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A IMIGRAGAO OU OS PARADOXOS DA ALTERIDADE ABDELMALEK SAYAD R$ 6,40 Prefiicio Pierre Bourpizu Tradugio Crisriva Muractico pers ts frre i is URRY wu O “PECADO” DA AUSENCIA OU OS EFEITOS DA EMIGRAGAO* Por durar tanto, por se generalizar a ponto de se tornar um dado estrutural de todos os paises desenvalvidos ¢, mais fundamentalmente, por se instituciona- lizar sob a forma da oposigio intrinseca cntre um miundo da emigragao (que tende a se confundir com o mundo do subdesenvolvimento) ¢ 0 mundo da imigragio (mundo identificado com 0 mundo desenvolvido) e, dessa forma, por se univer- salizar, a imigragaio acabou por constituir-se em sistema. sistema assim como a colonizagao, segundo se disse, formava um sistema': é sistema porque € igual- mente dotada de uma légica propria, porque tem seus efeitos © stias causas prd~ mento © de per prias, bem como suas condigées quase auténomas de luncior petuagao. A dupla evolugao que caracteriza © proceso migratério na sua forma atual, a saber, por uma parte, na cena intemacional, a oposigao nitida, como nun + A primeira versio deste texto, que foi ligeiramente modificado e principalmente aumentado, foi publi ia em Anthrapologia medica (Trieste, n. 4, jul. 1988, pp. 50-69). Introduzinnos nesta nova publica. G40 a (nlegra da entrevista “Lienguéte: moyen de communication et d’auto-communication ct moyen analyse et d'auto-analyse”, tal como havia sido inserida no relatsrio de pesquisa "Les formes interruption ow de cessation da travail", contsibuiglo ao contrato de conhecimento CNRS-RNUR (con: rato n, 1ODL-41O/CNRS 10), Les O. 8, dans Vindustrie antamabile (jan. 1986), {. Além da série de analogias que podemos perceber entre 0s dois fendmenos ~ analogias de orden his- {rica (a imigragao é frequentemente filha da colonizagio direta ov indireta) ¢ analogias de estrutura (a imigragao, atwalmente, ocupa na ordem das relagGes de dominagio o lugar ocupado outrora pela colo- nizagdo) a imigraglo erigiu-se, de certa forma, em sistema do mesmo modo como se dizin que colonizagio é um sistema” (segundo a expressao de Sartre) ABDELMALEK SAYAD, 106, ca aconteceu antes, entre um mundo da emigragio e um mundo da imigragios e, por outva parte, em cada um dos paises de imigragao, a tendéneia, sem dhivida desigual mas presente por toda parte, do mercado de trabalho, em parte sob 0 cleito da imigragao, a dividir-se em dois polos (um mercado de trabalho qualifi- cado € de wabalho de qualidade para trabalhadores nacionais e um mercado de traballios subqualificados ou de menor qualilicagao técnica e social para trata] Ihadores imigrantes), essa dupla evolucao que governa o fendmeno migratério, constitu o mecanismo gue contribui mais fortemente para crigir a imigragio em , sem diivida, a manifestagdo mais visivel desse efeito de verdadeiro sistema, sistema reside na identilicagao quase completa efetuada em determinados car- gos de determinados ramos de atividade ou de determinadas indiistrias (notada- mente as maiores usudrias de mio-de-obra imigrante) entre a condigdo de imi- grante (que, em sua forma mais acabada, é a0 mesmo tempo de ordein juridica ¢ ial, excluindo-se a social mas que, cada vez mais, pode ser apenas de ordem so io de O. S. (operdrio sem especializagaio), duas con- (0 encontradas simultaneamente e também prioritaria- uma $6, tendem a se tomar uma dupla codigo encar- E na medida em que se reforga ¢ se acelera a evolugao ‘silo so- ordem juridica) e a condi digdes que , agora que mente, tendem a forma nada nas mesmas pessoa: que levou a essa redundancia, ou na medida em que se acentuam a di cial do trabalho entre mao-de-obra “nacional” (a quem se dé cada vex menos esse nome, adotando-se alids 0 de “pessoal") € mio-de-obra imigrante — sendo que esta deixou hé muito (empo de ser apenas uma méo-de-obra complementar para (ornar-se uma méo-de-obra estrutural, uma mao-de-obra de substituigdo ~ e tam- bém, paralelamente 4 esta primeira divisio, a divisio técnica dos cargos segun- do © nivel de qualificagao exigido, sendo que esta tiltima divisio é cm parte res- ponsdvel pela anterior na medida em que aumenta a concentragho acumulada dos trabalhadores imigrantes ao mesmo (empo em determinadas atividades (como, por exemplo, o setor do B. T. P., trabalho em linha de produgio ou o que dele a resta 1 indistria automotiva etc.) e, nessas atividades, nos niveis de qualifi go mais baixos (os niveis de O. S., de agentes de produgio, segundo a nova terminologia c, de forma mais ampla, todos aqueles que cram outrora chamados de trabalhadores bragais)’, tudo isso ter contribuido para que as condigdes dis- 2. Ba propria légiea do recurso a imigragso ou, para dizer de outa forma, a regra prépria ao mereado de Ueabalho quando se prove de trabalhadores imigrantes, ou seja, de mao-de-obra soviatmemte politica mente) domninada que faz com que se precise dessa mio-de-obra imigrante com prioridade para os car 205 € 0s selores de emprego menos procurados em todos os sentidos. Por um efeito de retome, oro quer a légica circolar earacteristica do campo sinnbslico ~ Kégica da atribuigso mntua e da qualificacto reciproca que se jogn entre a posigAo social num campo e os agentes que ocupam essa posigso (e des 0 “PECADO” DA AUSENCIA OU OS EFFITOS DA EMIGRAGAO. intas de dircito, as de imigrante e de operirio, tendessem a sc duplicar ea se ‘forgar mutuamente a ponto de engendrar uma situagio que podemos chamar, segundo a linguagem de E. Gollman, de “totalitiri no apenas nas consciéncias individuais (tanto nos proprios imigrantes. princi pais envolvidos, quanto nos observadores) mas também, em parte, na realidade tnaterial ~ elas 86 0 so nas consciéncias porque ja o so na reatidade —, a con- digdo de imigrante ¢ a condigio de O, S. acabaram por se tornar objetivamente, Totalmente confindidas ou seja, independentemente da vontade de todos os atores ¢ independentomente de lodos os hiatos que se podem constatar entre ela rio pode ter de indissocidveis uma da ou- ra. A representacao subjetiva que cada op sua condigao de imigrante ¢ de sua condigdo de O. S. — representagao que faz, com que ele afir- me que 6 cxistem O. S. imigrantes ¢ que todos os trabalhadon O. S. mesmo quando nao o sio tecnicamente falando (eles 0 sio “socialmente”, imigrantes sio quer © sejam tecnicamente, quer nao) ~, ccrtamente repousa, em grande parte, sobre a experiéncia de cada um; ¢, sem diivida, cla néo seria nada, ndo passavia de artificio e de ilusto (¢ ainda as ilusdes freqiientemente tém efeitos muito re- ais, efeitos que se traduzem na realidade ¢ que fazem a realidade) se nao fosse confirmada material ¢ objetivamente’, E mesmo se essa representagiio fosse ape- Lindos « veupé-la): para os cargos depreciadus, « categoria de msio-de-obra igualimente depreciada; inversamente, pars a eategoria de wndo-cte-obra desqualificada social ¢ tecnicamente (alias mais desqua lificada socialmente do que teenicamente ou desqualificada tecnicamente porque & desqualificada cialmente), « classe de cargos sem qualificagho (técnica ou social) ~, a enlreya quase sistemitica de cargos de O. S. para a mio-de-obra imigrante s6 pode refurgar a depreciagao inicial ligada a esses car- 05 a ponto de acarretar a estigmalizagao miitua de ambos (dos vargos e de seus ocupantes), de uns pelos outros. A légica social que se encontra, assim, em grande parte, nv prinespio da divisio de traba- {ho segundo unin qualificagao, inseparavelmente técnica ¢ social, dos cargos, pode ser pervcbidl ‘és da experiéncia dos trabalhadores imigrantes: eles descobrem, como eles mesmo dizem. que "qian do um de seus companheiros de trabalho, aquele que est4 ae seu Indo, nfo & um imigrante como e hha muitas chances para que seja uma francesa ¢ aio um frawicés" (i e.. sna mulher © nig um honven). Bneontramas neste caso homotogias estrulurnis que so eaacteristicas do mercado de trabalho. Exis escenlam aos “guetos profissionais”. que sio assim constitudos, motives que Thes sio proprios (estruturas demogrdficas, estrutura das empresis, estruturas do emprego, um batho selativamente esireito que se espalha esseucialmente ~ como & 0 caso, por ex plo, na Cérsega — entre a agricultura, a turismo © 9 construgto civil) foram levadas a entregar a execu. Ao da quase tolalidade dos trabalhos manuais que nao requerem muita qualificagao (que sie precisa. mente 0 Lrabathos dos O. S. ¢ equivatentes) a trabalhadores imigrantes No sentido cm que E. Gotfinan fala de “instituigio totalitéria”; ef. \siles, dies sur la condition mentale des malades mentaus, Paris, Ed. de Minuit, 1968, 4. A realidade social e, mais particularmente, os mecanismos sociais que preside todas ns formas de hie. Farquizagho ¢ de selegao sao apenas produlos dessa espécie de dialética (ou de alicia social) ent o que se pode chamar de opariunidades objetivas, essas mesmas que esto inscrilas nas estruluras objetivas da soviedade (nas relagses cle Forga ow nas posigOes de classe inlernas A sociedade) c a representayio sub- etiva que os individuos, segundo 0 capital (cle todo tipo) de que.dispoum segundo a posighe que ocu- tem regides que, porque ac mercado de 107 SBDELMALEK savAD 108 nas produto da subjetividade ou de subjetividades (no plural), o acordo efetuado objetivamente (i, ¢., sem a presenga dos interessados), ou seja, segundo certs condigées sociais partilhadas, ¢ nao como resumo de algum acordo prévio (ou como tm compld), basta para transmutar esse produto “subjetivo” em dado ob- jetivo, sendo que a relagao subjetiva cria muitas vezes, nesses casos, conforme a l6gica propriamente simbélica (i, ¢., a légica do campo simbélico no qual nos situamos em determinada circunstincia), @ realidade dos fatos suciais. Na parti- Iha das posigdes, tdo acontece como se os O. §. 86 pudessem ser tabalhadores imigrantes e, correlativamente, como se todos os trabalhadores imigrantes fos- ou, para dizer as coisas de uma forma diferente ¢ mais sociolégica, a sem 0. § condigao de imigrante ndo deixa de qualificar socialmente o trabalho que 6 cfe- ado ou tuado pelo trabalhador imigrante c, para ser mais verdadeiro, Ihe é rest Ihe cabs. A definigao de O. S. niio ¢ mais, nesse caso, uma definigio estritamen- te técnica, como aparece ou como se usa na taxinomia das qualificagées te Ml. Alias, € assim almente, uma definigiio socia cas; ela 6 mais exatamente, essenci que a percebem muito bem os trabathadores imigrantes que falam, sem nenhum sentimento de estarem se contradizendo, de “contramestre-O. S.”, de “chefes de equipe-O. S.”, de “reguladores-O. 8.” ete. — para nomear, na realidade, um tra- balhador imigrante que é contramestre, chet de equipe, regulador ete. ~, que seus observadores, ndo-imigrantes, que falam de “trabalho para imigrantes” para qua- lificar todos os trabalhos depreciados (técnica c socialmente), apesar de nao se- rem executados pelos imigrantes ou apenas pelos imigrantes* A identificagao que se estabelece entre “ser um imigrante” ¢ “ser um O. S." nao se limita apenas a esfera do wabalho, Na verdade, cla marca toda a existén- cia do imigrante, pode ser encontrada em todas as sas praticas sociais, sendo a 4 outea numia relagao de wnitua de: pam, tm dle suas oportunidades objetivas; ambas determinany vn mio tempo, € o iniigrante que faz 0 O. 8, que € (ou que nao &) ¢ 0 O. S, que faz 6 ttaba- fate, que 0 consttui, pode-se.dizer, “substancialmente”, quando no “ontologicamente Iago de reciprocidade que se estabelece entre o imigrante © 00. S. ultrapussa 0 caso restrito do trabalhador manval ou do operdrio; podemos encontréts mente, mutatis wusandis, em muitas oueas sitagdes anilogas, mesino quando ais pessoas de que se tr ‘ocupain posigdes socinis mais elevadas,e a0 faz8-Io imprime sta marca seus efeitos em toda a popu- fago que se encontra igada, nacionalmente falando, & categoria social definida como constiraiva do fendmeno da imigragao: assim, ser win advogndo “imigeante” ou um médico “inigrante", ou seja, um adyogado ou um médico que partilham @ mesma origem nacional de wumerosos outros (rabalhiadores: imigrautes, seus “compatriotas” (€ assim que so chamados € que se autodenominam), redunda em ser 9 advogado ot 6 médico dos iniigrantes” (on ser, como se diz em outro contexto, “0 advogado ou 0 médico dos drnbes"}; consideragées que nfo sfio apenas de ordem moral (solidariedsde, militantismo, filantropia ete), mas que esto igualmente ligndas as necessidades e as oportunidades do mercado, fa- ‘zem com que seja assim. 5. A ligica que se encontra no principio da rel (© "PECADO" DA AUSENCIA OU 05 EFEITOS DA EMIGRACAO relagdo no trabalho, no limite, em grande parte, uma tradugao da relagiio com a condigao de imigrante; isso num lugar particularmente estratégico por causa da importaneia do papel do tmbalho na definigdio do imigrante ~ sabemos que 6 0 trabalho que funda a existéncia do imigrante, que Ihe confere seu estatuto social, legitima sua presenga (sua presenga na Franga como imigrante ¢ também sua au- séncia no pais de origem, como ¢ também um emigrante). Na pritica, é evidente ~ evidéncia que, neste caso, aproxima-se do senso comum = que o estado de imi- grante recobre todas as dimensdes de sua existéncia, mas a correlagiio que se pode razoavelmente supor entre as duas ordens, a ordem do trabalho (i, ¢., a con- digo de O. S.) € a ordem que abarca o trabalho (i. ¢., a condigio de imigrante) pede para ser revelada e nao se fundar apenas no modo da evidéncia, Poderfa- mos pensar que a relagao de trabalho ~ c, acima de tudo, a relagio “infeliz” que jo abundantes, tomando & © imigrante pode ter com 0 trabalho e cujos indicios vezes a forma de condutas préximas da patologia (aus@ncias desordenadas ¢ sem motivo, “de lua”, como se diz; comportamentos “nostilgicos”; stress, s¢ este ter- mo nfo fosse reservado, de costume, a outra categoria social, & categoria dos exe~ cutivos etc.) ~ esti ligada tanto as condigdes prdprias do trabalho quanto ao que € constitutivo da condigao de imigrante ou nela est contido. Esta relagio leva inevitavelmente a levantar perguntas nao s6 sobre o modo de presenga permitido iio mas a0 imigrante c sobre a presenga que o imigrante realiza no alo da imigra tivamente, sendo que isso explica em parte aquilo, so- também, ¢ mais signif bre a maneiva de estar ausente, sobre os efeitos da auséncia, posto que a presen- ga aqui deve muito A auséncia Id, © posto que todo imigrante continua sendo, em algum sentido, um emigrante de algum outro lugar (¢ isso até mesmo no caso em que esse “imigrante” nasceu na imigragio ¢ jamais emigrou de parte alguma). Por mais justificada que seja a emigragio, ou seja, a auséneia ~ e é importante a taito mais fortemente quanto mais se justificé-la permanentemente e justific: prolonga indefinidamente e tende a ransinutar-se em separagio radical -, ela pet manece sempre suspeita. A nfo scr que se “moralize” a emigragao (¢ a melhor técnica de neutralizagao consiste, neste caso, na “tecnicizagdo” voluntéria do fe- némeno), ou, em oulros termos, que se “isente de culpa” e se “inocente” a emi gragio, ao mesmo tempo “isentando de culpa” e “inocentando” tanto aqueles que vaio “se ausentar” (os emigrantes) quanto aqueles que os deixam “se ausentar” & a “auséncia” (0 conjunto da sociedade de que assim se (ornam ciimplices de s emigragio), esta sempre contém secretamente, aos olhos de todos (08 proprios lo de relagdes, a sociedade como um todo), omigrantes, suas familias e seu cite a suspeita da “traigao”, da “fuga” ¢, no limite, de ser um “renegado”. Basta que acontega um “acidente” de percurso, um leve desvio nos comportamentos, para 109 ABDELMALEK SAVAD 110 que surja 0 sentimento da cnipa, de pecado original, consubstancial ao ato de emigrar, Culpabilidade, culpabilizagio © culpa; acusagiio € auto-acusagao — pois a pessoa se culpabiliza c se auto-acusa como € culpabilizada e acusada, e por- que 6 culpabilizado e acusado: isso faz parte e é indissociavelmente constitutive da condigaio do emigrante € da condigao do imigrante. O caso relatado abaixo € que, por outro lado, pode ser objeto, niio o des- conhecemos, de uma leitura “sinistrésica” (7, e., relativa & “sinistrose” conside- rada tanto do ponto de vista da gnosiologia quanto da tcoria social ou do ponto que afastamos aqui®, ilustra de for- de vista sobre o mundo social), leitura ¢: ma paroxistica 0 custo social com © qual pode ser paga a imigragio, ilustragio essa que fis vezes chega ao desespero ow a sua expressao patolégica, uma forma ipica de fypus melancholicns, émbora saihamos 6 quanto essa expressiio saiu da moda ¢ nao deve ser tomada ao pé da letra, em sua acepgao literal, mas apenas num sentido aproximado e por sew valor metalSrico. O imigrante argelino autor da narrativa que se segue estava com 51 anos na €poca da entrevista da qual aceitou participar (em junho de 1985). Tinha emi- grado para a Franga pela primeira vez. quando contava apenas 19 anos (em 1953), como muitos de seus contemporaneos da mesma idade e da mesma condigao jue perderam também aquela {& social (camponeses nio apenas pobres, ma: constitutiva dos camponeses tradicionais), Sua imigragio aparece, retrospectiva- mente, como uma forma condensada particularmente impressionante de toda a a histéria da imigragao argelina na Franga nos anos posteriores & Segunda Gue Mundial. Imigragao continua desde 1953, sendo que X... $6 vollou para sua aldeia (¢ isso na segunda metade de sua imigragao, ou seja, apds 1963 & apds ‘amento) durante suas férias anuais... “e ainda a cada dois anos”, sendo essa imigrago ocorreu em 1958-59 quan- seu que a tinica interrupgao prolongada d do, por causa do estado de guerra da 6poca, precisou permanecer em seu pats durante mais de quinze meses (prisiio, consignagao provisdria cm sua residén- cia, negacdo da autorizagio necessiria para deixar a Argélia etc.). Tendo emigrado quando jovem, quando ainda cra soliciro ~ coisa impensavel no esta- do anterior e ainda recente da emigragio dos camponeses argelinos para a Fran- ¢ tendo imigrado de forma continua, casou-se relativamente tarde, aos 30 anos 6. CFA. Sayad, "Santé et équilibre social chez les immignés”, in Psychologie médicale, tomo XI, out 1981, pp. 1747-1975, 7. A, Saystd, "Les trois “Ages' de !’émiration algerienne en Francs sociales, 9.15, jun. 1977, pp. 59-79 in Actes de la recherche en sciences 0 "PECADO" DA AUSENCIA OU OS STEITOS OA EMIGRAGAO. p ange Na Franga, conheceu diferentes momentos importantes da imigrag lina, ou seja, na verdade, as diferentes modalidades de emprego do imigrante & (ambém os diferentes cargos que correspondem « cada um desses momentos e a cada uma dessas modalidades: m-imigrado, ap6s muitas hesitagdes © primeiro emprego do qual tem uma boa a, sem dtivida por causa da forte integragio que o acompanhou (integra jovem, dificuldades ¢ peregrinagdes Ho a0 grupo dos imigrantes, parcntes ou membros da mesma aldeia) ¢ também. por causa, solidariamente, da integragiio que foi possfvel realizar no préprio lo- © reforgam muta cal do emprego comum a todo 0 grupo ~ das iniegragé amente, scndo que ambas podem ser causa ¢ conséqiiéncia uma da outta ~, foi 0 de mineiro nas carvoarias (em Valenciennes). num periodo em que a produgio da hulha ainda era muito incentivada, quando nao exaltada. Poi, segundo conta com es qu um (om de saudade, o melhor periodo de sua imigracao, pois “ido era claro” (ou Ihe claro), embora, acrescenta brincando com as palavras, ele “irabalhasse pare na escuridao da terra (i. e., debaixo da terra) ¢ em lempo escuro (i. ¢., de nvite), ow seja, numa dupla escuridio, a do esu ca da terra”; ¢ ainda hoje, ou talvez hoje menos do que nunca, cle nao consegue dissipar a nostalgia que the deixou aquele tempo de ordem, aquele tempo em que tudo parecia bem ordenado; foi sem dtivi- do que dava 4 sua imigragHo © d sua vida da 0 tinico momento em que o signific na imigragiio correspondia ao que todos, de ambos os lados da linha que separa a emigragio da imigragio (ou seja, do ponto de vista da sociedade de emigra bem como do ponto de vista da sociedade de imigragiio), esperavam dele e a0 que cle mesmo concebia, a saber, um emprego intensivo ¢ exclusivo de qualquer ou- ra preocupagio, de qualquer outra interrogagio sobre 0 significado real do ato de trabalhar e, por conseguinte, do ato de emigrar ¢ de imigrar. “Trabalhar como um animal”, “trabalhar até nfo mais poder”, que se formulam como segue: “Bu trabalhava até ficar cego..., tabalhava até virar um 6, 0 trabalhava até cansai trabalho cu [...}; 0 trabalho ¢ cu éramos a mesina coisa, eu mengulhava no Wa- batho [...J; para mim, ndo havia nada além do wabalho; se pudesse, trabalharia até no domingo; o trabalho & como uma droga, ¢ quando cu parava de trabalhar percebia que estava drogado, embriagado de trabalho [...] O que dizer? Vim para 0, enti me afogo no trabalho [...]. preciso dizer trabathar, estou aqui para i que naquela época era a juventude, cu cra forte: sedento de trabalho e de dinhei~ 10, apostava-se em quem trabalhatia mais, ganharia mais dinheiro ¢ enviaria mais dinheiro para a aldeia (...)". Depois veio uma série de desencantos, ou seja, a dissipagao de todas as ilusdes que contribufam para dar sentido a uma situagio que, reduzida a sua sem diivida, no podia verdade nua, no poderia ser inteligfvel ou suportavel m1 ‘ABDELMALEK SAYAD 112 ser suportavel, Fosse qual fosse o'ponto de vista (social, cultural ou politicamente 10 con etc.), por nao conseguir adotar um sentido, por seguir ser suportével in- se constantemente o sentido (traba- , uma experiéncia que, se du- telectualmente. A nao ser que se reinvesti Iho do qual nem todos os imigrantes sito capazes rar muito, acaba se tornando incontrokivel — ou, pelo menos, acaba eseapando do controle dos imigrantes menos providos deste ponto de vista ou menos aplos socialmente a se reapropriar de forma continua de um fendmeno que supera scu entendimento ¢, acima de tudo, cujas miiltiplas transformagdes, umas mais limitadoras do que outras, no conseguem dominar ~ € 0 proprio “absurd” da condigao de imigrante que acaba aparecendo a luz do dia, impondo-se a todos, as vezes comendo o risco de atentar contra a integridade psiquica dos imigran- vulneraveis Como dar conta d les mi a vulnerabilidade particular? Nao se pode fazé-lo sem remontar o curso da imigragfo em toda sua extensfo ¢ além dela, até mesmo acima da emigragio; sem nos perguntarmos sobre todo 0 itinerdrio do imigran- te ¢ sem interrogé-lo sobre scu itinerério (seu itinerdrio profissional e seu itine- rério social) a fim de poder caminhar com ele c tentar reconstituir, retrospecti- vamente e com sua ajuda, a trajetéria social que fez dele o representante de um cerlo modo de emigrago e, sendo que uma coisa prolonga ¢ confirma a outra, de um certo modo de imigrago. A primeira conclusio que se impde no fim desta tentativa de explicagdo consiste em um questionamento fundamental da separa- gio que se estabelece entre o que é trabalho e 0 que nio é trabalho (i, €., tudo 0 que esté fora do lugar estrito e fora do tempo fechado do trabalho); € isso que (05 estudos sobre a “satide no trabalho” comegam a descobrir, inspirando-se em uma aproximagao sintética, © preocupam-se cm reconstituir a unidade de um objeto que se separou em esferas postas como autOnomas e em diseiplinas pro- Assim, no caso de X., se determinados fatores ligados & 5 facilmente discerniv prias a essas esferas. experiéncia da imigragao propriamente dita — lator bem localizados no tempo ¢ no espago (como, por exemplo, as miilliplas mudan- gas de emprego, que poderiam fazer crer numa “instabilidade” profissional; as freqiientes dispensas por motivo de doenga que nenhum motivo francamente patol6gico, ou de patologia organica, motiva até que scjam seguidos de interna- co em clinicas psiquidtricas ete.) ~ podem dar parcialmente conta da relagao conflituosa no trabalho (relago que chega & culpa e & auto-agressfo), esses fa tores no poderiam fornecer uma explicagao completa. Pois, para que possam ser plenamente explicativos, pedem para ser eles mesmos elucidados ¢ relacio- nados com 0 que poderia ser sua génese. Ora, essa génese encontra-se em outro lugar; esta no que o imigrante jamais confessard; nfio confessard a quem niio, 0 is, 0 “PECADO" DA AUSENCIA GU OS EFEITOS DA EMIGRAGAO. fe (ou seja, enquanto ausente de seu lar) ¢, por conseguinte, com c, em tiltima andlise, com seu trabalho, sendo que este se encontra no principio da emigragao ¢ da imigragao ao mesmo tempo que € seu fim tltimo; logo, neste - sentido, esté no principio daquilo que é considerado como « *“pecado original” (i. e., esta na origem do mal presente), Para que confessar, para quem confessar e por que confessar aquilo que todos os que esto interessados em saber saber, todos os que esto concernidos a tal ponto que nada podem ignorar, mesmo quai ada se pode esconder deles? E na natu- do fingem tudo ignorar, a tal ponto que reza publicamente “clandestina” ou secretamente “piiblica” da “vergonha” — 6 assim que se fala dessa “coisa” que est presente na mente de todos os mem- bros do grupo, mas que ninguém quer enunciar, eda qual a imigragdo é consi- derada responsdvel, no fim (cla € responsével pela desonra que tornou possivel dando-Ihe a oportunidade de se efetivar) ~ que reside o “mal” (a doenga ¢ o mal- estar) que cortéi o imigrante quando este se vé na impossibilidade de dar um sen- tido possivel & sua imigracao ou, mais do que isso, ¢ levado a denunciar sua imi- gragdo, a po-la sob acusagio e a fazer o seu proceso. Coisa “clandestina”, no sentido em que o atentado honra ¢ & moral da pessoa faz parte da mais estrita Intimidade ¢ toca o interior da vida doméstica e a parte mais profunda da vida privada; mas também coisa “publica”, porque inevitavelmente conhecida de to- dos, pelo menos dentro dos limites do campo do conhecimento miituo, tnico mundo que conta e que tem importincia para aquele que se identifica comple- tamente com o grupo do qual é membro, para quem nao hé existéncia social ver~ dadeira senfio por esse grupo, para esse grupo ¢ no seio desse grupo. De que “vergonha” se trata O entrevistado a relata nos seguintes termos: “Um dia, recebo dentro de um envelope com selo da Argélia uma certidio de nascimento sem nenhuma palavra de acompanhamento. Agora eu posso adi nhar quem pode ter me avisado desse modo, estou quase certo de quem €; essa pessoa nao tem raiva de mim, ela deve ter sofrido tanto quanto eu, nao podia esconder isso, estava certa, Se eu pudesse fazé-lo a abragaria, beijaria seus pés ¢ sua cabega [...]. Na hora, levei tempo para entender ¢ contudo 0 pai mencio- nado na certidio era eu, é meu sobrenome, meu nome [...]. Assim, eu era pai de uma menina que nfo conhecia. De onde vem? Nao voltava para minha casa na Argélia, nao via minha mulher havia mais de dois anos [...] Recebi um golpe muito forte na cabeca”. Mais adiante, voltando a falar sobre esse “trauma”, ele diria: “O que vocé quer? Nao acredito mais no ‘adormecido’ [i. e., na “teoria da 113 ABDELMALEK SAYAD 4 crianga adormecida”}, Talvez seja uma pena. Mas 86 acreditam aquel 4 S que que- rem acreditar Tirado da produgao apés dez anos de atividade, X., que contava quinze anos de trabalho na mesma empresa, foi remancjado para o servigo de limpeza por causa de seus antecedentes médicos, quando esperava ser direcionado, como cle diz, para o “servigo da portaria”. X. causa espanto por seu comporlamento solitério, por seu mutismo mesmo quando esté cm grupo; 0s raros momentos em que se anima, em que parece “tomar novo gosto pela vida” c adota um ponto de vista engajado sobre os assuntos dos quais se est falando e também sobre seus prdprios comportamentos on, ainda, os raros momentos em que, “para voltar A terra”, como ele mesmo o diz freqiientemente, é quando se encontra num peque- no grupo de amigos que so muito figis e que soube tornar climplices ou que souberam se tornar seus ctimplices. Sao estes que ele sabe que estio “por den- tro” a ponto de entendé-lo e de partilhar sua perplexidade ¢ sua infelicidade, sem que precise dizer nada; aqueles que ele sabe que sabem e sobre os quais sabe, além disso, que eles sabem que ele sabe. Fora desse grupo de amigos intimos (a palavra ndo é muito forte), todos os ambientes so hostis para X.; ¢ 0 ambiente do trabatho nao é menos hostil do que os outros. X. é incontestavelmente um melancdlico. Um melancélico que se compraz em sua melancolia, todos os comportamentos de X. 0 comprovam. A melancolia de X. aparece como a reagdo nostdlgica de alguém que esté ligado é ordem ~ no sentido de “bem-ordenado” e no sentido de “como se deve” ~ ¢ a uma ordem que [oi definitiva ¢ irremediavelmente rompida. Se a imigragio ja era em si mesma uma ruptura, uma ruptura inicial que seria acompanhada de muitas ou- tras, assim mesmo acabou sendo “ordenada”, acabou por deixar impor-se uma “ordem™, B preciso que haja, no seio ou por ocasido dessa primeira ruptura co- Ictivamente organizada ¢ ordenada, uma segunda ruptura, individual, para que a desordem aparega; para que surja, inelutével, pois entéo é desordem para uma consciéncia individual. S6 pode haver ilusio eficiente, ou seja, ilustio que nao sabe que € ilusio (esta € a condigdo de todos os imigrantes) com a condigéo de que seja coletivamente mantida: ilusdio € colusio! A ordem de que falamos aqui implica uma certa relagdo com 0 mundo ¢ com os outros: com o mundo, € minti- cia, © X. dé exemplos dessa minticia que pode chegar & mania (mindcia dos ges 8, Teoria da “crianga adormecida”: concebido num momento anterior, o bebe “teria udon riga da mie, onde teria esperado mais de nove meses antes de “acordar” na véspera de um pnito que, ‘dessa forma, 36 teria sido (ardio; inengo genial de uma cultura para a qual “no existe, como ela mesima declara, uma situagio que ni tenha sua porta” (ou “um beco que nfo tenha sata”)! (0 "PECADO" DA AUSENCIA OU OS EFEITOS DA EMIGRAGAG tos que, no trabalho em maquina, demonstra ser muito perigosa; minticia que poe ha otganizagao dos papéis, no exame dos detalhes de sua vida, bem como na.de Seuls amigos e, mais amplamente, no “espetaculo” do mundo); com os outros, 6 vontade de encertar-se nos limites de um mundo social organizado segundo re- > feréncias sélidas’¢ nitidas. Minticia ¢ concepeao hipertrofiada do dever, esta € a “indivisio dos contrérios” caracteristica da angistia. Basta que uma tendéncia seja mais forte do que a outra para que se chegue ao desequilibrio. As relagées com os outros so ainda mais fundamentais: a melancolia, esse olhar que, quan- do se ditige ao outro, esta sempre voltado para si mesmo, faz com que “sé esta- mos aqui” para 0 outro ~ protétipo da solidao e da solicitude. Mesmo o grupo mais unido dos amigos fntimos e dos familiares, c talvez este segundo grupo prioritariamente (0 grupo cénjuge, filhos, pais, irmAos, irmas etc.) no baste para proteger da solidao. Ela é uma verdadeira disposigao da pessoa, uma mortifica- gio completa do ser da qual s6 se pode captar os sintomas, a saber, as transfor- mages de todos os ritmos, mesmo dos ritmos mais comuns e mais cotidianos que so os préprios quadros da vida social (refeigdes, vigilia-sono, trabalho-lazer ou férias anuais, estadia na Franga-volta para a terra etc.); essas transformagoes vivenciadas no tempo interior (uma espécie de endon) inclinam para a retorno sobre si mesmo, para um tempo prdprio e, por conseguinte, levam & introspec- ‘obrir o pecado em todo lugar e em ¢%0 minuciosa e suspeitosa, ocupada em des todos 0s atos da vida e, em primeiro lugar, o pecado original que é a propria imi- grado, esse pecado essencial que engendrou todos os outros que gostam de inventoriar, pecados menores, pontuais, que nio passam de atualizagdes do pe~ cado principal. A exclusiio que impdem a si mesmos ¢ que buscam, a0 mesmo tempo dolorosa e muito apreciada pelo conforto que oferece, pode suscitar a mais horrfvel das monotonias, um inferno recoberto por um sudério ou, aparentemente, um tapete imével feito de tristeza, de angtistia e de sofrimento, O fator decisivo que se encontra na origem do bloqueio, mesmo se esse bloqueio é, como € 0 easo aqui, dramaticamente contrariado, pois X. procura desesperadamente restabele- cer 0 equilibrio, reside no sentimento do pecado, obsessio da volta ao passado. so particular em que o trabalho € objetivamente questi~ Paradoxalmente, € no (0 de ser da imigragao ¢, em iiltima instancia, razao ultima onado enquanto ra do mal e do mal-estar que se experimenta em relagio & imigragZo, e cuja res- ponsabilidade se atribui a imigraco, que ele tende a se constituir como cixo central de uma existéncia dilacerada, minada por dentro (confrontada a uma con- tradigdo interna) a ponto de perder o sentido da vida. Neste sentido também, tr balhar tende a se identificar ¢ a ser completamente identificado com viver por- que, na situagao de restrigdo social na qual o “melancético” se refugia, o trabalho 115 ABDELMALEK SAYA 116 obriga a viver e no s6 permite viver. Desse ponto de vista, ele tem uma fungi Iiteralmente vital, uma fungiio salvadora, quando nfo terapéutica: como € preci- so continuat a viver € € preciso, por conseguinte, continuar a lutar com todas as forgas contra o bloqueio, essa espécie de estagnagao no estupor, é preciso, no presente caso, trabalhar, jd que trabalhar € a Unica razdo de existir na imigragio, Com 0 sentimento do pecado, é oda a ordem, « ordem déxica, estabelecida con- sigo © com 0s outros que est4 constantcmente em perigo, ameagada de desequi- Iforio, A ruptura dessa ordem, interna c externa, pode atingir um nivel em que se torna intoleravel: 0 meio ambiente ~ 0 mundo fisico e, mais ainda, 0 mundo social (ou seja, os outros) ~ € constituido segundo o ponto de vista, segundo a situagdo na qual se encontra aquele que 0 percebe dessa forma. O aparente afas- tamento que aquele que “viu tudo” ateta, a posigaio de “espectador” do mundo de que gosta, espécie de suspensio do mundo no qual € preciso contudo agir ¢ viver, espécie de distanciamento para com o “século” no qual se esta engajado, parecem dedicar o tiltimo quer se queira ou nao (e nfo é possivel nfo quer trajeto ou o trecho derradeiro de um percurso ao termo do qual j& nao hd “esco- Iha pessoal” possfvel, alternancia crivel que oferecesse uma solugao, nenhuma safda no beco em que se entrou, O desespero, ou melhor, a desesperanga cruel- mente ressentida em todos os momentos, é uma espécie de ida e volta “interna” que ninguém pode resolver, ida e volta entre que era possivel ontem (todas as possibilidades de ontem) ¢ 0 que ja nao o é hoje; entre o que, ontem, era apenas virtual € 0 que, hoje, se tomoti inevogavel etc. Entdo o que resta? Nada, além da ruptura da “perspectiva de vida", a se- paragio, a autodestruigao; nada, além de, como dizem os préprios imigrantes quando chegam a esta situagiio-limite que faz com que descubram sua “in-exis téncia” © sua ieapacidade (social) de se situar numa “perspectiva” que dé um sentido a sua existéncia, a situagio paradoxal (ou melhor, heterodoxal) do “mor: to-vivo” ou do “vivo (j4) morto™, Reatar os fios para além da ruptura, recom- por os cacos, essa é a insisténcia desesperada que sustenta a vida, que a carrega € a prenche, o que faz com que esse esforgo acabe por se identificar comple- tamente com a vida, constituindo a vida até 0 ponto em que o autor desse em- preendimento chega a esquecer de viver de outra forma; esquecer que viver niio € viver apenas insistindo em viver, Necessidade ¢ liberdade! 9. A linguagem da sabedoria tradicional, linguagem que apreciam os individuos cuja condigho social os , Fazenclo da necessidade uma virlude, a se “retirar” do comprometimeato mundano, tradwz bem de conteadigbes nas quais uma siluagao, cm si mesma contiaditoria (a imigragao), encerra seus agentes: 8 férimuta re sle situago que nfo tenha uma porta’ opbe-se outra formula parndign " samente otimista “nao ex , segundo a qual “existe mortos-vivos” bem como “vivos-mortos’ (0 "PECADO" DA AUSENCIA OU OS EFEITOS DA EMIGRAGAO A Entrevista: Um Meio pe Comunicacdo & o& AUTOCOMUNICAGA, um Meio ve ANALIsE & DE AUTO-ANALISE Como acabei neste emprego? Nao pense que fui contratado especialmente para fazer este trabalho, para varter, limpar 0 lixo (..] Voc8 diz. que quer ver aqueles que estio “escondi- dos”, entender como 2 gente via um “escondido”, Acredite, nao se trata de wm “esconderijo" © ainda que fosse um “esconderijo” ~ 0 que eu gostaria ~. precisa saber que paguei por ele. Paguei com meu sangue, com minha came fapalpa-se para mostrar 0 quanto é magro, ou seja, ‘© quanto “perden” de sua came... no trabalho}, com meus cabelos brancos [...] Muitos dizem isto: “Esse € um ‘escondido"™". Se eles soubessemn... Voc® também pensa isso. Ser que pode existir um “esconderijo” aqui, um “esconderijo” neste local de trabalho; ser que pode exist um esconderijo no trabalho? Ninguéin pensa nisso [...}. Sim, quando a gente trabalha, sempre tenta ganhar um minuto aqui, um minuto ali; a gente tenta roubar um pouco, ser esperto, como dizem. Eu prefiro fazer como todo mundo, coma na época em que estava na produgao, ao invés de agora, onde estou s6, ando com minhas vassouras por todas as ruas da fébrica [J Este trabalho foi-me dado por ordem dos médicos; apts muitas consultas, apis conse- Ihos do seguro social, consethos dos médicos do trabalho. Fiquei muito tempo de licenga por doenga, fui classificado pela comissio de invalidez. Precisei recusar; foi uma enorme batalha contra 0 seguro social, contra a dire¢20, contra os médicos para que aceitassem me dar um novo Lrabatho {...J. Eu teria gostado de ser indicado para a porta, para o servico da portaria. Bra isso que eu queria, et pedi. Mas parece que precisa ter pistolao para conseguir isso [..1 Por que me agradaria? Porque voré pode ficar sentado 0 dia inteiro, pode ficar protegido; nifo tem ninguém [subentenclido: nenhum chefe} acima de voee ¢ ao seu lady para vigiar (... Mas, por outro lado, niio estou descontente de estar aqui, de ter sido indicado para a vassoura a0 invés de ser mandado embora, como digo em minha Tinguagem. Em meu servigo, tenho a sorte de ter minha vassoura como dniea colega de trmbalho; somos dois, insepariveis: minha vassoura e eu, Nos conhecemos bem agora, conversamos; minha vassoura é testemunha de tudo 0 que acontece comigo, de tudo 0 que fago, de tudo © que penso. E outro cu, Prefiro sua companhia 4 de todos aqui; cla lem a grande vantagem de se calar, de néio dizer nada c, contudo, eu falo com ela, digo-the tudo, conto-lhe tudo. Ela nfo ignora nada sobre mim, € outro cu, fa pessoa mais fiel que conhero, jamais me trai, jamais desvendou algum sogredo; jamais mudou de lugar; deixo-a aqui, estou certo de cneantsi-la no ‘mesmo lugar sempre que preciso dela, nfo se mexe minimamente nem mesmo apés um ano de espera. Ninguém mais seguro, mais ficl, mais grato do que minha vassoura; somos dois grandes amigos, ct. e minha vassoura, somos irmios (ele beija o eabo da vassoura, abraga-o afetuosamente; por diversas vezes, X. demonstraré 0 amor que tem por sua ferramenta de trabalho ¢ a cumplicidade qu tem com ela; este fato parece ser conhecide de todos os aunigos, 10. Os termos arabes que significam “esconderijo” (em francés, plangue) e “escontido” (em francés, plaaiqué) sao muitas vezes tomados de empréstimo a0 francés e submetides & sintaxe da linia sabe: plaeka (0 esconderijo), planka ranhow (cle se encondeu) ou m'planki (escondido), planki (se escon- ‘dendo): apenas raramente se recorre 20 vocabulirio propriamente drabe que & nesta cireunstineia, nomito mais sugestivo: mr'khabbi, emboseado, mascarado, aculto (para dizer “escondido") 7 ‘ABDELMALEK SAVAD 18 que sempre se espantam e gozam da relagio extruordindria ou, ao menos, inusitada entre o coperirio e su ferramenta, senclo que nm investe no outro mais «lo que se faz tradicionalmente cou mais do que & conveniente na relagao puramente instrumental que 0 operirio pode ter com sua ferramental, nos entendemos js til maravilhas. ‘or fim, nao lamento no ter sido indicado para a portaria. Posso perceber hoje: cu teria muitos aborrecimentos, esté cheio de aborrecimentos, Enquanto aqui, com minha vassoura ~ € tum territério, estou em paz. Ainda bem! Paz! Chega [...J. Que aborrecimentos, vooe pergunta? Nao sei bem 0 qué, mas estou certo de que teria aborrecimentos. A Soupdo E 0 CurTo DA SOLIDAO E mais tarde, durante outta conversa, veio a explicagao; ela acabou sendlo fornecida nos seguintes termos: [..] Gosto de estar s6; gosto de trabalhar $6, como Deus é s6! Por isso acabei gastando deste trabaltio. Contudo, ele nao tem nada de invejaivel. O que dizer? O lixo.,., nO Hix... varrer € catar 0 lixo dos outros..., “lixeiro” {ou seja, no sentido de trabalhar com 0 lixo, yarrendo catando 0 lixo}... Um lixo no meio do lixo, é isso que somos! Alids, me largarain aqui como um Jixo, como se joga um lixol... Apesar disso, no me queixo. $6, passo a passo, assim que tenho minha vassoura entre as mifos, trabalho segundo meu ritmo, Assim que visto meu macacio, assim que tenho minha vassoura entre as mos, tedas as outras preocupagies ficam para tts, dcixo-as no vestidrio com minhas coisas, Nao falo com ninguém, ninguém fala comigo; de vez em quando, bam dia, boa noite, “oi aqui ou ali, para este ou aquele que passa perio de mim, Sdo raras as vezes em que encon- tro uma ou duas pessoas de que gosto, como uma pessoa que me ouve agora como voce com quem estou falando [isto é uma férmula de boa educagho}, ¢ com as quais sinto prazer em conversar durante um ou dois minutos, Fora coisinhas desse tipo, nao ligo para ninguém e ninguém liga para mim, Vou na minha: se alguém € agradavel, se simpatizo com ele, olho para ele; algum outro que nao quero ver, olho para minha vassoura quando passa perto de mim... De fato, sinto mais prazer em olhar para minha vassoura do que em ditigie meu olhar para ele. ‘Trabalho com os olhos no chao, nfo vejo nada... Azar, Dizem de mim: “Ele é timido...", prefiro ser “timido” a forgar-me a sorrir: “como vai, meu antigo; come vai, meu irméo; como vai, meu tio!” $6 um imbecil (elbassa)!" age assim. S6 ler irmiios ¢ tios por todo lado; fazer com que 0 primeiro que chega seja um irméa, um pai, um tio, precisa nfo ser nada, nio ter nenhuma auto~ estima para agir dessa forma, Nao gosto disso, nao sou feito para isso! Que Deus me afaste disso tudo e de todos aqueles que se comportam assim, Eles nao tm nenbum senso do que € 1. Eibassal (imbecil), lebsala Cimbecitidade), yaibassal (agic como um imbecil) ete.; 0 sentido dado a palavra drabe emprestada A palavea francesa est4 mnais prximo de tolo e de tolice, de vaidoso, de cheia de si ou ainda de inconsistente, de falla de educagto de consideragao e, no limite, de falta de houra ou & margem das regras da honra (mais do que de falia cometida contra a honra), (0 “PECADO” DA AUSENCIA OU OS EFEITOS DA EMIGRAGAO honra ¢ do que 6 dignidade... Podem imaginar que carrego em mim toda a desonra do mundo, todas § infainins, todas as vilanias porque sou varredor: prefiro minha vassoura a todos cles, les nfo valem minha vassoura. Na vordade, so eles que se rebmaixam, que se esfregam no chio, que dizem “o senhor aqui, © senhor ali”, que dizem “‘sidi” pois ainda esto nesse ponto, véem “sidi cm (odo lugar, preeisam de “sidi". A desonra, a humilhagiio niio esto na vassoura que et carrego, esto na alma deles. Se cheguci a isso, a preferir a vassoura a0 trabalho deles, a prefe~ rir esta vassoura que ni oso nomear frente As pessoas respeitéveis, & porque eles si0 despre: zéveis, porque no merecem um olhar (..) Alguns dias passo 0 dia inteiro andando, Isso me faz muito bem. Enguanto ando, nfo yejo nada, néo ouco nada, Estou comigo, com 0 que tenho no coragao [ou seja, na cabegals estou com meus pensamentos, Uma Imicracao Re-Vista € Re-Vivioa [..J Lembro-me de tudo em pensamento, toda a minha vida em pensamento, Otho para ela de perto, procuro lembrar de tuclo, e (udo volta em certos momentos, nos menores detalhes. O primeiro dia de minha partida ~ eu s6 tinha 18 anos: uma crianga, mas uma crianga que j& viveu muito para a idade, pois sofreu muito, [uma crianga) maior do que sua idade -, ainda o tenho na frente de meus othos, talvez seja o dia finaugural] de minha maior infelicidade. Ape- nas mais (arde, muito tempo depois, quando jé € tarde demais, a gente percebe as coisas. Tudo comecou naquele momento; aquele primeiro dia € a causa de tuo o que se seguiv, Tudo volta A minha mente, ponto por ponto, nos menores detalhes. H1é coisas que nao se esquecem, tudo 0 que gostarfamos de esquecer. Ento quando estou s6 penso nisso tudlo; reflito sobre cada coisa, S acontecem. Ser que examino-a de todos 0s ladas. Procuro entender; entender como as coi as coisas que acontecem dependem realmente de mim ov seri que aconteceriam de qualquer forma; esto escritas. DA para passar a vida inteira tentando encontrar as responsabilidades [.u1. Sei que no hd nada a fazer, que nfo podemos refazer 0 que passou, mas o que passou, a0 conirdrio do que se diz, nio est morto; ainda esté em nés, na nossa meméria, em nosso presen= te, € aquilo que estamos vivendo nesse instante € s6 uma continuagao do que aconteceu. Entao, prefiro ficar com meus pensamentos, isso me di trabalho suficiente, no preciso ficar olhando para Locos os lados, para acrescentar coisas. Ao contréio, olhar para todos os lados faz. com que cu perca tudo. que tenho em mente...; de qualquer forma, no vejo nada, niio ougo nada, $6 existe verdade dentro de mim (... Sim, claro, todo mundo precisa de alguém, de alguém para contar as coisas, mas essa pessoa é dificil de encontrar; cssa pessoa nao existe. Entio para que perder tempo procurando [--]. Sim, 6 muito bom quando se tem essa pessoa, Comovdizem em casa: ao tinice (ou seja, 0 solitério), 0 direito Ihe proibe que tenha uma casa [ou seja, uma familia]. Ninguém pode existic sozinho, Mas nunca estamos sozinhos, scmpre temos alguém dentro de nés... E além disso eu ainda tenho minha vassoura, minha companheira de todas as horas! Por falta de encontvar um companheiro a quem se possa contar tudo, € melhor ficar consigo mesmo; em ver. de ir falar com 08 outros ¢, nunca se sabe, falar com pessoas hoslis ¢ que desprezam a gente, é melhor ficar dentro de si, olhar para dentro de si. Este € 0 tinico remédio; na nossa prépria forga, no que temos dentro do coragtio [ou seja, a coragem. 19 ABDELIMALEK sAvAD 120 [J Bim ver de fazer come todo mundo, de fazer de conta que esqueceu até que se esquega tudo, eu pretiro lembrar de tudo, ter Ludo em mente... Apenas assim me sinto trangiilo, posso ver claramente dentro de mim porque se estorgo em encontrar a luz. onde toilos pen escuridao. Assistin Ao “EspetAcuLo” pe Sua Vina, Lé-LA como sé Lé um Livro Se eu pudesse ler minha vida como se 1é um livro! Contudo niio sei ler. Mas com um pouce de eérebro [0 indicador aponta para a témpora), quando se pensa direito, sempre se chega 4 encontrar 0s fios. Por isso, em suma, estou bem onde estou, niio lamento; € methor um trabalho em que tenho paz do que estar no servigo da portaria e ver toda mundo pussando na minha frente, tanto aquele de quem gosto quanto aquele de quem nao gosto. E como se voce estivesse na feira, no souk; & uma vitvine, um espeticulo... Vocé olha para o espeticulo, 0 espetiiculo da entrada e o espetéculo da sada. Nao hi de que se alegrar [..] Quanto a mim, neste barracio, também fago parte dé espetéculo, com minha fantasia, meu boné, Tudo me & dado para ver {literalmente: todas as coisas se apresentam para minha tengo] camo um guar da, 86 que nfo tenho nada para guardar; nio hé nada a guardar, a nfo ser estar aqui para ser Visto... e para poder ver quem entra € quem sai, Nao sei se viu os guardas, nfo param de conversar entee eles — eu me pergunto sobre 0 qué; hd tanto tempo que esto juntos, como niio acabaram de dizer (udo? ~ ¢, quando alguém passa, eles no deixam de chami-lo, como se estivessem contentes de ter alguém com quem conversar |..| nto hi diferenca entre eles © os zeladores dos prédivs..., wiv tenio vontade de ser zelador. Entio, prefiro minha vassoura ao motho de chaves que eles tm nas mis {.] Ab, sim! Muitos gostariam de ter esse trabalho [o cargo de porteiro}, precisa ter pistolao para consegui-lo, Dizem que é preciso estar com 0 dossié em dia Id no eseritério, Dizem até que os espides so colocados nesses cargos: t€i confianga neles, pedem-lhes que , todos desconfiam vigiem tudo sem dar na vista e cles vio fazer seu rolatério [..J. Ali deles |.) A Franca: “A ARMADILHA..., A FerriceiRa!” Eu poderia escrever livros inteiros se comegasse a contar toda a minha vida na Franga, de tanto que vi, de tanto que vivi [.... A Franga, vou Ihe contar, é uma mulher de mé fama; é como uma prostituta, Sem que vocé perceba, ela gira em volta de vocé, ela comega a sed Jo até que vocé caia na sua rede e cntio cla o suga, esvazia seu sangue, faz com que faga todas as suas vontades e, quando se cansou de vues, joga voe’ fora como um chinelo velho, como uma coisa sem importancia [literalmente: sem significado]. £ uma feiticcira. Quantos nao. carregou? Tem mil manciras de manter voc® preso, Sim, é uma pris, uma prisiio da qual nao se pode sair, uma prisio perpétua; € uma maldigio. Quando voe® colocou seu dedinho, ela pega voce ¢ carrega por inteiro; ela molda, amassa alé que voc’ nfo consiga mais levantar, Ela nos pegou a todos, ela & esperta, Feliz daquele que no a conhece ou que soube resistir & 0 “PECADO” DA AUSENCIA OU 05 EFEITOS DA EMIGRACAO. iso aceitar a misérid (inicial), pois fot a miséria que nos jogou hos bragos dessa mulher da vidal Nao for de livre ¢ espontinea vontade que escolhemos vic para a Franca (...], Sim, € verdide; lemby )= eu espera 2 Para a Franca} impacientemnte; quando se tem 18 anos, : ‘Vemos uma s6 coisa, 0 estado de miséria no qual nos euvonteamos; 6 que acontecera em seguida tem pouca importiincia e de qualquer forma nao poderia ser pior do que o que se tem! ‘86 pode ser melhor, € por isso estamos prontos a aceitar todas as outras misérias diferentes de nossa miséria presente, Para a Franca ou para outro lugar, acho que ew teria acompanhado qualquer pessoa que me dissesse: eu levo voc comigo até 0 outro lado do mundo [..}. J Sinceramente, acho que, no fundo, eu nunca me enganei; sabia que nfo era o paraiso, sabia Que nao podia ser 0 paraiso. Nao somos feitos [socialmente) para o paraiso; nfo existe paraiso para n6s, mas 0 imaginamos, estamos convencidos de que existe. Ou entio criamos ilusdes.,. Penso que nao sou o tnico assim, ninguém é diferente de mim, s6 que todos nés fazemos de conta [...], Sem ilusdes; sim, scm ilusdes, eu era assim, Claro que estivamos fascinados pela Franga. Era um problema de dinheiro; quando vocé néo tem um tostio, 56 vé isto: como conseguir dinheiro, nao importa o que vai passar, ndo importa © prego que vai pagar. Alids, no temos nenhuma idéia disso. Contudo, a gente descontia. Basta ver todos os outros imi- grantes.,., mesmo se ndo dizem nada. Eles sé mostram o melhor aspecto das coisas, ¢ daf como todos os olham fixamente, todos os agradam, eles sio queridos por suas familias, por (odos, ¢ disso que temos inveja; eles mesmos se deixatn seduzir por essas coisas, ficam orgu- Ihosos, € 0 que mais gostam quando voltam para sua terra e tm a impressiio de que aquele instantezinho agradavel vale tudo o que passaram durante o ano. Entio ndo € hora de contar 0s outros © que acontece exatamente, é melhor se calat, Mas acontece que, em grupinhos, entre amigos, eles contam outra coisa [...]. Uma histéria..., aquela que se conta na minha casa, Bra antes da emigragio para a Franga, quando as pessoas sé partiam para a regifio de Argel para trabalhar nas fazendas, com batatas e tomates, Era um pai e seu filho, Um ano, 0 pai levou o filho para ensinar-the, para mostrar-lhe o que o traballio entre os colonos. Quan do chegaram ao lugar, compraram um pao que repartiram e pegaram uma melancia. O meni- no, maravilhado, perguntow ao pai se cra aquilo que os alitnentaria todo © tempo, O pai disse que sim, e nao Ihe contou que eles haviam tomado a melancia escondidos sem a permissao de colhé-la © que provavelmente jamais teriam essa permissdo. Entiio o rapaz, tirando 0 boné da cabega € jogando-o no chiio, gritou de alegria: “Tomara que nunca volte 1 nossa terra, que eu nunca volte a vé-la se posso sempre viver de pio branco e dle melaneia ¢ de uva!” Esse caso virou um provérbio em casa... B 0 que acontece com todos os nossos emigrantes: enquanto tém dinheizo para comprar po, ndo otham para sua tristeza, para seu desespero f...). ‘Talvez seja porque nao posso deixar de pensar nisso tudo que nunca consigo rir como os outros, que nunca consigo estar (do alegre quanto eles ou fazer de conta como eles (...]. Mas os tempos mudam, a situagio também muda, tanto 14 quanto aqui na Franca. Percebo por mim, Quando tento pensar nos primeiros anos em que cheguei A Franga e comparo aquela época com a situago de hoje, hd muitas mudangas [...]. Em qué? Em tudo. No trabalho, no modo de viver, no dinheiro que ganhamos ¢ que gastamos [ 121 “ABDELMALEK SAYA we 122 © TrasatHo, Pana Mim, Semert For In De UM InFéRNO A OuTKO Cheguei a Valenciennes no més de outubro de 1953... Vim com um grupo de parentes que |jé estavam na Franga, Eles tinham voliado para a terra, como é tradigo, no vero € no outono, durante a estagao quente ©, na época da lavoura, um pouco antes ou um pouco depois, todos voltan para a Franga, Eram todos mineiros, B, um ano, quando consegui dinheito suficiente para pagar 0 barco, vim com meu tio mateo [...]. Bu nao conhecia nada, nunca vira uma «in de surpresa em surpresa; em Valenciennes, sé cidade wa vida, nunca havia tomado 0 trem. saia acompanhado. No bairro onde mordvamos todos, estava tudo bem, eu nfio me sentia to fora, Mas meu grande terror era a idéia de ir trabathar, de ir sozinho para 0 trabalho & de voltar e também de poder tabalhar, sozinho, sem entencler 0 que me diriam, © que me pediriam, Como trabalhar’? ‘Tudo 0 que cu desejava era fer a sorte de encontrar, de trabalhar com alguém de minha terra ou pelo menos com um arabe, para que nos entendéssemos, O ideal eva trabalhar 40 mesmo {empo € junto com um parente. (...] Infelizmente para mim, nada disso aconteceu, No havia trabalho. Diziam que nfo era uma época hoa, era a crise, 0 deseimprego por todo lado. Fiquei, assim, trés meses sem Lrabalho. Foi azar: quando cheguei A Franga, onde quer que eu fosse, me diziamt: voce é muito fraco [jovem]; no vou empregi-lo, voc8 nao é forte. Eviden- temente eu era magrinho [...} ‘Um dia, andando pelos canteiros de obras ou indo de fébrica em Fabrica ~ eu nunca estava sé, éramos sempre dois ou trés, todos desempregados como eu, mas que j& conheciam © pais, era assim que procucévamds emprego, como se diz, acabei vendedor de carvao. Era inverno, um inverno muito frie; eu comecava o trabalho de manha, muito cedo, as seis horas da manha, ainda era noite, eu tinha frio, nfo tinha muitas roupas, carregava sacos de carvilo, carregava 0 caminhio, desearregava, descla o carviio para os pordes. Era muito cansalivo, sujo, a marca do carve ficou incrustada em minha pole por meses depois de cu ter deixaclo o servigo, Eno fim clas contas, apés trés semanas de trabalho, pedi-the um vale porque nio tinha um (ostio, nem para tomar um café, € quando o cliente a quem a gente entregava 0 eu no tinha direito a nada, Nao tive carvio dava uma moeda, © motorista ficava com tud vale ¢ no final do més nem tive sakirio ou quase nada, com a desculpa de que ele me dava comida a0 meio-dia, Descobri depois que ele nem finha me declarado para 0 seguro social Nesse meio tempo, eu queria fazer como os adultos, como todo mundo: tinha pegado empres- tado 3 mil francos (antigos) ~ era muita na época -, que enviei imediatamente a meus pais. Vejam: sew filho jf esté na Franga ¢ j4 envia um pagamento! Bra um costume: assim que chegdvamos & Panga, pegévamos dinheiro emprestado; lids, todo inunco oferece dinhciro com esse fim, Todo mundo..., ou seja, aqueles que devem Fazé-to. uma obrigagio, Certa- mente fizeram o mesmo para eles quando chegaram 4 Franga. La também a situagio € a mesma para todos: todos sabem...; nada é escondido {... Entdo, depois desse inverno de 1954... um parente que vcio do Leste, de Longwy — chamévamos de Alemanha como chamam o lugar onde estamos de Bélgica -, veio nos ver. Viu- ime naquele estado... infeliz, desempregado, morava na casa de um ¢ outro... odes procuravain trabalho para mim, mas nao encontravam nada... trabalhei até com camponeses. Entiio convi- dou-me a ir com ele. Disse tanto que encontraria trabalho para mim, que 14 era muito fécil, ninguém estava desempregado, [4 se ganhava muito dinheiro, em suma, o paraiso na terra, que deixei-me seduzir; estava encantado ¢ todos também estavam, Eu sentia que comegava @ pesar (0 “PECADO” DA AUSCNCIA OU OS EFEITOS DA EMIGRAGAO demais para todos, alimentar-ane, hospeclar-me, a preocupagio que tinham de encontrar traba- tho para mim, Funciona um més, dois meses, tres meses, mais do que esle prazo cazosvel comegava a ficar chato, Eu ouvia murmurarem que talvez. fosse melhor eu voltar para minha m, pagar minhas terra, .falavam de me ajudar, de juntar algun inheiro paca me pagar via dividas — os 3 mil francos c algumas outras — e levar algum dinheira para casa, Que vergonha! ‘Tudo o que quiserem, mas isso nao. Voltar para casa com 0 dinheiro dos outros, s6 se age assim com uma prostituta, Era comecar “mal” minha vida na Franga. © que iriam dizer? Quando os ‘iltimos dos tltimos, corcundas, mancos, estipidos vieram para a Franga, tabalharam, cnvia- ram dinheito, tiveram sucesso, como eu, que me considcrava acima deles, como aceitaria voliar para casa sem nada, de cabega baixa? Que cara eu teria para mostrar dis pessoas? Nunca! EntZio Seria alguma coisa positiva, menos cu no tinka nada a perder, vamos para a “Alemanha” (rabalho para as pessoas de Valenciennes. Quando cheguei If, nada do que ele havia prometido, Bra sinistro. Morava pior, comia pior, ninguém que eu conhecesse, ninguém da minha terra. A noite completa, Ele mesmo cra tia Suporte’ trés verdade um desempregado e vivia sustentado pelos outros, mas era costume dele, semanas, disse-Ihe adeus depois dessa curta cstadia, Ble nilo insistiv, Nesse caso também, como voltat para Valenciennes? Era como voltar para minha terra, am pouco menos, Além disso, em Longwy me levaram para 14, ninguém vai me tevar de volta para Valencionnes, me convidar para voltar para Valenciennes. Ser que devo avisar, anunciar que estou voltando para Valenciennes? Quem? Ja fazia cinco ou seis meses que eu morava na Franga, eu comegava a me virar um pauico, a ter menos medo, a saber me aventura: Hnlo pensei: é melhor mudar de regio: vamos ver em outro lugar. Um belo dia, saf de Longwy e fui parar etn Haute-Marne, em Saint-Dizier, exatamente, Cheyando a Saini-Dizier, acabei encontrando gente da minha terra ow quase da minha terra, Felizmente, cles se mostraram acolhedores, um deles teve a gentileza de cuidar de mim: me arrumou um emprego. Para fazer o qué? Descarrego vagdes de carvii como os vagies de trem; dois por dia e vire-se: um de manha, ovlro & tarde, © precisava termi nar. E todo o tempo, todo o tempo... Agtientei de 54 a 56. Dois vagdes por dia, até que estives- sem vazios; com uma pa, E uma usina de ago, era um forno, as formas da Haute-Marne. E desse forno tiravam arame, tiravam rodas de carrinho de mao € muitas outras coisas. Havin também um forno, chamavam de forno Martin; 0 sopro quente empurra voce até ki longe [gesto da Ao}... Ble funciona com carvio, entao precisava de carvao, vagées inteiros, um atrés do outro; duas pessoas aqui, duas pessoas ali; dois aqui, dois ali ¢ assim por diante, como nm cada Era muito dificil (..}. Esse nogécio de carvio, 0 primeiro emprego de minha vida... era “minha” Franga e comecei direitinho: o carvio por vagies ¢ com uma pa. Comecei o primeiro dia, 16 de agosto, de 1954, lembro-me disso como se fosse hoje. Agientei de 54 1 56, eansei desse trabalho... Mas ‘95 que Viriam no seriam melhores. No trabalho, sempre fui de um inferno a outro. Seri que que & a mesma coisa para todos? O trabalho, para mim, sempre foi ir tenho menos sorte ou se de um infemo a outro, [...] Mudei e peguei outro trabalho num forno: € um trabalho do dcido, esse cide para desoxidar os metais € outras coisas, Se una gota de cide correr sobre a calga ou sobre outra roupa, ela se rasga imediatamente. E respiramos aquele cheiro [...]. Ba mesma coisa, todos os trabalhos sao iguais, nenhum é methor do que os outros. E sempre um trabalho pesado, Nao so duro, mas também perigoso; s6 veneno! Desde que cheguci & Franga, ng hé um s6 trabalho no 123 ‘ABDELMALEK SAYAD 124 qual eu tenhia encontrado um pouico de misericérdin; todos, sejam quais forex, do primeira a0 iltimo, so apenas trabalhos pesados; nfo s6 pesados, chegam a ser morlais. “Bles giram em volta da sua cabega'”, até conseguir pegar stua cabeya: é 0 acidente; ou é um ponco de veneno que, lentamente, todos os dias, penetra em voc’ e, sem que voce pereeba, cava o seu timulo, Trabalhos duros € perigosos, s6 t ‘Apés esse segundo trabalho ~ nilo fiquel muito tempo nesse cargo -, era ainda a mesma quando terminam o dia de trabalho, m isso, coisa. Maldito seja! Nunea tive sorte no trabalho, Algun parece que acabam de acordar; cu sempre fui de um inferno a outro, Bu Linha um parente distante, ld om Saint-Dizier, mais um amigo: ele trabalhava em outra fibrica. Achou que seria melhor me tirar dle onde eu estava para me levar para aguela fiibrica onde ele trabalhava. 1ss0 para que me dessem ui trabalho mais leve, porque eu ainda era muito jovem. Bu nie tinha a forga dos homens feitos. Ble estava com pena de mim, Mas na verdade era a mesina coisa, © mesmo calvério: como o primeito trabalho, como 0 segundo, como 0 ferceiro © como os outros que se seguitiam; nfo ha nenhuma diferenga, 6 a mesma coisa. La fnzfamos galvanizayio, trabalhévamos 0 arame, 0 arame farpado. Meu servigo, eu era gelvanizador, Levava os pacotes até o desenrolador (em francés: dévideir, para o entrevistado: “dividoue) © eu desenrolava (dividigh’’) assim: eu conduzia a ponta do pacole: aqui, era © banho de chumbo, o arame passa por If; afi, € 0 banho de éeido, Quando o arame sai do banho de chumbo, entra no cide para ser desencapado, Mais um banho, secador, ¢ finalmente 0 banho ce zinco, O arame entio fica todo brilhante [...], esse arame fica todo branco, Aqui sfio as bobinas que rodam. Pacotes de cento € vinte quilos, cem quilos, citenta quitos, depende das encomendas; nao tem menos de setenta, sessenta quilos. E preciso fazer tudo isso gitar! Enido, enquanto vocé passa a ponta do arame no banho de chumbo, o vapor pega voce; primeiro © chumbo, depois voc passa para © dcido, € dai & a fumaga, ela veri quente... B incrivel! Depois, 0 banho de sal ¢ também 0 banho de seeador, 0 banho de zinco, ¢ enfim passou a bobina inteira. Hé uma concorréncia entre nds ¢ 0s outros operérios, principalmente os franceses; apostamos quem vai fazer mais toneladas, porque funciona em equipe. Somos pagos por més, mas recebemos bonus por tone a primeira coisa que fazemos € olhar a tabela Ls a lada, ‘Tem trés equipes. Quando chegamos equipe I, » primeira, das quatre horas ca manha as duas horas da tarde, chegow a tantas tonel das, Concorréncia! Nossa equipe pega no servigo as duas horas, acaba &s oito da noite. Somos scis; cada ym com seu setvigo: um vigia o desenrolador, outro vigia os banhos, 0 terceiro esté aqui; dois earregam 0 material. Ao todo sto cinco operirios mais um é o varredor, ele cata 0 que cai. Vi um acidente, que Deus nos proteja. No fim das contas, em Saint-Dizier, fiquei até julho de 56, quase até o fim de julio de 56, [..] Bstava cansado da Haute-Mamne, sabia que enquanto ficasse naqucla regio seria sem- pre a mesma coisa: trabalho duro e maus salétios. O que hd além disso? Ferro ¢ mais ferro; siderurgia, $6 existe iss0; voc€ sai de uma fébrica e vai para outa de win Forno 2 outro [..). Fae era O. S. 1; s6 no carvao, meu primeito emprego, lui trabathador bragal comum (...} Saf de Haute-Marne e voltei “para casa”, em Roubaix. Agora posso voltar para Valenci- cemnes, porque sou tim trabalhador como todos os outros; jf sou da velha guarda. E, come todo mundo, fui para a mina, para o corte, Encontrei um pouco do que contavam da mina na época em que, como sempre ontvi dizer, “se tava da mina tanto dinheiro quanto carvao” [..}. Sim, 6 preciso dizer que a mina, na nossa aldeia, na nossa regitlo, vem de muito Jonge: a gente de minha aldeia comegou a trabathar nas minas jé em 1930 ou antes. Antes de chegar \ Franga, eu 0 “PECADO” DA AUSENCIA OU OS EFEITOS DA EMIGRAGAO Jf sabia o que era, Em nossa aldcia, entre nés, s at vieram para a Franga, que nfio sabem nada da Franga nem da mina, no pi tempo para fazé-lo [..1, O que estivamos dizendo? Era a época em que os mineiros trabalha- Apostava-se quem tiraria mais earvao, Dizianios: “Sabe, fula- ganha tanto..." B 0 outro respondia: "Nao! Existe coisa methor... Sicrano fez mais do que cle”. Havia assim tr8s ou quatro pessoas de quem todos falavamn. Jovens, fortes, grandes trabathadores, muito econdmicos, enviavam muito dinheiro Bram as estrelas. Todos queriam ser como eles Na mina, fiquei por dois anos, um pouco mais de dois anos [...J. Bem 1958, 14 no Norte, com a guerra da Argétia..., muitos problemas. A polfcia, os “inmtios". Precisamos partir [.} Contudo, nao houve apenas os maus momentos da guerra, foi a melhor época de minha vida na Franca, Estivamos entre parentes, nos ajudvamos, 0 trabatho dava certo, fs também estiva- mos entre parentes, entre amigos. Era como quando trabalhdvamos na aldeia, todos juntos: os mesmos trabalhos, na mesma época, para todos. Naquela época trabalhei muito... como todos. Apenas o trabalho contava... Trabalhdvamos como anitnais, terfamos trabalhado dia ¢ noite; contivamos muitas vezes nosso dinheiro, Eu abalhava até estar saciado, até estar facto; joga- va-me no trabalho alé virarmos um s6, eu € 0 trabalho, trabalhava até ficar cego, alé néo enxer- gar bem de tanto trabalho, Eu mergulhava no (rabalho..., 0 trabalho ¢ eu, era a mesma coisa; se pudesse, trabalharia até domingo. O trabalho era como uma droga; e quando eu parava percebia que estava drogado, embriagado de trabalho [...]. © que dizer? Vim para trabathar, estou aqui para isso, entéo me afogo no trabalho |... preciso dizer que naquela época era a juventude, postivamos quem trabalharia imais © enviaria se fala nisso. Até os que nu cam de falar da mina, tém todo 0 vam quase que por emprei no, dizem que cle tira tanto por dia © qu ‘eu era forte: sedento de trabalho ¢ de dinheiro, mais dinheiro & aldeia (...J. Bu estava em paz... apesar da guerra, apesar de tudo 0 que escutiva- mos sobre nosso pais, apesar de niio podermos voltar para nossa terra, ir tanto quanto gostarfa- mos. Na época, as coisas estavam muito claras. Nossa terra ¢ li; aqui, € S6 porque precisamos trabalhar, ganhar dinheiro para If; fora essa preocupagao, nada existia € nada vinha dissipar essa atengio que tinhamos por nossa terra, Era muito melhor do que agora... contudo estéva ‘mos em plena guerra, viamos prisdes todos os dias, todos os dias, cada um de nis esperava sua vez, sua hora de ser preso [..]. Sim, era claro, era huminoso; até a mina, a escuridao da mina, era luz comparado com a desordem, « neblina, o “negrume”” (que também quer dizer o erro) da situagio atual [...]. Luz quando era noite duas, t18s vezes: a noite do exilio [da elghorba)!*, a noite “sublerrénea”, a noite das entranhas da terra; € @ traballio muifas vezes noturno, pois 1; 0 “negrume”, ele se encontra, se forma dentro dos havia também um turno da noite! E assi coragées, dizem; quando o coragdo esté transparente, “impo” [ou soja, sereno], quando res- plandece de luz, a escuriddo “externa” também é luz! nalistas da federagtio francesa da FLN durante a guerra da infos” para reafirmar que se fazia parte de uma , neste 12, Os “irmios", alusio ans militantes ‘Aagélia: chamavam a si mesmos e nos outros de “ mesma comunidade (comunidade de condigs0, os colonizados, comunidade militante) opost ‘caso, implicitamente, & “comunidade” dos colanizadores ¢ também, para se diferenciar, objetivamen. te, mesmo se nunca é dito explicitamente, do uso que se faz dessa outra denominagio marcada ideo- ogicamente de outra forma, nde “camarsda”, que € contudo seu paradigma. 13, Para 0 conceito de elghorba e seu significado antropolégico, cf. pp. 28-44 ("Elyhorba: Os Mecanis: mos de Reprodugao da Emigragio") 125 “ABDELMALEK SAYAD 126 ‘Apesur de todas as diticuldades, Foi no norte que passei talvee 0 melhor period de minha estadia na Franga... Ainda estava feliz na época. Eramos como as dedos da mio; gra- {gas a isso puclemos suportar, agdentamos, ajudivamo-nos. Mornmos até dezesseis num s6 quarto [...] Came... comianos carne ama vez por semana, Nao conhecfamos... como hoje, bife todos os dias. O que é a carne, 36 sabfamos,.. era uma vez por semana, quando haviat Quarta-feira cra dia de feira; um de nds ia buscar carne; ndo ern porque um comprava carne & vozes quatro colegas concordavam em repartir a 0 outro nao, era porque os dois, (és, refeicao e comer juntos dividindo as despesas. De todo jcito, ningiém cozinhava s6 para si ‘era cada um com quem era sou amigo ¢ combinavam-se os hordrios, Estévamos ben organi zados para isso; nos dvamos todos bem J. Contudo, mio éramos todos da mesma aldeia, rem mesmo da mesma regido: dois eram (oriundos) do que chamavamos de Affreville ~ voce vé, era longe ~, dois de Michelet ¢ eu de Sétif, Foi 0 methor perfodo que passei na Franca, mas naguela época quanto zanhévamos? Oito mil, nove mil por quinzena; © melhor de nos chegava a trinta, vinte € oito por més, E 86. Mas por outros motivos, os aborrecimentos da guerra, foi preciso deixar tudo, deixar a mina, deixar 0 norte e vir para Paris. E desde entio sempre aqui, em Paris. Fiquei (na Franca] durante todo o tempo de guerra, ndo voltei para mina terra. Entao, de 58 até 60, volte a trabalhar aqui, em Paris. Quando vim para Paris, fiquei desempregado por nove meses; nove meses de dlesemprego. Depois, foi um emprego na contecgtio de cotchées{...]. Nao, era um trabalho de verdade, e nao sé wm disfarce™ [...]. Nesse trabalho dos colchdes, eu era forrador... Bra uma “fabriqui- nha”, mas entiio o trabalho era dificil. Sim! Ganhévamos uns trocados, era verdade. Na época, few ganhava até sessenta ou noventa inl... claro, era com horas extras; setenta ou noventa aquela época, era muito, mas a gente trabalhava até sessenta € quatro horas por sennana. $6 2 prensa, quando precisivamos colacar um colchiio na prensa e aperté-o, era preciso levantar até duzentos quilos, a prensa e 0 quadro, para colocar o colchio, Além disso, € preciso ser ripido para colocar os botdes. Era dificil, mes nada que se comparasse com o trabalho que fiz na Haute-Marne, Nada mais duro, acho, do que o trabalho na frente do fogo. A mina, ao lado daquilo, era trangiila, Mas ter 0 fogo na frente, 0 Fogo que queima a 1700 graus ou 0 fogo que corre, © Acido, isso € 0 inferno. [cL Na siderurgia, no dcido, muitas vezes acontecem acidentes: so pequenos acidentes: ou voc® deixa a vida, ou deisa uma parte de voce, um membro, Uma Terramenta que cai 6 uma coisa enorme, € um mastodonte, Esti sempre fervendo: a fundigio, © {que vocé acha, é um rio de Fogo. Quanto ao feido, euidado, é preciso chegar perto com prudén- ciay nfo se pode tropecar. Poi assim que vi um acidente horrivel, No servigo do arame farpado, havia um operétio, pobre infeliz, que a bobina segurou. Ble gritava como uma dguia, Pellzmen- te para ele, quando a bobina girava, ela s6 agarrou seu avental, araneou-o ¢ 0 levous se no fosse 0 avental, teria levado saa cabega, © avental rasgou, foi carregado pela bobina e langaclo , Deus nos proteja, 030 para 0 outro lado. Outro operério ~ estivamos na mesma turma ~ subiu por cima do banho para enfiar uma langa, 0 fio de arame, para timps-1o, Perdew o equitfbrio ¢ caiu dentro do zinco; fot cera permanente, estaya na “qasma’ (grapo de tnilitantes), 440 ¢ de proteyao da “qasia” 14, “Disfarce” para suas atividades politicas: * cera $6, ern militante responsivel pela qasma'” e pelo geupo de interv (© “PECADO” DA AUSENCIA OU OS EFEITOS DA EMIGRAGAO mergulhado naquete banho. © pé inteiro mergulhou, Ficou catorze meses no hospital. Cator- Ze meses para cuidar do pé, coitado. Sobravam s6 os ossos; queimou-se num grav... Melhor nao dizer nada, Outro ainda ~ este outro também trabathava comigo ~, cinco dedos, trés da mio esquerda © dois da mio direita. ‘Todos os dedos se foram com a bobina, Enquanto ela girava, ele fentou arrumar a bobina com a mao, para que cla se enrolasse direito, para que nfo desse nd, que ficasse bem cnrolada, Quis bater nela assim, com a nyo. A bobina segurou seus dedos, ele tentou arrancé-los com a outra mo, mas ela cortou mais dois dedos; a0 todo, foram cinco dedos que ele deixou Ii... Ele nto conhecia a mecanica, queria arrumar com a mao quando el estava em movimento. Nio se mexe num mecanismo com os dedos! Esse operirio era de minha aldeia; alias, esté em Argel agora, Dissc-me que jamais voltaria [para a Franga): ele me disse: “Vou tentar por todos os meios no vottar para a Franca”. Enfim, ele também recebe uma pensio [.... Sim, ele havia retomado o (raballio aqui na Franga, setts dedos estavam curados; do, foram cortados; trés dedos da mao esquerda ¢ dois «la mao direita. Kum mutilado. Havia muitos acidentes naquele setvigo, Quem trabalhou Mi [em Saint-Dizier] c voltou sio c salvo é feliz frente ao Eterno, pois os acidentes nao faltam. Nao passa uma scmana sem que pegasse alguém; voc nunca sabe de onde 0 acidente pode chegar. J Sim, preciso enfim chegar ao trabalho atual. Entre todos esses trabalhos ¢ meu trabae Iho de hoje, houve uma longa interrupeaio. Em 1960, 0 que devia acontecer acontecet, Pui reso, encontraram em minha casa listas de pessoas, todos 05 que colaboravam. Felizmente, eu linha acabado de entregar o dinheiro que eu tinha; poucas horas antes, eles teriam encontrado milhOes nas minhas mos, Levaram-me, Nao you falar sobre isso... Algumas semanas de ca- deia, 0 forte de Noisy-le-Sce..., 0 acampamento. Pouco mais de um ano, Transferiram-mne para a Argélia, em Béne; c af, o cessar-fogo chegow, fui libertado na Argélia, Fiquei algum tempo na Argélia, em minha aldeia; tentci a sorte, como todos na época, cm Argel. Eu podia me virar como todo mundo, encontrar um lugar para morar como todo mundo, a moradia estava Fécil na época, com todos os apartamentos vazios. Mas quando a gente se acostumou com seguranga, no pode acostumar-se naquela situacao [.... “O Exitavo (Acuria) € como 0 ‘Unico’ (Et-Warpan)): O Diretro (CHrA) NAo LHe Perwire FuNDAR UMA Casa (i. &., TER UMA EsPposa)” Evidentemente, casei-me; talver nla sido a pior besteira de minha vida, Mas 0 que voce quer? Quando a gente volta para nossa terra, quando encontramos nossa casa, que mais voce quer fazer? Além disso, eu j4 tinha 30 anos, estava velho para o casamento. E. verdade, sai dda aldeia jover, antes de casar; ja na 6poca, muitos jovens da minha idade, 18 anos, 19 anos, j4 os haviam casado antes de deixé-los partir para a Franga {.... Sim, era uma forma de seguré verdade. Alids, nenhum deles ficou como cu, dez. anos na Franga, sem voltar para nossa voce Jos. terra, Para mim, a Franga, do inicio até aquele dia, foi uma tacada s6, Isso deixa marca nao € como os outros. Entio, quando casei, me arrastei ainda algum tempo e depois tomei novamente 0 caminho da Franga; ¢, cm niovembro de 1963, eis-me de novo na Franga, Desta 127 ABDELMALEK SAYAD 128 vez, Paris diretamente. Trabalhei, aqui ¢ acold, em coisinhas, no polimento de metsis no He disirito, ¢ até mesmo no hospital, © hospital da Pitié-Salpetriove. Durante todo esse tempo, easado, comecei a ler fills, entio precisava voltar regu mente para minha ferra, mas voltava s6 durante o tempo das férias anuais.... um mes por ano, nada mais ou, n0 méximo, uma semana a mais. B ainda nie posso dizer que voltava para ld todos os anos, é melhor dizer cada dois anos [...J. Agort niio tenho mais por que voltar, nfo tenho mais o que fazer Ii, No quero mais saber. Tudo mudow tanto aqui quanto I4, As coisas nfo tm mais o mesmo sentido. Vocé nem sabe mais por que est na Franga, para que serve, Nao tem mais ordem, aquela ordem que havia antes, quando as coisas talvez fossem mais dificeis, mas tinham sentido. Hoje tudo mudou, nfo sinto mais yontade, no tenho nenhum prazer em yoltar para Id, mesmo nas férias, ou em ficar aqui... $6 que aqui jé estou, precise ficar. Nao escolhi |...]. Meus filhos esto com minha mae, tenho uma filha € dois filhos. ( Porque & mic deles se foi, eu me divorcici [...]. & melhor divoreiar, Quando sua mulher esté de tum lado e vocé do outro, no ha mario ¢ muther, entio é melhor devolver-Ihe a liberdade. Para que ter uma muther quando vocd esta sempre ausente, uma mulher cujo marido nunea esté. Tive essa experiéncia, sei o que é; isso basta, Bo que chamamos de homem que nao pode ter uma casa, no tem o direito de ter uma casa, Ento € melhor nfo tentar ter uma casa, una mulher Ela é vitiva durante a vida de seu marido. E preciso estar louco, inconsciente, para aceitar semelhante situag3o, Estou arrependide J} ‘Trazer minha mulher para c4. Nunca, E impossfvel! Nao invejo a situago daqueles que esto aqui com a familia ...}. Sim, aparentemente; como voce estd dizenda, & 0 nico meio... se no se quer separar, dividir a familia: de um lado, o maride que ests na Franga, sozinho; do outro lado, a mulher ¢ 0s filhos. Mas, quando a gente pensa bem, significa colocar a mulher ¢ os fihos na mesma galera em que estamos e é ainda pior para eles do que para o homem que partiu para trabalhar para eles, Na minha familia, nio tem pinguém. Mas, na verdade, se eu olhar para fodos os meus primos, tem algumas; s6 do lado de minha mae, © s6 em Paris, existem ts familias. Qual é a situagdo delas? Nao posso dizer, a gente nfio se encontra muito, Um deles nao estava bem num cerlo momento; cram sete ou oito pessoas, ele, a mulher e os lilhos, moravam hum quarto e sala [.... Nao faz muito tempo que esttio na Franga; vieram em 1971 ou 1972. Allis, trabalham no hospital todos os trés e tiveram filhos aqui todos os trés. Um deles comprou . com seus trés filhos; 0 outro mora num HLM em apartamento em Ivry: dois quartos ¢ sal Champigny [..] 0 pessoas que ainda mantém nossos costumes, que vive segundo nossas tradigdes. Por exemplo, as mulheres nao saem sem cles [os maridos}; nunca, a nao ser que estejam acom- panhadas e, ainda, para ir ao médico e para alguma outra coisa que valha # pena, que seja necessériu, Nao & para brincar {por prazer]. Em casa, no hé dividas, fala-se arabe; com certe~ za, entre eles [entre adultos, as pais entre si} € até quando falam com as eriangas; quanto 2s criangas, & mais forle do que elas, principalmente quando conversam entre si, 6 mais forte do que elas, é o francés que vence. ‘Sim, a idéia [de mandar vir a mulher € os fithos para a Franga] passou pela minha cabe- ga, claro. Como na de todos, alias; ninguém deixou de pensar sobre isso algum dia. Mas hi os que resistem, que se recusam a aceité-lo, € os que se deixam ir., [..]. Pensei nisso, por um -los por um bom motivo: pelas momento, 6 verdade; no digo 0 contritio. Pensei em traz ceriangas; naquela época nfo havia escolas na aldeia, entdo era para escolarizd-las. Eu tinha um (© "PECADO DA AUSENCIA QU OS EFEITOS DA EMIGRAGAO filho mais velho e uma filha menor, Alids, esse filho mais velho, cu 0 trouxe comigo, cle foi d escola aqui, na Franga [.,.J. Terminou o servigo militar ¢ acho que est numa companhia nacio- nal, onde deve estar trabalhando no comércio [...]. Conto mais com ele para cuidar de seus av6s; ele me substitu’ li [...J. Tudo bem para nés que somos homens, j4 comegou hit muito tempo agora; € nosso destino, Mas a mulher, nossas pobres mulheres aqui, a mulher que voce {az para cé, para que a esté travendo? Usa moradia que vale a pena? A Felicidade daqui? Onde esta? Se ela ganhou alguma coisa vindo para cd ~esté mais bem alimentada, mais bem vestida, mais bem cuidada —, cla paga muito caro; perde sua liberdade. sé infelicidade, solidao; ficaré presa dentro de um cdmodo, sujo, escuro, na umidade. F s6 isso que a espera, ter saudades do sol, do céu; sentira falta do céu (...J. No fim das contas, no ie arrependo, Deus sabe o que Fa, agi no sentido correto [J Prefiro que eles [0s filhos] fiquem atrasados se for preciso, mas que fiquem 16. Eu sei um homem sem instrugdo é um homem morto. Cada vez mais: quanto mais o tempo passa, mais isso € verdade. Quem nao é instrufdo, coitado, nao consegue nada. & uma estétua, am bibelé [ou uma imagem]. A gente vé isso por todo lugar; ainda se vé hoje, em tudo, em cada coisa, a todo momento e, até mesmo aqui, na Renault. Entre vocé ¢ mim todas as pessoas como eu que sf ©. S. € que continuario sendo ©. S. eas outras que (Gm instrugdio, diplomas, profis- sdes entre as mias, ele logo esté acima de voc8, se toma scu chefe, Isso € a instrugio [..1 Foi 0 que pensei por um certo tempo, mas afastei essa idéia muito ripido. Aliés, os acontecimentos no me deram tempo. S6 trouxe comigo o maior, 0 mais velho, fiquei em Paris, Ele ficou comigo. Ficou dois anos aqui. Eu morava no 20° distrito, Por gltimo, ele acabou numa escola de contabilidade, no ramo comercial; continuou cursande contabitidade [...]. 0 mais velho s6 ¢, além disso, voltou para nosso pais em tempo, Quando eu otho para as criangas [das familias argetinas imigrantes} daqui, quando vejo o que se tornaram, cles se arrastam, niio servem para nada, vocé nao sabe 0 que eles siio ~ nao sfo franceses, nila chegam aos pés do pior dos franceses, no conseguem; nfo so argelinos, niio tem nada de seus pais; voc’ nao sabe de quem é a culpa: culpa das criangas? Culpa dos pais? Mas com certeza o erro esté em ter trazido as familias em vez de deixé-las If [..]. A isso se acrescentam muitas coisas, Francamente, temos muita culpa nisso; nés também estamos errados. O que vocé ouve? Todos os que voitam de 14, que catdstrofe! Nenhuma palavra positiva eles falam de nossa terra: s6 t@m problemas, fazem o céu cair sobre a terra”. Os jovens daqui, 0 que pensam, j4 que nfio conhecem? Nao é culpa deles, Para que gostem de nossa terva, precisa ser melhor do que aqui. Assim, logo no inicio eles {m uma impressio negativa. E quem nao esti acostumado com a vida Id nfio pode gostar, € claro, Os pais ndo fazem nada, ndo explicam nada, no preparam, nfo falam sobre nossa terra, Quantos filhos de imigrantes que conhego (ém vergonha de seu pafs. Quando vio para 16 uma vez a cada dez anos, 0 que dizem? “Nao gostamos da comida argelina.... é quen- te... a gente fica doente”. Isso quando so pequenos; quanto aos mais velhos: “Nao tem cine- ma, nfo tem cafés, nfo tem bailes, a gente ndo se diverte”, Resultado: s6 serve para passar as férias, Se eles pudessem, ficariam na Franga € deixariam seus pais irem s6s para a Argélia Alids € 0 que acontece com mais freqii@neia; quando criangas, escolhem as coldnias de férias; quando mais velhos, ficam sozinhos na Franga. Tanto 0s rapazes como as mogas {...J- Quando vocé 0s escuta, percebe que eles falam de scu pafs como os franceses daqui: “Como comida argelina...", no conhecem 0 nome do cuscus, do boto que vira plo argelino. Dizem: “Nao sei falar argelino”, 0 que significa que nio sabe falar frabe. Deste ponto de vista, acho que as 129 . Reconstituiram Um cortigo. Tiram-se os sapato a casa tradicional com o dukkan a na Cabitia para sear em volta do kanons (logue Miga, que nia se encontra mais hoje em dia (0 "PECADO" DA AUSENCIA QU OS EFEITOS DA EMIGRAGAO criangas daqui, € preciso esquecé-ias. Nao sabemos quem so, Nao dé para entender, voot 10 pode consideré-los como Rumi [como franceses}, nem como argelinos. E um beco sem safca, uma incetleza. Considerando muito bem isso tudo, & melhor deixd-los aqui; sito como todo mundo no meio de todo mundo [J Foi realmente essa a raziio, vocé me pergunta? Sim e ado! {...] B isso ¢ nao é. Bu disse tudo isso porque tem a ver com a pergunta que vocé me fez. Foi a conversa que me levou a dizer isso tudo [literalmente: so as palavras que me levaram a dizer isso]. Mas na minha decisio entra um pouco disso; tem isso, mas {em também autra coisa, muitas outras coisas mais [.]. De toda forma, nao tem mais razio de ser, jd que agora estou s6, nfo tenbo mais mulher; 6 mesmo, com certeza, por isso que divorciei, Esta questo ndo se coloca mais. 1 talvez... € al divorciei. Nao dava para continuar juntos, é uma coisa que & preciso saber, que (todos deveriam saber: ela, ké, na Argélia, na nossa aldeia, e eu, aqui, na Franga; a mulher que fica na aldeia, 0 homem que mora na Franga, Niio pode durar para sempre. E preciso saber acabar com isso. ‘Aqui out ld? Bsta pergunta precisa reccher uma resposta.” Aqui c Hé, uma ver. em cada lugar, muito aqui © pouco 14, isso néo € resposta. Somente muito depois, apés numerosas entrevistas, umas com o cntrevis- tado no scu préprio local de trabalho o, mais significativamente, fora do trabalho; as outras, com sua ajuda, com 0 grupo muito cstreito de seus amigos, dentre os quais, principalmente, as duas ou trés pessoas com as quais esté mais Higado, que o cercam de cuidados e esto cheios de boa vontatle com ele por causa de seu es- tado de satide extremamente frégil, mais sua satide psfquica do que sua satide fi sica, veio a confissio: 0 entrevistado acabou “confessando o que nao confessara até entiio para ninguém” — exceto, claro, a scus confidentes, que me avisaram com muita delicadeza e discrigao sobre a “infelicidade” que aconteceu em sua vida, que foi certamente a origem dos distiirbios psiquicos pelos quais foi tatado. Evidentemente, cettos siléncios do entrevistado, certas falas desiludidas, bastante elipticas, ou melhor, alusivas ~ sem nunca dar certeza daquilo a que aludiam — e sempre muito sugestivas, cheias de subentendidos, s6 podiam ser entendidos, fazer sentido com a condigdo de que fésscmos informados de toda a dimensao “inconfessével”, indizivel da vida do entrevistado, que foi sua rela~ gio conjugal. Nunca é sem emogio, ¢ neste caso mais do que em qualquer outta circuns- Lancia, que recebemos as confidéncias mais intimas de um entrevistado, marca da extrema contianga que acabou depositando. no entrevistador, esse eterno questionador, curioso de tudo, fugador do passado e do presente de todos, nos comportamentos visiveis, manifestos € patentes, bem como nas razdes de ser as coisas secretas desses comportamentos ¢ em sua finalidade iltima, todas ou latentes; esse “importuno” que tem a pretensiio de construir &, por conseguin- lc, de possuir a verdade dos sujcitos melhor do que esses mesmos sujeitos, me- 131 ABDELMALEK savaD 132 ujeilos que a carregam em si, que a fazem agir € a executam (sem 4); € que, tio fim de seu trabatho de espectador ¢ de ana- Jhor do que os nao existir os quais lista externo, intervindo sempre a posteriori, post festum, pretende querer ensini la a seus préprios autores, adotando assim sobre as coisas, © até mesmo sobr as coisas do mundo social (ou seja, sobre as coisas dos entrevistados ¢, por con- seguinte, sobre os préprios entrevistatos), um “ponto de vista divino”, como te- ria dito Leibniz, 86 se pode ficar admirativo e s6 se pode se deixar levar por essa espécie de fascinio ¢ de sedugiio que 0 esforgo constante, que percebe no entre- vistado, exerce sobre todo observador liicido: esforgo encarnigado, a0 mesmo (empo profundamente interiorizado ¢ fenomenalmente aparente cm cada conduta © em cada palavra pronunciada; estorgo sobre si mesmo, dramético e continuo, prédigo em lucidez onde normalmente as pessoas teriam apenas mantido de for- ma banal ¢ comum as ilusdes.titeis para a justificativa de si mesmo, a auto- justificativa de sua situago atual, ou seja, todas as ilusées necesstrias para mas- carar a verdadeira natureza de sua posicio ou, mais simplesmente, a verdade de sua condigao. O longo habito, ou melhor, a longa pritica do que se pode chamar de “con- lalos culturais”, principalmente quando nesses contatos se ocupa a posigio de dominado ~ ¢ a imigragao e, com ela e antes dela, a colonizagio constituem hoje, nte € para o colonizado, 0 caso mais realizado nes- respectivamente para o imig te sentido ~ 0 inclina a dirigir sobre seus préprios comportamentos e sobre os comportamentos dos outtos (desses outros de qucm se esté separado fundamen- almente, separado em tudo e por tudo; de quem se est separado “arbitrariamen- te”, no sentido cm que a ctimologia entende a palavra “arbitrario” e fala de “ar bitrariedade cultural”) um olhar espantosamente critico e a adotar, assim, uma atilude profundamente reflexiva. Essa espécic de experiéncia do mundo social, que nao deixa de ser determinada por certas condigdes de existéncia (dentre as quais os empréstimos que as situagdes de contatos culturais impdem) e que é feita de espanto e de “desconcerto”, parece reproduzir, a seu modo, a alitude que esteve precisamente na origem da tradigaio etnolégica ¢ parece ter inspirado aos profissionais da etnologia o valor essencial de sua disciplina que é 0 “relativis. mo cultural”, Semelhante disposigdo, a um tempo social e mental ~ disposigao mental socialmente constituida -, s6 pode contribuir, neste caso como em mui- tos outros (no de outros imigrantes)'’, para melhor entender praticamente (i. e., por meio de uma compreensao que implica a prética) a intengio sociolégica ob- 15, Como outro exempto deste desdobramento socioldgico que determinadas condigées sociais provocam, ef, “Os Filhos Hleyitimos”, pp. 173-234. (0 "PECADO" DA AUSENCIA OU OS EFEITOS DA EMIGRAGAO Jetiva, a intengao sociolégica que habita as quesiées do socidloge © que também esti objetivamente contida no objeto do debate, Toda empresa sociolégica ver- dadeira, porque também é, em parte, uma socivandlise, supe uma parte de “auto-andlise”; apesar de nfo ser sempre bem controlada ¢ embora seja um em- preendimento “selvagem’” ¢ uina obra pessoal, essa auto-andlise, que 6 também uma resposta aos limites que certas situagées particulares impdem (dentre as quais, om primeiro lugar, a situagdo compartithada pelos imigrantes), retine-se dessas aqui a socioandlise que a sociologia aciona para,conquistar a intelece: situagdes particulares, do modo como cabem aos que chegaram a ela; 0 produto da andlise sociolégica torna-sc assim, por sua vez, 0 instrumento da socioandlise. Com a condig&o de poder voltar a dar ao entrevistado os meios de se reapropriar dos esquemas de percepgio © de apreciagio do mundo social e politica, sendo qne a caréncia desses meios é precisamente 0 principio da miséria propriamen- tc social ¢ moral caracteristica de toda uma classe social; com a condigio de poder cumprir ao mesmo tempo sua fungo libertadora, a sociologia nao terd desmerecido sua fungdo, pois assim nao tera apenas despojado 0 entrevistado de seu discurso, ou seja, de uma parte de si mesmo. Entre aquele que se abre a algum confidente de um segredo dificil de su- social ¢ psiquica do indivé- portar, enraizado muito profundamente na estrutut duo ~ segredo literalmente incorporado (ou seja, feito sar disso, de uma autonomia relativa que o torna suscet{vel de objetivagao (ou seja, de perpetwagAo para além da destruigdo material do corpo no qual é porta- do, suscetfvel de sobreviver ao corpo) ~, ¢ aquele que resebe a confidéncia, nao se sabe quem deve mais ao outro. Como diz o préprio entrevistado, “primeiro estrangeiro (a sua “infelicidade”) a ser o (primeiro) confidente ao qual cle se sa que niio pode nomear © pu- ‘orpo) mas dotado, ape- abriu sobre sua “infelicidade” — “infelicidade” blicar, conforme diré -, no se pode deixar de se apavorar por ter de suportar 0 peso da carga entregue ¢ dever assumir as obrigagées decorrentes, a comegar pela primeira de todas, a obrigagio de nao revelar nada sobre a mensagem sa- grada. “Sagrada” no sentido mais forte da palavia: primeiro no sentido em que a palavea € uma coisa “sagrada” e, acima de tudo, aquela que “fala de um se- gredo”, que “fala do que nfo se quer dizer”; depois no sentido em que se trata aqui do universo do “sagrado” por exceléncia, do haram, que é, como o quer a légica da honra c como o quer também a dialética que existe entre os sentidos da honra e o ponto de honra, 0 dominio do que € “proibido” ¢ do que € “deseja- do", do que é “precioso”, proibido porque preciose ¢ precioso porque proibido"’ nada que pudesse idemtificar 2 pes: 16. Assim precistvamas multiplicar as cuidados para nao desvend 133 ABDELMALEK SAYAD 134 Se algo pode autorizar e incentivar a dispor do discurso recothido e de am discurso recothido, com cericza, em toda confianga (ou seja, esquecendo a rela- Gao de entrevistado com entrevistador e, em alguns momentos, a relagao simé- ‘esquecimento” 6, sem diivida, a trica de entrevistador com entrevistado; esse condigao de contianga, mas € também, com maior certeza, cfeito da confianga estabelecida), ¢ a espécie de alivio, quando nao de alegria aparente embora cfé- mera (porque fortemente contrariada e toda “para dentro”), que se seguiu ao momento decisivo em que as palayras mais dolorosas, mais “escondidas”, foram, soltas. Foi, segundo confissdo do entrevistado e de suas testemunhas, “como um fudo acontece como se o autor da confidéncia tivesse en nfidente uma nova pessoa com quem compartilhar seu véu que se ergucu”, contrado naquele novo ¢ segredo, sua carga, sua vergonha, sua maldigao, 0 pesado fardo que o impede de “ficar ereto” (tanto moral quanto fisicamente) ¢ também seu siléncio. O efrculo dos confidentes aumentou, Um tabu caiu! A contisstio ~ pois trata-se disso; con- fissio mais do que confidéncia ~ aparece como um ganho de liberdade, como uma nova libertagdo, como um novo trecho arrancado da “inexisténcia”, logo uma nova parcela de existéncia: um pequeno espago, um pequeno encontro, uma pequena troca, uma relagao intermitente, uma conversa de alguns instantes du- ranle oS guais se pode existir, por certo parcialmente, mas com uma existéncia socialmente atestada ¢ nfo “introvertida” como o é de costume. O discurso re~ colhido nao € apenas entregue com toda a contianga até mesmo, mais do que so, com toda a afeigto ~ ou, como se gosta de dizer € como me foi dito pelo fvel conseguir do i entrcvistado € seus amigos (sem os quais nao teria sido pe entrevistado mais do que ele costuma dizer), “fraternalmente”, o que, vindo da parte deles, néio pode ser reduzido a uma simples forma de polidez —, esté mar- cado por uma profunda sinceridade e por uma inegdvel autenticidade; € tanto inais sincero € auténtico porque todos, tanto o entrevistado e seus amigos quan- to o prdprio entrevistador, acabaram, em mais de um momento, esquecendo a finalidade tiltima da operagao que consiste, para alguns, em recolher o discurso para fins de andlise, Esse esquecimento compartilhado, no qual se pode ver a prépria condigao de autenticidade do discurso, pode ser considerado igualmen- te, muito corretamente, como produto da confianga que se encontra no prinefpio da relagdo de entrevista mais frutffera. Produzida como para si mesma é tendo a si mesma como fim, ¢ néo como resposta a uma situagio de entrevista, a lingua- gem de verdade que podemos ter sobre nés mesmos (linguagem de auto-anéli- soa entrevistada, mas scan alterar su fala, suas curacteristicas proprias, esyeuciais para a compteen. sio de seu discurso ¢ de suas condutas. 0 “PECADO” DA AUSEHICIA OU 05 EFELIOS OA EMIGRAGAD se) & também, e necessariamente, uma linguagem de auiocomaicagiio, de auto~ informagao (de comun mesmo) tanto quanto & agio de si consigo mesinu. de informagao «le si sobre si ¢ talve7 antes mesmo de sé-lo ~ wma linguagem de comunicagtio para os outros ¢ uma linguagem de informagdo parn os outros 135