura do código penal, temos de estar atento às disposições sobre o tipo de crime:

1. Se o tipo legal de crime nada disser, é porque a sua natureza é pública;

2. Se o tipo legal de crime estipular a necessidade de queixa, então é porque a natureza do crime é semi-pública;

3. Se o tipo legal de crime depender de acusação particular, estaremos perante um crime de natureza privada.

Princípio da legalidade

O princípio da legalidade é pedra angular de todo o processo penal, e opõe-se ao chamado juízo de oportunidade, segundo o qual a promoção e prossecução do processo penal, está no livre arbítrio do MP. Entre nós a aplicação deste princípio faz com que toda a actividade desenvolvida pelo MP se desenvolva estritamente nos termos da lei, e não segundo questões de oportunidade, o que se traduz na punição do MP, sempre que o mesmo não cumpra o disposto nas disposições legais que pautam a sua actividade.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Como forma

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Como forma de cumprimento deste princípio, o MP está obrigado, nos termos do artigo 262/2 a abertura de inquérito, sempre que tenha notícia de crime, salvo nos casos devidamente ressalvados no CPP. Da mesma forma, estabelece o artigo 283 a obrigatoriedade de dedução de acusação por parte do MP, sempre que durante o inquérito tiverem sido recolhidos indícios suficientes de que foi praticado crime.

Do princípio da legalidade, deriva ainda o princípio da imutabilidade da acusação pública, segundo o qual a acusação não pode ser retirada a partir do momento em que um tribunal foi chamado a pronunciar-se sobre ela, tendo de se prosseguir até ao julgamento.

Uma das consequências da verificação do princípio da legalidade traduz-se na fiscalização e controlo que é feita à actuação do MP, que é feita por duas vias:

1. Controlo judicial das suas decisões, desencadeada pelo arguido no que se refere à existência ou não de instrução.

2. Intervenção hierárquica: artigo 286, que pode ser desencadeada quanto é proferido um despacho de arquivamento e a instrução não é requerida. Assim, nos casos em que é proferido um despacho de arquivamento do inquérito, a decisão do MP é controlada através ou da abertura da instrução, ou através da intervenção hierárquica.

Nota: Apesar de relevância do princípio da legalidade para se preservar os direitos fundamentais dos cidadãos, existem, certas limitações ao princípio da legalidade relacionadas com mecanismos de desjudiciarização da justiça que são admitidos. Enquadra-se neste campo a figura do arquivamento em caso de dispensa ou isenção de pena, artigo 280, e a suspensão provisória do processo, artigo 281. Ambos são alternativas ao despacho de acusação, pois apesar do MP ter recolhido indícios de prova suficientes para levar a cabo a acusação, decide não leva-lo a julgamento. Trata-se por isso, de mecanismos que apenas são válidos para a pequena e a média criminalidade.

Princípio da acusação

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO O princípio

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O princípio da acusação, com assento constitucional no artigo 32/5 surge como garantia de imparcialidade e objectividade que devem presidir às decisões judiciais. Isto implica que a entidade julgadora não seja a mesma que investiga o crime, pelo que entidade julgadora, apenas pode investigar e julgar dentro dos limites que lhe são colocados à disposição pela entidade que investiga, que será o MP ou o juiz de instrução. Tenha-se em atenção que a existência do princípio da acusação, não transforma o nosso processo num processo acusatório, pois este tem na sua base na oralidade e na posição passiva do juiz, que não se verifica entre nós.

Implicações do princípio da acusação

1. O tribunal que vai julgar a causa não pode, por sua iniciativa, começar a investigar o mesmo, este tem de ser investigado por uma entidade diferente.

2. A dedução da acusação é pressuposto de toda a actividade jurisdicional de investigação, conhecimento e decisão. A ordem jurídica chama assim solenemente um dos membros da comunidade jurídica, à responsabilização. Assim o juiz apenas decide e julga uma questão, quanto tal lhe for, previamente requerido ou pelo MP, artigo 283, ou excepcionalmente pelo assistente, artigo

285/1.

3. A acusação, define e fixa o objecto do processo, bem como os poderes de cognição do tribunal e a extensão do caso julgado. É a este efeito que se chama vinculação temática do tribunal, onde se consubstanciam os princípios da identidade, da unidade, da indivisibilidade e consunção do objecto do processo penal. O objecto do processo penal, deve manter-se o mesmo, desde a acusação até ao trânsito em julgado da sentença. Trata-se de uma orientação que se compreende à luz dos valores que lhe estão subjacentes, assentes na tutela de defesa dos direitos do arguido, que se vê, deste modo, protegido contra alargamentos arbitrários da actividade acusatória do tribunal. Por isso, os factos submetidos a julgamento são apenas aqueles que constam do despacho de pronúncia. Mantendo-se desta forma a unidade do objecto do início até ao fim do processo. Cumpre ainda referir a este respeito, o princípio da consunção do objecto do processo. De acordo com esta orientação, na eventualidade de esquecimento, por parte do tribunal, da apreciação de determinados factos, o trânsito em julgado dessa decisão, consome os mesmos, pelo que tudo se passa,

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO como se

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como se os mesmos tivessem sido conhecidos. Não vai contra este princípio, o artigo 340.º que admite a possibilidade do juiz suscitar autonomamente a produção de prova, uma vez que, tal apenas permite, a investigação de factos existentes mas não de factos novos.

II. Princípios atinentes à prossecução do processo

Princípio da investigação

O princípio da investigação traduz o poder-dever que incumbe ao tribunal de esclarecer

e constituir autonomamente, para além das contribuições da acusação e da defesa, do facto sujeito a julgamento. Este princípio encontra-se assim directamente relacionado com matéria de provas, dai

que também se possa designar por princípio da verdade material.

Princípio do contraditório

Consagrado constitucionalmente, no artigo 32/5, e no CPP nos artigos 327 e 61/1/b, o princípio do contraditório, constitui um princípio basilar de todo o estado de direito, e assenta no postulado que o juiz não pode decidir um processo, sem facultar ao arguido a

possibilidade de se defender, ouvindo inclusive, as testemunhas e os peritos, artigo 116 e

117.

O contraditório, assume grande relevo em todo o processo penal, não só ao nível da fase

de inquérito, mas também, na fase de instrução.

Princípio da suficiência

De acordo com o princípio da suficiência, o processo penal, deve ser adequado a

conhecer de todas as questões cuja solução se revele necessária para a resolução do caso. Assim, na eventualidade de serem suscitadas, no âmbito do processo penal, questões de outra natureza, nomeadamente ao nível administrativo, civil, fiscal, deverá o juiz delas conhecer, sem necessidade de enviar as mesmas para outro tribunal.

O princípio da suficiência, associado à ideia de completude, possui as suas raízes no

positivismo jurídico, onde se afirmava a auto-suficiência da ordem jurídica. Hoje, num

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO sentido mais

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sentido mais esbatido, apenas se entende que, em sede de processo penal, o princípio da suficiência, traduz a necessidade das questões prejudiciais serem resolvidas dentro do processo, em conformidade com o disposto no artigo 7.

Questões prejudiciais As questões prejudiciais são aquelas que, embora integradas no processo penal, possuem objecto ou até natureza diferente do da questão principal do processo, (nomeadamente questões administrativas, civis), sendo susceptíveis de constituírem objecto de um processo autónomo, sendo por isso, de resolução prévia indispensável, para se conhecer em definitivo da questão principal. São exemplos de questões prejudiciais:

1. Num crime de furto, saber se o bem em causa é ou não alheio;

2. Num crime de abuso de confiança a emissão do título de posse;

3. No crime de falsificação de documentos, saber o que é um documento autentico.

Para o tratamento das questões prejudiciais não penais em processo penal, existem basicamente dois sistemas: o sistema do conhecimento obrigatório das questões prejudiciais e o sistema da tese da devolução obrigatória.

O artigo 7.º baseado nas exigências de concentração e de continuidade processual que

devem pautar o processo penal, mas tendo simultaneamente em atenção, a complexidade e a especialidade a que podem estar sujeitas determinadas questões, adoptou uma tese intermediária.

O artigo 7 estabelece que “ O processo penal é promovido independentemente de

qualquer outro e nele se resolvem todas as questões que interessarem à decisão da causa.” Há contudo, algumas excepções, constantes do n.º 2 que conferem a possibilidade do

juiz suspender o processo, se a questão prejudicial não puder ser convenientemente resolvida no processo.

A doutrina tem entendido que este n.º 2, deve ser entendido como um poder dever

vinculado, pelo que estando verificadas as circunstâncias ai previstas, o juiz deve

suspender a instância e enviar o translado para o tribunal competente.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Há porém,

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Há porém, quem entenda que se trata de um poder discricionário, com base no disposto no artigo 400.

De acordo com o disposto no artigo 7/2 para que a questão prejudicial, seja enviada pelo tribunal competente, é necessário:

1. Que tal seja essencial para se conhecer da existência de um crime;

2. Seriedade da questão, que não possa ser suficientemente resolvida pelo juiz penal;

3. A questão tem ser obrigatoriamente requerida após a acusação ou após o requerimento para a abertura da instrução pelo PM, assistente ou pelo arguido, ou ser ordenada oficiosamente pelo tribunal.

4. Apesar de se permitir o envio da questão prejudicial ao tribunal competente, o objectivo da lei é, assegurar o menor dano possível ao princípio da suficiência. Por isso, o n.º 4 estabelece que, o juiz tem de marcar um prazo de suspensão, permitindo-se a sua prorrogação até um ano. Findo o período da suspensão, não tendo sido resolvida a questão, a mesma será decidida pelo tribunal penal. O MP deverá intervir e promover o rápido andamento da questão prejudicial, informando sempre que possível o tribunal penal do seu desenvolvimento. Além disso, estando o processo parado, por mais de um mês, independentemente do motivo, a questão prejudicial será proferida pelo tribunal penal, embora a decisão possua apenas caso julgado formal.

Princípio da concentração

De acordo com o princípio da concentração, entendido num sentido amplo, o processo penal deverá, desenrolar-se, tanto quanto possível, de modo unitário e continuado quer no espaço, quer no tempo. Na sua acepção restrita, este princípio assume particular relevo, na audiência de discussão e julgamento da causa. Esta deve decorrer no mesmo espaço físico (concentração espacial) e de modo concentrado no tempo, de modo contínuo, suspendendo-se e interrompendo-se apenas nos casos estritamente necessários. O princípio da concentração surge como corolário dos princípios da oralidade e da imediação ganhando especial significado no âmbito da análise das provas.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO A oralidade,

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A oralidade, imediação, bem como a análise de provas, exige uma audiência unitária e

continuada em que haja lugar a apreciação conjunta e esgotante de toda a matéria do

processo –por isso, se exige a concentração espacial e sobretudo temporal, relacionada com a produção de prova. Desta forma, se não existisse limites temporais à realização da audiência, a convicção que se deve forma no espírito do juiz quebrar-se-ia. Precisamente por isso, é que o artigo 328.º contém algumas regras para a suspensão e interrupção da audiência. “A audiência é contínua, decorrendo sem qualquer interrupção ou adiamento até ao seu encerramento

O n.º 2 estabelece algumas excepções ao n.º 1 admitindo que se façam interrupções

estritamente necessárias para efeitos de alimentação, repouso dos participantes,

admitindo-se a sua retoma no dia útil imediatamente posterior, se a audiência não puder ser concluída no mesmo dia.

A existência deste tipo de pausas, não comporta quaisquer problemas quanto ao

material probatório, pelo que as provas assentes não voltarão a ser questionadas.

O mesmo não se passa com as situações de adiamento, previstas no n.º 3 do artigo 328.

Temos de ter em conta três casos que podem verificar-se:

1. A audiência poderá ser interrompida até ao máximo de 8 dias, sendo que nestes casos não há necessidade de reapreciação da prova, pelo que nos termos do artigo 328/4, a audiência retoma-se a partir do último acto processual praticado na audiência interrompida.

2. Nos casos em que interrupção seja superior a 8 dias e inferior a 30 dias inclusive, é necessário que o juiz que preside ao tribunal tenha de proferir um despacho que justifique o adiamento. Uma vez reaberta a audiência, o juiz terá de decidir se é ou não necessário repetir a prova já produzida, artigo 328/5, não sendo permitida a renovação de toda a prova produzida.

3. Na eventualidade da audiência ser interrompida por mais de 30 dias, toda a prova até então produzida, terá que ser repetida novamente, uma vez que perdeu validade. Artigo 328/6.

III. Princípios relativos à produção de prova

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Princípio da

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Princípio da investigação ou da verdade material

Sabemos que o nosso processo baseia-se no princípio da investigação, na medida em que é ao tribunal a quem cabe investigar todos os indícios para se chegar à verdade material. O artigo 340 1 estabelece para o efeito, o princípio geral que o tribunal ordena oficiosamente ou a requerimento, a produção de todos os meios de prova, cujo o conhecimento se lhe afigura necessário à descoberta da verdade material e à boa decisão da causa.

O código possui alguns afloramentos deste princípio:

a. Artigo 154/1, prevê a possibilidade do juiz requerer

oficiosamente prova pericial.

b. Artigo 164/2 prevê a possibilidade do juiz requerer

documental.

oficiosamente a prova

c. Artigo 174, prevê a possibilidade das revistas (pessoas) ou

serem realizadas por ordem oficiosa do juiz.

buscas (casas)

d.

Artigo 267, estabelece a possibilidade do juiz ordenar ex oficio inquéritos.

e.

Artigo 288/8 estabelece o poder de investigação oficiosa do

juiz na fase de

instrução.

f. Artigo 290/1 estabelece a possibilidade do juiz todos os actos desenrolar da instrução.

necessários ao

g. Artigo 354 permite a possibilidade de se efectuar exame local por ordem

oficiosa do juiz.

CONSEQUÊNCIAS DA APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA INVESTIGAÇÃO AO PROCESSO PENAL:

1 Aplicável à instrução artigo 304/2

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO 1. O

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1. O esclarecimento da matéria de facto não pertence exclusivamente às partes, mas em último termo ao juiz. É sobre ele que recai o ónus de investigar

e esclarecer oficiosamente, tudo o que se mostre necessário para a obtenção

da verdade material, independentemente das contribuições das partes. Isto não se opõe ao princípio da acusação, nem à sua estrutura acusatória, uma vez que, que isto, não limita nem impede a actividade probatória do MP,

arguido ou assistente. Assim sucede porque este princípio apenas significa que

a actividade de investigação do tribunal não é limitada pela matéria de facto

trazida pelos outros sujeitos processuais.

2. Inexistência de um ónus da prova em sentido formal. Não impende nem sobre

a acusação nem sobre a defesa qualquer ónus provatório de afirmar,

contradizer e impugnar factos, embora se permite que as partes o façam. Há autores que defendem a existência de um ónus da prova material, no sentido, em que, sempre que o juiz tenha dúvidas sobre certos factos, deverá decidir em favor do arguido, absolvendo. F. Dias é contra esta afirmação, uma vez que, ela apenas representa a aplicação de um princípio próprio e autónomo do direito penal designado de in dubui pro réu. Esta posição compreende-se perfeitamente, porque à luz do artigo 315.º o arguido não tem qualquer obrigação ou dever de contestar, não lhe advindo qualquer consequência desfavorável na sua ausência. Ainda que em sede de processo penal, possa existir um pedido de indemnização cível, não há qualquer ónus de contestar.

3. Como está em causa a procura de uma verdade material e não uma verdade formal, como sucede no processo civil, o resultado do processo não esta directamente relacionado com o comportamento processual do arguido.

Nota: o princípio do inquisitório tem um papel subsidiário no que refere à audição das testemunhas, pois o artigo 348 estabelece que as mesmas são primeiramente inquiridas por quem as apresente e só num segundo momento pelos restantes sujeitos processuais.

Princípio da livre apreciação da prova

A produção de prova visa oferecer ao tribunal as condições necessárias para que este forme a sua convicção sobre a existência ou inexistência dos factos e situações que relevam para a descoberta da verdade. No âmbito probatório, há duas questões de relevo que não devem ser confundidas:

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Uma coisa

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Uma coisa é a produção de provam relativa ao modo como esta se produz. Outra coisa diferente é a valoração da mesma, que se relaciona com o modo de articulação das diferentes formas de prova.

Ao nível da valoração da prova, vigora entre nós o sistema da livre prova artigo 127º. Este sistema parte do princípio que o valor e força dos meios probatórios não podem ser correctamente aferidos a priori, com carácter de generalidade, devendo antes ser apreciados in casu, atendendo às particularidades concretas. Em conformidade com o exposto, estabelece o artigo 127 que “salvo quando a lei dispuser diferentemente, a prova é apreciada segundo as regras da experiência e a livre convicção da entidade competente”. Apesar desta disposição conter uma cláusula indeterminada, não deve significar que a apreciação da prova deva ser feita de modo arbitrário, mas antes que a decisão do juiz deve ser fundamentada de tomada de modo consciente e objectivo.

O princípio da livre apreciação da prova, comporta algumas excepções:

a. Artigo 128.º / prova testemunhal: apenas vale como limitação os casos do testemunho do ouvir dizer ou da chamada prova indirecta.

b. Artigo 6/1/c e 343/1, em relação às declarações do arguido, há que referir que ele nuca poderá ser prejudicado quanto use do seu direito ao silêncio. Assim sucede porque as declarações tal como o silêncio do arguido são um direito e não um dever. O comportamento processual do arguido tem implicações ao nível da confissão, artigo 344, uma vez que a sua confissão livre e integral comportará um encurtamento do processo, uma vez que se passa de imediato para as alegações orais. A confissão parcial o processo segue os seus trâmites normais.

c. Artigo 163/1 no que se refere à prova pericial, o juiz apenas poderá afastar a me

d. A prova documental faz prova plena em juízo.

Princípio in dubio pro réu

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Em processo

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Em processo penal, o juiz não se encontra vinculado aos factos trazidos a juízo pelas partes, muito pelo contrário, o juiz está vinculado ao dever de investigação com vista à descoberta da verdade material. Isto significa que em último termo compete ao juiz oficiosamente instruir e esclarecer os factos sujeitos a julgamento. Não recai assim, qualquer ónus provatório sobre as partes. Contudo, findo o processo, não tendo o juiz certeza sobre a veracidade dos factos, deverá decidir a favor do réu absolvendo-o. Apesar de se ouvirem algumas vozes, no sentido que esta absolvição do arguido em caso de dúvida, ou falta de provas, consubstancia um verdadeiro ónus da prova, isto não é verdade, até porque o MP não tem como função unicamente acusar, mas antes a descoberta da verdade, estando vinculado por um dever de objectividade.

A origem histórica deste princípio remonta ao século XIX, o mesmo foi introduzido na

DUDH e entre nós tem assento constitucional, no artigo 32/3 sob forma da presunção de

inocência até ao trânsito em julgado da decisão.

Este princípio vale apenas em relação à prova dos factos, ou seja, aplica-se em relação

à matéria de facto sem qualquer limitação, e não tem qualquer aplicação a questões

de direito. Como tem aplicação apenas em relação a factos, este princípio é válido para efeito de determinação dos elementos fundamentadores e agravantes da incriminação, para as causas de exclusão da ilicitude e da culpa, às condições objectivas de punibilidade, bem como às circunstâncias modificativas em geral. Apesar da aplicação do princípio in dubio pro réu, estar apenas circunscrito à matéria de facto, não se encontra fora da competência dos tribunais superiores que conheçam exclusivamente matéria de direito.

Como excepção a este princípio, apontam-se em regra os crimes previstos nos artigos 164 e 165, nos quais a não obtenção da prova, actua em desfavor do arguido.

A doutrina tem defendido que este princípio não se aplica aos pressupostos processuais,

contudo, F. Dias, tem sido defensor, que em dois casos particulares se deve admitir a sua aplicação.

1. Quanto depender da prossecução do crime, por exemplo

em casos de prescrição.

2. Quanto tal implique submeter ou não o arguido em julgamento.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO IV. Princípios

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IV. Princípios relativos à forma do processo

Todos os princípios relativos à forma do processo, – princípio da publicidade, da oralidade, da imediação, – respeitam de modo directo a forma como deve correr um processo penal, mas exercem mais influência na fase de discussão e julgamento da causa.

Princípio da publicidade

De acordo com o disposto nos artigos 211, 206 CRP e 321 do CPP, as audiências dos tribunais são públicas, podendo assistir à realização dos actos processuais, o público em geral, bem como meios de comunicação social, sendo permitido a consulta, obtenção de certidões. Este princípio deve ser equacionado com a necessidade de investigação do crime, pelo que nos termos do artigo 86/1, o processo apenas se torna público a partir da decisão instrutória.

O objectivo do princípio da publicidade é dissipar qualquer possibilidade de existência

de desconfianças sobre a aplicação da justiça, da sua independência e imparcialidade.

A lei admite excepções ao princípio da publicidade, pelo que, mediante despacho

fundamentado o juiz pode limitar a publicidade da audiência, impedindo nomeadamente a captação de imagens da audiência, quando:

1. Tiver sido julgado crime contra a liberdade sexual e o ofendido tiver menos de

16 anos, artigo 87/3. 2. Quando audiência puser em causa a dignidade da pessoa, a moral pública ou

o normal decurso do julgamento.

As excepções ao princípio da publicidade podem ser determinadas oficiosamente pelo juiz, requeridas pelo MP, a pedido do arguido ou do assistente, artigo 87/1/7.

Existe ainda a possibilidade do juiz afastar a presença de certas pessoas da assistência, artigo 87/6, 322, 323.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Como forma

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Como forma de cumprimento do princípio da publicidade, a lei permite no artigo 88.º que os órgãos de comunicação social possam de acompanhar do processo, desde que tal não ponha em causa o segredo de justiça.

A lei confere uma latitude ampla de actuação aos órgãos de comunicação social, mas

com o limite inultrapassável que não ponha em causa a consistência e eficácia do direito, da defesa do arguido ou a posição punitiva do estado.

Não obstante destes excepções, a leitura da sentença será sempre pública, artigo 87/5.

Princípio da oralidade e da imediação

O objectivo do princípio da oralidade e da imediação é facilitar a tomada de uma

decisão justa e rápida, em conformidade com o respeito pelos direitos do arguido.

A referência ao princípio da oralidade manifesta-se na necessidade de se chegar a uma

decisão pela via oral, através da discussão oral da matéria probatória. Isto permite um contacto mais directo entre o juiz e os demais sujeitos processuais, sobretudo na fase de discussão e julgamento da causa.

Intrinsecamente ligado ao princípio da oralidade, o princípio da imediação visa estabelecer uma relação de proximidade comunicativa entre o tribunal e os demais intervenientes processuais, de forma a que o juiz possa obter uma percepção própria da matéria que haverá de servir de base à sua decisão. Este princípio parte assim do postulado, que a formação correcta da convicção do juiz, deve partir do seu contacto directo com toda a matéria de facto e prova a produzir, usando para o efeito da sua experiência e convicção.

Manifestações do princípio da oralidade e da imediação: artigos 96, 298, 348, 350, 355, 360, 363, 423.

Limitações ao princípio da oralidade: artigo 96/1, 356, 357, relativo à possibilidade de leitura de declarações do arguido que já tenha prestado declarações. Artigos 333, 334, onde se prevê a possibilidade do arguido ser julgado à revelia, sem a sua presença, sob produção de prova unicamente documental.

FASES DO PROCESSO PENAL

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO 1. Auto

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1. Auto de notícia, artigo 241: o MP pode ter conhecimento do próprio do crime, pela via da denúncia, por queixa, por flagrante delito.

2. Fase de inquérito, artigo 262: para o auto de notícia dar seguimento à fase de inquérito é necessário que exista o mínimo de consistência sobre a possibilidade de existência de um crime. A fase de inquérito, serve para se investigar se há ou não efectivamente indícios/provas que apontem para a prática de um crime.

3. Fase da instrução, artigo 283: (facultativa) a única finalidade da instrução é apenas concluir se há ou não indícios suficientes para levar a questão a julgamento. Termina com um despacho de pronúncia ou despronuncia.

4. Fase de julgamento, artigo 311: o processe será julgado por um juiz para este apurar a verdade material.

PRINCIPAIS MOMENTOS DO PROCESSO PENAL:

Temos um processo-crime a partir do momento em que alguém comete um facto ilícito punido de determinada maneira. Quando a vítima de um crime quer dar procedimento tem que iniciar o processo

penal.

No entanto, esta iniciativa está sempre dependente da classificação do crime como publico, semi-publico (depende de queixa) ou particular (depende de queixa, acusação particular e constituição de assistente – art. 50º nº1).

Principais passos a ter num crime de natureza particular:

a) Queixa: o senhor A tem que apresentar queixa para que o MP tome conhecimento que B proferiu palavras ofensivas da sua honra e consideração para que integre o crime de injurias – art. 181º CP. Veja-se que em direito penal vigora o princípio da tipicidade pelo que temos sempre que verificar se os pressupostos de que depende a verificação de um crime estão preenchidos. Esta queixa é apresentada, normalmente, nos serviços do MP (pode ser das instalações da polícia), para que este dê inicio ao inquérito. Uma vez recebida a queixa o MP vai abrir inquérito (262º) para investigar se houve ou não crime, ou seja, se B chamou “bandido” a A e este ficou ofendido na sua honra e consideração. Para além disso, tem também que se verificar que B quis ofender a honra e consideração de A, pois a punição pressupõe a existência de dolo - art. 13º CP.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Se B

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Se B actuou se dolo, isto é, se tinha fundadas razões para dizer que A era bandido, então o facto não era susceptível de punição. O inquérito serve para o MP tomar a decisão se acusa ou não.

b) Constituição de assistente: Como estamos perante um crime particular o ofendido tem que se constituir assistente no prazo de 8 dias a contar da queixa – art. 246º nº4. Assim, a constituição como assistente é quase imediata.

c) Dedução da acusação: esta só é proferida no final do inquérito pois só ai é que se tem todos os elementos para decidir. Só aqui se sabe quem são os autores, que provas foram constituídas, etc. Durante o inquérito, o MP chama os peritos, recolhe provas, ouve testemunhas, etc. Assim, faz todas as diligências para verificar se houve ou não crime. Chegado ao fim do inquérito acusa ou não acusa em função das provas que obteve. Nos crimes particulares quem acusa primeiro é o assistente. O inquérito termina por despacho do MP onde se diz: “declaro encerrado o inquérito; ou nos casos dos crimes particulares “notifique o assistente para deduzir acusação”.

E se fosse um homicídio? - Nesse caso seria um crime público em que o MP tomava conhecimento dele e abria o inquérito. Por exemplo, se M apareceu na rua morta com um tiro na cabeça e sem carteira, há todos os indícios que o homicídio resultou do assalto.

d) Abertura

determinado

agente, este tem duas hipóteses:

- Nada faz e o juiz de julgamento presidirá ao processo. Note-se que a designação “juiz de julgamento” não é legal, mas foi por nós adoptada por razões de simplicidade;

- Faz um requerimento de abertura da instrução dirigido ao juiz de instrução.

Note-se que esta fase não é obrigatória (286º nº2) e só pode ser requerida por

quem tenha legitimidade para o fazer.

da

Instrução:

quando

é

deduzida

acusação

contra

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Quando se

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Quando se requer a abertura da instrução surge uma alteração grande quanto à presidência desta nova fase. Agora, é o juiz de instrução que manda, embora no inquérito o juiz de instrução já pratique alguns actos – art. 17º. Da instrução resultará a apreciação da decisão do inquérito – art.286º.

Durante este, podem ser trazidas novas provas ao processo e depois de realizado

o debate instrutório confirma a acusação através de um despacho de pronuncia

ou não confirma, proferindo um despacho de não pronuncia. Se pronuncia o arguido o despacho segue, se não pronuncia o processo morre. Assim, face ao que for resolvido na instrução e no inquérito o juiz tomará a decisão. Caso opte pode pronunciar o arguido, como está em causa um crime de homicídio, o arguido será julgado perante Tribunal Colectivo. Note-se que apenas há recurso das decisões do juiz, já não havendo quanto às decisões do procurador.

e) Julgamento: é aqui que se vai verificar se houve ou não crime. Agora a prova tem que ser produzida em audiência – art. 354º. Na audiência de julgamento é que se tem que demonstrar os factos. Só a prova que for produzida em audiência de julgamento é que pode servir para condenar

o arguido.

Intervenção no processo enquanto advogado:

Quando o Senhor M for chamado para ser ouvido podemos ter:

a) Um interrogatório judicial: art. 143. É feito perante o MP e não perante o juiz. Aqui

a presença da defesa pode ser dispensada.

b) Um interrogatório judicial: art. 64º. É feito perante um juiz. Aqui é sempre exigida a presença do defensor.

A explicação para isto (art. 141º nº6) é precisamente o dever de o advogado controlar que tudo se passa dentro da normalidade, como por exemplo, que o arguido foi informado dos seus direitos, que sabe os factos em relação aos quais está a responder, etc. Por exemplo: não pode dizer ao arguido para falar das fls 85 a 98 sem lhe dizer o que está lá. Houve um acórdão que veio dizer que se deve dizer ao arguido todos os factos de que está acusado e em que circunstâncias.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Para além

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Para além disto, o advogado também pode aconselhar o arguido a não prestar declarações pois não está obrigado a faze-lo. O advogado pode ainda requerer diligencias de prova, colaborando assim com o processo. Também, quando não concordar com a acusação do MP, o advogado pode requerer a abertura da instrução em representação do nosso cliente, quer seja o ofendido, quer seja o arguido. Nestes casos, o advogado faz um requerimento de abertura de instrução de forma a convencer o juiz que a decisão do MP foi mal tomada e que deveria ter havido um arquivamento. Perante tal requerimento, o juiz de instrução verifica que estão preenchidos os requisitos no art. 287 para a abertura da instrução e, caso estejam, decreta-a aberta. O prazo para a abertura desta é de 20 dias, nos termos do n.3. A instrução, depois de validamente requerida é obrigatória. Todavia, dentro desta só há um acto obrigatório que é o debate instrutório – art. 289º. Quanto aos outros actos só são praticados aqueles que o juiz entender levar a cabo. Assim, na instrução o advogado também tem uma participação activa, desde logo, no debate instrutório. Nas fases anteriores ao julgamento o advogado pode ainda fazer requerimentos.

A PRIMEIRA CONSULTA

Muito do que se faz no início do processo, pode ter reflexos ao longo de todo o processo, pelo que o primeiro contacto com o arguido, é essencial para que o início do processo seja efectuado da melhor maneira. Isto assume particular relevo nos casos em que, o arguido cometeu crime, e de imediato consultou o advogado, pois quando a consulta ocorre após o primeiro interrogatório judicial, a questão pode ser mais complexa, no sentido em que a estratégia de defesa do advogado, está condicionada pelas declarações prestadas pelo arguido.

A primeira consulta, deve procurar centrar-se no essencial da questão, embora se deva apreender aspectos laterais, que possam de alguma maneira influenciar a situação do arguido.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO O advogado

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O advogado na primeira consulta deve identificar: tipo de crime, hora, local, objectos usados, testemunhas, posterior conduta do arguido, conhecimento do mesmo, etc. Depois de ter conhecimento destes factos, é necessário proceder ao seu enquadramento jurídico-penal, e analisar:

Se o crime já prescreveu, artigo 118.º CP – a prescrição aplica-se apenas a crimes públicos. Se o crime já caducou, artigo 115.ºCP - a caducidade aplica-se apenas ao crimes de natureza semi-pública e aos crimes privados, nos casos em que não seja deduzida queixa.

Os elementos agravantes ou atenuantes que eventualmente possam existir. A existência ou não de pluralidade de arguidos;

No caso em que estejamos perante um crime de natureza privada, em que é necessário deduzir acusação particular, o professor aconselha que a mesma seja assinada pelo próprio arguido. Na verdade, este pode estar a mentir e toda a construção da acusação será montada em cima de uma mentira, o que poderá levar o advogado a ser acusado do crime de denúncia caluniosa.

Em suma:

Dados que têm que constar de uma participação:

1- Saber a identificação da pessoa contra quem vamos fazer a participação: isto, sem prejuízo de também se poder fazer uma participação contra desconhecido (por exemplo: alguém partiu o vidro do caso do senhor A) e posteriormente o MP vai investigar para apurar quem é o autor do dano. Caso não se consiga apurar o agente o processo será arquivado pois é impossível haver uma acusação contra incertos. Note-se que quando se acusa alguém, esse alguém tem que ser uma pessoa certa e determinada. 2- Comunicação dos factos que ocorreram ao MP: aqui, o advogado tem que extrair dos factos contados pelo cliente uma história com sentido e clara, exposta através de frases curtas de forma a que seja facilmente preceptiva a quem lê. 3- Imputação dos factos ao autor a titulo de dolo ou negligencia: se isto não for possível os factos não são puníveis. 4- Tipificar o crime: demonstrar que estão preenchidos os pressupostos do facto típico.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Para além

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Para além de todo isto, também é importante a prova que se deve levar para o processo como testemunhas, perícias, etc. É importante termos sempre em conta que a prova testemunhal é extremamente falível. No entanto, deve-se sempre indicar testemunhas e averiguar se elas existem.

EXEMPLO DE QUEIXA-CRIME

Queixa-crime:

Excelentíssimo Senhor Procurador Adjunto do MP do Tribunal Criminal do Porto

Mariazinha das Couves, casada, peixeira, portadora do n.º de B.I. 6961717residente Rua das cascas podres, n.º23, casa 11, 2º andar esquerdo, vem por este meio,

Apresentar QUEIXA ao abrigo do disposto no artigo

,

Contra Joaquina dos Borralhos, casada, residente na Rua das cascas podres, n.º23, casa 12, 2º andar esquerdo,

Nos termos e com os seguintes fundamentos:

1.º

No passado dia 16 de presente mês, pela hora do almoço, a queixosa chegou a casa e deparou-se com uma situação que já vinha ocorrendo.

2.º

Mais uma vez, a acusada tinha estado a lavar a sua varanda com lixívia.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO 3.º O

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3.º

O problema surge, porque o estendal da roupa da queixosa situa-se imediatamente por

baixo da varanda daquela.

4.º

O que significa que a roupa em exposição no estendal é directamente atingida pela

água derramada da varanda da acusada.

5.º

Sucede que naquele dia, a queixosa tinha no dito estendal um casaco, que lhe havia custado 150 euros (cento e cinquenta euros).

6.º

Tal situação, naturalmente resultou na danificação do casaco, tornando-se aquele completamente inutilizável.

7.º

De notar que não era a primeira vez que a conduta da acusada provocava danos no vestuário da queixosa, tendo já ocorrido anteriormente situações semelhantes.

8.º

Pelo que a acusada agiu de forma livre, deliberada e consciente, sabendo bem que o seu comportamento era punido por lei e, mesmo assim, não se coibiu de actuar.

9.º

Incorrendo assim na prática de crime de dano, p.p. no art. 212º CP.

10.º

Acresce que, a queixosa, não se conformando com tal conduta da acusada tomou a iniciativa de tentar dialogar a fim de por termo à situação.

11.º

A tal conduta, a acusada reagiu com palavras insultuosas com o objectivo de ofender a

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO honra e

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honra e consideração da queixosa.

12.º

E tais insultos produziram objectivo pretendido pela acusada, ficando a queixosa extremamente ofendida.

13.º

Incorrendo assim a acusada na prática de crime de injurias, p.p.no artigo 188º CP.

Pelo exposto, requer-se a Vossa Excelência que proceda à abertura do inquérito

Arrola-se:

1-

João Marreco, casado, mecânico, residente na rua de Cima n.º38.

2-

Clotilde Aviadora, viúva, reformada, residente na a de Cima n.º 47

3-

Maria de Cima, residente na rua de Cima n.º

Junta:

- Cópias

- Procuração forense

O queixoso

A,

M

Ex.mo Senhor Procurador do Ministério Público

Junto do Tribunal Judicial da Comarca do

e

D,

identificação

completa

Porto (ou do DIAP do Porto)

de

todos

e

indicação

da

menoridade

de

D,

confrontando com documentos a apresentar junto, vêm apresentar queixa contra

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO E e

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E e R, identificação completa de ambos, porquanto e nos termos dos fundamentos

seguintes (283.º CPP):

1.º - No dia 25 de Outubro e 2005, M, cuidando da lide doméstica, recolhendo a sua

roupa, que havia estendido na janela de sua casa, verificou que a mesma se encontrava

manchada com lixívia.

2.º - Entre as peças de vestuário manchadas, encontravam-se dois pares de calças de

ganga do filho D e três pares de calças de fato do marido, bem como diversas camisas e

camisolas de todos os denunciantes.

3.º - A ofendida, observando as manchas, diz que elas só poderiam ter sido provocadas

pela denunciada E, sua vizinha do 4.º esquerdo, por razões de má vizinhança e por

diversos atritos que já as tinha envolvido anteriormente.

4.º - A denunciada E quis danificar as referidas peças de vestuário dos denunciantes,

agindo de forma intencional e consciente, tendo pleno e efectivo conhecimento de que

tal atitude estaria errada e que constituía um ilícito.

5.º

-

Perante

tal

situação,

M

dirigiu-se

a

casa

dos

denunciados

e

pediu-lhe

esclarecimentos acerca do sucedido, de maneira a chamá-la à atenção para tais

comportamentos, tendo tido como resposta certos insultos, que se consagraram pelo uso

das seguintes expressões: “….” e “…”.

6.º - As expressões referidas anteriormente ofenderam profundamente a denunciante M,

sendo objectivamente ofensivas da sua honra e consideração.

7.º - Aliás, era comportamento assíduo dos denunciados proferirem insultos e expressões

ofensivas para toda a vizinhança, mas especialmente para os aqui denunciantes.

8.º

-

A

denunciada

E

quis

ofender,

consideração da denunciante M.

como

efectivamente

ofendeu,

a

honra

e

9.º - Nesse mesmo dia, à noite, quando se dirigiam para o café que costumavam

frequentar, foram interpelados pelos denunciados, que, munidos de um pau e de um

“boxeur” nos dedos, os agrediram aos murros e aos pontapés, desferindo-lhes ainda

golpes com o pau que tinham em sua posse.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO 10.º -

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10.º - Tais agressões perpetradas pelos denunciados provocaram, em A, lesões no tronco,

em M, lesões na cabeça, e em D, lesões nas pernas, tendo todos ficado com as roupas

rasgadas.

11.º - De tal ataque resultou a consequente necessidade de tratamento médico no

Hospital de S. João, no Porto.

12.º - Os denunciados quiseram ofender o corpo e a saúde dos denunciantes, servindo-se

ainda do elemento surpresa para que estes não pudessem reagir capazmente a tais

agressões.

13.º - Acompanhando tais agressões, os denunciados proferiram ainda certas expressões

insultuosas e ofensivas da honra e consideração dos denunciantes, como sejam “…” e

“…”.

14.º - Os denunciantes sentiram-se ofendidos com tais expressões, que ofenderam a sua

honra objectivamente, tendo os denunciados plena consciência do ilícito que faziam

enquanto as proferiam.

15.º - Em todas as condutas descritas supra os denunciados agiram de forma livre,

espontânea, voluntária e consciente.

16.º - Os factos relatados com tais condutas os denunciados cometeram, pelo menos, e

no que melhor for averiguado no inquérito, os seguintes crimes:

o

E – um crime de dano – artigo 212.º CP

 

-

4 crimes de injúrias (o primeiro contra M isoladamente e os outros três contra A,

M e D) – artigo 181.º CP

-

3 crimes de ofensas à integridade física p.p. no artigo 143.º ou 144.º CP.

o

R – 3 crimes de injúrias – artigo 181.º CP

- 3 crimes de ofensas à integridade física p.p. no artigo 143.º ou 144.º CP.

Termos em que se requer:

- instauração do competente

procedimento criminal;

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO - constituição

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- constituição como assistente, devendo os

autos ser remetidos ao senhor juiz de instrução

criminal do Porto, dado que ainda está em

tempo (artigos 50.º, 68.º, n.º 2 e 246.º, n.º 4),

existe legitimidade (artigos 61.º CPP, 143.º e

181.º CP) e procedeu à auto-liquidação da

taxa de justiça respectiva (artigos 519.º CPP e

80.º CCJ).

Junta: procuração forense, certidão de nascimento de D, dois documentos, cópias dos

documento e duplicado legal.

A advogada,

Em suma:

- Dirigimos a queixa ao MP;

- Identificamos todos os intervenientes;

- Descrevemos os factos e fazemos a sua imputação a título de dolo e negligência;

- Juntasse aos autos as cópias legais nos termos do art. 152º n.º2 CPP, sendo que, neste caso, apenas era necessário uma cópia;

- Juntamos procuração forense – “os mais amplos poderes forenses em direito permitidos”. Estes são os poderes gerais, excepto aqueles que a lei ressalva pessoalmente para o arguido, como por exemplo, o direito de prestar declarações. Note-se que no processo penal não é necessário uma procuração com poderes especiais, pois aqueles direitos especiais apenas dizem respeito ao arguido;

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO - Se

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- Se estivéssemos no âmbito do processo civil faltaria o valor da acção e a taxa de justiça. Todavia, neste caso, não se indica o valor da acção pois estamos no âmbito do processo penal em que aquele só é necessário quando fazemos um pedido de indemnização civil;

- Assinamos;

- E, pronta a queixa, entrega-se nos serviços do MP. Quando se entrega a queixa deve-se entregar mais uma cópia para o Tribunal carimbar com a data e assinatura, sendo aquela data que conta para efeitos da prática do acto. O papel carimbado trazemos para o escritório e guardamos no nosso processo.

REQUERIMENTOS AO TRIBUNAL

A) Cabeçalho:

1. A quem dirigimos?

No processo penal a regra é dirigir o requerimento a quem tem competência para

decidir do requerido, ou seja, qual a autoridade judiciária que teria normalmente

competência para instruir tal acto, dependendo tal da fase em que se encontre o

processo – artigo 1.º, n.º 1 b) CPP. A cada uma das fases corresponde uma autoridade

judiciária:

ao

corresponde

o

inquérito

juiz

de

corresponde

instrução,

à

o

fase

Ministério

Público,

do

julgamento

à

fase

de

corresponde

instrução

o

juiz

do

julgamento. No andamento do processo a questão será dirigir o requerimento ao MP,

ao juiz de instrução ou ao juiz do julgamento, sendo a regra, por exemplo, remeter ao

MP quando o processo se encontre na fase de julgamento. Contudo, mesmo nestas

fases

competências

que

não

pertencem ao

MP, mas para

as

promover

é

necessária a intervenção do juiz de instrução – artigo 268.º e 269.º CPP.

2. Para onde dirigimos?

O processo penal pode estar no MP, no Tribunal de instrução ou no juiz do julgamento,

podendo ainda estar num outro órgão da polícia criminal, dirigindo-se o requerimento

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO para onde

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para onde se encontra o processo. Por exemplo: em fase de inquérito, o requerimento

para pedido de indemnização cível e acusação particular é da competência do juiz

de julgamento; em fase de inquérito, o requerimento de abertura de instrução é da

competência do juiz de instrução criminal. O requerimento é dirigido ao número do

processo,

relativamente

aos

serviços

do

Ministério

Público,

onde

o

processo

se

encontra.

 

B)

Intróito:

3. Identificação do requerente, com a qualidade processual que ele já possui nesse

mesmo processo, se este já tiver pendente, dispensando-se a identificação, porque o

requerente já está bem identificado nos autos (se ele não for parte no processo, como

acontece

na

queixa,

deve

identificar-se

o

seu

estado

civil,

a

sua

profissão

e

residência). Quando o requerimento é deduzido contra alguém, como no pedido de

indemnização cível, tem que o fazer contra todos os intervenientes no processo.

Quando não é deduzido contra ninguém, não tem que se identificar ninguém,

bastando a identificação do requerente.

C) Corpo do requerimento:

4. Exposição

dos

factos

que

sustentam

o

requerimento, em

que

tais

factos

se

subsumem a um determinado tipo legal, previsto no CP, que nos permite ter tal

pretensão. Estes factos são as razões da queixa ou do requerimento, sendo que os

factos têm que estar organizados cronológica e logicamente, de forma sucinta, clara,

porque eles terão que ser provados. Quanto mais adjectivos usarmos na qualificação

e quantificação dos factos, mais difícil será a sua prova, pois essas qualificações ou

quantificações serão difíceis de precisar.

D) Conclusão

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO 5. Esta

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

5. Esta inclui o direito e o pedido que se pretende ver realizado. Na inclusão do direito

pede-se a aplicação do direito aos factos expostos, que suporta o nosso pedido,

enquanto que na inclusão do pedido se retrata a pretensão que se quer obter.

E) Junta – procuração forense; documentos que sejam relevantes, com as suas cópias;

duplicados legais. Seguem-se os trâmites do C.P.Civil, devendo estes últimos ser tantos

quantas forem as partes do processo, mas se o requerimento se dirigir ao processo,

apenas se exige um duplicado legal.

- se for correio electrónico, existe dispensa de duplicados, mas é exigível a

procuração

forense,

documentos

e

cópias

e

menção

do

envio

por

correio

electrónico.

F) Assinatura do advogado.

Quando a comunicação com o tribunal não é efectuada oralmente, a forma que o mandatário tem para fazer chegar a sua pretensão, é através de requerimento. Há duas regras essenciais no campo dos requerimentos:

1. Deve ser dirigido a quem tem competência para decidir da questão: assim se estivermos em fase de inquérito em princípio, o requerimento deve ser dirigido

ao MP. Ao passo que se estivermos na instrução, o mesmo deverá ser dirigido ao juiz de instrução.

2. Deve ser entregue no local onde se encontram os autos: pode o processo, encontrar-se provisoriamente num local e é para lá que deve ser enviado o requerimento. Por exemplo em fase de inquérito, o mesmo, deve estar em princípio, no DIAP.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO A estrutura

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

A estrutura do requerimento é sempre a mesma, podendo haver diferenças quanto ao

conteúdo.

O que tem de conter um requerimento:

Primeira parte:

- Diz-se a quem é dirigido;

- Identifica-se o processo;

- Identifica-se a secção em que corre termos o processo;

- Identifica-se a pessoa que está a praticar o acto.

Segunda parte:

- Consiste na exposição dos factos

Requerimento para a constituição de assistente

(nos casos em que o requerimento para a constituição de assistente se efectue num

crime público, é necessário maior fundamentação.)

DIAP – Porto 3.ª Secção N.º Proc. 374/07

Exmo. Senhor Procurador do Ministério Público do Tribunal da Comarca do Porto

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Pedrinho Cascata

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

Pedrinho Cascata, casado, residente na Rua das cascas podres, n.º90, casa 16, 2º andar esquerdo, ofendida, nos autos à margem melhor identificados, respeitosamente, vem, requerer a constituição de assistente, nos termos e com os seguintes fundamentos:

1.º

No passado dia 7 do corrente mês, o ofendido, assistia, no Café, “clube perdido as águias”, a um jogo de futebol.

2.º

No decorrer do mesmo, um indivíduo, de nome Zé das Telhas, descontente com o resultado do jogo, começou a insultar o ofendido, dirigindo-lhe palavras ofensivas da sua honra.

3.º

A conduta do Senhor Zé das Telhas, constitui crime de Difamação, previsto e punido pelo artigo 18o.º Código Penal.

4.º

Nos termos do artigo 188.º n.º 1 do Código Penal, o crime de difamação depende de acusação particular, já efectuada, conforme, documento 1 que se junta e se dá por integralmente reproduzido.

Nestes termos, vem o ofendido, nos termos do artigo 50.º do Código de Processo Penal a sua constituição como assistente.

O ofendido

Junta: procuração forense, um documento, pagamento de taxa de justiça, duplicados

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO legais. Requerimento

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

legais.

Requerimento para constituição de mandatário:

Tribunal Judicial de Matosinhos Proc. N.º 123/06.1TBMTS 1ª Secção

Excelentíssimo Senhor Procurador do MP do Tribunal Judicial da Comarca de Matosinhos

António

,

arguido melhor identificado nos autos,

EXPÕE:

Pretende constituir mandatário nos presentes autos. Para tal junta a respectiva procuração legal.

Termos em que requer a Vossa Excelência, nos termos do artigo 62º do Código de Processo Penal, que se digne a admitir a junção da presente aos autos.

Junta:

- Procuração forense;

- Cópias.

A Advogada

Eliana Silva Pereira

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Quid iuris

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

Quid iuris se, já numa fase processual mais avançada, for designado o dia 12 de Novembro para o início do julgamento e o advogado quer consultar o processo?

- Requeremos a consulta do processo da seguinte forma:

Tribunal Judicial de Matosinhos 4.º Juízo Proc. n.º 123/06.1TBMTS

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito:

Eliana Silva Pereira, advogada estagiária, portadora da cédula profissional n.º 29202, com domicilio profissional na Av. Boavista, n.º 1588.º 7.º no Porto, na qualidade de defensor de Manel das Quintinhas, arguido, nos autos à margem identificado,

EXPÕE:

Com vista à preparação do julgamento, pretende a confiança do processo por um período de 4 dias,

Termos em que requer, a Vossa Excelência, nos termos do disposto no artigo 89º n.º3 do Código de Processo Penal, se digne a autorizar a confiança do processo.

Junta:

- Cópias.

P.E.D.

A defensora:

Eliana Silva Pereira

Nota: neste caso, como quem quer o processo conferido é o mandatário é ele que deve fazer o pedido.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO O que

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

O que significa os números do processo? Proc. n.º 123 (n.º sequencial do processo) /06 (ano) .1 (digito introduzido em consequência do elevado volume de serviço no Tribunal) TBMTS (identificação do Tribunal).

Suponhamos agora que recebemos uma notificação, na qualidade de arguido, que designa a marcação da data de audiência de julgamento para o dia 12 de Dezembro pelos 10 horas no Processo n.º 123/06.1TBMTS, que corre termos no 4º Juízo Criminal do Tribunal de Matosinhos. Sucede que, nesse dia à mesma hora já tinha um julgamento anteriormente

agendado no Tribunal de trabalho, no âmbito do proc. n.º 435/04.1TBPRT, no 2º Juízo, onde assume a qualidade de réu porque despediu um trabalhador. Quid iuris?

-

Ora, o art. 117º CPP gera a obrigação de se informar o Tribunal da falta justificada, sendo que o seu n.º2 diz que na justificação têm que estar presentes 3 elementos:

1-

Motivo;

2-

Local onde o faltoso pode ser encontrado;

3-

Duração previsível do impedimento.

Tribunal Judicial de Matosinhos 4.º Juízo Processo n.º 123/06.1.TBMTS

Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito,

Manel das Quintas, arguido nos autos à margem identificados, vem pelo presente

EXPOR:

Em consequência de já ter já ter julgamento previamente designado no 2º Juízo do Tribunal de Trabalho, no âmbito do processo n.º 435/04.1.TBPRT, onde assume a qualidade

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO de réu,

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

de réu, para dia 12 de Dezembro às 10h00 da Manhã, conforme notificação que se junta, e se dá por integralmente reproduzida para os devidos efeitos legais, sendo previsível que se prolongue pela manha inteira, vê-se impossibilidade de comparecer ao julgamento do processo supra referido na data designada.

Termos em se requer a Vossa Excelência, nos termos do artigo 117º n.º 2 do Código de Processo Penal, se digne a justificar a falta ao arguido.

Junta:

- Cópias

- 1 Documento

A defensora

Eliana Silva Pereira

Nota: no caso do tribunal de trabalho do Porto temos sempre que identificar o juízo, pois estes estão espalhados.

Nos termos do n.º4 do art. 312º CPP, as audiências podem ser marcados por acordo.

Hipótese n.º 1 – constituição do advogado pelo arguido, cessando os deveres do

defensor oficioso, pretendendo-se dar conhecimento de tal facto aos autos, através

da junção de procuração forense, estando o processo na fase do inquérito.

Ex.mo Senhor Procurador-

Adjunto

Junto do Ministério Público do

Proc. N.º … Serviços do Ministério Público O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO

Proc. N.º …

Serviços do Ministério Público

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

Tribunal Judicial da Comarca de ….

F…, arguido nos autos supra e à margem referenciados, vem dizer que constituiu

advogado, conforme procuração forense que junta. Mais requer a Vs. Exª que se

digne deferir o respectivo requerimento.

R.E.D.

A advogada,

Junta: procuração forense e duplicado legal.

Hipótese 2: requerer aditamento de testemunha ao rol previamente indicado (artigo

315.º CPP).

Proc. N.º ….

Serviços do Ministério Público

Ex.mo Senhor Juiz do

Tribunal Judicial da Comarca de …

F…., arguido nos autos supra e à margem referenciados, vem requerer a Vs. Ex.ª o

aditamento da testemunha que a seguir se identifica:

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO - X

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

- X …, profissão, estado civil, residência.

Requer que Vs. Ex.ª se digne admitir o presente aditamento, o que faz, em tempo, nos

termos do artigo 316.º CPP.

R.E.D

A advogada,

Junta: cópia requerimento e duplicado legal (se enviado por correio electrónico tem que

se ter certificado digital, com a certificação MDDE, sendo apenas necessário a prova da

expedição).

Hipótese n.º 3: junção de documento, na fase do inquérito, para provar determinado

facto (junção de factura e recibo) – artigo 165.º CPP

Proc. N.º ….

Serviços do Ministério Público

Ex.mo Senhor Procurador-Adjunto

Junto do Ministério Público do Tribunal

Judicial da Comarca de …

F…., arguido nos autos supra e à margem referenciados, pretende juntar dois

documentos, sendo uma factura e um recibo, emitidos pelo queixoso, que

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO demonstram que

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

demonstram que as quantias tituladas no cheque estão totalmente liquidadas.

Termos em que requer a Vs. Ex.ª que se digne admitir tais documentos e sua

respectiva junção aos autos, nos termos do artigo 61.º, n.º 1, f) e 165.º CPP.

R.E.D.

A advogada,

Junta: dois documentos, respectivas cópias e duplicados legais.

Requerimentos orais:

Estes são feitos em diligência – artigo 362.º, n.º 1, f) CPP – não fazendo qualquer sentido

fazer certas referências que seriam feitas num requerimento escrito. Assim, como são feitas

na audiência não há necessidade de o dirigir a nenhuma autoridade judiciária, não se

identifica o processo, a parte que o requer, assim como se suprime a parte da junção e

da assinatura do advogado (suprime-se o cabeçalho, o intróito e as menções finais). São ditados para a acta da audiência, mantendo-se os factos, o pedido e o

direito, juntando-se os documentos nesse momento, convindo ter uma cópia para

entregar à outra parte. O advogado tem que requerer a palavra ao juiz, sendo que se

este não a conceder o advogado protesta, porque foi impedido de exercer um dos seus

direitos. Neste caso, é necessário invocar a essencialidade da junção de tal documento

ou a impossibilidade da junção anterior.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Como vimos

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

Como vimos os requerimentos escritos, apenas devem existir nos casos em que não seja possível tratar a questão com base na oralidade. Contudo, por vezes, os requerimentos têm que ser feitos em momentos processuais em que já nos encontramos numa fase oral, desde logo, na audiência de julgamento. Estes requerimentos são ditados pelo Mandatário ou MP, para a acta e ficam a constar dela, cabendo ao funcionário judicial a sua transcrição (em regra a gravação para, o que não faz muito sentido, nem consta em lado nenhum que assim seja)

Como nos encontramos numa diligência processual, no requerimento não é necessário identificar o processo, nem as partes, pois já estamos “dentro dele”.

Requer-se a quem tem competência para decidir, ou seja, o juiz. Todavia, já não

temos que dizer “Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito do Tribunal

também não é necessário identificar quem vai fazer o requerimento. Assim sendo, apenas se faz a exposição e o pedido, sendo o cabeçalho dispensado. Pelo que se entra imediatamente na exposição e faz-se o pedido. Por outro lado, a ultima parte que consta dos requerimentos escritos, aqui, também é dispensável pois não se juntam cópias nem se assina. Em suma, este requerimento resume-se à exposição e ao pedido – art. 174º CPP.

assim como

”,

Nota: Quando pedimos para fazer um requerimento e o Juiz disser que não vale a pena, nós devemos faze-lo na mesma e o Juiz se entender que não tem pertinência indefere. Temos ainda que ter tempo para pensar. Não significa demorar o dia inteiro, mas o juiz, deve dar algum tempo para a estruturação das ideias.

REQUERIMENTOS ORAIS MAIS FREQUENTES

REQUERIMENTO PARA CONSULTA DO PROCESSO

Se formos nomeados defensores oficiosos no momento, nos termos do artigo 67º, podemos fazer um requerimento para a acta nos termos do artigo 67º n.º2. Assim, pedimos a palavra e dizemos o seguinte:

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO “Atendendo a

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

“Atendendo a que só agora foi nomeado e, como tal, não conheço o processo nem, tão pouco, conferenciei com o arguido, necessito de tempo para a conferência e exame do processo. Pelo que se requer a Vossa Excelência que conceda o tempo necessário para o efeito, nos termos do n.º2 do art. 67º CPP”.

REQUERIMENTO DA AUDIÇÃO DE TESTEMUNHA

Se, no âmbito do artigo 340º n.º1, em fase de audiência de julgamento, o arguido vê na sala de audiências a “Dona Maria” que não tinha sido arrolada como testemunha, ou porque se frustrou às diversas comunicações que lhe foram feitas, mas que sabe muito sobre o assunto que se está a tratar, o defensor deve pedir a palavra e dizer:

, a qual tem conhecimento de factos

relevantes e relativos a este processo, cuja inquirição se pode demonstrar relevante para a descoberta da verdade e boa decisão da causa. Assim, requer-se a Vossa Excelência

a depor na qualidade de testemunha, nos termos

que se digne a admitir Maria do artigo 340 n.º1 do CPP.”

“Encontra-se aqui presente Maria

REQUERIMENTO PARA A JUNÇÃO DE DOCUMENTO

Se, no decorrer da audiência de discussão e julgamento da causa, for identificado documento, que ainda não tinha sido referenciado, por não ser do conhecimento, ou pelo mesmo, até à data não se mostrar relevante, mas cuja importância se descortina no da audiência de julgamento, deve o mesmo ser junto aos autos. Tendo-se verificado, no decorrer da presente audiência, a relevância do

documento de

, e tendo este especial relevo para a descoberta da verdade

material e consequentemente à boa administração da causa, requer-se a V. Exa, que se

digne, a admitir a junção do mesmo aos autos, nos termos do artigo 340/ CPP.

REQUERIMENTO PARA LEITURA DE DECLARAÇÕES DO ARGUIDO

Como sabemos, em cumprimento do princípio da imediação, a prova deve ser feita em audiência de discussão e julgamento da causa. Porém, se no decorrer da mesma, constatarmos que o arguido, profere declarações contraditórias, com aquelas proferidas noutra fase processual, podemos requerer a leitura dessas declarações. Tendo-se verificado, no decorrer da presente audiência, aquando da intervenção do arguido, contradições, entre as declarações proferidas pelo mesmo em fase de instrução, requer-se a V. Exa. que seja admitido a leitura das suas declarações

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO anteriormente prestadas,

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

anteriormente prestadas, em sede de instrução, nos termos dos artigo 357/1/b e 340/1 CPP.

Assim, os requerimentos têm que ter sempre um princípio, meio e fim; terminando- se sempre a requerer qualquer coisa. O juiz antes de decidir sobre o requerimento vai dar lugar ao contraditório, sendo que só após ouvir as partes contrárias (MP e advogado do assistente), o juiz despacha o requerimento.

Nota 1: não se pode fazer requerimentos uma vez findo o julgamento.

Nota 2: quando não sabemos que artigo citar utilizamos a seguinte expressão:

“nos termos da disposição legal aplicável”. Assim, o importante é a exposição do pedido.

Hipótese n.º 1:

“O arguido pretende juntar aos autos documento comprovativo de que a quantia

titulada no cheque está paga. Este documento demonstra que o arguido nada deve, ao

contrário do alegado pela contra-parte, demonstrando a inocência do arguido. Não foi

possível a sua junção anteriormente, porque o arguido os julgava perdidos ou caso assim

não se entenda, os mesmos documentos são essenciais para a descoberta da verdade

material, já que demonstram a inocência do arguido. Requer, assim, a sua admissão nos

autos, nos termos do artigo 165.º ou 340.º CPP”.

Hipótese n.º 2 : requerimento oral para aditamento de testemunhas, que não consta no rol

do MP, que pode demonstrar a sua inocência. Ultrapassados os prazos dos artigos 315.º e

316.º CPP, a única possibilidade da testemunha depor é o artigo 340.º, tendo que se

demonstrar a essencialidade desta.

“F…, arguido nos autos, pretende o aditamento da testemunha X, que assistiu a todos os

acontecimentos

do

processo

em

causa,

naquele

dia

e

hora,

podendo

a

mesma

esclarecer como tais factos se O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL

esclarecer

como

tais

factos

se

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

passaram,

sendo

ela,

por

isso

mesmo,

essencial

à

descoberta da verdade material. Requer a Vs. Ex.ª que se digne admitir o chamamento e

depoimento de tal testemunha, nos termos do artigo 340.º CPP.”

TEORIA GERAL DOS SUJEITOS PROCESSUAIS

Partes intervenientes no processo penal:

1. Juiz e o tribunal, artigos 8.º a 47.º

2. Ministério Público e os órgãos de Polícia Criminal, artigos 48.º ss;

3. Arguido e o Defensor, artigos 57.º

4. Assistente, artigo 68.º

5. Partes Civis, artigo 71.º

Os

sujeitos processuais são entidades que pela sua importância conformam directamente

o

objecto do processo, porque possuem um conjunto de direitos autónomos e

independentes que lhe permitem influenciar a tramitação e marcha do processo.

De acordo com a noção são sujeitos processuais:

1. Juiz

2. Ministério Público

3. Arguido

4. Assistente 2

5. Defensor

2 Poderiam surgir algumas dúvidas, quanto à qualificação do assistente ou do defensor como verdadeiros sujeitos processuais.

Em relação ao assistente, a lei no artigo 69/1 estabelece a sua figura como colaborador

do MP. Mas apesar disso, é-lhe conferido amplos poderes, nomeadamente o poder para

interpor recurso das decisões que lhe sejam prejudiciais, mesmo que o MP não o faça. O assistente pode ainda, de acordo com 287/1/B requerer a abertura da instrução em relação aos factos que o MP não deduziu acusação. Em relação ao defensor, cabe-lhe, nos termos do artigo 63/1 exercer os direitos que a lei

confere ao arguido, contudo, ele representa a boa administração da justiça, podendo mesmo ser nomeado contra a vontade do arguido, artigo 64.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO São meros

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

São meros participantes processuais: as entidades que praticam actos processuais singulares, cujo o conteúdo processual se esgota na própria actividade, pelo que embora colaborem no processo não têm a faculdade de iniciativa ou decisão:

1. Funcionários judiciais;

2. Agentes policiais;

3. Testemunhas;

4. Peritos;

5. Consultores técnicos;

6. Partes Civis;

7. Ofendido, nos casos em que não se constitua como assistente;

MINISTÉRIO PÚBLICO

É esta entidade que compete a investigação e a dedução de acusação ou o

arquivamento do processo, tendo legitimidade para promover a acção penal, segundo

o artigo 48.º C.P.P. Este sujeito processual tem competências específicas como o facto de

poder recorrer da decisão final, mesmo no interesse do arguido – artigo 401.º, n.º 1, a).

Este poder do MP resulta do seu próprio estatuto subordinado ao dever de legalidade e

objectividade, pois ele representa o Estado no controlo dessa legalidade – artigo 3.º

Estatuto dos Magistrados do Ministério Público (Lei 60/98, de 28 de Agosto).

O Ministério Público tem uma determinada organização, sendo os seus órgãos:

- Procuradoria-geral da república, constituída pelo Procurador-geral da república,

pelo vice-procurador geral da república e pelos procuradores-gerais adjuntos;

- Procuradoria-geral distrital, constituída pelos procuradores-gerais distritais;

- Procuradoria da república, constituída pelos procuradores da república e pelos

procuradores adjuntos.

Nos tribunais de 1ª instância de círculo existe um procurador da república, enquanto

que nas comarcas judiciais se encontram os procuradores adjuntos. Nos tribunais da

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Relação ou

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

Relação ou nos distritos judiciais existe um procurador-geral distrital ou um procurador-

geral adjunto. Nas comarcas dos distritos judiciais, como por exemplo no Porto, funciona

ainda

um

Departamento

de

Investigação

e

Acção

Penal

(DIAP)

e

ainda

um

Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), com competência

dirigida para o crime mais organizado.

O Magistratura

do

Ministério

Público

tem

características

específicas:

é

uma

magistratura paralela à magistratura judicial, mas é dela independente – artigo 75.º

EMMP. Nas audiências de julgamento o magistrado do ministério público senta-se à

direita do juiz e em igualdade de circunstâncias, segundo o artigo 75.º, n.º 2 EMMP. Os

magistrados do ministério público só podem ser detidos depois de designação da data

de audiência de julgamento, excepto em casos de flagrante delito e para crimes com

pena superior a 3 anos. Estão sujeitos ao princípio da legalidade e hierarquia, sendo que

quem superintende a actuação do ministério público é o conselho superior do MP, tendo

este poder de acção disciplinar.

Em relação ao dever de promoção da acção penal: o ministério público tem que

promover a acção penal quando tem notícia do crime e desde que este tenha natureza

pública. O artigo 241.º CPP tem a definição dos momentos em que há notícia de crime,

podendo esta ser obtida:

- Através de conhecimento próprio, ou seja, no decurso de um processo de crime

podem surgir indícios da prática de outro crime;

- Por intermédio das entidades policiais, através do auto de notícia que estas lavram –

artigo 248.º;

- Através de denúncia – artigo 242.º e 244.º e ss. Esta denúncia pode ser feita pelo

próprio ou por qualquer pessoa que tenha conhecimento de um crime, no caso dos

crimes públicos.

- Queixa, sendo que esta só pode ser apresentada pelo titular do interesse que a

incriminação pretende proteger. Esta vale para os crimes de natureza semi-pública e

particular.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO O ministério

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

O ministério público, perante o conhecimento do crime, tem legitimidade para

promover o processo penal, como dispõe o artigo 48.º, excepto casos do artigo 49.º a

52.º. Nos crimes semi-públicos o processo tem que ser despoletado pelo exercício do

direito

de

queixa,

sendo

depois

o

processo

dirigido

pelo

ministério

público.

Diferentemente,

nos

crimes

particulares

o

processo

é

promovido

pelo

particular,

começando pelo direito de queixa e ainda pela dedução da acusação particular,

sendo que estes momentos são deduzidos na altura própria: a constituição de assistente

pode ser feita ao mesmo tempo que a queixa, sendo o inquérito aberto pelo MP; a

acusação particular é deduzida a seu tempo (artigo 50.º). Aqui o MP tem já legitimidade

para promover a acção penal, havendo lugar ao inquérito, que cabe ao MP, segundo o

artigo 262.º, n.º 1

e

n.º

2, 263.º e 264.º. O MP tem que proceder à investigação da

existência do crime, em ordem a determinar os seus agentes e recolha de provas – artigo

262.º, n.º 1. Assim, o MP toma tais atitudes em ordem a decidir sobre a acusação ou

arquivamento do processo, excepto nos casos dos crimes particulares, que dependem

de acusação particular, cabendo a decisão de acusar ao assistente – artigo 285.º.

Os

critérios

para

apreciação

da

natureza

do

crime

não

estão

directamente

estipulados na lei, ou seja, esta não nos diz se um determinado crime é de natureza

pública, semi-pública ou particular. Tem que se analisar o tipo legal estipulado na lei e da

sua leitura apurar se o procedimento criminal depende de qualquer actuação exterior

que prenda a legitimidade de actuação do MP. Assim, se o tipo legal estipular que o

procedimento criminal depende de queixa, o crime será de natureza semi-pública; já se

o tipo legal de crime estipular que o procedimento criminal depende de acusação

particular, o crime em questão será particular; se nada disser o capítulo relativo ao crime

em questão estaremos perante um crime público, no qual o MP terá toda a legitimidade

de actuação, desde que obtenha a notícia do crime. Nas outras situações, a actuação

do MP estará sempre dependente de uma conduta do titular do interesse que a

incriminação pretende proteger. Contudo, existem determinados tipos legais que podem

configurar naturezas diferentes consoante as circunstâncias em que acontecem. Por

exemplo, o crime contra a propriedade pode ser:

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO - de

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

- de natureza pública, nos casos dos artigos 210.º e 204.º, se, neste último, não se

verificar o n.º 4, 204.º do CP;

- de natureza semi-pública, casos em que depende de queixa, como nos casos

do 203.º, remetendo-se para o artigo 48.º e 49.º CPP e 113.º do CP;

- de natureza particular, casos em que o procedimento criminal depende de

acusação criminal, como acontece nos artigos 203.º e 207.º CP

Antes de começarmos a análise de cada sujeito processual, cumpre referir alguns pontos:

a. Entre nós não existe um processo de partes, já que o nosso processo penal,

não é de estrutura acusatória. A figura do MP tem como objectivo a defesa

da legalidade, dos interesses do estado, dos incapazes. Assim, de acordo com

o princípio da legalidade e objectividade, o MP não tem interesse na

condenação, mas unicamente na obtenção de uma decisão justa. O MP não

é parte, nem se pauta por critérios de oportunidade, mas é entidade

unicamente interessada na descoberta da verdade material e na realização

da justiça.

b. Breve resumo do processo:

I. O processo inicia-se com a notícia do crime, ao MP, artigo 241,

através da sua iniciativa ou por denúncia;

II. Existindo indícios suficientes da prática do crime, o MP elabora o

inquérito. No final do inquérito, o processo será arquivado, artigo

277/2 ou deduzir-se-á acusação.

III. A acusação do MP tem necessariamente que ser acompanhada

de acusação particular do assistente nos crimes privados, sob pena

do crime quer arquivado pelo MP por falta de legitimidade;

IV. A decisão do MP em acusar ou não, será comprovada pela

instrução, no caso em que ela seja requerida, pelo assistente ou

pelo arguido, artigo 286. O MP nunca pode requerer abertura de

instrução, porque ela se destina a comprovar o inquérito e ele é o

titular do inquérito. A instrução é facultativa e terminará com um

despacho de pronúncia ou não pronúncia (este último pode ser

alvo de denúncia). Da mesma forma, e pela mesma ratio, nos

crimes de natureza privada, o assistente não pode requerer a

abertura da instrução porque é ele quem acusa, e nos casos em

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO que não

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que não o faça, o processo tem necessariamente que ser

arquivado.

V. Fase de julgamento.

DA QUEIXA E DA ACUSAÇÃO PARTICULAR

Nos termos do artigo 48.º é ao MP a quem cabe legitimidade para promover o processo

penal, com as restrições constantes dos artigos 49.º a 52.º

Isto significa que a legitimidade do MP para conduzir o processo sofre restrições nos casos

em que o crime em causa seja um crime particular ou de natureza semi-pública. Assim

sucede, porque nos casos em que o procedimento depender de queixa, do ofendido ou

de outras pessoas, é necessário que essas pessoas dêem conhecimento do facto ao MP,

para que este mova o processo, artigo 49.º CPP.

As disposições legais relativas à queixa, aplicam-se quer aos crimes particulares quer aos

crimes de natureza semi-pública, artigo 117.

DA TITULARIDADE DO DIREITO DE QUEIXA, ARTIGO 113.º CP

Tem legitimidade para apresentar queixa:

a. O ofendido 3 , considerando-se como tal, o titular dos interesses que a lei

especialmente quis proteger;

b. Os herdeiros do ofendido, se este falecer sem ter apresentado queixa;

c. O representante legal, nos casos em que o ofendido seja menor de 16

anos e não tenha discernimento para compreender o significado do

exercício do direito de queixa;

QUEM PODE APRESENTAR QUEIXA, ARTIGO 49.º CPP

3 No crime de falsificação de documentos, nos termos de um acórdão de fixação de jurisprudência, será possível a constituição de assistente, porque entendeu o tribunal que para além da necessidade de salvaguarda da fé pública, o crime quis ainda salvaguardar interesses privados. O crime de falsas declarações, visa a protecção da boa administração da justiça, não se admitindo a constituição de assistente.

1. O ofendido; O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P

1. O ofendido;

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2. Mandatário judicial, desde que munido com procuração com poderes gerais;

3. Mandatário munido com procuração com poderes especiais para o acto de apresentação de queixa.

4. Gestão de negócios: apesar da lei não prever directamente, admite-se que se possa apresentar queixa mediante o instituto da gestão de negócios, dependendo a validade da mesma, da ratificação pelo ofendido. Esta situação, poderá até ser comum, nos crimes contra a propriedade, em que o ofendido por não saber da prática do crime.

EXTENSÃO DOS EFEITOS DA QUEIXA, ARTIGO 114.º CPP

A apresentação de queixa contra um dos comparticipantes no crime, torna o procedimento criminal extensivo aos restantes. Da mesma forma, nos termos do artigo 115/3 o não exercício tempestivo do direito de queixa relativamente a um dos comparticipantes no crime, aproveita aos restantes, sempre que quanto a estes seja necessário a apresentação de queixa, isto e, se o crime não for público.

CADUCIDADE DO DIREITO DE QUEIXA, ARTIGO 115.º CPP

O direito de queixa não e eterno, caduca, no seguintes casos:

1. No prazo de 6 meses a contar da data em que o titular tiver

tido

conhecimento do facto ou dos seus autores;

2. No prazo de 6 meses a contar da data em que o ofendido se tenha tornado

incapaz. Não é necessário que exista sentença a declarar a incapacidade, basta

que exista mera incapacidade de facto.

3. No prazo de 6 meses a contar da data em que o ofendido faleceu.

Nota 1: nos casos em que sejam vários os titulares do direito de queixa, o prazo para a caducidade, conta-se autonomamente para cada um deles. Aliás, o assistente não é obrigado a deduzir acusação contra todos os participantes, artigo 285.º CPP.

Nota 2: A caducidade do direito de queixa, apenas se aplica aos crimes de natureza privada ou semi-público. O objectivo da caducidade é incentivar a pacificação social,

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO no sentido,

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no sentido, que uma vez passados os 6 meses, não se poderá reagir criminalmente contra o infractor.

Nota 3: Em relação aos crimes públicos, a caducidade não se aplica, estabelecendo a lei, quanto a estes prazos de prescrição, atendendo à moldura penal abstracto. O artigo 118.º CP estabelece os casos em que o procedimento criminal se extingue por prescrição.

DA RENÚNCIA OU DESISTÊNCIA DO DIREITO DE QUEIXA, ARTIGO 115.º CP

O direito de queixa não pode ser exercido se o titular do mesmo, a ele

expressamente renunciar ou se tiver praticado factos donde a renúncia necessariamente se deduza (tácito).

Entende-se por exemplo que, há renúncia ao direito de queixa, nos casos em que

haja dedução em separado, em tribunal cível, do pedido de indemnização cível, artigo 72/2 CPP.

O assistente, pode desistir da queixa, até à publicação da sentença da 1.ª

instância, desde que o arguido não se oponha. Por isso, assim que tenha conhecimento da desistência de queixa, a entidade competente, notifica o arguido, para em cinco dias, declarar, sem necessidade de

fundamentação, que a ela se opõe, sendo que a falta de declaração equivale a não oposição, artigo 51/2 CPP. A desistência impede que a queixa seja renovada.

A desistência de queixa, relativamente a um dos comparticipantes no crime,

aproveita aos restantes, salvo oposição destes, e no caso em que também não possam ser perseguidos sem queixa. Nos casos em que o titular do direito de queixa, tenha renunciado a este, não podem os herdeiros, em caso de morte, iniciar procedimento criminal, artigo 113/2.

QUAL A ENTIDADE COMPETENTE PARA HOMOLOGAR A DESISTÊNCIA DA QUEIXA? ARTIGO 1.º CPP

Na fase de inquérito, a competência caberá ao MP, se nos encontrarmos na fase de instrução, a competência, caberá ao juiz de instrução, em sede de julgamento da causa, a competência cabe ao juiz da causa.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Nota: Há

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Nota: Há casos, em que o MP, poderá iniciar procedimento criminal, sem existência de queixa, não obstante de nos encontrarmos perante crimes semi-públicos. São os casos previstos no artigo 113/5 e 6, que tal facto, se justifica atendendo aos interesses quer da vítima quer do interesse público. Nos casos aí previstos, os tribunais têm entendido, que há, lugar a aplicação da regra geral, do artigo 116.º pelo que não há nada que impeça o queixoso de desistir. Maria João Antunes, tem sido das poucas vozes que se tem oposto a esta orientação, e defendido que se o procedimento criminal se iniciou sem queixa, não poderá depois a desistência da mesma relevar.

DA CONSTITUIÇÃO DE ASSISTENTE E DA ACUSAÇÃO PARTICULAR, ARTIGO 50 CPP

Nos crimes de natureza particular, é necessário, que para além da apresentação de queixa, nos moldes expostos, é necessário que o ofendido se constitua assistente e deduza acusação particular.

DA CONSTITUIÇÃO COMO ASSISTENTE, ARTIGO 68.ºCPP

De acordo com o n.º 1 do artigo 68.º CPP, podem constituir-se como assistentes:

a) Os ofendidos, considerando-se como tais os titulares dos interesses que a lei especialmente quis proteger com a incriminação, desde que maiores de 16 anos;

b) As pessoas de cuja queixa ou acusação particular depender o procedimento;

c) No caso de o ofendido morrer sem ter renunciado à queixa, o cônjuge sobrevivo

não separado judicialmente de pessoas e bens, os descendentes e adoptados, ascendentes e adoptantes, ou, na falta deles, irmãos e seus descendentes e a pessoa que com o ofendido vivesse em condições análogas às dos cônjuges, salvo se alguma destas pessoas houver comparticipado no crime;

d) No caso de o ofendido ser menor de 16 anos ou por outro motivo incapaz, o

representante legal e, na sua falta, as pessoas indicadas na alínea anterior,

segundo a ordem aí referida, salvo se alguma delas houver comparticipado no crime;

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO e) Qualquer

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e) Qualquer pessoa nos crimes contra a paz e a humanidade, bem como nos crimes de tráfico de influência, favorecimento pessoal praticado por funcionário, denegação de justiça, prevaricação, corrupção, peculato, participação económica em negócio, abuso de poder e de fraude na obtenção ou desvio de subsídio ou subvenção.

DO PRAZO PARA A CONSTITUIÇÃO DE ASSISTENTE, ARTIGO 68

O prazo para a constituição de assistente é de 10 dias a contar, da data da constituição de assistente, artigo 68/2 CPP.

A lei admite, contudo, que o assistente se possa constituir em qualquer altura do processo, desde que:

1. O requeiram ao juiz;

2. Aceitem o processo no estado em que ele se encontrar;

3. Até 5 dias antes do início do debate instrutório ou da audiência

julgamento.

de

4. Nos crimes de natureza semi-pública, nos 10 dias seguintes à

notificação de acusação do MP.

5. No prazo de 20 dias a contar da notificação da acusação ou

arquivamento do processo,

do

DA DEDUÇÃO DE ACUSAÇÃO PARTICULAR, ARTIGO 285.ºCPP

As entidades que se puderem, nos termos da lei, constituir assistentes, tem necessariamente que deduzir acusação particular, nos termos do artigo 285.º CPP, pois nestes casos, ao contrário do que acontece nos crimes de natureza semi-pública, em que o MP, tem competência para acusar de maneira que, depois da notificação pelo MP da decisão do inquérito, o assistente, tem 10 dias para deduzir acusação, pelos mesmos factos que o MP deduziu, por parte deles, ou por outros, desde que tal não altere substancialmente os factos do MP. Artigo 284. O mesmo não se passa nos crimes de natureza privada em que se o assistente não deduzir acusação, o MP é forçado a arquivar o processo, não pode prosseguir sozinho o processo por ilegitimidade processual, artigo 285.º CPP.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Só depois

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Só depois do assistente 4 acusar, é que o MP, poderá nos 5 dias posteriores à mesma, acusar pelos mesmos factos, por parte deles, ou por outros que não importem uma alteração substancial daqueles.

Nota: Depois do MP terminar o inquérito, ao assistente é permitido consultar o mesmo. O assistente pode constatar que não existem elementos que sustente a acusação, e deve disso dar conhecimento ao MP. Se o MP arquivar o processo, nos termos do artigo 277, tal não impede que ele volte a ser reaberto, nos termos do artigo 279.

Em suma

“Legitimidade em procedimento dependente de acusação particular” – art. 50º:

Nos crimes particulares é necessário 3 coisas para que o MP possa actuar:

1- Queixa;

2-

Constituição como assistente;

3-

Dedução de acusação particular findo o inquérito.

Só assim é que o MP tem legitimidade para promover a acção penal.

Assim sendo, há dois momentos em que a legitimidade do MP está dependente do assistente:

1º Momento: quando efectua a queixa e se constitui assistente; 2º Momento: dedução da acusação pelo assistente, pois caso não deduza o MP não pode prosseguir com a acção penal.

Nos termos do n.º2 do art. 50º o MP deduz acusação “conjuntamente” com o assistente. Assim, só pode actuar se o assistente também actuar. Nota: há casos em que o crime de injúrias é semi-publico – art. 188º.

Em suma:

4 O assistente tem necessariamente que constituir advogado

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO 1- Crimes

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1-

Crimes públicos: o MP não tem qualquer restrição para o exercício da acção

penal;

2-

Crimes semi-públicos: o MP tem que aguardar que aquele que tem os seus interesses especialmente protegidos pela norma se queixe;

3-

Crimes Particulares: tem que aguardar que o ofendido se queixe e se constitua assistente e ainda, findo o inquérito, tem que ficar a aguardar a acusação do assistente, pois caso contrario o MP não pode, por si só, deduzir acusação.

A constituição de assistente tem que ter lugar no prazo de 8 dias – art. 246º.

Nos termos dos arts. 241º e ss o MP toma conhecimento dos factos por uma de três maneira:

1-

Por conhecimento próprio:

-

Por exemplo: o MP vai na rua e vê A morto com um tiro na cabeça e, como é um crime público vai desencadear a acção penal.

-

Outro exemplo: se o MP vai na rua e assiste a um furto já não pode por si só iniciar

o

procedimento criminal porque está dependente da queixa.

2-

Por intermédio dos órgãos da policia criminal;

3-

Mediante denuncia.

ORGÂNICA DO MP

O MP é a entidade com competência para promover a acção penal (art. 48º).

É um magistrado com competências definidas no Estatuto do MP que foi republicado na Lei 60/98 de 27 de Agosto que procedeu à republicação da Lei 47/86 de

15 de Outubro.

O art. 3º daquela Lei, atribui competências ao MP, como exercer a acção penal,

dirigir a investigação criminal, promover acções, fiscalizar a actividade dos órgãos da polícia criminal, etc.

O artigo 4º diz como é que o MP é representado perante os Tribunais Superiores, sendo que:

a) No STJ, no TC, no Supremo Tribunal Administrativo, no Supremo Tribunal Militar e no

Tribunal de Contas é representado pelo Procurador-Geral da Republica;

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO b) Nos

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b) Nos Tribunais da Relação e nos Tribunais Administrativos Centrais por Procuradores- Gerais-Adjuntos;

c) Nos Tribunais de 1ª Instancia por Procuradores-Adjuntos e Procuradores da Républica.

O MP é representado por agentes do MP, descritos no art. 8º. É importante saber quem são os agentes para se saber a quem se dirige as coisas. Os agentes do MP representam-no nos diversos Tribunais.

O art. 12º consagra as competências do PGR, sendo que nos termos da aliena b) do n.º2 controla os magistrados do MP e mantém informado o procurador-geral distrital. Note-se que o MP é uma magistratura organizada de forma hierarquia, sendo que no topo está o PGR e na base os procuradores-gerais-adjuntos. Quem está numa posição superior pode dar ordens aos de “baixo”, sendo que estas podem ter um caracter genérico ou mesmo dizer respeito ao procedimento a adoptar num determinado processo. Isto passa-se de forma inversa ao que ocorre com os juizes que apenas julgam de acordo com a CRP e as leis, não recebendo ordens de ninguém sobre o sentido da sua decisão.

Existem 3 níveis de Tribunais:

1-

STJ: PGR coadjuvado, se substituído, pelo Vice-PGR e auxiliado por Procuradores- Adjuntos.

2-

Relação: procuradoria-geral distrital, na qual exercem funções os procuradores- gerais-adjuntos;

3-

Tribunais

de

Instancia:

procuradores

da

Républica

coadjuvados

por

procuradores adjuntos.

a) Círculos;

b) Comarcas.

Mas as funções do MP vão para além da representação em tribunal, pois dirigem ainda a investigação criminal nos DIAP (departamento de investigação jurídica da acção penal).

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO DIAP: Departamento

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DIAP:

Departamento Central do DIAP (art. 47º EMP):

O n.º3 aliena a) do art. 47º diz que “nos crimes indicados no n.º1, quando a actividade criminosa ocorrer a comarcas pertencentes a diferentes distritos judiciais compete ao departamento central do DIAP dirigir o inquérito e promover a acção penal”.

Assim, por exemplo, visto que o departamento central do DIAP tem competência para controlar crimes contra a paz e a comunidade, se alguém andou a por bombas em Portugal em diferentes distritos judiciais, por exemplo, uma em Évora e outra em Coimbra, quem tem competência para investigar a promover a acção penal deste crime contra a paz e humanidade é o departamento central do DIAP.

A aliena b) do n.º3 também diz que é da competência do departamento central do DIAP os crimes, que, precedendo de despacho do PGR, que pela sua complexidade ou dispersão territorial da actividade criminosa justifiquem a sua investigação concentrada.

Quando a actividade ocorre toda no mesmo circulo judicial, quem tem competência é o DIAP do distrito judicial, com as competências definidas no art. 73º EMP. Assim, por exemplo, num crime de dano praticado em Matosinhos, quem será competente é o magistrado de Matosinhos. Mas se for praticado no Porto, quem tem competência é o DIAP porque tem lá sede (?).

- Se os crimes ocorrem em diferentes comarcas de um mesmo circulo judicial quem tem competência para a acção penal é o MP, mas se ocorrem numa só comarca em diferentes círculos judiciais já é competência do DIAP (??).

O ARGUIDO

Qualidade de arguido” – art. 57º:

Como a acusação só é deduzida no fim do inquérito e a instrução só se abre depois deste é, pelo menos, no fim do inquérito que se assume a qualidade de arguido. Todavia,

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO podemos perfeitamente

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podemos perfeitamente ter arguido antes daquele momento. O que o artigo diz é que, não tendo sido constituído antes, pelo menos, a partir deste momento é obrigatória a constituição de arguido. Mas pode suceder, por exemplo, que A, durante o inquérito, era suspeito e no fim do inquérito não há indícios suficientes e o processo é arquivado. Sendo assim, A nunca chegou a ser arguido. Porém, caso o assistente abra a instrução, A é automaticamente constituído arguido. Assim, no fim do inquérito, quando há acusação ou instrução é obrigatória a constituição de arguido.

“Constituição de arguido” – art. 58º:

Nos termos do n.º1 é obrigatória a constituição de arguido quando:

a)

Quando vai prestar declarações perante qualquer autoridade judiciária ou órgão de polícia criminal, desde que em relação a essa pessoa exista suspeita fundada

de prática de crime. A partir deste momento A é arguido para que tenha acesso

a determinados direitos;

b)

É aplicada uma medida de coacção. Veja-se que uma medida de coacção

pode ser promovida a qualquer pessoa, mas só pode ser aplicada ao arguido;

c)

O

suspeito detido nos termos dos arts. 254º a 261º referentes à detenção em

flagrante de delito. Nestas situações, mesmo que seja liberto, mantém a qualidade de arguido até ao fim do processo – art. 57º n.º2;

d)

For levantado o auto de notícia contra determinada pessoa e este lhe seja comunicado.

O n.º 3 foi alterado em 2007, e estabelece a necessidade de validação fundada pelo MP, no prazo de 10 dias, da constituição de arguido feita por OPC. O n.º4 tem que ver com a matéria de prova. Por exemplo, se A foi ouvido por uma autoridade judiciária (aliena a)) e não foi constituído arguido, as suas declarações não podem ser utilizadas em Tribunal.

O n.º 5, tem agora uma redacção mais rigorosa, estabelecendo agora que, a

omissão das formalidades previstas para a constituição de arguido, não podem ser usadas como meio de prova, antes não podiam apenas ser usadas contra o arugido. “Outros casos de constituição de arguido” – art. 59º:

O n.º1 significa que quando alguém esteja a ser interrogado e, na sequência do interrogatório, surjam fundadas suspeitas que aquela pessoa tenha cometido um crime,

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO deve ser,

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deve ser, de imediato, constituído arguido, nos termos do art. 58º. Caso essa constituição não seja feita, as declarações obtidas enquanto testemunha não podem ser utilizadas contra A – art. 58º n.º4.

O n.º2 contempla a situação de arguido a pedido do próprio, sempre que estiverem a decorrer diligências contra ele. Por exemplo: no caso Casa Pia, o Dr. Ferro Rodrigues pediu a sua constituição como arguido; porém, aquela foi recusada porque, apesar dos boatos de acusações feitas pelos jornais, no processo não estavam a ser efectuadas contra ele quaisquer diligências, sendo por este motivo recusado o seu pedido.

“Posição processual” – art. 60º:

Ser arguido é uma qualidade processual onde lhe são assegurados alguns direitos e imputados alguns deveres – art. 61º.

“Direitos de deveres processuais” – art. 61º:

Nos termos do n.º1 o arguido goza dos seguintes direitos:

a) Direito a estar presente em todos os actos processuais que lhe digam respeito. Isto, levado ao extremo, significava que tinha direito a estar presente em todo. Assim, tem sido interpretado restritivamente no sentido em que apenas goza do direito de estar presente nos actos em que possa haver a sua intervenção;

b) Ser ouvido sempre que esteja em causa uma decisão que o afecte. Por exemplo, sempre que estiver em causa a aplicação de uma medida de coacção;

c) Direito ao silêncio, ou seja, tem direito a não responder a perguntas feitas por “qualquer entidade”, ou seja, seja quem for. Assim, o arguido, “sobre os factos” responde como quiser e a quem quiser.

d) Pode escolher o seu defensor ou o juiz nomeia-lhe um;

e) Direito a ser assistido por um defensor;

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO f) Intervém

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f) Intervém durante o inquérito de forma activa, oferecendo provas e requerendo diligências;

g) Tem direito a ser informado pela autoridade judiciária ou pelo órgão de polícia criminal que tem direitos, pois só assim os pode exercer;

h) Recorrer das decisões que lhe forem desfavoráveis. Pode haver interesse em recorrer, mas se a decisão lhe for desfavorável não se pode recorrer dela.

O n.º2 diz que o arguido tem direito a ser assistido e a comunicar em privado com o defensor. Mas se, por exemplo, o arguido é acusado de homicídio por estrangular duas pessoas o defensor pode pedir a presença do guarda.

O arguido tem os seguintes deveres (n.º3):

a) De estar à disposição do processo, ou seja, sempre que a lei manda que o arguido tem que comparecer ele tem que comparecer;

b) Apenas tem de responder com verdade quanto à sua identidade e antecedentes criminais. A lei dispõe isto quanto ao primeiro interrogatório criminal – art. 141º n.º3 e 143º. Ambos os artigos dizem exactamente a mesma coisa, mas um funciona para o arguido detido e outro não. Esta obrigação decorre não só perante o juiz mas também perante o MP;

c) Prestar termo de identidade e residência. O professor entende que se trata de uma medida de coacção pois está inserida no capítulo daquelas;

d) Sujeitar-se a diligências de prova e medidas de coacção.

Nos termos do art. 58º n.º2, o arguido é informado destes direitos no momento da sua constituição.

DEFENSOR

“Defensor”–art.62º: O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO O

“Defensor”–art.62º:

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O defensor é o advogado do arguido. Nos termos do n.º1, o arguido pode constituir

advogado em qualquer altura do processo Se o arguido não tiver defensor é-lhe nomeado um oficioso – n.º2 No caso do art. 143º n.º2 a nomeação é feita pelo MP.

Se o arguido tiver mais que um defensor as notificações são feitas para aquele que for indicado em primeiro lugar no acto de constituição – n.º4. Assim, é necessário ter cuidado na redacção das procurações porque quem recebe as notificações é o advogado que consta da procuração em primeiro lugar.

“Direitos do defensor” – art. 63º:

O defensor tem todos os direitos que a lei confere ao arguido, salvo aqueles que são

pessoais daquele, como por exemplo, o direito ao silêncio – n.º1.

O arguido tem o direito pessoal de retirar a eficácia dos actos do seu defensor – n.º2.

“Obrigatoriedade de assistência” art. 64º:

É obrigatória a assistência do defensor quando:

a)

Primeiro interrogatório judicial (perante o juiz) do arguido detido;

b)

No debate instrutório e na audiência;

c)

Em qualquer altura processual sempre que o arguido seja:

-

Surdo;

-

Mudo;

-

Analfabeto;

-

Desconhecedor da língua portuguesa: note-se que a lei não diz estrangeiro mas desconhecedor, pelo que um estrangeiro que saiba falar português não cai aqui.

-

Menos de 21: mas se, por exemplo, A for apanhado a conduzir bêbado na noite anterior a fazer 21 anos vai ser assistido por defensor. Qual o momento que releva? Ora, o professor entende que releva o momento da prática do acto ilícito típico, embora isto não seja pacífico.

-

Inimputável ou com imputabilidade diminuída.

d)

Nos recursos;

e)

Nas declarações para memória futura, prestadas no inquérito ou na instrução;

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO f) Na

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f) Na audiência. Esta aliena é diferente da b) porque aquela tem uma ressalva e, nesta caso, o defensor tem sempre que estar presente, mesmo nos casos em que o arguido não estiver;

g) Demais casos que a lei determinar.

O n.º3 deve ser relacionado com o art. 62º n.º3 alínea b). Esta nomeação é feita pelo MP. Se chegarmos ao fim do inquérito e, só agora, é que A assume a qualidade de arguido é que o MP nomeia defensor, nos termos do art. 64º n.º3.

“Assistência a vários arguidos” – art. 65º:

Um defensor pode representar vários arguidos, desde que não prejudique as defesas dos outros.

“Defensor nomeado” – art. 66º:

Quando o defensor for nomeado essa nomeação é notificada ao arguido para que este tome conhecimento de quem é o seu defensor.

“Substituição de defensor” – art. 67º:

Qualquer um de nós pode ser chamado a substituir um defensor e podemos pedir o tempo necessário para conferenciar com o arguido e consultar o processo.

O ASSISTENTE

“Assistente” – art. 68º:

Quem se pode constituir assistente:

a) Os ofendidos, desde que maiores de 16 anos, pois é a partir daquela idade que surge a responsabilidade criminal;

b) As pessoas de cujo procedimento depender de queixa ou acusação particular;

c) Se o ofendido morrer sem ter renunciado à queixa, aquele conjunto de pessoas;

d) O representante legal para suprimento de incapacidade do ofendido menor de 16 anos;

e) Qualquer pessoa, desde que maior de 16 anos, naquele elenco de crimes.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO Nos crimes

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Nos crimes de natureza particular, a constituição de assistente é obrigatório, e tem lugar no prazo de 10 dias a contar da participação – n.º2 artigo 68. Ou seja, pode o ofendido efectuar queixa na polícia, o que é o mais normal, e a partir dai, tem 10 dias para que se possa constituir assistente.

Já nos crimes de natureza publica e semi-pública, nos termos do artigo 68/3, pode-se constituir assistente em qualquer altura, aceitando o processo no estado em que ele se encontrar, desde que o requeiram ao juiz. Só o juiz de instrução ou julgamento pode decidir da aceitação da constituição de assistente, ouvido o arguido e o MP.

Até quando se pode constituir assistente – n.º3?

a) Até 5 dias antes do debate instrutório ou da audiência de julgamento. Assim, se não se requer a constituição como assistente antes do debate instrutório não se participa nele. Note-se que se quiser intervir antes, por exemplo, no inquérito, basta requerer a constituição como assistente, pois o artigo diz “até”.

b) Nos casos de dedução de acusação pelo assistente, nos crimes de natureza pública ou semi – publica, há um determinado momento processual para o fazer, no prazo assinalado pelo art. 284º e requerer a abertura da instrução no prazo do art. 287º n.º1, sob pena de não a poder requerer. Note-se que a constituição de assistente pode ser feita simultaneamente com o requerimento de abertura de instrução.

Nos crimes de natureza pública o princípio é o da não admissibilidade da

constituição de assistente, porque se o crime é publico é precisamente porque a sua ratio

é a protecção de interesses públicos e não particulares. O ofendido nestes casos, não

deixa de ser protegido, porque pode ser parte civil para efeitos de obtenção de

indemnização. A grande questão é saber, se num crime público, se pode considerar que

a lei quis proteger os particulares, de forma a que estes se possam constituir assistentes

nos termos do artigo 68/1/A. É por isso, que num crime desta natureza, o requerimento de constituição de assistente tem de ser muito bem fundamentado, sob pena de não ser aceite.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO O juiz,

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O juiz, antes de decidir a aceitação ou não da constituição de assistente dá origem

ao contraditório – n.º4.

“Posição processual e atribuições dos assistentes” – art. 69º:

Sendo admitido o assistente, este é colaborador do MP, mas sem ser subordinado,

salvas as excepções da lei, como por exemplo, nos crimes de natureza particular.

a) Compete aos assistentes (n.º2):, oferecendo provas, requerendo as diligências

que se considerem necessárias.

b) Deduzir acusação independente do MP, pois a acusação do assistente não tem

que ser a do MP;

c) Interpor recursos das decisões que o afectem, mesmo que o MP não o faça.

“Representação judiciária dos assistentes” – art. 70º: 5

Os

assistentes são sempre representados por advogados – n.1º.

O

n.º2 refere-se ao caso de não haver acordo pelos vários assistentes quanto ao

advogado, sendo que, neste caso, será o juiz a decidir, salvo se houver entre os

assistentes interesses incompatíveis e serem diferentes os crimes imputados ao arguido.

O que é necessário para que alguém se possa constituir assistente?

1-

Tenha legitimidade;

2-

Esteja representado por advogado;

3- Esteja em momento processual indicado, estando os limites previstos no art. 68º

n.º3;

4- Pagamento da taxa de justiça nos termos do art. 519º. Nos termos do art. 80º do

Código das Custas Judiciais (CCJ) a taxa de justiça deve ser auto-liquidada no

Multibanco de forma prévia, sendo o recibo junto ao nosso requerimento.

Também o art. 83º CCJ diz que a constituição como assistente custa 2 unidades

5 Surge a questão de saber se os ofendidos, que não se tenham constituído assistente podem ser acompanhados por advogados? A lei não diz, mas parece que sim, pois se uma testemunha pode, o ofendido também deve poder.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO de conta

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

de conta (UC), ou seja, 192 euros (96+96). Quando queremos simultaneamente constituir-nos assistentes e requerer a abertura da instrução pagamos 4 UC = 384 euros.

5- Só o juiz tem legitimidade para admitir a constituição de assistente.

Suponhamos que estamos em inquérito por crime de dano e queremos constituir-nos assistentes. Quid iuris?

Tribunal de instrução criminal Porto Proc. 123/06.1TBMTS

1ª Secção do MP de Matosinhos

Excelentíssimo Senhor Juiz de Instrução Criminal do Tribunal de Instrução Criminal do Porto

Rui Morais Ferreira, à margem identificado nos autos,

EXPÕE:

Pretende constituir-se assistente nos presentes autos, porque tem legitimidade (artigo 68 n.º1 aliena a) CPP), está em tempo (artigo 68º n.º3 aliena a) CPP), está devidamente representado (artigo 70º n.º1 CPP) e já liquidou a respectiva taxa de justiça (artigo 519º CPP), conforme documento 1 que se junta e se dá por integralmente reproduzido para os devidos efeitos legais,

REQUER,

A Vossa Excelência, que se digne a admitir-me a intervir como assistente, nos termos do

disposto nos artigos 68º n.º1 a) e n.º3, 70º n.º1 e 519º, todos do CPP.

JUNTA:

- Procuração forense;

P.E.D.

O RDEM DOS A DVOGADOS – C ONSELHO D ISTRITAL DO P ORTO - Documento

ORDEM DOS ADVOGADOS – CONSELHO DISTRITAL DO PORTO

- Documento comprovativo da auto – liquidação da taxa de justiça;

- 3 Cópias

A advogada

Eliana Silva Pereira

Nota: não é necessário por o número de cópias. Neste caso são três, porque é uma para o MP, outra para o arguido e outra para o processo.

Regras fundamentais dos requerimentos:

- São sempre dirigidos a quem decide;

- Entregam-se no sítio físico onde está o processo, neste caso, no tribunal de Matosinhos. Só assim o juiz pode decidir da minha legitimidade, pois caso contrário não tinha o processo.

E se o requerimento fosse deduzido conjuntamente com o requerimento de abertura da instrução? Neste caso, findo o expõe pede-se a abertura da instrução e termina-se com os dois pedidos;

- Primeiro que seja admitido como assistente; e

- Que seja aberta a instrução.

Temos que ter em atenção que primeiro temos sempre que nos constituir assistentes.

Ex.mo Senhor Juiz

Proc. N.º …

Do Tribunal Judicial da Comarca

de …

F, …, requer a sua constituição como assistente no processo supra e à margem

referenciado, nos termos e para os efeitos do disposto no artigo 68.º, n.º 3 do CPP.