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Projeto

PERGUNTE

E

RESPONDEREMOS

ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor

com autorizacáo de

Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb

(in memoriam)

APRESENTTAQAO

DA EDIQÁO ON-LINE

Diz Sao Pedro que devemos estar

preparados para dar a razáo da nossa esperanga a todo aquele que no-la pedir

(1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos conta

da nossa esperanga e da nossa fé hoje é

mais premente do que outrora, visto que

numerosas

somos bombardeados

por

correntes filosóficas e religiosas contrarias á

fé católica. Somos assim incitados a procurar

consolidar nossa crenga católica mediante

um aprofundamento do nosso estudo.

■ - Eis o que neste site Pergunte e Responderemos propóe aos seus leitores: aborda
-
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda
questóes
da
atualidade
J]
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
i
dissipem e a vivencia católica se fortalega no
Brasil e no mundo. Queira Deus abencoar
'
este trabalho assim como a equipe de

Veritatis Splendor que se encarrega do

respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Estevao Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Estevao Bettencourt e

passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual e

conteúdo

da

revista teológico

-

filosófica

"Pergunte

Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga depositada

em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral assim demonstrados.

Ano xxxk Novembro1998 438

"Ó Morte, onde está a tua Vitoria?" (1 Cor 15,54)

"O Dia do Senhor"

"Para a tutela da fé"

A salvagáo fora da Igreja visível

Religiáo: Fator de prosperidade material?

"Brida" de Paulo Coelho

"Na margem do Rio Piedra eu sentei e chorei" de

Paulo Coelho

Sexo seguro?

Um fato real

Pius wasn't silent (Pió nao se calou)

PERGUNTE E RESPONDEREMOS Publicado Mensal

Diretor Responsável

Estéváo Bettencourt OSB Autor e Redator de toda a materia

publicada neste periódico

NOVEMBRO1998

N°438

SUMARIO

"Ó Morte, onde está a tua Vitoria?"

Escreve Joáo Paulo II:

481

"O Dia do Senhor" 482 Ainda a Palavra do Papa: Diretor-Administrador: "Para a tutela da
"O Dia do Senhor"
482
Ainda a Palavra do Papa:
Diretor-Administrador:
"Para a tutela da fé"
492
O. Hildebrando P. Martins OSB
Delicada questáo:
Admlnistracáo e Distribuicao:
A salvacáo fora da Igreja visível
499
Edicóes 'Lumen Christi"
Na Ordem do Dia:
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5° andar-sala 501
Tel.: (021) 291-7122
Religiáo: Fator de
prosperidade material?
504
Fax (021) 263-5679
Obra de grande Sucesso:
"Brida" de Paulo Coelho
509

Endereco para Correspondencia:

Ecleticismo irreverente: Ed. "Lumen Christi" "Na margem do Rio Piedra eu sentei e Caixa Postal
Ecleticismo irreverente:
Ed. "Lumen Christi"
"Na margem do Rio Piedra eu sentei e
Caixa Postal 2666
chorei" de Paulo Coelho
515
CEP 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ
Diz-se:
Visite o MOSTEIRO DE SAO BENTO
Sexo seguro?
523
e "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
Um fato real
526

na INTERNET: http://www.osb.org.br

e-mail: LUMEN.CHRISTI @ PEMAIL.NET

Impress3oe EncademacSb

Pius wasn't silent (Pió nao se calou)

528

COM APROVAQÁO ECLESIÁSTICA

"MA R QUES SARAIVA"

GRÁFICOS E EDITORES Ltda.

Tels.:(021> 502-9498

NO PRÓXIMO NÚMERO:

Iminente Volta de Cristo? - A Data do Fim do Mundo: Previsóes. - Martinho Lutero ontem

e hoje. - Luteranos e Católicos em Diálogo. - Espiritualidade Oriental e Catolicismo. -

Pedido que urna Crianca faz a seus Pais.

(PARA RENOVACÁO OU NOVA ASSINATURA:

(NÚMERO AVULSO

R$ 30,00).

R$ 3,00).

O pagamento poderá ser á sua escolha:

1. Enviar em Carta, cheque nominal ao MOSTEIRO DE SAO BENTO/RJ.

2. Depósito em qualquer agencia do BANCO DO BRASIL, para agenda 0435-9 Rio na

C/C 31.304-1 do Mosteíro de S. Bento/RJ, enviando em seguida por carta ou fax,

comprovante do depósito, para nosso controle.

3. Em qualquer agencia dos Correios, VALE POSTAL, enderecado as EDICÓES "LUMEN

CHRISTI" Caixa Postal 2666 / 20001-970 Rio de Janeiro-RJ

Obs.: Correspondencia para: Edicóes 'Lumen Christi'

Caixa Postal 2666

20001-970 Rio de Janeiro - RJ

>

"O MORTE, ONDE ESTÁ A TUA VITÓRIA?"

(1 Cor 15,54)

Á primeira vista, a morte é um espantalho, pois parece por termo vio

lento á vida, que é o que todo ser humano mais espontáneamente deseja.

Já o notavam os antigos com certa tristeza. Assim em época remota, um sabio escritorcomparava a morte á sangue-suga, que tem duas filhas: Tra-

ze! Traze!" (Pr 30,15); é insaciável, pois nunca diz: "Basta!". Os gregos pré-

cristáos tinham inveja dos deuses, pois estes praticavam as orgias e os bacanais que os homens praticam, mas, á diferenca dos homens, nao su-

cumbiam a morte; possuiam a athanasía, a imortalidade, que os homens

nao tinham. O morrerfazia a grande diferenca entre os deuses e os homens.

Ora sobre este paño de fundo Sao Paulo proclama a ressurreicáo de

Cristo, penhor da ressurreicáo de todos os homens. E exclama: "A morte foi

absorvida na vitória. Ó morte, onde está a tua vitória? Ó morte, onde está o

teu aguilháo?" (1 Cor 15,54s). A ressurreicáo de Cristo vem a ser a garantia da ressurreicáo de todos e conseqüente vitória sobre o imperio da morte. Tal

proposicáo é fundamental na mensagem crista, a tal ponto que sem ela nao há Cristianismo (cf. 1Cor 15,13.17).

Os primeiros cristáos se compraziam em recorrer a ¡magens ofereci-

das pela própria natureza para ilustrar tal verdade: assim a crisálida, que, encerrada em seu casulo, se apresta a irromper sob a forma de urna borbo-

leta multicolorida

da lenda de um pretenso pássaro muito caro aos antigos; com efeito, dizia a

tradicáo que a fénix, sendo o único individuo da sua especie, durava 500

anos. Estando na iminéncia de se extinguir, deixava a india, onde vivía, ia ao

Líbano, onde arrecadava substancias aromáticas e, carregando a estas, pas-

sava para Heliópolis no Egito; sobre o altar dos sacrificios desta cidade fazia

para si um túmulo de incensó, mirra e outras esséncias; vinda a hora, moma. De seus restos moríais, porém, no dia seguinte nascia um verme, que, nu-

trindo-se da substancia do pássaro morto, tomava asas e, após tres dias,

voltavaparaa india;eraafénixressuscitada!

, o ovo donde nova ave deve surgir

Também se valiam

Percorrendo a Sagrada Escritura do Novo Testamento encontramos

Passagem da habi- tacáo de peregrino no estrangeiro para a entrada na patria (2Cor 5,6s), da

posse velada para a posse revelada (Cl 3,3s), da sementeira para a messe

{Gl 6,8s; 2Cor 9,6), da visáo em espelho e enigma para a visáo face-a-face (1Cor 13,12s). A consciéncia destas verdades fazia muitos Santos nao so-

mente nao temer a morte, mas até mesmo desejá-la ardentemente, como

fazia Sta. Teresa de Ávila ao exclamar: "Senhor, é tempo de nos vermos! É

tempo de acabar esta noite de má pousada!".

E.B.

ai a afirmacáo de que a morte é Páscoa, é passagem

481

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

Ano XXXIX - NQ 438 - Novembro de 1998

Escreve Joáo Paulo II:

"O DÍA DO SENHOR"

Em síntese: O S. Padre Joáo Paulo II lembra ao clero e aos fiéis o valorperene da observancia do domingo, apresentando-o como o Dia do

Senhor, o Dia de Cristo, o Dia da Igreja, o Dia do Homem, o Dia dos Dias. O domingo é o ponto de convergencia de grandes verdades da fé católi

ca, pois está relacionado com a criagáo, a Redengáo e a consumagao da

humanidade na gloria definitiva. Erecordagao dopassado, celebragao do

presente e expectativa do futuro.

Aos 31/5/1998 o S. Padre Joáo Paulo II assinou a Carta Apostólica

Dies Domini (O Dia do Senhor); trata do domingo, explanando o seu

sentido teológico e as normas litúrgicas e moráis que caracterizam sua

observancia.

O documento é de grande profundidade e riqueza espiritual. Divi-

de-se em cinco capítulos, que se seguem a breve Introducáo: 1) O Día

do Senhor (a celebracáo da obra do Criador); 2) O Dia de Cristo (o dia de Jesús Ressuscitado e do dom do Espirito); 3) O Dia da Igreja (a as-

sembléia eucarística, alma do domingo); 4) O Dia do Homem (o domin

go, dia de alegría, repouso e solidariedade); 5) O Día dos Dias (o domin

go, festa primordial, reveladora do sentido do tempo). Ao que se segué

urna Conclusáo.

Ñas páginas subseqüentes seráo postos em relevo os principáis

tópicos deste ampio documento.

1. Día do Senhor (n9 8-18)

O texto corneja lembrando o fundamento bíblico da santificacáo

do domingo, que é o hexaémeron (Gn 1,1 -2,4a), relato da criacáo em

482

"O DÍA DO SENHOR"

seis dias, após os quais, no sétimo dia, Oeus descansa de toda a sua

obra (cf. Gn 2,2). Evidentemente é este um relato antropomórfico, em que Deus faz as vezes de um trabalhador que se cansa e repousa de

sete em sete dias. O autor sagrado assim concebe a obra da criacáo

precisamente para dar um sólido fundamento ao repouso do sétimo dia:

Deus o terá observado, deixando um exemplo e um ensinamento para os

homens.

«11. Se, na primeira página do Génesis, o 'trabalho' de Deus é exemplo para o homem, é igualmente o seu 'repouso': 'Deus repousou, no sétimo dia, do trabalho por Ele realizado' (Gn 2,2). Também aqui nos

encontramos diante de um antropomorfismo, denso de urna mensagem

sugestiva».

Os dizeres centráis deste capítulo 1 da Carta Apostólica estáo em seus §§ 15 e 16, que expóem claramente o sentido do dia do Senhor a

partir dos elementos fornecidos pelo Antigo Testamento:

«15. Na verdade, a vida inteira do homem e todo o seu tempo de-

vem ser vividos como louvor e agradecimento ao seu Criador. Mas a rela gáo do homem com Deus necessita também de momentos explícitamen

te de oragáo, nos quais a relagáo se toma diálogo intenso, envolvendo toda a dimensáo da pessoa. O dia do Senhor é, por excelencia, o dia

desta relagáo, no qual o homem eleva a Deus o seu canto, tornándose

eco da inteira criagáo.

Porisso mesmo, é também o dia do repouso: a interrupgáo do ritmo muitas vezes oprimente das ocupagóes exprime, com a linguagem figu rada da novidade e do desprendimento, o reconhecimento da dependen

cia de nos mesmos e do universo de Deus. Tudo é de Deus!

16. O mandamento do Decálogo, pelo qual Deus impóe a obser

vancia do sábado, tem, no livro do Éxodo, urna formulagáo característica:

'Recorda-te do dia de sábado, para o santificares' (20,8). E, mais adiante,

o texto inspirado dá a razáo disso mesmo, referindo-se á obra de Deus:

'Porque em seis dias o Senhor fez o céu, a térra, o mar e tudo quanto contém, e descansou no sétimo; por isso o Senhor abengoou o dia de

sábado e santificou-o' (v. 11). Antes de impor qualquer coisa a serprati-

cada, o mandamento indica algoa recordar. Convida a avivara memoria

daquela grande e fundamental obra de Deus que é a criagáo. É urna

memoria que deve animar toda a vida religiosa do homem, para depois

confluir no dia em que ele é chamado a repousar».

Sao merecedores de nota ainda os seguintes pontos:

A criacáo que o Antigo Testamento atribuía Deus (Elohim), o Novo

483

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

Testamento a relaciona com Jesús Cristo, que realizou urna nova cria- cáo. "Se é verdade que o Verbo se fez carne na plenitude dos tempos (Gl

4,4), também é certo que, em virtude precisamente do seu misterio de Filho eterno do Pai, Ele é origem e fim do universo. Afirma-o S. Joáo no

prólogo do seu Evangelho: Tudo comecou a existir por meio dele, e sem

ele nada foi criado' (Jo 1,3)" (n9 8).

Em suma, já no Antigo Testamento os fiéis sao chamados a recor

dar o sábado para o santificar (Ex 20,8), ou seja, para o consagrar ao

Senhor Deus, separando-se de seus afazeres cotidianos a fim de louvar

a Deus e prestar-lhe acáo de gracas.

2. Dia de Cristo (n219-30)

Os cristáos tomaram consciéncia de que a criacáo recordada no

sétimo dia ou no shabbat judaico foi refeita por Cristo ao ressuscitar

após o sábado ou no primeiro dia da semana judaica. Daf o deslocamen-

to do dia do Senhor para o dia da ressurreicáo ou para o primeiro dia da

semana judaica. É o que atestam os dizeres do Novo Testamento segun

do os quais o primeiro dia da semana passou a ser o dia da assembléia

litúrgica ou da celebracáo da Eucaristía. Tal dia é chamado kyriaké

heméra, dia do Senhor, em Ap 1,10. Assim o domingo cristáo já se esbo

za nos escritos do Novo Testamento:

1Cor 16,2: "No primeiro dia da semana cada um de vos ponha de

lado o que conseguirpoupar".

At20,7: "No primeiro dia da semana, estando nos reunidos para

a fragáo do pao "

Ap 1,10: "No dia do Senhor fui movido pelo Espirito".

Oito dias após a ressurreicáo, ou seja, em outro dia do Senhor,

Jesús apareceu a Tomé; cf. Jo 20,26.

Cinqüenta dias após a ressurreicáo o Espirito Santo foi dado aos

Apostólos em Pentecostés; cf. At 2,1.

O tato de que o sábado é o sétimo dia da semana judaica proporci

ona aos cristáos a consideracáo de novo aspecto do domingo. Este nao

é somente o primeiro dia da semana judaica; é também o oitavo dia,

aquele que prolonga a semana da criacáo acrescentando-lhe mais um

dia

,

dia sem ocaso, que é o antegozo da vida sem fim.

Para os pagaos, o dia do Senhor dos cristáos era o dia do Sol (o que até hoje é expresso pelos vocábulos Sunday, Sonntag). A Igreja aceitou esta designacáo transferindo-a para Cristo, que é o verdadeiro

484

"O DÍA DO SENHOR"

Sol da humanidade. Cristo é realmente a luz do mundo (cf. Jo 8,12; 9,5)

e o dia comemorativo da sua ressurreicáo é o reflexo perene da revela- cáo de sua gloria.

Dia de luz, o domingo poderia chamar-se também Dia de Fogo,

Sim, a luz de Cristo se associa intimamente ao fogo do Espirito; as duas imagens indicam o sentido do domingo cristáo, pois foi em domingo que Jesús comunicou o Espirito Santo aos Apostólos; cf. Jo 20,22s; At 2,1. A

efusáo do Espirito foi o grande dom do Ressuscitado aos seus discípulos

no domingo de Páscoa e no de Pentecostés.

Em conseqüéncia o domingo é, para os cristáos, um dia inesquecí-

vel e indelével apesar das dificuldades de observá-lo na

sociedade con

temporánea. A Igreja sente-se chamada a novo esforco catequético e pastoral para que nenhum cristáo ñas condicóes normáis da vida fique privado do abundante fluxo de graca que a celebracáo do domingo traz

consigo.

3. O Dia da Igreja (ns 31-54)

A assembléia eucarística vem a ser a alma do domingo.

Nao é suficiente que os discípulos de Cristo rezem individualmente

e recordem no silencio a morte e a ressurreicáo de Cristo. Sao chamados

a se tornar membros do Corpo Místico de Cristo ou da ekklesía (convo-

cacáo). Esta possui na Eucaristía a sua fonte e a sua densidade máxima.

A dimensáo eclesial da Eucaristía realiza-se todas as vezes que esta é

celebrada, mas com maior razáo exprime-se no dia em que toda a comu

nidade é convocada para relembrar a ressurreicáo do Senhor. Daí a obriga- cáo que toca aos cristáos de participar da Eucaristía todos os domingos.

Desta forma o dia do Senhor é também o dia da Igreja. Neste dia

convém que toda a comunidade de cada paroquia se reúna em torno da

Eucaristía, tome consciéncia da necessidade de viver na unidade de um

só pao e um só corpo, como povo peregrino a caminho do domingo sem fim:

O Código de Direito Canónico, de 1917, compilou pela pri-

meira vez a tradigáo numa leí universa!. O Código atual confirma-a, di-

zendo que 'no domingo e nos outros días festivos de preceito, os fiéis tém

obrigagáo de participar da Missa'. Essa lei foi normalmente entendida

como implicando obrigagáo grave; assim o ensina o Catecismo da Igreja

Católica, sendo fácil compreender o motivo, quando se considera a im portancia que o domingo tem para a vida crista.

48. Hoje, como nos heroicos tempos iniciáis, em muitas regióes do

mundo, a situagáo apresenta-se difícil para muitos que desejam viver

485

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

coerentemente a sua fé. Algumas vezes, o ambiente é abertamente hos

til, outras vezes e com mais freqüéncia, é indiferente e refratário á men-

sagem do Evangelho. O crente, para nao ser vencido, deve poder contar com o apoto da comunidade crista. Por isso, é necessário que ele se convenga da importancia decisiva que tem, para a sua vida de fé, o fato

de se reunir ao domingo com os outros irmáos, para celebrar a Páscoa do Senhor no sacramento da Nova Manga».

Os fiéis que se ausentam da sua residencia habitual no domingo,

devem procurar participar da Missa no lugar onde se encontram, enri-

quecendo assim a comunidade local com o seu testemunho pessoal.

A Missa dominical há de ser preparada com especial cuidado. É

importante o canto da assembléia como expressáo da alegría do cora- cáo. O S. Padre explícita a necessidade de que os textos e as melodías

sejam fiéis á tradicáo da Igreja:

«50. Dado o caráter próprio da Missa dominical e a importancia

que ela tem para a vida dos fiéis, é necessário prepará-la com especial

cuidado. Com as formas sugeridas pela sabedoria pastoral e pelos usos locáis que estejam em harmonía com as normas litúrgicas, é preciso ga

rantirá celebragáo aquele caráter festivo que convém ao dia comemora- tivo da Ressurreigáo do Senhor. Com este objetivo, é importante dar a

devida atengáo ao canto da assembléia, já que este é particularmente apto para exprimirá alegría do coragáo, faz ressaltara solenidade e favo

rece a partilha da única fé e do mesmo amor. Por isso, é preciso ter a preocupagáo da sua qualidade, tanto no referente aos textos como as

melodías, para que tudo aquilo que de criativo e original hoje se propóe,

esteja de acordó com as disposigóes litúrgicas e seja digno daquela tra- digáo eclesial que, em materia de música sacra, se gloria de um patrimo

nio de valor ¡nestimável».

A Missa há de ser catívante e participada. Faz-se mister, porém,

guardar a distincáo entre o sacerdocio comum dos fiéis, conferido aos

leigos pelos sacramentos do Batismo e da Crisma e o sacerdocio minis

terial conferido pelo sacramento da Ordem: é "distincáo bem mais que disciplinar entre a tarefa própria do celebrante e a que é atribuida aos diáconos e aos fiéis nao ordenados" (n9 51).

A celebracáo da Eucaristía é o coracáo do domingo, mas a

santificacao do domingo nao se restringe a ela. Outros momentos do dia

hao de ser impregnados da paz e da alegría do Ressuscitado:

«52. Se a partidpagáo na Eucaristía é o coragáo do domingo, seria

contudo restritivo reduzir apenas a isso o dever de santificá-lo. Na verda-

486

"O DÍA DO SENHOR"

de, o dia do Senhor é bem vivido, se todo ele estiver marcado pela lem-

branga agradecida e efetiva das obras de Deus. Ora, isto obriga cada um

dos discípulos de Cristo a conferir, também aos outros momentos do dia

passados tora do contexto litúrgico - vida de familia, relagóes sociais,

horas de diversáo -, um estilo tal que ajude a fazer transparecer a paz e

a alegría do Ressuscitado no tecido ordinario da vida. Por exemplo, o encontró mais tranquilo dos pais e dos filhos pode dar ocasiáo nao só para se abrirem a escuta recíproca, mas também para viverem juntos

algum momento de formagáo e de maior recolhimento. Por que nao pro gramar, inclusive na vida laical, quando forpossível, especiáis iniciativas de oragáo - de modo particular a celebragáo solene das Vésperas - ou

entáo eventuais momentos de catequese, que, na vigilia do domingo ou

durante a tarde deste, preparem ou completem na alma do cristao o dom

próprio da Eucaristía?».

Vém ao caso ainda as assembléias dominicais na ausencia do sa cerdote. Ocorrem nao raro em virtude da escassez do clero. Existem nor mas da Santa Sé e de cada Conferencia Episcopal que as orientam.

permanecer claro na consciéncia do clero e dos fiéis que é

Todavía deve preciso tender a celebrar a S. Missa mesmo em lugares distantes, de tal

modo que as pessoas habitualmente privadas da celebracao eucarística

se possam beneficiar déla o maior número de vezes possível, garantin-

do-se-lhes a presenca periódica de um sacerdote (cf. n9 53).

Por fim, os fiéis que, por motivo de doenca ou outra razáo grave,

estáo impedidos de participar da S. Missa, podem-se unir a urna celebra-

cao eucarística mediante a televisáo e o radio. Verdade é que este géne

ro de transmissáo nao é adequado para se cumprir o preceito dominical,

que requer a participacáo dos fiéiscongregados num mesmo lugar. Mas, para aqueles que estáo impedidos de freqüentar a Eucaristía (e, por isto,

estáo dispensados da mesma), a transmissáo televisiva ou radiofónica é de grande valor, principalmente se completada pelo generoso servico de

um Ministro Extraordinario da Comunháo Eucarística, que leve o Santíssimo Sacramento aos doentes e Ihes ofereca a saudacáo e a soli-

dariedade de toda a comunidade (nQ 54).

4. O Dia do Homem (ns 55-73)

O domingo é também o dia do homem, caracterizado por alegría,

repouso e solidariedade.

A ressurreicáo do Senhor e as gracas que déla decorrem, sao motivo

de júbilo para os cristáos desde os primeiros tempos da Igreja. S. Agos-

tinho (t 430), fazendo eco a testemunhos anteriores, escreve:

487

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

8

"Omitem-se osjejuns e rezase de pé como sinal da ressurreigáo;

poristo também se canta todos os domingos o aleluia" (epístola 55, 28);

cf.ns55.

O cristáo é alegre apesar das dificuldades que a vida de cada dia

Ihe apresenta; sonriente o pecado pode causar auténtica tristeza, porque separa do Sumo Bem, que nao se pode perder: Deus. O próprio Senhor

rezou para que os discípulos tenham "a plenitude de sua alegría" (Jo

17,13). É claroque talalegríanao deveserconfundidacom sentimentos

espalhafatosos e superficiais, que, passando rápidamente, deixam o co- racáo ¡nsatisfeito; cf. n9 56s.

O domingo, dia de festa e de alegría, é também dia de descanso. O

repouso é coisa sagrada, constituindo a condicáo necessária para o ho- mem se subtrair ao ciclo, por vezes excessivamente absorvente, dos afa-

zeres terrenos e retomar consciéncia de que tudo é obra de Deus, do

qual o homem é lugar-tenente subordinado; o poder que a ciencia e a

técnica conferem ao homem nao o tornam um outro Deus; cf. n9 65. A Igreja tem legislado sobre a necessidade do repouso dominical, incutin- do-o aos fiéis para que possam elevar a mente ao Senhor e freqüentar a S. Eucaristía. O atual Código de Direito Canónico prescreve o seguinte:

«Can. 1247 - No domingo e nos outros dias de festa de preceito,

os fiéis tém a obrigagáo de participar da missa; além disso, devem abs- ter-se das atividades e negocios que impegam o culto a serprestado a Deus, a alegría própria do dia do Senhor e o devido descanso da mente

e do corpo.

Can. 1248 - § 1, Satisfaz ao preceito de participar da missa quem

assiste á missa em qualquer lugar onde é celebrada em rito católico, no

próprio dia de festa ou na tarde do dia anterior.

§ 2. Por falta de ministro sagrado ou por outra grave causa, se a

participagáo na celebragáo eucarística se tornar impossível, recomenda

se vivamente que os fiéis participen) da liturgia da Palavra, se houver, na

igreja paroquial ou em outro lugar sagrado, celebrada de acordó com as

prescrígóes do Bispo diocesano; ou entáo se dediquem á oragáoportempo

conveniente, pessoalmente ou em familia, ou em grupo de familias de acordó com a oportunidade».

É contraria aos principios cristáos a tendencia de alguns regimes a

estabelecer dias de repouso diferentes para os diversos membros da

familia, impedindo assim que pais e filhos se reunam ao domingo e com-

partilhem mutuamente seus interesses (cf. n9 66).

A fim de conservar os valores do repouso dominical, é para desejar

488

"O DIA DO SENHOR"

que os cristáos saibam escolher, dentre as varias propostas de diverti-

mento, aquelas que sao compatíveis com a santificacáo do domingo; com efeito,verifica-sequecertasocupacoes recreativassaomaisabsor-

ventes e exigentes do que repousantes; assim, em vez de contribuir para

o bem espiritual e corporal do cristáo, impossibilitam-no de usufruir das

grapas que o dia do Senhor oferece a todos (cf. ne 67s).

Solidariedade

"O domingo deve dar oportunidade aos fiéis para

se dedicarem também as atividades de misericordia, caridade e aposto

lado" (n9 69).

Essa caridade nao há de se exprimir apenas no óbolo, mas há de

criar a cultura da solidariedade, concretizada tanto entre os membros da comunidade como em favor da sociedade inteira. Já os Apostólos incuti- am o dever do amor fraterno decorrente de freqüentar a Eucaristía; cf.

1Cor 16,2; 11,20-22; Tg 2,2-4. Os Padres da Igreja muito o enfatizar'am,

como se depreende, entre outros, dos seguintes dizeres de Sao Joáo Crisóstomo, bispo de Constantinopla (t 407):

«Queres honrar o Corpo de Cristo? Nao permitas que seja despre-

zado nos seus membros, isto é, nos pobres que nao tém o que vestir,

nem o honres aqui no templo com vestes de seda, enquanto lá lora o Corpo',

abandonas ao frío e a nudez. Aquele que disse: 'Isto é o meu

confirmando o fato com a sua palavra, também afirmou: 'Vos me vistes

com fome e nao me destes de comer', e aínda: 'Na medida em que o

o recu-

recusastes a um destes meus irmáos mais pequeninos, a mim

De que serviría, afina!, adornara mesa de Cristo com vasos

):

sastes. (

de ouro, se Ele morre de fome na pessoa dos pobres? Primeiro dá de comer

a quem tem fome, e depois ornamenta a sua mesa com o que sobra».

«Saopalavras que lembram, eficazmente, á comunidade crista o

deverde fazerda Eucaristía o lugar onde a fraternidade se torne solidarí-

edade concreta, onde os últimos sejam os prímeiros na consideragáo e

na estima dos irmáos, onde o próprío Cristo, através da doagáo generosa

dos ríeos aos pobres, possa de algum modo continuar ao longo dos tem-

pos o milagre da multiplicagáo dos páes».

5. O Dia dos Dias (ns 74-80)

"O domingo, festa primordial, reveladora do sentido do tempo" (sub

título do capítulo).

«75. Sendo o domingo da Páscoa semanal, que evoca e torna pre sente o dia em que Cristo ressuscitou dos morios, ele é também o dia que

revela o sentido do tempo. Nao tem qualquer afinidade com os ciclos

cósmicos que, segundo a religiáonaturale a cultura humana, poderiam

489

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

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ritmar o tempo, fazendo crer talvez ao mito do eterno retorno. O domingo

cristáo é diferente! Nascendo da Ressurreigáo, ele sulca os tempos do

homem, os meses, os anos, os séculos como urna seta ¡angada que os atravessa, oríentando-os para a meta da segunda vinda de Cristo. O do

mingo prefigura o dia final, o da Parusia, já antecipada de algum modo

pela gloria de Cristo no acontecimento da Ressurreigáo.

Com efeito, tudo aquilo que suceder até ao fim do mundo será ape

nas urna expansáo e expiicitagáo do que aconteceu no dia em que o

corpo martirizado do Crucificado ressuscitou pela forga do Espirito e se tornou, por sua vez, a fonte do Espirito para a humanidade. Por isso, o cristáo sabe que nao deve esperar outro tempo de salvagao, visto que o mundo, qualquer que seja tempo. Nao só a Igreja, mas o próprio universo e a historia sao continua

a sua duragáo cronológica, já vive no último

mente dominados e guiados por Cristo glorificado. É esta energía de vida

que impele a criagáo - esta 'tem gemido e sofrido as dores do parto, até

ao presente' (Rm 8,22) - para a meta do seu pleno resgate. Deste cami-

nho, o homem pode ter apenas urna vaga percepgáo; mas os cristáos

possuem a chave de interpretagáo e a certeza dele, constituindo a santificagáo do domingo um testemunho significativo que eles sao cha

mados a dar, para que os tempos do homem sejam sempre sustentados

pela esperanga».

A celebrado do domingo de Páscoa - a solenidade das solenida-

des - foi aos poucos inspirando á Igreja a estruturacáo do ano litúrgico: a Quaresma preparatoria da Páscoa e o cinqüentenário que prolonga de

modo especial a celebracáo da Páscoa até Pentecostés. Segue-se o ci

clo de Natal, que comemora o misterio da Encarnacao do Senhor (ns

76s).

"Na celebracáo do ciclo anual dos misterios de Cristo, a Santa Igre

ja venera, com especial amor, porque indissoluvelmente unida á obra de salvacáo de seu Filho, a bem-aventurada Virgem María, Máe de Deus"

(na 78). Dilatando ainda seus horizontes, a liturgia da Igreja venera tam-

bém a memoria dos mártires e de outros Santos; esta nao empalidece a

figura de Cristo, mas, ao contrario, a exalta, mostrando a eficacia da

Redencáo efetuada pelo Senhor.

A necessidade de solenizar certas datas do ano litúrgico levou a

Igreja a estipular días santos de guarda, nos quais sao obrigatórios a freqüentacáo da S. Missa e o repouso. Visto, porém, que tais datas, cain- do em dias de semana, nao podem ser devidamente celebradas pelo

povo fiel, a Igreja permite que sua solenizacáo seja transferida para o

domingo mais próximo; é o que acontece no Brasil com as festas da Epifanía, da Ascensáo do Senhor, da Assuncáo de María, dos SS. Apósto-

490

"O DÍA DO SENHOR"

los Pedro e Paulo e de todos os Santos. É

para desejar, porém, que a

celebracáo do domingo nao perca o caráter próprio do día do Senhor,

cedendo freqüentemente afestividadesdos Santos (n978-80).

6. Conclusáo (n9 81-87)

Na Conclusáo, o S. Padre retoma as linhas doutrinárias anteriores

e acrescenta em síntese o seguinte:

«84. Instituido para amparo da vida crista, o domingo adquire natu

ralmente também um valor de testemunho e anuncio. Día de oragao, de

comunháo, de alegría, ele repercútese sobre a sociedade, irradiando

sobre ela energías de vida e motivos de esperanga. O domingo é o anun

cio de que o tempo, habitado porAquele que é o Ressuscitado e o Se

nhor da historia, nao é o túmulo das nossas ilusóes, mas o bergo de um

futuro sempre novo, a oportunidade que nos é dada de transformar os

momentos fugazes desta vida em sementes de eternidade. O domingo é

convite a olhar para frente, é o dia em que a comunidade crista eleva para Cristo o seugrito: "Maranatha: Vinde, Senhor!" (1Cor 16,22). Com este grito de esperanga e expectativa, ela faz-se companheira e susten

táculo da esperanga dos homens. De domingo a domingo, iluminada por

Cristo, caminha para o domingo, sem fim, da Jerusalém celeste, quando

estiver completa em todas as suas feigdes a mística Cidade de Deus, que

'nao necessita de Sol nem de Luz para a iluminar, porque é iluminada

pela gloria de Deus, e a sua luz é o Cordeiro' (Ap 21,23)».

Nesta tensao para a meta, a Igreja é sustentada e animada pelo

Espirito:

"O Espirito está presente ininterruptamente em cada dia da Igreja, irrompendo,imprevisívelegeneroso,comariquezadosseusdons;mas,

na assembléia dominical congregada para a celebragáo semanal da Pás-

coa, a Igreja colocase especialmente á escuta dele e com Ele tende

para Cristo, no desejo ardente de seu regresso glorioso: 'O Espirito e a

Esposa dizem: Veml'(Ap22,17)"(n385).

O texto aqui apresentado sintéticamente merece ser lido na ínte

gra por todos os fiéis católicos, pois ultrapassa os limites da Teología

Moral e do Direito Canónico, oferecendo urna apresentacáo sumaria das

verdades da fé.

491

Ainda a Palavra do Papa:

"PARA A TUTELA DA FÉ"

Em síntese: O Motu Proprío Ad tuendam Fidem foipromulgado

pelo S. Padre a fim de atualizar o Código de Direito Canónico em seus

cánones 750 e 1371. Tais cánones foram formulados em 1983, anterior

mente ao texto da Profissáo de Fé Católica editado em 1989 pela Con-

gregagáopara a Doutrina da Fé. O documento pontificio trata de enfatizar

as verdades que a respeito da fé e da Moral sao propostas pela Igreja em

termos definitivos,

definitivosporque

tém nexo históricoe lógicocom

os dogmas de fé revelados pelo próprío Deus. Entre essas verdades "conectadas", estáo a condenagáo da eutanasia direta, a canonizagáo

dos Santos, a legitimidade da eleigáo papal, a reserva da ordenagáo sa

cerdotal aos homens.

*

*

*

Aos 18/5/1998 o S. Padre Joáo Paulo II assinou a Carta Apostólica Motu Proprio" que corneja com as palavras Ad tuendam Fidem (Para a

Tutela da Fé). Visto que, para muitos crlstáos, nao ficaram claros o con-

teúdo desse documento e a própria atitude do S. Padre, vamos dedicar-

Ihe as páginas seguintes.

1. Profissio de Fé e Juramento

Todo fiel católico que assume um encargo de importancia na Igreja

é obligado a profe

), rir urna Profissáo de Fé e a prestar juramento de fidelidade á S. Igreja2.

(clérigo, professor de Teología, Superior Religioso

Tal prescricáo se deve á necessidade de coeréncia: quem ó chamado a

falar em nome da Igreja, tem o dever de transmitir o que a Igreja ensina ou, ao menos, nada transmitir que contrarié o ensinamento da Igreja; é

1 De própria iniciativa.

_

2 Tal ó o teor do canon 833, que especifica os cargos aos quais Profissáo de Fe e

Juramento estáo anexos:

Canon 833 - Tém obrigagáo de fazer pessoalmente a Profissáo de fé, segundo a

fórmula aprovada pela Sé Apostólica:

1S diante do presidente ou de seu delegado, todos os que participem de um Conci

lio Ecuménico ou particular, do Sínodo dos bispos ou do Sínodo diocesano, com voto

deliberativo ou consultivo; o presidente, porsua vez, diante do Concilio ou do Sínodo; 2a os promovidos á dignidade cardinalícia, segundo os estatutos do Sacro Colegio;

3S diante do delegado da Sé Apostólica, todos os promovidos ao episcopado, e os

que se equiparam ao Bispo diocesano;

492

"PARA A TUTELA DA FÉ"

13

este um dever de honestidade, pois o povo de Deus quer ouvir dos minis

tros da Igreja o que a Igreja pensa e professa, e nao o que tal ou tal

pessoa, por conta própria, pensa e professa. Se o bispo, o teólogo ou

outro oficial toma a liberdade de ensinar algo que destoe do magisterio

da Igreja, está traindo a Igreja, iludindo os fiéis, além de ceder ao pecado

de infidelidade as suas funcóes.

Aos 9/1/1989 a Congregacáo para a Doutrina da Fé, encarregada dos assuntos atinentes á fé, publicou novas fórmulas de Profissáo de Fé e de juramento anexo a serem observadas nos casos ácima indicados. Esses textos substituíam as fórmulas anteriores datadas de 1967; cf. PR

326/1989, pp. 316-319. Eis o teor do texto promulgado em 1989:

I. PROFISSÁO DE FÉ

A Profissáo de Fé consta do Símbolo Niceno-constantinopolitano,

ao qual sao acrescentadas tres proposicóes:

"Eu, N.N., creioeprofesso todasecada qualdasproposigoesque

estáo coñudas no Símbolo da Fé, a saber:

Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso.

Criador do céu e da térra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.

Creio em um só Senhor Jesús Cristo, Filho Unigénito de Deus, nas-

cido do Pai antes de todos os séculos;

Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro;

gerado, nao criado, consubstancial ao Pai. Por ele todas as coisas foram feitas.

Epor nos, homens, epara a nossa salvagáo, desceu dos céus;

e se encarnou pelo Espirito Santo no seio da Virgem María e se fez

homem.

4a diante do colegio dos consultores, o Administrador diocesano;

5a diante do Bispo diocesano ou de seu delegado, os Vigários gerais, os Vigários

episcopais e os Vigários judiciais;

69 diante do Ordinario local ou de seu delegado, os párocos, o reitor, os professo- res de teología e filosofía nos Seminarios, no inicio do exercício do cargo; e os pro

movidos á ordem do diaconato;

7a diante do Gráo-chanceler e, na sua falta, diante do Ordinario local ou dos res

pectivos delegados, o reitor de Universidade Eclesiástica ou Católica no inicio do exercício do seu cargo; diante do reitor, que seja sacerdote, ou diante do Ordinario

local ou dos respectivos delegados, os professores que lecionam disciplinas refe

rentes áfée aos costumes em qualquer Universidade, no inicio do desempenho do

cargo;

8a os Superiores nos Institutos Religiosos e ñas Sociedades Clericais de vida apos

tólica, segundo a norma das Constituicoes".

Além da Profíssáo de Fé, devem emitir Juramento de Fidelidade aquelas pessoas

mencionadas nos nas 5-8 do referido canon.

493

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

t4

Também pornos foicrucificadosob Pondo Pilatos;padeceu e foi

sepultado.

Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras,

e subiu aos céus, onde está sentado á direita do Pal

E de novo há de vir em sua gloría para julgar os vivos e os morios.

E o seu reino nao terá fim. Creio no Espirito Santo,

Senhorque dá a vida, e procede do Pai e do Filho,

e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado;

Ele que falou pelos Profetas.

Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica.

Professo um só batismo para a remissáo dos pecados.

E espero a ressurreigáo da carne

e a vida do mundo que há de vir. Amém.

Com fé firme creio também tudo aquilo que na Palavra de Deus,

escrita ou oral, está contido e pela Igreja é proposto, ou mediante solene

sentenga ou mediante o seu ordinario e universal magisterio, como ver

dades reveladas por Deus que se impoem a fé.

Também abrago e retenho firmemente todas e cada qual das pro-

posigoes que a respeito da doutrina da fé e dos costumes sao propostas

pela Igreja em termos definitivos.

Além disto, com religioso obsequio da inteligencia e da vontade

dou minha adesáo as doutrinas que o Pontífice Romano ou o Colegio dos

Bispos enunciam ao exercerem seu auténtico magisterio, embora nao

intencionem proclamá-las em termos definitivos".

Segue-se o

II. JURAMENTO DE FIDELIDADE

Tal é a fórmula a ser usada pelos fiéis cristáos mencionados no

eánon 833, ne 5-8:

"Eu, N.N., ao recebera fungáo de

, prometo guardar

sempre a comunháo com a Igreja Católica tantopelas palavras que pro

ferir como por meu modo de agir.

Com grande diligencia e fidelidade, cumprirei os encargos a que

estou obrigado em relagáo seja á Igreja universal, seja a diocese na qual

sou chamado a prestar servigo, segundo as prescrigóes do Direito.

No exercfcio de minhas fungóes, que em nome da Igreja me foram confiadas, conservare!'íntegro, transmitiré'!e ilustrare'!fielmenteo depósi to da fé; por conseguinte evitare! qualquer doutrina a ela contraria.

494

"PARA A TUTELA DA FÉ"

15

Seguirei e fomentarei a disciplina comum da Igreja e guardarei a

observancia de todas as leis eclesiásticas, principalmente daquelas que

estáo contidas no Código de Direito Canónico.

Com obediencia crista, executarei o que for estabelecido pelos sa

grados Pastores, como auténticos doutores e mestres da fé ou como

governantes da Igreja, e fielmente prestare'! auxilio aos Bispos diocesanos,

a fim de que a atividade apostólica a serexercida em nome e por manda

to da Igreja se desenvolva dentro da comunháo da mesma Igreja.

Assim me ajudem Deus e estes santos Evangelhos de Deus, que

toco com as minhas máos".

Eis as variantes dos parágrafos 4 e 5 da Fórmula de Juramento

válidas para os fiéis dos quais trata o canon 833, ns 8:

"Fomentarei a disciplina comum da Igreja e urgirei a observancia

de todas as leis eclesiásticas, principalmente das que estáo contidas no

Código de Direito Canónico.

Com obediencia crista, executarei o que os sagrados Pastores como auténticos doutores e mestres da fé declaram ou como governantes da Igreja estabelecem, e com os Bispos diocesanos colaborare! de boa von- tade para que a atividade apostólica, a ser exercida em nome e porman dato da Igreja, se desenvolva na comunháo da mesma Igreja, ressalva-

das a índole e a finalidade do meu Instituto Religioso".

Como se vé, a Profissáo de Fé versa sobre tres tipos de verdade:

1) os artigos de fé que o magisterio da Igreja (extraordinario ou solene e ordinario ou universal) propóe como verdades reveladas por

Deus;

O magisterio extraordinario é o do Papa ou o de um Concilio Geral

quando definem alguma proposicáo como artigo de fé; tal foi a definicáo do dogma da SS. Trindade por parte dos Concilios de Nicéia I (325) e Constantinopla I (381); tal foi a definicáo referente a Jesús Deus e Ho-

mem em Éfeso (431) e Calcedonia (451). Tal foi a definicáo do dogma da

Imaculada Conceicáo por parte de Pió IX em 1854, a da Assuncáo Cor

poral de María SS. por Pió XII em 1950.

O magisterio ordinario é o dos Bispos unidos ao S. Padre em con senso unánime. Tal é o ensinamento referente á existencia do demonio e

do seu pecado.

2) As proposicóes que a respeito da fé e da Moral sao formuladas pela Igreja em termos definitivos; sao os ensinamentos dogmáticos e

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

16

moráis "necessários para preservar fielmente e expor o depósito da fé,

mesmo que nao tenham sido propostas pelo magisterio da Igreja como

formalmente revelados". Seriam, por exemplo, a doutrina da Igreja con

traria á eutanasia direta, a canonizado dos Santos, a legitimidade da eleicáo de um Papa, a reserva do sacerdocio ministerial aos homens.

3) Os ensinamentos da Igreja emanados do Papa ou dos Bispos em uniáo com o Papa, aínda que nao tenham sido solenemente defini dos pela Igreja. Tal é o caso da encíclica Humanae Vitae (1968), que rejeita todo método artificial de limitacáo da natalidade.

2. O Código de Direito Canónico complementado

Ocorre que o Código de Direito Canónico vigente foi promulgado

aos 25/1/1983, ou seja, antes da publicacáo das novas fórmulas da Pro-

fissáo de Fé e do Juramento. Por isto em seus cánones nao menciona a segunda categoría de verdades contidas na Profissáo de Fé, como se

pode depreender dos cánones 750 e 1371, que váo aqui reproduzidos:

"Can. 750 - Deve-se crer com fé divina e católica em tudo o que está contido na palavra de Deus escrita ou transmitida, a saber, no único depósito da fé confiado a Igreja, e que, ao mesmo tempo, é proposto como divinamente revelado pelo magisterio soiene da Igreja ou pelo seu magisterio ordinario e universal; isto se manifesta pela adesáo comum

dos fiéis sob a guia do magisterio sagrado; por ¡sso, todos estáo obriga-

dos a evitar quaisquer doutrinas contrarias.

Can. 1371 - Seja punido com justa pena:

1gaquele que, além do caso mencionado no can. 1364, § 1, ensina doutrina condenada pelo Romano Pontífice ou pelo Concilio Ecuménico

ou com pertinacia rejeita a doutrina mencionada no can. 752, e, advertido

pela Sé Apostólica ou pelo Ordinario, nao se retrata;

2S aquele que, de outro modo, nao obedece a legítima ordem ou

proibigáo da Sé Apostólica, do Ordinario ou do Superior e, depois de

advertencia, persiste na desobediencia".

A inadequacáo do Código de 1983 ao texto da Profissáo de Fé datado de 1989 levou o S. Padre a escrever o Motu Proprio Ad tuendam

Fidem. Neste documento Joao Paulo II chama a atencáo para a necessi-

dade do ajuste e determina que sejam complementados os cánones 750

e 1371 do Código de Direito Canónico e o canon 598 do Código dos

Cánones das Igrejas Orientáis.

No Código de Direito Canónico, o canon 750 passa a ter dois pa-

496

"PARA A TUTELA DA FÉ"

17

rágrafos: o primeiro é o texto de 1983; o segundo, acrescentado, tem a

seguinte redacáo:

"2a. Todos e cada um dos artigos propostos em termos definitivos

pelo magisterio da Igreja referentes afee a Moral, isto é, aqueles que se fazem necessários para salvaguardarpiedosamente e expor fielmente o

depósito da fé, devem ser firmemente aceitos e sustentados; por isto quem negar as proposigoes que devem ser professadas definitivamente, opóe-

se a doutrina da Igreja Católica".

O canon 1371 seja doravante lido com referencia ao canon 750

nos seguintes termos:

"Canon 1371. - Seja punido com justa pena:

1g. aquele que, além do caso mencionado no canon 1364 § 1S,

ensina doutrina condenada pelo Romano Pontífice ou por um Concilio Ecuménico ou com pertinacia rejeita a doutrina mencionada no canon

750 § 2B ou no canon 752, e, advertido pela Sé Apostólica ou pelo Ordi

nario, nao se retrata

Á guisa de esclarecimento, seja dito:

- o canon 752 reza o seguinte:

"Nao assentimento de fé, mas religioso obsequio da inteligencia da vontade deve ser prestado á doutrina que o Sumo Pontífice ou o cole

gio dos Bispos, ao exercerem o magisterio auténtico, anunciam sobre a

e

fé e a Moral, mesmo quando nao tenham a intengáo de proclamá-la por ato definitivo; portanto procurem os fiéis evitar tudo o que nao esteja de

acordó com ela".

Como exemplo de tal doutrina nao ensinada em termos definitivos, mas merecedora de religioso obsequio, está o teor das encíclicas pa páis, das Exortacóes Apostólicas, das Cartas Apostólicas.

Foi precisamente para tutelar a segunda categoría de verdades atrás enunciadas que o S. Padre quis promulgar o Motu Proprio Ad tuendam Fidem. Tal documento comeca exatamente com as seguintes

palavras:

"Para a tutela da fé da Igreja Católica contra erros que se levantam

da parte de alguns fiéis, principalmente daqueles que se dedicam ao es- tudo das disciplinas da Sagrada Teología, pareceu-nos sumamente ne-

cessário

que no texto do Código de Direito Canónico e no Código dos

Cánones das Igrejas Orientáis sejam acrescentadas normas

A propósito impde-se breve reflexáo.

497

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

18

3. Ponderando

O S. Padre, ao introduzir o seu Motu Proprio, lembra que Ihe foi

confiado o encargo de confirmar seus irmaos na fé (Le 22,32). O Senhor

Jesús fez de Pedro e seus sucessores os tutores das verdades revela das, a fim de que nao fossem ao leu ou nao se desvirtuassem ao passar

de geracao em geracáo. Daí o dever que incumbe ao Papa Joáo Paulo II, de se pronunciar com autoridade sempre que esteja em perigo algum

artigo da mensagem da fé crista. No caso em foco, alias, o Papa nada de

novo afirmou; apenas atualizou o Código de Direito Canónico, dando-lhe a redacao necessária para que correspondesse a um documento da Igreja

promulgado após a publicacao do Código em 1983. Esta revisáo dos

cánones 750 e 1371 impunha-se nao somente por urna questáo de coe- réncia jurídica, mas também por causa de contestacoes que alguns teó

logos tém levantado contra o magisterio do Sumo Pontífice; sao despro

positadas e também prejudiciais ao povo de Deus, frente ao qual preten-

dem lancar o descrédito sobre o que S. Santidade promulga no pleno exercício de seus direitos e deveres.

O Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregacáo para a Dou-

trina da Fé, redigiu um Esclarecimento ao Motu Proprio Ad tuendam

Fídem. Observa bem que tal documento tem em mira principalmente

defender as verdades da segunda categoría e acrescenta:

Todo fiel deve prestar um firme e definitivo assentimento a tais

verdades, baseando-se sobre a fé na assisténcia do Espirito Santo ao

magisterio e sobre a doutrína católica referente á infalibilidade do magis terio no tocante a tais proposigóes".

A seguir, compara entre si as verdades da primeira e da segunda

categorías e afirma que "é importante enfatizar que nao há diferenca en

tre urnas e outras no concernente ao caráter pleno e irrevogável do as

sentimento que Ihes é devido". A diferenca existe no tocante á virtude da

fé, pois na primeira categoria o assentimento se baseia diretamente so bre a fé na autoridade da Palavra de Deus, "ao passo que na segunda

categoria ele se baseia sobre a fé no Espirito Santo e na infalibilidade da autoridade do magisterio da Igreja".

No tocante á ordenacáo de mulheres, o Cardeal ñatzinger lembra

que o S. Padre a rejeitou em Carta de 1994, lomando por base a Palavra de Deus escrita, constantemente preservada e aplicada na Tradicáo da

Igreja".

Eis, em poucas consideracoes, o sentido do Motu Proprio Ad tuendam Fidem, que alguns repórteres nao puderam transmitiradequa- damente, visto tratar-se de assunto eminentemente teológico.

498

Delicada Questáo:

A SALVAQÁO FORA DA IGREJA VISÍVEL

Em sfntese: Todos os homens, pormais diferentes que sejam, tém

em comum: 1) tersido criados todos á imagem e semelhanga de Deus; 2) remidos todos pelo sangue de Cristo; 3) chamados todos á mesma bem- aventuranga final. Sendo assim, Deus nao pode deixar de se fazer pre

sente a todos e a qualquer um no decorrer desta vida. Ele interpela cada

qual pela voz do Evangelho ou pela voz da consciéncia. Aqueles que,

sem culpa própria, ignoram Cristo e sua Igreja, mas de boa fé e candida mente procuram seguir os ditames de sua consciéncia reta e bem forma da, sacrificándoseparaseguiro que elesjulgamsera Verdade e o Bem,

estáoseguindoa Deus epoderáo chegará patriacelestepreparadapara

todos os homens sinceros e retos. Deus nao pede contas a ninguém

daquilo que o próprio Deus nao Ihe confiou.

*

*

*

O presente artigo se voltará para a delicada questáo da salvacáo

fora da Igreja visível, considerando, de modo especial, a acáo do Espirito

Santo em tal caso. Imp5e-se logo urna observacáo básica.

1. Todos iguais em tres planos

É forcoso reconhecer que todos os homens, por mais diferentes

que sejam pela cultura e por suas crencas religiosas, sao iguais entre si

em tres planos:

1) Todos trazem em si a imagem e semelhanga de Deus, pois todos sao dotados de inteligencia e vontade e, por isto, aspiram á Verda

Sabiamente registrava S. Agosti- nho: "Senhor, Tu nos fizeste para Ti, e inquieto é o nosso coragáo en-

de, ao Bem, ao Absoluto, ao Infinito

quanto nao repousa em Ti" (Confissóes). O sinete do Criador está assim

gravado no íntimo de todo ser humano. 2) Todos foram remidos pelo sangue de Cristo, embora muitos

nao conhecam Jesús Cristo. O Sínodo dos Bispos da Asia, realizado em

Roma nos meses de abril e maio de 1998, reconheceu a dificuldade de o

anunciar aos povos de tradicóes religiosas muito antigás, como sao os

hinduístas, os brámanes, os budistas, os confucionistas, os xintoístas ;

verificaram os Bispos que mesmo na Asia se pode apregoar o Evangelho

desde que se mostré que o Cristianismo nao é urna religiáo meramente ocidental, mas responde aos anseios mais espontáneos do ser humano:

Jesús na Asia é o Compassivo, o Iluminado, o Purificador, o Mestre da

499

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

20

Sabedoria, o Amigo dos Pobres.

3) Todos sao chamados á mesma bem-aventuranca final ou á

visáo de Deus face-a-face, pois todo ser humano é capax Dei, capaz de

apreender a Deus (Catecismo da Igreja Católica n9 27); ver Gaudium et

SpesnB19§ 1.

2. Deus presente a todos os homens

Se todos os homens sao tao marcados por Deus, compreende-se

que Deus se Ihes torna presente, de modo que o possam de algum modo

perceber.

O Papa Paulo VI, numa alocucáo de 17/05/1972, o insinúa. Cita Sócrates, que se dizia inspirado por um genio (daimon), e Gandhi, que afirmava obedecer a urna stillsmall voice, e acrescenta:

"Sem recorreraos exemplos extraordinarios, cada homem verda-

deiro tem, dentro de si, urna fonte própria, intuitiva e normativa".

A afirmacio é um tanto vaga. Importante, porém, é que ela se refe

re a todos os homens, cristáos e nao cristáos.

O Concilio do Vaticano II explícita tal pensamento, afirmando:

"Na intimidade da consciéncia, o homem descobre urna lei. Ele nao

a dá a si mesmo. Mas a ela deve obedecer. Chamando-o sempre a amar

e fazer o bem e a evitar o mal, no momento oportuno a voz desta leí ¡he

soa nos ouvidos do coragáo: faze isto, evita aquilo. De fato o homem tem

urna lei escrita por Deus em seu coragáo. Obedecer a ela é a própria

dignidade do homem, que serájulgado de acordó com esta lei. A consci éncia é o núcleo secretfssimo e o sacrário do homem, onde ele está sozi-

nho com Deus e onde ressoa sua voz. Pela consciéncia se descobre, de modo admirável, aquela lei que se cumpre no amor de Deus e do próxi

mo" (Const. Gaudium et Spes nQ 16).

É digna de especial atencáo a referencia á consciéncia como

sacrário em que o homem se encontra nao com um genio do além, mas

com o próprio Deus, que indica á criatura a vía de retorno para o Pai,

insuflando-lhe: "Pratica o bem, evita o mal". No mais íntimo de si todo

homem ouve essa voz delicada do Criador.

É claro que tal realidade, com mais razáo ainda, se verifica no cris-

táo, que é feito templo da Ssma. Trindade desde o seu Batismo; cf. Rm 8,15; Gl 4,4. O Cristianismo é a resposta, por excelencia, ás aspiracoes

de todo homem, como insinúa Tertuliano (f 220 aproximadamente) ao

exclamar: "Ó testemunho da alma naturalmente crista!" (Apologeticum 17).

Por ser templo do Espirito Santo (1 Cor 6,19), o cristáo tem mais do

500

A SALVAQÁO FORA DA IGREJA VISÍVEL

que urna titilesmall voice a Ihefalar;tem o Mestre interior, que é o próprio Espirito Santo, o qual Ihe ensina o sentido profundo das palavras de Deus

que ele capta com os ouvidos. É Santo Agostinho quem o diz:

"Vede já, irmáos, este grande misterio: o som de nossas palavras fere o ouvido: o Mestre, porém, está dentro. Nao penséis que alguém

aprenda alguma coisa do homem. Podemos chamar a atengáo com o

ruido de nossa voz; mas, se no nosso interior nao estiver aquele que nos ensina, será vá nossa pregagáo. Irmáos, queréis dar-vos conta do que

vos digo? Poracaso nao escutais todos este sermáo? Mas quantos sai-

rao daquisem se instruir! Pelo que toca a mim, faleia todos; mas aqueles

a quem nao fala aqueta Ungáo [Agostinho se referia a Uo 2,20.27], a

quem o Espirito Santo nao ensina interiormente, saem daquisem instru-

gáo. O magisterio externo consiste em certas ajudas e avisos. Mas quem instruí os coragdes, tem sua cátedra no céu. Logo, é o Mestre interior quem ensina. Onde nao estiversua inspiragáonem sua ungáo, inútilmen

te soaráo no exterioras palavras".

Visto que Deus se faz presente a todo ser humano, abordemos

agora a questáo:

3. A salvacáo fora da Igreja Católica

O Concilio do Vaticano II considerou o problema, recolhendo os

dados da teologia dos últimos séculos. Assim se exprime a Constituicáo Lumen Gentium n916:

"O Salvador quer que todos os homens se salvem (cf. 1Tm 2,4). Portanto aqueles que sem culpa ignoram o Evangelho de Cristo e sua

Igreja, mas buscam Deus de coragáo sincero e tentam, sob o influxo da graga, cumprirpor obras a sua vontade conhecida através dos difames

da consciéncia, podem conseguir a salvagáo eterna. E a Providencia Di

vina nao nega os subsidios necessários a salvagáo aqueles que sem culpa aínda nao chegaram ao conhecimento expresso de Deus e se es- forgam, nao sem a divina graga, por levarurna vida reta".

A Constituicáo Gaudium et Spes n9 22 volta ao assunto:

"Isto (a participagáo no misterio pasca!) vale nao somente para os

cristáos, mas também para todos os homens de boa vontade, em cujos

efeito, tendo Cristo

coragdes a graga opera de maneira invisível. Com

morrído por todos e sendo urna só a vocagáo última do homem, isto é, divina, devemos admitir que o Espirito Santo oferece a todos a possibi- lidade de se associarem, de modo conhecido por Deus, a este misteriopascar

Como se vé, o Concilio deixa claro que nao é o esforco do "bom

pagáo" que Ihe vale a salvacáo, mas é a graca de Deus oferecida a todos

que os leva a mobilizar-se em demanda do Bem. Nenhum ser humano é

501

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

22

privado dos subsidios necessários á salvacáo, sendo que Deus nao pede

a um nao cristao contas da fidelidade ao Evangelho, que ele ignora.

Aínda mais recentemente, na encíclica sobre a Missáo do Reden tor, o Papa Joáo Paulo II professou e desenvolveu essa concepcáo oti- mista:

"A universalidade da salvagáo em Cristo nao significa que eia se

destina apenas aqueles que, de maneira explícita, créem em Cristo e entraram na Igreja. Se é destinada a todos, a salvagáo deve ser posta

concretamente á disposicáo de todos. É evidente, porém, que, hoje como

no passado, muitos homens nao tém a possibilidade de conhecer ou acei

tara revelagáo do Evangelho, e de entrama Igreja. Vivem em condigóes

socioculturais que o nao permitem, e freqüentemente foram educados noutras tradigóes religiosas. Para eles, a salvagáo de Cristo tornase aces- sívelem virtue de urna graga que, embora dotada de urna misteriosa reía- gao com a Igreja, todavía nao os introduz formalmente nela, mas ilumina

convenientemente a sua situagáo interior e ambiental. Esta graga pro-

vém de Cristo, é fruto do seu sacrificio e é comunicada pelo Espirito San to: ela permite a cada um alcangara salvagáo, com a sua livre colaboragáo.

"Por isso o Concilio, após afirmar a dimensáo central do Misterio Pascal, diz: 'Isto nao vale apenas para aqueles que créem em Cristo, mas para todos os homens de boa vontade, no coragáo dos quais opera invisivelmente a graga. Na verdade, se Cristo morreu por todos e a voca- gáo última do homem é realmente urna só, isto é, a divina, nos devemos

acreditar que o Espirito Santo oferece a todos, de um modo que só Deus

conhece, a possibilidade de serem associados ao Misterio Pascal" (nB 10).

Tal concepcáo está longe de induzir ao relativismo, pois o Concilio afirma a singularidade da Igreja Católica fundada por Cristo e entregue ao pastoreio de Pedro e seus sucessores; cf. Lumen Gentium na 8; Unitatis

Redintegratio nB 8.

A encíclica Ut unum sint de Joáo Paulo II aplica estas idéias ás

comunidades cristas nao católicas, reconhecendo nelas valores que de-

vem ser levados á sua plenitude:

"10. O Concilio diz que 'a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católi ca, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunháo com

ele', e contemporáneamente reconhece que fora da sua comunidade vi-

sível, se encontram muitos elementos de santificagáo e de verdade, os

quais, por serem dons pertencentes á Igreja de Cristo, impelem para a

unidade católica'.

" 'Por isso, as Igrejas e Comunidades separadas, embora creíamos que tenham defeitos, de forma alguma estáo despojadas de sentido e de

significagáo no misterio da salvagáo. Pois o Espirito de Cristo nao recusa

502

23

A SALVAgÁO FORA DA IGREJA VISÍVEL

servirse délas como de meios de salvagáo cuja virtude deriva da própria plenitude de graga e verdade confiada á Igreja Católica'.

"11. Desse modo, a Igreja Católica afirma que, ao longo dos dois

mil anos da sua historia, foi conservada na unidade com todos os bens

que Deus quer doar a sua Igreja, e isso apesar das crises, por vezes

graves, que a abalaram, as faltas de fidelidade de alguns dos seus minis

tros, e os erros que diariamente investem os seus membros. A Igreja

Católica sabe que, gragas ao apoio que Ihe vem do Espirito Santo, as

fraquezas, as mediocridades, os pecados, e ás vezes as traigóes de al

guns dos seus filhos, nao podem destruiraquilo que Deus nela infundiu

tendo em vista o seu designio de graga. E até 'as portas do inferno nada

poderáo contra ela' (Mt 16,18). Contudo, a Igreja Católica nao esquece

que, no seu seio, muitos eclipsam o designio de Deus. Ao evocar a divi-

sáo dos cristaos, o Decreto sobre o ecumenismo nao ignora 'a culpa dos homens dum e doutrolado', reconhecendoquea responsabilidadenaopode

seratribuida somente aos 'outros'. Porgraga de Deus, porém, nao foidestruido

o que pertence á estrutura da Igreja de Cristo e nem mesmo aquela comu nháo que permanece com as outras Igrejas e Comunidades eclesiais.

"Com efeito, os elementos de santificagáo e de verdade presentes

ñas outras Comunidades cristas, em grau variávelduma para outra, cons-

tituem a base objetiva da comunháo, aínda imperíeita, que existe entre

elas e a Igreja Católica.

"Na medida em que tais elementos se encontram ñas outras Comu

nidades cristas, a única Igreja de Cristo tem nelas urna presenga operante.

Poresse motivo, o Concilio do Vaticano II fala de certa comunháo, embo- ra imperíeita. A Constituigao Lumen Gentium ressalta que a Igreja Cató lica 'vé-se unidapormuitos títulos'a estas Comunidades, porcerta uniao

verdadeira no Espirito Santo".

No Brasil (como em outros países latino-americanos) o protestan

tismo se acha assaz matizado: ao lado de denominacoes tradicionais,

encontra-se o pentecostalismo, muito marcado pelas emocóes subjeti vas. Pode-se crer que muitos membros de tais comunidades estejam de

boa fé ou candidamente fora da Igreja Católica; estao compreendidos na categoría de nao católicos de que tratam Lumen Gentium 16 e Gaudium

et Spes 22. Verifica-se, porém, que algumas recentes denominares

pentecostais sao ferrenhamente agressívas á Igreja Católica no intuito

de a destruir (caso isto fosse possível); recorrem a falsas alegacoes ins

piradas por preconceitos cegos. Isto suscita a pergunta: o Espirito Santo opera também naqueles que asslm procedem? Nao se vé como dar res-

posta positiva a esta questáo; diz o Senhor Jesús que a mentira tem por

pai o próprio Satanás (cf. Jo 8,44). Queira o Espirito Santo ilumínar-lhes

a mente e converté-los á Verdade e ao Amor!

503

Na Ordem do Día:

RELIGIAO: FATOR DE PROSPERIDADE MATERIAL?

Em síntese: Os dois artigos seguintes analisam a tendencia de

aigumascorrentescontemporáneasa apresentara religiaocomo fatorde enriquecimento e solugáo de problemas temporais. Os respectivos auto

res sao protestantes, que, por isto mesmo, gozam de autoridade especi

al, visto que alguns grupos protestantes atraem os crentes com promes-

sas gratuitas de milagres e prosperidade.

A revista protestante ULTIMATO, em seu número de julho 1998, pp. 3 e 4, publicou dois artigos relativos á alegacáo de que religiao traz

prosperidade material e solucáo de problemas temporais. As pondera-

coes apresentadas sao muito sabias e pertinentes; revestem-se de parti cular autoridade pelo fato de que, principalmente em ambientes protes tantes, se apregoa tal concepcáo de religiao. Váo, a seguir, reproduzidas

as duas páginas, cujos autores ficaram no anonimato.

«O CASAMENTO DA RELIGIAO COM O CIFRÁO

Cresce cada vez mais o casamento da religiao com a prosperida

de. O ter continua atraindo mais que o ser. O fim principal do homem nao é glorificar a Deus nem gozá-lo para sempre, como queriam os teólogos da Assembléia de Westminster na metade do século XVII. O fim principal

do homem é a seguranca financeira, sao os bens de consumo, é o con

forto proporcionado pela máquina, é a beleza do corpo, a bejeza da rou- pa, a beleza das jóias, a beleza da casa, a beleza do carro. O que se

valoriza, é a criatura e nao o Criador, a saúde do corpo e nao a saúde da alma, o tempo presente e nao a eternidade.

A religiao está em alta. A explicacáo dada pela escritora Walnice

Nogueira Galváo, professora aposentada de Teoría Literaria da USP, é

que "o mundo está ficando táo insatisfeito que as pessoas estáo se vol- tando para a religiao". Nao importa qual a religiao. Pode ser o cristianis

mo, pode ser o esoterismo, pode ser a mistura do cristianismo com o

esoterismo (ai está Paulo Coelho). Nao há pureza doutrinária. Nao há necessariamente mudanca de caráter, mudanca de vida. Em muitos ca sos a religiao nao tem provocado renuncia, nao tem provocado despren-

dimento, nao tem provocado humildade.

504

25

RELIGIÁO: FATOR DE PROSPERIDADE MATERIAL?

Parece que algumas mulheres convertidas ao rebanho evangélico

continuam sexy, como a cantora Gretchen e a modelo Monique Evans. É

o que diz a Folha de Sao Paulo (12/4/98). Parece que algumas mulhres

convertidas á Renovagáo Carismática Católica continuam fúteis, como a socialite Gisella Amaral, que tem mais de cinqüenta tercinhos para com

binarcom a roupa. É o que elamesma diz.A élitecarismáticausa colar

de pérola e ouro de 1.344 reais, terco de pérola e ouro de 672 reais, medalha de 600 reais e anéis de ouro de 345 reais. Todas as jóias tém a

imagem de Nossa Senhora Milagrosa (Veja, 8/4/98).

Boa parte do movimento neopentecostal, tanto protestante como católico, está comprometido com a chamada Teología da Prosperidade,

o oposto da Teologia da Libertacao. O casamento da religiao com a pros

peridade é sólido, mais consolidado que muitos matrimonios entre ho mem e mulher. Nao há sinais de ruptura á vista. A fé religiosa é conside

rada um trampolim para a obtencáo e manutengáo da qualidade de vida.

Zilda Couto, esposa do dono da construtora Emig, testemunha: 'Há um ano, muitos dos meus imóveis estavam desalugados. Orei para que a

situacáo melhorasse e foi incrível: dois meses depois, eles estavam to

dos ocupados'. As béncáos recebidas por meio da oracáo sao quase

sempre ligadas á prosperidade. Como, por exemplo, no caso de Cristina Simonsen e Cristina Cabrera, ambas vítimas de ladróes milagrosamente

salvas, a primeira de perder um relógio avaliado em 30.000 dólares, e a

segunda de perder suas jóias.

O Jesús atual parece proteger a riqueza dos ricos e o Jesús dos

velhos tempos mandava ajuntar tesouros no céu, 'onde os ladróes nao arrombam nem furtam' (Mt 6,19). O Jesús de hoje parece encorajar a riqueza e o Jesús de ontem explicava que 'mais bem-aventurado é dar

do que receber' (At 20,35). O Jesús deste final de século parece nao

esvaziar os bens de ninguém e o Jesús do Evangelho encorajava o esva-

ziamento das riquezas, em beneficio da própria pessoa, em beneficio alheio e em beneficio do reino de Deus (Le 18,18-30; 19,1-10).

No casamento da religiao com o cifráo há coisas muito esquisitas.

Hoje, o perigo é Jesús nos causar um desapontamento, como se pode

ver nestas palavras de Ángela Guerra, esposa do ex-ministro Alceni Guer

ra: 'Nao pego as coisas a Jesús para amanhá. É para hoje. Oro e pego

que Ele nao me desaponte'. Ontem, o perigo era nos desapontarmos a

Jesús.

O lado mau desse novo despertar religioso é que os novos crentes

nao conseguem enxergar o valor das riquezas acumuladas no céu. Sao

como aquele homem muito rico que procurou Jesús e depois desistiu

dele (Le 18,18-23)»».

505

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

26

«Riqueza e sabedoria

Qual das duas é mais necessária? Qual é a nossa maior necessi-

dade? O que pedimos a Deus com mais freqüéncia?

Parece que está havendo um erro de orientacáo muito grave, que

tem causado nao pequeño maleficio á Igreja e, ao mesmo tempo, urna

afluencia enorme de novos crentes. Esse erro de orientacáo agrada á

massa e atrai discípulos. Ele se propaga rápidamente pelo pulpito, pela

televisáo e pelos livros.

Nunca se orou tanto como hoje em dia. No mundo inteiro. Em to das as reiigioes. Tanto ñas igrejas históricas como ñas igrejas pentecostais e carismáticas, talvez mais nestas que naquelas. Além do seu aspecto devocional, de comunháo com Deus, a oracáo tem sido anunciada e usa

da como instrumento válido e certo de adquirir, preservar e aumentar

tesouros na térra. (Veja O casamento da religiáo com o cifrao ñas pági

nas anteriores).

Por que nao oramos também por outros valores, poroutras gracas, por outras béncáos, certamente muito mais necessárias e valiosas que as riquezas? Em nossas oracóes nao temos o costume de suplicar a

Deus coisas como amor, compaixáo, desprendimento, humildade, paci

encia, coragem, entusiasmo, alegría, pureza sexual, direcáo, poder para

testemunhar e assim por diante. Será que esses dons valem menos que as riquezas? Qual desses dois grupos de oracáo contribuí mais para a implantacáo e expansáo do reino de Deus na térra?

A oracáo é o instrumento adequado para se adquirir sabedoria,

urna das nossas maiores carencias. É Tiago quem explica: "Se algum de

voces tem falta de sabedoria, peca a Deus, que a todos dá livremente, de

boa vontade; e Ihe será concedida" (Tg 1,5 NVI). Foi exatamente isso

que Salomáo rogou a Deus, quando era jovem e tinha acabado de subir ao trono de Israel, em lugar de seu pai Davi (1 Rs 3,3-15). Ele fez o me- Ihor uso possível da oracáo e Deus se agradou muito de sua súplica.

Salomáo era um homem encantado com a sabedoria e a ela se refere

quase urna centena de vezes nos livros de Proverbios e Eclesiastes.

Outro escritor bíblico apaixonado por esse tipo de sabedoria que promana de Deus, é Jó. E é exatamente Jó que faz comparacáo entre a sabedoria e riqueza. Para ele a sabedoria é muito mais cara que o ouro

fino, o ouro de Ofir, muito mais preciosa que o ónix, a safira, o coral, o

cristal, as pérolas e o topázio da Etiopia (Jó 28,12-28).

A sabedoria a que se refere a Biblia nao é a sabedoria dos sabios

deste mundo. É urna sabedoria sobria, centralizada em Deus, que ensi-

506

27

RELIGIÁO: FATOR DE PROSPERIDADE MATERIAL?

na a viver e a morrer, que tem fortes conotacóes éticas, que sabe distin guir com acertó a luz das trevas, que promove um bom relacionamento

do ser humano com Deus. O ponto de partida dessa sabedoria dinámica

é o temor do Senhor. Daí o testemunho de Salomáo: "Para ser sabio é

preciso primeiro temer ao Deus Eterno. Se vocé conhece o Deus Santo,

entáotem compreensáo dascoisas"(Pv9,10 BLH). Esse mesmo concei- to de sabedoria aparece em Jó (28,28) e nos Salmos (111,10)».

A fim de ilustrar os dizeres de táo sabios artigos, seguem-se urna

poesía e urna estória cheias de significacáo moral, que também é crista.

SEJA!

Se vocé nao puder ser um pinheiro no topo de urna colina,

Seja urna arbusto no vale.

Mas seja o melhor arbusto á margem do regato.

Seja um ramo, se nao puder ser urna árvore.

Se nao puder ser ramo, seja um pouco de relva

e dé alegría a algum caminho.

Se vocé nao puder ser almfscar, seja entáo apenas urna tilia,

mas a tilia mais viva do lago!

Nao podemos ser todos capitáes; temos de ser trípulacáo.

Há alguma coisa para todos nos aquí.

Há grandes obras e outras menores a realizar, Eéapróxima tarefa que devemos empreender.

Se vocé nao puder ser urna estrada, seja urna senda. Se nao puder ser o sol, seja urna estrela. Nao é pelo tamanho que terá éxito ou fracasso, Mas seja o melhor do que quer que vocé seja!

Sem comentarios

Segue-se urna estória.

PENSE NISTO

Logo após a Primeira Guerra Mundial, um jovem piloto inglés ex-

perimentava o seu frágil aviáo monomotor numa arrojada aventura ao

redor do mundo.

Pouco depois de levantar vóo de um dos pequeños e improvisados

aeródromos na india, ouviu um estranho ruido que vinha de tras do seu

assento. Percebeu logo que havia um rato a bordo e que poderia, roendo

a cobertura da lona, destruir o seu frágil aviáo. Poderia voltar ao aeropor- to para se livrar de seu incómodo, perigoso e inesperado companheiro

507

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

28

de viagem. Lembrou-se, contudo, de que ratos nao resistem a grandes

alturas. Voando cada vez mais alto, percebeu, pouco a pouco, cessarem

os ruidos que quase punham em perigo sua viagem.

Assim é a vida

ou male

Quando "ratos" ameacam destrui-lo por inveja calúnia

dicencias

Se o agridem voe mais alto Se o ofendem voe mais alto Se o acusam
Se o agridem
voe mais alto
Se o ofendem
voe mais alto
Se o acusam
voe mais alto
Se o criticam
voe mais alto

voe mais alto

Se Ihe fazem injusticas

Lembre-se

os "ratos" nao resistem ás alturas

Deus Espirito Santo, por Charles Journet. Tradugáo de José Madureira Beca. Colegio "Obras Básicas74. - Editora Santuario de

Aparecida e Editora Perpetuo Socorro do Porto (Portugal) 1998, 145 x

210 mm, 132 pp.

O Cardeal Charles Journet foi um grande teólogo, professor da

Universidade de Friburgo (Suíga). Além de obras de Teología Dogmática, deixou escritos de índole ascético-mística correspondentes a retiros que pregava, associando entre si um profundo saber teológico e urna lingua- gem simples e compreensível. O presente livro resulta do último retiro

que Ch. Journet pregou, sendo assim o testamento espiritual do mestre.

Compreende duas partes: I. O Espirito Santo no Misterio Trinitario de Deus e II. Virtudes e Dons do Espirito Santo. Esta segunda parte desen-

volve a riqueza de gragas que o cristáo recebe através dos sacramentos e explana o significado de cada um dos sete dons do Espirito Santo.

"Existe, por exemplo, a virtude da temperanga crista, que nos ajuda a usar todas as coisas que estáo a nossa disposigáo como se fossem apenas emprestadas,

fazendo-nos verque nao temos um direito abso

luto sobre elas, mas apenas o dever de as usarmos e gerirmos para a nossa felicidade e para a felicidade do nosso próximo" (pp. 88s).

O livro muito se recomenda a quem deseje aprofundar a sua vida

espiritual.

508

Obra de grande sucesso:

"BRIDA"

de Paulo Coelho

Em síntese: O livro Brida de Paulo Coelho relata as etapas de

iniciagáo de urna jovem irlandesa nos segredos da magia. É obra alta

mente fantasiosa, a ponto de carecer de nexo lógico e incidir em contra-

digóes. O autor se vale de concepgóes panteístas, animistas,

,

reencarnacionistas

dando-lhes por vezes um rótulo cristáo e bíblico,

que pode iludirmuitos leitores.

O éxito desta e das outras obras de Paulo Coelho se deve, em grande parte, ao fato de que toca urna fibra neurálgica da sociedade con temporánea: os homens parecem estar cansados do materialismo e do

tecnicismo;nao véem solugáopara gravesproblemas que afligemo mun

do; por isto sao propensos a aceitar a proposta de solugóes maravilho- sas ou mágicas, mesmo que venham apresentadas em discurso ilógico e incoerente; o emocional prevalece nao raro sobre o racional em nossos

dias.

O cristáo é consciente dos males que afligem a sociedade, mas

nao se desliga da razáo e da fé. Sabe que existe a Providencia Divina e que esta jamáis abandona "a obra de suas máos"; Deus sabe tirar dos

males que o homem comete, bens aínda maiores (S. Agostinho). Poristo

o cristáo pede a Deus as gragas necessárias para o mundo de hoje, cien- te de que a oragáo associada a urna conduta de vida fiel e santa é o

tesouro mais valioso de que o mundo precisa.

Paulo Coelho nasceu no Rio de Janeiro em 1947. Aos 25 anos de

idade, após certo período vivido ñas funcoes de ator e diretor de teatro,

resolveu dedicar-se inteiramente á música e ao jornalismo. Editou em

1972 a revista 2001, que retratava o estilo de vida e o pensamento da

década de 1970. A partir desta data, iniciou os estudos de Magia e Ocul

tismo, que o levaram a ingressar em diversas "Ordens Místicas" e partici

par de Seminarios no mundo inteiro. Em 1986, depois de percorrer a pé

a rota medieval de Santiago de Compostella, escreveu O Diario de um

Mago; no ano seguinte, lancou o livro O Alquimista; em 1990 Brida. Estas obras tém tido edicóes sucessivas e enorme divulgacáo, tornando-

509

TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

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se um fenómeno da literatura brasileira contemporánea1.

Deter-nos-emos sobre o volume BRIDA, que narra o caminho de iniciacáo na magia percorrido ficticiamente por urna jovem irlandesa cha

mada Brida. Trata-se, como dito, de ficcao, mas ficcáo que vem chaman

do a atencáo do grande público, como se estivesse propondo verdades

desconhecidas e extraordinariamente gratificantes.

1. Alguns tragos do livro

A iniciacáo da bruxa Brida O'Fern na magia faz-se na escola de

outra bruxa, chamada Wicca, e na de um mago da montanha de Folk.

As etapas desse processo sao acidentadas; implicam visñes, re-

gressio no tempo, leitura de cartas de Taró, etc. A fantasía se esmera por descrever cenas de clareira de floresta, de alto de montanha, de pe-

netracáo em catedral, em biblioteca de subsolo, ritos de cristal de quart- zo, de pequeña ametista, nudez

As concepcóes filosófico-religiosas subjacentes ao enredo do livro

sao as do panteísmo revestido de alusóes esdrúxulas á Biblia, como se

esta pudesse coadunar-se com aquele.

"Somos eternos" (p. 87).

"Deus se manifesta em tudo, mas a palavra é um dos seus meios favoritos de agir" (p. 92).

1 Noticia a revista de Domingo do JORNAL DO

de 9/08/98, p. 26: «Trata-

BRASIL,

mentó de choque. No dia primeiro de junho de 1996, o engenheiro Pedro Coelho

levou seu filho, Paulo, a urna simples consulta na Casa de Saúde Dr. Eiras, em Botafogo. Chegandolá, foram recebidosporurna freiráque, virando-separa o meni

no, disse: 'Seu quarto é no nono andar'. Comecava assim a primeira das tres intemacóes sofrídas pelo escritor Paulo Coelho. O prontuario do entáo adolescente

de 17 anos tenta justificar a decisao do pai: 'Segundo o pal, o paciente vem apresen-

tando modificacoes psicológicas tornou-se agressivo, hostilizando abertamente os genitores. Ató politicamente mostrase contrario ao pai'. Aos 85 anos, Pedro Coelho

tenta explicar hoje a atitude tomada há 23 anos: 'Havfamos perdido o controle sobre

nosso filho. Eu, que sempre quis vé-lo engenheiro, nao podería deixá-lo fazendo

teatro, andando em más companhias, principalmente naquela época, um período

muito conturbado. Ainda assim, acho que nao deveria té-lo internado. Se o fíz, foipor

recomendagáo módica'.

Paulo Coelho desculpa o pai. Mais: diz que nao há culpa alguma, porque, segundo ele, nao houve crime algum. 'Papai fez aquilo como forma de me proteger, de se aproximar mais de mim. Tanto que, em todas as internagdes, ele nunca deixou de

me visitar'. A visita do pai ó urna de suas lembrancas mais constantes. Junto com os

luminosos da Bafa de Guanabara, vistos de sua janela, do violáo e da máquina de escrever em seu quarto e dos choques elétricos que tomava. Nao achava muito

ruim, os choques. 'É horrível de ver, mas para quem está tomando é até confortável.

Dá urna certa dorméncia. Eso'».

510

"BRIDA"

31

"Aspalavras eram Deus" (p. 93).

Nao obstante, o autor fala de criacáo (p. 46), conceito que supoe

Deus distinto do mundo e nao identificado com o mundo.

As almas se dividem ou repartem, de modo a explicar o aumento

da populacáo mundial. Por isto cada individuo tem urna Outra Parte ou

Outras Partes, que Ihe correspondem e que se derivaram da mesma alma inicial. As almas ou as partes de alma se encarnam em sucessivas

encarnacóes (pp. 43s).

Há, porém, criaturas que descendem dos anjos (p. 69). "O resto da

humanidade só conseguirá a uniáo com Deus se, em algum momento, em algum instante de sua vida, conseguir comungar com a sua Outra

Parte" (p. 69).

As florestas sao regidas por espíritos, que "gostam de gentilezas ou do pedido de licenca daqueles que desejam penetrar nos seus bos

ques" (p. 7).

Afinal de contas, "tudo no Universo tem vida; procure estar sempre

em contato com esta vida. Ela entende a sua linguagem" (p. 68). - Isto

supóe o animismo ou a animacáo das criaturas irracionais por espíritos

superiores.

Todo esse ecleticismo filosófico-religioso é acompanhado de lin

guagem e conceitos da Biblia e do Cristianismo. Assim o Evangelho (Le

15,8s) é citado em folha de rosto; o salmo 90, á p. 31; o livro do Génesis,

ás pp. 45 e 273. A "Noite Escura" de Sao Joáo da Cruz é constantemente

citada para indicar o processo de iniciacáo na Magia (cf. p. 26.63.279). O

Anjo da Guarda aparece ás pp. 30s.

, vocé andar do mundo visível para o invisível. E aprender as licóes de ambos os mundos" (p. 24). Ora é precisamente o contato com o mundo invisível e seus segredos ou seus misterios que Brida quer conseguir e

urna ponte que permite a

A Magia é definida como "urna ponte

que os bruxos Ihe ensinam. Quem é iniciado na Magia, "pode gozar de

poderes extraordinarios, como o de mudar a direcáo do vento, abrir bura

cos em nuvens, utilizando apenas a forca do pensamento. Brida, como

todo o mundo, era fascinada por prodigios dessa natureza" (p. 28).

Nao falta a referencia ao amor, vocábulo escrito com A maiúsculo,

mas em termos confusos:

E O Amor é a forga que nos reúne de volta, para condensar a experiencia espalhada em muñas vidas, em muitos lugares do mundo" (p. 46).

esta esséncia se chama Amor.

"A esséncia da Criacáo é urna só

511

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

32

2. Que dizer?

Proporemos tres pontos de reflexáo.

2.1. Fícelo ilógica

1. Paulo Coelho é um artista de teatro e conserva esta sua vocacao

mesmo no exercício da sua obra literaria: gosta de escrever poéticamen

te, recorrendo copiosamente á ficcáo e á imaginacáo.

2. Infelizmente, porém, faltam ao autor os principios da lógica e

nocóes fundamentáis de Filosofía, de modo que ele cai freqüentemente

em contradices e aberracóes. Destinado como é ao grande público, o

livro vem a ser urna escola poderosa de confusáo mental e obscurantis

mo filosófico-religoso.

Veja-se, por exemplo, o seguinte: no tocante á origem dos homens, está dito ora que sao eternos (como só Deus), ora que sao descendentes

de anjos (criaturas), ora que resultam de reencarnacao de almas que se partem para explicar o crescimento demográfico! - Alias, a suposicao de

que as almas humanas se dividem como células para permitir o aumento

da populacao é ilógica; o espirito nao tem partes e, por isto, nao se pode

repartir.

A teoría de que tudo no universo tem vida, é chamada "animismo";

vem a ser urna das formas mais primitivas e imperfeitas de Filosofía Re ligiosa. Prende-se á concepcáo de que os bosques, os ríos, as monta-

nhas, os mares

tém seus espíritos tutores e governadores.

2.2. A confusáo religiosa

A mistura de concepcoes que Paulo Coelho apresenta, se torna

mais grave desde que se considere que ele envolve elevados valores do

Cristianismo como se fossem condizentes com tais nocoes. Com efeito; é certo que a Biblia é contraria ao panteísmo, á reencarnacao (cf. Hb

9,27; Jo 1,21), a iniciacáo em segredos reservados a poucos privilegia

dos, á supersticáo das cartas ou do Taró.

A "noite escura" de que fala Sao Joáo da Cruz, nada tem que ver

com as etapas de iniciacáo mágica. Mas é a fase de desprendimento das coisas sensíveis e das consolares pela qual passa o cristáo que vai

progredindo na vida de oracáo.

Na verdade, embora P. Coelho pareca querer "combater o Bom

Combate e manter a fé", como exorta Sao Paulo em 2Tm 4,7 (ver "Répli

ca" em O GLOBO), ele nao o faz como cristáo; nem pode ser tido pelos

leitores como arauto de urna determinada modalidade do Cristianismo.

As concepcóes de suas obras nao sao cristas; deve-se mesmo dizer que

512

"BRIDA"

33

nao se filiam a nenhuma corrente de pensamento, porque implicam con-

tradicóes e incoeréncias: o que é afirmado em alguma página do livro, é explícita ou implícitamente negado em outra página.

2.3. Magia

A definicáo de Magia como ponte entre o vísível e o ¡nvisível nao é

específica da Magia. Ela se aplica propriamente á Mística (= ascensáo do visível ao invisível). Tal processo de ascensáo é altamente cristáo; a

mensagem do Evangelho consiste precisamente em dizer-nos que "Deus

se fez visível aos olhos humanos, para que, a partir da intuicáo de Deus

encarnado, os homens se deixassem levar ao amor dos bens invisíveis"

(cf. Liturgia do Natal).

Magia, segundo o Dicionário de Aurelio, é "arte ou ciencia oculta com que se pretende produzir, por meio de certos atos e palavras e por interferencia de espíritos, genios ou demonios, efeitos e fenómenos ex traordinarios, contrarios as leis naturais". - Com outras palavras: Magia é a arte, conhecida apenas pelos iniciados, de forcar ou dobrar a Divinda-

de mediante a execucáo de rituais ou receitas secretas. Isto difere bem

da Mística, que supóe sempre humildade e devotamento da criatura a

Deus, que é Pai providente.

A procura de magia ou de solucoes maravilhosas para os proble

mas que a ciencia e a tecnología nao conseguem resolver, está muito em

voga nos nossos dias. A humanidade parece estar cansada do materia lismo e decepcionada pelo cientificismo; vé-se a bracos com problemas

, nao conseguem resolver. Há exigua confianca nos homens que regem os destinos dos povos (visto que os problemas sao altamente comple

xos). Por isto surge espontamente no psiquismo dos homens contempo ráneos a expectativa de solucoes mágicas ou maravilhosas, descobertas em redutos ainda nao explorados, como seriam as escolas de Ocultismo e Esoterismo.

É esta sede, muito emocional e pouco racional, que explica o su-

cesso dos escritos de Paulo Coelho. O autor toca em ponto nevrálgico da

sociedade contemporánea, pois apresenta o modelo de alguém que, com

éxito, procura os poderes de "mudar a direcáo do vento, abrir buracos em

nuvens, utilizando apenas a torca do pensamento. Brida, como todo o

mundo, era fascinada por prodigios dessa natureza" (p. 28). Estas pala

vras do autor sao de grande importancia para se entender a repercussáo

de sua obra: "Todo o mundo" gostaria de mudar as realidades adversas

pela simples torca do seu pensamento! A proximidade do ano 2000 con

tribuí para agucar a expectativa de uma irrupcáo do Divino e de um outro

mundo no mundo presente.

que os peritos e técnicos

de fome, doencas, analfabetismo, miseria

513

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

34

Épreciso,porém,queo raciocinioexercaurnacríticaserenaesa-

dia sobre tal proposta de Paulo Coelho. A inteligencia deve preponderar sobre as emocóes, penetrando-as, de modo que nao se tornem ilógicas

ou infantis. - O cristáo, de modo especial, é interpelado pelo livro de

Paulo Coelho: ele reconhece a inclemenciados tempos atuais, mas eré e confia na Providencia Divina; sabe que o Senhor nao abandona as cria

turas que Ele fez com tanto carinho. As desgracas que atualmente afli- gem a humanidade, estáo englobadas num plano sabio e santo de Deus.

Este tira dos próprios males que os homens cometem, bens ainda maio-

res, como diz S. Agostinho. Por conseguinte, é na fé e na fidelidade a Deus que o ser humano encontra reconforto e esperanca neste momento.

Nao há segredos reservados a poucos privilegiados. Nao há recei-

tas de efeitos maravilhosos, detidas por chefes de grupos iniciáticos. Afir

ma o Senhor Jesús:

"Nada há de encoberto que nao venha a ser descoberto, nem de oculto que nao venha a ser revelado. O que vos digo ás escuras, dizei-o

á luz do dia; o que vos é dito aos ouvidos, proclamai-o sobre os telhados"

(Mt 10,26b-27).

Os anjos existem, sim, mas nao há como os forcar a exercer acáo

benéfica ou maléfica sobre os homens mediante procedimentos mágicos.

A Magia, portanto, corresponde a um sonho inspirado pela hybris

(arrogancia) do homem, que, no seu íntimo, gostaria de ser como Deus

(cf. Gn 3,4s)l

APROXIMA-SE O NATAL

CARO(A) LEITOR(A), ÑAS PROXIMIDADES DO NATAL, MUITAS PESSOAS PENSAM EM DAR PRESENTES. NAO RARO ACABAM

DANDO ALGO DE SUPÉRFLUO OU ALGO QUE O(A) BENEFICIADO(A)

JÁ POSSUI OU AÍNDA ALGO QUE SE CONSOMÉ SEM DEIXAR LEM-

BRANCA DO DOADOR. DAÍ A PERGUNTA: POR QUE NAO PENSAR

EM OFERECER UMA ASSINATURA DA SUA REVISTA PR, QUE DE-

VERÁ CHEGAR TODOS OS MESES DO ANO SEGUINTE Á CASA

DO(A) AMIGO(A), RECORDANDO-LHE A AMIZADE DE QUEM PRE-

SENTEOU? A REVISTA PR PROCURA ACOMPANHAR OS

QUESTIONAMENTOS QUE A VIDA DE CADA DIA SUSCITA AOS Cl-

DADÁOS CONTEMPORÁNEOS, PROPONDO-LHES PARÁMETROS

PARA UMA REFLEXÁO CRISTA EM MEIO ÁS DÚVIDAS E AOS DE

SAFÍOS DE NOSSOS TEMPOS. NAO SERIA O CASO DE PROMOVÉ-

LA E PROPAGÁ-LA?

514

Ecleticismo irreverente:

"NA MARGEM DO RIO PIEDRA EU SENTEI E CHOREI"

por Paulo Coelho

Em sfntese: Paulo Coelho escreve um romance em que o amor de

dois jovens se estreita em torno de valores religiosos ou "místicos". O

rapaz é iniciadonuma religiáo tendente a mitología (venera a Máe Térra,

assemelhada á Virgem Santíssima, que, porsua vez, é tidacomo deusa

ou como a face feminina de Deus); é seminarista católico, que realiza

milagres, mas renuncia ao Seminario e a faculdade de realizar milagres

para se unir a jovem Pilar, amiga de infancia, que ele reencontra após

onze anos de ausencia, tornando-a adepta de suas crengas religiosas,

"místicas" e ecléticas.

O livro é fantasioso e irreverente, poisjoga com conceitos e valo res da fé católica, misturando-os com elementos de mitología e magia.

*

*

*

Paulo Coelho apresenta mais um de seus livros, sempre no género

da ficcáo religiosa esotérica; tendo por título "Na Margem do Rio Piedra

eu sentei e chorei"1, propóe urna mistura de conceitos cristáos com no- coes de ocultismo e magia. Dir-se-ia que deseja sugerir urna nova etapa

do Cristianismo, impregnada de feminismo, ao mesmo tempo que explo

ra o namoro e a uniáo de um homem "mago" com urna jovem estudante

espanhola de familia católica.

Dadas as suas ambigüidades, o livro merece comentarios.

1.0 ENREDO

O livro conta a estória de dois jovens que na Espanha se conhece- ram durante a infancia.Terminada aadolescencia, o rapaz partiu, dizen- do que ia conhecer o mundo. A moca, chamada Pilar, depois de terminar

seus estudos de segundo grau, foi para Saragoca, onde entrou numa

Faculdade. Trocavam cartas, cuja freqüéncia foi-se amiudando da parte

do rapaz; ele falava sempre mais de Deus e da Mística, ao passo que ela ia perdendo a fé. Finalmente ele a convida para assistir a urna conferen

cia que ele faria em Madrid; Pilar vai ao seu encontró, e fica surpresa por

perceberque ojovem éfamoso conferencista, realizamilagrese é asse- diado por muitas pessoas carentes. Ela comeca a se maravilhar pelo

1 Ed. Rocco, Rio de Janeiro 1994, 140 x 236 pp.

515

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

36

vulto desse homem, que também se volta para ela com amor. Os dois se

póem aviajarjuntos,poiselequermostrarásuaamigaomundo mágico, religioso e místico que ele freqüenta; indica-lhe um Seminario "católico"

ao qual está incorporado. Pilar resiste a essas novas idéias, mas vai sen

do fascinada por esse homem, que ela ama cada vez mais. Após diver

sas peripecias e andancas, que váo de sábado 4 de dezembro a sexta-

feira 10 de dezembro de 1993, os dois resolvem unir-se. A fim de o fazer

com a béncáo da Grande Máe (a Virgem María), o rapaz renuncia ao

dom das curas que ele exerce.

Eis o que diz o jovem:

"Ontem eupedia Virgem um milagro Pedíque retirassemeu dom Tenho um pouco de dinheiro, e toda a experiencia que anos de viagem

me deram. Compraremos urna casa, arranjarei um emprego, e servirei a Deus como fez Sao José, com a humildade de urna pessoa anónima. Nao preciso mais de milagres para manter viva a minha fé. Preciso de

vocé"(pp.217s).

Pilar parece nao aceitar a troca. O rapaz desaparece. Ela entáo se

póe as margens do Rio Piedra, onde chora, e escreve seu romance. Fi nalmente o jovem reaparece: ela se alegra e ele, tomando-a pelas máos,

leva-a consigo. Ela pergunta:

"Vocéacha que seu dom voltará?"Ao que eleresponde: "Nao sei.

Mas Deus sempre me deu urna segunda chance na vida. Está me dando

com vocé. E me ajudará a reencontrar o meu caminho" (p. 236).

Assim termina o livro; pode impressionar pela fluencia da narrativa, pela descricáo vivaz de cenas interessantes de amor entre um jovem e

cenas ñas quais Pilar aparece hesitante, mas cada vez

urna jovem

,

mais propensa a aceitaro seu parceiro.

Resta agora analisar os conceitos religiosos que o livro veicula, pois certamente é obra impregnada de senso místico, embora muito con

fuso. Paulo Coelho joga com nocoes e vocábulos do Catolicismo; talvez

queira passar por católico, mas na verdade é eclético, como se depreende

da análise que se segué.

2. ASPECTOS RELIGIOSOS

2.1. Os conceitos de Deus, Deusa

1. O que mais chama a atencao, no livro, é a ambigüidade do con- ceito de Deus. Paulo Coelho fala de Deus, Deusa, Deusa-Máe:

"O artista conhecia a Grande Máe, a Deusa, a face misericordiosa

de Deus" (p. 111).

516

37

"NA MARGEM DO RIO PIEDRA EU SENTEI E CHOREI"

A "Deusa" será a 'lace misericordiosa de Deus"? Trata-se de mera forca de expressáo?

2. Em outras passagens o autor identifica María e a própria Divin-

dade. Assim, por exemplo, ao falar da definicáo do dogma da Imaculada

Conceicáo por Pió IX (1854), Paulo Coelho se mostra entusiasta do fato

e afirma que é o primeiro passo do caminho

"do caminho que vai levar

Nossa Senhora a ser considerada a encarnacáo da face feminina de Deus.

Afinal já aceitamos que Jesús encarnou sua face masculina" (p. 171). E continua:

"Quanto tempo vai demorar para que aceitemos urna Santíssima

Trindade onde a mulher aparece? A SS. Trindade do Espirito Santo, da

Máe e do Filho?" (p. 171).

Ora aqui há auténtica deturpacáo de urna verdade da té cara a todos os cristáos. As afirmacóes sao levianas; fazem jogo de palavras que nao tém lógica, ou nao resistem ao crivo da razáo. O desejo de agra

inteiro re vela grande "devocáo" a María SS.; todavía a Santíssima Virgem é enten

dida quase como figura mitológica; o autor usa vocabulario quase católi

co, mas entende-o em sentido nao católico; nunca se poderá equiparar María a Jesús, sendo ambos (cada qual a seu modo) a encarnacáo de Deus, como propóe Paulo Coelho. Sao inaceitáveis os dizeres:

dar ao feminismo pode ter inspirado tais dizeres. Alias, o livro

"As pessoas rezavam, cantavam, dangavam na chuva, adorando a ".

abengoado por Deus e pela

Deus e a Virgem María

Deusa" (p. 142).

Mais adiante:"

3. A confusáo se torna mais grave e explícita na seguinte passa-

gem, em que o jovem conversa com Pilar a respeito de María SS.:

"Ela foi normal. Teve outros filhos. A Biblia nos conta que Jesús teve mais dois irmáos.

A virgindade na concepgáo de Jesús se deve a outro fato: María

inicia urna nova era de graga. Ali comega outra etapa. Ela é a noiva cós

mica, a Térra, que se abre para o céu, e se deixa fertilizar.

Neste momento, gragas á sua coragem de aceitar o próprio desti

no, ela permite que Deus venha á Térra. Ese transforma na Grande Máe

Ela é o rosto feminino de Deus. Ela tem sua própria divindade" (p. 86).

O autor deturpa o conceito de virgindade de María. Veja-se:

a) admite que María teve mais de um filho. Ignora o sentido da

palavra irmáo (= adelphós, em grego; 'ah, em hebraico) nos livros sa-

517

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

38

grados. 'Ah pode significar familiar ou párente em sentido ampio, como

É

se depreende de Gn 13,8; 29,12.15; 31,23; 1Cr 23,21-23; 2Cr 36,10

de notar também que Jesús, ao morrer, entregou sua Máe aos cuidados de Joao, filho de Zebedeu e Salomé (cf. Jo 19,25-27); por que o teria feito, se María tinha outros filhos? O assunto já foi amplamente conside

rado em nosso Curso de Diálogo Ecuménico, Módulo 23 (Caixa postal

1362, 20001-970 Rio, RJ);

b) María é dita "a noiva cósmica, a Térra (com maiúscula), que se

Que significa isto? A afirmacáo tem sabor mitológico; a Terra-Máe sempre fecunda é, sim, urna figura

das mitologías antigás;

abre para o céu e se deixa fertilizar"

c) "María tem a sua própria divindade". A sá razáo pergunta: existe

mais de urna Divindade? Paulo Coelho recua ao politeísmo e á mitolo gía? Será isto condizente com o século das luzes (como se chama o

século XX)? Vé-se que o próprio autor recusa definir-se; o diálogo do jovem com Pilar é interrumpido sem que haja esclarecímento.

A confusáo ou a falta de lógica é aínda mais pronunciada no trecho

abaixo:

"Ficamos ali, aos pés da Virgem

Ela nos olhava. A camponesa adolescente que dissera Sim ao seu destino. A muiherque aceitou levar

no ventre o filho de Deus, e no coragáo o amor da Deusa. Ela era capaz de compreender" (p. 120).

4. Na passagem seguinte a linguagem aproxima-se do panteísmo

(tudo é Deus ou tudo é a Divindade):

"Quem parte em busca de Deus, está perdendo seu tempo. Pode percorrer muitos caminhos, filiarse a muitas religióes e seitas - mas, desta maneira, jamáis irá encontrá-Lo.

Deus está aquí, agora, ao nosso lado. Podemos vé-lo nesta bruma,

neste chao, nestas roupas, nestes sapatos. Seus anjos velam enquanto dormimos, e nos ajudam enquanto trabalhamos. Para encontrar Deus,

basta olhará nossa volta" (p. 160).

5. O texto se prolonga na seguinte afirmacáo:

"Para vocé teruma vida espiritual, nao precisa entrar para um se minario, nem fazerjejum, abstinencia e castidade.

Basta terfé e aceitar Deus. A partir daf, cada um se transforma no

Seu caminho, passamos a ser o veículo de Seus milagres" (p. 161). '

Tem-se a impressáo de que os milagres sao um sinal normal, qua-

se necessário, da vida espiritual,

sinal independente de ascese (jejum,

518

39

"NA MARGEM DO RIO PIEDRA EU SENTEI E CHOREI"

Ora nao há vida mística sem ascese, para o

).

abstinencia e castidade

cristáo. A vida mística supóe a purificacáo do coracáo e a isencáo de

paixóes desregradas; o jejum e a abstinencia sao os meios clássicos

(recomendados também por nao cristáos) para promover a liberdade e a pureza do coracáo. Ademáis o dom dos milagres é tido pela Teología

carisma, que nao pode ser "institucionalizado" ou nao pode ser

comO um

reduzido a urna etapa necessária do desabrochamento espiritual.

6.0 texto do livro chega a apresentar urna Oracao á Lúa, que Pau

lo Coelho coloca nos labios de urna das figuras femininas do seu romance:

"Ela abríu os bragos em forma de cruz, virou as palmas das maos

para cima, e fícou contemplando a lúa.

'Onde fuime meter?, pensei. Vim assistira urna conferencia, termi-

neino Paseo de Castellana com esta louca, e amanhá viajo para Bilbao'.

'Ó espelho da Deusa Térra - disse a moga, com os olhos fechados

- nos ensina nosso poder, faze com que os homens nos compreendam. Nascendo, brilhando, morrendo e ressuscitando no céu, vocé nos mos-

trou o ciclo da sementé e do fruto'. A moga esticou os bragos para o céu,

e fícou um longo tempo nesta posicáo. As pessoas que passavam olha- vam e riam, mas ela nem se dava conta; quem morria de vergonha, era

eu, por estar ao seu lado'.

'Euprecisava fazeristo, disse, depois de urna longa reverencia para

a lúa. Para que a Deusa nos proteja'" (p. 31).

Como se vé, o título de deusa passa agora para a Lúa. A Lúa tem

como símbolo a agua (p. 33); tocar a agua com os olhos fixos na Lúa

cheia e ao som de urna flauta é algo que faz a muiher reconhecer um

pouco mais a sua natureza de muiher (p. 33). As muiheres aprendem da

Grande Máe, que parece ser a Térra ou até as cavernas (p. 32), sendo que Cibele (figura das religides antigás da Grecia) é "urna das manifesta- cóes da Grande Máe

governa as colheitas.sustenta as cidades, devol-

ve á muiher o seu papel de sacerdotisa" (p. 33). Finalmente a moca que rezou á Lúa e que venera a Grande Máe, confessa: "Fago parte da reli-

giáo da Térra" (p. 34).

Mesmo quem leia com boa vontade as páginas de Paulo Coelho,

encontra serias dificuldades para concatenar os conceitos do autor, colo-

cando-os em ordem sistemática e lógica. Nao se percebe o que o autor

quer dizer propriamente; é certo, porém, que através de suas afirmacóes

confusas e incoerentes há nítida tendencia a favorecer a exaltacáo da

muiher; o livro assim está "na crista da onda".1 - Julgamos que Paulo

1 Especialmente a figura de María Santfssima é mal tratada pelo modismo contempo

ráneo. Lé-se na imprensa do Rio de Janeiro urna noticia cuja fonte nao nos foipos-

519

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1996

40

Coelho poderiaterrealizadoseupropósitofeministasem recorrerá mito-

logia e a falsas alegajes religiosas; a mitología foge da realidade e re

cua a um estágio ultrapassado da historia da humanidade.

2.2. A Nocáo de Religiáo

Em conseqüéncia de táo confusas concepcoes de Deus, compre- ende-se que Paulo Coelho tenha urna nocáo muito relativista de religiáo;

todas tém o mesmo valor doutrinário, embora nao convirjam entre si,

como se depreende dos dizeres seguintes:

"A verdade está sempre onde existe fé. Olhei de novo a igreja á minha volta - as pedras gastas, tantas vezes derrabadas e recolocadas no lugar. O que fazia o homem insistir tanto, trabalhar tanto para recons truiraquele pequeño templo - num lugar remoto, encravado em monta-

nhas táo altas?

Afé.

- Os budistas estavam com a razáo, os hindus estavam com a ra-

záo, os indios estavam com a razáo, os mugulmanos estavam com a ra seguisse -

záo, osjudeus estavam com a razáo. Sempre que o homem

com sinceridade - o caminho da fé, ele seria capaz de unirse a Deus, e

operar milagres.

Mas naoadiantava apenassaberisto:erapreciso fazerurna esco-

Iha.Escolhia IgrejaCatólicaporquefuicriadonelaeminha infanciaesta- va impregnada de seus misterios. Se tivesse nascidojudeu, teña escolhi- do o judaismo. Deus é o mesmo, embora tenha mil nomes; mas vocé

precisa escolher um nome para chamá-lo" (p. 112)

Paulo Coelho apresenta o herói do livro como seminarista: "Entrei

para um seminario aqui perto. Durante quatro anos estudei tudo o que

podia. Neste período fiz contato com os Esclarecidos, os Carismáticos,

as diversas correntes que procuravam abrir portas fechadas havia muito

tempo

Havia um movimento de retorno á inocencia original do Cristia

nismo" (p. 113).

sível identificarcom precisáo:

"A forja de Nossa Senhora

Um dos títulos mais fortes na máo da agente literaria Lucia Riff, Mary's message to

the worid, de Annie Kirkwood (Putnam), historia de urna mulher que se comunica

com Nossa Senhora, foiparar com a Record. Na Bienal, Sergio Machado fez oferta

irrecusável,nao deunemparaLuciaabrirleiláo. TudoindicaqueNossa Senhora é o

novo fíláo esotérico, prestes a deshancara mania dos anjos (o que, alias, só confir

ma o estupendo radar de Paulo Coelho nessa área, urna vez que Na margem do Rio Piedra é justamente sobre a imagem feminina de Deus)".

520

41^

"NA MARGEM DO RIO PIEDRA EU SENTEI E CHOREI"

O próprio Superior do Seminario (que o autor confunde errónea mente com mosteiro, pp. 113 e 126, e com convento, p. 157) parece ceder á visáo "carismática" de Paulo Coelho (pp. 164s).

3. REFLEXÁO FINAL

1. O livro de Paulo Coelho pode exercer atracáo sobre o grande

público, porque toca numa fibra delicada do coracáo humano: o senso do misterio. Deus é, sem dúvida, transcendente, e essa grandeza misterio

sa de Deus parece falar ao coracáo de todo homem que procure o senti do da vida: Deus é fascinante, como dizem os historiadores da Religiáo.

Todavía o senso do misterio ou a Mística nao pode estar desligado da razáo; se conceitos que nao se combinam entre si e que redundam em vazio jogo

de palavras. A razáo tem o direito de examinar a credibilidade das propo-

sicoes de fé e de Mística que Ihe ocorrem; embora a razáo nao atinja o

ámago do misterio de Deus, que é transcendental, ela pode e deve pro

curar as credenciais das teorías de fé que Ihe sao propostas. Nao basta

falar "bonito" e piedosamente para falar de maneira correta. O grande público que nao tenha iniciacáo filosófica e o hábito da Lógica, pode tai-

vez impressionar-se com as ascensóes místicas de Paulo Coelho; estas, porém, nada significam quando submetidas ao crivo do raciocinio.

nao, perde-se em devaneios fantasiosos, em associacáo de

2. As incursóes de Paulo Coelho dentro das proposicóes da fé ca

tólica, aludindo á SS. Trindade, á Virgem Maria, as aparicóes de Lourdes, aos carismas do Espirito Santo

ferem o senso religioso dos cristáos em

geral, pois parecem brincar com valores muito preciosos. Maria nao é

deusa, nem a SS. Trindade pode incluir urna figura humana em seu mis

terio. As verdades da fé nao sao produto da mente humana, mas

correspondem á realidade mesma e objetiva de Deus.

3. Vale a pena, sem dúvida, exaltar a mulher e seus predicados,

como pleiteiao sadio feminismo. Mas, paratanto, nao é necessário, nem

lícito, voltar á mitología grosseira, que admite deuses e deusas (a Máe

Térra, a deusa Lúa, Cibele

4. A auténtica Mística implica o conhecimento de Deus, distinto do

homem (porque Criador do homem),

conhecimento que se faz por ex

periencia ou porfamiliaridade com Deus. O cristáo que se entrega ao Pai

no cumprimento cotidiano e fiel da sua santíssima vontade, cultiva assim urna certa afinidade com Deus; é a afinidade produzida pelo amor, amor

que abre os olhos da mente e proporciona o conhecimento experimental ou místico. Na verdade, como diz o próprio Jesús, todo cristáo fiel (aque- le que ama a Deus coerentemente) é templo da SS. Trindade (cf. Jo

14,23); ele pode ignorar este grande dom, vivendo dispersivamente ou

521

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/199B

42

sempre fora de si; mas pode também tornar-se mais e mais consciente

desta graca, vivendo num diálogo constante com Deus mediante urna conduta generosa e irrestritamente dedicada. Este tipo de comportamen-

to faz a afinidade da criatura com o Criador e ensina a descobrir o miste

rio de Deus. É o que se chama "vida mística" dentro das concepcóes do

Cristianismo. Nada tem que ver com milagres ou dons extraordinarios; alias, estes fenómenos háo de ser considerados criteriosamente para

que nao se confundam expressóes (mórbidas?) do psiquismo humano

com a acáo do Espirito Santo.1

6. Paulo Coelho tem-se interessado pela magia. Todos sabem apro

ximadamente o que este conceito significa, mas é necessário esclaréce lo bem. Com efeito; magia é a arte de dominar as forcas da natureza e da

historia mediante fórmulas ou práticas tidas como capazes de sobrepujar os próprios deuses; vem a ser urna deturpacáo da religiao, pois pretende

atribuir aos magos ou a pessoas privilegiadas poderes divinos. Os povos primitivos, na falta de recursos científicos e tecnológicos, procuravam

resolver seus problemas pelo uso da magia. Esta pode lograr éxito se ela se baseia (inconscientemente talvez) no aproveitamento de forcas da

natureza ou no sugestionamento que ela incute a quem Ihe dá crédito.

Para enfatizarsua autoridade, os magos dos povos primitivos se reuniam

em grupos secretos, que tinham cada qual seu patrono; submetiam-se a

um processo de ¡niciacáo, que sign¡f¡cava a morte ao velho homem e a ressurreicáo de um novo ser, dotado das faculdades e prerrogativas dos

colegas-magos.

Em conclusáo, pode-se dizer que o livro "Na margem do Rio " merecedores de respeito, mesmo da parte de um romancista. O fato de

joga com valores religiosos muito caros aos cristios e, por isto,

Piedra

citar o místico cristáo Tomás Merton á p. 11 nao legitima o conteúdo da obra.

1 Os mestres da vida espiritual chamam a atengáo para o caráter ambiguo que po-

dem terosfenómenos extraordinarios, táoalmejadospormuitaspessoas religiosas.

Nao raramente (embora nem sempre) provém da fantasía do fiel, instigada talvezpor Efe o que a propósito

alguma tendencia doentía ou pela vaidade, a curíosidade

escreve Sao JoSo da Cruz:

"Importa saber que, nao obstante poderem ser obra de Deus os efeitos extraordi

narios que se produzem nos sentidos corporais, é necessário que as almas nao os queiram admitir nem terseguranga nales; antes, é preciso fugir inteiramente de tais

coisas, sem querer examinarse sao boas ou más. Porque quanto mais exteriores e

corporais, menos ceño 6 que sao de Deus. Com efeito, 6 mais próprio de Deus

comunicarse ao espirito - e nisto há para a alma mais seguranga e lucro - do que

aos sentidos, fonte de freqüentes erros e numerosos perigos alma e, na realidade, o senti

entre a sensibilidade e a razio como entre o corpo e a

do corporal é táo ignorante das coisas espirituais como um jumento o é das coisas

racionáis, e mais aínda" (A Subida do Monte Carmelo, I. II, cap. XI, 2).

"Émelhor padecer por Deus do que fazer milagres" (Ditos de Luz e Amor, n. 181).

Há tanta diferenga

522

Diz-se

SEXO SEGURO?

Em síntese: O Dr. Celso de Almeida Kundlatsch, CRM 9.501, em

Sao Paulo, afirma que a camisinha é falha em31% dos casos em que é aplicada. Para saber se alguém está ou nao contaminado pelo HIV, é

indispensável o exame de sangue antí-HIV, feito sob a orientagáo de um

médico. A abstinencia ea monogamia conjugalmutuamente fielconstitu-

em a grande estrategia no combate a infecgáo aidética.

*

*

*

Apregoa-se constantemente que os preservativos permitem sexo

seguro. - O Dr. Celso de Almeida Kundlatsch, CRM 9.501, em Sao Paulo (SP), tem-se dedicado ao estudo de tal assunto - o que Ihe fornece ele

mentos precisos para dissertar a respeito. A seguir, vai publicado um

artigo desse benemérito pesquisador, que dissipa preconceitos e mal

entendidos relativos a tal questáo. - A Direcao de PR agradece a esse gentil colaborador mais esta valiosa contribuicáo científica.

HIV E PRESERVATIVOS

1. O virus causador da Aids, o HIV, pode ser transmitido por tres

vías principáis: pelo sangue contaminado, pela mae doente para o filho,

e por via sexual.

a) O sangue contaminado pode atingir as pessoas pela transfu-

sáo de sangue total ou seus derivados e por instrumentáis sujos com ele,

que atravessem a nossa pele, com agulha de injecáo, acupuntura, tatua-

gem, alicate de unha etc.

b) A máe doente pode transmitir o HIV através da placenta ou

durante o parto ou pelo aleitamento.

c) O HIV pode ser transmitido pelo sexo oral, vaginal ou anal.

Qualquer pessoa contaminada pelo HIV pode passá-lo para o seu

companheiro ou companheira sexual por qualquer dessas vias. Basta

entrar em situacáo de risco. O virus pode ser transmitido do homem infectado para a mulher, da mulher infectada para o homem, do homem infectado para outro homem ou da mulher infectada para outra mulher.

As vezes urna única relacáo sexual já é suficiente para a contaminacao

acontecer. Em outros casos sao necessárias varias relacoes.

523

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

44

2. Considerando a importancia da transmissáo sexual do HIV na

epidemia de Aids, as estrategias de prevencáo se concentram em identi

ficar e promover práticas sexuais que sejam "de risco menor", como se diz. Como o nome indica, sao consideradas "de risco menor" que outras

práticas sexuais, pois há a evidencia de que elas reduzem, mas nao ne-

cessariamente eliminam, o risco da transmissáo sexual do HIV de um

parceiro para outro.

"Sexo mais seguro" ou "menos arriscado" ou "de risco menor" sao

os termos para designar práticas sexuais que tém menor probabilidade

de passar HIV (human immunodeficiency virus) de um parceiro sexual

para outro, durante a atividade sexual.

O termo "sexo seguro" foi inicialmente usado para denominar es-

sas práticas, mas as evidencias indicam, já há algum tempo, que poucas

práticas sao completamente livres de risco. Portanto, "sexo mais segu

ro", "sexo menos arriscado" ou "sexo de risco menor" devem substituir o

termo "sexo seguro", que alguns, erróneamente, teimam em usar. Na

literatura internacional o termo "safe sex" foisubstituido por "safer sex".

3. Para saber se urna pessoa está ou nao contaminada pelo HIV é

necessário o exame de sangue anti-HIV, feito sob a orientacao de um

médico.

Pela aparéncia nao se pode saber se alguém nao está contamina do. Só porque o(a) parceiro(a) nao leva jeito de ter HIV. Supergata sofis

ticada, garata de boa familia, amiga de turma, colega de trabalho, nivel

social e cultural altos, porque ele ou ela tem carro importado e boas ma-

neiras etc., nao sao garantías. É indispensável o exame de sangue. Nao

é possível fazer teste de Aids pelo olho.

Urna estrategia ampia de prevencáo usa múltiplos recursos para

proteger o maior número possível de pessoas sob risco.

A abstinencia e a monogamia mutuamente fiel1 sao partes dessa

estrategia.

As camisinhas claramente tém um papel central no "sexo de risco

menor", para aqueles que nao sao mutuamente monógamos. Urna metanálise de diversos estudos sobre a transmissáo sexual do HIV em heterossexuais concluiu que a eficacia da camisinha é em torno de 69%, muito abaixo do suposto. A protecáo oferecida está diretamente relaci onada com o uso correto do preservativo e a sua qualidade. Em media, em

31% doscasos,a camisinhanao garantecontraaAids.Tres relacoescom a

camisinha tém o riscoequivalente a urna relacáosem camisinha. É muito.

1A Ética natural e a Moral católica entendem a expressáo no sentido de monogamia

conjugal. (Nota da Redagáo)

524

SEXO SEGURO?

45

Pessoas que fazem uso de tóxicos na veía ou tém múltiplos parcei- ros ou tém relacáo sexual com estas pessoas, sao de alto risco. Cautela.

4. Os exames de sangue normalmente usados detectam os

anticorpos que o organismo produz contra o HIV. Para a producáo dos

anticorpos, sao necessários de dois a tres meses. Em casos raros leva

um pouco mais.

Para ter certeza de que nao estáo contaminados, os namorados,

ambos, devem fazer tres exames de sangue, em épocas diferentes: no

inicio do namoro, no terceiro mes e no sexto mes. Os exames devem ser

feitos sob a orientacáo de um médico porque, as vezes, a interpretacáo dos resultados pode ser meio confusa; já houve casos de pessoas sadi-

as pensarem estar com Aids, nao estando, e cometerem desatinos.

Durante os seis meses de estudo do sangue, praticando a absti nencia, os namorados devem dialogar muito e se estudar mutuamente para ver se o companheiro(a) merece fé.

Até aqui o Dr. Celso de Almeida Kundlatsch.

Acrescentem-se as observacdes de outros dois estudiosos:

"PRESERVATIVOS: FALHAM EM 69% DOS CASOS

Profilaticamente, está provado que os preservativos de melhorqua-

lidade falham em 69% dos casos. É a brincadeira da 'roleta-russa'. Pes

quisa realizada por Richard Smith, um especialista americano na trans- missáo da Aids, apresenta seis grandes falhas do preservativo, entre as

quais menciona por exemplo, a deterioracáo do látex, ocasionada pelas

condicóes de transporte e armazenagem. Ainda que os preservativos

cheguem em perfeitas condicóes aos usuarios, estes ainda nao seriam

seguros. 'O tamanho do virus HIV da Aids é 450 vezes menor que o

espermatozoide. Estes pequeños virus podem passar entre os poros do látex táo fácilmente em um bom preservativo como em um defeituoso'

(Richard Smlth, 'The Condom: Is it really safe sex?', Public Education

Commitee, Seattle, EUA, julho de 1991, p. 1-3).

Nao é com preservativos que se debela o mal da Aids, mas com

urna orientacáo condizente com a moral natural. Nenhuma pessoa sen

sata e honesta diz: 'Vamos ensinar os pivetes a roubar, mas sem que

ninguém corra perigo de vida'. O roubo é imoral. Táo imoral como a pro- miscuidade sexual. Entáo, por que dizer: vamos ensinar a praticar o ato

sexual promiscuo, com os preservativos, para que ninguém corra perigo de contagio?". (D. Rafael Llano Cifuentes, O GLOBO, 24/02/98)

A linguagem dos profissionais é assaz eloqüente por si mesma.

525

46

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

UM FATO REAL

Um leitor amigo enviou a PR o seguinte texto, que bem merece

divulgacáo:

Sem desejar afastar-me da familia e nao almejando viverna mono tonía de urna semi-reclusáo, decidí aliar-me a urna muiher de 42 anos,

quando minha idadejá alcangava os 78.

Tendo saúde relativamenteboa, mantinha vigore invejávelvirilida-

de, surpreendendo a muitos de meus conhecidos. Viúvo, desposeí a

muiher a quem me retiro; ela é da terceira uniáo.

Morávamos numa cidade serrana, enquanto os filhos residiam no Rio de Janeiro. Visitávamos e éramos visitados; tudo ia bem. Nunca tive-

mos em mente que algum día pudéssemos esperar filhos de nossa uniáo

conjugal. Além da idade, minha muiher tomava contraceptivos. Nossa

religiao se restringía a conhecimentos e práticas espiritualistas do

Racionalismo Cristáo, e espiritas. Enfim, nao fomos alertados sobre os

horrores que ocorrem quando da extirpagáo de um feto. A concepgáo

evitava-se sempre e sem qualquerescrúpulo.

Tudo caminhava normal, quando, em viagem para urna estagáo de aguas, minha muiher notou vestigios de menstruagáo. Respeitados os

"seus dias", entramos num clima de namoro como de hábito. Decorridas

poucas semanas, foiconstatada gravidez; e gravidezindesejada! Nem

eu e muito menos minha muiher estávamos preparados para receber tal noticia: nao ficava bem a dois velhos terem nos bracos urna criancinha,

produto de nossa extemporánea relagáo amorosa. Pessoas fariam co

mentarios desagradáveis e nos levariam á chacota. Perplexos, guarda

mos o segredo para nos, enquanto demandamos solugáo ¡mediata. Um

día, falei com minha muiher para deixarmos vir a crianga, mas ela foi categóricamente contra; tinha lá suas razóes!

Consultamos, entáo, os médicos da cidade onde morávamos, e ñas

adjacéncias, para saber como proceder na efetivagáo do aborto. É de

notarque nenhum deles quis submeter-se a talresponsabilidade, em vis ta mesmo do adiantado estado de gestagáo (tres meses), e por outras

implicagdes que nos negaram esclarecer.

Passados tres meses, já se podia saber tratarse de urna crianga

do sexo feminino. Ceño amigo, urna vez, nos aconselhou a virao Rio de

526

UM FATO REAL

47

Janeiro e procurar a policlínica de determinado bairro, onde o aborto era praticado sem restricóes e em grande número. Fomos até lá e marcamos consulta. Isto feito, agendamos a cirurgia. Na data aprazada estávamos lá, numa sala onde diversas mulheres conversavam sobre assuntos obs

tétricos.

Aguardada a chamada, minha mulher foi conduzida a um recinto,

para onde se dirigiu também o médico obstetra que havíamos contrata

do. Fiquei a espera de noticias. Mais de urna hora depois, surgiu na porta

o talmédico mostrándose nervoso e ensangüentado. Entrounoutra sala,

de onde saiu trazendo consigo um colega que Ihe segurava a máo. Estra- nhando talconduta, tive aumentada a expectativa. Mais um tempo após, sairam os obstetras e chamaram-me de maneira inquietante. Pensei: será que mataram minha mulher!? mulher toda ensangüentada, como também estavam os dois médicos.

Eles tentaram mostrar-me a impossibilidade de executar-se a operacáo.

Adentrei o quarto, onde encontrei minha

Com efeito, os médicos primeramente consultados, presúmese,

já haviam percebido a dificuldade só agora conhecida pelos doutores ali

presentes: o feto, ao pressentir que ia ser atingido pelos instrumentos

cirúrgicos, esquivavase impetuosamente, fazendo evolugdes e dando cambalhotas para defenderse de ser fisgado. Impressionante era sua

luta pela sobrevivencia! Feitas tantas tentativas, concluiram os médicos que nao se devia prosseguir, afirmando que era fato insólito na sua car- reirá de 35 anos naquela especialidade!

Voltamos para casa decididos a

nao mais pensar em extirpar a menina que já passava dos tres meses, repito. Nao demorou, contudo,

fomos aconselhados a submetero caso ao diagnóstico de urna vidente, a

qual só nos atendeu por deferencia toda especial. Rondóse ela em esta

do de concentragáo, falou persuadindo os pais a nao permitir o aborto: a ) enanca nascer, e hoje tem completos 12 anos. Ela é a nossa maior aie-

grial

nascitura teña urna missáo a cumprir na térra. (?!

Deixamos, pois, a

Sem comentarios. Nao é o oráculo da vidente que interessa no

caso, mas a verificacáo de que o aborto é a crueldade dos adultos proje- tada sobre urna enanca inocente.

527

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 438/1998

48

PIUS WASN'T SILENT

PIÓ NAO SE CALOU

O jornal New York Times publicou em margo pp. a seguirte carta do

leitor William A. Donohue a respeito do pretenso silencio do Papa Pió XII

frente á perseguiráo dos judeus movida pelos nazistas:

Pius Wasn't Silent

To the Editor:

Your March 18 editorial on the Vatican document on the Holocaust

chastises Pope John Paúl II for defending "the silence ofPope Pius XII during

theThirdReich".

If Pius was "silent" during the Holocaust, why did this newspaper

congratúlate him on Dec. 25,1941, forbeing "a lonely volee in the silence and

darkness enveloping Europe this Christmas"?

And why did it editoríallze the following year that Pius "is a lonely voice

cryingoutofthe silence ota continent"?

William A. Donohue

New York, March 18, 1998 The wríter is president of the Catholic League forReligious and CivilRights.

Em traducáo portuguesa:

"Ao Editor,

O seu editorial de 18 de margo a respeito do documento do Vaticano

referente ao Holocausto censura o Papa Joáo Paulo IIpor defender 'o silencio

do Papa Pió XII durante o 39 Reich'.

Se Pió se calou durante o Holocausto, por que é que esse jornal se

congratulou com ele em 25 de dezembro de 1941 por ser ele 'a única voz no silencio e ñas trevas que envolvem a Europa nesteNatal'?

Epor que publicou no ano seguinte outro editorial, dizendo que Pió 'é a única voz que clama no silencio de um continente'?

William A. Donohue

Nova lorque, 18 de margo de 1998

O missivista é presidente da Liga Católica em prol dos Direitos Religio

sos e Civis".

Esta breve noticia é muito importante, porque evidencia como se faz a onda de um preconceito, devido este á pega de Rolf Hochhut "Der Stellvertreter"

(O Representante) apresentada em 1963, dezoito anos após o término da segunda guerramundial. Durantedezoitoanos,judeus e naojudeus reconhe- ceram em Pió XII o corajoso e prudente defensor dos direitos humanos.

Estéváo Bettencourt O.S.B.

528

Edifóes "Lumen Christi"

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Urna visita á igreja do Mosteiro de S. Bento do Rio de Janeiro, guiada por Dom Marcos

Barbosa, OSB ao som dos sinos, do órgáo e das vozes de seus monges em canto

gregoriano.

Quatrocentos anos de trabalho e louvor em 20 minutos, frutos da paz e paciencia beneditina. Roteiro e locucáo: Dom Marcos Barbosa, OSB.

Producáo: Mosteiro de S. Bento do Rio de Janeiro

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28 edicáo. 165 págs. 1997

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- CATÓLICOS PERGUNTAM. Coletánea de artigos publicados na secáo de cartas da

revista "O Mensageiro de Santo Antonio". 1997. 165 págs

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- PÁGINAS DIFÍCEIS DO EVANGELHO. (O livro oferece-nos um subsidio seguro para

esclarecer as dúvidas mais freqüentes que se levantam ao leitor de boa vontade, trazen-

do-nos criterios claros e levando-nos a compreender que todas as palavras de Cristo sao

de aplicacáo perene e universal), 2- edicáo. 1993, 47 págs

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Bettencourt, considera os principáis pontos da clássica controversia entre católicos e protestantes, procurando mostrar que a discussáo no plano teológico perdeu muito de

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N OV IDAD E

Dom BENTO SILVA SANTOS, O.S.B.

A imortalidade da alma no "Fédon" de Platáo. Porto Alegre,

EDIPUCRS (em preparacáo).

Trata-se de um estudo sobre a dímensáo místico-ascética de Platáo, isto é, acerca

da conviccáo da existencia de uma vida para além da morte. "Na morte de Sócrates, homem justo, Platáo deixa entrever ao leitor um lampejo de imortalidade e simultanea-

mente a sua concepcáo radical da filosofía como 'exercício de morte' (

) Mesmo que

seja afirmada através de raciocinios inseguros e limitados, a imortalidade da alma tra-

duz na obra de Platáo uma ansia profunda de busca de explicacóes acerca do problema existencial humano de todos os tempos: com a morte termina tudo ou há uma vida para

além da dissolucáo do corpo?" (Conclusáo do lívro).

Outros livros de Dom Bento Silva Santos, O.S.B.:

Teología do $vápgélñqdeSao Jpáo. Aparecida:(SP),M$%infü'á/ib, 1994,

Íé

"Devo parabenizá-lo pelo éxito neste emprendimento. Estou certo de que sua teolo gíajoanina será um instrumento muito útilpara o estudo de Sao Joño tanto nos semina rios e cursos superiores de teología quanto em cursos de teología para leigos" (Padre

Jaldemir Vitório, S. J., Carta, 3.07.1995).

-Fée Sacramentos no Evangelho de Sao Jóaó Ápáréciáá^SPÍ[iiÉ^Csájfitii^

rio,1995,134págs.%:.

:

:,.i.^-.^^^M\2fiO :

"Os escritos de Dom Bento demonstram uma ampia e bem organizada leitura das obras importantes para os estudos que vem fazendo. A questáo que o presente voiume estuda é o da relacáo entre fé e sacramentos. 'A salvacáo provém de uma confianca subjetiva {sola fides) ou de uma mediacáo sacramental?"' (Padre Paschoal Rangel,

S.D.N., Atualizacáo256 [1995] 382).

- A experiencia de Deus no Antigo Testamento. Aparecida (SPj,.EcL ;$anfuá¿:■■■

rio, 1996,144 págs

".

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v.;

^.¿^

"Este livro dá continuidade a duas obras precedentes do autor, que versam sobre os

escritos joaninos, adotando sempre a mesma metódica: explanar o sentido religioso ou

explanacáo esta que deve sero ponto de partida da exegese

teológico do texto sagrado

católica. Exorta o Concilio Vaticano II: 'A Sagrada Escritura há de serlida e interpretada

segundo aquele mesmo Espirito por quemfoi escrita'(Const Dei Verbum, ne 12)" (Dom

Estéváo Bettencourt, O.S.B., Apresentagáo da obra).

Pedidos pelo Reembolso Postal ou pagamento conforme 2a capa.