Ao longo de quase oitocentos anos, duas mulheres e 32 homens sentaram-se no trono de Portugal. Destes soberanos, apenas seis não tiveram filhos. E dos 26 restantes, só dois não terão tido filhos ilegítimos. Segundo os testemunhos que a História nos deixou, todos os outros foram pais de bastardos. Estes filhos ilegítimos dos reis de Portugal assumiram papéis de relevo e cargos influentes, tanto na corte como no estrangeiro. Desempenharam ofícios importantes e diversos - um foi mordomo mor, outro capitão na conquista de Ceuta, outro ainda foi arcebispo de Braga. Dom João I, sendo bastardo, foi um dos reis mais proeminentes de Portugal. E outros houve, por seu lado, que foram líderes da oposição, criando instabilidade e promovendo a rebeldia do povo contra os seus pais e irmãos no poder. Reconstituindo a vida de todos estes homens e mulheres, Bastardos Reais revela-nos uma parte escondida e apaixonante da História de Portugal.
INTRODUÇÃO
NotronodePortugalsentaram-se,aolongodequaseoitoséculos,duas
mulheresetrintaedoishomens.Destes,seis,solteirosoucasados,não
tiveramfilhos:D.SanchoII,D.Sebastião,D.Henrique,D.AfonsoVI,D.
PedroVeD.ManuelII.Dosvinteeseisrestantes,apenasdois–D.Manuel
IeD.José–nãoterãotidofilhosilegítimos.Todososoutrosforam(ou
diz-se que foram) pais de bastardos, «nome porque são entendidos já desdeaIdadeMédianãosóosfilhosespecificamentechamadosnaturais mastambémosespúrioseemgeraltodosaquelesquenãosãogeradosde verdadeiroelegítimomatrimónio»–comoescreveuodoutoPascoalJosé deMeloFreirenassuasInstituiçõesdeDireitoCivilPortuguês. Oroldestesbastardos,havidosforadocasamentodosseuspais,nunca estarácompleto,tantomaisquemuitosdelesnuncaforamreconhecidos, oquetornadifícilestabelecercomprecisãoonúmerodosfilhosdamão
esquerdaqueosreisdePortugaltiveram.Emtodoocaso,podeafirmar-
secomsegurançaqueosbastardosreais,desdeafundaçãodaMonarquia atéàimplantaçãodaRepública,secontamporváriasdezenas.Namaior basededadosgenealógicosportuguesa,aGeneall 1 , estão referenciados 77 filhos ilegítimos de 19 príncipes que reinaram em Portugal. Este númeropode,noentanto,pecarpordefeito:sóaD.PedrodeAlcântara,
imperadordoBrasilereidePortugal,houvequematribuísse,em1826,a
paternidadede43bastardos! 2 OsbastardosreaisatravessamahistóriadaMonarquiaLusitanadesde asuafundaçãoatéquaseaoseutermo.Oprimeiroreinasceudeuma bastarda, afirmando alguns que não era filho de seu pai, o conde HenriquedeBorgonha;bastardoeratambémoreideBoaMemóriaque deuorigemàsegundadinastia;eumbastardoestánaorigemdaCasade Bragança, que, a partir de 1640, foi a Casa Real portuguesa. O mesmo sucede,aliás,comaterceiradinastia,adosFilipesdeEspanha,directos descendentesdeHenriquedeTrastâmara,quereinouemCastelacomo HenriqueIIeerafilhoilegítimodoreiAfonsoXI.
Muitosdessesbastardosreaisocuparamposiçõesderelevonacortee nopaís,sobretudonaprimeiradinastia,quandoforammaisnumerosos. Como se compreende: na Idade Média, a bastardia inscrevia-se nas «estruturas da boa sociedade» 3 . Os filhos ilegítimos de D. Afonso Henriques,talcomoosdeD.Dinis,porexemplo,desempenharamfunções detantaimportânciaeconsequênciacomoeram,poressetempo,asde mordomo-moroudealferes-mor.ObastardodeD.JoãoIfoi,emsuavida, oprincipalsenhordoreino–posiçãoqueD.Jorge,filhoadulterinodeD. JoãoII,sónãoalcançouporqueD.Manuelnãocumpriuinteiramenteas últimas vontades do seu antecessor. Outros bastardos régios foram figurasderelevonaIgrejaportuguesa,eumdeles,filhodeD.JoãoV,deu origemàilustreCasadeLafões. Os filhos ilegítimos dos reis concorreram, além disso, com os seus casamentosparareforçaropoderdosreisseuspaisouirmãos,aliando-se emPortugalàsfamíliasmaispoderosas–e,regrageral,renitentesem acatarospodereseasprerrogativasreais.ComonotouJoséAugustode Sotto Mayor Pizarro, os bastardos reais constituíram «um patamar intermédioporondepassavamalgunsdoscontactosmaisimportantes entrearealezaeaslinhagensdaaltanobreza».Enãoforampoucosos monarcasque,casandoosseusbastardosemgrandescasassenhoriais, alimentaram«comoseusangueaprosápiadasfamíliasmaispoderosas, ganharamoseuapoio,declaradoousilencioso,eneleescudaramasua políticacentralizadora» 4 . A esse propósito obedeceram, entre outros, os casamentos dos bastardosdeD.AfonsoIIIoudeD.Dinis,mastambémodeD.Afonso, bastardodeD.JoãoI,comafilhadeNunoÁlvaresPereira(emboraoutras razõespossamexplicarmelhorestematrimónio)e,ainda,séculosdepois, odeD.Luísa,filhailegítimadeD.PedroII,comoduquedeCadaval. Omesmoobjectivodeafirmaçãodopoderreal,aquémmastambém além-fronteiras,foiprosseguidocomoscasamentosdebastardosrégios emreinosvizinhosouamigos,paracujarealização,aliás,concorreramas legítimasesposasdosmonarcasreinantes(epaisdosbastardos).Foio quesucedeu,porexemplo,comocasamentodeD.PedroAfonso,conde de Barcelos, filho ilegítimo de D. Dinis, realizado em Aragão com a empenhada ajuda da Rainha Santa Isabel, sua madrasta, ou com o casamentoemInglaterradeD.Beatriz,filhailegítimadeD.JoãoI,parao qualfoidecisivooconcursodeD.FilipadeLencastre. Masolugareopapeldosbastardosreaisforambastasvezesfontede
problemas e conflitos, que chegaram a provocar verdadeiras guerras civis, como sucedeu no reinado de D. Dinis. E, mesmo quando não se chegou a tais extremos, os filhos ilegítimos dos reis de Portugal prejudicarammuitasvezesoprestígioeaautoridadedamonarquia. Osbastardosreaiseram,comoAntónioCaetanodeSousasublinhana sua História Genealógica da Casa Real Portuguesa, «escândalo do matrimónio»; representavam uma afronta à rainha consorte; e constituíamumaameaçaaosfilhosdelanascidos.Emsuma:punhamem causaaordemconstitucionalvigente. Éverdadequeessesbastardos«deviamaoseusanguedeterminadas prerrogativas», como notou Georges Duby 5 . Por serem ilegítimos, não deixavamdetersidogeradosporreis,tendoporissodeserhonrados adequadamente, como o autor da História Genealógica também sublinhou.EPascoaldeMeloFreirechegoumesmoaescreverque,em Portugal,era«pequenaadiferençaentreosfilhoslegítimoseosfilhos bastardosdosReis;comefeito,todossechamampordireitofilhosdoRei vistoquedeReisforamprocriados».Porisso,aliás,«desdeoiníciodo reino[osbastardos]sempreforamtidosemgrandehonra»,precedendo «emdignidadeosGrandeseMagnatesdoReino» 6 . Mas,comoPascoaldeMelotambémsublinhou,aosfilhoslegítimosdos reispertenciam«algunsdireitosprincipais,quetodasasleis,incluindoas nossas,denegamaosbastardos».Estes,situando-senumplano«inferior», naquele«patamarintermédio»emqueJoséAugustoPizarrooscolocou, nãomereciam,porexemplo,otítulodeInfantenempordireitosucediam a seu pai no trono – mesmo quando tinham o tratamento de Altezas, comosucedeu,porexemplo,comosbastardosdeD.JoãoV. Aesterespeito,AntónioCaetanodeSousafoiclaroeperemptório:
«OsfilhosqueosReistêmforadomatrimónionãologramocarácterdeInfantes, nãosónonossoReinonemnosoutrosdeEspanhanememtempoalgumtiveram essaprerrogativa,comosevêdasEscrituras,DoaçõesePrivilégiosrodadosque assinavam junto com os Reis e Infantes, para o que não é necessário produzir exemplos, por ser matéria sem controvérsia para os que são professores de História;eparaosquesãocuriosossomentefaçoestaadvertênciaparaquesenão
embaracemquandolerememalgunsAutorestrataremdeInfantesaosilegítimos» 7 .
Não parece verdade que, nesta matéria, a situação portuguesa fosse exactamenteigualàdosoutrosreinosdeEspanha.Salvomelhoropiniãoe
investigaçãomaisaprofundada,osbastardosreaisdeCastelanãosofriam asmesmaslimitaçõesqueos portugueses. Podeserquenãotivessem, como os nossos não tinham, o carácter de infantes. Mas gozavam de direitos sucessórios bem mais amplos do que os nossos. Podiam nomeadamente herdar a coroa e suceder no trono – o que entre nós, comojásedisse,estavavedadoaosfilhosilegítimosdosreis. Comefeito,seHenriquedeTrastâmara,bastardodeAfonsoXI,acedeu aotronocastelhanoporsucessão,D.João,MestredeAvis,bastardodorei D. Pedro I, só chegou ao trono português por eleição. É toda uma diferença. Cumpre aliás notar que, para ganhar essa eleição, o Doutor JoãodasRegrasassentouasuadefesadeD.JoãoInaafirmaçãodeque todososcandidatosaotronovagantepormortedeD.Fernandoeram bastardos – e que, por isso, nenhum tinha direito a suceder ao rei Formoso.
EmFrança,asucessãodacoroatambémestavavedadaaosbastardos reais. Mas Luís XIV resolveu, a certa altura, mudar as regras do jogo, concedendoaosfilhoshavidosforadoseucasamentootratamentode Altezas Sereníssimas e, depois, o direito de sucessão ao trono por
extinçãodadescendêncialegítima.CaíramoCarmoeaTrindade.ESaint-
Simon, recordando o escândalo, escreveu nas suas Memórias páginas carregadasdeindignação. O mais poderosomonarca doseutempofoi
forçadoadaroditopornãodito.EosbastardosdoRei-Solperderamo direitodesucederaotronodeseupai. É de notar que o exemplo francês teve algumas repercussões em Portugal,ondeosfilhosilegítimosdeD.JoãoV,osfamososMeninosde Palhavã,tiveramtratamentodeAltezas,queosbastardosdeD.PedroII também receberam. Mas o Corpo Diplomático então acreditado em Lisboa nunca assim os tratou, invocando justamente uma lei do rei
Magnânimo,datadade1720,quereservavaessetratamentoaosinfantes.
MasinfanteséqueosMeninosnãoeram. Aindaassim,nuncaocorreuaninguémreconheceraosfilhosilegítimos dosreisdePortugalodireitodesucederaotronodosseuspais.EaCarta
Constitucional,outorgadaem1826pelomaiorcriadordebastardosreais
(eimperiais)dahistóriapátria,excluía-osexpressamentedasucessão.
***
Naslinhasqueseseguem,publicam-seosnomeseabrevehistóriados
bastardosreaisportugueses–ouseja,dosfilhosilegítimosdosreisde Portugal. Masentendeu-sequese justificava abriruma excepção:a do PriordoCrato,filhoilegítimodoinfanteD.LuísenetodoreiD.ManuelI, porforçadopapelquedesempenhounaépocaemqueviveue,sobretudo, nasucessãodocardeal-rei,seutio.Paramuitoshistoriadores,eledeve, aliás,serconsideradoreidePortugal. Éaprimeiravezqueosbastardosrégiosaparecemreunidosnumlivro. Este não ambiciona esgotar o tema, que poderá evidentemente ser desenvolvido se novos dados forem recolhidos e publicados. Mas, no estado actual da crítica histórica, não parece que fosse possível fazer mais.Opúblicoeacríticadirãoseerapossívelfazermelhor.
I.L.
1www.geneall.net
2Cf.CarlSchlichthorst,ORiodeJaneirocomoé,1824-1826(RiodeJaneiro:Kosmos,1943).
3GeorgesDuby,OCavaleiro,aMulhereoPadre(Lisboa:PublicaçõesDomQuixote,1988),p.185.
4JoséAugustodeSottoMayorPizarro,D.Dinis(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),p.238.
5GeorgesDuby,OCavaleiro,aMulhereoPadre(Lisboa:PublicaçõesDomQuixote,1988),p.185.
6PascoalJosédeMeloFreire,InstituiçõesdeDireitoCivilPortuguês(Lisboa:BoletimdoMinistérioda
Justiça,1967).Cf.http://iuslusitaniae.fcsh.unl.pt/~ius/verlivro.php?
id_parte=120&id_obra=76&pagina=268
7AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.I,p.114.
I
OsbastardosdeBorgonha
OSPRIMEIROSBASTARDOSREAIS
F ilhodeumabastardareal–D.Teresa,queoreiAfonsoVIdeCastelae
Leão houve de Ximena Nuñez de Guzmán, sua amante –, D. Afonso Henriques,oprimeiroreidePortugal,poderiatersido,tambémele,um bastardo.Ou,pelomenos,nãoseriafilhodeseupai,ocondeD.Henrique deBorgonha.AgustinaBessa-Luísasseveraque«asdeduçõesemvolta desteboatosãobastantesignificativas,pondodepartefavoresdossantos edoscronistas» 8 . Masoboatosobreamaisqueimprovável«bastardia»doprimeirorei dePortugalsurgiuexactamentepararebaterosfavoresqueocéuterá derramado sobre ele e que fazem parte de uma lenda antiquíssima, publicadacomoverdadeirahistóriaporDuarteGalvãonasuaCrónicado MuitoAltoeMuitoEsclarecidoPríncipeD.AfonsoHenriques 9 . Dizocronistaqueoprimeiroreinasceu«grandeeformoso,quenão podiamaisser»,padecendo,porém,degravedefeito:umas«pernastão encolheitasque,aoparecerdemestresedetodos,julgaromquenunca poderia ser são delas». Não era essa, no entanto, a convicção de Egas Moniz,«muiesforçadoenobrefidalgo»,aquemomeninofoientregue paraeleocriar.OaiodeD.AfonsoHenriquesconfiava«emDeusquelhe podiadarsaúde». Ora, uma noite em que Egas Moniz dormia, apareceu-lhe a Virgem Mariaedisse-lheparairadeterminadolocalescavaratéencontraruma igreja que, noutro tempo, tinha sido começada em seu nome. Devia «correger» o templo, recuperando também uma imagem de Nossa Senhora que lá existia. Cumpridas essas tarefas, Egas Moniz havia de fazerumavigília,«poendoomeninoque[criava]sobreoaltar».Cristo, explicou Sua mãe, queria por D. Afonso Henriques «destruir muitos imigos da fé». O aio, «muito consolado e alegre», correu a cumprir os ditames da Mãe do Céu. E quando, finalmente, pôde colocar D. Afonso Henriquessobreoaltar,omeninoficoucomose«nadativera».Estefoio milagredeSantaMariadeCárquere–quelevantoususpeitasamuitoboa
gente. Porumlado,nãofaltaquemduvidedamalformaçãocongénitadorei Fundador, «descoberta» por Duarte Galvão no ano de 1505, quase quatrocentosanosdepoisdonascimentodopríncipe.Poroutrolado,há quemtorçaonarizaomilagre.AgustinaBessa-Luís,porexemplo,escreve:
«Dá para pensar que Egas Moniz o fez substituir por um dos seus própriosfilhosoufilhodalgumrico-homemdependãoecaldeira,como sedizia[…]» 10 EstatrocadoverdadeirofilhodocondeD.Henriqueporoutracriança qualquer, filha ou não de Egas Moniz, parece ter sido inventada por SantanaDionísio,umprofessordefilosofia,queapublicounumartigode
jornal,em1969.Segundoele,opríncipealeijadoteriasidosubstituído
por uma criança robusta, ficando Egas Moniz a cuidar do enfermo enquantoD.HenriqueeD.Teresapassavamaterumfilhoemperfeitas condiçõesdelhessucedernagovernançadoCondadoPortucalense. Ahistória,àsemelhançadoenfermiçoinfantedalenda,nãotempernas paraandar.Pormaishábilesecretaquetivessesidoatrocadascrianças, D.Henriquetinhaoutrosfilhos,legítimosebastardos,paraalémdeuma mão-cheia de netos – e não é de crer que estes seus descendentes aceitassem sem protesto e sem luta que a sucessão do Condado Portucalense fosse deferida a quem não fizesse seguramente parte da família de seu pai. Ora, se é sabido que D. Afonso Henriques teve de combateramãeparaficarcomaherançadopai,nãohánenhumanotícia de que tivesse de enfrentar outro qualquer membro da sua numerosa família,oqueporforçateriadesucedersehouvesseoutrosdescendentes deD.Henriquecommelhorestítulosdoqueeleparareivindicaraposse doCondadodePortucale. Resta,porisso,ahipótesedacuramilagrosa–quesófazsentido,no entanto,desdequeseaceiteteroprimeiroreidePortugalnascidocomas pernas encolhidas. Ora, essa hipótese, nunca provada, suscita entre os melhoreshistoriadoresmuitasdúvidasereservas.Algunshá,aliás,que nãoperdemumminutoaexaminá-la.Nãopareceporissoprudente–e, mais do que prudente, sensato – falar de um D. Afonso Henriques «bastardo»oumiraculado. Tambémnãovaleapenadizerqueelefoiumsanto(emboratenha havido quem o quisesse canonizar) porque, antes e depois do seu casamento com D. Mafalda, filha de Amadeu III, conde de Sabóia e Moriana,«aqueosestrangeiroschamamMatilde»,D.AfonsoHenriques
foipaideváriosbastardos.Maisexactamente:quatro,segundoasseveraa História Genealógica da Casa Real Portuguesa, dois rapazes e duas raparigas. As bastardas do primeiro rei seriam ambas filhas de Elvira Gualter, chamando-seTeresaAfonso,uma,eUrracaAfonso,aoutra.Terãonascido quandoomonarcajáestavacasado,sendoporissofilhasadulterinas.Há, porém, quem sustente que só vieram ao mundo depois de D. Afonso Henriquesenviuvar,a4deNovembrode1157 11 . D.TeresaAfonsocasouduasvezes–comD.SanchoNunesdeBarbosa e,depois,comD.FernandoMartinsBravo–masmorreusemgeração, emboraAntónioCaetanodeSousaafirmequedoseuprimeirocasamento nasceuumaD.UrracaSanches 12 .Masesta,mulherdeD.GonçalodeSousa emãedeD.MendodeSousa,oSousão,erafilhadeD.SanchaHenriques, irmãdeD.AfonsoI,e,portanto,sobrinhadoprimeiroreidePortugal.
QuantoaD.UrracaAfonso,foisenhoradeAvô,querecebeuem1185e
trocouposteriormentepelaviladeAveiro 13 ,tendocasadocomD.Pedro AfonsoViegas,netodeEgasMoniz.FoimãedeAbrilPiresdeLumiares, AldaraPireseSanchaPires.Destaúltimaprocedem«muyilustresCasas donossoReyno,eodeCastella» 14 . QuantoaosdoisfilhosilegítimosdeD.AfonsoHenriques,referidospela HistóriaGenealógica,umchamava-seAfonsoeooutroFernandoAfonso. Este,dizAntónioCaetanodeSousa,foialferes-mordoreinoedele«não sabemos outra notícia». D. Afonso, por seu turno, foi «11.º mestre da insigneOrdemMilitardeSãoJoãodeRhodes,eleitonoano1194» 15 . A verdade, porém, é que estes dois bastardos podem ser uma e a mesma pessoa – segundo afirma José Mattoso, na peugada de Ariel Castro,umprofessorbrasileiroque«identificouoalferes-régioFernando Afonsocomaquelequeatéentãoseconsideravaoutrobastardo,Afonso, equesetornariagrão-mestredaOrdemdoHospital» 16 . Fernando Afonso é «o filho que os livros de linhagem atribuem ao concubinatodeAfonsoHenriquescomChamôaGomes,filhadeGomes NunesdePombeiro,oantigocondedeToroño» 17 ,esobrinhadeFernão PeresdeTrava,oamantedeD.Teresa,mãedorei. EstaChamôaGomes,aquemDiogoFreitasdoAmaral,nasuabiografia do monarca, prefere chamar Flâmula, terá sido, segundo o professor apurou,nãosesabecomo,ograndeamordeD.AfonsoHenriques,que com ela terá vivido em «união de facto» entre 1138 e 1145 18 . Só não casoucomela–sustentaaindaFreitasdoAmaral,comfundamentosque
tambémnãodesvenda–porqueaIgrejaseopôsaessecasamento.
A «barregã» régia, antes de o ser, casara com Paio Soares da Maia, havendotrêsfilhosdessecasamento,umdosquaisfoialferes-mordorei Fundador. Após enviuvar, afirma o Livro Velho de Linhagens, Chamôa «meteu-semonjaemVairão»efez«emdrudaria»,querdizer,semestar casada, um filho com D. Mem Rodrigues de Togues, chamado Soeiro MendesFacha.Depois,tambémem«drudaria»,fezumfilhocomoreiD. AfonsodePortugal,quehouveonomedeFernandoAfonso.
EsteFernandoAfonsoteránascidopor1140,oanoemqueseupai
concedeuforalaBarcelosesetravouotorneiodeArcosdeValdevez.Por
1159apareceupelaprimeiraveznacortee,em1169,foifeitoalferes-
mor,depoisdaderrotasofridaemBadajozporD.AfonsoHenriques,que levou,aliás,àsuaprisãopeloreideLeão,seugenro. Com o pai fisicamente muito debilitado e irremediavelmente inabilitado para combater, Fernando Afonso poderá então ter surgido, aosolhosdemuitos,comoodefensordoreino–eonaturalsucessorde D.AfonsoHenriques,dequemeraofilhoprimogénito.Talseriaaposição doscavaleirostempláriosedosfidalgosminhotos.Masprevaleceramos direitosdeD.Sancho,ofilholídimo(oulegítimo)doreiFundador,que contavacomoapoiodosfreiresdeÉvora,doscavaleirosdeSantiagoe dos magnatas do sul de Portugal. O pai armou-o cavaleiro em 1170 e
partilhoucomeleopoderem1173,umanodepoisdeFernandoAfonso
ter sido desautorizado e despromovido, passando de alferes-mor a simplesalferesdoherdeirodotrono. Após a morte de D. Afonso Henriques, em 1198, Fernando Afonso abandonouoreinodeseumeio-irmãoparasetornarvassalodoreide Leão,seucunhado–oque,segundoalgunshistoriadores,provariaqueo bastardonãoacatavaopodereaautoridadedeD.Sancho.Mastudoisto é,segundoMattoso,«confusoeincerto». Certoéque,tendosaídodePortugal,D.FernandoAfonsofoimestreda
OrdemdoHospital«naHispânia,pelomenosapartirde1198,edepois
eleitogrão-mestreem1202,eventualmenteemvirtudedainfluênciaque
sua meia-irmã, a condessa Matilde da Flandres, exercia junto do papa Inocêncio III. Tomou parte na 4.ª Cruzada (1202-1204), que, como se sabe,desviouoseuobjectivoparaconquistarConstantinopla,emvezde
sedirigiràTerraSanta» 19 .
Em1204estavaemAcree,noanoseguinte,recebeuumadoaçãode
Balduíno,imperadordeConstantinopla.Em1206renunciouaoseucargo
eregressouaPortugal–onde,dizaChronicamagistrorumdefunctorum, foi «envenenado pela sua gente». O Livro Velho de Linhagens, esse, asseguraqueFernandoAfonso,ousóAfonso,foimortoemÉvorapelos cavaleiros de Santiago, «num contexto que parece quase de guerra civil» 20 .SepultadonaIgrejadeS.JoãodeAlporão,emSantarém,oseu
epitáfiodizquemorreuemMarçode1207,oque«concordacomuma
informaçãodoChroniconconimbricensecompoucosdiasdediferença» 21 . MascomamorteesepulturadeFernandoAfonsonãoficaencerradaa históriadosprimeirosbastardosreaisdePortugal.AindaqueAfonsoe Fernando Afonso, os dois bastardos referidos por António Caetano de SousanasuaHistóriaGenealógica,tenhamsidoumaeamesmapessoa, vários são os historiadores, genealogistas e biógrafos do rei Fundador quesustentamtereletido,defacto,foradoseucasamento,doisfilhos varões.Pelomenos. Frei António Brandão assegura na Monarquia Lusitana que este segundo bastardo de D. Afonso Henriques ter-se-á chamado Pedro Afonso,estandoasuaexistênciacomprovadaporuma«doaçãoqueele própriofezaD.Fernando,abadedeAlcobaça,eaoseuconventodecerta quintanotermodaviladeTomar» 22 .JoséMattosoconcordacomoautor da Monarquia Lusitana em que se chamou Pedro Afonso o «outro bastardo»doprimeirorei.MasafirmatambémquefoisenhordeAregae
Pedrógão,lugaresaquedeuforalem1201e1206.«Trata-sedecertodo
mesmoPedroAfonsoquefoialcaidedeAbrantesem1179ealferesdorei
entre1181e1183» 23 .Esteúltimocargocontinuouaexercernoreinado deseuirmão,oreiD.SanchoI,dequemfoiumfielededicadoservidor. TeráparticipadonaconquistadeSilves.ED.Sanchodesignou-oporseu testamenteiro. DosegundobastardodeD.AfonsoHenriquesnãohámuitomaisquese possadizer.
DosbastardosdeD.AfonsoHenriques,sóD.UrracaAfonsoterácasado–com
PedroAfonsoViegas,umnetodeEgasMonizquefoitenentedeTrancosoeNeiva.
Dessecasamentonasceramtrêsfilhos,umrapazeduasraparigas.Umadelas,D.
SanchaPeresdeLumiares,tevecopiosaemuitoilustredescendênciaemEspanha.É
porelaquedescendemdoprimeiroreidePortugaladuquesadeAlba,oduquede
Feria,RafaelMedina(filhodeNatiAbascal),omarquêsdeGriñoneomarquêsde
Cubas,entremuitosoutros.
8AgustinaBessa-Luís,FamaeSegredonaHistóriadePortugal(Lisboa:GuerraePaz,2010),p.27
9DuarteGalvão,ChronicadoMuitoAlto,EMuitoEsclarecidoPrincipeD.AffonsoHenriques(Lisboa:
OficinaFerreyriana,1726),pp.4ss
10AgustinaBessa-Luís,FamaeSegredonaHistóriadePortugal(Lisboa:GuerraePaz,2010),p.27.
11Cf.DiogoFreitasdoAmaral,D.AfonsoHenriques(Lisboa:Bertrand,2000),p.122
12AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.I,p.38.
13AnaCristinaTavaresdaFonseca,BarregãseBastardasRégiasnaIDinastiaPortuguesa(Texto
policopiado:Lisboa,2005),p.82.
14AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.I,p.39.
15Idem,ibidem,p.37.
16JoséMattoso,D.AfonsoHenriques(Lisboa:CírculodeLeitores,2006),p.164.
17Idem,ibidem.
18Cf.DiogoFreitasdoAmaral,D.AfonsoHenriques(Lisboa:Bertrand,2000),p.122.
19JoséMattoso,HistóriadePortugal(Lisboa:CírculodeLeitores,1993),vol.II,p.89.
20Idem,D.AfonsoHenriques(Lisboa:CírculodeLeitores,2006),p.232.
21Idem,HistóriadePortugal(Lisboa:CírculodeLeitores,1993),vol.II,p.89.
22FreiAntónioBrandão,TerceirapartedaMonarchialusitana:quecontémahistoriadePortugal
desdoCondeDomHenrique,atétodooreinadodelReyD.AfonsoHenriques(Lisboa:PedroCraesbeeck,
1632),p.157v.
23JoséMattoso,D.AfonsoHenriques(Lisboa:CírculodeLeitores,2006),p.165.
OSOITOENTEADOS
DARAINHADOCE
D omSanchoI,oPovoador,nascidoem1154,casouem1175comD.
Dulce(ouAldonçaou,simplesmente,Doce),queerafilhadocondede BarcelonaedarainhadeAragãoepodiaser,masnãoháacertezadeque fosse,viúvadeArmengal,condedeUrgel 24 .
Dessecasamentonasceramnadamenosdoque11filhos:(1)D.Afonso,
quesucedeuaseupai;(2)D.Pedro,quefoicondedeUrgeletevedois
bastardos,D.Rodrigo,«eminenteemletras» 25 ,eD.FernandoPedrode
Portugal,dequemnãohámaisnotícias;(3)D.Fernando,quefoicondeda
Flandres;(4)D.Henriquee(5)D.Raimundo,quemorrerammeninos;(6)
D.Teresa,beatificadapelaIgreja,quefoirainhadeLeão;(7)D.Mafalda,
também beata, que foi rainha de Castela; (8) D. Sancha, senhora de Alenquer, que foi freira no Mosteiro de Celas e a Igreja igualmente
beatificou;(9)D.Branca,senhoradeGuadalajara,emEspanha;(10)D.
Berenguela,ouBerengária,quefoirainhadaDinamarca,ondenãodeixou saudades mas deixou uma descendência que expandiu o sangue de
PortugalporessaEuropafora;e(11)D.Constança,quemorreusolteira,
aos20anosdeidade.
EstanumerosaproledefilhoslegítimosnãoimpediuoPovoadordeter vários bastardos – mais exactamente: oito – que D. Sancho há-de ter estimadomasnuncaconfundiucomosfilhosnascidosdoseucasamento, como se prova pelo seu testamento. Com efeito, «enquanto aos filhos
legítimosdeixa,atodosigualmente,aquantiade40.000morabitinos,tal
comofazàsfilhas,acrescentandoaindapropriedadesemais200marcos
de prata, aos ilegítimos destina apenas 8.000 aos varões e 6.000 às mulheres» 26 . Doisdeles,MartimSancheseD.UrracaSanches,nasceramdarelação domonarcacomMariaAiresdeFornelos,«nobilipulchraconcubina» 27 quefoi«filhada»porD.SanchoaindaemvidadadoceediscretaD.Dulce. Talvez por isso o autor da Crónica Breve do Arquivo Nacional tivesse
escritoqueamãedestesbastardosera«umadonadequesenompode saberonome».Terminadaarelação,oreitratoudecasá-lacomD.Gil VasquesdeSoverosa,umdosfidalgosmaispoderososdeAlém-Douro. D.UrracaSanchesfoicriadacomoirmãoemPontedeLimaecasou comLourençoSoares,«tenente»deLamegoeViseu.EsteeranetodeEgas Moniz mas também de D. Urraca Henriques, irmã do primeiro rei de
Portugale,portanto,tia-avódeD.UrracaSanches.Estavaviúvaem1220
eaindaviviaem1256.Masnãodeixoudescendência.
MartimSanches,esse,éconsiderado«omaisnotáveldosbastardosde D.SanchoI» 28 .Homemde«grandeseelevadosespíritos» 29 ,tevepapelde grande destaque na guerra que se travou entre o rei D. Afonso II, seu irmão,eopartidosenhorial,queEstêvãoSoaresdaSilva,oarcebispode Braga,encabeçavaeondeMartimSanchestambémmilitava. ApósamortedeD.SanchoI,dequemtinharecebidodinheiroebens naregiãodeGuimarães,Martimsentiu-seagravadoporD.AfonsoIIe, saindodePortugal,tornou-sevassalodoreideLeão,AfonsoIX,queera, aliás,seuprimoco-irmão,porserfilhodainfantaD.Urraca,irmãdeD. Sancho. Foi nomeado adiantado-régio nos reinos de Leão e Castela. E nessa qualidadeinterveioemPortugalnosconflitosqueopuseramD.AfonsoII àsinfantassuasirmãs–queirmãstambémeramdeMartimSanches–e, depois,aoarcebispodeBraga. D.EstêvãoSoaresdaSilvasofreuasrepresáliasdoreipelasposições quecontraeletinhatomado,incluindoasuaexcomunhão,queopapa HonórioIIIconfirmou.Essasrepresáliasforamexercidassobreosbens queoarcebispopossuíaemBragaeCoimbra,mastambémnoterritório galego de Límia. Ora, deste território era governador Martim Sanches, quepegouemarmasedirigiu-separaPontedeLima,ondeD.AfonsoII entãoseencontrava. «Esteretirou-separaoCastelodeGaia,confiandoadefesadoterritório a Mendo Gonçalves de Sousa, João Pires da Maia e Gil Vasques de Soverosa.Osportuguesesforamderrotadosetiveramdeseretirarpara BragaeGuimarães,enquantoosgalegosdevastavamaregião.» 30 Depois de humilhar o rei de Portugal, Martim Sanches foi muito favorecidopeloreideLeão,quelhedeuquatrocondados,incluindoode Trastâmara. Casado com D. Eulália Perez de Castro, não teve «semel», querendodizersementeougeração. OsrestantesseisfilhosqueD.SanchoItevedegança(comoentãose
dizia 31 ) foram fruto dos seus amores com D. Maria Pais Ribeiro, a Ribeirinha,queoreiconheceunaGuardaouemCoimbraeerasobrinha daqueleMartimMonizquedefendeuaportadeLisboa.
A Ribeirinha, «mulher fidalga, de grande formosura» 32 , também foi amantedeD.Sanchoquandoarainhasuamulhervivia.Masaligação prolongou-se após a morte de D. Dulce, em 1198, com suficiente escândalopúblicoparaopapaadmoestaroreicontra«afeiticeiraque todos os dias consultava» e o bispo de Coimbra lhe solicitar que a expulsassedopaçoparaqueeleopudessefrequentar… SenhoradeViladoConde,queD.Sancho,homemciumento,lhedeixou em testamento com a condição de ela não casar, a Ribeirinha deu ao Povoadorváriosfilhos. Oprimeirochamou-seRodrigoSanchesefoiumdoschefesdopartido senhorial durante o reinado de D. Sancho II. Fez frente à política de afirmação e centralização do poder real intentada por seu sobrinho e
morreuacombatê-la,nalidedeGaia,em1245.
Há-detersidoummodelodequalidadesevirtudes,aacreditarnuma inscrição cuja memória a Monarquia Lusitana conservou: «[…] grande cortesão,insignenasarmas,semelhanteaRolando,amávelparatodos, gracioso e de conversação alegre, folgado de rir e de falar, evitando o incesto(sic),verdadeironaspromessas,severoparacomosinimigosmas pacífico,humilde,derarabondadeesemengano[…]» 33 Não casou. Mas teve de Constança Afonso de Cambra um filho bastardo: Afonso Rodrigues, que os livros de linhagens não referem. FradedeSãoFrancisco,«guardiãodoConventodeLisboa»,obastardode RodrigoSanchesfezpartedodesembargodeD.Dinis 34 . OsegundofilhodaRibeirinhachamou-seGilSanches,que,dizoconde de Sabugosa, «foi o clérigo mais honrado de Espanha e viveu em barreganiacomD.MariaGarciadeSousa»,dequemnãotevefilhos.Foi também trovador. Seu pai deixou-lhe em testamento oito mil morabitinos,«dosqueestãoemBelver» 35 .Morreua14deSetembrode
1236.
Seguiram-seNunoSanches,que«morreudetenraidade»,numdia16
deDezembro,eD.MaiorSanches,que,segundooslivrosdelinhagens,era filhadeMariaAiresdeFornelos,eque,segundoaMonarquiaLusitana, teriamorridocriança,talcomoumseuirmão,NunoSanches,dequem nunca mais se ouviu falar 36 . Finalmente, nasceram D. Constança e D. TeresaSanches.
D.TeresafoiasegundamulherdeD.AfonsoTelesdeMeneses,rico-
homem, senhor de Albuquerque, Medelim, Montalegre, Valhadolid e Madrid,etc.,aquemdeuquatrofilhos:JoãoAfonso,AfonsoTeles,Martim AfonsoeMariaAfonso.FoiavódoprimeirocondedeBarcelosetrisavó deD.LeonorTeles,amulherdoreiD.FernandoI.Morreuem1230 37 .
QuantoaD.ConstançaSanches,nasceuemCoimbra,cercade1204.Foi
criadaporJustaDiase,quandoperfez20anos,professounoMosteirodas
DonasdeSãoJoão,emCoimbra.Contempladacomsetemilmorabitinos
notestamentodeseupai(1210),adquiriumuitosbensemTorresVedras
e, sobretudo, na vila e termo de Alenquer. Além disso, herdou de sua mãe 38 . Foi grande benfeitora de várias ordens religiosas, a quem deixou chorudoslegadosaomorrer.OMosteirodeGrijóganhouparticularmente com a sua generosidade: num documento datado de Abril de 1263, D. Constança fez-lhe muitas mercês, impondo, no entanto, algumas condições,entreasquaisquealifosserezadaumamissadeaniversário, cadaano,pelasuaalma;equeumamissadeaniversáriofosserezada tambémporalmadeseuirmão,D.RodrigoSanches,devendoalémdisso manter-seumalâmpadaacesadiantedoaltardeSantaMaria. D.ConstançaSanches,«donamuitonobreedemuitograndesantidade e virtudes, e toda perfeita em virgindade e em fazer esmola aos pobres» 39 , faleceu em 1269. E dela se diz (diz pelo menos D. António Caetano de Sousa) que «mereceu aparecer-lhe São Francisco e Santo António,certificando-adasuasalvação».
coroa.jpg
DosoitobastardosdoreiPovoador,sótrêsésabidoquecasaram:D.Martim Sanches, que não teve filhos; D. Urraca Sanches, com copiosa descendência em Espanha; e D. Teresa Sanches, mulher de Alfonso Tellez, senhor de Menezes e Albuquerque,cujosdescendentessãomuitonumerosos–eilustres. ÉocasodeChicoBuarqueoudeMiguelSousaTavares,mastambémdeNicolau Breyner, Margarida Rebelo Pinto, Ricardo Salgado, Isabel Mota, Leonor Beleza, TeresaGouveiaouLuísFilipeMenezes,oactualpresidentedaCâmaraMunicipalde
Gaia,quetambémdescendedeAfonsoDinis,filhoilegítimodeD.AfonsoIII.
Omesmosucede,aliás,comaactrizAnaBritoeCunha,oactoreencenador
Diogo Infante, os advogados José Miguel Júdice e José Pedro Aguiar Branco, o
empresárioAntónioPiresdeLimaeopoetabrasileiroJoãoCabraldeMeloNeto.
TambémAntónioLoboXavierdescende,pormuitaslinhas,deD.TeresaSanches.
Masconta,entreosseusantepassados,commaistrêsbastardosrégios,pelomenos:
D.UrracaAfonso,AfonsoDiniseMartimAfonsoChichorro(filhosdeD.AfonsoIII).
DeD.TeresaSanches(mastambémdeoutrosbastardosreais)descendemainda
aescritoraMariaTeresaHorta,oadvogadoNunoMoraisSarmento,oactorPedro
GrangereohistoriadorBernardodeVasconceloseSousa,7.ºmarquêsdeCastelo
Melhor.
De D. Teresa Sanches (antepassada também de Manuel d’Arriaga, o primeiro
presidentedaRepúblicaportuguesa,oudeFranciscoSáCarneiro,ofundadordo
PSD) descende igualmente, pelo lado paterno, a actual duquesa de Bragança, D.
IsabeldeHerédia,que,entreosseusantepassados,contaigualmentecomD.Urraca
Afonso,bastardadeD.AfonsoI.ObastardodequeD.Isabeldescendepelolado
maternonãoédesanguereal.
24FredericoFranciscodelaFiganièresustentaqueasenhoracasadacomocondedeUrgelnãoeraa
mulherdeD.SanchomasafilhadeRogérioII,condedeFoix,quetambémsechamavaDulce.Cf.
MemóriasdasRainhasdePortugal(Lisboa:TipografiaUniversal,1859),p.61.
25AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.I,p.62.
26MariaJoãoViolanteBranco,D.SanchoI(Lisboa:CírculodeLeitores,2011),p.211.
27AntónioPereiradeFigueiredo,ElogiosdosReisdePortugalemlatim,eemportuguezillustradosde
notashistoricasecríticas(Lisboa:OficinadeSimãoThaddeoFerreira,1785),p.40.
28AfonsoEduardoMartinsZuquete,NobrezadePortugaledoBrasil(Lisboa:EditorialEnciclopédia,
1960)p.239.
29AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.I,p.55.
30JoséMattoso,HistóriadePortugal(Lisboa:CírculodeLeitores,1993),vol.II,p.115.
31Amelhortraduçãodestapalavraparaportuguêsmodernopareceserganhança(lucro,ganho,
proveito).Cf.JoséPedroMachado,GrandeDicionáriodaLínguaPortuguesa,(Lisboa:AmigosdoLivro
Editores,1981),vol.V.
32AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.I,p.55.
33JoséMattoso,HistóriadePortugal(Lisboa:CírculodeLeitores,1993),vol.II,p.131.
34Cf.JoséAugustodeSottoMayorPizarro,LinhagensMedievaisPortuguesas(Porto:1997),vol.I,
p.166.
35AfonsoEduardoMartinsZuquete,NobrezadePortugaledoBrasil(Lisboa:EditorialEnciclopédia,
1960).
36Cf.AnaCristinaTavaresdaFonseca,BarregãseBastardasRégiasnaIDinastiaPortuguesa
(Lisboa:Textopolicopiado,2005),p.91.
37AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.I,p.57.
38AnaCristinaTavaresdaFonseca,BarregãseBastardasRégiasnaIDinastiaPortuguesa(Lisboa:
textopolicopiado,2005),p.93.
39AlexandreHerculano,ChronicasbrevesememoriasavulsasdeS.CruzdeCoimbra,inPortugaliae
MonumentaHistorica–Scriptores(Lisboa:AcademiaRealdasCiências,1856),p.31
[http://purl.pt/12270/2/]
OSBASTARDOSDOBOLONHÊS
O rei D. Afonso II (1185-1223) teve dois filhos bastardos, de quem
poucoounadasesabe:D.JoãoAfonso,oúnicoqueaHistóriaGenealógica
refereeestáenterradonoMosteirodeAlcobaça,tendofalecidoa9de
Outubrode1234 40 ;eD.PedroAfonso,queteráparticipadonaconquista de Faro, em 1249, e sido pai de Constança Pires, «uma filha talvez bastarda» 41 .MasosfilhosilegítimosdoreiGordopodemtersidomais. Poisnãoéverdadeque,noseutestamento,oprópriomonarcaserefere aos«filhosefilhasquetenhodeoutrasmulheres»? 42 D.SanchoII,oinfelizreiCapeloquelhesucedeunotrono,nãoteve filhosnemfilhasdoutrasmulheres.Etambémnãoostevedesuaesposa, D.MéciaLopesdeHaro,tendomorridosemdescendência.Pelocontrário, seuirmão,D.AfonsoIII,oBolonhês,foihomemdeváriasmulheresede muitos filhos, legítimos e ilegítimos. Casou duas vezes. Sua primeira mulherfoiD.Matilde,condessadeBolonha,comquemseuniunoanode 1235. Mas, na opinião da maioria dos genealogistas portugueses, a condessa, se lhe deu o cognome, não lhe deu filhos – embora, além- fronteiras,oficiaisdomesmoofíciogarantamqueD.AfonsoIIIhouve,de D. Matilde, dois filhos, um rapaz e uma rapariga, que morreram crianças 43 .
Em1246,D.Afonsotrocouosdomíniosdesuamulherpeloreinode
seu irmão, de que o papa o fizera curador e defensor, depois de excomungarD.SanchoII.Portugalardiaentãonumaguerracivil,quesó terminarápeladerrotadoreiCapelo,queseexilaemToledo,ondeviráa
morrer,emJaneirode1248.
Sentadonotrono,D.AfonsoIII,quecontinuavacasadocomacondessa
deBolonha,decidiuem1253contrairmatrimóniocomarainhaD.Brites
– ou Beatriz, como hoje preferimos dizer –, também ela uma bastarda real,porserfilhadoreiAfonsoXdeCastelaedeD.MaiordeGuzmán, senhora de Alcocer, sua amante. Era uma forma de consolidar a sua monarquia.
«E (diz a Crónica de 1419) forom as gemtes muyto maravilhadas daquele casamento, porquanto el-rey dom Afonso era casado com a condesadeBolonha[…]emguisaquehumseupaniguadolhedissehum dia que fizera muito mal receber outra molher sabendo bem que era casadocomacondesadeBolonha.Eel-reylhedeuemrespostadizendo que,seemoutrodiaachaseoutramolherquelhedesemoutratantaterra noregnoperaoacresçentar,queloguocasariacomela[…]» 44
Averdadeéque,casandocomD.Beatriz–emChaves,a20deMaiode
1253–,D.AfonsoIIIincorreuembigamia(eemadultério,eemincesto),
queopapaAlexandreIVseapressouacondenar,excomungando-o–a instâncias,decerto,deD.Matilde,quereclamouaseparaçãodomaridoe
restituiçãododote.Ocastigopontifícioduroudezanos.Mas,em1259,D.
Matildemorreue,emboraopapativesseordenadoaD.AfonsoIIIquese separassedeD.Beatriz,amortedacondessadeBolonhacontribuiupara queRomafosseabrindocaminhoaumasolução,forçadapelosinstantes pedidos dos bispos portugueses e pelos esforços diplomáticos do rei Bolonhês. A 19 de Junho de 1263, o papa Clemente IV, entretanto eleito, autorizouomonarcaportuguêsacontinuara«conjugaliscopula»coma filhabastardadeAfonsoX,osábioreideCastela.E,ummêsdepois,pela bula In nostra proposuistis, levantou o interdito que o seu antecessor
tambémlançarasobreoreinoportucalense 45 . Por esse tempo, já D. Afonso III tinha três filhos do seu segundo casamento:D.Branca,senhoradeMontemor-o-VelhoeCampoMaior,que será abadessa de Lorvão (e terá um filho da relação havida, segundo alguns genealogistas, com Pedro Esteves Carpinteiro); D. Dinis, que sucederáaotrono;eD.Afonso,queserásenhordePortalegre.Umquarto filho, D. Fernando, nascido em 1260, havia entretanto falecido. Depois
destes,nascerãomaistrês:D.Sancha(1264-c.1302);D.Maria(1264-
1304);eD.Vicente(n.1268).
Mas, além destes filhos legítimos, D. Afonso III tinha também um rancho de bastardos, havidos dos seus amores, sucessivos ou mesmo simultâneos, com diversas «barregãs» régias. Foram elas muito numerosas–enemtodasderamfilhosaomonarca,comosucedeucom TeresaMendesdeSeabra,freiranoMosteirodeLorvão,oucomSancha FernandesDelgadilha,queoLivroVelhodesignapor«mulad’elrei» 46 . Outra das amantes de D. Afonso III que não o presenteou com um descendente foi Urraca Abril de Lumiares, neta de D. Urraca Afonso,
bastardadeD.AfonsoHenriquese,portanto,primadoBolonhês.Mas,se nãolhedeuumfilho,deu-lheumgenro:PedroAnesGago,comquemD. AfonsoIIIcasouumadassuasfilhasbastardas,tambémchamadaUrraca Afonso.Eistoprova,comoJoséMattosoescreveu,queavidasexualda cortesecaracterizavaentãoporuma«efectivapromiscuidade» 47 … Vale a pena acrescentar que muitas destas «barregãs» foram regiamente presenteadas pelo monarca, sendo as doações feitas por documentos públicos e solenes, «confirmados pelos membros da cúria régiaepelosbisposdoreino»,numaclarademonstraçãodeque«todaa corteseregozijavacomavirilidadedorei»! 48 Dessa exuberante virilidade foram fruto nove bastardos. De mães
desconhecidasnasceram,pelomenos:(1)D.FernandoAfonso,cavaleiro
daOrdemdoTemplo;(2)D.GilAfonso,cavaleirodamesmaOrdem,que
foibaliodaIgrejadeSãoBrás,emLisboa;(3)D.RodrigoAfonso,priorde
Santarém,«nascidoantesde1258»efalecido«antesde12deMaiode
1272»; e (4) D. Urraca Afonso, primeira do nome, falecida a 4 de Novembro de 1281, no Mosteiro de Lorvão, onde «permaneceu até à morte no estado de donzela». Ou, como diz o seu epitáfio, no claustro daquelemosteiro:«Innocenspuella&sinamacula.» 49 OutravirtuosabastardadeD.AfonsoIIIfoiD.LeonorAfonso,primeira donome,havidaemElviraEsteves.FreiradaOrdemSeráfica,noMosteiro de Santa Clara de Santarém, tomou em religião o nome de Helena de SantoAntónio.Nuncaquisserabadessa,preferindoserenfermeira.E,de acordo com Frei Manuel da Esperança, autor da História Seráfica da OrdemdosFradesMenoresdeS.FrancisconaProvínciadePortugal,terá vividoatécercade1302,«emgrandesantidade» 50 . Uma segunda filha ilegítima do Bolonhês recebeu o mesmo nome desta. Morreu sem geração, mas casou duas vezes: primeiro com D. EstêvãoAnesdeSousa,senhordePedrógãoetenentedeChaves,edepois como«conde»D.GonçaloGarciadeSousa,senhordeNeivaealferes-mor deD.AfonsoIII,queeratiodoprimeiromaridodeD.LeonorAfonso.E isto demonstra, como José Mattoso sublinha, que «as regras canónicas dos impedimentos matrimoniais não preocupavam excessivamente os membrosdacorte»deD.AfonsoIII 51 .EstaD.LeonorAfonso,quedeixou
osseusbensaoHospitaldeSãoJoão,emLisboa,teráfalecidoa26de
Fevereirode1291 52 . O Bolonhês teve também um filho chamado Afonso Dinis, que, em muitos nobiliários, aparece como filho do primeiro casamento do
monarca.Mas,sabemoshoje,porumadoaçãofeitaporD.AfonsoIIIem 1278, que o bastardo nasceu de Maria (ou Marinha) Peres de Enxara. «MarinaPetrideEnxara»,dizodocumento. Afonso Dinis, que terá sido criado por Martim Pedro, clérigo, casou com D. Maria Peres Ribeira, bisneta da famosa Ribeirinha, que fora amantedeD.SanchoI.Sobreaquelaveioarecair,pormortedetodosos seusirmãos,arepresentação–massóarepresentação–dailustreCasa deSousa 53 . Obastardo,quefoimordomo-mordaRainhaSantaIsabel,suacunhada,
tevecincofilhos:(1)D.PedroAfonsodeSousa,«rico-homemdacortedo
seuprimo,D.AfonsoIV» 54 ,tendogeraçãodoseucasamentocomElvira
AnesdaNóvoa;(2)D.RodrigoAfonsodeSousa,senhordeArraiolose
Pavia,quecasoucomViolantePonçodeBriteiroseteveumafilha;(3)D.
DiogoAfonsodeSousa,senhordeMafra,quecasouetevegeração;(4)D.
GarciaMendesdeSousa,priordaAlcáçovadeSantarém;e(5)D.Gonçalo
MendesdeSousa,quemorreusemgeração. Os dois primeiros tiveram também filhos fora de seus casamentos:
Gonçalo Rodrigues de Sousa, Fernão Gonçalves de Sousa e Aires RodriguesdeSousa,nocasodoprimeiro;eDiogoLopesdeSousa,nocaso dosegundo. DoisdosoutrosbastardosdeD.AfonsoIII,MartimeUrracaAfonso, teriamnascidodeumamouraqueoreiconheceueamouaquandoda conquista do Algarve. Essa moura chamar-se-ia Madragana e, diz Frei António Brandão, seria filha de Aloandro ben Bekar, um dos alcaides mourosdeFaro 55 .Convertidaebaptizada,teriapassadoachamar-seMor Afonso. Não há nenhuma dúvida de que Martim Afonso, por alcunha o Chichorro,«talvezporserbaixo» 56 ,foifilhodamoura.Nascidocercade
1260ecriadoporJoãoPiresdeLobeira,casoucomInêsLourenço,filha
deD.LourençoSoaresdeValadareseMariaMendes,«incestuosafidalga» que tivera amores com seu irmão, Gonçalo Mendes… Deste casamento houve cinco filhos, entre os quais um Martim Afonso Chichorro, rico- homemdacortedeD.Dinis,quenãocasoumasfoipaidedoisbastardos:
VascoMartinsdeSousaeMartimAfonsodeSousa 57 . Mas dúvidas há, e muitas, de que Urraca Afonso, segunda do nome, tambémfossefilhadamoura.Taleraaliçãodoslivrosdelinhagens.Hoje, porém, «sabemos ser filha de Maria Afonso, provavelmente a dona de Santarém,jáqueUrracaherdarácasasnessacidade[…]quepertenciama
suamãeeaJoãoRedondo» 58 .EstaUrracaAfonso–que,comoatrásse viu, D. Afonso III casou com o filho de uma amante sua – foi muito estimadaporseupai,aquemdeunumerososnetos. No rol dos bastardos do Bolonhês há quem inclua, ainda, um D. HenriqueAfonso,dequemporjuntosesabequecasoucomumaD.Inêse morreunaguerradaPalestina.Massãomuitososqueduvidamdasua existência,apesardoepitáfio,«inverosímilesuspeitoso» 59 ,queexisteno Mosteiro de Santa Clara de Santarém e diz: «Aqui jaz o Infante D. Henrique Afonso, filho del-Rey D. Afonso III e sua mulher a Infanta D. Ignez.» 60 Averdadeéqueonomedeste«infante»nãoconstadotestamentode D. Afonso III, que contemplou nele todos os seus bastardos. Às filhas, arranjou-lhesbonsmaridos.Mascomoera,alémdebompai,bomrei, tratou de fazer «casamentos políticos» 61 , destinados não apenas a garantirofuturodasbastardasmastambémacontrolarasfamíliasmais poderosasdoReinoPortucalense,quenemtodasfaziamofavordeser suasamigas.
coroa.jpg
Dos bastardos do rei Bolonhês descendem algumas das mais nobres famílias portuguesas,desdeosduquesdeBragançaaosduquesdePalmela,mastambéma rainhaSílviadaSuécia,afamosa«Evita»Perón(elaprópriaumabastarda),oantigo presidentefrancêsValéryGiscardd’Estaing,ojornalistanorte-americanoAnderson CooperouocantorespanholBetinOsborne. Desse rol de descendentes de D. Afonso III fazem ainda parte José Sócrates, HenriqueMedina Carreira, ÁlvaroLaborinho Lúcio,osirmãos Antónioe Manuel PintoBarbosa,JoséDiogoQuintelaouAntónioMexia,que,descendendodeAfonso Dinis, como o jornalista Martim Avillez Figueiredo, descende ainda de Martim Afonso,oChichorro,irmão(ou,melhor,meio-irmão)deAfonsoDinis. DoChichorrodescendetambémD.LuísAndrédePinaCabraleVilas-Boas–o conhecidotreinadordefutebol,AndréVilas-Boas–talcomoomaestroVictorino d’Almeidae,éclaro,suasfilhas,asactrizesMariaeInêsdeMedeiros.EdeUrraca Afonso descendem, entre outros, o presidente do Futebol Clube do Porto, Jorge
NunoPintodaCosta,ouaescritoraejornalistaIsabelStilwell.
Francisco Sá Carneiro também teve como antepassado o rei D. Afonso III,
descendendoporlinhadirectadeAfonsoDinis.Omesmosucedecomojornalista
MartimCabral,quecontaaindacomoantepassadasD.UrracaAfonsoeD.Teresa
Sanches, e com o arquitecto Manuel Salgado, que também descende de Martim
AfonsoedeD.TeresaSanches.
40HermíniaVasconcelosVilar,D.AfonsoII(Lisboa:CírculodeLeitores,2010),p.244.
41JoséAugustodeSottoMayorPizarro,LinhagensMedievaisPortuguesas(Porto:1997),vol.I,
p.168.
42Cf.AntónioCaetanodeSousa,ProvasdaHistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:
Atlântida,1946),vol.I,p.35.
43Cf.DouglasRichardson,PlantagenetAncestry–AStudyinColonialandMedievalFamilies
(Baltimore:GenealogicalPublishingCompany,Inc.,2004),p.588;eThierryLeHête,LaDynastie
Capétienne(LaBonneville-sur-Iton:1998),p.121.
44JoséMattoso,«Otriunfodamonarquiaportuguesa»,inAnáliseSocial,vol.XXXV(157),2001,
p.911.
45Idem,ibidem,p.919.
46Cf.LeontinaVentura,D.AfonsoIII(Lisboa:CírculodeLeitores,2006),p.212.
47JoséMattoso,«Otriunfodamonarquiaportuguesa»,inAnáliseSocial,vol.XXXV(157),2001,
p.912.
48Idem,ibidem.
49AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.I,p.116.
50Cf.AnaCristinaTavaresdaFonseca,BarregãseBastardasRégiasnaIDinastiaPortuguesa
(Lisboa:textopolicopiado,2005),p.95.
51JoséMattoso,«Otriunfodamonarquiaportuguesa»,inAnáliseSocial,vol.XXXV(157),2001,
p.912.
52AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.I,p.116.
53AnselmoBraamcampFreire,BrasõesdaSaladeSintra(Lisboa:ImprensaNacional/Casada
Moeda,1973),vol.I,p.274.
54JoséAugustoSottoMayorPizarro,D.Dinis(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),p.236.
55AntónioBrandão,QuartapartedaMonarchiaLusitana:quecontemahistoriadePortugaldesdo
tempodelReyDomSanchoPrimeiro,atétodooreinadodelReyD.AfonsoIII(Lisboa:PedroCraesbeeck,
1632),p.220v.[http://purl.pt/12677/4/]
56AnselmoBraamcampFreire,BrasõesdaSaladeSintra(Lisboa:ImprensaNacional/Casada
Moeda,1973),vol.I,p.275.
57JoséAugustodeSottoMayorPizarro,LinhagensMedievaisPortuguesas(Porto:1997),vol.I,
pp.173ss.
58AnaCristinaTavaresdaFonseca,BarregãseBastardasRégiasnaIDinastiaPortuguesa(Lisboa:
Textopolicopiado,2005),p.92.
59AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.I,p.116.
60Idem,ibidem,p.116.
61LeontinaVentura,D.AfonsoIII(Lisboa:CírculodeLeitores,2006),p.212.
AFINA-FLORDOREINODED.DINIS
P rimeiro e único deste nome, D. Dinis, o rei Trovador, nasceu em
Outubrode1261emorreuemJaneirode1325.Casoua24deJunhode
1282comD.IsabeldeAragão,aRainhaSanta,edessecasamento,que
não foi muito feliz, nasceram apenas dois filhos: D. Constança, que foi rainha de Castela, e D. Afonso, que foi rei de Portugal. Bem mais numerososforamosseusbastardos. Comefeito,D.Dinis,quefoi«muidadoamulheres»e«nãoconversou poucas» 62 ,teve,quesesaiba,setefilhosilegítimos,cadaumdosquais nasceudeumamãediferente 63 .Essesbastardos,queAgustinaBessa-Luís considerou a «mais fina-flor do reino» 64 , foram: (1) D. Pedro Afonso,
condedeBarcelos;(2)D.AfonsoSanches,senhordeViladoConde;(3)
outro D. Pedro Afonso, que casou com Maria Mendes e pode estar
sepultadonaSédeLisboa;(4)D.JoãoAfonso,senhordaLousã,havidode
MariaPires,«boadonadoPorto»;(5)D.FernãoSanches,«seguramentea
figuramaisdiscretadosbastardosdeD.Dinis» 65 ,querecebeudeseupai «largasmercês»ecasoucomD.FroileAnesdeBriteiros,morrendosem geraçãonosseuspaçosdeRecardães,emJunhode1329 66 ;(6)D.Maria Afonso,havidadeD.MarinhaGomes,«mulhernobre»,quecasoucomD. João de Lacerda (bisneto do rei Afonso X de Castela) e de quem
estranhamenteocondedeBarcelosnãofalanoseuNobiliário;e(7)outra
D. Maria Afonso, havida talvez (segundo Frei Francisco Brandão) de Maior Afonso ou de Branca Lourenço de Valadares, que foi freira no MosteirodeOdivelas,fundadoporseupai,ondeergueuumaltaraSanto Andrée«acaboucomopiniãodeSanta»,noanode1320 67 . Destessetefilhos,havidosforadocasamento,trêsmerecemparticular destaque,jápeloslugaresqueocuparamnacortedeseupai,jápelopapel quedesempenharamnosviolentosconflitosquemarcaramotermodo seureinado.Sãoeles:PedroAfonso,AfonsoSancheseJoãoAfonso–que seenvolveramtodosnaguerrafeitaaD.Dinisporseufilholegítimo,o infanteD.Afonso.Essaguerra,asseguraocondedeBarcelos,travou-se
porqueoherdeirodotrono,instigadoporGomesLourençodeBeja,um vilãoadvogadoqueerafilhodeumcarpinteiro,estavaconvencidodeque opaiqueriaquelhesucedessee«reinasseAfonsoSanches,seufilhode barregã».Masosmelhoreshistoriadoressustentamhojequeàguerrado infanteseacrescentouumaoutra–aqueagrandenobrezasenhorialfez ao rei Trovador, cujo poder considerava excessivo e, em todo o caso, ofensivodosseusantigosdireitos,honraseprivilégios. Éevidentementedifícilsaberseforamossenhoresaaproveitar-seda guerradoinfante,sefoioinfanteaaproveitar-sedaguerradossenhores.
Juntou-seemtodoocasoafomecomavontadedecomer–e,de1319a
1325,Portugalesteveaferroefogo,dilaceradoporumaguerracivilque
foitambém,senãofoisobretudo,umaguerraentreirmãos. OprimeirosinaldesteconflitofratricidasurgiuapósamortedeD.João Afonso de Meneses, 1.º conde de Barcelos. Trineto de D. Sancho e da formosa Ribeirinha, tinha duas filhas, que se desentenderam sobre a herança.Uma,TeresaMartinsTelo,eramulherdeAfonsoSanches,com quem casara em Outubro de 1307; a outra, Violante Sanches, estava casadacomMartimGildeSousa,queforamordomodoinfanteD.Afonso eeraalferes-mordoreino.Asduasherdeirasrecorreramàjustiçarégia.E
a3deJaneirode1312,seteouoitoanosapósamortedoconde,D.Dinis
decidiuacausa:«MartimGilherdouotítulodecondedeBarcelos,mas AfonsoSanchesficoucomamaiorpartedafortuna,istoé,osenhorioeo castelodeAlbuquerque» 68 . Ofendidocomadecisãodomonarca,MartimGilexilou-seemCastela, ondemorreupoucodepois.E,nasentençadorei,osgrandessenhores viram–eterãofeitooinfantever–umademonstraçãodofavorecimento deAfonsoSancheseumaprovadadesordemreinantenoregimentoena justiçadoreino. A partir daí, as relações entre D. Dinis e o seu herdeiro não mais
deixaramdeseagravare,por1316,estalouentreosdoisumaguerra
aberta,«fomentadaporalgunsnobresdespeitadosesaudososdeantigos privilégios feudais – que D. Dinis havia cerceado – mas também uma guerraqueridaporCastelaeAragão,reinosinteressadosemenfraquecer PortugalnocontextodaPenínsula» 69 . OsbastardosdoTrovadordividiram-sepelosdoisladosdabarricada. D.Dinisteveaseuladoaquelequelheeramaisquerido,AfonsoSanches, bemcomoJoãoAfonsoeFernãoSanches,contando,alémdisso,com«os oficiaisdacorte,algunsnobresdesegunda,obispodeÉvora,odeãodo
Portoe,importantíssimosaliados,osmestresdasOrdensMilitares».O infanteD.Afonso,porseuturno,alémdoapoiodaRainhaSanta,suamãe, contavacom«umpunhadodegrandessenhoresefilhossegundos,aque sejuntaramosbisposdeLisboaePorto» 70 .ContavaaindacomD.Pedro Afonso,futurocondedeBarcelos,seumeio-irmão,que,sendomordomo da infanta D. Beatriz, mulher de D. Afonso, se considerava vassalo do herdeirodotronoelhereconhecia«senhorio». D.PedroAfonsofoioprimeirodetodososfilhos,legítimoseilegítimos, doreiD.Dinis,postonãosesaibaexactamentequandonasceu.Amaioria
doshistoriadoresinclina-separasituaressenascimentocercade1285–
ouseja,trêsanosdepoisdocasamentodomonarcacomaprincesade Aragão e cinco anos antes do nascimento da infanta D. Constança, primeirofrutodaquelematrimónio 71 . Filho de D. Grácia Anes, «mulher de qualidade, natural de Torres Vedras»,senhoradaRibeiradeSacavém 72 ,queera«proprietáriadeumas casasapardaSédeLisboa,ondeseufilhoveioafundarumhospital,ede duastendasàPortadeFerro,doadasporD.Dinis»,D.PedroAfonsofoi beneficiadopeloreiseupaicom«grandesevaliosasdoações»,aprimeira
dasquaisocorreuem1289.Entreesseanoeode1306,recebeubensem
Estremoz,Évora-Monte,SintraeTavira,bemcomoaterradeGestaçô 73 .
E,em1307,foinomeadomordomodainfantaD.Beatriz,suacunhada.
JáentãoD.PedroestariaviúvodeD.BrancaPires(ouPeres)Portel, comquemterácasadonoúltimoanodoséculoXIIounoprimeirodo século seguinte. Herdeira de uma das maiores fortunas senhoriais daqueletempo 74 ,D.Brancadeuàluzumfilhoque«sobreviveuotempo suficienteparaseupai[oditoPedroAfonso]herdarapartedacasade Sousapossuídaporsuamãe» 75 . Em 1308, o primogénito de D. Dinis voltou a casar, desta feita com Maria Ximenez Coronel, uma das damas que viera de Aragão com a RainhaSantaequeestaseempenhouemuniraobastardodomarido, requerendo a seu irmão, o rei Jaime II, que consentisse naquela união «poramordenóseparanosfazerdesprazer» 76 .
Em1314,D.PedroAfonsofoifeitocondedeBarcelos,sucedendoao2.º
conde,D.MartimGil,seuparenteporafinidade,aquemtambémsucedeu nopostodealferes-mor,queconservouatémorrer 77 . Quando, na guerra contra D. Dinis, tomou o partido do infante D. Afonso,seumeio-irmão,«houveramosoutrosirmãosdelesmuigrande escândaloebuscaram-lhemalcomel-reiseupai»–comoopróprioconde
há-de escrever na sua Crónica de Espanha de 1344 78 . «E tanto foi crescendoesteescândaloquehouveramDomAfonsoSancheseseuirmão [João Afonso] de ajuntar todos seus vassalos e amigos e ainda grande partedosd’el-reiporseuconsentimentoeenviaramtodoestepodercom JoãoAfonsoquefossefazermaledesonraaseuirmão,ocondeD.Pedro.» Desafiado,ocondedeBarcelos,que«eramuitoamadodosfilhosd’algo», reuniu «tantos vassalos e amigos que foram mãos que os outros». E esperoupeloataqueemPinheirodeÁzere,próximodeSantaCombaDão. MasocombatenãosetravouporqueoinfanteD.AfonsoveiodeLisboa «porpartiracontenda». Depois disso, porém, «ordenou D. Afonso Sanches com el-rei que tolhesseaterraaocondeDomPedroeelefoi-separaCastela,eandoulá
quatroanosemeio»,entre1317e1322.Duranteessesanos,agravou-se
o conflito entre D. Dinis e o seu filho legítimo – que, instigado por «mentirosaspalavras»deintriguistas,nãodesistiadeabateropoderea influência que no pai tinha Afonso Sanches, em quem o monarca depositaratodaasuacomplacência. ObastardomuitoamadodoreiTrovador(oqual,reconheceocondede Barcelos, «fazia muito do que ele queria») era filho de D. Aldonça
RodriguesTalha.Nascidotalvezem1286–mas,emqualquercaso,antes
de1289 79 –,AfonsoSanchestiveraportutoresD.PedroAfonsoRibeiro 80 e,maistarde,aprópriaRainhaSanta,suamadrasta(porcartapassadana
Guarda,a21deJunhode1298).Jáentãotinharecebidováriasdoaçõesde
seupai,queocasou,antesde1307 81 ,comD.TeresaMartinsTelo,filhado
2.ºcondedeBarcelos–eque,em1312,onomeouseumordomo-mor.
AfonsoSanchesconservariaessasaltasfunçõesaté1322.
Perdeu-asporquefoiessaumadascondiçõesimpostaspeloinfanteD. Afonso para firmar tréguas com o pai nesse ano de 1322. Mas essas tréguas não puseram definitivo termo à guerra civil. E só a 26 de Fevereiro de 1324, em Santarém, é que as pazes foram finalmente estabelecidas, depois dos esforços nesse sentido desenvolvidos pela Rainha Santa Isabel, «boa advogada de causas barulhentas e perniciosas» 82 ,etambémpelocondedeBarcelos,entretantoregressado de Castela. Com essas pazes, o infante, obtendo a solene garantia da sucessãodotrono,alcançavatambémqueAfonsoSanchesfosseafastado da corte, a troco de dez mil libras que lhe foram dadas como compensação.Obastardorefugiou-seemCastela.MasD.Afonsonãoo esqueceunemlheperdoou.
Malsubiuaotrono,apósamortedeD.Dinis,a7deJaneirode1325,D.
AfonsoIVconvocouascortesparaqueo«recebessem»comoreiesenhor
elheprestassemmenagem.Logoaseguir,tratoudeperseguiromeio-
irmão,exiladoemCastela,nãoobstanteeleterreconhecidoasuarealeza. Acusou-o de traição, confiscou-lhe os bens e condenou-o a desterro perpétuo.AfonsoSanchesprotestou,masemvão.E,nãosendoouvido, resolveuagir. «Pegou em armas, reuniu forças de Castela e invadiu Portugal, espalhandoaleidoferroedofogo» 83 nasterrasdefronteira,desdeTrás- os-Montes até ao Alentejo. D. Afonso IV retribuiu na mesma moeda, visandoemespecialAlbuquerque,queera«ondeoadversáriotinhasede eprincipaisapoios» 84 . A contenda durou três anos e só terminou porque Afonso Sanches adoeceu.Negociou-seentãoapaz,tendoobastardoqueridodeD.Dinis obtidoarestituiçãodetodososbensquelhetinhamsidoconfiscados. Assimquelheforamdevolvidos,morreu,sendoenterradonoConvento deSantaClara,quefundaraemViladoConde,dequeerasenhor.Deixou um filho, D. João Afonso de Albuquerque, o do Ataúde, 6.º senhor de Albuquerque,quefoimordomo-mordoreiD.PedroIedeixounumerosa descendência,legítimaeilegítima. JáentãoD.AfonsoIV,cognominadooBravo,menosporsercorajosodo que por ser violento, tinha mandado matar outro dos seus irmãos bastardos–JoãoAfonso,quefora,tambémele,mordomo-mordeD.Dinis e,depois,seualferes-mor.Acusadodetraiçãoporseterconluiadocom AfonsoSanches,«nossoinimigo»,JoãoAfonsoforacondenadoàmorte por uma sentença de 4 de Julho de 1326, em que D. Afonso IV se declaravamuitopesarosoporterdecastigarum«homemquesechama filhodeEl-ReiD.Dinis,nossopadre» 85 . SenhordaLousã,D.JoãoAfonsodeixaraviúvaD.JoanaPoncedeLeon (bisnetadeAfonsoIX,reideLeãoeCastela),quelhederaumafilha:D. Urraca Afonso, mulher de Álvaro Perez de Guzman, senhor de Manzanedo. Mas deixara também uma bastarda, Leonor Afonso, que casoucomGonçaloMartinsPortocarreiro. QuantoaD.PedroAfonso,condedeBarcelos,afastou-sedacortede seu irmão e foi viver para os seus paços de Lalim, na companhia de Teresa Anes de Toledo, sua amásia (e não, como alguns disseram, sua terceira mulher). Foi aí que coligiu trovas e cantigas, compôs o interminávelLivrodeLinhagenseredigiuaCrónicaGeraldeEspanhade
1344.
Em1347,tinha-sedefinitivamenteseparadodesuasegundamulher,D.
MariaXimenezCoronel,comquem,aliás,quasenãocoabitara.Comefeito, desde o seu casamento, marido e mulher tinham quase sempre vivido apartadosumdooutro.Noanoemqueseconsumouaruptura,oconde doouàcondessatodososbensqueocasalpossuíaemAragão,enquantoa condessalhedoavaaeletodososbensqueocasaltinhaemPortugaleno
Algarve 86 . Figuracentralnopanoramapolíticoeculturalportuguêsdaprimeira metadedoséculoXIV(comoomarquêsdeCasteloMelhorodescreve) 87 , D.PedroAfonsomorreu«entre2deFevereiroe5deJulhode1354» 88 , sendosepultadonoMosteirodeS.JoãodeTarouca.
coroa.jpg
De D. Afonso Sanches descendem Paulo Portas, o líder do CDS, e Manuela
FerreiraLeite,aex-líderdoPSD,bemcomoaactrizSofiaSádaBandeiraeojogador
etreinadordefutebolLuísNortondeMatos.
ÁlvaroBarreto,PedroTeixeiraDuarte(cujoavôcasoucomumadescendentedo
bastardo de D. Dinis), João e Vasco Pereira Coutinho (1.º marquês de Pereira
Coutinho, em Espanha), Eduardo Stock da Cunha e Salvador da Cunha Guedes
tambémdescendemdofilhoqueridodoreiTrovador–masnãodaRainhaSanta,
suamulher.
62JoséAugustodeSottoMayorPizarro,D.Dinis(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),p.239.
63RuidePina,Crónicas(Porto:Lello&Irmão,1977),p.234.
64AgustinaBessa-Luís,AdivinhasdePedroeInês(Lisboa:GuimarãesEditores,1983),p.225.
65JoséAugustodeSottoMayorPizarro,D.Dinis(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),p.243.
66Idem,ibidem.
67AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.I,p.173.
68JoséMattoso,HistóriadePortugal(Lisboa:CírculodeLeitores,1993),vol.II,p.162.
69Idem,ibidem,p.484.
70Idem,ibidem.
71AnselmoBraamcampFreire,quenãopropõeumadataparaonascimentodeD.PedroAfonso,
sugerequeeleteriacasadoa10deDezembrode1289,dataemqueoreiseupailhefezaprimeira
doação,extensívelaosseuslegítimossucessores.Nãoéfácilaceitá-lo.D.Dinisnasceuem1261.
Mesmoadmitindoquetenhasidopaiaos14anos(em1275,portanto),oseufilhoprimogénitoteria
12anossetivessecasadonadatapropostaporBraamcampFreire.Mastambémcustaadmitirque
D.Dinissótenhasidopai,pelaprimeiravez,com24anosdeidade.Adatade1277,propostapor
algunshistoriadores,paraonascimentodeD.AfonsoSanchesacabaporserbastantemaisaceitável. Cf.AnselmoBraamcampFreire,BrasõesdaSaladeSintra(Lisboa:ImprensaNacional/Casada
Moeda,1973),vol.I,p.263.
72AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.I,p.158.
73ArquivoNacionaldaTorredoTombo:PT/TT/GAV/3/1/5.
74BernardodeVasconceloseSousa,D.AfonsoIV(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),p.28.
75AnselmoBraamcampFreire,BrasõesdaSaladeSintra(Lisboa:ImprensaNacional/Casada
Moeda,1973),vol.III,p.265.
76SebastiãoAntunesRodrigues,RainhaSanta(Coimbra:CoimbraEditora,1958),p.140.
77AnselmoBraamcampFreire,BrasõesdaSaladeSintra(Lisboa:ImprensaNacional/Casada
Moeda,1973),vol.III,p.266.
78Cf.BernardodeVasconceloseSousa,D.AfonsoIV(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),p.32.
79JoséAugustodeSottoMayorPizarro,D.Dinis(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),p.242.
80Cf.ArquivoNacionaldaTorredoTombo:PT/TT/MSMAR/G6M1/19.Acartadetutoriatemadata
de18deMarçode1293.
81AnselmoBraamcampFreire,BrasõesdaSaladeSintra(Lisboa:ImprensaNacional/Casada
Moeda,1973),vol.III,p.268.
82AgustinaBessa-Luís,AdivinhasdePedroeInês(Lisboa:GuimarãesEditores,1983),p.28.
83JoséMattoso,HistóriadePortugal(Lisboa:CírculodeLeitores,1993),vol.II,p.484.
84Idem,ibidem.
85BernardoVasconceloseSousa,D.AfonsoIV(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),p.70.
86AnselmoBraamcampFreire,BrasõesdaSaladeSintra(Lisboa:ImprensaNacional/Casada
Moeda,1973),vol.III,p.268.
87BernardodeVasconceloseSousa,D.AfonsoIV(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),p.29.
88JoséAugustodeSottoMayorPizarro,D.Dinis(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),p.241.
ABASTARDADOREIBRAVO
D oseucasamentocomainfantaD.BeatrizdeCastela,teveD.Afonso
IV(1291-1357)setefilhos,quatrodosquais«nãoterãosobrevividoao
primeiroanodevida» 89 .Dostrêsrestantes,D.PedrofoireidePortugal; D.Maria,aprimogénita,foirainhadeCastela;eD.Leonor,quemorreu
com20anos,foi,porpoucotempoembora,rainhadeAragão.
Fora do seu casamento, afirmam alguns que D. Afonso IV não teve descendência–oquenãoseriaparaestranharnummonarcaquetantose empenhouem«tolherosusosecostumesquesãocontraavontadede Deus e a prol [o bem] comunal», combatendo especialmente os «adultérios com mulheres alheias» e os «homens casados que tiverem barregãs».Aesteschegoualiásacastigarcomapenademorte 90 . Sucede, porém, que o rei Bravo foi, na opinião de autorizados genealogistas 91 , o pai de uma D. Maria, ou Maria Afonso, de Portugal, nascida em 1316 e falecida em 1384. Esta bastarda casou com D. FernandoAfonso,senhordeValênciadeCamposegrão-mestredaOrdem deSantiago,queerabisnetodoreiAfonsoXdaCastela,edeu-lhetrês
filhos:(1)D.João,marechaldeCastela;(2)D.Pedro;e(3)D.Fernando,
mongenaOrdemdeSãoJerónimo. Além desta bastarda, disseram as más-línguas que D. Afonso IV tambémforapaideumacriançanascidadeD.ViolanteSanchez,outra «bastarda real», filha do rei Sancho IV de Castela e Leão e de Maria AlfonsodeUcero.Masnenhumaprovafoiapresentadadessarelaçãonem ninguémnomeoualgumavezesteouqualqueroutroputativobastardo doreiBravo.
coroa.jpg
Teve D. Maria Afonso, a putativa bastarda de D. Afonso IV, uma numerosa
descendência,quechegouaosdiasdehoje.Delafazemparte,entreoutros,quatro
dos presidentes da República da Colômbia, que governaram aquele país sul-
americano entre 1861 e 1998: Júlio Arboleda Pombo, Guillermo León Valencia
Muñoz,CarlosLleraRestrepoeErnestoSamperPizano.
89BernardodeVasconceloseSousa,D.AfonsoIV(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),p.27.
90Cf.Idem,ibidem,p.90.
91Cf.FranciscoFernandezdeBethencourt,HistoriaGenealógicayHeraldicadelaMonarquia
Española,CasaRealyGrandesdeEspaña(Sevilha:FabioladePublicacionesHispalenses,2001),T.II,
p.144.
EL-REIBASTARDO
E m 1383, nas Cortes de Coimbra, o Doutor João das Regras deu a
entenderqueoreiD.PedroI,emtodaasuavida,sóumavezestiverabem casado: com D. Branca de Castela, sua primeira mulher. Todos os casamentosquecelebraraoudiziatercelebradodepoisnãoeramválidos, porque esse primeiro matrimónio, tendo sido consumado, nunca fora anuladoeainfantaespanholanãomorreraantesdasoutrasesposasdo monarca.DaíresultavaquetodososfilhosdoreiCruelerambastardos– enãovaliammaisdoqueD.João,MestredeAvis,ofilhoqueD.Pedro houveraforadosseuscasamentos. O Doutor João das Regras era o melhor advogado da aclamação do MestrecomoreidePortugal.E,porisso,dizemmuitos,assuaspalavras não deviam ser levadas a sério. Não deviam pelo menos ser levadas à letra.Éverdade.Masverdadeétambémqueahistóriadoscasamentosde D. Pedro constitui ainda hoje um intrincado novelo muito difícil de deslindar. Sabe-sequeasuaprimeiramulherfoi–oudeviatersido–ainfantaD. Branca, filha de D. Pedro, regente de Castela, e da princesa Maria de Aragão.Segundouns,ocasamentocomainfantacastelhananãochegoua realizar-se,tendoanoivasidodevolvidaaoreinoemquenasceraporser apoucadinha de corpo e de espírito. Segundo outros, tratou-se de um casamentocelebradomasnãoconsumado.Eháaindaquemdefendaque esse casamento, celebrado em 1325, foi consumado, sendo o único casamentolegítimoqueomonarcacelebrou.
Emqualquercaso,D.Pedrovoltouacasarem1339–destafeitacomD.
ConstançaManuel,filhadopríncipedeVilhenaemulherdoreiAfonsoXI de Castela. Este repudiara-a antes de consumar o matrimónio – para casar,trêsanosdepois,comainfantaD.MariadePortugal,irmãmais velhadeD.PedroI. NasuacompanhiaD.ConstançaManueltrouxeD.InêsdeCastro,uma damagalegaporquemD.Pedrologoseperdeudeamoresequesetornou
suaamante.Omonarcaviriaacasarcomelaapósamortedasuasegunda
mulher,ocorridaem1349.Mas,segundoopróprioD.Pedrodirá,esteseu
casamentofoisecreto,pelomuitomedoquetinhadeseupai,tendo-se realizado em dia de que ele «não se lembrava», no ano de 1350. Esta declaração, feita em Cantanhede, em Junho de 1360, levantou, desde sempre, as maiores dúvidas – e a Igreja nunca aceitou que D. Pedro tivesse alguma vez casado com Inês de Castro. Até porque seria, em qualquercaso,umcasamentoilegítimo:D.InêseraprimadeD.Pedro,já queamboseramnetosdeSanchoIV,oBravo,reideCastela;eera,além disso, sua comadre, por ter sido madrinha do infante D. Luís, filho primogénitodeD.PedroedeD.Constança,quemorreumenino. Há, no entanto, quem não tenha dúvidas de que D. Pedro casou efectivamente com Inês de Castro, sustentando, porém, que este matrimónioserealizouantesdocasamentocomD.ConstançaManuel.É essanomeadamenteaopiniãodeAgustinaBessa-Luís,queassegurouter
omatrimóniosidocelebradoem1335.Oquetornaascoisasaindamais
confusasecomplicadas,fazendopendersobreoreiCruelasuspeitade bigamiaou,mesmo,detrigamia. SenuncafoianuladoocasamentodeD.PedrocomD.Branca(quesó
faleceuem1375),entãooscasamentoscomD.ConstançaecomD.Inês
nãoforamválidos–eosfilhosdelesnascidossãotodosilegítimos.Se,por outrolado,D.Pedro,tendorepudiadoD.Brancacomjustacausa,casou comD.InêsantesdecasarcomD.Constança,entãoD.Fernandofoi,antes deD.JoãoI(tambémfilhodeD.Pedro!),oprimeirobastardoasentar-se notronodePortugal. Finalmente, se o casamento de D. Pedro com D. Inês nunca existiu, entãoostrêsfilhosnascidosdessaunião–D.Beatriz,D.JoãoeD.Dinis– foramilegítimos.E,seapenasexistiuapartirdadataemqueD.Pedro afirmoutê-locelebrado,entãosóporessecasamentoforamlegitimados osfilhosda«míseraemesquinha»,queera,tambémela,umabastarda. Defacto,InêsdeCastrofoiofrutodosamoresdeseupai,D.Pedro FernandesdeCastro,odaGuerra,comD.AldonçaLourençodeValadares, quenãoerasualegítimaesposa.EquemacrioufoiD.TeresaMartins, mulher de Afonso Sanches, o bastardo querido do rei D. Dinis, que D. AfonsoIVexecrava–oquepodetercontribuídoparaqueoreiBravonão aapreciassecomonora Dê-se,porém,debaratoquetudosepassoucomoD.Pedrodissequese tinhapassado.Ouseja:quenãocasou–oucasoumasnãoconsumouo
casamento–comD.BrancadeCastela,em1325;quecasoudepois,em
1339, com D. Constança Manuel; e que, tendo enviuvado, casou,
finalmente,em1350(ouem1354),comD.InêsdeCastro.
Doseuprimeirocasamentonãoteveevidentementefilhos.Dosegundo,
nasceramtrês:(1)D.Luís,oafilhadodeInêsdeCastro,quemorreuao
nascer, em 1340; (2) D. Maria, que casou com Fernando de Aragão, marquês de Tortosa; e (3) D. Fernando, que foi rei de Portugal. E do terceiro, mas antes de ele ter sido celebrado, nasceram outros quatro
filhos:(1)D.Afonso,quemorreupoucodepoisdenascer;(2)D.João;(3)
D.Dinis;e(4)D.Beatriz,todoslegitimadospelosupostomatrimóniode
seuspais. Alémdestesfilhos,queserãolegítimosounão,conformeaposiçãoque seadoptequantoaoscasamentosdeD.PedrocomD.ConstançaManuele comD.InêsdeCastro,oreiCruelfoipaidomaisfamosodosbastardos reais–D.João,odeBoaMemória,queascorteselegeramparasucedera seu meio-irmão D. Fernando, o Formoso. E, segundo a História Genealógica,terátidoaindaumafilhabastarda,denomedesconhecido, quesecriounoMosteirodeSantaClara,emCoimbra,eaquemomonarca deixou«cincomillibrasparacasamento» 92 .Masdelanãohámaisnovas nemmandados.
D.JoãoIfoioúltimodosfilhosdeD.PedroI.Nascidopor1357,foi
entregueaoscuidadosdeLourençoMartins,honradocidadãodeLisboa, quemoravajuntoàSé,sendodepoisconfiadoaoscuidadosdomestrede Cristo,D.NunoFreiredeAndrade.Mas,tendofalecidoFreiMartim(ou
Martinho)Avelar,mestredaOrdemdeAvis,em1362,foiD.Joãoocuparo
seu lugar. O rei seu pai, muito «ledo», armou-o cavaleiro, beijou-o e abençoou-o 93 .Obastardoteriaentãoseteanoseera,segundoOliveira Martins,«rapazmanhoso,atrevido,audazsim,masnuncatemerário». Poressaaltura,D.PedroconcedeuumascasasnamourariadeAvisà mãe de D. João 94 , que se chamava Teresa Lourenço e – dizem Fernão Lopes e Rui de Pina, entre muitos outros – seria natural da Galiza, de ondeveioparaLisboacomodamadainfantaD.Constança 95 .MasFrei Manuel dos Santos, na Monarquia Lusitana, garante que D. Teresa pertenciaaumafamíliaminhota,adosAlmeidas,eeraparentedomestre de Cristo 96 . Por seu turno, António Caetano de Sousa limita-se a assegurarnasuaHistóriaGenealógicaque«ninguémduvidadanobreza destadama» 97 .Outrosautoresdizemoutrascoisasainda.Porisso,nãose podeafirmar,semmargemparadúvidas,quemrealmenteeraamãedeD. JoãoI.Aquestãocontinuaemabertoemuitoprovavelmentenãoserá
nuncaesclarecida. PoucoounadasesabedasprimeirasduasdécadasdavidadeD.João, conhecendo-se, no entanto, os seus amores com Inês Pires, que era – segundoSoaresdaSilva–filhadePêroEsteveseLeonorAnes,«pessoas deconhecida nobreza». Entre1370 e1380dar-lhe-á doisfilhos, como maisadianteseverámelhor. Não parece que D. João tenha frequentado a corte de seu pai, que,
falecidoem1367,quandoobastardotinhadezanos,nãoocontemplou
noseutestamento.Mas,nacortedeseuirmão,oformosoD.Fernando, teve assídua presença, que não era, aliás, muito apreciada pela rainha LeonorTeles,talvezporqueofilhodeTeresaLourençoeradosmelhores amigosdofilhodeInêsdeCastroquetinhaomesmonomequeele. EsteD.João–doravantedesignadoporD.JoãodeCastro–tinhacinco anosmaisdoqueooutro,porquenascera,provavelmenteemBragança, pelo ano de 1352. Era, na descrição de Fernão Lopes, homem «bem composto em parecer e feições, e comprido de boas manhas» 98 . Nas
CortesdeÉvorade1361,D.Fernandofez-lhedoaçãodemuitasterras,
umpoucoportodoopaís:PortodeMós,Seia,Lafões,OliveiradoBairro, etc. E, durante a primeira guerra fernandina com Castela, nomeou-o fronteiro-morentreoTejoeoGuadiana.Nasegunda,D.JoãodeCastro acompanhouD.FernandoquandoesteseencontroucomoreideCastela. Participou nas Cortes de Leiria, em Novembro de 1376 – e foi consideradoporFernãoLopes«omaiordoreino». Mas,tendo-seapaixonadoporMariaTeles,irmãdeLeonore,portanto, cunhadadeD.Fernando,casoucomelaàsocultas.Estecasamentodeixou preocupadaaAleivosa,cognomequeopovoderaaLeonorTeles:D.João deCastrogozavadegrandeprestígionacorteenoreino,«eraamadodos povos e dos fidalgos», como escreveu Fernão Lopes. Podia por isso constituirumaameaçaaqueD.Beatriz,aúnicafilhadeD.FernandoeD. Leonor,sucedesseaseupainotrono.Paramelhorgarantirashipóteses dainfanta,LeonorTelesprometeuentãoaD.Joãocasá-lacomele.Era, porém,necessárioremoverdecenaD.MariaTeles–oqueopróprioD. João se encarregou de fazer. Acusando-a de «me poerdes as cornas dormindocomoutrem»,assassinou-abarbaramente,enquantoofilhode ambos dormia «na câmara contígua à da mãe, quando ela foi assassinada» 99 .Foiisto,segundoparece,emNovembrode1379 100 . Andoualgumtempofugido.Mas,regressadoàcorte,percebeuqueo prometidocasamentocomD.Beatriznuncaserealizaria.E,porisso,D.
João de Castro decidiu acolher-se à protecção do rei de Castela – ao serviço do qual travará a terceira guerra fernandina (1381-1382), cercando Trancoso, tentando atacar Lisboa por mar, sitiando Elvas e Almeida. Em Castela também casará, entre 1379 e 1380, com D. Constança,senhoradeAlbadeTormes,filhailegítimadoreiHenriqueII. EemCastelaencontraráseusirmãos,D.DiniseD.Beatriz.Estatinha-se
casado,emMarçode1373,comD.Sancho,condedeAlbuquerqueeHaro,
filho bastardo do rei Afonso XI de Castela, que o teve de Leonor de Guzman. D. Dinis, por seu turno, residia em Castela desde que se recusara a beijar a mão de D. Leonor Teles – mostrando assim «a displicência e dissaborquelhecausava» 101 ocasamentodoreiFormoso.Esteestivera paraomatar,oqueoobrigouaandarescondidoe,depois,arefugiar-se noreinovizinho,onde,muitosanosmaistarde,oreiHenriqueIIlhedará por mulher uma outra das suas filhas bastardas – D. Joana, havida de Joana,senhoradeCifuentes. AdevoçãodeD.JoãodeCastroaoreideCastelaeosserviçosquelhe prestou não evitaram que, após a morte de D. Fernando, em 1383, o monarca,casadocomaherdeiradoreiFormoso,omandasseprenderno castelodeAlmonacid.Nadaquedevasurpreenderouindignar:ofilhode InêsdeCastroera,paramuitosportugueses,olegítimoherdeirodacoroa queoreideCastelasustentavapertencer,pelasleisepelostratados,à rainhaD.Beatriz,suamulher. EntreosportuguesesquedesejavamvercoroadooinfanteD.Joãode Castro,contava-seentãooMestredeAvis,cujasrelaçõescomarainha Aleivosa e seu amante, o conde de Ourém, João Fernandes Andeiro, estavamlongedeserpacíficas.AindaemvidadoreiD.Fernando,seu meio-irmão,ofilhodeTeresaLourençoforamaltratado,sendoacusado decorrespondênciacomoreideCastela.PresonocastelodeÉvora,o MestredeAvisencomendou-seaCristoefezpromessadeiraoSanto Sepulcro, em Jerusalém, se saísse vivo da sua prisão. Acabou por ser libertadoporD.LeonorTeles,acujospésseajoelhou,pedindoparaser esclarecido sobre os motivos da sua detenção. Não obtendo nenhum esclarecimento da rainha, foi ao Vimeiro, onde estava D. Fernando, doente,parapediraomeio-irmãoquelheexplicasseporqueforapreso. Também não ficou esclarecido. E começou a ponderar refugiar-se em Castela,comosucederacomseusirmãos,filhosdeInêsdeCastro.Acabou porpermanecernoreino.
EmMaiode1383,acompanhouainfantaD.Beatriz,suasobrinha,a
Badajoz,ondeaprincesauniuosseusdestinosaosdoreideCastela.Em Outubro,perdeuseuirmãomaisvelhoeviuD.Leonorproclamar-se,pela graçadeDeus,Rainha,GovernadoraeRegedoradosReinosdePortugale do Algarve – enquanto o rei de Castela reclamava a aclamação de sua mulhercomorainhadePortugal.
OpovodeLisboarevoltou-se.E,a6deDezembro,oMestredeAvisfoi
aopaçomatarocondeAndeiro,assumindoachefiadarevoltapopular. ProclamadoDefensoreRegedordoReino,tratoucomD.NunoÁlvares Pereiradefazerfrenteaoinvasor,queconseguiuderrotar.Apesteque grassou nos arraiais castelhanos e chegou a tocar D. Beatriz deu uma preciosaajudaaolevantardocercocastelhano.E,quandooreideCastela partiu, o Mestre de Avis foi venerado como o Messias de Lisboa. Não tardariaaseraclamadoreidePortugal. Nas Cortes de Coimbra de 1385 havia três «partidos»: o Partido Legitimista, que apoiava os reis de Castela; o Partido Legitimista- Nacionalista,quedefendiaoinfanteD.João;eoPartidoNacionalista,que defendia o Mestre de Avis 102 . Foi este quem ganhou a contenda, beneficiandonomeadamentedaprisãodofilhodeInêsdeCastro.Com efeito, se em Portugal se desejava que reinasse um português, tudo recomendava – por muitos e bons direitos que assistissem a D. João, futuro duque de Valência de Campos – esquecer a sua candidatura e defenderadooutroD.João,MestredeAvis,queestavalivreemPortugal epodiaassimfazerfrenteaomaiorperigo,representadopeloterceiro Joãodestadisputa,oreideCastela.Mas,depoisdeasCortesdeCoimbra aclamaremarealezadoMestredeAviseestetervencidoabatalhade Aljubarrota, o filho de Inês de Castro tornou-se feroz inimigo do novo monarcaportuguês.LibertadodasuaprisãopeloreideCastela,D.João recebeudeleoencargodegovernarPortugalemseunome.Efoicomo títuloderegentequeatravessouafronteiraparacombateroreideBoa Memória,seumeio-irmão.
OscombateschegaramaofimemNovembrode1389,comastréguas
deMonção.E,deregressoàcortecastelhana,D.Joãofoifeitoduquede Valência do Campo. Mas o rei de Castela morreu no ano seguinte, sucedendo-lheHenriqueIII–que,filhodoprimeirocasamentodeseupai, comD.LeonordeAragão,nãotinhaqualquerdireitoàcoroadePortugal nemestavadispostoaalimentarguerrascomopaísvizinho. D.JoãodeCastrocontinuouareivindicaracoroadeseumeio-irmão,
massemcontarcomapoiospolíticosemilitaresparafazervencerasua
causa.Epor1397morreu,deixandováriosfilhos:(1)D.FernandodeEça,
nascidodoseuprimeirocasamento,um«devassoacabado»,quetinhao «fraco» de casar, «chegando ao ponto de ter às vezes três e quatro mulheres vivas», e um «nunca acabar de filhos», que, segundo os nobiliários,podemtersidoquarentaedois 103 ;(2)D.Maria;(3)D.Beatriz
e(4)D.JoanadePortugal,filhasdosegundocasamento;e(5)D.Afonso,
senhordeCascais;(6)D.PedrodaGuerra(queseacolheuàprotecçãodo
rei de Boa Memória ainda em vida de seu pai, fazendo-lhe D. João I «grandes mercês e honras»); (7) D. Fernando de Portugal, senhor de
Bragança;e(8)D.BeatrizAfonso,bastardos.
Masquemlheherdouacausafoiseuirmãomaisnovo,oinfanteD. Dinis.AclamadoreipelosportuguesesexiladosemCastela,comaplauso darainhaD.Beatriz,filhadeD.Fernando,tentoufazervaleroquedizia ser os seus direitos, entrando em Portugal pela fronteira da Beira. Derrotado,nãovoltouatentarasuasorte.Masnãorenunciouàssuas pretensões. Falecido nos primeiros anos do século XV, sua filha, D. Beatriz,construiu-lheummausoléunoMosteirodeGuadalupe,ondeD. DinisédeclaradoreidePortugal…
coroa.jpg
DeD.JoãoIdescendem,porvialegítimaouilegítima,todososreisquedepois
delereinaramemPortugal–mastambémmuitosdospríncipesquereinaram(ou
ainda reinam) em Espanha, França, Alemanha e Áustria, Bélgica, Luxemburgo,
Hungria,Boémia,Baviera,Polónia,Saxónia,Liechtenstein,Württemberg,Bulgária,
Roménia, Jugoslávia, Itália, Etrúria, Parma, Sardenha, Toscana, Brasil ou México.
ParasófalarnosmaisimportantesdescendentesdobastardodeD.PedroI.
92AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.I,p.231.
93Cf.MariaHelenadaCruzCoelho,D.JoãoI(Lisboa:CírculodeLeitores,2010),pp.16-17.
94CristinaPimenta,D.PedroI(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),p.179.
95Cf.JoséSoaresdaSilva,MemóriasparaahistóriadePortugalquecomprehendemogovernodelrey
D.JoãooI(Lisboa:OficinadeJoséAntóniodaSilva,1730),T.I,p.45.
96Cf.FreiManueldosSantos,MonarquiaLusitana(Lisboa:ImprensaNacional/CasadaMoeda,
2009),T.VIII.
97AntónioCeatanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortugueza(Lisboa:Academia
PortuguesadeHistória&Quidnovi,2007),vol.II,p.3.
98FernãoLopes,CrónicadeEl-ReiD.Fernando(Lisboa:Escriptório,1895),vol.II,p.133.[cf.
http://purl.pt/419/2/]
99AnselmoBraamcampFreire,BrasõesdaSaladeSintra(Lisboa:ImprensaNacional/Casada
Moeda,1973),vol.I,pp.96-97.
100Idem,ibidem,p.94.
101AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.XIII,p.87.
102MarcelloCaetano,ACriseNacionalde1383-1385(Lisboa:Verbo,1985),pp.17-18.
103AnselmoBraamcampFreire,BrasõesdaSaladeSintra(Lisboa:ImprensaNacional/Casada
Moeda,1973),vol.I,p.97.
ABASTARDADOFORMOSO
O último rei da primeira dinastia, «formoso em parecer e muito
vistoso» 104 , não foi um modelo de virtudes. «Mancebo valente, ledo e namorado,amadordemulheresechegadoraelas»,comoFernãoLopeso descrevenasuacrónica,D.Fernandoesteveparacasarprimeirocoma infantaD.LeonordeAragão,dequemalgunsdisseramnunca«tãofeia coisa»teremvisto.Masessecasamento,contratadoparaobrigaropaida noivaaparticiparnaprimeiraguerrafernandinacontraoscastelhanos, acaboupornãoserealizar.Eoutrofoicontratado,comoutraLeonor–a filhadeHenriqueII,oBastardodeTrastâmara. Esse matrimónio ficou assente em 1371, quando Portugal e Castela firmaramasPazesdeAlcoutim.Mastambémelenãoveioaefeito,porque D. Fernando conheceu, entretanto, uma terceira Leonor, a famosa e formosa Leonor Teles, por quem ficou «ferido de amor». O monarca desejou-aparaamante;maseladeclarouquesócasadasedeitariacom ele.ED.Fernandofez-lheavontade,semdarnenhumaimportânciaao factodeLeonorTelesseralegítimaesposadeJoãoLourençodaCunha, senhordePombeiro,aquemjáderaumfilho,ÁlvarodaCunha,eestava prestesadaroutro.Invocandoimpedimentoscanónicosparaoprimeiro casamentodasuaamada,D.Fernandoapropriou-sedela. Munido das dispensas papais que oportunamente requerera para contrairmatrimónio,JoãoLourençoaindatentoucontrariarorei.«Mas vendo que não lhe cumpria porfiar muito em tal feito deu à demanda lugarquesevencessecedoefoi-separaCastela,porsegurançadesua vida.» Diz-se que, no reino vizinho, andou sempre com um chapéu decoradocomumcornodeoiro,paraquetodospudessemconhecera dolorosarazãodoseuexílioforçado.EassimfoiqueD.Fernandoseuniu aD.LeonorTelesdeMeneses,primeiroàsocultas(ouafurto,comoentão sedizia)e,aseguir,«depraça»,provocandooseucasamento«grãonojoa Deus,aosfidalgoseatodoopovo» 105 . LeonorTelesnãofoi,contudo,oprimeiroamordoreiFormoso,que,
sendo«manceboeledoehomemdeprol»,seapaixonouporD.Beatriz, suairmã–ou,maisexactamente,suameia-irmã,porserfilhadeD.Pedro edeD.InêsdeCastro.Teveporela,nodizerdocronista,uma«afeição muicontinuada»,deque«veioanascerneletaldesejodeahaverpor mulher que determinou em sua vontade casar com ela, cousa que até aqueletemponãoforavista».Aoqueparece,chegouadaralgunspassos nessesentido.E,emqualquercaso,«eramosjogosefalasentreelestão amiúde,misturadoscombeijoseabraçoseoutrosdesenfadamentosde semelhante preço, que fazia a alguém ter a desonesta suspeita da sua virgindadeserporeleminguada» 106 . Estesincestuososamorespoderãotertidoumfruto–D.Isabel,uma menina nascida em 1364, quando D. Fernando ainda era solteiro. Há quemadigafilhadeD.Beatriz,oquenãoparecedetodoimpossível 107 . Masamaioriadoshistoriadoresegenealogistasdeclaram-nahavidade mãedesconhecida. AúnicabastardadoreiFormoso(desdequeseadmitatersidolegítimo oseucasamentocomD.LeonorTeles)estiveraacertadaparacasarcom D.João,filhodocondedeBarcelosesobrinhodarainha,que«morreude tenraidade».E,comodotedoseucasamento,recebeuacidadedeViseue asvilasdeCelorico,LinhareseAlgodres 108 .Mas,depoisdeD.Fernando assinarcomoBastardodeTrastâmaraoTratadodeSantarém,que,em
Marçode1373,pôstermoàsegundaguerrafernandina,assentou-seque
D.IsabelcasariacomocondedeGijóneNoronha,D.AfonsoHenriques,
quetinha18anoseeraoprimeirodos15filhosbastardosdeHenriqueII.
Ojovemconde,porém,«nãoanuiudebomgradoaocasamento,nem nos desposórios nem quando posteriormente se tratou de o efectuar». Fugiu para Avinhão, de onde só regressou «apertado pelas ameaças paternaseamuitocusto,anteoaltar,disseosimsacramental» 109 , em
1378.Masnãoconsumouocasamento.
Mortooreiseupai,D.Afonsopediue,em1379,obteveodivórcio–
«masdelenãoseaproveitou,poisquenãosóconsumouomatrimónio comotevedesuamulherváriosfilhos» 110 .ED.Isabel,esposaexemplar ou pura e simplesmente agradecida, nunca deixou de estar ao lado do marido,aquemacompanhounasguerrasqueelefezaoreiD.Joãode Castela,seumeio-irmão.Sofreuporissoaprisão,aconfiscaçãodosseus benseoexílio.
ApósamortedocondedeGijón,emMarans(França),noanode1395,
D.IsabelregressouaPortugal,trazendoconsigoseisfilhos:(1)D.Pedro
deNoronha,arcebispodeLisboaepaidenadamenosdoquesetefilhos,
todosevidentementebastardos;(2)D.FernandodeNoronha,condede
VilaRealpeloseucasamento;(3)D.Sancho,primeirocondedeOdemira;
(4)D.HenriquedeNoronha,capitãodagentedeguerranatomadade
Ceuta;(5)D.JoãodeNoronha,semdescendentes;e(6)D.Constançade
Noronha, primeira duquesa de Bragança pelo seu casamento com D. Afonso,filhodeD.JoãoI,dequemnãotevegeração.
coroa.jpg
De D. Isabel descendem, entre muitos outros, o escritor e jornalista Tiago
Rebelo,opintorLuísNoronhadaCostaeafadistaTeresaTarouca,queigualmente
descendedeAfonsoDiniseUrracaAfonso,bastardosdeD.AfonsoIII.Acondessade
NoroñaeGijónéaindaantepassadadeGuilhermed’OliveiraMartins,quetambém
descendedeD.TeresaSancheseD.AfonsoDinis(bastardosdeD.AfonsoIII),edo
advogado Francisco Teixeira da Mota, que, sendo descendente de D. Teresa
Sanches,D.UrracaAfonsoeMartimAfonsoChichorro,descendetambémporvia
bastardadoreiAfonsoIXdeCastela.
104FernãoLopes,CrónicadeEl-ReiD.Fernando(Lisboa:Escriptório,1895),vol.I,p.5[cf.
http://purl.pt/419/2/].
105Idem,ibidem,p.191.
106Idem,ibidem,p.182.
107LuisdeMelloVazdeSãoPayo,«EscandalosoIncestonaCortePortuguesadoSéculoXIV»,in
EstudosTransmontanoseDurienses,nº13/2007,pp.6ss.
108AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.I,p.260.
109AnselmoBraamcampFreire,BrasõesdaSaladeSintra(Lisboa:ImprensaNacional/Casada
Moeda,1973),vol.I,p.47.
110Idem,ibidem.
II
OsbastardosdeAvis
OSBASTARDOSDOREIBASTARDO
O únicobastardoquefoireidePortugalteve,tambémele,filhosfora
docasamento:umrapazeumarapariga,nascidosantesdeD.JoãoIcasar comD.FilipadeLencastre.Orapazchamou-seAfonsoeviualuzentre 1370 e 1377; a rapariga recebeu o nome de Beatriz e veio ao mundo entre 1378 e 1380. Discute-se ainda hoje o nome de sua mãe. Mas a maioriadoshistoriadoresegenealogistasentendequeelesnasceramda relaçãodoreideBoaMemória,quandoeraaindamestredaOrdemde Avis (e estava por isso obrigado à castidade), com Inês Pires, que era
muitoprovavelmentefilhadePêroEsteves,oBarbadão 111 .Conheceram- se,aoquesediz,numacerimóniareligiosadaOrdem.Esósesepararam quandoD.Joãocasou.Inêssaiuentãodasuacasa,aopédaCordoaria Velha,emLisboa,erecolheu-senoConventodeSantos,dequesetornou comendadeira. D. Beatriz tinha pouco mais de 13 anos quando se tratou do seu casamentoemInglaterra.AideiadoconsórciopartiudarainhaD.Filipa de Lencastre, sua madrasta, que o recomendou vivamente ao rei HenriqueIVdeInglaterra, seu irmão. Acordou-seentãoqueD. Beatriz haviadecasarcomTomásFitzalan,condedeArundell,que«foiumdos primeirosentreosnobresqueajudaramHenriquedeBolingbroke,ofilho de João de Gaunt, duque de Lencastre, a conquistar a coroa de Inglaterra» 112 .
Ocontratonupcialfoiassinadoa21deAbrilde1404.E,emOutubrode
1405,D.BeatrizpartiuparaInglaterra.«Foipormarcommuitahonra»,
dizoLivrodaNoadeSantaCruzdeCoimbra,levandoumavultadodote
de50milcoroas.Acompanhou-aseuirmão,D.Afonso.
«AchegadaaInglaterranoprincípiodeNovembrofoisolene.Esolene
tambémfoiocasamentoa16domesmomês,celebradonapresençade
HenriqueIVedetodaacorte,nacapelagóticadeLambeth,queficasobre a margem direita do Tamisa», escreve o conde de Sabugosa, que acrescenta:«EraocondedeArundellaessetempoumrapazalto,forte,
espadaúdo,erealizandooperfeitotipodaraçaaquepertencia» 113 . Celebrado o matrimónio, partiu D. Beatriz para os domínios de seu marido, acompanhando-a sua dama favorita, Inês de Oliveira. Viveu
temposfelizes.Mas,aos23anos,ficouviúva–depoisdeTomásfalecer,
vítima de uma epidemia, a 13 de Outubro de 1415, o dia em que ele
completava34anos.
Semfilhos,D.BeatriztevedeabandonarocastelodeArundell.Possuía, noPaísdeGales,asterrasqueconstituíamassuasarras.Osherdeirosdo marido contestaram-lhe a posse, invocando a sua qualidade de estrangeira.Maselafez-lhesfrenteevenceu-os. Em 1432, John Holland, conde de Huntingdon, filho do duque de Exeter, pediu a mão da condessa viúva de Arundell. E o casamento celebrou-se. Em 1439, acompanhou o marido, que foi combater para
França.E,achando-seemBordéus,adoeceue,a25deOutubro,morreu.A
instânciasdafamíliadoprimeiromarido,foioseucorpotrasladadopara
Inglaterraeenterradono«sumptuosomausoléudacapeladeS.Nicolau»,
aoladodocondecomquemprimeirocasara.
***
OoutrobastardodeD.JoãoI(quefoi,aliás,oprimeirodetodososseus
filhos,legítimosouilegítimos)nasceuentre1370e1377,numacasaà
PortadaAira,juntoaoTejo,queerapertençadeRuiPenteado.Afonsofoi criado por Gomes Martins de Lemos, seu aio, que morava em Leiria e
nestavilaviveuaté1401,anoemqueD.JoãoIolegitimouparaelecasar,
a8deNovembro,comD.Brites(ouBeatriz)PereiradeAlvim,únicafilha
deD.NunoÁlvaresPereira,oSantoCondestável,queera,tambémele,um bastardo. Com a mulher, que era condessa de Barcelos e Arraiolos, D. Afonso recebeumuitaseboasterras:aviladeChaveseoseutermo,asterrasde Penafiel,BastoeMontalegreeváriasquintas,honras,coutosejulgados, alémdotítulodecondeque,apedidodosogro,seupailheconcedeu. Tornou-seassimomaisopulentosenhordoreino. Doseucasamentonasceramtrêsfilhos.OprimeirofoiD.Afonso,conde deOuréme,depois,marquêsdeValença(«oprimeiromarquezqueouve nestereino» 114 ),quetevedeumaBritesdeSousa(«queeleàhorada mortemandouchamarparareceberpormulherequandochegouerajá morto» 115 )umfilho,D.AfonsodePortugal,queterásidobispodeSilvese
foicomcertezabispodeÉvora,sendoconsideradoumadaspersonagens maisinteressantesdoRenascimentoportuguês.D.Afonso,quemorreu
em1460,aindaemvidadeseupai,tevetrêsfilhosbastardos–oprimeiro
dosquais,D.Francisco,serácondedeVimioso. Nasceu depois D. Fernando, «quasi parvo, a que chamavão epicondríacoesefaziapoteeoutrascousasgalantes» 116 .Foiosegundo
duque de Bragança e casou com D. Joana de Castro, que lhe deu oito filhos.Porfim,nasceuD.Isabel,quecasoucomoinfanteD.João,seutio, filholegítimodoreideBoaMemória.
Em1405,depoisdeteracompanhadosuairmãaInglaterra,D.Afonso
visitou várias cortes europeias. Por 1410, esteve em Jerusalém, para venerar o Santo Sepulcro, tendo sido honrosamente recebido pela senhoriadeVenezaquandoporlápassou.
DepoisdetersidodecididaaconquistadeCeuta,em1415(anoemque
enviuvou), D. Afonso levantou gente nas províncias da Estremadura e Entre-Douro-e-Minho–ecomelafoiembarcaraoPorto.Assumiuocargo
decapitãodacapitaniareale,naconquistadacidade,dizAzurara,bateu-
sevalorosamente. DeregressoaPortugal,recebeudeseupainovasmercês,queD.Duarte
acrescentouquandosubiuaotrono,em1433.Duranteoreinadodeseu
meio-irmãogozou,aliás,demuitovalimento.Mas,aquandodafrustrada
conquistadeTânger,em1437,oseuconselho,queeracontrárioaela,
nãofoiseguido. Após a morte do rei Eloquente, colocou-se ao lado de D. Leonor, a rainha viúva (e triste), a quem D. Duarte confiara a regência, na menoridade de D. Afonso V. E encabeçou o partido que se opunha à intervençãodeD.Pedro(seumeio-irmão)nogovernodoreinoedeque faziamparteoarcebispodeLisboa(netobastardodoreiD.Fernando)e muitosfidalgosdaBeiraedeEntre-Douro-e-Minho.
Quando,nasequênciadasCortesdeLisboade1439,oinfantetomouo
poder, assumindo a regência, o bastardo quis dar-lhe luta. E esteve a pontodeofazeremMesãoFrio.MasD.Afonso,condedeOurém,seufilho primogénito,evitouoconfronto,lograndoreconciliaropaicomotio.Com estareconciliação,quefoi,aliás,decurtaduração,ganhouD.Afonso,em
finaisde1422,otítulodeduquedeBragança.Masnãoerasuficientepara
aplacarasuaambição.
EscreveOliveiraMartins:«ObastardodeD.JoãoI,insaciável,ansioso
porvingarcomopoderecomariquezaainferioridadedasuaorigem,
perante irmãos mais nobres a todos os respeitos, conseguiu penetrar também:subir,voandocomoumfalcão,ouinsinuar-se,rojando-secomo umaserpente:treparatésobreocadáverdodesgraçadodeAlfarrobeira e, ganhando afinal, com o ducado de Bragança, um lugar ao lado dos duques de Viseu e de Coimbra, fazer desse posto o degrau que levou tambémaotronoosseusdescendentes.» 117 D.AfonsoambicionouparaofilhootítulodeCondestáveldoReino,que foradeseusogro.MasD.Pedrojáoreservaraparaoseuprópriofilho, tambémchamadoPedro,queviriaasermestredeAvise,depois,reide Aragão.Porisso,osdoisirmãosvoltaramazangar-se.Eaoposiçãodo
duquedeBragançaaoregentenãomaistevedescanso.Em1446,quando
oreiatingiuamaioridade,D.AfonsotratoudeoincompatibilizarcomD. Pedro. Este acabou por ser afastado da corte pelo sobrinho, que era
tambémseugenro.Em1447,comefeito,D.AfonsoVcasaracomD.Isabel,
filhadoduquedeCoimbraedacondessadeUrgel,suamulher. Caídoemdesgraçanoanoseguinteaocasamentodafilha,D.Pedrofoi acusadopelopartidododuquedeBragançadeterenvenenadoarainha
D.Leonor,viúvadeD.Duarte(quefaleceuemCastela,noanode1445),e
determesmotentadomatarD.AfonsoV,parasentarnotronooseufilho. Opríncipedefendeu-secomopôde.Massemsucesso.
EmOutubrode1448,D.AfonsoV,oreiAfricano,chamouD.Afonsoà
corte. Mas aconselhou-o a vir bem acompanhado de homens e armas, umavezquetinhadeatravessarasterrasdoMondego,quepertenciama D.Pedro.OduquedeBragançamarchousobreLisboanaSemanaSanta
de1449,àfrentedeumexércitodetrêsmilhomens,masoduquede
Coimbranãolheconsentiuapassagempelosseusdomínios,peloqueD. Afonso foi forçado a mudar o itinerário. E, quando chegou à corte, apresentou queixa contra o antigo regente. Reunido o conselho do rei para apreciar o protesto, foi D. Pedro declarado rebelde e desleal ao monarca. E este decidiu ir submeter pelas armas o sogro e os seus partidários. Enfrentou-os e derrotou-os a 20 de Maio de 1449, em Alfarrobeira,pertodeAlverca,numabatalhaemqueD.Pedroperdeua vida. D. Afonso viverá mais uma dúzia de anos, na companhia de sua segundamulher,D.ConstançadeNoronha,filhadaquelecondedeGijóne Noronha que casou com a bastarda do rei D. Fernando. Morrerá, «carregado de anos», em Chaves, no ano de 1461, «riquíssimo, poderosíssimo, na plena satisfação das suas grandes ambições», como
escreveuOliveiraMartins.
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Teve o 1.º duque de Bragança uma copiosa e ilustre descendência –
imperadores,reis,príncipes,fidalgoseplebeus.Delafazemparteoactualduquede
Bragança,éclaro,mastambémoreideEspanhaouoreidosBelgas,ogrão-duque
doLuxemburgoeospríncipessoberanosdoMónacooudoLiechtenstein,oconde
deParis,ochefedaCasadeÁustriaeopríncipeherdeirodaJugoslávia.Masaela
pertencem igualmente o cónego João Seabra e frei Hermano da Câmara (que,
tambémporviabastarda,édescendentedoreiLuísXVdeFrança),osjornalistas
MariaJoãoAvillez,MiguelSousaTavareseSofiaPintoCoelho,osfadistasMariaAna
BoboneouVicenteeJosédaCâmara,alémdeváriosnomessonantesdapolítica
portuguesa como António Capucho, José Pacheco Pereira, José Miguel Júdice,
Leonor Beleza ou Teresa Patrício Gouveia. E ainda o cineasta António-Pedro
Vasconcelos,oscavaleirostauromáquicosAntónioeJoãoRibeiroTeles,ocozinheiro
JoséAvilezeosactoresFranciscoNicholsoneRuiMendes.
111AalcunhadeBarbadãoveio-lhedofactodeterdeixadocrescerasbarbascomomanifestaçãode
nojooulutopelasituaçãoemqueafilhasecolocara,aotornar-seamantedeD.João,queoBarbadão
quisaliásmatar.Mas,sabendoqueoMestredeAviseraoprimeiroacompreenderodesgostodo
«sogro»,oBarbadãodecidiunãoajustarcontascomele.
112CondedeSabugosa,DonasdeTemposIdos(Lisboa:s/d),p.66.
113Idem,ibidem,pp.74-75.
114FelgueirasGayo,NobiliáriodasFamíliasdePortugal(Braga:CarvalhosdeBasto,1989),vol.IV,
p.606.
115Idem,ibidem.
116Idem,ibidem,p.608.
117Cf.OliveiraMartins,OsFilhosdeD.JoãoI(Lisboa:GuimarãesEditores,1958),vol.I,p.9.Oduque
deCoimbraeraoinfanteD.Pedro,eoduquedeViseuoinfanteD.Henrique.
OBASTARDOQUENUNCAEXISTIU?
F ilhoherdeirodeD.JoãoIemaridodeD.LeonordeAragão,oreiD.
Duartetevecincofilhoslegítimos:(1)D.AfonsoV;(2)D.Fernando,duque
deViseu,quefoipaidoreiD.ManuelI;(3)D.Leonor,quecasoucom
FredericoIII,imperadordaAlemanha;(4)D.Catarina;e(5)D.Joana,que
foirainhadeCastelapeloseucasamentocomHenriqueIV,oImpotente. Sobre isso, D. Duarte foi autor de dois livros, que lhe valeram o cognomedeEloquente:oLealConselheiroeAArtedeBemCavalgarToda aSela.NocapítuloXXXdaprimeiradestasobras,quetrata«Dopecadoda luxúria»,escreveomonarca:
«Paraguardadestepecado,nossoprimeirofundamentodeveseramareprezar
virgindadeecastidadequantosemaispuderfazer,havendo-aporgrandevirtude,
quemuitodesejamossemprehaverepossuir.Eporquetodoohomemcomgrande
diligênciaguardaoquemuitoamaepreza,quemestavirtudemuitoamareprezar
porabemguardarseafastarádasocasiõeseazosporqueapossaperder.»
MasumdiateráhavidonavidadoreiEloquente–umdia,pelomenos –,emqueelepodenãoterresistidoàtentaçãodacarne,cometendoo pecado da luxúria, «que tantos sabedores e grandes pessoas tem vencido».EistoporqueD.Duartepoderátersidopaideumbastardo. A história tem barbas, remontando «já à primeira metade de Quinhentos» 118 ,mascontinuaasuscitarmuitasdúvidasereservasentre oshistoriadorespátrios.AnselmoBraamcampFreire,océlebreautordos BrasõesdaSaladeSintra,porexemplo,recusa-seaaceitarahipótesede D.Duartetertidoumfilhoforadocasamento,comrazõesqueLuísMiguel Duarte,omaisrecentebiógrafodoreiEloquente,considera«impossível não acompanhar» 119 . O monarca seria o modelo das virtudes que apregoava no seu livro. Contudo, os argumentos que apresenta contra AntónioCaetanodeSousanãoconvencerammuitosgenealogistas,como FelgueirasGayo 120 ,porexemplo,que,napeugadadoautorda História
Genealógica,continuamaafirmaraexistênciadobastardodeD.Duarte. VeríssimoSerrão,nasuaHistóriadePortugal,tambémofaz 121 . SeriaeleD.JoãoManoel–ouD.JoãoManoeldePortugaleVilhena, comoalgunshistoriadoresegenealogistaspreferemchamar-lhe–eteria nascido,emdataqueseignora,dosamoresdoreicomD.JoanaManoelde Vilhena.Estaera«umasenhoradequalidade»que,dizemuns,veiopara PortugalcomarainhaD.LeonordeAragãoe,afirmamoutros,eradama da rainha D. Filipa de Lencastre. Se D. Joana Manoel era dama de D. Leonor, D. João Manoel é filho adulterino; se, porém, era dama de D. Filipa,entãopodeobastardoternascidoantesdocasamentodeseupai,
celebradoem1429.
D.JoãoManoelfoidadoàluzemLisboa,sendorecolhidonoMosteiro doCarmo,ondesedizqueD.NunoÁlvaresPereira,oSantoCondestável,o criou«comestimação».Educadoem«virtuososprincípioseilustradonas belasletras»,tomouohábitocarmelitae,prosseguindoosestudos,«saiu bomletrado».
ProvincialdaOrdemdoCarmo,em1441,foimandadoaRomapara
tratardadispensaqueeranecessáriaaocasamentodoreiAfricanocom D.Isabel,suaprima,filhadoinfanteD.Pedro.TrouxedaCidadeEternaa
dispensarequerida–eotítulodeBispoTitulardeTiberíades.Em1443,
foi feito bispo de Ceuta e primaz de África. E, em 1450, D. Afonso V nomeou-o seu capelão-mor. Nove anos depois, foi nomeado bispo da Guarda.Masnãotomoupossedadiocese. Oreinuncareconheceuesteseufilho,que,porisso,nuncafoitratado como tal. Explica o autor da História Genealógica: «Somente ao pai compete fazer semelhante declaração» e, não a tendo feito D. Duarte, mais ninguém a podia fazer. Por isso, «mal podia El-Rei D. Afonso V conferir-lheaquelahonraqueseupainãolhedera» 122 . MasD.JoãoManoelaceitouoseuestatutocom«talentoediscrição».E reconheceuperanteoreiAfricano,seumeio-irmão,que«aquemseupai encobriuorealsangue,quelhederaanatureza,beméqueVossaAlteza lho negue». Ainda assim, «em muitas ocasiões depois [D. Afonso V] confessaroparentesco» 123 . DeumaJustaRodriguesPereira,«mulhersolteira»enobre,quedepois fundou o Mosteiro de Jesus, em Setúbal, «em que acabou com vida exemplar» 124 ecomquem,sendomoço,obispo«tevetrato»,houvedois filhos: D. João Manoel, alcaide-mor de Santarém, mordomo-mor de D. ManuelIeembaixadoremCastela,eD.NunoManoel,guarda-mordorei
D.Manuel,almotacé-moresenhordeSalvaterradeMagos.Ambosforam legitimados por D. Afonso V, em 1475, e tiveram copiosa e ilustre descendência.
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DeD.JoãoManoeldeVilhenadescendemempresárioscomoDiogoVazGuedes
ou Vasco de Mello, banqueiros como Fernando Ulrich, políticos como Nuno
BrederodeSantos,escritorescomoJoséBlancdePortugaloufadistascomoNunoda
CâmaraPereira.
118SaulAntónioGomes,D.AfonsoV(Lisboa:CírculodeLeitores,2006),p.18.
119LuísMiguelDuarte,D.Duarte(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),pp.259-261.
120FelgueirasGayo,NobiliáriodasFamíliasdePortugal(Braga:CarvalhosdeBasto,1989),vol.VI,
p.544.
121JoaquimVeríssimoSerrão,HistóriadePortugal(Lisboa:Verbo,1996),vol.II,p.356.
122AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortugueza(Lisboa:Academia
PortuguesadeHistória&Quidnovi,2007),vol.XII,p.225.
123Idem,ibidem.
124FelgueirasGayo,NobiliáriodasFamíliasdePortugal(Braga:CarvalhosdeBasto,1989),vol.VI,
p.544.
OBASTARDOESCONDIDO
D omAfonsoV,oAfricano,tinha15anosquandocasou,em1447,com
a infanta D. Isabel, sua prima, filha do infante D. Pedro, o das Sete
Partidas.Dessecasamentonasceramtrêsfilhos:(1)D.João,quemorreu
menino; (2) D. Joana, a Princesa Santa, que morreu solteira; e (3) um
outroD.João,oPríncipePerfeito,quesucedeuaseupai.Depois,em1455,
enviuvou.Tinha23anosdeidadeenãovoltouacasar.Mas,envolvidona
guerra que a grande nobreza de Castela fez ao seu rei, Henrique IV, o Impotente, ponderou por duas vezes novo casamento: a primeira, em
1465,comairmãdomonarcacastelhano,D.Isabel,easegunda,dezanos
depois, com a filha dele, D. Joana, que era, aliás, sua sobrinha. Mas nenhumdessescasamentosveiorealmenteaefeito. OprimeirocasamentofoipropostoaD.AfonsoVporHenriqueIV,que estavacasadoemsegundasnúpciascomainfantaD.Joana,irmãdoreide Portugal.Comestaaliançamatrimonial,oImpotentepretendiaobtero apoiodocunhadoparaderrotarosseusinimigos,quetinhamporessa altura aclamado um novo rei – o infante D. Afonso, meio-irmão de HenriqueIV,quepassouàhistóriacomoo«reideÁvila».Omatrimónio foinegociadoporD.AfonsoVcomarainhadeCastela,suairmã,edessas negociações resultaram umas capitulações que foram assinadas na Guarda,a12deSetembrode1465 125 .MasD.Isabel,queeraporesse tempoumameninadecatorzeanos,recusouunir-seaummonarcaque podiaserseuavôeguardou-separacasarcomFernandoIIdeAragão–o
quefezàsescondidasdeseuirmão(eseurei),em1469.
O segundo casamento destinava-se a defender os direitos ao trono castelhano de sua sobrinha, a infanta D. Joana de Castela, filha de Henrique IV e de D. Joana de Portugal, sua segunda mulher. Era ela a legítima herdeira de seu pai e como tal tinha sido jurada após o seu nascimento. Mas, depois, os inimigos do monarca, querendo sentar no trono um dos seus tios – o infante D. Afonso, primeiro; e a infanta D. Isabel,depois–afirmavamqueD.Joananãoera,porquenãopodiaser,
filhadoImpotente,dando-aporfrutodosamoresadúlterosdesuamãe comBeltrandelaCueva,umdosfavoritosdeseupai,queteria,aliás, promovidooadultério.E,porisso,osinimigosdaprincesachamavam-lhe aBeltraneja.
Em1464,HenriqueIVaceitoureconhecerseuirmãoD.Afonsocomo
herdeirodotronocastelhanodesdequeoinfantesetornasseseugenro, casandocomD.Joana,aquemascortesnessaalturanãotiveramdúvidas emdarotítuloeotratamentodeprincesa–oquecorrespondeuaum ínvio reconhecimento da sua legitimidade. Mas esse casamento não
chegouarealizar-se.E,em1467,HenriqueIV,paraconservarotrono,
repudiouafilha,quetinhacincoanosdeidadeefoi,nessaaltura,retirada àmãe.Esta,declaradaadúlterapeloreiseumarido,foimandadaprender numcastelopróximodeValladolid. FoiaíquearainhaconheceuPedrodeCastillayFonseca,umbisneto doreiPedroIdeCastela,porquemseapaixonou.Dessesamoresnasceu umpardegémeos,queD.Joana,tendoconseguidofugirdasuaprisão, deu à luz no lugar de Buitragos (Madrid), em 1496. Pedro Apóstolo e André de Castela e Portugal – como haveriam de ser chamados – não foramcriadospelamãe,queserecolheriaaumconvento.Opoucoque delessesabeéquecasarame,segundoalgunsgenealogistas,nãotiveram filhos, extinguindo-se assim a geração daqueles que são, muito provavelmente,osúnicosfilhosilegítimosqueumaprincesaportuguesa teve.
Emfinaisde1474,HenriqueIVmorreu,nãosemantesvoltaraafirmar
alegitimidadedesuafilha.D.Joanareclamouosseusdireitosàcoroade Castela, que Isabel, a futura Rainha Católica, reivindicava para si. D. AfonsoVresolveutomaradefesadasobrinha.Efoiparadarmaisforçaà causa de D. Joana que o rei de Portugal prometeu casar com ela. O casamento chegou a ser celebrado, por procuração, em Maio de 1475. MasopapaSixtoIV(queconfirmaraocasamentodeIsabeldeCastela comFernandodeAragão,maugradooslaçosdeconsanguinidade)não concedeuasnecessáriasdispensaseoreiAfricanoconformou-secoma vontade do sumo pontífice, deixando a sobrinha solteira – mas não desamparada. Em defesa da sua realeza, invadiuCastela. Foi, porém, derrotadona
BatalhadeToro,a1deMarçode1476.E,nãotendoconseguidoobterdo
reideFrança,LuísXI,aajudadequecareciaparavenceraquelesque
serãodepoischamadosReisCatólicos,foiobrigadoareconhecerasua
derrotaearenunciaraotronodopaísvizinho–oquefezpeloTratado
dasAlcáçovas,assinadoa4deSetembrode1479.
D.JoanaveioentãoparaPortugal,ondeeraconsideradaaExcelente Senhora.Recolheu-seaoMosteirodeSantaClaradeSantaréme,depois
deprofessar,àCasadasClarissasdeCoimbra.Em1487,aindasefalouno
seucasamentocomoreideNavarra.MasD.Joanapermaneceusolteira–
eassimmorreu,em1530,noPaçodasAlcáçovas,ondeD.JoãoII,depois
deaterretiradodoconvento,lhedeucasaeestadoderainha. Não obstante o seu celibato, houve quem dissesse que D. Joana houvera, do rei D. Afonso V, seu tio, um filho. «Esse rebento do régio tálamofoienviado,aindacriança,paraailhadaMadeiraeaísecriou, rodeadodegrandezascomoquemera,masproibidoabsolutamentede sairdailha.»IstoescreveCésardaSilva,queacrescenta:«Chamou-seD. GonçalodeAvisTrastâmara, mas ajuntouaosseusnobresapelidosde famíliaodeFernandes,certamenteporassimlhetersidoimpostopor seuirmão,oPríncipePerfeito,eporessemodoficouconfundidonamassa doshabitantesplebeusdailhadaMadeira.Aseutempoecomosimples particular casou com uma dama da localidade e teve prole.» 126 Nada parecemaislongedaverdadehistórica. Ainda assim, um genealogista madeirense, Luiz Peter Clode, compôs umaobrasobreaDescendênciadeD.GonçaloAfonsod’AvisTrastâmara Fernandes – O Máscara de Ferro Português 127 , onde declina a descendênciadeGonçaloFernandesdeAndrade,filhodeJoãoFernandes de Andrade e de Beatriz de Abreu. Segundo Henrique Henriques de Noronha, no seu Nobiliário da Ilha da Madeira, 128 Gonçalo Fernandes «criou-se em casa d’a Excellente Senhora D. Joanna, e foi Vedor d’o InfanteD.Fernando,Paed’ElReiD.Manuel».Estabeleceu-senaMadeira «por mandado d’a ditta Senhora com bôa e luzida Casa, sem se dar a conhecer,nemsesaberquemfossematéoprezenteseusPaes.Fezseu assento n’a Ribeira d’os Soccorrídos; porém, levando-lhe uma chêa as casas, a mudou para a Calhêta, e’em um sítio, a que chamão a Serra d’Agua, de quem elle tomou o nome, fabricou casas e uma Ermida de NossaSenhorad’aConceição,aqueavinculousuaterça,tomandoacom muito luzimento, e bôas pinturas em que poz por Armas as quinas portuguezassôbreumacruz,ecomestasmesmassellouotestamento
comquefaleceuem13deJunhode1539annos,ejazenterradon’adicta
Egreja» 129 . ParaomarquêsdeAbrantes,genealogistailustre,a«ascendênciareal» de Gonçalo Fernandes não passa de uma lenda sem qualquer
verosimilhança,bastandoolharparaacronologia:comopodiaovedordo
infanteD.Fernando,quemorreuem1470,serfrutodeum«casamento»
celebradoem1475? 130
***
QuantoaD.AfonsoV,ésabidoquesempregozoudafamadesermuito casto.RuidePinaassegura,nasuaCrónica,queomonarcafoide«mui
louvadacontinênciaporquehavendonãomaisde23anosaotempoquea
Rainhasuamulherfaleceu,sendoaquelaidadedemaiorespungimentose alterações da carne, tendo para isso disposições e despejo, foi depois acercademulheresmuitoabstinente,aomenoscauto[…]» Masumdescuido–pelomenos–podetertido.Eassimfoique,estando
noPorto,entreNovembrode1465eFevereirode1466,ter-se-iatomado
deamoresporD.MariadaCunha,queerasobrinhadeFernãoCoutinho, conselheirorégio,emcasadequemD.AfonsoVentãoestava,ehaveriade casarcomD.SanchodeNoronha. DessesamoresnasceriaÁlvaroSoaresdaCunha,que,emOutubrode
1523,obtevelicençadeD.JoãoIIIparaandardemulaeque,que,àhora
damorte,com90anosdeidade,fezquestãoemdeclararqueD.AfonsoV
«tiveraparte»comD.Maria,sendomoça,«aemprenharaevieraaparir» um filho – ele próprio, Álvaro Soares da Cunha, «fidalgo cidadão do Porto», de que foi vereador por três vezes e guarda-mor um ano, «no tempodapeste» 131 . LuizdeMelloVazdeSãoPayo,aquemaexistênciadestebastardoreal nãooferecequaisquerdúvidas(aocontráriodoquesucedecomamaior partedosgenealogistas),contaqueD.AfonsoV,deregressoaoPorto,em 1476, contemplou D. Maria da Cunha com uma pensão. E quatro anos depois,estandonoAlvito,foi-lheapresentadoobastardo–queD.Afonso Vteráreconhecido,masapenasatítuloparticular 132 .
125TarcisiodeAzcona,«CapitulacionesmatrimonialesentreAlfonsoVdePortugalyIsabelde
Castillaen1465»,inEdadMedia:revistadehistoria,nº5(2002),pp.135-159.
126CésardaSilva,OPriordoCratoeasuaépoca(Lisboa:JoãoRomanoTorres,s/d),p.93,que
remeteparaoartigosobreRodriguesFernandesquesepodelernoDicionárioPortugal,T.VI,p.373.
127LuizPeterClode,DescendênciadeD.GonçaloAfonsod’AvisTrastâmaraFernandes–OMáscarade
FerroPortuguês(Funchal:GovernoRegionaldaMadeira,1988).
128OtítuloexactodaobraéNobiliariogenealogicodasfamilliasqpassaramaviveràIlhada
Madeiradesdeotempodoseudescobrimentoqfoinoannode1420 [BNP,Cod.1324].
129Cf.http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=190715.
130MarquêsdeAbrantes,«Pretensões,pretendentes&Cª»,inArmaseTroféus,VISérie,TomoII,
1989/90,pp.29-72.
131EugéniodeAndreadaCunhaeFreitaseoutros,CarvalhosdeBasto–AdescendênciadeMartim
PiresdeCarvalho,CavaleirodeBasto,vol.I(Porto:ediçãodosautores,1979),pp.36-37.
132LuísdeMelloVazdeSãoPayo,TeráD.AfonsoVtidoumFilhoNatural?(Lisboa:Gráfica
Portuguesa,1986).
OBASTARDODOPRÍNCIPEPERFEITO
O casamentodeD.JoãoII,oPríncipePerfeito,comD.Leonor,arainha
dasMisericórdias,suaprima,nãofoifeliz.Etambémnãofoifértil.Dele
nasceuapenasopríncipeD.Afonso,queveioaomundoem18deMaiode
1475.Nãofoieste,noentanto,oúnicofilhodeD.JoãoII.
Orei,quedesde«mancebo»apreciou«folgaremcoisasdeamores»– comoescreveuGarcia deResende – tinha, segundoum outrocronista, tamanha«fragilidadenosextomandamentoque,aomaisleveacenoque lhefizessem,acudialogoaofenderaDeus» 133 .Nãosurpreendeporisso que,mesmodepoisdecasado,asaventurasgalantesdoPríncipePerfeito tivessemcontinuado. Ora, em Março de 1476, D. João II conheceu, em Toro, D. Ana de Mendonça,«mulhermuitofidalgaemoçademuinobregeração»(como Garcia de Resende a descreve), que era filha de Nuno Furtado de MendonçaeaiadainfantaD.Joana,aExcelenteSenhora.EmJunhodesse ano voltou a encontrá-la no Porto. Perdeu-se de amores por ela. E, quandoD.JoanaseestabeleceuemLisboa,D.Joãofezdelaograndeamor dasuavida. Desse amor foi fruto um menino que nasceu em Abrantes, a 12 de Agosto de 1481, e que um autor mais imaginativo garante ter sido concebidonosbosquesdeCernachedoBonjardim… 134 Baptizadocomo nomedeJorge,quisD.JoãoIIquefossecriadopelaprincesaD.Joana,sua irmã, no Mosteiro de Jesus, em Aveiro, onde ela estava. E mandou-lho pedir por intermédio do Provincial da Ordem de São Domingos. A princesa,vendoque«istonãoeracoisaquefizesseturvaçãoaomosteiro, fezdeboavontade,comconselhodosPadres,oqueEl-Reiseuirmãolhe pedia» 135 , como escreve Frei Nicolau Dias na sua Vida da Sereníssima PrincesaD.Joana. D.Jorgeentrounomosteirocomtrêsmesesdeidade,acompanhado apenaspelaamaqueocriava,eD.Joanacuidoudelecomosefosseseu próprio filho. D. João II concedeu à irmã o senhorio de Aveiro, para
melhor prover à educação do bastardo, de que foi encarregado o humanistaCataldoParísioSículo,DoutoremDireitopelaUniversidadede Ferrara,queoreimandaravirdeItáliaparaoservircomosecretário.Foi
istoem1487.Anosmaistarde,omestredeD.Jorgediráquefoipai,mãee
médicodele,tendoalémdissoremovidoadurezadesuatia 136 . Estacaiugravementedoentecincoanosdepois.Fezoseutestamento, deixando ao sobrinho «o pendente das três pedras e o pendente da esmeralda» 137 .Depois,sentindoamorteaproximar-se,mandouchamá-lo efez-lheumalongaprática.«Filho(lhedisse)encomendo-vosmuitoa minha alma, a qual é este Mosteiro de Jesus; lembrai-vos sempre que entrasteneledetrêsmesesequevoscrieivestidadeburel,chorandoe cantando. Muito vo-lo encomendo e assim a todos os meus criados. Trabalhaimuitoporserdesvirtuoso,temerdeseamardesmuitoaDeus,e Elesejasempreconvoscoevosdêasuabênção.» 138 Depois,«benzendo-otrêsvezes»,mandouquenuncamaistrouxessem
D.Jorgeàsuapresença.E,assimqueD.Joanamorreu,a12deMaiode
1490, «levaram-no ao mosteiro dos padres de Nossa Senhora da Misericórdia eentregaram-noaobispo doPorto, D. JoãodeAzevedo». MasD.JoãoIIqueria-opertodesi,peloquepediuàrainhasuamulher que,«semalgumapaixãodasmuitasqueemseunascimentorecebera», acolhessenacorteobastardo,quetinhaentãonoveanosdeidade. D. Leonor, «esquecida já de paixões e descontentamentos passados» 139 , acedeu ao pedido do marido, dispondo-se a substituir a cunhadaeacuidardoenteado,«comoaseuprópriofilho».D.Jorgeveio entãoparaÉvora,ondeacorteseencontrava.EarainhaD.Leonor,«com mostrançasdetantahonraeamorcomonelahavia»,passouatratarde «todasascoisasqueàsuavida,ensinoecriaçãocumpriam» 140 .
Foisoldepoucadura.A11deJunhode1491,opríncipeD.Afonso
morreudeumaquedadecavaloemSantarém,levandoconsigoosonho dereunirnamesmacabeça,asua,todasascoroasdeEspanha,tantoas queherdariadeseupaicomoasquelheviriamdosseussogros,osReis Católicos. Mas, sobretudo, D. João II perdia a única pessoa que, sendo carnedasuacarneesanguedoseusangue,lhepodiasucedernotrono.O Príncipe Perfeito pensou, porém, que não estava tudo perdido. Podia legitimarD.Jorge.Efoiexactamenteissoquedeliberoufazer. Oprimeiropassoquedeufoidesastroso:retirouobastardodatutela darainha,comopretextodeevitaraD.Leonor«umavivacausadese aumentarasuamágoa»eentregouD.JorgeaoscuidadosdeD.Joãode
Almeida,condedeAbrantes,guarda-mordapessoadorei.Arainha,que erairmãdoduquedeBeja,aquemcabiaasucessãodeD.JoãoIInafalta de herdeiro directo, ficou muito sentida com a decisão do marido e declarou que nunca mais voltaria a ver D. Jorge nem, muito menos, o admitiria nas suas casas. Com isto ficou evidentemente prejudicado o desígnioqueanimavaoreidetransformarobastardoemseulegítimo herdeiroesucessor.MasD.JoãoIInãodesistiu. OpassoseguintefoipediraopapaomestradodaOrdemdeSantiago paraD.Jorge,«quenãocontavamaisdeonzeanos»,paraelesolicitando tambémogovernoeadministraçãodaOrdemdeAvis.Ospedidosforam
deferidosa29deDezembrode1491,pelabulaEximiaedevotionis,e,em
Abril do ano seguinte, na Igreja de São Domingos, em Lisboa, D. Jorge recebeuaobediênciadoscomendadoresecavaleirosdasduasordens,ao mesmotempoqueseupailhedavaporaioegovernadordasuacasao PriordoCrato,D.JorgedeAlmeida. Com isto, o bastardo – que Jerónimo Münzer descreverá como um jovem «inteligente», «douto» e «cultivadíssimo», que recitava e compunha versos, sendo, para a sua idade, bastante conhecedor de Horácio,Virgílioeoutrosautores 141 –dispunhaagoradeumexércitoàs suasordens,oquenãodeixoudepreocuparos«parciaisdoDuquede Beja, que tinham por si o apoio e a influência valiosíssima dos Reis Católicos» 142 .Estes,comoD.JoãoIIinsistissenassuascongeminaçõese diligênciasparalegitimarD.Jorge,decidirammandar-lheumaembaixada que o monarca recebeu em Setúbal, onde se encontrava, em Maio de 1494. Isabel de Castela e Fernando de Aragão – declararam os seus embaixadores–tinhamouvido«dizerelhesfoidadoaentenderdemodo muitoafincado»queoPríncipePerfeitodeliberara«nomearseusucessor epríncipeherdeirodesteseureinodePortugalparadepoisdasuavida aoSenhorD.Jorge» 143 .Ora,essaerauma«coisamuitofeiaeinjustaede grandepecadoemuiescandalosaedemuitomauexemplo»,peloqueos Reis Católicos não podiam acreditar no que lhe diziam. Mas, «se fosse verdade», queriam advertir o rei de Portugal para os inconvenientes, espirituais mas também «corporais e temporais», que tal resolução comportaria. Poderia nomeadamente suceder que algum príncipe estrangeiro «dissesseesupusessequeaelepertenciaasucessãodestereino».Era, porexemplo,ocasodoreidosromanos,filholegítimodaimperatrizD. Leonor,irmãdeD.AfonsoV.Maspodiahaveroutrospríncipes.Porisso,
rematavamosembaixadores,assuasreaismajestadespediamaD.JoãoII queapartasseenãodesselugaraopropósitoquesediziatermatériade sucessãodacoroa.Atéporquedoseucasamentocomarainhapodiam ainda nascer mais filhos; ou podia suceder que, morrendo a rainha, voltasse D. João a casar e ter filhos – legítimos, já se sabe. Havia que confiarnamisericórdiadeDeusenãotomardecisõesqueOofendiam. D.JoãoIIdeclarouque«nuncatalcoisatinhapensado»,atéporque«ele earainhasuamulherestavamnumatalidadequeaindapoderiamter filhoslegítimos».QuantoaD.Jorge,eraseufilhoequeria-lhebem,até porque «ele era de querer». Se os Reis Católicos «o vissem e conhecessem, lhe quereriam bem e […], por ser seu filho, lhe deviam muito querer e apreciá-lo» 144 . E mandou os embaixadores embora, prometendoretribuiraembaixada. Diasdepois,porém,voltouareceberosembaixadores,quesetinham entretanto avistado com a rainha D. Leonor. Mas esta, que estava de cama,«muitoincomodadaetãosurdaquenãopercebiapalavra»doque lhe diziam, não dera grande andamento ao negócio. Na segunda audiência,D.JoãoII,declarando-se«bastanteturvado»comoqueouvira naprimeira,fezum«longodiscurso»,queserviuapenasparareiteraro quejáanteriormenteafirmara. Despedidososembaixadores,D.JoãoIInãodesistiudoseupropósito. E,«paravenceraresistênciaespanholaàlegitimaçãodeD.Jorgeefirmar neste a sucessão da coroa», tentou negociar-lhe o casamento com a infanta D. Catarina, terceira filha dos Reis Católicos. Mas a rainha castelhanarepeliuopedido,«lembrandoemtrocaumabastardadoreiD. Fernando[seumarido],oqueparecetersidotomadopeloembaixador português, Lourenço da Cunha, como afronta». Conta-se, aliás, que o embaixador,quandoIsabel,aCatólica, lhe ofereceu, para mulher de D. Jorge,abastardadeFernandodeAragão,respondeuqueoreidePortugal nãoqueriaserparentedoReiCatólicomasdarainha–eaceitariacasaro filhocomumabastardadela,seativesse.Sinonvero… D.JoãoIItentouaindaobteroapoiodeCarlosVIII,reideFrança–que lhe terá sido prometido –, e também o de seu primo Maximiliano, imperador da Alemanha (filho da infanta D. Leonor e neto do rei D. Duarte),esperando«encontrarnoparentetãopoderosoetãopróximo um medianeiro apropriado para levar de vencida os obstáculos renascentes na execução dos seus planos» 145 . E nesse mesmo ano de
1494,D.JoãoIImandouD.PedrodaSilva,comendadordeAvis,aRoma,
paratratardalegitimaçãodeD.Jorge.Mas,nacapitaldaCristandade,a influência dos Reis Católicos e também a oposição do cardeal de Alpedrinha,ferozinimigodeD.JoãoII,frustraramtodasasdiligências. OreidePortugalponderouentãooutrashipóteses:D.Manuelcasaria comD.Isabel,aviúvadopríncipeD.Afonso,filhadosReisCatólicos,como de facto casou, enquanto D. Jorge casaria com a filha bastarda de FernandodeAragãoereceberiaosdomíniosultramarinosdePortugal. Mas, nas negociações do Tratado de Tordesilhas, não hesitou em prometerquerenunciariaalegitimarD.Jorgeselhefossemconcedidasas vantagensque,nesseTratado,pretendiaalcançar 146 .Comoalcançou,sem naverdadedesistirdefazerdobastardooseulegítimoherdeiro. Para isso, o Príncipe Perfeito chegou a pensar na dissolução do seu casamento, o que lhe permitiria ter, de uma outra mulher, um filho legítimo. Mas desistiu desse propósito – e insistiu em convencer D. Leonor a aceitar que o bastardo lhe sucedesse ao trono, recorrendo à influênciadasogra,ainfantaD.Beatriz,edoprópriocunhado,ofuturorei D.Manuel.Arainha,porém,nuncadeixoudeser,nodizerdeRuidePina, a«principalcoluna»que«sempresusteveahonra,eavidaeesperança» do duque seu irmão. E foi combatendo todas as investidas do marido. Este,apósumaúltimaeviolentaconversaquetevecomamulhernas Alcáçovas,rendeu-seàevidência:D.Leonornãocederia. Gravemente doente, sem tempo nem forças (supondo que tivesse
razõeseargumentos)paramaisdiscussões,D.JoãoIIredigiuentão,a29
deSetembrode1496,oseu«derradeiroeverdadeiro»testamento.Nele
declarouoduquedeBeja,seuprimoecunhado,comoúnicoelegítimo herdeirodoreino.MasnãodeixoudelherecomendarquerecebesseD. Jorge como seu filho, de tal forma que, não tendo D. Manuel «lídimos filhos»paralhesuceder,elesetornasseseuherdeiro,fazendo-o«jurare darobediênciaemenagens».OPríncipePerfeitorequeriaalémdissoque, tendoD.Manuelalgumafilha,acasassecomD.Jorge,paraquempedia tambémomestradodaOrdemdeCristo–eaquemnessetestamento concediaaindaacidadedeCoimbracomoducado. Noseutestamento,D.JoãoIIdeixouaindaumatença,oupensão,aD. Ana,«madredeD.Jorge,meumuitoprezadofilho»,oquepodequerer dizerquearelaçãodoreicomaamantesemantinha.Essaéaopiniãode Camilo Castelo Branco, Oliveira Martins e Barros Gomes, entre outros. Mas cronistas mais antigos, como Rui de Pina e Garcia de Resende, afirmam que D. João se separou da mãe do bastardo quando subiu ao
trono,em1481.
Depoisdeescritasassuasúltimasvontades,oreipartiucomD.Jorge paraasCaldasdeMonchique,naesperançadeencontrarcuraoualívio paraosseusmales,queseagravavamtodososdias.Chegado,porém,à
viladeAlvor,caiudecama–enuncamaisselevantou.A25deOutubro,
escreveGarciadeResende,«faleceuel-reisempainemmãe,semfilho nem filha, sem irmão nem irmã, e ainda com muito poucos, fora de Portugal, no reino do Algarve, muito pequeno lugar» 147 . Muitos historiadoresacreditamquemorreuenvenenado.
Mortoopai,D.Jorge,quetinhaentão14anosdeidade,precipitou-sea
prestarobediênciaaonovoreidePortugal,queestavaemMontemor-o-
Novo. D. Manuel acolheu-o com benevolência – e com benevolência o
tratounosanosseguintes.Em1498,quandoD.ManuelfoiaCastelapara
ser jurado herdeiro daquela coroa, D. Jorge acompanhou-o. E, no regresso,fez-lhemercêasvilasdeMontemor-o-VelhoeTorresNovas.
Doisanosdepois,a27deMaiode1500 148 ,D.ManuelIinstituiu,afavor deD.Jorge,acasaeosenhoriodeAveiro,paraquenosseusdescendentes fossetrocadoemduquedeAveirootítulodeduquedeCoimbra.Erauma formaderecuperarparaacoroaotítuloeacasadoduquedeCoimbra– queosdescendentesdeD.Jorge,umbastardo,nãomereceriamporisso conservar – sem ofender demasiado o filho de D. João II e as últimas vontadesdeseupai.Acartadotítulosófoipassadanoveanosdepois,em
1509 149 .Entretanto,D.Manuel,semnuncadeixardedistinguirD.Jorge
comasuaamizade,tratoudefavoreceroduqueD.JaimedeBragança,a sua casa e a sua gente, mostrando que era ele – e não D. Jorge – o primeirofidalgodoreino 150 . Foi,aliás,nacasadeBragançaqueobastardodeD.JoãoIIacaboupor casar–oqueteráfeitooPríncipePerfeitodarvoltasnoseutúmulo.Dias depoisdacriaçãododucadodeAveiro,comefeito,D.JorgedeLencastre casou,nãocomumafilhadoreiVenturoso,comoD.JoãoIIdesejara,mas com D. Beatriz (ou Brites) de Vilhena, filha de D. Álvaro de Bragança, senhor de Tentúgal, Póvoa, Buarcos e Cadaval, regedor da Casa da Suplicaçãoechanceler-mordosReinosdePortugaleAlgarves,queera
bisnetado1.ºduquedeBragança,bastardodeD.JoãoI.Eramulherde
«formosuratãorara»que,dizocondedeSabugosa,«emtrovasemotesa cantavam,dando-lheosobrenomesignificativodePerigosa» 151 .Umdos seusadmiradoresfoiGarciadeResende,queescreveu:
Quemnavir,nãopodever
Senãodesimaupesar,
Poistemcertoopadecer
Eapagadoperder.
Masaidequems’afastar
Devercoisatãoformosa
Quesejatãoperigosa…
DofelizcasamentodeD.JorgecomD.Beatriz,celebradoa31deMaio
de1500,nasceram:(1)D.João,1.ºduquedeAveiro,quetambémhá-de
ter um filho bastardo, D. João de Lencastre, religioso da Ordem dos
Pregadores;(2)D.Afonso,comendador-mordaOrdemdeSantiago;(3)D.
Luís,comendador-mordaOrdemdeAvis;(4)D.Jaime,bispodeCeutae
capelãodarainhaD.CatarinadeÁustria;(5)D.Helena,comendadeirado
Mosteiro de Santos; (6) D. Maria, freira no Mosteiro de São João de
Setúbal,queseupaifundara;(7)D.Filipa,prioresadomesmomosteiro;e
(8)D.Isabel,religiosaemSetúbale,depois,emSantos.
D.BeatrizdeVilhenamorreuem1535,quandoseumaridotinha54
anos de idade. D. Jorge, 12 anos depois de enviuvar, «sendo já muito velho, afeiçoou-se demasiadamente a uma dama da rainha», D. Maria
Manuel,filhadeD.FranciscodeLima,quenãotinhamaisdoque16anos
de idade. E, depois de obter as dispensas papais, casou (ou prometeu
casar)comela,emJaneirode1548–comodisseaorei,emcartaquea
esterespeitolhedirigiudepois.Masosfilhos,comoduquedeAveiroà cabeça,pediramaoreique,«seocasamentonãoestavafeito,SuaAltezao nãoconsentisse». D.JoãoIII,cujasrelaçõescomD.Jorgenuncatinhamsidoasmelhores, obtevedopapaaanulaçãodocasamentoedesterrouobastardodeD. JoãoIIparaSetúbal,«fazendo-lhe,alémdeste,outrosdissabores» 152 .D. Jorgeprotestou,masoreiPiedosonãosecondoeu–eosfilhosdoduque deCoimbratambémnãoperdoaramaopaiaaventuragalante,quepunha emcausaoseubomnomeeameaçavaoseupatrimónio. Ao comportamento dos filhos reagiu D. Jorge com amarga ironia. Conta-se,comefeito,que«notempoemqueomestreandavadesejosode casar com esta dama e sentido dos filhos, porque lhe contrariavam, perguntou-lheumfidalgoseuparenteporquequeriacasareaventurar-se aencurtaravida.Eelerespondeu-lhe:“Porversepodiahaveroutros filhostãovirtuososcomoosquejátenho”.» 153
Duque de Coimbra e alcaide-mor daquela cidade; senhor de Aveiro, Montemor-o-Velho,Penela,Lousã,CondeixaeTorresNovas,entremuitas
outrasvilaselugares,D.JorgedeLencastremorreuemSetúbal,a22de
Julho de 1550, deixando, além dos filhos legítimos, quatro filhos bastardos, uma rapariga e três rapazes, nascidos entre a morte de D. BriteseonamorodeD.MariaManuel.Baptizadostodoscomonomedo pai,umdeles,quetomouemreligiãoonomedeFreiAntóniodeSanta Maria, foi provincial da Ordem de Santo Agostinho e bispo de Leiria (1616-1623), outro, «clérigo de bom procedimento» e bacharel em Cânones,foiprior-mordeAvis,eoúltimofoireligiosodeSãoJerónimono Mosteiro de Nossa Senhora de Guadalupe. Quanto à filha, D. Joana de Lencastre, «morreu moça, sem estado» 154 , depois de ter vivido em Grândola,vilafundadaporD.Jorge 155 .
***
AlémdeD.JorgedeLencastre,D.JoãoIIpoderáaindatersidopaide Brites Anes de Santarém, havida de Brites Anes, a Boa Dona, que, na HistóriaGenealógica,AntónioCaetanodeSousanãorefereedequemnão abundamasnotícias.Sabe-se,porém,oujulga-sesaberque,nascidacerca de 1485, a bastarda casou com Amador Baracho, «fidalgo muito honrado»,eteveumafilha,BritesAnesBarachodeSantarém.Esta,que «estevenopaçoemboaconta»,casoucomJoãoPiresAmado,«fidalgoda casa do Infante D. Afonso», e teve vários filhos. A sua descendência chegouaosdiasdehoje 156 .NãoécertoqueD.Britesdevaserincluídana copiosa e ilustre descendência de D. João II. Mas genealogistas respeitados,comoFelgueirasGayo 157 ouManuelArturNorton,nãotêm dúvidasemfazê-lo.
coroa.jpg
PararecensearosdescendentesdeD.JorgedeLencastre,2.ºduquedeCoimbra,
FernandodeCastrodaSilvaCanedoescreveu,em1946,maisdemilpáginas,que
distribuiupelostrêsgrossosvolumesqueconstituemADescendênciaPortuguesade
El-Rei D. João II. Dessa copiosa e ilustre descendência fazem parte o banqueiro
António Horta Osório, os fadistas Carminho (ou seja: Maria do Carmo Carvalho
RebelodeAndrade)eSalvadorTaborda,bemcomoopadrePeterStilwell.
DeD.BritesdescendemoescultorChartersdeAlmeida,ajuristaejornalista
SofiaPintoCoelho,oempresárioGuyVillax,oescritorDomingosAmaraleoactor
brasileiroÂngeloPaesLeme–quedescenderãoassimdeD.JoãoII,desdequese
considerequeoPríncipePerfeitofoiopaidaquelasenhora.Omesmosucedecomo
músico Rão Kyao (João Maria Centeno Gorjão Jorge), que não precisa de ter D.
Britesporantepassadaparadescenderdebastardosreais.Comefeito,eledescende
deD.TeresaSanches(bastardadeD.SanchoI)edeD.UrracaAfonso,D.Afonso
DiniseMartimdeSousa,oChichorro(bastardosdeD.AfonsoIII).
133Cf.LuísAdãodaFonseca,D.JoãoII(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),p.221.
134Idem,ibidem.
135FreiNicolauDias,VidadaSereníssimaPrincesaD.Joana,filhad’El-ReiD.AfonsooVdePortugal
(Aveiro:Diocese,1987),p.59.
136D.AntóniodeQueirozeVasconcelosdeLencastre,DomJorge,2.ºDuquedeCoimbra(Porto:
CaminhosRomanos,2011),p.24.
137FreiNicolauDias,VidadaSereníssimaPrincesaD.Joana,filhad’El-ReiD.AfonsooVdePortugal
(Aveiro:Diocese,1987),p.69.
138Idem,ibidem,p.70.
139RuidePina,Crónicas(Porto:Lello&Irmão,1977),p.965.
140Idem,ibidem.
141LuísAdãodaFonseca,D.JoãoII(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),p.225.
142Idem,ibidem,p.177.
143LuísAdãodaFonseca,D.JoãoII(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),pp.128ss.,dondese
retiraramascitaçõesqueilustramorelatodaembaixada.
144Idem,ibidem,pp.128-131.
145OliveiraMartins,OPríncipePerfeito(Lisboa:AntónioMariaPereira,1923),pp.177-178.
146ManuelFernandesCosta,ODescobrimentodaAméricaeoTratadodeTordesilhas(Lisboa:
InstitutodeCulturaPortuguesa,1979),p.64.
147GarciadeResende,CrónicadeD.JoãoIIeMiscelânea(Lisboa:ImprensaNacional/Casada
Moeda,1973),p.289
148Cf.AnselmoBraamcampFreire,BrasõesdaSaladeSintra(Lisboa:ImprensaNacional/Casada
Moeda,1973),vol.III,p.357
149Idem,ibidem.
150Cf.ManuelaMendonça,«RecuperaçãodaCasadeBragançaporD.Manuel»,inEstudosem
HomenagemaoProfessorDoutorJoséMarques(Porto:FaculdadedeLetrasdaUniversidadedoPorto,
2006),vol.III,pp.139ss.
151CondedeSabugosa,NevesdeAntanho(Lisboa:LivrariaSamCarlos,1974),p.63.
152JoséHermanoSaraiva,DitosPortuguesesDignosdeMemória(Lisboa:Europa-América,1980),
p.62[132];AnselmoBraamcampFreire,BrasõesdaSaladeSintra(Lisboa:ImprensaNacional/Casa
daMoeda,1973),vol.III,357ss.
153JoséHermanoSaraiva,DitosPortuguesesDignosdeMemória(Lisboa:Europa-América,1980),
p.62[133].
154AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.XI,p.21.
155D.AntóniodeQueirozeVasconcelosdeLencastre,DomJorge,2.ºDuquedeCoimbra(Porto:
CaminhosRomanos,2011),p.163.
156Cf.NunoGonçaloPereiraBorrego,CartasdeBrasãodeArmas–Colectânea(Lisboa:Guarda-Mor,
2003),p.367[Árvore851.PedroAnesAmadodeSantarémBaracho].
157FelgueirasGayo,NobiliáriodasFamíliasdePortugal(Braga:CarvalhosdeBasto,1989),vol.I,
p.350.
OBASTARDODOPIEDOSO
F oiD.ManuelI,oVenturoso,muitofelizcomastrêsmulheresqueteve:
D.Isabel,filhadosReisCatólicos;D.Maria,suacunhada,jáqueerairmã de D. Isabel; e, finalmente, D. Leonor de Áustria, sobrinha das duas primeiras e irmã do imperador Carlos V, que estava, aliás, falada para casarcomseufilho,ofuturoD.JoãoIII.Nuncaterácometidoopecadode adultérioe,emtodoocaso,nãoselheconhecemfilhosilegítimos. DeD.JoãoIII,seufilhoesucessor,jánãosepodedizeromesmo.Nãoé que o piedoso monarca tenha sido infiel a sua mulher, a rainha D. CatarinadeÁustria,tambémelairmãdeCarlosV,comquemcasouem
Fevereirode1525.Delaterianovefilhos,nenhumdosquaissobreviveuà
suamorte,ocorridaem1556.
Mas, antes de casar com a irmã de sua madrasta, que era, também, cunhadadaimperatrizIsabeldePortugal,suairmã,D.JoãoIIIteveum filhobastardo,D.DuartedePortugal.Estefoifrutodosseusamorescom IsabelMoniz,filhadeumalcaidedeLisboaaquemderamaalcunhade CarrancaequeeramoçadacâmaradarainhaD.Leonor,terceiramulher de D. Manuel I (de quem alguns disseram, aliás, que D. João fora amante…).
D.Duarteentrouem1532noMosteirodaPenhaLonga,emSintra,para
sereducadoporFreiJorgedeÉvora,ummongeJerónimo.Em1535,Frei
JorgelevouconsigoobastardorealparaoMosteirodeSantaMarinhada Costa,emGuimarães,ondeD.Duarterecebeuocrismaetomouordens menores. Ali prosseguiu os seus estudos, cultivou a música e praticou comesmeroaartedebemcavalgaremtodaasela. Alémdisso,D.DuartetraduziuparalatimamaiorpartedaCrónicade Dom Afonso Henriques, de Duarte Galvão – o que levou Frei Diogo de MurtaadizeraoreiPiedosoqueoseufilhobastardotinhafeito«obra queoutrosbemexercitadosnão[fariam]numanooumais»,sendoessa obra«tãolatinaegraveque[era]dignademuitaestimaentreoshomens
doutos» 158 .
Paradarestadoegarantirofuturodofilhoilegítimo,quesetornara um «excelente Humanista, Retórico, Filósofo e Teólogo» (no dizer da MemoriadosestudosemquesecriarãoosmongesdeS.Jeronymo) 159 ,D. JoãoIIIpediuaopapaPauloIIIqueofizessearcebispodeBraga.Opedido
foideferidoa6deFevereirode1542,comacondiçãodeD.Duartesó
tomarpossedocargoquandoperfizesse27anosdeidade.
O bastardo foi então chamado à corte, para conhecer o pai e os restantesmembrosdasuarealfamília.Mas,antes,D.JoãoIIImandou-oir visitar a sua arquidiocese. D. Duarte cumpriu as ordens – e, a 16 de Agosto, saiu do Mosteiro da Costa para ir dormir a Braga, onde se
demoroutrêsdias.Depois,partiu(a19deAgosto)paraSintra,ondeorei
seencontravaquandoomandouchamar.«ProuveraaDeusquepudesse servoando»–escreveueleaopai 160 . OSenhorD.Duarte(comootrataPêrodeAlcáçovaCarneironassuas Relações)chegounumsábadoàtardeeficoudoisdiasemSintra,deonde saiu para ir ouvir missa e almoçar no Mosteiro de São Domingos de Benfica, onde D. João III o esperava. Acompanhou-o nessa jornada o infanteD.Luís,seutio–queerapaideumoutrobastardofamoso,D. António,oPriordoCrato,comquemD.Duarteteráconvividoeestudado –ealgunsfidalgosdacorte. Depoisdoalmoço,D.Duartefoibeijaramãodopai.Pôs-sedejoelhose nãoselevantousenãoquandoopaioergueu.D.JoãoIIIlevou-oentão para uma outra sala, onde se demorou com ele – mas também com o infanteD.Luís–durantehoraemeia.Rezadasasvésperas,D.JoãoIII regressouaLisboa,trazendoofilhocomele. Apresentou-o então à rainha D. Catarina, que estava acompanhada pelosdoisfilhosqueaindaviviam:opríncipeD.João,queseriapaideD. Sebastião,eainfantaD.Maria,jácasada(porprocuração)comopríncipe de Castela, que reinará mais tarde em Castela como Filipe II e será tambémreidePortugal. Doisoutrêsdiasdepois,D.DuartefoivisitarasuacasaoinfanteD. Luíse,aooutrodia,asinfantasD.MariaeD.Isabel,nãotendofeitomais cedo«porumafebrequetevedotrabalhodocaminho». Ninguémterádadograndeimportânciaaocaso.Mêsemeiodepoisde terchegadoaLisboa,D.DuarteassistiudecertoàpartidadaprincesaD. Maria,suameia-irmã,paraCastela,ondefoijuntar-seaomarido,ofuturo
FilipeII.Depois,voltouacairdoente.Ea11deNovembrode1543,pelas
onze da manhã, no Paço dos Estaus, D. Duarte morreu, «de bexigas e
câmarasquelhevieramsobreelas,daqualdoençanãoduroumaisdedez
dias».Tinha,quandomuito,22anosdeidade.
D. João III esteve «retraído» durante cinco dias e «tomou dó»: um capuzdearbimcardado(quesótirounodiadeNatal),umpeloteeuma carapuça.Depois,deunotíciadamortedofilhoaoseuembaixadorem Roma:«Faleceutãocatolicamenteetãoconformadocomavontadede NossoSenhor,recebendoantesdoseufalecimentotodosossacramentos daIgreja,quetenhoeumuitarazãoparacomissosentirmenososeu falecimentoeesperaremNossoSenhor,comoespero,quelhedêasua glória.» 161 O corpo do último bastardo de Avis foi depositado no Mosteiro dos Jerónimos, para onde foi transportado num ataúde de veludo preto, carregadoporumaazémola.Acompanharam-nooMestredeSantiagoe todososbisposecondesqueestavamnacorteepormuitaoutragente, quenãocabianasruas.
***
Segundocronistasvários,D.JoãoIIIteriatido,alémdeD.Duarte,dois outros filhos ilegítimos: D. Miguel e D. Manuel. Do primeiro fala Frei BernardodeBrito,esóele,dizendoqueobastardo«secriouencoberto pertodaquelavila[deAlcobaça]emorreusendoaindadepeito» 162 .Mas ninguémdeununcaqualquercréditoaestaafirmaçãodocronista. Quanto a D. Manuel, filho (segundo Camilo Castelo Branco) de uma Antónia de Berredo, que terá morrido menino, os historiadores propendememcrerqueeleeD.Duartesãoumaeamesmapessoa.Com efeito,D.DuartecomeçouporsechamarManuel,comoseuavôpaterno,o rei Venturoso. Mas, quando D. Catarina de Áustria, a mulher do rei
Piedoso,deuàluz,em1531,umacriançadosexomasculino,decidiuD.
JoãoIIIdar-lheonomedeseupai.E,paraquenãohouvesseconfusões entre o filho legítimo e o filho bastardo, determinou que este, ao ser crismado,mudassedenome.FoiassimqueD.Manuelpassouachamar-se Duarte, pelo que parece mais sensato e prudente considerar que o monarcasóteve,defacto,umbastardo.ApesardeFreiLuísdeSousa,nos seusAnaisdeD.JoãoIII,terescritoqueomonarca,quando,no«fervorda mocidade»,andou«distraídocommulheres»,delas«houvefilhos» 163 .No plural.
158PauloDrummondBraga,D.JoãoIII(Lisboa:Hugin,2002),p.66.
159Cf.BelmiroFernandesPereira,«AediçãoconimbricensedaRethoricadeJoachimRingelberg»,in
Península,RevistadeEstudosIbéricos,nº1(2004),p.204.
160Cf.ArquivoNacionaldaTorredoTombo:TT-CC1-72-100.
161Cf.ErnestodeCamposdeAndrada(org.),RelaçõesdePêrodeAlcáçovaCarneiro(Lisboa:
ImprensaNacional,1937),pp.256-262.
162Cf.PauloDrummondBraga,D.JoãoIII(Lisboa:Hugin,2002),p.63.
163Cf.AnaIsabelBuescu,D.JoãoIII(Lisboa:CírculodeLeitores,2005),p.175.
OBASTARDOQUE(NÃO)FOIREI
N ahistóriadePortugalháumbastardoquequisserrei–eporser
bastardonãoofoi.Masasuarealezanãodeixoudeserreconhecidapor muitosdosseuscompatriotas,queaclamaramestenetodoreiD.Manuel Iedeleseafirmaramsúbditos.Trata-sedeD.António,PriordoCrato, filhodoinfanteD.LuísedeumaformosajudiaquesechamouViolante Gomes e teve por alcunha a Pelicana. Mas, ao que parece, também a trataramporPombaouPandeireta. Alguns autores, mais famosos como romancistas que como historiadores,dãooutrasnotíciasda«barregã»deD.Luís.CamiloCastelo Branco, por exemplo, sustenta contra a «quase unanimidade dos historiadores»queViolanteGomesera,afinal,«cristã-velha».JúlioDinis, porseuturno,afirmaqueaPelicanaerafilhadePêroGomesedeuma MartadeÉvora,que,essa,seriabastardadeD.Diogo,duquedeBeja. Anos depois, o visconde de Faria veio afirmar que a filha de Pêro Gomes pertencia à pequena nobreza, era católica e professara, com o consentimentodoinfanteD.Luís,naOrdemdeSãoBernardo,morrendo ainda jovem no Convento de Almoster. O seu casamento com D. Luís, acrescentavaovisconde,forasecretoporsermorganático.Masnempor issoofilhonascidodessauniãodeixavadeserlegítimo 164 . Finalmente, em 1997, Luís de Melo Vaz de Sampaio publicou um
assentodaSédeÉvora,datadode15deJunhode1544,ondesedáconta
dobaptizadodofilhodeumaescravadePêroGomes,«sogrodoInfante DomLuís».Eessapublicaçãofoiaclamadacomoadefinitivaprovada legitimidadedeD.António. Averdade,porém,équeoassentoestavalongedeserumanovidade. DescobertoepublicadoporCamilo,noseulivrosobreD.LuísdePortugal,
em1883,odocumentofoidepoistraduzidoparafrancêsenessalíngua
publicadopeloviscondedeFaria,nosseusArchivesconcernantD.Antonio Ier, muito antes de Luís de Melo Vaz de Sampaio o dar novamente à estampa. Por outro lado, a transcrição que os três autores fizeram do
assento ofereceu muitas dúvidas a Joaquim Veríssimo Serrão, uma autoridade no que ao Prior do Crato e seu «reinado» diz respeito. O historiadorpreferiuseguiraleituradeA.F.Barata,quenoassentoleu «sobrinho» – e não «sogro» – do infante D. Luís, o que é bastante diferente 165 . Seja como for, não se afigura que o facto singular de um clérigoeborenseterdeclarado–seéquedeclarou–quePêroGomesera «sogro do Iffante dom Luis» possa resolver definitivamente esta controvertidaquestão. Há-dereconhecer-sequeD.Antóniosemprefoiconsideradobastardo– ecomotaltratado–,tantopelarainhaD.CatarinacomopelocardealD. Henrique, seus tios. Por isso, aliás, sempre ocupou nas cerimónias da corte um lugar de menos destaque que seu primo D. Duarte, o filho – legítimo–doinfanteD.Duarte,irmãomaisnovodoinfanteD.Luís.O próprio duque de Bragança, D. João, entendia que tinha precedência sobreoPriordoCrato–porsercasadocomD.Catarina,tambémlídima filha do infante D. Duarte. E essa reivindicação não faria sentido nem seria consentida se, na corte e no reino, a bastardia de D. António oferecesseentãoalgumadúvida. OPriordoCratoaparecereferidonasrelaçõesdosecretáriodeEstado deD.JoãoIIIeD.Sebastiãocomo«filhonaturaldoInfanteD.Luís»–em contraposiçãoaoSenhorD.Duarte,járeferido,«filholegítimodoInfante DomDuarte» 166 .E,nosdespachosqueenviaramparaassuascortes,o embaixador de França, em 1560, e o núncio do papa, em 1576, não tiveramdúvidasemdesignarD.Antóniocomobastardo 167 .Oembaixador deEspanha,porseuturno,seaceitoucederaprecedênciaaoSenhorD. Duarte, nunca percebeu porque não devia passar à frente do Prior do Crato 168 .Até1579,pelomenos,abastardiadeD.Antónionãosuscitava dúvidas a ninguém – nem sequer a ele próprio, como mais adiante se verá. Nascido em Lisboa cerca de 1531, o filho do infante D. Luís e de ViolanteGomesnãofoicriadoporsuamãe–quepoucodepoisdoseu nascimentoserecolheuaumconvento,porordemdoinfanteouporsua própria vontade, falecendo em Julho de 1568, na vila de Almoster. BaptizadocomonomedeAntónio,omeninoviveuemcompanhiadopai atéperfazeroitoanosdeidade,sendoentãomandadoparaoMosteiroda Costa,emGuimarães,ondeestudougramáticacomInáciodeMorais,o poetalatinoquedepoislhededicouoConimbricaeEncomium(«Elogiode Coimbra»)eondefoicondiscípulodeD.Duarte,obastardodeD.JoãoIII.
Aos 12 anos mudaram-no para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra,
ondeaprendeufilosofia.Ecom20anosdeidadedoutorou-seemArtes.
Masseupaiqueriamaisemelhor:desejava-o«eminenteemletras», considerandoquetinha,paraisso,«muybomengenhoetantadisposiçam eaparelho».Easpiravaaqueobastardosetransformasseem«humdos
maisfamososhomensdaEuropa»,comoescreveuem1550,numacarta
enviadadeAlmeirim. Por isso, em 1551, D. António trocou Coimbra por Évora, onde pontificavaocardealD.Henrique,seutio,comquempassouamorar– paraaliestudarteologiacomFreiBartolomeudosMártireseD.Jerónimo Osório. Ali também recebeu a ordem de diácono. Se o infante D. Luís aspirava a fazer do filho um dos mais famosos homens da Europa, o caminho mais fácil e mais seguro era a carreira eclesiástica. O mesmo destino,comambiçõesporventuramaismodestas,foraaliástraçadopor D.JoãoIIIparaD.Duarte,oseufilhobastardo.
Mas,em1555,oinfanteD.Luísmorreu–etudomudounavidadeD.
António, que lhe sucedeu no grão-priorado do Crato, «o posto mais rendosoemaisaltodaOrdemdeMaltaemPortugal» 169 .Onovoprior recusou-seaserordenadopresbítero,alegandoqueabraçaraoestado eclesiásticoporimposiçãoalheiaenãoporvontadeprópria.Nãoestava portanto disposto a cumprir as últimas vontades de seu pai – o que causougrandedesgostoaocardealseutio. «Como o Prior do Crato, pelas tendências naturais do seu temperamento pujante e vigoroso, mais talhado para cavaleiro do que para monge, se abandonasse a uma vida licenciosa, D. Henrique, que prezava a castidade como a virtude fundamental do clérigo, não lhe perdoava a soltura de costumes, transformando-se pouco a pouco a antipatiaemverdadeirainimizade» 170 . AscoisaspioraramquandoD.António,nãoquerendoserpadre,pediu comgrandedesfaçatezqueofizessemarcebispo–earcebispodeÉvora, sucedendoaocardealseutio,quetinhagovernadoaarquidiocese.Este indeferiuapretensãodosobrinho,dando-lhe,porém,dinheirobastante parapagarasdívidas,queerammuitas.Aindaassim,oPriordoCrato ficou muito indignado e retirou-se para Castela, onde se acolheu à
proteçãodeFilipeII,seuprimo.Foiistoem1565,oanoemqueopapa,
porumbreve,pediuaoreidePortugalparaD.Antónioserrepreendido
pelasuacondutaesuspensodogovernodopriorado,quefoientregueao
cardealD.Henrique.
D. António só regressou ao reino em Setembro de 1566, após uma ausênciadequasedoisanos.Masnãotardouazangar-sedenovocomo cardeal, que então governava o reino em nome de D. Sebastião, ainda menordeidade.DesterradoparaoCrato,oPriorsóvoltouàcorteapósD.
Sebastiãotertomadocontadogoverno,emJaneirode1568.Continuoua
contarcomoapoiodeFilipeIIparaassuaspretensões.Eassimfoique,
em1572,oReiCatólicopediuaopapa«paraqueD.Antóniopossadeixar
ohábitoreligioso,nãoobstanteserordenadodeEpístolaeEvangelhoe possagozardoPrioradodoCratoedeoutrascomendasepensõesque tem,emboralhetenhamsidodadascomacondiçãodeserclérigo» 171 . GregórioXIIIdeubomdespachoaorequerimentodomonarcacastelhano, oquedeixouocardealmuitoagastado. MasD.AntónioconseguiutambémcairnofavordeD.Sebastião,que,
em1573,ofezgovernadordeTânger–cargoemqueobastardodeD.
Luís não se distinguiu, incorrendo assim no desagrado do «sobrinho».
Este,quandorealizouasuaprimeiraJornadadeÁfrica,em1575,demitiu
o«tio». Aindaassim,oprestígiodequeoPriordoCratodesfrutavaemmuitos círculosnãodiminuiu.EonúncioapostólicoemLisboa,escrevendopara
Romaemfinaisde1576,quandooDesejadojápreparavaasuasegunda
JornadadeÁfrica,ponderouque,falecidoofilholegítimodoinfanteD. Duarte,«amelhoresperançadosportuguesesparaafaltadesucessãoem D.Sebastião» 172 ,D.AntóniopoderiasucederaD.Sebastião,nocasode estemorrersemfilhos,«oqueDeusnãoqueira».Averdade,porém,éque para desempenhar esse papel o Prior do Crato tinha, como o núncio reconhecia,«muitasdificuldades,porque[era]bastardo,diácono,freire deMaltaefilhodeumacristã-nova» 173 .
Em1578,D.AntónioacompanhouD.SebastiãoaMarrocosetravou,
sobassuasordens,afunestaBatalhadosTrêsReis,emAlcácer-Quibir. Ferido e preso em Tetuão, foi o primeiro dos portugueses a sair do cativeiro, passando a Arzila e dali a Lisboa, onde foi «festivamente acolhidoporalgunsfidalgosemuitopovo». JáentãoocardealD.Henriqueforaaclamadorei.Mas,velhoedoente,o monarcanãopodiadurarmuito.Etodososqueaspiravamaherdar-lheo trono prepararam-se para a guerra da sucessão. Eram numerosos os pretendentes: Rainúncio Farnese, duque de Parma; Emanuel Filiberto, duquedeSabóia;FilipeII,reideEspanha;D.CatarinaeD.João,duquesde Bragança;CatarinadeMédicis,rainhadeFrança–eD.António,Priordo
Crato, que, para se habilitar à herança de D. Henrique, necessitava, porém,deprovaralegitimidadedoseunascimento 174 . Ora, como se o acaso quisesse prover às ingentes necessidades do Prior,começouexactamenteporessaalturaadizer-seemLisboaqueo infanteD.Luísfora,afinal,casadocomaPelicana.D.Antóniotratoude apuraraveracidadedosboatos.Edofelizresultadodessasdiligências apressou-seadarcontaaonúncioapostólicoemLisboa,numacartaque
lheescreveuemDezembrode1578.Nessacarta,oPriordoCratodizia
que,tendodecididoinvestigarosinsistentesrumoresquecirculavamem Lisboasobreocasamentodeseupai,eledescobriraquatrotestemunhas que,também«poracaso,todasestavamemcasa[daPelicana]quandoo InfanteDomLuisfoideimprovisoedenoitetratarcomsuamãe,para possuí-la, determinando casar com ela. Estas testemunhas estavam retiradasnumaoutrasala,dondevirameouviramtudo[…]» 175 Comestastestemunhasesuasinformações,D.Antóniorecorreuaum juizdasuaOrdem,aOrdemdeMalta,chamadoFreiManueldeMelo,que, a 24 de Maio de 1579, proferiu uma sentença declarando que, ao contráriodoquesempreseafirmara,D.Antónioera,afinal,filholegítimo doinfanteD.Luís. RezavaasentençaqueoinfanteD.Luís,«sendomanceboeemidade florescente se namorar de Violante Gomes, donzela, muito formosa e honesta,degrandediscriçãoegraça»,arecebeupormulher.«Etantoque arecebeupormulheramandouchamarporD.Violante»e«tratar[…] comvestidos,camasejóias».Foi,aliás,porestarcasado–prosseguiaa sentença – que D. Luís recusou todos os casamentos que lhe foram propostos,nomeadamentecomarainhadeInglaterra,nuncamaispondo «osolhosemoutramulher». Última prova do casamento: o facto de D. Luís, no seu testamento, «nomear o Senhor D. António por seu filho simplesmente sem adição, nem acrescentar natural, o que conforme o direito civil e canónico bastava para se provar como de feito basta para ser havido por legítimo» 176 . E Frei Manuel de Melo concluía: «Julgo e declaro pela autoridadeamimcometidaoditoSenhorD.Antónioserfilholegítimodo dito Senhor Infante e da dita Senhora D. Violante, nascido de legítimo matrimónio.» 177 Malfoiconhecida,asentençacausougrandeindignação–emFilipeIIe na duquesa de Bragança, que se consideravam os únicos herdeiros legítimos da coroa, mas também no cardeal-rei, que a «reputou
abertamenteescandalosa»enãoseconformoucomela.Pediueobtevedo papaGregórioXIIIquefosseeleconstituídojuizdacausadalegitimidade, oqueprovocouosimediatosprotestosdeD.António:ojulgamentonão podiaserimparcialporqueD.Henriqueerapúblicaenotoriamenteseu inimigo.EapelouparaqueacausafossedevolvidaàSantaSé. Nadaconseguiu.E,emAgosto,ocardeal-rei,acolitadopeloarcebispo deLisboa,obispodeLeiria,obispodeMirandaeobispocapelão-mor, decidiu «não se provar matrimónio de presente nem de futuro, nem nunca o haver», entre o infante D. Luís e D. Violante, sendo «tudo maquinaçãoefalsidade».Opróprioinfante,noseutestamento,declarara queD.Antónioeraseufilhonatural.Porisso,D.Henriquedeclarava«D. António meu sobrinho por não legítimo, e sobre o dito pretenso matrimónio e legitimidade […] lhe pomos perpétuo silêncio» 178 . Sobre isso,ocardeal-reiexpulsavadacorteoPriordoCratoemandavaprender assuastestemunhas. EranotestamentodoinfanteD.Luísqueestava,então,aprovadecisiva dailegitimidadedoPriordoCrato.Semsurpresa,FilipeIIapressou-sea pediraCristóvãodeMouraumacópiadodocumento,«porqueouvidizer que chama filho natural a D. António». Se essa declaração constasse efetivamente do testamento, ficaria provado – como explicava o rei Prudente – «ser vã a sua pretensão» 179 . Tudo indica que a cópia do testamentochegouàsmãosdomonarcacastelhano.Mas,sechegou,Filipe IInuncafezusodela.Porquê? PodeserquedelanãoconstasseareferênciaàbastardiadeD.António –oquesignificariaqueocardealtinhamentido.Ora,FilipeIInãoestava interessado em desmentir o tio, até porque, se o fizesse, daria à candidaturadeD.Antónioumaforçaqueelaparecianãoterlogrado,ao menosjuntodocleroedanobrezadoreinolusitano.Poroutrolado,sea bastardiaficassedemonstrada,acandidaturadeD.Antónioficariaferida de morte – e isso também não interessava ao rei de Espanha. Como CristóvãodeMoura,seuvalido,explicou,acandidaturadoPriordoCrato tinha o imenso mérito de dividir o campo adverso a Filipe II, prejudicandosobretudoacandidaturadaduquesadeBragança–queera, comohojesesabe,apreferidadocardeal-rei. Esse facto justifica ou atenua as culpas que D. Henrique terá neste cartório.D.AntónioroubavaadeptosaD.Catarina,prejudicava-lhe–e não pouco – as pretensões de suceder ao cardeal. E, como era essa a sucessãoqueeledesejava,nãosecansoudeperseguiretentarafugentar
osobrinhobastardo.Fê-lodeformaquenãootornasimpático–eque, afinal,emnadacontribuiuparafavorecerasuaprotegida. ForammuitososprotestoseosapelosdeD.Antóniocontraasentença do cardeal seu tio, que o mandava «perseguir como nunca fez a ninguém» 180 . E o papa, considerando que, para excluir o Prior da sucessão, era preciso mais do que aquilo que D. Henrique tinha feito, tentouavocaracausa,paraadecidir.Sóque,noentretanto,ocardeal-rei mandoureunircortesparaosváriospretendentesàsucessãodoreino fazeremvalerosseustítulos–eparaelasnãoconvocouoPriordoCrato. Logo a seguir morreu, deixando a sua sucessão entregue aos governadores que nomeara para administrarem o reino enquanto um novoreinãofosseaclamado. AverdadeéqueaprotecçãoqueopapamanifestamentedavaaoPrior doCratoamedrontouFilipeII,que,pararesolverdeumavezportodasa sucessãodosreinosesenhoriosdePortugal,deliberouapoderar-sede Portugalmanumilitari,mandandoassuastropasàconquistadeLisboa.E explicouquesórecorriaàforçaporqueopapasetinhaintrometidono pleitosobrealegitimidadedeD.António,«omaispopulardetodosos pretendentes» 181 . Quando se deu a invasão espanhola, o Prior do Crato, que tentara debaldealcançardeFilipeIIotítulodegovernadorperpétuodePortugal esóaspiravaagoraaserdeclaradodefensoreregedordoreino,comoo Mestre de Avis o fora em 1383, viu-se de repente aclamado rei de Portugal pelos moradores de Santarém. E partiu ao encontro dos invasorescastelhanos,queoduquedeAlbacomandava. Os dois exércitos enfrentaram-se na batalha de Alcântara, a 25 de Agosto.Feridoederrotado,D.Antónioabandonouacapital(ondeopovo tambémoaclamaracomorei)erefugiou-seemCoimbra,dondepartiuà conquistadeAveiroe,aseguir,doPorto.FoialiqueastropasdeSancho deÁvila,oRaiodaGuerra,estiveramprestesadetê-lo.MasoPriordo Cratoconseguiumaisumavezescapar,destafeitaparaBraga.E,depois, durantemeses,erroupelopaís,«mudandodepousadasemcessar» 182 , atéembarcaremSetúbalnumbarcoenviadopeloreideFrança,acuja
protecçãoseacolheu.FoiistoemJunhode1581.
ComaajudadeHenriqueIII,reideFrança,aquemprometeuentregar o Brasil, realizou um ano depois uma expedição aos Açores, que se mantinhamfiéisàsuarealeza.Masaesquadrafrancesa,queFilipeStrozzi comandava, foi derrotada pelos espanhóis na batalha de Vila Franca
(Junho de 1582). D. António regressou então a França, congeminando novas formas de recuperar o que dizia ser o seu reino. Para o efeito, solicitou a ajuda da rainha Isabel de Inglaterra – que se dispôs a conceder-lho,querendovingar-sedoReiCatólicoquemandaracontraela a Invencível Armada. Uma esquadra, comandada pelo famoso Francis Drake,foiassimencarregadadelevarD.AntónioaPortugal.OPriordo
CratodesembarcoucomasuagenteemPeniche,a16deMaiode1589,
sendotriunfalmenteacolhido.ElogomarchousobreLisboa,chegandoàs Portas de Santa Catarina. Tentou o assalto à cidade, mas foi repelido. Derrotado,regressouaInglaterra–onde,nosmesesseguintes,passouas maioresprivações,«havendodiasemquesealimentavaunicamentede pão e água, e ficando muitas vezes os seus criados quatro dias sem comer» 183 . Masnãodesistiudosseusintentos,empenhando-senapreparaçãode umanovaexpediçãoque,contandocomoapoiodoreiHenriqueIV,de França,darainhadeInglaterraedoimperadordeMarrocos,haviadelhe devolveracoroaeoreinoqueafirmavaseremseus.Paraoefeito,trocou a Inglaterra pela França e voltou a estabelecer-se em Reuil, onde já residiraanosantes,aliedificandoumaigrejadedicadaaSãoPedroeSão Paulo, que ainda hoje existe. Foi naquela cidadezinha situada nos arredores de Paris que D. António, o Prior do Crato, morreu a 26 de Agosto de 1595, deixando vários filhos – todos nascidos de aventuras galantes,umavezquenuncacasou. Falou-se,éverdade,numcasamentocomD.FilipadePortugal,irmã daquelecondedeVimiosoquefoiomaisdevotadodosseusapoiantes.E D.Antóniotambémteráponderadocasarcomumadasfilhasdosduques deBragança,«comopartedopactoquecomelesquisrealizar» 184 .Mas nenhumdessescasamentosveioaefeito.Ocelibatoera,aliás,umadas obrigaçõesdoscavaleirosdeMalta.
QuantoaosbastardosdoPriordoCrato,forameles,pelomenos:(1)D.
ManueldePortugal,oprimogénito;(2)D.CristóvãodePortugal,nascido
emTângerporAbrilde1573;(3)D.DinisdePortugal,mongedeCisterno
MosteirodeValbuena;(4)D.JoãodePortugal,que«morreumoço,sem
estado»;(5)D.FilipadePortugal,quefoifreiraemLorvãoe,depois,em
Ávila; e (6) D. Luísa de Portugal, que foi freira em Tordesilhas, onde também professaram mais duas filhas de D. António, cujos nomes se desconhecem. Detodosestesfilhos,sóD.Manuelcasou–comaprincesaEmíliade
Nassau, uma protestante fervorosa, filha de Guilherme de Orange, o Taciturno. Deste casamento, que a família da noiva contrariou quanto
pôdeefoicelebradoemgrandesegredonodia17deNovembrode1597,
nasceramoitofilhos.Asaber:(1)D.MariaBélgicadePortugal,quecasou
comJohannDietrichvonCroll;(2)D.ManueldePortugal,quecasoucom
a condessa Joana de Hanau-Müzenberg; (3) D. Luís Guilherme de
Portugal, 1.º marquês de Trancoso, por obra e graça de Filipe IV, que casou com Anna Maria di Capece-Galeoti; e (4) D. Maurícia Leonor de
Portugal,quecasoucomopríncipeGeorgFriedrichLudwigdeNassau-
Siegen; (5) D. Emília Luísa de Portugal; (6) D. Ana Luísa Frísia de
Portugal;(7)D.JulianaCatarinadePortugal;e(8)D.SabinadePortugal.
Foramelesquegeraramacopiosadescendênciaaindahojeexistente doPriordoCrato.Mas,curiosamente,nenhumdessesdescendentestema nacionalidadeportuguesa.
D.Manuelacabouporseseparardamulherem1625.Emíliaretirou-se
para Genebra, onde morreu em 1629; e o bastardo de D. António estabeleceu-seemBruxelas,«umadasmaismaçadorascortesdaEuropa doséculoXVII»,ondeveioacasarcomLuísaOsório,umadamaespanhola de quem não teve filhos. Morreu em 1626, com 70 anos de idade, deixandonoestrangeiroumadescendênciaquechegouaosdiasdehoje.
164Cf.ViscondedeFaria,DéscendancedeD.Antonio,PrieurdeCrato,XVIIIroidePortugal(Livorno:
RaphaelGiusti,1909).
165JoaquimVeríssimoSerrão,OreinadodeD.António,PriordoCrato(Coimbra:1956),p.LXIII.
166ErnestodeCamposdeAndrada(org.),RelaçõesdePêrodeAlcáçovaCarneiro (Lisboa:Imprensa
Nacional,1937),p.319.
167JosédeCastro,OPriordoCrato(Lisboa:UniãoGráfica,1942),p.31.
168MariadoRosáriodeSampaioTemudoBarata,AsRegênciasnamenoridadedeDomSebastião
(Lisboa:ImprensaNacional/CasadaMoeda,1992),vol.II,p.150.
169JosédeCastro,OPriordoCrato(Lisboa:UniãoGráfica,1942),p.18.
170QueirozVeloso,D.Sebastião(Lisboa:EmpresaNacionaldePublicidade,1935),p.71.
171JosédeCastro,OPriordoCrato(Lisboa:UniãoGráfica,1942),p.29.
172Idem,ibidem,p.30.
173Idem,ibidem,p31.
174TodosospretendenteseramnetosdeD.Manuel,comexcepçãododuquedeParma,queeraseu
bisneto,e,éclaro,deCatarinadeMédicis,cujos«direitos»sefundavamnofactodeoconde
D.Henriqueserfrancês.
175JosédeCastro,OPriordoCrato(Lisboa:UniãoGráfica,1942),p.39.
176Idem,ibidem,p.41.
177Idem,ibidem,p.42.
178Idem,ibidem,pp.51-54.
179JoaquimVeríssimoSerrão,OreinadodeD.António,PriordoCrato(Coimbra:1956),p.LV.
180JosédeCastro,OPriordoCrato(Lisboa:UniãoGráfica,1942),p.91.
181Idem,ibidem,p.112.
182DamiãoPeres,1580–OGovernodoPriordoCrato(Barcelos:CompanhiaEditoradoMinho,
1928),p.101.
183FredericoFranciscodelaFiganière,CatalogodosmanuscriptosportuguezesexistentesnoMuseo
Britannico(Lisboa:ImprensaNacional,1853),p.13.
184CésardaSilva,OPriordoCratoeasuaépoca(Lisboa:JoãoRomanoTorres,s/d),p.264.
III
OsbastardosdosFilipes
OSBASTARDOSDOREIPRUDENTE
D ostrêsFilipesdeEspanhaquereinaramemPortugal,sódosegundo
– que era, como se sabe, o terceiro – não se conhecem amantes nem bastardos.Oprimeiro,aquealgunschamaram,noseutempo,o«filhoda portuguesa», teve várias aventuras extraconjugais, das quais terão nascidofilhosilegítimos.Edoterceiro,FilipeIV,diz-sequetevedezenas deamanteseaindamaisbastardos… FilhodoimperadorCarlosVedaimperatrizIsabeldePortugal,Filipe II,oprimeirodonomeareinaremPortugal,eravirgem–oudiziasê-lo–
quandocasou,em1543,comD.MariadePortugal,suaprimaco-irmã,
filhadeD.JoãoIIIedeD.CatarinadeÁustria.Tinha,então,16anosde
idade.Mas,emValladolid,muitosdiziamqueestavasecretamentecasado comD.IsabeldeOsorioyVelasco,damadaimperatrizsuamãee,depois, dainfantaD.Joana,suairmã,quehá-decasaremPortugalcomopaideD. Sebastião. GuilhermedeOrange,nasuaApologia, não hesitou em afirmar esse casamento,paramelhoracusardebigamiaoherdeirodeCarlosV.E,ao queparece,aprópriadamaoterádeclaradoaalgumaspessoas–embora CabreradeCórdoba,historiador,garantaqueporessaalturajáelatinha
perdidoarazão 185 . Emtodoocaso,hojeprevaleceaopiniãodequeestaIsabelfoi–como asseguraManuelFernándezAlvarez,umdosmaisautorizadosbiógrafos doreiPrudente–ograndeamordavidadeFilipeII 186 .Edesseamor terão nascido dois filhos: Pedro e Bernardino de Osorio y Velasco, havidosentre1552e1554masnuncareconhecidospelopai 187 . OromanceteráterminadoquandoFilipeIIpartiuparaInglaterra,em
Julhode1554,paracasarcomarainhaMariaTudor,suasegundamulher,
entrandoIsabelOsorioparaumconvento,onde«morreusantamente» 188 . Fala-setambémdeumaaventuracomCatalinaLénez,filhadeumdos seussecretários.TeriaocorridologoapósamortedainfantaD.Maria,em
1545,edelaterianascidoumafilhabastarda.Umaoutrateránascidodas
relaçõesdoreiPrudentecomumaElenaZapata,quetambémconheceu depoisdamortedesuaprimeiramulher.Mas,aseremverdadeirasestas histórias,apaixãodeFilipeIIporIsabelOsorionãoseriatãoassolapada comoalgunsqueremfazercrer. Apósamortedesuasegundamulher–eantesdoseucasamentocoma terceira,IsabeldeValois–,FilipeIIterátidoumromancecomEufrásiade Guzmán, dama de D. Joana de Áustria. Dessa aventura terá nascido
AntónioLuísdeLeyvaydeGuzmán,4.ºpríncipedeÁscoliemarquêsde
Atela. Finalmente,deumromancemuitofalado,masnuncaprovado,coma princesadeÉboli,mulherdoportuguêsRuiGomesdaSilva,umdosmais escutadosconselheiroseporventuraoamigomaispróximodeFilipeII
(seéqueoreiteveamigos),teránascidoRodrigodeSilvayMendoza,2.º
duquedePastrana,quehaveriadeparticiparnainvasãodePortugal,em
1580 189 .
Há ainda quem atribua a Filipe II a paternidade de Gregorio López
(1542-1596),umdoseremitasmaisfamososdaNovaEspanhanoséculo
XVI.AntesdechegaraoMéxico,em1562,foipajemdoreiPrudente.Mas
dizia-sequeeraseufilho.Morreuemodordesantidade.
Averdade,porém,équedasamantesedosbastardosdoreinãohá
maisdoquerumores,suspeitas,insinuações–enenhumaprova.Épor
issoindispensável,nestamatéria,sertãoprudentecomosedizqueFilipe
IIoeraemtodasasoutras.
185PeterPierson,FelipeIIdeEspaña(México:FondodeCulturaEconomica,1984),p.66.
186ManuelFernándezAlvarez,FelipeIIysutiempo(Madrid:Espasa-Calpe,1998),pp.735ss.
187ManuelLacarta,FelipeII–LaintimidaddelReyPrudente(Madrid:Alderabán,1996),pp.52-3.
188CarlosFisas,HistoriasdelasReinasdeEspaña–LaCasadeAustria(Barcelona:Planeta,1998).
p.54.Mas,em1557,FilipeconcedeuaIsabeldoismilhõesdemaravedis,quelhepermitiram
compraroslugaresdeSadañuela,pertodeBurgos,eCastelbarracín.V.ManuelFernándezAlvarez,
FelipeIIysutiempo(Madrid:Espasa-Calpe,1998),p.738.
189GeoffreyParker,FelipeII(Barcelona:Planeta,2010),p.675,quealiásnãodácréditoaesta
informação.
OSBASTARDOSDOREIPASMADO
O Rei Planeta (ou o Rei Pasmado, como quer Gonzalo Torrente
Ballester),FilipeIV,terceiroeúltimodonomeareinaremPortugal,teve duas mulheres e 13 filhos legítimos. Mas, segundo historiadores insuspeitos, terá tido também mais de 50 amantes conhecidas e um número de filhos bastardos sobre o qual os historiadores não se conseguempôrdeacordo.Háquemfaleemmaisdeseisdezenas 190 .Mas
AlbertoRisco,seubiógrafo,asseguraqueeram«tansolo»23…
Quanto às amantes, «depois que el-rei delas se enfastiava», eram convidadasaentraremreligião,ondeterminavamorestodosseusdias. Conta-se, aliás, que uma formosa e irreverente dama da corte teria resistido às investidas do rei de Espanha dizendo-lhe: «Perdoai-me, Majestade,masnãotenhovocaçãodefreira»… 191 Dosfilhosilegítimosconhecem-se,entreoutros,osnomesdeFernando
FranciscoIsidrodeÁustria,queterásidooprimeiro,havidoem1626de
Maria,filhadocondedeChirel,quemorreuem1634efoienterradono
Escorial (o que corresponde a um reconhecimento implícito); Alonso AntoniodeSanMartin,bispodeOviedoedeCuenca,havidodeTomasa Aldana, dama da rainha; Carlos (ou Fernando) Valdés, general de artilhariaegovernadordeNovara,havidodeAnaMariadeUribeondo; CarlosdeÁustria,nascidodemãedesconhecida;FreiJoãodoSacramento, também chamado Juan Cossio, frade agostinho e célebre pregador,
nascidoem1629dosamoresdeFilipeIVcomMariaTeresaAldana;ou
AnaMargaridadeÁustria,«bastardasereníssima»,havidaem1632de
Margherita de l’Escala, que tomou em religião o nome de Soror Ana MargaridadeSãoJosé.Quandoestaprofessou,FilipeIVteráexplicado:
«Pareceu-mejustodarestaprendaaDeusjáqueoofendiquandomadeu […]» 192 Alonso Enríquez de Guzmán y Orozco é suposto ser outro dos bastardosdeFilipeIV,nascidodosamoresdomonarcacomacondessa deCastronovo.Quandoestaficougrávida,foiapressadamentecelebrado
oseucasamentocomomarquêsdeQuintana–queparaissorecebeu bomdinheiro. Nascidosetemesesdepoisdocasamentodesuamãe,perdeuo«pai» pouco depois. E aos três anos de idade ficou órfão de mãe. Esteve entregueaoscuidadosdosavósmasacabouporsercriadoporumtio, FreiAntonioEnríquezdePorres,bispodeMálagaevice-reideAragão. Filipe IV favoreceu-o muito. Mas o bastardo, frade dominicano, que tomouemreligiãoonomedeFreiAfonsodeSãoTomásetambémfoi bispodeMálaga,sempreserecusouaserconsideradoumbastardoreal, negando que Filipe IV fosse seu pai. E a verdade é que ele nunca o reconheceu. OúnicodosfilhosilegítimosqueoreireconheceufoiD.JoãoJoséde Áustria, que Filipe IV disse ter sido produzido pelos descuidos da sua mocidade.AmãedorealbastardofoiMariadeCalderón,La Calderona, uma das mais famosas actrizes espanholas daquele tempo – que se retirouparaumconventoapósonascimentodoseufilho. Este veio ao mundo no dia 7 de Abril de 1629, em Madrid, e foi registado como «filho da terra». Entregue aos cuidados de Pedro de Velasco, conselheiro da Fazenda, foi educado com esmero em Leão e,
depois,emOcaña(Toledo).Em1642,FilipeIVreconheceu-ooficialmente
como seu filho e preparou as coisas para lhe assegurar um futuro condigno.ComeçouporlhedaroPrioradodaReligiãodeSãoJoãonos reinosdeCastelaeLeão,aqueacrescentou,comoseaindareinasseem Portugal,ostítulosdePriordoCratoecomendadordeAlcobaça… Depois, em 1647, fê-lo Príncipe do Mar, confiando-lhe, assim, «o governo geral de todas as forças marítimas de galeras, navios de alto bordoeoutrasquaisquerembarcações,ordináriaseextraordináriasque em qualquer parte se juntarem, sem excepção alguma» 193 . E foi nessa qualidadequeajudouadominararevoltadeNápoles.Umanodepois,foi
nomeadovice-reidaSicília,nessasfunçõessemantendoaté1651.Em
1653,foidesignadovice-reidaCatalunha,paraconcluirasuapacificação,
e,em1656,governadordosPaísesBaixos,queestavamemrevoltaaberta
contraoreideEspanha. Cinco anos depois, Filipe IV, seu pai, julgou estarem, finalmente, reunidasascondições–políticas,diplomáticas,militares–parapartirà reconquista de Portugal. E dessa empresa encarregou o bastardo real, quefoinomeadocapitão-generaldaConquistadoReinodePortugal.João JosédeÁustrianãorejubiloucomanomeação,muitopelocontrário.No
entanto,cumpriuasordensdeseupai–ecomandouduascampanhas,a
de1661eade1662,emqueobtevealgunssucessos.Mas,nacampanha
de1663,foicompletamentederrotadonabatalhadoAmeixial,«deixando
no campo de batalha mais de 4000 mortos, 6000 prisioneiros, toda a
artilharia e consideráveis despojos» 194 . Foi o próprio bastardo que, assumindotodasasresponsabilidadespelodesastre(queosseusmuitos pecados explicariam…), deu a notícia ao pai: «Facilmente acreditará VossaMajestadequepreferiatermorridomilvezesaver-meobrigadoa dizer a Vossa Majestade que os seus exércitos foram infamemente derrotadospelosinimigos[…]» 195
Tentou,logodepois,regressaràcortedeMadrideserinvestidonum
lugarcomrelevânciapolítica.FilipeIVnãolhedeferiuorequerimento,
obrigando-oaregressaràguerradePortugal–onde,em1664,astropas
espanholas tornaram a ser esmagadas. De volta a Espanha, D. João de
ÁustriafoiconvidadoaaceitaroarcebispadodeToledo,queolevariaao cardinalatoeaocargodeinquisidor-geral.Recusou,insistindoemobter do pai outros lugares e regalias. Filipe IV irritou-se com o bastardo. E
quando,jámoribundo,foiinformadodequeofilhooqueriaver,proibiu-
lheaentradanoquarto.
A verdade, porém, é que o rei de Espanha não esqueceu, no seu
testamento,ofilhoadulterino.E,aomesmotempoqueinvestiaarainha viúva na regência de Espanha (dada a menoridade do seu herdeiro, o jovemeenfermiçoCarlosII),pedia-lhequeamparasseefavorecesseD. João,servindo-sedeleedando-lheonecessárioparaviver«conformea
suaqualidade» 196 .NadaestavamaislongedospropósitosdeD.Mariana
deÁustria,quenuncacompreenderanemaceitaraasatenções,ashonras eosprivilégiosqueseumaridoconcederaaobastardo. D.Joãotornou-seentãoacabeçadaoposiçãoàrainha.Foramanosde intrigas,confrontos–eumgolpedeEstado,o«primeirogolpedeEstado da história de Espanha» que, se não deu a D. João o poder que ele ambicionavaemMadrid,obrigou,noentanto,arainhaanomeá-lovice-rei
ecapitão-generaldeAragão.FoiistoemJunhode1669.
O bastardo teve de esperar até Janeiro de 1677 para conquistar o
poderquerealmenteambicionava–odegovernaraEspanha,mesmoque fosseemnomedoreiseuirmão.Mas,doisanosdepois,oseugoverno, acolhido com esperança e aplauso, suscitava críticas e enfrentava oposições cada vez mais aguerridas. Para agravar a situação, D. João
adoeceu.E,emSetembrode1679,morreu.Tinha50anosdeidade.
Nuncacasou–emboranãolhetenhamfaltadonoivas.Ealgumasdelas eramportuguesas.Comefeito,osadeptosdoreiD.AfonsoVI,querendo restaurá-lo no trono português, de que fora despejado pelo irmão, pensaramqueoseupropósitoseriamaisbemalcançadose,aomesmo tempo,casassemD.JoãocomD.Maria,afilhabastardadeD.JoãoIV,que viviaenclausuradanoConventodeCarnide.
Mastambémhouve,antesde1661,aideiadeocasarcomD.Catarina
deBragança,afilhalegítimadeD.JoãoIVequefoirainhadeInglaterra. ComessecasamentocessariaaguerradaRestauração,estabelecendo-se
umatréguade20anos.D.JoãodeÁustriasubiriaaotronoportuguêscom
D.Catarina.ED.JoãoIVpassariaaoBrasil.Semsurpresa,osautoresdeste mirabolanteplanoeramministrosdeFilipeIV,reideEspanha 197 . Finalmente,onomedeD.Joãofoiinscritonoroldospossíveismaridos daprincesaD.IsabelLuísaJosefa,afilhadeD.PedroII,quandosetratou doseucasamento.Dessalistafaziamaindapartedoisreis–CarlosIIde EspanhaeLuísXIVdeFrança–,váriospríncipesfranceses,italianose germânicos,eumfilhodoreidaPolónia.Masaprincesa,tambémela, acabousolteira. Nuncatendocasado,D.JoãoJosédeÁustriadeixou,noentanto,uma filha:SororMargaridadaCruzdeÁustria,havidadeumadasfilhas(oude uma das sobrinhas) do pintor José de Ribera, que seduziu e raptou, causandocomissograndeescândaloemNápoles,ondeoartistavivia.
Malnasceu,em1650,naSicília,MargaridadaCruzfoitiradaàmãee
entregueaoscuidadosdocondedeEril,paraqueacriasse.Aofazerseis
anos,ingressounoConventodasDescalçasReais,ondeprofessou(aos16
anos)emorreu30anosdepois 198 . Mas Soror Margarida de Áustria pode não ter sido a única filha ilegítimadeD.JoãodeÁustria,oMoço(poroposiçãoaD.JoãodeÁustria, o Velho, bastardo do imperador Carlos V). Com efeito, há autores que referemaexistênciademaisduasfilhasbastardas,nascidasdepoisde Margarida.Comoela,ambasforamfreiras.
190IgnacioRuizRodriguez,DonJuanJosédeAustriaenlamonarquíahispánica:entrelapolitica,el
poderylaintriga(Madrid:LibrosDykinson,2007),p.30.
191AydanoRoriz,VanDorth(RiodeJaneiro:Ediouro,2006),p.62.
192Cf.AntóniodeOliveira,FilipeIII(Lisboa:CírculodeLeitores,2008),p.117.
193Cf.JoséCalvoPoyato,JuanJosédeAustria(Barcelona:Debolsillo,2003),p.30.
194JoaquimVeríssimoSerrão,«JoãoJosédeÁustria»,inDicionáriodaHistóriadePortugal(Porto:
LivrariaFigueirinhas,1990),vol.III,p.405.
195JoséCalvoPoyato,JuanJosédeAustria(Barcelona:Debolsillo,2003),p.93.
196Cf.Idem,ibidem,pp.103ss.
197AugustoCasimiro,DonaCatarinadeBragança–RainhadeInglaterra,FilhadePortugal(Lisboa:
FundaçãodaCasadeBragança/PortugáliaEditora,1956),p.49.
198JoséCalvoPoyato,JuanJosédeAustria(Barcelona:Debolsillo,2003),p.40.
IV
OsbastardosdeBragança
ABASTARDADORESTAURADOR
N ascidoem1604,D.JoãoIV,oprimeiroreidoPortugalrestaurado,
casou, em 1633, com D. Luísa de Gusmão, filha do duque de Medina
Sidónia.D.Joãoera,então,o8.ºduquedeBragançaevivianoseupaçode
VilaViçosa.Tinhafama(eproveito)demulherengo.Gostavasobretudo demulheresdopovo–edelascontinuouagostarmesmodepoisdesubir
aotrono,a1deDezembrode1640.Masissonãoimpediuque,doseu
casamento, nascessem sete filhos legítimos, dos quais apenas três
sobreviveramaseupai,falecidoem1656:D.Catarina,quefoirainhade
Inglaterra,eD.AfonsoVIeD.PedroII,queforamreisdePortugal. JáasváriasaventurasextraconjugaisqueD.Joãoterátidonãoderam, que se saiba, muitos frutos. Só se lhe conhece, com efeito, uma filha bastarda: D. Maria, havida de uma «mulher limpa» que era criada de varrernopaço.
Nascidaa30deAbrilde1644,D.Mariafoilogoretiradaasuamãe(que
ingressounoConventodeChelas,tomandoonomedeMariadeSãoJoão Baptista) e entregue aos cuidados do secretário de Estado, António Cavide,que,segundoCamilo,erao«medianeirodosamoresilícitosdo monarca» e que foi encarregado de criar a bastarda. Esta entrou, em 1650, com seis anos de idade, no Convento de Santa Teresa, das CarmelitasDescalças,emCarnide,parasereducadapelasuafundadora– Madre Micaela Margarida de Santa Ana, filha bastarda de Matias de Habsburgo,imperadordaAlemanha. D.JoãoIVapenasnoseutestamentoreconheceuD.Mariacomofilha, fazendo-lhe várias doações, que a rainha viúva, regente do reino, se apressouaconfirmar:acomendamaiordaOrdemdeSantiago,asvilasde
TorresVedras,Colares,AzinhagaeCartaxo,bemcomo50milcruzados
em dinheiro, para «compor a sua casa» 199 . E só lhe dirigiu a palavra quandojáestavamoribundo,escrevendo-lheumacartaquelevouadata
de4deNovembrode1656erezavaassim:«Minhafilha,foiDeusservido
queaprimeiravezquetendescartaminhasejadespedindo-medevós,
dando-vosaminhabênçãoacompanhadadeDeusquefiqueconvosco,e lembrai-vossempredemimcomoeuofiodevós» 200 . Há-de ter sido depois da morte do pai que seus irmãos passaram a visitá-laeacorresponder-secomela.D.CatarinadeBragançavisitou-a
váriasvezes(antes,evidentemente,decasarcomCarlosII,em1661)e,de
Londres, escreveu-lhe várias cartas – posto haja indicações de que a primeirareacção,aosaberdaexistênciadeumafilhanaturaldeseupai, nãoterásidoamelhor.É,pelomenos,oquedáaentenderoduquede CadavalnumacartaàrainhaMariaSofiadeNeuburgo,emquetratado casamentodoseufilhocomD.Luísa,abastardadeD.PedroII 201 . Este sempre se preocupou muito com sua meia-irmã, que o considerava,aliás,todooseuamparoetodooseubem,nafaltadoreiseu pai – como lhe escreveu em 1682. E, em 1691, no seu testamento, D. Maria–aquemacortedavatratamentodeAlteza–nãoseesqueceude pedirdesculpaaoirmãode«todasasmoléstiasquelhehouvercausado» eagradecer«osfavoresquesemprereceb[eu]dasuagrandeza» 202 . De facto,D.Pedro–asseguraPauloDrummondBraga–«nuncadeixoude procurarque[D.Maria]vivessedamelhorformapossível» 203 . Mas,estandonesseConventodeCarnide,ondepassouamaiorparteda sua vida, usando um hábito de «matéria mais fina que o das outras freiras» 204 ,D.Maria–chamadaporissoD.MariadeCarnide 205 , posto preferisse o nome de Maria Josefa de Santa Teresa – foi falada para resolveralgumasdasmagnasquestõesquepreocupavam,naqueletempo, acorteeopaís.
Comefeito,em1673,algunsadeptosdeD.AfonsoVIconspirarampara
orestaurarnotrono,dequeeleforadespejadoporseuirmãoD.Pedro, queentãogovernavaoreinocomotítulodePríncipeRegente.E,paradar maisforçaàconspiração,pensaramemcasaroreidepostocomarainha viúvadeEspanha,mãedeCarlosIII–casandoaomesmotempoD.Maria comD.JoãoJosédeÁustria,obastardodeFilipeIV,comojáatrássedisse. Mas a conjura foi descoberta e muitos dos conjurados, fidalgos e eclesiásticosforampresosporD.Pedro,quemandoulogoaseguirreunir cortes com o propósito de jurar sua única filha, D. Isabel Luísa Josefa, comoherdeiradacoroa 206 . Nessas cortes, o nome de D. Maria voltou a ser falado e o seu casamentovoltouaserdiscutido.Destafeita,porém,oqueimportavaera evitarqueaherdeiradacoroa,D.IsabelLuísaJosefa,secasassecomum príncipe estrangeiro (como esteve prestes a suceder). Mas, como não
havia em Portugal quem fosse digno de casar com a princesa, tiveram alguns a luminosa ideia, «atribuída aos procuradores dos povos», de proporqueD.MariacasassecomoduquedeCadaval 207 –eofilhoque haveriadenascerdessecasamentofossedestinadoacasarcomD.Isabel LuísaJosefa. Estaabsurdacongeminação,queoPadreAntónioVieiradefendeu 208 , foievidentementepostadeparte.ED.Mariacontinuou,atémorrer,noiva (ouesposa)doSenhor.Como,aliás,desejava.Quandoahipótesedecasar comoduquedeCadavallhefoiposta,D.Mariadeclarouquenãosairiada clausura«senãoempostasatomaroutroesposo,porquejáotinhahá muitotempo»… 209 Não era provavelmente essa a vontade do rei seu pai, que, no seu testamento,diztertratadocomAntónioCavidede«algunsintentos»que tevequantoao«modoeestadoqueelahouverdetomar» 210 .Edeixou-lhe umarendaanualdedoismilcruzadosatéelacasar. D.Mariapreferiu,porém,conservar-senoconvento.«Paraserviçoda religião, assistia às enfermas, preparava-lhes a comida, sujeitando-se a serviços os mais ínfimos; rezava com as religiosas no coro os ofícios divinos;comianorefeitóriocomumcomasfreiras,exerciamortificações comelas,duranteacomidaiasubstituirolugardeleitoraparaestatomar arefeição» 211 .Nuncalargouohábito,nemquandofoiportrêsvezesa banhos,àsCaldasdaRainha. TambémnãoaceitouadignidadedecomendadeiradeSantos,quelhe foi oferecida, respondendo que D. Maria Josefa de Santa Teresa não deixaria o Convento de Santa Teresa, nem depois de morta. «Dava contínuas e avultadas esmolas, sensibilizando-se sempre muito e chorandocomasdesgraçaseinfelicidadesqueospobreslhecontavam nosseuspedidos» 212 . FundouaigrejadeSantaTeresadoscarmelitasdescalçosdeCarnide, principiada em 15 de Outubro de 1662 e concluída 15 anos depois, decorando-a com pinturas excelentes, alfaias custosas, uma preciosa custódia e uma lâmpada de prata. Nisso gastou mais de 210 000 cruzados. Em 1685, «deu principio à fundação do convento de S. João, de carmelitasdescalçosnolugardeCarnide».Aprimeirapedra,lançadacom grande pompa a 24 de Junho, tinha a seguinte inscrição: «Maria Filia Joannis IV, Lusitaniae Regis hoc edificavit Monasterium anno de 1685, regnante Petro ll, fratre suo amantissimo, et invictissimo.» Ou seja:
«Maria,filhadeJoãoIV,reidePortugal,aquiedificouomosteironoano
de1685,reinandoPedroII,seuirmãoamantíssimoeinvictíssimo».
Falecida a 6 de Fevereiro de 1693, «com fama de possuída pelo Demónio» 213 , deixou em testamento o padroado dos dois templos que mandaraedificaraoreiseuirmão,legandotodososseusbensaD.Luísa, filhadele–oquenãodeixoudesuscitarasqueixaseosprotestosdas religiosasdeChelas,querecorreramàjustiça 214 .Semnenhumsucesso, aoqueparece.
***
ParaalémdeD.Maria,D.JoãoIVpoderiatertidomaisumbastardo:
AfonsoFaião,quefoiabadedeBaltareantepassadodafamíliaLeitede Bragança,estabelecidaemCete.Algunsautores(TeixeiradeVasconcelos, CamiloCasteloBranco)pareceramdefenderestatese,quefoicontrariada depoisporquemsustentava,emPortugalmastambémnoBrasil,queo abade era afinal irmão do rei Restaurador – já que nascera de uma
aventuragalantedeseupai,D.Teodósio,7.ºduquedeBragança.
Para defender a paternidade de D. Teodósio, abonaram-se esses autores em cartas de brasão oitocentistas, que muitos genealogistas consideramtradicionalmentepoucorigorosas.Aesterespeito,Felgueiras Gayo–umaautoridadegeralmenteacatadanestasmatérias–escreveque «haveria alguma afectação quando se forjarão estes papeis pois nunca topei esta Linha e não era natural q sendo assim a não tratassem os Genealogicos» 215 . Quer dizer: Afonso Faião, ou melhor, Pedro Afonso
Faião,nascidoemVilaViçosaefalecidoa3deOutubrode1622,nãoseria
nemfilhonemirmãodeD.JoãoIV,masumclérigocujosdescendentes resolveramacertaalturaquepertenciam,emboraporínviasvias,àcasa realportuguesa. Com efeito, o abade de Baltar, ofendendo, pelo menos, o sexto mandamentodaLeideDeus,tevedoisfilhos:LeonorePauloFaião.Deste nadamaissesoube.MasLeonorcasoueteveoitofilhos,quepreferiramo apelido da mãe ao do pai, Paulo Nogueira. Ora, um dos bisnetos da bastarda do abade – Hipólito de Meireles Afonso Faião (1695-1775), fidalgo-cavaleiro da Casa Real com 1.600 réis de moradia (alvará de 24.1.1715); fidalgo de cota de armas (Carta de Brasão de Armas de 18.5.1734); cavaleiro da Ordem de Cristo; e senhor da Casa de Cete – resolveuqueosfilhosnascidosdoseucasamentocomMargaridaIsabel
Leite Correia usariam o nome de Bragança. Todos passaram assim a ostentaresseapelido,quepassoudepaisparafilhosechegouaosdiasde hoje,sendoemmuitoscasosoúnicoqueusam,nãoobstanteasmuitas dúvidasquehásobreodireitoquetêmdeofazer. Uma coisa é certa, porém: os chamados Braganças do Minho são descendentessemnenhumadúvidadosreisdePortugal,jáqueamulher daquele Hipólito Faião que lhes deu o seu actual apelido tinha por antepassadosD.TeresaSanches,bastardadeD.SanchoI,eAfonsoDinis, bastardodeD.AfonsoIII.
199AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.VII,p.143.
200CamiloCasteloBranco,ORegicida(Lisboa:CompanhiaEditoradePublicaçõesIlustradas,s/d).
201JoanaAlmeidaTroni,CatarinadeBragança(Lisboa:Colibri,2008),p.229.
202PauloDrummondBraga,D.PedroII(Lisboa:TribunadaHistória,2006),p.137.
203Idem,ibidem,p.212.
204CamiloCasteloBranco,ORegicida(Lisboa:CompanhiaEditoradePublicaçõesIlustradas,s/d),
p.254.
205D.LuísdaCunha,InstruçõesPolíticas(Lisboa:ComissãoNacionalparaaComemoraçãodos
DescobrimentosPortugueses,2001),p.226.
206AntónioÁlvaroDória,ARainhaD.MariaFranciscadeSabóia(Porto:LivrariaCivilização,1944),
pp.296-300.
207Cf.ManuscritosdoFondPortugaisdaBibliotecaNacionaldeFrança(Lisboa:CNCDP/Centrode
EstudosDamiãodeGóis,2001),p.102.
208AntónioVieira,ObrasEscolhidas,vol.II–Cartas/II(Lisboa:LivrariaSádaCostaEditora,1997),
p.8.
209CamiloCasteloBranco,ORegicida(Lisboa:CompanhiaEditoradePublicaçõesIlustradas,s/d),
p.254.
210Cf.AntónioCaetanodeSousa,ProvasdaHistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:
Atlântida,1946),T.IV,p.770.
211http://www.arqnet.pt/dicionario/maria_inf10.html
212Idem.
213PauloDrummondBraga,D.PedroII(Lisboa:TribunadaHistória,2006),p.137.
214Cf.ManuscritosdoFondPortugaisdaBibliotecaNacionaldeFrança(Lisboa:CNCDP/Centrode
EstudosDamiãodeGóis,2001),p.123.
215FelgueirasGayo,NobiliáriodasFamíliasdePortugal(Braga:CarvalhosdeBasto,1989),vol.V,
p.155.
OSBASTARDOSDED.PEDROII
A poucadodecorpoedeespírito,D.AfonsoVI,oinfelizherdeirodorei
Restaurador,nãotevefilhos,legítimosouilegítimos,maugradoosmuitos masinúteisesforçosparaoster.ÉverdadequeCamiloCasteloBranco,ao publicar a Vida d’El-Rei D. Afonso VI, Escrita no Ano de 1684, veio sustentarqueosucessordeD.JoãoIVconseguiuterumafilhabastarda deCatarinaArraisdeMendonça,quefoi«levadaàsuacâmarapormeios ilícitoseardilosos». Essacriança–que,naprodigiosaimaginaçãodeCamilo,haveriadeser avódeumadasamásiasdoreiD.Miguel,D.MarianaJoaquinaFranchiosi RolimdePortugal–provariaqueomonarcaera,afinal,capazdeprocriar, ao contrário do que ficou estabelecido na sentença que anulou o seu casamentocomD.MariaFranciscaIsabeldeSabóia,futuramulherdeseu irmãoD.Pedro. MasnãofoiporserumhistoriadorproboerigorosoqueCamiloocupa lugardedestaquenosanaisdaLiteraturaPortuguesa.E,comoescreve JoaquimVeríssimoSerrão,oprocessodenulidadedocasamentodeD. Afonso VI «contém matéria abundante para provar a incapacidade de assegurar a sucessão do Reino» 216 . O que não impediu os seus apaniguadosdelheatribuíremapaternidadedeoutrasbastardas,criada, uma,emcasadocondedeCasteloMelhor–edequenuncamaisseouviu falar–eoutranoConventodeOdivelas,porD.FelicianadeMilão,que tambémdesapareceudecena 217 . Pelo contrário, seu irmão, o rei D. Pedro II, demonstrou ampla capacidadedegarantirasuasucessãonasmuitasmulherescomquem conviveu.Levavaespecialmenteemgostoaquelasqueeramdeorigem mais humilde ou pele mais escura, posto também tivesse tido uma viscondessa por amante. Frequentava assiduamente casas de prostituição, onde (dizem) era famoso por pagar mal os serviços que recebia.Eteveváriosfilhos,legítimosounão. DoseuprimeirocasamentocomD.MariaFranciscaIsabeldeSabóia,
filha dos duques de Nemours, que fora mulher do rei seu irmão, teve
apenasumafilha:D.IsabelLuísaJosefa,aprincesaaquematribuíram17
pretendentes(alemães,italianos,franceses)masqueacaboupormorrer
solteira,aos21anosdeidade.
Doseusegundocasamento,comD.MariaSofiaIsabeldeNeuburgo,D. PedroII,oreiPacífico,tevesetefilhos,cincorapazeseduasraparigas.A
saber:(1)D.João,quemorreumenino;(2)D.João,segundodonome,que
foioherdeiroesucessordeseupai;(3)D.Francisco,homemmuitoricoe
muitofeio(porqueavaríolaoatacouquandotinhatrêsanos),quefoi duque de Beja e prior do Crato; (4) D. António, infante de carácter
«extravagante»,queviveuquasesemprelongedacorte;(5)D.Teresa,
que morreu de varicela, com oito anos de idade; (6) D. Manuel, de «espíritodestemidoeaventureiro»,queandoumuitosanosporvárias
cortesdaEuropa;e(7)D.Francisca,quetambémmorreumuitojovem.
Com excepção do herdeiro do trono, o futuro D. João V, todos morreramsolteirosesemdescendêncialegítima–emboraoinfanteD. FranciscotenhatidodoisfilhosdeD.MarianadeSousa,quefoifreiraem Sant’Ana,ondemorreuesmagadapelodesmoronamentodoseupróprio
quarto,noGrandeTerramotode1755.
EssesdoisfilhosforamD.PedroeD.JoãodaBemposta(«apelido»que opovolhespôs,porresidiremnoRealPaçodaBemposta,ouPaçoda Rainha,mandadoconstruirporD.CatarinadeBragança,quandovoltou
deInglaterra).D.Pedromorreuem1741,causandoasuamortegrande
afliçãoaoinfanteD.Francisco 218 .D.João,esse,legitimadoem1749,por
alvaráde26deMaio,fez«grandefigura»nacorteefoimuitofavorecido
dorei,quechegouapublicarumdecretodando-lheprecedênciasobre todos os títulos. Mas o duque de Lafões protestou e venceu 219 . Ainda assim, D. João foi conselheiro de Estado, mordomo-mor da rainha D. MariaIecapitão-generaldasArmadasReais.Casoucomaduquesade Abrantes,D.MariaMargaridadeLorena,dequemnãotevefilhos 220 . Há,noentanto,quemdigaqueesteD.JoãodaBempostaerafilho,não deD.MarianadeSousa,masdamulataIsabel,daGraça,cujosamores comD.FranciscoderambradoemLisboa. MasregressemosaD.PedroII,oPacífico,grandeamadorde«fêmeas de rebotalho», como escreveu Alberto Pimentel. Fora dos seus casamentos,são-lheconhecidas,pelomenos,seteamantes–etrêsfilhos ilegítimos,emborasesaibaqueonúmerodebastardosdeD.PedroIIfoi bem mais numeroso. Em 1678, por exemplo, o Padre António Vieira
noticiou,numadassuascartas,onascimentodeumbastardodeD.Pedro, «filhodeumalavadeira»;ocondedePovolide,porseuturno,referiu-sea umbastardoreal«decorparda,queéfrade» 221 ;eumfrancês,Téophile Daupineaut, garantiu que D. Pedro II tinha especial predilecção por mulheres pretas, delas havendo «vários filhos que teve o cuidado de mandaroportunamenteparaasÍndias[…]» 222 Trêsforamosbastardosreconhecidospelorei:D.Luísa,D.MigueleD. José.Amenina,queporexpressavontadedopairecebeuonomedaavó
materna,arainhaD.LuísadeGusmão,nasceua9deJaneirode1679,
numa«casajuntoaCorteReal»,emLisboa,frutodosamoresdeD.Pedro IIcomumamulherquesechamouMariadaCruzMascarenhas,depoisde seterchamadoMariaCarvalhas.Estaera,segundoocondedePovolide, «moçadevarrer,criadadeumadamadoPaço» 223 ,mastinhaumirmão
queeraFamiliardoSantoOfício.Contava23anosdeidadequandoafilha
nasceueacabourecolhidanoConventodeSantaMónica,«porordemde El-ReiNossoSenhor» 224 . Opartofoidifícileacriançaesteveàsportasdamorte,peloquefoi baptizada in periculo mortis por Francisco Correia de Lacerda, o secretário de Estado, «que, de cavaleiro casado e viúvo, se fez eclesiástico» 225 . Foi seu padrinho o duque de Cadaval, que seria mais tarde seu sogro. E esteve presente António do Prado, «Cirurgião da CâmaradeSuaAlteza». D.PedroIIapressou-seareconhecê-lanumadeclaraçãofeitadesua letra e sinal a 1 de Março de 1679, menos de dois meses depois do nascimentodaquelaqueeraasuafilhaprimogénita:«Declaroquehouve uma filha de mulher donzela e limpa de sangue, a qual ordenei chamassem Dona Luísa.» 226 E mandou que fosse criada em casa do secretáriodeEstado. Nodia seguintea esta declaração, quepermaneceusecreta, opadre Domingos do Vale, prior de São Nicolau e tesoureiro da capela de D. Pedro,ungiu-acom«ossantosóleos,debaixodonomedeenjeitada» 227 . AosoitoanosfoilevadaparaoConventodeCarnide,ondeestavasua tiaD.Maria,afilhabastardadeD.JoãoIV,cujoexemploera–comoD. PedroIIentãoescreveu–«omaiseficazditame»paraconduzirà«maior perfeição»dafilha 228 .Acartadomonarcaàsuameia-irmãtemadatade 21deFevereirode1687 229 . A legitimação de D. Luísa foi publicada por carta de 25 de Maio de 1691, no tempo da rainha alemã. E logo se começou a tratar do seu
casamento.Em1695,afilhadeD.Pedro,restabelecidadegravedoença,
casoucomD.LuísAmbrósiodeMelo,2.ºduquedeCadaval,quefaleceu
em1700,vítimadebexigasde«tãomáqualidade».
Doisanosdepois,queD.LuísapassounoPaláciodeCorteRealsem nunca dele sair, voltou a casar – com D. Jaime de Melo, 3.º duque de Cadavaleirmãodoseuprimeiromarido,queera«confidenteemuitas vezescompanheirodeprazeres»deD.JoãoV.Paraessecasamentose realizar (a 16 de Setembro de 1702) foi necessário obter a dispensa papal,concedidacontraoparecerexpressodoSantoOfício,emRoma.O papa cobrou, «a título de esmola», a quantia de «três mil escudos de moedaromana» 230 . D.Luísaocupoulugardedestaquenacortedeseupai,quelhemandou dar, aliás, o tratamento de Alteza mas nunca lhe concedeu o título de Infanta. Todas as questões protocolares relacionadas com a bastarda foram aliás objecto de minuciosas análises e demoradas discussões, mandando-secolhernoestrangeiroinformaçõesepareceres.AMadrid pediram-se,porexemplo,informaçõessobre«aformacomoD.Joãode Áustria [bastardo de Filipe IV] tratava os embaixadores» e em Paris recolheram-se,porintermédiodomarquêsdeCascais,notíciassobre«as formasdetratamentodosfilhosbastardos» 231 .
D.PedroIImorreua9deDezembrode1706e,noseutestamento,
recomendou aos filhos legítimos que honrassem a bastarda e a acrescentassemcommercês,«comopedemasobrigaçõesdesangueeas virtudesdeDonaLuísa». Opedidofoisatisfeito–eafilhaprimogénitadeD.PedroIIfoi«uma dasestrelasdacortedeD.JoãoV».Era«aSenhoraDonaLuísadeumaboa estatura, grossa, branca e loura, olhos azuis com formosura, e grande desembaraço; vestia com decência e não com excesso, entendimento varonil, com graça na conversação, explicando-se com palavras escolhidas,imitandoemtudooquepodiaserdecenteoReiseupai,a quememmuitascoisassepareceu,comgrandesatisfaçãosua,aténas forças,quedelasfezadmiráveisprovas,excedendoosanoseadelicadeza dosexo,admirandoaosmaisrobustos–doqueel-reigostavamuito.» 232 Mas, por 1722, «começaram os achaques a persegui-la com alguma hipocondria, de sorte que, sendo naturalmente alegre, a melancolia a entristecia,parecequeinspiradadomalquelhesobreveio».Poucotempo depoisdeseterconfessadonodiadaPorciúncula,«penetradadeuma vivaimaginação,começouapadeceroentendimentoenestainfelicidade
viveualgunsanos».
NumamanhãdeDezembrode1732acordou«embrulhadanumlençol,
deitada num ladrilho, e já com uma perna e um braço tolhidos e sem fala».Chamaram-seosmédicoseaplicaram-seremédios,masnãohouve
melhoras.Morreua23deDezembrode1732,emÉvora,com43anosde
idade,semseterconfessado,«porqueassimcomohaviaanosqueestava louca,assimmorreuesóselheassistiucomosacramentodaunção». Asuamortenãocausou,aoqueparece,grandedesgostoaomarido.À uma,eleerapessoaque«senãomaça[va]sejacomoquefor».E,àoutra, amortedesuamulherpermitiu-lherestabelecerasuacasa,queseperdia porfaltadesucessão 233 .Aindaassim,oduquedeCadavalquisenterrara mulhercomhonrasdealteza.Masnãolhefoiconsentidoqueofizesse.E ocorpodeD.LuísafoidepositadonojazigodosduquesdeCadaval,em Évora. Pelamortedairmã,D.JoãoVrecolheu-seportrêsdiasetomouluto por dois meses – o primeiro da capa comprida e o segundo de capa curta 234 .
***
AlémdeD.Luísa,reconheceuD.PedroIImaisdoisbastardos:D.Miguel
eD.José.Foiistoa19deSetembrode1704,naGuarda,quandoorei
Pacífico,«picadodaconsciênciaecomamorterodando» 235 , assinou a seguintedeclaração:
«Declaroqueforadomatrimóniotivedoisfilhosdemulheresdesobrigadase limpasdetodaanaçãoinfecta;umsechamaD.MigueleooutroD.José;ambosse criamemcasadeBartolomeudeSousaMexia.EncomendoaoPríncipequelhesdê aqueleestadoqueformaisconvenienteedecenteàssuasPessoas,comoaIrmãos seus, em que vivam com aquela abundância que não se vejam obrigados a
necessitardeoutraprotecção,maisquedasua.» 236
D.MiguelnasceuemLisboaa15deOutubrode1699,filhodeAnne
ArmandeduVergé,tambémconhecidaporArmandadeElvas,queera dama da rainha. Mas também era, como sua mãe, aliás, uma espia ao serviçodeLuísXIV,reideFrança,nacortedeLisboa.Eporissochegoua ser presa, no Recolhimento do Castelo, em Lisboa. Depois dos amores
com o rei, foi amante do abade de Estrées, embaixador de França em Lisboa, de quem também terá tido um filho, D. Pedro António d’Étré, d’Estrées ou d’Estreis, que «seguiu a carreira militar na marinha portuguesa»,chegandoacapitão-de-mar-e-guerra 237 .
D.José,porseuturno,nasceua6deMaiode1703,frutodarelaçãode
D. Pedro II com Francisca Clara da Silva, filha de um tanoeiro, que, segundoocondedePovolide,era«prezadadeformosa».Oreiconheceu-a quandoelafoicomamãeaopaçoqueixar-sedeumhomem«quelhenão queriacumprirapalavraquelhetinhadadodecasamento».Mas,escreve ocondedePovolide,aqueixapodenãoterpassadodeum«pretextopara seirmostraraEl-Rei[…]» 238 Osdoisbastardosforamcriados,incógnitos,emcasadeBartolomeude
SousaMexia,secretáriodasMercês,deondesaíram,a19deMarçode
1712,paraascasasdocondedeSoure.Doisanosdepois,D.JoãoV,que
lhes tinha mandado dar o tratamento de Altezas, recebeu-os no seu palácio, numa audiência solene que Pietro Francesco Viganego, agente secreto do rei de França em Lisboa, relatou ao marquês de Torcy, em
cartade20deMarçode1714:
«Sábado, os dois jovens Príncipes, filhos naturais do Rei D. Pedro, fizeramasuaprimeiravisitadecerimóniaaoReiseuirmão,tendosido acompanhadosàsuapresençapeloduqueD.Jaime[deCadaval],queos foibuscaracasacomumséquitocompostodamaiorpartedosgrandes.O capitãodaguardaeovedordacasareceberam-nosaofundodasescadas equandoentraramnasaladeaudiênciasoReideucincoouseispassos nasuadirecçãoefê-lossentaremtamboretescolocadosnoestrado.O mais velho [D. Miguel], que será duque e casará brevemente com a herdeiradacasadeArronches,executoumuitobemoseucumprimentoe disseàsaídaquesesoubessequeoReiseuirmãoachassebemter-lhe-ia faladoemfrancês,oqueteriasidomaisfácilqueemportuguês.Omais novo[D.José]estavavestidodeabade.Emseguidaforamcumprimentar aRainhaaosseusaposentos,aqualosrecebeudomesmomodo.» 239 Jáentão,comosevê,osdoisbastardossabiamquefuturolhestinha sido reservado. «Ornado de excelentes partes», de «gentil presença» e «engenho sublime» (como António Caetano de Sousa o recorda), D. Miguelestavadestinadoacasar-secomLuísaCasimiradeSousaNassaue Ligne,filhadeCarlosJosédeLigne,marquêsdeArronchesecondede Miranda, a quem o rei deu honras de duquesa. Ela haveria, porém, de reclamarmaistardeotítulodeAlteza–queD.JoãoVderaaseumarido.A
questãofoitratadaporjuízesparaoefeitodesignados.Masapretensão
nãolhefoideferida 240 .
Ocasamentofoicelebradoa30deJaneirode1715,tendoonoivo15
anosdeidade,edelenasceramquatrofilhos,dequeoreiD.JoãoVfoi padrinho, assistindo, incógnito, ao seu baptizado. Foram eles: (1) D.
Joana,quecasoucomo4.ºmarquêsdeCascais(sobrinhodeD.Filipade
Noronha, a primeira amante conhecida de D. João V) e morreu sem
geração;(2)D.Pedro,1.ºduquedeLafões,quemorreusolteiro;(3)D.
João,2.ºduquedeLafões,que,nosreinadossubsequentes,foifigurade
granderelevonacorteenopaís;e(4)D.Francisca,queviveuapenasum
ano. SobreestecasamentocontaocondedePovolidequeamarquesade Arronches, querendoardentementecasara filha com obastardodeD. PedroII,foifalarcomumastiasdeFranciscadaSilva,amãedeD.José,a quem chamavam as Tanoeiras. Estas garantiram à marquesa que conseguiriamobterdoreiessecasamento,jáqueD.JoãoVfrequentava denoiteasuacasa.Amarquesadeucréditoàspromessaseuntoucom «algumas coisas de valor» as mãos das Tanoeiras, que nunca mais trataramdocaso.Interpeladaspelamarquesa,garantiram-lhequeorei haveria de passar a cavalo por casa dela, a determinada hora de determinadanoite,e,seelaestivesseàjanela,haveriadelhedizeroque sepassavacomocasamento.Umhomempassou,defacto,nodiaehora previstos,porcasadamarquesa,conversandoelacomele.Masohomem nãoeraevidentementeorei,que,quandosoubedahistória,degradouas Tanoeiras e o seu «sósia», que era um sobrinho do conde de Castelo Melhor 241 .
D. José, por seu turno, estava destinado à carreira eclesiástica. De
«estaturaordinária,cabelopreto,algumtantocrespo,osolhosgrandese
vivos,osbeiçosgrossos»,começouporaprenderlatimegramáticacomo padreFranciscodaRocha,daOrdemdeSãoPedro,queacompanhoua suaeducaçãoatéD.JosésermandadoestudarnoColégiodaUniversidade de Évora. Foi isto em Setembro de 1715, alguns meses depois de D. Miguelcasar.
D. João V deu, aliás, minuciosas instruções sobre a forma como seu
irmão devia comportar-se e ser tratado. Nessas instruções, o rei determinava, entre outras coisas, que D. José fosse constantemente assistidoporumsacerdote,devendo,alémdisso,assistirdiariamenteà
missa,continuaradevoçãodoofícioeterçoàVirgemMariaereceberos
sacramentosaomenosumavezpormês 242 .Alémdisso,obastardonão devia jogarcom oscriados «enquantohouverpadresquejoguem com ele».Deviaserdiscretoemodesto.Nãolhedeviaserconsentido«brincar comrapazes,ouestudantesexternos»,masapenascomosseuscriados.E devia ser despedido todo o criado que lhe trouxesse «brincos, ou presentes, ou conversações» e, ainda, «recados de coisas ilícitas e indecentes».
D.JosépermaneceunoAlentejoaté1717,regressandoentãoaLisboa–
onde,nosanosseguintes,levouumavidaquesesupõe«remansosa»,na companhiadoirmãoedafamíliadele,maugradoazangadeD.JoãoV comD.Miguel,quelevouomonarcaaproibiraentradadestenopaço 243 .
Foiistoem1723.
A 17 de Janeiro de 1724, quando ambos vinham da Outra Banda a Lisboa,noregressodeumacaçada,oescalerqueostransportavavirou-se noTejo 244 .D.Miguelmorreuafogado,commais15pessoas.Oseucorpo foi depositado no Convento de Santa Catarina de Ribamar. E «o Rei, a RainhaeosInfantesencerraram-seportrêsdias,tomandolutopesado porummêseoutroaliviado». D.José,porém,salvou-se.E«escapoupormodotãoestranhoquese pode ter por milagroso; porque, sem socorro humano, ele se achou, depois de voltado o escaler, tendo lutado largo tempo com as ondas, sobreaquilhadamesmaembarcação,dequeficoumuitomaltratado» 245 . Apartirdessedia,D.Josépadeceudeum«contínuotremordacabeça». AtragédiapoderáterincrementadoofervorreligiosodeD.José,que nesse mesmo ano tomou as primeiras ordens eclesiásticas. E, no ano seguinte,regressouaÉvora,paraprosseguirosseusestudosteológicos.
Depoisdetersidoordenadopresbítero,emDezembrode1728,erezado
missa nova, em Janeiro de 1729, no oratório do rei, doutorou-se na
SagradaTeologiaemJulhode1733.
ComendadordeSantaMariadeAlmourol,SantaMariadosOlhoseSão SalvadordeLavre,naOrdemdeCristo,D.JoséfoifeitoarcebispodeBraga em 1739, sendo de 19 de Dezembro de 1740 a bula de Bento IV que
confirmaanomeação.Sagradoa5deFevereirode1741,napresençade
todaafamíliareal,entrounaarquidiocesea23deJulhodesseano.
Duranteos15anosdoseupontificadodesenvolveuintensaactividade.
Entregou-secomgrandeenergiaàssuastarefaspastorais,pondoordem nas igrejas e nos conventos. Disciplinou e reformou a sua diocese, mandando de castigo para a Índia muitos dos seus clérigos, que eram
aliásemnúmeroexcessivo.Combateuasmúsicasemlínguavulgaroude estilo efeminado e proibiu pessoas mascaradas nas procissões. Desempenhou também uma acção caritativa de grande alcance. Foi respeitadoetemido.MasparecequenãofoiamadodosdeBraga,pelo queasuamorte,diz-se,alegrouamuitos.
Essamorteocorreuaofimdamanhãde3deJunhode1756,naCasada
Aurora, em Ponte de Lima, sendo o arcebispo vítima do «penoso sofrimentodeumadilatadamoléstia,queooprimiu»sempre.D.José,que era«muitoinclinadoaojogodotaco,montavabemacavaloeeramuito
curiosodepinturaedebuxo,eporsipintavaalgumascoisas»,tinha53
anos e 25 dias de idade. Sucedeu-lhe na Sé de Braga seu sobrinho, D. GaspardeBragança,umdosMeninosdePalhavã.
coroa.jpg
DeD.MigueldeBragançadescendeailustreCasadeLafões,aqueseligaramos
duquesdeCadaval.Entreosdescendentesdobastardorégiocontam-seoescritor
NunodeBragança,opintorLuísPintoCoelho,osfadistasVicenteeJosédaCâmarae
ajornalistaHelenaSanchesOsório.
216JoaquimVeríssimoSerrão,HistóriadePortugal(Lisboa:Verbo,1980),vol.V,p.207.
217ÂngelaBarretoXavier&PedroCardim,D.AfonsoVI(Lisboa:CírculodeLeitores,2006),p.195.
218Fr.CláudiodaConceição,GabineteHistórico(Lisboa:ImprensaNacional,1823),T.IX,p.228.
219Cf.NunoGonçaloMonteiro,MeuPaieMeuSenhorMuitodoMeuCoração–Correspondênciado
condedeAssumarparaseupai,omarquêsdeAlorna(Lisboa:Quetzal,2000),p.129.Orealdecreto
queconfereaprecedênciaaobastardodoinfanteD.Franciscoéde19deMaiode1750.
220Fr.CláudiodaConceição,GabineteHistórico(Lisboa:ImprensaNacional,1823),T.IX,p.330.
221CondedePovolide,Portugal,LisboaeaCortenosreinadosdeD.PedroIIeD.JoãoV–Memórias
HistóricasdeTristãodaCunhadeAtaíde,1.ºCondedePovolide(Lisboa:ChavesFerreira,1990),
p.188.
222EdgarPrestage,«MemóriassobrePortugalnoreinadodeD.PedroII»,inArquivoHistóricode
Portugal,II(Lisboa:1935),p.13.
223CondedePovolide,Portugal,LisboaeaCortenosreinadosdeD.PedroIIeD.JoãoV–Memórias
HistóricasdeTristãodaCunhadeAtaíde,1ºCondedePovolide(Lisboa:ChavesFerreira,1990),
p.188.
224LuísdeBívarGuerra,«D.Luísa,filhadeD.PedroII:umaprincesaduasvezesduquesa»,in
MiscelâneaHistóricadePortugal(1982),p.22.
225Cf.DamiãoPeres,MonstruosidadesdoTempoedaFortuna(Porto,1938),vol.I,p.145.
226LuísdeBívarGuerra,«D.Luísa,filhadeD.PedroII:umaprincesaduasvezesduquesa»,in
MiscelâneaHistóricadePortugal(1982),p.17.
227Idem,ibidem,p.18.
228AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.VIII,p.263.
229ManuscritosdoFondPortugaisdaBibliotecaNacionaldeFrança(Lisboa:CNCDP/Centrode
EstudosDamiãodeGóis,2001),p.312.
230Ibidem,p.323.
231Ibidem,pp.308e313.
232AntónioParadadeAfonseca,ApostilasàhistóriadeBraganoséculoXVIII:SuaAltezaoSenhor
D.JosédeBragança,ArcebispoPrimaz,eo“métodobreveeclarodejogarotaco,opiãoeaconca”
(Braga:GráficadeS.Vicente,1990),p.19.
233PietroFranciscoViganego,AoServiçoSecretodaFrançanaCortedeD.JoãoV(Lisboa:
Lisoptima/BibliotecaNacional,1994),p.181.
234Cf.MariaBeatrizNizzadaSilva,D.JoãoV(Lisboa:CírculodeLeitores,2006),p.52.
235AntónioParadadeAfonseca,ApostilasàhistóriadeBraganoséculoXVIII:SuaAltezaoSenhor
D.JosédeBragança,ArcebispoPrimaz,eo“métodobreveeclarodejogarotaco,opiãoeaconca”
(Braga:GráficadeS.Vicente,1990),p.20.
236Idem,ibidem.
237PietroFranciscoViganego,AoServiçoSecretodaFrançanaCortedeD.JoãoV(Lisboa:
Lisoptima/BibliotecaNacional,1994),p.42.
238CondedePovolide,Portugal,LisboaeaCortenosreinadosdeD.PedroIIeD.JoãoV–Memórias
HistóricasdeTristãodaCunhadeAtaíde,1.ºCondedePovolide(Lisboa:ChavesFerreira,1990),
p.189.
239Cf.PietroFranciscoViganego,AoServiçoSecretodaFrançanaCortedeD.JoãoV(Lisboa:
Lisoptima/BibliotecaNacional,1994),p.171.
240CondedePovolide,Portugal,LisboaeaCortenosreinadosdeD.PedroIIeD.JoãoV–Memórias
HistóricasdeTristãodaCunhadeAtaíde,1.ºCondedePovolide(Lisboa:ChavesFerreira,1990),
pp.325e352.
241Idem,ibidem,pp.220-221.
242MariaBeatrizNizzadaSilva,D.JoãoV(Lisboa:CírculodeLeitores,2006),p.54.
243CondedePovolide,Portugal,LisboaeaCortenosreinadosdeD.PedroIIeD.JoãoV–Memórias
HistóricasdeTristãodaCunhadeAtaíde,1.ºCondedePovolide(Lisboa:ChavesFerreira,1990),
pp.351-352.
244CasteloBrancoChaves,PortugaldeD.JoãoVvistoportrêsforasteiros(Lisboa:Biblioteca
Nacional,1989),p.51.
245AntónioCaetanodeSousa,HistóriaGenealógicadaCasaRealPortuguesa(Coimbra:Atlântida,
1946),vol.VIII,p.298.
OSMENINOSDED.JOÃOV
D ignosucessordoreiseupai,D.JoãoV(oSultãodoOcidente,comolhe
chamouCamiloCasteloBranco)nãotevemenosamantesqueD.PedroII. «As mulheres foram o seu contínuo pensamento: ciganas, fidalgas, mulheres mecânicas e outras», segundo escreveu o capelão dos Marialvas, vaticinando que, por isso, o monarca haveria de «esperar muitosséculosnoPurgatóriopelasuaremissão» 246 . Estadevoçãoaobelosexotrouxe-lhe,aliás,algunsamargosdeboca. Em Março de 1714, por exemplo, Pietro Francesco Viganego, agente secretodaFrançanacortedeD.JoãoV,escreveuaomarquêsdeTorcy, ministrodeLuísXIV:«Hádescontentamentonopalácio,principalmente porpartedaRainha[D.MariaAnadeÁustria],quediziaultimamenteque porumaouduasamantespassa,masquatro,cincoeseiserademais.O Confessor falou mas foi muito mal recebido, a ponto de ter sido ameaçado» 247 . OreiMagnânimotevetambémmaisbastardosdoqueoseuaugusto progenitor. Ou, pelo menos, reconheceu mais dois do que D. Pedro II, declarando-sepaidecincofilhosilegítimos,trêsrapazeseduasraparigas. Masdevetertidomuitosmais.Éque,segundogaranteWilliamBeckford, o autor de Vathek, D. João V foi pai de crianças que «não julgou conveniente reconhecer, e que não são poucas, porque aquele pio monarca
…grandecomoosseusdomínios, espalhouaimagemdoCriadorportodaaterra!» 248
OstrêsfilhosvarõeshavidosporD.JoãoVforadoseucasamentocom D.MariaAnadeÁustria,eporelereconhecidos,chamaram-seAntónio, Gaspar e José. Foram eles os famosos Meninos de Palhavã, assim chamadosporteremvividonopaláciodomarquêsdeLouriçal,ondehoje estáalojadaaEmbaixadadeEspanhaemLisboa.
Todos três foram educados por Frei Gaspar da Encarnação (1685-
1752),doutoefidalgodiscípulodeS.Francisco,reitordaUniversidadede
CoimbraeconfessordeD.JoãoV,dequemfoiumdosmaisíntimose
queridosamigos.Aelesedeve,aoqueparece,terD.JoãoV,gravemente
Esse
reconhecimentofoifeitonasCaldasdaRainha,a6deAgostode1742,por
doente,
decidido reconhecer os
seus filhos bastardos.
umadeclaraçãoquerezavaassim:
«Por entender que sou obrigado, declaro que tenho três filhos ilegítimos de mulhereslimpasdetodaainfestanação.UmsechamaD.António,outroD.Gaspar, quenobaptismosechamouManuel,eoutroD.José,quenobaptismosechamou tambémManuel.AsuaeducaçãoentregueiaFr.GaspardaEncarnação,reformador doscónegosregrantes,oqueexecutoucomtantocuidadoezeloquetenhomuito queagradarelheagradecerdaeducaçãodosditosmeusfilhos.»
Aestereconhecimento,D.JoãoVacrescentavaumpedidoaD.José,seu filhoeherdeiro:«Encomendoaopríncipelhesdêaqueleestadoquelhes formaisconvenienteasuaspessoas,comoseusirmãos.Eusemprequis quefossemencaminhadosparaoeclesiástico.Esperoqueopríncipeos favoreçaeajudedesortequenaabundânciacompetentenãonecessitem deoutraprotecçãomaisqueasua.» 249 A declaração, redigida pelo beneficiado António Baptista, não se destinava,porém,aproduzirefeitosimediatos.DeviaserentregueaFrei GaspardaEncarnação,paraesteaapresentar«notempoquelhe[tinha] declarado». Quetempofosseesse,nãosesabe.Masédepresumirquefosseoda
mortedeD.JoãoV,ocorridaa31deJulhode1750.Averdade,porém,é
queoreiD.Josésóem21deAbrilde1751assinouumdecretoemque
afirmava:
«Pormeserpresenteadeclaraçãoqueel-rei,meusenhorepai,fezporescrito de serem seus filhos D. António, D. Gaspar e D. José, que se educaram na congregaçãodeSantaCruz,aqualoditosenhormemandouapresentar:heipor bem que daqui por diante sejam por tais reconhecidos e gozem das honras, privilégioseisençõesquenestesreinossãoconcedidosaosfilhosilegítimosdos reis.»
Ficavaassimclaroque,reconhecendoosfilhosilegítimosdeD.JoãoV,
omonarcaselimitavaacumprirasúltimasvontadesdeseusenhorepai.
Eparaquenãorestassemdúvidassobreasuaposiçãonocaso,sótrês anos depois é que os chamou à sua presença. Recebeu-os com
«demonstraçõesdealegria»emSãoVicentedeFora,a18deJaneirode
1755,reconheceu-osefezaCortereconhecê-loscomotais,deu-lhescasa
eordenouquefossemtratadoscomasdistinções,honrasegrandezasque convinham à sua hierarquia. Entre elas contava-se o tratamento de Altezas,dequeosbastardosdeD.PedroIItambémtinhambeneficiado– oqueera,naopiniãodeAnselmoBraamcampFreire,«tudoparódiade LuísXIV» 250 . ORei-SoldeFrançatinhacomefeitotomado,muitosanosantes,várias medidas em favor dos filhos que tivera de Madame de Maintenon, concedendo-lhesnomeadamenteotratamentodeAltezasSereníssimase
reconhecendo-lhesaté,em1714,odireitodesucederaotrononafalta
dosseusherdeiroslegítimos.Umanodepois,LuísXIVescandalizouainda maisasuacorteaodecidirquedeixavadeproduzirefeitosadistinção entreosseusfilhoslegítimoseosilegítimos.Masestasdisposiçõesforam anuladas em 1717, por serem contrárias às leis fundamentais da monarquiafrancesa. O reconhecimento dos bastardos de D. João V fora um processo demorado.Mas,paraasdemoras,haviaumaexplicação:D.MariaAnade Áustria, a rainha viúva, conservava «sempre grande ódio a todo o bastardo»enãoqueria,porisso,queosMeninosfossemdeclarados.Fez, aliás, quanto pôde para atrasar o reconhecimento 251 . Muitos consideraram injusta a oposição da rainha. Como notou o conde de Assumar, o «aborrecimento» da rainha não era «tão geral» que a impedisse de favorecer, como favorecia muito, o Senhor D. João da Bemposta,bastardodoinfanteD.Francisco 252 .Masesteerafilhodoseu cunhado–enãodoseuinfielmarido. AverdadeéqueosMeninostiveramdefazerbastosrequerimentos paraqueaderradeiravontadedeD.JoãoVfossefinalmentecumprida.D. José, por seu turno, preocupado com a «repugnância e desprazer» da rainha sua mãe, ouviu vários conselheiros sobre a questão. Todos lhe disseram que estava «indispensavelmente obrigado» a conceder aos bastardosdeseupaiashonrasqueelesrequeriam.Eraesseo«costume doreino,inalteravelmentepraticado»,nãosóquandojánãoviviamas rainhasquesepodiamsentirofendidascomoadultériodomarido,mas aindaemvidadasmesmassenhoras. D.Josépediuaváriossacerdotesqueconvencessemarainha-mãea
aceitaraatribuiçãodashonrasepreeminênciasqueosfilhosadulterinos de D. João V reclamavam. D. Maria Ana retorquiu que, se D. José reconhecesse os bastardos, «serviria de mau exemplo a seus filhos», acrescentandoque,parasatisfazeravontadedeseupai,oreinãoestava obrigadoaconcederhonrasmas,apenas,aprestaralimentos. Depoisderebaterosargumentosdamãe,D.Josédecidiusubmetera umajuntaaquestãoqueimportavaresolver:«Seháprincípioalgumde Direitoconformeaoqualsepossaentenderquearepugnânciadadita senhora [D. Maria Ana] é coisa justa para impedir ou demorar o cumprimentodaobrigaçãoemqueoditosenhor[D.José]seconsidera»– ouseháalguma«razãopolítica»parasedeixardeatenderao«costume doreino».Ajuntaopinouqueoreiestavaobrigadoafazeroqueseupai lhe mandara, não podendo fazer o que sua mãe lhe pedia. Mas houve quemsustentassequeD.Josépodia,«seminjustiçanempecado,ainda venial»,negarprovimentoaosrequerimentosdosMeninosdePalhavã. Estes não eram filhos naturais mas espúrios, «nascidos de punível e danadocoito,porqueatodoshouveosenhorreiD.JoãoVdeconcubinas, emtempoqueomesmosenhorjáeracasado,ecomrazãomaisforteos senhoresD.GaspareD.José,porseremgeradosdefreirasprofessas». Acrescia,segundooautordesteparecer,queumadecisãofavorávelaos bastardosdeD.JoãoVsetraduzirianum«considerávelexcessonataxa dosmesmosalimentos,porserevidentenecessitaremdemaisdepoisda ditadeclaraçãopelonecessáriofaustoetratamentoqueelatrazconsigo». Ora, o rei Magnânimo, ao declarar aqueles três filhos, que quisera acomodar em «benefícios e dignidades eclesiásticas», não pretendera agravarasdespesasdacoroa.Muitopelocontrário 253 . D.Joséconformou-secomoparecerdajunta–econcedeuaosMeninos dePalhavãashonrasepreeminênciasqueelesreivindicavam.Suamãe morreunoanoemqueaconcessãofoipublicada.Podetersidodaidade. Mastambémpodetersidododesgosto… UmanodepoisdarecepçãoemSãoVicentedeFora,D.Josénomeou arcebispoesenhordeBraga,primazdasEspanhas,seuirmãoGaspar,que
tinhaentão45anosdeidade,jáquenasceraa8deOutubrode1716,em
Odivelas, fruto dos amores do rei por uma freira bernarda, Madalena MáximaHenriquesdeMiranda.Estaquisumdiavisitá-lo.Mas,quandose deuaconhecer,D.Gasparterárespondido:«Osbastardosdosreisnão têmmãe»… BaptizadopelopriordeSãoNicolau,teveporpadrinhoomarquêsde
Gouveia, suspeito durante algum tempo de ser o pai da criança. Foi mandadoparaÉvoraeentregueaoscuidadosdopadreAntónioDuarte Rombo, secretário do arcebispo. Com nove anos, regressou a Lisboa, passoualgumtemponoMosteirodeSãoVicenteeseguiuparaCoimbra, ondeestudoucomoseusirmãos,recebendoordensmenoresdobispode Nanquim 254 .
A23deAgostode1756foinomeadoarcebispodeBraga,sucedendoa
seutio,D.JosédeBragança,filhobastardodeD.PedroII.Confirmado
pelopapaemMarçode1758,foisagradoemLisboa,nacapeladoPalácio
dePalhavã,a23deJulhoseguinte,enessemesmodiatomoupossedasua
arquidioceseporintermédiodobispodeMiranda,seuprocurador.
Massóa28deOutubrode1759,maisdetrêsanospassadossobrea
mortedoseuantecessor,équeD.Gaspar,montadonumamulabanca,
entroucomgrandeespaventonasuadiocese.TinhasaídodeLisboaa20
de setembro, «com uma numerosa e magnífica comitiva, que consistia numgrandecochedeestado,dezassetereses,vintecarroscombagagens e muitas azémolas de carga, acompanhado de uma companhia de cavalo» 255 .
«Duranteos31anosemquepermaneceuàfrentedaarquidiocese,D.
Gaspar,fazendojusàsualinhagemreal,rodeou-sedomaioraparatoe magnificência, que continuadamente manifestou nas cerimónias dos pontificais,queemnadaficaramadeveraosdaPatriarcal,nasexéquiase festividadescomqueexaltouaimagemdacorteenasnumerosasvisitas pastoraisquerealizou»,comoescreveuIsabelMayerGodinho. «Príncipe ilustrado, a sua vasta biblioteca […] abarcava um amplo lequedeáreasdeinteresse,dateologiaeoratóriasacraàjurisprudência, literatura,história,ciênciaseartes.AprotecçãoquededicouàSociedade EconómicadosAmigosdoBemPúblico,emPontedeLima,dequefoi presidente, revela-o como um espírito iluminado, interessado no desenvolvimentodaagricultura,docomércioedaindústrianonortedo país.Mecenasdasartes,fundounovasigrejas,quefezconstruirderaiz (Nossa Senhora da Lapa e Santa Teresa), ampliando e reconstruindo outras(aIgrejadoBomJesuseaIgrejaeHospitaldeS.Marcos).» 256
A10deJaneirode1789,D.Gasparcaiugravementedoente.Ossinosde
Bragatocaramapreces,queocuparamacidadenosdiassubsequentes.
Masosereníssimoarcebispojánãorecuperou.Ea18deJaneiromorreu,
«com edificantes mostras de religião». Tinha «72 anos, 3 meses e 14
dias»,segundoprecisouaGazetadeLisboa,de27deJaneiroseguinte.
***
DepoisdenomearD.GaspararcebispodeBraga,oreidesignouD.José, seu irmão homónimo, inquisidor-mor dos seus Reinos e Senhorios. O
maisnovodosMeninosdePalhavãnasceraem1720eerafilhodePaula
TeresadaSilva,freiranoConventodeOdivelas–afamosaMadrePaula,
amantequeD.JoãoVpormaistempocultivou,sendotrocadaem1729
pelaFlordaMurta.
D.José,quetomoupossedoseuempregoa24deSetembrode1758,
doutorara-seemteologia,emCoimbra–comoseuirmãoAntónio,omais
velhodosMeninos.Esteteránascido«numascasasdaruadoTronco»,a1
de Outubro de 1714, posto outros afirmem, porventura com melhores razões,queviualuznumaquinta«adiantedeMarvila,imediataàquinta deBraçodePrata,àbordadoTejo» 257 . Seriafilhode«umadasmuitasfrancesasqueentãoenxameavampor Lisboanoofíciodemulheres-damas» 258 eque,depois,semeteuemfreira. Mas há quem sustente que a mãe do Menino tinha o nome muito portuguêsdeLuísaInêsAntóniaMachadoMonteiro. Baptizado pelo cardeal da Cunha, teve por padrinho o infante D.
António,seutio,eficouavivernoPaçoRealdeAlcântaraatéaos11anos
deidade,passandoentãoparaoMosteirodeSãoVicente.Daliseguiupara Coimbra,onde,comoseusirmãos,foieducadonorealMosteirodeSanta Cruz de Coimbra, estudando teologia. Pediu depois à Universidade de Coimbraosrespectivosgrausacadémicos,«sujeitando-seaosrespectivos exames,emconformidadecomalegislaçãoentãovigente».Doutorou-se
em1737–eosseusactosegrausforamregistadossobonomedeFrei
AntóniodaEncarnação,queeraoqueoMeninousavaenquantopupilo domosteiroconimbricense 259 . Nuncaocupouqualquercargoderelevonacorteounoreino.Alguns,
comooembaixadordeFrançaaotempo(1760)acreditadoemPortugal,
sustentamqueoMarquêsdePombalpensounelequandoseprocurouum marido para a princesa Maria Francisca, que havia de reinar como D. Maria I. Mas «não é de crer, como se propalou, que Sebastião José destinasse à tristonha D. Maria um dos Meninos da Palhavã». Como AgustinaBessa-Luístambémescreveu,«umbastardo,sóporusurpação sefazrei;enãoédesuporqueoamorfraternofossetãoexibicionistaque dispusesseassimdotronoparaumdosMeninos» 260 . OquesesabedeciênciacertaéqueD.Antónioseviuenvolvidono
conflitoqueopôsoMarquêsdePombalaseuirmãoD.José,oinquisidor-
mor–ecomoelesofreu,durante16anos,odesterronoBuçaco.
Acausadessecastigonãoestácompletamenteesclarecida.Dizemuns quetudosedeveuàoposiçãoqueosdoisMeninosfizeramaocasamento deD.MariacomoinfanteD.Pedro.Outrosafirmamqueodesterrofoi resultadodeD.JoséseterrecusadoaaceitarqueoPadreMalagridafosse presonas«masmorrasdaInquisição».Paraoinquisidor-mor,ojesuíta (queseteriaenvolvidona«conspiraçãodosTávoras»contraomonarca reinante)estavaacusadodeumcrimedelesa-majestade–nãodeerros contra a fé ou a doutrina da Igreja. Por isso, não era nas prisões da Inquisiçãoquedeviaserencerrado. Mas,comestarecusa,D.JoséofendeuoMarquêseeste,queixando-se aorei,deleobteveodesterrodoinquisidor-mor–quepartiudacorte acompanhado pelo irmão D. António, sem que esta versão dos
acontecimentosexpliquearazãoporqueomaisvelhodosMeninosde Palhavãfoitambémcastigado. Há,paraestecaso,umaexplicaçãodiferente–emelhor.Nasuaguerra contra a Companhia de Jesus, o Marquês de Pombal patrocinou ou favoreceu a publicação de escritos que maldiziam dos jesuítas ou exaltavamogovernoeadoutrinadoomnipotenteministro. Um desses escritos foi De Potestate Regia, um livro composto pelo intendente geral de Polícia, João Inácio Ferreira Souto. Ora, D. José de BragançaconsiderouqueolivroofendiaosdireitosdaSantaSéemandou doisfamiliaresdoSantoOfício–ocondedeSãoLourençoeoviscondede Vila Nova de Cerveira – a casa do intendente, para o prenderem e trazeremoautógrafoetodososexemplaresdaobraqueláencontrassem. Sabedordoacontecido,Pombalfoifazerqueixaaorei.Eesteordenou que se prendessem os dois familiares da Inquisição, mandando, além disso, o conde de Oeiras estranhar ao inquisidor-mor a afronta feita à autoridadereal. Pombalapresentou-seemcasadeD.JosédeBragançaacumpriras
ordensdomonarca.Masascoisastranstornaram-see,entreoinquisidor-
moreoprimeiro-ministro,houvetrocadegritoseinsultos.D.António, queestavanasalaaolado,correuaveroquesepassava.Emdefesado irmão,envolveu-senadiscussão.E,perdendoacabeça,levouasmãosà cabeleiradePombal,arrancou-aebateu-lhecomelanacara.Contrao ministro, um dos dois – D. António ou D. José – brandiu ainda um
punhal 261 .
Indignado,Pombalcorreudenovoaopaçoedeuparteaoreidoquese tinhapassado.EsteconvocouoConselhodeEstadoparaapreciarocasoe dispôs-se a condenar à morte os dois Meninos de Palhavã. Mas o patriarca de Lisboa conseguiu transformar a pena capital no desterro paraoBuçaco 262 . Finalmente,háatesedeumanovaconspiraçãocontraorei,emqueos dois bastardos de D. João V estariam envolvidos. Foi esta a tese sustentadapelopróprioSebastiãoJosé.EsteacusavaocardealTorregiani, em Roma, e o núncio apostólico em Lisboa, monsenhor Acciaiuoli, de teremorganizadoumanovasediçãocontraafidelíssimamajestadedeD. José I. E acrescentava: «O atrevimento daqueles dois indignos purpurados» conseguira «corromper, debaixo de promessas e de esperançastemeráriasevãs,atémesmoosanguereal,naspessoasdos senhoresD.AntónioeD.José»,aosquaissetinhamjuntado«aspoucase inconsideradas pessoas da nobreza e alguns regulares das Ordens dos CónegosRegrantesedoOratório[…]» 263 Nenhuma destas versões, assinala Nuno Gonçalo Monteiro, «parece suficientemente alicerçada». Mas, como o mais recente biógrafo do monarca também refere, não há dúvida de que os dois Meninos se opuseramdealgummodoaomarquêse,porisso,foramdesterradospara oBuçaco 264 .
Partirama20deJulhode1760–esóa2deMarçode1777,depoisde
mortooreiseuirmão,équeosdoisMeninosdePalhavãforamlibertados do seu desterro, por ordem da rainha D. Maria I, sua sobrinha, posto bastas vezes tivessem requerido a D. José a «singular graça» da sua liberdade.SeguiramparaCoimbra,aposentando-senoMosteirodeSanta Cruz, onde tinham sido criados. E aí aguardaram que em Lisboa lhes preparassem residência condigna – que podia ter sido o Palácio das Necessidades mas acabou por ser o Palácio de Palhavã, onde antes tinhamresidido 265 . Acolhidos em Lisboa com grande júbilo, foram (segundo reza a crónica) «reintegrados em todas as suas honras, dignidades e
prerrogativas».Mas,em1786,omarquêsdeBombelles,embaixadorde
França na corte de D. Maria, notava que D. António e D. José, embora fossemtratadoscomdeferênciapelarainhasuasobrinha,levavam«uma vidamuitoretiradaemuitotriste,nãotendorecuperadoosbensquelhes tinhamsidoconcedidosporseupaiedequeoMarquêsdePombalos tinhaesbulhado» 266 .Sobreisso,queriamtratamentodealtezas–e,como
ele não lhes fosse dado, não viam o corpo diplomático acreditado na capitalportuguesa. Em 1789, D. José foi feito claveiro da Ordem de Avis, enquanto D.
AntónioassumiaidênticocargonaOrdemdeCristo.E,em1801,a4de
Fevereiro, os «Tios de Sua Majestade», como mereciam ser tratados, foramdeclaradospeloPríncipeRegenteinocentese«limposdetodaa mancha» dos crimes de que tinham sido acusados, exaltando a «regularidade de suas vidas, e a pureza de seus costumes, em todo o tempoexemplares» 267 .Quarentaanosdepoisdasuacondenação,quase vinte e cinco depois da sua libertação, os dois Meninos de Palhavã
estavamfinalmentevingados.MasD.Antóniojátinhamorrido(em1800)
eD.Josémorreulogoaseguir.
***
Além dos Meninos de Palhavã, D. João V teve ainda duas filhas
ilegítimas.Uma,havidadeD.FilipadeNoronha(irmãdo3.ºmarquêsde
Cascais),morreuaonascer.Aoutra,D.MariaRitadePortugal,foifilhade D. Luísa Clara de Portugal, a famosa e formosa Flor da Murta, que descendia, por via bastarda, do primeiro duque de Bragança e estava casadacomD.JorgedeMeneses,descendentedeD.JoãoManoel,bispode Ceuta,quealgunsdizemfilhoilegítimodoreiD.Duarte. DamadarainhaD.MariaAnadeÁustria,atristemulherdeD.JoãoV,D. Luísadeveoseucognomeaoprópriorei,que,umdia,vendo-avestidade verdeebranco,lhedirigiuoseguintepiropo:
«FlordaMurta
Raminhodefreixo;
Deixardeamar-te
Équeeunãodeixo»…
Desse amor nasceu, em 1731, uma menina que foi criada por uma comendadeira de Santos, convento onde veio a professar. Consta (diz AlbertoPimentel)queD.MariaRitasedesvaneciadasuaorigemreal,
«poisquecostumavatrazerpendentedopescoçoumapeçade6$400réis
e,dandoamostraraefígiedeD.JoãoV,vangloriava-sedeserparecida comoMonarca» 268 . MasaFlordaMurtanãodeuaD.JoãoVapenasumafilha.Deu-lhe
tambémumasobrinha-neta.Comefeito,terminadaarelaçãocomorei
Magnânimo,D.Luísaapaixonou-sepeloprimeiroduquedeLafões,que
erafilhodaqueleD.Miguel,bastardodeD.PedroII,quemorreuafogado
noTejo–sendo,portanto,sobrinho(eafilhado)deD.JoãoV.Este,quando
soubedocaso,quiscastigarexemplarmenteoduque.Enadademelhor
lhe ocorreu do que castrá-lo. Mas, inteirado destes propósitos, Frei
GaspardaEncarnação,íntimoamigoeconselheirodomonarca,ameaçou-
o com o Inferno. E isso chegou, ao que parece, para que D. João V desistissedoseuintento.
FoiassimpossívelaD.PedroHenriquesdeBragançaSousaTavares
MascarenhasdaSilvacontinuardeamorescomaFlordaMurtaefazer-
lhe uma filha, que se chamou Ana de Bragança. Recolhida também ela
num convento, o da Encarnação, teve uma existência mais do que
discreta.Seupaideixou-lheemtestamento300milréisdetençaanuale
umdotedecincomilcruzados.Masabastardanuncacasou.
***
Há porventura mais um bastardo joanino a referir. Frei João do EspíritoSanto,ocapelãodosMarialvas,noseuQuaderno,dácontados amores do rei Magnânimo com uma «formosa judia, chamada Judite», cujopaiera«umtalJacobdeOliveira,oficialdeourives»,quevivia«lá para Chabregas». Diz o frade que D. João V pôs casa à judia perto da Palhavã,ondeela«viviacomcriadaseemaltoestado»eondemorreu, após «cinco anos de grande pecado», ao dar à luz um menino – que, acrescentaofrade,«foientregueaoseuavôjudeu».FreiJoãonãoafirma, masinsinua,queacriançanasceradarelaçãoadulterinadomonarcacom aformosajudia 269 .
246JúliodeSousaeCosta,MemóriasdoCapelãodosMarialvas(Lisboa:RomanoTorres,1940),p.13.
247PietroFranciscoViganego,AoServiçoSecretodaFrançanaCortedeD.JoãoV(Lisboa:
Lisoptima/BibliotecaNacional,1994),p.166.
248Cf.WilliamBeckford,ACortedaRainhaD.MariaI(Lisboa:Tavares,Cardoso&Irmão,1901),
p.6.
249AntónioDelgadodaSilva,CollecçãodeLegislaçãoPortugueza–SupplementoàLegislaçãode
1750a1762(Lisboa:Typ.DeLuisCorreadaCunha,1842),p.90;AbílioMendesdoAmaral,O“Padre
Govea”eosMeninosdePalhavã(Lisboa:Ramos,AfonsoeMoita,1970),p.10.
250AnselmoBraamcampFreire,BrasõesdaSaladeSintra(Lisboa:ImprensaNacional/Casada
Moeda,1973),vol.II,p.107.
251NunoGonçaloMonteiro,D.José(Lisboa:CírculodeLeitores,2006),p.63.
252Idem,ibidem,p.157.
253MariaBeatrizNizzadaSilva,D.JoãoV(Lisboa:CírculodeLeitores,2006),pp.151-152.
254JosédeMonterrosoTeixeira,ElPalaciodePalhavã–ArquitecturayRepresentación(Lisboa:
EmbajadadeEspañaenPortugal,2008),p.51.
255FreiCláudiodaConceição,GabineteHistórico(Lisboa:ImprensaNacional,1918),T.XIV,
pp.89ss.
256IsabelMayerGodinhoMendonça,«AsexéquiasdeD.GaspardeBragançanaSédeBraga»,in
CiênciaseTécnicasdoPatrimónio,RevistadaFaculdadedeLetras,Isérie,vol.III(Porto:2004),
pp.255-270.
257JosédeMonterrosoTeixeira,ElPalaciodePalhavã–ArquitecturayRepresentación(Lisboa:
EmbajadadeEspañaenPortugal,2008).p.169.
258JúlioDantas,OAmoremPortugalnoSéculoXVIII(Porto:Chardron,1917),p.105.
259AntónioGarciaRibeirodeVasconcelos,Algunsdocumentosdoarchivo(Coimbra:Universidade,
1901),pp.12e13.
260AgustinaBessa-Luís,SebastiãoJosé(Lisboa:ImprensaNacional/CasadaMoeda,1981),p.142.
261Cf.SimãoJosédaLuzSoriano,HistóriadoReinadodeEl-ReiD.JoséI(Lisboa:Typographia
Universal,1867),T.I,p.455;eJ.RibeiroGuimarães,SummariodeVariaHistoria(Lisboa:Rolland&
Semiond,1873),pp.218-221.
262Cf.SimãoJosédaLuzSoriano,HistóriadoReinadodeEl-ReiD.JoséI(Lisboa:Typographia
Universal,1867),T.I,p.456;eFortunatodeAlmeida,HistóriadaIgrejaemPortugal(Porto:Livraria
Civilização,1970),vol.III,p.341.
263Cf.NunoGonçaloMonteiro,D.José(Lisboa:CírculodeLeitores,2006),p.149.
264Idem,ibidem.
265JosédeMonterrosoTeixeira,ElPalaciodePalhavã–ArquitecturayRepresentación(Lisboa:
EmbajadadeEspañaenPortugal,2008),p.169.
266Cf.MarquêsdeBombelles,Journald’unAmbassadeurdeFranceauPortugal–1786-1788(Paris:
CentreCulturelPortugais/PressesUniversitairesdeFrance,1979),pp.60-61.
267AntónioDelgadodaSilva,ColecçãodaLegislaçãoPortuguesadesdeaUltimaCompilaçãodas
Ordenações–Legislaçãode1791a1801(Lisboa:TipografiaMaigrense,1828),p.667.
268AlbertoPimentel,AsAmantesdeD.JoãoV(Lisboa:BonecosRebeldes,2009),p.161.
269JúliodeSousaeCosta,MemóriasdoCapelãodosMarialvas(Lisboa:RomanoTorres,1940),p.72.
ABASTARDADOREICLEMENTE
O rei D. José terá muitas vezes enganado sua mulher, a rainha D.
MarianaVitória,infantadeEspanha,emborasóseconheçaonomede umadassuasamantes–D.TeresadeTávoraeLorena,cujosamorescom omonarcapodemtersidoacausadadesgraçadasuafamília.Mas,quese saiba,nenhumbastardonasceudessaoudequalqueroutraligaçãoqueD. Josétenhahavido. D.MariaI,suafilhaeherdeira,foimuitofelizcomomaridoquelhe
deram–oinfanteD.PedrodeBragança,seutio,quetinhamais17anos
doqueasobrinhaquandocasoucomela,em1760,sendogalardoadocom
o título de rei depois de ter sido pai do herdeiro da coroa. Deste casamentoteveaRainhaLoucaseisfilhos.Oprimeiro–D.José,príncipe doBrasil–morreuantesdamãe,peloquefoiosegundo,opríncipeD. João,quemlhesucedeu. D. João VI, o Clemente, casou com D. Carlota Joaquina de Bourbon, infanta de Espanha, que pouco ou nada devia à beleza. Muito pelo contrário:era,nadescriçãodeOliveiraMartins,uma«megerahorrendae desdentada».EtantoqueomarquêsdeBombelles,embaixadordaFrança em Lisboa, assegurava ser preciso «fé, esperança e caridade para consumaresteridículocasamento:aféparaacreditarqueainfantaéuma mulher;aesperançaparacrerquedelanascerãofilhos;eacaridadepara seresolverafazer-lhos[…]» 270 Averdade,porém,équedocasamentodeD.JoãoVIcomD.Carlota Joaquina nasceram nove príncipes: (1) D. Maria Teresa, que casou em Espanha,primeirocomoinfanteD.PedroCarlose,depois,comoconde
deMolina;(2)D.Francisco,quemorreumenino;(3)D.MariaIsabel,que
foirainhadeEspanha;(4)D.Pedro,quefoiimperadordoBrasilereide
Portugal;(5)D.MariaFrancisca,quesecasoucomseucunhado,oconde
deMolina,apósamortedeD.MariaTeresa;(6)D.IsabelMaria,quefoi
princesaregenteapósamortedeseupai;(7)D.Miguel,quetambémfoi
reidePortugal;(8)D.MariadaAssunção;e(9)D.AnadeJesusMaria,que
casoucomoindolenteduquedeLoulé. MasnemtodoselesseriamfilhosdoreiClemente.Éque,comoescreve AlbertoPimentel,«passacomocertoquedosnovefilhosqueD.Carlota Joaquinaderaàluz,apenasosprimeirosquatrotiveramporpaiD.João VI» 271 .Osrestantesseriamfrutodasmuitasaventurasgalantesquese atribuemàrainhaespanhola–«nãosemrazão»,segundooPadreJosé AgostinhodeMacedo,fervorosomiguelistacujaopiniãonestecasotem deseconsiderarinsuspeita. LauraJunot,quefoiduquesadeAbrantesporobraegraçadeNapoleão Bonaparte,«Imperadordostratantes» 272 , nãodeixoudesublinhar, nas suasMemórias,a«diversidadecómica»dadescendênciadeD.JoãoVI:«O que é notável nesta família de Portugal é não haver um único filho parecidocomairmãouoirmão[…]» 273 D. Carlota Joaquina, cujos inimigos diziam «ser uma Messalina mais infameainda,emaisimpudicadoquearomana»,teriatidonumerosos amantes, desde o marquês de Marialva (que, sendo jovem, encantou WilliamBeckford)aogeneralJunot,embaixadordeNapoleãoemLisboa, passandopeloalmiranteSidneySmith,LuísMotaFeioouJoãodosSantos, almoxarife(aquealgunschamamjardineiro)daQuintadoRamalhão,em Sintra,ondearainhapassoumuitosdiasdasuavidaatribulada. JoãodosSantosera«ummariolaefectivo,todofibraeosso,durocomo umatrave»,queacaboudevelho,«aossetentaanos,emPaçod’Arcos» 274 . Ora, para alguns dos que compuseram e ainda hoje cultivam a lenda negradeD.CarlotaJoaquina,este«mariola»équeseriaoverdadeiropai doreiD.Miguel:«D.Miguelnãoéfilho/D’El-ReiD.João/ÉfilhodeJoão dosSantos/DaQuintadoRamalhão»,diziaumaquadradotempo.Mas nãoénadacerto,muitopelocontrário,quedevaserlevadaàletra. Atéporque,nestamatéria,a«doutrina»divide-se:oshistoriadoreseas más-línguasnãodizemsempreamesmacoisa.ParaRaulBrandão,por exemplo,JoãodosSantosseriaopaideD.MariadaAssunçãoedeD.Ana de Jesus Maria – enquanto D. Miguel seria filho do marquês de Marialva 275 .LauraJunot,porseuturno,escreveuqueoreiAbsolutotinha por pai «um moço de estrebaria» da rainha ou «um médico de Lisboa […]» 276 Poroutrolado,D.JoãoVInuncadeixoudereconhecercomoseustodos osfilhosdeD.CarlotaJoaquina.TantobastaparaqueD.MariaFrancisca, D.IsabelMaria,D.Miguel,D.MariadaAssunçãoeD.AnadeJesusMaria nãopossamnemdevamserconsideradosfilhosbastardosdarainha 277 –
aindaquandoestanãohajadeserconsideradaummodelodevirtudes
conjugais.
***
O rei também não teria a «folha limpa» neste capítulo. Além das insinuaçõesdequemanteve,naconstânciadoseuatribuladomatrimónio, umaligaçãohomossexualcomFranciscoRufinodeSousaLobato,aquem fez visconde de Vila Nova da Rainha, D. João VI é acusado por alguns historiadoresdetertido,tambémele,umafilhabastarda–frutodeuma relação com D. Eugénia José de Menezes, nascida em 1774, na Baía (Brasil), e falecida em 1818, em Portalegre, filha do 1.º conde de
Cavaleirosenetado4.ºmarquêsdeMarialva.
D.EugéniaficaragrávidaeD.João,apavoradocomasconsequênciasda suainfidelidadeconjugal,encomendaraoraptodaputativaamanteaJoão FranciscodeOliveira,médicodaRealCâmaraefísico-mordoExército. SatisfazendoasordensdoentãoPríncipeRegente,oDr.Oliveira,casadoe
paidequatrofilhos,fora,a27deMaiode1803,«pelacaladadanoite»,
buscarD.Eugéniadecasadeseuspais,metera-secomelanumbarco,em Caxias,eforadeixá-laaCádis,seguindodepois,sozinho,paraosEstados Unidos. AcolhidaemCádispelocônsul-geraldePortugal,D.Eugéniaderaentão
àluzemcasadele,nodia2deOutubrode1803,umameninaque,no
baptismo,receberiaonomedeEugéniaMariadoRosárioe,noregisto, surgiriacomofilhadepaiincógnito. Entretanto, a notícia do rapto de D. Eugénia provocou um imenso escândalo na corte e na cidade de Lisboa. E pelo «torpíssimo e abominávelatentadocomqueprevaricounoexercíciodoseuemprego», oDr.Oliveirafoicondenadoaque«combaraçoepregão[fosse]levadoao lugardaforca,naqual[morreria]demortenaturalparasempre».Como,
porém,estivesseausenteaotempodasuacondenação(Junhode1804),o
médicofoidadocomobanido,pedindoosjuízesa«todaaterra»paraser preso «ou para que cada um do povo o possa matar, não sendo seu inimigo»,econfiscadososseusbens 278 . D.Eugénia,porseuturno,foiriscadadotítulodeDama,privadade todas as mercês e honras e excluída da sucessão dos bens da coroa e ordens a que tivesse, ou pudesse ter, algum direito. Além disso, foi degradada da família e casa em que nasceu, sem poder suceder em
heranças,vínculoseprazos,«comosehouvessenascidodaínfimaplebe, extintostodososdireitosdesangue» 279 .Eraoquemandavaumalvará,
dadonoPaláciodeQueluza2deJunhode1803eassinadoporD.João,o
PríncipeRegente. SeriaasupremahipocrisiaqueD.João,sendooamantedeD.Eugéniae opatrocinadordorapto,assinasseessedecreto.Eofactodeoterfeito pareceobrigaraconcluirquenemafidalgaerasuaamásianemorapto foraencomendadoporele. Não é esta, porém, a opinião do autor anónimo de uma História de Portugal,citadaporÂngeloPereira,ondeestaquestãoaparecetratada. Esseautor,depoisdealudirà«fraquezadepublicarporumDecreto(que os cegos apregoaram pelas ruas) a leviandade desta Senhora, desautorando-a por isso da qualidade de Nobre», sublinha que «ao terceiro dia sumiu-se o Decreto e um fúnebre silêncio se pôs sobre o facto». Soube-sedepois–prossegueohistoriador,«dedicadopartidáriodeD. Miguel»–queD.Eugénia,«indopejadadeD.JoãoVI(quesódomédicoa fiara,paraasubtrairaoressentimentodesuaEsposaedosparentesdela mesma), parira uma menina, que tem o nome de D. Eugénia Maria de Menezes,epassaraaresidirnoMosteirodasBernardasdeTavira».Dali foradepoistransferidaparaomosteirodamesmaOrdememPortalegre, ondehaveriademorrer.Mas,enquantovivera,oesmoler-morpagara-lhe, do real bolsinho, um conto de réis anual, enquanto sua filha recebia quinhentosmilréis.EoautoranónimodestaHistóriadePortugal,depois
de declarar que tinha «a maior parte destas circunstâncias do próprio EsmolerMoreProcuradorGeraldosBernardos,queporsuamãofaziaa
remessadaspensões»,concluía:«Comoquedeixoreferidopodeduvidar-
sequeestasenhorafossefilhadomesmoRei[D.JoãoVI]?» Não contente com esta conclusão, acrescentava-lhe um «segundo facto»–«eesteaindamuitomaisescandaloso».Eraoseguinte:«Emvida daquele inconsequente monarca, todos viam e conheciam um pobre homem, meio pateta, que morava em Queluz, a quem ele [D. João VI] socorrialargamenteeconheciamporseufilhoedeumasaloia,mulher ordinária. Invectivavam-no chamando-lhe Comendador, porque teve certapensãonumadasComendas;porém,desdequeD.JoãoVIfaleceu, estedesgraçadoficounomaioresquecimento,ehojeexistenaqualidade demoçomuitoinferior,emcasadocondedePombeiro.» E rematava: «Quando não houvesse outras provas de considerar os
dois indivíduos de que falo [D. Eugénia Maria e o Comendador] como filhosdeD.JoãoVI,bastavaolharparaassuasfisionomiaseconfrontá-las comasdoseupai![…]» OutrosautoresabundaramnosentidodequeD.EugéniadeMenezes eradefactofilhabastardadeD.JoãoVI.Erecordavamque,regressadoa Portugal,JoãoFranciscodeOliveiraacabaraporserdesculpadodosseus crimes,servindo-seD.JoãoVIdelepararepresentarPortugalemLondres e em Paris, além de o ter nomeado para ministro de um dos seus governos. Masoshistoriadoresmaisprobosnãosedeixaramconvencerporestes argumentos.EosmaisrecentesbiógrafosdeD.JoãoVI,JorgePedreirae FernandoDoresCosta,tambémnão,sustentando«nãoterfundamentoa atribuiçãodapaternidadedafilhadeD.EugéniadeMenezesaopríncipe D.João» 280 . AtesemaisrespeitadaécomefeitoadequeD.EugéniaMarianãoera filhadeD.JoãoVImasdoDr.JoãoFranciscodeOliveira,omédicoque tratava sua mãe. Este reconheceu-a como sua filha e obteve a sua
legitimaçãoporProvisãoRégiade15deNovembrode1822.Falecidoem
1829,deixou-lheumterçodoremanescentedasuaterça.
D. Eugénia Maria foi viver com seu meio-irmão, João Gualberto de
Oliveira, que haveria de ser barão e, depois, conde de Tojal. E este
arranjou-lheumcasamentocomGuilhermeSmith,cônsul-geraldaGrã-
BretanhaemLisboa,quediziamserfilho(tambémbastardo,jásesabe)
doreiGuilhermeIVdeInglaterra.Dessecasamento,celebradoa30de
Novembrode1839,nasceramtrêsfilhos,duasraparigaseumrapaz.Este
esuairmãmaisvelhamorreramnainfância.AoutrafilhadeD.Eugénia
Mariamorreucom19anosdeidade,solteira.
Quanto à mãe da bastarda, foi reabilitada em 1849. E, diz Ângelo Pereira,sóapartirdaíéquesecomeçouadizerqueD.EugéniaMariaera filhadeD.JoãoVI.Oboatofoi«entretidoeromanceadopelafamíliada bastarda,aquemsorriamaisapaternidaderégiadoqueadofísico-mor
[…]» 281
270MarquêsdeBombelles,Journald’unAmbassadeurdeFranceauPortugal–1786-1788(Paris:
CentreCulturelPortugais/PressesUniversitairesdeFrance,1979),p.94.
271AlbertoPimentel,AÚltimaCortedoAbsolutismo(Lisboa:LivrariaFérin,1893),p.143.
272RaulBrandão,El-ReiJunot(Lisboa:LivrariaBrasileira,1912),p.178.
273DuquesadeAbrantes,RecordaçõesdeUmaEstadaemPortugal(Lisboa:BibliotecaNacionalde
Portugal,2008),p.78.
274RaulBrandão,El-ReiJunot(Lisboa:LivrariaBrasileira,1912),p.66.
275Idem,ibidem,pp.76-77.
276DuquesadeAbrantes,RecordaçõesdeUmaEstadaemPortugal(Lisboa:BibliotecaNacionalde
Portugal,2008),p.78.
277Numlivroverrinoso,DomMiguel,sesAventuresScandaleuses,sesCrimesetsonUsurpation
(Paris:1838),JoséVitorinoBarretoFeioacusaarainhadenãoescondernemassuas«desordens»
nemosseus«amantes»,«ocupando-seapenasdeosocultardebaixodomaiormistériopossível,
enviandoosfrutosdesseadultérioparaasiloseexilandoosseuspaisparaasprovínciasmais
longínquasdoBrasil».
278Cf.ÂngeloPereira,D.JoãoVI,PríncipeeRei–ABastarda(Lisboa:EmpresaNacionalde
Publicidade,1955),pp.41-42.
279Idem,ibidem,p.39.
280JorgePedreiraeFernandoDoresCosta,D.JoãoVI(Lisboa:CírculodeLeitores,2006).p.86.
281ÂngeloPereira,D.JoãoVI,PríncipeeRei–ABastarda(Lisboa:EmpresaNacionaldePublicidade,
1955),p.86.
OSBASTARDOSDOIMPERADOR
N adinastiadosBragança,D.Pedro,oprimeiroimperadordoBrasil–
quetambémreinouemPortugalcomoD.PedroIV–,é,semdúvida,o campeão dos bastardos. Carl Schlichthorst, um oficial austríaco que
andoupelosBrasis,sustentavaqueerammaisdequarenta(exactamente:
43!)osbastardosimperiais.Podemnãotersidotantos.
MiltondeMendonçaTeixeira,queelaborouumalistados«quepodem sercitados,comrelativasegurança,comofilhosnaturais»doherdeirode
D.JoãoVI,contouapenas17.E,juntando-lhesosfilhoshavidosdosdois
casamentosdoreiSoldado,concluiuque,«de1817a1832,numespaço
dequinzeanos,nossoprimeiroimperadorfoipaide,pelomenos,umas 28crianças,foraasdehistóriaduvidosa,quesãomuitas[…]» 282
D.Pedrocasouduasvezes:aprimeira,em1818,quandotinha19anos,
com a arquiduquesa D. Leopoldina de Áustria, filha do primeiro imperador da Áustria; e a segunda, em 1826, após enviuvar, com a princesaAméliadeLeuchtenberg,netadaimperatrizJosefina,primeira mulherdeNapoleãoBonaparte,quelhedeuapenasumafilha–D.Maria Amélia,quemorreujovem,vítimadetuberculose,noFunchal.
Masdoseuprimeirocasamentotevesetefilhos:(1)D.MariadaGlória,
nascidaem1819,quereinouemPortugalcomonomedeD.MariaII;(2)
D.Miguel,nascidoem1820;(3)D.João,nascidoemMarçode1821,que
«depois de uma doença de dezasseis dias expirou em um acidente de trintahoras» 283 ,emFevereirode1822;(4)D.Januária,nascidaem1822,
quecasoucomocondedeAquila;(5)D.Paula,nascidaem1823;(6)D.
Francisca,nascidaem1824,quecasoucomopríncipedeJoinville;e(7)
D. Pedro, nascido em 1825, que foi o segundo e último imperador do Brasil. É a estes príncipes que se junta um copioso rol de bastardos, o primeirodosquaisnascidodosamoresdeD.PedrocomNoémiThierry, ouValency,umabailarinafrancesadoTeatroSãoJoão,doRiodeJaneiro. Avisadosdaaventuragalantedofilho,D.JoãoVIeD.CarlotaJoaquina
trataram de afastar a dançarina do príncipe herdeiro. Casaram-na a corrercomumoficialfrancêsemandaram-naparaoRecife–onde,pouco depois,nasceu,morta,umamenina. Por esse tempo, ainda D. Pedro não estava casado com D. Maria Leopoldina,a«maisdesprezadadasesposas».Depoisdestecasamento,
emNovembrode1817,nasceuumrapazquefoichamadoAugustoese
diziaserfrutodosamoresdopríncipecomaaustríacaAnaSteinhaussen Schuch,mulherdobibliotecáriodaimperatriz. D. Pedro teve ainda, de Joana Mosquera, filha ilegítima de um desembargador,umfilho,JosédeBragançaeBourbon,dequemnuncase soubemaisdoqueonome.
Em1821,D.JoãoVIregressouaLisboa,deixandonoRio,comoregente,
oseufilhomaisvelho.Eestedeu,a7deSetembrode1822,ofamoso
grito do Ipiranga – «Independência ou Morte!» – que tornou o Brasil independente. FoiexactamenteporessaalturaqueD.PedroconheceuDomitila(ou Domitília) de Castro Canto e Melo, filha de um coronel açoriano, que estavaseparadadeseumarido,FelícioPintoCoelhodeMendonça,eerajá
mãedetrêsfilhos.Comeladormiupelaprimeiravezno«dia29deste
mês[deAgosto],emquecomeçaramasnossasdesgraçasedesgostos,em consequência de nos ajuntarmos pela primeira vez» – como D. Pedro haveriadeescrever 284 . Domitila «não era formosa». Era, sim, «uma bela mulher, que engordara mais do que à sua idade convinha, muito branca e muito inquieta»;«tinhavinteecincoanosepareciaquarenta» 285 .MasD.Pedro apaixonou-se perdidamente por ela e cobriu-a de atenções, favores e mercês.
da imperatriz. Depois, concedeu-lhe
sucessivamente os títulos de baronesa, viscondessa, e, finalmente,
marquesadeSantos(1826),instalando-anumpaláciopertodoPaçoReal
deSãoCristóvão. Desses amores, que se prolongaram por oito anos e causaram a D. MariaLeopoldinaumdesgostodemorte,nasceramquatrofilhos:Isabel Maria, Pedro, e mais duas meninas que receberam, ambas, o nome de MariaIsabel. Mas,antesqueestascriançasvissemaluz,D.Pedro,amanteinsaciável eumtantopromíscuo,teveváriasoutras–umadasquaisnasceudosseus amorescomumairmãdeDomitila,D.MariaBeneditadeCastroCantoe
Fê-la primeiro dama
Melo,queeracasadacomBoaventuraDelfimPereira,1.ºbarãodeSocaba,
a quem já dera nove filhos e que, súbdito fiel, aceitou reconhecer a paternidade do menino. O bastardo – que D. Pedro contempla no seu testamento–chamou-se,porisso,RodrigoDelfimPereira.
Nasceuem1823elevavamuitoemgostoasuafiliaçãoilegítima.Tanto
queumpoetadelínguaafiadaegostoduvidosocompôsumaquadraque
ficoufamosa:
«DoImperadorquesedizfilho,
Temoretratonasala.
Masdap…queopariu,
Nãotemretratonemfala.»
A verdade é que Rodrigo Delfim Pereira teve numerosa e ilustre progenitura.
Aindaem1823,oanoemquecomeçaefectivamenteo«reinado»de
Domitila, nasceram Teotónio Meireles da Silva, que terá sido fruto da relaçãodeD.PedrocomGertrudesMeireles,umabelezadeMinasGerais; eMarianaAméliadeAlbuquerque,havidadeLuísadeMeneses,poetisa, tambémdeMinasGerais. D. Pedro também não terá resistido aos encantos de Letícia Lacy, mulher de um violinista da câmara de Fernando VII, rei de Espanha. DessaaventurapoderátersidofrutoD.LuisPabloRosquellas,nascidono
Rioa25deAbrilde1823,quechegouaministrodoSupremoTribunalda
Bolívia.«NafamíliadeDomLuisPabloseconservaatradiçãodequeera filhodeD.PedroI[…]» 286
***
Quanto aos filhos havidos da marquesa de Santos, a que alguns chamarama«novaCastro»,oprimeirofoiumameninaerecebeuonome de Isabel de Alcântara Brasileira. Nascida a 23 de Maio de 1824, foi reconhecida por seu pai dois anos mais tarde, num documento referendadoporváriosministroseregistadonoslivrosdaSecretariade Estados dos Negócios do Império: «Declaro que houve uma filha de mulhernobreelimpadesangue,aqualordeneiquesechamasseD.Isabel MariadeAlcântaraBrasileira,eamandeicriarnacasadoGentilHomem daMinhaImperialCâmara,JoãodeCastroCampoeMelo.» 287
Depoisdelegitimada,ameninarecebeuotítulodeduquesadeGoiás, comtratamentodeAlteza.Educadanopaço,comsuairmã,D.Mariada Glória,Bela,comoseupailhechamava,veiocomafuturarainhaD.Maria II para a Europa, depois da abdicação de D. Pedro (1831). Viveu em
FrançacomaimperatrizD.AméliaecasounaAlemanha,em1843,com
ErnestoFischler,condedeTreuberg.
Emfinaisde1825,Domitiladeuàluzumrapaz–querecebeuomesmo
nomedofilholegítimodoimperador,nascidopelamesmaaltura(2de
Dezembro).RegistadocomoPedrodeAlcântaraBrasileiro,ficouentregue aoscuidadosdaavómaternaemorreuumanodepois,semqueopai algumavezotivessereconhecido.
Nesseanode1826,quefoiodamortedeD.JoãoVI,a10deMarço,
morreu também D. Leopoldina de Áustria, que, tendo abortado a 1 de Dezembro um feto masculino, faleceu dez dias depois, pelas dez da manhã, não sem acusar Domitila de ser a causa de todas as suas desgraças 288 . D.Pedrochorou«amortedaesposanopeitodaamante» 289 .Eesta
deu-lhe,a13deAgostode1827,maisumafilha.D.Pedroescreveunoseu
diário:
«A13levantei-meàs6½,logochegouJoséadarmepartedehavernascido
humameninaà1¾queé,minhafilha,esehádechamarMariaIzabeldeAlcantara
Brazileira.MandeiviracarruagemdoSarmentoparaahirveracazadesuamai.
TenhotençãodeaseutempofazerPúblicoseureconhecimentocomotítulode
DuquezadoCeará,edando-lheotratamentodeAlteza,bemcomootemsuairmana
DuquezadeGoiàz,efazoestadeclaraçãoaquiparaqueellanadapercaemcasode
Eufalecerantesdehaverpublicadoseureconhecimento,epoderelleserfeitopelo
queaquiconstaquevalerácomoDecretopassadoentão.PaçodaBoaVista,trezede
Agostodemiloitocentos,evinteesette» 290 .
Poucosdiasdepois,abastardafoisubtraídaasuamãeerecolhidano PaláciodeSãoCristóvão,ondetambémviviainstalada,«comumserviço
decasquinhaemarfim»,aduquesadeGoiás.Masameninafaleceua26
deOutubrode1828.
JáentãoD.PedroprocuravanaEuropaumaprincesacomquemvoltar acasar–epreparavaorompimentocomamarquesadeSantos,quelhe prejudicavaosplanos.Masestaaindalhedariamaisumafilha,nascidajá
depoisdaseparaçãodosamantes,queocorreua27deAgostode1829.
AsegundaMariaIsabelnasceuem1830.Noanoseguinte,a7deAbril,
D. Pedro abdicou do trono imperial e partiu para a Europa cinco dias depois,semterconhecidonemreconhecidoafilha–quenãobeneficiou, por isso, dos títulos e tratamentos que tinham sido concedidos a suas irmãs. Já no seu exílio inglês, porém, preocupou-se com ela e mandou escreveràmarquesadeSantos,paraquemandasseafilhasereducadana Europa.Domitilademoroucincomesesaresponder:quandoD.Pedrose dignassemandarbuscarafilha,elaestavaprontaparaaacompanhar…
D.Pedrosónoseutestamento,feitoa21deJaneirode1832,voltoua
falarnocaso,pedindoaD.Améliaasua«imperialprotecçãoeamparo» para«aquelameninaquelhefaleiequenasceunacidadedeSãoPaulo,no ImpériodoBrasil,nodiavinteeoitodeFevereirodemiloitocentose trinta».Eacrescentava:«DesejoqueessameninasejaeducadanaEuropa parareceberigualeducaçãoaqueseestádandoaminhasobreditafilhaa Duqueza de Goiàz e que depois de educada a mesma Senhora Dona AméliaAugustaEugéniadeLeuchtenberg,DuquezadeBragança,Minha AdoradaEsposa,achamesemelhantementeparaopédesi[…]» 291 Sechamou,oquenãoéprovável,MariaIsabelnãoveio.FicounoBrasil,
ondecasoucomPedroCaldeiraBrant,1.ºcondedeIguaçu,aquemdeu
quatrofilhos.Morreuem1896.
***
AntesdeMariaIsabeldeAlcântaraBrasileira,D.Pedroteveoutrafilha, nascidadosseusamorescomumafrancesa.Desdemoçoqueoimperador gostavade«namoraremliberdade,comoumestudante,asmodistasda RuadoOuvidor»,noRiodeJaneiro.Etinhaa«fantasiadepagaraquase todas» 292 .Umahouveporém,noanode1828,quelhemereceuespecial atenção.
ClémenceSaisset,aSé-Sé,tinha24anoseera«talvezamaisinteligente
ebonitadaslojistasfrancesas»,«ambiciosa,hábilelida».Mulherdeum antigo oficial de cavalaria do Grande Exército napoleónico, soube ser recompensadadesdeoprimeiromomentoqueoimperadorlheprestou atenção.E,quandooseu«romance»causoutalescândalonacortequefoi precisofazê-ladeixaroRioeregressaràEuropa,fez-sepagarregiamente.
Recebeunadamenosdoque21contos–umafortunaparaaépoca.
Clémence,omaridoeosfilhospartirama30deDezembrode1828.E,
noanoseguinte,maisexactamente,a28deAgostode1829,pelasseisda
tarde,Sé-Sédeuàluz,non.º17darueBergère,emParis,umrapazque
foiregistadocomofilholegítimodocasal–masrecebeuonomedePedro deAlcântaraBrasileiro 293 . DoBrasil,D.Pedroenvioualgumdinheiroparaajudaracriaromenino. E, no seu testamento, contemplou-o com um bom legado, pedindo à imperatrizviúvaquenãoodesamparasse.Oque,namedidadopossível, «Sua Majestade Imperial a Senhora Dona Amélia Augusta Eugénia de Leuchtenberg[sua],QueridaeAmadaEsposa,DuquezadeBragança»não deixoudefazer,contribuindocomalgumdinheiroparaasuaeducação. Concluídososseusestudos,obastardocasouefoipaideduasmeninas
–quehão-deternascidonaCalifórnia,umavezque,em1849,eraláque
PedrodeAlcântaraBrasileirodeSaissetvivia.
ChegaraaSãoFrancisconodia2deJulhode1849.Aliseestabeleceue
feznegóciosvários(imobiliário,segurosetransportedemercadorias). Estevetambémligadoaumacompanhiadeelectricidade,aBrushElectric Light Company, e foi agente consular de França. O governo francês atribuiu-lheotítulodevice-cônsulhonorário.
***
AsaventurasgalantesdeD.Pedroprosseguirammesmodepoisdoseu casamentocomD.AméliadeLeuchtenbergedoseuregressoàEuropa.E,
emboraqueixando-se–comosequeixavaem1831–deque«nãopodia
maisenrijecercertosmúsculos,oquefaziacomfacilidadenopassado»,a verdade é que, estando nos Açores, tomou-se de amores por D. Ana Augusta Peregrino Faleiro Toste, freira-sineira do Convento de São Gonçalo,nailhaTerceira. Háquedizerque,segundoomarquêsdeFronteira,«oConventodeS. Gonçalo era um grande recurso para a oficialidade dos Corpos, principiando pelo General em Chefe [D. Pedro, ele mesmo]. Todos ali tinhamumderriço,comolhechamavam[…]» 294 Doderriçodo general-
em-chefenasceu,então,noanode1832,umfilhoquerecebeuonomedo
paiemorreucomquatroanosdeidade. Finalmente,D.PedrotevedeMariaLibâniaLobo,açafatadarainhaD. Maria II, sua filha, mais um bastardo: Pedro de Alcântara, também conhecido por Pedro Real. Nascido em 1833 e falecido em 1908, em
Lisboa,foiparticulardeD.MariaII.Em1855,casoucomMariaLuísade
AndradeLaquietevegeração. SeriaesteoúltimofilhoilegítimodeD.Pedro,queentregouaalmaao
Criadorpelasduasemeiadatardede24deSetembrode1834,noPalácio
deQueluz.Tinha35anosdeidade.
Dosbastardoscomquepovoouseusreinosesenhorios,há,noentanto,
quereferiraindaameninaquenasceuem1831,filhadeAndrezaSantos,
«pretaquiteteiradoPaláciodeS.Cristóvão»;acriançaqueteránascido dos seus amores com D. Adozinda Carneiro Leão, a Zindinha; uma D. Urbana, havida da mulher de um dos seus ministros; uma Isabel de BourboneBragança,nascidanoRiodeJaneiro,demãedesconhecida;e umaoutra,domesmonome,filhadaviúvadeumtalLafarge,queviviaem França.
coroa.jpg
SãomuitoseilustresosdescendentesdosbastardosdeD.Pedro.RodrigoDelfim Pereira é a razão de correr sangue imperial e real nas veias de Francisco Pinto BalsemãooudeMiguelPaisdoAmaral,entreoutrosnomesilustresdasociedade portuguesa. O empresário Carlos Horta e Costa e o jornalista Gonçalo Bordalo Pinheiro,porseuturno,descendemdePedrodeAlcântara.
282http://www.sindegtur.org.br/2010/arquivos/b6.pdf
283Cf.IzaSalles,OCoraçãodoRei(S.Paulo:Planeta,2008)p.96.
284Cf.PedroCalmon,VidadeD.PedroI–OReiCavaleiro(Porto:Lello&Irmão,1952),p.110.
285Idem,ibidem,p.110.
286Idem,ibidem,p.149.
287Cf.IzaSalles,OCoraçãodoRei(S.Paulo:Planeta,2008)p.177.
288Idem,ibidem,p.185.
289Idem,ibidem,p.189.
290Cf.HugoCatunda,«ADuquesadoCeará»,inRevistadoInstitutodoCeará,TomoLXXXII(1968),
pp.30-31.
291TestamentodeD.PedroIV:RevistadoInstitutodoCeará,TE5(1972),pp.211-212.
http://www.ceara.pro.br/Instituto-site/Rev-apresentacao/RevPorAno/1972TE/1972TE-
TestamentoDuqueBraganca.pdf
292PedroCalmon,VidadeD.PedroI–OReiCavaleiro(Porto:Lello&Irmão,1952),p.148.
293Cf.CarlosStudartFilho,«BastardosdeD.PedroI»,inRevistadoInstitutodoCeará,TomoLXXVIII
(1964),pp.98-104.
294MemóriasdoMarquêsdeFronteiraed’Alorna,D.JoséTrasimundoMascarenhaseBarreto,Ditadas
porElePróprioem1861(Lisboa:ImprensaNacional/CasadaMoeda,1986),vols.III-IV,p.221.
OSBASTARDOSDOREIABSOLUTO
N ascidoem1802,D.Miguel,oreiAbsoluto,sócasouem1851,coma
princesa Adelaide de Löwenstein, que lhe deu oito filhos. Antes disso, teve amantes e bastardos, posto Júlio Dantas afirme, com base numa
suspeitosacartadocondedeRioMaior,queopríncipeteveporalgum tempo um «horror doentio» pelas mulheres, de que, atentas as suas muitasaventurasamorosas,evidentementeseregenerou 295 . Protagonistas dessas aventuras foram, entre outras, a bailarina Margarida Bruni, empresária do Teatro de São Carlos, em 1823; uma polacaconhecidaemParisporPrincessedePortugal;a«tamanqueirade Braga», a que Camilo Castelo Branco alude; D. Emília 296 , fidalga de Guimarães,«commuitoscunhaisdearmasnosolaremuitosgrilhõesde ouroaopescoço» 297 ;uma«mulhercasadaqueoendoideceuemVienae semeteuafreira»;umaactrizquesequisbatercomD.Miguelàespada, «debaixodosarvoredosdoCampoGrande»;ouumainglesa,MissAskion,
que,em1828,foiemPlymouth«umadasaventurasdofilhodeCarlota
Joaquina»equeJúlioDantasdescobriunospapéisinéditosdoagentede confiançadogovernoportuguêsjuntodeS.M.Britânica,AntónioRibeiro Saraiva,porquemelatambémseapaixonou 298 . Mashá,ainda,MariaEvarista,a«saloiadeQueluz»,quemoravanumas «casasbaixas»frenteaoPalácioReal,eterádadoduasfilhasaomonarca. Umadelasmorreutísica.Aoutra«casou,paraTorresVedras,comum pedreiro» 299 . Esta segunda filha natural de D. Miguel, chamada Maria Henrique, foi afilhada do conde de Soure 300 , o amigo mais íntimo e o colaboradormaisdevotadodorei.CriadaporD.HelenadeVasconcelose Sousa, filha do marquês de Castelo Melhor e mulher do marquês de Abrantes, «passou depois para o Convento das Salésias e dali para o Crucifixo». Precisando de banhos de mar, levaram-na a Torres Vedras, onde foi albergada por José Agostinho, dono da Quinta da Piedade, próximodoVimeiro,queaengravidou.Foientãocasadacomumcriado dacasa.Eofilhodelaestavavivoem1893 301 .
AestasduasbastardasdeD.Miguel,acrescentaCamiloCasteloBranco umaterceira:D.MariaJosé,aInfantaCapelista,principalpersonagemdo romancequeoescritorcompôsparadenegriraCasadeBragançaese vingardoreiD.Luís,quelherecusou,eaofilhohavidodeAnaPlácido, umtítulodevisconde.Esseromance,queCamiloacaboupornãopublicar, talvezparaagradecereretribuiravisitaquelhefezoúltimoimperador doBrasil,foidepoistransformadonoutro–OCarrascodeVítorHugoJosé Alves–ondeD.MariaJosé,decapelistapassoualuveira,acabandopor casarcomumcondedeBaldaque,segundodotítulo,filhodeumnegreiro quelhedeixara«aherançaignominiosadetrêsmilhões[…]» EssabastardadeD.Miguel,quenãopassadecertodeumapersonagem
deficção,terianascidoem1832eseriafilhadeumasenhorachamada
MarianaJoaquinaFranchiosiRolimPortugal,depoisdeseterchamado simplesmente Mariana Joaquina e, mais tarde, Mariana Joaquina da ConceiçãoElísia. D. Mariana, «famosa aventureira» que Camilo faz fantasiosamente descender de D. Afonso VI, não é, porém, uma criação do romancista. Existiurealmenteeparecenãohaverdúvidasdeque«teveintimidades comD.MigueldeBragança» 302 .Baptizadaa2deNovembrode1797na freguesiadeSantaIsabel,emLisboa,erafilhadeEusébioJoaquim,um moleirodeAzeitão.Muitonova,fugiudecasadeseuspaiscomumoficial deMarinha,queaabandonou.Depois,casou,provavelmenteemOutubro
de1814,emAzeitão,comum«sombreireiro»,talvezchamadoJoãoLopes
Giraldo, que a deixou. Por 1817, foi criada de servir em casa de uma madame Chapsal, passando, quatro anos depois, a governanta de um padeirorico,ManuelRodrigues,«estabelecidonatravessadoSecretário da Guerra e domiciliado num 1.º andar do pátio do Picadeiro, a S. Carlos» 303 . Mas, um dia, Mariana Joaquina decidiu apropriar-se de anéis de diamantes, colheres de prata, dinheiro e roupas do padeiro, de quem evidentemente se despediu. «Tomou então uma casa na rua dos Douradores, aonde iam os figurões com as suas amásias e, por isso, adquiriu grandes conhecimentos, dos quais soube tirar partido, sendo seus apaixonados Luís da Motta Feo; o Barrão, coronel de milícias; AntónioSicard,quemorreunaTorre[deS.JuliãodaBarra];umRego;e, enfim,odesembargadorFerraz,dequemteveumfilho.» 304 Oumelhor:
dissequetinhatido.
Foiestedesembargador,acasadequemMarianaiatodososdias,quea
ajudouasubiraindamaisnavida.Trocou-lheahospedariadaRuados Douradores por uma casa no Largo do Carmo, pôs-lhe carruagem e apadrinhou-lhe o filho, baptizado em São Nicolau como filho de pais incógnitos,cujapaternidadeestevequaseaassumir.Poressetempo,jáa «famosa aventureira se intitulava D. Mariana Joaquina de Portugal […]» 305 Odesembargadormorreu.D.Marianaapoderou-sedeumbaúqueele possuía e voltou a mudar de casa, transferindo-se para o paço do Boi Formoso.DopárocodeSãoNicolautentouobterumaalteraçãodoregisto de baptismo do filho, de modo a que o desembargador nele figurasse comopaidecriança.Masumcriadopreto,JosédeFaria,queservirao desembargadoreamadama,«declarouqueelahaviacompradoomenino paraoimpingiraodesembargador,primeirocomoafilhado,depoiscomo filho» 306 . Marianacontinuouasubirnavida,habitando«prédioscaros,nasruas daEmendaedaMadalena».Ganhou,alémdisso,novosconhecimentos, nãolhesendodifícilcaptarasboasgraçasdocondedaLousã,ministroe secretáriodosNegóciosdaFazendanogovernodeD.Miguel.Aseguir conheceu o próprio príncipe, com quem manteve «relações intimas», frequentandoosseusaposentos«diasim,dianão»,eservindoasuacausa «fazendoespionagem». «Crescendoemaudácia»,procuroudepoisimpingir-lheumafilhapelo mesmo processo que tinha seguido com o desembargador Ferraz. Mas por aqui se vê que a filha de D. Mariana – a D. Maria José, «infanta capelista»ouluveira,conformeoromancedeCamiloqueseescolha–não teveD.Miguelporpai. Um outro escritor, Carlos Malheiro Dias, na mais célebre das suas obras,OsTellesdeAlbergaria,atribuitambémàpaternidadedomonarca umasenhorachamadaD.MariaJoaquinadeVasconcelos–quepodenão passar,eprovavelmentenãopassa,tambémela,deumapersonagemde ficção. MasdeficçãoéquenãoéD.MariadaAssunçãodeBragança,filhaque D. Miguel reconheceu em Albano (Itália), a 2 de Agosto de 1839 307 . A
bastardanasceuemLisboa,a12deMarçode1831,sendofilhadeuma
Carlota–aCarlotadosPésGrandes–que,merecendoasboasgraçasdo ReiAbsoluto,eraaomesmotempoamantedeummonsenhoredeum
marquês.MoravanaRuaLargadeSãoRoque,no1.ºandardeumacasa
fronteira à Travessa do Poço da Cidade, em Lisboa, que D. Miguel
frequentava«quasesempredenoite,acompanhadoporalgunsdosseus íntimos» 308 .MasterátidotambémumacasadehóspedesaoCorpoSanto, segundoinformaçãoqueAlbertoPimenteldepoiscolheudomarquêsde Valada 309 . Foi lá que o príncipe Lichnowsky a conheceu, em 1842, considerando-a uma «bella mulher com ainda classicos vestigios de depostosencantos» 310 .
QuandoD.Miguelpartiuparaoexílio,a26deMaiode1834,D.Maria
daAssunçãoseguiu-o.EntregueaoscuidadosdeMarianadaGama,viúva de José Luís da Rocha, o «particular» do monarca que substituíra o viscondedeQueluzcomoseusecretário,D.MariadaAssunçãopassoua vivernosarredoresdeRoma.E,comosustentodela,gastariaD.Miguel umterçodamesadaquerecebiaentãodopapa 311 . DepoisdeD.Migueldeixaroseuexílioitaliano,D.MariadaAssunção
permaneceuemRoma.Por1893,garanteAlbertoPimentel,residianavia
delPlesbicito(pertodaPiazzaVenezia),n.º112,3.ºandar,sustentada,ao
que parece, por uma pequena pensão do Instituto Português de Santo
António.Alimorreu,a9deJulhode1897,umasexta-feira.
DessamortedeunotíciaoFigarododiaseguinte,emParis,dizendo que «a filha natural do falecido rei D. Miguel» tinha vivido «modestamente» na Cidade Eterna, «ocupando-se com obras de caridade».EacrescentavaqueD.MariaAssunta(eraesteonomeitaliano quelhedava)aspirarapormomentosaserdeclaradaprincesadesangue real, «mas a morte de D. Luís impedira que as suas diligências alcançassemumresultadofavorável».Arematar,afirmavaque«adefunta eramuitoestimadanoVaticano». Essaestimaéconfirmadaporváriasfontes,amaisinsuspeitadasquais
éS.DanielComboni,queopapaJoãoPauloIIcanonizouem2003.No
Verãode1865,ofundadordosMissionáriosCombonianospreparava-se
parapôrempráticaoseuprojectoevangelizadordocontinenteafricano. Para tanto, entendeu que lhe era indispensável aprender português. E tomoupormestraumasenhoraqueera,nassuaspalavras,«SuaAlteza RealDonaMariaAssuntadeBragança». Esta «virtuosa princesa», dizia ele ao padre Francisco Bricolo, seu amigo, tinha 32 anos de idade, era de «rara piedade» e possuía «um coraçãoimenso».Sobreisso,eraameninaquerida,oenfantgaté,dopapa PioIX,deAntonelli[ocardealsecretáriodeEstado]edocardealPatrizi. Comboniconsiderava-a«umgrandeexemplodedesapegodomundo»e confiavaquefosse«comoumapóstoloparabeneficiaro[seu]plano».Foi
exactamenteissoquesucedeu:D.MariadaAssunçãotornou-seamais dedicada colaboradora do santo em Roma, desempenhando um papel considerado decisivo na difusão da Obra do Bom Pastor, lançada por Combonieabençoadapelopapa. O mesmo papa Pio IX terá querido legitimar D. Maria da Assunção como filha de D. Miguel. Mas o cardeal Antonelli desviou-o desse propósito, lembrando que poderia haver, quanto à mãe, cuja biografia nãoerasuficientementeconhecida,algumimpedimentocanónico… 312 Além desta virtuosa bastarda, cuja existência não oferece qualquer dúvida, D. Miguel terá tido uma outra filha ilegítima: Maria de Jesus, nascida entre 1833 e 1834, fruto dos amores do monarca com uma senhora desconhecida. Gerada quando D. Miguel estava com o seu exércitoemSantarém,preparando-separaretomaraLisboaconquistada a 24 de Julho pelo duque da Terceira (o que, como se sabe, nunca conseguiu), a menina suscitou recentemente a curiosidade de três genealogistas,quelheadivinharamuma«vidaaventurosa» 313 . Segundo parece, Maria de Jesus casou primeiro com um D. Silverio Rodriguez,quemorreuemHavana(Cuba).Chamava-seentãoD.Maria Rosa Tell de Mondedeu da Silva, um «nome de sabor castelhano» que
abandonouemLisboa,aocasar,em1873,comD.TomásJosédeMelo,
escritor,empresárioteatraleconhecidoboémio. Noactodoseucasamento,«assinacomonomedeD.MariadeJesusde BragançaeBourbon,viúvadeD.SilverioRodriguez».E,porserviúva,não sedeclaraonomedosseuspaisnemasuanaturalidade.
EmJulhode1874,nasceoprimeirofrutodessematrimónio:umafilha,
quefoibaptizadaumanodepoiscomonomedeMariaJustinaMicaela TomásiaJosédeJesus,declarando-senoregistosernetamaternade«D. MigueldeBragançaeavóincógnita».Podeserquefosse. Pode ser também que novos bastardos se descubram. Nos livros A InfantaCapelista,como,também,noCarrascodeVíctorHugoJoséAlves, Camilo Castelo Branco garantia ainda existirem em Lisboa, além de D. Maria José, «cinco ou seis pessoas, de ambos os sexos», que eram «conhecidosfilhosdeD.Miguel»… 314
295Cf.JúlioDantas,ArtedeAmar(Lisboa:Portugal-Brasil,1922),p.120.
296Trata-sedeD.EmíliaCorreiadeMoraisLeitedeAlmadaeCastro(1807-1897),filhadovisconde
daAzenha,quedescendiaporseupaideD.AfonsoDinis,obastardodeD.AfonsoIII,mastambémde
D.TeresaSanches,filhadeD.SanchoIedaRibeirinha,descendendoporsuamãedeD.Urraca
Afonso,outradasfilhasilegítimasdoreiBolonhês.
297JúlioDantas,Mulheres(Porto:LivrariaChardron,1916),p.123.
298Idem,ibidem,p.124.
299AlbertoPimentel,AÚltimaCortedoAbsolutismo(Lisboa:LivrariaFérin,1893)p.290.
300D.HenriqueJosédaCostaCarvalhoPatalimSousaeLafetá,7.ºeúltimocondedeSoure,nasceu
em1798emorreuem1838.Nãocasoumasdeixoutrêsfilhos,quelegitimou.
301AlbertoPimentel,AÚltimaCortedoAbsolutismo(Lisboa:LivrariaFérin,1893),p.285.
302Idem,NinhodeGuincho(Lisboa:ParceriaAntónioMariaPereira,1903),p.146.
303Idem,ibidem,p.147.
304Idem,ibidem,p.148.
305Idem,ibidem,pp.148-9.
306Idem,ibidem,p.149.
307Cf.FredericoGravazzoPerryVidal,DescendênciadeS.M.El-ReioSenhorD.JoãoVI(Lisboa:
GuimarãesEditores,1923),p.177;AfonsoEduardoMartinsZuquete,NobrezadePortugaledoBrasil
(Lisboa:EditorialEnciclopédia,1960)T.II,p.47.
308AlbertoPimentel,AÚltimaCortedoAbsolutismo(Lisboa:LivrariaFérin,1893),p.289.
309Idem,NinhodeGuincho(Lisboa:ParceriaAntónioMariaPereira,1903),p.45.
310PríncipeLichnowsky,Portugal:recordaçõesdoanode1842(Lisboa:ImprensaNacional,1844),
p.18.
311Cf.MariaAlexandraLousada&MariadeFátimadeSáeMeloFerreira,D.Miguel(Lisboa:Círculo
deLeitores,2006),p.294.
312AlbertoPimentel,AÚltimaCortedoAbsolutismo(Lisboa:LivrariaFérin,1893),p.290.
313AntóniodeMattoseSilva,AntóniodeSousaLara&LourençoCorreiadeMatos,UmaFilha
NaturaldoReiD.Miguel,AscendentedoPintorThomazdeMello(Lisboa:2008),p.23.
314CamiloCasteloBranco,AInfantaCapelista(Porto:s/d),p.37.
ABASTARDADAEXCELENTÍSSIMAMADRASTA
D ona Maria II, a rainha Gorda, que esteve para casar com o rei D.
Miguel, irmão de seu pai, acabou por casar com o cunhado deste – o príncipeAugustodeBeauharnais,duquedeLeuchtenberg,naBaviera,e
duque de Santa Cruz, no Brasil, irmão da imperatriz Maria Amélia, segunda mulher de D. Pedro, e neto da imperatriz Josefina, primeira mulherdeNapoleãoBonaparte.
Ocasamentocelebrou-seemLisboa,a26deJaneirode1835.Mas,dois
meses depois, o príncipe Augusto morreu «em consequência de uma angina»,deixandoD.Maria«viúvasemtersidoesposa»,umavezqueo casamento não foi consumado. E, em Maio desse ano, começou a procurar-seumnovomaridoparaarainha,cujasucessãourgiaassegurar. O conde de Lavradio encontrou-o na pessoa de D. Fernando de Saxe- Coburgo-Gotha, príncipe alemão, que era sobrinho do rei Leopoldo da
BélgicaeprimodireitodarainhaVictoriadeInglaterra.Oachadovaleu-
lheagrã-cruzdaTorreeEspada. OnovocasamentodarainhafoiaprovadopelogovernoemDezembro
de1835ecelebrou-seemLisboaa9deAbrilseguinte.Delenasceram
onzepríncipes,doisdosquaisforamreisdePortugal:D.PedroVeD.Luís
I.Oúltimodosinfantes,D.Eugénio,morreunodia15deNovembrode
1853,emquenasceu–elevousuamãeconsigo.D.Mariatinha34anosde
idade. D. Fernando descreveu-a, e chorou-a copiosamente, como «a melhordasmãeseomodelodasesposas» 315 . O rei viúvo ficou inconsolável. Mas, sendo homem galante e bem- apessoado,nãotardouarecompor-se.E,nosanosseguintesàmorteda mulher, protagonizou numerosas aventuras, «rápidas ou duradouras», quetalveztivessemcomeçadoantesdeenviuvar,coleccionandoamantes cujosnomes,segundoEduardodeNoronha,encheriammuitaspáginasde umlivro.Comelas,povoouoreinodebastardos:«SuaMajestadenãose limitou a dar príncipes à dinastia; gerou vassalos para os servirem […]» 316
Entreassuasamásiascontam-seumacostureirinhafrancesa,Charlotte
Hanriot, a quem orei trazia «bem vestida eadmiravelmente calçada»; umalindadançarinaitalianadoTeatrodeSãoCarlos,quetambém«foi pertençadocondedeFarrobo»;ouumaactrizque«dehámuitohavia apresentado a sua notável e bem marcada candidatura e que estava
prestesasubiraoCapitólio[…]» 317
MasnãoécertoqueD.FernandoIItenhatidotantas«barregãs»como seafirma.Edosbastardosquegerounãohá(quase)nenhumasnotícias. OquesesabedeciênciacertaéqueoreiArtista,jáviúvo,seapaixonou perdidamenteporumacantoradeópera,EliseHensler,comquemacabou por se casar. E dessa ligação terá nascido uma filha, que nunca foi reconhecida como tal – nem pelo pai nem pela mãe (com quem, no entanto,viveu).
O romance começou em 1860, sete anos depois de D. Fernando
enviuvar. Nesse ano cantou-se em Lisboa, a 15 de Abril, O Baile de Máscaras,deVerdi.OpapeldeÓscar,opajem,eradesempenhadopor uma cantora cujas curvas provocavam, porventura mais do que a voz, admiração e aplauso. «Ela é tão bonita que faz gosto festejá-la!» –
comentava,aotempo,JúlioCésarMachado 318 .
Nascidaa22deMaiode1836,emLa-Chaux-de-Fonds,juntoaolagode
Neuchâtel,naSuíça,EliseFrederickHenslertinhadoisanosquandoos
pais decidiram cruzar o Atlântico e estabelecer-se na América. Viveu primeiro em Nova Iorque, depois em Springfield (onde aprendeu a cantar),e,finalmente,emBoston.Foiaquiquepelaprimeiravezpisouo palcoparacantarumaópera:Robertle Diable, de Giacomo Meyerbeer.
CorriaomêsdeFevereirode1852.
O êxito que Elise obteve convenceu o pai, alfaiate de profissão, a
mandá-la aperfeiçoar em Paris as qualidades canoras. Estudou no ConservatórioImperial,ondeoseutalentofoimuitoapreciado.Ealguns vaticinaram-lheumlargofuturo,recomendando-lhequeprosseguisseos estudos em Itália. Elise passou então a Milão, onde acabou por ser
contratadapeloLaScala.Efoiaíqueseestreou,emDezembrode1854,
na ópera Linda di Chamounix, de Donizetti. Mas o aplauso não foi unânime. Entretanto, o pai – que viera dos Estados Unidos para servir de empresárioàfilha–teveumataquedecoraçãoqueodeixouparalisadoe
semfala.Talvezporisso,ElisedecidiuregressaracasaemJunhode1855
– e, com a mesma ópera que cantara em Milão, estreou-se em Nova
Iorque.Depois,cantouemBoston,FiladélfiaeWashington.A22deMaio
de1856,foi-lheconcedidopassaporteparavoltaràEuropa.Andoupor
França,Itália,ÁustriaeSuíça.Em1859,foicontratada(ou,comoentãose
dizia,escriturada)paracantarnoTeatrodeSãoJoão,noPorto.
DeixouParis,ondesedissequetinhacasado,eestreou-seemOutubro
naCidadeInvicta.Oseusucesso,eodasuacompanhia,foram,porém,de
curtaduração.E,quandoachamaramparacantaremLisboa,aHensler
nãohesitouepartiu–levando«naalmaoslutosdanaturalvaidadeferida
pelaindiferençagélidadunspisa-verdesquehonraramgrandementea
mulher,menosprezandoaartista»,comoCamiloescreveunassuasNoites deInsónia. Depois de a ouvir no São Carlos, onde não foi muito apreciada pela generalidadedacrítica,oreiViúvoperdeu-sedeamoresporela.Enunca maisadeixou. EnquantoD.PedroVfoivivo,D.FernandonãometeuadamanoPaço dasNecessidades,ondetinhaasuaresidência.Epassavaomelhordoseu tempoemcasadela,naRuadosRemédios,àLapa,ondeElisaviviacoma mãe–vivendotambém,aoqueparece,comumameninaaquemchamava «sobrinha».Mas,mortooherdeirodesuaprimeiramulher,oreiArtista deixou-sedecerimónias,assumindointeiramentea«mancebia».E,entre Maio e Outubro de 1863, andou com a Hensler pela Europa,
apresentando-a,porém,comomulherdocondedaFoz,seuajudante-de-
campo.
Em1869,quandootronodeEspanhafoioferecidoaD.Fernando,este
fezmuitaquestãoemdeixarclaroquenãoiriaparaMadridsemlevara amante consigo. E, para que dúvidas não subsistissem a esse respeito,
tratoudecasarcomela–paragrandeescândalodemuitoboagente,a começarpelarainhaD.MariaPia,quenãosuportavaamadrastadeseu marido.EssecasamentodesigualpodetersidoaprincipalcausadeD. Fernandonuncatersidocoroadomonarcadopaísvizinho,apesardea cantora ter recebido o título de condessa de Edla como presente de ErnestoII,duquedeSaxe-Coburgo-Gota.
D.Fernandomorreuem1885edeixouasuamulheromelhordasua
fortuna:oPalácioeoParquedaPena,oCastelodosMouroseaQuintada Abelheira.AsúltimasvontadesdoreiArtistaprovocaramumescândalo nacional.EoEstadofoiobrigadoacompraràcondessatodososbens imóveis que seu marido lhe deixara. Foram negociações complexas e
morosas,quesóseconcluíramemfinaisde1889,jánoreinadodeD.
Carlos.
Elisa Hensler viveria até 1929. Quando morreu, disse-se que teria casado«aocultas»comogeneralSebastiãodeSousaTeles,quechegoua ministrodaGuerradoreiD.Carlos.Eficoudefinitivamenteasaber-se queAliceHensler,a«sobrinha»dacondessa,eraafinalsuafilha,«aqual el-reiD.Fernandosempremimou». Alguns quiseram, aliás, que o viúvo de D. Maria II fosse o pai da senhora, que, à data da morte da mãe, estava já viúva de Manuel de AzevedoGomes,oficialdeMarinha.Nadaera,porém,maisimprovável.
QuandoAlicenasceu,nodiadeNatalde1855,aindaD.Fernandonão
sabiadaexistênciada«garridacantarina»–queocondedeMafrarecorda nassuasMemóriascomomulher«esbelta,bonita,inteligente,boaartista, espertaebondosa» 319 .
315Cf.MariadeFátimaBonifácio,D.MariaII(Lisboa:CírculodeLeitores,2007),p.155.
316EduardodeNoronha,OReiMarinheiro(Lisboa:JoãoRomanoTorres,s/d),p.47.
317Cf.JúliodeSousaeCosta,OSegredodeDomPedroV(Lisboa:RomanoTorres,1941),pp.51-54.
318Cf.TeresaRebelo,Condessad’Edla(Lisboa:Aletheia,2006),p.155.
319MemóriasdoprofessorThomazdeMelloBreyner,4.ºCondedeMafra–1869/1863(Lisboa:
ServiçodeDermatologiadoHospitaldoDesterro,1997),p.13.
OSFILHOSDODR.TAVARES
J ovembem-parecido,muitosisudoemaldisposto(«umanciãodevinte
edoisanos»,dissedeleumavezAlexandreHerculano),D.PedroVcasou,
em1858,comD.EstefâniadeHohenzollern-Sigmaringen,que,amando
muitooseumarido(comodizia),nãooachavaamável,«sobretudocom assenhoras» 320 .Ocasamentofoibreve:arainha,alemãcomoseusogro, quealiásnãoapreciavaparticularmente,morreuumanodepoisdeseter casado – dizendo as más-línguas que partiu para o outro mundo tão virgemcomoaestetinhachegado.
D.PedroVpoucotempolhesobreviveu,falecendoem1861,semdeixar
descendência,legítimaouilegítima.Sucedeu-lhenotronoseuirmão,orei D.Luís,que,depoisdeseraclamadoemcortes,casoucomD.MariaPiade Sabóia.Foiummatrimóniomuitoaplaudido–e,nosprimeirostempos, parecequemuitofeliz–,dequenasceramdoispríncipes:D.Carlos,que depoisreinou,eD.Afonso,duquedoPortoecondestáveldoReino.
Mas,depoisdonascimentodestesegundofilho,a31deJulhode1865,
asrelaçõesentreomonarcae«aitaliana»,comoarainhaeraalgumas vezes chamada, começaram a arrefecer. E D. Luís, que desde moço se revelara grande conquistador, entrou numa vida absolutamente
desregrada,emfinaisdadécadade1860 321 .Tantoqueumconselheirodo monarca achou necessário lembrar-lhe a triste sorte da rainha de Espanha,depostapelaRevoluçãodeCádis:«ARainhaIsabelcomehojeo pãodoexíliodevidoaosseusmauscostumeseàsinfidelidadesconjugais quetemcometido.» 322 D.MariaPiapoderáterseguidopelomesmocaminhodomarido.Eo casal ponderou a separação em termos melodramáticos: a rainha regressariaàsuapátriae,emPortugal,D.Luísabdicaria 323 .Averdade, porém, é que nem a rainha voltou para casa de seu pai nem o rei abandonouoseutrono. D.Luístambémnãodeixoudecontinuaradarassuas«facadinhas»no matrimónio.«Amigodaboémiaemuitomulherengo»,D.Luís,usandoo
pseudónimo de Dr. Tavares, saía à noite do Palácio da Ajuda,
acompanhadopeloDr.MagalhãesCoutinho,directordaEscolaMédico-
CirúrgicadeLisboa,paraseencontrarcomasamantes. AmaisfamosadetodaselasfoiRosaDamasceno,actrizmuitocélebre, de «figurinha delicada e graciosa, bonita e de cabelos loiros bem frisados».Deladizemalgunsqueoreitevedoisfilhos,podendoumdeles ser Manuel Maria Damasceno Rosado (1867-1925), funcionário da AlfândegadeLisboa,queveioacasar-secomumasobrinhadeEduardo Brasão,actortambémfamosoelegítimomaridodeRosaDamasceno. EstapodenãotersidoamãedosegundobastardodeD.Luís,seéque eleexistiu.Comefeito,historiadoresháquesustentamdeverserfilhodo rei um Pedro Luís António Pretti, que foi dado à luz por uma ilustre desconhecida chamada Marina Mora. Não há outra justificação, sustentam,paraqueD.Luísdeixasseaojovemeasuamãe,comodeixou
numacarta-testamentoredigidaem1869,aterçapartedasuafortunaem
inscriçõesdedívidapúblicaoupapéisdecréditoestrangeiros. AMarinaMoradeixavaainda«umanelqueusonoquartodedodamão
esquerdacom5brilhantespequenosequeelamedeu»;eaPedroLuís«a
medalha da Virgem que trago ao peito» 324 . Estas doações ou, mais exactamente,esteslegadosdemonstravamaintimidadedasrelaçõesdo reicomMarinaMoraeoseufilho. Mas,antesdeterestesfilhos,seéqueosteve,D.Luís,estandosolteiro, poderátersidopaideumoutrobastardo.Amãeseria«umadeliciosa rapariguinha de nome Maria Oliveira, filha dum sapateiro de Belém». Lipipi,comooreierachamadopelospaisepelosirmãos,apaixonou-se porela,pôs-lhecasanaTravessadoJudeu,aSantaCatarina,eenfrentou com galhardia as descomposturas que D. Pedro V lhe dava, tentando afastá-lodoque,naopiniãodomonarca,eraumamácompanhiaparao irmão. Umdia,porém,MariaOliveiraaceitouopedidodecasamentoqueum primo lhe fez e abandonou D. Luís. Mas, cinco meses depois de estar casada,deuàluzum«garotitoloiro»que«eraacaradaquelequedepois foi rei de Portugal». Forçado pelo prior da sua freguesia, o marido de MariaOliveiraaceitoudeclarar-sepaidacriança–que,quandocresceue sefezhomem,foimuitoprotegidopelocondedoRestelo 325 .
320JúliodeSousaeCosta,OSegredodeDomPedroV(Lisboa:RomanoTorres,1941),p.48.
321Cf.LuísNunesEspinhaSilveiraePauloJorgeFernandes,D.Luís(Lisboa:CírculodeLeitores,
2006),p.71.
322Idem,ibidem,p.109.
323Idem,ibidem,p.113.
324Idem,ibidem,p.71.
325JúliodeSousaeCosta,OSegredodeDomPedroV(Lisboa:RomanoTorres,1941),pp.132ss.
AÚLTIMABASTARDA
D omCarlospodetersidoumgrandereie,até,umpaiextremoso.Mas
nãofoicertamenteumbommarido.Tendocontraído,em1886,oquese
disse ser, e parece de facto ter sido, um casamento de amor com a princesaMariaAméliadeOrleães,cedomandouafidelidadeconjugalàs malvas,entregando-seaumavidadeconquistaseaventurasamorosas queacabaramportransformaroseumatrimónionuma«desgraça» 326 . Ofendida e humilhada pelas infidelidades do marido, a rainha D. Amélia,paravingarasuahonraedefenderasuasaúde,queconsiderava ameaçadapelapromiscuidadedorei,começouporlhefecharasportasdo quartoeacabouporfazervidaseparada 327 .D.Carlos,quenuncadeixou de tratar sua mulher com o respeito e o afecto devidos à rainha de Portugal e à mãe dos seus filhos, prosseguiu os seus «devaneios eróticos» 328 econtinuouacoleccionaramantes. Teve-asdetodososgénerosefeitios,desdeactrizesfamosas,comoa francesaRéjane,atéfidalgasportuguesasdosquatrocostados,comoas condessas de Paraty e da Guarda, passando por camponesas da EstremaduraedoAlgarveou,até,porcriadasdopaço.Asuaprimeira aventuragalanteterásido,aliás,comafilhadeumjardineirodoPalácio Real,queRamalhoOrtigãodenuncioun’AsFarpasefoiobjectodeuma quadra que A Marselheza, um jornal do tempo, não teve dúvidas em publicar. Rezava assim: «Ó D. Carlos de Bragança, / Filho de D. Luiz Primeiro,/Largaahonraqueroubaste/Àfilhadojardineiro.»Nessa aventura se inspirou Aquilino Ribeiro para compor um romance de propaganda reles contra o monarca e a monarquia, que não fez, aliás, grandesucesso. D.Carlosterátidotambémumaamanteamericana,aquempôscasa emLisboa.Emanteveduranteanosumaligaçãocomamulherdeum diplomata brasileiro, César Augusto Viana de Lima, que chefiou, entre 1892e1893,alegaçãodoseupaísemLisboa 329 .ChamadaGrimaneza,foi, segundoGustavodeMelloBreynerAndersen,a«últimagrandepaixão»
dopenúltimoreidePortugal 330 . Era,nadescriçãodeRochaMartins,umaperuana«formosaderosto, com o picante das americanas do sul, mas de carnação láctea e rósea; viúva e nova, rica e elegante, escultural» 331 . Quando chegou a Lisboa,
levavadoisanosdecasada.Mas,a15deSetembrode1894,enviuvou.E,
segundoparece,deixou-seficarporPortugal.Trocouasuaresidênciaem LisboapelaQuintadoTorneiro,entrePortoSalvoePaçodeArcos,dali saindo para vir morar numa casa da Rua das Necessidades, perto do palácio real, que seria propriedade do monarca. D. Carlos tê-la-ia adquiridoporintermédiodeFranciscoMariadaVeiga,oprimeirojuizde instruçãocriminal.E,aosaberdessacompra,JoãoFranco,oúltimochefe degovernodorei,teriaafirmado:«Umaporcaria!Atrásdistoestá-sea verap…» 332 Foi nessa casa que, a 8 de Maio de 1903, Tomás de Mello Breyner, condedeMafra,avisitou,porordemdorei 333 .MasGrimanezajátinha
estadoemLisboa,sobonomedeVirgíniadeCastro,emJaneirode1902.
EvoltouaestardeNovembroaDezembrode1903eemJaneirode1905.
UmapresençatãoassíduanacapitalportuguesalevouocondedeMafraa comentar:«Estadamaandaarranjandodramareal,maisdia,menosdia […]» 334 DasaventurasextraconjugaisdeD.Carloséfamaquenasceramalguns bastardos,dequehojesejulgamdescendentesalgunsnomessonantesda sociedadeportuguesa.Oprópriomonarcaseencarregoudealimentaras suspeitassobreasuaproleilegítima,comoEduardoSchwalbachcontou umdiaaRaulBrandão:«Ultimamente[D.Carlos]deranesta:quandose falava de uma rapariga bonita, aí dos seus quinze anos, dizia com um sorriso–éminhafilha[…]» 335 Umafilhaterátidodasuaamanteamericana.Eoutra,chamadaMaria Pia, terá nascido dos seus amores com Grimaneza. Gustavo de Mello BreynerAndersen,queanotouosdiáriosdocondedeMafra,seuavô,diz tê-la conhecido e cumprimentado à entrada de São Vicente de Fora. E asseguraterD.Carlosreconhecidoapaternidadedasenhora,queviriaa morreremItália.JoséTomásdeMelloBreyner,umoutrodescendentedo conde,garanteporseuturnoqueadatadonascimentodestafilhadeD. Carlosconstadeumdosdiáriosdoseuantepassado,ondetambémsefaz menção ao nome da pessoa que, no registo, assumiu a paternidade da bastarda real. Esta terá tido descendência, sendo o apelido da sua progenitura«bemconhecidoactualmenteemPortugal».Seistoéassim,a
filhadeGrimanezateránascidoantesde1902–jáquenosdiários do
condedeMafraatéhojepublicados(equecobremosanosde1902a
1913)nãoháreferênciaanenhumabastardadorei.
MasD.CarlosterásidoaindapaideumaoutraMariaPia–nascida, esta,dosseusamorescomMariaAméliadeLaredoeMurça,umasenhora brasileira,jovemesolteira,naturaldoPará,queterávividoemLisboa,no Chiado,durantealgumtempomasdequemnuncaninguémouvirafalar até a filha dar notícia da sua existência. Amante de D. Carlos, Maria Amélia tê-lo-á acompanhado algumas vezes a Vila Viçosa, onde, entre
MaioeJunhode1906,umafilhaterásidoconcebida.
Depoisdisso,MariaAméliateriadeixadoaEuropa,apenasregressando
aoVelhoContinenteparadaràluzafilhadorei,emMarçode1907.O
nascimento,dequeocondedeMafratambémnãofala,teriaocorridono dia 13, numa casa da Avenida da Liberdade, em Lisboa, enquanto D. CarlosrecebiaavisitadoreideSaxe.Mas,poucosdiasdepoisdoparto, MariaAmélia–umamulherdearmas,decerto,quenãoseimportavade viajaremadiantadoestadodegravidezoutendoacabadodedaràluz– partiu com inexplicável pressa para Espanha, onde por acaso se encontravam a rainha D. Amélia e os príncipes seus filhos, de visita à condessa de Paris. E, a 7 de Abril, um domingo, a putativa filha de D. Carlos foi alegadamente baptizada na Igreja de San Fermin de los Navarros,emMadrid,recebendoonomedeMariaPia. Após o baptismo, que teria contado com a presença do infante D. Afonso,irmãodeD.Carlos,deumcondedeMonteverdequeserviude padrinho, de uma Alícia da Silva, que foi a madrinha, e de Antonio Goicoechea y Cosculluela, um devotado servidor do rei Afonso XIII, a bastarda teria sido apresentada ao monarca espanhol, embora o bom sensoeobomgostorecomendassemqueelenãofossecúmplice–nem sequer conhecedor – das aventuras amorosas e das infidelidades conjugaisdoreidePortugal. A bastarda viveria os primeiros anos da sua vida em Espanha, passando depois a residir em Paris, na casa que seu avô alugara nos Champs-Elysées. Tinham um mordomo brasileiro, Napoleão Wanzeller, umaamainglesa,MissSmallwood,eumacriadaoriundadaMartinica.
QuandoestalouaGrandeGuerra,em1914,MariaPia,oavôeamãe
refugiaram-seemVitória,noPaísBascoespanhol.Masnãotardarama
regressaraFrança,passandoaviveremPau.Aí,MariaPiadizquefoi
apaparicadaporduaspersonagensilustres–oreiNicolaudoMontenegro
eoduquedeCadaval,D.NunoÁlvaresPereira,umlegitimistadosquatro
costados,queerafigadalinimigo,portanto,doramodosBragançaaque D.MariaPiadiziapertencer.Amenosque,poressetempo,elaaindanão sevangloriassedasuabastardia. Terminada a guerra, Maria Pia terá voltado a morar em Paris, mas,
desta feita, na rue du Colisée. Com 17 anos, a bastarda terá dado os primeiros e muito precoces passos no jornalismo, tendo, além disso, publicado um livro de versos: Pálpebras de Marfim. A 16 de Junho de 1925, uniu-se a um playboy cubano, 20 anos mais velho do que ela e divorciado duas vezes. Chamava-se Francisco Javier Bilbao y Batista e pertenciaauma«famíliamuitodistintaeabastadadecriadoresdegado naprovínciadeCamaguey».Eratalvezomaridoindicadoparaanetade um «barão da borracha» de quem nunca ninguém ouvira falar, nomeadamentenoBrasildeondesedizianatural. Ocasamentorealizou-senaembaixadadeCubaemParis,queMariaPia trocouporHavana.Nacapitalcubanaviveualgumtempo,regressando depois à Europa e vivendo entre Madrid e Paris. Estava talvez em Espanha quando a República foi proclamada, em Abril de 1931, para grande desgosto seu. Mas permaneceu em Espanha, onde, a 16 de Novembro de 1932, lhe nasceu uma filha deficiente – registada como FátimaFranciscaXavieraÍrisBilbaodeSajonia-CoburgoBraganza–que acabaria por se recolher a um convento, onde morreu em Outubro de
1982.
Por 1933, ou pouco antes, começou a colaborar no jornal ABC e na revistaBlancoyNegro,ondepublicounumerosasprosas,assinadaspor HildadeToledano,queera,diziaela,oseupseudónimoliterário.Dois
anosdepoismorreu-lheomarido.E,a26deNovembrode1935,oABC,
aodaranotíciadaquelefalecimento,apresentavacondolênciasàviúva,a sua«estimadacolaboradoraD.HildadeToledanodeBilbaoe[a]suafilha, asenhoritaÍrisBilbaodeToledano». Eraestranho:seHildadeToledanonãopassavadeumpseudónimo literário, como Maria Pia depois afirmou, por que razão o jornal acrescentava, a esse pseudónimo, o apelido do marido? E depois, e sobretudo, por que razão a filha de Hilda usava, como apelido, o pseudónimodamãe? NoanoseguinteàmortedomaridoestalouaGuerraCivilespanhola. MariaPiasaiudeEspanha,passouporHavana(ondepublicouumlivro intituladoLaHoradeAlfonsoXIII)eporNovaIorque,acabandoporse estabelecercomamãeemRoma,ondeoreiAfonsoXIIIseexilara.As estranhaseaparentementeestreitasrelaçõesentreambosmantinham-se
jáque,a1deFevereirode1936,omonarcaespanholescrevia-lhe:«Não
te aconselho a falar a ninguém do matrimónio dos teus pais nem do ocorrido em Vila Viçosa, salvo por alguma razão imprescindível. Deus querendo, tudo se resolverá segundo os teus desejos, sem agravar a memória do Rei teu Pai, que é tua obrigação deixar para sempre sem mácula[…]»Eraumconselhosensato,queMariaPiaoptoumaistarde por não seguir. Com efeito, falar do «matrimónio» de D. Carlos com a amanteeraferirdemorteahistóriadeMariaPia.CasadopelaIgrejacom arainhaD.Amélia,queestavavivaedeboasaúde,D.Carlosnuncase podiaterunidopeloslaçosdomatrimónio,canónicooucivil(que,em Portugal,aliásnãoexistia),àmãedeMariaPia.Masestanãopercebeu– ounãoresistiu.Afinal,eraumaescritoradefértilimaginação… Estabelecidanacapitalitaliana,abastardadeD.Carlosfoibateràporta do conde Ciano, genro de Mussolini e seu ministro dos Negócios Estrangeiros. O conde, segundo dirá depois a bastarda, ter-lhe-ia propostocasamentocomopríncipeAimondeAosta,duquedeSpoletoe efémeroreidaCroácia(comonomedeTomislavII).Mas,noseudiário,
Cianodizcoisamuitodiferente.Eescreve,a26deAgostode1938:«Veio
umalouca.Chama-seHildadeToledano.Comgrandemistério,declarou sero“ReidePortugal”eofereceu-meainclusãodoseuEstadonoImpério deRoma[…]» 336 Depois desse encontro, ou talvez antes, Maria Pia, que, sublinhe-se, continuavaachamar-seHildadeToledano,apaixonou-seporGiuseppe
ManlioBlais(1891-1983),umcoroneldecarabineiroscomquemdizter
casadosecretamentenumacapeladoVaticano,a2deSetembrode1939.
Mas, como Maria Pia explicará depois, estando então os militares italianosproibidosdecasarcomestrangeiras,omatrimóniosópôdeser registado a 5 de Agosto de 1946. A Segunda Guerra Mundial tinha terminadoeocoroneltinhasidopromovidoageneral.Diasantesdeste casamento nascera-lhes uma filha, registada com o nome de Maria da GlóriaCristinaAméliaValériaAntóniaBlaisdeSaxe-CoburgoeBragança. Nasvésperasdessecasamento,AfonsoXIII,estandonaÁustria,tinha voltado a escrever à sua «querida Maria Pia», desejando-lhe que fosse «muyfelizcontuCoronel»erecomendando-lhe,maisumavez,quenão olvidasse os seus direitos de «Infanta de Braganza». Fazê-lo seria, segundoomonarca,«unatonteria». Muitosanosdepois,MariaPiaseguiriaoconselhodoreideEspanha, que,porrazõesdifíceisdeentender(outalveznão…),sempresemostrou
muito interessado na causa da bastarda. E, em meados da década de 1950, Maria Pia de Saxe-Coburgo, como também era conhecida por algumaimprensa,proclamouurbietorbiasuafiliação.Ocasodeuentão quefalarnosjornaisdetodoomundo.Eabastardamultiplicou-seem
declarações e entrevistas, publicando, além disso, um livro, Mémoires d’uneinfante vivante (Paris, 1957), onde traçava o que dizia ser a sua biografia. Numa dessas entrevistas, concedida a La Vanguardia Española, em
Outubrode1958,a«princesaPiadeSajonia»,comoojornalatratava,
perguntadasobreseaindapodiaserrainhadePortugal,respondeu:«Alei éesta:semetivessecasadocomumestrangeirodesanguereal,sim.Mas casei-me primeiro com um cidadão cubano e depois com um general italiano.»Rematavaojornalista:«Triunfouoamor[…]» Com esta declaração, D. Maria Pia demonstrava conhecer as leis
fundamentaisdamonarquiaportuguesae,nomeadamente,oartigo90da
CartaConstitucional,segundooqual«OCasamentodaPrincesaHerdeira presuntiva da Coroa será feito a aprazimento do Rei, e nunca com Estrangeiro».Opreceitonãoaimpediaapenasdecasarcomestrangeiro; obrigava-a também a obter o «aprazimento do Rei», coisa que ela não fizeraaounir-seaFranciscoBilbao,emboraD.ManuelIIestivessevivoe deboasaúde. Nãotardaria,porém,aqueMariaPia,apesardailegitimidadedoseu nascimentoeda«ilegalidade»dosseusmatrimónios,reclamasseachefia daCasadeBragançaeotronodePortugal.
Já então tinham morrido todos os membros da família de D. Carlos,
incluindoarainhaD.Amélia,falecidaem1951,etambémNevadaHayes,
aviúvadopríncipeD.Afonso,queseintitulavaPrincesaRealdePortugal. Tinhamtambémfalecidoosamigosmaisíntimosdomonarcaassassinado noTerreirodoPaço.EtinhaigualmentedesaparecidooreiAfonsoXIII. Restavam dois documentos, que D. Maria Pia agitava como provas
insofismáveis dos seus títulos e pretensões: a reconstituição do seu assentodebaptismoeacópiadeumacartadeD.Carlosqueareconhecia comosuafilha.
O assento original do baptismo da bastarda tinha alegadamente
desaparecido no incêndio que destruiu parcialmente a Igreja de San
Fora por isso necessário reconstituí-lo,
Fermin, em
desempenhando-se dessa piedosa tarefa o vigário-geral da diocese de Madrid-Alcalá,comoconcursodeAntonioGoicoechea–ouGoico,como AfonsoXIII,seusenhoreamigo,gostavadeotratar.
1936.
AsupostacartadeD.Carlos,queestariaanexaaoregistodobaptismo, fora igualmente reconstituída com o inestimável contributo de Goicoechea. Nessa carta, o monarca fazia saber que, «atendendo às circunstânciasequalidadesdamuitonobreSenhoraDonaMariaAmélia deLaredoeMurça,equerendodar-lhetestimonio[sic]autêntico»dasua «Realconsideração»,reconheciaporsua«muitoamadaFilhaacreançaa quemderaaluzamencionadaSenhoranafreguesiadoSagradoCoração deJesusdeLisboaatrezedeMarçodemilnovecentosesete».E,sendo «bemvisto,consideradoeexaminado»pelomonarca«tudooqueencima ficouinserido»,D.Carlospediaàsautoridadeseclesiásticasparaporem «aságuasbaptismaiseosnomesdeMariaePia,afimdepoderchamarse com o [seu, dele] nome e gozar d’ora em deante d’este nome, com as honras,prerogativas[sic],proeminências,obrigaçõesevantagens–das InfantasdaCasadeBragançadePortugal». TantoacertidãodebaptismocomoacartadeD.Carlosnãopodem deixardelevantarasmaioresdúvidasereservas,desdeareferênciaaum «condedeMonteverde»,quenuncaexistiu,àexpressão«InfantasdaCasa deBragançadePortugal»,quenãosepercebe.Nãoobstante,foinestes dois documentos, fabricados (para não dizer forjados) em Espanha e autenticadosporespanhóis,queassentaramaspretensõesdaputativa bastardadoreiD.CarlosaotronodePortugal. Elas mereceram crédito e apoio sobretudo entre as figuras mais destacadasdaoposiçãodemocráticaerepublicanaaoregimedeSalazar, o chamado Reviralho. Mário Soares, que só a conheceu em 1963, em Paris,tornou-seseuadvogadoedeclarou,altoebomsom,nãoterdúvidas sobreobomfundamentodassuasreivindicações:MariaPiaeradefacto filhadoreiD.Carlosetinhaporissodireitoaserconsideradachefeda CasadeBragança. Já então Maria Pia participara na campanha do general Humberto DelgadoparaapresidênciadaRepública(oque,paraumapretendenteao trono,eraumapeculiarcontradiçãonostermos)econviviaintensamente com todos os anti-salazaristas que a procuravam. Em 1965, veio a Portugal e acabou presa pela PIDE em Caxias, o que contribuiu para reforçaroseuprestígionopaísenoestrangeiro.
Mas,em1974,comotriunfodaRevoluçãodosCravos,esseprestígioe
a suposta utilidade política da causa de D. Maria Pia quase desapareceram para os amigos laicos, republicanos e socialistas da bastarda.EMárioSoares,queaindaarecomendouaBettinoCraxi,olíder
socialistaitaliano,acabouporabrilhantar,em1995,ocasamentodeD.
DuartedeBragança,queerao«ódiodeestimação»dabastarda.D.Maria Pianuncalheperdoouter-sebandeadocomoinimigo. Nãoforamfáceisosúltimosanosdasuavida.Tendoperdidoosegundo marido em 1983, voltou a casar-se – desta feita com António João da
CostaAmadoNoivo,quetinhamenos45anosdoqueela.Presenteou-o
com os títulos de duque de Guimarães e de Saxe-Coburgo e Bragança, marquêsdeSantoAmarod’Aire,grão-mestredaOrdemdeD.CarlosIe vice-grão mestre das Ordens Reais portuguesas… Descrito por alguns autores como o «marido homossexual» da bastarda, Noivo morreu em
Dezembrode1996.
Viúva pela terceira vez, abandonada pelos amigos, não tendo conseguidoconvencerafilhanemosnetosaherdarem-lheos«títulos»e as pretensões, Maria Pia, «solitária e perturbada», enfrentando dificuldades financeiras que seu genro, o famoso escultor espanhol MiguelOrtizeBerrocal,nãosedispunhaasolucionar,decidiutrespassar partedasuaherançaaumitalianoendinheirado,RomanoPoidimani,que, após a morte da bastarda, a 6 de Maio de 1995, passou a intitular-se ChefedaCasadeBragança.EmPortugal,osmaiscontumazesadversários deD.DuartePionãotêmdúvidasemaceitá-locomotal. D. Maria Pia era de facto filha adulterina de D. Carlos? Não está provado, longe disso. A sua rocambolesca história está cheia de erros, imprecisões,lacunas,confusões,mentirasecontradições–detalmodo queumescritorejornalistafrancês,tendoinvestigadoocasoafundo, concluiuqueD.MariaPianãopodiaserfilhadeD.Carlos,podendo,no entanto,sê-lodopríncipeD.LuísFilipe… NãoéemtodoocasoimpossívelD.MariaPiaternascidodealguma aventuraamorosadeD.Carlos,quenuncafoi,longedisso,ummodelode virtudesconjugais.Impossívelé,evidentemente,atribuir-lheostítulose direitosqueosseusapaniguadoslhereconheceram,comoherdeiradeD. ManuelII,chefedaCasadeBragançaepretendenteaotronodePortugal. Mais que não seja porque, se os bastardos reais pudessem ter esses títulosedireitos,entãoelesnãocaberiamemprimeirolugaràfilhade MariaAméliadeLaredo–masàdeGrimanezaVianadeLima,quenasceu antesdela.Seéquealgumaveznasceu.
326CondedeMafra,DiáriodeumMonárquico–1902/1904(Lisboa:2005),p.48.
327StéphaneBern,Eu,Amélia,ÚltimaRainhadePortugal(Porto:LivrariaCivilizaçãoEditora,1999),
p.132.
328RuiRamos,D.Carlos(Lisboa:CírculodeLeitores,2006),p.220.
329CésarAugustoVianadeLimaapresentoucredenciaisa21deJulhode1892eexerceufunções
até13deMaiode1894,quandoseromperamasrelaçõesdiplomáticasentrePortugaleoBrasil.
NessemesmoanofoicolocadoemSantiagodoChile,postoquenãochegouaocupar,falecendona capitalportuguesa.Sucedeu-lheAssisBrasil,que,retomadasasrelações,apresentoucredenciaisa
D.Carlosnodia13deMaiode1895.Cf.AssisBrasil,UmDiplomatadaRepública(Brasília:
CHDD/FUNAG,2006),vol.I,pp.107ss.
330CondedeMafra,DiáriodeumMonárquico–1911/1913(Lisboa:1994),p.189.
331Cf.EduardoNobre,PaixõesReais(Lisboa:Quimera,2002),p.173.
332MendoCastroHenriquesetal.,DossierRegicídio–oProcessoDesaparecido(Lisboa:Tribunada
História,2008),p.85.
333CondedeMafra,DiáriodeumMonárquico–1902/1904(Lisboa:2005),p.154;eDiáriodeum
Monárquico–1911/1913(Lisboa:1994),p.155.
334CondedeMafra,DiáriodeumMonárquico–1902/1904(Lisboa:2005),pp.206e210.
335RaulBrandão,Memórias(Lisboa:Relógiod’Água,1998),T.I,p.168.
336GaleazzoCiano,Diários–1937/1943(Barcelona:Crítica,2004),p.167.
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