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UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS

FACULDADE DE COMUNICAÇÃO E BIBLIOTECONOMIA

ARON PILOTTO BARCO

A COMPREENSÃO NO JORNALISMO LITERÁRIO:


UM DIÁLOGO COM A HERMENÊUTICA

GOIÂNIA
2009
ARON PILOTTO BARCO

A COMPREENSÃO NO JORNALISMO LITERÁRIO:


UM DIÁLOGO COM A HERMENÊUTICA

Monografia apresentada em
cumprimento às exigências do Curso
de Comunicação Social – Habilitação
em Jornalismo – da Universidade
Federal de Goiás (UFG), para
obtenção do bacharel em Jornalismo.

Áreas de concentração: Jornalismo


Literário, Hermenêutica Filosófica.

Orientador: Ms. Daniel Christino.

GOIÂNIA
2009
ARON PILOTTO BARCO

A COMPREENSÃO NO JORNALISMO LITERÁRIO:


UM DIÁLOGO COM A HERMENÊUTICA

Monografia defendida no Curso de Comunicação Social – Habilitação em


Jornalismo, da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da Universidade Federal
de Goiás, para a obtenção da graduação, aprovada em ________ de ________ de 2009,
pela Banca Examinadora constituída pelos seguintes professores:

Prof. Ms. Daniel Christino


______________________________________________________________________

______________________________________________________________________
Prof. Ms. Angelita Pereira Lima

Goiânia, dezembro de 2009.


Para:
Os amigos que me agüentaram, em
especial: Marília Neves (na UFG);
Gardênia Passos, Paulo Carvalho,
Ana Paula Alcânfor, Tamara
Benetti, Leonardo Dimitry,
Carolina Fernandes, Ricardo
Duarte, Pyero Talone, meu pai
Anselmo Barco e minha mãe Rubia
Mara Pilotto (na vida).
Agradecimentos:

Ao professor Daniel Christino, pelas conversas, por tanto me ensinar, por ser
o único (maluco) que daria suporte a esse estudo, pela amizade.

À professora Angelita Pereira Lima, que me motivou a concluir o curso, me apresentou


o jornalismo literário, abriu espaço para meus textos e reportagens esquizofrênicas e
inaceitáveis em CNTP e, além, me ajudou em tantas e diversas ocasiões.

Aos amigos e colegas de universidade com quem convivi nesses anos de curso e que
fizeram parte da minha formação.
“Um jornal é um instrumento incapaz de discernir entre
uma queda de bicicleta e o colapso da civilização”

Bernard Shaw
Índice

Introdução 8

Capítulo 1 – A hermenêutica
1.1 – Introdução à hermenêutica 11
a) Gadamer e sua obra 11
b) Interpretação e compreensão 13
1.2 – A restituição da tradição 17
1.3 – A verdade como experiência 19
1.4 – A estrutura da compreensão 23
1.5 – Linguagem como meio 30
1.5.1 – Dialética da pergunta e resposta 35

Capítulo 2 – O jornalismo literário


2.1 – Aproximações entre jornalismo e literatura 39
2.2 – Separando o jornalismo pela narrativa: o tradicional (bege) e
o literário 46
2.3 – Traços fundamentais 51
2.3.1 – Traços procedimentais 51
2.3.2 – Traços textuais 55
2.4 – Presença do estilo no Brasil 59

Capítulo 3 – A compreensão no jornalismo literário: pertinências


relevantes com a hermenêutica 60

Referências bibliográficas 68
8

Introdução

A comunicação social, como campo autônomo de conhecimento, sofre carência


de tradição teórica por ser uma área relativamente recente. Fenômenos como o jornalismo
literário acabam por ter poucos estudos e obras sobre, seja na tentativa de compreender o
cenário do pensamento que possibilitou a sua realização e aceitação, seja na sua metodologia
e formato. É necessário observá-lo mais atentamente, pois a tomada de elementos da literatura
pelo jornalismo pode abrir caminhos, possibilitar aprofundamentos diferenciados e maior
esmero na construção da narrativa, o que expande e explora a capacidade comunicativa do
texto.
As teorias da comunicação e do jornalismo se apóiam majoritariamente na
sociologia, o que de certa forma excluí as reflexões realizadas sobre a comunicação em outras
áreas, como a filosofia. Mas não podemos perder de vista que os métodos do jornalismo se
desenvolveram a partir de tradições teóricas que se misturam independendo a área específica
de estudo. O pensamento não escolhe área de conhecimento, é no meio acadêmico que
separamos tudo para facilitar o estudo. Como o material de trabalho do jornalismo é a
linguagem, conhecimentos como os da filosofia da linguagem e da hermenêutica são
relevantes para o jornalismo pensar sua prática.
Hoje, na hermenêutica, é indispensável o pensamento de Hans-Georg Gadamer.
Sua hermenêutica é fecunda, abordando o que é o compreender através de um diálogo
constante com a filosofia e a lingüística. Gadamer inclusive influenciou o pensamento de
autores de peso como Jürgen Habermas e Paul Ricoeur. Como este estudo se propõe a
estabelecer relações e apontar pertinências entre as estruturas da hermenêutica e o jornalismo
literário, procurando entender o jornalismo literário, e a hermenêutica é a ramificação do
conhecimento humano que lida com a compreensão, Gadamer se torna essencial por ser
atualmente a maior referência da área.
Para atingir esses objetivos, primeiro desdobramos os conceitos fundamentais à
hermenêutica que podem ser também importantes para entender o jornalismo literário, para
em seguida esclarecer o nosso objeto e ver como este funciona. Feito isso, relacionamos estes
dois procurando conexões e pertinências. Ao longo do processo o que surgiu de mais
proeminente se divide em três etapas: primeiro a experiência, passo inicial do jornalista, onde
esse vai à campo captar, assistir, ouvir, vasculhar os acontecimentos para contá-los
(observando que, para entender o efeito dos preconceitos sobre nossas experiências, foi
9

necessário restituir a importância da tradição como fonte de verdade, já que nossos


preconceitos se realizam pela tradição que nos é passada); em seguida a linguagem, o meio do
jornalismo impresso (o caso do literário), onde os sentidos são trabalhos e onde o “contar”
toma forma (também o campo onde toda compreensão se realiza); por fim, a compreensão do
texto e como os sentidos trabalhados ali são interpretados e entendidos.
Por aproximar áreas distintas (comunicação e filosofia), encontramos dificuldades
para focar o campo comum onde tal diálogo ocorreria. A hermenêutica mira em
características da nossa existência, na tentativa de desvendar o que é e como funciona a
compreensão humana – uma visada muito maior que a do jornalismo literário. Este, por sua
vez, quer ascender à universalidade (nos mostrar o que é o mundo) contando as pequenas e
particulares histórias das pessoas. Mas, como a experiência humana é universal,
independendo o aparato teórico, os temas da interpretação, da experiência e da linguagem se
cruzam, estão sempre ocorrendo ao lermos um texto, como do jornalismo literário. E conhecer
o que é a compreensão serve de ferramenta poderosa para se melhorar um texto. Ainda mais
no caso do jornalismo, que quer comunicar um acontecimento.
Ao fim, sob a ótica da hermenêutica filosófica, apontamos que o jornalismo
literário, unindo características do jornalismo e da literatura, mantém-se na cotidianidade –
pequenezas e particularidades – mas consegue ir além: utilizando-se de uma linguagem
flexível e de grande capacidade comunicativa, consegue falar do ser humano pelos seus
detalhes. Assim o jornalismo literário ganha a sua identidade única, diferenciando-se da
literatura e do jornalismo.
Há muito que pode ser desdobrado partindo dessas questões e desse eixo
(linguagem, experiência, compreensão), que infelizmente não podemos abarcar nesse estudo.
A experiência humana no mundo e a representação dela são assuntos inesgotáveis, muito
revisitados pelo conhecimento teórico, e aqui, nesse pequeno recorte, jamais conseguiríamos
esgotar as capacidades e possibilidades da escrita do jornalismo literário. Mas se as questões
que aqui surgirem permanecerem no ar, este estudo poderá ter contribuído com as tentativas
de aproximação das diferentes áreas do conhecimento acadêmico. E a aproximação de
comunicação e filosofia ainda tem muito que oferecer para as teorias da comunicação.
10

Capítulo 1 – A hermenêutica

de som a som
ensino o silêncio
a ser sibilino

de sino em sino
o silêncio ao som
ensino

Paulo Leminski
11

1.1– Introdução

a) Gadamer e sua obra

Este estudo tem como base teórica principal o pensamento de Hans-Georg


Gadamer, que lançou no seu principal trabalho, Verdade e Método, as bases fundamentais para
uma hermenêutica filosófica. Gadamer ficou conhecido como o “Grande Velho Homem da
Filosofia” pela notável bagagem que incluía, além de vastos conhecimentos sobre filosofia –
especialmente a clássica –, teoria da história, da arte, entre outras (LAWN, 2007, p. 15-16) 1.
Gadamer estava longe de ser um especialista estático em sua área de conhecimento, era um
estudioso de todas as áreas.
Há também imensa aproximação entre filosofia e hermenêutica, o que deu a
Gadamer vários subsídios para embasar a hermenêutica filosófica (LAWN, 2007, p. 21).
Lawn cita o exemplo de Aristóteles, em seu discurso sobre a sabedoria prática: “à medida que
nós nos tornamos moralmente orientados, habituamo-nos a uma tradição moral, porém o
agente moral está sempre confrontando situações que vão além das regularidades do hábito”
(ibidem, p. 13). Segundo Lawn, essa oscilação entre o comum-habitual e a novidade-
incomum, vista por Aristóteles, funciona do mesmo modo que um princípio fundamental para
a hermenêutica: a relação circular entre parte e todo (2007, p. 13-14) – não há conhecimento
da parte sem o todo e não há todo sem a parte, assim conhecer um é sempre revisitar o outro.
Como estudioso de diversas áreas do conhecimento e principalmente dos
clássicos, na direção contrária ao racionalismo vigente na filosofia do início do século XX,
Gadamer se volta para a tradição, a cultura literária, a autoridade dos textos clássicos (ibidem,
p. 16). Nascido em 1900, acompanhou a transformação do pensamento acadêmico: o
racionalismo positivista caia, desde o sistema filosófico de Georg Wilhelm Hegel até as
sátiras de Friedrich Nietzsche.
O ápice veio com as Grandes Guerras Mundiais, especialmente a segunda que
apresentou ao mundo o poder da bomba de fissão nuclear (LAWN, 2007, p.17). A filosofia
viu-se fracionada entre “analítica” e “continental”, uma de tradição científica e outra de

1
Como auxílio ao esclarecimento do pensamento de Gadamer, consultamos a obra de Chris Lawn, Compreender
Gadamer (cf. LAWN, 2007) e a coletânea de textos do The Cambridge Companion to Gadamer (cf.
GRONDIN. 2002).
12

tradição literária, esta fundamentada principalmente no romantismo (ibidem, p. 18). Para


Gadamer, não há essa divisão: a tradição é única (independente das noções culturalistas sobre
a diferença e distância entre as tantas culturas humanas). Para ele, temos tanto em comum,
tanto o que compartilhamos que estamos inevitavelmente unidos (ibidem, p. 18). Ou, ao
menos, podemos afirmar uma tradição una no ocidente.
No início do século XX surgia também, com Edmund Husserl, a fenomenologia.
Um dos maiores ataques ao “fundacionalismo cartesiano” da tradição científico-analítica veio
do importantíssimo fenomenólogo Martin Heidegger (LAWN, 2007, p. 17). Gadamer estudou
com ele em Freiburg, conhecendo-o pessoalmente. No início da carreira, Heidegger o inibiu,
desacreditado do potencial do estudante, por isso Gadamer se afastou da filosofia de 1924 até
1929, quando finalmente escreveu a tese Interpretação do Philebus de Platão (ibidem, p. 34).
Ambos mantiveram uma duradoura amizade, sendo Gadamer o responsável por trazer
Heidegger de volta aos estudos acadêmicos após o isolamento por ter seu envolvimento com o
partido nazista na Segunda Grande Guerra revelado: ele conquistara a reitoria da
Universidade de Freiburg durante o terceiro Reich (LAWN, 2007, pg. 35).
Mas para Gadamer a pressão do professor nunca dissipou: “Eu sempre tinha esta
impressão de que Heidegger estava olhando por cima dos meus ombros” (apud GRONDIN,
2003, p. 268). Isso marca a influência do trabalho e dos julgamentos de Heidegger sobre o
trabalho de Gadamer. A metáfora espacial do círculo hermenêutico, utilizada por Heidegger
para explicar o funcionamento da compreensão humana, tornou-se um dos focos da discussão
de Gadamer, que também retoma importantes valores da tradição humanística e as
hermenêuticas, adicionando a elas a ontologia fundamental de Heidegger para atacar seu
principal problema: a compreensão.
Com Verdade e Método, Gadamer traz a hermenêutica de volta ao centro das
discussões filosóficas sobre a linguagem. A obra, dividida em três partes, é iniciada em “A
liberação da questão da verdade a partir da experiência da arte”. Nesta parte Gadamer
distingue as ciências da natureza das ciências do espírito (mais conhecidas como ciências
sociais ou humanas) separando as verdades que cada uma gera. As ciências da natureza
apoiadas no método científico de tradição cartesiana e as ciências do espírito apoiadas no
conhecimento histórico e artístico, verdades além do que podemos constatar com o método
(GADAMER, 2008, p. 37-38). Gadamer considera que as verdades da história e da arte,
partes da tradição (ele retoma a autoridade da tradição, o que será assunto desse estudo no
13

sub-tópico 1.2), são mal avaliadas, assim ele desconstrói a consciência histórica e a
consciência estética como formas de interpretação da história e da arte até, por fim, propor um
novo caminho para pensarmos ambas.
A segunda parte “A extensão da questão da verdade à compreensão nas ciências
do espírito”, traz a história das hermenêuticas, de suas origens teológicas até Friedrich
Schleiermacher, passando por Wilhelm Dilthey na História, apropriando-se da fenomenologia
de Husserl até chegar em Heidegger. Um percurso necessário para construir uma nova
hermenêutica somando as partes sólidas que as anteriores acrescentaram. Depois, Gadamer
trabalha a restituição da tradição, dos preconceitos e da autoridade, traça os conceitos de
história efeitual e fusão de horizontes, explora o problema da aplicação da hermenêutica e
constrói a dialética da hermenêutica filosófica a partir da dialética de pergunta e resposta.
Na terceira e última parte, “A virada ontológica da hermenêutica no fio condutor
da linguagem”, Gadamer estabelece a linguagem como o campo onde tudo que foi
apresentado anteriormente acontece: é o meio da experiência hermenêutica e o horizonte da
ontologia hermenêutica. Ao final, mescla todos os elementos apresentados para lançar a
síntese da obra sobre a compreensão humana.

b) Interpretação e compreensão

O termo “hermenêutica” vem do grego hermēneuein e, segundo Heidegger, sua


melhor tradução seria “interpretação” (GADAMER, 2008, p. 349, nota de rodapé 173).
Hermēneuein, por sua vez, remete ao substantivo hermeneus, cuja origem é o nome do deus
grego Hermes, o mensageiro dos deuses. Para os gregos antigos, interpretar era ser capaz de
explicar as mensagens e sinais sagrados. Assim, Hermes interpretava os desejos dos outros
deuses e os trazia aos mortais para que esses soubessem das vontades e recados de seus
deuses (LAWN, 2007, p. 66).
Na cristandade a hermenêutica se firmou como as normas necessárias, ou o
caminho, para se interpretar o que realmente Deus quer revelar através da bíblia, visto que
consideravam diversas passagens não literais. A hermenêutica se desenvolveu no caminho
teológico e no filológico. O teológico se tornou ainda maior no seio da reforma protestante
14

cristã, para quem a Bíblia precisava de nova interpretação, visto que a tradicional estava
obscurecida pela dogmática de Roma (GADAMER, 2008, p. 242). No veio filológico, o
desenvolvimento da hermenêutica ocorreu com a tentativa dos estudos humanísticos do
renascimento de redescobrir a literatura clássica (ibidem, p. 241). O objetivo era retornar a
atenção para tais textos que, mesmo básicos à tradição ocidental, acabaram classificados
como estranhos e inacessíveis, visto a distância cultural que havia se instalado entre o
renascimento e a antiguidade clássica. Essa literatura clássica se encontrava deformada pela
tentativa de encaixe forçado no mundo cristão, para que servisse a fins teológicos
(GADAMER, 2008, p. 242).
Podemos observar que a hermenêutica era a ferramenta para desvendar trechos
truncados ou de difícil digestão, ou ainda com um significado que só se revela com auxílio de
recursos além da leitura, como um conhecimento específico (uma equação, uma constante, um
língua, o domínio do sentido de um símbolo, etc.). Então, desde sua origem, o objetivo da
hermenêutica foi buscar o melhor entendimento, e nesse caminho, adaptar o sentido da
mensagem (texto) à situação presente do intérprete. Especialmente no caso do intérprete da
mensagem divina. Essa noção permanece até hoje na hermenêutica filológica e na jurídica
(GADAMER, 2008, p. 407).
Com Friedrich Schleiermacher a hermenêutica expandiu-se em busca da
universalidade, no rastro dos problemas da compreensão. A hermenêutica clássica entendia
que quando lemos um texto entendemos prontamente o que ele nos transmite e somente há
mal-entendido ou não-entendido quando este texto não é claro o suficiente, ou falta ali alguma
peça para o entendimento – seja por parte do leitor ou do texto. Mas “o princípio antigo
hermenêutico de que nós podemos, mais rapidamente, atribuir entendimento do que não-
entendimento a um texto estava errado” (LAWN, 2007, p. 67). No trabalho de
Schleiermacher, não somente os trechos complicados, mas todas as sentenças exigem
compreensão: todas as sentenças têm possibilidades de entendimento e não-entendimento.
Não somente os textos difíceis demandam interpretação, antes isso é característica de todo e
qualquer entendimento (ibidem, p. 67). Pela primeira vez entendimento e interpretação foram
vistos casados.
A hermenêutica romântica de Schleiermacher entende que a compreensão (como
intelligere) e a interpretação (como explicare) compõem uma unidade interna. A interpretação
não vem depois, complementando a compreensão, não é uma fase distinta: “compreender é
15

sempre interpretar, e por conseguinte, a interpretação é a forma explícita da compreensão”


(GADAMER, 2008, p.406). Interpretação e compreensão se conectam intimamente como
exterior e interior, como faces da mesma moeda (ibidem, p. 254). Uma não funciona ou
sequer existe sem a outra.
O não-entendimento não é mais uma questão de incompreensão, mas de mal-
entendido. Não há incompreensão; todo processo cognitivo envolve, em maior ou menor grau,
certa compreensão. Assim, a verdadeira tarefa da hermenêutica seria sempre evitar o mal-
entendido (GADAMER, 2008, p. 254 - 255). Não mais se ocupando da investigação para
revelar informações, pois a investigação não pressupõe um melhor entendimento, só um
acréscimo de informações que aumentam o quadro a ser entendido. A hermenêutica funciona,
antes, de forma mais essencial, na própria ação do intérprete.
Esvaziando o sentido da investigação, fica mais claro que a hermenêutica não é
um procedimento ou um método para se atingir a compreensão. Sua tarefa é esclarecer as
condições sob as quais surge compreensão (GADAMER, 2008, p. 391). Para Schleiermacher,
quando alguém se esforça para compreender, já está operando uma referência à verdade (que
está ali oculta e é o que esse alguém quer trazer à luz). E para chegar à verdade é preciso
transpor as barreiras temporais entre intérprete e texto, como também a presença do “autor”
do texto: seria preciso entendê-lo também; e entender o outro significa entendê-lo em sua
individualidade (ibidem, p. 258).
Schleiermacher segue Kant no conceito de “pensamento artístico”. A arte seria um
movimento ou combinação livre do sujeito, “propriamente só o ato momentâneo do sujeito”
(SCHLEIERMACHER apud GADAMER, 2008, p. 258). Para se atingir a compreensão total
do pensamento de um texto, entendido aqui como uma obra de arte, seria preciso resolver a
esfinge da individualidade do autor. Indo além, na hermenêutica romântica, para se
compreender completamente qualquer mensagem seria preciso entender o outro, autor da
mensagem, em sua individualidade; o caminho final é a interpretação psicológica do autor
(GADAMER, 2008, p. 255 – 256).
Nesse ponto Gadamer se afasta de Schleiermacher. A noção de interpretação e
compreensão casadas, de mal-entendimento, são todas assumidas por Gadamer, mas, com a
perspectiva psicológica, as condições de aplicação da hermenêutica ficariam marginalizadas.
É certo que, até Schleiermacher, a hermenêutica era vista somente pelo ângulo da aplicação,
mas a individualidade irredutível que ele admite subjetivou totalmente a interpretação.
16

Gadamer desmonta o fantasma da subjetividade absoluta na interpretação


restituindo a tradição e os preconceitos como forças que nenhum intérprete pode escapar, e
que estão fora de seu domínio (ao contrário, constituem o solo do intérprete). Também toda
interpretação admite um momento para ocorrer, o próprio tempo do experienciar e vivenciar,
ou seja, uma autêntica experiência – que é sempre uma relação do sujeito com algo exterior,
por isso também negando a subjetividade absoluta.
É certo que, durante a compreensão, sempre ocorre aplicação do texto sendo
compreendido à situação do intérprete (GADAMER, 2008, p. 406-407), mas isso não
significa que esse intérprete é absoluto. Sua situação é composta pelo seu mundo, seu aí. Nos
sub-capítulos seguintes vamos desenvolver o que Gadamer entende por tradição e por
experiência, para então voltarmos à estrutura da compreensão.
17

1.2 – A restituição da tradição

“Para Gadamer, a tradição é uma força vital inserida na cultura; nunca pode ser
obliterada e reduzida a uma mixórdia de crenças não-racionais ou irracionais” (LAWN, 2007,
p. 54-55). O que é entendido por tradição aqui é mais do que nosso passado ou nossos
valores: a tradição é o solo de onde se levantam nossos preconceitos. Aquele que se lança à
compreensão, como sujeito histórico que é, não tem como se desvincular de sua posição
histórica, cultural, social, enfim, jamais poderia abandonar sua tradição.
Mas a tradição teve de ser restituída por Gadamer porque foi desacreditada: não
há espaço para a tradição e os preconceitos no método cartesiano. Com o iluminismo
(Aufklärung) a tradição deixa de ser fonte de verdade e é submetida, junto de qualquer senso
provindo dos preconceitos, ao julgamento da razão (GADAMER, 2008, p. 363). Visto que
não há como desligar-se ou separar-se da tradição, então não há como livrar-se de seus
preconceitos e pré-julgamentos para aplicar a razão sobre eles como se estivessem fora, sob a
mesa, prontos para serem analisados (LAWN, 2007. p. 58). A história, por exemplo, não se
faz através do método das ciências da natureza pois não se trata de pura investigação, e nem
poderia, pois é feita por sujeitos históricos, imersos no próprio objeto de estudo. Os
preconceitos são exatamente a forma de pertencer-mos à tradição.
O intérprete não está em condições de selecionar por si quais preconceitos são
produtivos e quais o levarão a mal-entendidos, pois todas suas noções prévias vêm deles: os
preconceitos constituem a realidade histórica do ser de um indivíduo muito mais que seus
juízos (GADAMER, 2008, p. 368). Antes de construir juízos, o indivíduo parte de seus
preconceitos, dados pela tradição. Gadamer assim vai contra a autonomia do eu, do sujeito
pressuposto no método cartesiano.
Os indivíduos estão incrustados no seu ambiente cultural, enraizados no seu
tempo, perpassados pelo passado. Se o indivíduo não tem – e nem pode ter – o discernimento
dos seus preconceitos, então ele não é capaz de lançar o olhar distante e objetivo que o sujeito
cartesiano deve lançar, com a segurança das normas de um método. “A idéia de que, como
força genuína e um teste neutro, a razão pode investigar o status e as credenciais da tradição é
questionável, pois aquilo que definimos como racional é sempre definido nos padrões da
tradição” (LAWN, 2007, pg.54).
18

Em Gadamer, os diferentes tons que damos para a autonomia do indivíduo –


acreditar na possibilidade ou impossibilidade deste se livrar de seus preconceitos – marca uma
diferença fundamental entre as ciências do espírito e as da natureza. Gadamer estabelece que
as bases para as “ciências do espírito históricas” foram lançadas no classicismo alemão, com
o conceito de humanidade apoiado na formação humana (GADAMER, 2008, p. 44). O
conceito de formação seria vital para o fundamento das ciências do espírito, pois é na
formação que lapidamos nossos preconceitos, com os quais sempre estaremos frente a
qualquer interpretação. Segundo Hegel, a formação teórica vem do estranhar – e por isso
reconhecer a si mesmo na diversidade, uma auto-identificação por contraste com o diferente –
e vai além da simples vivência. Para a formação teórica é preciso se reconhecer e reconhecer
o mundo circundante, para assim pensá-lo e chegar à teoria (GADAMER, 2008, p. 53).
Parte importante da formação advém do resgate da tradição, principalmente,
literária. As obras fundamentais ao pensamento ocidental, o nosso cânone, devem estar na
base da formação. A tradição não permanece por inércia, ela é sempre afirmada, assumida e
cultivada pelos falantes da língua; conservar a tradição é então uma atitude racional
(GADAMER, 2008, p. 373). Não se pode perder de vista a autoridade que a tradição mantém,
pois como base que é para os nossos preconceitos, ela sempre será fundamentação válida para
nossas noções. Em Gadamer, conceder autoridade não é contrário à razão, não é simplesmente
uma submissão míope, é antes o ato de reconhecimento de que podemos aprender com outro
mais “experiente”: caso de tudo isso que nomeamos por tradição (2008, p. 370 – 371).
A tradição é fonte de verdade, mas essa verdade não estará verdadeiramente
submetida ao entendimento se não for experienciada. É no viver que encontramos a razão dos
nossos preconceitos, no embate de uma experiência que encontramos a confirmação ou a
negação deles, e assim também confirmamos ou negamos o conhecimento que nos vem da
tradição. Ao contrário das pretensões iluministas, da Aufklärung, não podemos negar de
antemão esse conhecimento pois assim já estamos assumindo uma posição tendenciosa que
irá filtrar o que podemos apreender da experiência, ao invés de deixar que os novos elementos
nos surpreendam e tenham o poder de alterar nossos preconceitos.
19

1.3 - A verdade como experiência

Na hermenêutica filosófica não há esquema ou teorema que conduza às respostas


ou à verdade. A verdade deve ser participada e vinda do que é experienciado. A experiência
como conhecemos hoje foi adotada pela ciência e quase não há noções de experiência fora da
científica (GADAMER, 2008, p. 454). Como entendida nas ciências da natureza, a
experiência é um processo necessariamente repetitivo, em que todos os resultados devem ser
afirmativos para se chegar à universalidade. É realizada com a observação controlada – com
consciência de todas as variáveis – de um fenômeno que deve exibir os mesmos resultados
regularmente e ser possível de ser conduzida por qualquer um, em qualquer lugar nas mesmas
condições. Quando é assegurado que determinados fatores geram o mesmo produto em
qualquer ocasião se chega à generalidade ou universalidade, daí se coloca tal resultado à
prova da razão para se atingir o conhecimento científico (GADAMER, 2008, p. 459).
Em qualquer noção de experiência é valido dizer que se trata de um acontecer
num espaço de tempo definido, com início e término, e que mantém sua identidade por ser um
acontecimento que sempre se faz, sempre é, quando ocorre a confluência dos elementos
pertencentes a ela. Qualquer elemento adicionado ou retirado ocasionará em outra
experiência, outro acontecimento. Também por isso toda experiência busca confirmação, para
ser experiência. Sem afirmação, dissolvem-se os limites temporais e a experiência não
termina e por isso não se completa. A ciência moderna busca a confirmação das suas
experiências na capacidade de reprodução ou repetição destas: se o que ocorre em certo local
e tempo é universal, então pode ocorrer em qualquer outro lugar e tempo (LAWN, 2007, p.
89). Nisso a experiência científica anula todo e qualquer elemento histórico: a verdade seria
infinita e imutável, independente da história, das mudanças e passagens do homem.
Mas como a hermenêutica retoma a autoridade da tradição, esse pensamento não é
possível nela. Antes de nos entendermos como indivíduos e subjetividades, entendemo-nos
como parte da tradição, pertencentes a conjuntos sociais: primeiro da família, depois da
sociedade (GADAMER, 2008, p. 368). Então na hermenêutica a verdade é histórica, pois,
como observamos acima, os preconceitos constituem a realidade histórica do ser de um
indivíduo muito mais que seus juízos (ibidem, p. 368). A verdade que podemos constatar não
é eterna, pois depende intrinsecamente de nós, que mudamos.
A separação entre a hermenêutica filosófica e o empirismo da filosofia analítica
20

ou da ciência fica clara não só por aquela assumir os preconceitos como condição do
conhecimento, mas também pela postura quanto a experiência. Na hermenêutica, aquele que
vive a experiência não é tão somente um observador longínquo, já que seus preconceitos estão
em sua constituição e agindo durante toda a experiência. E, em Gadamer, a maior validade da
experiência não é a sua capacidade de ser repetida, mas sua capacidade de ser única. Não se
trata do saber pela infinita repetição afirmativa da experiência, mas da revelação única que
uma experiência contém. Até por que: “Quando se fez uma experiência, isso significa que a
possuímos” (GADAMER, 2008, p. 462). Não se pode fazer duas vezes a mesma experiência
pois as condições do observador mudam: o que inicialmente era inesperado passa a ser
previsto.
Hegel fala que a consciência faz experiências para “adquirir certeza de si mesma”,
como que tocando e apreendendo o mundo para saber de si (GADAMER, 2008, p. 463). A
consciência está em busca do em-si numa “auto-realização do ceticismo” (loco citato). Devido
aos nossos preconceitos (nossa forma de pertença à tradição), entramos na experiência,
sempre, carregados de expectativas. Há a experiência que confirma essas expectativas,
mantendo nossos preconceitos intactos, mas a verdadeira experiência quebra com o típico, ou
seja, desfaz falsas universalizações. A experiência tem um caráter essencialmente negativo, e
ao modificar nossos preconceitos será única, pois nossos preconceitos sempre se alteram. A
consciência, buscando certeza de si e encontrando o que não esperava, se transforma. E cada
experiência será diferente, pois nós estaremos também diferentes.
Essa é a autêntica experiência hermenêutica, a que rompe com o previsto, que se
dá quando somos surpreendidos e insatisfeitos (LAWN, 2007, p.87). É na frustração das
expectativas que melhor podemos aprender: “Quando fazemos uma experiência com um
objeto significa que até então não havíamos visto corretamente as coisas e que só agora nos
damos conta de como realmente são. Assim, a negatividade da experiência possui um sentido
marcadamente produtivo” (GADAMER, 2008, p. 462).
Boa parte das experiências, como é o caso da cientifica, não ocorre ao acaso. Ela
vem do contato com uma situação e objetos determinados e escolhidos. Gadamer fala que tais
elementos podem ser selecionados para proporcionar-nos um saber melhor, principalmente
sobre aquilo que se acreditava saber antes da experiência. Assim, a negação vinda na
experiência será determinada – e aqui Gadamer, apoiado em Hegel, lembra que tal aspecto da
experiência é a própria dialética (GADAMER, 2008, p. 462). “Somente um novo fato
21

inesperado pode proporcionar uma nova experiência a quem já possui experiência” (ibidem,
p. 463).
No desapontamento das expectativas, como impactos contra o mundo,
modificamos algo em nós e iniciamos a relação dialética da experiência, da consciência
consigo mesma: “para aceitar e admitir um conteúdo por verdadeiro o próprio homem deve
estar nele, ou, mais precisamente, deve encontrar esse conteúdo em acordo e em unidade com
a certeza de si mesmo” (HEGEL apud GADAMER, 2008, p. 464). A consumação da
experiência é “a certeza de si mesmo no saber” (GADAMER, 2008, p. 464). Se não há esse
bate-e-volta, se a experiência não nos toca em retorno, a experiência não nos atinge no sentido
de estarmos nela, assim não será verdadeira experiência.
Se a consciência volta-se para si na experiência, aquele que experimenta não só já
está aberto às experiências como também já está se modificando com elas. E como se
modifica nelas, sabe que novas experiências podem vir e modificá-lo novamente. “A dialética
da experiência tem sua própria consumação não num saber concludente, mas nessa abertura à
experiência que é posta em funcionamento pela própria experiência” (GADAMER, 2008, p.
465).
Para a hermenêutica, compreender não é um ideal da experiência da vida humana,
ou, como em Husserl, um ideal metodológico frente à vida, nem uma operação posterior do
impulso da vida rumo à idealidade, segundo a hermenêutica histórica de Dilthey
(GADAMER, 2008, p. 347). A compreensão é mais essencial ao homem. Heidegger, ao trazer
a perspectiva existencial à questão e estabelecer a hermenêutica da facticidade, se opõe a
separação entre fato e essência que vem da fenomenologia de Husserl. Para ele, a existência
deve ser a base ontológica da fenomenologia e não o “puro cogito” do sujeito (ibidem, p.
341); lembrando a máxima cartesiana “cogito, ergo sum” 2.
O Dasein3, por sua presença no mundo, compreende o mundo: a compreensão é
“a forma originária de realização da pre-sença, que é ser-no-mundo” (GADAMER, 2008, p.
347). Toda a hermenêutica de Gadamer gravita em torno do pensamento central que expôs
Heidegger de que “compreender é o caráter ontológico original da própria vida humana”

2
Penso, logo existo.
3
Dasein: Da ≈ aí; Sein = ser; ser-aí – a existência do homem como acontecimento do ser no tempo, já que o
horizonte do ser é o tempo (GADAMER, 2008, p. 345). O termo é encontrado nos textos de Heidegger para
tratar a existência humana, distinto dos outros seres por que se apresenta no seu próprio ser (LAWN, 2007,
p.188). É importante observar que o “Da” nem sempre significa “aí”, pode significar “nem aqui e nem lá,
mas algumas vezes entre” (loco citato). O Dasein é essencialmente ilimitado, pois não temos capacidade para
tal.
22

(ibidem, p. 348; grifo nosso).


Antes de toda diferenciação da compreensão nas direções do interesse pragmático
ou teórico, a compreensão é a forma humana de estar-no-mundo, “na medida em que é poder-
ser e possibilidade” (GADAMER, 2008, p. 347). A estrutura do Dasein está na compreensão,
é através dela que realizamos “o movimento da transcendência, da ascensão acima do ente”
(ibidem, p. 348). Que vamos além de simplesmente existir, como ente, para a existência
humana: do ser que compreende. E a experiência é o período onde isso ocorre, é a relação
entre o ser (sein) e seu mundo, seu aí (Da).
23

1.4 – A estrutura da compreensão

First, one can quite naturally associate understanding with an epistemological or


cognitive process. To understand (verstehen) is, in general, to grasp something (“I
get it”), to see things more clearly (say, when an obscure or ambiguous passage
becomes clear), to be able to integrate a particular meaning into a larger frame
(GRONDIN, 2002, p. 36).

Se compreender é “o caráter ontológico original da própria vida humana”, então


como se dá essa compreensão? Como colocado por Jean Grondin, a compreensão, de forma
simples, lembra o processo que realizamos quando ligamos uma peça num bloco maior (a
própria relação parte-todo); como a criança que brinca de encaixar peças, ao entender, nosso
pensamento associa “formas” distintas, e de uma posição já conhecida faz pontes para ligar-se
a outras desconhecidas. Posições longínquas somem na neblina, e não temos referência
próxima para compreendê-las.
Lembrando a conexão entre interpretação e compreensão, também a interpretação
não significa investigação filológica, filosófica e/ou histórica, ela é um elemento inerente ao
processo ou evento do entendimento (LAWN, 2007, p. 21). Apoiado na hermenêutica
romântica de Schleiermacher, Gadamer formula que todo problema de compreensão é
também um problema de interpretação. Interpretar não é anterior nem posterior à
compreensão; compreender é interpretar, no sentido de que “a interpretação é a forma
explícita da compreensão” (GADAMER, 2008, p. 406). Por isso também estamos sempre
interpretando, toda e qualquer mensagem que captamos. Não é um esforço ou um projeto,
uma tarefa laboriosa, a interpretação começa simplesmente ao decodificarmos o que nos é
transmitido. Se há um mínimo de entendimento e compreensão, há interpretação.
Como nossos preconceitos são nosso ponto de partida, todo intérprete inicia o
processo de interpretação/compreensão com um projeto previamente formulado sobre o que
busca entender. A partir daí, cada reflexão que fizer será construída sobre esses pensamentos
anteriores, e também formará sua nova base para se lançar a novas reflexões. Todo esse
movimento acontece com o constante revisitar da parte e do todo – a peça que encaixamos em
um bloco maior –, e assim se desenha a estrutura hermenêutica, um círculo que se polariza em
parte e todo (GADAMER, 2008, p. 297).
Mas é a partir daqui que Gadamer deixa de utilizar a hermenêutica de
Schleiermacher. Para compreender inteiramente a parte, para Schleiermacher, é preciso
entender o outro em sua individualidade e subjetividade. No caso de uma obra de arte, por
24

exemplo, seria necessário reconstruir o “espaço” originário desse indivíduo-autor a fim de se


entender completamente a obra. Em suma, restabelecer o contexto do autor numa “pós-
construção” da obra, e o ponto ideal, de interpretação total, seria a total reprodução das
condições em que a obra esteve originalmente, como vista pelo autor (GADAMER, 2008, p.
292). Para tal seria necessário encontrar, além de outras obras do autor e sua biografia, a
história do seu tempo.
Schleiermacher entende que a subjetividade do autor é expressa na obra: a arte
seria uma livre-exteriorização da essência do indivíduo (GADAMER, 2008, p. 293). “Cada
qual traz em si um mínimo de cada um dos demais, e isso estimula a adivinhação por
comparação consigo mesmo” (SCHLEIERMACHER apud GADAMER, 2008, p. 295); assim
seria possível vencer a barreira da individualidade do autor por esta ser parte de um todo
maior, como tudo o mais no círculo hermenêutico (ibidem, p. 295). Atingir o tempo e a
psicologia do autor da obra, numa congenialidade, seria o caminho para a compreensão
hermenêutica total.
Para Gadamer, a hermenêutica romântica de Schleiermacher falha por pressupor
essa tentativa de aproximação psicológica com o autor:
É completamente errôneo fundamentar a possibilidade de compreender textos na
pressuposição da 'congenialidade' que uniria o criador e o intérprete de uma obra. Se
fosse assim, as ciências do espírito estariam em maus lençóis. O milagre da
compreensão consiste, antes, no fato de que para reconhecer o que é
verdadeiramente significativo e o sentido originário de uma tradição não precisamos
da congenialidade. Ao contrário, nós somos capazes de nos abrir à pretensão excelsa
de um texto e corresponder compreensivamente ao significado com o qual nos fala
(2008, p. 410 – 411).

A hermenêutica não trata de dominar o texto, como se fosse ferramenta para


apropriação ou extração dos significados. Antes, a postura do intérprete na relação
hermenêutica é submete-se a pretensão do texto, é um “estar a serviço” do sentido para que
este emirja (GADAMER, 2008, p. 411). O que mais uma vez ressalta que o movimento de
compreensão não está à mercê da subjetividade. O sujeito não é piloto da compreensão, sua
ação consiste mais num retroceder à tradição, pela ação de seus preconceitos, para dialogar
com diferentes partes da mesma tradição, tudo na grande teia de sentidos da linguagem
(ibidem, p. 385); o sujeito que se lança à compreensão parte da tradição para entrar em
contato com a mesma no lado de lá – também no que busca compreender.
A obra de arte não está presa no momento histórico do autor. De certo, como faz
parte da tradição, o conhecimento histórico é útil para ser melhor compreende-la, mas não é
25

só a consciência histórica que absorve os sentidos da obra. A verdadeira obra de arte supera
seu tempo por fazer seu sentido estar sempre presente – assim podemos compreender textos
antigos. Se deixar de fazer sentido no presente, não será mais arte, no sentido de como
olhamos para utensílios e artesanato pré-históricos ou de uma sociedade extinta: não as os
vemos como arte, mas como fragmentos históricos (GADAMER, 2008, p. 264, 265).
Gadamer aplica Hegel à questão, que pensa não ser possível a reconstrução da
obra de arte, pois, como “frutos arrancados da árvore”, o que sai do seu contexto gerativo e
ganha novos horizontes não pode retornar como se nada tivesse acontecido. Forçar a relação
de uma obra ao seu contexto histórico – o fruto à árvore – não a faz revelar as relações vitais
com seu tempo, pois tal relação sempre permanecerá apenas imaginativa – o fruto não voltará
à árvore (GADAMER, 2008, p. 235). Também a reconstituição do passado será sempre forçar
peças que não se encaixam mais, pois é um labor exterior – assim como todo comportamento
histórico, visto que nossa ação só existe no presente. Em Hegel, a tarefa do “espírito
pensador” é, antes, pensar filosoficamente a história, principalmente com respeito ao passado.
A essência do espírito histórico não é restituir o passado, mas mediá-lo com o presente e a
vida atual (ibidem, p. 236).
O problema para o entendimento não é reconstruir o passado – visto que a
reconstrução é impossível –, é como acessá-lo. O que é possível pois o texto não é só uma
forma morta que traz ao leitor o que lhe estava fora de alcance, ele traz sempre um discurso
contido em si. “O entendimento não é o caso de um sujeito ativo projetar um significado num
objeto inerte e morto; pelo contrário, ambos, presente e passado, têm horizontes que podem
ser juntados produtivamente” (LAWN, 2007, p. 109). O texto traz o seu horizonte4 do passado
ao horizonte do leitor, no presente: o horizonte que está sempre em formação, transformado
quando colocamos nossos preconceitos à prova (GADAMER, 2008, p. 404).
A hermenêutica tem o dever de desenvolver a tensão entre horizontes, destacando
do horizonte presente o horizonte do passado (mesmo que ambos continuem sempre
conectados por constituírem a mesma tradição) formando algo novo: um horizonte único e
mais elevado que, mesmo sendo artificial, engloba esses dois anteriores (também este é posto
sobre a tradição, ainda e sempre atuante) (GADAMER, 2008, p. 405). Por exemplo, para

4
Gadamer propõe a metáfora do “horizonte” pois este é o limite do alcance de nossa visão e que acompanha
nosso caminhar sempre à frente e no fim. Se temos visão também temos um horizonte, pois nossa visão não é
absoluta, e também ter um horizonte é aprender a ver o mais longe (GADAMER, 2008, p. 403). O termo foi
primeiramente empregado por Friedrich Nietzsche, adotado também por Edmund Husserl, para se referir a
pontos de vista ou perspectivas.
26

entender outra pessoa precisamos nos tornar “conscientes da alteridade e até da


individualidade irredutível do outro precisamente por nos deslocarmos à sua situação”
(ibidem, p.403); é mesclar, fundir nosso horizonte ao do outro, ver o que está no campo de
visão deste. O que não significa entender esse outro em sua individualidade, pois não
podemos anular a nossa. A alteridade não é garantida pela afinidade das individualidades ou
pela submissão de um para o outro, ela é fruto da ascensão a uma universalidade que supera
as particularidades de ambos, onde os horizontes de cada podem ser fundidos (ibidem, p.403).
O problema do entendimento do passado então, pela concepção de fusão de
horizontes, se resolve na medida em que a distância de tempo entre intérprete e o que está
sendo interpretado não é algo a ser transposto. Antes, a distância temporal é algo positivo ao
compreender como um tempo “dado” para que a herança histórica e a tradição ajudem na
compreensão (GADAMER, 2008, p. 393). Exatamente como “damos tempo” para entender
algo complexo, como um dar tempo para “digerir”.
Na fusão a compreensão continua seu movimento circular. Os preconceitos, ponto
de partida da tentativa de compreensão, podem ser alterados com a experiência, no próprio
movimento de projetar-se da consciência, para atingir a fusão com o horizonte que vem do
outro na interpretação (GADAMER, 2008, p. 391). Se seus preconceitos são alterados, o
intérprete muda de posição, assim também mudando sua visão e concepção prévias.
Como ocorre na experiência, ao compreender a consciência busca uma certeza de
si – a própria forma circular: do sujeito para o “objeto” e de volta para o sujeito. Duas
fórmulas aproximadas de Gadamer sintetizam tal idéia: “todo compreender acaba sendo um
compreender-se” e “aquele que compreende projeta-se rumo a possibilidades de si mesmo”
(GADAMER, 2008, p. 349). São possibilidades abertas de si mesmo, pois a compreensão se
fecha em si, tem por finalidade a si mesma.
Também na concepção de Heidegger a forma da compreensão é circular, mas, à
luz de sua ontologia fundamental, este pensa a hermenêutica na sua facticidade: todo
entendimento pressupõe ao Dasein uma interpretação do seu “estar-aí” – o Dasein, como o ser
que compreende, pode entender seu próprio ser e suas possibilidades de entendimento e, para
Heidegger, isso ocorre dentro da estrutura hermenêutica (GRONDIN, 2002, p.38). A
compreensão só cessa porque o ser é delimitado pelo tempo, que é “o horizonte do ser”
(GADAMER, 2008, p. 344). O passar do tempo que fecha as possibilidades até o ser tornar-se
impossível e não mais ser: morrer.
27

Mas Heidegger guarda certas ressalvas ao uso da metáfora do círculo, pois a


considerava muito “geométrica”, modelando o ser no espaço e impedindo a mobilidade
inerente do entendimento humano. Mesmo assim não deixou de usar a metáfora,
acrescentando a esse pensamento advindo da hermenêutica de Schleiermacher o que chamou
de caráter “positivo” do círculo, para além do caráter epistemológico, onde o círculo se torna
vicioso, pois consiste sempre em novas pressuposições e consolidações sem fim, de forma
tautológica. O círculo deve ser visto pelo insight fenomenológico de que toda interpretação é
esboçada em antecipações de entendimento (GRONDIN, 2002, p.47).
Embora possa ser tolerado, o círculo não deve ser degradado a círculo vicioso. Ele
esconde uma possibilidade positiva do conhecimento mais originário, que,
evidentemente, só será compreendida de modo adequado quando ficar claro que a
tarefa primordial, constante e definitiva da interpretação continua sendo não permitir
que a posição prévia, a visão prévia e a concepção prévia (Vorhabe, Vorsicht,
Vorbegriff) lhe sejam impostas por intuições ou noções populares. Sua tarefa é,
antes, assegurar o científico, elaborando esses conceitos a partir da coisa, ela mesma
(HEIDEGGER apud GADAMER, 2008, p. 355).5

Já para Gadamer, o círculo não descreve um vício lógico (tautológico), mas, ao


contrário, é a constante revisão das expectativas e antecipações do entendimento – afloradas
principalmente pelo envolvimento dos preconceitos no embate da dialética da compreensão –
rumo a um entendimento melhor e mais claro do todo. Voltar ao início, voltar-se para suas
primeiras conclusões e, antes ainda, rever conclusões prévias ou pretensões (posição prévia,
visão prévia e posição prévia, seguindo Heidegger) é, para Gadamer, uma necessidade para o
verdadeiro entendimento (GRONDIN, 2002, p.47). É preciso substituir o projeto prévio de
sentido por um novo, desmontar os conceitos iniciais e refazê-los mais adequados.
(GADAMER, 2008, p. 356) Compreender empreende revisar a “elaboração prévia” e, além, é
lançar essa elaboração no ar: abrir a possibilidade de entendimento como se fosse posta em
jogo (GRONDIN, 2002, p.38).
É no impacto ou choque da experiência negativa que quem busca compreender se
expõe ao erro e ao combate de suas expectativas. Se quem busca entender algo ou alguém não
se abre para revisar suas conclusões prévias, a compreensão inteira é inibida. Opiniões prévias
arbitrárias mantêm o intérprete engessado, sem se deixar mover pelo campo da interpretação,

5
Quando Heidegger fala “assegurar o científico” refere-se à atenção necessária para com cargas negativas e/ou
positivas que se dão aos preconceitos. Os preconceitos remetem à tradição e não significam juízos mal-
formados, como também não significam um bom juízo (GADAMER, 2008, p. 360 - 361). São,
simplesmente, as condições iniciais que todos os que interpretam tem de por à prova. Aplicar cargas ou
moralismos aos preconceitos, polarizá-los, é prejudicial para o entendimento pois o obscurece. Estar aberto à
experiência traz muito mais ao indivíduo do que se estivesse fechado. Por isso, é preciso assegurar os
“conceitos a partir da coisa, ela mesma” (HEIDEGGER apud GADAMER, 2008, p. 355).
28

sem expor-se a visão contrária ou ao embate dialético. Como se, num jogo, estivesse limitado
a usar apenas alguns movimentos invés de todos possíveis. Então, para entender é preciso
receptividade, além da já mencionada alteridade (ibidem, p. 358).
Antes da estrutura de Heidegger, a relação de vai-e-vem entre parte-todo no
círculo hermenêutico de interpretação era entendida como crescente, na medida em que o
entendimento do todo e das partes vai tornando-se sólido até que o movimento cesse com a
compreensão total e o círculo é suspenso (GADAMER, 2008, p. 388). Em Schleiermacher,
isso acontece quando uma parte consegue espelhar perfeitamente a outra: “o intérprete se
transporta inteiramente no autor e resolve, a partir daí, tudo o que é desconhecido e estranho
no texto” (loco citato).
Já a partir da estrutura heideggeriana, quando a compreensão realiza-se o círculo
atinge sua “realização mais autêntica”, invés de dissolver. Ou seja, o caráter essencial do
círculo, sua forma mais legítima, constitui-se quando se pensava que este deveria cessar. Isso
se dá porque o círculo não é um caminho ou mesmo uma estrutura para chegar-se à
compreensão, antes é o desenho da própria compreensão (GADAMER, 2008, p. 389). Por
isso, Gadamer também nega o círculo como armadura formal, e, lembrando que trilha seu
pensamento fugindo da rigidez, no caminho das possibilidades e probabilidades, vê o círculo
como um jogo entre a tradição e o intérprete – que não atribui sentidos a partir de sua
subjetividade, sejam prévios ou póstumos, mas sim em comunhão com a tradição (ibidem, p.
388).
O agir da tradição não pode ser confundido com meras pressuposições que
irrompem quando falamos ou refletimos sobre algo. Nós que vamos trazendo a tradição à
tona, num processo contínuo de formação. “Nós mesmos vamos instaurando-a na medida em
que compreendemos, na medida em que participamos do acontecer da tradição e continuamos
determinando-o a partir de nós próprios” (GADAMER, 2008, p. 388 - 389). O círculo, então,
não é metodológico, é a estrutura ontológica da compreensão.
Como circular, a compreensão supõe a constante possibilidade de retorno do
intérprete, garantida por sua vez pelo meio onde tudo isso acontece, onde a tradição se faz
presente, onde a compreensão se torna possível, onde os horizontes se fundem: a linguagem.
A linguagem é polissêmica: cada palavra refere vários sentidos, “ascende” a uma
teia de sentidos da linguagem; então seu sentido não está preso (GADAMER, 2008, p. 389).
Como uma “solidariedade lingüística”, uma rede de acordos explícitos e implícitos que regula
29

o uso da linguagem (LAWN, 2007, p. 105). “Toda conversação é um processo de acordo”


(GADAMER, 2008, p. 499). E como os sentidos têm mobilidade na linguagem, a
compreensão que temos também o tem (GADAMER, 2008, p. 497). As metáforas são
possíveis por essa mobilidade: as palavras não estão coladas aos entes como etiquetas eternas.
Assim a polissemia da linguagem abre espaço para o “retorno” da interpretação,
pois sempre haverá sentidos diferentes ali, sejam adormecidos, recém-atribuídos,
desconhecidos, metafóricos (GRONDIN, 2002, p. 45). Não interessa quanto pensamos um
tema, um conceito, uma obra de arte, qualquer que seja, interpretação e compreensão não se
esgotam – é a característica do próprio meio onde ocorre a compreensão.
Assim como no princípio da fusão de horizontes, só há como entendermos o outro
numa conversa se o deixarmos falar, colocando-se no seu lugar a partir do que diz, e não de
sua individualidade. O acordo na conversação exige que os interlocutores abram espaço para
o estranho e o adverso, e se os contra-argumentos são ponderados devidamente pode-se, “por
uma recíproca, imperceptível e involuntária transferência dos pontos de vista (o que
chamamos de intercâmbio de opiniões) chegar finalmente a uma linguagem e uma decisão
comum” (GADAMER, 2008, p. 501). Afinal, comunicar é um cognato de communicare: o
que é mantido em comum (LAWN, 2007, p. 107)
30

1.5 - Linguagem como meio

No entendimento da filosofia clássica, a linguagem é plenamente objetiva para o


que referencia: as palavras designam os entes, significam os objetos (LAWN, 2007, p. 104). O
ente está à fala e pela língua pode ser acessado em sua essência – essa era a concepção da
metafísica grega: o pensamento apartado da linguagem, sua materialidade, e esta como puro
sistema de signos e sinais que substituem os entes. A linguagem como meio de transporte,
uma cápsula para o pensamento. Essa noção é essencialmente designativa: as sentenças
designam e indicam, afirmando ou negando o estado de coisas no mundo, e a tarefa da
filosofia seria testar a validade lógica dessas sentenças (LAWN, 2007, p.105). A ciência
moderna é herdeira desse pensamento: o sujeito de uma experiência deve interagir
objetivamente com os objetos sem estar permeado por – como se pudesse livrar-se de – seus
preconceitos (GADAMER, 2008, p. 593). A desconexão entre o sujeito e seu contexto, entre a
linguagem e o pensamento, está pressuposta.
Quanto à linguagem, o pensamento de Gadamer, diferenciando-se da noção
designativa, tem suas origens na linha expressivista6 da filosofia da linguagem (LAWN, 2007,
p. 106). Nela a capacidade da linguagem de falar o mundo está subordinada ao homem. Como
expresso por Ludwig Wittgenstein nas Investigações Filosóficas, os sentidos das palavras se
dão no uso, ao invés da referência (1991, p. 20). O próprio ensino de uma palavra seria
comparável ao ensino do uso de uma peça num jogo de xadrez: não aprendemos como a peça
se movimenta por simplesmente sabê-la, vê-la, tocá-la, é preciso observá-la funcionando em
seu contexto, entender seus movimentos e possibilidades; assim também o é com as palavras
(WITTGENSTEIN, 1991, p. 22).
Esclarecido isso, Gadamer lança o principal ponto de sua crítica a adoção do
método das ciências da natureza nas ciências do espírito. O entendimento das ciências do
espírito está muito mais próximo da estrutura hermenêutica dentro da linguagem:
(...) na concepção da experiência humana de mundo que se dá na linguagem não se
calcula ou mede simplesmente o dado, mas vem à fala o ente, tal como se mostra ao
homem, como ente e como significante. É aqui – e não no ideal metodológico da
construção racional que domina a moderna ciência natural da matemática – que se
poderá reconhecer a compreensão que se exerce nas ciências do espírito
(GADAMER, 2008, p. 588, 589).

6
Tradição iniciada pelo filósofo Johann Georg Hammann no século XVIII, seguida por Johann Gottfried von
Herder e Wilhelm von Humboldt, estendendo-se até Heidegger e Gadamer.
31

Seguindo ainda a crítica de Gadamer à aplicação do método das ciências da


natureza (fundamentado em Heidegger) ele chama a forma de compreensão dessas ciências de
“bastarda”, pois “na sua tarefa apropriada de conceber o que simplesmente dado decaiu em
sua incompreensibilidade essencial” (HEIDEGGER apud GADAMER, 2008, p. 347).
Incompreensibilidade essa de perder de vista o sujeito que age na experiência e a linguagem
incontornável no acesso ao entendimento do mundo.
Longe da noção objetivadora da ciência, há um caráter de incerteza no acesso que
temos aos objetos. Percebemos isso de forma mais nítida com as experiências não-científicas
– notadamente a arte, filosofia e a história – e suas verdades não verificáveis pelo método
científico (GADAMER, 2008, p. 31-32). Gadamer vai além e estabelece que a linguagem é o
médium universal onde todo o processo de compreensão vai se desenrolar (ibidem, p. 351).
Também lança a fórmula: “O ser que pode ser entendido é linguagem” (ibidem, p. 612).
Assim a linguagem não está confinada à conversa ou aos textos, extrapolando esses limites, se
apresenta como nossa forma de pensar e limite de tudo que podemos entender.
O que não pode ser expresso em palavras, não se pode verdadeiramente entender.
“O que é precisamente uma forma de entendimento que não pode ser colocada em palavras, e
o que é exatamente aquilo que entendemos se não podem ser expressas em palavras?”
(LAWN, 2007, p. 113). Pois se “o ser que pode ser entendido é linguagem”, nosso acesso para
entender o ser só se dá pela linguagem, ela é nossa única luz para iluminar o ser.
Mas, antes que se assuma uma universalidade absoluta da linguagem, sabe-se que
ela também é limitada: mesmo que seja nossa luz para iluminar o ser, este supera sempre
nossa capacidade de delimitá-lo e de descrevê-lo. O ser vai além da nossa capacidade para
expressá-lo, pela própria limitação da linguagem e pelo jogo do que está explícito e implícito
nela – qualquer declaração contém sempre o dito e o não-dito (LAWN, 2007, p. 113).
Lembrando a teia de sentidos a qual cada palavra remete: apenas algumas ligações estão
claras durante a conversação enquanto várias outras ficam ocultas, subentendidas,
pressupostas ou ainda em forma potencial.
O que vem à fala não é outra coisa se não conjunturas, estados de coisas no
mundo (GADAMER, 2008, p. 574). E como tal, não teríamos linguagem sem o mundo. Na
lógica do sentido das palavras dado pelo uso, Wittgenstein pensa a linguagem como se fosse
uma ferramenta. Esse pensamento é extremamente não-designativo, pois poderíamos dizer
que a linguagem como expressão, na realidade, é nosso meio de fazer o mundo (LAWN,
32

2007, p. 107):
A linguagem não é somente um dentre muitos dotes atribuídos ao homem que está
no mundo, mas serve de base absoluta para que os homens tenham mundo, nela se
representa mundo. Para o homem, o mundo está ai como mundo numa forma como
não está para qualquer outro ser vivo que esteja no mundo. Mas esse estar-aí do
mundo é constituído pela linguagem (GADAMER, 2008, p. 571; grifo do autor).

Esse mundo de que Gadamer fala não é o mundo circundante, o espaço físico ou o
ambiente – esse com qual interagimos assim como o faz qualquer forma de vida. Mundo aqui
é entendido como esse que erguemos sobre o ambiente e que se confunde com este; se
fundem, se tornam uma unidade mais complexa. Estar no mundo não é apenas estar com os
corpos simplesmente dados, é também estar com todos os sentidos que atribuímos. Como “o
que podemos compreender é linguagem”, só o que compreendemos torna-se parte mundo.
“Não só o mundo é mundo apenas quando vem à linguagem, como a própria
linguagem só tem sua verdadeira existência no fato de que nela se representa o mundo”
(GADAMER, 2008, p. 572). E por representação, Gadamer não entende simples imitação
repetitiva, como no pensamento platônico7. Representar é muito mais que imitar: representar é
interpretar e, por isso, entender, trazer à luz – a mimeses, a representação, demonstra o próprio
conhecimento da essência (ibidem, p. 170). Não se chega à representação sem saber o
representado. Então, quando sabemos “usar” a palavra (como usamos as peças de xadrez),
acessamos e entendemos algo do seu ser.
E tal “uso” não se dá numa relação subjetiva, pois a linguagem guarda sua
objetividade (Sachlichkeit) na relação inerente que mantém com o mundo (GADAMER,
2008, p. 574). Quando o estado de coisas vem à fala, resguardamos nosso distanciamento para
com tais coisas nos reconhecendo como estrangeiros, pois: “A determinatividade de todo e
qualquer ente consiste precisamente em ser tal coisa e não outra.” (GADAMER, 2008, p.
575). Já que estamos de fora para poder ver em perspectiva, transformamos aquele acontecer
em conteúdo de um enunciado que pode ser entendido por outrem (loco citato).
Mas isso não implica que o mundo se torne objeto da linguagem (GADAMER,
2008, p. 581). Antes, tudo que é objeto das nossas sentenças e enunciados já está dentro do
horizonte total da linguagem (loco citato). Não é possível a nós, que “somos conversação”
(HÖLDERLIN apud LAWN, 2007, p. 109), olhar a linguagem como se estivesse num tubo de

7
Na República, Platão expõe a visão de que a arte – essencialmente representativa – engana e distancia-se da
verdade pois depende da mimesis, no sentido de imitação ou falsa impressão. Assim a verdade dos artistas
seria nada além da pura ilusão, enquanto o tratamento da realidade ficaria para os filósofos (LAWN, 2007, p.
118).
33

ensaio, pois não existe nenhuma experiência de mundo fora dela, nenhum ponto de onde
poderíamos converter-la em objeto (GADAMER, 2008, p. 584).
Somos conversação: fazemo-nos com a herança da tradição, que se faz presente
pela linguagem. Ela é anterior e posterior ao que podemos experienciar e exteriorizar, pois
estamos “imersos em linguisticalidade” (LAWN, 2007, p. 109). Podemos observar isso
sutilmente até em uma simples conversa, onde há muito mais em jogo do que as
individualidades dos envolvidos. Remetendo novamente ao “comum acordo” que se realiza
quando há entendimento, a conversa autêntica não é a que queremos levar, é a que nos leva –
na própria conversação que a linguagem possui seu autêntico ser, no realizar do entendimento
mútuo (GADAMER, 2008, pg. 575).
Quando envolvidos numa autêntica conversa mais somos levados por ela do que a
conduzimos onde queríamos chegar – isso é claramente dominá-la, e por isso limitá-la
(GADAMER, 2008, p. 497). Não dominamos ou controlamos seus caminhos e destinos pois é
a língua que fala através de nós e não o contrário (ibidem, p. 598).Tanto o é que ninguém sabe
como ou porque a linguagem muda (LAWN, 2007, p. 114). O uso da linguagem e sua
contínua modificação é um processo que nenhuma consciência individual pode dominar ou
controlar, seja pelo saber ou pela escolha (GADAMER, 2008, p. 598).
Na autêntica experiência hermenêutica, a linguagem abre as portas para a tradição
se comunicar com o presente, lembrando da fusão de horizontes e o círculo agindo na relação
entre intérprete (presente) e a tradição. Na fusão, é preciso estar aberto e deixar que o outro –
seja texto, fala, qualquer mensagem em qualquer linguagem – se expresse, e só assim a
experiência pode se tornar verdadeiramente hermenêutica: ouvindo a tradição (GADAMER,
2008, p. 597).
Como a experiência hermenêutica deve assumir tudo o que se faz presente nela (e
a tradição se faz presente pela linguagem), o que é experienciado e a tradição se comunicam
abrindo caminho para a compreensão (GADAMER, 2008, p. 597). É vital para que a
experiência seja hermenêutica o acontecer da linguagem, o “vir à fala do que foi dito na
tradição” (GADAMER, 2008, p. 598) – um acontecer que, com certeza, não se dá devido a
nossa ação, “mas a ação da própria coisa” (GADAMER, 2008, p. 598): a linguagem falando
através de nós.
Lembrando novamente da conversa autêntica, a sensação de estarmos à deriva ao
34

chegarmos a assuntos não previstos vem do caráter especulativo8 da linguagem: dizer o que se
tem em mente buscando ser entendido é manter o dito junto à infinitude do não-dito
(GADAMER, 2008, p. 605). Como observado acima, as palavras remetem à uma teia de
sentidos que estabelece inúmeras ligações à sombra do não-dito. Assim, formação prévia,
realização de sentido, o acontecer do discurso, o entendimento, a compreensão, são todos
especulativos (GADAMER, 2008, p. 605).
A linguagem esconde dentro do seu mecanismo de funcionamento o próprio
mecanismo do jogo – que é, em seu âmago, representação do mundo por excelência, assim
como a linguagem (GADAMER, 2008, p. 631). Johan Huizinga em Homo Ludens (2008),
trouxe uma perspectiva única sobre o que é o jogo e a sua importância na constituição
humana. A tese central da obra é de que o jogo é mais primitivo ao homem que a própria
cultura, sendo inclusive de onde esta surgiu. “As grandes atividades arquetípicas da sociedade
humana são, desde início, inteiramente marcadas pelo jogo” (HUIZINGA, 2008, p. 7). O
elemento lúdico precederia também a razão e por isso não pode ser fundamentado em
qualquer elemento racional (HUIZINGA, 2008, p. 6).
Em poucas palavras, o jogo se caracteriza por ser movimento suspenso num
tempo próprio e com ordem própria, representando a vida fora dele mas contido e voltado
para si. Esse movimento do jogo é repetitivo e incerto, não tem alvo, um vaivém complexo
que se torna atrativo (ou belo) por ser imprevisível, tanto o é que falamos em jogo das ondas,
das cores, da dança, todos que tem em comum o movimento. Também falamos em jogo de
palavras: as expressões abstratas pressupõem a metáfora, que é por si um jogo de palavras
(HUIZINGA, 2008, p. 7).
Em Huzinga, é o jogo (das palavras, das metáforas) que originou a linguagem:
“Ao dar expressão à vida, o homem cria um outro mundo, um mundo poético, ao lado do da
natureza” (HUIZINGA, 2008, p. 7). Como observado acima, temos mundo por causa da
linguagem, e esse mundo se ergue sobre o ambiente circundante se misturando com ele – não
há mais como separá-los. Também como observado na linguagem, o jogo também não é feito
pelos jogadores, o jogo é que ganha representação e realização no acontecer: ou seja, ele se
faz através dos jogadores (GADAMER, 2008, p. 157).

8
Gadamer usa “especulação” retomando a idéia de espelhamento: “É especulativo quem não se entrega direta e
imediatamente à estabilidade disponível dos fenômenos ou ao que se tem em mente enquanto se mantém
numa determinação fixa, mas que sabe refletir, ou, dito hegelianamente, que reconhece o ‘em si’ como um
‘para mim’” (2008, p. 601).
35

O jogo contém suas regras, sua ordem particular diferente da “vida normal” fora
dele, e os jogadores devem se submeter a essa ordem para o jogo não perder sua configuração,
pois sem ela não passaria de brincadeira9: “o jogador que desrespeita ou ignora as regras é um
‘desmancha-prazeres’” (HUIZINGA, 2008, p. 9 - 10). Trazendo novamente a comparação, na
linguagem aquele que usa uma palavra que só faz sentido pessoal nunca será entendido, é
necessário remetermos a um sentido comum.
A melhor maneira de determinar o que significa a verdade será, também aqui,
recorrer ao conceito de jogo; o modo como de certo modo se coloca em jogo o peso
das coisas que nos vêm ao encontro na compreensão é ele mesmo um processo de
linguagem, por assim dizer, um jogo com palavras que pelo jogo transpõem o que se
tem em mente. São também jogos de linguagem os que nos permitem chegar à
compreensão do mundo na qualidade de aprendizes – e quando deixamos de ser
aprendizes? (GADAMER, 2008, p. 630).

Gadamer estabelece assim que a relação hermenêutica do entendimento, presente


na linguagem que é o medium universal, tem caráter especulativo, de jogo (GADAMER,
2008, p. 609). Todo jogo tem seu início quando o jogador aceita suas regras e entra no mundo
particular do jogo, assim também a interpretação, só que o ponto de seu início não é fixo, pois
a experiência hermenêutica implica sempre que a visão do que se busca compreender nasce de
opiniões prévias (GADAMER, 2008, p. 609). Então, o que se busca compreender exige
interpretação pois coloca alguma barreira que “desafia” o intérprete. Como se colocasse uma
pergunta ao intérprete (GADAMER, 2008, p. 482).

1.5.1 – Dialética da pergunta e resposta

No meio do movimento incerto do jogo das palavras, a isca à interpretação tem a


estrutura de uma pergunta. A compreensão, por sua vez, pressupõe então uma resposta à essa
pergunta, ultrapassando o que foi dito (a pergunta) e assim indagando-se por algo que vá além
disso que foi dito (GADAMER, 2008, p. 482).
Para deixar o sentido vir à tona em um texto e compreendê-lo é preciso entrar em
diálogo com ele (LAWN, 2007, p. 102). A compreensão surge então no caráter de construção

9
A brincadeira não é levada a sério pelos jogadores por ser essencialmente cômica, tanto que suas regras podem
ser alteradas em prol da comicidade (HUIZINGA, 2008, p. 9). O jogo, pelo contrário, assim que abraçado
pelos jogadores deve ser levado a sério pois todos estão adotando verdadeira e totalmente as regras para
deixarem-se levar pelo jogo (ibidem, p. 11).
36

dialética10 da pergunta e resposta: “a dialética de pergunta e resposta sempre precedeu a


dialética da interpretação. É aquela que determina a compreensão como um acontecer”
(GADAMER, 2008, p. 609; grifo do autor).
A lógica da pergunta e resposta foi proposta inicialmente pelo historiador e
filósofo britânico R.G. Collingwood numa oposição a escola “realista” de Oxford. Realismo
esse que ignorava a historicidade dos textos e postulava que todos ou são fracassos ou
sucessos na capacidade de demonstrar logicamente argumentos irrefutáveis (LAWN, 2007, p.
99). Collingwood, em outra direção, argumenta que a compreensão de um texto só é possível
quando se compreendeu a pergunta para qual ele é a resposta, e essa pergunta só pode se
conseguir através do próprio texto; a adequação da resposta à pergunta é o meio para a
reconstrução da pergunta (GADAMER, 2008, p. 483).
O historicismo realista inglês encara que devemos recuperar os acontecimentos do
passado para entendê-los, como se fosse possível reconstituí-los – pensamento esse próximo
das ciências da natureza, que entendem que um processo só pode ser compreendido se
pudermos reconstruí-lo artificialmente, a repetição da experiência (GADAMER, 2008, p.
486). Como vimos acima, na crítica de Gadamer à hermenêutica romântica, não há como
reconstituir o passado, toda tentativa de tal será artificial.
A lógica que propôs Collingwood não é uma realização metodológica da história,
é antes um movimento que flui quando há entendimento – o texto também nos propõe uma
pergunta, por isso queremos interpretá-lo. Então, para Gadamer, a lógica de Collingwood se
inverte e se torna mais complexa: antes de o texto ser uma resposta a algo, ele é uma pergunta
para o intérprete (2008, p. 487). Não vamos reconstruir a resposta que o texto é sem saber ver
a pergunta que o texto nos faz. E como nós a entendemos? Porque tal pergunta, assim como o
texto, como linguagem, traz a palavra da tradição consigo, já que a tradição existe na
linguagem; o texto compõe a tradição (o todo) e esta também fala através do texto (a parte):
“A fusão de horizontes que se deu na compreensão é o genuíno desempenho e produção da
linguagem” (GADAMER, 2008, p. 492; grifo do autor).
Também a intenção semântica do que buscamos compreender, ao tentar entender
sua pergunta, não se separa da nossa intenção: o refazer da pergunta passa ao nosso próprio

10
Por dialética este estudo entende a definição de Gadamer (apoiado em Hegel) de um sistema com caráter da
experiência em que sofremos uma negação que se torna produtiva, pois a negação quebra dos conceitos
anteriores e assim podemos expandir e amplificar nosso conhecimento. A tensão e oposição de forças
fortalece, melhora ou mesmo edifica, um conhecimento mais resistente.
37

perguntar, que transforma o potencial de pergunta que ali estava em uma pergunta real
(GADAMER, 2008, p. 488). “Compreender a questionabilidade de algo já é sempre
perguntar” (idem, p. 489; grifo do autor). Na estrutura da pergunta reside a real dimensão da
experiência hermenêutica: a pergunta suspende a verdade que temos em mente, esta que é
extraída dos preconceitos, dada pela posição, visão e concepção prévias (ibidem). Então
“quem quiser pensar, deve perguntar”, pois quando se pergunta abrem-se possibilidades de
sentido (GADAMER, 2008, p. 489).
Como obtemos essa pergunta também é um problema hermenêutico, uma vez que
é necessidade da hermenêutica sempre ir além da reconstrução: não se pode deixar de pensar
no que o texto não representou, que é parte do não-dito (GADAMER, 2008, p. 488). O
entendimento que se busca através da hermenêutica deve manter a consciência do caráter da
linguagem ser inexata, “uma das coisas mais obscuras com que já se deparou a reflexão
humana” (GADAMER, 2008, p. 492). Gadamer afirma isso pois a linguagem é algo tão
próximo do nosso próprio pensar – sua própria concretização – que não há ângulo para o
pensar voltar seu olho à linguagem. Afinal, o que nos resta para entender a linguagem também
é por meio dela: “A partir da conversação que nós mesmos somos, buscamos nos aproximar
da obscuridade da linguagem” (GADAMER, 2008, p. 492).
38

Capítulo 2 – O jornalismo literário

“Escrever é esquecer. A literatura é a


maneira mais agradável de ignorar a
vida.”

Fernando Pessoa
39

2.1 - Aproximações entre literatura e jornalismo

O jornalismo literário abrange uma gama de textos tecidos em narrativa autoral,


com direito ao uso de figuras de linguagem, e que atendem a um rígido critério de
investigação e levantamento de dados (KRAMER, 2007). Sua narrativa foge da objetividade
rígida, escapa do puramente factual e das formalidades as quais estamos habituados no
jornalismo do dia-a-dia – e é claramente menos difundido que este, seja devido incapacidade
ou falta de vontade dos repórteres, aos manuais de redação, aos editores, ao que os jornalistas
acreditam que os leitores querem ler.
Está numa área indefinida entre jornalismo – com seus critérios rígidos e matéria-
prima factual – e literatura – arte aclamada, casa de grandes ficções –, o que traz dificuldades
não só para defini-lo, como até para nomeá-lo. O professor e jornalista Mark Kramer tem um
importante trabalho de definição desse estilo, e seu pensamento começa exatamente pela
problemática do termo:
Jornalismo Literário é ainda uma expressão indefinida. Sua virtude talvez seja
sua inocuidade. Como alguém engajado no assunto, vejo a palavra “literário”
como uma forma de autocongratulação e “jornalismo” uma maneira de mascarar
a criatividade dessa modalidade. Jornalismo Literário, no entanto, possui uma
exatidão inacabada. As palavras compostas cancelam-se mutuamente e apontam
o tipo de não-ficção em que estilos artísticos e construção narrativa, há tempos
associados à ficção, nos ajudam a aprofundar os acontecimentos — a essência do
jornalismo (KRAMER, 2007, p. 1).

Como o termo “literário” expressa, é um jornalismo que utiliza narrativa e


funções poéticas para se tornar mais abrangente (ANDRETTA, 2007, p. 188), para explorar
possibilidades que ficam fora da estrutura consagrada do lead e da pirâmide invertida1.
O momento áureo do estilo foi durante década de 60 do século XX, quando o
ocidente viveu intensas transformações sócio-culturais (a contra-cultura, os hippies,
Woodstock, o feminismo, etc.). Para Tom Wolfe, o jornalismo literário soube aproveitar esse
momento e por isso despontou: os novos jornalistas estavam lá pra contar a história dos
“loucos obscenos barulhentos cobiçosos mau-mau-luxuriosos empapados de drogas anos 60”
(WOLFE, 2005, p. 52 – 53).

1
Por lead este estudo entende, seguindo a definição de Nilson Lage, a introdução ao texto que, informando em
ordem direta e em único período, traz a informação tida como mais interessante e que puxa o restante
(LAGE, 1979, p 74). Por pirâmide invertida o estudo toma o resumo de Gaye Tuchman: “The most important
information concerning an event is supposed to be presented in the first paragraph, and each succeeding
paragraph should contain information of decreasing importance. The structure of a news theoretically
resembles an inverted pyramid” (1972, p. 670). O lead então é a base da pirâmide (analogia às pirâmides
egípcias, onde o faraó mumificado ficava na base) que, como está invertida, aparece no início.
40

Wolfe, como jornalista, escritor, acadêmico e morador de Nova Iorque nessa


década, tomou para si o papel de porta-voz do que chamou de novo jornalismo2 – esse
jornalismo literário que deu as caras na década de 60 e atingiu grandes públicos (LIMA, 2004,
p.180). Com seu trabalho intitulado O Novo Jornalismo, dentro do volume Radical Chique e
O Novo Jornalismo, que vamos começar a desdobrar o que é o jornalismo literário.
O berço do novo jornalismo foi inusitado. Se os jornalistas já eram totalmente
desconsiderados entre os literatos na época, eram a “classe baixa” da escrita, os jornalistas de
reportagens especiais estavam ainda abaixo (WOLFE, 2005, p. 44). Visto as diretrizes do
jornalismo – a informação deve ser a mais urgente e “importante” possível –, as reportagens
especiais sempre foram delegadas para o segundo plano, aquilo que vem de extra no jornal.
Mas com menor atenção voltada para si, os jornalistas de reportagens especiais conseguiram
espaço para jogar com a forma de seus textos (ibidem, p. 13 – 14). Entre os mais
desconsiderados que estava o embrião desse jornalismo literário revigorado.
E eles tinham uma razão pertinente para reelaborar seus textos de uma ponta à
outra: estavam em constante competição uns com os outros. Não pelo furo jornalístico, por
quem daria a notícia primeiro, mas por quem encontraria a história mais interessante e a
contaria melhor (WOLFE, 2005, p. 14). Ingredientes básicos para qualquer bom texto. Para
consegui-los, era preciso sair às ruas e se arriscar. Wolfe cita o caso de Michael Mok, que teve
o motor de seu barco quebrado a mais de um quilômetro do veleiro em que estava seu futuro
entrevistado. Para chegar ao barco, Mok resolveu nadar até não conseguir mais, com a
temperatura da água em torno de cinco graus. Acabou resgatado pelo próprio entrevistado
(ibidem, p. 15).
Na busca de boas histórias, esses jornalistas estavam investigando a sociedade – a
realidade da sociedade era o combustível de suas reportagens. Na década de 60 o romance se
encontrava afastado do realismo social, dando esse espaço para o jornalismo conquistar, o que
lhe rendeu notoriedade (WOLFE, 2005, p. 19). Basta notar o exemplo dos sucessos de
Hiroshima (1946), de John Hersey, e principalmente o best-seller A Sangue Frio (1966), de
Truman Capote. Wolfe faz larga defesa do realismo social como fonte para qualquer boa
escrita. Para ele, a literatura se tornou insossa ao fugir da realidade de seu tempo,

2
Considerando a possível confusão de termos, seguimos neste estudo a definição de Vitor Necchi, professor da
PUC-RS: “Quando se fala em jornalismo literário, eventualmente há uma tendência equivocada de confundir
o gênero com o 'novo jornalismo', como se fossem sinônimos. Na verdade, novo jornalismo é um momento
específico, uma fase do jornalismo literário verificada nos anos 1960 e ancorada, principalmente, no
surgimento de obras de autores como Truman Capote, Norman Mailer, Gay Talese e Tom Wolfe” (NECHI,
2007, p.6).
41

principalmente ao fugir da efervescência de modificações que os EUA sofreu na década de 60.


“A noção moderna de arte é essencialmente religiosa ou mágica, e segundo ela o
artista é visto como uma fera sagrada que, de alguma forma, grande ou pequena, recebe
relances da divindade conhecida como criatividade” (WOLFE, 2005, p. 27). A crítica
corrosiva é direcionada aos romancistas que estavam presos à idéia de que o que acontece
pelas ruas é pior, em termos estéticos, que o que podemos imaginar (ibidem, p. 26). Os
aconteceres no mundo, na história, nas vidas por-aí, estão, nessa perspectiva, sempre abaixo
da capacidade do nosso intelecto. A posição de Wolfe é claramente contrária: sem contato
com os outros, com o mundo, ficamos andando em círculos, dentro da nossa perspectiva, sem
mudanças, e por isso só poderíamos escrever textos desinteressantes.
“A introdução do realismo na literatura por gente como Richardson, Fielding e
Smollet foi como a introdução da eletricidade na tecnologia da maquinaria” (WOLFE, 2005,
p.58). A força do texto dos grandes escritores que Wolfe cita está ligada a como trabalham
com a realidade, sua matéria-prima (opus citato). Como se, sem ricochetear no mundo, a arte
se tornasse esquizofrênica. A literatura realista do século XIX está repleta de escritores que
“aceitavam rotineiramente a desconfortável tarefa de fazer reportagem, 'cavando' a realidade
simplesmente para reproduzi-la direito” (WOLFE, 2005, p. 40; grifo do autor). São exemplos
como Balzac, Gogol, Dickens, Dostoiévski e James Joyce que mais dão peso a essa
comparação. Balzac costumava dizer que era o cronista de Paris e de toda a França pós-
império, era “o secretário da sociedade francesa” (ibidem, p. 29).
Mas a figura do irracional, a imaginação genial e transcendental do autor, ficou
preservada no meio literário. Especialmente no romantismo, com Goethe3. Os primeiros dias
do novo jornalismo foram uma repetição dos primeiros dias do romance realista na Inglaterra:
as objeções que os realistas enfrentaram são as mesmas que enfrentam os novos jornalistas
(WOLFE, 2005, p.62). Wolfe retoma as críticas feitas ao realismo – também aplicadas ao
novo jornalismo – de lidar com um material pobre (os costumes), de exigir pouco mais do
leitor do que o mero entendimento e de fracassar em trazer à literatura a moralidade, verdades
eternas e as “questões sérias” (ibidem, p.63). O romance realista seria somente “excitação
desmiolada”, como a reportagem do novo jornalismo, uma forma sofisticada e sem conteúdo
(ibidem, p.62-63). Ao que Wolfe responde (com sua sutileza específica): “Não tenho nada

3
Johann Wolfgang von Goethe, autor de Fausto e Os sofrimentos do jovem Werther, entre outras obras, é uma
das maiores personalidades da literatura alemã e precursor do romantismo. Também poeta, dramaturgo,
romancista e ensaísta. Goethe defendia, partindo do idealismo do artista proposto por Kant, que a arte é um
produto do inconsciente do gênio artístico (GADAMER, 2008, p. 102).
42

contra chamarem de 'espevitado' e de 'enchimento' o novo jornalismo. Se essas qualidades


parecem negativas, basta imaginar seus opostos” (ibidem, p.64).
A falta de “energia elétrica” (de realismo social) no romance era o ponto fraco que
iria destroná-lo (WOLFE, 2005, p.19). Em 1948, Lionel Trilling construiu uma teoria de que
o romance de realismo social estava acabado (ibidem, p. 49), e seu pensamento tomou toda a
geração, que viu no romance de idéias a solução. Para Trilling, o realismo era fruto da
ascensão da burguesia no século XIX e a Segunda Grande Guerra marcou o colapso dessa
sociedade, logo, também o declínio de sua arte realista (loco citato). Mas Wolfe vai ao
caminho contrário e de forma mais radical: sem realismo o romance estava acabado. Apenas
uns poucos conseguem, isolados em uma cabana, escrever algo bom (ibidem, p. 19). O tato
com o mundo, problema para a literatura da época, é o trunfo dos jornalistas literários
(ibidem, p. 58).
Se há uma lição de reportagem que podemos tirar de Wolfe é do labor necessário.
A pesquisa do jornalista literário é um cavar fundo e o texto deve ser uma narrativa de
mecânica primorosa para sustentar a densidade das histórias. Os bons jornalistas da década de
60, munidos das técnicas narrativas do romance realista e de imensa persistência para
vasculha histórias pelas ruas, estavam com tudo o que é necessário para se produzir excelentes
escritos.
Mas uma crítica negativa que Wolfe não deixa só para seu sarcasmo é a de que os
novos jornalistas não avaliam direito seu material (2005, p.64). Trabalhar o material não
significa atribuir moralismos, teleologias, sentidos míticos. Nenhum desses jornalistas
simplesmente revestiu suas reportagens de um texto refinado, pois sabiam que é preciso
trabalhar o material. Basta ver, como exemplo, a profundidade das suas empreitadas. Por
exemplo, John Sack convenceu o exército estadunidense a lhe concederem permissão para
treinar num quartel e depois ir à Guerra do Vietnã com um batalhão de infantaria, tudo como
repórter. Outro exemplo ainda é Hunter Thompson, que passou 18 meses andando com os
Hell's Angels, um famoso e violento grupo de motociclistas. No seu último dia com eles,
Thompson foi espancado quase até a morte pelo grupo4 (WOLFE, 2005, p. 46).
Um dos maiores exemplos de aprofundamento na pesquisa vem de Truman

4
Thompson faria fama com histórias parecidas. Na reportagem The Kentucky Derby Is Decadent and Depraved
ele abandonou todos os critérios de imparcialidade e objetividade jornalística e construiu uma narrativa
participativa e em primeira pessoa. O resultado foi o que ele mesmo chamou de Jornalismo Gonzo: agora não
mais faria a cobertura como repórter, passou a se infiltrar como um ator, como parte ou membro do ambiente.
O termo gonzo foi adotado por Thompson depois de receber uma carta de um amigo que escreveu: “Eu não
sei que porra você está fazendo, mas você mudou tudo. É totalmente gonzo”. O termo originou-se da gíria
franco-canadense gonzeaux, que significa algo como “caminho iluminado”. cf. CZARNOBAI, 2003.
43

Capote. O escritor passou mais de um ano em Holcomb, Kansas, cidade onde se deu o
assassinato da família Clutter, caso exposto em seu livro-reportagem. Ele entrevistou muitos
moradores da região, estudou a história da família e se manteve perto dos investigadores
policiais, tudo sem gravador ou bloco de notas (se dizia capaz de memorizar e reproduzir 95%
das informações que lhe eram faladas. Isso segundo testes que fez com um amigo, nos quais
este lia trechos de livros e, mais tarde, Capote repetia o que foi lido). Mas o trunfo de Capote
foi ter convivido com os condenados no corredor da morte conquistando a amizade dos dois e
obtendo confissões únicas (CAPOTE, 2003).
Enfim, a pesquisa afiada, a variedade de temas e o trabalho exaustivo com o
material marcam todos os novos jornalistas. A pressão que exerciam sobre si mesmos para
escrever era tal que muitos seguiam dias a fio frente à máquina de escrever. Jimmy Breslin,
que trabalhava com Wolfe, tinha a rotina de sair cedo para a rua para procurar pautas. Voltava
às quatro da tarde, sentava à máquina com café e cigarros e datilografava incansavelmente,
sem parar (WOLFE, 2005, p. 24). Wolfe sintetiza essa postura, que faz parecer quase como
angústia:
A idéia de um dia de folga perdeu todo o sentido. Lembro-me de ficar furioso na
segunda-feira 25 de novembro de 1963 porque havia gente com quem eu
precisava desesperadamente falar, por causa de alguma história, e não conseguia
encontrar ninguém, porque todos os escritórios de Nova York pareciam estar
fechados, todos (2005, p. 29).

A geração do novo jornalismo tinha o sucesso com a escrita em alta conta, tanto
que muitos almejavam mais do que a simples coluna num jornal. Apesar da intensa
competição dos repórteres de reportagens especiais pela melhor e mais bem contada história,
era comum chegarem ao ponto de desistência do jornalismo, suspendendo essa angústia de
finalizar as reportagens para arriscarem o que consideravam ser o próximo passo: era o sonho
comum do romance (WOLFE, 2005, p. 15 - 16).
A aspiração a escritor era quase universal nas redações. Trabalhando no New York
Herald Tribune5, Wolfe viu de perto o desejo que perturbava a todos: o romance era o status
mor e absoluto do escritor, como se o romancista tivesse plenitude na escrita, fosse o “escritor
por excelência” (LIMA, 2004, p. 193). Como ironiza Wolfe, os romancistas tinham
“exclusividade de entrada na alma do homem, nas emoções profundas, nos mistérios
eternos...” (2005, p. 43 - 44). O sonho estava banalizado, redações por todo EUA eram

5
O jornal foi criado em 1924 em Nova Iorque. Foi o principal concorrente do New York Times, até que em 1967
o Times e o Washington Post adquiriram 30% de suas ações. Com a operação, o jornal se tornou o The
Internacional Herald Tribune. Em 2003, o Post vendeu sua parte para o Times.
44

compostas por quem não queria estar lá. Pensavam estar de passagem rumo ao olímpo da
literatura. “O Romance parecia um dos últimos desses grandes golpes de sorte, como
encontrar ouro ou achar petróleo, com que um americano podia, do dia para a noite, num
relance, transformar inteiramente seu destino” (WOLFE, 2005, p. 17). Mas, mirando o pódio
da literatura, esses jornalistas passaram a escrever muito (em quantidade) e alguns,
gradativamente, também melhoraram a qualidade.
Nos primeiros anos do século XX, os romancistas ainda não haviam ascendido a
guardiões supremos da arte literária e nem os jornalistas haviam resignificado sua função de
forma utilitarista6. Com a separação nítida da figura do escritor e do jornalista, as redações
perderam, gradativamente, seus escritores; aqueles que sonhavam com o romance acabavam
deixando a redação (WOLFE, 2005, p. 18). Foi no período do novo jornalismo que os
jornalistas que acreditavam em suas reportagens – também que não seriam ou queriam ser
grandes romancistas (como os citados Breslin, Thompson, Sack, e o próprio Wolfe) –,
voltaram o foco para suas reportagens e permaneceram na fumaça de cigarro das redações. Na
batalha cotidiana contra a máquina de escrever foram atingindo, por meio do próprio jogo da
linguagem e do jornalismo, por erro e tentativa, textos mais ricos e com narrativas mais
profundas (WOLFE, 2005, p. 53).
Os largamente-desconsiderados jornalistas de reportagens especiais estavam se
apropriando das técnicas do romance realista e resgatando aquilo que estava perdido nos
romancistas, preocupados com romances de idéias (WOLFE, 2005, p. 50). O espaço que
cederam para os jornalistas era imenso e vistoso, toda a turbulência dos anos 60 estava à vista
como combustível para a escrita – a década da exploração espacial, da Guerra do Vietnã, de
famosos assassinatos políticos, do feminismo, da “consciência” negra, enfim, de imenso
borbulhar sócio-cultural (ibidem, p. 51). E com tudo isso emergindo pelas ruas, facilmente
notado, as editoras buscavam por novos romances, novos autores, que falassem a essa
geração, escrevessem sobre esse “borbulhar” (ibidem, p. 52). Os romancistas estadunidenses
não estavam atentos a isso, então quem despontou foram esses jornalistas que há muito tempo
namoravam a literatura (loco citato).

6
Há uma condição de proximidade entre jornalismo e literatura que remonta à própria função de contar histórias,
tanto que até os primeiros anos do século XX a função era dos mesmos escritores (LIMA, 2003, p. 173).
Machado de Assis, Manuel Antônio de Almeida e José de Alencar são exemplos nacionais de escritores que
trabalhavam em jornais. Como disse Felix Pacheco: “Toda a melhor literatura brasileira dos últimos trinta e
cinco anos fez escala pela imprensa.” (1977 apud LIMA, 2003, p.175). Kramer vai mais adiante e levanta
nomes de escritores que escreviam ensaios narrativos em muito parecidos com o novo jornalismo. Entre esses
nomes estão Ernest Hemingway, Gabriel Garcia Marques e John Steinbeck, e, retrocendendo ainda mais,
Daniel Defoe (2007, p. 1 - 2). Muitos desses escritores viam o trabalho no jornal diário como um
aprimoramento dos seus textos, já que tinham que escrever em grande quantidade para os jornais.
45

Com o interesse das editoras, o jornalismo literário se aproximou mais ainda da


literatura pelo suporte mais específico possível: o próprio livro. E não há meio melhor para se
ver a nítida fusão entre jornalismo e literatura que no livro-reportagem7.
O livro-reportagem é parte do mundo do jornalismo, mas possui sua própria
autonomia, que exatamente lhe possibilita experimentações impraticáveis nas
redações dos veículos periódicos. Por isso, penetra num território novo, podendo
transcender o jornalismo – pelo menos na sua concepção conservadora –, gerar um
novo campo, que os norte americanos já denominam literatura da realidade. (LIMA,
2004, p.14)

Capote manteve firme a posição de que A Sangue Frio não era jornalismo, era um
“romance de não-ficção” (WOLFE, 2005, p. 61). Wolfe viu isso como uma estratégia já
realizada por Henry Fielding, quando este publicou o romance Joseph Andrews, em 1742. À
época, o romance era um sub-gênero e o poema épico era o topo, e Fielding colocou seu
romance na sombra do gênero principal ao falar que se tratava de um novo estilo, que chamou
“poema épico cômico em prosa” (WOLFE, 2005, p. 61). Capote repetiu a tática para ganhar o
respaldo do romance, mesmo usufruindo de qualidades do jornalismo.
Como colocado por Edvaldo Pereira Lima na citação acima, o livro-reportagem
traz novas margens, uma expansão de possibilidades que deram energia cinética para a jogada
de Capote. Fora do jornal, inserido na moldura do livro, a reportagem ganha mobilidade para
avançar sobre a literatura. O livro-reportagem foi o movimento definitivo para colocar o
jornalismo literário, através do novo jornalismo, no olho do furacão do universo da escrita.

7
A Sangue Frio, de 1966, é considerado o grande marco do gênero, mas, ainda em 1917, John Reed havia
lançado Os dez dias que abalaram o mundo, que marca as origens do formato.
46

2.2 - Separando o jornalismo pela narrativa: o tradicional (bege) e


o literário

A questão estética é um dos fortes pilares da defesa de Wolf ao que faziam seus
pares no novo jornalismo. O lead e a pirâmide invertida são formalizações e como tal
inevitavelmente uniformizam os textos. Segundo a crítica de Gaye Tuchman em Objectivity
as strategic ritual8, a padronização dos textos jornalísticos serve para atender às demandas da
objetividade:
(…) if every reporter gathers and structures 'facts' in a detached, unbiased,
impersonal manner, deadlines will be met and libel suits avoided (1972, p. 664).

(…) objectivity refers to routine procedures which may be exemplified as formal


attributes (quotation marks, levels of significance, legal precedents, X-rays) and
which protect the professional from mistakes and from his critics. It appears the
word "objectivity" is being used defensively as a strategic ritual (1972, p. 678).

Padronização em um texto soa, invariavelmente, como característica cansativa –


essa é a crítica de Wolfe. Até meados da década de 50 do século XX, quando o romance
realista perdeu força, a narrativa na escrita de não-ficção, especialmente no caso do
jornalismo, encontrava-se praticamente imperceptível e os jornalistas queriam que
permanecesse assim (WOLFE, 2005, p. 32). Wolfe explica essa escolha pela tradição britânica
de não-ficção, que valorizava no texto a “voz calma, cultivada e, de fato, polida”, como se o
narrador obrigatoriamente tivesse que se esconder; como se os acontecimentos noticiados
tivessem luz própria e o como, ou a forma de se contar, fosse uma bandeja de maître. Um
fundo neutro ou, como coloca Wolfe, uma parede bege (loco citato).
O narrador bege quer manter-se ausente, uma voz que emana por caixas de som
penduradas nas paredes e fala de bem longe, invés de alguém que senta ao seu lado para falar.
O bege não quer fazer-se presente, quer ser ameno, apagado, em cima do muro, sem sal, pra
caber em qualquer lugar e servir para qualquer um. Busca manter o understatement, a
discrição, o tom cavalheiro e impassível. Para Wolfe, uma voz maçante e enfadonha, em
certos momentos (textos) insuportável (2005, p. 32). Como se colocasse seu texto para
desafiar o leitor, invés de ser agradável e facilitar a leitura. Mas a narração não se dissocia do
conteúdo e, como toda forma, não pode ser deixada de lado como se o conteúdo falasse por si.
Trabalhar a técnica – forma e estética – é trabalhar o como desse conteúdo.
Mas buscar uma fórmula para a estrutura do texto para garantir a objetividade é

8
“A objetividade como ritual estratégico”. cf. TUCHMAN, 1978
47

um problema, visto que o jornalismo não é absolutamente noticioso: o repórter tem vida
própria antes e depois de ser jornalista e não pode ser recortado do seu mundo, seu estar-no-
mundo. Sua identidade manifesta-se em todo e qualquer texto seu (PASSOS; ORLANDINI,
2008, p. 7).
Como vimos no capítulo anterior, em Gadamer, a tradição é inescapável, pois
mora na linguagem que usamos para pensar e se expressar. Nossa visão, posição e concepção
prévias estão sobre nossos preconceitos, que por sua vez desenvolvemos na relação com a
tradição. É impossível ao repórter a supressão de suas noções prévias. Mas, a objetividade no
jornalismo é mais escorregadia: apontar na mesma direção do senso comum é um também um
disfarce de objetividade, pois o senso comum determina o que será entendido como “fato”
(TUCHMAN, 1972, p. 674). Para Kramer, os textos acabam “sem vida, sem individualidade,
convencionalizados e, por isso, sob uma voz presumivelmente justa e neutra” (2007, p. 10).
A formação dos jornalistas há tempos é voltada para que suprimam toda e
qualquer pessoalidade e mantenham seus textos nos trilhos da objetividade jornalística
(PIERRE, 1999, p. 12). O veio de sentido do texto deve ser controlado e direcionado pelo
jornalista para um único local, como um holofote potente que ilumina determinado objeto e
não deixa dúvidas ou margens de que está tratando dele, enquanto o restante está invisível no
escuro. No trabalho sobre jornalismo literário de Mateus Yuri Passos e Romulo Augusto
Orlandini há uma comparação estrutural entre o jornalismo literário e do modelo lead:
Propusemos anteriormente9 uma comparação estrutural entre o jornalismo literário e
o modelo lead, com base em Roland Barthes. Podemos compreender a diferença
fundamental entre os dois modelos da seguinte maneira: no último prevalecem os
dados e ações primários de um acontecimento. No jornalismo literário, os mesmos
ainda são contemplados, mas há um procedimento de preenchimento, com a adição
de informações indiciais e ações catalíticas, menores, constituindo um registro
expandido da realidade. Assim, o modelo predominante se configura por um
procedimento que propomos denominar centrípeto, pois há um movimento em
direção ao núcleo informacional, com foco nos resultados imediatos do fato; em
contrapartida, o jornalismo literário é essencialmente centrífugo, partindo do mesmo
núcleo para encontrar correspondências anteriores e contemporâneas, tangenciais e
paralelas, inclusive possíveis desdobramentos futuros. O foco aí se dá nos processos,
na vida humana em movimento (2008, p. 6).

A formalização padronizadora do jornalismo modelo lead e pirâmide invertida


amortizam os sentidos por centralizá-los, tentando decepar um potencial inerente da
linguagem: a polissemia – o fator que, como vimos no círculo hermenêutico, garante o retorno
inesgotável da interpretação. Os trilhos que põe o texto numa direção definida são a

9
Em: Contando a história do presente: princípios para uma caracterização estrutural do jornalismo literário. In:
CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 2007, Santos. Anais. São Paulo:
Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2007.
48

característica centrípeta, em direção ao centro, pois pretendem manter as aberturas


interpretativas do texto fechadas, apontando unicamente para a informação principal.
Já a lógica centrífuga expande-se para fora do centro, aceitando e utilizando a seu
favor a polissemia lingüística: “É um entremeio, interpretativo, cuja certeza é encontrar o
diferente como identidade” (PASSOS; ORLANDINI, 2008, p. 7). As possibilidades e os
sentidos se abrem ao invés de se fecharem. O texto do jornalismo literário é assumidamente
aberto à interpretação, dado o uso de figuras de linguagem, ao contrário do modelo de lead,
que pressupõe a transparência da linguagem: “O fenômeno mais impressionante no
jornalismo ocidental, tanto na práxis como na teoria, é a metafísica obstinada e conservadora
de que a linguagem é transparente” (ROEH, 1989 apud TRAQUINA, 2008, p. 161).
O modelo centrípeto é também uma busca pela fórmula ideal para passar a
informação da forma mais “pura” possível, com o mínimo de contaminação do que é externo
à informação principal, centro de gravidade. Assim, tal modelo acaba por recusar todas as
nuances do que é contar “estórias”, o que o jornalismo é na sua essência (idem). Todo bom
contador de história tem muito mais na sua fala do que só informações. Reduzir sua fala
somente às informações a deixaria sem elegância: “À medida que as notícias começaram a ser
tratadas como um produto, uma forma nascente de 'empacotamento' apareceu” (TRAQUINA,
2005, p. 59).
Outra diferença fundamental entre o jornalismo tradicional e o jornalismo literário
é a postura quanto ao próprio texto. O jornalismo literário não se posta como uma fotografia
dos fatos, mas antes como alguém que foi lá vê-los e vem lhe contar como viu. Já a estrutura
“bege” busca responder rápida e mecanicamente às questões que supostamente tem maior
prioridade, não necessariamente para atender ao leitor:
O lead foi inventado para facilitar a vida de quem faz jornalismo, ou seja, para
facilitar a vida dos jornalistas. Não foi para facilitar a vida de quem “consome”
jornalismo, ou seja, os leitores. Há uma incrível hipocrisia em torno disso. Faz-se
uma coisa e diz-se outra. Até porque o jornalismo, evidentemente, não é só “boletim
sobre o que aconteceu horas ou minutos atrás”. O jornalismo é feito de muitos
outros conteúdos não-noticiosos. A maior contribuição que o jornalismo literário
pode dar, de imediato, é com as reportagens especiais (mas não estou me referindo a
“notícias alongadas para publicar no fim de semana” nem a “artigos escritos por
especialistas estrangeiros traduzidos para o português”). Estou me referindo a
reportagens narrativas, autorais, transparentes, algo que valha a pena guardar pelo
conteúdo aprofundado, pela forma artística e pela postura de compartilhamento por
parte do repórter-autor10.

Se o lead está para facilitar a vida dos jornalistas e não necessariamente a dos
leitores, talvez não seja o melhor caminho para transmitir bem a informação. A estrutura do

10
Sérgio Vilas Boas em entrevista concedida ao site Observatório de Imprensa, 2006.
49

texto no jornalismo tradicional, centralizando e uniformizando os sentidos do texto, acaba


também por cortar facetas da realidade que não tem espaço no formato como os sentimentos
dos envolvidos, seus desejos e pensamentos, opiniões, jeitos, as sutilezas envolvidas. Passos e
Orlandini levantam como exemplo os obituários que por anos permaneceram “burocráticos” –
a simplista inclusão de, apenas, o nome do falecido –, e podem ser tomados como exemplo da
superficialidade da informação seca e direta (2008, p. 2 - 3). O jornalismo quando com pressa,
raramente tem tempo para desdobrar simples acontecimentos e acaba gerando textos
assépticos (idem, p. 5). Abaixo segue uma comparação como exemplo:
Notícia do Estadão Online (de 7 de outubro de 2009):
A polícia boliviana informou nesta quarta-feira, 7, que o estudante brasileiro
Jeffeson Benedicto Paro dos Santos, de 25 anos, morreu na terça ao ser atingido por
disparos numa rua de Santa Cruz, cidade na região central da Bolívia. Segundo o
chefe de polícia, coronel Miguel Gonzales, Santos estudava medicina na
Universidad Cristiana de Bolivia (Ucebol).

Trecho de A Sangue Frio:


Nas primeiras horas daquela madrugada de novembro, porém, sons nada
costumeiros sobrepuseram-se aos ruídos noturnos normais de Holcomb – a histeria
aguda dos coiotes, o arrastar seco das folhas sopradas pelo vento, o lamento distante
dos apitos de locomotiva. Na ocasião, não foram ouvidos por ninguém na Holcomb
adormecida – quatro disparos de espingarda que, no fim das contas, deram cabo de
um total de seis vidas humanas. (CAPOTE, 2003, p. 23 - 24)

Em ambos os casos temos homicídios. Pelo primeiro texto, percebe-se em


funcionamento a estrutura centrífuga, em detrimento da centrípeta. O texto te mantém há
léguas de distância. Já o segundo, ao contrário, convida o leitor a entrar naquela noite e ouvir
os disparos. Ao tratar com metáforas simples e construir uma montagem da cena, dar um
ritmo vivo a escrita, o autor dá espaço para a interpretação do leitor se fazer com conforto. E é
de fundamental importância que o leitor seja capaz disso, uma vez que: “O texto é um produto
cujo destino interpretativo deve fazer parte do próprio mecanismo gerativo” (ECO, 2004, p.
39). O sentido do texto só é alcançado, só se faz e se realiza quando o ciclo é completado,
quando ele é lido. Não é uma via única do escritor ao leitor, é um processo dialógico pois toda
expressão é incompleta até ser “atualizada”, ou transposta para o presente e com sentido, pelo
leitor (ECO, 2004, p. 35 – 36). De forma ainda mais incisiva, podemos dizer que o leitor, ou
intérprete, pertence ao seu texto como o ponto de vista da perspectiva pertence a um quadro
(GADAMER, 2008, p. 432).
Lembrando o trecho supracitado: “O entendimento não é o caso de um sujeito
ativo projetar um significado num objeto inerte e morto; pelo contrário, ambos, presente e
passado, têm horizontes que podem ser juntados produtivamente” (LAWN, 2007, p. 109). Se
50

a fusão de horizontes ocorre em toda a compreensão e para chegarmos à fusão é preciso ouvir
o outro, é preciso alteridade e abertura, então não seria mais fácil chegar à fusão e ao
entendimento quando o outro também está aberto? Quando suas possibilidades se
multiplicam como numa estrutura centrífuga? Seguindo esse raciocínio, a rigidez e
padronização (cansativa) da narrativa bege, como defende Wolfe, acabam por dificultar o
entendimento ao invés de facilitá-lo.
A estrutura narrativa das informações não pode, pois, seguir um modelo estanque de
pirâmide invertida. O real pulsante não pode ser transposto para uma ata de ritmo
previsível da primeira à última informação. São necessárias variáveis para atender
ao momento vital a que nos referenciamos, por mais denotativos ou “objetivos” que
nos intitulemos. Tentar decifrar o real imediato e ser fiel a essa possível decifração
exige maleabilidade narrativa. Claro, tudo depende do contato, da observação, e da
relação primordial junto à realidade noticiosa ou noticiável. (MEDINA apud
MARÇOLLA & VIANA, 2007, p. 3)
51

2.3 - Traços fundamentais

O trabalho de definição e caracterização que Mark Kramer fez do jornalismo


literário é essencial para clarearmos mais nosso objeto de estudo. Kramer definiu oito
características essências ao estilo, sendo algumas delas próximas ou quase idênticas as outras
levantadas também por Tom Wolfe. As quatro primeiras são textuais, ou formais, e as quatro
últimas (tratadas no próximo sub-capítulo) são metodológicas, ou procedimentais.

2.3.1 - Traços procedimentais

Em Kramer, o primeiro e mais importante traço é a imersão. Como vimos nos


exemplos citados acima dos repórteres Jimmy Breslin, Hunter Thompson, de Truman Capote,
entre outros, a densidade textual do jornalismo literário pressupõe que o escritor “viva” o
ambiente e a realidade reportadas. É preciso ir além da simples entrevista com as fontes
oficiais para se ter a profundidade psicológica necessária e fugir do puramente factual.
Kramer, que também é jornalista literário, fala que é preciso manter o contato com suas fontes
por meses ou até anos (2007, p. 3). É preciso acompanhar o desenvolvimento dos casos e seus
envolvidos. Em suma, ir além do habitual jornalístico de somente entrevistar fontes oficiais e
imergir atrás de todos os detalhes da história.
Devido a imediaticidade que o jornalismo atual enfrenta, e até mesmo o
comodismo do texto raso, a reportagem como conhecemos está sumindo (GUZZO &
TEIXEIRA, 2008, p. 2). A profundidade de pesquisa do jornalismo literário tem o poder de
reviver o caráter da pesquisa profunda inerente à reportagem que sempre demandou tempo e
esforço.
“A grande questão de jornalistas literários quando estão em prolongadas imersões
é a compreensão do tema em um nível que Henry James chamou de 'felt life' (vida sentida)”
(KRAMER, 2007, p. 3; grifo nosso). Um contato tal que busca expor a complexidade
psicológica e diferenças individuais, livre de burocracias e hipocrisias e franco ao ponto de
clarear todos os detalhes (loco citato).
O felt life funciona como uma experiência hermenêutica, e lembrando o conceito
apresentado no capítulo anterior, a verdadeira experiência hermenêutica é singular, não uma
repetição, e é negativa no sentido de frustrar nossos preconceitos. A experiência nos altera
pois sofremos o abalo em nossos preconceitos e estes são alterados, passamos a uma posição
52

nova de onde temos também um ângulo de visão novo. O jornalista para sentir a realidade
precisa experimentá-la nesse nível. Não se trata somente de captar. “É preciso confiança, tato,
firmeza e tolerância” (KRAMER, 2007, p. 3). E é necessário muito tempo para ingerir e
digerir os tantos elementos que compõe as histórias reais. Joseph Mitchell, por exemplo, ficou
famoso pela sua imensa capacidade de observação, como descrito no posfácio do seu livro O
Segredo de Joe Gould:
Certa vez, no Sul dos Estados Unidos, Joseph Mitchell apontou um binóculo na
direção de um pica-pau. O passarinho fazia o que fazem os pica-paus: martelava o
tronco de uma árvore. Mitchell acomodou-se no chão e ficou observando.
Laboriosamente o pica-pau avançou tronco adentro, rasgando a madeira de casca a
casca. A façanha durou quase duas horas e terminou com a árvore vindo ao chão.
Mitchell não arredou pé até o final. Mais tarde, disse: “Foi a coisa mais sensacional
que já testemunhei” (SALLES, 2003, p. 139).

O ideal de imersão foi tão forte para o novo jornalismo que dela derivou um filho
radical: o gonzo. Quando Hunter Thompson escreveu The Kentucky Derby Is Decadent and
Depraved (ver nota de rodapé 13), e depois afirmou que tinha um novo estilo que intitulou de
jornalismo gonzo, ele estava radicalizando a imersão do jornalismo literário (OTHITIS,
1994). Apesar de mudar constantemente a sua definição do jornalismo gonzo, Thompson
manteve-se firme na posição de que: “O verdadeiro gonzo jornalista precisa do talento de um
excelente jornalista, dos olhos de um fotógrafo e dos culhões de um ator” (THOMPSON apud
OTHITIS, 1994). É ao colocar o conceito de “ator” no meio que a radicalização da imersão
acontece. Não se trata mais de apenas observar atentamente a realidade, é preciso vivenciá-la.
No trabalho sobre jornalismo gonzo de André Czarnobai, a técnica de “atuação”
de Thompson é chamada de osmose – conceito proveniente dos estudos biológicos onde
corpos aproximados, com diferentes concentrações de algum elemento, tendem a equalização
através da distribuição do mais carregado para o menos (CZARNOBAI, 2003). Thompson
seria o agente com menor concentração, que desconhece a determinada realidade onde
pretende entrar e assim se mistura aos indivíduos de lá para tentar viver como eles, tentar se
tornar um deles a fim de captar ao máximo a experiência.
Avançando, a segunda característica de Kramer é o pacto firmado com leitores e
fontes pela exatidão no relato. O jornalismo em si traz o paradigma do discurso verdadeiro –
reporta os acontecimentos, leva a informação – como também o jornalismo literário, a
diferença é que no literário o repórter passa, geralmente, meses na rua para atingir a
profundidade necessária (KRAMER, 2007, p. 3). O próprio rigor de pesquisa é uma forma de
confirmar ao leitor da veracidade do que é apresentado. Se há tanta pesquisa por trás do texto,
a confiança na sua verdade aumenta (ibidem, p. 4). Ainda a estrutura do texto em si é
53

fundamental para a sua noção de verdade. É dentro do aspecto retórico do texto que a
aparência de verdade reside. Se o leitor não pode comprovar a informação, o que é provável,
ele deve adotar sua postura de como encarar o texto.
Kramer fala também que o jornalista deve manter a sinceridade e a honestidade
com leitores e fontes (KRAMER, 2007, p. 6). Não é critério exclusivo, é a postura ética que
todo e qualquer jornalista deve adotar. Mas como estilo diferente, há certas diferenças para os
jornalistas literários. Primeiro o contato que o repórter mantém com as fontes é
inevitavelmente maior, como também a dificuldade que enfrenta para ir além e extrair da
esfera privada seus conteúdos (ibidem, p. 7). Relacionamentos mais próximos podem surgir
como amizades, namoros, casamentos, o que traz problema para a posição de fonte, que deixa
de relatar como tal e passa a relatar para uma pessoa querida (loco citato). Todo envolvimento
traz vantagens e complicações. E não só problemas de relacionamento podem surgir com as
fontes, mas também problemas legais e jurídicos, além dos limites sociais que elas enfrentam,
resguardando-se da opinião pública em casos polêmicos (loco citato).
Com o leitor, Kramer fala que o repórter deve ter seu norte em atender ao “senso
de realidade” no seu texto (KRAMER, 2007, p. 4). E para manter esse senso, alguns
escritores, principalmente no início do novo jornalismo, incrementavam cenas para dar mais
impacto.
Outros pioneiros, incluindo George Orwell (em “Shooting an Elephant”) e Truman
Capote (em “A Sangue Frio”, 1966), claramente remodelaram acontecimentos, e
meu veredicto particular é absolvê-los, também em virtude da antecipação (e da
elegância) de seus experimentos, e pela possível ausência da real intenção de
ludibriar. Nenhum deles rompeu com as expectativas dos leitores em nome do
gênero, pois nem havia fortes expectativas — ou muito do gênero em si — para
romper. (KRAMER, 2007, p. 5)

Também é o caso de Joseph Mitchell, que assumiu posteriormente o uso de


composição de personagens e cenas em Old Mr. Flood, de 1948 (KRAMER, 2007, p. 4).
Kramer absolve a todos, mas avisa que no jornalismo literário atual não há mais espaço para
esses “deslizes” (ibidem, p. 6). No contexto estadunidense, que os leitores já conhecem o
jornalismo literário principalmente com o sucesso do novo jornalismo, o choque e a novidade
passaram, agora quando lidam com um texto desse tipo esperam a pesquisa aprofundada que
o estilo defende ter (loco citato).
Os jornalistas literários não podem cair na manipulação. Kramer adverte que se o
texto parece inconsistente o problema não está nos acontecimentos, no realismo, está na
compreensão do repórter (KRAMER, 2007, p. 6). “As inconsistências são geralmente sinais
de que minhas interpretações dos acontecimentos precisam melhorar, porque ainda não
54

consegui esclarecer o que de fato ocorreu” (loco citato).


A terceira característica é a da cotidianidade dos temas. Tom Wolf apontou como
o novo jornalismo começou nas reportagens especiais, tão típicas dos cadernos de domingo, e
os temas dessas são exatamente as histórias do cotidiano, aquelas que estão ao lado mas só
percebermos que eram interessantes com um pouco de luz e foco. É o que Edvaldo Pereira
Lima chama de feature: as pautas frias, ocasionais, que não estão no escopo do furo
jornalístico (2004, p. 192).
É importante salientar que cotidiano ou rotineiro não significa monótono,
inúmeras boas histórias estão por ai só esperando um olhar atento para elas se desdobrarem: a
vida de todos, em profundidade, é interessante (KRAMER, 2007, p. 8). O que precisamos é
lançar um olhar atento para as pequenas partes para ter um melhor entendimento do todo.
Como a visão de história de Joe Gould, que pensava em contar a história de seu tempo através
das falas que ouvia em seus inúmeros dos diálogos pelas ruas de Nova York (MITCHELL,
2003).
Joseph Mitchell, o jornalista que perfilou Gould por duas vezes e por isso o
acompanhou por muitos anos, percebeu a relação entre a história de Gould e seu próprio
esforço como jornalista. Ele era conhecido por retratar perfis de vários desconhecidos de
Nova York, nas décadas de 30 a 60. A The New Yorker, onde Mitchell trabalhou, não pautava
seus repórteres, deixando-os livres para cobrirem o que encontrassem de interessante. E no
caso de Mitchell: “O mundo que admirava era o dos ciganos, dos índios, das mulheres
barbadas, dos deficientes, enfim, dos excluídos da sociedade.” (MARTINEZ, 2007).
O repórter especial precisava (e ainda precisa) se virar no texto para chamar
atenção aos temas considerados – nas redações, entre os pares jornalistas – desinteressantes.
Afinal, o jornalismo literário não informa as urgências. Trata-se mais de um enquadramento
por ângulos não-usuais do cotidiano. O jornalismo literário vai longe, atinge grandes temas,
mas pela porta de trás.
Se de alguma forma esses jornalistas literários como Mitchell conseguiram
representar a sociedade americana, foi com perfis de indivíduos com quem topamos no dia-a-
dia. Se Hunter Thompson conseguiu realizar o que pretendia, a crítica mais ácida ao American
Way of Life, foi sugando a realidade “psicodélica” de Las Vegas (THOMPSON, 2007), e
lançando seu olhar de estranhamento sobre aquele cotidiano. O individual e específico fala
algo do geral, do todo, e vice-versa, até porque um constitui o outro. Assim como visualizado
na metáfora espacial do círculo hermenêutico, onde parte e todo são pólos e o intérprete passa
55

de um lado para o outro, a escrita que busca se ascender à universalidade mira o todo – é o
também o aspecto de literatura do jornalismo literário. Mas sem tocar no que está próximo,
sem medir o tátil, o texto se perde em abstrações longe demais, é preciso falar do aqui, do que
o homem experimenta no seu “aí”, seu espaço – o caráter jornalístico do jornalismo literário.

2.3.2 – Traços textuais

Avançando nos oito critérios que Kramer propõe, os quatro restantes tratam das
questões da narração e estrutura, e de forma tangencial, da compreensão do texto. Esses
critérios se aproximam muito, por isso vamos trabalhá-los em conjunto. São eles:

 “Jornalistas literários escrevem com uma 'voz interior' informal, sincera,


humana e irônica”. E “Estilo conta e ele tende a ser claro e respeitoso. Uma marca
do Jornalismo Literário que se pode identificar desde o começo de um texto é sua
linguagem eficiente, particular e informal”:
Este é um dos momentos mais marcantes de toda a viagem. Antes de passar pela
área urbana, o ônibus atravessa bairros simples da cidade de Lafaiete e é
impressionante a cena: donas-de-casa batendo papo no portão param e cutucam as
amigas para olharem para trás, pessoal dos botecos saem para fora, meninos jogando
bola em campinhos improvisados param a partida, casais de namorados param de
beijar, gente capinando os quintais param o trabalho e comerciantes “chegam a cara”
para fora dos estabelecimentos. É bom lembrar que quando a BR 040 for liberada no
trecho de Congonhas, essas pessoas nunca mais verão um mamute azul deste porte
em suas ruas (BÁRBARA, 2008, p. 206).

 “Jornalistas literários escrevem de um ponto de vista flexível e móvel, a partir


do qual contam histórias, situam e fazem os leitores girar em torno do tema”.
Por quanto tempo manteremos esta situação? - ponderei. Quanto tempo até que um
de nós comece a falar de forma descontrolada e sem sentido com este garoto? O que
ele vai pensar, então? Este mesmo solitário deserto foi o último lar conhecido da
família Manson. Ele fará esta desagradável conexão quando meu advogado começar
a gritar coisas sobre morcegos e gigantescas arraias descendo até o carro? Se sim -
bem, teremos que cortar sua cabeça e enterrá-lo em algum lugar. É desnecessário
dizer que não podemos deixá-lo ir. Ele nos denunciaria rapidinho para algum tipo de
autoridade nazista, que nos perseguiria como cães. (Thompson, 2007, p.5).

 “Estrutura conta, na medida em que narrativa primária, histórias e digressões se


misturam para ampliar e para recompor fatos. A maior parte do Jornalismo
Literário é principalmente narrativo, contando histórias, construindo cenas”.
56

Gould tem a voz fanhosa e o sotaque de Harvard. O pessoal que trabalha nos bares
do Village se refere a ele como Professor, Gaivota, Professor Gaivota, Mangusto,
Professor Mangusto, Garoto do Bellevue. Ele veste roupas usadas que ganha dos
amigos. O capote, o terno, a camisa e até os sapatos invariavelmente são grande
demais, porém ele os usa com uma espécie de garbo desolado. “Olhe só para mim”,
costuma dizer. “A única coisa que me serve direitinho é a gravata.” Nos dias mais
terríveis do inverno, procura proteger-se do frio colocando algumas folhas de jornal
entre a camisa e a camiseta. “Sou esnobe: só uso o Times”, diz ele. Para cobrir a
cabeça gosta de peças incomuns – gorro de esquiador, boina, boné de marinheiro.
Numa noite de verão apareceu numa festa com um terno de anarruga, camisa pólo,
faixa escarlate, sandálias e boné de marinheiro – tudo doado. Tem uma piteira preta
e comprida e em boa parte do tempo fuma guimbas que cata nas calçadas.
(MITCHELL, 2003, p. 12-13).

 “Jornalistas literários desenvolvem sentidos porque criam de acordo com as


contínuas reações dos leitores”.
“Devo escrever para Hewitt?”, perguntou Mahoney
“Você consegue mandar um soco pelo correio?”, perguntou Sinatra (TALEASE,
2004, p.289).

O eixo que permeia todos esses cinco critérios é a constituição e o cuidado com a
narrativa. Lembrando que o jornalismo literário deve desenvolver o texto e torná-lo uma
narrativa agradável e elegante, segundo Wolfe, para atingir tal efeito há quatro recursos
freqüentemente apropriados da literatura: o registro dos detalhes, registro dos diálogos
completos, a construção cena-a-cena, e o esmero no ponto de vista (WOLFE, 2005).
As características se misturam, assim como as de Kramer, pois dentro da estrutura
do texto todos esses recursos se entrelaçam; O registro dos detalhes, gestos, maneirismos,
estilos, cores, movimentos alheios, são também elementos necessários para a construção da
cena com senso de realidade (2005, p. 55). Não são recursos de enfeite, simplesmente
cosméticos, pois contribuem pesadamente para o caráter imersivo e centrípeto do texto,
tornando a narrativa mais rica e conseqüentemente melhor condutora da história, abrindo
maiores possibilidades, como um fio maior para suportar maiores tensões.
Para tal, a função poética é essencial. Há sentimentos, por exemplo, que
compreendemos melhor através de metáforas. É a presença da função poética no jornalismo
narrativo, principalmente, que lhe dá características do texto literário.
De acordo com um dos representantes do formalismo russo, Roman Jakobson
(1971), a literariedade de um texto depende da predominância da função poética.
Dito de outro modo, entre as seis funções da linguagem possíveis, a função poética,
que coloca o acento sobre o trabalho com a linguagem a fim de fazer com que a
mensagem se volte para si mesmo, obrigando o seu receptor a tomá-la como fonte
de significações semânticas e fonte de fruição estética, ao mesmo tempo, é a que
mais se identifica com a literatura. Além disso, como Jakobson constata, não é
somente a presença da função poética que determina a literariedade do texto, mas
sim a sua predominância, face às outras funções, devemos ter em mente que,
portanto, é possível identificar o registro literário até em textos que originalmente
pertencem a outras categorias. (ANDRETTA, 2007)
57

De certo que o nível de literariedade do jornalismo literário é incerto. Isso se dá


inclusive pelas pertinentes variações entre os escritores desse estilo, que utilizam as mais
diversas formas da função poética. Mas em qualquer deles o jornalismo literário tem
características que se encerram no texto, que voltam e tem por finalidade a si mesmas. Não há
realmente um motivo pelo qual precisamos saber a história de Joe Gould, por exemplo; a
“utilidade” desse texto, comparando-o a notícias como a queda da bolsa ou a queda de um
avião, não se firma. Mas lembramos aqui que a necessidade de transmitir a informação é
expandida para a preocupação de retratar o ambiente, as pessoas e contar a história
(KRAMER, 2007, p. 10). É o específico e restrito (a parte) falando algo do geral (o todo). E
para retratar este específico, o caminho do jornalismo literário é a construção de cenas.
Para se atingir a construção cena-a-cena, além da descrição detalhada, deve-se
trabalhar também o ponto de vista e o diálogo (WOLFE, 2007, p. 54 – 55). O elemento do
diálogo gera polêmica pois Wolfe fala na transcrição total dos mesmos, e era comum aos
jornalistas do novo jornalismo cobrir suas histórias sem gravador. Como pode alguém lembrar
ou anotar uma conversa completa sem gravador? É claro que os repórteres desse estilo
confiam muito em suas memórias (exemplo dado acima de Capote), pois confiam na sua
observação e imersão – se importando em captar o que está em jogo e realização num diálogo
além das palavras.
Como no posfácio de A sangue frio, de Matinas Suzuki Jr.: “Os bons jornalistas
literários se dizem menos interessados na exatidão das palavras de suas entrevistas – do que o
faz o jornalismo rotineiro – do que em vislumbrar os sentidos mais profundos mascarados
pelas palavras dos entrevistados” (in CAPOTE, 2003, p. 432). A transcrição de diálogos
completos, ao invés de recortes picotados, é também deixar que os envolvidos nas histórias
tenham voz mais ativa. Como no exemplo de Joseph Mitchell, em que boa parte de seu texto é
levada pela fala de outro:
Mr. Hunter turned and looked back over the rows of graves.

“It´s a small cemetery,” he said, “and we´ve been burying in it a long time, and it´s
getting crowded, and there´s generations yet to come, and it worries me. Since I´m
the chairman of the board of trustees, I´m in charge of selling graves in here, graves
and plots, and I always try to encourage families to bury two to a grave. That´s
perfectly legal, and a good many cemeteries are doing it nowadays. All the law says,
it specifies that the top of the box containing the coffin shall be in at least three feet
below the level of the ground. To speak plainly, you dig the grave eight feet down,
instead of six feed down, and that leaves room to lay a second coffin on top of the
first. Let´s go to the end of this path and I´ll show you my plot”.

Mr. Hunter´s plot was in the last row, next to the woods. There were only a few
weeds on it. It was the cleanest plot in the cemetery.
58

“My mother´s buried in the first grave“, he said.

“I never put up a stone for her. My first wife´s father, Jacob Finney, is buried in this
one, and I didn´t put up a stone for him, either. He didn´t own a grave, so we buried
him in our plot. My son Billy is buried in this grave. And this is my first wife´s
grave. I put up a stone for her” (MITCHELL, 2001 apud MARTINEZ, 2007, p. 7 –
8).

O diálogo completo tem o propósito de construção de personagens, fornecendo


perspectivas e fragmentos para o leitor. Como explica Wolfe:
“Os escritores de revista, assim como os primeiros romancistas, aprenderam por
tentativa e erro algo que desde então tem sido demonstrado em estudos acadêmicos:
especificamente, que o diálogo realista envolve o leitor mais completamente do que
qualquer outro recurso” (2007, p.54).

Então o diálogo completo é uma necessidade para a almejada construção cena-a-


cena. Para dar dinâmica a estas cenas, a visão do “diretor” é essencial, a intenção de quem
comanda o olhar, como o ritmo de um vídeo dado pelos cortes e seleções do editor. Por isso
Wolfe releva a importância do ponto de vista; ele defende que é preciso se livrar da narrativa
histórica, impessoal, excessivamente polida ou “bege pálida”, típica dos textos jornalísticos
(2007, pg. 32). Assim a leitura da notícia não dá qualquer prazer porque o texto não é atrativo.
O resultado desse modelo acadêmico, ao qual o jornalismo diário tenta se filiar, é a
apresentação ao leitor do que parecem ser “os fatos”, “fatos” entregues sem vida,
sem individualidade, convencionalizados e, por isso, sob uma voz presumivelmente
justa e neutra. Obviamente, muita coisa é deixada de lado (KRAMER, 2007, p. 9).

Kramer fala que o jornalismo literário precisa comunicar com uma voz
espontânea: o repórter narraria como se contasse, cara a cara, um incidente para alguém. As
vezes até assemelhando seu tom com o usual pra se contar piada em uma festa (2007, p. 12).
É preciso que o ritmo flua bem, de forma agradável – e para tal pode-se usar ironia, bom-
humor, o que for. “Leitores resistem à escrita pesada e fria muitas vezes sem saber o quê há de
errado” (KRAMER, 2007, p. 12).
59

2.4 – Presença do estilo no Brasil

Agora que estamos situados em relação as teorias sobre o jornalismo literário, é


importante localizarmos o seu acontecimento. Apesar de encontrar sua maior expressão e
força nos Estados Unidos, o jornalismo literário atravessou fronteiras; a repercussão do novo
jornalismo pode ser notada em produções brasileiras. E antes ainda, como apontam Martinez
(2009) e Lima (2004), com Euclides da Cunha.
Os Sertões de Euclides figura muito próximo do que entendemos por jornalismo
literário. O escritor e jornalista passou cinco anos labutando com o material que colheu ao
cobrir a Revolta de Canudos para o jornal O Estado de São Paulo, em 1897 (MARTINEZ,
2009, p. 76). “Um dos pontos de ligação de Cunha com o Jornalismo Literário contemporâneo
é a tentativa de, em lugar de heróis, dar voz às pessoas comuns, com seus problemas e
limitações” (MARTINEZ, 2009, p. 77).
Apesar de seu texto pendular entre a ficção e a não-ficção, o resultado final está
mais para a literatura do que para o jornalismo (LIMA, 2004, p. 212). Os sertões então não é
um livro-reportagem no sentido estrito do termo, mas apresentas características tanto
procedimentais quanto textuais do estilo, sendo invariavelmente um divisor de águas no
jornalismo brasileiro (LIMA, 2004, p. 217).
Nos anos 60, com a explosão de transformações culturais, o Brasil viu nascer a
revista Realidade, tida por Lima e Martinez como a mais significativa experiência brasileira
no jornalismo literário: a revista chegou a tiragem de 500 mil exemplares por mês
(MARTINEZ, 2009, p. 79). A força das reportagens estava na pesquisa ampliada, com
variedade de temas pouco vista no Brasil, e também, Lima aponta que Realidade trouxe para
suas páginas não só as falas dos poderosos e importantes, mas também dos que vivem na
periferia do sistema social (LIMA, 2004, p. 225).
O período de maior vendagem e também de melhores reportagens da revista é de
1966, quando nasce, a 1968, quando é promulgado o Ato Institucional no 5: “parece inegável
que, sem liberdade de imprensa não é possível fazer reportagens com a profundidade e
amplitude social como Realidade fazia” (ibidem). A revista acabou em 1976.
Hoje no Brasil a produção mais marcante vem da revista Piauí, criada em 2006, e
de jornalistas como Arthur Veríssimo, Roberto Kaz, Paula Scarpin, Luiz Maklouf de
Carvalho. Isso entre outras produções marcantes, como os livros-reportagem O livro amarelo
do terminal, de Vanessa Bárbara (2008), e Rota 66, de Caco Barcellos.
60

Capítulo 3 – A compreensão no jornalismo literário:


pertinências relevantes com a hermenêutica

“As fronteiras da minha linguagem são


as fronteiras do meu universo.”

Ludwig Wittgenstein
61

Explicados os conceitos essenciais da hermenêutica e caracterizado o jornalismo


literário, podemos agora estabelecer mais claramente as relações entre eles para atingir o
objetivo do estudo.
A primeira relevância e talvez mais importante que apontamos é quanto a
experiência. O jornalismo literário realiza em seu acontecimento alterações essenciais no
fazer jornalístico, tanto em aspectos intra-textuais como extra-textuais: o repórter vai atrás de
uma experiência de mundo para trazer aos seus leitores o que “captou” da sua vivência. A
hermenêutica de Gadamer pode nos ajudar a pensar essa que é etapa de todo e qualquer
jornalismo literário.
A verdade, na hermenêutica, é experienciada e não testada. É revelada através de
uma experiência singular que modifica nossos preconceitos, numa relação de alteridade e
cooperação com o que se busca entender, fundindo os horizontes de cada. A experiência desse
repórter é também um entendimento seu – se não interpretasse e compreendesse o que busca
reportar, jamais conseguiria “transmitir” isso.
Também tudo que acontece e tem sentido pode ser expresso em linguagem,
lembrando a fórmula de Gadamer “O ser que pode ser entendido é linguagem” (GADAMER,
2008, p. 612). Nosso mundo, que se faz através da linguagem, é antes e também uma
compreensão, pois “compreender é o caráter ontológico original da própria vida humana”
(GADAMER, 2008, p. 348; grifo nosso). Então, voltando ao repórter do jornalismo literário,
como qualquer um de nós, ele(a) constitui o que é mundo para si na medida em que
compreende – e é nesse mundo onde estão os acontecimentos que vai entender para reportar,
onde a tradição, sua língua, seus preconceitos, irão mediar sua experiência.
Assim como o ente não está substituído pelas palavras, antes vem à fala, também
parece que o que reportam os jornalistas não é espelhamento do acontecido, como se estivesse
reconstituído na frente do leitor pelas palavras. Esta mais para um determinado conteúdo
extraído, um recorte que nunca dará conta do todo, pois como observamos no capítulo 1.5, o
ser vai sempre além da capacidade da linguagem em expressá-lo, está sempre à frente, e a
linguagem só pode crescer à sua sombra, sem nunca alcançá-lo.
O estado de coisas que podemos falar do mundo já pressupõe a compreensão e a
interpretação de quem fala, então, talvez não se trate de “espelhar” o que ocorre, mas mais
provavelmente de trabalhar os sentidos do que entendemos dos acontecimentos. Nessa
situação, a fortes indícios que teorias do jornalismo que pressupõe tal nitidez da linguagem
62

parecem não ter lugar (como por exemplo a Teoria do Espelho1). Lembrando os problemas da
objetividade jornalística observados no capítulo 2.2.
A linguagem certamente mantém objetividade em como se refere ao mundo, pois
o que vem à fala é o estado de coisas no mundo e cada ente é determinado por ser o que é e
não outra coisa (GADAMER, 2008, p. 575). Mas não podemos considerar a linguagem como
meio nítido e transmissor dos pensamentos, dentro da perspectiva designativa. Como se o que
falamos mantém relação direta com o mundo, independendo da nossa interpretação e
preconceitos que, segundo o círculo hermenêutico, sempre virão antes. A idéia da linguagem
transparente é amplamente negada no trabalho de Gadamer. Para ele a linguagem é muito
mais nebulosa, “uma das coisas mais obscuras com que já se deparou a reflexão humana”
(GADAMER, 2008, p. 492), pois decai nas possibilidades abertas do jogo lingüístico e sua
teia polissêmica.
Na fenomenologia de Husserl, que Gadamer utiliza em sua hermenêutica, já
encontramos o embate com a objetividade, entendida aqui como uma posição não-fixa:
A ingenuidade do discurso que fala de “objetividade”, que deixa totalmente fora de
questão a subjetividade e que experimenta, conhece e que produz de uma maneira
verdadeiramente concreta... a ingenuidade do cientista da natureza e do mundo em
geral, que é cego para o fato de que todas as verdades que ele conquista como
objetivas e o próprio mundo objetivo enquanto substrato de suas fórmulas são a sua
própria configuração de vida, que deveio mesmo... essa ingenuidade já não é
possível uma vez que se coloque a vida como o centro de perspectiva (apud
GADAMER, 2008, p. 335).

E o jornalismo parece ser herdeiro desse pensamento:


Essa perspectiva predominante nos países de cultura anglo-saxônica é sustentada por
filosofias (nominalismo, empirismo, evolucionismo, positivismo), em sua maioria
autóctones, que postulam informar nossos sentidos com fidedignidade sobre a
realidade externa a nós.
Haveria uma realidade objetiva, anterior e independente de qualquer operação
racional ou subjetiva e que seria percebida passivamente em sua autenticidade. O
conhecimento encontra-se assim reduzido a elementos de experiência associados e
relacionados em percepções que constituem os dados ou fatos. Estes fatos,
percebidos que são, em sua pureza também podem ser reproduzidos em sua
autenticidade por um discurso que opere de acordo com certas regras e
procedimentos (PIERRE, 1999, p. 11 – 12).

Certo que, como visto em Wolfe e Kramer, o jornalismo literário abre mão de
tentar ser “espelho” fiel e assume a voz do autor – automaticamente assumindo que ali, no
texto, estão as interpretações do mesmo. Assume que não há como contornar as interpretações
e limitações do repórter, mas sem deixar de ser jornalismo por isso: o objetivo ainda é retratar
o mundo da melhor forma possível. A questão que surge então é o que mantém o jornalismo

1
A Teoria do Espelho pressupõe a máxima objetividade no jornalismo. Nela, o repórter é aquele que “espelha” a
realidade para o leitor, sem alterar informações.
63

literário como jornalismo. Porque seus autores, para fugir da normatividade do modelo
jornalístico tradicional, não debandaram para a literatura, para a ficção?
A dúvida parece surgir devido a dificuldade de se definir com clareza o que
nesses textos é jornalístico e o que é literário, ou como é o caso, o que parece ser os dois ao
mesmo tempo. Os autores do jornalismo literário, especialmente os mais transgressores das
regras jornalísticas que apareceram no novo jornalismo, aplicaram diferentes e divergentes
empacotamentos ao que estavam escrevendo, por exemplo: Truman Capote chamou de
romance de não-ficção enquanto Hunter Thompson chamou de jornalismo gonzo. Críticos
chamaram de jornalismo narrativo, outra nomenclatura muito utilizada. Mesmo Kramer,
apesar de seu trabalho de caracterização que apresentamos anteriormente, diz que, afinal, o
que se entende por jornalismo literário é ainda indefinido e o termo só tem força de
designação devido a um quê de “você-sabe-quando-você-vê” (KRAMER, 2007, p. 2). Ou
seja, as fronteiras estão sendo desenhadas, ou são e serão sempre flutuantes. Mesmo assim,
todos os teóricos que vimos concordam que o elemento jornalístico essencial de reportar os
acontecimentos está ali abarcado, tanto que todas as nomenclaturas mais aceitas (jornalismo
literário, jornalismo narrativo) trazem o termo “jornalismo” consigo.
Todos estes textos que enquadramos dentro do selo de jornalismo literário tem um
fazer próprio que, mesmo híbrido, não se deixa confundir – “você-sabe-quando-você-vê” –,
até por isso os trabalhos de Wolfe e Kramer são possíveis. Nos traços fundamentais
metodológicos do jornalismo literário o eixo gravitacional é a averiguação e a experiência: o
jornalista precisa conhecer bem sobre o que quer escrever, deve vivenciar o ambiente. Como a
experiência mais autêntica também é única, o repórter que busca captar o máximo de
elementos presentes na vivência deve adotar a abertura necessária para atingir uma
experiência hermenêutica. Esta, essencialmente negativa, levanta dúvidas por revelar a
verdade na direção oposta ao que apontavam os preconceitos do intérprete (no caso, repórter).
Tais dúvidas podem ser entendidas na estrutura da dialética de pergunta e resposta: são
perguntas que emergiram no confronto da experiência. E todas as perguntas só tomam corpo e
se realizam na linguagem, por isso também estarão transpassadas pela tradição, que se faz
presente através da linguagem.
É no autêntico experienciar que nós mais aprendemos e nos modificamos,
expandimos nossos horizontes. No “choque” com o ambiente estranho que o repórter seria
capaz de absorver o máximo que pode daquela atmosfera para trabalhar em seu texto. Mas,
seguindo o raciocínio, as limitações do jornalismo literário aqui também insurgem. A
experiência sempre terá um teto: por mais que o repórter vivencie os acontecimentos e o
64

ambiente, mesmo no nível de “felt life”, ele ainda será um forasteiro, um elemento estranho
carregado de bactérias de outro lugar. O ambiente está para o repórter à mão, ele não tem
raízes ali, é apenas uma passagem e ele tem consciência disso. A técnica da imersão encontra
seu limite aqui, mesmo no jornalismo gonzo, com a tentativa de “tornar-se um deles”.
Cabe aqui lembrar que a limitação do “felt life”, apenas sentir a vida, estando
sempre à margem, é uma limitação do jornalismo. Gadamer ascende a hermenêutica à uma
experiência universal, pois a estrutura lingüística da compreensão é universal. A reflexão
hermenêutica vai além da experiência jornalística em direção à experiência existencial, pois a
compreensão é caráter ontológico do ser do homem, o Dasein. Neste ponto não temos uma
convergência, temos um afastamento entre os dois: o jornalismo não se propõe – nem poderia,
visto sua natureza prática – a tal ascensão.
Mas, se a linguagem tem caráter universal, também suas limitações são universais.
O jornalismo literário encontra aqui outra barreira: a limitação incontornável da capacidade de
descrever o estado de coisas. A linguagem não consegue abranger a totalidade do ser por estar
sempre atrás do ser, que é antes de poder ser dito. De forma mais simples, nossa capacidade
de falar do mundo nunca será maior que o próprio mundo, pois há muito fora do nosso
domínio e fora da linguagem. Por isso Kramer fala que o dever do jornalista é mais singelo
que trazer fatos ou acontecimentos, é mais uma “intenção de transmitir ao leitor um ‘senso’ de
realidade” (KRAMER, 2007, p. 4; grifo nosso).
O jornalista literário se faz numa escrita maleável, capaz de expandir-se para dar
conta de transmitir um bom “senso de realidade”, mas nunca superará as limitações da
experiência e da linguagem. Seria o caso entrar na ficção? Vale lembrar aqui da importante
defesa do realismo que Wolfe faz. Como jornalismo que é, o jornalismo literário nunca
poderia largar a sua matéria-prima (os acontecimentos) nessa tentativa de aprimorar o “senso
de realidade”. Segundo Wolfe, a literatura da década de 60 perdeu qualidade por tirar os pés
do chão e se distanciar do mundo; os autores permaneciam dando voltas em suas perspectivas
prévias, sem realmente vivenciar uma experiência e entrar no círculo hermenêutico de
modificação dos seus preconceitos (o que não significa de forma alguma que a literatura
ficcional seja fraca, o problema é o esgotamento dos temas que é inevitável quando os
horizontes não são expandidos, quando o autor não vê no mundo o que pode representar em
sua arte e queima todas as suas reservas em si mesmo). A força do novo jornalismo estava
exatamente na experiência que os jornalistas vivenciaram. O que, talvez, seja a essência e a
força de todo jornalismo: a qualidade da experiência do jornalista.
A literatura não tem a necessidade de senso de realidade pois não há a obrigação
65

de falar dos acontecimentos do mundo: voltava-se para a escrita como finalidade, ou melhor,
para si mesma, porque toda “obra de arte é um mundo para-si” (GADAMER, 2008, p.131).
Tal diferença marca a separação vital de jornalismo e literatura. O jornalismo tem por
finalidade a função de informar a sociedade.
Enquanto o jornalismo utilizar a palavra como simples utilidade, então será
tampouco a literatura como o caso da palavra numa aula de ciência. Jornalismo só é
literatura enquanto empregar a expressão verbal com ênfase nos meios de expressão
(LIMA, 1969 apud FRANÇA, 2008, p. 31).

Para Gadamer, a arte não satisfaz uma função, ela é fechada em si, “não se
conecta com outras coisas para a unidade de um processo aberto de experiência, já que
representa o todo imediatamente” (GADAMER, 2008, p.131). O que é útil não tem por
finalidade a si, é um meio e não um fim. Quando em algo funcional há o que é considerado
arte, como o design de um carro por exemplo, tais características são configurações que estão
encerradas em si e não compõe a utilidade desse objeto – não necessariamente fazem parte da
função ou mesmo tem função: poderiam ser de outro jeito que não alterariam o resultado
funcional do carro.
Quando a finalidade é a própria escrita o importante não é só o que, mas também
o como: são maneiras e formas de dizer, disposições estéticas, que fazem a obra de arte ser
assim (GADAMER, 2008, p.133). Nisso encontramos uma pertinência que pode ser um
caráter do jornalismo literário: as pautas frias, a cotidianidade, os “enquadramentos”
diferenciados, a narrativa e as figuras de linguagem, todas essas características trazem o texto
mais perto da literatura, da arte e sua finalidade em-si, e distanciam um pouco a função e a
utilidade do jornalismo. Em especial, o elemento que mais aproxima é o uso de metáforas.
As metáforas são ferramentas à polissemia lingüística: com elas podemos
conscientemente ver de relance certos sentidos que ficam na penumbra, onde nossas sentenças
não alcançam com clareza. Admitir a metáfora como clarificadora é assumir uma área
cinzenta entre as sentenças descritivas e poéticas. Mas, afinal: “Não seria a linguagem literária
e poética tão poderosa e reveladora do mundo como aquelas sentenças que supostamente
descrevem o mundo?” (LAWN, 2007 p. 108).
Assim, pelo poder das metáforas, talvez seja mais “objetivo” – no sentido de
referir o mundo – o texto que se desprende da certeza das palavras (como se portassem miras
certeiras aos entes a que se referem). Sabendo que a fala é incerta, é jogo das palavras, manter
isso em vista pode garantir mais domínio do que se diz. A boa ficção literária nos diz muito
sobre o mundo, e ela não precisa fazer jornalismo para isso. E aplicar isso fora da ficção não é
questão de enganar ou ser incerto, ao expressarmo-nos através de boas metáforas, quem nos
66

escuta, o outro interlocutor, sabe onde está pisando.


Como vimos na segunda característica fundamental de procedimento do
jornalismo literário, verificada por Kramer, há um acordo tácito entre repórter e leitor pela
clareza do texto – o que não significa a abolição da ficção. Fica a dever do repórter avisar seu
leitor, seja explicita ou implicitamente, de onde (fatos verificáveis ou flutuantes) ele está e
estará pisando na medida em que lê. Como a obra se coloca e se afirma influi diretamente no
espírito com que o leitor vai encará-la: seja de questionamento, de dúvida quando ao que foi
ou não real, de certeza; o importante é que ele saiba exatamente onde está para que possa
confiar na leitura.
O entendimento que se dá na linguagem coloca aquilo sobre o que se discorre diante
dos olhos dos que participam da conversa, como ocorre com um objeto de disputa
que se coloca no meio exato entre os adversários. O mundo é o solo comum, não
palmilhado por ninguém e reconhecido por todos, que une a todos os que falam
entre si. (GADAMER, 2008, p. 576).

Quando o texto é metafórico, o leitor sabe que o é, e caso o autor sinta a


necessidade de alterar dados (para esconder identidades, resguardar locais ou fontes) ele deve
deixar tudo claro, a fim de manter a honestidade com seu leitor e estabelecer o “pacto” de que
fala Kramer. A questão que emerge então vai além do estilo. Se o que está em jogo é a
veracidade do relato, não só sua verossimilhança, e tanto estilo como a narrativa compõe o
que se apresenta como verdade, então o problema é de compreensão – as metáforas, a função
poética, os diálogos completos, os detalhes e o ritmo do cena-a-cena, todas as estruturas que a
linguagem pode oferecer são utilizadas por esses jornalistas para que seu relato ofereça
maiores possibilidades de transmitir o senso de realidade, os sentidos, ao seu leitor.
Como então, sendo o jornalismo literário esse conjunto de “regras rompíveis”
(KRAMER, 2007), a hermenêutica pode auxiliar a entendê-lo? Já notamos as pertinências
entre a experiência hermenêutica e a experiência do jornalista literário, também baseamos o
uso das figuras de linguagem no caráter da linguagem como meio universal, segundo visto na
hermenêutica. Mas ambos confluem rumo a um objetivo mais importante que é também chave
para a hermenêutica: a compreensão.
O jornalista literário utiliza de todas as ferramentas possíveis e ao seu alcance para
trazer o senso de realidade do que experimentou – a própria e autêntica compreensão – ao seu
texto e conseqüentemente para os leitores. A experiência que o leitor irá viver com o texto
pode ser mais profunda, no sentido de tocar os pés (preconceitos) que sustentam seu
entendimento do mundo (na tradição). Claro, jamais será a mesma que vive o repórter, e nem
é esse o intuito. O objetivo é levar ao leitor uma autêntica experiência ao falar do homem e do
67

mundo do homem, e que esse falar seja abrangente para ser capaz de lidar com o jogo
lingüístico do entendimento.
A hipótese que levantamos, afinal, é que, aos olhos da hermenêutica, o que faz o
jornalismo literário ser como é vem da presença em texto do ser (sein) e do seu estar-no-
mundo (Da; Dasein: o ser-aí) de forma unitária, sem a falsa tentativa de desvincular um do
outro. Assim o critério jornalístico de relatar os sentidos do mundo está sempre presente,
independendo o grau de uso de metáforas e elasticidade na estrutura. Esse jornalismo não
desboca na literatura pois mantém essa relação com o mundo sempre em vista, o que não é
uma necessidade para a literatura.
O jornalismo literário seria a elaboração das vivências do jornalista na polissemia
lingüística, tentando por ela comunicar ao leitor não um dado ou fato, mas o próprio processo
de sua compreensão que esteve em jogo na sua experiência. Um jogo hermenêutico sobre a
existência: o Dasein em sua cotidianidade.
68

Referências bibliográficas

ANDRETTA, Cyntia Belgini. Temas de crítica literária para o jornalismo-literário: uma


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