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B iopolítica

B iopolítica

P eter Pál Pelbart

E
u queria dizer duas palavrinhas antes de principais, que a meu ver caracterizam o con-
começar a abordar o tema ao qual eu me texto contemporâneo. Por um lado haveria hoje
propus. Filosofia é uma matéria volátil, uma tendência que poderia ser formulada como
impalpável, mas que afeta o corpo e o pen- segue: o poder tomou de assalto a vida. Isto é, o
samento. Eu vou seguir aqui um trajeto poder penetrou todas as esferas da existência, e
que eu elaborei. Nem tudo vai ser compreensí- as mobilizou inteiramente, e as pôs para traba-
vel, nem tudo vai ser entendível, e isso não tem lhar. Desde os genes, o corpo, a afetividade, o
a menor importância. Então vocês podem surfar psiquismo, até a inteligência, a imaginação, a
à vontade naquilo que forem ouvindo, podem criatividade. Tudo isso foi violado, invadido,
se conectar com algumas coisas e se desconectar colonizado; quando não diretamente expropria-
de outras. do pelos poderes. Mas o que são os poderes?
Serei fiel aqui a uma concepção de Gilles Digamos, para ir rápido, com todos os riscos de
Deleuze, que dizia que dar uma aula é algo simplificação: as ciências, o capital, o Estado, a
como pôr em movimento uma matéria esquisi- mídia etc.
ta, a matéria pensamento. Mas obviamente nem Os mecanismos diversos pelos quais se
tudo interessa a todos, e cada um leva o que lhe exercem esses poderes são anônimos, esparrama-
servir, o que lhe interessar. Há alunos, dizia ele, dos, flexíveis. O próprio poder se tornou pós-
que nos cursos dele dormiam por meses a fio. E moderno. Isto é, ondulante, acentrado (sem
de repente, chegava o conceito de que eles ne- centro), em rede, reticulado, molecular. Com
cessitavam. Eles despertavam. Era o conceito isso, o poder, nessa sua forma mais molecular,
despertador. Então, sintam-se à vontade para incide diretamente sobre as nossas maneiras de
levar daqui o que lhes interessar, e o resto dei- perceber, de sentir, de amar, de pensar, até mes-
xem cair... Podem até se embalar na sonolência, mo de criar.
se quiserem. Se imaginávamos, algumas décadas atrás,
Eu queria então lhes falar da relação en- ter espaços preservados da ingerência direta dos
tre poder e vida. E sobretudo em duas direções poderes, por exemplo, o corpo, o inconsciente,

Peter Pál Pelbart é filósofo e professor do Departamento de Filosofia e do Núcleo de Estudos da Subje-
tividade do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP.

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ou a natureza, e tínhamos com isso a ilusão de ção das pessoas. Esta força-invenção de que o
preservar nessas esferas alguma autonomia em capitalismo se apropria e que ele faz render em
relação aos poderes, hoje nossa vida parece in- seu benefício próprio, essa força-invenção não
tegralmente submetida a esses mecanismos de emana do capital. E no limite pode até pres-
modulação da existência. Até mesmo o sexo, a cindir dele. É o que se vai constatando aqui e
linguagem, a comunicação, a vida onírica, mes- ali. A verdadeira fonte de riqueza hoje é a inte-
mo a fé, nada disso preserva já qualquer exte- ligência das pessoas, é a sua criatividade, é a sua
rioridade em relação aos mecanismos de con- afetividade. E tudo isso pertence, como é ób-
trole e de monitoramento. vio, a todos e a cada um. Essa potência de vida
Para resumi-lo numa frase simples: o po- disseminada por toda parte nos obriga a repen-
der já não se exerce desde fora, desde cima, mas sar os próprios termos da resistência hoje.
sim como que por dentro, ele pilota nossa vita- Poderíamos resumir este movimento do seguin-
lidade social de cabo a rabo. Já não estamos às te modo: ao poder sobre a vida responde a po-
voltas com um poder transcendente, ou mes- tência da vida. Mas esse responder não significa
mo com um poder apenas repressivo, trata-se uma reação, já que o que se vai constatando
de um poder imanente, trata-se de um poder cada vez mais é que essa potência de vida já es-
produtivo. Este poder sobre a vida, vamos cha- tava lá e por toda a parte, desde o início. A vita-
mar assim, biopoder, não visa mais, como era o lidade social, quando iluminada pelos poderes
caso das modalidades anteriores de poder, barrar que a pretendem vampirizar, aparece subita-
a vida, mas visa encarregar-se da vida, visa mes- mente na sua primazia ontológica. Aquilo que
mo intensificar a vida, otimizá-la. Daí também parecia inteiramente submetido ao capital, ou
nossa extrema dificuldade em resistir. Já mal sa- reduzido a mera passividade, isto é, a vida, apa-
bemos onde está o poder e onde estamos nós. rece agora como um reservatório inesgotável de
O que ele nos dita e o que nós dele queremos. sentido, como um manancial de formas de exis-
Nós próprios nos encarregamos de administrar tência, como um germe de direções que extra-
nosso controle, e o próprio desejo já se vê intei- polam, e muito, as estruturas de comando e os
ramente capturado. Nunca o poder chegou tão cálculos dos poderes constituídos.
longe e tão fundo no cerne da subjetividade e Seria o caso então de percorrer essas duas
da própria vida, como nessa modalidade con- vias maiores, como numa fita de Moebius, o bio-
temporânea do biopoder. poder e a biopotência. O poder sobre a vida e
É onde intervém um segundo eixo que as potências da vida. São como o avesso um do
seria preciso evocar. Sobretudo em alguns auto- outro. Se você seguir em linha reta você chega
res que eu vou mencionar ao longo da minha ao outro e vice-versa. E a gente poderia, para
fala, provenientes de um movimento chamado testar essa hipótese, tomar algo que hoje em dia
“Autonomia Italiana”. Eu resumo este eixo da é cada vez mais essencial, a saber, o corpo. Tanto
seguinte maneira: quando, como diz o rap, pa- o biopoder como a biopotência passam neces-
rece que “tá tudo dominado”, no extremo da sariamente, e hoje antes do que nunca, pelo cor-
linha se insinua uma reviravolta. Aquilo que po. Então vou trabalhar três modalidades de
parecia submetido, controlado, dominado, isto vida, isto é, três conceitos de vida acompanha-
é, a vida, revela, no processo mesmo de expro- dos de sua dimensão corporal correspondente,
priação, sua potência indomável. percorrendo, assim, de um lado a outro, essa
Tomemos um exemplo: o capital hoje banda de Moebius, esse poder sobre a vida e o
precisa não mais, como há décadas atrás, de poder e a potência da vida.
músculos e de disciplina. Ele precisa de inventi- Eu então vou começar pelo mais extremo:
vidade, de imaginação, de criatividade. Ele pre- o mulçumano. Vou retomar brevemente uma
cisa do que se poderia chamar da força-inven- descrição feita por um filósofo italiano contem-

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porâneo chamado Giorgio Agamben. O autor Já no contexto biopolítico surge uma


acompanha aqueles que, num campo de concen- nova preocupação, segundo Foucault. Não cabe
tração, durante a Segunda Guerra Mundial, rece- ao poder fazer morrer, mas sobretudo fazer vi-
biam essa designação terminal de mulçumano. ver, isto é, cuidar da população, da espécie, dos
O que era um muçulmano, ou a quem se chama- processos biológicos, cabe ao poder otimizar a
va de mulçumano num campo de concentração vida. Gerir a vida em todas as suas dimensões,
nazista? Era o cadáver ambulante, era uma reu- mais do que exigir a morte. Assim, se o poder,
nião de funções físicas nos seus últimos sobres- num regime de soberania, consistia num meca-
saltos. Era um morto vivo, o homem-múmia, o nismo de supressão, de extorsão, seja da rique-
homem-concha. Encurvado sobre si mesmo, este za, do trabalho, da força, do sangue, culminan-
ser bestificado, sem vontade, tinha o olhar opa- do com o privilégio de suprimir a própria vida,
co, a expressão indiferente, a pele cinza pálida, no regime subseqüente de biopoder ele passa a
fina e dura como papel, que já começava a des- funcionar na base da incitação, do reforço, da
cascar, tinha a respiração lenta, a fala muito bai- vigilância, visando a otimização das forças vi-
xa e feita a um grande custo. O mulçumano era tais que ele submete. Ao invés então de fazer
o detido, que havia desistido de viver. Indiferen- morrer e deixar viver, trata-se de fazer viver e
te a tudo que o rodeava, exausto demais para deixar morrer. O poder investe a vida, não mais
compreender aquilo que o esperava em breve, a a morte. Daí porque se desinvestiu tanto a pró-
saber, a morte. Essa vida não humana já estava pria morte, que antes era ritual, espetacular e
excessivamente esvaziada para que pudesse se- hoje é anônima, insignificante.
quer sofrer. Por que mulçumano, já que se trata- Claro que o nazismo consiste num cru-
va sobretudo de judeus? Porque o mulçumano zamento extremo entre soberania e biopoder, ao
entregava sua vida ao destino conforme uma fazer viver ao máximo a raça ariana e ao fazer
imagem simplória e totalmente equivocada so- morrer ao máximo as raças ditas inferiores, um
bre um suposto fatalismo islâmico. em nome do outro. Mas, segundo Giorgio
Quando a vida era reduzida ao contorno Agamben, o poder contemporâneo já não se in-
de mera silhueta, como diziam nazistas ao se re- cumbe nem de fazer viver, como postulava
ferirem aos prisioneiros, eles os chamavam de Foucault, nem de fazer morrer, como antiga-
Figuren. Figuras, manequins. Quando a vida é mente era a incumbência do regime de sobera-
reduzida a isso, aparece a perversão de um po- nia. Mas o biopoder contemporâneo, o poder
der que não elimina o corpo. Mas o mantém sobre a vida, faz sobreviventes, cria sobrevi-
numa zona intermediária entre a vida e a mor- ventes e produz sobrevida – é a produção da
te. Entre o humano e o inumano. É o sobre- sobrevida. O biopoder contemporâneo teria
vivente. O biopoder contemporâneo, conclui essa incumbência, de produzir um espaço de
Giorgio Agamben, reduz a vida à sobrevida, re- sobrevida biológica, reduzir o homem a essa
duz vida à sobrevida biológica, produz sobrevi- dimensão residual, não humana, vida vegeta-
ventes. De Guantánamo à África isso se confir- tiva, que o mulçumano por um lado, no caso
ma a cada dia. Ora, quando cunhou o termo dos campos de concentração nazistas, ou os
biopoder, Michel Foucault tratava de descrimi- neo-mortos das salas de terapia intensiva, quan-
ná-lo, esse biopoder, de um regime anterior de- do se quer prolongar a qualquer custo a vida,
nominado soberania. O que era o regime de so- mesmo que seja uma vida absolutamente im-
berania? Consistia em fazer matar e deixar viver potente, encarnam.
os demais. Cabia ao soberano a prerrogativa de A sobrevida é a vida humana reduzida ao
matar de maneira espetacular os que ameaças- seu mínimo biológico, é a vida sem forma, re-
sem o seu poderio, e cabia ao soberano deixar duzida ao mero fato biológico. É o que Agam-
viver os demais. ben chama de vida nua. Mas engana-se quem

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apenas vê vida nua na figura extrema do mulçu- po às normas da cultura do espetáculo, confor-
mano, sem perceber o mais assustador: de certa me o modelo da celebridade. Essa obsessão pela
maneira, somos todos mulçumanos. Eu me ex- perfectibilidade física, com as infinitas possi-
plico: Bruno Betteheim, um psicanalista conhe- bilidades de transformação anunciadas pelas
cido que trabalhou com autistas, foi sobreviven- próteses genéticas, químicas, eletrônicas ou me-
te do campo de concentração na Alemanha cânicas; essa compulsão do eu para causar o de-
chamado Buchenwald. E quando descreve o sejo do outro por si mediante a idealização da
comandante do campo de concentração, ele o imagem corporal, mesmo que isso custe o bem
qualifica como uma espécie de mulçumano. estar do sujeito, mesmo que isso o mutile, subs-
Bem alimentado e bem vestido. Ora, como é titui facilmente a satisfação erótica por uma es-
possível? O carrasco é ele também um cadáver pécie de mortificação auto-imposta. O fato é
vivo, habitando essa zona intermediária entre o que nós abraçamos voluntariamente essa tirania
humano e o inumano. Essa máquina biológica da corporeidade perfeita, em nome de um gozo
desprovida de sensibilidade e de excitabilidade sensorial, cuja imediaticidade torna ainda mais
nervosa. A condição de sobrevivente, de mulçu- surpreendente o seu custo em sofrimento.
mano, é um efeito generalizado do biopoder A bioascese é um cuidado de si, mas diferente-
contemporâneo. Ele não se restringe aos regi- mente dos antigos, cujo cuidado de si visava a
mes totalitários, ele inclui plenamente a demo- bela vida, e que Foucault até chamava de estéti-
cracia ocidental, a sociedade de consumo, o ca da existência, o nosso cuidado de si visa o
hedonismo de massa, a medicalização da exis- corpo, sua longevidade.
tência. Em suma, a abordagem biológica da vida Eu não hesitaria em chamar a isso tudo,
em uma escala ampliada. nas condições moduláveis da coerção contem-
Eu vou tomar um exemplo muito espe- porânea, de um corpo fascista. Ou seja, diante
cífico para ilustrar isso que eu estou dizendo. de um modelo inalcançável de perfeição, que
O superinvestimento do corpo que caracteriza nem sequer as celebridades conseguem susten-
a nossa atualidade. Desde algumas décadas, o tar, diante deste modelo que paira sobre todos
foco do sujeito se deslocou da intimidade nós como uma obrigatoriedade, boa parcela da
psíquica para o próprio corpo. Hoje, o eu é o população é lançada numa condição de inferio-
corpo. A subjetividade foi reduzida ao corpo. ridade sub-humana. Estamos todos aquém des-
A sua aparência, a sua imagem, a sua perfor- te modelo. Que além do mais, o corpo tenha se
mance, a sua saúde, a sua longevidade. O pre- tornado também um pacote de informações,
domínio da dimensão corporal na constituição um reservatório genético, isso tudo só vem re-
identitária, permitiria falar, segundo o filósofo forçar e fortalecer os riscos de eugenia.
espanhol radicado no Rio de Janeiro, Francisco Estamos às voltas, em todo caso, com o
Ortega, numa bioidentidade. É verdade que já registro de uma vida biologizada, reduzidos
não estamos diante de um corpo docilizado pe- ao mero corpo, do corpo excitável ao corpo
las instituições disciplinares, como há cem anos manipulável, do corpo espetáculo ao corpo
atrás; o corpo da fábrica, ou o corpo do exérci- auto-modulável: é o domínio da vida nua.
to, ou o corpo da escola. Já não é esta disciplina Continuamos na esfera da sobrevida, da produ-
panóptica. Agora cada um de nós se submete ção maciça de sobreviventes, no sentido amplo
voluntariamente a uma espécie de ascese, se- do termo, mesmo que os sobreviventes sejam
guindo ora um preceito científico, ora um pre- de classe média ou alta, ou no extremo luxo
ceito estético. É o que o Ortega chama de bioas- do consumo.
cese. Por um lado trata-se de adequar o corpo Eu poderia ampliar um pouco agora essa
às normas científicas da saúde: longevidade, noção de sobrevivente. Na sua ánalise do 11 de
equilíbrio. Por outro, trata-se de adequar o cor- setembro, o filósofo esloveno Slajov Zizek con-

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testou o adjetivo “covardes” imputado aos ter- baixas, política sem política. É a realidade
roristas que perpetraram o atentado contra as virtualizada. Para Zizek, morte e vida designam
torres gêmeas. Afinal, dizia Zizek, eles não tive- não fatos objetivos, mas posições subjetivas exis-
ram medo da morte, contrariamente a nós oci- tenciais. E neste sentido, ele brinca com a idéia
dentais, que não só prezamos a vida, como se provocativa de que haveria mais vida do lado
alega, mas queremos preservá-la a todo custo, daqueles que, de maneira frontal, numa explo-
prolongá-la ao máximo, seja que vida for; nós são de gozo, reintroduziram a dimensão de ab-
somos escravos da sobrevivência. Essa nossa cul- soluta negatividade em nossa vida diária, com o
tura visa sobretudo isto, sobrevivência, pouco 11 de setembro. Haveria mais vida do lado
importa a que custo. E Zizek deu a este contex- daqueles do que dos últimos homens. Todos nós
to o nome de sobrevivencialismo. Somos os úl- que arrastamos nossa sombra de vida como
timos homens de Nietzsche, que não querem mortos vivos, como zumbis pós-modernos.
perecer, que prolongam sua agonia imersos na O autor chama a atenção para a paisagem de
estupidez dos prazeres diários. É o Homo otarius. desolação contra a qual vem inscrever-se tal ato,
A pergunta de Zizek é a seguinte, e é a pergun- como o atentado contra as torres gêmeas. E, so-
ta que ele retoma a São Paulo – não a cidade, bretudo, para o desafio de se repensar hoje o
mas ao santo: “quem está realmente vivo hoje?”. próprio estatuto do acontecimento, em suma,
E Zizek acrescenta: “e se só estivermos realmen- da gestualidade política num momento em que
te vivos se nos comprometermos com uma in- a vitalidade parece ter migrado para o lado da-
tensidade excessiva, que nos coloca além da vida queles que, numa volúpia de morte, souberam
nua?” Zizek pergunta: “e se ao nos concentrar- desafiar o nosso sobrevivencialismo exangue.
mos na simples sobrevivência mesmo quando Seja como for, poderíamos dizer que na
ela é qualificada como uma vida boa, se quan- pós-política espetacularizada, e com o respecti-
do nós privilegiamos apenas a sobrevivência o vo seqüestro da vitalidade social, estamos todos
que realmente perdermos for a própria vida?” reduzidos ao sobrevivencialismo biológico. Esta-
Ele ainda acrescenta: “e se o terrorista suicida mos todos à mercê da gestão biopolítica, cul-
palestino, a ponto de explodir a si mesmo e aos tuando formas-de-vida de baixa intensidade,
outros, estiver no sentido enfático, mais vivo do submetidos à mera hipnose, mesmo quando
que nós?” E ele continua, num comentário to- essa anestesia sensorial é travestida de hiper-ex-
talmente provocativo: “será que não vale mais citação. É a existência de cyber zumbis, pastan-
um histérico verdadeiramente vivo no questio- do mansamente entre serviços e mercadorias,
namento permanente da própria existência, do como dizia Gilles Châtelet num livro esplêndi-
que um obsessivo que evita acima de tudo que do intitulado Viver e pensar como porcos. Vamos
algo lhe aconteça, que escolhe a morte em dar o nome a este tipo de vida no português
vida?”. Claro que não se trata de nenhuma con- bem claro: vida besta. Vida besta é esse rebaixa-
clamação ao terrorismo, nem de elogio algum mento global da existência, é essa depreciação
ao terrorista, mas sim de uma crítica caústica ao da vida, é sua redução à vida nua, à sobrevida, é
que este filósofo esloveno chamou de postura esse estágio último do niilismo contemporâneo.
sobrevivencialista pós-metafísica dos últimos A essa vida sem forma do homem co-
homens. É uma crítica a este espetáculo anêmi- mum, nas condições do niilismo contempo-
co da vida se arrastando como uma sombra de râneo, uma revista francesa chamada Tikkun
si mesma, nesse contexto biopolítico em que deu o nome de Bloom. Este é o nome de um
almejamos uma existência asséptica, indolor, personagem do escritor James Joyce. Inspirada
prolongada ao máximo, onde até os prazeres são nesse personagem, essa revista criou um tipo.
controlados e artificializados: café sem cafeína, Bloom seria um tipo humano recentemente
cerveja sem álcool, sexo sem sexo, guerra sem aparecido no planeta e que designa essas exis-

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tências brancas, presenças indiferentes, sem es- O corpo é aquele que não agüenta mais.” É uma
pessura, o homem ordinário, anônimo; talvez definição do corpo. O que é o corpo? É aquele
agitado quando tem a ilusão de que com isso que não agüenta mais. Como assim? O que será
poderia encobrir o tédio, a solidão, a separação, que o corpo não agüenta mais? O corpo não
a incompletude, o nada. Bloom designa essa to- agüenta mais tudo aquilo que o coage, por fora
nalidade afetiva que caracteriza a nossa época. e por dentro. Por exemplo, o corpo não agüen-
Essa tonalidade de decomposição niilista, o ta mais o adestramento civilizatório que por
momento em que vem à tona o que se realiza milênios se abateu sobre ele, como Nietzsche o
em estado puro, o fato metafísico de nossa es- mostrou exemplarmente em Para a genealogia
tranheza e de nossa inoperância. Para além ou da moral. Ou mais recentemente, o sociólogo
para aquém de todos os nossos problemas so- Norbert Elias, quando descreveu de que modo
ciais de miséria, precariedade, desemprego etc. aquilo que chamamos de civilização é resultado
Bloom é a figura que representa a morte do su- de um progressivo silenciamento do corpo; dos
jeito e a morte do seu mundo, onde tudo flutua seus ruídos, impulsos, movimentos, arrotos,
na indiferença sem qualidades, em que ninguém peidos etc. Mas também o que o corpo não
mais se reconhece, na trivialidade do mundo de agüenta mais é a docilização que lhe foi impos-
mercadorias infinitamente intercambiáveis e ta pelas disciplinas nas fábricas, nas escolas, nos
substituíveis. Pouco importam os conteúdos de exércitos, nas prisões, nos hospitais, pela máqui-
vida que se alternam e que cada um visita em na panóptica. E tendo em vista o que dissemos
seu turismo existencial, o Bloom é já incapaz recentemente, o que o corpo não agüenta mais
de alegria assim como de sofrimento, ele é um é a mutilação biopolítica, a intervenção biotec-
analfabeto das emoções de que ele recolhe ape- nológica, a modulação estética, a digitalização
nas ecos difratados. bioinformática do corpo, o seu entorpecimen-
Quando a vida é reduzida à vida besta em to nesse hedonismo. Em suma, num sentido
escala planetária, quando o niilismo se dá a ver muito amplo, o que o corpo não agüenta mais
de maneira tão gritante em nossa própria las- é a mortificação sobrevivencialista. Seja em um
sidão, nesse estado hipnótico consumista do estado de exceção, como num campo de con-
Bloom ou do Homo Otarius, cabe perguntar o centração, seja na banalidade cotidiana, como
que poderia ainda sacudir de tal estado de letar- em um shopping center das nossas cidades.
gia. E cabe perguntar se a catástrofe não estaria O mulçumano, o cyber zumbi, o corpo
aí instalada cotidianamente, no nosso niilismo espetáculo, a gorda saúde dominante, o Bloom,
do dia-a-dia. O mais sinistro dos hóspedes, diria por extremas que pareçam suas diferenças, to-
Nietzsche, ao invés de ser a catástrofe, é a erup- das ressoam nesse efeito anestésico e narcótico,
ção súbita de um ato espetacular. O que pode- configurando a impermeabilidade de um corpo
ria então sacudir-nos de tal estado de letargia, blindado, conforme a belíssima expressão do
de lassidão, de esgotamento? Há uma belíssima escritor Juliano Pessanha. O nosso seria um cor-
definição beckettiana sobre o corpo, dada por po blindado.
um jovem filósofo francês chamado David La- Diante disso, seria preciso retomar o cor-
poujade: “Somos como personagens de Beckett, po naquilo que lhe é mais próprio, na sua dor,
para os quais já é difícil andar de bicicleta, de- no encontro com a exterioridade, na sua condi-
pois difícil andar, depois difícil simplesmente se ção de corpo afetado pelas forças do mundo e
arrastar e depois difícil de permanecer sentado. capaz de ser afetado por elas. Seria preciso reto-
Mesmo nas situações cada vez mais elementares mar o corpo na sua afectibilidade, no seu poder
que exigem cada vez menos esforço, o corpo não de ser afetado e de afetar. Como observa Bárba-
agüenta mais. Tudo se passa como se ele não ra Stiegler, já em Nietzsche um sujeito vivo era
pudesse mais agir, não pudesse mais responder. principalmente isso, um corpo que sofre de suas

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aflições, de seus encontros, da alteridade que o que esvaziado, roubado de sua alma, diz José
atinge, da multidão de estímulos e de excitações, Gil, para poder então ser atravessado pelos flu-
que lhe cabe selecionar, evitar, escolher, acolher. xos mais exuberantes de vida. É aí que esse cor-
Nessa linha, também Deleuze insiste: um cor- po, que já é um corpo sem órgãos, constitui ao
po não cessa de ser submetido aos encontros, seu redor um domínio intensivo, uma nuvem
com a luz, o oxigênio, os alimentos, os sons, as virtual, uma espécie de atmosfera afetiva, com
palavras cortantes. Um corpo é primeiramente a sua densidade, textura, viscosidade própria,
encontro com outros corpos. Um corpo é pri- como se o corpo exalasse e liberasse forças in-
meiramente poder de ser afetado, mas não por conscientes que circulam à flor da pele, proje-
tudo e nem de qualquer maneira, como quem tando em torno de si uma espécie de sombra
deglute e vomita tudo com seu estômago feno- branca. Tudo isso é muito enigmático. Mas é a
menal, na pura indiferença de quem nada aba- dança contemporânea pelos olhos do José Gil.
la. Como então preservar a capacidade de ser Essa produção de sombra branca em torno de
afetado, se não através de certa permeabilidade, um corpo destituído de seus órgãos, um corpo
de certa passividade até, de uma certa fraqueza. tornado feixe de forças.
Eu vou fazer uma pergunta absurda: como ter a Eu não posso me furtar à tentação de pelo
força de estar à altura de sua própria fraqueza, menos mencionar essa experiência que eu coor-
ao invés de permanecer na fraqueza de cultivar deno há dez anos, que é a Companhia Teatral
apenas a força? Ueinzz, com ditos usuários de saúde mental.
O autor polonês chamado Gombrowicz E entre alguns destes atores nós reencontramos
se referia a um inacabamento próprio à vida, ali essas posturas como que extraviadas, inumanas,
onde a vida se encontra em seu estado embrio- disformes; rodeados de sua sombra branca, ou
nário, onde a forma ainda não pegou inteira- imersos numa espécie de zona de opacidade
mente. E a atração irresistível que exerce esse ofensiva. O corpo aparece aí como sinônimo de
estado de imaturidade, onde está preservada a certa impotência, mas é aqui que se precisa pen-
liberdade de seres ainda por nascer. Será possí- sar nessa virada. É dessa impotência que ele ex-
vel dar espaço, em nossa vida, a tais seres ainda trai uma potência superior. Como pensar con-
por nascer, num corpo excessivamente muscu- juntamente certa impotência, e essa potência
loso, em meio a uma atlética auto-suficiência, superior extraída dessa impotência?
demasiadamente excitada, plugada, perfectível? Eu gostaria então de retomar uma idéia
Talvez por isso tantos personagens literários, que que é de Gilles Deleuze, no artigo último que
vão desde Bartleby até o artista da fome de ele escreveu, chamado Imanência, uma vida.
Kafka, precisem um pouco de imobilidade, de Ele quer falar da vida, e menciona a noção de
palidez, de esvaziamento, para dar passagem a uma vida. E ele dá o exemplo do que é uma
outras forças que um corpo excessivamente blin- vida, extraído de um conto de Charles Dickens.
dado não permitiria. Tem um canalha chamado Riderhood, que está
Então a pergunta é: como dar passagem a prestes a morrer num quase afogamento. E nes-
estas forças num corpo que não seja justamente te momento, ele libera uma centelha de vida
blindado, atlético, perfeito? Às vezes é inclusive dentro dele, que parece ser separada do canalha
preciso criar uma espécie de corpo morto para que ele é. E todos à sua volta subitamente se
que essas outras forças atravessem o corpo. Por compadecem, por mais que o odeiem. Eis aí o
exemplo, José Gil, que é um filósofo português que Deleuze chama de uma vida. É puro acon-
interessantíssimo, observou o processo através tecimento, em suspensão, impessoal, singular.
do qual, na dança contemporânea, o corpo se Uma vida está para além do bem e do mal.
assume como um feixe de forças, ele desinveste Deleuze chega a dizer, é uma espécie de beati-
os seus órgãos. É um corpo que pode ser como tude. Outro exemplo, os recém nascidos, que

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em meio aos sofrimentos são atravessados pelo pulações, que aperfeiçoamentos, que eugenias
que Deleuze chama de uma vida, uma vida se pode fazer. Como então recusar isso e afinar
imanente, que é pura potência, apesar de ser tão o outro pólo: o que pode o corpo? Que poderes
impotente. Também o bebê, como o moribun- de afetar e ser afetado pode o corpo, que é uma
do, é atravessado por uma vida. E assim define questão vitalista, que é uma questão espinosis-
Deleuze: “Querer viver obstinado, cabeçudo, ta? Como se por um lado houvesse as potências
indomável, diferente de qualquer vida orgâni- da vida, que precisam de um corpo sem órgãos
ca. Com a criança maior já se tem uma relação para se experimentarem, e por outro lado esti-
pessoal orgânica, mas não com o bebê, que con- vesse o poder sobre a vida que precisa de um
centra em sua pequenez a energia suficiente para corpo pós-orgânico para anexá-lo a sua axiomá-
arrebentar os paralelepípedos. Com um bebê só tica capitalista.
se tem relação afetiva, vital, pois o bebê é sede Para que um apareça, talvez seja preciso
irredutível das forças, a prova mais reveladora que o outro seja pelo menos combatido ou des-
das forças.” É como se Deleuze perscrutasse um locado. Talvez para que esta uma vida possa apa-
aquém do corpo empírico ou da vida individu- recer na sua imanência e na sua afirmatividade
al, é como se ele não só buscasse em Kafka, seja preciso que ela se tenha despojado de tudo
Lawrence, em Artaud, em Nietzsche, mas ao aquilo que pretendeu contê-la ou representá-la.
longo de toda a sua obra, aquele limiar vital e Toda a tematização do corpo sem órgãos é uma
virtual, a partir do qual todos os lotes reparti- variação em torno deste tema biopolítico por
dos pelos deuses ou homens giram em falso e excelência. A vida se desfazendo de tudo aquilo
derrapam, já não pegam. É esse limiar entre a que a aprisiona. E o que a aprisiona, dentre ou-
vida e a morte, entre o homem e o animal, en- tras coisas, é o que Artaud, na sua loucura, con-
tre a loucura e a sanidade, onde nascer e perecer seguiu formular; o que nos aprisiona é também
se repercutem mutuamente, é essa uma vida que o organismo, os órgãos. A inscrição dos pode-
põe em xeque todas as divisões legadas pela tra- res diversos sobre o corpo é também a redução
dição, e indica o que Deleuze pode chamar de da nossa vida a esta vida nua, a esta vida morta,
uma vida. a esta vida múmia, a esta vida concha. Se a vida
Como diferenciar a decomposição e a deve livrar-se de todas essas amarras sociais, his-
desfiguração do corpo, necessárias para que as tóricas, políticas, não será para reencontrar algo
forças que o atravessam inventem novas cone- de sua animalidade desnudada, despossuída?
xões e liberem novas potências, tendência essa Será a invocação de uma vida nua, como diria
que caracterizou parte de nossa cultura das últi- Agamben? Não é bem isso. E aqui eu vou men-
mas décadas nas suas experimentações diversas, cionar um autor japonês, que é tradutor de
das danças às drogas e à própria literatura? Artaud para o japonês e também tradutor de
Como diferenciar essa desfiguração dessa outra Deleuze para o japonês, e um grande crítico, no
desfiguração e decomposição que a produção do bom sentido, destes dois autores. Diz Kuniichi
sobrevivente e a manipulação biotecnológica Uno: “Ele (Artaud) nunca perdeu o sentido in-
suscita e estimula? Como diferenciar a perple- tenso da vida e do corpo como gênese, como
xidade de Espinosa – com o fato de que não auto-gênese, como força intensa, sem limites.
sabemos ainda o que pode o corpo –, como di- A vida é para Artaud indeterminável em todos
ferenciar isso do desafio dos poderes e da os sentidos; enquanto a sociedade é feita pela
tecnociência, que precisamente vão pesquisando infâmia, o tráfico, o comércio que não cessa de
o que é que se pode fazer com o corpo? Como sitiar a vida, e sobretudo a vida do corpo.” Bas-
descolar-se da obsessão de pesquisar o que se taria meditar um pouco na frase enigmática de
pode fazer com o corpo, que é uma questão Artaud: “Eu sou um genital inato. Ao enxergar
biopolítica, saber que intervenções, que mani- isso de perto, isso quer dizer que eu nunca me

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B iopolítica

realizei. Há imbecis que se crêem seres, seres por como Agamben a teorizou, é a vida reduzida ao
inatismo. Eu sou aquele que para ser, deve chi- seu estado de mera atualidade, indiferença, im-
cotear seu inatismo”. É uma frase muito estra- potência, banalidade biológica. Para não falar na
nha e o nosso comentador japonês diz o seguin- vida besta, que é a exarcebação e a dissemina-
te: “Um genital inato é alguém que tenta nascer ção entrópica da vida nua no seu limite niilista.
por si mesmo. Produzir em si um segundo nas- Se a vida nua e a uma vida são tão contrapostas,
cimento, a fim de excluir o nascimento já dado, mas ao mesmo tempo tão sobrepostas, é por-
biológico, determinado. Ser inato é não ter nas- que, no contexto biopolítico contemporâneo, é
cido. Pensemos em Beckett ouvindo uma con- a própria vida que está em jogo, é ela o campo
ferência de Jung. Jung diz sobre uma paciente o de batalha. Como dizia Foucault, é no ponto
seguinte: o fato é que esta paciente nunca nas- em que o poder incide com força maior sobre a
ceu. E Beckett pega essa frase, “Ela nunca nas- vida que doravante se ancora a resistência a esse
ceu”, e leva para o contexto de sua obra. E ali, poder. Mas justamente é a vida como que mu-
um eu, que não nasceu, na obra do Beckett, es- dando de sinal. Em outras palavras, às vezes é
creve sobre um outro eu que sim, nasceu. Esse até no extremo da vida nua que se descobre uma
eu que não nasceu recusa esse eu que nasceu. vida. Assim como que por vezes é no extremo
Mas essa recusa não é uma recusa do nascimen- da manipulação e decomposição do corpo que
to. Essa recusa do nascimento biológico não é ele pode descobrir-se como virtualidade, ima-
uma recusa propriamente de um ser que não nência, pura potência, beatitude.
quer viver, mas sim daquele que exige nascer de Mesmo na existência espectral de Bloom
novo sempre, o tempo todo. O genital inato é a de algum modo se insinua, por vezes, uma es-
história de um corpo que coloca em questão seu tratégia de resistência. Ele é o homem sem qua-
corpo nascido, com suas funções, órgãos repre- lidades, sem substancialidade de mundo, onde
sentantes das ordens, instituições, tecnologias já nem sequer o biopoder pega. O homem
visíveis ou invisíveis que pretendem gerir o cor- como homem, o anti-herói presente na litera-
po. Um corpo que a partir, ou em favor de um tura do século passado, de Kafka à Musil. É um
corpo sem órgãos, desafia esse complexo sócio- homem sem comunidade, que talvez chame por
político que Artaud chamou à sua maneira de uma comunidade por vir.
“juízo de deus”, mas que nós chamaríamos hoje Se os que melhor diagnosticaram a vida
de biopoder. O que é um corpo que recusa este bestificada, de Nietzsche e Artaud até os jovens
biopoder que se abate sobre ele e que exige, experimentadores de hoje, têm condições de re-
reinvidica o direito de nascer de novo. Essa re- tomar o corpo como afectibilidade, como po-
cusa do nascimento dado, em favor de um auto- der de afetar e ser afetado, como fluxo, como
nascimento, não equivale ao desejo de dominar vibração, como intensidade, e até mesmo como
seu próprio começo, mas de recriar um corpo poder de começar, será que isso não ocorre tam-
que tenha o poder de começar. A vida é esse cor- bém porque entre nós esse sufocamento teria
po” – diz Uno – “desde que o corpo descubra atingido um ponto intolerável? Não estamos
em si a sua força de gênese. Desde que ele se nós todos nesse ponto de sufocamento que jus-
libere de tudo aquilo que pesa sobre ele como tamente por isso nos impele numa outra dire-
uma determinação. É uma guerra à biopolítica.” ção? Por fim, talvez haja algo na extorsão da vida
Então, para concluir, poderíamos dizer o que deve vir à tona para que essa vida possa apa-
seguinte: uma vida, como diz Deleuze, é a vida recer diferentemente. Algo deve ser esgotado,
pensada como gênese, como virtualidade, como como pressentiu Deleuze, num texto chamado
diferença, como invenção de formas, como po- justamente O esgotado, para que um outro jogo
tência impessoal. Vida nua, ao contrário, tal seja pensável.

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s ala p reta

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