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A FRANCA NAO ERA LONGE DAQUI SALMA FERRAZ Universidade Federal de Santa Catarina Sobre o romance de estéia do humorista ¢ talk-show J6 Soares na Literatura Brasileira, O Nangé de Baker Street, hh muito que se pesquiste ‘Poderlamos enfocar aspectos bisicos na composigfo da obra tals como’ os ‘guts limites entre Historia e fioglo, o livre rimive entre personagens his {ricos e personagens ficcionais, os intertextos presentes,apintura porfeita (que o narrador faz do coudiano do Brasil do steulo pessado, o humor © 4 fronia do narrador e autor implicit, a forma como o plearo & retratado om o seu jeitinho brasiloiro, ete. Porém,limitados pelo tempo © espayo, ‘0s deteremos neste artigo, sinda que de forrma sucinta, a estudat 0 pro- e2880 de afrancesamento do brasileira do século passado, bem como 6 ‘processo inverso: 6 abrasleiramento do mais europen dos europeus, Shor Tock Holmes. ‘Mio obstante 0 livro ser um romance policial, nfo nos atetemos a ‘este particular. Entretento, sugerimos ao leitor uma obra essencial paca {compreensio deste topico: 4 Narrutiva Trivial de Flavio Kathe, em espe- ‘il 0 teroeiro capitulo, em que o erlico trata do romance poliial. Fttas fertas consideragGes, passemos ds imagens da Franga no Brasil do século pasado, AFRANGA NAO E LONGE DAQUI Em estudos recentes, Gitberto Pinheiro Passos? se debruga sobre ‘Quincas Bora de Machado de Assis, procurando ler nesta obra as ime fens da Franga no Brasil do século passado, Sezundo seus estudos, todo 0 Taxo da corte, toda alta literatura, toda a moda francesa influenciavam 0 ‘Brasil via Portugal e Espenha. Rubido, o personagem central, seria ento, ‘Uma sintese, um amélgama da cultura ftanco-brasieira, mostratia um Be all afrancesado, curopeizado, em busea Incessante do padeto francés. Ru "i rene wz ilzacon sess OAS Toa ate di 1 rempeso pnd un Compurs dan Leta BR Pas 19S sc rir Ps, da Pry Gira, len roa 0 Se tac ans now sea — ZETAAS DE HOE. Porto Aleare. ¥.31.2°3, p51. vito exe edi pea eines res, par lx nag de pda ¢ Tike Car asco s Hang, Se oupas ances, urs ateesn ns (esc Renton score neem a poo quem me ore nave Naplato I Segunds Pass, Rail eo sinolo de wma caridade qu se jelg tts fms (erp) do gb rare (ope). Ao como esScncar,gumstens nde ses fp Mocha erieamete re ‘Tavera vito afmceeada do roi em pena seo XIX, ma tronic de pong contre. Pi cume Macao Je Avs, J Soares também ea no st Uo, to ado de ral qt tps senda «capi, oOo Bribe Panels (pop ngerndor DP Il, ogo ao encontrar aa ance, fuego demons ses coherent net ag Casta rset cereale C3101 Torstar a pvcipete do ator ipso demons uns qu rng soe eng cag ood 8 wet em que oe Slog os acts lve, ee aparece er lio, denacinde& ‘Satin eee aa moro, tas ena omnuo€ com oti oni ete pom to qe prchenes qm otter implica lone sn ea © iuoeeu even Neti speentaae Gx ati anc o rs te ‘oes onesie ep ‘reeates et ods a ass" (9, 0.16) (go nso). Plo exemple acim, j& notamoe # marca do aut implicit: ironia depreciativa forma de paradoxo — tajes de gala europeus x suor ma ‘niles, ou sa fese x antitese* Seo roupaseram de quem freqdentava wm ‘Salon em Pasi, es rdelas de suoc a eis eram de alguém que viva no {tépicos, Por ocala da primeira apresentapio de Sarah no Brasil moe ‘outro rogiste: 2 mse conmonagen sve 9 nr ipt, Mase Lisi Dl am (0 nerador aun Bc rac ens ily. 1sno nero pe “ea dacs o mun, ocr Fines on wet age nme Setiaim amines tome "Par i asa ropa eco ‘Sin‘Sese woe te rer deacon gn dese prefrtaie. Sor cecteittaS svar» pee veel pr on pennenpms erg 6 ‘ests ar cpt» pre pesto donc an are on weg Gresne) Se cvs xen ling enim DC Meche. ro ree Sion Pesos, 1 2 Tedies ee mn Sen mie ee ee eree ees See eee pee ae ee gece oe ee eee pace oe eee Feet comciyamcenccantimentae. Dice ecceeras ne arson eee ionn e ae Se ‘Aqui aionia se faz deforma a mostrar uma dupla exposigfo como sume chap fotogrifica® gritos cm francs x grits das baianas, Podemoe fbjervar que 0 autor impliito esté mascardo ste dn voz narrative, voz fra que o representa e que raz a sun spresioglo eo Seu jutzo de valor no ‘paleo o combate entre 0 Brasil francés ¢o Brasil da pamonha (© segundo fato narrado revela a ignordncia do pibli brasileiro, que interrompia o espeticulo, avisando a striz do que ia acontecer em cena, ¢ nda “no final do primeizo ato, muitos se levantavam pensando (que o espetéculo tnhaterminado” (19, p48). Um pablico que falevatan- fs, mas que no sabia se comport adequadarmente num wsto ‘Até 0 misterioso atsassino, na hora de elocubrar as mais tertiveis formas de cruekdade para sua vitimas, pensa era francés, como te eta Ln- gua desse mais solenidae aos sous mecobros delirios: "Cora. couperprofonatnent.°0 Manet & wma gu cuione ‘pofuodiment pfoad dimeat Peer © poi protaente (19,37) (oat pots). ‘A comprovasio de que a Franga so & longs dagui verfica-se pelo Jmimero de leituasfancesas que os personngens realizam: Maca Las peg nat ho de caa mares "AM Finiente cepa mew Balen" (1, p. 4) (gi so80) ‘Maria Luisa, « Baronesa de Avaré, € nobre por casamento. Seu pal ‘8 agoagueico, no en‘ant ela tinha una itimidade eepantoes com os bu toew fanceses, possuindo em cata quatro volumes do Histoire dele Révo- Frangatse, ¢ se considera uma avténtea aistoeraa, Novemente 0 “A is ao ct peas om era signif ea por bia de un en em er ‘mig enon rns oe ops Meee, 8), 3 ‘ral que se que ants eo ore fle do um agougusiro ence? uvn cba alte esi franctse aristocrats, arin goneolo pasado exe Go fants qe". lencahor perf. race leer no nari fia com qe os cos ca noes fngssem a rile caconmento forneido pela City Improvements 5 com. sesson hive tel ede de eagotos de Pars (1, p11). "pce roe do proaso de affancesamentobrsiro «de que 8 tingoaanona dave wr cl echiguo aos trios & 0 epshio no Tra diego Parents epera aati ranosa ma dla pra tomar 9 {Eilagplente por essa Guna niga oor mo tear Pima leat prec Tee pene Sor onkes neem, ven tay ele mri! oe pe fancl? —Atteo Sean eme ec ent ira (rp 9 gato a) ‘Aves nenamene a mare iacontnde! do autor imps: timo a cots por ecoorna aqua que caoteia pol "produ do eft SEEPS on es maton exragaats © Irmita consuma waeeD eka poxcos sal quanto puder™ (gio nosso) fo eur impli weer Se eco ads de um aacadorobseradr,oipeset, cpt: {2 tecendete, abot ein por excels, Tat ease, quando a ancesa Sarah iia 9 petit A me ther heen env qn baba & mata Ara Candela no Teo Sane guiness aim uc x cre coma eee dncaiteg te seve Se er ome Seite mcmnes sas Ses erates on fon Pe fae Hee a verona" ‘Sissy Sempre que relatos do facts pecsio ds ass que c aut inbcto,"ovagund eo aor’, est esconio ards da Tera Tnpeado pels mscaa da oa narativn, ano ns esti see tmmqalarentealeanar sou objetivo maximo: dstiar ss Tact rou par erearoafrancesnmente do braseo do cu itt: Orseremos explo hike dee situation drone: ote, eae fo ag ii vrs pla earths gs dS Pract Bu SSIS ess ho «grim moe ages are Vier Hoge Pre! Pos Pow fo SUNS tc meson pti sam aber cps xe at ea ees, rm: 9,9. 20) "Novamente iron por contaste, isto "a dsparidade entre 0 que se pode eperar¢ © que acontece realmente. Quanto msior fora dspanade, enor oer aironia"? Paalelamente a este processo de afrancesamento do ‘uaileg, ki um outro totalmente oposte, o abrasileramento do mais Inglés de todos 01 inglesest Sherlock Holmes. Analisomos o exempio bales: ‘pas da ice Ha doo “Men exo Waton yee que vee ainda ni aoe sou so tropics, Em vi orth, 4 bor expertmestar tt gunde-coct que o mariahrosaeabaram deteaer a borde, Diuem guetrelrereane «dtu (19,5) (atone). ‘ina cheyada a0 Brasil, Holmes subitui deimediato 0 tradicional © {inglés cd das cinco pea refrescantee deliciosa gua de coo, Seos bras Ieios falavam o feanots precio, Holmes, o inglts, flava wm portuguts corrto, portuguée de Portugal, 9 oxpresaando perfetamente na lingua de ‘Cansdes, qua hava apendido em Macau, na Ching, com o cientisa por- ‘ugiés Nicolau Travessa. Comega o processo de abrasileiramento do in- {lbs Holmes. Fm conversa com D. Pedro, que na maioria des vezes faz ‘Guestlo de mostrar sua erdito,utlizando 0 francés, o detetve britinico dsm ee exprosis: Por este fla osteo, 0 inglés passa ase idemtfieado come ports- “22. 126) eo naradoe ns informa que Holmes flava portgués "eom a Paceigio de un isboct" (19, p. 148), ‘Os hotiebrsieioe mais finot como 0 Grande Hote! tiham 0 car- ‘into preparado por um chef francis vindo direto de Pais, visto que era ‘logante comer comida fraess, Exemplo diso ¢ que no jentr oferecido ‘atria francesa “constavam cara, saledas, peines, prevunios, quejos, «= ‘hose champante® (19, p. 24). Holmes, eatretanfo, nfo dspensou numa ‘nica refeigh, oferecida pelo Imperador a ele diz, es sepuiiesigua- ‘ex: felloada, vataps, corelinha, pimenta-ralaguets, xmendoim, Hs- alga, tuba, camarao, ede sobremesa um abacax! e duas mangas (19, 115-118). No final da mesma tarde, sinda comeu mais cinco doces de “batata na casn de baroness D, Luss. Depois, obviamente, passa mal, mas, ‘mesmo assim, tenta se curer€om remédiotpicemente bret vex do cach, ana a wo um coco vei, de ‘onde socials lade (19.193, DC Nn opi 78 (0 procesto de sbrasileiramento do mais britinico dos ingleses cevidencis pela madanga de adecyos © eachlmbo inglés, sua marea re Gntrada, ¢ substituldo por wma marea bem bratlera: coeo verde ‘Tempre ds mos, A cocaina, estloalante que ele aprender usar com, médico de Viena Sigmund Freud, € substituida, prazsrosamente, els comnebis.a qual cle apreade « usar com a namorads brasil ‘Ana Candalivia. Sento b hgua de coco € & canabs, Sherlock adquire um costume que faz pute do jltinho brasileiro, a mania nada britincis de chegar ate do aos encontro. "lolmes, no seu proceso de abrasiliramento, sim se pronuncla so bre 0 Bras: Ui aga fener asmants. Esto ean tudo com or comtumes da tern O povo€exrmuente cords ‘Stocme vote, camo s rvs en es TT alo, oki, ‘quale enanis comple Shetock perpen, * Sign ean Hes ~ peda Coro Ne. TOs trnee. Nb comprtendo por que ox homens edoy ete de pret, européen pl opin ‘ detelvetwcara ua coraa est © costume be ox acon coeet¢ an pose sbrecsaeah don clas fs rm Sere expe hata par eigen 0 Mequwefe ease Sarge erties en ct “ance Homer vd ws prdas eas clio temseu reve lft sufi pr re boo remponde ato. es de Ave (19, p17) go 968) ‘Esta fae do personagem Holmes aos recorda 0s relatos de vijantes european quo oe surpreendiam com a vestimenta européia des basis, ‘Elston estes to bem analleados por Flora Sussekind em O Brasil nao é Tonge doqui, Segundo a autora, para os viajantes, ests tees europeut ddestoavamn da originalidedee exuberancia da cor loca, da oesrarharsen- {odo “eharexrangeio". Wollando ag txta de J0 Soate, obervsinon Que {tpergunta do detetive & expondida om ftanets eo riiculo da respost: ‘indar com roupasclaras ou com bragos de fora nfo era civitzado. Ser hillaado era usar roupas preta, era europelzarse ¢ falar francés, Desobecedend 1 eres costumes, Holmes enccmenda quato teraos de I ho braneo fp. 183) ato que leva Guitars Passos fazer a observeqio "LP coma pam 9 ré-porinho~ compet Guimaras Pa Poi nmr a mode fimo, leimosanente, oi 1 eaguga: NBoentend come vets n- (dando aoa rupas mas ve, adequate Sos op foe" (19.p 184 (Fo ms) 1 desta forma Holmes 6 wansformado nam “2é-povinho", mama pes- son simples que ado sabe spreciar a boa moda europtis. Ao enamorar-se Grsensial mulata Ana Cendelérs, que inicis 0 virzem detetive nas arcs do amor, contariando mais ume das rogras bisicas da novela de detetve, fo qual "nfo pode hverhistira de amor na novela do destive” (12; p 151), @ mesma 0 coloca em contato com a Carmabis,O abrasilis- ‘mento de Holmes esté completo Fo narrador que nos informa que: Pols primeira vex, desde que coger ae sata fata to mevoetro de Lends. © encanto den tropes hain fete ‘mals ina (1, 205 (io oso), (© nevoeito de Londtes & spagado pelo sol abresador dos éplcos. or outo ind, o dr. Watson va s08 poucos entrando em contato com tealdede bases, revelando os equivoeos do *olhsr do ostrangere’ "olhar proviemente drecionado", do “olbararmado”, a impressao de que, ‘9 que conhcce do Brasil, conhess-0 devido a quudrose relatos devijantes tstrangciros do sécalo passado tais como Debret, Rugendss, Dens ¢ ou- thom, os quai retratavar um Brasil exaberante« exitico, Os esterebipos, "imagens previa" construldos pelo aszilir de Holmer vB0 aos pour os caindo poe era: “Caron Nooo en ink pea. 105, (© Watson no encontra aga chamade "or lca", "o nacional”, aatweza exuberant”, o Indio sea “llr area” be cesar. O p= Iolo Holmes tmbem tem arpeses em relate a slgumas de sas iis fnt-conessican Em vs a baronea Lue, dente de ua boeza nr 6, fea eqpantado, pos "io experaa encontrar, no Brasil, olhos to ais abels to von (19, p. 126) Nolamos qu a". um desconerto em ‘io dupa. Com relao to desejo de set ou, ats jose raters" fingers e com eapSo ao deseo de Tanda un Brastsd-nattera, Ae descobsr scentoy,vigene eadacias naconais™ (20, 728). 0 dese ancerto entre o Brasil que quer falar francis, vestinae bfrancesa, ou ‘Mi misicastranessas, comer e comportar-se como na Franga e0 teamgeiro que gosta de dgua de coco, feljonds, vtaps,roupaselaras, Toy apts pl teen eared et ie Said Op 9. 3203. cannabis, espera encontrar {ndiox peas ruas se surpreende diaate de {ima mmaher em pleno trépico poss olhos als. ‘Em outro episédlo, Holmes se aia com o tamanbo do negro Mu- kumbe, cooheiro, mordomo, mensagelro © gusrda-cotas da baronom de ‘Aware. Quase ea de corse quando a baronese The informa que: Eaguei dedinae Makan mn Sexini plant ‘oer emo ego, quando issn aq na cael. Sher tek que capeeoute como qa dace debate WHS, ie Ab cmp cheerer tem exter, comes, nda que at Holmes? ~O a taca pane ada o eee estpfie ~tamte ao igi completion o nero ukuimbs, vere confiros «taronsn Quando men files ops me mando estat Kner, fr questo de eve Mae ‘fonte me scours come aporen: "Tunis no ro abe in emia ver do Cong ‘Man pal era un rel nao Tra, piionir dos Zing {hel vende nos portupse"(19; p10 (6 oss). [Novamente 0 "othar do exrangeiro", a derrubada das "imagens pré-