O Sobrenome e sua importância
Levei um tempo para me acostumar que Mrs. Osborne era eu mesma. Se
me chamassem pelo meu primeiro nome, responderia de imediato. Mas, aqui
nos Estados Unidos, é o sobrenome que conta.
O nosso presidente, Lula, por exemplo, é chamado de Mr. Da Silva pelos
jornais e mídia americanas. O mesmo vale para nosso ex-presidente, Fernando
Henrique Cardoso, ou FHC, que aqui só é conhecido por Mr. Cardoso.
Usamos o sobrenome quando falamos com nossos professores, com as
pessoas mais velhas, mais importantes, com estranhos, e em situações formais.
Em dezembro de 2009, uma médica, indignada com alguns pacientes que
insistiam em chamá-la pelo primeiro nome, escreveu um artigo para o jornal
americano The New York Times sobre sua frustração. Ela sempre se dirige a
seus pacientes pelo sobrenome, a menos que eles expressem verbalmente que
preferem ser chamados pelo primeiro nome, e, em troca, espera que eles façam
o mesmo.
O uso do primeiro nome indica intimidade entre os falantes. Usamos entre
amigos, ou em situações informais.
O resultado é que basicamente sabemos o sobrenome de todas as
pessoas com que nos relacionamos. Tão diferente daí do Brasil! Quantos
amigos tive (e tenho) que nunca soube o sobrenome. E isso nunca foi
importante.
Outra forma de se identificar, é revelar sua origem, isto é, seus
ancestrais. Assim que cheguei aqui nos Estados Unidos, uma colega americana
da minha sala de aula me perguntou de onde eu era. Eu disse que era do Brasil,
que era brasileira. Ela então perguntoou, “mas originalmente de onde você é?”.
O fato de ela ter achado minha resposta insatisfatória, me surpreendeu. Afinal, o
que ela quer saber? Sou brasileira, de Minas, uai!
Eventualmente entendi o que os americanos queriam saber. Eles querem
saber sobre os ancestrais. Uma resposta como, “a família de minha avó era
italiana”, seria suficiente para satisfazer a minha colega americana. Ser só
brasileiro aparentemente não basta.
Outra coisa confusa por aqui com relação a nomes é que ninguém dá
importância para o nome do meio. Eu, por exemplo, tenho três nomes, mas uso
praticamente só o primeiro e o último nome para conta no banco, cartão de
crédito, publicações em revistas acadêmicas, etc.
Me lembro quando a secretária da universidade veio me perguntar como
eu queria que colocasse o meu nome no diploma; eu fiquei confusa. Como? Não
entendi a pergunta. Afinal, meu nome é um só. Acontece que aqui se pode
escolhar o que você quer colocar no diploma. Tem alguns que colocam até
mesmo o apelido!
Aqui, como no Brasil, quando a mulher se casa, geralmente ela adota o
sobrenome do marido. Nos últimos anos, entretanto, muitas mulheres têm
optado por manter seu nome de solteira, e também o do marido, separados por
hífen. São os chamados nomes hifenizados, como por exemplo, o da atriz
Catherine Zeta-Jones.
Pode ocorrer que o seu nome em inglês e em português seja o mesmo.
Mesmo assim, confusões podem surgir. Meu nome, por exemplo, tem três
sílabas em português. Mas, aqui, tem apenas duas sílabas, porque o último “e”
não é pronunciado. Se eu insistir e pronunciar meu nome em português,
ninguém me entende!
Por esses e outros motivos, é sempre importante conhecer um pouco
sobre os nomes quando vamos visitar um país diferente. Afinal, qualquer
conversa começa com uma simples troca de nomes.
Denise Maria Osborne é mestranda em Lingüística Aplicada na Columbia
University (Nova York) e professora de português como língua estrangeira.
dmdcame@yahoo.com
Artigo originalmente publicado pelo Jornal Clarim (Minas Gerais, Brasil):
Osborne, D. (2010, May 21). O Sobrenome e Sua Importancia. Clarim, Ano 15,
n. 719, p. A2.
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