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CASO DASLU
A criminalidade de butique
Por Túlio Lima Vianna em 18/7/2005

Em 1940, Edwin H. Sutherland publicou um ensaio na American


Sociological Review intitulado "White-Collar Criminality" no qual
tratava de um tipo de criminalidade até então muito pouco discutida
na criminologia: a criminalidade econômica, praticada por pessoas
ocupantes de posições sociais de prestígio. A expressão "colarinho
branco", alusão às camisas usadas pelos empresários, tornou-se
então a marca do diferencial de classe nas ciências penais.

A recente prisão da dona da butique Daslu e a conseqüente reação


dos setores hegemônicos da sociedade e da mass media aos supostos
excessos da Polícia Federal é a prova cabal de que há algo muito
especial que difere a "white-collar criminality" ou, em tradução livre, a
criminalidade de butique, da criminalidade genérica encontrada nas
ruas das grandes metrópoles.

Tomemos a nota oficial da Federação das Indústrias do Estado de São


Paulo (Fiesp) sobre o caso:

"A prisão antecipada, sem sentença, seja qual for sua


natureza, só pode ter lugar para os infratores perigosos
que ameaçam a ordem pública, que causam prejuízos
irreparáveis à sociedade e à própria segurança dos
processos judiciais."

A criminalidade de butique não é perigosa? Os criminosos ricos não


ameaçam a ordem pública? A sonegação de impostos não causa
prejuízos irreparáveis à sociedade? Os empresários não têm maior
chance de fugir do Brasil e, com isso, ameaçar a segurança dos
processos judiciais? Quem afinal a Fiesp considera um criminoso
perigoso? O ladrão de carteiras, de carros, de bancos? Quem é mais
perigoso para a sociedade: o ladrão ou o sonegador? Quem se
apropria do dinheiro privado ou do dinheiro público?

Segue a nota afirmando que:

"O combate à criminalidade não pode prescindir do


respeito ao Estado de Direito, sendo inadmissível que
alguém possa ser preso, ou tenha sua residência,
escritório ou empresa violados sem que a segurança de
sua prévia culpa esteja evidenciada e que, pior ainda, seja
essa prisão realizada de modo extravagante, com exibição
de algemas, com publicidade afrontosa, como um
espetáculo pirotécnico, expondo o cidadão à condenação
pública, para todo o sempre."

A maior parte da mass media logo aderiu ao discurso da Fiesp e ao


choro de Antônio Carlos Magalhães. O jornal Folha de S. Paulo, em
editorial no dia 15 de julho de 2005, parafraseou a nota oficial da
Fiesp:

"É evidente, porém, que a chamada Operação Narciso foi


conduzida com dispensável espalhafato. É claro que os
mandados precisam ser executados, mas há várias formas
de fazê-lo. O espetáculo armado não se justifica. Todo
suspeito, indiciado ou réu é inocente até o trânsito em
julgado do processo e não deve ser submetido a
humilhações não previstas em lei, mesmo que elas
possam ter o salutar efeito de coibir a elisão fiscal."

Todos os dias favelas e barracos são invadidos pela polícia sem que "a
segurança de prévia culpa" de quem quer que seja esteja
evidenciada. Não são estas ações também espalhafatosas? Alguma
vez a Fiesp divulgou nota oficial sobre isso?

"Crimes acessórios"

Todos os dias ladrões e traficantes são presos, algemados e levados à


delegacia onde são exibidos em cadeia nacional de televisão para
alívio dos "homens de bem". São eles menos inocentes que a dona da
Daslu? São menos sujeitos a humilhações por serem pobres?

Na mesma Folha de 15/7, no caderno Cotidiano, Barbara Gancia


disparou a pérola:

"Sejamos realistas: quantos negócios de importados


conseguem sobreviver pagando rigorosamente todos os
impostos que são enfiados na goela do comércio? Não falo
de lojas que pertencem a grandes corporações e são
cotadas em bolsa como a Dior, a Tiffany"s ou a Louis
Vuitton. Essas andam na linha. Mas será que existe algum
comércio desse tipo que pode se dar ao luxo de não ter
caixa dois?"

Sejamos realistas também com o trabalhador, D. Bárbara: será que


alguém consegue sobreviver ganhando rigorosamente um salário
mínimo? Vamos fazer vistas grossas aos sonegadores e aos ladrões,
então? É esta sua brilhante conclusão?

O jornal O Estado de S. Paulo, mais cauteloso, procurou ser mais


discreto na sua indignação elitista. Para tanto, fundamentou seu
editorial do domingo 17 de julho de 2005 na opinião da conceituada
advogada Dora Marzo Cavalcanti de Albuquerque:

"Mesmo após a constatação da sonegação e a definição


dos valores que deveriam ter sido pagos, por parte da
Receita Federal, afirmou ela, os contribuintes têm a
prerrogativa de pagar seus débitos, o que extingue
automaticamente a ação penal e, junto com ela, os
demais processos por "crimes acessórios", como, por
exemplo, o de formação de quadrilha".

Um juiz arbitrário?

"Essa é uma previsão da legislação brasileira que vem sendo acatada


nas decisões do Judiciário. O entendimento tem prevalecido, inclusive,
em julgamento dos ministros do Supremo Tribunal Federal, a mais
alta Corte do país", concluiu a advogada, cuja opinião é tão mais
importante por ter sido sócia do criminalista Márcio Thomaz Bastos
até um dia antes de ele assumir o Ministério da Justiça.

Mas se o argumento de autoridade é tão importante para o Estadão,


por que não buscaram ouvir o outro lado das opiniões jurídicas sobre
o fato? O parecer da ilustre advogada não parece ser pacífico no
Supremo Tribunal Federal. Tomemos a ementa da decisão do
hábeas-corpus 84.223/RS, julgado em 3 de agosto de 2004, relatado
pelo ministro Eros Roberto Grau:

"1. A suspensão do processo relativo ao crime de


sonegação fiscal, em conseqüência da adesão ao REFIS e
do parcelamento do débito, não implica ausência de justa
causa para a persecução penal quanto ao delito de
formação de quadrilha ou bando, que não está
compreendido no rol taxativo do artigo 9º da Lei
10.684/03. 2. O delito de formação de quadrilha ou bando
é formal e se consuma no momento em que se concretiza
a convergência de vontades, independentemente da
realização ulterior do fim visado. Ordem denegada."

E o que dizer do presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro


Edson Vidigal, que negou liminar em hábeas-corpus ao empresário
Antônio Carlos Piva de Albuquerque, sócio proprietário da loja Daslu?
Desconheceria ele as intricadas teorias do Direito que beneficiam os
sonegadores? Ou seria apenas mais um juiz arbitrário, passando por
cima da mais elementar das garantias penais, a presunção de
inocência?

Os humanos de Orwell

O que incomoda à maioria daqueles que levantaram suas vozes para


defender os direitos da empresária não é propriamente o desrespeito
aos direitos do acusado, mas a prisão de alguém de sua classe social.
O que incomoda é saber que sonegação de impostos é crime e que,
pelo desencadear dos fatos, muitos colegas podem acabar em
situação semelhante. O que incomoda é a perda da imunidade penal
de uma classe, representada simbolicamente por esta prisão.

Enquanto a mídia se limitava a cobrir as ações policiais em favelas,


reafirmando o estereótipo do pobre bandido, a Fiesp nunca se
indignou com a "pirotecnia" das reportagens. Nenhuma linha foi
publicada nos grandes jornais lembrando a todos que "todo suspeito,
indiciado ou réu é inocente até o trânsito em julgado do processo".
Bastou os colarinhos-brancos e as roupas de butique fazerem um
breve desfile nas delegacias de polícia, para que novos paladinos dos
direitos humanos pululassem pelo empresariado e pela mídia.

A criminalidade de butique não incomoda aos ricos, pois não derrama


sangue, não se esconde nos morros e, principalmente, não gera
medo. Mesmo quando noticiada na imprensa, seus personagens não
são marginais, bandidos ou muambeiros. São empresários; quase
cidadãos de bem. A criminalidade de butique quase não é crime.

Parafraseando Orwell: todos têm direitos humanos, mas alguns


humanos têm mais direitos do que outros.