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ISSN 1676-9791
ANO ANO 13 13 | | n n
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159 | R$ 13,90 |
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R$ 13,90 | Portugal € 4,90
Portugal € 4,90
Agosto 2015
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DODO LOBOLOBO AOAO CÃOCÃO
Novas pistas sobre como o melhor amigo do homem evoluiu a partir de uma espécie feroz e selvagem
MATEMÁTICA
A luta para um teorema gigantesco não se tornar incompreensível
ENERGIA
Substituto do silício promete células solares
ASTROFÍSICA
Matéria escura pode ser mais estranha do que físicos imaginam
Agosto 2015
| Número 159
BRASIL
sumário
NA CAPA
Dócil, onívoro e plenamente adaptado ao convívio com os huma- nos, o Canis familiaris foi a primeira espécie domesticada. Em busca do elo perdido – uma linhagem desconhecida e extinta de lobos – do animal que hoje conhecemos como o melhor amigo do homem, cientistas tentam reconstruir os primeiros passos desse misterioso trajeto evolutivo. Imagens: jhamvirus/Shutterstock. Arte: João Simões
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EVOLUÇÃO
Do lobo ao cão
Cientistas correm para desvendar o persistente mistério sobre o carnívoro grande e perigoso que evoluiu para ser nosso melhor amigo. Virginia Morell
ASTROFÍSICA
Mistérios ocultos do Cosmos
Partículas invisíveis da matéria escura que domina o Universo podem ter formas variadas e estranhas. Bogdan A. Dobrescu e Don Lincoln
BIOLOGIA
Vida no portal do inferno
Uma descoberta surpreendente está forçando cientis- tas a reconsiderar se pode existir vida nos lugares mais extremos na Terra e no espaço. Douglas Fox
ENERGIA
Superando o silício
Um material emergente, a perovskita, poderia final- mente produzir células solares mais baratas e eficien- tes que a tecnologia prevalecente de silício. Varun Sivaram, Samuel D. Stranks e Henry J. Snaith
MATEMÁTICA
O resgate do Teorema Enorme
Antes de morrerem, matemáticos correm contra o tempo para as próximas gerações compreenderem as 15 mil páginas de uma misteriosa demonstração. Stephen Ornes
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ESPECIAL DINOSSAUROS
EDIÇÃO
IÇÃO ESPECIAL DINOSSAUROS 1
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DINOSSAUROS
SAUROS
BEM PRESERVADOS
BRASIL E
DO NORTE
ROCHAS DO
EM NORDESTE
oso
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Assassino
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produziu
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seus milhões veio preserva
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a Armadilha China e de Paradoxos o pássaros Sangue
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65 R$ 13,90 € 4,50
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Formação do Atlântico abriu espaço para os titãs
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orgânica
fossilização
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64 R$ 13,90 € 4,50
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NAS BANCAS
Continua à venda o segundo dos dois volumes de “Dinossauros”, edição especial da Scientific American Brasil. Entre os artigos, há o que de- monstra a relação entre as alterações causadas pelo nascimento do Oceano Atlântico e a preservação dos fósseis na região equatorial brasi- leira. Na Bacia do Araripe, em Pernambuco, as condições de mineraliza- ção especialmente favoráveis de espécimes animais têm permitido obser- var detalhes da paleofauna. Mas a região convive com o comércio clan- destino de fósseis que ameaça os esforços de conhecimento. Há também
SEÇÕES
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Carta do editor |
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Cartas |
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CIÊNCIA EM PAUTA |
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08 |
O que importa no uso de embriões |
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Alterar genes com segurança pode prevenir doenças hereditárias. Pelo Conselho de Editores da Scientific American |
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FÓRUM |
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Guerra com as estrelas |
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Superando a discórdia sobre um telescópio em local sagrado no Havaí. Michael West |
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Avanços |
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Memória |
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CIÊNCIA DA SAÚDE |
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Podemos deter o envelhecimento? |
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Alguns cientistas acreditam que, em breve, poderemos desacelerar ou mesmo deter o cronômetro do organismo – pelo menos por algum tempo. Karen Weintraub |
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TECNOLOGIA |
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Pesquisa médica com celulares |
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Nossos smartphones podem mudar o cenário das pesqui- sas dos estudos de saúde – e agora podemos escolher melhor como participar delas. David Pogue |
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OBSERVATÓRIO |
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As neurociências se reúnem no Brasil |
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Encontro internacional no Rio de Janeiro: uma impor- tante conquista da pesquisa nacional. Jorge A. Quillfeldt |
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DESAFIOS DO COSMOS & CÈU DO MÊS |
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Vinte e seis anos de silêncio |
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Chuva de meteoros Perseidas produz espetáculo |
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Salvador Nogueira |
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CIÊNCIA EM GRÁFICO |
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O tamanho real da África |
Mapas planos mais comuns mostram o continente muito menor do que é. Mark Fischetti
artigos sobre os desafios climáticos en- frentados por dinossauros da Austrália, as descobertas recentes de sangu
desses animais e ainda o possível conv vio entre eles e aves. Estudos sobre a evolução das penas e um relato da história da paleontologia no Brasil também fazem parte da edição, que após a circulação em bancas, conti- nuará disponível para venda no site http://www.lojasegmento.com.br
JHAMVIRUS/SHUTTERSTOCK
é editor
da SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL.
CARTA DO EDITOR
Olhos nos olhos – e 170 anos de Scientific American
O olhar do lobo e do cão foi um dos prin- cipais aspec-
sidade Azabu, em Saga- mihara, Kanagawa, no Japão. A pesquisa se baseou em medidas da concentração desse hor- mônio em 30 cães e em seus donos logo após ses- sões controladas de intera- ção visual. Foi significativo o aumento dos níveis da substância nos cachorros (cerca de 130%) e em seus donos (até 300%). Tal efei- to não foi observado em exames semelhantes feitos
com lobos domesticados e seus donos. Pesquisas anteriores já haviam apontado a atuação da citoxi- na na interação visual de cães com humanos. O estudo de Kiku- sui e seus colegas trouxe evidências conclusivas sobre a seme- lhança dessa variação de níveis hormonais com a que ocorre também na troca de olhares entre humanos, no estabelecimento de vínculos sociais, desde bebês com suas mães a adultos na for- mação de relações de confiança, inclusive afetivas. 170 anos de Scientific American Em 28 de agosto de 1845, já no espírito das inovações da ciên- cia e da tecnologia por meio da Revolução Industrial, começou a circular a primeira edição de Scientific American. Editada ori- ginalmente por Rufus Porter (1792-1884), inventor intinerante e pintor de paisagens, a revista é hoje a que foi publicada por mais tempo continuamente nos Estados Unidos, e é editada em 15 idiomas. Feliz 170º aniversário!
tos considerados pelo
editor de arte João Mar- celo Simões para compor
a ilustração da capa da
presente edição de Scien- tific American Brasil. O contraste entre a assusta- dora íris do lobo e a expressão dócil, quase carente, do Border collie
balizou o trabalho artísti-
de nosso colega de redação, que percebera que não há como
o selvagem Canis lupus apresentar o que convencionamos chamar de “olhar de cachorro abandonado”.
A reportagem da jornalista Virginia Morell informa que há
cerca de 10 mil anos os ancestrais do atual Canis familiaris
desenvolveram habilidades essenciais para se adaptarem à con- vivência com humanos, entre elas a de olhar fixamente nos nos-
o que aumenta o nível de oxitocina, o hormônio do
amor, tanto no cão como no dono”, acrescenta a repórter. Escrita originalmente para a Scientific American norte- americana, a reportagem estava praticamente concluída quando foi publicado na edição de 17 de abril da revista Science o estudo “Oxytocin-gaze positive loop and the coevolution of human-dog bonds” (Circuito positivo do olhar-citoxina e coevolução dos vín- culos entre o homem e o cão), coordenado por Takefuni Kikusui, do Departamento de Ciência Animal e Biotecnologia da Univer-
sos olhos. “(
co
HÁ CERCA de 10 mil anos um parente do atual Canis lupus foi o ancestral que adquiriu a habilidade canina de interagir no olhar com humanos.
)
ALGUNS COLABORADORES
é pesquisador em física de partículas no Laboratório do Acelerador Nacional Fermi, em Batavia, Illinois.
é colunista-âncora do Yahoo Tech e apresentador das minisséries NOVA na PBS.
é físico sênior no Fermilab onde realiza pesquisas com dados do Grande Colisor de Hádrons, do Cern.
é jornalista de ciência comtrabalhos também publicados em Discover,Esquire,National Geographic e Nature.
é professor de física na Universidade de Oxford e principal autoridade qual é cofundador.
é neurocientista e divul- gador da ciência e professor do Departamento de Biofísica do IB/UFRGS, orientador do Programa de Pós-Graduação em Neurociên- cias do ICBS/UFRGS,.
é jornalista freelancer de ciência e saúde,quemora emCambridge, Massachusetts.Escreveregularmente para o Boston Globe,o USAToday e oThe NewYorkTimes.
é diretor do Observatório Maria Mitchell, de Nantucket, e autor de A sky wonderful with stars: 50 years of modern astronomy on Maunakea .
é jornalista de ciência especializado em astronomia e astronáutica.
é fellow no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e explora as aplicações ópticas e eletrônicas de perovskitas.
escreve sobre tópicos de pesquisa em diversas áreas.
é membro do Conselho de Relações Exteriores e pesquisa energia, tecnologia e segurança nacional.
é jornalista freelancer de ciências estabelecida noOregon.Ela cobre evolução e comportamento animal para a Science e a National Geographic,entre outras publicações.
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ISSN 1676-9791
CARTAS REDACAOSCIAM@EDITORASEGMENTO.COM.BR
CÉREBRO ADOLESCENTE/TAMANHO DAS LETRAS DA REVISTA/ GLÚONS/NOVO FOGUETE
“(
)
nossos legisladores nem sequer se
dignaram a tentar compreender como a ciência, nesse campo de investigação, poderia contribuir para o tema da maioridade penal .”
EDIÇÃO 158
ANO 13
n
158 | R$ 13 90 | Portugal € 4,90
ulho 2015
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O
espantoso
cérebro
adolescente
Rápidas mudanças estruturais favorecem agilidade mental e também comportamento arriscado
LUZ ETERNA
Astrônomos desvendam iluminação tão antiga quanto
o Universo
A
do
FOGUETE
NA BERLINDA
polêmica em torno
projeto do novo
lançador da Nasa
BICHOS
CONECTADOS
Animais desenvolvem cooperação por meio de redes de relacionamento
CÉREBRO ADOLESCENTE
Gostaria muito de ter lido um artigo como “O incrível cérebro adolescente” [ed. 158] há uns dez anos, quando meu filho estava nessa fase de seu desenvolvimento. Fico tranquilo hoje ao constatar que esse conhecimento talvez não teria mudado minhas atitudes, mas certamente teria me dado mais serenidade para compreen- der as mudanças que ocorrem nessa transição entre a infância e a adolescência. Mas o que é impressionante e assustador em relação a esse assunto das neurociên- cias é o que mostra a carta do editor da Scientific American Brasil: nossos le- gisladores nem sequer se dignaram a tentar compreender como a ciência, nesse campo de investigação, poderia contribuir para o tema da maioridade penal. Para- béns pela abordagem.
João Carlos Motta, por e-mail
TAMANHO DAS LETRAS
Senhor editor, em primeiro lugar, desejo muito sucesso na editoria da revista Sciam! Sou professor de física e matemática e leitor assíduo, desde o primeiro número no Brasil, há quase 13 anos! Sinto informar-lhe que está ficando com- plicado acompanhar a edição impressa da prestigiosa revista, pois os tipos (letras) estão cada vez menores, dificultando sobremaneira uma leitura
POR RESTRIÇÃO DE ESPAÇO, A REDAÇÃO TOMA A LIBERDADE DE ABREVIAR CARTAS MAIS EXTENSAS.
6 Scientific American Brasil | Agosto 2015
confortável. Desculpe a ousadia, mas parece que os editores só leem as ma- térias, individualmente, no computador, antes de serem impressas. Sinto infor- mar-lhe que um dos mais fiéis leitores da revista está deixando de acompa-
nhá-la, em função do exposto acima.
William Daher, por e-mail
Nota da Redação: Caro professor William
Daher, é com muita satisfação que publica- mos sua mensagem na mesma edição em que providenciamos o aumento do corpo das letras de nossa revista. Não houve ousa- dia alguma em sua iniciativa. Na verdade, agradecemos por manifestações como a sua. E é também uma grande satisfação termos leitores fiéis como o senhor.
GLÚONS
É um bom prenúncio que sua estreia
como editor de Scientific American Brasil – Seja bem-vindo! – tenha ocorri- do na edição sobre a fronteira da física onde estão os glúons [“A cola que nos une”, ed. 158], no evento em que se acre- dita no Big Bang como a origem do Uni- verso e se busca a “cola” das partículas
na fronteira entre a realidade da física e
a atualidade da psíquica, onde o fóton determina a velocidade que separa a
massa como “quantidade de consciên- cia”, da massa como “quantidade de ma- téria”, assim separando os campos onde
a velocidade é maior ou menor que a da
luz (do fóton), também estabelecendo o limite entre a energia e a matéria “escu- ras” e as “claras”. O texto dos glúons é daqueles em que se faz uma descoberta em cada releitura.
Adinoel Motta Maia, por e-mail
NOVO FOGUETE
É bom saber do investimento signifi-
cativo da Nasa para a retomada das mis- sões espaciais tripuladas, como mostra a reportagem “O nascimento de um fogue- te” [ed. 158]. Há muito ainda a ser feito para resolver problemas sociais terríveis aqui na Terra, mas essa é uma fronteira que não pode ser abandonada. Paulo Sérgio Baptista, por e-mail
Brasil
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PRESIDENTE:
Edimilson Cardial DIRETORIA:
Carolina Martinez, Marcio Cardial, Miriam Cordeiro, Rita Martinez e Rubem Barros
ANO 13 – Nº 159 AGOSTO DE 2015 ISSN 1676979-1
DIRETOR EDITORIAL: Rubem Barros EDITOR: Maurício Tuffani EDIÇÃO DE ARTE: João Marcelo Simões COLABORADORES: Luiz Roberto Malta e Maria Stella Valli (revisão); Aracy Mendes da Costa, Aurea Akemi Arata, Marcio G. B. Avellar, Paulo Mathias Manes, Regina Cardeal, Suzana Schindler (tradução)
PROCESSAMENTO DE IMAGEM: Paulo Cesar Salgado PRODUÇÃO GRÁFICA: Sidney Luiz dos Santos
PUBLICIDADE GERENTE: Almir Lopes almir@editorasegmento.com.br
ESCRITÓRIOS REGIONAIS:
Brasília – Sonia Brandão (61) 3225-0944/ 3321-4304/ 9973-4304 sonia@editorasegmento.com.br Paraná – Marisa Oliveira Tel.: (41) 3027-8490 / (41) 9267-2307 parana@editorasegmento.com.br
TECNOLOGIA GERENTE: Paulo Cordeiro ANALISTA PROGRAMADOR: Diego de Andrade ANALISTA DE SUPORTE: Nildo Silva ANALISTA WEB: Jonatas Moraes Brito DESENVOLVEDORES WEB JR: Lucas Carlos Lacerda e Lucas Alberto da Silva
MARKETING DIRETORA: Carolina Martinez GERENTE DE MARKETING DIGITAL E PROJETOS:
Fabiana Gama ANALISTA DE MARKETING DIGITAL: Amanda Noronha ANALISTA DE MARKETING CIRCULAÇÃO: Gabriela Fróes COORDENADOR DE CRIAÇÃO E DESIGNER:
Gabriel Andrade
EVENTOS COORDENADORA: Priscilla Rodrigues ASSISTENTE: Josiane Rodrigues
OPERAÇÕES DIRETORA: Miriam Cordeiro GERENTE DE ASSINATURAS: Beatriz Zagoto GERENTE DE CIRCULAÇÃO: Mariana Monné VENDAS AVULSAS: Cinthya Müller EVENTOS ASSINATURAS: Ana Lúcia Souza e Camila Leal
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SCIENTIFIC AMERICAN INTERNATIONAL EDITOR IN CHIEF: Mariette DiChristina EXECUTIVE EDITOR: Fred Guterl MANAGING EDITOR: Ricki L. Rusting CHIEF NEWS EDITOR: Philip M. Yam SENIOR EDITORS: Mark Fischetti, Christine Gorman, Anna Kuchment, Michael Moyer, George Musser, Gary Stix, Kate Wong
DESIGN DIRECTOR: Michael Mrak PHOTOGRAPHY EDITOR: Monica Bradley PRESIDENT: Steven Inchcoombe EXECUTIVE VICE-PRESIDENT: Michael Florek
SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL é uma publicação mensal da Editora Segmento, sob licença de Scientific American, Inc.
Rua Cunha Gago, 412, 1º andar – Pinheiros São Paulo/SP – CEP 05421-001 Tel. (11) 3039-5600
Edição 159, ISSN 1676979-1. Distribuição nacional DINAP S.A. Rua Doutor Kenkiti Shimomoto, 1678. IMPRESSÃO: Edigráfica
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MARKETING
Informações sobre promoções, eventos, reprints e projetos especiais. marketing@editorasegmento.com.br
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Ilustração por Steven Hughes
CIÊNCIA EM PAUTA PELOS EDITORES
Opinião e análise do Conselho Editorial da
O que importa no uso de embriões
Alterar genes com segurança pode prevenir doenças hereditárias
Para livrar famílias de doenças hereditárias, médicos geneticis- tas sonham em mudar o DNA humano antes do nascimento. No entanto, o sonho também é um pesadelo, pois levanta o espectro
de bebês de grife ou a criação de mutações prejudiciais. Agora uma técnica de edição de genoma de precisão conhecida como CRISPR- -Cas9 trouxe o sonho e o pesadelo próximos à realidade.
A técnica possibilita recortar o DNA problemático do núcleo
celular de forma fácil e barata, em comparação com outros méto- dos. Cientistas vêm testando se ela pode ser usada no tratamento de doenças genéticas, como a fibrose cística e outras, como o HIV, em células humanas maduras. Mas ninguém havia tentado editar células que transmitem o DNA por gerações: as de esperma, óvu- los ou embriões em estágio precoce. Elas pertencem ao que é conhecido como linha germinal. Em abril uma equipe da Universi- dade Sun Yat-sen, na China, revelou ter cruzado essa linha. Boatos sobre esse trabalho já haviam provocado alarme antes. Em março, autores de um editorial amplamente divulgado na Nature solicitaram a suspensão de todas as modificações na linha germinal humana, seja para pesquisa ou uso clínico, assim como
fez o Centro para a Genética e a Sociedade, em Berkeley, na Cali- fórnia, mas a proibição total seria um erro.
A equipe chinesa usou a CRISPR em embriões em estágio ini-
cial, que transportavam material genético de dois espermatozoi- des em vez do único habitual. Esses embriões não se desenvolvem normalmente e, portanto, são descartados por clínicas de fertilida- de. Cientistas tentaram reparar uma mutação em um gene que provoca uma doença do sangue potencialmente fatal, conhecida como betatalassemia. Os resultados do estudo, publicados na revista Protein & Cell, mostraram que a CRISPR falhou em reparar a mutação-alvo na maioria dos embriões e provocou alterações não intencionais em outro local do genoma. ( , Nature e Protein & Cell fazem parte da Springer Nature.) A pesquisa demonstrou que a tecnologia envolve demasiadas incógnitas no momento para justificar quaisquer riscos para a vida humana.
Está claro que necessitamos de uma suspensão temporária da modificação do genoma em células germinais destinadas ao estabe- lecimento de gravidez. Cientistas têm muito a aprender sobre o fun- cionamento da CRISPR. Mais basicamente, eles ainda sabem muito pouco sobre como os genes interagem entre si e com o ambiente para provocar uma doença. Agências de financiamento não devem apoiar estudos com embriões adequados para implantação no úte-
8 Scientific American Brasil | Agosto 2015
ro, tampouco revistas devem publicar esse tipo de trabalho. No entanto, cientistas devem ser autorizados a realizar pes- quisas básicas sobre a modificação da linha germinal humana, como a Sociedade Internacional para Pesquisas de Células-Tron- co e outros grupos têm argumentado. Esse trabalho poderia envolver embriões não viáveis em estágio inicial. E a engenharia pode, em hipótese, conseguir deter doenças genéticas devastado- ras, como a de Huntington e a distrofia muscular, antes de elas se iniciarem em descendentes e impedir que o DNA prolifere em mais filhos. O risco, porém, é que alterações não intencionais prejudiciais também sejam repassadas. Pesquisadores precisam conduzir estudos extensivos antes de o uso clínico poder ser con- templado. Atualmente possíveis pais que usam fertilização in vitro podem ter embriões precoces rastreados para certos distúr- bios genéticos. Alguns casais, no entanto, podem não ter a capa- cidade de produzir embriões livres de doença ou ter preocupa- ções éticas sobre produzir mais embriões do que vão usar. A edi- ção da linha germinal poderia, finalmente, ajudá-los. Nos EUA, queremos que o trabalho de base na linha germinal possa ter financiamento federal, pois ele propiciaria mais recursos e maior transparência, mas essas pesquisas terão de obter recur- sos privados e estatais. Na sequência do estudo da Protein & Cell, os Institutos Nacionais de Saúde reiteraram que não financiarão pesquisas com modificação de embriões humanos, citando proibi- ções legais, além de questões de segurança. Esses problemas mostram que grupos científicos e governa- mentais devem envolver o público em debates sobre mudanças nas linhas germinais e usar esse diálogo para elaborar novas políti- cas. A CRISPR é a mais poderosa ferramenta de edição de genoma que os cientistas têm. Precisamos explorar seu potencial para evi- tar os horrores das doenças genéticas, mas fazê-lo sem comprome- ter nossos valores nem prejudicar gerações de vidas humanas.
Ilustração de Julian Callos
é diretor do Observatório Maria Mitchell, de Nantucket, e autor de A sky wonderful with stars: 50 years of modern astronomy on Maunakea, a ser publicado este mês pela editora da Universidade do Havaí.
Guerra com as estrelas
Superando a discórdia sobre um telescópio em local sagrado no Havaí
“Os antigos havaianos eram astrônomos”, escreveu a rainha
Liliuokalani, última monarca do Havaí, em 1897. Os “observadores de estrelas”, ou Kilo h k , estavam entre os mais respeitados mem- bros da sociedade havaiana. Infelizmente nem tudo vai bem ali com a astronomia agora. Há protestos contra a construção do Telescópio de Trinta Metros (TMT), um gigantesco observatório que promete revolucionar a visão do Cosmos para a humanidade.
O problema é o local planejado para o TMT, Mauna Kea, um
vulcão adormecido reverenciado por alguns havaianos como o piko, “cordão umbilical”, que conecta o arquipélago aos céus. Mas Mauna Kea também abriga alguns dos mais poderosos telescópios do mundo. O pico ergue-se no Oceano Pacífico acima de boa parte da densa atmosfera de nosso planeta, o que permite que os teles- cópios consigam imagens de clareza insuperável. Isso torna Mau- na Kea o principal lugar astronômico do Hemisfério Norte, ou tal- vez do mundo. Construir o TMT em outra região, como sugerem alguns críticos, seria como grampear as asas do palila, pássaro nativo de Mauna Kea, limitando sua capacidade de voar.
A oposição a telescópios em Mauna Kea não é nova. Um peque-
no, mas ativo grupo de havaianos e ambientalistas há muito consi- dera a presença dos observatórios como uma profanação à terra sagrada e uma dolorosa lembrança da ocupação do que foi uma nação soberana. Para alguns, apenas o retorno da montanha ao seu estado primitivo é aceitável. Para outros, os telescópios são simplesmente um conveniente para-raios para atiçar a discussão sobre questões sociais mais importantes que afetam os nativos. Pegos de surpresa pela veemência da oposição ao TMT, muitos astrônomos creem sinceramente que atuaram com o engajamen- to de havaianos no diálogo nos últimos sete anos de planejamen- to, em mais de 20 audiências públicas e uma contribuição de US$ 1 milhão ao ano para o ensino de ciência e tecnologia no Havaí. O projeto também prevê empregos e dinheiro para a economia local. Parte da responsabilidade pela polêmica cabe aos astrônomos. No afã de construir telescópios maiores, eles se esqueceram de que ciência não é a única forma de descrever o mundo. Nem sem- pre priorizaram a proteção do frágil ecossistema de Mauna Kea ou seu caráter sagrado para os nativos. A cultura havaiana não é uma relíquia do passado; é uma cultura ativa em pleno renascimento. Mas a ciência também tem uma história cultural, com raízes
FÓRUM
MICHAEL WEST
Fronteiras da ciência comentadas por especialistas
que remontam ao início da civilização. A mesma curiosidade para descobrir o que havia depois do horizonte que levou os primeiros polinésios ao litoral do Havaí inspira hoje astrônomos a explora- rem os céus. Os que pedem que os telescópios em Mauna Kea sejam desmantelados ignoram que, na realidade, tanto a astrono- mia quanto a cultura havaiana procuram responder a grandes questões sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos. O TMT é a continuidade de uma antiga jornada. A astronomia não estuda apenas planetas, estrelas e galáxias distantes, mas tam- bém algo muito próximo – nós. Uma de suas mais profundas des- cobertas é que somos feitos das cinzas de estrelas extintas tempos atrás. Talvez por isso exploremos os céus, como respondendo ao chamado primordial para conhecermos a nós mesmos e a nossos lares ancestrais. “Você é aquela vasta coisa que vê ao longe, muito longe com grandes telescópios”, escreveu o filósofo Alan Watts. Com espírito de conciliação, os astrônomos mudaram o proje- to. A localização do TMT foi alterada para minimizar sua visibili- dade em torno da ilha e os impactos arqueológicos e ambientais. Será pago US$ 1 milhão por ano (além de financiar o ensino de ciência e tecnologia) pelo leasing do terreno, com 80% desses recursos destinados à administração da montanha. Para limitar o número de telescópios em Mauna Kea, os antigos serão removidos ao fim de suas vidas úteis e seus locais voltarão ao estado natural. Não há razão para que alguém – havaiano ou não – não seja acolhido em Mauna Kea para abraçar sua herança cultural e estu- dar as estrelas. Manter o TMT ou outros telescópios como reféns não vai remediar injustiças sofridas no passado pelos havaianos, da mesma forma como concordamos que ainda há trabalho a ser feito nesse front. “O mundo não pode ficar parado”, disse a rainha Liliuokalani. “Precisamos avançar ou recuar.”
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CORTESIA DE DAVID HIGGINBOTHAM, CENTRO MARSHALL DE VOO ESPACIAL E NASA (acima) ;CORTESIA DE CENTRO GODDARD DE VOOS ESPACIAIS E NASA (abaixo)
AVANÇOS
Conquistas em ciência, tecnologia e medicina
O crescente preço do telescópio Webb (acima) tornou con- troversas propostas para observatórios maiores, como o Telescópio Espacial de Alta Definição e outros (à direita).
ASTRONOMIA
Tudo ou nada
de sua vida, astrônomos procuram por um sucessor supergigante para expandir nossa visão cósmica
Qualquer prêmio para o observatório mais produtivo da história certamente iria para o Telescópio Espacial Hubble. Mas seus dias estão contados: seus ins- trumentos e órbita continuam a se degradar e seu inevitável fim resultará em uma significativa lacuna de coleta de dados para a astrofísica e a cosmologia. Como a atmosfera terrestre filtra, ou eli- mina a maioria dos comprimentos de onda ultravioleta, elas são acessíveis apenas a partir do espaço, onde vive o Hubble. Nenhum dos observatórios de próxima geração da Nasa, o Telescópio Espacial James Webb, de 6,5 metros, e
um satélite espião infravermelho rea- daptado, chamado WFIRST, de 2,4 metros, preencherão esses vazios de comprimentos de onda. “Quando o Hubble se for, ele terá ido”, resume John Mather, astrofísico laureado com o Prê- mio Nobel, do Centro Goddard de Voos Espaciais, da Nasa. “E não temos nada mais preparado que faça o que ele faz.” Mather e outros astrônomos estão propondo um sucessor supergigante com um espelho de 10 a 12 metros de diâmetro, ou seja, quatro a cinco vezes maior que o do Hubble. Isso seria sufi- cientemente grande para atender a
10 Scientific American Brasil | Agosto 2015
vários itens de alta prioridade na lista de desejos de astrônomos e revoluciona- ria os estudos de galáxias muito distan- tes, observações de planetas fora do Sis- tema Solar e a busca por vida em exoplanetas parecidos com a Terra. Cha- mado provisoriamente Telescópio Espa- cial de Alta Definição, ou HDST, em inglês, o telescópio proposto faria obser- vações ópticas em comprimentos de onda ultravioleta e quase ultravioleta, como faz o Hubble. Fazendo jus ao seu nome, o espelho do HDST poderia detectar estruturas a cerca de 300 anos- -luz de distância em galáxias situadas
RICARDO DIAS Getty Images
no lado oposto do Universo visível, algo útil para entender a formação de estrelas, assim como a natureza da matéria e da energia escuras. Além disso, ele permitiria que astrô- nomos examinassem de perto deze- nas de exoplanetas potencialmente similares à Terra em busca de sinais de vida extraterrestre. O plano foi divulgado neste verão boreal em um relatório da Associação de Universi- dades para Pesquisa em Astronomia. No entanto, alguns pesquisadores envolvidos com o HDST receiam que, independentemente de quanto um instrumento poderoso como esse pos- sa ser amplamente atraente, qualquer proposta para um telescópio espacial superdimensionado está destinada a nem “decolar”: embora observatórios gigantes sejam astronomicamente úteis para pesquisadores, eles também tendem a ser considerados astronomi- camente caros, especialmente nos últi- mos tempos. “A Nasa ficou mais con- servadora desde que iniciamos o Webb”, explica Mather, cientista sênior do projeto Webb. Originalmente, ele estava programado para lançamento em 2011, com custo projetado de US$ 1,6 bilhão, mas de acordo com estima- tivas atuais o lançamento não deverá ocorrer antes de outubro de 2018, a um custo inflacionado, que agora se situa em quase US$ 9 bilhões. “Depois que o telescópio foi quase cancelado devido à extrapolação de custos, nin- guém mais quer pensar ‘grande’”, queixa-se Mather. Nenhum astrônomo envolvido no relatório sobre o HDST quer arriscar publicamente um palpite sobre o orçamento necessário para um teles- cópio dessa magnitude, além de con- firmar que ele seria bem grande. Céti- cos quanto à viabilidade financeira do HDST, críticos sugerem que um telescópio de banda larga ligeiramen- te menor, como o Webb, serviria melhor à comunidade. Outros argu- mentam que uma nova geração de
observatórios da classe de 30 metros, baseados em terra e atualmente em construção, poderiam realizar grande parte das mesmas tarefas científicas por uma fração do custo. Mas essas abordagens provavel- mente não fornecerão as respostas que os cientistas estão procurando, salienta Marc Postman, astrônomo e coautor do relatório sobre o HDST no Instituto de Ciência para Telescópios Espaciais. Confinados sob o “mar” de ar que envolve a Terra, até os maiores observatórios baseados em solo serão atrapalhados pela turbulência resul- tante da distorção de luz estelar e pela tênue luminescência da atmosfe- ra, a fraca luz emitida por reações químicas atmosféricas que podem corromper observações sensíveis. Além disso, nem esses telescópios nem o Webb podem visualizar e investigar diretamente grandes números de exoplanetas, o que reduz as chances de descobrirem quaisquer que sustentem vida. Para algumas questões, somente um grande teles- cópio espacial de banda larga oferece esperança de respostas. O telescópio ideal poderia viajar rumo ao espaço na década de 2030, preveem os autores do relatório, mas só se a Nasa e outras agências espa- ciais começarem a planejar isso ago- ra. Um período de incubação tão lon- go para o HDST pode parecer excessivo, mas na realidade é um avanço em relação ao do Hubble, que começou em 1946 com um relatório visionário do astrônomo Lyman Spit- zer. Grandes avanços astrofísicos transformadores como os proporcio- nados pelo Hubble, e que seu futuro sucessor também poderia possibili- tar, exigirão grandes investimentos não só de dinheiro, mas também de tempo, explica Postman. “Você não faz mudanças revolucionárias em nossa compreensão do Cosmos ao dar pequenos passos incrementais.” —Lee Billings
EVOLUÇÃO
Teste auditivo
Biólogos evolutivos têm se perguntado há tempos por que o tímpano de humanos e outros mamíferos é similar ao de répteis e aves. A capacidade de escutar nesses grupos teria evoluído de um ancestral comum? Ou teria ocorrido de forma independente? Experi- mentos na Universidade de Tóquio e no Labo- ratório Riken de Morfologia Evolutiva, ambos no Japão, resolveram essa questão. Os cientistas inibiram geneticamente o desenvolvimento mandibular inferior em fetos de camundongos e de pintainhos. Os primei- ros não formaram tímpanos nem canais auditi- vos. As aves desenvolveram duas mandíbulas superiores, das quais “brotaram” dois conjun- tos de tímpanos e canais auditivos. Os resulta- dos, publicados em Nature Communications, da mandíbula inferior em mamíferos, mas se desenvolve a partir da mandíbula superior em aves. Tudo isso sustenta a hipótese de que a anatomia similar evoluiu independentemente em mamíferos e em répteis e aves. (A American faz parte da Springer Nature.) Fósseis de ossos auditivos também sugeriam isso, mas tímpanos não se fossilizam e, por essa razão, não puderam ser examinados diretamente. Escute, escute a genética! —Sarah Lewin
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AVANÇOS
TECNOLOGIA
Hackers
espiam
ventoinhas
Ar quente expelido por computador pode ser usado por novas técnicas de invasão
Os computadores mais seguros do mundo não podem “googlar” nada por- que estão desconectados da internet e de todas as outras redes. O Exército dos Esta- dos Unidos e a Agência de Segurança Nacional (NSA) dependem dessa medida para prevenção de ataques, conhecida como air-gapping, assim como o The Intercept, o veículo de mídia cofundado por Glenn Greenwald que foi fundamental na revelação do amplo programa de vigi- lância interna da NSA. Mas onde há deter- minação, há um jeito: um grupo de douto- randos na Universidade Ben-Gurion do Negev, em Israel, anunciou ser capaz de obter informações de um computador
escondidas no sensor de dados. Um vírus que carregasse o malware poderia infectar a máquina conectada à internet com bas- tante facilidade, enquanto um dispositivo USB ou outro tipo de hardware seria necessário para invadir a máquina segura, uma façanha que poderia ser bem difícil em locais de alta segurança. Em um cenário em que um hacker pro- curasse uma senha armazenada no com- putador seguro, o malware instruiria seu
Pesquisadores podem obter informações de um computador seguro ao lerem mensagens codificadas no calor que emana de seus processadores como sinais de fumaça.
seguro ao ler mensagens codificadas no calor que emana, como sinais de fumaça, de seus processadores. Todos os computadores têm sensores térmicos embutidos que detectam o calor
produzido por processadores e que ativam
a rotação de ventoinhas para evitar danos
a componentes. Para conseguirem invadir
uma rede em um ambiente de escritório, bisbilhoteiros mal-intencionados infecta- riam dois PCs de mesa adjacentes, um pro- tegido por uma “parede de ar” e o outro conectado à internet, com malware capaz de assumir o controle das máquinas, per- mitindo que eles decodifiquem mensagens
12 Scientific American Brasil | Agosto 2015
processador central a executar seu traba- lho em um padrão de atividade que reve- lasse esses caracteres. Cada episódio de grande atividade produziria uma lufada de ar quente que viajaria até o computador conectado, onde seus sensores térmicos registrariam aquele bit único de informa- ção. Com o tempo, ele chegaria ao conjun- to de bits da senha. O computador conec- tado poderia, então, enviar tal informação ao interessado. Cientistas da computação chamam essa invasão de BitWhisper (cochicho de bits, ao pé da letra]. Se ele soa terrivelmente lento, é porque é. Os computadores afetados só podem
transmitir um máximo de oito bits por hora e não podem estar localizados a mais de 40,5 cm de distância. Mas essa taxa de transferência é suficiente para obter o que você precisa, explica Yisroel Mirsky, um dos coautores da pesquisa a ser apresentada no Simpósio das Fundações sobre Segurança de Computadores do IEEE (Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos), em Verona, na Itália. “Você só precisa de cerca de cinco bits” para uma mensagem simples, como um comando do computador conec-
tado ao desconectado, iniciar um algorit- mo destruidor de dados, salienta Mirsky.
A estratégia BitWhisper pode parecer
excessivamente elaborada; afinal, se é pos-
sível infectar um computador com malwa- re através de um dispositivo USB, por que se incomodar com o canal de calor? Mirsky ressalta que essa configuração permite a um hacker controlar um computador seguro sem estar sentado fisicamente diante dele. Além disso, como o aqueci- mento de um computador não é nada incomum, a invasão poderia passar des- percebida, observa Anil Madhavapeddy, que estuda meios não convencionais para transmitir informações na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e não este-
ve envolvido no estudo. “Em geral, à medi- da que os computadores ficam mais rápi- dos e os dados contidos neles mais valiosos, mesmo os canais secretos muito lentos são úteis para atacantes, que podem simplesmente se recostar e deixá-los fun- cionar durante horas ou até dias para vazar informações importantes enquanto permanecem fora do radar”, explica.
É claro que parar um ataque desses é
simples: mantenha computadores seguros bem longe de quaisquer outros conectados a uma rede ou insira uma camada isolante entre as máquinas. Dadas todas as condi- ções que a BitWhisper precisaria para fun- cionar no mundo real, talvez seja bem mais fácil simplesmente encontrar um dedo-duro. —Jesse Emspak
Ilustração de Thomas Fuchs
MEDICINA
Transfusões mais seguras
Bancos de sangue começam a usar novo método para eliminar patógenos de doações
Ainda não há testes de triagem para bancos de sangue detectarem microrga- nismos que causam algumas doenças tro- picais, como dengue e chikungunya. Nos últimos anos, esses patógenos têm se alastrado para os Estados Unidos devido ao aquecimento global. Além de testes para vírus como o HIV e o da hepatite C consumirem tempo precioso, outros agen- podem estar ocultos em sangue, como aconteceu nos primórdios do HIV. Em dezembro passado, o FDA, o órgão do governo americano que controla ali- mentos e medicamentos, aprovou o Siste- ma de Sangue INTERCEPT, tornando-o a primeira tecnologia disponível para livrar plaquetas (os componentes coaguladores todos os agentes infecciosos possíveis. Desenvolvida pela empresa Cerus, a tecnologia mata, ou neutraliza o RNA e o DNA em vírus e bactérias, impedindo que agentes patogênicos se reproduzam no corpo de um receptor.Após adicionar uma molécula capaz de se inserir no DNA ou RNA do sangue, técnicos expõem a mistura à luz ultravioleta , que faz com que as moléculas se liguem irreversivelmente aos ácidos nucleicos, impedindo assim a sua replicação. O procedimento não prejudica o plasma ou as plaquetas porque eles não contêm ácidos nucleicos próprios.Até agora, doações de sangue de áreas afetadas por chikungunya e dengue tinham de ser guardadas por dois dias, enquanto os doadores são monitorados. Mas as plaquetas só têm vida útil de cinco dias. Neste verão americano, os bancos de SunCoast, na Flórida, e o de Delmarva, na costa leste dos Estados Unidos, que
Ilustração de 5W Infographics
1 INTRODUÇÃO da molécula de INTERCEPT
2 Ativação UV
MOLÉCULA de INTERCEPT se liga irreversivelmente a nucleobases
DNA (ou RNA)
3 Replicação bloqueada
atende partes dos estados de Delaware, Maryland e Virgínia, foram os primeiros do país a empregar a tecnologia. Os NIH (Institutos Nacionais de Saúde) também assinaram um contrato de for- necimento com a Cerus em maio, e um recente editorial no defendeu uma autorização nacional para utilizar um sistema como o INTERCEPT para reduzir os riscos de agentes patogênicos. “Nós, nos Estados Unidos, provavel- mente temos o estoque de sangue mais seguro do mundo”, avalia Scott Bush, CEO da SunCoast, “mas essa tecnologia oferece uma camada extra de proteção.”
CIÊNCIA DE MATERIAIS
Bateria impressa
Uma alternativa extrusiva para células convencionais
Imprimir baterias é o futuro da energia sustentável, segundo engenheiros da PARC, uma empresa de pesquisa na Califórnia de propriedade da Xerox. Eles estrearam um processo de fabricação mais econômico que, algum dia, poderia produzir todas as partes de uma bateria de uma só vez, como o cre- me dental listrado que sai do tubo. Atualmente a fabricação de uma bateria exige múltiplas e complexas etapas indus- triais. O novo método de impressão de bate- encontro da Sociedade de Pesquisa de Mate- riais, em São Francisco, Corie Cobb, da PARC, apresentou bicos e materiais que permitiriam a produtores imprimir dois terços de uma bateria de uma só vez. O bico de impressão com cabeçote duplo pode produzir simulta- neamente um cátodo de lítio-íon e um sepa- rador de polímero. Por enquanto, até Cobb descobrir uma combinação de materiais que não se misture durante a impressão, um téc- nico tem de adicionar manualmente um componentes puderem ser impressos de uma só vez, o processo de listras triplas poderá reduzir os custos de produção em 15%, estima Cobb. De qualquer modo, pro- dutores de baterias já mostraram interesse na versão de listras duplas. As baterias prototípi- cas funcionam tão bem como as produzidas pelo processo convencional. Baterias menos caras são fundamentais para produzir veículos elétricos economica- mente mais acessíveis e permitir que empre- sas de energia elétrica comprem e armaze- nem energia adicional de fontes variáveis de energia eólica e solar para estabilizar suas redes de distribuição. A longo prazo, baterias também poderiam ser impressas em forma- tos customizados para novos tipos de gad- gets, ou dispositivos, em vez das formas retangulares e cilíndricas que os atuais desig- ners precisam dar um jeito de acomodar.
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FONTES: “1000 DAMS DOWN AND COUNTING”, J. E. O’CONNER ET AL., EM SCIENCE, VOL. 348; 1 o DE MAIO DE 2015 (remoção de barragens); “THE REMAINS OF THE DAM: WHAT HAVE WE LEARNED FROM 15 YEARS OF US DAM REMOVALS?”, GORDON E. GRANT E SARAH L. LEWIS, EM ENGINEERING GEOLOGY FOR SOCIETY AND TERRITORY, VOL. 3. EDITADO POR GIORGIO LOLLINO ET AL. SPRINGER, 2015 (liberação de sedimentos)
FÍSICA
Bases da Blitz
Lei dos gases pode modelar tática alemã da 2ª Guerra Mundial
Em 1939, a Alemanha estreou a “guer- ra-relâmpago”, ou Blitzkrieg, na Polônia. Essa mortífera ofensiva militar combinava poderosos ataques de fogo pesado para gerar confusão e romper inesperadamente as linhas de defesa de um inimigo. Agora, quase 80 anos depois, físicos russos desco- briram que podem modelar essa tática com a teoria cinética dos gases. Com um pouco de raciocínio criativo, os paralelos são suficientemente óbvios. Tanto exércitos como gases têm densida- des – soldados (ou tropas) por quilômetro quadrado ou átomos por metro cúbico.
Unidades básicas também têm cortes transversais mensurá- veis que definem cobertura territorial, para tropas, alcance médio de armas e, para o alcance orbital de átomos de gás e elétrons. E, para as duas entidades, quando as seções transversais se sobrepõem, ocorrem confrontos. Além dis- so, no caso de uma Blitzkrieg, a debandada de um pelotão de defensores pode ser vista como sendo similar à ampla disper- são de átomos de um gás. Por isso, os físicos Vladimir Aristov e Oleg Ilyin, da Academia de Ciências da Rússia, tomaram dados militares históri- cos sobre as forças alemãs e polonesas na Segunda Guerra Mundial – números de soldados, tanques, aviões e artilharia, assim como a velocidade inicial dos veícu- los – e substituíram cada unidade por moléculas de gás em um modelo matemá- tico baseado na teoria cinética. Átomos ou moléculas de gás, segundo essa teoria, se movem randomicamente e colidem uns com os outros frequentemente, mas é pos- sível impor ordem ao caos por exemplo, forçando o gás a fluir por um tubo ou bocal. No modelo de Aristov e Ilyin, o exér- cito alemão era um fluxo concentrado de átomos de gás, que penetrava rapidamente os átomos de gás amplamente espaçados que representavam o exército polonês.
Segundo os cálculos do modelo, que consideram a desaceleração das velocida- des resultante de colisões, os alemães deveriam ter avançado 50 km por dia, pre- cisamente o seu ritmo real durante a mar- cha de sete dias e 350 km para Varsóvia. Os pesquisadores também executaram cálcu-
los para as guerras-relâmpagos da França, em 1940, e de Stalingrado, em 1941, e cons- tataram que, nesses casos, as previsões do modelo também correspondiam, com pre- cisão, aos movimentos dessas frentes de batalhas históricas. Mas a analogia falhou quando o ataque surpresa inicial terminou
e tropas defensoras de átomos passaram a
“lutar” com mais eficiência. A pesquisa foi publicada em abril no Physical Review E. Há uma abundância de tentativas de explicar fenômenos sócio-históricos com física. Durante décadas cientistas modela- ram eventos como a propagação da Peste Negra, ou peste bubônica, no século 14 com modelos de difusão lenta, que descre- vem processos como a deriva randômica de uma gota de tinta em um copo de água.
A teoria cinética se aplica melhor a proces-
sos mais rápidos e diretos, como uma inva- são veloz. De acordo com Ilyin, o modelo deles poderia ser usado para prever as taxas de futuros avanços em frentes de guerra, mas só se os lados opostos respei- tarem táticas convencionais, o que é improvável atualmente dada à disponibili- dade de armas nucleares e aviões não tri- pulados, ou drones. —Tim Palucka
EM NÚMEROS
Barragens ao longo das décadas
desnecessárias e precisam ser removidas – processos que geólogos e biólogos acompanharão atentamente para observar como os rios desimpedidos e a vida selvagem que sustentam reagirão. — Sarah Lewin
538
Barragens removidas nos 90 anos anteriores a 2005.
548
Barragens removidas de 2006 a 2014.
14 Scientific American Brasil | Agosto 2015
10 milhões
De metros cúbicos de sedimentos acumulados foram liberados por duas barragens removidas (estruturas de 64 m e 32 m de altura) no estado de Washington no ano passado, a maior liberação do gênero até agora.
Ilustração de Thomas Fuchs
CORTESIA DE JUSTIN DOWNS, IEF R&D (grade de leões); GK E VICKY HART GETTY IMAGES (cabeça de leão)
FAZENDO NOTÍCIAS
Notas
rápidas
CANADÁ in vitro
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AS AMÉRICAS
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LIBÉRIA
Facebook para os ferozes
Pesquisadores de leões rastreiam felinos com nova tecnologia de reconhecimento facial
estes dias. Em junho, a organização conservacionista Lion Guar- dians, com sede no Quênia, lançou o programa Rede de Colabora- as fotos das cabeças desses grandes felinos e distingui-los uns dos outros. Com o LINC, a entidade ambientalista e outros pesquisado- res de vida selvagem terão à mão um jeito mais fácil de monitorar a localização dos animais. Seus deslocamentos pela África são mal compreendidos, e os esforços de monitoramento vêm acompanha- suas baterias se esgotam regularmente a cada período de um a três anos, e eles só podem ser colocados nos animais quando eles estão sedados. Além disso, ao contrário de leopardos, guepardos e tigres, tos não têm padrões de pelagem reconhecíveis. Nos próximos meses, cerca de mil leões serão acrescentados ao rem o controle das peregrinações dos felinos, conservacionistas
poderão entender melhor onde os leões encontram companheiras, água e presas, por exemplo, assim como mudanças sutis em sua dinâmica populacional causada pela expansão humana. Não é preciso chegar muito perto e se expor pessoalmente para captar imagens úteis. Instantâneos tirados de uma distância de até 30 metros resolverão tudo, explica Stephanie Dolrenry, cofundadora da Lion Guardians. Tanto “papagaios de piratas” quanto os leões mais ariscos normalmente se viram para olhar para seus perseguidores antes de fugirem. —Millie Kerr
O software LINC escaneia características faciais em busca de padrões que podem combinar uma imagem com um indivíduo.
CORTESIA DO LABORATÓRIO DE FÍSICA APLICADA DA UNIVERSIDADE JOHNS HOPKINS E DO INSTITUTO DE PESQUISA SOUTHWEST (Plutão) ; CORTESIA DE RAYNA TEDFORD (Stern)
AVANÇOS
P & R
Preparados para Plutão
Um sobrevoo há muito esperado se aproxima
Neste mês, a sonda New Horizons (ao lado), da Nasa, a nave espacial mais veloz já lançada, terá chegado a Plutão após uma viagem de cinco bilhões de quilômetros. Em sua aproximação máxi- ma, o conjunto de câmeras, espectrôme- tros e sensores da New Horizons exami- nará a superfície e atmosfera do corpo celeste de uma altitude de 12.500 quilô- metros. Lee Billings, da Scientific Ameri- can, e Alan Stern, cientista planetário, discutiram essa missão histórica. A seguir, excertos editados da entrevista.
Uma concepção comum de Plutão é que ele é uma bola de neve inerte. Por que enviar uma nave para visitá-lo? Agora sabemos que Plutão é um mundo dinâmico. Vimos a intensidade de seu brilho mudar, talvez devido à movimentação de neve; sua pressão superficial triplicou desde o final da década de 80; e sua temperatura está mudando de modos que não entende- mos plenamente. Agora também sabe- mos que Plutão tem um rico sistema de satélites, uma grande lua, Caronte, e pelo menos outras quatro menores, Nix, Hidra, Cérbero e Estige. Não sabemos muita coisa sobre as menores, mas Caronte tem gelo cristalino e hidratos de amônio em sua superfície, que podem estar associados a recentes escoamentos de seu interior. Então Caronte talvez tenha gêiseres. Também temos previsões de que Plutão e Caronte possam com- partilhar uma atmosfera comum. Alguns pesquisadores sugerem que um deles ou ambos talvez tenham ou tiveram ocea-
16 Scientific American Brasil | Agosto 2015
Alan Stern (inserção), cientista-chefe na missão da Nasa para Plutão, está esperando há quase três déca- das para ver o corpo celeste e suas luas em detalhes.
nos subsolares. Saberemos muito mais assim que os estudarmos de perto. Ten- do a pensar em Plutão e suas luas como presentes embaixo de uma árvore de Natal. Eles estão ocultos, e aqui da Terra tudo o que podemos fazer é olhar para “as caixas” para adivinhar se elas são leves ou pesadas, para ver se talvez haja alguma chacoalhando um pouco lá den- tro. Estamos vendo coisas intrigantes, mas realmente não sabemos o que há lá dentro. Estou esperando há 26 anos para desembrulhar esses presentes. Este ano, o Natal chegou em julho!
O que o sr. espera encontrar? É difícil de responder. Não só por nin- guém nunca ter visitado Plutão antes. Ninguém nunca visitou esse tipo de pla- neta. Começamos a planejar essa missão em 1989, após o encontro da Voyager 2 com Netuno, e àquela época quase nin- guém sabia da existência do Cinturão de Kuiper. Essa é uma vasta região povoada por muitos corpos celestes pequenos e alguns pequenos planetas muito exóti- cos e diversos. A New Horizons não está visitando somente Plutão, mas toda essa região. O que quer que encontre, será um momento sinalizador para a explora- ção planetária; o coroamento de nosso primeiro reconhecimento dos planetas de nosso Sistema Solar.
O que a sonda fará após o sobrevoo?
Encontramos dois pequenos objetos, cada um com cerca de 50 km de diâme- tro, para um potencial sobrevoo pós-Plu- tão em 2019. Os dois estão a aproxima- damente 1,6 bilhão de quilômetros além de Plutão, mas em direções diferentes, portanto temos de escolher se viajamos rumo a um ou outro. Esses são blocos de construção primordiais dos planetas do Cinturão de Kuiper e poderíamos vê-los de perto! Estamos ansiosos para redigir uma proposta de missão prolongada no ano que vem para convencer a Nasa a deixar a New Horizons visitar um deles. Além dessa missão, a nave espacial está em ótimo estado e poderia funcionar até meados ou o final da década de 2030.
O sr. acha que haverá outra missão a
Plutão ou ao Cinturão de Kuiper? Atualmente não existe nenhum plano para isso por parte de qualquer agência espacial. Talvez nunca mais façamos algo como isso novamente. De fato, se voltaremos ou não para lá depende do que a New Horizons encontrar e como isso pode mudar nossas prioridades em ciência planetária. Se o sistema de Plu- tão for suficientemente atraente, então suponho que veremos propostas de mis- sões para retornar. Você pode voltar daqui a seis meses e me perguntar?
SCIENTIFIC AMERICAN , VOL. CXIII, Nº 6; 7 DE AGOSTO DE 1915
50, 100 & 150 ANOS
DE
MEMÓRIA COMPILADO POR DANIEL C. SCHLENOFF
Inovações e descobertas narradas pela SCIENTIFIC AMERICAN
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1 a Guerra Mundial no mar |
cinemas não abrir até a tarde seguinte |
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Agosto 1965 |
“A Alemanha, percebendo que seus
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ao momento em que a mesma previsão |
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Astronomia |
navios de guerra estavam parados por segurança em seus próprios portos, que |
aparece nos jornais vespertinos.” |
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infravermelha |
sua frota mercante estava sendo varrida |
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“Pesquisadores do |
do alto-mar e que perdera a comunica- |
Agosto 1865 |
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Instituto de Tecnologia da Califórnia usaram o |
ção com a maior parte de seus fornece- dores por mar, não tinha senão a guerra |
Colhendo algodão |
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telescópio refletor de 2,54 metros de Monte Wilson para medir bandas de absorção de dióxido de carbono na radia- ção infravermelha refletida de Marte; eles concluíram que a substância é |
secreta por minas e submarinos [veja ilustração] como única forma de comba- te. É com os submarinos que a Alemanha tem alcançado seus maiores êxitos.” |
“Desde o fim da guer- ra a atenção de muitas pessoas se voltou ao cul- tivo do algodão com o louvável projeto de novamente estocar o |
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menos abundante que o indicado por |
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mercado e reabrir fábricas, de forma a |
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medições anteriores menos precisas. Isso |
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atender à necessidade das pessoas. Evi- |
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sugere que a pressão da atmosfera na superfície de Marte é de cerca de 0,37 |
Clima nos cinemas |
dentemente os antigos métodos de plan- tar esse produto básico não são adequa- |
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libra por polegada quadrada ou 2,5% da pressão da atmosfera da Terra, de 14,7 libras por polegada quadrada no nível do mar. A atmosfera marciana, portanto, pode ser muito rarefeita para sustentar um veículo com asas ou um paraquedas descer com cápsulas de instrumentos.” |
“As previsões meteorológicas foram mostradas pela primeira vez nas telas dos cinemas em Birmingham, Alabama, em janeiro de 1912. O Serviço Meteoro- lógico planeja fornecer previsões sem- pre que for requisitado, mas a demanda é limitada pelo fato de a maioria dos |
dos ao espírito que agora orienta as ope- rações. Essa cultura apática e desleixada deverá dar lugar a um modo de negócios energético e metódico, para duas sementes crescerem onde antes nascia apenas uma. Máquinas em geral são indispensáveis, mas uma é mais necessária que as outras. Trata-se da máquina de colher algodão.” |
Agosto 1915
Contra o tifo
“Na guerra fran- co-germânica [1870- 1871] milhares de soldados morreram de febre tifoide. O fato de o presente conflito estar livre dessa doença se deve em parte a uma melhor com- preensão dos princípios do sanea- mento e, em grande medida, ao tra- balho de laboratório. Anos de meti- culosa pesquisa laboratorial resultaram na vacina contra o tifo, que está salvando os exércitos do mundo das epidemias dessa enfer- midade. Em 1911 a vacinação contra o tifo tornou-se compulsória no exército americano. Em 1912 a taxa de mortalidade por febre tifoide nos EUA foi de 16,5 por 100 mil, enquan- to no exército a taxa ficou em zero por 100 mil.”
GUERRA SUBMARINA: Um caçador persegue silen- ciosamente sua presa, 1915
Aluguel estupidamente alto
“Um dos males sociais das grandes cidades é a falta de moradias para pessoas de poucos recursos. Depois de trabalharem duro o dia inteiro no estrondoso barulho das fábricas, os operários precisam de um lar limpo e tran- quilo para estarem revigorados para o trabalho no dia seguinte. Mas, em Nova York e na maioria das grandes cidades, isso é algo inacessível. Cada operário que deseja morar confortavelmente paga aluguéis muito superiores aos seus meios; ou se escolher a outra alternativa – um aluguel baixo – os únicos lugares ofereci- dos são os quartos lotados, bem acima da rua e exalando mau chei- ro e pestilência.”
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Ilustração de Victo Ngai
CIÊNCIA DA SAÚDE
por KAREN WEINTRAUB
é jornalista freelancer de ciência e saúde, que mora em Cam- bridge, Massachusetts. Escreve regular- mente para o Boston Globe, o USA Today e o The New York Times.
Podemos deter o envelhecimento?
Alguns cientistas acreditam que, em breve, poderemos desacelerar ou mesmo parar o cronômetro do organismo – pelo menos por algum tempo
A maioria dos americanos mais idosos vive seus últimos anos com pelo menos uma ou duas doenças crônicas, como artrite, dia- betes, doença cardíaca ou acidente vascular cerebral. Quanto mais tempo o relógio corporal bate, mais condições incapacitantes enfrentam. Por tradição, médicos e empresas farmacêuticas tra- tam essas doenças ligadas ao envelhecimento conforme surgem, mas um pequeno grupo de cientistas começou uma abordagem nova e ousada. Eles acreditam que é possível deter ou até mesmo retroceder o cronômetro interno do organismo para que todas essas doenças cheguem mais tarde ou nem mesmo cheguem. Estudos sobre centenários sugerem que a façanha é possível. A maioria dessas pessoas vive tanto tempo porque de alguma forma evitam a maior parte das doenças que sobrecarregam outras pes- soas aos 70 e 80 anos, afirma Nir Barzilai, diretor do Instituto para Pesquisas sobre o Envelhecimento do Albert Einstein College of
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Medicine. Tampouco a incomum longevidade de um centenário
resulta em declínio de fim de vida mais longo que o de outras pes- soas. Na verdade, observa Barzilai, pesquisas com centenas de “superidosos” sugerem exatamente o oposto. Para eles, a doença costuma vir mais tarde e chega mais próxima do fim. “Eles vivem, vivem, vivem e depois morrem um dia”, segundo ele. Pesquisadores já desenvolveram várias técnicas para aumentar
o tempo de vida de leveduras, vermes, moscas, ratos e símios. Adaptar essas medidas para pessoas parece ser o próximo passo lógico. “Há um consenso emergente de que está na hora de levar o que aprendemos sobre o envelhecimento e começar a traduzir isso em auxílio para humanos”, sugere Brian Kennedy, CEO e presiden-
te do Instituto Buck para Pesquisas sobre o Envelhecimento, um
grupo independente em Novato, Califórnia. Nos Estados Unidos estima-se que um em cada cinco habitan- tes terá mais de 65 anos até 2030 – mais de um em cada sete em 2014. Em 2013, em todo o mundo, cerca de 44 milhões sofriam de demência. Esse número deverá chegar a 76 milhões em 2030 e a 135 milhões em 2050, com insuficiente quantidade de pessoas mais jovens para cuidar deles.
EVIDÊNCIAS
Entre os tratamentos estudados, três se destacam. Ainda não é claro se os potenciais benefícios superam seus riscos. Em um estudo de 2005, Thomas Rando, diretor do Centro Paul F. Glenn para a Biologia do Envelhecimento, da Universidade Stanford, mostrou que um camundongo idoso, cuja corrente san- guínea foi cirurgicamente ligada a um outro jovem, recuperou seus poderes cicatrizantes juvenis. De alguma forma, as células- -tronco do roedor mais velho, responsáveis pela reposição de célu- las velhas ou danificadas, tornaram-se mais eficazes em dar ori- gem a um tecido novo. Bióloga da Universidade Harvard, Amy Wagers, desde então descobriu uma proteína no sangue, a GDF11, que pode ter contribuído para a cicatrização mais rápida. Seus experimentos, publicados na Science em 2014, descobriram que a proteína é mais abundante em camundongos mais jovens que nos mais velhos; quando injetada em roedores mais idosos, a GDF11 aparentou restaurar músculos à sua estrutura jovem e proporcio- nar mais força. Um novo estudo, em Cell Metabolism, coloca essa descoberta em xeque, sugerindo que a GDF11 aumenta com a ida-
de (e pode até inibir a restauração muscular) e que algum outro fator deve fazer as células agirem de modo mais jovem. A segunda abordagem consiste em examinar cerca de 20 fár- macos e suplementos nutricionais atuais em um nível de detalhe que nunca foi possível antes para saber se eles realmente podem afetar o processo de envelhecimento. Por exemplo, pesquisadores da Universidade de Cardiff, no País de Gales, relataram em 2014 que pacientes com diabetes do tipo 2 que tomavam o medicamen- to metformina viviam em média 15% a mais que um grupo de pes- soas saudáveis que não tinham o transtorno metabólico, mas eram semelhantes em quase todos os outros aspectos. Cientistas especulam que a metformina interfere em um processo normal do envelhecimento, a glicação, em que a glicose se combina com pro- teínas e outras moléculas importantes, resinando suas operações normais. A constatação sobre a metformina é especialmente notá- vel, pois diabéticos, mesmo sob bom controle, normalmente vivem um pouco menos que suas contrapartes saudáveis. Enquanto isso, em um estudo com 218 adultos, publicado no ano passado na Science Translational Medicine, pesquisadores da Novartis mostraram que o everolimus, semelhante à rapamicina (usada para prevenir rejeição em transplantes de rim), melhorou a eficácia da vacina contra gripe em pessoas com mais de 65 anos. Quando as pessoas envelhecem, seus sistemas imunes não criam uma resposta de anticorpos tão forte para o vírus inativado na vacina como no passado; assim, elas ficam mais propensas a adoecerem caso se deparem com um vírus de gripe verdadeiro. Pacientes que no estudo receberam o everolimus mostraram uma concentração mais elevada de anticorpos de combate aos micror- ganismos no sangue que seus homólogos não tratados. A desco- berta foi interpretada como um sinal de que o fármaco, de alguma forma, rejuvenesceu os sistemas imunes dos sujeitos do estudo. Assim como acontece com qualquer fármaco, os efeitos colate- rais foram um problema. Membros do grupo tratado eram mais propensos ao desenvolvimento de aftas, o que pode limitar a utili- dade geral do medicamento para o tratamento do envelhecimen- to. O custo pode ser outro fator; o everolimus, aprovado pela FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA) pelas propriedades anticancerígenas, custa mais de US$ 7 mil por mês em doses adequadas. Ainda não se sabe quanto ele custaria e o tempo necessário para ser usado como droga antienvelhecimento. No entanto, resultados sugerem que o envelhecimento pode ser retardado. Na verdade, o everolimus e outros medicamentos semelhantes à rapamicina mostraram estender drasticamente o tempo de vida de camundongos, prevenindo doenças como o cân- cer e revertendo alterações relacionadas à idade em relação ao sangue, fígado, metabolismo e sistema imune. Uma terceira abordagem envolve a alimentação. Há muito tempo se mostrou que a restrição de consumo de calorias ajuda camundongos a viver mais tempo, mas não está tão claro se a limi- tação de ingestão de alimentos (sem provocar desnutrição) tam- bém beneficia os humanos. Por um lado, muito poucos podem ou querem manter essas dietas de baixa caloria pelas décadas neces- sárias para provar definitivamente se essa abordagem funciona, mas pode acontecer de essas medidas drásticas serem desnecessá-
rias. Valter Longo, diretor do Instituto de Longevidade da Univer- sidade do Sul da Califórnia, mostrou que pode estender o tempo de vida de camundongos simplesmente limitando sua comida em dias alternados, ou reduzindo a quantidade de proteína consumi- da. Esse jejum intermitente pode vir a ser mais palatável para as pessoas, embora seus benefícios permaneçam sem comprovação.
ADVERTÊNCIAS
Viver mais pode ter suas vantagens. Rejuvenescer células
velhas significa que elas se dividirão novamente. A divisão contro- lada significa juventude, e a descontrolada, câncer. Mas cientistas ainda não têm certeza se conseguem obter uma sem a outra. Descobrir o momento certo para o tratamento também é com- plicado. Se o objetivo é prevenir as várias doenças do envelheci- mento, você iniciaria suas terapias ao primeiro sinal de doença? “Assim que estiver quebrado, é realmente difícil colocar tudo de volta no lugar. É mais fácil manter as pessoas saudáveis”, afirma Kennedy. Então, pode fazer mais sentido começar o tratamento anos mais cedo, durante uma saudável meia-idade, mas pesquisas necessárias para comprovar essa suposição levariam décadas.
Se várias doenças podem ser adiadas, a próxima pergunta é por
quanto tempo. James Kirkland, que dirige o Centro para o Enve- lhecimento Robert e Arlene Kogod, da Clínica Mayo, em Roches- ter, Minnesota, avalia que levará pelo menos mais 20 anos para responder essa pergunta. Cientistas têm estendido com êxito oito
vezes a vida de vermes e acrescentado um ano à de ratos de labora- tório de três anos de idade. Mas esses avanços permitirão a pes- soas viverem cinco ou seis séculos ou mesmo uns 30 anos a mais? Ou ela conseguirá apenas um ano a mais? A extensão na vida das pessoas é propensa a ser mais modesta que em leveduras, ver- mes, moscas e camundongos, avalia Rando. Pesquisas anteriores sugeriram que animais de ordem inferior se beneficiam ao máxi- mo de iniciativas de longevidade – como as leveduras, por exem- plo, ganhando maior benefício em experimentos de restrição caló- rica que mamíferos. “Quanto mais perto se chega dos humanos, menor o efeito” na expectativa de vida, segundo ele. E que magni- tude de benefício alguém precisa para justificar fazer – e pagar – esse tratamento? “Você toma um remédio toda a sua vida na espe- rança de viver 4% ou 7% a mais?”, questiona Rando.
O que, se existe alguma coisa, os próprios cientistas antienve-
lhecimento podem fazer para tentar retardar seu próprio envelhe- cimento? A meia dúzia de cientistas entrevistados para este artigo disse que faz esforços balanceados para estender a própria vida. Um era grato pelo diagnóstico de pré-diabetes, que significou uma receita legítima para a metformina. A pesquisa está ficando tão sólida, segundo Kennedy, que ele está tendo dificuldades para con- vencer a si mesmo a não tomar alguns medicamentos. Todos os especialistas dizem que tentam levar uma vida saudá- vel, além de suportar empregos de muita pressão. Tentam chegar perto de oito horas de sono, comer quantidades moderadas de ali- mentos nutritivos e fazer bastante exercício. Nenhum deles fuma. A maioria dos americanos, infelizmente, não segue esses hábitos saudáveis. A maior ironia seria descobrir que a pílula não é, afinal, mais eficaz que os hábitos saudáveis que já ignoramos.
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Ilustração de Julian Callos
TECNOLOGIA DAVID POGUE
é colunista-âncora do Yahoo Tech e apresentador das minisséries NOVA na PBS.
Pesquisa médica com celulares
Nossos smartphones podem mudar o cenário dos estudos de saúde – e agora podemos escolher melhor como participar delas
Para um recente estudo de câncer de mama, a epidemiologista Kathryn H. Schmitz, da Universidade da Pensilvânia, enviou 60 mil cartas e conseguiu 351 mulheres. Explicar a papelada para cada participante levou 30 minutos ou mais. Esse método ineficiente para encontrar voluntários era a norma na pesquisa médica. Mas há um tesouro de dados nos bilhões de smartphones e 70 milhões de monitores de saúde que compramos todos os anos. Seus sensores geram terabytes de dados todos os dias sobre nossas atividades, sono e comportamento. Esses dados seriam fantastica- mente úteis para pesquisadores se eles conseguissem obtê-los. Pela primeira vez, existe uma maneira. É um software gratuito da Apple, chamado de ResearchKit (kit de pesquisa, em inglês). O ResearchKit permite a pesquisadores construir aplicativos para fazer o recrutamento e a coleta de dados. Você, o participante, sabe exatamente quem recebe essas informações, e pode desistir de qualquer etapa, a qualquer momento. Os dados vão diretamen- te para a instituição de pesquisa; a Apple não tem acesso a eles. Esses aplicativos podem incorporar tanto os dados relatados pelo próprio indivíduo (“Como estão seus sintomas hoje?”), quan- to informações do microfone, câmera, sensor de movimento, GPS e outras ferramentas do telefone. Então, em vez de fornecer atuali- zações a cada seis meses, você está gerando dados centenas, se não milhares, de vezes ao dia. Antes do lançamento do ResearchKit, em abril, a Apple traba- lhou com as principais instituições para desenvolver a primeira onda de cinco aplicativos. O cardiologista Michael McConnell, por exemplo, desenvolveu, junto com uma equipe da Escola de Medici-
20 Scientific American Brasil | Agosto 2015
na da Universidade Stanford, um aplicativo para monitorar a saú- de cardíaca chamado MyHeartCounts. Ele acompanha sua ativi- dade (usando os sensores de movimento do telefone) e pede para
o usuário realizar um teste de caminhada a cada três meses. O
aplicativo tenta relacionar atividade, aptidão física e fatores de ris- co com o tempo; por fim, ele lhe dá sugestões personalizadas – algo que estudos tradicionais não costumam fazer. Nas primeiras 24 horas, 10 mil participantes se inscreveram no estudo. “O ResearchKit resolve vários desafios atuais da pesquisa clíni- ca”, disse-me McConnell. Com ele você pode recrutar mais pes- soas, reduzir custos e permitir um melhor compartilhamento de dados de pesquisa, explica o pesquisador. Eric Schadt, geneticista da Escola de Medicina Icahn em Mount Sinai, desenvolveu um aplicativo chamado de Asthma Health. Ele faz perguntas diárias sobre suas condições de saúde e relaciona suas respostas com o clima local, a poluição e a contagem de pólen (através do GPS de seu telefone). Em 72 horas, cinco mil indivíduos asmáticos já estavam inscri- tos – um número, de acordo com Schadt, que lhe custaria anos para reunir no passado. Outros aplicativos desenvolvidos antes da divulgação incluem o GlucoSuccess (para monitorar o diabetes), o mPower (para a doença de Parkinson) e o Share the Journey (para
o câncer de mama). Todos são gratuitos. Você pode participar dos
últimos três estudos mesmo se não tiver a doença; seus dados são
úteis como controle. Tudo pode soar maravilhoso demais, mas o que a Apple ganha com isso? Sua primeira ideia pode ser: “Vender mais iPhones, é claro”. Exceto que essa é a melhor parte: a Apple deixou o
ResearchKit como open source. Ele é grátis para qualquer pessoa
– até mesmo para rivais da Apple, como Google ou Samsung –
usar, modificar ou adquirir. A ideia do ResearchKit parece promissora. Mas vale a pena apontar que o uso de smartphones limita o grupo de participantes a pessoas que têm um aparelho desses. Estudos que requerem exa- mes corporais, amostras de fluidos ou precisão de nível hospitalar também ficam de fora. Mas se comparado a estudos presenciais ou até mesmo a estu- dos pela Web, esses aplicativos podem ser muito mais difundidos e fáceis de usar, e eles podem gerar mais tipos de dados úteis. Estu- dos que costumavam ser lentos, pequenos e localizados agora podem ser rápidos, imensos e globais. E isso pode significar mais saúde e vida mais longa para todos nós.
OBSERVATÓRIO Céu do Mês JANEIRO
POR JORGE A. QUILLFELDT
é neurocientista e divulgador da ciência. Professor do Departamento de Biofísica do IB/UFRGS, orientador do Programa de Pós-Graduação em Neurociências do ICBS/UFRGS, foi secretário da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento (SBNeC, 2011-14) e da Federação de Associa- ções Latino-americanas e Caribenhas de Neurociências (FALAN, 2012-14), integrando atualmente o Comitê Regional Latino-americano da International Brain Research Organization (IBRO-LARC).
As neurociências se reúnem no Brasil
De 7 a 11 de julho de 2015, neurocientistas de todo o mundo voltaram seu olhar para o Brasil. Realizou-se, no Rio de Janei- ro, o 9 o Congresso Mundial do Cérebro, encontro quadrienal da Organização Internacional da Pesquisa do Cérebro (IBRO). Esse importante encontro foi realizado pela primeira vez nas Américas, e a escolha do Brasil significa nada menos que o re- conhecimento da alta qualidade de nossa pesquisa neurocien- tífica. Sem dúvida, uma importante conquista para o país. Foram 150 palestrantes de 23 países falando para um público de mais de 2.400 especialistas, do Brasil e do exterior, cobrindo os mais variados assuntos de ponta, da dependência de drogas à epilepsia, células-tronco, estresse, memória, esquecimento, doença de Alzheimer, apreciação musical, envelhecimento, neu- roimunologia, modelos computacionais, e os limites da neuro- ética. As apresentações incluíram conferências, simpósios e ses- sões de cartazes nas quais pesquisadores, pós-graduandos e es- tudantes puderam discutir seus achados, interagindo com os melhores em cada especialidade. Muito se fala no crescimento da ciência brasileira, que está entre os mais notáveis entre os assim chamados países do Ter- ceiro Mundo: em 2011 passamos a ser o 13 o país em número de artigos publicados, embora, em qualidade (impacto, citações), sejamos apenas o 40 o . Superamos Argentina e México, e mesmo Índia em termos de produção científica, e ficamos atrás apenas da China. Nossos números progrediram, mas fica aquela im- pressão de que não fazem jus ao fato de sermos a oitava econo- mia do planeta. A realidade é que não existe atalho que compen- se a falta de experiência como aquela acumulada pelas nações mais avançadas. As neurociências no Brasil se desenvolveram ocupando nichos preexistentes nas áreas de fisiologia, anatomia e far- macologia que, por sua vez, são subdivisões históricas das ciências da vida surgidas no século 19. Pode-se sistematizar subdivisões do conhecimento mediante (a) argumentos on- tológicos, baseados na natureza em si da categoria (vivo X não vivo, básico X aplicado); (b) razões epistemológicas, que relevam características conceituais (funcional X estrutural, estático X dinâmico) bem como a própria cronologia históri- ca das disciplinas (a física precedeu a química, que antece- deu a biologia, etc.); ou mesmo (c) aspectos pragmáticos, a conveniência prática de assim classificar (facilidade de agru- pamento, financiamento, conveniência didática, razões polí- ticas ou simples modismo).
Áreas recentes da pesquisa como a astrobiologia, as nanociências e as neurociências vieram sacudir a poeira de velhas subdivisões cujas delimitações começaram a diluir-se diante dos avanços tecnológicos e conceituais. No começo, pa- recia suficiente trabalhar com as divisões clássicas complemen- tadas por adjetivos algo vagos como “interdisciplinar”, “trans- disciplinar” e “multidisciplinar”, mas a partir de certo ponto não se pode mais escapar de uma nova classificação. É assim que surgiram novas áreas do conhecimento, disciplinas acadê- micas, departamentos, agremiações profissionais e mesmo títu- los de periódicos. Algumas serão problemáticas e não sobrevi- verão. Mas a história é uma catraca que não para de girar quando se trata de consolidar as reclassificações que aportam vantagens reais e imediatas. Essas considerações são necessárias para entendermos o su- cesso das neurociências, que se verifica em todo o mundo, não apenas aqui. Até hoje encontramos posições mais conservado- ras que questionam a existência ou não dessa “subárea” a que chamamos neurociências, como se fosse uma classificação arbi- trária e meramente oportunista, tão boa em si como, digamos, “cardiociências”, “hepatociências” ou “dermociências” – referên- cias claras a órgãos tão ou mais importantes quanto o encéfalo. Mas se é assim, por que são tão raros os congressos, sociedades ou departamentos com tais nomes? Ou ninguém teve a ideia, ou simplesmente tal agrupamento não traz vantagens óbvias sobre as classificações preexistentes. De fato, a astrobiologia é a única das três neodisciplinas su- pracitadas que, além de francamente múlti e interdisciplinar, possui hipóteses testáveis singularmente próprias (“existe vida alhures?”), sendo de natureza mais epistemológica que pragmá- tica. As demais mesclam esses dois aspectos. As nanociências não deixam de ser um novo nome para uma porção da velha quí- mica, porém revisitada pela física das pequenas dimensões, per- mitindo enfatizar as novidades que traz – as propriedades “nano” – antes pouco percebidas, especialmente no domínio tec- nológico. As neurociências também são múlti e interdisciplina- res, reunindo sobretudo as clássicas fisiologia, anatomia e far- macologia “do sistema nervoso”, de longa história, mas devido a sua abrangência, indo do molecular ao celular ao organísmico, ao comportamental, e à complexidade dos problemas não resol- vidos pelas abordagens precedentes, o reagrupamento conceitual mostrou-se decisivo, o que explica seu enorme sucesso. Portanto, que vivam as neurociências!
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NASA
DESAFIOS DO COSMOS
de SALVADOR NOGUEIRA
é jornalista de ciência especializado em astronomia e astronáutica. É autor de oito livros, dentre eles Rumo ao e Extraterrestres: Onde eles estão e como a ciência tenta encontrá-los.
Vinte e seis anos de silêncio
Cygni. Localizada na constelação de Cisne, a 8 mil anos-luz da Terra, ela já foi um dia, há muitos mi- lhões de anos, composta por uma estrela azul, de alta massa, e uma anã amarela um pouco menor que o Sol. Só que estrelas grandes esgotam seu combustível muito mais depressa e então explo- dem. O resultado é que a maior das duas estrelas já detonou e se transformou num buraco negro. Pela proximidade, passou a sugar parte da massa de sua vizinha de tipo solar, formando um disco de material em torno do astro colapsado. Em 1989, o satélite japonês Ginga detectou uma intensa e repentina emissão de radiação vinda dali – fenômeno conhecido como nova de
raios X –, presumivelmente resultado da súbita violência com que o material acumulado ao longo de anos no disco de acreção avançou na direção do buraco negro, acelerando a velocidades próximas à da luz. Foi uma das mais contundentes evidências de que esses objetos ex- tremos previstos pela relatividade geral existem mesmo. E então V404 Cygni aquietou-se. Mas uma olhada em dados de arquivos revelou que o astro havia passado por dois picos de atividade anteriormente, em 1938 e em 1956. Era questão de tempo até que ele voltasse à ativa. Aconteceu em 15 de junho de 2015, quando o satélite Swift, da Nasa, detectou uma súbita emissão de raios X vinda de lá. A partir desse primeiro registro, um alerta levou uma esquadra de satélites e observatórios espalhados pelo mundo a monitorar o objeto, em todas as frequências do espectro eletromagnético. Numa única semana, as explosões em V404 Cygni geraram mais de 70 “alertas” de atividade no Monitor de Disparos de Raios Gama do satélite Fermi, também pertencente à agência espacial dos EUA. A cada um desses alertas, o sistema automaticamente dispara uma série de e-mails aos cientistas responsáveis, o que levou David Yu, um dos cientistas do Fermi, a comentar nas redes sociais, ecoando a linguagem dos videogames: “Conquista desblo- queada: Caixa de e-mail sofre spam de buraco negro”. Brincadeiras à parte, a hipótese com que trabalham os cien- tistas para esses picos de atividade transitórios é que o material “roubado” da estrela vizinha vai se acumulando no disco de acreção até atingir um valor crítico, e então cai todo de uma vez, produzindo a explosão de raios X. Os novos dados certa- mente ajudarão a testar essa ideia e a compreender ainda melhor o intrigante sistema de V404 Cygni.
CONCEPÇÃO ARTÍSTICA do despertar de raios X do disco de acreção de um buraco negro em V404 Cygni
Buracos negros são, com toda probabilidade, as mais miste- riosas entidades do zoológico cósmico. Sua própria natureza é debatida acaloradamente há décadas pelos cientistas. Em 1915, quando Karl Schwarzschild fez os primeiros cálculos do que seria preciso para uma estrela se tornar um buraco negro, baseado na relatividade geral, até mesmo Einstein achou inte- ressante, mas um exercício puramente teórico – ele não acredi- tava que o Universo permitiria a existência de objetos tão bizar- ros, literais rombos no tecido do espaço-tempo. E, no entanto, tudo que conhecemos hoje sobre astrofísica indica que eles existem mesmo. Estrelas de alta massa, quando es- gotam seu combustível nuclear, detonam violentamente, e o núcleo remanescente colapsa sob seu próprio peso. Se houver massa suficiente, o nível de compressão é tão grande que a matéria se degenera completamente, e o resultado é um objeto infinita- mente compacto – uma singularidade – da qual, a partir de uma determinada distância, nada pode escapar dele. Nem mesmo a luz, viajando à velocidade máxima permitida no Cosmos, consegue vencer a atração gravitacional. Daí o nome “buraco negro”. Estrelas, contudo, são em geral entidades gregárias – a maioria delas vive em duplas ou trios –, e nem todas têm o mesmo tama- nho. Um par especialmente intrigante é conhecido pela sigla V404
ASTROFOTOGRAFIA
As fotos precisam ser em alta resolução, com no mínimo 300 dpi, para serem publicadas.
22 Scientific American Brasil | Agosto 2015
FERNANDO R. DE A. V.
Chuva de meteoros Perseidas produz espetáculo
Marte retorna ao céu noturno, e o cometa C/2013 US10 Catalina se oferece à observa- ção no Hemisfério Sul antes do periélio.
O grande evento astronômico do mês de agosto é a chuva de
meteoros Perseidas. O nome se refere à constelação de Perseu, onde se localiza o radiante, ou seja, o ponto de onde parecem
emanar essas estrelas cadentes. As Perseidas são produzidas por pequenos detritos pertencentes ao cometa 109/P Swift-Tuttle, astro que passa pelas redondezas do Sol a cada 133 anos. Embora ele não esteja por perto no momento, em seu trajeto restam rastros de poeira deixada por suas passagens anteriores pela região interna do sistema. Quando a Terra atravessa a órbita dele, o que acontece todo ano, esses pequenos grãos encontram nossa atmosfera e queimam, produzindo o espetáculo visual. Sendo Perseu uma constelação boreal, o fenômeno acaba sendo mais vistoso no Hemisfério Norte. Ainda assim, também há boa presença de estrelas cadentes nos céus do Sul. O pico acontece no dia 13, favorecido pela Lua pouco luminosa, num fino minguante.
O melhor momento para observar é a partir das 3h, até o amanhe-
cer, quando Perseu desponta no horizonte Norte. Contudo, não é
necessário olhar na direção do radiante para observar os meteoros
– eles aparecem em todas as partes do céu.
É bom observar por pelo menos uma hora para contar um bom
número de estrelas cadentes. Nas regiões Norte e Nordeste do
FERNANDO R. DE A. V., de Bragança Paulista (SP), registra o encontro Lua-Vênus-Júpiter, ocorrido em junho.
CÉU DO MÊS AGOSTO
Brasil, pode-se esperar taxas acima de 30 meteoros por hora. Mais ao sul, a frequência diminui para cerca de 15 meteoros por hora. No dia seguinte ao pico das Perseidas, ocorre a aproximação máxima do cometa C/2013 US10 Catalina com a Terra, a pouco mais de 160 milhões de quilômetros de distância. Entre os dias 8 e 17 de agosto, você poderá encontrar esse astro – um cometa de longo período proveniente da nuvem de Oort, em sua primeira visita ao interior do Sistema Solar – na constelação do Pavão, vi- sível durante praticamente toda a noite na direção Sul. O cometa deve realizar seu periélio em novembro para então ir se alojar no céu do Hemisfério Norte, de forma que o melhor mo- mento para observá-lo no Brasil será agora em agosto. Estima-se que ele se afigure com 7,1 magnitudes – além da percepção a olho nu, mas visível com auxílio de binóculos ou pequenos telescópios. Marte faz seu retorno ao céu noturno, após passar por trás do Sol, e pode ser encontrado no horizonte Leste, pouco antes do ama- nhecer. E Netuno, por sua vez, realiza sua máxima aproximação da Terra, a 4,3 bilhões de quilômetros, e atinge seu brilho máximo: 7,8 magnitudes. Ele estará disponível durante toda a noite, na conste- lação de Aquário, e pode ser encontrado com binóculos. Bons céus a todos! (S.N.)
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Visibilidade dos planetas |
N |
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MERCÚRIO |
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Inicialmente em Leão e depois em Virgem, visível ao anoitecer na direção do pôr do sol. Em conjunção com Júpiter em 7. Próximo da Lua em 2. |
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VÊNUS |
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Visível ao anoitecer, na direção do pôr do sol, na primeira quinzena do mês. Em conjunção inferior com o Sol em 15, quando volta a ser visto ao amanhecer, na direção do nascer do sol, em Câncer. Em conjunção com Marte em 29. |
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MARTE |
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Visível ao amanhecer a leste, antes do nascer do sol, em Gêmeos e depois em Câncer. Próximo da Lua em 13. Em conjunção com Vênus em 29. |
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Em Leão, visível ao anoitecer na direção do pôr do sol no começo do mês. Em conjunção com Mercúrio em 7 e próximo de Regulus (alfa de Leão). Próximo da Lua em 15. Em conjunção com o Sol em 27. |
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SATURNO |
O |
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Em Libra, visível durante a primeira metade da noite. Estacionário em 2. Próximo da Lua em 22. |
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URANO |
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Visível a leste durante a madrugada, em Peixes. Próximo da Lua em 5. |
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NETUNO |
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Em Aquário, visível durante toda a noite. Próximo da Lua em 29. Maior aproximação com a Terra em 31. |
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DESTAQUES DO |
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Mercúrio em conjunção com Júpiter. |
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Máximo da chuva de meteoros Perseid |
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Maior aproximação da Terra do comet |
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Conjunção inferior de Vênus (planeta n |
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Conjunção Júpiter com o Sol (planeta |
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Netuno em máxima aproximação com |
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S |
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24 Scientific American Brasil | Agosto 2015
Câncer de 21/07/2015 a 11/08/2015
Leão de 11/08/2015 a 17/09/2015
(*) O limite das constelações foi estabelecido pela União Astronômica Internacional em 1930, o que permite estabelecer, com grande precisão, o instante de entrada e saída do Sol de cada uma das 13 constelações que são atravessadas pela trajetória anual aparente do Sol, a eclíptica.
L
CARTA CELESTE PARA O MÊS
Mapa mostra céu visível às 22h00 de 1º de agosto, às 21h00 de 15 de agosto e às 20h00 de 30 de agosto a partir da latitude de 23°27’ Sul (Trópico de Capricórnio).
DIA
HORA
2 07h58
12h45
2 15h14
5 05h48
2
5 06h45
23h03
6
7 00h59
7 21h54
8
11
12
12
20h02
03:54
–
23h32
13 –
14 02h30
14
15
17
17
18
19
20
22
22
24
11h54
16h15
23h14
23h14
17:34
14h15
04h02
12h20
16h32
–
EVENTO
Lua no perigeu, mínima distância da Terra (362.081 km). Diâmetro angular aparente 33,0’.
Lua passa por Mercúrio
Saturno estacionário. Iniciando movimento direto.
Mercúrio e Vênus em conjunção.
Lua passa a 0,4°S de Urano.
Lua quarto minguante.
Mercúrio a 0,6°N de Júpiter (conjunção).
Lua passa pelo aglomerado estelar aberto de Pleiades (M45), em Touro.
Lua passa por Aldebarã (alfa de Touro).
na face escura da lua minguante falcada (luz cinérea). O horário refere-se ao nascer da Lua em São Paulo.
Máximo da chuva de meteoros Delta-Aquarídeos Norte.
Lua passa por Marte.
Máximo da chuva de meteoros Perseidas (cometa 109/P Swift-Tuttle).
Cometa C/2013 US10 Catalina mais próximo da Terra, brilho estimado de 7,1 magnitudes.
Lua nova.
Vênus em conjunção inferior com o Sol (planeta entre
o Sol e a Terra).
Lua passa por Mercúrio.
Lua no apogeu, máxima distância da Terra (406.935 km). Diâmetro angular aparente 29,1’.
na face escura da lua crescente falcada (luz cinérea). O horário refere-se ao pôr do sol neste dia, em São Paulo.
Lua passa por Spica (alfa de Virgem).
Marte passa a 0,2°S do aglomerado estelar de Praese- pe (M44), em Câncer.
Saturno a 3°S da Lua (conjunção).
Quarto crescente.
Fim da atividade da chuva de meteoros Perseidas (início em 17/07).
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27 |
05h54 |
Júpiter em conjunção com o Sol (Sol entre o planeta |
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e |
a Terra). |
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29 |
02h14 |
Vênus e Marte em conjunção. |
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29 |
15h36 |
Lua cheia. |
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29 |
19h47 |
Lua passa por Netuno. |
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30 |
13h13 |
Lua no perigeu, mínima distância da Terra (358.282 km). Diâmetro angular aparente 32,8’. |
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31 |
07h31 |
Netuno mais próximo da Terra, 4,3 bilhões de quilômetros. |
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Netuno atinge seu máximo brilho, m = 7,8, não visível |
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31 |
09h31 |
a olho nu, mas acessível à observação com binóculos e pequenos telescópios. |
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EVOLUÇÃO
DO LOBO
Cientistas correm para desvendar o persistente mistério
sobre o carnívoro grande e perigoso que evoluiu para ser
nosso melhor amigo
Virginia Morell
26 Scientific American Brasil | Agosto 2015
AO CÃO
Fotografias de Peter Rigaud
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é jornalista freelancer de ciências estabelecida no Oregon. Ela cobre evolução e comportamento animal para a Science e a National Geographic, entre outras publicações. Seu livro mais recente é Animal wise (Crown, 2013) [Não traduzido para o português].
E VOCÊ CUIDOU DE CÃES E LOBOS SELVAGENS DESDE QUE ELES TINHAM POUCO MAIS DE UMA semana de vida, os alimentou com mamadeiras e tratou deles dia e noite, você conhece bem as suas diferenças. Desde 2008, Zsófia Virányi, etóloga no Centro de Ciência do Lobo, na Áustria, e seus colegas vêm criando as duas espécies para desco- brir o que faz de um cão, um cão, e de um lobo, um lobo. No centro, os pesquisadores supervisionam e estudam quatro alcateias de lobos e quatro matilhas de cães, con- tendo, cada uma, de dois a seis animais. Eles treinaram esses animais para obedecer a comandos básicos, andar com coleiras e usarem seus narizes para tocar a tela de um monitor de com- putador para fazer testes de cognição. Ainda assim, apesar de terem vivido e trabalhado com os cientis- tas durante sete anos, os lobos mantêm uma independência mental e um comportamento muito dife- rente do de cães.
“Você pode deixar um pedaço de carne sobre uma mesa e dizer a um de nossos cães ‘Não!’, e ele não o pegará”, explica Vi- rányi. “Mas os lobos te ignoram. Eles olha- rão nos seus olhos e abocanharão a carne”, uma desconcertante conduta de confronta- ção que ela experimentou em mais de uma ocasião. E quando isso acontece, a cientista sempre volta a se perguntar como o lobo pôde se tornar o cão domesticado. “Você não pode ter um animal, um car- nívoro grande, vivendo com você e se com- portando desse jeito”, argumenta ela. “Você quer um animal que seja como um cão; um que aceita o comando ‘Não!’” Os pesquisadores do centro descobri- ram que a compreensão canina do não ab- soluto pode estar associada à estrutura de suas matilhas, que não são igualitárias como as alcateias de lobos, mas ditatoriais. Lobos podem se alimentar em conjunto, observa Virányi. Mesmo se um animal do- minante arreganhar seus dentes e rosnar para um subordinado, o membro hierar- quicamente inferior não se afasta. Mas o
mesmo não é verdadeiro em matilhas de cães. “Animais subordinados raramente se alimentarão simultaneamente com o domi- nante”, explica. “Eles nem ao menos ten- tam.” Os estudos da equipe também suge- rem que, em vez de esperar poderem coo- perar em tarefas com humanos, cães simplesmente querem que alguém lhes diga o que fazer. Como o lobo igualitário, de mentalidade independente, se transformou no cão obe- diente, que aguarda ordens, e que papel hu- manos primitivos desempenharam para al- cançar essa façanha é algo que confunde Virányi: “Tento imaginar como eles fizeram isso, e realmente não consigo”. Virányi não está sozinha em sua perple- xidade. Embora pesquisadores tenham de- terminado com êxito a época, localização e ancestralidade de quase todas as outras es- pécies domesticadas, de ovelhas a gado, de galinhas a porquinhos-da-índia, eles conti- nuam a debater essas questões no que diz respeito ao nosso melhor amigo, Canis fa- miliaris. Cientistas, de modo geral, tam-
bém sabem por que humanos desenvolve- ram esses outros animais domesticados — para ter alimentos à mão —, mas eles não sabem o que nos inspirou a permitir que um carnívoro grande e selvagem entrasse na propriedade da família. No entanto, cães foram a primeira espécie animal domesti- cada; um status que torna o mistério de suas origens muito mais desconcertante. Por mais inescrutável que seja o enigma, cientistas estão juntando as peças do “que- bra-cabeça”. Nos últimos anos, eles fizeram várias descobertas. Agora eles podem afir- mar com certeza, por exemplo, que, contra- riamente à sabedoria convencional, os cães não descendem da espécie de lobo cinzento que persiste até hoje em grande parte do Hemisfério Norte, do Alasca à Sibéria à Arábia Saudita, mas de um lobo desconhe- cido e extinto. Eles também estão certos de que esse evento de domesticação ocorreu enquanto humanos ainda eram caçadores e coletores e não depois que eles se torna- ram agricultores, como alguns pesquisado- res haviam proposto.
a primeira espécie domestica- da. Mas, apesar de anos de pesquisas, cientistas têm lutado para descobrir
EM SÍNTESE
quando, onde e como isso se originou. lançaram nova luz sobre o ancestral lobo do cão e
agora um ambicioso projeto está em anda- mento para determinar o timing e o local da domesticação do cão.
complementarão pistas so- bre como a relação homem-cão mudou nos milênios que se seguiram.
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Quando e onde (em que localização) lo- bos se transformaram em cães e se isso foi apenas um evento único são perguntas que uma grande equipe de pesquisa, for- mada por cientistas antes concorrentes, acaba de começar a investigar. Os pesqui- sadores estão visitando museus, universi- dades e outras instituições ao redor do mundo para estudar coleções de fósseis e ossos caninos, e eles estão preparando amostras genéticas de cães e lobos primor- diais e modernos para a comparação mais abrangente já feita até hoje. Quando ter- minarem, eles estarão muito perto de sa- ber quando e onde – se não exatamente como – lobos começaram a trilhar o cami- nho para se tornarem nossos fiéis compa- nheiros. Respostas a essas perguntas com- plementarão o crescente volu- me de evidências de como humanos e cães se influencia- ram mutuamente depois que esse relacionamento foi inicial- mente estabelecido.
SINAIS MISTOS
Quando humanos modernos chegaram à Europa, há talvez 45 mil anos, eles encontraram lo- bos cinzentos e de outros tipos, inclusive os da megafauna pré- -histórica, que perseguiam ani- mais de caça grandes, como ma- mutes. Àquela época, lobos já tinham provado estar entre as espécies mais bem-sucedidas e adaptáveis na família dos caní- deos, tendo se espalhado através
da Eurásia para o Japão, o Orien- te Médio e a América do Norte. Eles não estavam confinados a um único tipo de hábitat, mas prosperaram na tun- dra, em terras de estepes, desertos, flores- tas, regiões costeiras e até nas altas altitu- des do planalto tibetano. E eles competiam com os humanos recém-chegados pelas mesmas presas: mamutes, cervos, auro- ques, rinocerontes-lanudos, antílopes e ca- valos. Apesar dessa concorrência, um tipo de lobo, talvez descendente de uma espécie da megafauna, aparentemente começou a viver perto de pessoas. Durante muitos anos, com base em pequenas porções do genoma, cientistas estavam de acordo que essa espécie seria o lobo cinzento moderno
(Canis lupus), e que esse canídeo, sozinho, teria dado origem a cães. Em janeiro passado, porém, geneticis- tas descobriram que esse “fato”, há muito tido como certo, estava errado. O recor- rente cruzamento entre lobos cinzentos e cães, que compartilham 99,9% de seu DNA, havia produzido sinais enganosos em estudos anteriores. Esse tipo de con- sorciamento entre as duas espécies conti- nua até hoje: lobos com pelagens pretas receberam o gene para essa cor de um cão; cães pastores nas montanhas do Cáucaso da Geórgia se acasalam com tanta fre- quência com lobos locais que ancestrais híbridos são encontrados nas populações das duas espécies, e entre 2% e 3% dos ani- mais amostrados são híbridos de primeira
não são os descendentes de lobos cinzen- tos modernos. Em vez disso, as duas espé- cies são táxons irmãos, descendentes de um ancestral desconhecido, extinto desde então. “Era uma opinião muito antiga e es- tabelecida que o lobo cinzento que conhe- cemos hoje esteve por aí há centenas de milhares de anos e que cães derivaram de- les”, observa Robert Wayne, geneticista evolutivo na Universidade da Califórnia em Los Angeles. “Estamos muito surpre- sos com o fato de não serem.” Wayne lide- rou os primeiros estudos genéticos que propuseram a relação ancestral-descen-
dente entre as duas espécies e, mais recen- temente, foi um dos 30 coautores do mais novo estudo, publicado no periódico PLOS Genetics, que derrubou essa noção. Mais surpresas poderão re- sultar dos esforços renovados para determinar com precisão o timing e a localização da domes- ticação do cão. Estudos anterio- res deixaram pistas confusas. A primeira análise, realizada em 1997, se concentrou nas diferen- ças gênicas entre cães e lobos cinzentos e concluiu que cães tal- vez tenham sido domesticados há uns 135 mil anos. Um estudo posterior, conduzido por alguns membros do mesmo grupo, indi- cou que os animais se origina- ram no Oriente Médio. Mas ou- tra análise, que examinou o DNA
de 1.500 cães modernos, publica- da em 2009, argumentou que ca- ninos foram domesticados origi-
nalmente no sul da China há me- nos de 16.300 anos. Então, em 2013, uma equipe de cientistas comparou os genomas mitocondriais de primitivos cães e lobos europeus e americanos com seus congêneres modernos. Esse exame concluiu que cães se originaram na Europa entre 32 mil e 19 mil anos atrás. O biólogo evolutivo Greger Larson, da Universidade de Oxford, um dos líderes do projeto multidisciplinar de domesticação canina lançado recentemente, salienta que, embora importantes, os estudos anteriores têm falhas. Ele critica os estudos de 1997 e 2009 por dependerem exclusivamente de DNA de cães modernos e o último por suas amostras geograficamente limitadas.
SENTA E FICA: Um cão no Centro de Ciência do Lobo, nos
arredores de Viena, na Áustria, aguarda permissão para se ali- mentar. Lobos, mesmo os criados por pessoas, não têm esse
respeito pela autoridade humana.
geração. (Desenvolvendo o tema de misci- genação, ou mistura, pesquisadores divul- garam um artigo na publicação especiali- zada Current Biology em junho relatando o sequenciamento do DNA de um fóssil de lobo da Sibéria, de 35 mil anos. Essa espé- cie parece ter contribuído com seu DNA para cães de regiões frias, como Huskies, por meio de miscigenações primitivas.) Analisando genomas inteiros de cães e lobos vivos, esses geneticistas revelaram que os “Fidos” atuais (referência a um cão de rua italiano que chamou a atenção pú- blica em 1943 devido à sua persistente le- aldade ao seu dono, morto em combate)
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FONTE: “GENOME SEQUENCING HIGHLIGHTS THE DYNAMIC EARLY HISTORY OF DOGS”, ADAM H. FREEDMAN ET AL., EM PLOS GENETICS, VOL. 10, Nº 1, ARTIGO Nº e1004016; 16 DE JANEIRO DE 2014
21.600–30.700
Não calculado*
.700–20.10018
9.800–13.000
2.300–2.900
4.700–6.100
1.800–2.100
“Você não pode resolver esse problema usando apenas animais modernos como janelas para o passado”, argumenta Lar- son. Os estudos de DNA de cães modernos não são suficientemente informativos, ex- plica ele, porque as pessoas moveram e miscigenaram cães inúmeras vezes ao re- dor do mundo, confundindo sua herança genética. Quaisquer assinaturas regionais
que poderiam ter ajudado a identificar onde eles foram domesticados já se perderam há muito tempo. Para turvar ainda mais o quadro, “lobos têm uma distribuição ridiculamente ampla pelo mundo”, acrescenta Larson. Compara- tivamente, os ancestrais da maioria das ou- tras espécies domesticadas, como ovelhas e galinhas, tinham áreas geográficas de pro-
pagação muito menores, facilitando muito mais o rastreamento de suas origens. Larson suspeita que várias populações geograficamente díspares das espécies de lobos ancestrais podem ter contribuído para o surgimento do cão moderno. Essa não seria a primeira vez que uma coisa dessas aconteceu: Larson mostrou que por- cos foram domesticados duas vezes: uma no Oriente Próximo e outra na Europa. Curio- samente, fósseis enigmáticos da Bélgica, da República Tcheca e do sudoeste da Sibéria que datam de entre 36 mil e 33 mil anos atrás e exibem uma mistura de característi- cas de lobos e cães, sugerem a possibilidade de pelo menos três instâncias independen- tes de tentativas de domesticação de um lobo primitivo. Mas só as características anatômicas desses fósseis não podem res-
400 ponder à pergunta de onde vieram os cães. Para resolver o enigma de sua domesti- cação, Larson e seus colaboradores estão empregando duas técnicas fundamentais
300 utilizadas no estudo dos porcos. Eles estão fazendo uma análise mais rigorosa de mi- lhares de amostras modernas e primitivas de DNA de cães e lobos, obtidas de exem-
200 plares ao redor do globo, e estão aplicando uma técnica relativamente nova para me- dir ossos. Chamado morfometria geométri- ca, esse método permite que cientistas
100 quantifiquem certos traços, como as curvas de um crânio, e, desse modo, possam com- parar melhor os ossos de indivíduos isola- dos. Antes disso, pesquisadores se basea-
20 vam principalmente no comprimento do focinho de um canídeo e no tamanho dos dentes caninos para distinguir cães de
lobos. Focinhos de cães geralmente são mais curtos, seus caninos menores, e sua dentição em geral é mais “apertada” que a de lobos. O novo método deverá identificar outras diferenças, talvez mais reveladoras. Juntas, essas técnicas deverão produzir uma imagem muito mais detalhada da do-
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D E S C O B E RTA S
Uma história complexa
Para reconstruir a evolução do cão, Robert Wayne, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, e seus cole- gas sequenciaram os genomas de duas raças caninas primitivas (o Basenji e o Dingo), três variantes regionais do lobo cinzento e do chacal dourado, outro membro da família canídea. Em segui- da, eles compararam esses genomas com o da raça Boxer, desenvolvida mais recentemente. Pesquisadores acreditavam há tempos que o lobo cin- zento moderno era o ancestral do cão. Mas a nova análise, publicada em janeiro deste ano em , derruba essa hipótese e sugere que um tipo extinto de lobo originou o cão antes do início da revolução agrícola, há aproximadamente 12 mil anos. Além disso, o estudo revelou um extensivo entre esses grupos depois que eles divergiram. Essa miscigenação confun- diu tentativas anteriores de discernir a ascendência do cão.
Ancestral comum
Milhares de anos atrás
44.200–45.800
(população)
Evidência de
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mesticação do cão do que qualquer outra abordagem feita até hoje.
0
|
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Basenji |
Lobo chinês |
Lobo |
Lobo croata |
Chacal |
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israelense |
dourado |
||||
* O tamanho da população de cães da raça Boxer não pôde ser estimado com base nos dados disponíveis.
CONTATOS PRÓXIMOS
Embora o quando e onde da domestica- ção de cães permaneçam questões em aber- to, cientistas agora têm uma ideia geral de que tipo de sociedade humana foi pioneira em estabelecer uma estreita relação com esses animais. Talvez não seja surpresa que
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Gráfico de Tiffany Farrant-Gonzalez. Ilustração de Portia Sloan Rollings (cães)
MIETJE GERMONPRÉ Real Instituto Belga de Ciências Naturais (crânio); MARIANA BAZO Reuters (múmia)
essa questão, também, tenha ge- rado debates ao longo dos anos. Alguns pesquisadores argumen- taram que os primeiros agriculto- res assentados tiveram essa hon- ra. Afinal, todas as outras espé- cies de animais domesticados entraram no domínio humano depois que o homem começou a
se dedicar ao cultivo e a criar raí-
zes em algum lugar. Outros pes- quisadores, porém, atribuíram a caçadores-coletores mais primiti- vos a distinção de serem os pri- meiros a ter cães. Wayne diz que
o mais recente estudo de DNA realizado
por sua equipe pelo menos pôs fim a essa parte do debate. “A domesticação do cão ocorreu antes da revolução agrícola”, ga- rante ele. “Ela aconteceu quando as pessoas
ainda eram caçadores-coletores”, em algum momento entre 32 mil e 18,8 mil anos atrás. (Acredita-se que a agricultura tenha come- çado em grande escala há aproximadamen-
te 12 mil anos no Oriente Médio.)
Mas essa constatação remete nova- mente às perguntas de Virányi e da maioria das pessoas que têm e amam um cão: como esses caçadores-coletores fizeram isso? Ou não fizeram? E se os primeiros cães, que, é importante lem- brar, de início teriam sido mais lobos que cães, surgiram por conta própria? O gênero Canis remonta a cerca de sete milhões de anos e, embora alguns mem- bros desse grupo, como os chacais e o lobo etíope, vivessem na África, o berço da hu- manidade, não há nenhuma evidência de que os primeiros humanos tenham tentado domesticar qualquer uma dessas espécies. Foi somente depois que humanos moder- nos se dispersaram, migrando da África para a Europa há 45 mil anos, que a tríade lobo-cão-humano começou a se formar. Algumas pistas sobre o incipiente e cres- cente relacionamento entre canídeos e hu- manos modernos primitivos vieram dos re- gistros paleontológicos e arqueológicos. Considere as ossadas de canídeos desenter- radas entre 1894 e 1930 em P edmostí, um assentamento humano de aproximada- mente 27 mil anos no Vale do Be va, no que hoje é a República Tcheca. Para nós, os po- vos primitivos que viveram e morreram ali são conhecidos como gravetianos, nome
FOI SOMENTE DEPOIS QUE OS HUMANOS MODERNOS
SE DISPERSARAM, MIGRANDO DA ÁFRICA PARA A EUROPA, HÁ 45 MIL ANOS, QUE A TRÍADE LOBO-CÃO- HUMANO COMEÇOU A SE FORMAR
dores ainda têm de explicar por que animais dóceis são constan- temente alterados desse jeito.
Eles sabem que as raposas pra- teadas mansas têm glândulas adrenais, ou suprarrenais me- nores, e níveis de adrenalina muito mais baixos que suas congêneres selvagens. No ano passado, outros cien- tistas apresentaram uma hipóte- se testável: animais mansos po- dem ter menos células da crista neural defeituosas. Essas células embrionárias desempenham um papel-chave no desenvolvimento de dentes, mandíbulas, orelhas e células pro- dutoras de pigmentos (melanócitos), assim como do sistema nervoso, inclusive a rea- ção instintiva de luta ou fuga. Se estiverem certos, então todas essas características do- mésticas “bonitinhas”, pelagens pintadas, caudas enroladas, orelhas moles e caídas, são um efeito colateral da domesticação. Germonpré suspeita que a aparente do- mesticação em P edmostí foi um evento isolado, que não evoluiu. Ela duvida que es- ses animais sejam aparentados com os cães atuais. Ainda assim, para ela “eles são cães, cães paleolíticos”. A paleontóloga argumen- ta que esses animais primitivos provavel- mente se pareciam muito com os huskies de hoje, embora tivessem sido maiores, mais ou menos do tamanho de pastores- -alemães. Germonpré chama os espécimes de P edmostí “cães” devido àquilo que ela interpreta como algum tipo de relaciona- mento entre os canídeos e os gravetianos. A mandíbula inferior de um cão, por exem- plo, foi encontrada perto do esqueleto de uma criança, de acordo com o diário do es-
cavador original. Os cães também eram incluídos em ri- tuais como outras espécies não eram. Em um caso, um gravetiano inseriu o que muito provavelmente é um pedaço de osso de ma- mute entre os dentes da frente de um dos crânios caninos depois que o animal mor- reu e dispôs suas mandíbulas de modo que elas se prendessem sobre o osso. Ger- monpré suspeita que um primitivo caçador de mamutes tenha colocado o osso ali como parte de um ritual relacionado à caça, ou para ajudar a sustentar na morte um ani- mal que o caçador reverenciava, ou ainda
derivado de um sítio paleoantropológico com artefatos culturais similares aos en- contrados em La Gravette, na França. Os gravetianos tchecos eram caçadores de ma- mutes, tendo abatido mais de mil dessas grandes criaturas só nesse sítio. Eles consu- miam a carne dos gigantes, usavam suas omoplatas para cobrir restos mortais hu- manos e decoravam suas presas com enta- lhes. Eles também matavam lobos. Depois de mamutes, canídeos são o tipo de mamí- fero mais abundante no local e seus restos incluem sete crânios completos. Mas alguns desses crânios canídeos não se parecem exatamente com os de lobos. Três em particular se destacam, conta Miet- je Germonpré, paleontóloga do Real Insti- tuto Belga de Ciências Naturais, em Bruxe- las. Em comparação com os crânios de lo- bos encontrados em P edmostí, os três exemplares incomuns “têm focinhos mais curtos, caixas cranianas mais largas e den- tição grudada, ou apertada”, explica ela. Esses tipos de mudanças anatômicas são os primeiros sinais de domesticação, ale- gam Germonpré e outros. Mutações simila- res são encontradas nos crânios de raposas prateadas (Vulpes chama), que são o foco de um famoso experimento, de longo prazo, na Universidade Estatal de Novosibirsk, na Rússia. Ali, pesquisadores têm selecionado raposas por sua mansidão e criado os ani- mais desde 1959. Ao longo das gerações, suas pelagens ficaram malhadas, ou pinta- das, as orelhas caídas, as caudas enroladas, e seus focinhos mais curtos e largos, embora os cientistas só as tenham selecionado por seu comportamento. Mudanças similares são observadas em outras espécies domesti- cadas, inclusive em ratos e visões. Pesquisa-
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para permitir que o cão ajudasse um humano na vida após a mor- te. “Você vê esse tipo de coisa no registro etnográfico”, observa ela, citando, como um exemplo, uma cerimônia fúnebre chukchi, na Sibéria, para uma mulher faleci-
da no início do século 20. Nesse caso, uma rena foi sacrificada, e seu estômago colocado na boca de um cachorro morto, que então foi posicionado para proteger a mulher em sua jornada final. Muitos pesquisadores imagi- nam que esses povos primitivos começaram a tentar transformar o lobo em cão para ajudá-los a caçar animais de grande porte. Em seu livro The Invaders, publicado pela Harvard University Press no início deste ano, a antropóloga Pat Shipman argumenta que os primeiros cães (ou cães- lobos, como ela os chama), eram como uma tecnologia nova e superior que ajudou os modernos humanos caçadores de mamutes a suplantar os neandertais. Mas tanto ela, como Wayne, Larson e outros acreditam que lobos uniram forças com humanos por conta própria; que os canídeos sagazes e adaptáveis nos identificaram como um novo nicho ecológico que eles podiam ex- plorar. O cenário alternativo, em que pes- soas saqueavam ferozmente tocas de lobos para roubar filhotes suficientemente jovens para serem amansados, teria sido um em- preendimento perigoso. E criar lobos em as- sentamentos com crianças pequenas por perto teria constituído outro sério risco. “Não praticamos [domesticação] deli- beradamente; não no início”, presume Lar- son. Em vez disso, lobos muito provavel- mente começaram a seguir pessoas pela mesma razão que formigas invadem nos- sas cozinhas: “para aproveitar um recurso nutricional, nosso lixo”. Com o tempo, al- guns desses lobos seguidores de acampa- mentos [temporários] foram perdendo cada vez mais seu medo de pessoas, e vice- -versa, dando origem ao desenvolvimento de um relacionamento mutuamente bené- fico. Os cães-lobos farejariam presas para nós, e nós compartilharíamos a carne re- sultante do abate com eles. (Evidências cir- cunstanciais para esse cenário vêm do ex- perimento com raposas prateadas. Ao sele- cionarem animais menos medrosos em
HÁ CERCA DE 10 MIL ANOS, A PRÁTICA DE ENTERRAR CÃES CRESCEU. NENHUMA OUTRA ESPÉCIE ANIMAL É INCLUÍDA TÃO CONSISTENTEMENTE EM
RITUAIS MORTUÁRIOS HUMANOS. AS PESSOAS COMEÇARAM A VER CÃES SOB UMA LUZ DIFERENTE
relação a humanos, os pesquisadores de Novosibirsk acabaram desenvolvendo uma raposa prateada que corre para cumpri- mentar pessoas. A maioria das raposas prateadas em cativeiro se esconde no fun- do de seus cercados, ou jaulas.) Só há um problema com esse evento imaginado, pelo menos em P edmostí: os cães primitivos de Germonpré não consu- miam carne de mamute, embora fosse isso que os humanos fizessem; análises isotópi- cas dos ossos dos cães paleolíticos indicam que eles se alimentavam de renas, que não eram um alimento preferido pelas pessoas que habitavam o local. Os cães de P edmos- tí também tinham dentes quebrados e se- veras lesões faciais, muitas das quais ti- nham sarado/cicatrizado. “Elas poderiam ser sinais de lutas com outros cães”, supõe Germonpré, “ou de pauladas que os atingi- ram.” Ela imagina que o vínculo homem- -cão se desenvolveu através dos rituais ca- nídeos dos caçadores de mamutes. Nesse cenário, os caçadores-coletores teriam leva- do filhotes para seus acampamentos, talvez depois de matarem os lobos adultos, assim como muitos povos nômades modernos le- vam animais recém-nascidos ou jovens para seus assentamentos. Os ossos de ma- mutes no sítio de P edmostí não exibem si- nais de terem sido roídos por canídeos, o que sugere que eles não eram livres para vaguear e se alimentar de restos deixados por humanos. Em vez disso, humanos pro- vavelmente os amarravam, os alimentavam com o que parecem ter sido alimentos de segunda, já que não eram consumidos por humanos, e até os criavam, tudo para ga- rantir um suprimento contínuo de vítimas para seus sacrifícios ritualísticos.
A criação de lobos em cati- veiro levaria às mudanças ana- tômicas que Germonpré docu- mentou nos cães de P edmostí e poderia até produzir um animal menos medroso e independen- te, como observado nas raposas
prateadas de Novosibirsk. Confinados, espancados, ali- mentados com uma dieta restri- ta, os cães em P edmostí prova- velmente teriam entendido o sig- nificado de “Não!”. Mas não há nenhuma evidência em P ed- mostí ou em outros sítios igual- mente antigos em que foram recuperadas ossadas de cães que os primitivos caçado- res-coletores locais considerassem os cani- nos como seus amigos, companheiros ou auxiliares de caça, salienta Germonpré. “Esse relacionamento veio mais tarde.”
MUDANÇAS DE SORTE
Se Germonpré estiver certa, então a do-
mesticação de cães pode ter começado bas- tante cedo e em circunstâncias desfavorá- veis para os animais. No entanto, nem to-
dos os cientistas concordam que os cães de Germonpré são de fato cães. Alguns preferem a designação cão-lobo, ou sim- plesmente “lobo” porque seu status taxonô- mico não está claro nem do ponto de vista de sua morfologia nem de sua genética. (Larson espera solucionar essa questão ao longo de seu megaprojeto.)
O mais antigo cão inquestionável no
registro, um espécime de 14 mil anos en- contrado em um sítio chamado Bonn- -Oberkassel, na Alemanha, conta uma his- tória muito diferente de domesticação e evidencia uma ligação muito mais afetuo- sa entre humanos e caninos. No início do século 20, arqueólogos que escavavam o local encontraram o esqueleto dele enter- rado em um túmulo com os restos mortais de um homem de seus 50 anos e uma mu- lher de 20 a 25 anos. Quando os pesquisa- dores veem esses tipos de associações, eles sabem que estão olhando para um animal plenamente domesticado, uma criatura estimada e tão respeitada que também é sepultada, como se ela, também, fosse um membro de sua família humana. O cão de Bonn-Oberkassel não é o único canino primitivo a ter recebido esse tipo de
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honraria. Em Israel, em Ain Mallaha, um sítio de caçadores-coletores datado de há 12 mil anos, no alto Vale do [Rio] Jordão, ar- queólogos descobriram o que talvez seja o mais famoso sepultamento canino-huma- no. Ali, o esqueleto de uma pessoa idosa ja- zia enrodilhado sobre seu lado direito, seu braço esquerdo estendido sob a cabeça, com a mão repousando suavemente sobre um fi- lhote de cachorro. O cão tinha cerca de qua- tro ou cinco meses de idade e, na opinião de arqueólogos, foi colocado ali para ser um companheiro do falecido. Ao contrário dos cães de P edmostí, esse filhote não havia sido fisicamente maltratado; seus restos fo- ram dispostos amorosamente junto a al- guém que talvez tenha cuidado dele. Embora cenas tão tocantes de cães e humanos sejam raras nesse período, sepultamentos de cães não são. E, há cerca de 10 mil anos, a prática de enterrar cães cresceu. Nenhuma outra espécie ani- mal é incluída tão consistentemente em rituais mortuários humanos. As pessoas passaram a ver cães em uma luz diferen- te, e essa mudança de atitude teve um profundo efeito na evolução canina. Tal- vez tenha sido durante esse período que os cães adquiriram suas habilidades so- ciais humanas, como a capacidade de
“ler” nossas expressões faciais, entender nossos gestos indicadores e nos olhar fi- xamente nos olhos (o que aumenta o ní- vel de oxitocina, o hormônio do amor, tanto no cão como no dono). “Sepultamentos de cães ocorrem depois que a caça se afasta das planícies abertas e transita para florestas densas”, explica An- gela Perri, zooarqueóloga no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leip- zig, na Alemanha, e especialista nesses en- terros. “Cães em ambientes abertos podem ser úteis para ajudá-lo a transportar carne de mamutes abatidos, mas não o ajudariam necessariamente a caçá-los”, observa ela, salientando que caçadores de elefantes não usam cães. “Mas eles são excelentes para caçar animais menores como cervos e java- lis”, que vivem em florestas. Começando há pelo menos 15 mil anos e provavelmente até um pouco mais cedo, caçadores-coletores na Europa, Ásia e nas Américas começaram a depender das habilidades de caça de seus cães para so- breviver, esclarece Perri. Pesquisadores não podem traçar uma linha genética di- reta desses animais até os nossos cães de estimação; ainda assim garantem que eram, inquestionavelmente, cães. “Bons cães de caça são capazes de farejar e loca-
ESPÍRITOS SELVAGENS: Como, exatamente, o ancestral lupino do cão enveredou inicialmente pelo caminho para se tor- nar nosso fiel companheiro pode permanecer um mistério.
lizar pistas frescas, conduzir os caçadores às presas, e mantê-las acuadas, a uma distância segura”, resume Perri, que já acompanhou caçadores tradicionais e seus cães no Japão e nos Estados Unidos. “Quando as pessoas começam a usar cães para caçar, você observa uma mudança em como elas veem os animais, e você co- meça a encontrar sepultamentos de cães ao redor do mundo.” Esses enterros não são ritualísticos ou sacrificais, enfatiza ela. “São sepultamentos de admiração, em que os cães são enterrados com ocre, pontas de lâminas e de pedras; ferramen- tas masculinas de caça.” Um dos mais elaborados sepultamentos caninos foi descoberto em Skateholm, na Suécia, e data de cerca de sete mil anos. Vá- rios cães foram encontrados enterrados na mesma área com dezenas de humanos. Um deles foi particularmente honrado e rece- beu o melhor tratamento ali, tanto entre humanos como entre cães. “O cão foi deita- do de lado, com lascas de pedra espalhadas à sua cintura, e chifres de veados-verme- lhos e um martelo esculpido de pedra fo- ram depositados perto dele, e ele foi salpi- cado com ocre vermelho”, relata Perri. Não há nenhuma indicação sobre a ra- zão de esse cão ter sido tão reverenciado,
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mas ela suspeita que ele pode ter sido um excelente caçador e seu dono humano teria sentido profundamente sua morte. “Você vê esse relacionamento entre caçadores e seus cães hoje e no registro etnográfico”, acrescenta ela, salientando que no final do século 19 caçadores-coletores tasmanianos foram citados como tendo dito: “Nossos cães são mais importantes que nossos fi- lhos. Sem eles, não poderíamos caçar; nós não sobreviveríamos”. Cães primitivos também prestavam outros serviços importantes. A primeira tentativa conhecida do tipo de seleção intencional que moldou a evolução de C. familiaris provém de um sítio na Di- namarca datado de há oito mil anos. Os primitivos caçadores-coletores ali ti- nham três tamanhos de cães, possivel- mente criados para determinadas tare- fas. “Eu não esperava ver algo como ra- ças caninas”, admite Perri, “mas eles tinham cães pequenos, médios e gran- des.” Não está claro para o que eles usa- vam os cães pequenos, mas os animais de médio porte tinham a estrutura físi- ca de cães de caça, e os maiores, que eram do tamanho de cães de trenó da Groenlândia (com cerca de 32 kg), mui- to provavelmente transportavam e pu- xavam bens. Além disso, com seus lati- dos de alerta, todos os cães teriam servi- do como sentinelas de acampamentos. O status do cão despencou quando os povos desenvolveram a agricultura. Em assentamentos agrícolas primitivos, en- terros de cães são raros. “A diferença é muito acentuada”, salienta Perri. “Quando as pessoas viviam como caçadores-coletores, há centenas de sepultamentos caninos.” Mas à medida que a agricultura se alastra, os en- terros acabam. “Cães não eram mais tão úteis.” Essa perda de favorecimento, no en- tanto, não os condenou à extinção, longe disso. Em muitos lugares, eles começaram a aparecer na mesa de jantar, proporcionando uma nova razão para manter cães por perto. Mas nem todas as culturas agrícolas destinaram “Fido” ao cardápio. Entre os grupos que cuidavam de animais de cria- ção, cães às vezes eram criados para o pas- toreio. Aqueles que provavam seu valor ainda podiam acabar sendo mimados na vida após a morte. Em 2006, arqueólogos descobriram 80 cães mumificados sepul-
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tados em túmulos ao lado de seus donos humanos em um cemitério de mil anos, perto de Lima, no Peru. Aqueles cães ti- nham protegido as lhamas do povo chiri- baya e, em troca por seus serviços, eram bem tratados em vida e na morte. Quase 30 deles estavam enrolados em cobertores de lã de lhama finamente tecidos, e ossos de lhamas e peixes haviam sido deposita-
VIDAS DE CÃO: Cães do sítio de Předmostí, de aproximadamente 27 mil anos, na República Tcheca, parecem ter sido criados para sacrifício (crânio, acima); cães criados pelo povo chiribaya, no Peru, há mil anos, eram pastoreadores reve- renciados (múmia, abaixo).
dos perto de suas bocas. O clima árido da região mumificou os animais, preservan- do suas peles e tecidos. Desenroladas, as múmias lembram os pequenos cães de rua que perambulam por Lima hoje, procu- rando por um humano que os acolha e
PARA CONHECER MAIS
lhes diga o que fazer e não fazer. (Indepen- dentemente dessa semelhança, os cães de pastoreio dos chiribaya não têm parentesco com os vira-latas modernos de Lima. Também não há qualquer evidência para sustentar reivindicações que liguem qualquer raça da Antiguidade, em qual- quer lugar, às modernas raças padrão do Kennel Clube Americano.) Embora os cães dos chiribaya e outros sepultamentos caninos nas Américas sejam naturais do lugar e da época errados para representar os estágios mais primitivos da domesti- cação, Larson e seus colegas estão medindo animadamente seus ossos e colhendo amostras de seu DNA. Isso se deve ao fato de esses primitivos cães norte-americanos descenderem de antigos cães europeus ou asiáti- cos; seus ossos e genes ajudarão os cientistas a determinar quantos eventos de domesticação de cães ocorreram e onde eles aconteceram. Em sua tentativa de estudar o maior número possível de canídeos, os pesquisadores analisaram, até ago- ra, mais três mil lobos, cães e outros espécimes que não se encaixam pron- tamente em nenhum dos dois grupos. Mais de 50 cientistas ao redor do mundo estão ajudando nesse esforço. Eles esperam concluir um artigo cien- tífico sobre suas conclusões iniciais até este verão boreal. Será que então finalmente sabere- mos onde e quando o cão tonou-se um animal domesticado? “Espero que esteja- mos muito próximos de uma resposta”, an- tecipa Greger Larson. Mas nem assim sabe- remos exatamente como algum tipo de lobo há muito extinto conseguiu tornar-se uma criatura que respeita um “Não”.
Adam H. Freedman et al. em PLOS Genetics, vol. 10, nº 1; 16 de janeiro de 2014. Greger Larson et al. em Proceedings of the National Academy of Sciences USA, vol. 109, nº 23, págs. 8878–8883; 5 de junho de 2012. Mietje Germonpré et al. em Journal of Archaeological Science, vol. 39, nº 1, págs. 184–202; janeiro de 2012.
DE NOSSO ARQUIVO
Carlos A. Driscoll, Juliet Clutton-Brock, Andrew C. Kitchener e Stephen J. O’Brien. Edição 86, julho de 2009.
ASTROFÍSICA
MISTÉRIOS
DO
GALÁXIA DE ANDRÔMEDA, como a maioria das galáxias espirais, está girando mais rápido que deveria se a única responsável por sua ação gravitacional fosse matéria visível. Para explicar essa rotação mais rápida, físicos postulam a presença de matéria escura abundante, invisível.
OCULTOS
COSMOS
Partículas invisíveis de matéria escura que dominam o Universo podem se apresentar de formas variadas e estranhas
Bogdan A. Dobrescu e Don Lincoln
EM SÍNTESE
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PÁGINAS ANTERIORES: CORTESIA DA NASA, ESA, JULIANNE DALCANTON, B. F. WILLIAMS E L. C. JOHNSON University of Washington , EQUIPE PANCHROMATIC HUBBLE ANDROMEDA TREASURY (PHAT) E ROBERT GENDLER
é pesquisador teórico em física de partículas no Laboratório do Acelerador Nacional Fermi, em Bata- via, Illinois. Recentemente explorou a possibilidade de a matéria escura ser produzida no acelerador principal do Fermilab e depois ser observada por detectores de neutrinos.
é físico sênior no Fermilab onde realiza pesquisas com dados do Grande Colisor de Hádrons, do Cern. É autor de vários livros de divulgação, sendo o mais recente The Large Hadron Collider: The Ex- mind, Johns Hopkins University Press, 2014.
A MARAVILHOSA GALÁXIA DE ANDRÔMEDA EM FORMA DE CATAVENTO, NOSSA VIZI- nha mais próxima, é um mistério. Sua alta velocidade de rotação não é explicada quando as leis conhecidas da física são aplicadas à matéria do disco visível. De acordo com a física convencional, devido à gravidade gerada pela massa aparente da galáxia, as estrelas de sua periferia deve- riam se deslocar mais lentamente que sua velocidade real. Se tudo o que existisse fosse matéria visível, Andrômeda e praticamente todas as galá- xias que giram com altas velocidades simplesmente não existiriam.
Cosmólogos acreditam que algum tipo de matéria invisível –
a matéria escura – envolve e permeia Andrômeda e outras galá-
xias, e contribui com a força gravitacional adicional necessária para mantê-las em rotação. A matéria escura, que aparentemen-
te corresponde a cerca de 25% da massa do Universo, também explicaria outros aspectos do Cosmos, inclusive o movimento de rotação extremamente rápido observado em galáxias no inte- rior de aglomerados galácticos, distribuição de matéria decor-
rente da colisão de dois aglomerados e observação do efeito gra- vitacional lenticular – curvatura da luz pela força gravitacional
– de galáxias distantes. As teorias mais simples da matéria escura postulam um úni- co tipo de partícula, ainda não descoberto, que contribui para a massa não observada. Mas apesar de décadas de buscas por evi- dências diretas desse corpúsculo, até agora sua existência não foi comprovada. Além disso, ainda permanecem algumas dis- crepâncias entre as observações astronômicas e essa simples
teoria. Combinadas com o fracasso em detectar essa matéria elusiva, essas discrepâncias residuais levaram alguns cientistas
a questionar teorias tradicionais e a imaginar uma forma mais
complexa de matéria escura. Em vez de uma única partícula, ela poderia ser constituída por uma variedade mais ampla de es-
pécies escuras. Afinal, do mesmo modo como a matéria comum se apresenta em diferentes formas, talvez a matéria escura tam- bém seja complexa. Nos últimos anos, cientistas parecem estar cada vez mais convencidos de que existem diversas variedades de matéria es- cura e – talvez até de modo mais intrigante – que forças antes desconhecidas interagem fortemente com a matéria escura, mas muito fracamente com a matéria comum. E essas forças po-
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deriam explicar algumas das discrepâncias entre a observação e o modelo mais simples de matéria escura. Registros recentes de galáxias em colisão poderão fornecer suporte preliminar para essa hipótese. Se existe uma forma complexa de matéria escura, ela deveria formar um Universo mais atraente e intrigante que os cosmólogos normalmente imaginam.
MATÉRIA OCULTA
Embora ainda não saibamos a constituição da matéria escura, já conhecemos algumas de suas propriedades baseados em obser- vações sobre como ela afeta a matéria comum e a partir de simula- ções de seus efeitos gravitacionais. Ela deve se deslocar com veloci- dade muito menor que a da luz, pois, de outra forma, flutuações de densidade presentes no Universo primordial não teriam formado as estruturas galácticas que observamos atualmente. Como ela não absorve ou emite radiação eletromagnética, deve ser eletrica- mente neutra. Partículas que a compõem provavelmente são mas- sivas, ou estariam se deslocando praticamente à velocidade da luz, hipótese que dados do Universo primitivo rejeitam. Partículas de matéria escura não podem interagir por meio da força forte, que mantém os núcleos atômicos unidos. Se assim fosse, teríamos ob- servado evidências da interação de matéria escura com partículas carregadas de alta energia chamadas raios cósmicos. Até recente- mente, cientistas acreditavam que a matéria escura deveria intera- gir por meio da força fraca (que provoca o decaimento radioativo), mas novas observações descartam essa hipótese. (Embora a maté- ria escura possa sofrer interações da força fraca, para serem com- patíveis com as observações, essas interações só poderiam ocorrer se houvesse outras partículas, ainda que não detectadas. E independentemente da matéria escura.)
CORTESIA DO EXPERIMENTO ATLAS, COPYRIGHT © 2014 CERN
Sabemos também que a matéria escura deve ser es- tável em escalas de tempo cósmicas. A razão é simples:
não existe mecanismo plausível que a produza conti- nuamente. Por isso, ela deve ter se originado nos pri- mórdios do Universo, ou seja, deve ter sido gerada no Big Bang. Afirmar que uma partícula é estável tem im- plicações profundas. Estabilidade está associada a uma propriedade que é “conservada” – isto é, não pode mudar – e, portanto, impede a partícula de decair. O decaimento contrariaria a propriedade a ser conserva- da. Podemos ilustrar o significado do termo apelando para a carga elétrica familiar, que garante a estabilida- de do elétron. O decaimento é um fenômeno corri- queiro da física que leva partículas a decair em outras, mais leves, a menos que alguma coisa impeça o pro-
cesso. O elétron possui carga elétrica e as únicas partí- culas carregadas estáveis mais leves que ele são eletri- camente neutras: fótons e neutrinos. Configurações de energia deveriam permitir que o elétron decaísse nes- sas partículas, mas como a conservação da carga proí- be o decaimento, ele permanece como é.
A maioria das teorias da matéria escura pressupõe que partícu-
las escuras conservam uma propriedade chamada paridade, por razões históricas: partículas de matéria escura teriam paridade -1 e todas as outras conhecidas teriam paridade +1. Essa properiedade então impediria que uma partícula do substrato escuro decaísse em matéria comum, porque se partículas escuras desaparecessem
e surgissem outras comuns, a paridade não se conservaria.
A teoria mais simples que atende a todas as condições defini-
das pelos físicos pressupõe uma única partícula correspondente
à matéria escura chamada partícula massiva com interação fra-
ca – ou Wimp (na sigla em inglês). (O termo “fraca” é usado no sentido genérico e não necessariamente significa força nuclear fraca.) As Wimps são satisfatórias por várias razões teóricas, mas aparentemente é mais difícil encontrá-las que se imagina- va. Desde os anos 90 cientistas vêm realizando vários experi- mentos com o objetivo de detectar diretamente Wimps por meio de suas raras interações com a matéria comum. Para atingir a sensibilidade necessária, os detectores são res- friados a temperaturas extremamente baixas e enterrados a gran- des profundidades no solo para blindá-los dos efeitos de raios cós- micos presentes por toda a parte, e que poderiam imitar a assina- tura da matéria escura. Apesar de experimentos cada vez mais elaborados, nenhum sinal conclusivo de Wimp foi detectado até agora. E embora o modelo Wimp explique muitos aspectos do Universo observado, ele não engloba tudo. Teorias Wimp, por exemplo, predizem que deveria haver um número muito maior de pequenas galáxias satélites orbitando a Via Láctea do que aparen- temente há, e que com base nas observações de velocidades de ro- tação delas, a matéria escura deveria ser muito mais densa no cen- tro delas do que aparentemente é. No entanto, a situação está evo- luindo rapidamente – a recente descoberta de mais galáxias satélites pela colaboração Dark Energy Survey sugere que o pro- blema com galáxias anãs da Via Láctea é que muitas ainda preci- sam ser encontradas.
COLISÕES ENTRE PRÓTONS como as do detector ATLAS do Grande Colisor de Hádrons do Cern mostram sinais (linhas verdes) consistentes com algumas teorias de fótons escuros.
Essencialmente, no entanto, esses pontos fracos do modelo Wimp abriram as portas para outras formulações pouco con- vencionais sobre a matéria escura.
MATÉRIA ESCURA COMPLEXA
Em vez de pensar numa única partícula constituinte de toda
a matéria escura, poderíamos imaginar vários tipos de partícu-
las, e também uma grande variedade de forças que agissem so- mente sobre a matéria escura. Uma ideia que parece reconciliar observações e simulações é a possibilidade de haver interação mútua de partículas e matéria escura – ou seja, partículas de matéria escura podem “sentir” uma força entre elas que não é “sentida” pela matéria comum. Eventualmente, essas partículas poderiam transportar um novo tipo de “carga escura” capaz de atraí-las ou repeli-las, e ao mesmo tempo mantê-las eletrica- mente neutras, exatamente como partículas comuns eletrica- mente carregadas emitem fótons (partículas de luz portadoras da força eletromagnética). Partículas com carga escura pode- riam emitir “fótons escuros” – não partículas de luz, mas partí- culas que interagissem com a carga escura da mesma forma que fótons interagem com a carga elétrica. No entanto, esses paralelos com o mundo da matéria comum não podem continuar indefinidamente. E existe uma razão para isso: suponha que as leis do mundo escuro espelhem exatamen- te o nosso. Naquele mundo, átomos escuros formariam e emiti- riam fótons escuros com a mesma taxa com que a matéria co- mum emite fótons normais. Em nosso mundo visível, a emissão
de fótons permite que a energia seja intercambiada, e é por isso que as galáxias acabam se tornando objetos em forma de disco. Nuvens de gás no interior delas irradiam energia eletromagnéti- ca. Isso faz com que a matéria no interior das nuvens se agluti- ne. A conservação do momentum angular impede, até certo ponto, que a matéria se contraia, mas é muito fácil formar uma estrutura em forma de disco. Se as regras e forças que dominam
o comportamento da matéria escura fossem as mesmas de nos-
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POSSIBILIDADES DE MATÉRIA ESCURA
Toda a matéria do Universo
Além da matéria “bariônica” comum, alguma forma oculta de matéria deve estar espalhada pelo Cosmos, arrastando gravitacionalmente galáxias
para mantê-las espiralando com altas velocidades
de rotação e mantendo unidos aglomerados de
galáxias. No entanto, não existe evidência direta que explique a natureza da matéria escura.
O provável responsável é uma espécie de
partícula – ou partículas – insensível à força eletromagnética ou às forças fortes
se liga a núcleos atômicos.
Entretanto, a forma exata dessas partículas, ainda é uma questão que permanece em aberto.
Conhecemos um tipo de matéria
quente não bariônica: neutrinos. Essas
partículas abundantes praticamente não têm massa e se deslocam quase à velocidade da luz. Já se comprovou a existência de três tipos de neutrinos, mas variedades adicionais “exóticas” também são possíveis.
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OBSERVADO
QUENTE
MATÉRIA
BARIÔNICA
N
O
BARIÔNICA
INFERIDO
QUENTE
FRIA
NÃO
AUTOINTERAGENTES
Exemplo: Wimps
COMPONENTE DUPLO
AUTOINTERAGENTES
Exemplo: átomos escuros
Ilustração de Jen Christiansen
Candidatos mais prováveis da matéria escura
QUENTE
FRIA
NÃO AUTOINTERAGENTES
|
AUTOINTERAGENTES |
|
|
|
|
|
|
COMPONENTE DUPLO
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so mundo visível, a emissão de fótons escuros teria o mesmo efeito, isto é, todas as galáxias de matéria escura teriam a forma de discos achatados. No entanto, sabemos que a distribuição da maior parte da matéria escura necessária para explicar nossas galáxias visíveis se assemelha a uma nuvem esférica. Por isso, podemos descartar um mundo de matéria escura que espelhe exatamente o nosso. Entretanto, ainda existem muitas outras alternativas viáveis. É possível, por exemplo, que uma pequena fração de matéria es- cura espelhe as condições de nosso Universo, enquanto a maior parte se comporta como simples Wimps. Ou, talvez, a carga es- cura seja efetivamente muito menor que as cargas elétricas de nossos elétrons e prótons, resultando numa emissão reduzida de fótons escuros. Teóricos, inclusive um de nós (Dobrescu), es- tão propondo muitas hipóteses sobre partículas e forças possí- veis na região escura, usando dados existentes para direcionar ideias e restringir especulações. Um dos cenários mais simples – envolvendo apenas dois tipos de partículas de matéria escura – fornece um rápido vislumbre da física que poderia funcionar na matéria escura complexa.
FÓTONS ESCUROS
Imagine um mundo escuro onde existem dois tipos de carga escura – uma positiva e outra negativa. Nesse modelo, existe uma forma de eletromagnetismo que leva partículas de matéria escura a emitir e absorver fótons escuros. De acordo com o que foi postulado, como essas partículas são carregadas de forma análoga à do eletromagnetismo comum, quando partículas de matéria escura com cargas positivas e negativas se encontram, podem aniquilar-se e produzir fótons escuros, exatamente como partículas da matéria comum e suas contrapartidas de antimatéria com cargas opostas se aniquilam quando entram em contato, liberando fótons. Podemos tirar algumas conclusões sobre a intensidade dessa força eletromagnética escura e, consequentemente, da frequên- cia de aniquilação da matéria escura, e deduzir como essa força afetaria as galáxias. Lembre-se de que galáxias apresentam uma estrutura achatada porque o eletromagnetismo afeta a matéria comum para liberar energia e acomodá-la num disco. A perda de energia ocorre mesmo sem aniquilação. Como sabemos que a matéria escura tem uma distribuição básica esfericamente em torno da maioria das galáxias e não colapsou num disco, pode- mos concluir que ela não pode perder energia pela emissão de fó- tons escuros na mesma proporção que a matéria comum. Num estudo publicado em 2009, Lotty Ackerman, Matthew R. Buck- ley, Sean M. Carroll e Marc Kamionkowski, todos na época no Instituto de Tecnologia da Califórnia, mostraram que essa con- clusão indica que a carga escura deve ser muito pequena, cerca de 1% do valor da carga elétrica comum. No entanto, mesmo com um valor tão baixo, a força ainda existiria e poderia ter efeitos significativos nas galáxias.
GALÁXIA ESCURA
Até agora descrevemos uma versão da matéria escura forma- da por uma partícula escura carregada e sua companheira com
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carga oposta emitindo fótons escuros. Mas esse cenário ainda continua muito fraco em comparação com a complexidade da matéria comum. Como seria um mundo de matéria escura com várias partículas carregadas diferentes? Existem muitas teorias de matéria escura complexa que in- cluem duas ou mais partículas escuras hipotéticas. Um exem- plo particularmente intrigante foi proposto em 2013 por JiJi Fan, Andrey Katz, Lisa Randall e Matthew Reece, todos, na épo- ca, na Universidade Harvard, que se referiam ao seu modelo como “matéria escura de interação parcial”. Eles imaginaram que a maior parte da matéria escura seria formada por Wimps, mas também postularam a existência de um pequeno compo- nente formado por dois tipos de partículas conhecidas como férmions: um pesado e outro leve – ambos portadores de carga escura. (Férmions são partículas com spin quanto-mecânico igual a ½. Nêutrons e quarks que formam nosso mundo visível são exemplos de férmions.) Como férmions escuros seriam por- tadores de carga escura, eles emitiriam fótons escuros e pode- riam atrair-se mutuamente. Embora seja necessário ter muito cuidado para não exagerar na interpretação do paralelismo, a situação proposta é praticamente a mesma que afirmar que um próton, um elétron e um fóton escuros transportam o eletromagnetismo escuro que os mantém unidos. Dependendo de sua massa e carga, férmions escuros poderiam se combinar para criar átomos escuros com sua própria química escura, moléculas escuras e provavelmente até estruturas mais complexas. O conceito de átomos escuros foi explorado em detalhes em 2010 por David E. Kaplan, Gordan Z. Krnjaic, Keith R. Rehermann e Christopher M. Wells, todos, na época, na Universidade Johns Hopkins. Dando prosseguimento à ideia da matéria escura, os físicos de Harvard deduziram um limite superior para a fração de matéria escura que poderia interagir fortemente com fótons escuros, le- vando em conta as restrições impostas pelas observações astronô- micas. Eles determinaram que a massa acumulada de matéria es- cura seria imensa – equivalente a toda a matéria visível do Univer- so. Segundo esse modelo, a Via Láctea é formada por uma grande nuvem esférica de partículas iguais a Wimps, que contribui com 70% da matéria total da Galáxia, envolvendo dois discos achata- dos, cada um contendo 15% de matéria. Um disco é formado por matéria comum, que inclui os braços espirais que podemos visua- lizar, e o outro é formado por matéria escura com que interage for- temente. Os dois discos não precisam estar exatamente alinhados, mas devem ter orientação similar. Nesse cenário, uma galáxia de matéria escura basicamente coexiste no mesmo espaço que nossa familiar Via Láctea. No entanto, uma ressalva precisa ser feita: a galáxia de matéria escura não inclui estrelas escuras ou grandes planetas porque esses objetos foram observados por meio de efei- tos gravitacionais lenticulares na matéria comum. A ideia pode parecer radical, mas o disco adicional de nossa galáxia não afetaria muito o Cosmos de matéria co- mum no qual coexiste. Afinal, na verdade, qualquer teoria sobre matéria escura precisa ser consistente com observa- ções da matéria visível. Poderíamos estar vivendo em um universo sem sequer conhecê-lo.
Dependendo da massa e da carga dos férmions escuros, eles podem se combinar para criar átomos escuros com sua própria química escura, moléculas escuras e provavelmente estruturas ainda mais complexas.
PERSPECTIVAS EXPERIMENTAIS
Cientistas procuram detectar a matéria escura complexa da mesma forma que procuram por Wimps: usando detectores sub- terrâneos sensíveis. Uma consequência do modelo de matéria es- cura interagindo em parte com um disco de matéria concentra- da, aproximadamente no mesmo plano que a matéria visível da Via Láctea, é que essa forma de matéria escura medida por nos- sos detectores seria mais densa que a prevista pelos modelos Wimp. E essa maior densidade implicaria uma quantidade de matéria escura superior ao que preveem teorias convencionais. Além de realizar esses experimentos, físicos esperam criar não só matéria escura em aceleradores de partículas, mas também to- das as outras partículas exóticas geradas nas reações. Como se co- nhece muito pouco sobre a interação da matéria escura com a co- mum – e, consequentemente, que processos específicos internos do acelerador poderão originá-las – cientistas embarcaram num amplo programa de investigação, que estuda uma série de mode- los de matéria escura, desde o Wimp simples até uma região escu- ra mais complexa. Algumas hipóteses, no entanto, ainda precisam ser estabelecidas, como a de que a matéria escura interage com matéria comum via força ou forças muito mais fortes que a gravi- dade (a mais fraca de todas as forças), porém, ainda suficiente- mente fraca para não ter sido observada até o momento. Essa hi- pótese é necessária porque se a matéria escura interagir apenas gravitacionalmente, nunca poderá ser criada em qualquer acelera- dor exequível, nem observada em qualquer pesquisa direta. Essa força seria diferente daquela associada à carga, que permite que a matéria escura interaja consigo mesma.
O Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em in- glês) do Cern, próximo a Genebra, na Suíça, é o acelerador que produz as energias mais altas do mun- do, o que representa uma grande vantagem quando se investigam versões mais pesadas de matéria escura (quanto mais massa tiver uma partícula, mais energia ela precisará para ser produzida num acelerador), e de partículas de matéria escura cujas interações tornam- -se cada vez mais frequentes com a elevação da ener- gia. Como já sabemos que a matéria escura deve inte- ragir apenas muito fracamente com a matéria comum, não esperamos observá-la diretamente com um detec- tor construído com matéria comum. Por isso, os cien- tistas procuram a matéria escura observando colisões com déficit de energia. Dois prótons, por exemplo, ao colidir podem produzir algum tipo de partícula co- mum ou partículas comuns de um lado da colisão e al- gumas partículas de matéria escura do outro. Na assinatura desses eventos se observa energia de um lado do detector e nada de outro. Cientistas calculam o número de colisões espe- radas com essa configuração surpreendente como se não hou- vesse matéria escura, e depois observam para conferir se o nú- mero de colisões é maior que o calculado. Até o momento, não surgiu nenhum sinal de excesso de coli- sões no LHC – uma indicação de que interações da matéria es- cura com a matéria comum devem ser muito raras, se é que ocorrem. Mas uma nova oportunidade de observar sinais de ma- téria escura surgiu recentemente, com o início da segunda roda- da de energia mais alta do LHC nos últimos meses, depois que melhorias foram implementadas no acelerador. Isso significa que a descoberta do século pode estar prestes a ocorrer. Além das tentativas de encontrar matéria escura que acabamos de descrever, que são adequadas para descobrir tanto Wimps, como matéria escura complexa, algumas abordagens visam mais especifi- camente a complexidade da região escura. Muitas delas estão em busca do fóton escuro. Outras sugerem que fótons escuros podem se transformar continuamente em fótons comuns e voltar a serem no- vamente fótons escuros, via leis da mecânica quântica, o que pode resultar numa boa oportunidade de observar fótons. Outros mode- los sugerem que certos fótons escuros têm massa diferente de zero (nesse caso a palavra “fóton” foi extrapolada, uma vez que eles são diferentes do fóton de luz de massa zero). Se um fóton escuro tiver massa, ele poderá decair em partículas mais leves. E como o fóton escuro pode se transformar temporariamente num fóton comum,
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existe uma pequena chance de que possa produzir pares de elétrons ou pares de múons (primos dos elétrons) e suas contrapartidas de antimatéria durante o processo de formação. Consequentemente, colaborações experimentais, inclusive um projeto no qual um de nós (Lincoln) participa, procuram co- lisões que produzam um par elétron-pósitron ou um par múon- -antimúon. Esses estudos estão em andamento no LHC e em ou- tros aceleradores, como o projeto KLOE-2 do Instituto Nacional de Física Nuclear do Laboratório Nacional Frascati, na Itália, o experimento Heavy Photon Search, no Acelerador Nacional Thomas Jefferson, em Newport News, Virgínia, e o experimento do detector BaBar do Laboratório Nacional do Centro do Acele- rador Linear de Stanford (SLAC, na sigla em inglês) – e cientis- tas estão até examinando dados de mais de uma década coleta- dos pelo experimento do SLAC conhecido como mQ. Outra abordagem interessante para tentar produzir feixes de partículas de matéria escura utiliza o Laboratório do Acelerador Nacional Fermi (Fermilab), em Batavia, Illinois. Atualmente, esse experimento está gerando feixes intensos de neutrinos que são disparados contra detectores distantes. Neutrinos são partículas subatômicas muito leves que interagem exclusivamente por meio da força nuclear fraca. Se a matéria escura interagir com matéria comum por meio de partículas como fótons escuros, é possível que a matéria escura esteja sen- do produzida nos mesmos feixes e, portanto, poderá ser detecta- da pelos detectores MiniBooNE, MINOS ou NOvA do Fermilab. Finalmente, cientistas também podem procurar sinais astro- nômicos de matéria escura em interação, como em colisões de galáxias. Nesses cenários, quando a matéria escura de uma galá- xia se choca com a de outra, as partículas podem se repelir mutuamente trocando fótons escuros no processo. Vários estu- dos de colisões entre galáxias não encontraram evidências desse fenômeno, mas observações publicadas há poucos meses sobre o aglomerado Abell 3827, que está particularmente próximo da Terra e com boa orientação, sugerem exatamente esse padrão. Entretanto, mais observações dessa e de outras colisões ainda se- rão necessárias para confirmar o sinal, mas dados de Abell 3827 obtidos até agora parecem promissores para a modelagem de matéria escura complexa.
ENIGMA CÓSMICO
Não há dúvida de que estamos diante de uma grande in- cógnita. Em grandes escalas, a matéria comum confinada gra- vitacionalmente não responde de forma consistente às leis co-
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nhecidas da física e não corresponde à distribuição de massa observada. Devido a essas discrepâncias, cientistas estão cada vez mais convencidos de que existe alguma forma de matéria escura. No entanto, descobrir a forma dessa matéria está se tornando uma questão cada vez mais controvertida, à medida que nossos experimentos repetidamente não conseguem en- contrar evidências para os modelos mais simples de matéria escura. Por essa razão e devido a algumas discrepâncias que permanecem entre previsões do modelo Wimp simples e ob- servações astronômicas, teorias sobre matéria escura comple- xa estão se tornando cada vez mais atraentes. Esses modelos oferecem aos teóricos mais parâmetros para manipular e as- sim melhorar a sintonia entre dados experimentais e teoria. Eles também compatibilizam mais profundamente a variabi- lidade e riqueza da matéria comum. No entanto, essa abordagem pode ser criticada por se preo- cupar excessivamente em manter viva a hipótese da matéria es- cura. Esse cenário poderia ser equiparado à desacreditada ideia dos epiciclos, quando no século 16 astrônomos tentaram manter viva a teoria geocêntrica adicionando uma série de parâmetros para ajustar uma teoria fadada ao fracasso? Acreditamos que não, visto que a matéria escura explica vários enigmas astronô- micos muito bem e não há razão, a priori, para a matéria escura ser tão simples, como sugere o modelo Wimp. A mensagem real é que estamos diante de um enigma e não sabemos qual será a resposta. Até encontrá-la, devemos estar abertos a uma infinidade de opções, entre elas a possibi- lidade fascinante de que podemos estar vivendo lado a lado com uma realidade paralela escura. E se houver um pesquisa- dor da matéria escura observando o céu e questionando a nos- sa existência?
PARA CONHECER MAIS
Katherine Freese. Princeton University Press, 2014. JiJi Fan et al. em Physical Review Letters, vol. 110, n o 21, artigo no 211302; 23 de maio de 2013. David E. Kaplan et al. em Journal of Cosmology and Astroparticle Physics , vol. 2010, n o 5, artigo no 021; 9 de maio de 2010. Lotty Ackerman et al. em Physical Review D , vol. 79, n o 2, artigo no 023519; 23 de janeiro de 2009.
DE NOSSOS ARQUIVOS
Jonathan Feng e Mark Trodden; n o 103; dezembro de 2010.
BIOLOGIA
Uma descoberta surpreendente está forçando cientistas a reconsiderar se pode existir vida nos lugares mais extremos na Terra e no espaço
Douglas Fox
EM SÍNTESE
Ilustração de Bryan Christie
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RACHEL MURRAY
O litoral da massa terrestre da Antártida ocidental
é um dos lugares mais desolados do planeta. Ao longo de mil quilômetros, ele se encontra sepultado sob o manto de gelo da plataforma de gelo da Antártida ocidental, uma série de geleiras interconectadas, do tamanho da Europa ocidental, que desliza lentamente do continente para o mar. À medida que o gelo atravessa a extremidade da terra firme enterrada, ele se transforma em uma plataforma plana de centenas de metros de espessura que se estende centenas de quilômetros mar adentro, flutuando sobre a
água. Essa plataforma é do tamanho da Espanha [aproximadamente 505 mil km 2 ], tão vasta que poderia levar de três a 10 anos para uma corrente oceânica muito abaixo para um “cisco” de plâncton do mar aberto, onde luz solar e alimentos são abundantes, chegar à distante escuridão proibitiva da linha costeira submersa.
é jornalista de ciência com trabalhos também publicados em Discover, Esquire, National Geographic e Nature. Suas matérias o levaram à Antártida quatro vezes desde 2007.
COMEÇO GELADO: Pesquisadores acampados na Plataforma de Gelo de Ross em janeiro perfuraram 740 metros de gelo para ver o que existia na zona basal, ou de aterramento, muito abaixo.
Vida oceânica era a última coisa que Robert Zook e cerca de uma dezena de cientistas esperavam ver em janeiro passado, quando empreenderam uma missão de glaciologia à zona ba- sal, ou de aterramento, onde o manto de gelo transita para a Plataforma de Gelo de Ross. Eles haviam viajado para esse lu- gar remoto para descobrir como a parte inferior da lentamente rastejante camada de gelo da Antártida ocidental estava rea- gindo a mudanças climáticas. Tinham trazido vários biólogos que estudavam microrganismos rudimentares, mas ninguém que investigasse qualquer coisa maior que isso.
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Em 16 de janeiro, o grupo se aglomerou ao redor de monito- res de vídeo em uma sala escurecida sobre o gelo; um centro de controle improvisado construído dentro de um contêiner metá- lico de transporte náutico. Durante dias tratores tinham arras- tado a caixa abarrotada, montada sobre quatro esquis gigantes- cos, juntamente com 500 mil toneladas de equipamentos e su- primentos, até esse ponto, a 850 km de distância da margem frontal da plataforma sobre o mar. Eles haviam usado uma per- furatriz de água quente para abrir no gelo um buraco ligeira- mente maior que o aro de uma cesta de basquete, penetrando
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até uma profundidade de 740 metros para
chegar a uma diminuta área de água abaixo,
ao longo da linha costeira enterrada. Em se- guida, haviam suspendido por um cabo um robô, chamado Deep SCINI (sigla em inglês para Submersível Capaz de Navegação e Imageamento sob Gelo), e tinham começado
a baixá-lo cuidadosamente pelo estreito
poço, à medida que uma corda se desenrola-
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va |
para mantê-lo conectado eletronicamen- |
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te |
à sala de controle. |
DESCOBERTAS
Surpresa: Vida sob o gelo
peixes e anfípodes (diminutos animais munidos de conchas) vivendo na zona basal, ou de aterramento, da Plataforma de Gelo de Ross, a 850 km de distância do mar aberto e sob 740 metros de gelo acima. Outras criaturas (citadas no mapa abaixo) tinham sido encontradas no passado sob as margens frontais de plataformas de gelo, muito mais próximas de águas iluminadas por luz solar e muitas vezes penduradas na parte inferior do gelo, em um mundo de ponta-cabeça.
Zook havia se apressado para projetar e construir o Deep SCINI rapidamente para
resistir ao severo frio e à elevada pressão das profundezas. Mas só tinha tido tempo para testar em uma piscina o ROV (veículo opera- do remotamente, em inglês). A equipe ob- servou nervosamente durante 40 minutos enquanto o estreito robô, de dois metros de comprimento, penetrava cada vez mais fun-
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do |
no vazio. Uma luz em seu “nariz” se refle- |
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tia |
luminosamente em cada ondulação bran- |
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nas paredes geladas do poço, dando a im- |
Anêmonas
Plataforma de Gelo Riiser-Larsen
Plataforma de Gelo Larsen C
ANTÁRTIDA
Vermes, esponjas
Plataforma de Gelo de Ronne
Peixes, anfípodes, e outros animais
Plataforma
de Gelo
de Amery
Polo Sul
DNA de crustáceos e anêmonas
Anêmonas brilhantes
pressão de um buraco de minhoca cósmico conduzindo a outro mundo. Na sala de controle abarrotada, os pes- quisadores respiraram aliviados coletiva- mente quando as paredes do buraco subita-
mente deram lugar a uma escuridão vazia. O Deep SCINI tinha passado pelo fundo do bu- raco no gelo e entrado na pequena abertura
de 10 metros de água salina abaixo. Um pe-
daço de leito oceânico estéril, rochoso e des- tituído de vida entrou no campo de visão; um leito marinho escuro e frígido que hu- manos nunca tinham visto antes. Amostras
de água que a equipe tinha içado pelo buraco alguns dias antes
eram cristalinamente límpidas, desprovidas de qualquer sinal óbvio de vida. Ross Powell, geólogo glacial na Universidade do Norte de Illinois (NIU), que coliderou a expedição, descreveu a
zona de aterramento como “um tanto inóspita” quando conver- samos por telefone via satélite após a coleta das amostras. O condutor do robô, Justin Burnett, deslizou seus dedos por um touch pad para guiar o Deep SCINI até a parte inferior da plataforma flutuante. As luzes do ROV revelaram um “teto” es- curo e irregular de gelo incrustado de sedimentos. Aqui e ali,
uma partícula de areia se desprendia do teto, brilhando na luz à medida que flutuava para baixo, como uma estrela cadente.
De vez em quando, uma dessas estrelas cadentes agia estranha-
mente, parecendo precipitar-se de lado. Ninguém podia ter cer-
teza, mas no vídeo parecia que algo havia se movido.
Burnett começou a direcionar o Deep SCINI, de volta ao fun-
do do mar, de nariz para baixo, quando a imagem de vídeo subi-
tamente “congelou”. O robô tinha se desligado para evitar supe- raquecimento, o que é irônico nessa água que a -2 o C só se man-
Microrganismos
Plataforma
de Gelo
de Ross
Anfípodes, dois peixes
Estação
McMurdo
Anêmonas, anfípodes
A
tinha em estado líquido graças à salinidade e à extrema pressão do gelo acima. Pelo rádio, Zook instruiu o operador do guincho lá fora a descer o robô até o fundo, enquanto os pesquisadores o reiniciavam. Quando as câmeras de vídeo voltaram a funcionar, alguém dentro do gélido contêiner náutico gritou: “Olhem, olhem, olhem. Vejam só!”. Todos os olhos se voltaram para a esquerda, para o monitor da câmera que apontava para baixo. Uma gra- ciosa forma fusiforme, afilada da frente para trás, como um ponto de exclamação, deslizou seu corpo translúcido azulado, amarronzado e rosado pela tela. Era um peixe, tão comprido quanto uma faca de manteiga. A sala irrompeu em arquejos. Essa equipe, que estava ali para investigar glaciares, tinha aca- bado de encontrar vida complexa em um dos lugares suposta- mente mais inóspitos e inabitáveis da Terra. Naquele dia, o ROV permaneceu submerso por seis horas e encontrou três tipos diferentes de peixes; 20 ou 30 exemplares ao todo. Anfípodes parecidos com camarões zanzavam por lá. A equipe viu uma medusa (água-viva) de cor marrom e um corpo
Mapa de XNR Productions
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RACHEL MURRAY
iridescente nadando acima dela, que po- deria ter sido um ctenóforo, uma caram- bola-do-mar, ou água-viva-de-pente. “Você tinha a impressão de que eles for- mavam uma comunidade que vivia ali”, Powell me disse pouco depois. “Não foi apenas um evento fortuito.” Constatou-se que as profundezas estéreis sustentavam abundante vida. Todo o escopo da missão mudou em um instante: o imperativo agora era cap- turar alguns dos animais, se possível, para que pesquisadores pudessem anali- sá-los mais tarde. Ao longo dos dias se- guintes, Zook confeccionou uma armadi- lha improvisada no Deep SCINI com um pedaço de tela de janela que iscou com carne de peixe. Quando o robô foi nova- mente baixado ao fundo do mar, sua câ- mera registrou durante quatro horas de- zenas de anfípodes rastejarem pela arma- dilha como moscas em uma lata de lixo. Quando os operadores de guincho o içaram de volta, a armadilha continha mais de 50 anfípodes. A equipe congelou os minúsculos crustáceos e os enviou por avião à Estação McMurdo, o principal polo logístico dos Estados Unidos na An- tártida, enquanto Zook e os cientistas se preparavam para partir.
Descobrir vida complexa em tamanha abundância veio como um profundo cho- que. As descobertas ainda estão reverberando pela comunida- de científica, derrubando suposições estabelecidas há muito so- bre a vida em nosso planeta e o potencial para encontrá-la em outros mundos.
PEIXES! Bob Zook (á esquerda) assiste a um vídeo ao vivo enviado por seu robô, submerso em um bolsão de água na zona de aterramento. Não esperando nenhum sinal visível de vida, ele ficou chocado ao encontrar três espécies de peixes, alguns deles translúcidos e do tamanho de uma “faca de manteiga” (à direita).
cientistas não tinham meios de encontrar respostas. Uma pista surgiu por acaso em 1975, quando nuvens baixas forçaram o helicóptero de John Oliver a aterrissar perto de uma fissura próxima no gelo. À época oceanógrafo no Instituto Scripps de Oceanografia em La Jolla, na Califórnia, ele e seu parceiro decidiram mergulhar naquela fenda. Eles desceram por uma parede subaquática de gelo e, 40 metros mais abaixo, viram algo bem estranho: centenas de anêmonas de um verde luminoso e irradiante, enraizadas no gelo. Eles voltaram ao local um ano depois para colher algumas anêmonas, mas en- contraram a água rodopiando com cristais de gelo, forçando- -os a desistir do planejado mergulho sem colher ou nem mes- mo fotografar os animais. Tudo o que resultou de sua desco- berta foi uma única frase inserida no meio do texto de um artigo científico sobre glaciares. Em 2003, Yuuki Watanabe, então biólogo na Universidade de Tóquio, estava acampado sobre o fino gelo marinho sazonal perto da plataforma de gelo Riiser-Larsen, a três mil quilôme- tros de distância. O gelo, que se forma sobre água ao largo da margem frontal de plataformas de gelo no inverno, lhe permi- tiu permanecer em uma cabana e estudar os hábitos alimenta- res de focas. Instrumentos que ele havia afixado nos animais re- velaram que eles frequentemente mergulhavam a uma profun-
Evidências de vida sob o gelo da Antártida surgiram len- tamente. O clima é proibitivamente rigoroso e expedições são caras, especialmente se exigirem perfurar centenas de metros de gelo. Por essas razões, as poucas informações que cientistas conseguiram reunir vieram das margens frontais de platafor- mas de gelo perto de águas abertas. Na década de 60, glaciologistas descobriram, por acaso, uma colônia de focas que, de alguma forma, havia sobrevivido apesar de ter ficado ilhada permanentemente na plataforma de gelo de McMurdo, a 25 km da margem; longe demais para elas conseguirem voltar movendo-se desajeitadamente para o mar. Os animais se congregavam perto de uma profunda fenda, ou fissura, onde a plataforma de gelo se arqueava. Elas mergulha- vam na fenda para caçar alimentos na água marinha abaixo. Os biólogos se perguntavam de que as focas poderiam estar, possi- velmente, se alimentando nas águas escuras e desoladas. A ra- zão especial da questão é que elas pareciam ser ainda mais gor- das que suas companheiras que vivem no oceano aberto, e os
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CORTESIA DO PROJETO WISSARD (WHILLANS ICE STREAM SUBGLACIAL ACCESS RESEARCH DRILLING)
didade de 150 metros na água, onde Watanabe presumiu que peixes se congregavam. Mas quando prendeu uma câmera em uma das focas, as fotografias revelaram animais com tentácu- los oscilantes pendurados de ponta-cabeça do lado inferior da
ta-cabeça, sua barriga raspando, ou “desbastando”, o teto gela- do. Essa observação fortuita foi “tão fora de contexto”, comen- tou Zook. “Havia zero expectativa de que isso acontecesse.” Marymegan Daly, especialista em anêmonas na Universida- de Estadual de Ohio, ficou pasma quando viu as primeiras foto- grafias. “Aquilo me desconcertou. Elas pareciam morcegos pen- durados do teto de uma caverna”, compara ela. “Nunca me ocorreu que anêmonas estariam vivendo ali.” Ninguém tinha imaginado um ecossistema de cabeça para baixo na parte inferior de uma plataforma de gelo. Mas cientis- tas poderiam, pelo menos, justificar sua existência como sendo razoável por meio da sabedoria convencional à época. Biólogos ponderaram que vida complexa abaixo da parte frontal do gelo poderia ser alimentada por água oceânica que penetrasse ali vinda do mar próximo iluminado pelo sol. Mas qualquer forma de vida definharia e desapareceria rapidamente na parte locali- zada mais atrás sob a plataforma e, portanto, mais distante da luz solar. Organismos cada vez menores consumiriam as min- guantes parcelas de alimentos até que não sobrasse nada, mar- cando o início de uma imensa região habitada apenas por mi- crorganismos que se estenderia por centenas de quilômetros sob as plataformas de gelo, do tamanho de países, rumo à terra firme e terminando na zona basal ou de aterramento.
O isolamento de luz solar e fotossíntese nessa zona é profun-
do. Os trechos mais estéreis e áridos de leito oceânico encontra-
Ninguém tinha imaginado um ecossistema de cabeça para
baixo na parte inferior de uma plataforma de gelo. (
isolamento de luz solar e fotossíntese nessa zona é profundo.
) O
plataforma, o que foi uma grande surpresa. Ele concluiu que as focas mergulhavam sob a protuberância da plataforma para se alimentar de qualquer coisa que estivesse pendurada ali. Poucas pessoas estavam cientes do que Oliver e Watanabe ti- nham vislumbrado quando Zook foi contratado em 2010 para trazer um ROV a fim de ajudar engenheiros a testar uma perfu- ratriz de água quente na plataforma de Ross em Coulman High, um local a 10 km de distância de sua margem frontal, onde o gelo tinha 250 metros de espessura. A equipe derreteu um bu- raco através do gelo, e Zook enviou seu robô para baixo. En- quanto o guiava ao longo do lado inferior do gelo, algo estranho apareceu no monitor de vídeo: tentáculos fantasmagóricos, os braços de milhares de anêmonas-do-mar (cnidários), que nor- malmente vivem enraizadas no leito marinho. Mas ali elas esta- vam penduradas de ponta-cabeça, seus talos enterrados no gelo. Vermes habitavam outras “tocas”, ou buracos no gelo. An- fípodes semelhantes a camarões e krill zanzavam pela água. E peixes serpenteavam por ali; um deles também nadava de pon-
dos previamente por humanos são leitos marinhos abissais es- curos no meio de vastos oceanos sob 6.000 metros de água.
A vida nessas profundidades depende de fragmentos de
plâncton morto que filtram, ou se precipitam das águas ilumi- nadas pelo sol muito acima. Na zona de aterramento, não existe nenhuma superfície marinha acima. Stacy Kim, ecologista an- tártica dos Laboratórios Marinhos de Moss Landing (MLML, na sigla em inglês), na Califórnia, esperava que a zona fosse muitas vezes mais isolada que o abismo, ou zona abissal. Em 2013, o Departamento de Ciências ANDRILL na Univer- sidade de Nebraska-Lincoln, que financiou a viagem de 2010, contratou Zook para construir um ROV mais avançado, aquele que se tornou o Deep SCINI. Ele construiu suas câmeras- janelas, feitas de safiras, e seu corpo, composto por milhões de diminutas esferas ocas de vidro, para resistir a pressões de água de até mil metros de profundidade para que o veículo robótico pudesse fazer explorações sob camadas mais espessas e mais remotas da plataforma de gelo. Depois disso, Zook foi convida-
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BEN CRANKE Getty Images (plataforma de gelo) ; CORTESIA DO ESCRITÓRIO ADMINISTRATIVO ANDRILL DE CIÊNCIA, UNIVERSIDADE DE NEBRASKA–LINCOLN (rolinho de ovo e anêmonas-do-mar)
do a trazer o Deep SCINI para a expedição liderada por Powell; um esforço sem paralelo para perfurar a zona de aterramento. Zook, de 53 anos, dificilmente se encaixa no perfil de um explorador científico. Ele nunca se formou no ensino médio e passou alguns anos projetando sistemas primitivos de telefo- nia sem fio, antes de aceitar um emprego, em 1997, para cui- dar da manutenção de torres de retransmissão automática de rádio e faróis de navegação aérea na Estação McMurdo. Du- rante seis meses, Zook e Burnett, um estudante de graduação em robótica na universidade, se apressaram para concluir a construção do Deep SCINI, trabalhando turnos de 15 horas por dia em um abafado hangar de tijolos em Lincoln, também na Califórnia. O Deep SCINI tinha sido financiado apenas como um protótipo, não para exploração real. Quando eles chegaram ao campo de perfuração em 2 de janeiro de 2015, o robô ainda não tinha um sistema de navegação nem um siste- ma para gerenciar seu consumo de energia, tornando-o pro- penso a um superaquecimento. Depois que o Deep SCINI foi içado para fora do buraco e houve a descoberta dos peixes, a equipe baixou um pacote de instrumentos oceanográficos pertencentes a Powell, depositan-
água e crescer. Anfípodes consomem os microrganismos e re- ciclam seu carbono. Peixes, no topo, se alimentam dos anfípo- des. Essa transferência ascendente de carbono, ou energia, pela pirâmide alimentar é ineficiente, explicou John Priscu, ecologista microbiano na Universidade Estadual de Montana um dos líderes da expedição realizada neste ano. São necessá- rios cerca de 100 quilos de microrganismos para sustentar um quilo de peixe.
Mistérios também cercam o milhão de quilômetros
quadrados de terras escondidas sob o manto de gelo da Antár- tida ocidental. Glaciologistas perfuraram alguns buracos no gelo até chegarem à lama abaixo. Ela é rica em conchas mi- croscópicas de diatomáceas que viveram há entre 20 milhões
e cinco milhões de anos; evidência de que um mar raso cobria
a área em épocas mais quentes. Mapeamentos sísmicos remo-
tos mostram antigas camadas sedimentares de centenas de metros de espessura, que contêm bilhões de toneladas de or- ganismos marinhos em decomposição, que morreram e se precipitaram para o fundo. No início de 2013, a mesma equipe de cientistas que em ja-
Esses hábitats isolados poderiam estar amplamente disseminados. Mais de 20 mil km de zonas de aterramento escondidas sob gelo flutuante cercam a costa da Antártida.
do-o no leito marinho por 20 horas. Ali, o dispositivo mediu correntes oceânicas e salinidade; dados que poderiam fornecer pistas sobre a rapidez com que o gelo estava derretendo. O dis- positivo também monitorou os níveis de oxigênio e outras subs- tâncias na água, o que de repente havia se tornado crucial em vista da descoberta. Durante todo o tempo que os instrumentos permaneceram na água, peixes e anfípodes visitaram a câmera instalada no “pacote”. No acampamento, as pessoas quebravam suas cabeças du- rante jantares tardios tentando entender o que fazia sentido sobre os animais. “Temos de perguntar o que eles estão co- mendo”, sugeriu Brent Christner, microbiólogo na Universida- de Estadual da Louisiana, que estudou microrganismos antár- ticos durante 15 anos. A luz solar estava excessivamente longe demais, e qualquer água da margem frontal da plataforma que derivasse de volta até ali teria sido esvaziada de alimentos durante anos de lenta migração. O mistério foi intensificado pelas extravagantes necessida- des energéticas de animais em comparação com microrganis- mos. Peixes requerem uma pirâmide alimentar multinível. Em sua base, microrganismos usam energia de luz solar ou de substâncias para extrair moléculas de dióxido de carbono da
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neiro fez uma perfuração até chegar à zona de aterramento também havia perfurado através do manto de gelo 100 km mais para o interior, atingindo um reservatório subglacial chamado Lago Whillans. (Eu os acompanhei nessa expedição.) Carbono orgânico das antigas camadas marinhas compunha até 0,3% da lama lacustre, uma quantidade impressionante, similar à en- contrada no solo que nutre savanas desérticas nos Estados Uni- dos. A equipe também descobriu microrganismos no lago. Sem luz solar e fotossíntese, os microrganismos obtinham energia ao utilizarem oxigênio no lago para “queimar” substâncias como amônia e metano que ascendiam das camadas em de- composição abaixo. Os peixes na zona de aterramento poderiam estar sendo ali- mentados por uma fonte similar? Quando o Deep SCINI desceu pelo buraco, as paredes vítreas de gelo tornaram-se brevemente opacas e marrons pouco antes de o robô mergulhar na cavidade de água. Os últi- mos 20 metros de gelo estavam atulhados com os mesmos ti- pos de detritos ricos em carbono observados no Lago Whillans, um material que congelou e se prendeu à parte infe- rior da geleira à medida que ela se arrastou por terra firme milhares de anos atrás.
Fragmentos desses sedimentos se desprenderam do teto de gelo enquanto o Deep SCINI explorava a cavidade
oceânica; aquelas partículas cintilantes de sujeira que se precipitavam como estrelas cadentes. Cerca de um milí- metro do lado de baixo do gelo derrete todos os dias, li- berando as migalhas ricas em nutrientes. Priscu notou que anfípodes zanzavam avidamente ao redor das nu- vens de detritos que ascendiam do fundo do buraco de- pois que as paredes ali foram perturbadas pelo robô. Ele ponderou se o gelo que isolava esse lugar da luz solar também poderia alimentá-lo, ao fornecer detritos orgâ- nicos que sustentam microrganismos na base da pirâmi- de alimentar. Os peixes “estão obtendo seus alimentos de cima”, concluiu. “Estou quase 100% certo disso.” No entender de Priscu, geleiras que fluem da ter- ra para o mar acima da zona de aterramento constituem uma lenta es- teira rolante de gelo rico em detritos que começa a derreter quando entra em contato com água mari- nha, espalhando seus de- tritos. O gelo sujo derrete com rapidez suficiente para liberar toda a sua carga até se estender por 40 km sobre o mar. Essa
“chuva” local de sedimen- tos “pode ajudar a fertili- zar a água marinha, o que
ajuda a criar [uma] zona habitável” na extremida- de traseira da plataforma de gelo, explicou Slawek Tulaczyk, glaciologista na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, que coliderou a expedição deste ano com Powell e Priscu. Esses hábitats isolados poderiam estar amplamente dis- seminados. Mais de 20 mil quilômetros de zonas de aterra-
mento, escondidas sob gelo flutuante, cercam a costa da An- tártida. Imagine olhar para esse continente lá do espaço e espiar através do gelo para encontrar um anel de peixes e ou- tros animais, de 40 km de largura, ao redor de toda a linha costeira, um vasto e próspero ecossistema, não um inferno escuro, desprovido de vida. Os vastos trechos de oceano escuro sob o gelo entre esse oásis e a água aberta também podem conter pelo menos al- guns animais. Em 1977, um único buraco foi perfurado através da Plataforma de Gelo de Ross, a 475 km de distância do mar aberto, até atingir uma coluna de água que tinha 240 metros de profundidade. Uma câmera introduzida pela abertura ti- rou várias centenas de fotografias do leito marinho, e duas pa- reciam mostrar peixes. Anfípodes também foram vistos. “As pessoas não deram muita atenção”, observa Kim. Mas aquela
MUNDO DE PONTA-CABEÇA: Criaturas surpreendentes também tinham sido encontradas sob a margem frontal da Plataforma de Gelo de Ross (acima) em 2010. Em vez de enraizadas no leito marinho, anêmonas (à direita) estavam enraizadas na parte inferior do gelo, crescendo para baixo; outros animais zanzavam por ali, inclusive uma criatura desconhecida apelidada “egg roll” (“rolinho de ovo”) à esquerda.
observação antiga parece mais digna de nota agora, que pei- xes foram encontrados no ambiente muito mais isolado da zona de aterramento. Essa visão de vida espalhada sob plataformas de gelo torna- -se ainda mais sedutora. Imagens tiradas recentemente por ra- dares de penetração de gelo instalados em aviões, capazes de mapear a estrutura tridimensional das camadas de gelo, mos- tram que água derretida do gelo, que é mais leve que água do mar porque contém menos sal, brota da zona de aterramento e flui, por centenas de quilômetros, ao longo da parte de baixo da plataforma em “plumas” bem definidas. “Você está falando so- bre um rio de ponta-cabeça”, explica David Holland, oceanógra- fo na Universidade de Nova York. Os rios invertidos derretem canais no gelo, e podem ter de 500 m a 3.000 m de largura e se estender 200 m para cima dentro do próprio gelo. Se os rios carregam detritos que derreteram e se soltaram do gelo, eles podem alimentar organismos ao longo desses canais.
A sensação de fascínio, ou surpresa, sobre o quanto a vida pode ser remota na Terra só se aprofundou à medida que
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LANÇANDO LUZ: Imagens captadas este ano pelo robô submarino Deep SCINI provam que vida complexa prospera nas águas frígidas, escuras como breu, abaixo das massivas plataformas de gelo penduradas na Antártida.
biólogos examinam as fotografias e os espécimes capturados por Zook, assim como as anêmonas de ponta-cabeça coleta- das em 2010 em Coulman High (os dados só foram divulga- dos em 2013 após um longo atraso). Uma verdade impressio- nante está despontando: essas espécies, que vivem em luga- res tão extremos, são surpreendentemente comuns. “O hábitat é tão bizarro, mas os animais são realmente clássicos, originais”, comenta Daly. As anêmonas, por exemplo, pertencem a uma bem conheci- da família que vive em todo o mundo. “Não há nada inespera- do sobre elas, anatomicamente”, ressalta a pesquisadora, ne- nhuma glândula ou outro órgão inédito para explicar como elas se enterram no gelo, e ao mesmo tempo evitam congelar. Talvez elas sobrevivam ao concentrarem sal ao redor de seu corpo, o que poderia agir como anticongelante. Mas Daly no- tou uma adaptação: seus ovos são extremamente gordurosos, por isso eles flutuam para o teto de gelo acima em vez de afun- dar até o leito marinho abaixo. Os anfípodes vermelhos, semelhantes a camarões, desco- bertos em janeiro parecem pertencer a um bem conhecido grupo que habita os leitos oceânicos profundos do mundo, “carniceiros vorazes”, segundo Kathleen Conlan, bióloga mari- nha no Museu Canadense da Natureza, em Ottawa. Na Antár- tida, “se houver uma fonte orgânica vinda desses detritos [no gelo acima] e estiver estimulando o crescimento de microrga- nismos, então os anfípodes poderiam estar se aproveitando disso”, argumenta ela. Os peixes de coloração azul-marrom-rosa também foram reconhecidos em fotografias. Arthur DeVries, ictiólogo na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, que estudou
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peixes antárticos durante quase 50 anos, os identificou como peixes-prateados-antárticos (Pleuragramma antarcticum), uma das espécies mais abundantes ao redor das águas costei- ras do continente. Ironicamente, os peixes são vulneráveis à morte por congelamento. Encontrar criaturas tão comuns em lugares estranhos suge- re uma verdade profunda: a de que os ambientes mais remotos e inexplorados da Terra podem não ser tão extremos como jul- gávamos. “Sempre achamos que temos um bom domínio sobre este planeta”, observa Britney Schmidt, cientista planetária no Instituto de Tecnologia da Geórgia (GeorgiaTech). A descoberta de janeiro “nos diz o quanto somos ingênuos”, resume ela. “Para mim, é aí que está a verdadeira lição.” De fato, vida complexa pode existir em todos os tipos de lugares que descartamos como inabitáveis. Muitas vezes defi- nimos habitabilidade em termos de água líquida, tanto na Terra como em outros planetas e luas. Schmidt vê isso de for- ma diferente: “Eu procuro por fontes geológicas de energia”, onde placas tectônicas ou geleiras deslizantes, por exemplo, podem trazer carbono há muito enterrado à tona, onde ele pode ser consumido outra vez. “Esses ciclos podem alimentar vida”, resume ela. Outras descobertas recentes reforçam esse modo de pen- sar. Bandos de vermes foram encontrados no fundo do mar no Golfo do México, em pontos de escape ascendentes de gelo de metano, uma forma exótica e sólida de gás natural que se desenvolve a alta pressão. Apesar de habitarem um lugar tão estranho, os vermes se alimentam de uma dieta típica: bacté- rias, que por sua vez consomem o gelo de metano. Diferentes vermes foram encontrados em água que gorgoleja através de fraturas de leitos de rocha estratificada a três quilômetros abaixo da superfície da Terra, alimentando-se de microrga- nismos que consomem minerais no leito rochoso. Alguns mi- crorganismos que vivem em grandes profundidades são até movidos a energia nuclear, em certo sentido, consumindo hi- drogênio produzido pelo decaimento de urânio e outros ele- mentos radioativos. Depois há o Lago Vostok, subglacial, localizado na Antárti- da oriental, a 1.500 km mais para o interior do sítio de perfu- ração de janeiro. O Vostok se localiza a 3.700 m abaixo do gelo, completamente isolado de ar e luz solar há 15 milhões de anos. Na década de 90, cientistas russos fizeram ali uma perfuração e, sem puncionar o lago em si, colheram gelo que havia se formado ao longo de sua margem superior da água. Prestigiados biólogos polares reagiram com ceticismo e troça em 2013, quando Scott Rogers, biólogo na Universidade Bowling Green State, em Ohio, analisou o DNA contido nesse gelo. Ele relatou ter encontrado evidência de DNA em ani- mais aquáticos que talvez habitassem esse corpo d’água, in- clusive anêmonas e crustáceos. “Acredito que é bom manter uma mente aberta” sobre a aná- lise de Rogers, diz Slawek Tulaczyk. Apesar de estar enterrado tão profundamente, o Vostok provavelmente contém quantida- des substanciais de oxigênio, injetado no lago à medida que bo- lhas de ar primordiais se soltam do gelo derretido acima.
ALIMENTO CONGELADO
Detritos de milhões de anos alimentam peixes
A massiva plataforma de gelo da Antártida ocidental libera lentamente terra para o mar, onde se transforma em uma plataforma de . O ponto de transição é chamado zona de ater- mento, onde derrete o gelo, criando uma pequena cavidade de água que permanece líquida a -2 o C devido à enorme pressão de 740 metros
de gelo acima. Cientistas presumiam que a cavidade, escura como breu, estaria praticamente destituída de vida devido à sua distância de 850 km da luz solar, necessária para microrganismos sustentarem uma teia alimentar. Mas, em janeiro, pesquisadores encontraram peixes e outras formas de vida complexa ali, que pareciam alimentar-se de sedimentos que se precipitavam do gelo .
Plataforma de Gelo da Antártida Ocidental
Poço de perfuração
Detritos ricos
em carbono
Água derrete gelo e libera detritos sustentadores de vida na zona de aterramento
Zona de
aterramento
Poço de perfuração, 740 m de profundidade
Plataforma de Gelo de Ross, 850 km de extensão
|
Água mais leve, menos salina |
Mar de |
|
|
Ross |
|
canais na face inferior do gelo |
Leito |
Água mais densa, mais salina, afunda e desliza ao longo do leito marinho
marinho
Um processo similar poderia existir em Europa, uma lua co- berta de gelo que orbita Júpiter e que se acredita abrigar um oceano interno de água líquida sob 10 km a 20 km. Schmidt e outros encontraram evidências de fortes correntes oceânicas
dentro de Europa, alimentadas pelas marés gravitacionais e pelo aquecimento friccional de Júpiter. Se essas correntes aque- cem e derretem o lado inferior do gelo, isso poderia alimentar um ecossistema similar ao encontrado no Lago Whillans sub- glacial ou na zona basal ou de aterramento. As correntes quen- tes poderiam impulsionar um tipo de placas tectônicas, em que
o gelo na superfície de Europa é reciclado de volta para o ocea- no interior, levando consigo um fluxo constante de oxigênio e outros compostos. A descoberta de animais na zona de aterramento levanta muitas questões. Powell quer estimar as correntes oceânicas e
o calor que atinge esse lugar, o que revelará a taxa com que
gelo em derretimento pode liberar (dispersar) novos alimen- tos. Uma série de instrumentos que Tulaczyk baixou no bura- co de gelo quando ele voltou a fechar e congelar fornecerá mais informações sobre correntes oceânicas, ao monitorar a inclinação variável da plataforma de gelo resultante das ma- rés diárias, transmitindo essas informações de volta semanal- mente via link de satélite. Priscu e Christner dissecarão anfí- podes e colherão “impressões digitais” do DNA do conteúdo
de seus intestinos para descobrir de que os animais se alimen- tam. Eles também pretendem analisar DNA de microrganis- mos na água e lama para determinar que fonte de energia ali- menta essa cadeia, ou redes alimentares – amônia, enxofre ou outras substâncias químicas. Powell espera voltar à zona de aterramento com um ROV maior, capaz de explorar o gelo mais profundamente, gravar ví- deos e medir substâncias químicas na água. Zook espera colher alguns peixes e outros animais vivos. Mas, neste momento, ele simplesmente está feliz com o desempenho do Deep SCINI. “A regra de ouro [na Antártida] é que qualquer projeto tecnológi- co grande e inédito não funciona em seu primeiro ano”, ele me disse enquanto embalava suas coisas em janeiro. O sucesso do Deep SCINI “foi um pequeno milagre”.
PARA CONHECER MAIS
Brent C. Christner et al. em Nature, Vol. 512, págs. 310–313; 21 de agosto de 2014. Descobertas em curso sobre a vida sob o gelo da Antártida podem ser encontradas no site do Programa de Perfuração de Pesquisa de Acesso Subglacial ao Fluxo de Gelo Whillans: www.wissard.org
DE NOSSO ARQUIVO
Douglas Fox. Edição 123, agosto de 2012.
Ilustração de Bryan Christie
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ELETRODOS DE OURO adornam uma célula solar de perovskita vermelha, do tamanho de um selo postal, porém muito mais fina, produzida pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
superando
ENERGIA
osilício
Um material emergente, a perovskita, poderia finalmente produzir células solares mais baratas e eficientes que a tecnologia prevalecente de silício
Varun Sivaram, Samuel D. Stranks e Henry J. Snaith
Fotografias de Plamen Petkov
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é membro do Conselho de Relações Exteriores e pesquisa energia, tecnologia e segurança nacional.
é fellow no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e explora as aplicações ópticas e eletrônicas de perovskitas.
é professor de física na Universidade d Photovoltaics, da qual é cofundador.
ENTADO EM UM BAR MAL ILUMINADO NO JAPÃO, O ENTÃO ESTUDANTE DE GRADUAÇÃO MICHAEL Lee rabiscava em uma bolacha de cerveja ao cair da noite, anotando uma lista de ingredientes químicos antes que os esquecesse. Mais cedo naquele dia, cientistas da Universidade Toin de Yokohama generosamente haviam compartilhado sua ino- vadora receita para produzir células solares a partir de um novo material, chamado perovskita, em vez do habitual silício. As células tinham eficiência de apenas 3,8% para converter luz solar em eletricidade. Por isso, o mundo não tinha tomado conhecimento delas. Mas Lee estava inspirado. Após a missão de apurar fatos, em 2011, ele voltou ao Laboratório Clarendon, na Universidade de Oxford, na Inglaterra, onde nós três trabalhávamos à épo- ca, e fez uma série de ajustes na receita. As mudanças produziram a primeira célula de perovskita a superar a eficiência de 10%. Sua invenção desencadeou uma corrida de energia limpa equivalente à do petróleo, à medida que pesquisadores do mundo inteiro competiam para aumentar ainda mais a efici- ência das células de perovskita.
O recorde mais recente, de 20,1%, foi estabelecido pelo Insti- tuto de Pesquisa Tecnológica Química da Coreia em novembro de 2014 e marcou um aumento de cinco vezes em eficiência em apenas três anos. Comparativamente, após décadas de desenvol- vimento, o estado da arte das células solares de silício estacionou em aproximadamente 25%, um marco que pesquisadores da pe- rovskita como nós temos claramente em vista. Também anteci- pamos uma estreia comercial, talvez através de uma empresa spin-off, como a Oxford Photovoltaics, que tem um de nós (Snaith) como cofundador. As perovskitas são tentadoras por várias razões. Seus ingre- dientes são abundantes, e os pesquisadores podem combiná- -los facilmente, a preços módicos, a baixa temperatura, para produzir filmes, ou películas finas que têm uma estrutura alta-
mente cristalina, similar à obtida em wafers (bolachas) de silí- cio após um dispendioso processamento a alta temperatura. Al- gum dia, rolos de filmes de perovskita finos e flexíveis, em vez de wafers de silício espessos e rígidos, poderão ser desbobina- dos rapidamente por impressoras especiais para produzir lâmi- nas e revestimentos solares leves, maleáveis, e até coloridos. Ainda assim, para desafiar o domínio do silício, as células de perovskita terão de superar alguns obstáculos significati- vos. Os atuais protótipos têm apenas o tamanho de uma unha; pesquisadores terão de encontrar meios para torná-los muito maiores se a tecnologia tiver de competir com os painéis sola- res de silício. Eles também precisam melhorar muito a segu- rança e a estabilidade de longo prazo das células. Ou seja, tra- ta-se de uma batalha difícil.
vem dominando o mercado de painéis solares há décadas, mas protótipos de células de um material cristalino dife- rente, a perovskita, estão alcançando rapi-
EM SÍNTESE
pode ser mais barata que o silício. Produzida a temperaturas bem mais baixas, suas células podem ser enroladas ou esticadas e levar a mais variedades de produtos que as de silício, que são rijas.
Por exemplo, são necessárias técnicas para ta para impedir que as células se degra- dem em poucas horas.
, usado em pequenas quanti- dades nas células, precisa ser selado per- manentemente por segurança. As células
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Grupo Belcher
PÁGINA 54 E ESTA PÁGINA: AMOSTRAS FORNECIDAS POR MATTHEW T. KLUG E ANNA OSHEROV Grupo Bulovi, Instituto de Tecnologia de Massachusetts
A CORRIDA PELA EFICIÊNCIA
Hoje, as melhores células de silício têm eficiência de 25,6%. Por que células solares não conseguem converter 100% da ener- gia da luz solar? E por que as perovskitas deveriam ser capazes de suplantar o recorde do silício? As respostas a essas perguntas são encontradas numa partícu- la excitável e errante, o elétron. Quando uma célula solar está no escuro, os elétrons no material permanecem ligados a seus res- pectivos átomos. Nenhuma eletricidade flui. Mas quando a luz so- lar incide sobre uma célula, ela pode libertar alguns desses elé- trons. Infundidos com energia, os elétrons “excitados” zanzam de- sorientados pela treliça de cristal da célula até escaparem por uma de suas extremidades, capturados por um eletrodo como corrente útil, ou colidem com um obstáculo ou uma armadilha, perdendo sua energia em forma de calor residual. Quanto maior (mais pura) a qualidade do cristal, menos de- feitos existem para “descarrilhar”, ou frustrar a jornada do elé- tron. Em geral, células de silício são aquecidas a até 900 o C para remover defeitos. As perovskitas es- tão, em grande parte, livres desses defeitos, embora sejam processadas a temperaturas muito mais baixas, em torno de 100 o C. Como resultado, elé- trons excitados pela luz são igual- mente bem-sucedidos em sair de cé- lulas de perovskita, e é improvável que percam tanta energia ao longo do caminho quando colidem com obstáculos. Como a potência elétrica de uma célula corresponde ao produ- to do fluxo de elétrons que saem dela (a corrente) e da energia que esses elétrons carregam (a voltagem), a efi- ciência das perovskitas pode rivali-
zar com a do silício, com muito me- nos esforços de processamento. Mas existe um limite para a quan- tidade de energia da luz solar que
uma célula fotovoltaica feita de semicondutores como silício e perovskitas pode converter em energia elétrica. Isso se deve prin- cipalmente a uma propriedade de semicondutores chamada banda proibida ou gap de energia (bandgap, em inglês), um nível mínimo de energia necessária para liberar elétrons. A luz solar abrange todos os comprimentos de onda de luz, mas somente al- guns deles excedem o limite dessa banda proibida. Outros com- primentos de onda simplesmente passarão através do material, mas sem fazer nada.
O gap de energia é diferente para diversos semicondutores, e
ele estebelece uma compensação fundamental: quanto mais bai- xo o bandgap, mais luz do espectro solar uma célula é capaz de
absorver para excitar elétrons, porém mais baixa será a energia que cada elétron terá. Como a energia elétrica depende tanto do número como da energia de elétrons, mesmo uma célula com o bandgap ideal só pode converter cerca de 33% de energia solar.
O silício tem um bandgap fixo que não é ideal, mas ele coman-
da a indústria de painéis solares porque os meios eficazes para produzir a tecnologia são bem compreendidos. Quando fazem perovskitas, porém, pesquisadores podem ajustar à vontade o gap de energia ao modificarem ligeiramente a mistura de ingre- dientes, o que aumenta a perspectiva de exceder os níveis de efi- ciência do silício. Pesquisadores também podem sobrepor pe- rovskitas diferentes com bandgaps distintos em camadas. Pe- rovskitas de “dois andares” (double-deckers) deveriam ser capazes de ultrapassar o teto nominal de 33%; algumas proje- ções indicam que elas poderiam aproveitar 46% da energia solar para produzir energia.
NOVOS TRUQUES PARA UM MATERIAL ANTIGO
Mineralogistas conhecem as formas naturais da perovskita
na crosta terrestre desde o século 19. Os cristais ganharam uma capa de Scientific American em 1988, quando cientistas julga- ram que poderiam formar supercondutores de alta temperatu- ra (algum trabalho nesse sentido prossegue até hoje). Durante as duas últimas décadas engenheiros também criaram dispositivos eletrô- nicos experimentais com perovskitas produzidas pelo homem, mas não se deram conta do potencial uso desse material em células solares. Finalmente, em 2009, um grupo na Universidade Toin de Yokohama transformou em uma célula solar. uma versão feita pelo homem, uma perovskita à base de haleto de chum- bo sintetizada originalmente em 1978. Os pesquisadores dissolveram produ- tos químicos selecionados em um meio líquido e depois centrifugaram e secaram essa solução sobre uma lâmi-
na de vidro. A secagem depositou um filme de cristais de perovskita em es-
cala manométrica sobre a lâmina, as- sim como cristais de sal emergem da evaporação de poças ou piscinas naturais de marés. Essa película gerou elétrons quando absorveu luz solar, mas não muito bem. Por essa razão, os pesquisadores acresceram finas camadas do material aos dois lados dos nanocristais de perovskita para aju- dá-los a transferir os elétrons para um circuito eléctrico externo, fornecendo energia útil. As primeiras e diminutas células tinham eficiência de apenas 3,8%, e eram altamente instáveis, deteriorando-se em poucas ho- ras. Lee alterou a composição da perovskita e substituiu uma ca- mada problemática na célula, elevando a eficiência para mais de 10%. Outro grupo de pesquisadores, liderado conjuntamente por Michael Grätzel, do Instituto Federal de Tecnologia Suíço, em Lausanne, e Nam-Gyu Park, da Universidade de Sungkyunkwan, em Seul, na Coreia do Sul, fez um avanço similar. A recente progressão para 20% foi impulsionada por algumas
inovações engenhosas. Como criar uma película cristalina livre de defeitos requer métodos complicados de deposição, um grupo
FILMES DE PEROVSKITA podem ser multico- loridos e poderiam ser aplicados a janelas ou pare- des, criando um matiz além de gerar eletricidade.
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Energia
COMO FUNCIONA
Dois são melhor que um
Em vez de competir comercialmente, as células solares de silício e perovskita poderiam operar em conjunto, convertendo luz solar em energia tecnologias conseguem separadamente. Em uma célula em tandem, ou conjugada (à direita), uma camada de perovskita e outra de silício se conectam e geram elétrons com maior voltagem e mais energia do que qualquer um dos materiais criaria por si só. A perovskita e o silício também convertem diferentes comprimentos de onda de luz solar (abaixo), aproveitando efetivamente uma parte maior do espectro.
Alta
Baixa
Espectro solar
Energia adicional convertida por célula de perovskita
Curto
Energia convertida por célula de silício
Comprimento de onda
Longo
Um fóton do Sol transfere energia para um elétron,soltando-o de um átomo e deixando um buraco,ou vazio,na estrutura.O elétron e o buraco se movem na direção de eletrodos opostos,criando uma corrente [elétrica].
Na junção do túnel, elétrons e vazios (ou buracos) se neutralizam mutuamente, deixando seus parceiros originais escaparem através dos eletrodos.
liderado por Sang Il Seok, do Instituto de Pesquisa de Tecnologia Química da Coreia, inventou um processo multifásico que forçou a produção de um filme de cristal mais ordenado resultante da centrifugação da solução. Ao otimizar o processamento, Seok avançou por três recordes consecutivos de eficiência em 2014, saltando de 16,2% para 20,1%. Outros cientistas simplificaram a sobreposição em camadas de materiais acrescidos; as mais novas células de perovskita se parecem mais com uma célula de silício, uma simples pilha de camadas planas. No caso do silício, esse design possibilitou a produção em massa a baixo custo. Recentemente, pesquisado- res de perovskita também aqueceram a solução e a lâmina de vidro sobre a qual ela é depositada, o que resultou em cristais que são várias ordens de grandeza maiores que os nas células iniciais; um sinal encorajador de que a cristalinidade ainda está melhorando. Cientistas também estão desenvolvendo algumas caracte- rísticas inéditas. Variar a proporção química, por exemplo, pode criar células que têm um suave tom de amarelo ou um toque de carmesim. Depositar perovskita sobre vidro em “ilhas” (porções) em vez de em uma camada fina pode criar películas que são opacas, transparentes ou diversos graus in- termediários. Juntas, essas opções, escolhas refrescantes em vez de células de silício rígidas, opacas, preto-azuladas, pode- riam ajudar arquitetos a projetar claraboias, janelas e facha- das de edifícios que incorporassem coloridas películas, ou fil- mes solares de perovskita. Imagine um arranha-céu com jane- las coloridas, matizadas, de perovskita que sombreiam o interior do calor da quente luz solar ao convertê-la em eletri-
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Fóton de alta energia (comprimento de onda curto)
Fóton de baixa energia (comprimento de onda longo)
Vidro
Selador/
Isolante e
barreira de
umidade
Eletrodo
transparente
Junção
do túnel
Eletrodo metálico Selador/ Isolante e barreira de umidade Base, ou camada protetora de polímero
Não desenhado em escala
cidade, reduzindo a conta de arrefecimento e proporcionando ao mesmo tempo energia elétrica. As perovskitas têm um longo percurso à frente antes de viabi- lizarem essas visões. Embora pesquisadores coreanos e austra- lianos tenham demonstrado recentemente células imprimíveis que medem 10 cm por 10 cm, grandes o suficiente para produtos comercialmente competitivos, as células mais eficientes ainda são pequenos protótipos. À medida que laboratórios e empresas start-up aprimoram os dispositivos, eles têm de atender a três pré-requisitos para comercialização: garantir que as células se- jam suficientemente estáveis para produzir eletricidade durante décadas; desenvolver um produto que clientes sintam ser seguro para colocar em suas casas e edifícios; e convencer críticos que advertem que as alegações sobre os níveis de eficiência da pero- vskita são infladas.
O GRANDE DESAFIO
A estabilidade da célula solar desses novos materiais é, discu- tivelmente, seu calcanhar de aquiles. As perovskitas podem se deteriorar rapidamente porque são sensíveis a umidade; por isso, precisam ser encerradas em um invólucro vedado, à prova de água. Células fabricadas por nós em uma atmosfera inerte e encapsuladas em epóxi funcionaram estavelmente durante mais de mil horas quando expostas continuamente à luz. Pesquisado- res da Universidade Huazhong de Ciência e Tecnologia na China, em colaboração com Grätzel, também atingiram mil horas, mes- mo sem encapsulamento, e, em um trabalho publicado recente- mente, eles instalaram painéis de teste ao ar livre na Arábia Sau- dita para mostrar que o design deles funcionará em condições do
Ilustração de Jen Christiansen
mundo real. Em um recente encontro da Sociedade para Pesqui- sa de Materiais, em São Francisco, divulgamos resultados da Ox- ford Photovoltaics que demonstram que células de perovskita podem gerar uma produção (output) estável de energia por mais de duas mil horas sob plena luz solar. No entanto, a convenção industrial para painéis solares é uma garantia de 25 anos. Isso equivale a aproximadamente 54
mil horas sob constante e brilhante luz solar. Encontrar uma bar- reira eficiente contra umidade, que funcione por tanto tempo, em uma ampla faixa de temperaturas, é crucial. Resolveram o problema ao laminarem as células de silício entre chapas de vi- dro. Isso é perfeito para grandes instalações baseadas em solo. Mas como células de perovskita podem ser produzidas em forma de filmes muito mais leves e flexíveis que células sobre vidro, es- tratégias alternativas de encapsulamento podem ampliar o leque de aplicações, como revestimentos para paredes ou janelas que podem gerar eletricidade. Felizmente, alguns progressos foram alcançados por empresas que tentam comercializar outros mate- riais solares flexíveis, como o semicon- dutor feito de seleneto de cobre, índio e
gálio (CIGS, na sigla em inglês). As tec- nologias de encapsulamento funcio- nam bem, ainda assim empresas têm batalhado para conquistar uma fatia de mercado do silício porque as células são menos eficientes e custam mais. As perovskitas, que deveriam ter eficiên- cias maiores e custos de processamen- to menores, talvez possam explorar os avanços de encapsulamento. Tão importante quanto isolar, ou impedir a penetração de umidade, é se- lar hermeticamente o conteúdo das cé- lulas, devido às diminutas quantidades
de chumbo adicionadas à receita de pe- rovskita. Como o chumbo é tóxico, o mercado exigirá um elevado ônus de prova, ou apresentação de evi- dências que comprovem que a energia da perovskita é segura. Para se inspirar, pesquisadores podem olhar novamente para um mate- rial solar alternativo, o único além do silício que alcançou um su- cesso comercial significativo: o telureto de cádmio. Produzidos pela First Solar, painéis de telureto de cádmio fo- ram instalados em todo o mundo e excederam os padrões de se- gurança apesar da presença de um elemento muito mais tóxico que o chumbo: cádmio. A First Solar convenceu comunidades de que seus painéis são tão bem vedados que nenhum cádmio pode- ria escapar, nem em um incêndio descontrolado no deserto a
1.000 o C. No entanto, esses painéis utilizam um substrato de vi- dro que exclui a flexibilidade e menor peso prometidos pelas pe- rovskitas. Mas empresas que trabalham com perovskita podem aprender com o sucesso da First Solar em vedar e testar rigorosa- mente seus produtos. Um desenvolvimento encorajador relacionado a chumbo tam- bém emergiu recentemente do Instituto de Tecnologia de Massa-
chusetts (MIT): Angela Belcher e seus colegas demonstraram que baterias chumbo-ácidas de carros podem ser recicladas de forma segura, recuperando-se o conteúdo de chumbo para produzir cé- lulas de perovskita. Esse resultado poderia ser um bônus ambien- tal. Belcher estima que o chumbo em uma única bateria de carro poderia permitir a produção de cerca de 700 metros quadrados
de células de perovskita, o que, a uma eficiência de 20%, seria su- ficiente para abastecer de energia elétrica 30 casas em um clima quente, mas ensolarado, como o de Las Vegas. Uma abordagem diferente seria eliminar completamente o chumbo. Tanto o nosso grupo como outro, na Universidade Northwestern, publicaram relatórios preliminares sobre células que usam estanho em vez de chumbo. Mas sua eficiência e sua es- tabilidade são piores porque o estanho tende a fazer com que a perovskita perca sua estrutura cristalina com o tempo, dificultan- do ou bloqueando a capacidade de um elétron de sair da célula. Um grande avanço seria necessário para o estanho igualar o de- sempenho de longo prazo do chumbo. Além dos problemas listados aqui, pesquisadores têm de resolver um obs- táculo menor, mais bizarro. Críticos
têm alegado que os números de efici- ência/rendimento para células de pe- rovskita talvez sejam inflados devido à histerese, uma variação (jitter) na me- dição provavelmente causada por mo- léculas carregadas que migram de um lado da célula para o outro, o que po- deria gerar a aparência de uma corren- te maior. Mas essa migração de íons é muito breve, rápida. Cientistas estão buscando meios para interrompê-la, mas em curto prazo, há uma solução simples: esperar a migração passar e medir a eficiência durante um período
mais longo. Na maioria dos casos, esse processo resulta em leituras de eficiên- cia similares a mensurações rápidas, iniciais, mas pesquisadores podem ser tentados a relatar apenas o resultado mais alto das lei- turas. Estamos trabalhando com cientistas de todo o mundo para padronizar o processo de medição para que nossos resultados atendam a um alto padrão de escrutínio. Por fim, para ter sucesso comercialmente, inovadores de pe- rovskita precisam chegar a uma relação econômica convincente para atrair os dólares de investimentos necessários para aumen- tar a produção. Embora materiais para perovskitas sejam abun- dantes e células possam ser processadas (transformadas) a bai- xas temperaturas em filmes produzidos por equipamentos de baixo custo, empresas de energia solar de perovskita não devem cair na armadilha de competir em pé de igualdade com o silício. Há pouco espaço para reduzir os preços de painéis de silício por- que a maior parte do custo de uma instalação não está vinculada aos painéis, mas ao que é chamado de “equilíbrio de sistema”, que inclui materiais de instalação e mão de obra, licenças e ins- peções, e outras despesas associadas à instalação do sistema. Em
Para ter sucesso comercialmente, os inovadores da perovskita precisam chegar a uma relação econômica convincente
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2014, uma instalação solar residencial média nos Estados Unidos custava US$ 3,48 por watt de capacidade de geração de eletrici- dade, mas o custo do painel solar era de apenas US$ 0,72 por watt. Mesmo se painéis de perovskita alcançarem o baratíssimo preço de 10 a 20 centavos de dólar por watt, que pesquisadores julgam ser possível, esse avanço só reduziria o preço final instala- do em uma pequena porcentagem. Mas empresas de perovskita podem se erguer com base nes- sas pequenas economias e crescer ao desenvolverem produtos que suplantem a eficiência do silício. Um painel solar altamente eficiente de perovskita reduz o custo instalado total por watt ao requerer menos terreno ou espaço de telhado e, portanto, menos mão de obra e equipamentos. Um exemplo ainda mais imaginativo de mudança de regras seria vender produtos de perovskita para aplicações em que o si- lício não pode competir, como filmes, ou películas, que pudes- sem ser integrados diretamente em materiais de construção para paredes, telhados e janelas.
SOLUÇÃO HÍBRIDA
com 20% de eficiência, reduzindo consideravelmente a quantida- de de espaço de telhado ou terreno, materiais de instalação, mão de obra e equipamentos. A Oxford Photovoltaics, a empresa spin- -off de Snaith, está formando parcerias com produtores tradicio- nais de células de silício para aumentar a eficiência desse mate- rial com um revestimento de perovskita sobre a célula de silício; a companhia visa a produção-piloto das células em tandem este ano ainda. Mais adiante, revestimentos solares baratos integra- dos em materiais de coberturas ou envidraçamento poderiam transformar toda a estrutura de custo de um edifício alimentado por energia solar.
SENTIDO INVERSO
A rápida ascensão de células solares de perovskita inspirou
cientistas e engenheiros a criar outros tipos de produtos proto- típicos que, algum dias talvez também cheguem ao mercado. Trabalhando com nossos colegas da Universidade de Cambrid- ge, no Reino Unido, recentemente criamos diodos emissores de luz
(LEDs) e lasers utilizando perovski- tas de haletos metálicos, que emitem luz de forma eficiente (em vez de ab- sorvê-la) através de um processo chamado luminescência. Essa reviravolta não é realmente surpreendente: quando operada em sentido inverso, a célula solar mais eficiente do mundo, de arsenieto de gálio, funciona como um LED. Lasers, LEDs baratos e imprimíveis pode- riam levar a aplicações interessantes e intrigantes, de iluminação em larga escala a imageamento médico. A pesquisa sobre esses produtos
inéditos é incipiente, é claro, mas acreditamos que ela se tornará mais popular. As perovskitas fa- zem cientistas se sentir como crianças em uma loja de doces; encontramos um material cujas propriedades preenchem qua- se todos os requisitos em nossa lista de desejos, inclusive alta eficiência, baixo custo, peso leve, flexibilidade e apelo estético. Será preciso um esforço global, orquestrado, por parte de cien- tistas (acadêmicos), indústrias e governos para entender plena- mente o potencial que as perovskitas têm para ir além da era do silício. Mas, em vista da recompensa ou do prêmio — energia barata, limpa e a próxima geração de dispositivos eletrônicos —, acreditamos que perovskitas são uma boa aposta.
Encontramos um material cujas propriedades preenchem quase todos os requisitos em nossa lista de desejos
Por enquanto, a melhor chance de perovskitas chegarem ao merca- do talvez seja como aliadas em vez de concorrentes do silício. Perovski- tas poderiam literalmente pegar ca- rona no sucesso do silício, conquis- tando sua entrada num mercado de US$ 50 bilhões. Uma aliança desse tipo poderia ocorrer ao se acrescentar uma camada de perovskita diretamente sobre outra de silício, criando assim uma célula solar em tandem, ou conjugada. Pero- vskitas são boas em aproveitar as co-
res mais energéticas da luz solar, como azul e ultravioleta, que o silício não consegue captar, geran-
do uma voltagem muito maior em elétrons. Pesquisadores da Universidade Stanford e do MIT recente- mente colocaram uma célula de perovskita sobre outra, selada, de silício e elevaram a eficiência original do silício de 11% para 17%. Eles também montaram uma célula em tandem ao deposi- tarem perovskita sobre silício não selado, criando uma única estrutura. Essa combinação só atingiu 14% de eficiência, mas esse número certamente poderia melhorar com aprimoramen- tos de fabricação. Com base nos dois experimentos, os pesquisadores esboçaram um cenário em que uma célula em tandem feita com um compo- nente estado da arte de silício e um dispositivo igualmente estado da arte de perovskita, combinados por engenharia inteligente, poderia ultrapassar 30% de eficiência sem qualquer mudança ra- dical em qualquer uma das tecnologias. Se um painel solar em tandem pudesse alcançar uma eficiên- cia de 30%, o impacto no custo do equilíbrio de sistema poderia ser enorme: somente dois terços (60%) do número de painéis se- riam necessários para produzir a mesma quantidade de energia
PARA CONHECER MAIS
Samuel D. Stranks e Henry J. Snaith em Nature Nanotechnology, vol.10, págs. 391–402; maio de 2015. Nam Joong Jeon et al. em Nature, vol. 517, págs. 476–480; 22 de janeiro de 2015. Martin A. Green, Anita Ho-Baillie e Henry J. Snaith em , vol. 8, págs. 506–514; julho de 2014.
58 Scientific American Brasil | Agosto 2015
MATEMÁT ICA
O resgate do Teorema Enorme
Antes de morrerem, matemáticos correm contra o tempo para as próximas gerações compreenderem as 15 mil páginas de uma misteriosa demonstração
Foto de Zachary Zavislak
Stephen Ornes
www.sciam.com.br 59
escreve sobre tópicos de matemática Sophie Germain para jovens foi publicada em 2008. Vive em Nashville, Tennessee
MA VARIEDADE APARENTEMENTE INFINITA DE COMIDA ESTAVA ESPALHADA PELAS várias mesas da casa de Judith L. Baxter e seu marido, o matemático Ste- phen D. Smith, em Oak Park, Illinois, em uma sexta-feira fria de setem- bro de 2011. Canapés, almôndegas caseiras, pratos de queijo e camarões grelhados em espetos além de doces, patês, azeitonas, salmão com rami- nhos de endro e queijo feta envoltos em berinjela. As alternativas de so- bremesa incluíam – mas não se limitava a – um bolo de limão com mas- carpone e um bolo de abóbora africano. O sol se pôs, a champanhe fluía, e as 60 pessoas, metade de- las matemáticos, comiam e bebiam e depois comiam um pouco mais.
Aquela festa comemorava uma realização de alcance colos- sal. Quatro matemáticos no jantar – Smith, Michael Aschba- cher, Richard Lyons e Ronald Solomon – tinham acabado de publicar um livro, com mais de 180 anos de preparação, que deu uma visão mais ampla do maior problema de divisão na história da matemática. Esse tratado não estava em nenhuma lista dos mais vendidos, o que era compreensível, dado o seu título: A classificação dos gru- pos finitos simples. Mas para algebristas, o tomo de 350 páginas foi um marco. Era a versão curta, um guia, dessa classificação uni- versal. A prova plena alcança cerca de 15 mil páginas – alguns di- zem que esse número é mais perto de 10 mil – que estão espalha- das por centenas de artigos de mais de 100 autores em periódicos científicos. A afirmação que ele apoia é conhecida, de forma bem adequada, como o Teorema Enorme. (O teorema em si é bastante simples. A prova é que é gigantesca.) A cornucópia na casa de Smi- th parecia uma forma adequada de honrar esse gigante. Essa é a maior prova de um teorema na história da matemática.
E agora ela está em perigo. Os trabalhos de 2011 apenas a es- boçam. O peso incomparável da documentação real a coloca na borda oscilante do bom gerenciamento humano. “Eu não co- nheço ninguém que tenha lido tudo”, diz Solomon, 66 anos, que estudou a prova por toda a sua carreira. (Ele se aposentou da Universidade Estadual de Ohio há dois anos.) Solomon e os ou- tros três matemáticos homenageados na festa podem ser as úni- cas pessoas vivas hoje que entendem a prova, e suas idades avançadas têm deixado a todos preocupados. Smith tem 67 anos, Aschbacher tem 71 e Lyons tem 70. “Estamos todos fican- do velhos agora, e queremos escrever todas essas ideias antes que seja tarde demais”, diz Smith. “Podemos morrer, ou nos apo- sentar, ou apenas esquecer.” Essa perda seria, sim, enorme. Em poucas palavras, o traba- lho traz ordem para a teoria de grupos, que é o estudo matemáti- co de simetria. A pesquisa em simetria, por sua vez, é essencial para áreas científicas como a física de partículas moderna. O Mo- delo Padrão – a pedra angular da teoria que estabelece todas as
em matemática apoia a noção de que a simetria no Universo pode ser dividida em quatro categorias.
EM SÍNTESE
de artigos de mais de cem autores abrangem as refe- rências do chamado o Teorema Enorme.
que entendem essa prova temem que morrerão antes de novas gerações virem a compreendê-la.
de resgate para racionalizar a prova e salvá-la antes que o conhecimento desapareça.
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Estado inicial
Eixo de rotação Face-alvo ( pintada )
Faces
Existem três pares de faces opostas. Para cada eixo conectando um par, há três possíveis rotações: 90° para um lado, 90° para outro e uma indo 180°, resultando em nove rotações simétricas.
Arestas
Porque o cubo tem 12 arestas, existem seis pares de arestas opostas. Um eixo conectando cada um desses pares pode girar apenas 180° e manter a simetria, produzindo assim seis rotações.
Cantos
O cubo tem oito
cantos, por isso há
quatro pares opostos. Cada eixo de ligação tem duas possíveis rotações para manter
o cubo simétrico:
120° para um lado ou
120° para o outro mais oito rotações.
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90° |
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SIMETRIA DO CUBO
Girar, girar, girar
Para entender a teoria de grupos – e como a sime- tria faz parte dela – voltemos nossa atenção a um cubo. O cubo tem seis faces, e você pode girar qual- quer uma delas e o cubo parecerá o mesmo – ao menos enquanto você não pintar as faces – quando tiver terminado de girar. Há 24 possíveis rotações que preservam a simetria do cubo. O número limita- do de rotações torna essa simetria, matematica- rotações, siga os passos neste diagrama. Para mos- trar as rotações, colocamos um eixo imaginário entre cada par de características opostas, ou simé- inicial, ou posição um, a face-alvo está mais próxima de você. Em seguida, o cubo roda em torno de cada eixo (como mostrado por uma aba dentro do cubo e uma seta) para ilustrar a cada nova posição que o cubo mantém a simetria. Há 23 movimentos que podem ser adicionados ao inicial.
120°
120°
180°
180°
120°
120°
Ilustração de Nigel Holmes
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partículas conhecidas na existência, as já encontradas
e aquelas a serem ainda encontradas – depende das
ferramentas fornecidas pela teoria de grupos. Gran- des ideias sobre simetria nas menores escalas ajuda- ram os físicos a descobrir as equações utilizadas em experimentos que revelariam partículas fundamen- tais exóticas, como os quarks, que se combinam para formar os bem conhecidos prótons e nêutrons.
A teoria de grupos também levou os físicos à ideia
inquietante de que a própria massa – a quantidade de matéria em um objeto, como esta revista, você e tudo o que você pode segurar e ver – surgiu devido a uma que- bra de simetria em algum nível fundamental. Além dis- so, essa ideia apontou o caminho para a descoberta da partícula mais celebrada nos últimos anos, o bóson de
Higgs, que pode existir apenas se simetria quebrar nas escalas quânticas. A noção desse corspúsculo nasceu da teoria de grupos na década de 1960, mas ele só foi descoberto em 2012, depois das experiências no Gran- de Colisor de Hádrons, perto de Genebra.
A simetria é o conceito de que certos objetos po-
dem passar por uma série de transformações – girar,
se dobrar, se refletir, se mover pelo tempo – e, ao final de todas elas, permanecerem inalterados. Ela está em todo o Universo, da configuração do quark ao ar- ranjo das galáxias no Cosmos.
O Teorema Enorme demonstra com precisão mate-
mática que qualquer tipo de simetria pode ser quebra- do e agrupado em uma entre quatro famílias, de acor- do com características comuns. Para matemáticos de- dicados ao estudo rigoroso da simetria, ou teóricos de grupos, o teorema é uma realização não menos arreba- tadora, importante ou fundamental do que é a tabela periódica dos elementos para os químicos. No futuro, ele pode levar a outras descobertas profundas sobre o tecido do Universo e a natureza da realidade. Exceto, evidentemente, que ele é uma bagunça: as equações, corolários e conjecturas da prova estão es- palhados em meio a mais de 500 artigos de revistas, alguns enterrados em grossos volumes, cheios de
uma mistura de grego, latim e outros caracteres utili- zados na densa linguagem da matemática. Adicione
a isso o caos advindo do fato de que cada colaborador escreve em seu próprio estilo idiossincrático.
Essa confusão é um problema porque, sem todos os pedaços da prova na posição correta, a totalidade treme. Para efeito de comparação, imagine os dois milhões de pedras da grande pirâmide de Gizé espalhados a esmo em um trecho do Saara, com apenas algumas pessoas que saibam como elas se encaixam. Sem uma prova acessível do Te- orema Enorme, futuros matemáticos teriam duas alternativas muito perigosas: simplesmente confiar na prova sem saber muito sobre como ela funciona ou reinventar a roda. Nenhum
matemático jamais estaria confortável com a primeira opção, e
a segunda seria quase impossível.
T I P O S
D E
S I M E T R I A
Quatro famílias enormes
As simetrias podem ser quebradas em unidades básicas. Conhecidas diferentes combinações para formar simetrias maiores e mais complicadas. O Teorema Enorme organiza esses grupos em quatro famílias. Embora sua prova seja enorme, o próprio teorema é apenas uma frase que lista todos os - - ples esporádicos”. GRUPOS CÍCLICOS estiveram entre os primeiros blocos de construção a serem categorizados.Vire um pentágono regular em um quinto de um círculo, ou 72 o , e ele parecerá inalterado. Gire-o cinco vezes, e você estará de volta no início. Gru- número primo de elementos. Os grupos cíclicos com mais de dois números pares de membros podem ser divididos ainda mais, logo, eles não são simples. GRUPOS ALTERNANTES vêm da alternância dos membros de um conjunto. Um grupo completo de simetrias contém todas as permutações, ou comutações. Mas um grupo alternante contém apenas metade deles – os que têm um número par de comutações. Por exemplo, digamos que você tenha um conjunto de três
(1, 3, 2), (2, 1, 3), (2, 3, 1), (3, 1, 2) e (3, 2, 1). O grupo alternante contém três delas. Em termos de simetria, cada um destes arranjos pode corresponder a uma sequência de simetrias (isto é, gire o cubo, em seguida, sobre o seu lado, e assim por diante). GRUPOS DO TIPO LIE , nomeado em homenagem a Sophus Lie, matemáti- rotações de um espaço em si que não mudam seu volume. Por exemplo, exis- palavras, a rosquinha em um grupo do tipo de Lie permite apenas um núme- - sas triviais três dimensões. Pronto para falar sobre as simetrias que surgem em um espaço de 15 dimensões? Então olhe para os grupos a seguir. GRUPOS ESPORÁDICOS compõem a família de “errantes”. Eles incluem 26 aberrações que não se alinham perfeitamente com as outras famílias. (Imagi- ne isso como se a tabela periódica dos elementos tivesse uma coluna de “ele- mentos hereges”.) O maior d esses grupos esporádicos, chamado de o Mons- tro, tem mais de 10 53 196.883 dimensões. É desconcertante e bizarro, e ninguém realmente sabe o esperança, uma esperança sem o apoio de quaisquer fatos ou qualquer evi- dência”, escreveu o físico Freeman Dyson em 1983, “que em algum momento no século 21 os físicos tropeçarão no grupo do Monstro, construído de algu-
ma forma insuspeita na estrutura do Universo.”
O esboço de 2011 elaborado por Smith, Solomon, Aschbacher e Lyons era parte de um ambicioso plano de sobrevivência para tornar o teorema acessível para a próxima geração de matemáti- cos. “Até certo ponto, a maioria das pessoas nos dias de hoje tra- ta o teorema como uma caixa-preta”, lamenta Solomon. O gros- so desse plano exige uma linha de prova que junta todas as pe- ças díspares do teorema. O plano foi concebido há mais de 30 anos e está terminado agora apenas pela metade. Se um teorema é importante, sua prova também o é dupla-
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mente. Uma prova estabelece a confiabilidade honesta de um teorema e permite que um mate- mático convença outro, mesmo quando separa- dos da verdade de uma declaração por conti- nentes ou por séculos. Além disso, essas decla- rações geram novas conjecturas e provas, do mesmo modo que o coração colaborativo da ma- temática remonta a milênios. Inna Capdeboscq, da Universidade de War- wick, na Inglaterra, é um dos poucos pesquisa- dores mais jovens a mergulhar no teorema. Aos 44 anos, de fala mansa e confiante, ela se ilumi- na quando descreve a importância de verdadei- ramente compreender como o Teorema Enorme funciona. “O que é uma classificação? O que sig-
nifica dar-lhe uma lista?”, ela pondera. “Sabemos
o que é cada objeto dessa lista? Caso contrário, a lista será apenas um monte de símbolos.”
SEGREDOS PROFUNDOS DA REALIDADE
Os matemáticos começaram a sonhar com a
AO RESGATE (a partir da esquerda): Os matemáticos Ronald Solomon, Richard Lyons, Michael Aschbacher e Stephen D. Smith temem que podem ser as últimas pessoas a compreender a prova um tanto sem coerência do Teorema Enorme, a menos que criem uma versão simplificada.
prova pelo menos desde a década de 1890, quando um campo novo chamado teoria de grupos tomou forma (ver quadro na página ao lado). Em mate- mática, a palavra “grupo” se refere a um conjunto de objetos li- gados uns aos outros por alguma operação matemática. Se você aplicar essa operação a qualquer membro de um grupo, o resul- tado ainda será outro membro desse mesmo grupo. Simetrias, ou movimentos que não mudam a aparência de um objeto, se encaixam nessa conta. Considere, como exemplo, que você tenha um cubo com todos os lados pintados da mesma
cor. Gire o cubo 90 o – ou 180 o ou 270 o – e o cubo se parecerá exa- tamente como quando você começou. Vire-o de cima para baixo,
e ele ainda parecerá inalterado. Saia do quarto onde você está e
deixe um amigo entrar e girar ou jogar o cubo – ou executar qualquer combinação de giros que ele quiser – e quando você voltar, você não saberá o que seu amigo fez com o cubo. Ao todo, existem 24 rotações distintas que deixam um cubo inalterado. Essas 24 rotações formam um grupo finito. Os grupos finitos simples são análogos a átomos. Eles são unidades básicas para a construção de outras coisas, maiores. Grupos finitos simples se combinam para formar grupos fini- tos maiores e mais complicados. O Teorema Enorme organiza esses grupos da mesma forma que a tabela periódica organiza os elementos. Ele diz que todo grupo finito simples pertence a uma de três famílias – ou a uma quarta família cujos mem- bros exibem comportamentos selvagens. Os maiores desses membros, chamados de monstros, têm mais de 10 53 elemen-
tos e existem em 196.883 dimensões. (Há ainda todo um cam- po de pesquisa chamado “monstrologia” em que pesquisado- res procuram sinais da besta em outras áreas da matemática e das ciências.) Os primeiros grupos finitos simples foram iden- tificados em 1830, e na década de 1890 matemáticos fizeram novos avanços para encontrar mais desses blocos de constru- ção. Os teóricos também começaram a suspeitar que todos os
grupos poderiam ser colocados juntos em uma grande lista. Os matemáticos no início do século 20 lançaram as bases para o Teorema Enorme, mas as entranhas da prova não se ma- terializaram até meados daquele século. Entre 1950 e 1980 – um período que o matemático Daniel Gorenstein, da Universidade de Rutgers, chama “Guerra dos Trinta Anos” – o campo da teoria de grupos avançou mais do que nunca, quando encontrados vá- rios grupos finitos simples e agrupando-os em famílias. Esses matemáticos empunhavam manuscritos de 200 páginas como facões algébricos, cortando pequenos resumos para revelar as mais profundas fundações da simetria. (Freeman Dyson, do Ins- tituto de Estudos Avançados de Princeton, em Nova Jersey, refe- riu-se a esse período de descoberta dos estranhos e belos grupos como um “magnífico jardim zoológico.”) Aqueles eram tempos inebriantes: Richard Foote, então estu- dante de pós-graduação na Universidade de Cambridge e agora professor da Universidade de Vermont, uma vez encontrava-se em um escritório inóspito e testemunhou dois teóricos famosos – John Thompson, agora na Universidade da Flórida, e John Conway, hoje na University de Princeton – esmiuçando os deta- lhes de um grupo particularmente difícil de manejar. “Foi incrí- vel, como dois titãs com relâmpagos saindo de seus cérebros”, recorda Foote. “Eles pareciam nunca se perder em alguma técni- ca absolutamente maravilhosa e totalmente divertida para fazer alguma coisa. Foi de tirar o fôlego.” Foi durante essas décadas que dois dos maiores marcos da prova ocorreram. Em 1963, um teorema estabelecido pelos mate- máticos Walter Feit e John Thompson fornecera uma receita para encontrar mais grupos finitos simples. Após essa descober- ta, em 1972, Gorenstein estabelecera um plano de 16 passos para provar o teorema. O enorme projeto colocaria, de uma vez por todas, todos os grupos finitos simples em seu devido lugar.
Ilustração de Stavros Damos
www.sciam.com.br 63
Isso envolvia colocar juntos todos os grupos fini- tos simples conhecidos, encontrar os que faltavam, depois colocar todas as peças em categorias apro- priadas e, finalmente, provar que não poderia haver quaisquer outros. Era grande, ambicioso, indiscipli- nado e, disseram alguns, implausível.
O HOMEM COM O PLANO
No entanto, Gorenstein era um algebrista caris-
mático, e sua visão energizou um novo grupo de ma- temáticos – com ambições nem simples nem finitas
– que estavam ansiosos para deixar sua marca. “Ele
era uma grande personalidade”, diz Lyons, que está na Rutgers. “Ele era tremendamente agressivo na forma como concebia os problemas e as soluções. E ele era muito persuasivo em convencer outras pes- soas a ajudá-lo.” Solomon, que descreve seu primeiro encontro com a teoria de grupos como “amor à primeira vis- ta”, conheceu Gorenstein em 1970. A Fundação Na- cional da Ciência estava hospedando um instituto
de verão em teoria de grupos no Bowdoin College, e
T E O R I A
D E G RU P O S
A matemática das conexões
As origens da teoria de grupos estão inextricavelmente ligadas à tragédia. Elas começaram no século 19, com Évariste Galois, um revolucionário francês impulsivo cuja paixão para derrubar a monarquia de seu país era tão grande quanto sua paixão por avançar a matemática o mais longe possível. Em sua adolescência, Galois explo- rou formas inovadoras de resolver equações, que o levaram a encontrar pontes entre campos distintos da matemática – quando ele não estava na prisão, claro. Galois foi brilhante, mas não teve sorte. Morreu com a idade de 20 anos em 1832, vítima de um tiro no estômago recebido durante um duelo por um interes- se amoroso. Os historiadores têm especulado que o duelo pode ter sido uma ten- tativa de assassinato, ou um suicídio encenado, ou um trágico exemplo dos peri- gos de um amor não correspondido. Mas estudos recentes sugerem que apenas uma das pistolas estava carregada, e esta não era a empunhada pelo jovem gênio. “Eu morro vítima de uma coquete infame e seus dois tolos”, ele escreveu em uma carta uma noite antes do duelo. Em outra carta escrita naquela mesma noite, ele expôs muitas de suas ideias sobre grupos. Ao longo do próximo século
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a cada semana matemáticos consagrados eram convidados a |
moldar uma grande revisão, uma apresentação mais acessível |
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para o campus para dar uma palestra. Solomon, que na época a sua lista de grupos finitos simples está completa. Isso significa e |
organizada, que seria a chamada prova de segunda geração. |
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era estudante de pós-graduação, recorda a visita de Gorenstein vividamente. Aquela celebridade matemática, recém-chegada de sua casa de veraneio em Martha’s Vineyard, era eletrizante na aparência e na mensagem que passava. “Eu nunca tinha visto um matemático em calças cor-de-rosa- -vivo antes”, Solomon lembra. Em 1972, diz Solomon, a maioria dos matemáticos pensava que a prova não seria dada antes do final do século 20. Mas no prazo de quatro anos, o fim estava próximo. Gorenstein credi- tou, em grande parte, os métodos inspiradores e ritmo febril de Aschbacher, que é professor no Instituto de Tecnologia da Cali- fórnia, para acelerar a conclusão da prova. Uma razão pela qual a prova é tão grande é que ele prevê que |
Seus objetivos eram dispor sua lógica e evitar que as futuras ge- rações tivessem de reinventar os argumentos, diz Lyons. Além disso, o esforço reduziria as 15 mil páginas da prova para algo em torno de 3 mil ou 4 mil. Gorenstein imaginou uma série de livros que recolheriam or- denadamente todas as peças díspares e dinamizaria a lógica fer- renha sobre idiossincrasias além de eliminar as redundâncias. Na década de 1980, a prova era inacessível para todos, exceto para os veteranos que a estavam forjando. Os matemáticos ha- viam trabalhado nela por décadas, apesar de tudo, e gostariam de compartilhar seu trabalho com as gerações futuras. A prova de segunda geração daria a Gorenstein um caminho para ame- nizar suas preocupações de que seus esforços seriam perdidos em meio a livros pesados em bibliotecas empoeiradas. |
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que a lista inclui todos os blocos de construção possíveis, e não há mais nada. Muitas vezes, provar que algo não existe – como provar que não há outros grupos – é mais trabalhoso do que provar que algo existe. Em 1981, Gorenstein declarou que a primeira versão da pro- |
Gorenstein não viveu para ver a última peça ser colocada no lugar, muito menos para erguer uma taça na casa de Smith e Baxter. Ele morreu de câncer de pulmão em Martha’s Vineyard em 1992. “Ele nunca parou de trabalhar”, Lyons lembra. “Tive- mos três conversas um dia antes de ele morrer, tudo sobre a pro- |
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va estava terminada, mas sua comemoração foi prematura. Um grupos que quebrariam as regras. Até agora essas reivindicações |
va. Não foram despedidas ou nada; tudo era negócio.” |
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problema surgiu com um pedaço de 800 páginas, particular- mente espinhoso, e foi preciso algum debate para resolvê-lo |
PROVANDO NOVAMENTE |
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com sucesso. Ocasionalmente, matemáticos reivindicam terem encontrado outras falhas na prova ou terem encontrado novos falharam em derrubar a prova, e Solomon diz que está bastante confiante de que ela sobreviverá. Gorenstein logo percebeu quão espalhada, emaranhada e desorganizada a documentação do teorema tinha se tornado. Isso foi o produto de uma evolução aleatória. Assim, ele persua- diu Lyons – e em 1982 os dois emboscaram Solomon – a ajudar |
O primeiro volume da prova de segunda geração apareceu em 1994. Era um texto mais expositivo do que de matemática padrão e incluía apenas duas das 30 seções propostas que abrangeriam inteiramente o Teorema Enorme. O segundo volu- me foi publicado em 1996, e os subsequentes continuaram a aparecer – o sexto apareceu em 2005. Foote diz que as peças da segunda geração se encaixam me- lhor do que os blocos originais. “Os componentes que aparece- ram estão escritos de forma mais coerente e mais bem organiza- |
64 Scientific American Brasil | Agosto 2015
que ele é difícil de prever”, observa Solomon. “Gê- nios virão juntamente com ideias que ninguém da nossa geração teve. Há essa tentação, esse desejo e sonho, que alguma compreensão mais profunda ainda esteja lá fora.”
A PRÓXIMA GERAÇÃO
homem morrendo. Dentro de décadas, tornou-se um campo bem estabelecido. estão ligados por alguma operação. Os números inteiros, por exemplo, fazem um
grupo ligado por meio da adição. Rotações de uma forma geométrica que preserva
a sua aparência também formam um grupo (ver artigo principal). A química usa a
teoria do grupo para descrever simetrias de um cristal ou de uma estrutura mole- cular, o que é fundamental para a compreensão das propriedades físicas de um material. E a matemática usada em elaboração e quebra de códigos, como os usa- Após a morte de Galois, os matemáticos correram para construir, desconstruir
e estudar grupos. Primeiramente, pode ter parecido um exercício abstrato, mas
no início do século 20 a matemática Emmy Noether encontrou uma conexão entre simetria – isto é, teoria de grupos – e as leis de conservação da física. (A energia não pode ser destruída ou criada, por exemplo.) Seu brilhante trabalho pavimentou o caminho para físicos teóricos usarem a teoria de grupos para com- preender melhor a simetria subjacente às partículas fundamentais – e para pre-
ver a existência de muitas outras que ainda não tinham sido d escobertas. A teoria de grupos cresceu além dos limites das coisas misteriosas e se tornou uma ferra-
menta poderosa para compreender o tecido da realidade.
dos”, diz ele. “Numa perspectiva histórica, é importante ter a prova em um único lugar. Caso contrário, torna-se uma espécie de folclore, em certo sentido. Mesmo se você acreditar que há uma prova, torna-se impossível de verificar.” Solomon e Lyons estão terminando o sétimo livro neste ve- rão, e um pequeno grupo de matemáticos já fez incursões no oi- tavo e nono. Solomon estima que a prova simplificada terá 10 ou 11 volumes, o que significa que apenas um pouco mais do que metade da prova revisada foi publicada. Solomon observa que os 10 ou 11 volumes ainda não cobrirão totalmente a prova de segunda geração. Mesmo a nova e simpli- ficada versão inclui referências a volumes suplementares e a teoremas anteriores, provados em outros lugares. Em alguns as- pectos, é essencialmente a natureza cumulativa da matemática:
cada prova é um produto não só de seu tempo, mas de todos os milhares de anos de pensamento que vieram antes. Em um artigo de 2005 na Notices of the American Mathema- tical Society, o matemático E. Brian Davies, do King’s College London, apontou que a “prova nunca foi escrita em sua totalida- de, pode nunca ser escrita, e como se prevê atualmente, não se- ria compreensível para qualquer pessoa sozinha”. Seu artigo trouxe a ideia desconfortável de que alguns esforços matemáti- cos podem ser demasiado complexos para serem entendidos por meros mortais. As palavras de Davies levaram Smith e seus três coautores a montar o livro, comparativamente conciso, que foi celebrado na festa em Oak Park. A prova do Teorema Enorme pode estar além do escopo da maioria dos matemáticos – para não falar de amadores curiosos – mas seu princípio organizador fornece uma ferramenta valio- sa para o futuro. Os matemáticos têm um hábito de longa data de provar verdades abstratas décadas, se não séculos, antes de elas se tornarem úteis fora do campo da matemática. “Uma coisa que faz com que o futuro seja interessante é
Essas décadas de pensamento profundo não só avançaram a prova; eles construíram uma comu- nidade. Judith Baxter – especializada em matemá- tica – diz que essa turma de teóricos forma um grupo social incomum. “As pessoas da teoria de grupos são muitas vezes amigas ao longo da vida inteira”, ela observa. “Você as vê em reuniões, via- ja, vai a festas com elas, e é realmente uma comu- nidade maravilhosa.” Não é de surpreender, que esses matemáticos que viveram a emoção de terminar a primeira ite-
ração da prova estejam ansiosos para preservar suas ideias. Assim, Solomon e Lyons têm recruta- do outros matemáticos para ajudá-los a termina- rem a nova versão e preservá-la para o futuro. Isso não é fácil: muitos matemáticos mais jovens veem a prova como algo já feito, e eles estão ansiosos por algo diferente. Além disso, trabalhar em reescrever uma prova já estabeleci- da requer um tipo de entusiasmo imprudente para a teoria de grupos. Solomon encontrou em Capdeboscq uma devota fami- liar para o campo, uma de um punhado de matemáticos mais jo- vens carregando a tocha para a conclusão da prova de segunda geração. Ela se encantou pela teoria de grupos depois de assistir a uma aula de Solomon. “Para minha surpresa, eu me lembro de ter lido e feito os exercícios e pensado o quanto tinha adorado. Foi lindo”, diz Capdeboscq. Ela foi “viciada” em trabalhar na prova de segunda geração depois de Solomon pedir sua ajuda para descobrir algu- mas das peças faltantes que acabariam se tornando parte do sexto volume. Racionalizar a prova, diz ela, permite que matemáticos procurem abordagens mais simples para problemas difíceis. Capdeboscq compara o esforço a refinar um rascunho. Ele, Lyons e Solomon colocaram o plano, mas ela diz que é seu traba- lho, e também o de alguns outros jovens, ver todas as peças caí- rem em seus devidos lugares: “Temos o roteiro, e se o seguirmos, ao final a prova deverá sair.”
PARA CONHECER MAIS
Mark Ronan. Oxford University Press, 2006. Mario Livio. Simon & Schuster, 2005. Ronald Solomon em Bul- letin of the American Mathematical Society, vol. 38, n o 3, páginas 315 a 352, 2001. www.
ams.org/journals/bull/2001-38-03/S0273-0979-01-00909-0
Daniel Gorenstein em A Century of Mathematics in America, Parte I. Organizado por Peter Duren, com a assistência de Richard A. Askey e Uta C. Merzbach. American Mathematical Society, 1998. www.ams.org/samplings/math-history/hmath1-gorenstein33.pdf
www.sciam.com.br 65
FONTE: KAI KRAUSE
CIÊNCIA EM GRÁFICO
Portugal
O tamanho real da África
Mapas planos mais comuns mostram o continente muito menor do que é
Em um mapa-múndi plano, a Groenlân- dia parece ser tão grande quanto a África, que na verdade é 14 vezes maior. A distor- ção surgiu de um método matemático, conhecido como projeção de Mercator, que converte a superfície esférica da Terra em um prático retângulo bidimensional. O resultado é que as áreas das superfícies continentais ficam mais superdimensiona- das à medida que se aproximam dos polos. A África deveria ser mostrada como maior do que muitos grandes países juntos. Para corrigir essa distorção, Kai Krause, desig- ner e autor, elaborou um quebra-cabeça para mostrar as verdadeiras relações entre massas continentais (acima). Saber a ver- dadeira dimensão da África nos ajuda a entender como pode ser difícil resolver os problemas de pobreza e seca desse enorme continente. – Mark Fischetti
66 Scientific American Brasil | Agosto 2015
Suíça
Bélgica
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15°
Equator
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Gráfico de Bryan Christie e Kai Krause
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