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ISBN 85-99229-01-X

Alex Calazans, Alexandre Dittrich, César Augusto


Battisti, Claudemir RoqueTossato, Claudiney José
de Sousa, Eduardo Salles O. Barra, Emerson
Vizzotto de Barros, Felipe Ribas, Fernando Tula
Molina, Gelson Liston, Gustavo Piovezan, Irinéa
de Lourdes Batista, Ivan Ferreira da Cunha, João
Carlos M. Magalhães, José Borges Neto, José
Carlos Cifuentes, Joyce Mayumi Shimura, Júlio C.
R. Vasconcelos, Leônia Gabardo Negrelli, Marcelo
Moschetti, Márcio Augusto Damin Custódio,
Marisa C. de O. F. Donatelli, Marlene Perez,
Maurício de Carvalho Ramos, Max Rogério
Vicentini, Michel Paty, Osvaldo Pessoa Jr, Pablo
Mariconda , Patricia Coradim Sita, Paulo Tadeu da
Silva, Renato Rodrigues Kinouchi, Robinson
Guitarrari, Rosana Figueiredo Salvi, Simone
Luccas, Veronica Ferreira Bahr Calazans.

III ENCONTRO DA REDE PARANAENSE DE


PESQUISA EM
HISTÓRIA E FILOSOFIA DA
CIÊNCIA
Rede Paranaense de Pesquisa em História e Filosofia da Ciência
(UEL, UEM, UNIOESTE e UFPR)
Projeto Temático “Estudos de Filosofia e História da Ciência”
(USP e UNICAMP)
GT História da Filosofia da Natureza – ANPOF

ANAIS
DO III ENCONTRO DA REDE
PARANAENSE DE PESQUISA EM
HISTÓRIA E FILOSOFIA
DA CIÊNCIA
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ
Curitiba, 16 a 18 de março de 2005

Eduardo S. O. Barra
Alex Calazans
Veronica F. B. Calazans
(organizadores)

Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes


UFPR
2005
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ
SISTEMA DE BIBLIOTECAS
COORD.PROCESSOS TÉCNICOS
Ficha catalográfica
Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em História e
E56 Filosofia da Ciência (3.: 2005: Curitiba, PR).
Anais [do]/ III Encontro da Rede Paranaense de
Pesquisa em História e Filosofia da Ciência, Curitiba,
16 a 18 de março, 2005.—Curitiba: UFPR, 2005.
424p.

Inclui biliografia
ISBN 859922901X

1.Ciência – Filosofia – História. 2. Ciência – História.


3. Ciência – Filosofia – Congressos. I. Universidade
Federal do Paraná. II. Universidade de São Paulo. III.
Universidade Estadual de Campinas. IV. Universidade
Estadual de Londrina. V. Universidade Estadual de
Maringá. VI. Universidade Estadual do Oeste do Paraná.
VII. Título.
CDD 20.ed. 501
CDU 50
Samira Elias Simões CRB-9/755
Índice:

SESSÃO DE ABERTURA:
MESA-REDONDA “A CIÊNCIA COMO OBJETO”

AS QUESTÕES ............................................................................................................................... 6
Pablo Mariconda
Michel Paty
AS RESPOSTAS.............................................................................................................................. 14
Alexandre Dittrich
Eduardo Salles O. Barra
João Carlos M. Magalhães
José Borges Neto

EIXO TEMÁTICO 1:
MATEMATIZAÇÃO DA NATUREZA; MECANICISMO; FILOSOFIA DA NATUREZA

A NATUREZA DO MECANICISMO CARTESIANO ................................................................................... 46


César Augusto Battisti
AS ORIGENS DA ÓPTICA DE KEPLER ............................................................................................... 66
Claudemir RoqueTossato
MATEMÁTICA E REALIDADE NO PENSAMENTO PÓS-MECANICISTA DO SÉC. XVIII................................. 74
Eduardo Salles O. Barra
A HISTÓRIA DA ARTE COMO HISTÓRIA DA CIÊNCIA: HOMENAGEM A PIERRE FRANCASTEL NO SEU
CENTENÁRIO ................................................................................................................................. 87
José Carlos Cifuentes
Leônia Gabardo Negrelli
Marlene Perez
OS MANUSCRITOS REDESCOBERTOS EM 1973 E O PROGRAMA EXPERIMENTAL DE GALILEO GALILEI .. 101
Júlio C. R. Vasconcelos
A MATEMÁTICA E OS DADOS VISUAIS NA CARTA DE GALILEU SOBRE O CANDOR LUNAR ...................... 120
Marcelo Moschetti
CONTINUIDADE E MOVIMENTO EM BRADWARDINE ............................................................................ 129
Márcio Augusto Damin Custódio
A INFLUÊNCIA DE DESCARTES NO PENSAMENTO MÉDICO HOLANDÊS: ALGUNS EXEMPLOS .................. 142
Marisa C. de O. F. Donatelli
A TEORIA DA RELATIVIDADE DE EINSTEIN COMO EXEMPLO DE CRIAÇÃO CIENTÍFICA ............................ 157
Michel PATY
FISICALISMO REDUTIVO E SONDAS EPISTEMOLÓGICAS ..................................................................... 179
Osvaldo Pessoa Jr
MATÉRIA E SUBSTÂNCIA SEGUNDO LEIBNIZ ..................................................................................... 191
Patricia Coradim Sita
MERSENNE E O DEBATE EM TORNO DO COPERNICANISMO ................................................................ 197
Paulo Tadeu da Silva
A CRÍTICA DE BERKELEY AO MÉTODO DAS FLUXÕES DE NEWTON ..................................................... 208
Alex Calazans
A RELAÇÃO ENTRE INFERÊNCIA E CONEXÃO NECESSÁRIA NO TRATADO DA NATUREZA HUMANA DE
DAVID HUME ................................................................................................................................. 222
Claudiney José de Sousa
DESCARTES E NEWTON: A QUESTÃO DE CONCILIAR A DESCONTINUIDADE DA MATÉRIA E A
CONTINUIDADE DO ESPAÇO. ........................................................................................................... 233
Veronica Ferreira Bahr Calazans
AS MANCHAS SOLARES DE GALILEU GALILEI ................................................................................... 242
Felipe Ribas

EIXO TEMÁTICO 2:
TELEOLOGIA NA BIOLOGIA

ALGUNS PRESSUPOSTOS SUBJACENTES ÀS TEORIAS SOBRE A NATUREZA E ORIGEM DA VIDA ............. 249
João Carlos M. Magalhães

TELEOLOGIA E CIÊNCIAS DA VIDA NA ÉPOCA DAS LUZES: O FINALISMO NA TEORIA DA GERAÇÃO DE


MAUPERTUIS ................................................................................................................................. 262
Maurício de Carvalho Ramos

NOTAS SOBRE EVOLUÇÃO E TELEOLOGIA NO PENSAMENTO DE CHARLES S. PEIRCE.......................... 273


Max Rogério Vicentini

SOBRE A IMPORTÂNCIA DO OBJETO EM DESCARTES, O NÚMERO E A ORDEM DAS PAIXÕES NA II PARTE


DAS PAIXÕES DA ALMA .................................................................................................................. 283
Gustavo Piovezan

EIXO TEMÁTICO 3:
CIÊNCIA: CRITÉRIOS E VALORES; PÓS-MODERNISMO NA CIÊNCIA

COMPLEJO DE VALORES, CAMBIO SOCIAL Y ESTRATEGIA COGNITIVA: LA PROPUESTA DE HUGH LACEY


REVISADA ...................................................................................................................................... 296
Fernando Tula Molina

SENTENÇAS PROTOCOLARES E A CONSTRUÇÃO DE UM SISTEMA CIENTÍFICO. .................................... 303


Gelson Liston

RACIONALIDADE E INCOMENSURABILIDADE CIENTÍFICA: UMA REFLEXÃO SOBRE O RELATIVISMO


COGNITIVO .................................................................................................................................... 305
Robinson Guitarrari

A VISÃO KUHNIANA DE CIÊNCIA APLICADA A GEOGRAFIA FÍSICA, SUA HISTÓRIA E EPISTEMOLOGIA: DO


RENASCIMENTO À NOVA GEOGRAFIA ............................................................................................... 318
Emerson Vizzotto de Barros
Rosana Figueiredo Salvi

EIXO TEMÁTICO 4:
ESTUDOS TEÓRICOS-METODOLÓGICOS EM HISTÓRIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA;
EDUCAÇÃO CIENTÍFICA E MATEMÁTICA

O ENSINO DE TEORIAS FÍSICAS MEDIANTE UMA ESTRUTURA HISTÓRICO-FILOSÓFICA .......................... 337


Irinéa de Lourdes Batista

ABORDAGEM HISTÓRICO-FILOSÓFICA E EDUCAÇÃO MATEMÁTICA: UMA PROPOSTA DE INTERAÇÃO


ENTRE DOMÍNIOS DE CONHECIMENTO .............................................................................................. 361
Irinéa de Lourdes Batista
Simone Luccas

O PRAGMATISMO E A FILOSOFIA DA CIÊNCIA .................................................................................... 396


Renato Rodrigues Kinouchi

RUDOLF CARNAP: TEORIAS CIENTÍFICAS E PREDIÇÕES .................................................................... 411


Ivan Ferreira da Cunha

O PROJETO CARTESIANO NAS REGRAS PARA A ORIENTAÇÃO DO ESPÍRITO ...................................... 419


Joyce Mayumi Shimura
SESSÃO DE ABERTURA:
MESA-REDONDA “A CIÊNCIA
COMO OBJETO”
As questões

Pablo Mariconda
Departamento de Filosofia/USP

Ao tomar a ciência como objeto de investigação é possível tomá-la sob


uma perspectiva científica, como se fosse possível uma ciência da ciência? Ou
tomá-la como objeto seria olhá-la necessariamente de uma perspectiva
externa, alheia a sua própria natureza investigativa, num movimento de
pensamento que não é o seu? Não seria necessariamente tomá-la como objeto
de reflexão filosófica, mesmo quando esse olhar exterior fosse histórico ou
sociológico?

A ciência como conhecimento em movimento

Michel Paty
Centre National de la Recherche Scienfique (CNRS); Equipe REHSEIS; Université Paris 7;
Departamento de Filosofia/USP

1. A minha questão é a seguinte: Quando se considera uma ciência


através de um processo histórico, mesmo localizado, sempre constatam-se
mudanças e até progresso: aponta este movimento para uma diferença entre
conhecimento (relacionado à idéia de movimento e de procura) e saber
(conjunto de conteúdos considerados estaticamente)? O que se chama ciência
é este saber, ou é também este conhecimento em movimento? Deve-se
considerar a racionalidade somente nas proposições estabelecidas ao final, ou
ela participa do próprio movimento que elabora a ciência? A ciência em
elaboração é um campo de problemas filosóficos? Em que sentido?
2. Devo comentar um pouco sobre esta questão, seus porquês e
como. Trata-se, com a formulação aqui proposta, de especificar um aspecto da
ciência considerada de maneira geral como objeto de investigação pelo
pensamento. Tal aspecto é que a ciência se transforma, muda, nas suas
formas e nos seus conteúdos de significação: ela varia e se modifica com o
tempo, com a história dos homens no tempo; ela é histórica, porém contínua,
BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em
História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
As questões 7

apesar das diferenças de formas e de conteúdos, assegurados e confirmados


(até um certo ponto), pelos confrontos com a efetividade ou a realidade do
mundo (com os fenômenos) e também pela sua expressão racionalizada, por
sua organização racional.
3. Ela continua sendo a ciência, em particular porque ela nos é
inteligível, por ser racional e capaz de ser assimilada e comunicada, e vamos
admitir aqui que se ela nos é inteligível, é fundamentalmente por ser racional. É
verdade que a idéia da ciência como algo racional não é aceita por todos: os
empiristas consideram outras propriedades do conhecimento, além da razão, e
notavelmente a “evidência empírica”, para justificar este conhecimento como
legítimo e admitido. Na verdade, as palavras formadas para explicitar a razão e
explicitar sua função, tais como “racional” (na forma de adjetivo ou de
substantivo, “o racional”) e “racionalidade”, são muitas vezes ausentes das
considerações dos filósofos do tempo presente. É verdade também que é difícil
definir exatamente todos estes termos, que são tomados geralmente de
maneira intuitiva, ao invés da lógica, pois só a lógica tem uma definição e
operatividade exata, que pode ser reduzida a signos e sequências ordenadas
de signos para expressar uma operação exata da mente sobre objetos
exatamente definidos. A razão é mais complexa do que a lógica, pois ela opera
de maneira não tão precisamente definida e sobre objetos que não são
definidos de maneira exata e unívoca como os objetos de um raciocínio lógico.
A razão é complexa, ela não se reduz à lógica, mas sabemos por experiência
(a nossa experiência própria e a experiência dos cientistas ao longo da história)
que sem ela não teríamos conhecimentos seguros e objetivos (capazes de
libertar-se da subjetividade, do seu peso e das suas limitações, como crenças
chamadas precisamente “irracionais”, imersas nos afetos e nos sentimentos, ou
mitológicas) e nem poderíamos comunicar os nossos conhecimentos a outros.
Pode-se atribuir várias formas de racionalidade aos vários domínios do
conhecimento (Bachelard fala, neste sentido, de racionalidades “regionais”,
segundo as disciplinas científicas) e aos vários gêneros, relacionados com os
diversos campos da razão, abstrata, pura à maneira da matemática, científica,
prática (orientada pela consideração de questões morais), técnica etc. Mas
nessa diversidade dos tipos e das formas de razão em relação com seus
Michel Paty 8

objetos de aplicação, existe uma unidade de função de todas elas, que nós
chamaremos de função de racionalidade, que permite considerar uma
coerência (possível) no ser pensante entre seus vários campos de pensamento
e de ação.
4. Admitindo estas considerações (que poderiam e deveriam ser
investigadas em mais detalhes ainda), retomemos os elementos de
questionamento sobre o objeto “ciência” considerado como evolutivo e
histórico. Em geral, a filosofia, quando considerava a ciência como seu objeto
de reflexão, a tomava no seu estado supostamente atual, na forma de suas
proposições estáticas. A atitude, exemplar a este respeito, de Kant, era de se
perguntar como a ciência é possível, como ela é um conhecimento inteligível e
seguro, e ele foi assim levado a formular o seu edifício da teoria crítica da
razão pura. Ele tomava de início a ciência tal como ela acabava de ser
transformada e edificada na modernidade, como já adquirida de maneira
essencialmente bem delineada nas suas grandes estruturas, e parecendo
bastante segura, com o papel notável da ciência newtoniana, da matemática e
da física matematizada. Esta ciência nova mostrava um grau bastante alto de
verdade, pois combinava o caráter inteligível com a adequação à natureza,
dando conta de uma grande quantidade de fenômenos naturais. A potência da
teoria física da época (a mecânica ou dinâmica) lhe vinha da forma matemática
da sua expressão, que todos os avanços do século xviii tinham confirmado e
ampliado, em particular nas áreas da mecânica dos corpos e da astronomia
matemática. A análise (infinitesimal, ou diferencial e integral), fundada por
Newton e Leibniz na última parte do século precedente, tinha sido desenvolvida
consideravelmente, em primeiro lugar, pelos discípulos de Leibniz (na escola
dos Bernoulli, e nas academias parisiense e berlinense), e, ao tempo de Kant,
mesmo pela obra notável e celebrada dos “Geômetras” (matemáticos e físicos-
matemáticos tais como Euler, Clairaut, d’Alembert, Lagrange…).
Os avanços deste ramo da matemática e sua utilização nos fenômenos
mecânicos e astronômicos e até no próprio pensamento a seu respeito, parecia
dar uma grande segurança a respeito das possibilidade da razão humana no
conhecimento do mundo. Claro que existiam muitos ramos do conhecimento
que não pertenciam ao domínio da mecânica e cuja aproximação não se fazia,
As questões 9

nem se podia fazer, da mesma forma, como este uso particular da matemática
no pensamento da mecânica. Mas a matemática dava uma grande lição até
para os outros conhecimentos, sendo ela, segundo Kant, um exemplo nítido da
“razão pura”. Era assim possível, baseando-se nos resultados mais seguros da
ciência do seu tempo, delinear uma teoria crítica da razão pura, que permita
entender como é que a ciência (na variedade dos seus ramos) é possível.
5. Encontramos aqui uma lição do programa kantiano de justificação
racionalista do conhecimento, que é este de tomar o conhecimento, na forma e
nos modos que ele tem, como um fato, e sendo este um fato, como os demais
fatos, é legítimo tentar entendê-lo (como ele é, e, sobretudo, como ele é
possível). Ao contrário do empirismo, a perspectiva kantiana é de entender o
conhecimento racionalmente, e por isto, de estabelecer racionalmente a sua
possibilidade. Tal é um aspecto importante, talvez o mais importante, da
questão “a ciência como objeto”. Temos que entender como é que a ciência é
possível, a ciência considerada como sendo um conhecimento seguro (pelo
menos bastante seguro) e inteligível, isto é, captado pela estruturação racional
do pensamento do sujeito humano transcendental. Esta estruturação racional
era concebida por Kant (das “formas puras da sensibilidade”, que enquadram e
condicionam a percepção, até as categorias do entendimento que permitem a
apreensão analítica e sintética, incluindo o “sintético a priori”, nó da elaboração
kantiana) como intangível, adquirida uma vez por todas1. Se não fosse o caso,
estimava ele, recairíamos nas perspectivas do empirismo, sem possibilidade de
entender porque se entende a ciência: ela seria simplesmente dada, e deixaria
de ser a ciência, se ela não fosse enquadrada pela razão (pura). Em princípio,
o conhecimento segundo Kant pode se modificar e crescer. Mas, basicamente,
ele teria que ficar dentro dos moldes da razão pura, os quais, por abrangentes
que estejam, estavam, como nós sabemos hoje, marcados pelos limites da
ciência mais segura do tempo, elaborada em tôrno da mecânica clássica.
6. Ora, a ciência muda, sem entretanto deixar por isso de ser
ciência. A ciência mudou desde o tempo do iluminismo e da filosofia kantiana,
sem deixar de ser ciência, e na continuação daquela precedente, mas sem

1
Kant [1781-1787].
Michel Paty 10

mais se deixar adequar aos requisitos da filosofia kantiana que devia, pelo
menos, sofrer alterações e ser adaptada. Tais tentativas foram feitas pelos neo-
kantianos: por exemplo por Ernst Cassirer, que propôs superar os limites da
concepção kantiana do espaço e do tempo, inadequada para dar conta da
teoria da relatividade, substituindo estas formas da intuição pura por uma
“função de espacialidade” permitindo a construção de conceitos de espaço e de
tempo mais físicos e adequados às exigências da física contemporânea2. Mas
este tipo de adaptação sofre de uma falta de generalidade, quando se
necessita repensar as grandes linhas da filosofia racionalista. Em particular, era
necessário reconsiderar o sintético a priori, que Kant colocava no centro do seu
edifício. Os empiristas e positivistas lógicos, propunham uma pura e simples
“dissolução do sintético a priori”, mas esta seria também a dissolução da
racionalidade. Pois, com a rejeição do sintético a priori, rejeita-se a sua função,
que é a da organização racional dos elementos de conhecimento.
7. Se nós compartilhamos da perspectiva racionalista, no sentido
kantiano da superação do empirismo, nós temos que manter a idéia de uma
função de racionalidade, que teria de ser concebida diferentemente do sintético
a priori kantiano no sentido estrito, isto é, no seu caráter intangível, inerente, na
sua forma proposta, ao pensamento humano3. Da nossa perspectiva
racionalista, pretendemos, como Kant, tomar a ciência como um dado, sem
com isso nos satisfazer com a sua simples aceitação à maneira dos empiristas,
mas tentando entendê-la com a razão. Só que nós sabemos agora que este
objeto da nossa investigação, o conhecimento científico, transforma-se
historicamente de tal maneira a colocar em jogo até as noções que nos
pareciam as mais bem estabelecidas e fundadas (espaço, tempo, uma certa
acepção da causalidade etc.). Tomando como objeto de investigação a ciência
tal como é dada, temos que levar em conta esta lição dos fatos do
conhecimento: a ciência muda, nossas formas de conhecimento mudam
também. A nossa concepção das condições de possibilidade também vão ter
que mudar, se mantemos o programa de uma inteligibilidade racional do objeto

2
Cassirer [1922]; veja Paty [1993], cap . 7.
3
Veja, a este respeito: Paty [1992]
As questões 11

científico mesmo. Há indícios de que tal programa não só é legítimo, mas


também é conformado aos fatos (a ciência e sua história). É possível pensar
que a razão seja capaz de dar conta destas mudanças, pois ela fornece de fato
conhecimentos teóricos, que estão bem longe de todo empirismo, e que são
pelos menos tão adequados quanto na época de Kant (em verdade, eles são
mais adequados, e mais diversificados). São conhecimentos inteligíveis que
por sua firmeza parecem bem fundados na razão. Tais índices sugerem o rumo
a tomar para nossa investigação: temos que empreender novamente, como
Kant o fez no seu tempo, o estudo das estruturas da razão, mas numa
perspectiva transformada pelo fato de mudanças radicais do conhecimento e
da estruturação do conhecimento terem ocorrido e, portanto, serem possíveis.
O guia a seguir será considerar a racionalidade não como uma forma fixa e
fechada, mas como sendo definida essencialmente por sua função: como a
função do pensamento que integra os conhecimentos de tal modo que nos
tornam inteligíveis.
8. Há outros aspectos das mudanças no “objeto ciência”.
Mencionamos apenas alguns: a questão de fundamentos racionais do
conhecimento não sofre da impossibilidade lógica encontrada no século xx pela
questão dos fundamentos lógicos, mas se se fala de fundamentos, não pode
ser no mesmo sentido que previamente, e a noção de fundamentos ou de
fundação deve ser repensada. Em particular, se se pode pensar em atribuir
fundamentos racionais ao conhecimento científico, é claro que estes
fundamentos não podem ser concebidos como já presentes no início, como
uma base estática que conteria em potência o conhecimento, atual e futuro.
Seria no melhor dos casos uma base provisória, considerada como numa
parada no caminho, para avaliar onde estamos e o que temos obtido em
matéria de conhecimento assegurado. Aqui aparece uma distinção necessária
a ser feita entre conhecimento (relacionado com a idéia de movimento e de
procura) e saber (como conjunto de conteúdos considerados estaticamente). O
que se chama ciência não se limita a um saber considerado parado, mas é
também e sobretudo este conhecimento em movimento. Uma questão de
fundamentos de uma ciência em movimento só pode ser considerada
dinamicamente: o saber atual não é o fim da ciência, a ciência de hoje está
Michel Paty 12

direcionada para a ciência de amanhã, e toda questão de fundamento só pode


ser considerada “pela frente”4.
9. Um dos aspectos da dimensão dinâmica da ciência é este da
natureza dos elementos de novidade que aparecem, e que eram impensáveis
anteriormente. Esta novidade é criada, no lugar próprio do pensamento, antes
de ser comunicada e posta à disposição dos outros pensamentos. A dinâmica
da ciência dada como inteligível, nos remete ao mesmo tempo, e num mesmo
movimento, à objetividade de seus conceitos e teorias, e à um processo criativo
do sujeito transcendental movido pela exigência interna de entender melhor, de
chegar a uma maior inteligibilidade racional. Esta “criação científica”, ligada à
inteligibilidade e à assimilação e apropriação do conhecimento, manifesta-se
como a resposta do sujeito transcendental à exigência do conhecimento
objetivo ser inteligível por ele e pelos outros sujeitos (ali entra a
intersubjetividade). Ela constitui um problema filosófico em torno da
racionalidade, ligado com a faculdade de intuição (intelectual) como
representação mental sintética de um conjunto de elementos de conhecimento
integrados entre si5.
10. Enfim, propomos uma última consideração (por ora) sobre esta
criação mental que faz nascer formas novas e conteúdos novos de
conhecimento, como conseqüência “transcendental” da transformação do
conhecimento: tal mudança, ou criação, por ser entendida racionalmente,
supõe, como condição de possibilidade, uma mudança correspondente da
forma da racionalidade mesma. De tal maneira, com efeito, que na
permanência da função de racionalidade, esta racionalidade também evolui, se
fazendo mais abrangente, permitindo a extensão do conhecimento fora dos
seus limites anteriores, dando aos novos elementos de conhecimento a
possibilidade de ser concebidos e formulados. Esse duplo movimento resulta,
em última instância, da interação do pensamento com o mundo, segundo os
modos do conhecimento científico. Esta perspectiva esclarece também as

4
M. Paty [no prelo].
5
Refiro-me aqui à conferência dada neste mesmo evento, na sessão de encerramento, sobre
uma aproximação do tema da criação científica através do caso do trabalho de Einstein com a
teoria da relatividade: M. Paty [2005].
As questões 13

modalidades do pensamento humano comum, e das suas adaptações aos


meios ambientes, na geografia e na história, levando à formas refinadas de
conhecimento e de uso da função do racional.

Referências

CASSIRER, E. [1921]. “Zur Einstein'schen Relativitätstheory”, Bruno


Cassirer, Berlin, 1921. Trad. angl., “Einstein's theory of relativity
considered from the epistemological standpoint”, in Cassirer, E [1923].
Substance and function and Einstein's theory of relativity. Trad. ingl.
por William Curtis Swabey e Mary Collins Swabey, Open Court,
Chicago, 1923 ; Dover, New York, 1953 [édition utilisée], p. 347-460.

KANT, I. [1781, 1787]. Critik der reinen Vernunft, J.F. Hartknoch, Riga,
1781; 2a ed. modificada, 1787. Trad. fr. por A.J.L. Delamarre e F.
Marty, Critique de la raison pure, in Kant, E., Oeuvres philosophiques,
vol. 1, Gallimard, Paris, 1980, p. 705-1470.

PATY, M. [1992]. “L'endoréférence d'une science formalisée de la nature”,


in Dilworth, Craig (ed.), Intelligibility in science, Rodopi, Amsterdam,
1992, p. 73-110. Trad. en portugais par Belkiss Jasinevicius Rabello,
“A endoreferência de uma ciência formalizada da natureza”, Estudos
Avançados (IEA, São Paulo) 6, n°14 (janeiro-abril), 1992, 107-141;
errata, 7, 1993, n°17 (janeiro-abril), 223-224.

___________ [1993]. Einstein philosophe. La physique comme pratique


philosophique, Presses Universitaires de France, Paris, 1993

___________ [2005]. “A teoria da relatividade de Einstein como exemplo


de criação científica”, Atas do 3º Encontro da Rede Paranaense de
Pesquisa em História e Filosofia da Ciência, Curitiba (Paraná), março
de 2005.

___________ [no prelo]. “Des fondements vers l'avant. Sur la rationalité


des mathématiques et des sciences formalisées”, Contribution au
Colloque International “Aperçus philosophiques en logique et en
mathématiques. Histoire et actualité des théories sémantiques et
syntaxiques alternatives”, Nancy, 30 sept.-4 oct. 2002; Philosophia
Scientiae.
As respostas

A atividade científica como objeto da ciência: uma perspectiva


contextualista behaviorista radical

Alexandre Dittrich
Departamento de Psicologia/UFPR

Resumo: O behaviorismo radical, enquanto filosofia contextualista,


considera a atividade científica como objeto de estudo legítimo para a
análise do comportamento. Para o behaviorista radical, o comportamento do
cientista deve ser compreendido como atividade-em-contexto. Através do
modelo de seleção por conseqüências, o behaviorismo radical procura
compreender as características peculiares da atividade científica a partir das
conseqüências que as selecionam – especialmente, aquelas estabelecidas
pela cultura na qual está inserido o cientista, incluindo a comunidade
científica da qual faz parte. O behaviorismo radical afasta-se de doutrinas
epistemológicas essencialistas ou relativistas. As leis científicas são
analisadas enquanto regras, sendo julgadas por sua utilidade como guias
para a ação diante de certos objetivos, e não por sua correspondência com
a realidade. Para o behaviorista radical, além disso, ciência e ética são
indissociáveis. A atividade científica, enquanto instrumento de modificação
do mundo, gera conseqüências de ordem ética e política. A própria
“neutralidade” do pesquisador é assegurada a partir de regras éticas
adotadas pelas comunidades científicas.
Palavras-chave: ciência, contextualismo, behaviorismo radical,
epistemologia.

Psicologia, Behaviorismo Radical e Contextualismo

Via de regra, caracteriza-se o objetivo da ciência como sendo o de


“construir conhecimento sobre o mundo”, ou sentença que o valha.
Obviamente, cada comunidade científica elegerá um “mundo” particular ao qual
direcionar seu interesse: física, química, biologia, psicologia, etc.
circunscrevem certas classes de fenômenos como seus objetos privilegiados,
demarcando fronteiras mais ou menos nítidas entre as diversas ciências de
acordo com tal circunscrição. Contudo, embora seja o primeiro passo para a
construção de teorias científicas, a demarcação de objetos de estudo pode
revelar-se uma tarefa bastante complexa e controversa. A psicologia – que

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
As respostas 15

caracteriza-se, assim como as demais ciências denominadas “humanas”, por


uma notável pluralidade epistemológica – encontra, já neste momento, a raiz
de muitas de suas divergências internas. Pode-se definir, por exemplo, o objeto
privilegiado de estudo da psicologia como a mente, a consciência ou o
inconsciente – e a mera opção por uma dessas designações não esgota o
problema, pois cada uma delas presta-se, ainda, a definições subseqüentes.
O behaviorismo radical é uma filosofia que visa sustentar um método
específico de produção de conhecimento em psicologia, denominado análise
do comportamento (Skinner, 1974). A análise do comportamento explicita, já
em sua denominação, qual o seu objeto de estudo. Contudo, assim como
ocorre com as demais palavras que visam definir objetos de estudo em
psicologia, também a palavra “comportamento” está sujeita a diferentes
definições. A definição adotada pelo behaviorismo radical, como veremos
adiante, traz implicações importantes para a análise desenvolvida por essa
filosofia sobre a atividade científica.
A filosofia behaviorista radical encontra sua principal fonte na obra do
psicólogo norte-americano B.F. Skinner (1904-1990). Para esta filosofia, a
relação de conhecimento entre o cientista e seu objeto de investigação é, por si
mesma, um objeto de estudo legítimo no âmbito de uma ciência do
comportamento (Abib, 1993b; Skinner, 1945/1972, p. 380; 1963/1969, p. 228;
1974, p. 234-237; Zuriff, 1980). Conhecer o mundo é comportar-se de certas
formas em relação a ele – e, portanto, a atividade científica faz parte do campo
de interesses do analista do comportamento. É o desenvolvimento dessa
premissa que confere à epistemologia behaviorista radical certas
características originais em relação às epistemologias fundamentadas
exclusivamente na argumentação filosófica. O behaviorismo radical é uma
filosofia psicológica: uma filosofia informada por dados produzidos pela análise
do comportamento.
Uma filosofia psicológica pode ser acusada de circularidade. Ela apóia
sua reflexão filosófica em dados científicos, mas estes dados foram produzidos
através de um método, cuja escolha deve-se, por sua vez, a opções de ordem
Alexandre Dittrich 16

filosófica.1 O behaviorismo radical reconhece tal circularidade, bem como a


possibilidade de escolha de outros métodos em psicologia, a partir de outros
pressupostos filosóficos. Escolhas filosóficas sempre precedem práticas
científicas – ao menos sob o aspecto lógico, ainda que nem sempre sob o
aspecto histórico.2 Contudo, mesmo que se reconheça a especificidade
epistemológica do behaviorismo radical e dos métodos dele derivados, isso não
desqualifica suas possíveis contribuições enquanto filosofia psicológica. Como
afirma Zuriff (1980), “Uma ciência do comportamento inevitavelmente volta-se
para dentro de si mesma” (p. 337) – isto é, inevitavelmente analisa, em algum
momento, o próprio comportamento dos cientistas. O procedimento é comum
também em filosofia, como dão prova as análises filosóficas “meta”.
Poderíamos afirmar, diante do exposto, que o behaviorismo radical é, no
sentido epistemológico, um naturalismo? Uma resposta adequada exigiria o
aprofundamento em diversas questões que não concernem ao presente
trabalho. Pode-se, porém, afirmar o seguinte: para o behaviorista radical,
problemas filosóficos podem ser cientificamente investigados de forma
proveitosa.3 O contínuo intercâmbio entre filosofia e ciência é uma
característica marcante da comunidade dos analistas do comportamento.
Demarcar fronteiras rígidas entre filosofia e ciência não constitui, para o
behaviorista radical, uma estratégia produtiva.
A circularidade, porém, permanece: a análise do comportamento é um
saber sobre o saber, uma ciência da ciência. Contudo, de acordo com Skinner,
se as escolhas do behaviorismo radical são arbitrárias e circulares, não o são
mais do que qualquer outra escolha filosófica ou metodológica:

(...) falar sobre o falar não é mais circular do que pensar sobre o pensar ou saber
sobre o saber. Estejamos ou não nos elevando através de nossos próprios recursos,
o simples fato é que nós podemos fazer progresso em uma análise científica do
comportamento verbal (1945/1972, p. 380).

1
Usaremos o termo “escolha” por conveniência, mas entendemos que uma “escolha” filosófica
não implica, necessariamente, qualquer deliberação ou opção consciente por parte de quem a
realiza.
2
Tais escolhas, contudo, também integram o campo comportamental – e, portanto, a
realização de escolhas filosóficas também figura entre os objetos de interesse para a análise
do comportamento.
3
Contudo, nem todos os problemas filosóficos admitem soluções científicas. O aspecto
prescritivo da ética é um exemplo digno de nota.
As respostas 17

Comportar-se em relação ao comportamento levanta a mesma dificuldade de saber


sobre o saber (1957, p. 453).

Se as acusações de arbitrariedade ou circularidade fossem suficientes


para desacreditar projetos epistemológicos, qualquer tentativa de produção de
conhecimento estaria, por definição, sujeita a tal descrença. Pode-se, não
obstante, adotar tal postura, desde que se reconheça o niilismo inerente a ela
(bem como as conseqüências deste niilismo para a própria credibilidade desta
postura: o niilista é a primeira vítima de suas críticas).
O behaviorismo radical é uma filosofia contextualista (conforme a
descrição do contextualismo por Pepper, 1942/1970). O contextualismo “(...)
nasceu do pragmatismo de Peirce, James, Dewey e Mead. De fato, pode-se
afirmar que o contextualismo é a instanciação moderna do pragmatismo
filosófico” (Morris, 1988, p. 298), ou ainda “(...) uma visão pós-moderna do
pragmatismo tradicional” (Carrara, 2001, p. 236). A visão contextualista do
comportamento opõe-se ao mecanicismo, ao realismo e ao reducionismo. Para
o contextualista, comportamento é sempre comportamento-em-contexto. Isso
significa que, de uma perspectiva contextualista, a própria definição de
“comportamento” subentende uma complexa rede de relações entre a ação de
um organismo e as variáveis ambientais das quais este é função. Não há
comportamento à parte do ambiente, e o ambiente só é significativo enquanto
ambiente comportamental.
Opondo-se a uma concepção mecanicista de causalidade, o
behaviorismo radical aponta três conjuntos de variáveis que determinam
seletivamente as probabilidades de ocorrência de classes de respostas
(denominadas operantes): variáveis filogenéticas, ontogenéticas e culturais
(Skinner, 1981/1984). Se nos for permitido utilizar um termo em voga, pode-se
afirmar que esta é a versão behaviorista radical de um modelo “biopsicossocial”
de compreensão do comportamento humano.

A Interpretação Behaviorista Radical da Atividade Científica

A atividade científica é atividade-em-contexto. Denominamos um ser


humano “cientista” porque ele se comporta de determinadas formas sob certas
circunstâncias, produzindo certas conseqüências. Um cientista é,
Alexandre Dittrich 18

simultaneamente, um organismo pertencente a uma espécie, uma pessoa com


uma história de vida singular e um membro de certa cultura. Se ignorarmos
qualquer um desses três conjuntos de fatores, estaremos impossibilitados de
explicar porque um indivíduo qualquer torna-se um cientista.
O comportamento do cientista é comportamento-em-contexto. Isso
implica a interação do cientista com variáveis ambientais. Dessas variáveis,
fazem parte não apenas os fenômenos estudados pelo cientista, mas também
a cultura da qual o cientista faz parte, muito especialmente a comunidade
verbal científica junto à qual o cientista desenvolve suas atividades. A atividade
científica é marcadamente verbal. O cientista discute e formaliza conceitos,
sustenta certos pressupostos, utiliza regras para guiar seu trabalho de
pesquisa e enuncia leis e teorias científicas. Uma comunidade científica só
investiga os fenômenos que conceptualiza. Estes passam a fazer parte dos
“jogos de linguagem” desta comunidade científica.
A ciência se define por suas conseqüências (ou “objetivos”), e deve ser
explicada – como, de resto, qualquer comportamento humano – através dessas
conseqüências. A própria permanência e crescimento da ciência enquanto
prática cultural se explica pelas conseqüências produzidas pela atividade
científica – as leis científicas e as técnicas derivadas dessas leis. Culturas
sustentam comunidades científicas, tanto materialmente quanto moralmente,
porque comunidades científicas produzem leis e técnicas úteis para a
resolução dos problemas que confrontam as culturas. Uma teoria
conseqüencialista do comportamento e da ciência, contudo, não compactua
com visões tecnicistas da ciência. Conseqüências úteis não se limitam, no
behaviorismo radical, a conseqüências tecnológicas – e a tecnologia, como
qualquer ação humana, não pode ser desvinculada da ética. As conseqüências
do comportamento são, sempre, éticas e políticas – conseqüências que afetam
não apenas o indivíduo que se comporta, mas também às demais pessoas com
quem este convive e à sua cultura. Voltaremos ao assunto em breve.
O gosto de um cientista pela ciência “pura”, pela “verdade pela verdade”,
a despeito de qualquer possibilidade de aplicação tecnológica posterior,
também é explicável a partir da perspectiva conseqüencialista do behaviorismo
radical. Culturas podem apoiar a prática de métodos científicos porque eles
As respostas 19

produzem “verdades” – isto é, porque tais métodos permitiram, em muitas


ocasiões passadas, a formulação de leis científicas que serviram como regras
úteis na interação dos membros da cultura com seus ambientes. O cientista,
por sua vez, pode ser ensinado por uma comunidade científica a valorizar a
simples aplicação de um método científico, por sua capacidade de produzir
“verdades”, ou de revelar “o mundo como ele é”. As conseqüências da
aplicação do método podem, a partir disso, ser suficientes para explicar porque
o cientista o aplica.
Tecnicamente, os analistas do comportamento diriam que os operantes
que integram as práticas denominadas “método científico” foram reforçados no
repertório comportamental do cientista. Denomina-se “reforço” qualquer
conseqüência de uma resposta operante que aumente a probabilidade
subseqüente de emissão das respostas pertencentes a um operante, diante de
situações similares. Esta “similaridade”, por sua vez, é definida pela presença
dos chamados “estímulos discriminativos” – isto é, características do ambiente
em cuja presença uma resposta pertencente a certo operante é reforçada ou
punida. Um “operante” é uma classe de respostas operantes que produzem
determinadas conseqüências sob certas circunstâncias. “Respostas operantes”
são instâncias do comportamento de um organismo que modificam seu
ambiente, produzindo certas conseqüências. Tais conseqüências apresentam
efeito seletivo sobre o repertório de operantes de um organismo – isto é,
podem aumentar (conseqüências reforçadoras) ou diminuir (conseqüências
punitivas) a probabilidade de ocorrência posterior dos operantes que as
produziram. Denomina-se “contingência de reforço” (ou punição) a relação
entre estímulos discriminativos, respostas operantes e conseqüências
seletivas. Quando um analista do comportamento fala em comportamento
operante, refere-se à relação entre comportamento e ambiente definida pelo
conceito de contingências de reforço.

Ciência, Utilidade e Verdade

O comportamento operante é útil quanto é reforçado, positivamente ou


negativamente. Um reforçador positivo é um objeto ou evento que aumenta a
probabilidade de ocorrência de um operante cujas respostas ocasionem sua
Alexandre Dittrich 20

apresentação ou aumento. Um reforçador negativo é um objeto ou evento que


aumenta a probabilidade de ocorrência de um operante cujas respostas
ocasionem sua remoção ou diminuição. Contudo, objetos ou eventos não
possuem valor reforçador universal. Através do processo denominado
“condicionamento operante”, objetos e eventos adquirem valor reforçador
diferenciado para diferentes organismos. Em linguagem vulgar, diríamos que
isso explica porque cada ser humano gosta (aprecia, valoriza, estima, etc.) de
objetos ou eventos diferentes – ou ainda, porque diferentes seres humanos
possuem diferente objetivos, ou diferentes valores.
Sob uma perspectiva contextualista, a consideração desta diversidade
de objetivos é fundamental para a discussão do significado da palavra
“utilidade”. O que é algo útil? É algo que permite a um ser humano alcançar
certos objetivos. Contudo, os objetivos dos seres humanos são os mais
diversos. Assim, é impossível definir o que é “essencialmente” útil ou inútil, de
forma abstrata. Só podemos definir se algo é útil ou não em relação a
determinado objetivo ou conjunto de objetivos.
A verdade – científica ou não – é algo útil: algo que permite aos seres
humanos alcançar certos objetivos. Comunidades científicas possuem certos
objetivos; outras comunidades possuem outros objetivos: “É uma distinção
entre os tipos de vantagens obtidas pela comunidade que permite-nos
distinguir entre subdivisões literárias, lógicas e científicas” (Skinner, 1957, p.
429). O comportamento literário, por exemplo, gera conseqüências
reforçadoras para o indivíduo e para os demais membros de sua cultura – e,
por isso, é reforçado pela cultura. Mas essas conseqüências não são,
necessariamente, “práticas” no sentido usual. Não obstante, as regras que
governam o comportamento literário podem ser mais ou menos reforçadoras –
isto é, mais ou menos úteis ou “verdadeiras”. O grau dessa utilidade depende
não só da execução do comportamento adequado diante das contingências
estabelecidas pela comunidade literária, mas também das práticas adotadas
por esta comunidade e pela cultura na qual esta se insere no sentido de
reforçar o comportamento literário de seus membros.
O contextualismo, contudo não se identifica com o relativismo. Ainda
além, o behaviorismo radical evita os jogos de linguagem típicos da oposição
As respostas 21

objetivismo-relativismo, introduzindo uma descontinuidade no discurso que


configura tal oposição (Abib, 2001). O “vale-tudo” do relativismo é estranho ao
contextualista. As práticas científicas são mais úteis, ou mais verdadeiras,
conquanto vise-se alcançar certos objetivos estabelecidos pelas ciências.
Práticas literárias são menos úteis ou verdadeiras diante de tais objetivos –
mas são mais úteis ou verdadeiras diante dos objetivos de comunidades
literárias. Uma perspectiva contextualista desautoriza concepções
essencialistas de utilidade e verdade.
Tampouco interessa ao contextualismo adotar os jogos de linguagem
típicos da oposição realismo-idealismo. O behaviorista radical não vê interesse
em discutir qual dentre as possíveis descrições do mundo – mesmo as
científicas – é mais ou menos “verdadeira”, no sentido realista da palavra: qual
delas, se alguma, “reflete” o mundo de forma mais acurada. A antiga definição
de “verdade” como adequação entre a mente (ou o discurso) e a realidade é
antitética ao contextualismo. Suponhamos que duas pessoas queiram, de
acordo com essa definição, decidir qual dentre duas afirmações sobre o mundo
(quaisquer que sejam) é a mais verdadeira – qual descreve a realidade de
forma mais verossímil. Seria possível a algum dos contendores exceder sua
própria subjetividade e lançar um rápido olhar sobre o mundo “como ele
realmente é”, retornando em seguida para contar as novas? Para o
contextualista, visões de mundo – científicas ou não – são necessariamente
subjetivas: subjetividade é comportamento de um sujeito-em-contexto, e é
interagindo com o mundo de formas particulares que um sujeito o conhece.
Poder-se-ia denominar tal postura como “idealista” – mas, lembremo-
nos, a discussão realismo-idealismo é estranha ao contextualista. Um idealista
(ao menos em sua versão “pura” ou “radical”) assume que o mundo com o qual
temos contato é uma criação subjetiva: um sujeito só tem contato com o que
lhe informam seus sentidos ou seu intelecto, e isso impede qualquer afirmação
sobre a existência de um mundo externo ao sujeito. Nenhuma dessas posturas
coaduna-se com o behaviorismo radical. A definição de subjetividade como
comportamento de um sujeito-em-contexto vai além de considerações sobre o
Alexandre Dittrich 22

“mundo interno” deste sujeito.4 Subjetividade implica interação com o ambiente.


Mas e este ambiente, é “real” ou não? Está correto o idealista, quando afirma
ser o mundo apenas um “mundo interno”, ou o realista, quando afirma a
existência de um mundo externo independente do sujeito que o conhece? Esta
é, para os objetivos do analista do comportamento, uma discussão pouco
interessante (embora possa ser intelectualmente estimulante). Seja o mundo
uma criação subjetiva ou uma realidade independente do sujeito, o fato é que
precisamos lidar com ele – precisamos manipulá-lo, visando certos objetivos.
Este fato não se modificará, seja qual for a possível solução do problema
filosófico em pauta. Questões ontológicas, via de regra, transformam-se, para o
behaviorista radical, em questões epistemológicas, e são julgadas de acordo
com sua possível contribuição para a epistemologia behaviorista radical.
Para o behaviorista radical, leis científicas são regras de conduta, e não
descrições da realidade. Leis científicas servem pra orientar o comportamento
de pessoas em situações específicas, visando certos objetivos: “Leis científicas
(...) não são, é claro, obedecidas pela natureza, mas por homens que lidam
efetivamente com a natureza” (Skinner, 1966/1969, p. 141). A função das
verdades científicas não é “des-velar” ou “des-cobrir” uma realidade que, por
algum motivo, insiste em se esquivar dos olhares humanos (Abib, 2001). Leis
científicas são instrumentos que permitem aos homens agir de forma útil:
modificar o mundo visando certos objetivos sob certas circunstâncias.
A objetividade dos enunciados científicos não se deve a uma suposta
“neutralidade” inerente à descrição científica do mundo. As comunidades
verbais científicas utilizam-se de técnicas especiais para reduzir ao mínimo a
“subjetividade” de tais descrições (Skinner, 1974, p. 144), mas isso não
significa que o comportamento dos cientistas na produção de conhecimento
seja, de alguma forma, imune ao controle por contingências – uma afirmação
que, de resto, soaria absurda. (De fato, o comportamento científico é mais
estritamente controlado do que o comportamento comum.) Uma lei científica é
uma descrição de contingências de reforço – isto é, uma regra – e, enquanto

4
Deve-se notar, contudo, que o behaviorismo radical não só não desconsidera a existência de
eventos comportamentais privados, como fornece novas perspectivas para a compreensão de
sua gênese. .
As respostas 23

tal, é “objetiva” se possibilita a outras pessoas comportarem-se efetivamente


diante daquelas contingências. Quando diversos cientistas enunciam as
mesmas leis diante das mesmas contingências, diz-se que houve uma redução
ao mínimo de suas contribuições pessoais5 (Skinner, 1974, p. 145). Porém,
para que isso ocorra, é necessário que: 1) as contingências descritas possuam
certas características relativamente estáveis e 2) os diferentes cientistas
exibam respostas verbais relativamente estáveis diante de tais contingências.
Assim, diferentes descrições de situações supostamente semelhantes devem-
se a diferentes práticas de controle nas diversas comunidades verbais. Um
poeta pode descrever certa situação de modos muito diferentes daqueles
empregados por um cientista. Sua descrição não será mais ou menos
verdadeira, visto que os objetivos – ou conseqüências – de sua descrição são
diferentes daqueles estabelecidos pela comunidade verbal científica (Skinner,
1974, p. 127).
Assim, não existe uma observação “pura”, isenta de preconceitos, sobre
um objeto. Não apenas a própria observação é, desde o início, um
procedimento interpretativo, como os enunciados verbais sob controle de
estímulos discriminativos estão impregnados de conceitos e teorias que
adaptam-se àquela forma particular de interpretação (Abib, 1997, p. 118).
Objetos são observados e descritos de diversas formas por espectadores
diferentes, de acordo com suas experiências passadas e atuais – vale dizer, de
acordo com as contingências de reforço passadas e atuais que controlam seu
comportamento na situação observada e descrita: “As descrições eliminam,
selecionam, não descrevem o que aconteceu tal e qual se passou. As
descrições são interpretações” (Abib, 1997, p. 148). Isso Skinner também
reconhece, apontando para as contingências de reforço como fontes da
diversidade de interpretações (1953/1965, p. 138-140; 1974, p. 127).

5 Se tomada em sentido literal, essa expressão é, obviamente, incorreta, pois “(...) o


conhecimento depende de uma história pessoal” (Skinner, 1956/1972, p. 271). O significado da
expressão é esclarecido na seqüência do texto.
Alexandre Dittrich 24

Ciência, Ética e Política

O behaviorismo radical é uma filosofia conseqüencialista do


comportamento. O comportamento humano, de acordo com esta filosofia, só
pode ser integralmente compreendido através da conjugação de variáveis
seletivas de ordem filogenética, ontogenética e cultural. Assim, analisar as
conseqüências da atividade científica é fundamental a partir de uma
perspectiva contextualista da ciência. As conseqüências da atividade científica
– como as de toda atividade humana – não são apenas conseqüências
reforçadoras ou punitivas. A ciência é uma prática cultural – e, como as demais
práticas culturais, a ciência produz conseqüências de longo prazo, que afetam
as possibilidades de sobrevivência das culturas e, em última análise, da própria
espécie humana.
A ciência é uma atividade com conseqüências éticas: conseqüências
reforçadoras e punitivas, mas também conseqüências com certo valor de
sobrevivência para as culturas. Enquanto prática cultural, a ciência visa certos
objetivos valorizados pelas culturas – em especial, visa permitir ou facilitar a
previsão e a intervenção sobre certos fenômenos. No horizonte das técnicas
científicas, encontraremos sempre conseqüências de ordem ética – o que
impede-nos de isolar técnicas “puras”, sem matizes políticos. Técnicas com
objetivos éticos são políticas – e não existem técnicas sem objetivos éticos (ou,
pelo menos, sem conseqüências éticas, mesmo que não planejadas). Técnica
e política são indissociáveis – visto que uma técnica posta em uso sempre
produz conseqüências de ordem ética, planejadas ou não.
O que dizer, porém, do cientista enquanto pesquisador? Não estará ele
produzindo um saber objetivo, a partir de uma visão eticamente neutra sobre
seu objeto de estudo? As possíveis relações entre ideologia e ciência são
assunto controverso – porém, via de regra, o cientista aprende que não deve
permitir que seus próprios pressupostos éticos ou políticos interfiram sobre a
produção e apresentação de dados científicos. De forma aparentemente
paradoxal, a comunidade científica – pelo menos no campo das ciências
naturais – possui uma ética interna que pune desvios como a personalização
ou politização dos dados científicos. O cientista aprende, em suma, a descrever
o mundo “como ele realmente é”, e não como ele supõe que seja, ou gostaria
As respostas 25

que fosse. A rigorosa obediência a esta regra traz valiosos dividendos: ela
contribui para a efetividade das leis científicas. Retomando as famosas
palavras de Bacon, “(...) a natureza não se vence, se não quando se lhe
obedece. E o que à contemplação apresenta-se como causa é regra na prática”
(1620/1999, p. 33). “Obedecer à natureza”, contudo, é um aprendizado, sujeito
a uma ética particular – e, ao menos nesse sentido, o pesquisador está tão
sujeito a influências éticas quanto qualquer ser humano.

Conclusão

Sob uma perspectiva contextualista e behaviorista radical, a


compreensão da atividade científica exige a análise do comportamento do
cientista enquanto membro de comunidades verbais inseridas em culturas. A
atividade científica gera conseqüências que explicam sua manutenção
enquanto prática cultural, e o comportamento do cientista, como o de qualquer
ser humano, também é explicado, pelo behaviorista radical, a partir das
conseqüências que produz. Produzir conhecimento é sempre atividade-em-
contexto – e, considerando a variabilidade de contextos epistemológicos
possíveis, as práticas de controle da produção de conhecimento também
variam entre as diferentes comunidades verbais. As regras estabelecidas pelas
comunidades científicas buscam possibilitar a produção de leis que permitam
manipular certos fenômenos visando certos objetivos. Estes objetivos, porém,
não se esgotam no aspecto tecnológico. Sob a perspectiva contextualista do
behaviorismo radical, ciência e ética não podem ser dissociadas, pois as
conseqüências geradas pelas técnicas científicas são também conseqüências
de ordem ética e política – conseqüências que transformam o mundo visando
certos objetivos.

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Eduardo Salles O. Barra 28

A ciência como conceito

Eduardo Salles O. Barra


Departamento de Filosofia/UFPR

Resumo: Análise das tentativas de estabelecer um critério de demarcação


entre ciência e filosofia, com base num conceito de ciência. O naturalismo
epistemológico é sugerido como alternativa tanto às demarcações
conceituais rígidas quanto à tese quineana de que "ciência e ontologia estão
em pé de igualdade".
Palavras-Chave: filosofia e ciência; critério de demarcação; epistemologia
naturalizada.

A ciência se converteu num objeto privilegiado de análise para a filosofia


desde épocas muito remotas. Pode-se inclusive suspeitar que tudo não passa
de uma questão de identidade: a filosofia parece ser incapaz de articular um
discurso coerente sobre sua própria natureza sem recorrer a juízos
comparativos (metafóricas ou não) entre si e a ciência. No século passado,
concomitantemente ao surgimento das questões canônicas da filosofia da
ciência, as discussões sobre as diferenças entre ciência e filosofia assumiram
uma posição a tal ponto central nesse campo de estudo que passaram a ser
reunidos sob o nome comum de "problema da demarcação". Popper, um dos
personagens mais ativos nesses debates nos anos 50 e 60, referiu-se certa vez
a esse problema como uma das duas fontes "de quase todos os demais
problemas da teoria do conhecimento" (1980, p. 9) – a segunda fonte seria o
problema da indução. No entanto, ocorreu que, à época de Popper e, em
grande parte, como efeito parcial das suas próprias especulações sobre a
natureza da prática científica, não apenas a filosofia estivera assolada por
questões de identidade, mas também a própria ciência, ao menos para aqueles
que desde o séc. XIX acreditaram ter encontrado no uso exclusivo de um
método – o chamado método científico – um argumento irresistível em favor do
presumido caráter sui generis das práticas científicas.
Isso, sem dúvida, representou uma grande reviravolta nas discussões
comparativas entre ciência e filosofia. Tomemos o séc. XVIII na filosofia. Ao
longo desse século, Hume e Kant fazem tentativas emblemáticas de colocar a
As respostas 29

filosofia em sintonia com a ciência da época – herdeira imediata da revolução


empreendida por Galileu, Kepler e Newton, entre outros, no século anterior. O
diagnóstico de ambos era o mesmo: a ciência está muito bem estabelecida –
exceto talvez pela ingerência espúria de uma metafísica que, nas palavras de
Kant, "falsamente procurasse compreender a si mesma" – e, em virtude disso,
realizou progressos tão extraordinárias naqueles anos recentes; ao passo que
a filosofia, pelo contrário, ainda não trilhou o caminho de uma ciência e, por
conseguinte, não parece ter avançado uma linha sequer do legado dos antigos.
Ora, essa cena muda radicalmente na segunda metade do séc. XX. Não que
se julgasse a filosofia em melhor estado do que estivera no tempo de Hume e
Kant. Talvez muito pouco se alterou na auto-imagem que filósofos nutriam da
sua atividade profissional. O surpreendente era que a ciência passou a ser
objeto do mesmo tipo de desconfiança que há séculos assolava a filosofia.
Como sugeri acima, essa nova situação pode ter sido precipitada pelo declínio
da crença nas credenciais epistêmicas de um presumido "método científico".
Invoco novamente Sir Karl Popper para fornecer um retrato dessa
época: "... a primeira tarefa da lógica do conhecimento é propor um conceito de
ciência empírica de modo a chegar a um uso lingüístico, que atualmente é um
tanto incerto, tão definido quanto possível, e de modo a traçar uma linha clara
de demarcação entre a ciência e as idéias metafísicas..." (1980, p. 13) Talvez
como a maioria dos seus predecessores, Popper compreendeu o problema de
articular um "conceito de ciência empírica" como um problema de metodologia;
tanto que acreditou que uma mesma solução serviria ao problema (conceitual)
da demarcação e ao problema (metodológico) da indução, a saber, o
falseacionismo. Todavia, por mais desinteressante que possa ser a solução
proposta por Popper para o problema por ele batizado de "problema da
demarcação", o seu modo de colocar a questão nos interessa sobremaneira.
Popper demanda por um conceito de ciência, reconhecendo que esse termo
tem atualmente um uso muito incerto ou, o que parece ser o mesmo, ambíguo.
A conseqüência disso é que, na falta de um emprego uniforme do termo
"ciência", não se pode nem ao menos cogitar "uma linha clara de demarcação
entre a ciência e as idéias metafísicas..." A solução do problema da
Eduardo Salles O. Barra 30

demarcação pressupõe, portanto, um conceito ou uma definição adequada de


ciência.
Os predecessores mais imediatos de Popper na filosofia da ciência
foram pródigos em propor soluções para esse último problema. Os positivistas
lógico fiaram-se em métodos semânticos – teorias do significado – para
determinar as formas genuínas da enunciação, admitindo de antemão que elas
se encontravam exclusivamente no domínio das proposições científicas. A
metafísica – nome genérico dado a toda filosofia refratária a reduzir-se a um
mero instrumento da análise lógica da linguagem –, por outro lado, deveria
concentrar as formas abusivas de emprego da linguagem, isto é, as pseudo-
proposições. Tudo parecia muito bem projetado e coerente com a convicção de
que deve haver "uma linha clara de demarcação entre a ciência e as idéias
metafísicas..." Todavia, por décadas, as diversas tentativas feitas pelos
positivistas lógico no sentido de identificá-la enredaram-se à mesma
dificuldade: a impossibilidade de articular um critério de significação
(genericamente, chamado de verificabilidade) capaz de excluir todas as idéias
metafísicas do domínio da ciência e apenas elas. Por vezes, um determinado
critério que se mostrava capaz de excluir explicações neo-vitalistas, por
exemplo, do domínio da biologia, tinha como conseqüência indesejável nos
obrigar a excluir também explicações evolucionistas amplamente aceitas pelos
biólogos. Essas e muitas outras dificuldades solaparam não apenas os
esforços dos positivistas do último século, mas também os do próprio Popper,
predispondo ao fracasso qualquer tentativa de articular critérios de demarcação
com base num presumido conceito de ciência.
É duvidoso que esse tipo de dificuldade seja suficiente para despachar
qualquer nova tentativa de articular um conceito de ciência como ociosa e
fadada ao fracasso. O fato é, no entanto, que, após o adeus ao método
científico, a filosofia da ciência contemporânea parece também disposta a dar
adeus ao conceito de ciência. Na possibilidade de que isso venha efetivamente
a ocorrer, toda pretensão de que a ciência possui uma natureza sui generis,
distinta da metafísica ou da filosofia de uma maneira geral, não significará mais
do que uma alegação sem qualquer sustentação conceitual, isto é, sem que em
seu favor possam ser alegadas razões derivadas das credenciais epistêmicas
As respostas 31

exclusivas da ciência. Nas palavras de um dos mais destacados defensores


atuais dessa posição, Larry Laudan, "a evidente heterogeneidade das
atividades e crenças habitualmente encaradas como científicas alerta-nos para
a provável futilidade de buscar uma versão epistêmica para o critério de
demarcação." (1996, p. 221)
Antes de prosseguir, convém demorarmos um pouco mais na análise
das idéias de Laudan sobre o problema da demarcação – ou, no entender
desse autor, sobre a sua necessária extinção. Conforme vimos na citação
anterior, um dos pontos de partida de Laudan é "a evidente heterogeneidade
epistêmica das ciências", que ele descreve como o fato de que se aceitam
tanto teorias bem-testadas quanto teorias que não o são, que há ramos da
ciência com altas taxas de progresso enquanto outros nem tanto, que algumas
teorias fazem muitas predições surpreendentes enquanto outras não fazem
nenhuma etc. Isso significa que nenhum desses supostos critérios –
testabilidade, progressividade ou fazer predições surpreendentes, entre outros
– valem como características distintivas da ciência com respeito às demais
atividades culturais. Na visão de Laudan, o que contam são as credenciais
empíricas e conceituais das crenças acerca do mundo, "o status 'científico'
dessas crenças é totalmente irrelevante." (1996, p. 222)
Essa última afirmação é suficiente para mostrar que Laudan compartilha
de convicções similares às que caracterizam um ponto de vista ainda mais
extremo sobre a necessidade de abandonar nossas as preocupações com o
problema da demarcação. Refiro-me a um autor em particular: Williard Quine.
Quine foi quem, num artigo clássico de 1950, intitulado "Os Dois Dogmas do
Empirismo", anunciou "o esfumar-se da suposta fronteira entre a metafísica
especulativa e a ciência natural" (1980:231), antecipando em algumas décadas
o quadro que viria a se consolidar com o fracasso das mais sofisticadas
tentativas de esclarecer conceitualmente o estatuto científico das crenças
intuitivamente tidas como tais. A dissolução da venerada fronteira entre a
metafísica especulativa e a ciência natural outra coisa não é que um mero
corolário da proposta quineana de supressão de outra fronteira mais ampla e
inclusiva, qual seja, a fronteira entre o empírico e o a priori – ou, do modo como
Quine mais constantemente se refere a ela, a distinção entre analítico e
Eduardo Salles O. Barra 32

sintético. As diferenças entre crenças tidas como a priori e empíricas, ou


analíticas e sintéticas, ou metafísicas e científicas deixam de ser encaradas
como diferenças de natureza ou espécie e passam a ser consideradas
diferenças de graus, pois nenhum enunciado tomado isoladamente pode ser
confirmado ou infirmado seja pela experiência seja pelo suposto significado dos
termos que nele ocorrem. A verdade de qualquer enunciado depende de um
duplo componente lingüístico e extralingüístico, sem cada qual possa ser
avaliado independentemente do outro.
A respeito da demarcação, as conclusões Quine podem ser ainda mais
desconcertantes para todas as tentativas futuras de promovê-la: "as questões
ontológicas estão no mesmo pé que as questões da ciência natural". Isso
significa que a ciência não pode demarcar sua província apoiada na confiança
de que as suas crenças – e somente elas – são sustentadas pela experiência.
Mas, do mesmo modo, isso significa que a filosofia ou a "metafísica
especulativa" não pode sustentar suas pretensões exclusivamente numa
suposta estrutura ou esquema conceitual conveniente. Quine anuncia o fim da
externalidade recíproca entre filosofia e ciência e, em seu lugar, sugere o
advento de uma epistemologia naturalizada.
A pergunta do prof. Pablo parte de um pressuposto nitidamente anti-
quineano. Ela sugere que, ao tomar a ciência como objeto de investigação –
como fazem filósofos, historiadores e sociólogos da ciência –, seja possível e
necessário assumir "uma perspectiva externa, alheia a sua própria natureza
investigativa". Está claro que, se nos orientamos por um ponto de vista
quineano, filosofia e ciência compartilham a mesma "natureza investigativa",
ainda que na primeira o componente empírico possa estar em posição inferior
ao componente lingüístico, mas sem jamais poder ser tomado como
completamente nulo – ou as pretensões filosóficas serem tomadas como
verdadeiras aconteça-o-que-acontecer-no-mundo. Desse ponto de vista, a
reivindicação de "uma perspectiva externa" em relação à ciência seria uma
mera reminiscência de uma época em que o emprego dos adjetivos "empírico"
e "a priori" denotava uma pretensa distinção exaustiva e exclusiva na totalidade
dos nossos pensamentos. Mas, ao menos para Quine, essa distinção é apenas
As respostas 33

um dos dogmas da tradição empirista que devem ser abandonados em favor


de uma naturalização dos nossos padrões de racionalidade.
Não pretendo aqui avaliar a plausibilidade do naturalismo quineano. A
mim, importa antes analisar como esse enfoque poderia sugerir uma forma
peculiar de interpretar a relação entre filosofia e ciência, de modo a contribuir
para o esclarecimento conceitual de ambas. Nesse particular, ocorre que a
adoção da perspectiva quineana acarreta justamente a dissolução recíproca de
ambas ou em colocar as questões ontológicas em pé de igualdade com as
questões da ciência natural e vice-versa. E aqui me interessa saber se a
adoção dessa perspectiva preserva a possibilidade de também levantar as
questões proposta pelo Prof. Michel Paty. É o que passarei a avaliar agora.
O ponto de partida do Prof. Paty é uma constatação: a ciência muda e
suas mudanças denotam progresso. O progresso, desse modo, poderia ser
considerado uma característica definidora da ciência, visto ser um fato a seu
respeito ou a respeito das mudanças que realiza ao longo do tempo. A dúvida
recai apenas sobre o significado desse fato, se ele aponta para uma diferença
entre conhecimento (relacionado com a idéia de movimento e de procura) e
saber (conjunto de conteúdos considerados estaticamente). Mas a pergunta
seguinte recoloca o problema em termos da identidade da ciência: deseja-se
saber se "o que se chama ciência é este saber, ou é também este
conhecimento em movimento". A questão, então, é: se o progresso tiver que
ser incorporado ao conceito de ciência, então ciência será mais que saber, será
também conhecimento. Se assim for, a questão seguinte destina-se a saber se
a racionalidade deve ser, ela mesma, parte do progresso científico ou do
"movimento que elabora a ciência". Por fim, o prof. Paty pergunta se essa
"ciência em elaboração" pode integrar a nossa agenda de "problemas
filosóficos".
Ora, começando pela última pergunta, a definição de um padrão de
racionalidade sempre foi um problema central da filosofia. Os antecedentes dos
atuais modos de traçar a demarcação entre ciência e filosofia, tais como a
distinção dos antigos gregos entre episteme e doxa, tinham justamente a
função de isolar os elementos distintivos do discurso racional. Na medida em
que identificamos na "ciência em elaboração" indícios de racionalidade, nada
Eduardo Salles O. Barra 34

mais natural que assumi-la como objeto da especulação filosófica. A dúvida é


como a ciência em elaboração pode revelar tais indícios de racionalidade ou
como a razão pode estar presente na ciência enquanto essa se encontra em
pleno processo de mudança.
Tudo leva a crer que as dúvidas retóricas do prof. Paty não fariam muito
sentido se encaradas da perspectiva proposta por Quine. Em primeiro lugar,
para o tipo de resposta afirmativa que o prof. Paty pretende para as suas
questões, deveria haver uma instância externa e anterior à "ciência em
elaboração" capaz de determinar ou ao menos delimitar o que deve ser a razão
ou um padrão de racionalidade. Em segundo lugar, essa instância externa e
anterior à "ciência em elaboração" não poderia ser outra senão a filosofia e, por
conseguinte, retornamos inevitavelmente a antigas crenças demarcatórias. Por
fim, o caráter progressivo de qualquer "ciência em elaboração" deveria ser
avaliado pela satisfatibilidade daquele padrão de racionalidade e não apenas
pelo critério pragmático-empirista de antecipação da nossa experiência futura.
Os últimos dois pontos parecem reverberar as conclusões de Putnam as
tentativas de tipo quineana de naturalizar a razão ou, em outros termos, de
eliminar o caráter normativo da filosofia – algo que, segundo ele, equivale a um
"suicídio mental" (cf. Putnam, p. 437).
As respostas afirmativas esperadas por Paty, assim como a
externalidade reivindicada por Pablo, dependem de que a filosofia possa dispor
de uma região do pensamento inacessível ou, no mínimo, incompatível com a
natureza das práticas científicas. A dificuldade de admitir essa possibilidade –
independentemente da sua factividade – é que ela parece exigir a reabilitação
do entulho dogmático banido por Quine. Em particular, ela exige que a
empresa filosófica seja concebida como uma forma genuína de conhecimento a
priori, sustentado talvez pelo venerável método da análise conceitual. A
solução para esse impasse pode estar em algum ponto intermediário entre
ambos os extremos, em algo que poderíamos chamar como fez Laudan de
"naturalismo normativo". Esse naturalismo normativo deveria ter como
característica central a crença na continuidade entre ciência e filosofia, mas
sem prejuízo da irredutibilidade mútua das regiões situadas nos pontos
extremos de cada um dos dois lados. Quiçá desse modo propriedades antes
As respostas 35

tidas como exclusividades da ciência e, em linhas gerais, motivadoras das


antigas doutrinas demarcatórias possam também ser identificadas na filosofia,
sem que isso signifique uma capitulação com respeito à sua natureza. Refiro-
me em particular ao progresso. A tese da continuidade entre ciência e filosofia
permite distinguir regiões dessa última – precisamente, aquelas que se mantêm
mais indistintamente ligadas à primeira – em que o progresso poderia ser
inequivocamente apontado – tão inequivocamente apontado quanto o pudesse
ser na ciência.

Bibliografia:

LAUDAN, L. (1996) "The Demise of the Demarcation Problem" in


___________. Beyond Positivism and Relativism; Theory, Method and
Evidence. Oxford: Westview Press, pp. 210-222.

QUINE, W. V. (1980) "Dois dogmas do empirismo" in PORCHAT, O. (org.)


Ensaios/Ryle, Austin, Quine, Strawson. São Paulo : Abril Cultural. 2.
ed., pp. 231-248. (Col. Os Pensadores)

POPPER, K. (1980) A Lógica da Investigação Científica. São Paulo : Abril


Cultural (Col. Os Pensadores).
João Carlos M. Magalhães 36

“A ciência como objeto”

João Carlos M. Magalhães


Departamento de Genética, SCB/UFPR

Agradeço à organização deste evento pelo convite para participar da


mesa de abertura. É uma honra e uma temeridade, pois não tenho formação
regular em história ou filosofia. Tenho, entretanto, grande interesse no assunto.
Em meu doutorado em biologia, tive o privilégio de ser orientado pelo Dr. Décio
Krause, que trabalha com lógico e filosofia da ciência. O trabalho teve,
portanto, caráter interdisciplinar. Investigamos alguns aspectos da estrutura
lógica de partes da biologia evolutiva. Ao contrário do que se faz comumente
em ciências, onde as teorias são desenvolvidas e utilizadas para a investigação
da natureza, tomamos as próprias teorias biológicas como objeto de
investigação. Isto é exatamente o que é colocado pelas perguntas formuladas
pelos Profs. Pablo Mariconda e Michel Paty. A idéia surgiu da constatação de
certas dificuldades que surgem quando se integra elementos da genética à
teoria da seleção natural de Darwin, particularmente problemas relativos à
extensão do conceito de fitness, originalmente aplicado a organismos, para os
genes e genótipos. Partimos de questões relativas à biologia evolutiva para a
discussão da natureza dos conceitos e estrutura das teorias envolvidas, o que,
acredito, caracteriza um interesse filosófico. O que vou falar, entretanto, não
deve ser encarado como o desenvolvimento de teses filosóficas originais, mas
como um simples depoimento de alguém que, proveniente das fileiras da
ciência, aproximou-se deste tipo de problema em decorrência da necessidade
de investigar os fundamentos do que fazia. Será, portanto, uma visão muito
particular.
A primeira constatação foi a grande diversidade de perspectivas
possíveis. As diversas disciplinas a partir das quais se pode tomar a ciência por
objeto, como a história, sociologia e a lógica, comportam diferentes
abordagens. Em cada perspectiva, entretanto, é necessário um certo
distanciamento, é preciso usar conceitos e métodos apropriados, nitidamente
distintos dos conceitos e métodos de investigação científica, e ainda mais
As respostas 37

distantes do ramo ou aspecto particular da ciência que está sendo investigado.


É isto que permite a visão crítica, característica do discurso filosófico, sem a
qual a história da ciência se degenera em mera coleção de fatos,
freqüentemente selecionados de modo arbitrário. Mas, por mais rigorosos que
sejam tais métodos, pela natureza do seu objeto, investigar a ciência implica
também em tomar posições que devem estar explícitas, claramente.
Em geral os problemas científicos são resolvidos de modo a se chegar a
soluções mais ou menos consensuais, com experimentos ou demonstrações,
ficando o debate restrito a áreas fronteiriças do conhecimento. Mesmo em
ciência, este aparente consenso pode ser ilusório. Em alguns momentos o que
antes parecia sólido torna-se vago e escorregadio e, algumas vezes percebe-
se que o método científico não é totalmente objetivo e que também tomamos
posições extracientíficas ao fazer ciência.
Na verdade a distinção entre os dois campos, ciência e estudo da
ciência, nem sempre é simples. Em alguns momentos a ciência e a filosofia da
ciência se aproximam, mesclando-se e fecundando-se mutuamente.
Muitos cientistas importantes, criadores de novas teorias que
expandiram as fronteiras do conhecimento, também atuam ou atuaram como
filósofos e historiadores da ciência. Posso citar como exemplo na biologia os
nomes de Ernest Mayr, Stephen Jay Gould e François Jacob, entre muitos
outros. Na verdade, o cientista que busca uma visão crítica da sua área tem de
ter pelo menos alguma familiaridade com certos aspectos de filosofia e história
da ciência. Tem de interpretar conceitos de alcance amplo e explorar relações
entre diferentes campos do saber. Freqüentemente é necessário considerar
conceitos e teorias do passado. Para isto é preciso reconstituir o modo de
pensar de uma época. Mas o cientista raramente tem a formação necessária.
Simplesmente não é treinado para isto. Tende a pensar o passado de uma
perspectiva contemporânea, a partir de seu próprio campo de atuação, mas as
questões de fundo retornam em alguns momentos. Ao fazer história da ciência
pode, por exemplo, estar tomando posições dentro do embate científico
contemporâneo e não distinguir estas posições da discussão propriamente
histórica.
João Carlos M. Magalhães 38

A perspectiva filosófica é muito relevante para a atividade científica


propriamente dita. Sem uma crítica efetiva e bem fundamentada o pesquisador
pode incorrer em erros que agem no sentido de limitar sua criatividade ou até
mesmo colocá-lo em um caminho equivocado. Às vezes isto implica em
questões éticas e até políticas. Principalmente entre estudantes das disciplinas
científicas é comum reduzir estes questões complexas a soluções simplistas.
Podemos citar, por exemplo, a controvérsia em torno do chamado
“reducionismo genético” e o “determinismo social” levou a posições extremadas
e ainda tem causado equívocos no estudo do comportamento. Assim, nunca é
demais destacar a importância da crítica externa para o trabalho do cientista e
para a formação do estudante de ciência.
Quando trabalha com disciplinas específicas, o filósofo e o historiador,
por sua vez, têm que conhecer conteúdos e métodos destas disciplinas, o que
pode ser bastante árduo, especialmente se trata períodos históricos mais
recentes, quando os conceitos e teorias científicas tornaram-se muito
complexos e distantes do senso comum. Embora distintas da ciência
propriamente ditas, história e filosofia da ciência são áreas por natureza
interdisciplinares.
Quando alguém, com formação predominantemente científica, defronta-
se com questões relacionadas à filosofia e história, necessita interagir com
pesquisadores destas áreas. Mas esta é uma via de mão dupla; parece-me
essencial que os filósofos e historiadores da ciência ouçam os próprios
cientistas, não apenas suas teorias e resultados experimentais, mesmo quando
estes não estão tratando diretamente de questões históricas ou filosóficas, pois
o objeto de estudo de uns é precisamente o processo e resultado da atividade
dos outros.
Vamos considerar a distinção entre conhecimento, tomado como
processo, e saber, como conjunto de conteúdos acabados ou estáticos,
conforme colocado pela questão do Prof. Paty. Esta distinção não é apenas
possível como também é necessária, especialmente para finalidades didáticas,
mas ela pode ser um pouco arbitrária e às vezes nebulosa. A ciência é
freqüentemente apresentada em livros texto como coleção de conteúdos bem
estabelecidos, mas é preciso considerar a dinâmica da aquisição deste saber.
As respostas 39

O progresso da ciência não é linear e contínuo, nem caminha diretamente para


o pensamento contemporâneo como único movimento possível. Mesmo
quando se estuda o trabalho de um cientista em um período particular da
história, é preciso situá-lo no movimento geral das idéias. Como fazer isto
depende da vertente teórica adotada pelo historiador.
Neste sentido, um aspecto a ser explorado é o papel das teorias em
ciência. Como é bem conhecido, de acordo com a concepção tradicional
associada ao positivismo lógico, poderíamos pensar nas teorias da ciência
como algo passível de ser reconstruído racionalmente, como sistemas lógicos,
conjuntos de proposições e suas conseqüências. No caso de ciências da
natureza, o teste empírico poderia fornecer, de algum modo, o crivo para se
verificar a validade ou adequação das teorias. Não se pode fazer injustiça às
formidáveis contribuições propiciadas pela análise da estrutura lógica das
teorias científicas realizadas dentro desta concepção, com todos os seus
desdobramentos, mas, como se sabe, esta visão tem suas limitações. O modo
como se faz a caracterização das teorias científicas não é consensual, cada
tentativa representa apenas uma visão possível das mesmas. De qualquer
modo, pode-se pensar no progresso científico como uma sucessão de teorias
cada vez mais poderosas, no sentido de fornecer melhores explicações para os
fatos conhecidos, gerar novos conhecimentos, aplicações e também novos
problemas.
O que se entende normalmente por “ciência” não é só teoria. Existem
experimentos, dados, resultados, aplicações, conclusões, entre outras coisas.
Influências externas, isto é, culturais, sociais, econômicas ou políticas, podem
ser fundamentais em cada etapa do desenvolvimento da ciência. Aspectos
psicológicos também devem ser levados em conta. A distinção entre um
“contexto da descoberta” em que o cientista estaria sujeito a todos estes
condicionantes, e um “contexto da justificação”, em que ele apresentaria seus
resultados re-elaborados, entretanto, pode dar a falsa impressão que a
racionalidade intervém apenas após o trabalho científico, como mera
justificação do mesmo.
Podemos aceitar que, de fato, a ciência não é uma atividade totalmente
racional. A maior parte do tempo o cientista trabalha dentro do que Khun
João Carlos M. Magalhães 40

chamou de ciência normal, no interior de um paradigma, resolvendo “quebra


cabeças”. Estas atividades não são banais, têm suas próprias dificuldades,
mas o pesquisador atua principalmente como um técnico, não precisa durante
todo o tempo distanciar-se e refletir sobre o conjunto destas atividades nem
como elas se inserem no campo maior da ciência. Em diversos momentos,
entretanto, precisa questionar o que está fazendo, por exemplo, ao escolher
um tema de pesquisa, justificar resultados inesperados, encontrar lacunas ou
inconsistências no raciocínio normalmente aceito, etc. Enquanto planeja,
discute seu trabalho ou dialoga com outras áreas, o cientista pode questionar
coisas que vão além de seu próprio campo de trabalho, como os fundamentos
em que se assentam as teorias ou os métodos que utiliza e, ainda que de
modo informal, e no sentido comumente apontado para o termo, ele está sendo
racional.
Deste modo, parece-me que a ciência em elaboração pode ser um
campo de problemas filosóficos, na medida em que o cientista tem que tomar
posições a respeito de questões que extrapolam os limites do conhecimento
científico. Dependendo de como ele se posiciona em questões metafísicas, por
exemplo, pode interpretar de diferentes maneiras um conceito ou pode optar
por diferentes abordagens em seu trabalho. Tomar consciência clara destas
posições pode representar uma influência positiva, e às vezes essencial, para
este trabalho.
Além disto, o resultado de suas atividades pode ter implicações éticas e
políticas, difíceis de serem percebidas a partir de uma perspectiva individual ou
tecnicista e sem o recurso a outros campos do saber. Exemplo disto é a
discussão atual das normas para regulamentar a pesquisa biotecnológica, as
quais devem considerar aspectos técnicos e científicos, mas não se esgotam
apenas nisto. Dependendo como a sociedade lida com tais questões, isto
também irá influenciar de diversas maneiras o desenvolvimento científico. Por
estas razões, insisto, a crítica externa é importante para o cientista. Por outro
lado, os avanços da ciência colocam em nova perspectiva conceitos
tradicionalmente abordados pela filosofia como as noções de matéria, vida,
individualidade e mente, entre uma infinidade de outras, forçando a
rediscussão e o aprofundamento de tais temas, dentro e fora da academia.
As respostas 41

Ora, o que é ciência?

José Borges Neto


Departamento de Lingüística/UFPR

A questão que o Pablo coloca é muito interessante, porque muito


reveladora de pressupostos ideológicos que enviesam a discussão sobre a
natureza dos estudos que tomam a ciência, seus produtos e produtores, como
objeto.
Arrisco dizer que a ciência é uma atividade humana, coletiva, que tem
por objetivo a busca do conhecimento seguro, fundamentado. É um “fazer” que
existe há muito tempo e que se modifica com o passar do tempo (se modifica
na sua forma e se modifica enquanto reflexão sobre si mesma).
Bastante importante – mas não essencial, eu diria – é a “tipologia” que
se aplica a esse fazer. Com base, particularmente, na delimitação dos
domínios (das “áreas de atuação” de diferentes cientistas) distinguem-se tipos
diferentes de ciência (Física, Biologia, Lingüística, Antropologia, História) e
subtipos desses tipos (física quântica, genética, embriologia, antropologia
física, antropologia social, etc.). Ressalto que não considero essencial essa
“tipologia” porque ela não é natural (resulta de um certo olhar – histórico e
ideológico – sobre esse fazer). Eu diria que são aspectos históricos,
sociológicos, lingüísticos, éticos, etc., que fazem com que cientistas se digam
geneticistas, ou bioquímicos; mais do que aspectos “objetivos”, propriamente
ligados ao objeto (observacional ou teórico).
Eu diria que esses diversos tipos de ciência se colocam num grande
plano em que todos os tipos têm relações de semelhança e de diferença com
os outros: nenhum é igual ao outro e são possíveis n agrupamentos distintos a
depender do critério tipológico utilizado. Se eu olhar por um lado, coloco a
lingüística junto com a física acústica; se olhar por outro lado, coloco a
lingüística junto com a sociologia (e lingüística não é – nem se reduz a –
sociologia ou física acústica).
Creio que é num quadro como esse que podemos abordar a questão
colocada pelo Pablo.
José Borges Neto 42

Não creio que a ciência seja um objeto natural. Logo, não vejo porque
deveria haver, necessariamente, uma ciência da ciência. Também não vejo
porque não poderia haver uma ciência da ciência. A ciência não seria um
objeto mais misterioso ou esquivo do que a linguagem, por exemplo. Assim
como a Lingüística é possível – e engloba estudos tão distintos quanto a
fonética, a semântica formal, a neurolingüística, a sociolingüística, a lingüística
histórica e a análise do discurso – seria possível uma “cienciologia”, que
englobaria estudos tão distintos quanto a história da ciência, a antropologia da
ciência, a sociologia da ciência, a psicologia da ciência, a filosofia da ciência,
etc.
Certamente, a ciência da ciência teria que ver externamente o fazer
científico e os seus resultados (TODA ciência vê externamente o seu objeto).
Embora eu não acredite que haja algum fundamento ou utilidade para a
distinção entre ciência natural e ciência humana, essa ciência da ciência seria,
por excelência, uma ciência humana. E enfrentaria os mesmos problemas que
outras ciências humanas enfrentam.
Não posso concordar, no entanto, com a afirmação (se é que é, de fato,
uma afirmação) de que qualquer reflexão sobre a ciência seria filosófica. O
filósofo não tem o monopólio do pensar a ciência. Ao contrário, como pensava
Bachelard (ouvi isso do Granger), o filósofo da ciência é que tem que ser, antes
de tudo, um cientista (até para saber do que está falando).
Antes de encerrar, creio que vale dizer algumas palavras sobre a
questão da natureza investigativa própria da ciência a que Pablo faz alusão.
Creio que aí por trás está um pressuposto de que a ciência deve ser
definida como um método, como um modo de pensar. Eu diria que os
"processos investigativos" não são iguais para todos os tipos de ciência. Em
conseqüência, não creio que haveria razão para supor que a ciência da ciência
não pudesse ter "processos investigativos" próprios, tão "científicos" como
qualquer outro
Na questão colocada pelo Michel, há dois pontos centrais que eu
gostaria de comentar. O primeiro é a questão da definição do que é ciência –
ponto que já abordei no comentário anterior, mas que não aprofundei para
poder retoma-lo aqui. O segundo é a questão da racionalidade.
As respostas 43

Como já disse antes, a ciência é uma atividade humana que tem por
objetivo a busca do conhecimento fundamentado. Logo, a ciência comporta
tanto o lado da busca do conhecimento como o lado do conhecimento que
obtém. E creio que cada uma dessas coisas pode ser observada e analisada
deforma independente (embora todos os aspectos se relacionem). Por
exemplo, é possível estudar os sujeitos envolvidos neste “fazer”, suas crenças,
seus comportamentos, e fazer uma psicologia dos cientistas. É possível
estudar as formas de convencimento de que lançam mão esses sujeitos para
impor aos outros os conhecimentos que obtiveram, e que consideram
verdadeiros, fazendo uma retórica da ciência. É possível estudar as várias
formas que esse fazer assume no decorrer da história, permitindo uma história
da ciência. É possível estudar as diversas feições que esse fazer assume
quando voltado a domínios distintos, na forma de uma tipologia da ciência (ou
uma ciência comparada). É possível, por outro lado, buscar invariantes do fazer
científico por sobre as várias ciências. E, é possível, também, ater-se aos
conhecimentos obtidos por uma determinada ciência, olhando a consistência
interna desses conhecimentos de forma a tomá-lo como um sistema.
Como também já disse antes, a ciência não é um objeto mais misterioso
do que a linguagem. E na lingüística co-existem (nem sempre harmonicamente,
reconheço) abordagens, digamos, “estruturalistas”, que tomam as línguas
como conjuntos de produções lingüísticas (enunciados), que têm sua lógica
interna investigada, ao lado de abordagens “gerativas”, que tomam as línguas
(os conjuntos de enunciados) como fenômenos que resultam de algo mais
profundo e fundamental – uma gramática interiorizada, na proposta de
Chomsky, ou um conjunto de condições de produção, externas, por definição,
na proposta das análises do discurso.
Enfim, a questão de se ter que escolher entre o processo ou o produto,
é, na minha opinião, uma falsa questão. Pelo mesmo caminho vai a questão da
busca da racionalidade apontada no mote do Michel: também é uma falsa
questão.
Concordo com Lakatos quando ele diz que a racionalidade da ciência é
construída a posteriori. Assim, ao tomar a ciência como objeto, a última coisa
que deveríamos fazer é supor que lá iremos encontrar racionalidade. A busca
José Borges Neto 44

da racionalidade é um movimento que supõe no objeto algo que eventualmente


o objeto não tem.
Todo cientista – os que estavam certos e os que estavam errados; os
que inauguraram paradigmas e os que sumiram nas trevas do esquecimento –
acha que está agindo racionalmente. Uma das tarefas do estudioso da ciência
– e aqui creio que se trata de uma tarefa própria do filósofo da ciência – é a de
dar, estabelecer, definir, construir a racionalidade do sistema sob análise.
Finalmente, uma última palavra sobre a questão do Michel. Ele pergunta
se a ciência em elaboração é um campo de problemas filosóficos. E eu diria
que tudo é campo de problemas filosóficos, não só a ciência em elaboração.
EIXO TEMÁTICO 1:
MATEMATIZAÇÃO DA NATUREZA;
MECANICISMO;
FILOSOFIA DA NATUREZA
A natureza do mecanicismo cartesiano

César Augusto Battisti


Professor da Graduação e do Mestrado em Filosofia/UNIOESTE

RESUMO: O presente texto começa por apresentar características gerais


do mecanicismo clássico para, em seguida, examiná-lo a partir de seu maior
representante: Descartes. O mecanicismo cartesiano é exposto em quatro
pontos. O primeiro discute a crítica à visão teleológica da natureza e a
transposição indevida de propriedades feita do mundo da vontade e
humano para o mundo físico. Em seguida, faz-se a discussão do
mecanicismo sob o ponto de vista filosófico, físico e fisiológico. Em termos
filosóficos, a distinção entre corpo e alma garante a independência do
mundo físico em relação ao da alma, bem como lhe atribui, como essência,
as qualidades mecânico-matemáticas. Do ponto de vista físico, é garantida
a suficiência dessas qualidades para a explicação dos fenômenos naturais,
de sorte que não é preciso admitir, aí, a existência das ditas qualidades
secundárias. O mecanicismo ocorre também no âmbito interno das
sensações ou fisiologicamente, de modo que as qualidades secundárias
tampouco se originam ou têm importância nesse processo. E, assim, há
uma continuidade plenamente mecânica entre o âmbito físico e fisiológico,
não emergindo tais qualidades senão por intervenção ou por "interpretação"
da alma.
PALAVRAS-CHAVE: Descartes; antifinalismo físico; máquina;
matematização; mecanicismo físico; mecanicismo fisiológico.

1. VISÃO GERAL:

O mecanicismo foi certamente o grande movimento intelectual do século


XVII, do qual, com exceção dos escolásticos remanescentes, fizeram parte
praticamente todos os grandes filósofos e cientistas da época. Ele foi uma
espécie de mentalidade, de visão de mundo, uma espécie de "paradigma"
partilhado pela maioria dos sábios setecentistias, ainda que muitos destes não
tenham aceitado essa ou aquela de suas teses centrais.
O mecanicismo, em seus aspectos mais gerais, pode ser definido como
um modelo explicativo das mais diferentes manifestações do mundo natural a
partir de cinco eixos básicos: 1) a uniformização e a redução das entidades e
processos existentes na natureza, de modo que todo fenômeno possa ser
explicado por meio de elementos simples, tais como a matéria e o movimento,

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
A natureza do mecanicismo cartesiano 47

e de seus diferentes arranjos e combinações; 2) a utilização de modelos


explicativos, inspirados na concepção e funcionamento das máquinas, de sorte
que os fenômenos naturais possam ser entendidos como mecanismos
semelhantes aos inventados pelo homem e cujo conhecimento implique a
possibilidade de sua decomposição e reconstrução e, portanto, de sua
reprodução e imitação; 3) a introdução da matemática como instrumento de
análise e de explicação científica, de maneira que o conhecimento de um
fenômeno só estará completo se puder ser traduzido, em algum sentido,
quantitativa ou geometricamente; 4) a substituição da distinção entre coisas
naturais e coisas artificiais pela distinção entre mundo humano e mundo
natural, entre o mundo da liberdade e da consciência, por um lado, e o mundo
do determinismo material, por outro, de modo que não se poderá mais transpor
propriedades entre eles nem avaliar um a partir do outro; 5) a clara distinção
entre causa final e causa eficiente ou operativa, com a conseqüente negação
da possibilidade de conhecer, caso houver, as causas finais da natureza.
Ainda que não se possa afirmar que esses cinco fatores tenham
emergido separadamente e tenham contribuído de modo distinto e
independentemente, é possível relacionar, de forma mais direta, algumas
características do mecanicismo a cada um deles. Algumas relações serão
apresentadas abaixo.
O primeiro fator, o da homogeneização do real e conseqüente redução
de seus constituintes básicos, trata fundamentalmente da relação entre a
manifestação multíplice e variada da realidade natural e a tentativa de abarcá-
la sob certos princípios unificadores. No interior dessa discussão, nasceu o que
ficou conhecido posteriormente como a distinção entre as qualidades primárias
ou objetivas e as qualidades secundárias ou subjetivas. Como se pode
perceber, essa operação de homogeneização implica uma nova ontologia, uma
ontologia reducionista, mais simples e mais clara. E essa atitude não se opõe
somente à atribuição de um estatuto ontológico à realidade múltipla captada
pela sensibilidade, mas também à perspectiva que aceita o extraordinário, as
coisas estranhas e milagrosas na natureza. A perspectiva mecanicista não
aceita, portanto, a descontinuidade e a exceção na natureza, em cujo âmbito
César Augusto Battisti 48

nasce, além da tese da redução das entidades básicas ao mínimo possível, a


idéia da existência de leis universais e invioláveis.
O segundo fator, o da construção de modelos explicativos de natureza
mecânica, está ligado, em grande parte, à atitude voltada à emancipação
científica do saber técnico-artístico renascentista e à tese da negação da
distinção entre objetos naturais e objetos artificiais, entre natureza e arte, entre
conhecer e criar. Nesse sentido, não há mais uma distinção de essência entre
coisas naturais e coisas artificiais, entre as coisas criadas por Deus e as
inventadas por nós, e, portanto, aos homens é permitido reproduzir grosseira e
parcialmente a obra divina. Do ponto de vista epistemológico, isso significa
que, para conhecer a natureza, é possível – e por vezes necessário – explicá-la
a partir das engenhocas criadas pelo homem. Portanto, é possível inventar
mecanismos, máquinas ou modelos mecânicos que permitam compreender a
natureza. Mais do que isso, essa perspectiva permite interpelar a natureza,
reproduzi-la em laboratório – de onde nasce a idéia da experimentação – e
usar tecnologias para conhecê-la, como é o caso do telescópio de Galileu. Isso
significa que o homem pode agir sobre a natureza, para conhecê-la e para
transformá-la, para o bem ou para o mal. Do ponto de vista das nossas
faculdades e capacidades, isso significa que conhecer é imaginar, é usar a
imaginação, mais do que os sentidos, para criar modelos explicativos. A
imaginação passa a ser um instrumento fundamental de acesso à realidade
inobservável ao lado da razão, mas, ao mesmo tempo, introduz o problema da
realidade do objeto imaginado. Surge, assim, o problema do realismo e do
instrumentalismo na ciência.
Vemos aqui também como esse fator está ligado ao anterior. Ao dar
importância à imaginação (supervisionada pela razão) em detrimento dos
sentidos, o mecanicismo está dando prioridade às coisas pensadas em
detrimento do mundo imediato da experiência cotidiana. O real não é a
multiplicidade aparente, mas algo alcançado por meio de critérios
estabelecidos teoricamente. Assim, o mundo das coisas encontradas no nosso
dia-a-dia e também o mundo das coisas misteriosas, enigmáticas, curiosas ou
extraordinárias não exercem nenhum fascínio sobre o filósofo natural e são
relegadas ao estatuto de coisas ilusórias ou fantasias. Portanto, não se pode
A natureza do mecanicismo cartesiano 49

confundir imaginação com fantasia. Não se pode confundir o sábio com o


poeta, ainda que ambos se assemelhem quanto à sua capacidade criadora.
O terceiro fator citado é o da introdução da matemática na estrutura
explicativa dos fenômenos naturais. Aqui é preciso distinguir dois tipos de
matemática, como dirá Descartes, uma abstrata, que trata de um assunto
puramente matemático, e outra, voltada à explicação dos fenômenos físicos.
Mas, mesmo neste último caso, não se trata de uma física matemática tal como
nós a entendemos hoje. Antes de Newton, a introdução da matemática no
conhecimento da natureza não significou plenamente, em muitos casos, a
introdução do cálculo e a completa transposição matemática dos fenômenos
explicados, nem a introdução de conceitos definidos claramente por relações
matemáticas. Ao contrário, a matematização da natureza foi, antes de tudo, a
introdução de uma racionalidade matemática. E isso significa: uma oposição à
racionalidade ligada à sensibilidade e ao mundo da qualidade; uma
racionalidade que pensa com a clareza presente na matemática e com o
processo demonstrativo dessa ciência; uma racionalidade que reduz os
elementos explicativos a elementos com propriedades quantificáveis e
geometrizáveis, mas sem operar necessariamente de modo efetivo quantitativa
e geometricamente sobre eles. O discurso permanece ainda, em muitos casos,
qualitativo, ainda que feito sobre entidades de natureza quantitativa.1
Quanto ao quarto fator, o da distinção entre mundo da vontade e da
liberdade e mundo natural e determinístico, os mecanicistas em geral
pretendem se opor à concepção de natureza entendida como manifestação de
um princípio vivo ou como algo governado por força vitais ou causas finais. Ao
mesmo tempo, ainda que por razões distintas, eles se opõem a todo tipo de
antropomorfismo, seja em função da discussão sobre a "infinitude" do mundo
frente à "pequenez" humana e sobre a possibilidade da existência de outros
seres inteligentes, seja em função do fato de que o antropomorfismo é
injustificável por ser uma extrapolação do âmbito humano para o da natureza
física e, portanto, por ser uma aplicação de categorias espirituais ou humanas

1Em outros casos, entretanto, poderíamos dizer que o processo de matematização foi além,
mesmo bem antes de Newton. Tal é o caso de fenômenos óticos, que receberam tratamento
geométrico desde os gregos, mas também de fenômenos como o da queda dos corpos.
César Augusto Battisti 50

ao mundo material. Um universo criado para o homem e, mais do que isso,


estruturado de forma análoga ao homem não é mais aceito. Mas, para isso, foi
preciso estabelecer a separação entre corpo e alma, entre liberdade do espírito
e necessidade física, bem como estabelecer uma teoria do conhecimento e
uma teoria da percepção que distinguissem claramente a significação subjetiva
do mundo da sua realidade propriamente dita.
Nessa perspectiva, vemos como o quinto e último fator está ligado de
forma imediata ao anterior: a atribuição de causas finais ao mundo natural, a
exemplo do mundo humano, é um desrespeito à distinção entre esses dois
mundos. Esse ponto será desenvolvido um pouco mais abaixo, tomando por
base o pensamento cartesiano.

2. Antifinalismo cartesiano:

Para os mecanicistas em geral, o combate ao finalismo na natureza é o


contraponto da defesa da visão mecânico-matemática do mundo físico.
Examinaremos esse ponto dentro do pensamento cartesiano e, com isso,
deixaremos de tratar do mecanicismo em geral, para nos dedicarmos ao de
Descartes, o seu mais radical representante.
Quanto ao caráter não-teleológico da natureza, Descartes apresenta um
argumento central, desenvolvido em dois tempos. O primeiro trata da
incomensurabilidade entre nossa finitude e a infinitude divina. O segundo trata
da esterilidade ou da inoperância da causalidade final em vista do
conhecimento das coisas, bem como da projeção indevida de características
do mundo humano e da vontade sobre o mundo natural.
A primeira parte do argumento, que pode ser encontrada nas
Meditações2 (Meditação Quarta, § 7) e nos Princípios (Parte I, art. 28),
contrapõe finitude humana e infinitude divina, de onde se segue que podemos
conhecer a Deus, mas não compreendê-lo. Em outras palavras, ainda que
possamos conhecer vários atributos divinos, não podemos conhecer a todos,
bem como não podemos determinar os fins pelos quais Ele criou o universo e a

2
As referências à obra cartesiana são dadas a partir da edição standard de Adam e Tannery
(AT).
A natureza do mecanicismo cartesiano 51

nós mesmos. Há mistérios divinos que permanecerão como tais, e querer


desvendá-los é uma atitude indigna e de desrespeito a Deus. Diz a Meditação
Quarta:

"Pois, sabendo já que minha natureza é extremamente fraca e limitada, e, ao


contrário, que a de Deus é imensa e incompreensível e infinita, não mais tenho
dificuldade em reconhecer que há uma infinidade de coisas em sua potência cujas
causas ultrapassam o alcance de meu espírito. E essa única razão é suficiente para
persuadir-me de que todo esse gênero de causas que se costuma tirar do fim não é
de uso algum nas coisas físicas ou naturais; pois não me parece que eu possa sem
temeridade procurar e tentar descobrir os fins impenetráveis de Deus" (AT, IX-1,
p.44).

Nos Princípios (Parte I, art. 28), Descartes faz algumas considerações


semelhantes à citação dada das Meditações, mas, além disso, estabelece a
distinção entre a causa final e a causa eficiente, entre a busca dos fins e a dos
meios ou modos pelos quais Deus produziu algo. Diz o texto: "Não se deve
examinar o fim pelo qual Deus fez cada coisa, mas somente o meio pelo qual
Ele quis que ela fosse produzida" (AT, IX-2, p. 37).
A distinção entre causa final e causa eficiente é uma distinção entre o
fim, o "em vista do que" algo é feito e a realidade mínima necessária para
produzir algo. Essa distinção nos encaminha para a segunda parte do
argumento cartesiano contra o finalismo.
Ela consiste no seguinte: se, por um lado, os desígnios divinos são
insondáveis ao intelecto humano, por outro, eles parecem não deixar rastro
algum na criação. A única exceção é talvez a capacidade ilimitada da vontade
humana. Afora isso, o produto divino, tal como o humano, não conserva o fim
para que fora feito, enquanto conserva de algum modo a sua causa eficiente.
Afirma Descartes, na sua Entrevista com Burman: "o conhecimento do fim não
nos faz penetrar no conhecimento da coisa mesma, cuja natureza não nos
resta menos escondida" (AT, V, p. 158). Em outras palavras, não podemos
descobrir a natureza de uma coisa a partir de sua finalidade, ainda que ela
tenha sido produzida em função de um fim. E Descartes parece estar disposto
a aceitar também o contrário: a natureza ou essência de algo não revela seu
César Augusto Battisti 52

fim,3 a menos que o expresse de forma volitiva, o que o mundo físico não pode
fazê-lo.
Por definição, a causa final não está presente no efeito e, portanto, não
é manifesta. Ela é algo que não é imediatamente dado e, portanto, precisa de
uma interpretação. Assim, ela não recai sob os preceitos da evidência, do claro
e distinto, por não se apresentar imediatamente à mente.
Entretanto, não estando manifesta, ela poderia talvez ser descoberta
retroativamente, a partir do meio ou efeito. Mas essa perspectiva também é
fadada ao fracasso, pois o efeito denuncia a causa, mas uma causa que lhe
seja suficiente e, de algum modo, semelhante. A causa deixa sua marca no
efeito, mas somente na proporção dada pelo próprio efeito. Tal é o que diz o
princípio "do nada nada provém". Essa relação entre causa e efeito, porém, é
uma relação entre a causa eficiente e o efeito e não entre a causa final e o
meio para realizar o fim.
De um modo geral, podemos concluir, portanto, que, no que concerne ao
mundo físico, ainda que ele seja obra do criador e que, portanto, Deus tenha
agido conforme um ou mais fins, Descartes não vê como conciliar a abordagem
mecânico-matemática, nem uma abordagem clara e distinta da natureza com o
recurso à teleologia. Por um lado, os fins são inacessíveis, mas, além disso, os
fins não são quantificáveis, nem apreendidos dentro do quadro metodológico
do simples - complexo.
Além disso, há o problema de a natureza dever ter consciência de seus
próprios fins. Que ela tenha fins, isso Descartes parece admitir, pelo menos
para a natureza em seu todo. Mas que tais fins estejam inscritos de algum
modo na natureza, Descartes talvez duvidaria. De todo modo, se eles
estiverem, de algum modo, inscritos nela, ela não tem consciência. E, se ela
não tiver consciência deles, ela não pode realizá-los efetivamente. Portanto,
eles são inúteis à natureza em si. Logo, se eles estiverem inscritos nela, eles
devem ser redefinidos em termos determinísticos. E, portanto, o que temos a
conhecer são as leis fixas que Deus impôs à natureza.

3Essa afirmação talvez seja problemática no campo da biologia e da medicina, uma vez que
essas ciências, mesmo em Descartes, dificilmente desvinculam o estudo de um órgão (tal
como o coração) de sua finalidade.
A natureza do mecanicismo cartesiano 53

Finalmente, é preciso dizer que, para Descartes, tal como para Bacon e
para Espinosa, o finalismo é, em grande parte, uma projeção humana sobre a
natureza ou uma avaliação da natureza a partir da perspectiva humana. Nós,
seres de vontade e de liberdade, avaliamos a natureza a partir da perspectiva
dessas características do espírito. Avaliamo-la também sob a perspectiva da
sensibilidade e do que ela nos fornece. Assim, cometemos dois erros ao
procedermos desse modo. Em primeiro lugar, por não distinguirmos claramente
alma e matéria, imputamos à matéria vontade, liberdade e espiritualidade. Em
segundo lugar, ao avaliarmos as coisas a partir de nós e da sua utilidade para
nós, agora já não como almas, mas como homens (corpo e alma), cometemos
o erro do antropomorfismo e do antropocentrismo. Como dirá Descartes nos
Princípios (Parte III, art. 3), "não é de nenhum modo verossímil que todas as
coisas tenham sido feitas para nós, de tal maneira que Deus não tenha tido
nenhum outro fim ao criá-las".
Em síntese, o combate ao finalismo é o contraponto do mecanicismo. A
sua negação é a afirmação do mecanicismo e vice-versa. Não há como aderir
ao mecanicismo cartesiano sem a crítica à teleologia física, da mesma forma
que não se pode fazê-lo sem a crítica à sensibilidade.

3. O mecanicismo cartesiano em três passos:

Na tentativa de elucidar a perspectiva mecanicista cartesiana, serão


apresentados três passos que se apresentam como fundamentais para a sua
constituição e justificação. São eles: o ponto de vista filosófico, o fisiológico e
físico.

a) O mecanicismo do ponto de vista filosófico:

Filosoficamente falando, o mecanicismo cartesiano tem como


fundamento a distinção entre corpo e alma, bem como o reconhecimento da
existência de um terceiro mundo, o mundo humano ou da união entre corpo e
alma.
A tese da distinção traz como conseqüência a separação de dois
mundos absolutamente diferentes, o mundo do pensamento, por um lado, e o
mundo da extensão, por outro.
César Augusto Battisti 54

A tese da união traz consigo a existência de um terceiro mundo ou de


um terceiro conjunto de fenômenos, os fenômenos das sensações e das
paixões. Aqui nos interessam exclusivamente as sensações externas, uma vez
que nosso objetivo é o mecanicismo do mundo natural, exterior a nós.
Dada a distinção categorial entre corpo e alma e dada a união de fato
entre ambos, tudo o que no mundo material não se submeter à extensão em
sua tridimensionalidade não pode ser legitimamente atribuído a ele. Desse
modo, sendo a extensão o atributo essencial dos corpos, todo outro atributo
físico deve ser um atributo secundário, decorrente do caráter extenso do
mundo material.
Por outro lado, o que não puder ser atribuído aos corpos, nem à alma,
mas sendo mesmo assim algo, deve ser oriundo da relação do homem com o
mundo, cujo significado deve ser buscado nessa relação. Assim, o valor das
sensações se determina pelo seu significado para o composto corpo-alma,
quanto à sua proteção, comodidades e incomodidades, prazer e desprazer.
Mas, para além disso, a sensibilidade humana nada ensina a respeito
das coisas exteriores, sem o referendum do espírito, dado de forma cuidadosa
e ponderada. Para além da "informação biológica" voltada à utilidade e ao bem-
estar, os sentidos não podem ensinar nada de claro e distinto por si mesmos,
sem a supervisão do entendimento, sem o julgamento do espírito. As
qualidades, portanto, que costumamos atribuir às coisas sem considerá-las de
modo adequado – tais como as representadas pela idéia de vazio, de quente,
frio, cor, sabor, etc. –, não devem ter correspondente real, ainda que possam
ser significativas para o composto corpo-alma (o homem) e possam auxiliar no
conhecimento do mundo exterior.
A conclusão que se deve extrair disso tudo é a de que a metafísica
cartesiana estabelece a existência de um terceiro mundo, o da sensibilidade e
das paixões, oriundo da relação entre os dois anteriormente dados. A distinção
entre este mundo do sensível e o da objetividade física permitirá a distinção
entre as qualidades objetivas e as qualidades subjetivas do mundo físico. Além
disso, a distinção entre o mundo humano e o espiritual, de um lado, e o
material, de outro, permite evitarmos a aplicação de categorias espirituais ao
mundo material – de onde nasce a busca pelas causas finais – ou de
A natureza do mecanicismo cartesiano 55

categorias humanas – de onde nasce o antropomorfismo e o antropocentrismo.


Por outro lado, se nos mantivermos no âmbito da objetividade física, veremos
que legítima é somente a atribuição de propriedades mecânico-geométricas ao
mundo físico.

b) O mecanicismo do ponto de vista fisiológico:

Passando, agora, ao ponto de vista fisiológico, teremos a oportunidade


de perceber como Descartes procede para demonstrar a subjetividade das
qualidades secundárias e apontar para a realidade das primárias, ao mesmo
tempo em que poderemos ver como ele entende o mecanicismo na própria
fisiologia e na anatomia. Para examinar esse ponto, utilizarei os Discursos 3 a
6 da Dióptrica, um dos ensaios do método, publicada junto com o Discurso do
método e com os outros ensaios em 1637. Como teremos a oportunidade de
ver, Descartes, nessa obra, institui uma nova teoria da percepção por meio de
sua teoria mecânico-geométrica da visão.
A Dióptrica, vista em seu todo, tem por objetivo central fornecer um
estatuto científico à técnica da utilização de lentes para o aperfeiçoamento da
visão. Em outras palavras, ela pretende legitimar teoricamente o uso de
instrumentos que aumentam o poder da visão, como o telescópio, e, portanto,
dar cientificidade a tais instrumentos. O texto pode ser dividido em três grandes
partes. A primeira (Discursos 1 e 2) apresenta uma reflexão sobre as
propriedades da luz e expõe a lei da refração; a segunda (Discursos 3 a 6), que
nos interessa aqui, trata da percepção visual e de como ela é produzida; a
terceira (Discursos 7 a 10) discute a forma pela qual é possível aperfeiçoar a
visão por meio de lentes, legitima seu uso e discute a sua forma mais
adequada e seu modo de confecção ou de fabricação.
Ao nos atermos aos Discursos 3 a 6, nosso objetivo será o de evidenciar
o processo de geometrização da visão e de mecanização do processo
sensitivo. Em outros termos, poderemos ver que tudo o que ocorre na visão,
enquanto envolve a participação do corpo, é um processo absolutamente
mecânico, não havendo nada de qualitativo ou não matemátizável. Ao
contrário, o processo sensitivo, sendo absolutamente mecânico, estabelece
uma relação causal com o mundo exterior, de modo que ambos se tornem
César Augusto Battisti 56

homogêneos. Assim, não haverá interrupção da causalidade mecânica entre o


mundo exterior ao corpo e o processo que se passa no próprio corpo. Tudo é
questão de movimento, de matéria em movimento.
Nos discursos supracitados, portanto, o filósofo pretende geometrizar a
visão e explicar essa capacidade humana. Dentro dessa perspectiva, ele
retoma o trabalho de Kepler e o leva adiante. Kepler foi responsável pela
diferenciação mais adequada das partes do olho, de modo que, determinando
o papel refratário do cristalino, descobriu que a formação da imagem não se dá
nele, mas no fundo do olho, na retina. Além disso, determinou que essa
imagem é algo real, portanto, visível, e não mais um mero fantasma que torna
visível as coisas sem ser ela mesma visível. Ao contrário, a imagem na retina é
algo real, uma espécie de pintura bidimensional com plena presença física, de
tal maneira que poderia ser vista no fundo do olho de um boi dissecado
adequadamente, como dirá Descartes, da mesma forma que em um quanto
escuro (expediente já utilizado por Della Porta), por meio de um pequeno
orifício por onde a luz penetra e dá origem a uma imagem no interior do quarto.
Enquanto o cristalino era considerado o receptor do sensível, a imagem era
quase como um espírito ou um fantasma, pois não era vista. Ao contrário,
sendo ela uma verdadeira pintura, uma verdadeira imagem no fundo do olho,
sendo, portanto, uma entidade física, ela não é mais a representante da coisa,
a forma mesma da coisa visível presente no olho, mas um efeito da coisa
exterior. A imagem na retina deve ser tratada como um efeito, um efeito de
natureza ótica, e explicado com tal.
Além disso, Kepler sabe muito bem que a investigação ótica
propriamente dita para por aí, mas a questão da visão não. Ele distingue
claramente o componente ótico da visão e os eventos de natureza nervosa,
cerebrais e psicológicos envolvidos na percepção visual. A teoria da percepção
visual se submete a um processo causal cujo primeiro passo é de natureza
ótica e o segundo de natureza neuro-fisiológica, indo finalizar no interior do
cérebro e na consciência perceptiva do homem.
Descartes, dando prosseguimento a essa análise, observa
primeiramente que quem sente é a alma e não o corpo, e que a relação da
alma com o corpo se estabelece em um lugar específico, no senso comum ou
A natureza do mecanicismo cartesiano 57

na glândula pineal (ou conário). Depois disso, trata dos nervos, dos quais vêm
as impressões dos objetos exteriores por meio dos chamados espíritos
animais. Essa é uma descrição comum a todos os sentidos, distinguindo-se a
visão somente pelo que representa o olho. Efetivamente, como veremos, a
teoria da percepção visual terá uma função paradigmática em relação à teoria
da percepção em geral.
Dito isso, a primeira observação que Descartes faz é que a alma, para
sentir, não precisa de imagem alguma. A exemplo das palavras e dos signos,
não é preciso haver imagem para "excitar nosso pensamento" (AT, VI, p. 112);
e, se houver, não há necessidade de que as imagens sejam semelhantes aos
objetos que significam. Na verdade, as imagens não podem ser semelhantes
em tudo aos objetos que representam, pois do contrário seriam os próprios
objetos. Ademais, como as regras da perspectiva mostram, uma pintura ou
imagem bidimensional, como a que aparece na retina, no fundo do olho, deve
assemelhar-se pouco ao objeto tridimensional real; além disso, por seu aspecto
esférico, utiliza as técnicas dessa teoria, tal como quando representamos
círculos e quadrados por meio de ovais e losangos.
Isso tudo não impede, entretanto, que a imagem inscrita no fundo do
olho tenha certa semelhança com o objeto e que ela represente naturalmente
em perspectiva o objeto visto, como uma lente fotográfica sobre um filme ou a
imagem no interior do quarto escuro sobre um pano branco. E, tal como nesses
casos, a maior ou menor perfeição da imagem depende dos raios, da sua
dispersão ou reunião, da quantidade de luz, da distância do objeto, da maior ou
menor abertura da pupila, que nada mais é que um músculo que se comporta
mecanicamente em razão de estímulos luminosos externos.
É importante observar também que, para a formação da imagem, os
raios provenientes de um único ponto do objeto visto devem se reunir em um
único ponto sobre a retina, ainda que percorram caminhos distintos.
Igualmente, cada ponto do objeto visto mantém sua posição ou situação em
relação aos outros pontos. Em síntese, como uma pintura, a imagem no fundo
do olho reproduz bidimensionalmente as características espaciais do objeto
visto, com sua figura, situação, grandeza e distância. E tudo isso por meio das
César Augusto Battisti 58

leis que regem o comportamento dos raios luminosos, dentre as quais a lei da
refração.
Todos esses fatores, que são de natureza geométrica, são produzidos
mecanicamente, por meio do comportamento dos raios luminosos. Nessa
perspectiva, o olho poderia ser substituído sem dificuldade por um globo
artificial, adequadamente construído e semelhante a ele, cujas divisões
internas contivessem lentes ou líquidos com índices de refração idênticos ao do
cristalino e dos outros humores ou líquidos que o compõem e em cujo fundo
contivesse um tecido delicado e semitransparente (ou, mesmo, uma casca de
ovo) que funcionaria como a retina. Sobre essa fundo da casca de ovo, que
envolveria boa parte do globo artificial, com exceção de uma abertura
semelhante a do olho, poderíamos constatar a presença da imagem do objeto,
tal como no olho natural.
No segundo momento da análise, Descartes irá tratar da passagem
dessa imagem sobre a retina até o cérebro. Esse percurso, também descrito
mecanicamente, já não será de natureza ótica, mas fisiológica. Trata-se da
transmissão dos "impulsos" captados pelo nervo ótico, que espalha suas
terminações pelo fundo do olho e que transmite, por meio do comportamento
cinético de seus filamentos, a "imagem" ao cérebro.
Aqui duas observações são importantes. A primeira é a seguinte: dado o
número muito elevado de filamentos que compõem o nervo ótico e que se
espalham no fundo do olho, cada um desses filamentos em sua extremidade é
atingido por um conjunto de raios luminosos provenientes de um único ponto
do objeto visto, de modo que, para cada ponto do objeto, um único ponto do
nervo ótico é acionado e, assim, o nervo ótico é atingido em locais diferentes
por movimentos diferentes. Essa configuração é transmitida por ele até o
cérebro, de sorte que, na superfície interior desse órgão, se forma uma espécie
de pintura de algum modo semelhante à imagem produzida na retina e,
portanto, ao objeto visto. Contudo – e essa é a segunda observação – essa
pintura ou configuração de dados não é mais de natureza ótica, mas
cinemática; portanto, sua semelhança com o objeto exterior não pode ser mais
em termos de imagem propriamente dita, mas de outro tipo, uma espécie de
A natureza do mecanicismo cartesiano 59

configuração formada pelo conjunto dos movimentos realizados pelos diversos


filamentos cuja outra extremidade se localiza no cérebro.
Depois disso, essa configuração cinemática é transmitida até o centro
das atividades cerebrais, onde se localiza a glândula pineal ou o conário, que é
o lugar do senso comum. Nessa glândula se dá a relação entre o corpo e a
alma, e é nesse local que a alma recebe as informações provenientes de fora e
as interpreta. Mas ela não pode receber informações de natureza cinemática
ou outra qualquer que ocorra do ponto de vista material, uma vez que a alma
não é material. Evidentemente, há aqui o problema da relação entre corpo e
alma, o problema de como essas entidades heterogêneas influenciam-se
mutuamente. Mas isso é um outro problema que será deixado de lado.
O que importa é o seguinte. Em primeiro lugar, a teoria da percepção
visual mostrou – e isso vale, mutais mutandis, para a percepção em geral – que
tudo o que ocorre na parte ótica e na parte fisiológica da visão são ações e
reações puramente mecânicas, são processos mecânicos, são movimentos
corporais numa relação entre causa e efeito.
Em segundo lugar, a relação causal se mantém como tal na passagem
entre a parte ótica e a parte fisiológica, sem que seja necessário que se
mantenha a idéia de semelhança ou imagem-cópia nesse processo. A relação
causal é distinta e independente da relação de semelhança entre objeto e
percepção do objeto.
Em terceiro lugar, não há descontinuidade causal entre o processo que
se passa no interior do meu corpo e o que se passa exteriormente, isto é, do
objeto exterior até mim. Isso significa que a causalidade se mantém desde o
objeto externo, como o Sol, por exemplo, até o fundo do olho e depois até o
cérebro, onde a alma interpreta os dados. Não há, portanto, diferença de
natureza dos objetos e processos envolvidos nesse percurso todo, sejam
internos ou externos a mim.
Em quarto lugar, não nos envolvemos com qualidade alguma nesse
processo todo; o processo de percepção, dentro do seu percurso restrito ao
âmbito corporal, ou seja, até o momento em que a alma entra em cena, nada
tem a ver com as supostas qualidades dos objetos exteriores. As supostas
qualidades não entram em jogo em momento algum.
César Augusto Battisti 60

Agora, nada impede que a alma perceba determinadas qualidades. Ou


melhor, que ela interprete o movimento dos nervos no cérebro como
significando determinada qualidade sensível, como, por exemplo, a cor. Assim,
no caso do sentimento da luz, "é preciso pensar que nossa alma é de tal
natureza que a força dos movimentos que se encontram nos lugares do
cérebro de onde provêm os filamentos dos nervos óticos lhe faz ter o
sentimento da luz; e o modo desses movimentos, aquele das cores" (AT, VI, p.
130-131), da mesma forma como os movimentos dos nervos nos ouvidos lhe
fazem sentir os sons e os nervos da língua lhe fazem sentir os sabores, assim
por diante.
Ademais, a alma procede deste modo sem que seja preciso que haja
semelhança entre as idéias que ela concebe e os movimentos que as causam,
tal como ocorre com as palavras, com as lágrimas ou outros signos. E,
efetivamente, diz Descartes, não há semelhança entre o que ocorre no mundo
material e as qualidades que a alma percebe nas coisas. A luz, por exemplo, é
uma ação que, seguindo as leis do movimento, é exercida pelo Sol sobre as
partículas do ar, que, por sua vez, a transmite ao olho. No nervo ótico, o raio
causa um movimento fisiológico que é transmitido ao cérebro. É somente aí
que a alma interpreta esse conjunto de movimentos como sendo a sensação
da luz.
Por sua vez, as cores são oriundas dos movimentos rotacionais
diferenciados que as partículas da matéria sofrem ao transmitirem a luz, cada
cor representando um movimento diferente. Assim, para cada conjunto de
movimentos rotacionais diferentes, a alma sente uma cor. Em outras palavras,
a cor é um sentimento que nada corresponde no objeto, sob o ponto de vista
da semelhança entre o sentimento da cor e o objeto colorido. É verdade que o
autor afirma que a cor possibilita a diferenciação entre as partes de um corpo,
uma vez que denuncia a diferença de movimento de uma parte do corpo em
relação à outra, uma vez que denuncia uma propriedade real dos corpos. Mas,
mesmo assim, a tudo o que há nela, enquanto sentimento, nada de real existe
de semelhante nos corpos.
Podemos concluir, portanto, que o nosso processo de percepção
sensitivo é totalmente mecânico, não negociando em nenhum momento com as
A natureza do mecanicismo cartesiano 61

qualidades secundárias dos corpos. Ele denuncia a natureza mecânica de


nosso corpo, mas também, por refluxo, a natureza mecânica do mundo exterior
e de todos os corpos exteriores. Finalmente, a origem das qualidades se dá na
interpretação que a alma faz da configuração mecânica fornecida pelo corpo,
cuja significação é apenas subjetiva.

c) O mecanicismo do ponto de vista físico:

Para terminar essa exposição, seguem abaixo alguns elementos que


caracterizam a perspectiva física por meio da qual o mecanicismo é instituído.
Para tal, serão usados os capítulos iniciais do Mundo.
Os primeiros capítulos do Mundo ilustram magistralmente o modo pelo
qual Descartes, aos poucos, deixa emergir sua concepção física e seu
mecanicismo. Como eles fazem isso e quais suas etapas principais?
A primeira etapa desse processo consiste na desvinculação entre a
relação causal existente na origem de nossas percepções sensíveis, por um
lado, e a suposta relação de semelhança entre os objetos externos e tais
percepções. Como diz Descartes, "embora cada um comumente se persuada
de que as idéias que temos em nosso pensamento sejam inteiramente
semelhantes aos objetos dos quais procedem, não vejo, contudo, razão alguma
que nos assegure de que assim o seja" (AT, XI, p. 3). A relação que há entre a
sensação que tenho e o objeto físico que supostamente a causou não é ou não
precisa ser uma relação entre original e cópia, ainda que admitamos a relação
causal. Ela pode se reduzir apenas a uma relação entre significante e
significado. Em outras palavras, a representação que tenho de um objeto físico
não me remete necessariamente a algo que lhe seja semelhante, mas
estabelece somente uma relação de significação, cujo fundamento, ainda que
não seja totalmente arbitrário, ao menos não nos autoriza a querer conhecer
imediatamente a realidade física. Da mesma forma que as lágrimas e o riso
significam a tristeza e a alegria, do mesmo modo que as palavras significam
algo determinado arbitrariamente pelos homens, assim também, afirma
Descartes, nossas sensações significam algo, mas não funcionam como cópia
do objeto que as causa. E, portanto, da relação causal existente entre objeto
exterior e sensação não podemos derivar a relação de semelhança entre
César Augusto Battisti 62

ambos. Os dados que dispomos não nos permitem examinar nossas


percepções do ponto de vista da semelhança, mas no máximo do da
significação. As nossas sensações podem ser apenas signos das coisas
externas, sem representá-las a nós.
Em outras palavras, nós temos sensações, a sensação da luz, por
exemplo. E disso estamos certos. Porém, não podemos disso derivar
imediatamente o que seja o objeto físico luz.
Essa primeira etapa da análise cartesiana é de fundamental importância.
Ela desautoriza a utilização dos sentidos, por si mesmos, para a determinação
da natureza dos objetos físicos. Ela quebra a vinculação aceita acriticamente
entre a relação causal do objeto físico com a idéia que dele temos e a relação
de semelhança de nossas percepções com tais objetos.
Na verdade, essa primeira reflexão sobre as sensações nos conduz a
uma outra: a de que algo ocorre fora de nós, algo ocorre no mundo. Se há
sensações, há uma mobilização externa que nos afeta.
Mas o que Descartes entenderá por isso? O que devemos supor, como
mínimo necessário, para que qualquer alteração do mundo físico seja possível?
Responde o autor: "quanto a mim, que temo me enganar se supuser algo mais
que o que vejo aí (no mundo) dever existir necessariamente, me contento em
conceber o movimento de suas partes" (AT, XI, p. 7), o movimento das partes
da matéria.
E, aqui, a resposta do autor é clara: ele se contenta em supor a
existência do movimento no mundo e apenas isso. De sua parte, para
Descartes, se houver alguma alteração de determinada configuração do
mundo, isto é, se houver algum fenômeno físico, é suficiente pressupor que
haja alguma espécie de movimento dos objetos físicos. Diz ele: "considero que
isso sozinho poderá provocar-lhe todas as mesmas mudanças que se observa"
(AT, XI, p. 7) em determinado fenômeno. Mas, se não houvesse movimento,
não poderia haver fenômeno físico algum e, portanto, jamais poderíamos ter
sensação algumas, pois a sensação é resultado de uma modificação em
nossos sentidos provocada por uma alteração na configuração do mundo físico
(AT, XI, p. 21-22).
A natureza do mecanicismo cartesiano 63

Em outras palavras, o único pressuposto absolutamente necessário para


que um determinado fenômeno ocorra é que haja alguma alteração de
determinada configuração no mundo físico, isto é, que haja movimento. A
existência de movimento é o pressuposto fundamental para a ocorrência de
qualquer fenômeno físico. Se admitirmos qualquer tipo de mudança ou
alteração no mundo físico, temos de admitir o movimento; por outro lado, se
não admitimos o movimento, não podemos falar em física ou em mundo físico.
E isso um filósofo da tradição aristotélica também aceitaria, sem problemas,
com a diferença de que, para Descartes, o movimento não é mais um tipo de
mudança, dentre outras; é a mudança que se reduz ao movimento. E, assim, o
elemento mais básico constituinte de qualquer fenômeno físico é o movimento
da matéria, o seu deslocamento.
Pressupor o movimento é pressupor o movimento diferenciado entre as
partes da matéria, pois não há movimento se toda a matéria, todo o universo
físico, se mover em bloco para determinada direção: não há movimento se
existir apenas um corpo no universo e nada mais. Assim, há diferentes
movimentos no mundo e, para tal, a matéria precisa ser divisível, incorporar
esses movimentos diferentes. Portanto, para que haja qualquer fenômeno
físico, é necessário que haja no mínimo mais de um movimento e, portanto,
divisibilidade da matéria. Mas, se houver mais de um movimento, haverá na
verdade inúmeros, em razão do choque entre as duas grandes partes do
universo (que, no mínimo, deve haver), cujo resultado é a fragmentação da
matéria e a distribuição do movimento em escala cada vez maior.
Dessa forma, se examinarmos um fenômeno qualquer, como um pedaço
de madeira em chamas, quais são as condições mínimas que se deva admitir?
A resposta de Descartes é esta: que haja movimento de partículas. Com efeito,
se um fenômeno ocorrer na natureza – e nossas sensações, sem dizer em que
ele consiste, detectam a sua ocorrência –, é preciso que haja, no mínimo,
alguma movimentação de algo no mundo, algum movimento. Além disso, a
noção de movimento é muito simples e clara e consegue explicar várias
sensações, como o calor e a dor – e também a luz –, apenas pelo movimento
das partículas.
César Augusto Battisti 64

Dito isso, Descartes pode concluir que "há um meio de explicar a causa
de todas as mudanças que acontecem no mundo e de todas as variedades que
aparecem sobre a Terra" (AT, XI, p. 12). A tese exposta acima contém
potencialmente, portanto, toda a física; e, assim, da análise da sensação da luz
emerge aos poucos as principais teses do mecanicismo cartesiano.
A título de exemplo, podemos apresentar algumas delas, como a tese da
inexistência do vazio e a da existência de três diferentes tipos de partículas ou
de aglomerações mínimas de matéria, das quais outras são concebidas quase
que imediatamente, como a da identidade entre matéria e extensão.
Quanto à questão do vazio, Descartes não apresenta aqui o seu
argumento mais forte sobre a sua inexistência, como fará nos Princípios (Parte
II, art. 16): o de que o vazio é um conceito contraditório, uma vez que é uma
coisa (substância) que não é nada e que não tem propriedades. Logo, não
pode existir. No Mundo, o autor se centra mais no problema da origem do
conceito. O vazio é um conceito oriundo do uso indevido dos sentidos: como
muitas vezes não sentimos nada, pensamos que não há nada. Mas os sentidos
só servem para detectar algo, se este algo se manifestar, isto é, se houver uma
alteração externa. Da mesma forma que o ar estático não pode ser detectado,
assim também não sentimos o peso de nosso corpo ou de nossas roupas.
Desse modo, nasce a noção de vazio, novamente sob a pressuposição da
relação de semelhança entre o que sentimos e os objetos externos. Conclui-se
disso que o vazio é um conceito infundado e, como tal, não há razão para
estipular a sua existência.
Admitida a inexistência do vazio, é preciso explicar como o movimento
pode ocorrer sem que surja entre as partículas um espaço sem partículas.
Como o movimento não necessita de pequenos espaços vazios para ocorrer?
A explicação cartesiana – que anuncia a famosa teoria dos turbilhões –
consiste na distinção entre a tendência retilínea de cada corpo e seu
movimento real circular, de modo que, ainda que toda partícula tenda a
percorrer o movimento mais simples (o reto) e ter, portanto, por si mesma, um
comportamento inercial, na realidade, seu movimento real é sempre circular; e
isso evita a necessidade do vazio, a exemplo do que ocorre com peixes que
A natureza do mecanicismo cartesiano 65

nadam em um tanque sem que provoquem um espaço sem água (vazio) ao se


deslocarem dentro dela.
A tese da existência dos três tipos de partículas está ligada ao que
acaba de ser dito. Por um lado, Descartes descreve como os três tipos
surgiram imediatamente do choque entre os blocos de matéria inicialmente
existentes, de onde surgiram três tipos de corpos no universo: o Sol e as
estrelas, de onde provém a luz; os céus, que a transmitem; os planetas e os
cometas, que são opacos. Por outro lado, os três tipos de partículas dão conta
do movimento sem a necessidade do vazio. Essas partículas não são átomos,
mas formas mínimas de agregação da matéria sempre passíveis de divisão.
E, finalmente, uma vez tudo isso exposto, não resta senão concluir pela
identidade entre matéria e extensão. Não havendo vazio e não podendo a
matéria se comprimir ou se rarefazer (para formar corpos mais sólidos e mais
líquidos, uma vez que o que determina um corpo ser duro ou líquido é a
diferença de movimento existente entre as suas partes componentes), não há
espaço que não seja material e, portanto, não há diferença entre extensão e
matéria.
Estas são algumas características da física cartesiana. E, mais uma vez,
na análise da sensibilidade, na sua crítica e ultrapassagem, Descartes
descobre o universo mecânico-geométrico que tanto marcou o período
moderno e o firmou certamente como o maior representante do que Paolo
Rossi chamou de uma "filosofia mecânica".

Bibliografia

DESCARTES, René. Oeuvres. Publicadas por Charles Adam e Paul


Tannery. Paris: Vrin, 1996. 11 vol.

KEPLER, J. Les fundaments de l’optique moderne: Paralipomènes à


Vitellion. Tradução de Catherine Chevalley. Paris: Vrin, 1980.

ROSSI, Paolo. O nascimento da ciência moderna na Europa. Bauru,


SP: EDUSC, 2001.
As origens da Óptica de Kepler

Claudemir RoqueTossato
Pós-doutorando em filosofia/USP

Resumo: O texto a seguir, “A óptica de Kepler: o funcionamento do olho


humano no ato da visão – Primeira parte: a situação da óptica no final do
século XVI” forma, junto com a segunda parte “O modo pelo qual se faz a
visão”, uma reconstrução da principal contribuição de Kepler para a ciência
óptica, a saber, o seu tratamento acerca do funcionamento do olho humano
semelhante a um artefato mecânico, a câmara escura, obtendo, como
principal resultado, que a visão se forma na retina. Considerar o olho como
um artefato mecânico permitiu a Kepler fundamentar a óptica geométrica,
demarcando o campo de atuação da óptica.
PALAVRAS-CHAVE: Óptica. Visão. Câmara escura. Kepler.

No prefácio à sua primeira obra sobre óptica, Ad Vitelionem


paralipomena, quibus astronomiae pars optica traditur, a qual pode ser
traduzida para a nossa língua como Suplementos a Vitélio, nos quais a parte
óptica da astronomia é ensinada, escrita durante o ano de 1603 e editada no
início de 1604, Kepler esboça uma pequena estrutura da ciência astronômica.
Esta estrutura é composta basicamente por quatro partes, que são: 1) teórica,
2) prática, 3) óptica e 4) física. As duas primeiras são as mais importantes para
a astronomia, pois “a primeira consiste na pesquisa e estudo da forma dos
movimentos e revela, sobretudo, o exame filosófico; a segunda, depende da
primeira e investe no reparo das posições dos astros para qualquer movimento,
satisfazendo a prática ao dar os fundamentos da arte de prognosticar” (Kepler,
1980, p. 99). À primeira parte cabe a utilização da geometria, pois podemos
deduzir a partir de primeiros princípios os fenômenos celestes, mais
especificamente, os movimentos planetários; quanto à parte prática, a
aritmética serve como linguagem condutora para a elaboração de tabelas e
auxilia tanto o prognóstico quanto a revisão dos movimentos coligidos. A quarta
parte, a parte física da astronomia, reserva-se ao estudo das causas
(eficientes, materiais ou formais) envolvido na explicação dos movimentos
planetários. Enfim, quanto à terceira parte, acerca da utilização da ciência

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
As origens da Óptica de Kepler 67

óptica, diz Kepler:

Finalmente, porque toda observação do céu se faz por meio da luz ou da sombra,
pois os meios entre as estrelas e os olhos são afetados diferentemente, e porque
observamos nos céus movimentos – a retrogradação, as estações etc. – e também
os arcos, isto é, os ângulos dados à visão, e os corpos luminosos, e como tudo isto
está ligado às considerações da ciência óptica, a terceira parte da astronomia que
apresentamos aqui é a óptica (Kepler, 1980, p. 100).

A óptica é entendida por Kepler como a ciência da luz e da visão. Ela é


uma ciência necessária para entender a problemática envolvida nos
movimentos planetários. A óptica não estipula teses explicativas para a
astronomia (pois isto cabe à parte física), nem elabora tabelas dos movimentos
(função exercida pela parte prática) e nem trata dos princípios metafísicos, ou
dos valores cognitivos, necessários para a construção de uma teoria
astronômica (tratados pela parte teórica). A função da óptica está justamente
no entendimento da relação objeto-sujeito mediado pelo meio que os separa,
quando o sujeito observa (vê) esse objeto. Se observarmos um planeta ou uma
estrela quaisquer, veremos uma imagem do mesmo, mas não ele próprio; esta
imagem será o resultado da ação da luz, que é emitida ou refletida pelo objeto,
sendo alterada (refratada) pelo meio até chegar ao olho do sujeito; este sujeito,
finalmente, perceberá essa ação de acordo com as suas faculdades cognitivas
(sensação, imaginação, entendimento etc.) e representará o objeto real. Dessa
maneira, a óptica torna-se uma ciência fundamental para que as observações
astronômicas obtenham um grau suficientemente seguro e confiável. Ligada à
parte prática da astronomia, mas não subordinada à ela, a óptica é um dos
alicerces da astronomia, necessária para fundamentar as observações e
determinar, a partir dessas, bases seguras para a construção do edifício
astronômico, provendo as condições necessárias para a elaboração de
descrições e de explicações acerca dos fenômenos celestes.
Essa estrutura kepleriana da ciência astronômica em quatro partes não é
fortuita. Para podermos entendê-la, devemos remeter a uma analogia que o
próprio Kepler utilizou para expressá-la. Ele considera a construção da ciência
astronômica semelhante à construção de uma casa (Kepler, 1980, p. 100–1).
Uma casa, para ser bem construída, deve satisfazer dois pontos básicos: por
um lado, ser funcional e, por outro, conter linhas de beleza e harmonia; os
Claudemir RoqueTossato 68

quartos, a cozinha, a sala, enfim, todos os compartimentos devem ser práticos,


funcionais, mas também unidos, correlacionados, de um modo harmônico que
expressem uma espécie de conforto, bem estar, beleza e satisfação. Um
possível morador dessa casa deve sentir-se confortável, e isto representa que
qualquer parte da casa deve funcionar adequadamente e, também, ser
agradável – do que notamos que, para Kepler, uma casa e, por analogia, uma
teoria astronômica não devem apenas determinar bons resultados, isto é, ser
apenas uma casa prática ou uma teoria que forneça somente bons
posicionamentos dos planetas; além disso, elas devem conter “beleza e
harmonia”1. Tanto uma casa quanto uma teoria devem ser boas, funcionais,
mas também elegantes, que expressem, reciprocamente, segundo Kepler, a
beleza e a perfeição da construção e a beleza e a perfeição do mundo.
Mas beleza e harmonia junto com operacionalidade não completam a
construção de uma casa ou de uma teoria astronômica; deve haver união com
bons fundamentos entre esses conceitos. Para se obter uma casa prática,
confortável e bela, os fundamentos devem ser seguros, confiáveis e duráveis.
Se os fundamentos não são seguros, todo o edifício tende a ruir, causando
danos nos compartimentos internos da casa. Se uma teoria astronômica não
tem bons fundamentos, a analogia com a casa alerta, os prognósticos
apresentar-se-ão falhos em algum sentido. Deste modo, pensando em tal
analogia, os fundamentos de uma teoria astronômica dependem das teses
metafísicas admitidas (que no caso da astronomia kepleriana podemos
entender como as teses heliocêntricas), dos objetivos (que em Kepler são
causais, isto é, a determinação das causas dos movimentos planetários) e
práticos, quando temos boas observações que, juntamente com a parte teórica,
determinarão bons prognósticos. Neste sentido, pode-se entender o papel da

1
Obviamente, uma teoria, assim como uma casa, não deve ser “bela e elegante” para
satisfazer apenas exigências estéticas. Os critérios de beleza e elegância significam, em
Kepler, compromissos com a verdade do cosmo, pois, segundo os critérios metafísicos de
harmonia e de perfeição, Deus não desejou construir um universo deselegante, isto é, sem
relações simétricas entre as suas partes, e nem feio, ou seja, um monstro em que suas partes
não têm relações entre si e com o todo. Sobre isso, é interessante consultar o prefácio ao De
revolutionibus, no qual Copérnico utiliza a imagem de monstro para denunciar a falta de
unidade matemática dos modelos geocêntricos.
As origens da Óptica de Kepler 69

óptica: ela é uma ciência que vem auxiliar a parte prática da astronomia,
dando-lhe bons fundamentos para a construção bela e harmônica do mundo.
O interesse de Kepler pela óptica não é o de um cientista que trabalha
especificamente nesse campo, mas o de um estudioso que, interessado em
resolver problemas de uma outra ciência, a astronomia, procura na óptica
recursos para melhorá-la. Os estudos ópticos feitos por Kepler inserem-se
completamente na construção da sua teoria astronômica, mais
especificamente, na obtenção de dados mais seguros para os seus estudos
sobre os movimentos planetários.
Porém, um ponto que deve ser considerado é que, para Kepler, apesar
da óptica ser necessária para a astronomia, ela é uma ciência autônoma, isto
é, ela não é simplesmente uma parte da astronomia, voltada unicamente para
determinar bons resultados acerca das observações astronômicas, mas uma
ciência que contém o seu campo próprio de atuação e seus objetos próprios de
pesquisa.
Tendo-se isso em vista, pode-se afirmar que Kepler foi importante para a
história da óptica pelo estudo de três aspectos básicos, que podem ser
apreciados segundo as suas próprias palavras:

Pode-se considerar na astronomia óptica tanto os objetos próprios que se


apresentam à visão, e dos quais pode-se examinar as espécies, isto é, a luz e as
sombras, quanto o meio que a luz atravessa contendo suas espécies e que é a causa
da luz nos parecer refratada, quanto também, enfim, o instrumento da visão, o olho
(Kepler, 1980, p. 101).

O primeiro aspecto é o estudo da natureza da luz e das sombras que se


apresentam à visão. O segundo é o estudo da refração e das suas causas. O
terceiro é o estudo do funcionamento do olho humano enquanto instrumento
que forma imagens do objeto visto. Mas o que se apresenta como mais
importante nos trabalhos ópticos keplerianos é a ordem lógica de estudos. Para
conhecer como se forma a refração dos objetos e a natureza da luz é
necessário, antes, conhecer como se forma a imagem dos objetos na visão,
isto é, o estudo sobre o funcionamento do olho humano antecede os estudos
acerca da refração e da natureza da luz. Neste sentido, as pesquisas
conduzidas nos Paralipomena antecedem não apenas cronologicamente a
Dioptrice, de 1611, mas também os temas tratados. O estudo de como se
Claudemir RoqueTossato 70

origina a visão torna-se condição necessária para o estudo da refração. Assim,


nossa principal preocupação neste texto é a função, segundo Kepler, do olho
humano no ato de ver, seu funcionamento e função.
Os primeiros interesses de Kepler pela óptica2 deram-se quando da
ocorrência de um eclipse solar em 30 de junho de 1600. Sobre tal eclipse,
Kepler ficou intrigado com o seguinte problema: o que leva o diâmetro da Lua
diminuir quando da ocorrência de um eclipse solar, quando medido à mesma
distância durante a Lua cheia? Em outros termos, por que o diâmetro da Lua
diminui quando ela passa frente ao Sol, quando há uma conjunção, e, quando
estão em oposição, o seu diâmetro é maior? Esse fenômeno abalou os
astrônomos da época, tanto que Brahe mediu tal diminuição, utilizando-se de
uma câmara escura, e a estipulou em 1/50 partes. Para explicar esse
fenômeno, Brahe assegurou que a Lua sofre uma dilatação periódica, e que,
quando ela passa pelo Sol durante um eclipse, isso se mostra mais claro para
um observador localizado na Terra. Kepler não se satisfez com essa explicação
de caráter físico de Brahe, e a negou (cf. Kepler, 1980, p. 152). Portanto, uma
nova explicação deveria ser obtida. Mas para se chegar a uma tal explicação,
mostrava-se necessário, segundo Kepler, reformular o conjunto explicativo
formulado pelas teorias ópticas do final do século XVI, pois essas eram
inadequadas, algo a que Kepler se propôs. O resultado foi os Paralipomena a
Vitelio. Na verdade, os Paralipomena não foram o projeto inicial de Kepler, sua
ambição era maior, a de elaborar uma obra chamada “Hiparcus”, que conteria
as suas pesquisas sobre óptica aliadas à astronomia, mas que, contudo, não
se realizou plenamente. O resultado foi menor, que é aquele contido nos
Paralipomena.
As obras completas de Kepler, infelizmente, não contêm uma
monografia escrita por Kepler em 1600, na qual são relatados os primeiros
estudos keplerianos sobre óptica. Mas, por outro lado, tal monografia foi

2
Acerca das origens das preocupações keplerianas sobre óptica, conferir Chevalley (1980, p.
11- 23) e Caspar (1959, p. 142 –6). Estas duas obras, em especial a primeira, apresentam
informações relevantes sobre como Kepler veio a se interessar pela óptica.
As origens da Óptica de Kepler 71

descoberta na cidade de Leningrado3 e tornada pública pelo pesquisador Frans


Hammer. Esse manuscrito mostra as dúvidas que Kepler passou quando da
ocorrência do eclipse solar de 1600. Intrigado pela, como dissemos, diminuição
aparente do diâmetro da Lua, quando observado numa câmara escura durante
a ocorrência do eclipse, Kepler procurou construir um instrumento de medição
astronômica voltado para obter uma melhor definição, tal instrumento é descrito
por Hammer do seguinte modo:

A peça central era um eixo pivô ao redor de um ponto fixo, no azimute, no ponto
máximo de sua altura. Sobre esse eixo, encontram-se discos fixados
perpendicularmente, com uma distância determinada um do outro, o mais alto tendo
uma abertura circular, enquanto que o mais baixo serve como placa. Se se volta o
eixo em direção ao Sol, então a luz tomba circularmente sobre a abertura e a placa.
Os movimentos do eixo, o diâmetro da imagem e as grandes características do
eclipse são facilmente medidos por essas disposições especiais (Hammer apud
Chevallier, 1980, p. 16).

Esse instrumento criado por Kepler procurou diminuir um pouco as


aberrações das imagens provindas pelo uso da câmara escura. Esta criava
uma imagem dos cantos do Sol, da sua circunferência, enfraquecida e
arredondada, comparada à observação direta do Sol; assim, o instrumento
descrito acima procurava diminuir essas aberrações, permitindo uma melhor
medição do diâmetro do Sol e da Lua durante os eclipses.
Porém, Kepler não obteve dados satisfatórios quando da utilização do
seu invento. Mas, em contrapartida, esse instrumento o levou a questionar as
bases teóricas da óptica de sua época. A sua inquietação deu-se quando ele
comparou a figura formada na placa do instrumento com a imagem formada
quando se observa diretamente o céu (a olho nu), isto é, quando se observa o
fenômeno real; dessa comparação, Kepler notou que a superfície iluminada da
imagem formada na placa é distorcida e proporcionalmente maior que a
imagem real (cf. Chevallier, 1980, p. 16–17). Dessa comparação, Kepler
construiu 17 proposições (contidas também no manuscrito de Pulkovo), que
formaram a base para os seus futuros desenvolvimentos da óptica contidos nos
Paralipomena. Não vamos reproduzi-los aqui, pois essas proposições tratam

33
Esses manuscritos keplerianos foram comprados pela Czarina Catarina II, em 1773, e
ficaram guardados na cidade de Leningrado, a partir dessa época. Esses manuscritos ficaram
conhecidos como “manuscritos de Pulkovo”.
Claudemir RoqueTossato 72

diretamente da refração e da natureza da luz, enquanto que o nosso tema


primário neste texto é a função do olho no ato de ver. Mas isso nos conduz
para as preocupações básicas de Kepler sobre os fenômenos ópticos. O
fenômeno da diminuição do disco lunar durante um eclipse não pareceu a
Kepler um problema físico, ou eminentemente astronômico, mas um problema
óptico, pois essa diminuição lhe pareceu um problema causado não pela
diminuição real do disco lunar, mas pelo modo que o olho humano capta esse
fenômeno, isto é, um problema relativo ao funcionamento do olho humano
quando observa o eclipse.
Kepler apontou dois conjuntos básicos de problemas da ciência óptica
de sua época que deveriam ser reformulados. O primeiro refere-se à refração.
O segundo é que “se produz na visão um certo engano, que nasce em parte do
procedimento de observação” e que “a ocasião desse erro da visão deve ser,
portanto, pesquisado, e isso pela confirmação das funções próprias do olho”
(Kepler, 1980, p. 303). Os erros concentravam-se na falta de uma delimitação
do escopo da óptica e o que se devia entender como “visão”; esta é um
processo anatômico e fisiológico, ou é um processo psicológico (isto é, um
processo no qual o erro se dá pelo julgamento do que se vê, e não
propriamente da imagem formada no olho)? Além disso, perguntou Kepler,
como aplicar a geometria nesses estudos e determinar o grau de erro da
visão? A reformulação da óptica pretendida por Kepler passa diretamente pela
delimitação do campo de estudo dessa ciência.
O problema de Kepler foi, portanto, reformular a ciência da óptica de sua
época e, para tanto, inicialmente, entender como o olho humano funciona,
como ele produz a visão. Isso conduz diretamente para a situação dessa
ciência no final do século XVI e início do século XVII, seja em relação às
concepções filosóficas, anatômicas e geométricas em voga, seja em relação
aos problemas específicos que ela tinha.

Bibliografia

CASPAR, M., 1959, Kepler, New York, Dover Publications.

CHEVALLEY, C., 1980, Introdução a Les fundaments de l’optique


moderne: paralipomènes à Vitellion, Vrin, Paris, p. 1 – 85.
As origens da Óptica de Kepler 73

KEPLER. J., 1980, Les fundaments de l’optique moderne:


Paralipomènes à Vitellion, tradução de Catherine Chevalley, Vrin,
Paris.
Matemática e realidade no pensamento pós-mecanicista do
séc. XVIII

Eduardo Salles O. Barra


Departamento de Filosofia/UFPR

Resumo: Reconstrução histórica e conceitual das doutrinas ontológicas e


epistemológicas acerca da aplicabilidade da matemática ao mundo empírico
no período pós-mecanicista, ao longo do séc. XVIII, notadamente nas obras
de Leibniz, Berkeley, Hume e Kant. O mecanicismo galileu-cartesiano havia
sustentado a aplicabilidade da matemática na identidade substancial entre
matéria e extensão, admitindo largamente que o modelo geométrico
euclidiano seria suficiente para descrever a natureza intrínseca dos objetos
e mecanismos naturais. A pesquisa propõe-se a investigar o quão
determinante foram as divergências daqueles autores com os padrões
explicativos mecanicistas para que recusassem a sua explicação particular
da aplicação da matemática. A hipótese é que um papel mais decisivo foi
desempenhado pela revisão das próprias práticas matemáticas, que
incorporam progressivamente considerações sobre ordens de grandeza
infinitesimais e refinaram a compreensão do contínuo matemático. Se assim
o for, a repercussão do surgimento do cálculo infinitesimal poderia ter sido
tão importante para as revisões da filosofia mecanicista empreendidas por
Leibniz, Berkeley, Hume e Kant quanto o foram os seus respectivos
diagnósticos negativos sobre os méritos propriamente metafísicos da
identidade entre matéria e extensão.
Palavras-Chave: mecanicismo; aplicabilidade da matemática; cálculo
infinitesimal.

A ciência moderna surgiu da certeza de que "o mundo está escrito em


linguagem matemática, e seus caracteres são triângulos, círculos e outras
figuras geométricas."1 A máxima de Galileu, que orientou sua revolucionária
reconstrução da ciência mecânica, encontrou sólida fundamentação metafísica
na identidade entre matéria e extensão sustentada por Descartes.2 Desde que
a natureza comporte somente entidades materiais, suas únicas qualidades
seriam aquelas suscetíveis ao tratamento matemático.3 Nisso consistiu a
filosofia do mecanicismo, que proporcionou às então recentes conquistas da
revolução científica do séc. XVII a sustentação metafísica e epistemológica
aguardada desde a ruína do aristotelismo escolástico.

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.

1
Galileu, Il Sagiotore (1623), citado por Blay (1998:1).
2
Descartes (1989, Parte I, Arts. 8 e 53).
3
Descartes (1989, Parte IV, Art. 187).
Matemática e realidade no pensamento pós-mecanicista do séc. XVIII 75

Ao contrário do que normalmente se costuma supor, e apesar de inspirar


e promover todas as mais importantes conquistas científicas que se seguiram à
era de Galileu e Descartes, a certeza sobre a aplicabilidade da matemática aos
problemas da ciência da natureza declinou fortemente nas primeiras décadas
do séc. XVIII. A razão mais aparente para esse declínio foi, provavelmente, a
crescente vaga de críticas metafísicas ao mecanicismo, ao qual o uso
generalizado das matemáticas na ciência da natureza passara a ser
freqüentemente associado – embora, bem entendido, os vínculos entre
mecanicismo e matemática fossem contingenciais e eletivos, de tal modo que o
emprego da última não acarretam formalmente compromissos filosóficos com o
primeiro.4 As várias tentativas de formular alternativas ao sistema metafísico
cartesiano tiveram que se confrontar com o mesmo problema: como tornar
inteligível o sucesso explicativo obtido pela aplicação da matemática aos
problemas da ciência da natureza? Se o mundo e, consequentemente, a
matéria fossem algo mais que simplesmente extensão geometricamente
definida, ele ainda assim poderia ser considerado suscetível a uma genuína
descrição numa linguagem matemática?
Antigas questões sobre o conhecimento, a linguagem e a ontologia dos
objetos e propriedades naturais foram repostas à luz das diferentes tentativas
de solucionar esse problema. Para fins desta pesquisa, serão destacadas as
contribuições de Berkeley, Hume, Leibniz e Kant. Os dois primeiros – notáveis
representantes do empirismo britânico do séc. XVIII – aderiram a um certo
nominalismo lingüístico, para o qual nenhum termo geral ou abstrato (cujos
exemplos incluem os termos que nomeiam objetos matemáticas) denota
propriamente senão meros indivíduos.5 'Triângulo', por exemplo, não é o nome
de qualquer objeto, pois o que existe e merece esse nome é um triângulo ou
obtuso ou escaleno ou isósceles.6 Berkeley e Hume são particularmente
críticos da doutrina do abstracionismo matemático, recusando-se a admitir que
os termos gerais ou abstratos refiram-se a genuínas entidades reais ou
mentais, resultantes da abstração das características comuns a determinados

4
Ver, por exemplo, Leibniz (1979:171) e Kant (1985b:533).
5
Cf. Berkeley (1989, Introd. §§ 11 e 18) e Hume (1978:17).
6
Cf. Berkeley (1989, Introd. §§ 13 e 16).
Eduardo Salles O. Barra 76

indivíduos. Ao contrário, eles defendem que pontos matemáticos, por exemplo,


são necessariamente entidades espaciais e, como tais, dotadas de todas as
propriedades indispensáveis a qualquer entidade fenomênica (extensão e
impenetrabilidade).7 Se a matemática tem qualquer aplicação aos fenômenos,
ela deve ter a sua origem e fundamento nos próprios fenômenos. Não deve
haver distinção real entre os fundamentos e o uso das matemáticas.
Entre as conseqüências do nominalismo berkeley-humeano está o
profundo ceticismo acerca do papel desempenhado pelos raciocínios
matemáticos e apriorísticos na obtenção e justificação de explicações acerca
dos mecanismos e relações entre objetos do mundo real. Berkeley entendeu
que os "princípios matemáticos" (como aqueles que fundamentam a ciência
newtoniana) jamais poderiam ser considerados explicações verdadeiras do
mundo real e fenomênico. O fenomenalismo berkeleyano foi imediatamente
recebido como uma defesa radical do anti-realismo científico.8 Hume manteve
o mesmo ceticismo a respeito do papel desempenhado pelas evidências
demonstrativas e intuitivas na ciência da natureza,9 embora proponha-se
também a investigar as fontes alternativas da necessidade que habitualmente
associamos às supostas regularidades das operações naturais.
Uma segunda linha de reação ao mecanicismo cartesiano foi articulada
por Leibniz e Kant. O primeiro articulou uma versão particular do
abstracionismo matemático. A metafísica leibniziana incorpora três níveis de
análise: monádico, fenomênico e ideal.10 As entidades matemáticas pertencem
essencialmente ao terceiro nível, cujos componentes resultam, via de regra, de
um processo de abstração do nível fenomênico anterior.11 Muito embora seja
apenas o processo inverso da abstração, a aplicação da matemática aos
fenômenos nunca seria suficiente para descrever todas as suas propriedades.
Os objetos fenomênicos estabelecem entre si determinadas relações dinâmicas

7
"[S]e a idéia de extensão realmente pode existir, como somos conscientes de que realmente
ocorre, suas partes também devem existir; e, para isso, elas devem ser consideradas como
coloridas e tangíveis." (Hume, 1978:39)
8
Cf. Newton-Smith (1985) e Buchdahl (1988:285).
9
Cf. Hume (1998, §27).
10
A sugestão de distinguir esses três níveis (metafísico, fenomênico e ideal) na metafísica
leibniziana do espaço e do tempo é de Hartz & Cover (1988:503-513).Cf. também Buchdahl
(1988:407).
Matemática e realidade no pensamento pós-mecanicista do séc. XVIII 77

(por exemplo, causa e efeito), cujos substratos ontológicos devem ser


buscados no nível mais fundamental (monádico) e, portanto, não são
explicáveis mediante o mesmo princípio que fundamenta os raciocínios
matemáticos – os primeiros são regidos pelo princípio de razão suficiente,
enquanto os últimos, pelo princípio de identidade.12
Kant herda da metafísica leibniziana a concepção de um mundo
tripartido, composto de númenos, fenômenos e entidades matemáticas. Mas o
idealismo transcendental kantiano, na medida em que considera o mundo a
partir das condições da sua representação, procura determinar as formas pelas
quais a mente humana possa transitar legitimamente de um nível ao outro.
Entidades puramente mentais, como são as entidades matemáticas, não
podem ser representadas como reais (ou, no vocabulário kantiano, como
dotadas de realidade objetiva), a menos que sejam aplicáveis aos fenômenos –
algo que Kant considerava possível de ser demonstrado a priori, mediante
aquilo que chamou de "construção na intuição pura".13 Por outro lado, tudo o
que puder ser considerado como pertencente aos fenômenos tomados
individualmente deve ser suscetível de uma descrição matemática. Toda
intuição empírica é acima de tudo uma determinação empírica do conceito a
priori de quantidade.14 Portanto, para Kant, podemos admitir que as
proposições matemáticas sejam dotadas de significado, verdade e objetividade,
sem que isso acarrete qualquer revisão da crença no seu caráter a priori.
Conhecimento apriorístico e fenomênico não se opõem, antes se
complementam.
Mas Kant estava longe de corroborar integralmente a máxima galileana
de que "o mundo está escrito em linguagem matemática." Além dos fenômenos
tomados individualmente, o mundo é composto das suas relações mútuas.
Nem os raciocínios matemáticos nem qualquer outra fonte de evidência
apriorística seriam suficientes para revelar os mecanismos pelos quais os

11
Cf. Leibniz (1979:201-2003).
12
Cf. Leibniz (1979:176, 193-194).
13
Cf., por exemplo, Kant (1989, A223/B271).
14
"todos os objetos exteriores do mundo sensível devem necessariamente coincidir de modo
preciso com as proposições da geometria, porque a sensibilidade, graças à sua forma de
Eduardo Salles O. Barra 78

fenômenos são interrelacionados.15 Tampouco, na avaliação de Kant, a


estrutura inteligível do mundo é transparente a uma mente que se mova
exclusivamente por intermédio de raciocínios apriorísticos. A experiência – e
somente ela – pode nos informar acerca do real "encadeamento dos
fenômenos". Mas a experiência também deve cumprir algo que, em princípio,
deveria ser possível de obter pelo método transcendental de construção na
intuição pura. Trata-se fundamentação metafísica dos esquemas empíricos dos
conceitos a priori constitutivos dos aspectos qualitativos dos fenômenos:
realidade, negação e limitação. Os esquemas empíricos desses conceitos são
as "forças essenciais da matéria", justamente aquelas que, na física
newtoniana, ocupam um lugar central na explicação dos fenômenos do
movimentos naturais: as forças de atração e repulsão.16 A solução que Kant
apresenta para tornar metafisicamente aceitável o emprego de tais conceitos
na ciência da natureza é a conversão do conceito de "forças essenciais da
matéria" na idéia de "forças fundamentais da natureza".17 E, uma vez que as
idéias da razão têm função exclusivamente regulativa – admiti-las como
constitutivas seria justamente sucumbir à "ilusão transcendental", o erro crasso
das metafísicas tradicionais –, amplia-se a distância entre a ontologia da
natureza e a ontologia dos objetos matemáticos, a ponto de tornar
irreconciliável as nossas condições para as suas respectivas cognições.
Foram, portanto, muitos os modos como os filósofos do séc. XVIII
recusaram-se a dar o seu assentimento aos pressupostos metafísicos e
epistemológicos do mecanicismo herdado do século anterior. No entanto, a

intuição externa (o espaço), de que o geômetra se ocupa, torna possível aqueles objetos
enquanto simples fenômenos." (Kant, 1988, §13; cf. também Kant, 1989, A165-166/B206)
15
Para isso os princípios matemático-transcendentais (particularmente, os Axiomas da
Intuição, referido na nota anterior) são insuficientes, e serão necessários também os princípios
dinâmico-transcendentais, particularmente as Analogias da Experiência, que "nada mais são do
que princípios da determinação da existência dos fenômenos no tempo." (Kant, 1989,
A215/B262)
16
Na medida em que a inteligibilidade a priori das forças essenciais da matéria possui limites
intransponíveis, estabelecidos a priori e necessariamente, elas deverão ser consideradas
genuínas "forças fundamentais", isto é, conceitos que já não se pode derivar de nenhum outro
e cuja possibilidade "jamais se pode discernir." (Kant, 1985b:524) A incompreensibilidade
intrínseca das forças essenciais da matéria está dada pelo seu próprio modo de representação
como esquematizações dos conceitos transcendentais de qualidade (realidade, negação e
limitação).
17
Cf. Kant (1989, A206-207/B252; A648/B676;A650/B678 e A648/B676)
Matemática e realidade no pensamento pós-mecanicista do séc. XVIII 79

dificuldade comum a todos eles foi encontrar uma explicação alternativa para o
fato da aplicabilidade da matemática ao mundo. Isso apenas parecia ser
possível se envolvesse uma restrição problemática do estatuto cognitivo e
ontológico da matemática, que comprometeria ora o seu caráter apriorístico –
e, consequentemente, a necessidade que se confere às suas conclusões – ora
a sua própria aplicabilidade. A conseqüência mais imediata dessa atitude foi o
abandono das antigas convicções galileu-cartesianas de que a real natureza
das coisas pudesse ser descrita e compreendida mediante princípios e
raciocínios geométricos. Nas suas interpretações mais extremadas, as
soluções empirista berkeley-humeana (a matemática é ontologicamente
vácua), abstracionista leibniziana (a matemática é uma mera idealização de
relações ou propriedades fenomênicas) e transcendental kantiana (a
matemática contém apenas os esquemas transcendentais do nosso modo de
representar empiricamente os aspectos quantitativos dos objetos) parecem
conformar-se às interpretações formalistas ou instrumentalistas da matemática,
que a atribuem a tarefa de apenas construir sistemas coerentes de axiomas,
princípios e conceitos a partir dos quais se retiram conclusões a serem
confrontadas com a experiência.18 A crítica metafísica ao mecanicismo
cartesiano parece responder satisfatoriamente à pergunta pelas razões que
levaram a um abandono tão radical do legado galileu-cartesiano. Contudo, a
hipótese desta pesquisa é que uma segunda e, talvez, mais decisiva razão
deve ser acomodada à resposta anterior. Trata-se de uma mudança ocorrida
nos próprios métodos matemáticos empregados pelos cientistas ativos na
investigação da natureza. Refiro-me ao cálculo infinitesimal, cujo surgimento
provocou o abandono progressivo dos métodos construtivos, geométricos e
mecânicos inspirados no modelo geométrico euclideano e sua substituição por
métodos algébricos, sujeitos a um procedimento regular e uniforme.
Com efeito, as questões que conduziram à progressiva substituição do
modelo geométrico do século XVII, em particular no seu caso de aplicação
mais fundamental, qual seja, a geometrização do movimento, surgiram de

18
Cf. Steiner (1992).
Eduardo Salles O. Barra 80

dificuldades extremas que remontam aos paradoxos que Zenão de Eléia


enunciara há mais de dois milênios: em que consiste o começo e o final do
movimento? Como eles podem ser explicados geometricamente? Como a
continuidade do movimento pode ser apreendida? O movimento é realmente
contínuo ou, ao contrário, é uma combinação de movimento e repouso? Como
a soma de todas as velocidades (contidas no movimento) deve ser
compreendida? Todas essas questões tinham um ponto em comum: para
respondê-las, é imprescindível lidar com o infinito, seja na forma de séries ou
somas infinitas seja na forma de divisões infinitas – problemas surgidos ao
longo dos séculos e parcialmente obscurecidos durante do séc. XVII pela
ênfase no processo de geometrização na busca de uma ciência que
penetrasse a própria natureza das coisas. Em vista dos propósitos iniciais da
geometrização, as investigações sobre indivisíveis e a composição do
contínuo, além de impor incontornáveis dificuldades tipicamente matemáticas,
implicam um compromisso ou com a introdução do infinito no mundo ou com a
presença de um infinito intramundano, mas ambos essenciais para que aqueles
propósitos pudessem ser integralmente realizados. Como se poderia conceber
um infinito real, presente no mundo, quando é exatamente a concepção do
infinito que se supõe estar reservada ao Criador do mundo – quando o atributo
da infinitude está reservado somente a Deus, cuja natureza nunca chegamos a
compreender inteiramente?19
A finitude do pensamento humano, confrontada com a infinitude do
Criador, impede que o projeto de geometrização seja inteiramente realizado, na
medida em que se mostra impossível ao mesmo tempo ler e compreender o
infinito na natureza – e, portanto, apreender completamente a natureza das
coisas. O progressivo abandono da geometria euclideana e a emergência do
cálculo infinitesimal – sobretudo com a enorme repercussão dos trabalhos de
Newton (1999) e Leibniz (1995) – acarretam revisões dramáticas nas antigas
crenças mecanicistas sobre a identidade ontológica entre as entidades
matemáticas e objetos naturais e na transparência dos mecanismos naturais a
uma mente apta a dominar os métodos construtivos, geométricos e mecânicos

19
Cf. Descartes (1989, Parte I, Arts. 26 e 27).
Matemática e realidade no pensamento pós-mecanicista do séc. XVIII 81

inspirados no modelo geométrico euclideano.20 O objetivo central desta


pesquisa é investigar a amplitude dessa revisão, em particular averiguar se ela
implicou, nas palavras de um importante comentador, "a renúncia de todas as
pretensões com respeito a propósitos ontológicos fundacionistas", de tal modo
que o projeto de matematização da natureza se tornou "somente um discurso
bem-construído" que, por "não falar mais sobre da realidade das coisas e se
desprender delas, poderia livremente empregar os procedimentos da geometria
infinitesimal e do cálculo integral e diferencial: porque esses procedimentos
desde então não eram mais do que métodos, técnicas, meros auxiliares do
cálculo e da investigação, cujo reflexo direto não se poderia mais pretender
encontrar na realidade."21
Em princípio, poder-se-ia perguntar se, ainda que interpretações como a
de Blay apreendam com precisão aquilo que pode ser considerado o consenso
pós-newtoniano sobre a atitude própria a cientistas naturais e matemáticos
ativos,22 também apreendem o que concomitantemente ocorreu na filosofia do
séc. XVIII após o aparecimento dos primeiros prodígios descritivos dos novos
métodos infinitesimais? Dito de outro modo: o problema da aplicabilidade da
matemática ao mundo, ainda que esvaziado dos seus apelos ao fundacionismo
e ao realismo típicos do platonismo matemático, deixou de oferecer material às
reflexões filosóficas no campo da ontologia e da epistemologia, reduzindo-se a
uma questão pragmática da investigação dos eventos naturais? Esta pesquisa
pretende reconstruir as análises que autores como Berkeley, Hume, Leibniz e
Kant dedicaram a esse problema. Pergunta-se ainda se mesmo a
despretensiosa posição nominalista de Berkeley e Hume com respeito ao
estatuto ontológico das entidades matemáticas não deveria ser acomodada à
preocupação de seus contemporâneos (entre eles, evidentemente, Leibniz e
Kant) de tornar inteligível o modo como os raciocínios matemáticos se ajustam
às inferências a partir da experiência. As questões emergidas com surgimento
do cálculo infinitesimal poderão sugerir um roteiro talvez ainda pouco

20
Em particular, esse fato parece desempenhar um papel central no tipo de argumentação que
conduziu Kant a concluir a não-construtibilidade numa intuição pura das grandezas intensivas
(ou qualidades) da matéria (cf. Kant, 1989, A 170/B 211-212; Barra, 2000:225-266).
21
Blay (1998:10). Cf. também Urbaneja (1992:36) e Duhem (1981, p.44).
Eduardo Salles O. Barra 82

explorado, tanto por historiadores da filosofia quanto por historiadores da


matemática, para reconstruir as conversações reais ou imaginárias que esses
personagens mantiveram entre si e esclarecer o significado das diferentes
posições que assumiram diante do problema anterior.
Por fim, duas últimas observações sobre o alcance dos resultados desta
pesquisa. Em primeiro lugar, é importante notar que o problema dos limites e
das condições da aplicabilidade da matemática continua a ser ainda hoje uma
questão epistemológica e ontológica da maior relevância, e ocupa um lugar de
destaque em várias das principais filosofias da matemática contemporâneas.23
Sendo assim, espera-se que os resultados desta pesquisa possam auxiliar no
esclarecimento dos antecedentes históricos do problema, o que poderá
favorecer uma melhor avaliação das soluções e das discussões atualmente em
curso. Em segundo lugar, a orientação geral desta pesquisa coincide com o
princípio meta-filosófico de que as análises metafísicas e epistemológicas são
– ou, numa versão normativa, deveriam ser – estruturadas pelas crenças
substantivas sobre o mundo e sobre os melhores meios de que dispomos para
conhecê-lo. No campo específico da epistemologia, essa tese ficou conhecida
como "epistemologia naturalizada" ou naturalismo epistemológico, que
normalmente privilegia as crenças científicas como instâncias estruturadoras
das análises epistemológicas.24 Na medida em que aborda as revisões das
explicações mecanicistas galileu-cartesianas para aplicabilidade da matemática
ao mundo a partir das inovações técnicas e conceituais introduzidas pelos
métodos algébricos do cálculo infinitesimal, esta pesquisa poderá fornecer uma
instância de avaliação da cogência e da eficácia interpretativa do naturalismo
epistemológico, num campo ainda muito pouco explorado, embora decisivo
para as suas pretensões sobre o caráter não-apriorista das análises
epistemológicas.

22
Para uma defesa dessa perspectiva, ver Cohen (1980:109 e 254-255)
23
Ver, em particular, Steiner (1998), mas o mesmo tipo de preocupação pode ser também
encontrada em Benacerraf & Putnam (1983), Hand (1993), Hodes (1990), Kitcher (1984),
Parsons (1990), Resnik (1988), Shapiro (1983 e 1989) e Tymoczko (1991).
24
Para a discussão dessa posição meta-epistemológica, ver, por exemplo, Bonjour (1994),
Feldman (1999), Foley (1994), Goldman (1992), Kim (1988), Kitcher (1992), Kornblith (1994 e
1999), Laudan (1996), Mafffie (1990), Quine (1969 e 1990) e Stich (1990).
Matemática e realidade no pensamento pós-mecanicista do séc. XVIII 83

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Seventeenth Century" Arc. Hist. Exact. Sci. 1:179-388.
A história da arte como história da ciência: homenagem a
Pierre Francastel no seu centenário

José Carlos Cifuentes


Departamento de Matemática e Programa de Pós-graduação em Educação/UFPR.

Leônia Gabardo Negrelli


Doutoranda em Educação (Educação Matemática)/UFPR.

Marlene Perez
Doutoranda em Educação (Educação Matemática)/UFPR.

Resumo: Neste artigo é esboçada uma linha de pesquisa que visa


fundamentar vários momentos da história e filosofia da ciência na história da
arte, especialmente em relação ao problema da matematização da
natureza. Foco principal desse estudo são as diversas concepções de
“espaço” possíveis de serem identificadas em manifestações artísticas e em
trabalhos teóricos de dois momentos importantes no desenvolvimento da
ciência e seu correlato na arte: 1) o início do Quattrocento italiano, o
momento da descoberta do espaço moderno pelo homem, onde o advento
da perspectiva linear, como técnica de representação do espaço, pode ser
considerada um antecedente, através da leitura de Alberti e Leonardo,
dentre outros, da matematização da natureza mediante sua imitação pela
arte; e 2) a segunda metade do século XIX, o momento da descoberta do
homem no espaço, com o advento do impressionismo francês, antecedente
artístico de concepções de espaço a partir da subjetividade formuladas por
Poincaré e Piaget na primeira metade do século XX. Para o estudo de
ambos os momentos será fundamental a análise crítica de Pierre
Francastel.
Palavras-chave: Matematização da natureza; Concepções de espaço;
Perspectiva linear; Renascimento italiano, Impressionismo francês.

Descobrir o espaço e descobrir-se


nele, representa para cada indivíduo
uma experiência a um só tempo
pessoal e universal (0strower 1983, p.
30).

1 Introdução

Fayga Ostrower, na citação que inicia este artigo, levada do âmbito do


individual para o âmbito do social, sugere-nos dois grandes momentos na

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
José Carlos Cifuentes, Leônica Gabardo Negrelli, Marlene Perez 88

história da humanidade: o do descobrimento do espaço pelo homem e o da


percepção do homem como parte constituinte do espaço. Representativo do
primeiro momento será considerado, neste artigo, o início do Quattrocento
italiano com o advento da perspectiva como “técnica” de representação do
espaço, considerando-a um antecedente da matematização da natureza
através da sua imitação pela arte, em especial pela pintura; e o segundo, será
situado na segunda metade do século XIX e primeira do XX, em relação aos
estudos do matemático francês Henri Poincaré (1854-1912) e do filósofo e
biólogo suíço Jean Piaget (1896-1980) sobre a geometria e a psicofisiologia da
percepção espacial, considerando, o advento do impressionismo francês, como
um antecedente de suas concepções na arte.
Para Pierre Thuillier, “foi em Florença, no início do século XV (o
Quattrocento) que pintores e arquitetos formularam a primeira teorização da
perspectiva, teorização que teria mais tarde inúmeras repercussões sobre o
pensamento científico” (Thuillier, 1994, p. 57). Para Pierre Francastel, ao
Renascimento, com uma inabalável fé no poder da razão, interessava a
estabilidade, a objetividade, a permanência. De fato, a perspectiva imobiliza os
objetos salientando as suas relações de posição. No entanto, a representação
espacial moderna é representação baseada na análise de reflexos, é
representação psicofisiológica e não mais óptica como o foi no Renascimento
(Francastel, 1967, p. 48). Hoje interessa aos artistas o ritmo, a velocidade, as
deformações, a plasticidade, etc., o que estaria ligado a uma concepção de
espaço diferente, baseada nos movimentos e para a qual é mais importante a
dinâmica dos impulsos corporais, como observaram Poincaré e Piaget.
Nos estudos tradicionais de história e filosofia da ciência, o problema da
matematização da natureza é colocado como parte fundamental do processo
de racionalização da ciência, especialmente da física, a partir de Galileu e
Descartes no século XVI. Porém, pouco se tem reparado em seus
antecedentes renascentistas mais ligados à história da arte, especialmente em
relação à pintura. De fato, desde o século XV, e tal vez um pouco antes, há
uma mudança de mentalidade que envolve uma nova concepção de mundo
centrada no homem e que dá um papel de relevância à natureza. Alberti, no
século XV, concebe a natureza como o maior artista: ela trabalha nas suas
A história da arte como história da ciência 89

construções com ferramentas ou princípios de ordem matemática (e também


estética) como harmonia, proporção, simetria (Blunt, 2001, p. 31-32).
Alberti trata de dar uma fundamentação científica à pintura (e à
arquitetura) no início de suas obras, no caso da pintura no Della Pittura de
1435, sendo essa forma de pensamento decorrente de seu humanismo
renascentista, pois considera a ciência como o melhor fruto da razão humana
no estudo da natureza. Como observa Thuillier (1994), Alberti e seus
contemporâneos, apesar da mudança de mentalidade já apontada, não podiam
se afastar totalmente de uma concepção teológica do mundo, na qual a luz,
fonte e fundamento da óptica e da perspectiva, foi a primeira criação divina,
como descrita na Bíblia. Segundo esse autor, “... esta geometrização do
espaço óptico, de acordo com uma longa tradição, tem um significado religioso.
No século XIII, vários teólogos afirmavam o caráter privilegiado da luz: por um
lado, ela é uma das mais puras criações de Deus, por outro, evoca a maneira
pela qual a Graça divina se propaga no mundo” (Thuillier, 1994, p. 65). E
acrescenta: “Analisar as linhas, os ângulos, as superfícies e os volumes, com o
auxílio de Euclides, é uma forma de perceber melhor como a sabedoria divina
se manifesta no mundo visível” (p. 70). Reparemos que “mundo visível” refere-
se ao mundo exterior.
Neste artigo é esboçada uma linha de pesquisa desenvolvida pelo
primeiro autor em colaboração com doutorandos do Curso de Pós-Graduação
em Educação da Universidade Federal do Paraná, mais precisamente da área
de Educação Matemática, e encaixa-se em um projeto mais amplo que visa
analisar as relações entre o racional e o sensível na matemática ao longo da
história.
Um dos focos desse estudo é o conceito de “espaço” tal como
apresentado em textos relevantes para a história e filosofia da ciência, e ele se
dá em duas vertentes:
a) as concepções de espaço possíveis de serem identificadas em
manifestações artísticas e, principalmente, em trabalhos teóricos do início
do Renascimento italiano como os de Filippo Brunelleschi, Leon Battista
Alberti, Leonardo da Vinci e Paolo Pino, dentre outros, trabalhos que podem
ser considerados antecedentes estéticos da arte e da ciência modernos,
José Carlos Cifuentes, Leônica Gabardo Negrelli, Marlene Perez 90

onde a matematização da natureza já é refletida na matematização da


pintura, considerada ainda imitação da natureza, através do
desenvolvimento da perspectiva. Complementaremos esse estudo com a
análise da crítica dessas concepções no século XX em autores como Pierre
Francastel e Erwin Panofsky;
b) as concepções modernas de espaço, tanto matemáticas (os espaços curvos
por exemplo) como psicofisiológicas, e os processos de construção, pelo
sujeito, das estruturas subjacentes à noção de espaço e subseqüente
geometria, investigados por Poincaré e por Piaget, como uma recuperação
do sensível em matemática à luz dos desenvolvimentos modernos da
psicologia e da epistemologia. Poremos em evidência, também, seus
antecedentes na revolução artística do século XIX iniciada com o
impressionismo francês.
Este estudo (mais a formulação de um projeto de pesquisa do que um
trabalho terminado) tem uma vertente, como em Francastel, na sociologia da
ciência, pois vai lidar com a concepção de espaço como parte do imaginário
cultural das épocas mencionadas.

2 A Matematização da Natureza na Arte Renascentista

O conceito de “espaço” faz parte do desenvolvimento das civilizações e


de suas atividades culturais, manifestando-se na criação de sistemas para
melhor representá-lo. Já a distinção entre o racional e o sensível a respeito da
noção de “espaço” aparece na antigüidade clássica, especialmente em Platão,
para quem a idéia de “espacialidade” pode ser expressa por dois termos: chora
(espaço como noção independente da matéria que o ocupa) e topos (lugar,
dependente da matéria que o ocupa), o segundo com um grau de concretude
maior do que o primeiro.
O processo da descoberta do espaço levou um longo tempo, não
apenas para o ser humano individual, mas para a humanidade que percorreu
um longo caminho para descobri-lo, e para descobrir-se como parte integrante
desse mesmo espaço.
A história da arte como história da ciência 91

O questionamento teórico sobre o que é o espaço está presente em


obras de vários autores que estudaram as formas de representação artísticas
nas mais diversas perspectivas.
Pesquisadores como Francastel (1999), Thuillier (1994) e Crosby (1999)
são unânimes em situar o final da Idade Média e o Renascimento como um
período em que se desenvolveu um novo modelo de realidade e, ao mesmo
tempo, uma nova concepção de espaço, influenciando a arte e a ciência.
Interessam-nos particularmente as mudanças, no período citado, quanto
às concepções de espaço e de natureza em relação à pintura, pois conforme
Thuillier (1994, p. 58), para que as teorias de Galileu e Newton pudessem se
desenvolver, “as noções de tempo e espaço já deviam ter adquirido um certo
rigor. Só sob esta condição tornava-se possível uma física ao mesmo tempo
matemática e experimental”. Assim, pretendemos mostrar nestas linhas que o
caminho dos homens de ciência foi aberto pelos artistas e arquitetos do início
do Renascimento italiano, que elaboraram, segundo Francastel, um novo
sistema transmissível de figuração do mundo.
A arte diferencia-se da ciência em relação ao método de matematização
da natureza. Os sistemas do mundo, percebido e representado, tem de ser
canalizados pelo discurso, e o Renascimento usa um discurso plástico para tal
fim. A representação artística é um código e como tal guarda uma informação
codificada sobre o mundo ou a natureza. Essa representação é uma forma de
matematização, pois envolve uma organização e ordenação das informações.
A matemática que a arte usa para representar a natureza é mais de caráter
qualitativo que quantitativo, digamos, mais geométrica que algébrica. “As
fórmulas são explicações e não fontes de inspiração. A obra viva sai da
imaginação e não do cálculo” (Francastel, 1967, p. 37).
A linguagem das imagens, ainda insuficientemente estudada segundo
Francastel, serve de base ao estudo das condições de figuração plástica do
espaço. Os avanços na perspectiva e na anatomia, por exemplo, são
instrumentos para esse estudo.
A perspectiva refere-se ao processo matemático para obter a
profundidade e uma escala quanto às dimensões dos objetos e da distância
entre eles, de uma forma lógica. Foi no final da Idade Média, ainda no séc. XIV
José Carlos Cifuentes, Leônica Gabardo Negrelli, Marlene Perez 92

que se tem indícios sobre a utilização da perspectiva linear, sobretudo na


arquitetura e na pintura, formalizada por Leon Battista Alberti. Mas outros tipos
de perspectiva também fazem parte da história universal da arte e todos são o
resultado do esforço do homem no sentido de compreender e representar o
espaço e os objetos que o povoam em cada época em função dos hábitos
sociais, científicos, econômicos e políticos.
A pintura no Renascimento, tanto quanto qualquer teoria científica, na
sua função de descrever o mundo, a natureza, tratou de incorporar técnicas
matemáticas (qualitativas) para esse fim, e nisso se adiantou à ciência.
Na pintura, a mudança deu-se com a percepção da luz e da sombra,
com a concepção de extensão e de espaço e com a representação do espaço
no plano, isto é, com a reprodução de representações de temas tridimensionais
no bidimensional. A representação do espaço pelos artistas através da
perspectiva, ainda no espírito de imitação da natureza, está na base dos
processos de matematização da natureza pela ciência, a qual concretiza-se a
partir do século XVI, talvez em decorrência do aprimoramento da linguagem
matemática (algébrica) devido a Viète e outros.
Essas mudanças não aconteceram repentinamente no Renascimento;
elas se deram como resultado de descobertas e invenções que vinham
ocorrendo já na Idade Média e que já ocorriam entre os gregos, com base nos
tratados sobre óptica de Euclides e de Ptolomeu.
Um dos pintores que contribuiu significativamente para a nova
concepção do espaço foi Giotto (1267-1337) que, em suas pinturas, sem usar
ainda a perspectiva renascentista, promoveu a idéia de profundidade através
das linhas de direção do olhar de suas personagens. Crosby (1999, p. 166),
relata que “os contemporâneos de Giotto, impressionavam-se com a
organização rigorosa que havia em seus quadros, com sua combinação de
intensa emoção e extrema dignidade, e com os indícios da terceira dimensão”.
O arquiteto florentino Filippo Brunelleschi (1377-1446), influenciou
significativamente a nova forma de representação do espaço, provando que
conhecia o suficiente de geometria para entender os problemas de perspectiva,
ao conseguir projetar e dirigir a construção da abóboda da catedral de sua
cidade, a igreja de Santa Maria Del Fiore. O projetar a obra antes de construí-
A história da arte como história da ciência 93

la, que se iniciou com Brunelleschi na arquitetura, deve ter sido uma das
fontes, na mentalidade renascentista, do pensar numa estrutura subjacente à
natureza.
Outra característica desse período é o tratamento dado ao espaço vazio;
a pintura medieval nos oferece um “espaço agregado, isto é, um espaço onde
os objetos são justapostos sem que as suas relações espaciais sejam levadas
em conta” (Panofsky apud Thuillier, 1994, p. 58).
Brunelleschi conseguiu superar essa visão do espaço para um sistema
que reproduz um modelo imaginário que permite a todas as regiões do espaço
se comunicarem entre si através de planos que se interceptam. Francastel
(1990, p. 11), escreve a esse respeito:

[...] a importância atribuída às relações concretas e mensuráveis que existem entre


objetos aparentemente distanciados e estranhos uns aos outros, a descoberta do fato
de que as linhas não definem apenas o limite das superfícies contínuas, mas que a
intersecção dos planos se prolonga e se projeta no vazio, dando-lhe forma,
constituem decerto uma lição infinitamente preciosa para os pintores.

Outra contribuição para a nova concepção do espaço vem do pintor


Masaccio, que por volta de 1425 pintou, na igreja de Santa Maria Novella de
Florença, o afresco A Trindade, que segundo Thuillier (1994) é considerado
como a primeira aplicação rigorosa do “ponto de fuga”. Mas, nem Brunelleschi
e nem Masaccio deixaram qualquer explicação sobre suas técnicas. Coube a
Leon Batista Alberti (1404-1472), que se destacou como arquiteto, urbanista,
arqueólogo, cientista, cartógrafo, matemático e adepto da mensuração,
escrever sobre a teoria da perspectiva que é exposta em 1435 e impressa em
1511, que é o seu tratado Da Pintura.
Alberti (1999, p. 75) inicia o livro primeiro desse tratado colocando que
irá escrever sobre pintura e para que a redação seja clara vai tomar dos
matemáticos as noções que estão ligadas ao assunto e que só então falará
sobre a pintura, partindo dos princípios da natureza. E completa: “peço, porém,
ardentemente, que durante toda a minha dissertação considerem que escrevo
sobre essas coisas, não como matemático, mas como pintor”.
Alberti define, com base na geometria euclidiana, o ponto, a reta e a
superfície. A esta última dá um tratamento especial: “a superfície é uma parte
extrema de um corpo, que é conhecida, não por sua profundidade, mas tão-
José Carlos Cifuentes, Leônica Gabardo Negrelli, Marlene Perez 94

somente por seu comprimento, largura e, ainda, por suas qualidades” (p. 76).
Esse estudo sobre a geometria, onde as qualidades substituem a profundidade,
e algumas noções sobre a óptica, servem-lhe de base para a análise da
perspectiva.
As qualidades da superfície são divididas em qualidades permanentes e
qualidades mutáveis. As qualidades permanentes são as que constituem a
superfície propriamente dita tais como as linhas e os ângulos do seu contorno,
assim como o seu dorso que a classifica como plana ou esférica (convexa e
côncava). As qualidades mutáveis fazem com que as superfícies variem de
acordo com a mudança do lugar: mudando o lugar, as qualidades que ficam à
superfície parecem maiores, com outro limite ou com cores diferentes. Isto
acontece porque as superfícies são medidas por raios visuais que levam aos
sentidos a forma daquilo que vemos.
Os autores consultados divergem em suas opiniões sobre a importância
da perspectiva linear, la construzione legittima, para as artes visuais.
Panofsky (1999, p. 58) compara o método de Alberti com o método
utilizado pelos Lorenzetti, que tinham preservado, no Trecento, o rigor da
convergência matemática das ortogonais, não existindo ainda um método que
medisse as distâncias em profundidade, o que apareceu com o método de
Alberti.
Granger (2002, p. 99-100) se manifesta afirmando que o Quattrocento foi
original no sentido de “colocar em destaque a construção de um espaço plano
destinado a figurar o espaço tridimensional” e que as soluções geométricas
propostas não foram adotadas por todos ou pela maioria dos artistas da época,
porque as soluções do problema da representação “são de natureza tecno-
estética-matemática”. Essa transposição do espaço para o plano é muito
complexa e levou a uma renovação da própria geometria, com Desargues
(1591-1661), através do conceito de espaço projetivo.
Segundo Francastel (1990, p. 20-24), para os homens do começo do
Quattrocento, “a perspectiva dita renascentista – ou seja, a perspectiva linear
segundo as fórmulas de Alberti – não era em absoluto a mais difundida, nem,
sem dúvida, que melhor parecia dar conta dos aspectos correntes do universo”.
A etapa vencida por volta da metade do século XV, por alguns pintores e por
A história da arte como história da ciência 95

Alberti, é a da adoção do sistema de representação considerado “verdadeiro”


do mundo exterior por meio da perspectiva linear. O método vai exigir daí em
diante “que as imagens se inscrevam dentro da janela de Alberti como se fosse
o interior de um cubo aberto de um lado” (p. 23). Francastel considera que a
idéia de que o Renascimento representa uma abordagem no sentido da
representação “verdadeira” em relação ao mundo exterior, é falsa. Admitir essa
idéia seria admitir que o espaço, para toda a humanidade, é permanente e que
apenas os modos de o representar é que mudam. É como se o universo fosse
dado a conhecer de uma vez por todas e o homem apenas precisasse
descobri-lo pela intuição ou pela ciência. E completa: “o espaço não é uma
realidade em si, da qual somente a representação é variável segundo as
épocas” (p. 24).
De fato, a questão do verdadeiro na representação é muito complexa.
Na arte, mesmo para efeitos de imitação da natureza, há uma escolha de
elementos para dotar a obra de beleza. Essa escolha supõe, então, uma
abstração, portanto a representação de uma estrutura: a “estrutura bela” da
coisa. A ciência descreve a “estrutura racional” da coisa.
Representar significa capturar a estrutura de um objeto, seus traços
essenciais, o que implica numa abstração. A interpretação individual que cada
espectador dá à obra, para Francastel, significa o preenchimento do que falta
para tornar, o objeto representado, concreto (Francastel, 1967, p. 37).
Para Alberti e também para Leonardo da Vinci, a pintura é uma ciência
devido ao seu fundamento na perspectiva matemática e no estudo da natureza.
A arte da pintura é um tipo de conhecimento, em particular, para Leonardo, a
pintura traz verdade.
Para Leonardo, segundo Ernst Cassirer, a arte “é permanentemente um
meio autêntico e indispensável para compreender a própria realidade. Em
outros termos, a “visão” de Leonardo contribuiu para preparar a “abstração”
científica, para tornar possível um conhecimento rigoroso das formas naturais
(sejam quais forem) e suas relações” (Thuillier, 1994, p. 110).
Terminaremos esta seção nos referindo a um outro autor, menos
conhecido, mas que trará uma contribuição enorme na compreensão do
período anterior ao século XVI: Paolo Pino. Ele opõe a visão florentina da arte,
José Carlos Cifuentes, Leônica Gabardo Negrelli, Marlene Perez 96

profundamente ligada à geometria e a aspectos matemáticos, à visão vêneta,


que ele defende, caracterizada por uma outra concepção perspéctica, mais
empírica do que a florentina. Em seu Diálogo sobre a Pintura, ele também faz
uma discussão entre beleza natural e beleza artística. Tanto a beleza natural
quanto a beleza artística obedecem a preceitos geométricos, a primeira é
criada pela natureza, a segunda pela abstração do pintor ao imitá-la elegendo,
como Alberti, certas porções de beleza.

3 Poincaré e Piaget: Um recomeço na Relação Arte-Ciência a partir do


Impressionismo

Para Ostrower (1983, p. 30), o espaço começa a ser percebido e ao


mesmo tempo ampliado a partir dos primeiros movimentos físicos do corpo,
sendo que esta experiência básica é necessária para todos os seres humanos.
Dessa forma, o conhecimento do espaço é um processo ligado à possibilidade
de percepção e investigação do meio onde vivemos. Assim sendo, “[...] o
espaço constitui o único mediador que temos entre nossa experiência subjetiva
e a conscientização dessa experiência”.
Para Francastel, o espaço é a própria experiência do homem. “Existe aí
um mundo imenso de sensações fundamentais, contatos de nossa pele e de
nossos músculos com a matéria, humana ou não, que enriquece nossa
experiência do espaço. Lembremo-nos que a Psicanálise e a Ciência,
simultaneamente, levam-nos a entrar em contato, cada dia mais, com
realidades somatomentais [e, portanto, do mundo interior] que desempenham
um papel fundamental para nossa compreensão do universo, e que, por outro
lado, vemos desenvolver-se o gosto por novos materiais e novas técnicas [...]
que nos proporcionam experiências positivas – ópticas e táteis – novas”
(Francastel 1967, pp. 49-50). Ainda, segundo Francastel, está se gerando um
novo humanismo, e novamente, como no Renascimento, temos os artistas
como precursores da ciência que, a partir do Impressionismo, salientaram nas
suas obras o mundo interior e a subjetividade na nova visão da natureza.
Essas concepções estão na base do pensamento de Poincaré para
quem a noção de espaço que nós temos é decorrente da possibilidade de
movimento e, portanto, sugerido pela experiência.
A história da arte como história da ciência 97

Piaget, ao estudar o desenvolvimento da noção de espaço, ou das


inúmeras noções que interferem na representação do espaço pelo sujeito, em
especial pela criança, coloca que são as intuições topológicas elementares que
estão na origem dessa noção, e não as intuições euclidianas de reta, ângulo,
figura, medida, etc. Aquelas intuições topológicas estão relacionadas às
“correspondências qualitativas bicontínuas que recorrem aos conceitos de
vizinhança e de separação, de envolvimento e de ordem, etc., mas ignoram
qualquer conservação das distâncias, assim como toda projetividade” (Piaget e
Inhelder, 1993, p.11).
A elaboração do espaço pela criança passa por uma fase perceptiva e
outra representativa. A primeira acontece desde o nascimento e está ligada à
percepção, à motricidade. A segunda ocorre após o surgimento da imagem, do
pensamento intuitivo e da linguagem. A intuição espacial não se refere apenas
a sensações e intuições, “é a inteligência elementar do espaço, em um nível
ainda não formalizado” (Piaget e Inhelder, 1993, p. 469). Nessa intuição a
imagem e a matéria desempenham o papel de símbolo.
A partir de seus estudos, Piaget conclui que: “a intuição do espaço não é
mais uma leitura das propriedades dos objetos, mas, antes, desde o início, uma
ação exercida sobre eles; e é porque essa ação enriquece a realidade física,
ao invés de extrair dela, sem mais, estruturas completamente formadas, que
ela consegue ultrapassá-la gradualmente, até constituir esquemas operatórios
suscetíveis de serem formalizados e de funcionarem dedutivamente por si
mesmos“ (p. 469).
Até os seis meses de idade, aproximadamente, a criança não tem
consciência do espaço e não se situa nele. Até então o espaço é um produto
das ações tátil, visual, bucal e auditiva da criança. Essa fase, reconhecida
como espaço prático, é um dos elementos constituintes daquele que Piaget
denominou espaço sensório-motor.
O espaço prático de Piaget era o espaço do universo grego. W. M. Ivins
“opõe judiciosamente o universo dos gregos, “tátil e muscular”, ao dos
renascentistas, essencialmente “visual”. No primeiro, cada objeto é
considerado isoladamente, como se a sua forma individual só fosse conhecida
pelo toque; [...] Os objetos representados podem estar justapostos, mas não
José Carlos Cifuentes, Leônica Gabardo Negrelli, Marlene Perez 98

relacionados uns aos outros por meio de um entrelaçamento matemático ao


mesmo tempo abstrato e onipresente. No segundo caso, ao contrário, os
objetos situam-se e se organizam uns em relação aos outros em um espaço
homogêneo que se prolonga indefinidamente em todas as direções” (Ivins,
apud Thuillier 1994, pp. 77-78).
Para Poincaré, a gênese da noção de espaço além de estar ligada à
visão e ao tato também é determinada pelas sensações musculares que
acompanham os movimento no nosso corpo. E nesse sentido, só podemos
chegar à noção de espaço estudando a leis segundo as quais as nossas
sensações se sucedem.
A base desse espaço seria um contínuo amorfo cujas propriedades,
objeto de estudo da topologia, são “isentas de qualquer idéia de medida”
(Poincaré, 1995, p. 45). O espaço dos geômetras, ou seja, aquele objeto da
geometria, é contínuo, infinito, tem três dimensões, possui todos os seus
pontos idênticos entre si (é homogêneo) e todas as retas que passam por um
mesmo ponto são idênticas umas às outras (é isótropo). No entanto, ele não
apresenta as mesmas características do espaço representativo que é
construído de representações de sensações visuais, táteis e motoras. O
espaço visual, por exemplo, não é homogêneo pois os pontos da retina não
têm o mesmo papel. A imagem formada nesse espaço também não é infinita
pois se apresenta num quadro limitado e apresenta-se em duas dimensões,
sendo que a terceira seria revelada pela convergência dos olhos ou por um
esforço de acomodação. O que representamos então são as impressões que
os objetos produzem em nossos sentidos e não os objetos.
Quando localizamos um objeto no espaço, o que fazemos é representar
os movimentos necessários para se alcançar este objeto. Representar esses
movimentos significa “representar as sensações musculares que os
acompanham e que não têm nenhum caráter geométrico que, em
conseqüência, não implicam, de maneira alguma, na preexistência da noção de
espaço.” (Poincaré, 1988, p. 59).
Assim como Poincaré, Piaget atribuiu aos movimentos o papel de “fontes
de conhecimentos espaciais mais elementares”. Mas, enquanto Piaget
percebeu “a relação geral entre tais movimentos e as operações ulteriores da
A história da arte como história da ciência 99

inteligência”, Poincaré “descreveu os movimentos em termos de sensações e


manteve ao lado delas um a priori racional encarregado de dirigi-las” (Piaget e
Inhelder, 1993, p. 469). Piaget inclusive utilizou-se dos grupos de
deslocamentos de Poincaré para caracterizar e interpretar as suas
observações (Dolle, 1974).
Segundo Poincaré, o espaço geométrico não seria uma forma imposta a
nossa sensibilidade, como em Kant, pelo fato de percebermos a direção dos
movimentos executados. Não seria apenas uma percepção. “As sensações que
correspondem a movimentos com mesma direção estão ligadas em meu
espírito por uma simples associação se idéias” (Poincaré, 1988, p.58). Essa
associação de idéias é adquirida como um hábito após várias experiências.
Mas não é a experiência que diz, por exemplo, se devemos adotar o espaço
euclidiano ou o não-euclidiano. Nossa intuição fornece idéias de ambas as
geometrias. Adotamos uma ou outra conforme seja mais notável a sua
percepção. Por exemplo, a reta euclidiana difere pouco de objetos naturais
notáveis, ao contrário da reta não-euclidiana. E isso a torna mais notável
(Poincaré, 1995).
Como já foi dito, a elaboração do espaço não começa com as formas
euclidianas simples. Segundo resultados de estudos desenvolvidos por Piaget,
obtidos por meio de várias atividades feitas com crianças, o espaço sensório-
motor desenvolve-se a partir de um espaço topológico em direção a um espaço
ao mesmo tempo projetivo e euclidiano ou métrico.
Todas essas características de uma concepção de espaço a partir da
subjetividade estão implícitas na pintura impressionista, onde a natureza não
se apresenta como é senão como aparece, onde o artista não descreve senão
pesquisa os mistérios da sensação criando uma nova linguagem plástica e,
portanto, um novo código para capturar essa nova realidade que sai do sujeito.

Bibliografia

ALBERTI, Leon B. Da pintura. Trad. Antonio da Silveira Mendonça. 2ª


edição. Campinas: Editora UNICAMP, 1999.

BLUNT, A. Teoria artística na Itália 1450-1600. Trad. João Moura Jr.


São Paulo: Cosac e Naify Ed., 2001.
José Carlos Cifuentes, Leônica Gabardo Negrelli, Marlene Perez 100

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POINCARÉ, J-H. A ciência e a hipótese. Brasília: Ed. UnB, 1988.

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de Janeiro: Contraponto, 1995.

THUILLER, P. De Arquimedes a Einstein: a face oculta da invenção


científica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
Os manuscritos redescobertos em 1973 e o programa
experimental de Galileo Galilei

Júlio C. R. Vasconcelos
Departamento de Filosofia /UEFS

RESUMO: Na primeira metade do século XX, Alexandre Koyré realizou um


marcante trabalho de análise da obra de Galileo que lançou dúvidas sobre a
legitimidade do pioneirismo que tradicionalmente se atribuía ao florentino no
tocante ao desenvolvimento do método experimental da Física Moderna. As
posições de Koyré tornaram-se quase consenso entre os analistas (Thomas
Settle, em 1961, aparece como voz destoante, apregoando que sua
reconstrução do experimento galileano do plano inclinado dera excelentes
resultados) até que, em 1973, Stillman Drake trouxe à luz um conjunto de
manuscritos não publicados nas Opere – a coletânea de obras que é a
referência básica de qualquer estudioso da obra de Galileo – e argumentou
que alguns deles deviam ser vistos como anotações de experimentos, a
maior parte destes envolvendo o estudo das trajetórias dos projéteis.
Imediatamente, iniciou-se um processo febril de produção de textos de
análise desses manuscritos, sendo os mais ativos produtores o próprio
Drake e os especialistas Ronald Naylor e David Hill e, mais recentemente,
Jürgen Renn, Peter Damerow et al.. Os debates não estão esgotados; aliás,
tendem agora a se ampliar com a edição eletrônica dos manuscritos, uma
iniciativa conjunta do Instituto Max Planck para a História da Ciência, de
Berlim, da Biblioteca Nacional Central e do Instituto e Museu de História da
Ciência, de Florença. Dada a importância desses manuscritos e das
discussões que suscitaram e suscitam, a comunicação pretende apresentar
reproduções de alguns deles – todos relacionados com a teoria dos
projéteis que Galileo publicou em seus Discorsi e Dimostrazioni
Matematiche intorno a due Nuove Scienze de 1638 – e descrever as
principais contribuições para sua interpretação, bem como discutir as
características do programa galileano de descoberta e comprovação
experimental da nuova scienza do movimento.
PALAVRAS-CHAVE: Galileu, experimentos, manuscritos, inércia, trajetória
parabólica.

Fólio 116v : Stillman Drake Reaviva o Galileo Experimentador

Na primeira metade do século XX, Alexandre Koyré realizou um


marcante trabalho de análise da obra de Galileo que lançou dúvidas sobre a
legitimidade do pioneirismo que tradicionalmente se atribuía ao florentino no
tocante ao desenvolvimento do método experimental da Física Moderna. As
posições de Koyré tornaram-se quase consenso entre os analistas (Thomas

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
Júlio C. R. Vasconcelos 102

Settle, em 1961, aparece como voz destoante, apregoando que sua


reconstrução do experimento galileano do plano inclinado dera excelentes
resultados) até que, em 1973, o estudioso americano Stillman Drake trouxe à
luz alguns manuscritos de Galileo preservados na Biblioteca Nacional Central
de Florença no volume 72 dos arquivos referentes às obras galileanas,
manuscritos que, por conterem somente números e diagramas aparentemente
sem conexão com outros do mesmo volume, não foram julgados dignos de
aparecer na monumental compilação feita por Favaro, na virada do século, das
Opere de Galileo. Sobre este volume nos diz Drake:

"A documentação é virtualmente completa porque a partir de quando foi começada,


logo após Galileo ter revisado seu trabalho sobre mecânica em 1602, este pretendia
compor um tratado matemático sobre o movimento, que por muitas razões não foi
completado e publicado a não ser no final de sua vida. Assim, mesmo seus papéis
mais antigos foram guardados e, quando seu livro foi terminado, Galileo ficou cego,
de modo que os manuscritos ficaram sob a guarda de um jovem e devotado discípulo
e não foram descartados como parece ter sido o caso de papéis relativos a muitos
dos livros de Galileo."1

Para Drake, alguns desses manuscritos até então inéditos só podiam ser
entendidos como anotações de experimentos que Galileo teria executado no
período em que trabalhava em Pádua. No artigo em que anunciava a
redescoberta, Drake inicialmente chamava a atenção para o fólio 117r (figura
1):

"No outono de 1608, depois de um verão em Florença, Galileo parece ter se


interessado na questão de se o efetivo retardamento de um corpo que se move
horizontalmente seguiria alguma regra particular. No folio 117r dos manuscritos há
pouco mencionados, os números 196,155,121 e 100 aparecem juntos a uma linha
horizontal no meio da página. Eu creio que esta foi a primeira entrada nesta folha, por
razões que aparecerão depois, e que Galileo colocou na posição horizontal seu plano
com canaleta e registrou as distâncias percorridas ao longo dele em tempos iguais.
Usando um metrônomo, e rolando uma bola leve de madeira de diâmetro 4,5
polegadas ao longo de um plano com uma canaleta de largura 1,5 polegadas, eu
obtive relações similares através de uma distância de 6 pés. As cifras variam
enormemente para bolas de diferentes materiais e diferentes pesos e para
velocidades iniciais que sejam muito distintas. Mas é suficiente para minhas
finalidades presentes que Galileo pudesse ter obtido as cifras que anotou através da
observação da desaceleração efetiva de uma bola ao longo de um plano nivelado
com a horizontal." 2

1
Drake 1979, p. VIII
2
Drake 1973, pp. 293/296
Os manuscritos redescobertos em 1973 e o programa experimental de Galileo Galilei 103

A verdade é que, como veremos, a interpretação do fólio 117r não é o


maior trunfo de Drake. Sua apresentação prossegue lembrando o leitor que a
idéia de que a mais mínima das forças é suficiente para colocar em movimento
um corpo sobre um plano horizontal aparece já na obra juvenil galileana De
Motu. A consequência desta idéia, a crença de que o "movimento assim
induzido seria também perpétuo e uniforme", Drake aduz, era ensinada por
Galileo antes de 1607, a julgar por uma carta de um discípulo daquela data 3.
Assim, a próxima etapa do programa experimental de Galileo naturalmente
seria a de tentar verificar essa crença.
Para nós, pós-newtonianos, a crença de Galileo nos parece indubitável,
quase uma verdade lógica. Mas a inércia nada tem de necessária; seria
perfeitamente possível que a bola acabasse por parar sobre o plano horizontal
devido a um esgotamento natural da sua "força" ou ímpeto, idéias com
defensores importantes no século XVI como, por exemplo, Tartaglia4. Assim, é
compreensível que Galileo buscasse apoio empírico para a sua crença: se
conseguisse eliminar a desaceleração causada pelo atrito com o plano
horizontal e o corpo não tivesse, então, sua "força" diminuída no percurso, sua
idéia ficaria confirmada. Mas como eliminar o atrito com o plano horizontal?
Ora, eliminando o plano:

"Se, então, houvesse algum modo de fazer uma dada bola abandonar o plano em
diferentes velocidades das quais fossem conhecidas as razões, a velha idéia de
Galileo de que o movimento horizontal continuaria uniformemente na ausência de
resistência poderia ser colocada em teste. Sua lei de queda livre tornava isso
possível. As razões entre as velocidades poderiam ser controladas fazendo a bola
cair de alturas conhecidas, ao final das quais seria defletida horizontalmente. As
quedas subseqüentes por uma altura dada consumiriam o mesmo tempo do topo da
mesa ao chão, e as distâncias percorridas horizontalmente seriam proporcionais às
velocidades adquiridas no topo da mesa.5

3
Ver nota 31, à p. 67.
4
A proposição III do seu Nova Scientia, por exemplo, enuncia que "um corpo uniformemente
pesado em movimento violento irá mais fracamente e devagar quanto mais se afasta do
começo ou se aproxima do fim do movimento" (Drake & Drabkin, p. 78). Drake crê que se pode
afirmar que "Tartaglia adotou a idéia da força impressa ou ímpeto auto-exaurível, associada ao
nome de Alberto de Saxônia, que é oposta à idéia de uma forma de ímpeto que diminui
somente com a resistência externa (ao menos em certos tipos de movimentos), associada ao
nome de Jean Buridan" (Drake & Drabkin, nota 18, p. 76).
5
Drake 1973, p.296.
Júlio C. R. Vasconcelos 104

Uma bola, após rolar por um plano inclinado de altura conhecida, é


projetada horizontalmente do alto da mesa. O "princípio" da independência de
movimentos6 garante que o fato da bola ter velocidade horizontal, seja ela qual
for, não altera o seu tempo de queda pelo ar; se a resistência oferecida por
este é desprezível, a queda da bola tem duração igual à que teria se fosse
simplesmente abandonada do alto da mesa e o alcance horizontal é função
exclusiva da velocidade de lançamento.
Para Drake, no fólio 175v está o esquema do equipamento adequado e
no fólio 116v (respectivamente figura-2 e figura-3) estão as anotações dos
dados experimentais obtidos com um plano inclinado sobre uma mesa com um
defletor em seu término e uma bola.
A mesa tem altura "828 punti"; cada um desses "pontos" mede 169/180
milímetro, a julgar por outro fólio, o de número 166, do qual Drake deduz que
Galileo usou nos experimentos a escala interna de seu compasso proporcional,
preservado no Museu de História da Ciência de Florença; Thomas Settle mediu
essa escala e determinou a proporção acima.
Os números 300, 600, 800 e 1000 numa linha vertical sobre o esboço da
mesa indicam alturas das quais a bola rolou. Na linha horizontal representativa
do chão aparecem os números 800, 1172, 1328 e 1500.
Para Drake, estes últimos números não podem indicar senão a medida
experimental dos alcances horizontais relativos às alturas iniciais de queda
acima citadas. Um quinto alcance, expresso através do número 1340,
relaciona-se, segundo Drake, com uma altura de queda não anotada de 828
pontos, altura idêntica à que Galileo anotou para a mesa.
Acompanhando o número 1172, Galileo escreveu "doveria p rispondere
al po esser 1131 dzia 41 " que Drake interpretou como " should be, to
correspond with the first, 1131, difference 41 ". Mais três "doveria" aparecem,
associados aos números 1328, 1340 e 1500. Deixemos que Drake nos
explique como Galileo obteve esses valores:

6
A independência de movimentos aparece tanto nos Discorsi como nos Principia mas em
nenhum deles é declarada como um princípio; sobre isto, ver pp. 65/67.
Os manuscritos redescobertos em 1973 e o programa experimental de Galileo Galilei 105

"Os cálculos de Galileo para as distâncias esperadas foram também efetuados no


folio 116v. Para a conveniência do leitor eu transcrevi na figura 4 (figura 4) as partes
essenciais, que estão borradas na reprodução.

"Estes cálculos foram feitos de acordo com a regra de que os quadrados das
velocidades adquiridas na queda vertical até a mesa são proporcionais às distâncias
2 2
de queda a partir do repouso, ou V2 : V1 :: S2 : S1 7. Uma vez que todas as
distâncias horizontais são percorridas no mesmo tempo (aquele de uma queda livre
por 828 pontos), elas são proporcionais às velocidades adquiridas na queda inicial;
2 2
portanto, designando as distâncias horizontais pela letra D, nãs temos D2 : D1 :: S2 :
S1. Tomando D1 como 800 e S1 como 300, estes sendo os dados empíricos da queda
2 2
mais curta, Galileo tinha D2 : 800 :: S2 : 300, a partir do que cada distância horizontal
esperada em outras quedas foi obtida por uma média proporcional, equivalente a
2
extrair a raiz quadrada de (800 S/300). Para o primeiro caso, no qual S1 foi
exatamente dobrado, Galileo multiplicou 800 pelo seu dobro e tomou a raiz quadrada,
como se vê no alto do fólio 116v. Em todos os demais casos ele multiplicou a queda
inicial por 800, dividiu o produto por 300, multiplicou o quociente por 800, e extraiu a
raiz quadrada do produto. Seus resultados estão resumidos abaixo, em "pontos" de
aproximadamente 17/18 milímetro.

Queda até a Mesa para Projeção Expectativa calculada por Galileo através
mesa o chão horizontal de sua régua da média proporcional

300 828 800 padrão de comparação


600 828 1172 1131
800 828 1328 1306
828 828 1340 1330(cálculo de Gal.1329)
1000 828 1500 1460"8

A projeção medida que mais se distancia da expectativa calculada é a


de valor 1172; notavelmente, mesmo esse maior erro é muito pequeno, de
apenas 3,4%, uma precisão até hoje desejável em experimentos
desbravadores.
Através da análise dos dados de Galileo, Drake estimou que o ângulo de
o
inclinação do plano com que Galileo trabalhou foi de 64 . Para este ângulo,
considerando a redução de 5/7 devida ao rolamento, calculou a aceleração
2
como sendo de 630 cm/s ; a seguir determinou teoricamente os alcances ou
projeções, valores que se revelaram muito próximos dos medidos por Galileo
(Ibid, p. 299).

7
Ressalte-se que Drake abrevia por "S" não o comprimento do plano inclinado mas sua altura
até a mesa.
8
Drake 1973, pp. 296/299
Júlio C. R. Vasconcelos 106

A análise do fólio 116v mostra que Galileo usa o seu conceito de


independência de movimentos num momento em que não necessita fazer
composições matemáticas de trajetórias. É preciso, então, como já apontamos
em outro momento9, não mais se referir à independência e à composição de
movimentos sob o título genérico de "princípio da composição", sob pena de
perder o poder descritivo para os procedimentos e para o aparato conceitual de
Galileo.

Fólio 114v2, Outro Experimento Redescoberto

Apesar da proximidade entre os valores medidos e os valores "doveria"


no fólio 116v, Galileo certamente se decepcionou com o resultado relativo à
queda inicial de altura igual à da mesa, 828 pontos. De acordo com o que
veremos ser demonstrado na primeira parte da quarta proposição da jornada
dos projéteis10, a distância horizontal percorrida após aquela queda deveria ser
exatamente o dobro da altura do plano inclinado e da mesa, ou seja, 2x828 ou
1656.
No mesmo artigo em que revelou ao mundo o conteúdo do fólio 116v,
Drake apresenta também o manuscrito 114v2 (figura 5) em que, a seu ver, está
a tentativa experimental de Galileo de resolver o problema proposto pela
anomalia acima descrita (incompreensivelmente, Drake cita linhas antes das
palavras abaixo a cifra 1531 como a distância teórica esperada, ao invés de
1656):

"Nós sabemos que a fonte básica do problema é o fator 5/7 para o rolamento em
contraposição à queda livre (ou ao deslizamento sem atrito), mas Galileo não sabia
disto. Desse modo, ele foi obrigado a buscar uma possível explicação no único lugar
óbvio para ele - na perturbação ocasionada pelo impacto com o topo da mesa. (Em
anos posteriores ele mencionou mais de uma vez a perda de movimento em
deflexões angulares.) Foi isto, eu creio, que o levou a um refinamento do experimento
anterior, refinamento do qual temos um registro no fólio 114v2. A idéia era simples: a
fim de contornar o efeito da deflexão, deixou-se a bola rolar para fora do término do
plano inclinado, por uma altura fixa, com várias velocidades cujas razões eram
conhecidas. O experimento foi apropriadamente efetuado e os dados empíricos
anotados; mas tendo obtido estes, Galileo se descobriu incapaz de fazer os cálculos
adequados de modo a obter novas cifras "doveria". Ele facilmente se capacitara para
compor um movimento horizontal com um movimento vertical, mas ele não via como

9
Ver pp. 66/67.
10
Ver esquema da p. 132.
Os manuscritos redescobertos em 1973 e o programa experimental de Galileo Galilei 107

lidar com uma velocidade oblíqua impressa em composição com uma queda livre. É
isto o que devemos fazer agora." 11
o
Drake inicialmente calculou os valores supondo uma inclinação de 30
para o plano descendente, suposição inspirada pelo próprio esboço de Galileo
no folio 114v2 e obteve "bons resultados". Mas informa, a seguir, que uma
melhor concordância com os dados de Galileo foi obtida por MacLachlan
o
usando um plano a 450 pontos de altura do chão e com uma inclinação de 26 ,
o
valor que, com satisfação, nota ser o complementar de 64 , o ângulo que
estimou para o experimento do folio 116v. Isto sugeriu a Drake que Galileo
possuía "uma moldura triangular rígida, com uma canaleta ao longo da
hipotenusa, que ele usou nos experimentos deste tipo" (Ibid, p. 302). Vejamos
a tabela que apresenta, relativa à reconstrução empreendida por MacLachlan:
Distância de Movimento Dados de Galileu Redução
rolamento em horizontal (fol. 114v2) percentual da
pontos esperado previsão
200 256 253 1.17
400 339 337 0.59
600 395 39512 0.25
900 454 451 0.66
1200 499 495 0.80
1600 543 534 1.66
2000 579 574 0.86" 13
A diferença entre os dados e os valores calculados não chega a 2%,
sugerindo mais uma vez notável acuidade experimental de Galileo.
Após comentar o fólio 114v2, Drake introduz uma nova idéia
interpretativa, a de que Galileo teria descoberto a forma parabólica da trajetória
dos projéteis devido à observação repetida dos movimentos que registrou
neste fólio e no 116v, e que nos demais esquemas do já citado fólio 117 está a
pioneira análise que associa aquela forma geométrica ao movimento dos
projéteis. Com base neste e em outros manuscritos redescobertos, Drake
reformula sua opinião de que a descoberta da forma da trajetória não teria
ocorrido antes de 1632, transferindo para o ano de 1609 a sua datação.

11
Drake 1973, p. 300.
12
Drake cita a cifra 394 na tabela da pagina 302 do artigo, mas a inspeção à reprodução
contida no seu Galileo's Notes on Motion mostra o número 395, que citei.
13
Drake 1973, p. 302
Júlio C. R. Vasconcelos 108

Por que Galileo não publicou seus experimentos? Para Drake a resposta
é fácil; não o fez porque:

"...nenhum de seus oponentes teria ficado convencido com uma longa sucessão de
dados, pois eles não estavam interessados em leis físicas mas nas causas das
coisas, e causas não são reveladas em experimentos. De fato, sua lei de queda livre
foi rejeitada por Descartes como uma mera aproximação, e dois outros físicos14
ostensivamente demonstraram que a verdadeira lei que estava por trás das
aparências meramente sensíveis da regra dos números ímpares de Galileo era um
aumento por pulos quânticos das distâncias percorridas na progressão dos números
naturais.”15

Drake termina seu artigo sugerindo que se reinstale a visão tradicional,


revigorada pela redescoberta dos manuscritos que acaba de interpretar.
"Talvez seja melhor", diz com ironia certamente endereçada aos que seguem
Koiré, "chamar Galileo de avô da ciência experimental do que reverenciá-lo
como o organizador platônico das especulações matemáticas do século XIV".

As Críticas às Interpretações de Drake

Pouco tempo após a publicação do artigo de Drake que acabamos de


acompanhar, uma verdadeira enxurrada de "papers" surgiu dedicada a
comentar os manuscritos redescobertos. E críticas à interpretação que Drake
lhes deu apareciam na maioria deles.
Em relação ao fólio 117, Ronald Naylor discordou de que os números
196, 155, 121 e 100 representassem anotações experimentais de distâncias
decrescentes num movimento retardado pelo atrito. A seu ver, os números
compõem um estudo teórico da parábola desenhada na parte superior do fólio,
sendo proporcionais aos comprimentos aproximados dos quatro trechos em
que Galileo a dividiu . Abaixo está a transcrição de Naylor para aquela parábola
(Figura 6) e os seus cálculos para os comprimentos dos quatro trechos,
entendidos simplificadamente como segmentos retilíneos, hipotenusas que
Naylor determina pelo teorema de Pitágoras:

2 2
RC = / (40 + 10 ) = 41,2

14
Segundo uma nota de Drake à mesma página desta citação, os físicos mencionados são
Baliani e Fabri.
Os manuscritos redescobertos em 1973 e o programa experimental de Galileo Galilei 109

2 2
CS = / (40 + 30 ) = 50,0
2 2
ST = / (40 + 50 ) = 64,0
2 2
TF = / (40 + 70 ) = 80,6 16

O primeiro desses cálculos aparece no fólio 117, ao lado da parábola


acima esquematizada. Eis a transcrição de Naylor para ele:

1600

100
______
4 41 19
__ __
81 1700 83
__
1917

Naylor, a seguir, multiplica as quatro distâncias pelo fator 100/41,2 e


obtém os números 100 , 121,3 , 155,3 e 195,4. A notável concordância com os
números anotados no fólio significa que, provavelmente, Galileo procedeu do
modo sugerido por Naylor a fim de poder lidar com valores mais adequados
para representar as subseqüentes distâncias aproximadas percorridas em
tempos iguais por um móvel em trajetória parabólica.
Ao final do artigo, numa crítica indisfarçável a uma possível pressa de
Drake em atribuir um caráter experimental aos manuscritos que trouxe à luz,
Naylor propõe como método que se cheque sempre possíveis "naturezas
teóricas" para os fólios18.
Outra crítica retumbante a Drake é a que lhe dirigiram William Shea e
Neil Wolf, quanto à sua interpretação do fólio 116v. Estes especialistas crêem
que da análise dos dados do fólio 116v nada se pode concluir sobre o ângulo

15
Drake 1973, p. 305.
16
Naylor 1975, pp. 395/396.
17
Naylor 1975, p. 395.
18
Drake, ao que parece, não rebateu esta crítica e nunca mais voltou a apresentar sua primeira
avaliação do folio 117, aceitando, aparentemente, a interpretação de Naylor para aqueles
números.
Júlio C. R. Vasconcelos 110

de inclinação do plano e sugerem em seu artigo de 1975 publicado em Isis que


Drake teria usado uma equação fisicamente incorreta para determinar o ângulo
o
de 64 .
Drake redigiu uma resposta em conjunto com MacLachlan, apresentada
no mesmo número de Isis. Eles rejeitam a acusação: embora Drake reconheça
ter estimado incorretamente o ângulo, afirma tê-lo feito por outras razões que
não o uso da fórmula defeituosa19; além do mais, MacLachlan afirma que para
ângulos muito grandes "haverá deslizamento ao invés de rolamento puro e a
energia rotacional não terá o valor que eles dão a ela", invalidando assim a
afirmação de que qualquer inclinação é possível. Relatam que suas
reproduções aperfeiçoadas dos experimentos em questão deixaram claro que
o
Galileo empregou um plano inclinado de 30 para obter os dados de ambos os
fólios, o 114v2 e o 116v. Para o primeiro, Galileo teria empregado como altura
final de queda de 500 pontos; para o experimento do fólio 116v a altura final
teria sido de 828 pontos.
Em outro artigo do mesmo ano de 1975, na Scientific American,
encontra-se a descrição dos procedimentos de Drake e MacLachlan; para nós
será suficiente reproduzir a tabela20 (Figura 7) que compara os valores
experimentais de Galileo e os valores teóricos calculados por aqueles
analistas:
Uma unificação muito mais abrangente dos fólios 114v2 e 116v é a que
Naylor nos propõe: segundo ele, a reconstrução que fez mostrou que ambos
tem anotações de experimentos da mesma forma, lançamentos horizontais do
alto de uma mesa de 828 pontos de altura. Relativamente ao fólio 114v2,
afirma, as anotações de Galileo para as alturas das descidas pelo plano
inclinado não chegaram até nós21. Naylor recalculou esses valores perdidos e
os interpolou aos valores do fólio 116v; abaixo estão um esquema de Naylor
que unifica os dos dois fólios e uma reprodução parcial de uma tabela (Figura

19
As razões de Drake e MacLahlan bem como as ponderações de Shea e Wolf podem ser
encontradas nas pp. 398/401 de Isis, vol. 66, 1975.
20
Drake & MacLachlan, p. 109.
21
Naylor defende sempre em seus artigos a tese de que o volume 72, ao contrário do que
pensa Drake, não contém o conjunto completo das anotações manuscritas de Galileo relativas
à ciência do movimento.
Os manuscritos redescobertos em 1973 e o programa experimental de Galileo Galilei 111

8) também encontrada em seu artigo; nesta, as entradas abaixo da linha


pontilhada referem-se ao fólio 116v, as acima da linha ao fólio114v2; os valores
30-150, em negrito, são os interpolados por Naylor:
Alturas Alcances
"H" "D"
(pontos) (pontos)
30 253
50 337
70 395
90 451
110 495
130 534
150 574

300 800
600 1172
800 1328
828 1340
1000 1500" 22
O leitor pode conferir a justeza da interpolação de Naylor, através da
2 2
fórmula D2 : D1 :: S2 : S1, que Drake nos apresentou, fazendo "S2" e "S1"
corresponder a duas alturas "H" da tabela acima.
Embora seja excelente o ajuste da reconstrução de Naylor aos valores
anotados no fólio 114v2, o estudioso David Hill não a aceita. Apóia-se na
própria evidência do fólio, cujo desenho sugere lançamentos oblíquos e não
o
horizontais. Para uma inclinação de 12,5 do plano e uma distância de queda
deste até o chão de 329,5 pontos, Hill faz um experimento efetivo e uma
simulação em computador para os valores ideais obtendo a seguinte tabela:
Rolamento pelo Pontos de Pontos de Hill Pontos Ideais
plano Galileu
400 253 253 254
800 337 340 345
1200 395 405 411
1600 451 453 463
2000 495 495 506
2400 534 533 544
2800 573 564 577"23
Hill afirma que sua reconstrução dos supostos lançamentos oblíquos do
fólio 114v2 oferece valores que, em média, diferem somente 0.8% dos dados
de Galileo; esta proximidade excelente, entretanto, não é decisiva pois é

22
Naylor 1976, pp. 405-406.
23
Hill 1988, p. 661.
Júlio C. R. Vasconcelos 112

surpreendentemente idêntica à oferecida por Naylor supondo lançamentos


horizontais. Mas a interpretação de Hill tem duas grandes vantagens: a
primeira é o aparecimento de distâncias de rolamento em proporção idêntica à
dos inteiros 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7, "a mais simples das relações, que Galileo podia
facilmente lembrar sem um registro escrito"24. Além de explicar porque não se
tem uma anotação de Galileo para aquelas distâncias, Hill consegue também
uma sugestiva unificação, entre o experimento do fólio 114v2 e o de outro fólio
o
dedicado ao estudo de lançamentos oblíquos, o fólio 81r: a inclinação de 12,5
do plano e a distância de 329,5 pontos de queda deste até o chão seriam as
mesmas empregadas para obter alguns dados anotados neste outro
manuscrito.
É com uma breve apresentação das principais características do fólio
81r que iniciaremos o capítulo seguinte. Mas já temos um fato inegável: hoje,
depois da redescoberta em 1973 dos manuscritos que acabamos de analisar,
estamos distantes da posição extremada de Koyré em desmerecer totalmente
a atividade experimental de Galileo. Ainda que alguns analistas como Naylor
tentem preservá-la numa versão atenuada, em que o Galileo experimentador
convive com um Galileo pedagogo que propõe versões idealizadas e
simplificadas de seus experimentos para os leitores dos Discorsi25, tornou-se
hoje impossível deixar de atribuir à Galileo o pioneirismo no uso do moderno
método experimental e é curioso que um projétil provavelmente tenha
constituído o próprio tiro inicial desta tradição, como sugerem as interpretações
acima e as que veremos no próximo capítulo.

As Interpretações para o Fólio 81r

Curiosamente, o fólio 81r escapou aos olhos de Drake. E é o maior


crítico de sua avidez por experimentos, Naylor, que apresenta ao mundo esta
nova prova da existência de um verdadeiro e muito cuidadoso programa
experimental galileano. A seguir, estão uma transcrição de Hill para o fólio

24
Hill 1988, p. 661.
Os manuscritos redescobertos em 1973 e o programa experimental de Galileo Galilei 113

(Figura 9) - mais detalhada e mais legível que a de Naylor em seu artigo


pioneiro de 1975 - e a reprodução parcial deste (Figura 10).26
Para Naylor, as distâncias 81, 121, 170 e 250 no desenho do fólio são
alcances horizontais de lançamentos oblíquos a partir de um plano inclinado de
o
20.5 . As distâncias correspondem respectivamente às alturas de queda pelo
ar de valores 53, 106 (no fólio, 53 + 53), 183,5 (106 + 77,5) e 329,5 (183,5 +
146).27
A distância 250 é a primeira que Galileo estabelece, fazendo-a ocorrer
exatamente neste valor após tentativas em que varia a extensão do rolamento
pelo plano. Estabelecida esta, ele então faz subir do chão um apoio horizontal,
diminuindo as alturas de queda e mede, na ordem, as distâncias 170, 121 e 81.
A seguir Galileo, por razões que explicaremos a seguir, diminui o ângulo
o
de inclinação para 10 , segundo Naylor, e aumentando a distância de
rolamento pelo plano faz ocorrer o alcance horizontal 500 para uma queda pela
maior altura, a de 329,5 pontos. Galileo não anota o novo alcance mas sim a
diferença entre ele e o primeiro através de uma segunda cifra 250. Procede
então como anteriormente, fazendo diminuir as alturas e anotando os alcances
obtidos, agora sempre pelas diferenças - 177,5, 130,5 e 87,5 - com os alcances
correspondentes da série anterior de medidas.
A última curva de queda também tem os alcances anotados pelas
diferenças com os anteriores. Para obter dados equivalentes em sua
reconstrução, Naylor experimentou com dois ângulos de inclinação, o primeiro
o o
de 7 e, em outro momento, um ângulo de 3,5 , conseguindo a seguinte tabela
de alcances horizontais (aqui anotados integralmente e não pela diferença):

7o 3,5o 81r
750 750 750,0
533 528 525,5
25
A esse respeito, recomenda-se o excelente "Galileo: Real Experiment and Didatic
Demonstration" de Naylor; ao leitor interessado indicamos ainda as pp. 176/197 do La Física de
Galileo..., de José R. Feito.
26
A transcrição se encontra em Hill 1988, p. 647 e a reprodução do fólio em Drake 1979, p. 93.
27
Naylor 1975, p. 1; para não ser acusado de cometer o pecado de avidez por experimentos
que ele próprio critica, Naylor argumenta exaustivamente, em vários trechos do artigo, que os
números do desenho não podem ser ajustados a nenhum esquema teórico, sendo legítimo,
portanto, entendê-los como anotações experimentais.
Júlio C. R. Vasconcelos 114

380 386 382,5


250 258 257,5 28

O maior problema de Naylor, entretanto, não é decidir pelo ângulo


correto mas sim explicar como Galileo fez um lançamento tão longo utilizando
um plano tão pouco inclinado, pelo qual seria necessária uma enorme distância
de rolamento. Naylor resolveu o problema usando um plano curvo (figura 11)29
e propondo que Galileo tenha feito o mesmo.
Hill oferece uma outra interpretação para o fólio 81r, interpretação que
se apóia na seguinte idéia: embora a forma do diagrama sugira incrementos de
250 na linha-base, até o valor máximo de 750, "uma rápida reflexão revelará
que se Galileo tivesse desejado registrar três curvas, cada uma de linha-base
250, teria sido mais simples usar este formato do que desenhar três curvas
separadas com três eixos separados, repetindo os números em cada caso.
Embora confuso para os intérpretes posteriores, o diagrama teria sido claro
para Galileo"30.
A proposta interpretativa de Hill tem uma vantagem considerável:
eliminando o alcance de 750, faz desaparecer a necessidade do plano curvo
postulado por Naylor, uma suposição sem nenhum apoio documental e uma
complicação inédita nos até então elegantemente simples esquemas
experimentais de Galileo.
Hill faz simulações em computadores e propõe que o primeiro ângulo de
o o o o
lançamento deva estar entre 24 e 26 , o segundo entre 12 e 13 , e o terceiro
o
seja de 11 . Como já dissemos31, o segundo ângulo e uma queda vertical de
329,5 "punti" pelo ar também são parâmetros do experimento anotado no fólio
114v2, que Hill, assim, junta ao 81r num mesmo "contexto experimental".

28
Naylor 1975, p. 165.
29
Naylor 1975, p. 165.
30
Hill 1988, p. 655.
31
Ver p. 101 do capítulo anterior.
Os manuscritos redescobertos em 1973 e o programa experimental de Galileo Galilei 115

A Descoberta da Trajetória Parabólica

Não se pode postergar mais a busca da resposta à seguinte questão:


por que razão Galileo estaria buscando, no experimento do fólio 81r, ângulos
cada vez menores para os lançamentos?
Hill e Naylor têm a mesma opinião, a de que Galileo está procurando nos
experimentos anotados no fólio 81r confirmar ser parabólica a trajetória dos
projéteis. A redução do ângulo é necessária para que a linha traçada pelo
projétil se aproxime de uma semiparábola que tenha o vértice no alto da mesa,
onde o lançamento se inicia. A progressiva diminuição das inclinações do plano
vai tornando a trajetória parabólica cada vez mais reconhecível pois, na
situação limite em que o vértice da semiparábola coincide com o ponto de
lançamento, os alcances horizontais e as alturas de queda medidas a partir da
mesa se relacionam através das propriedades demonstradas por Apolônio e
por Galileo que foram comentadas no quarto capítulo deste trabalho.
Se no fólio 81r está a confirmação da forma das trajetórias dos projéteis,
resta ainda a questão de como Galileo a teria descoberto . Hill rejeita a opinião
de Drake e MacLahlan, que pensam que a descoberta se deu quando da
realização do experimento anotado no fólio 116v - pois o crê posterior ao fólio
81r, como veremos a seguir - e dá uma curiosa sugestão:

"Entretanto há uma outra interessante possibilidade, que inicialmente me foi sugerida


em conversa por James MacLachlan. Fluxos de água freqüentemente traçam arcos
de parábola, e qualquer um que fosse familiarizado com as propriedades de
parábolas poderia facilmente reconhecer isto - se questões a respeito de trajetórias
estivessem em algum lugar de sua mente. MacLachlan, eu creio, estava pensando
em fontes e drenos. Um exemplo muito mais comum é a urina masculina...32

Um processo possível - e muito mais elegante - nos é sugerido pelo


próprio Galileo, na segunda jornada dos Discorsi. Lá, na primeira das "novas
ciências", as linhas parabólicas também aparecem, não em trajetórias, mas
delimitando contornos da "forma que um sólido deveria ter para que todas as
suas partes tivessem igual resistência, de modo que não fosse mais fácil
quebrá-lo por intermédio de um peso que atuasse em seu centro ou em

32
Hill 1988, p. 667.
Júlio C. R. Vasconcelos 116

qualquer outro ponto.33". Uma vez que este sólido é obtido mediante um corte
parabólico num prisma, Sagredo ressalta que "seria importante para os
artesãos possuir uma regra fácil e rápida para poder traçar essa linha
parabólica sobre o plano do prisma". Salviati lhe dá duas regras, uma das quais
é a seguinte:

"...Tomo uma bola de bronze, perfeitamente redonda, não maior que uma noz; esta,
lançada sobre um espelho de metal, colocado não perpendicularmente ao horizonte
mas um pouco inclinado de modo que uma bola possa rolar sobre sua superfície,
pressionando-a levemente no movimento, deixa uma linha parabólica muito nítida e
precisa, mais larga ou mais estreita segundo o ângulo de projeção seja mais ou
menos elevado. Mediante essa experiência evidente e sensível vemos também que o
movimento dos projéteis se dá por linhas parabólicas: efeito que foi primeiramente
observado por nosso amigo, o qual aporta também a demonstração em seu livro
sobre o movimento que examinaremos em nosso próximo encontro. Para que a bola
possa descrever as parábolas do modo indicado, é necessário que ela seja aquecida
com as mãos e um pouco umedecida, para que possa assim deixar mais aparentes
seus vestígios sobre o espelho..."34.

Dificilmente se tem aqui uma experiência de pensamento, a julgar por


estas últimas indicações de Galileo para tornar mais visíveis os "vestígios" da
bola. Não é improvável, e as palavras acima aliás o sugerem, que este tenha
sido o modo pelo qual Galileo primeiramente visualizou a forma da trajetória de
um projétil.
Invertendo a opinião de Drake, Naylor, Hill e a maioria dos analistas hoje
crêem que a descoberta da trajetória parabólica antecedeu a descoberta da lei
correta da queda dos corpos35 e que o experimento confirmador está
preservado no fólio 81r. Após a confirmação da forma da trajetória dada pelo
fólio 81r, Galileo teria planejado os experimentos dos fólios 114v2 e 116v,
nesta ordem, para verificar a lei de queda dos corpos e sua teoria dos projéteis
a ela associada36.
Hill e Naylor, assim, discordam de Drake relativamente à sua
interpretação da finalidade do fólio 116v, que seria a de confirmar a chamada
inércia horizontal37. Para Naylor, por exemplo, Galileo "concluiu de suas

33
As explicações e as demonstrações de Galileo para essa forma ideal estão às pp. 137/144
de Duas Novas Ciências.
34
Galileo 1988a, p. 144.
35
Ver, por exemplo, Hill 1988, p. 662.
36
Naylor 1990, pp. 701/703.
37
Ver capítulo anterior, pp. 91/95.
Os manuscritos redescobertos em 1973 e o programa experimental de Galileo Galilei 117

investigações que somente se a inércia horizontal fosse conservada (sic) a


trajetória seria parabólica"38. Assim, não é a lei de queda que é tomada como
premissa nos experimentos dos fólios 114v2 e 116v a fim de testar a inércia
horizontal; ao contrário, Naylor e outros pensam que Galileo não vê
necessidade de confirmar experimentalmente esta última, e se apóia nela para
verificar sua lei de queda.
Naylor e Hill nos ensinam que embora as propriedades dos projéteis
sejam, na ciência do movimento que Galileo nos apresenta nos Discorsi,
subordinadas à teoria do movimento naturalmente acelerado, no contexto de
descoberta elas vêm primeiro. Se eles estão corretos - e tudo indica que sim - a
descoberta e a confirmação da forma da trajetória dos projéteis foram as
grandes impulsionadoras da saída de Galileo daquilo que Isabelle Stengers
chama de "labirinto" conceitual39: de posse desse dado seguro, Galileo pode
superar as dificuldades de sua herança medieval - como por exemplo a falta de
um conceito de velocidade instantânea - rejeitar a crença inicial na
proporcionalidade da velocidade à distância de queda e estabelecer, por fim, a
lei correta da queda dos corpos. Estando na base do prolífico programa
experimental de Galileo, a descoberta e a confirmação das trajetórias
parabólicas dos projéteis marcam também o início da moderna Física
Experimental; se outra razão não houvesse para que se dedique maior atenção
à quarta jornada dos Discorsi, esta bastava.

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A matemática e os dados visuais na carta de Galileu Sobre o
candor lunar

Marcelo Moschetti
Professor Assistente/UNICENTRO

Resumo: A tese galileana sobre a luz secundária observada na Lua quando


próxima da conjunção com o Sol remonta a1610, data de publicação do
Sidereus Nuncius. Ela é retomada nas cartas Sobre as manchas solares
(1613) e no Diálogo sobre os dois máximos sistemas de mundo: ptolomaico
e copernicano (1632). Sua importância se deve tanto ao caráter decisivo
dessa interpretação das imagens celestes na controvérsia cosmológica
causada pelo modelo heliocêntrico de Copérnico quanto às próprias regras
– geométricas – que permitiram tal interpretação. Dessa maneira, o estudo
da polêmica tardia (1640) pode incrementar a compreensão de um dos
fatores apontados por parte significativa dos estudiosos - a geometrização
da Física.
Palavras-Chave: Galileu Galilei (1576-1642), Filosofia da Natureza, História
da Ciência.

Muitos dos escritos de Galileu são marcados pela discussão, em geral


pouco amistosa, com seus contemporâneos. No Diálogo (1632) e nos Discorsi
(1638) o conjunto de seus opositores é representado pelo interlocutor
Simplício, cuja capacidade intelectual mostra claramente o pouco apreço que o
filósofo tinha por eles. Já no Ensaiador (1623) e nas cartas sobre as manchas
solares (1612-13) os adversários são citados diretamente. É esse também o
caso da carta a Leopoldo de Médici de 1640, sobre a luz secundária observada
na Lua, conhecida como “Sobre o candor Lunar”. A vítima, dessa vez, é
Fortúnio Liceti, um defensor da tradição aristotélica que havia publicado, no
ano anterior, o Liteosphoro, sobre uma pedra fosforescente encontrada em
Bolonha décadas antes. Essa obra contém um capítulo dedicado à
contraposição da explicação galileana sobre a tênue iluminação que se
observa na parte escura do disco lunar no período próximo à conjunção com o
Sol.
Desde o advento do Liteosphoro, a resposta de Galileu passou a ser
cobrada por seus correligionários, como antes havia acontecido com a

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
A matemática e os dados visuais na carta de Galileu Sobre o candor lunar 121

discussão sobre os cometas que culminaria com a publicação do Ensaiador.


Em resposta à solicitação de seu empregador, o príncipe Leopoldo de Médici, o
autor escreveu a primeira versão da carta que é objeto deste trabalho.
Segundo Favaro, editor das Opere de Galileu, “Galileu não apenas se
apressou, como era natural, em mandar cópia à S. A. [o príncipe Leopoldo],
mas divulgou-a por toda a Itália, e enviou exemplares manuscritos também
para o exterior”1.
Diante da divulgação da carta, Liceti solicitou permissão para publicá-la
junto com sua tréplica, o que aconteceria em 1641. Nesse ínterim, Galileu
reformulou o texto, diminuindo a aspereza com que tratava o adversário e
adicionando, segundo suas próprias palavras, algumas “consideraçõezinhas”2.
Graças a Favaro, que fez um primoroso trabalho de apresentação dessa obra
com base em diversos manuscritos, pode-se reconstituir diversas etapas dessa
reformulação. Optei por trabalhar apenas com a última versão, a que foi
publicada por Liceti, cuja tradução devo concluir nos próximos meses. Meu
propósito, nesta comunicação, é analisar algumas passagens da carta que
podem contribuir na discussão de um dos principais temas galileanos: a
geometrização da natureza.
Antes de chegar à carta propriamente dita, é necessário compreender a
polêmica em que ela está envolvida. A luz secundária, ou candor, é uma
importante arma de Galileu em seu ataque à cosmologia aristotélica. O
problema cosmológico estava colocado desde Copérnico, pois a remoção da
Terra do centro do universo era incompatível com o cosmo hierarquicamente
ordenado de Aristóteles, que diferenciava céu e Terra. Para o último, a matéria
celeste e as leis a que ela estava submetida eram completamente diversas da
matéria e das leis do mundo terrestre3. Aceitar o modelo copernicano, no qual a
Terra passou a ser considerada um planeta como os outros, e o centro do
universo passou a ser ocupado pelo Sol, significava abandonar a tradição, e

1
FAVARO, A. (ed.). Le Opere di Galileu Galilei. Edizione Nazionale. Florença: Barbèra, 1968,
v. VIII, p. 470. As referências seguintes às Opere conterão simplesmente Ed. Naz., volume e
página.
2
Ed. Naz., VIII, 472.
3
O rompimento de Galileu com a distinção aristotélica entre céu e Terra foi o tema de minha
dissertação de mestrado.
Marcelo Moschetti 122

ainda não havia uma nova teoria física capaz de sustentar a novidade. Por
isso, a história da defesa de uma cosmologia heliocêntrica se confunde com a
do nascimento da ciência moderna.
Ao lado desse rompimento com a distinção entre céu e Terra, e
intimamente ligada a ele, como ressalta Alexandre Koyré, está a geometrização
da natureza – a nova maneira de compreender o mundo característica da
ciência moderna. Por isso, Galileu Galilei foi um dos protagonistas desse
processo, ao recusar o dualismo cosmológico tradicional a partir do
questionamento da coerência lógica dos princípios da Filosofia Natural
aristotélica e com base em suas observações telescópicas, bem como ao
estabelecer a matemática como a linguagem necessária para a compreensão
do “livro da natureza”.
A passagem mais conhecida (e certamente uma das mais importantes)
da obra galileana está contida no parágrafo sexto do Ensaiador (1623):

“...A filosofia está escrita neste grandíssimo livro que aí está aberto continuamente
diante dos olhos (isto é, o universo), mas não se pode entendê-lo se primeiro não se
aprende a entender a língua e conhecer os caracteres nos quais está escrito. Ele está
escrito em língua matemática, e os caracteres são triângulos, círculos e outras figuras
geométricas, meios sem os quais é humanamente impossível entender-lhe sequer
uma palavra; sem estes trata-se de um inútil vaguear por um obscuro labirinto...”4

Para Galileu, os dados sensíveis sobre o mundo podem e devem ser


expressos matematicamente. Anteriormente, ao analisar as imagens obtidas a
partir da observação telescópica, Galileu já havia aplicado essa idéia à
interpretação de dados visuais. No parágrafo 48 do Ensaiador, a idéia é
radicalizada para todo o sensível, a matemática passa também a ser a base do
conhecimento a respeito de qualidades como odores e sabores, as
(posteriormente) chamadas “qualidades secundárias”. A astronomia
matemática tradicional já havia mostrado, desde a antigüidade, que o
movimento é passível de tratamento quantitativo. Com sua tese sobre a
percepção e as qualidades primárias e secundárias Galileu supera o problema
da heterogeneidade entre os dados da experiência sensível e a matemática. Ao

4
Ed. Naz., V, p.232. Utiliza-se nesta passagem a tradução de C. A. R. Nascimento, apud
NASCIMENTO, C. A. R., De Tomás de Aquino a Galileu. Campinas: IFCH/UNICAMP, 1988,
p. 176.
A matemática e os dados visuais na carta de Galileu Sobre o candor lunar 123

atribuir as qualidades secundárias à percepção, e ao supor fatores


quantificáveis não percebidos imediatamente no objeto, o autor define as
condições do conhecimento da natureza, conforme havia estabelecido no
parágrafo sexto: a leitura do livro escrito em caracteres matemáticos.
Especificamente no que se refere aos dados visuais, a aplicação da
geometria é bastante evidente: é ela que permite compreender imagens
celestes e terrestres segundo os mesmos critérios e demonstrar as
semelhanças entre a Terra e os astros. A partir das observações do Sol, da
Lua e dos planetas, interpretadas geometricamente, o autor demonstra a
existência de diversas alterações e imperfeições no céu, o qual, conforme a
tradição, deveria ser perfeito e inalterável. Isso abre espaço para que todo o
universo seja interpretado segundo as mesmas leis, contrariando as teses
cosmológicas tradicionais.
Um dos principais argumentos empíricos a favor da semelhança entre
céu e Terra obtido por Galileu provém da observação da luz secundária na Lua,
que mostra que nosso planeta ilumina seu satélite assim como é iluminado por
ele. A questão era tão importante e de difícil aceitação para os tradicionalistas
que, em 1640, trinta anos após sua divulgação e fundamentação no Sidereus
Nuncius, o autor ainda respondia a objeções naquele que foi seu último escrito
científico: a carta em resposta ao Liteosphoro de Fortunio Liceti.
A tese principal de Liceti, no capítulo L do Liteosphoro, é a seguinte:

“...essa tênue iluminação não é a luz solar que, refletida na Terra, atinge a superfície
lunar [...] ela há de ser o conjunto formado pela débil luz nativa da Lua e pela luz do
Sol repercutida na mesma e refletida nas partes altas do éter que circunda o corpo
lunar...”5

O autor do Liteosphoro considera dupla a origem do candor observado:


1) a Lua absorve a luz do Sol quando é iluminada por ele e,
posteriormente, mostra-se fracamente luminosa, como a pedra bolonhesa,
durante um certo tempo;
2) no momento em que a luz secundária é observada, quando o satélite
está mais próximo do Sol (conjunção ou lua nova), o ambiente reflete a luz

5
Ed. Naz., VIII, 483.
Marcelo Moschetti 124

solar para sua face voltada para a Terra, da mesma maneira que a Terra se
mantém iluminada algum tempo após o desaparecimento do Sol no horizonte.
A estrutura da resposta de Galileu é bastante simples: o autor apresenta
a tese do adversário, e depois um breve resumo da sua própria, para então
discutir pontualmente o capítulo em que é criticado por Liceti. O primeiro ponto
examinado é o subtítulo de tal capítulo, “digressão físico-matemática”. Galileu
se detém sobre a palavra digressão e a interpreta como uma confissão de que
o capítulo é desnecessário. Ironicamente ele compara o Liteosphoro a um
banquete, que não é melhor ou pior devido à presença do que é necessário,
isto é, comida e bebida, mas em função do que há além do necessário. Tal
passagem é um dos mais belos exemplos da retórica galileana, ainda que não
seja de tão grande interesse para este trabalho quanto a discussão do restante
do subtítulo: físico-matemática. Diz Galileu:

“...E porque ele procede como matemático e físico, seguirei examinando como
filósofo, se é que o sou, e como matemático, as suas oposições, fazendo também
algumas poucas considerações acerca da forma de argumentar que ele por vezes
apresenta quanto à sua conformidade aos preceitos dialéticos postos por
Aristóteles...”6

Durante toda a carta, como veremos, Liceti será ironizado por sua
ignorância em matemática (ainda que Galileu não esteja se referindo
exatamente aos conhecimentos matemáticos comuns à maior parte dos
eruditos seus contemporâneos). Além disso, como notou o professor Pablo
Mariconda7, que recentemente traduziu e comentou uma carta de Galileu a
Liceti envolvida nessa mesma polêmica, também a conseqüência lógica da
argumentação licetiana é questionada (concordo com Mariconda que a mais
tradicional lógica aristotélica é considerada por Galileu uma necessidade para a
aquisição do conhecimento filosófico e científico).
Embora todo o texto da carta seja extremamente interessante e rico, a
discussão a seguir será limitada a algumas passagens particularmente
interessantes em vista do meu interesse nesta comunicação, a geometrização
da natureza: a resposta a um argumento do adversário que afirma que, se

6
Ed. Naz., VIII, 495-496.
7
MARICONDA, P. “Lógica, experiência e autoridade na carta de 15 de setembro de 1640 de
Galileu a Liceti”. In: Scientiae studia, 1, 1, 2003, p. 63-73.
A matemática e os dados visuais na carta de Galileu Sobre o candor lunar 125

Galileu estivesse correto, o centro do disco lunar dever-se-ia mostrar mais


iluminado que a periferia. Segundo Liceti:

“...se o candor da Lua derivasse do reflexo da luz terrestre, ele deveria ser mais
luminoso no centro de sua face escura que na região mais próxima da margem
extrema...”8

Isso ocorreria porque, sendo a Lua uma esfera, o centro de sua face
voltada para nós estaria mais perto da Terra, origem dessa iluminação. Liceti
usara o mesmo princípio em uma objeção anterior, no mesmo texto, que
permitiu a Galileu atacar a coerência lógica do discurso licetiano. Ora, no que
se refere à luz secundária, o disco lunar se mostra iluminado de maneira
praticamente uniforme na conjunção, e não mais iluminado no centro que na
periferia. Liceti pretende que isso refute a opinião do adversário. Não
examinarei aqui toda a resposta, mas apenas uma questão que venho
mapeando através da obra de Galileu: a diferença entre o reflexo da luz em
superfícies opacas e em espelhos. Para Liceti, como para outros aristotélicos, a
perfeição que estes atribuíam ao céu incluía, além da ausência dos diversos
tipos de mudança, a esfericidade perfeita, ou seja, a superfície dos astros era
considerada lisa e polida como um espelho. Essa questão é recorrente no
debate de Galileu com os tradicionalistas, e mostra de uma maneira
interessante o que é, para Galileu, dicorrer físico-matematicamente. Quanto à
iluminação uniforme do disco lunar, Galileu nota que

“...Isso dificilmente aconteceria se o globo lunar fosse polido e liso como um espelho,
mas ele é tão irregular quanto a Terra, se não for mais; e sobre ele não receber maior
iluminação que a periferia extrema, muito claramente o mostra a própria lua, quando,
na oposição [lua cheia], plena de luz do Sol, mostra igualmente luminosa, sem
nenhuma diferença entre o centro e a extremidade, o que prova sua irregularidade e o
fato de os raios solares não se desviarem para a circunferência extrema, a qual, se
fosse polida como um espelho, jamais seria vista pelos homens, como demonstrei
longamente algures...”9

Diferentemente da maioria de seus opositores, Galileu conhecia a


maneira como a luz é refletida em espelhos e em superfícies mais rugosas. A
referência que ele faz a essa discussão é, provavelmente, à primeira jornada

8
Ed. Naz., p.484.
9
Ed. Naz., VIII, 518.
Marcelo Moschetti 126

do Diálogo10, onde, com uma longa enumeração de observação do reflexo da


luz em diferentes superfícies polidas e rugosas, o autor mostra que, ao
contrário dos mais diversos espelhos, as superfícies mais ásperas são mais
aptas a se iluminar igualmente. Devido às irregularidades presentes em uma
parede, por exemplo, ela reflete os raios luminosos igualmente em todas as
direções, o que causa o efeito observado. Diversamente, um espelho convexo
iluminado pelo Sol mostra uma imagem do astro bastante reduzida, no centro,
enquanto a periferia do mesmo não se ilumina. Tais explicações, decorrentes
da consideração geométrica da reflexão da luz em cada tipo de superfície, não
surgiram pela primeira vez no Diálogo, mas o autor multiplicou-as no mesmo
após décadas de dificuldades em explicar esse ponto aos eruditos seus
contemporâneos.
O autor continua, na carta, citando espelhos côncavos, pois Liceti lhe
atribui erroneamente a tese de que as crateras lunares são como tais espelhos:

“...exposto um de nossos espelhos côncavos aos raios solares, que luz eles refletem?
Seguramente nenhuma; e, todavia, é verdadeiro o refletir vigorosamente de tais raios
e os mesmos são verdadeiramente potentes ao iluminar corpos opacos, mais
potentes que a própria luz solar; mas é necessário pôr, na cúspide do cone, ou
próximo a ela, alguma matéria densa e opaca, a qual, em contato com tais raios,
deverá iluminar e machucar a vista mais que o próprio Sol, mormente se o espelho for
grande [...]que os raios refletidos por um espelho côncavo não vão unir-se em figura
de cone senão a uma pequena distância desse espelho e que sua vivacíssima luz
não pode ser vista senão em alguma matéria densa e opaca... ”11

Galileu admite que um espelho côncavo reflete poderosamente os raios


de luz, como pretendia Liceti. Ainda assim, nota que, se não houver uma
superfície áspera no ponto exato para onde a luz é refletida, esse reflexo
sequer será visto. Ele conhece as características dessa reflexão, a formação
do cone de luz, e as leis que determinam o foco da reflexão. Uma atenção à
experiência sensível já mostra a diferença do reflexo em um espelho e em uma
superfície áspera. Galileu vai além, e mostra o motivo disso, com base na
consideração geométrica do comportamento da luz.
Essa discussão ilustra perfeitamente o que é para Galileu discorrer
físico-matematicamente. Decerto ele não nega que a lógica é necessária para

10
Ed. Naz., VII, 94-105.
11
Ed. Naz., 520.
A matemática e os dados visuais na carta de Galileu Sobre o candor lunar 127

o correto raciocinar. A divergência para com os tradicionalistas é a respeito de


outras coisas. Concordo novamente com Mariconda a respeito da importância
da cuidadosa observação da natureza no método galileano. A experiência
sensível é fundamental, para o autor, para que se alcance algum conhecimento
sobre a natureza. Em princípio, não era isso que o diferenciava dos defensores
de Aristóteles. Os dados sensíveis também eram fonte de conhecimento para
os aristotélicos, chamados de “físicos puros” em oposição ao discurso físico-
matemático de Galileu. Eis outro trecho da carta, muito breve, no qual o autor
defende tal discurso:

“...O discurso matemático serve para superar aqueles obstáculos com os quais às
vezes o puro físico corre o risco de chocar-se e se quebrar...”12

Para Galileu, além da lógica e da experiência sensível, é a matemática


que permite, a partir da experiência, compreender aquilo que não é
imediatamente dado na mesma. Como diz C. A. R. Nascimento, “não basta a
experiência nua. Esta deve ser integrada num saber e num saber
geométrico”13. Enquanto para os aristotélicos, “puros físicos”, o discurso
matemático é no máximo uma digressão, para Galileu ele é condição
necessária para o conhecimento da natureza.
Os apontamentos feitos acima são a respeito do que é discorrer físico-
matematicamente na obra galileana. Certamente o tema é mais amplo e
complexo: dever-se-ia considerar também outros aspectos da obra, em
especial o tratamento que é dado ao espaço nas discussões sobre o
movimento. Isso levaria a diversas outros textos, principalmente os Discorsi. Os
objetivos aqui são mais modestos. Pretendo apenas ter lançado alguma luz
sobre a geometrização das imagens visuais, telescópicas ou não. Estas
mostram que, apesar de Galileu não ter desenvolvido uma teoria da ótica
geométrica, suas análises de tais imagens são importantes exemplos do que é
a física matemática. Não era necessário que ele o fizesse, pois os princípios de
que se utiliza não eram novidade no séc. XVII. Ao contrário, remontam à
Perspectiva, ciência intermediária medieval, devedora de Euclides. Já a

12
Ed. Naz., 521.
Marcelo Moschetti 128

familiaridade de Galileu com tais princípios, ignorados total ou parcialmente


pela maioria de seus adversários, parece ter uma origem menos acadêmica: as
conquistas da pintura italiana, baseadas na geometria euclidiana e
sistematizadas em diversos tratados renascentistas, como o Da Pintura, de
Alberti, são uma importante chave para compreender a geometrização dos
dados visuais. A relação de Galileu com a pintura é um tema que exige um
trabalho de mais fôlego. É necessário dizer que tal tese não está, de maneira
alguma, demonstrada nesta comunicação. Trata-se de um tema mais amplo,
em vista do qual a carta a Liceti é particularmente esclarecedora (por ora basta
dizer que a expressão “luz secundária” é um termo oriundo da pintura
renascentista, com exatamente o mesmo sentido que ela tem na referência à
Lua).

13
NASCIMENTO, C.A.R. De Tomás de Aquino a Galileu. Campinas: IFCH/UNICAMP, 1998,
p. 171.
Continuidade e movimento em Bradwardine

Márcio Augusto Damin Custódio


Departamento de Filosofia/UFBA

Em seu tratado conhecido como De continuo1 (circa 1325-1343),


Bradwardine estabelece uma correspondência entre o contínuo geométrico
(linha, plano e figura) e o contínuo físico (por exemplo, o calor, a brancura e,
fundamentalmente, o movimento local) com o intuito de dar suporte
epistemológico à medição do movimento, e o faz aderindo à crítica de
Aristóteles ao atomismo, o que lhe traz dificuldades: Como medir o contínuo
sem numerá-lo? Ou é possível numerá-lo? Como utilizar pontos para medir a
natureza sem admitir a existência de indivisíveis? Meu objetivo, nesta
comunicação, é detalhar a estratégia argumentativa de Bradwardine que,
acredito, foi concebida para ajustar a medida do movimento às teses sobre o
contínuo e o indivisível de Aristóteles.
O De continuo não possui um caráter puramente matemático, como já
fica claro pelos termos definidos em sua primeira parte: contínuo, superfície,
linha, ponto, instante, mas também corpo, movimento, motum esse, sujeito de
movimento e grau de movimento. Assim, de acordo com as definições, o termo
contínuo pertence tanto ao domínio da matemática quanto ao da filosofia da
natureza, como se esclarece na suposição 120:

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.

1
O tratado de Bradwardine sobre o contínuo pode ser descrito como um texto polêmico, contra
os que afirmam que o contínuo é composto por partes indivisíveis. Alguns historiadores da
ciência defendem que seria uma resposta direta a Ockham. Como o De proportionibus (1328),
o De continuo também está escrito em forma axiomática, com definições e suposições que
forçam o leitor a acatar as conclusões do texto. Apesar dessa estrutura prevalecer, há seções
nas quais Bradwardine simplesmente apresenta uma contra-hipótese ao assunto tratado, a
qual segue uma série de conclusões com o mote “se isto for assim, então...”, ou seja, se a
contra-hipótese fosse verdadeira, então, seguir-se-ia tal conclusão que, no esquema de
argumentação, ou seria falsa ou seria impossível. Estas seções têm o objetivo de reduzir as
contra-hipóteses ao absurdo. Já as partes estritamente axiomáticas do De contínuo são as
primeiras e encontram-se divididas em definições, suposições e conclusões preliminares, às
quais se seguem duas partes negativas escritas ao modo dialético, lançando-se mão de contra-
hipóteses sobre relações de indivisíveis com o contínuo, todas reduzidas ao absurdo. Na
seqüência, o texto encerra com duas partes axiomáticas: a primeira afirma que todas as
hipóteses que sustentam que o contínuo é composto por indivisíveis são falsas, e a segunda
conclui que indivisíveis não existem, mas que o contínuo existe.
Márcio Augusto Damin Custódio 130

Assuma que dois líquidos se unem para formar um contínuo. Então, dois indivisíveis,
que eram anteriormente o término dos dois corpos líquidos, não serão nem
corrompidos nem outros serão gerados a partir deles. Assim, eles permanecem
imediatos e também os pontos de quantidade situados neles. Desse modo, por
[suposição] 30, isto ocorre com todo e qualquer contínuo. (De continuo, 105*-
106*/443-444) 2

Ao falar de líquidos, i.e, corpos, Bradwardine não hesita em recorrer à


suposição 30 (“Se um contínuo tiver átomos imediatos, seja ele finito ou infinito,
então cada contínuo deverá possuir tais átomos”),3 puramente matemática, o
que permite afirmar que não parece haver problema, para ele, em passar de
um contínuo matemático para um contínuo-natureza na argumentação. Cabe
ressaltar que essa passagem argumentativa entre a matemática e a filosofia da
natureza não é uma novidade bradwardiniana, embora se dê à revelia da
proibição da metabasis, i.e, da transposição de argumentos de uma ciência
para a outra, respeitada pelo aristotelismo medieval. 4 A relação entre contínuo
e movimento pode ser inferida da própria apresentação que Aristóteles faz, na
Física, da relação entre o movimento e o tempo, este último entendido
enquanto medida ou número do movimento. É da indicação feita por Aristóteles
que Bradwardine sugere extrair seu objeto de estudo, i.e, calcular o movimento,
e também sugere que no texto do estagirita já se encontrava a via a ser
seguida, i.e, geometrizar a definição de contínuo que se aplica na filosofia da
natureza.5 A dificuldade está em estabelecer um arranjo geométrico que dê
suporte para o cálculo do movimento, tal qual se entende “movimento”, sem
alterar o conceito aristotélico, nem pela redução à noção de locomoção ou
movimento local; ou seja, Bradwardine lida com a noção aristotélica de
movimento e de mudança enquanto transição do ato para a potência também
nas categorias da qualidade, da quantidade e da substância, além da categoria

2
Cito sempre a página do manuscrito com um asterisco, seguida da página do texto na tese de
doutorado de MURDOCH. Geometry and the continuum in the Fourteenth Century: a
philosophical analysis of Thomas Bradwardine’s Tractatus de Continuo. Tese de Doutorado.
Madison: University of Wisconsin, 1957.
3
De continuo, 41*/379.
4
Minha abordagem sobre o estatuto da matemática e das ciências intermediárias na
classificação das ciências do aristotelismo medieval foi desenvolvida em: CUSTÓDIO, M.
Implicações do problema da interdependência entre a História e a Filosofia da Ciência em Imre
Lakatos, 1998.
5
Na Física, a definição de contínuo aparece seguida por exemplos que se valem de corpos
extensos, portanto próprios da filosofia da natureza, não da matemática. Vide Física V, 3,
226b34-227a16.
Continuidade e movimento em Bradwardine 131

do lugar.6 Para cumprir esse objetivo, Bradwardine trabalhou, separadamente,


em duas frentes: na definição de contínuo e na aplicação da definição em
descrições e explicações sobre o movimento.
Murdoch7 comenta que a dificuldade em definir o contínuo decorre de
duas características que se lhe atribuía: que uma quantidade contínua é aquela
cujas partes têm extremidades comuns, e que uma quantidade contínua é
divisível em partes divisíveis ao infinito. A primeira afirmação sustenta que cada
parte é distinta e, portanto, tem um limite definido, mas, ao mesmo tempo,
também sustenta que cada parte está conectada com a outra, de modo que
seus limites sejam comuns e formem uma unidade. A segunda afirmação, ao
contrário da primeira, designa a multiplicidade do contínuo. Juntas, as duas
afirmações indicam como as partes compõem o contínuo essencialmente uno
e, mesmo assim, divisível em partes.
Aristóteles propôs um caminho para superar o problema, a saber, negar
que pontos ou quaisquer outros indivisíveis possam compor um contínuo.
Todavia, tal proposta não elimina as dificuldades de compreensão da relação
entre o contínuo e suas partes. Por exemplo, o ponto, enquanto um discreto
indivisível, pode ser compreendido como o limite de duas partes contínuas de
um contínuo. Nesse caso, teríamos que afirmar que o ponto está no contínuo, o
que leva a possibilidade de compreensão do contínuo como composto por
indivisíveis. Contudo, não se deve considerar a possibilidade de discretos, i.e,
indivisíveis, como pontos, conectarem-se.8

6
De continuo, prop. 25 (39*/377).
7
Vide MURDOCH. 1957, especialmente pp. 1-74; MAIER, A. Kontinuum, Minima und aktuell
Unendliches. in: Vorläufer Galileis; DUHEM, P. Leonard de Vinci et les deux infinis. in: Etudes
sur Leonard de Vinci, Cap. IX.
8
Murdoch sustenta que a popularidade do “problema do contínuo” é tal que se tornou
obrigatório para qualquer um que escrevesse sobre a Física, as Categorias ou mesmo o De
caelo, ainda que fosse para resolver questões bem diversas daquela que levou Aristóteles a
estabelecê-lo. Para os contemporâneos de Bradwardine, o tratamento do contínuo permitiria
não somente medir o movimento, mas abordar problemas, contextualmente, mais relevantes,
como: Pode um anjo mover-se de um lugar para outro em movimento contínuo? Toda causa é,
segundo sua própria natureza, circunscrita por certos limites? Deve-se atentar para esta
característica do pensamento medieval, ou seja, noções que para nós caracterizam-se
unicamente como de interesse da física, bem como de ciências correlatas a ela, eram
discutidas não apenas no âmbito da filosofia da natureza, mas também no âmbito da teologia.
A duas questões são, respectivamente, de DUNS SCOTUS. In lib. II sententiarum. Dist. II, q. 9
e RICHARD KILLINGTON. Commentaria sententiarum. Q. 3. Apud MURDOCH, 1957: 15.
Márcio Augusto Damin Custódio 132

Tais dificuldades para compreender a composição do contínuo talvez


sejam um sintoma da dupla definição que se encontra em Aristóteles:
a) “Diz-se que algo é contínuo quando os limites de cada um, que
se tocam, tornam-se um e o mesmo e estão, como a palavra
indica, contidos em cada um” (Física V, 3, 227a11-12);9
b) “Por contínuo eu quero dizer aquilo que é divisível em divisíveis
que são infinitamente divisíveis” (Física VI, 2, 232b24-25).10
Como Murdoch faz notar (1957: 78), a dupla definição de Aristóteles
contraria sua própria proibição da múltipla definição (Tópicos VI, 4, 141b37).
Mais ainda, a definição (b), que as partes do contínuo são infinitamente
divisíveis, tem origem na definição (a): no contínuo, todas as partes estão
conectadas. 11
Bradwardine parte da dupla definição de Aristóteles, mas não esboça
qualquer compreensão da derivação da definição de (a) para (b). Como lembra
Murdoch (1957: 78-79), uma definição derivada de outra não é um princípio, o
que possibilita, ao menos por suposição, que se admita que o contínuo é
composto por indivisíveis, conectados de algum modo. Deve-se, contudo,
impedir a admissão de indivisíveis enquanto componentes do contínuo, o que
leva Bradwardine a retrabalhar sua suposta conexão. Isto porque, enquanto
toda conexão se der por limite comum ou por contato, é necessário admitir que
ambos, limite e contato, requerem indivisíveis. Bradwardine foge dessa
impossibilidade por uma terceira via, que não pode ser encontrada na filosofia
da natureza de Aristóteles. Sua solução reside em lançar mão de um truque,

9
Também: “Uma linha, por outro lado, é uma quantidade contínua, pois é possível encontrar
um limite comum no qual suas partes se juntam” (Categoria 6, 5a1-2).
10
Vide também De caelo I, 1, 268a6-7 e Física I, 2, 185b10.
11
A argumentação que parte de (a) para obter (b) foi assim exposta por Murdoch (1957).
Impossibilidade dos Indivisíveis pela noção de limite: Indivisíveis não podem ter limites, pois
limite é limite de algo, o que quer dizer que o limite é diferente deste algo que limita,
integrando-o como parte; contudo, o indivisível não pode ser dividido em partes; Por não
possuírem limite, os indivisíveis não podem ser as partes do contínuo, i.e., aquelas que
possuem limites comuns. Impossibilidade dos Indivisíveis pela noção de contato: Todo contato
dá-se de três formas: parte com parte; parte com todo; todo com todo; As duas primeiras são
impossíveis uma vez que o indivisível não tem partes; Quanto ao terceiro, se as partes
indivisíveis do contínuo forem o todo do contínuo, isto implica afirmar que uma parte não será
distinta de outra parte; Se o contínuo é divisível em indivisíveis, estes indivisíveis têm que estar
em contato uns com outros; Porém, isto é um absurdo, pois indivisíveis parecem não poder
entrar em contato.
Continuidade e movimento em Bradwardine 133

qual seja, o de deslocar para o âmbito da matemática a noção de conexão, de


modo a eliminar a necessidade de indivisíveis. A dificuldade para efetuar tal
deslocamento está na definição dada por Aristóteles, segundo a qual o
contínuo é uma espécie do gênero contíguo.
Algo é contíguo de duas maneiras: primeiro, são contíguas as coisas
que estão em contato, de modo que suas extremidades ou limites estejam
juntas ou estejam em um único lugar; segundo, são contíguas as coisas que
estão em sucessão, i.e, dispostas de modo que uma está após o início de
outra, sem que haja algo do mesmo tipo entre ambas. O contínuo é o segundo
tipo de contíguo, uma vez que suas extremidades ou limites são um. Todavia,
deve-se perguntar como duas coisas podem ter suas extremidades ou limites
comuns, uma vez que, se a extremidade pertence a A, parece estar excluída a
possibilidade de que a mesma extremidade pertença também a B, muito
embora a particularidade do contínuo seja, precisamente, o lugar das
extremidades em contato.12 Emprestando o exemplo da geometria: “Uma linha
não pode ser composta por pontos, sendo a linha contínua e o ponto
indivisível” (Física VI 1, 231a24-231b15).13 Esta é a propriedade que, para
Aristóteles, só pode ser aplicada ao contínuo, i.e, a diferença específica em
relação a outras formas de contigüidade. Então, como as partes, por
suposição, estão contidas no contínuo e como constituem o contínuo? Se as
partes são divisíveis, a solução para as duas questões é a mesma. De uma
parte divisível pode ser dito que ela está contida no e constitui o contínuo, uma
vez que suas extremidades são comuns a outras extremidades de outras
partes. Porém, se as partes em questão forem indivisíveis, como o ponto, i.e,
sem extensão (causa última da indivisibilidade), a resposta se complica.
Embora as partes sem extensão possam estar contidas no contínuo, não
podem compô-lo. Dito de outro modo, embora se possa dizer que essas partes

12
Aristóteles as denomina de “união natural” (προσϕβσις) ou “junção natural” (σβνϕυσις)
segundo a tradução de MURDOCH, 1957: 81.
13
Pode-se, ainda, compreender essa afirmação considerando que o ponto não tem existência
por si mesmo, mas que dele pode ser dito existir na linha: “Tome a linha enquanto um contínuo
que pode ser dividido em duas partes por qualquer ponto nela. A extremidade das duas partes
é um único ponto ou, em outras palavras, eles têm um limite comum” (Metafísica III, 1090b5-
13).
Márcio Augusto Damin Custódio 134

indivisíveis existam no contínuo, não se pode afirmar que possuem existência


por si mesmas, i.e, separadas do contínuo.
A resposta sobre como as partes constituem o contínuo só pode ser
dada se se compreende como estão conectadas, i.e, trabalhando a noção de
conexão. Tome como exemplo qualquer ponto que corta uma linha em duas
partes, servindo ao mesmo tempo de limite para ambas. Este tipo de
extremidade, a extremidade comum, é diferente da extremidade de contato dos
contíguos. Ao distinguir claramente entre essas duas extremidades, abre-se a
possibilidade de se distinguir entre o contínuo e o descontínuo, uma vez que
dois segmentos contíguos pedem duas extremidades de contato, com um
lapso, um corte entre ambas, e nem o ponto, nem a linha são o lapso ou o
corte. Em outras palavras, para extremidades de contato, há um salto entre
uma linha de um lado e uma linha de outro. No caso de dois segmentos de um
contínuo, não há lapso, uma vez que os extremos dos dois segmentos são
comuns. Esta propriedade, necessária para a definição de contínuo, fica
evidenciada a partir da noção de ordenação, que se vincula ao tratamento das
extremidades de uma reta, como o antes e o depois do que não é extremidade,
i.e, o meio.
Assim, por exemplo, o ponto, enquanto extremo de dois segmentos
contínuos de reta, ordena o que vem antes e o que vem depois de si. O ponto é
o extremo que vem depois para um segmento, ao mesmo tempo em que é o
extremo que vem antes para o outro segmento, ou seja, ordena, ao mesmo
tempo, os dois segmentos do contínuo. Esta ordenação nada mais é que o
limite ou a limitação do posicionamento espacial: o antes e o depois só
adquirem sentido em relação ao limite, i.e., o ponto. Porém, a continuidade só
se mantém se o limite e o limitado não forem distintos, pois, neste caso, ter-se-
ia algo na reta, o ponto, enquanto algo diferente da reta. Escapa-se desta
objeção por uma redução ao absurdo, uma vez que o ponto, cuja definição é
“sem extensão”, só pode ser dito estar na reta enquanto aquilo que ordena
impondo limite. Em outras palavras, o que limita está no que é limitado não
como constituinte, mas como ordenador. Logo, o ponto como extremidade
comum, compreendido a partir da noção de ordenação, diferencia-se da
extremidade contígua e garante a noção de continuidade.
Continuidade e movimento em Bradwardine 135

O que interessa a Bradwardine, nesta explicação do contínuo, é o


abandono da noção de extremidades (termini) e da adoção das noções de
conexão mútua e de cópula (copulatio). Não fosse a noção de ordenação, não
seria possível o uso de pontos para tratar do contínuo-natureza, sem que estes
representassem indivisíveis na natureza, i.e, átomos democritianos. O que se
pretende é que, por meio da representação do contínuo-natureza no espaço
geométrico, seja possível eliminar a referência a indivisíveis na natureza.
O abandono da noção de extremidade permite pensar a numeração —
entendida como marcação por particionamento — do contínuo por não recorrer
à cópula. Note que da sobreposição de dois, por exemplo, permanecem dois
distintos em quantidade e, por conseqüência, a sobreposição não pode formar
o contínuo, que é uno, nem ocorrer nele, ou seja, se se depende da

A B C D

A C B D

sobreposição para marcar e numerar, então se deve concluir pela


impossibilidade de fazê-lo. Isto porque a sobreposição equivale à presença de
duas ou mais quantidades distintas, em ato, no mesmo lugar, enquanto o
contínuo é, em ato, uno e suas partes são potencialmente distintas. A noção de
ordenação aparece, então, como a única escapatória dessa impossibilidade.
Seu truque é transportar tudo que se quer marcar e numerar, em vista de uma
medição, para o plano geométrico, no qual não há “cópula”, somente a
propriedade geométrica que Bradwardine denomina de impostação (impositio),
da qual não participa a noção de extremidade. Impostar é, nesse sentido,
acumular ordenações distintas.
Contudo, se a noção de impostação é compreensível no plano
geométrico, não o é na natureza. Afinal, como é possível “impostar” dois corpos
em um mesmo lugar? Como transportar de volta a noção, para a ciência na
qual se pretende trabalhar, i.e, a filosofia da natureza, sem que se suponha o
indivisível na natureza? Para responder a esta questão, é preciso tipificar o
indivisível. No De continuo encontra-se a seguinte divisão: Indivisível espacial,
Márcio Augusto Damin Custódio 136

o ponto (Def. 8); Indivisível temporal, um “átomo de tempo”, o “instante” (Def.


9); Indivisível de movimento, motum esse (Def. 10).
O que Bradwardine pretende é adequar a definição de indivisível (Um
indivisível é o que nunca pode ser dividido)14 à filosofia da natureza aristotélica.
Dito de outro modo, pretende-se eliminar os tipos de indivisíveis que a
contrariam. Tais tipos são aqueles que equivalem às interpretações atribuídas
a Demócrito. Ao mesmo tempo, pretende-se salvar o uso de indivisíveis
matemáticos para fins de medição. Deve-se garantir, contudo, que a defesa de
indivisíveis matemáticos não levante a menor possibilidade de compreendê-los
como existentes.
A interpretação atribuída a Demócrito é a que compreende o átomo
como um indivisível corpóreo. A indivisibilidade do átomo democritiano não
decorre deste não possuir partes, mas de ser incapaz de divisão. Em outras
palavras, se o átomo possui partes, estas não podem nunca se atualizar, isto é,
se separar. Logo, pode-se dizer que o indivisível é o que, possuindo ou não
partes, não pode ser dividido.15
Ao refutar tal posição, entretanto, deve-se evitar tratar o indivisível como
um ente não-quantitativo,16 posição que, nos informa Alberto da Saxônia, os
escolásticos muitas vezes tomam, partindo do caráter não-quantitativo do
contínuo, o que inviabiliza a partição, a numeração e a medição. A
argumentação de Bradwardine contra o caráter não-quantitativo do indivisível
parte da proposição que nenhum indivisibilista, segundo ele, pode negar:
“Nenhum indivisível é maior que outro”.17 A proposição é extensivamente
demonstrada, isto é, a conclusão pode ser extraída diretamente das
proposições apresentadas como premissas (De continuo, Sup. 1, def. 7;
conclusão da Prop.1). Contemporaneamente, e com a ressalva de que o
exposto na enumeração abaixo escapa do campo conceitual e histórico de
Bradwardine, poder-se-ia, como mera ilustração, propor a seguinte formulação:

14
De continuo, def. 7, 1*/339. Esta definição é muito semelhante, à primeira vista, às definições
Aristóteles (Física VI, 1, 231b3) e Euclides (Elements, Book 1, prop. 1).
15
Vide: Alberto da Saxônia. Questiones in octe libros physicorum Aristotelis, lib VI, Q1, folio
64D, apud MURDOCH, 1957: 99.
16
A definição quantitativa de indivisível é dada em um outro texto de Bradwardine, Geometria
speculativa (Tract I, cap 1).
Continuidade e movimento em Bradwardine 137

1. Se a<b, então há um c tal que a+c=b, sendo c parte de b; ou se a >b,


então há um c tal que b+c=a, sendo c parte de a (Suposição 1)
2. Há um a1 e um b1 para os quais não há c (Definição 7)
3. Logo, a1b1 e a1∑b1, ou seja, a1=b1 (Proposição 1)
Note que a propriedade estabelecida na conclusão (3), isto é, a
igualdade, põe a questão da existência dos indivisíveis, uma vez que (1) e (2)
isolam e igualam um contínuo a outro.18 Quanto a (1), resta a dificuldade de
saber em que medida faz sentido falar de igualdade entre indivisíveis. De
acordo com o aristotelismo, a igualdade e a desigualdade são predicáveis
somente da quantidade e não da qualidade.19 Quando se fala da igualdade ou
da desigualdade das qualidades, se faz por intermédio de uma referência à
quantidade. No que diz respeito à quantidade, a igualdade pode ser de dois
tipos: positiva ou privativa. A igualdade positiva afirma que as duas coisas em
comparação possuem precisamente a mesma quantidade. A igualdade
privativa afirma que as duas coisas são iguais se puderem ser superpostas
sem que uma exceda a outra. Quando a igualdade é privativa,
necessariamente também será positiva, mas com uma ressalva: a propriedade
só pode ser compreendida se a igualdade positiva for entendida como
igualdade de contenção, isto é, igualdade de área. Em outras palavras, a
igualdade privativa apenas iguala no plano geométrico, sem nada dizer sobre a
natureza das coisas em relação, portanto, sem tratar de sua existência material
ou qualidade, posto que a matéria e sua qualidade são domínio da natureza.
Cabe agora investigar como a noção de igualdade pode ser aplicada aos
indivisíveis, primeiro, tratando-os como quantidades e, em seguida, tratando-os
como não-quantidades. Se quantitativos, os indivisíveis podem facilmente
receber a noção de igualdade, bastando para isso que dois indivisíveis

17
De continuo, 12*/350.
18
Deste contínuo isolado não se pode postular a existência dos indivisíveis enquanto partes,
mas apenas a possibilidade de existência: “se há um a1...”. Isto porque a segunda premissa é
uma definição e, enquanto tal, nada diz a respeito da existência do que toma com postulado
(os indivisíveis). As definições apenas tratam dos significados dos termos, logo, quanto à
existência, o argumento trata dos indivisíveis por suposição.
19
A marca mais característica da quantidade é que a igualdade e a desigualdade lhe são
predicáveis (...) O que não é uma quantidade não pode, de modo algum, ser nomeado igual ou
desigual a qualquer outra coisa... Desse modo, essa é a marca da quantidade, que pode ser
chamada igual e desigual. (Categorias VI, 6a27-35).
Márcio Augusto Damin Custódio 138

comparados sejam sobrepostos: se houver coincidência, eles são


privativamente iguais. Porém, é ainda mais relevante que entidades
quantitativas possam ser positivamente comparadas, i.e., poder saber se são a
mesma quantidade. Isto é impossível, pois se são quantidades, os indivisíveis
podem ser numerados e, seus números, por sua vez, podem sofrer divisão, o
que, em se tratando de indivisíveis, é absurdo. No caso de indivisíveis não-
quantitativos, suponha a utilização da noção quantitativa de igualdade por
privação, i.e, estabelecida pelo processo de sobreposição, posto que não é
possível encontrar alguma quantidade positiva na entidade não-quantitativa. Se
duas entidades não-quantitativas forem sobrepostas, poder-se-á estabelecer
uma certa relação, de igualdade ou desigualdade (por privação) entre as áreas
das entidades. Contudo, a igualdade por privação é geométrica, i.e., o que
pode ser comparado são as áreas das figuras das entidades não-quantitativas.
Logo, já não se está falando mais de indivisíveis, que só poderiam ser
representados por pontos na geometria, mas de contínuos, i.e, áreas.
A crítica de Bradwardine ataca, desse modo, a possibilidade da
existência de átomos na natureza. Os indivisíveis não são parte constituinte do
contínuo-natureza, posto que isto significaria encontrar uma quantidade — o
indivisível é discreto — no não-quantitativo, o contínuo, o que é absurdo.20 Por
outro lado, Bradwardine defende que o ponto, enquanto indivisível geométrico,
permite comparar contínuos por privação, i.e., comparar a área ou a extensão
da linha e, desse modo, medir a natureza, posto que ela é contínua. Os pontos
necessários para estabelecer os limites da área ou linha comparados, nada
mais são do que ordenadores da medida e em nada se assemelham ao átomo
democritiano. Isto porque a medida ocorre no plano geométrico, no qual os
pontos não representam nada do contínuo-natureza medido. Tudo o que da
natureza é representado, o é por áreas e retas. Os pontos, por sua vez, são
apenas ordenadores do espaço. Deste modo, Bradwardine adere ao
argumento de Aristóteles que o contínuo não é composto por partes

20
A oposição entre Aristóteles e os atomistas é patente em inúmeras passagens, como a
seguinte: “Nenhum demente é capaz de se apartar tanto da razão a ponto de supor que o fogo
e o gelo são um; somente entre o que é correto e o que parece ser correto pelo hábito, que
Continuidade e movimento em Bradwardine 139

indivisíveis. Quanto ao termo “indivisível”, este só pode ser o próprio ordenador


geométrico da medição do contínuo.

Conclusão

Cabe, contudo, um esclarecimento. O que Bradwardine compreende


como medida ou medição não tem nenhum uso prático, nem envolve
procedimentos experimentais. Não apenas pode-se alegar uma incapacidade
instrumental ou tecnológica para a efetivação da medição, como também uma
compreensão da experiência apenas como um exemplo ilustrativo das
teorias.21 Não se deve compreender, portanto, que a medição, tratada por
Bradwardine, envolve uma intervenção elaborada da experiência, pois o que se
busca é produzir um artifício matemático que responda pela defesa
intransigente da infinita divisibilidade do contínuo e o ataque à impossibilidade
de quantificá-lo, o que é feito tomando como ponto de partida a comparação
por privação quanto à área ou à extensão da linha. Valendo-se da noção de
contínuo, Bradwardine sustenta que há graus no movimento22: “Qualquer um
pode encontrar um movimento local uniforme e contínuo (mais rápido ou mais
lento) em toda e qualquer proporção entre uma reta finita e outra reta finita.”23
Percorrido este caminho, Bradwardine finalmente pode sustentar que, se
o movimento for ordenado segundo sua magnitude, é lícito colocá-lo em
correspondência, um para um, com retas ordenadas de modo similar. Este é o
ponto que se pretendia demonstrar epistemologicamente viável no interior da
filosofia da natureza aristotélica.

uma pessoa é demente o suficiente para não ver diferença” (De generatione et corruptione I, 8,
325a17-23)
21
Nessa perspectiva, De Libera afirma: “Tais textos não se engajaram em uma confrontação
com a experiência ou com a experimentação ativa. Pois não buscavam o conhecimento do real
e nem mesmo a verificação de uma hipótese ou de uma conjectura, mas sim a produção de
novas regras ou o estabelecimento de novos quebra-cabeças lógicos, os sofismata. O
progresso se fazia, assim, sobre o terreno da análise lógica e não sobre aquele da indução
científica” (DE LIBERA, A. La philosophie médiévale, p. 64). Concordo com De Libera quanto à
ausência de compromisso com a verificação, pela experiência, do conhecimento. Quanto à
discussão, em Bradwardine, creio que deve ser compreendida como epistemológica e não
lógica, com ênfase, não aos sofismata, mas à geometria.
22
De continuo, prop. 21-25 e 32.
23
De continuo, prop. 24
Márcio Augusto Damin Custódio 140

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A influência de Descartes no pensamento médico holandês:
alguns exemplos

Marisa C. de O. F. Donatelli
Departamento de Filosofia/UESC

RESUMO: Descartes contará, na área médica, com fervorosos defensores


que darão prosseguimento a sua medicina inacabada. Por meio da análise
da correspondência de Descartes com os médicos holandeses Plempius,
Regius e Van Beverwick, e da obra de Van Hogelande, pode ser constatado
que eles lhe escreviam com o objetivo de buscar a sua opinião sobre
assuntos ligados à medicina, o que deixa transparecer a importância que o
filósofo teve no cenário médico holandês. O presente estudo volta-se para a
influência de Descartes no pensamento médico holandês no século XVII,
com ênfase em três médicos – Plempiua, Regius e Van Hogelande,
destacando os pontos nos quais a influência cartesiana está presente, tanto
na fisiologia como na patologia.
Palavras-chave: cartesianismo holandês; medicina cartesiana;
fermentação, mecanicismo

A publicação, em 1637, do Discurso do método, possibilitou a René


Descartes contatos dos mais importantes para a discussão e divulgação de
suas idéias referentes à medicina. Dentre esses contatos, cabe destacar o
estabelecido com o médico católico da Universidade de Louvain, Vopiscus
Fortunatus Plempius1, a quem Descartes encaminhou um exemplar do texto
recém-publicado, com destaque para a exposição sobre a circulação do
sangue.
Em sua obra Fundamenta medicinæ, publicada em 1638, Plempius
expõe a sua concepção referente ao assunto, que se opõe à concepção
cartesiana, e publica as cartas que Descartes lhe escreveu, em resposta às
suas objeções ao exposto no Discurso. Descartes elabora uma explicação

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.

1
Plempius nasceu em Amsterdã, estudou medicina em Leiden, Pádua e Bolonha, onde
concluiu seus estudos. Em 1633, torna-se professor na Universidade de Louvain, onde se opõe
ao ensinamento do cartesianismo. Se, inicialmente, ele se opõe à defesa da circulação do
A influência de Descartes no pensamento médico holandês: alguns exemplos 143

mecanicista que não recebe adesão por parte de Plempius, especificamente


quanto à fermentação do sangue que é considerada como invenção2.
Plempius, ainda preso à tradição, defende a existência de uma faculdade
pulsátil como causa do movimento do coração3. Descartes, por sua vez,
constrói sua explicação do batimento cardíaco com sustentação nas leis
mecânicas. A referência ao calor cardíaco, como fundamento do movimento do
coração, recebe uma crítica contundente por parte de Plempius4, que associa
essa interpretação à defendida por Aristóteles. Descartes reconhece a
existência dessa noção em Aristóteles, porém o distanciamento se dá pelo fato
de não haver, no texto do filósofo grego, qualquer menção à rarefação do
sangue. Essa omissão parece distanciar Descartes de Aristóteles e constituir a
sua originalidade. Trata-se de reconhecer que o que está em questão é o
fundamento da explicação adotada por Descartes, e nesse aspecto, nota-se o
constante esforço em transformar concepções tradicionais por meio do modelo
mecânico.
A partir de 1638, Descartes estabelece contato com Regius, professor
de medicina na Universidade de Utrecht que o procura depois de ter estudado
o Discurso do Método e os Ensaios. Em carta de março de 1639, Regius
defende a aplicação dos princípios da filosofia de Descartes na medicina;
princípios estes tirados dos textos de Descartes e das aulas de Reneri5, que
ensina a Regius a filosofia cartesiana. O ensino da filosofia e do método
cartesianos na Faculdade de Medicina provocará, mais tarde, acirradas
discussões em torno da obra de Descartes. A disputa se inicia com a defesa,
por parte de Regius, de teses cartesianas, com base na Dióptrica e nos
Meteoros. Essas teses foram reunidas em um tratado de filosofia natural6 com
a finalidade de difundir a filosofia cartesiana. Esse intento foi alcançado quando
a Regius foi permitido ministrar um curso mais amplo, no qual ele poderia tratar
de questões voltadas para a filosofia cartesiana. A publicação da Physiologia

sangue, mais tarde ele vai se compor com os argumentos expostos por Descartes, ao longo da
discussão que travaram sobre o assunto.
2
AT II, 54 (Plempius a Descartes, mars 1638)
3
Plempius defende a participação da alma nas funções orgânicas. Cf. 3.10.37
4
AT I, 497-499 (Plempius a Descartes, janvier 1638)
5
O primeiro divulgador da filosofia natural cartesiana na Universidade de Utrecht.
Marisa C. de O. F. Donatelli 144

não foi bem recebida pela Universidade de Utrecht, gerando toda uma
discussão que deu início a um debate acirrado, envolvendo a Faculdade de
Teologia e uma acusação contra Regius de ateísmo, além da proibição da
difusão da filosofia cartesiana: as autoridades de Utrecht organizaram um
julgamento público da nova filosofia e retiraram a autorização de Regius para
lecionar filosofia natural.
Regius adota a explicação física e procede à aplicação do método,
segundo os padrões cartesianos, conforme pode ser constatado nas cartas
enviadas a Descartes, nas quais busca orientação do filósofo na defesa das
teses, de forma a serem feitas correções no texto e a ser adotada uma
linguagem precisa. Da carta de 24 de maio de 1640, podem ser extraídas
partes da teoria médica cartesiana que é defendida por Regius, como é o caso
referente ao processo de preparação do sangue a partir da concepção da
matéria composta de partículas em movimento. Ainda nessa carta, pode ser
encontrada a referência à necessidade da experiência e constatado o esforço
constante de Descartes em atualizar os estudos, ao acompanhar as
descobertas na área médica. A discussão por elas engendradas e a
comparação entre duas obras oferecem um testemunho bastante confiável:
L´Homme (1632?) e La description du Corps Humain (1648). Trata-se da
descoberta dos vasos lácteos por Asellius, em 23 de julho de 1622. Na época
em que escreveu o tratado L´Homme, Descartes não tinha conhecimento
dessa descoberta, pois o trajeto do alimento aí exposto está de acordo com a
tese galênica, segundo a qual o alimento passa por um triplo processo de
digestão, sem considerar a existência dos vasos que transportam o quilo para
os intestinos7. Essa ausência mostra que Descartes não tomou conhecimento
dessa descoberta tão logo foi levada a público, em 1627, mas provavelmente
em 1640. Nesse mesmo ano, quando Regius (na carta supracitada) intenta
mencionar os vasos lácteos em suas teses, Descartes desaconselha, uma vez
que pretende repetir a experiência feita por Asellius para constatar a existência

6
As teses foram organizadas e publicadas em 1641 com o título Physiologia.
7
No primeiro, a digestão se dá no estômago; no segundo, nos intestinos, sendo transformado
em quilo e voltando a subir, misturado ao sangue, pelas veias mesentéricas até o fígado e, por
fim, transforma-se em sangue pelo último processo de digestão.
A influência de Descartes no pensamento médico holandês: alguns exemplos 145

dos vasos lácteos, o que parece ter sido empreendido pelos dois, pois em uma
carta a Mersenne (30.7.1640), Descartes afirma a existência dos vasos. Porém,
em 1648, na Description du corps humain, a posição do filósofo quanto ao
trajeto do quilo sofre alteração, por conta das descobertas de Jean Pecquet -
cisterna do quilo e vasos linfáticos. Esses dois textos, combinados com as
cartas, constituem o exemplo mais notável da atualização dos estudos
médicos do filósofo.
Um outro médico com quem Descartes manteve correspondência foi Jan
Van Beverwick8. Em 10 de junho de 1643, Beverwick escreve a Descartes
solicitando comentários a respeito da circulação do sangue e do movimento do
coração – questões que estão em destaque nas discussões médicas da época
e que integrarão a publicação das Epistolicæ Quæstiones que estão sendo
preparadas nesse ano. A esse médico, Descartes retoma o Discours, no que
diz respeito ao movimento do coração, e propõe enviar os textos das duas
cartas remetidas a Plempius, em 1638, sobre esse assunto, com a finalidade
de recuperar o seu conteúdo, uma vez que, segundo Descartes, elas foram
publicadas de forma distorcida e incompleta pelo médico de Louvain. Na carta
de 5 de julho do mesmo ano, Descartes deduz esse movimento do calor do
coração e da conformação dos vasos, destacando o processo de evaporação e
condensação do sangue como parte de sua explicação eminentemente
mecânica com respaldo na experiência. Van Beverwick, nessa obra, deu
destaque à palavra de seus interlocutores, sem deixar entrever a sua posição
referente aos assuntos aí tratados. Mas o interesse de Beverwick em incluir as
teses cartesianas em sua compilação, além da adoção da explicação da
circulação sangüínea defendida por Descartes, deixa entrever a importância do
filósofo nas discussões que são travadas no meio médico.

8
Autor de várias obras médicas, dentre as quais merecem destaque um manual de medicina
doméstica e clínica denominado Tesouro da saúde e da doença (1656) e o livro Sobre a
excelência do sexo feminino (1643).
Marisa C. de O. F. Donatelli 146

II

As cartas de Descartes a Plempius apresentam-se revestidas de


importância no que diz respeito à influência cartesiana no campo da medicina,
pois nelas está exposta a defesa da fermentação, rejeitada por Plempius, na
base do processo do batimento cardíaco. A teoria da fermentação exercerá
influência nas pesquisas na área biológica do XVII, podendo ser encontrada em
Van Hogelande, médico atuante em Leiden, e com quem Descartes manteve
contato. O médico holandês é mencionado em carta a Elisabeth9 como
defensor de seus princípios na construção de suas explicações médicas
contidas em livro publicado em 1646. Van Hogelande adota os princípios
mecânicos em suas explicações acerca dos sentidos e do homem, sob o ponto
de vista médico, bem como refere-se aos vasos lácteos e adota a mesma
exposição referente ao quilo encontrada em Descartes, conforme referência
feita mais acima.
A base da adoção do processo de fermentação como forma de explicar
os processos fisiológicos encontra-se na defesa da distinção entre corpo e
alma, dotando a matéria de autonomia, de forma que ela, por sua conformação
e movimento consiga dar conta de todas as funções que dependam de sua
disposição e do movimento das partículas que a constituem. Assim, nota-se
nas explicações concernentes às funções do corpo que Descartes adota a
fermentação como o processo básico. O corpo, que passa a ser considerado
de forma autônoma como máquina, necessita de um motor que possibilite
todas as funções fisiológicas e esse motor tem por base o fogo cardíaco que,
por um processo semelhante à fermentação, faz com o que o sangue entre em
ebulição e distribua-se pelo corpo por meio das artérias. Tudo se dá da
seguinte forma: o sangue, ao entrar no coração – portador desse calor – dilata-
se. Esse calor cardíaco, além de dilatar e esquentar, torna o sangue mais sutil,
de modo que ele escoará gota a gota pela veia cava, no ventrículo direito, de
onde irá para o pulmão e daí, passará para o ventrículo esquerdo, do qual se
distribuirá por todo o corpo. Assim, o sangue passa por um processo de

9
AT IV, 627 (Descartes a Elisabeth, mars 1647)
A influência de Descartes no pensamento médico holandês: alguns exemplos 147

destilação no coração, para, depois, passar por um processo de condensação


nos pulmões. Descartes, com essa interpretação,vai contra a explicação
galênica, dominante nos livros de sua época, segundo a qual o sangue se
distribuiria do fígado por todo o corpo por meio das veias.
O calor cardíaco está na origem do movimento do sangue e,
conseqüentemente, de suas partículas mais sutis denominadas espíritos
animais que determinam os movimentos do corpo, a partir do cérebro e de
acordo com a estrutura dos músculos e dos nervos, e compõem a base
explicativa das sensações. Todas as funções do corpo remetem ao calor
cardíaco. Descartes defende essa posição desde o tratado O homem,
rejeitando qualquer explicação que recorra a outro princípio de vida que não
seja o sangue e os espíritos animais:

“(..) não é necessário conceber nela [na máquina corpórea]nenhuma alma vegetativa
nem sensitiva nem outro princípio de movimento e de vida além de seu sangue e
seus espíritos, agitados pelo calor do fogo que queima continuamente em seu
coração”.10

Essa posição é reafirmada na Descrição do corpo humano, texto de


1648, no qual Descartes sustenta que o princípio de todos os movimentos do
corpo encontra-se no calor cardíaco11. Aí também se encontra o processo de
fermentação na base explicativa do movimento do coração. Na segunda parte
da Descrição do corpo humano, Descartes se detém na explicação detalhada
do movimento do coração e do sangue, na qual recorre a dois expedientes:
observação anatômica (recurso, aliás, já utilizado no Discurso do método) e
experiência que corrobora a descrição do movimento do coração12. Vamos nos
deter nesse último recurso, pois ele está presente na importante discussão
entre Descartes e Plempius ocorrida em 1637 e referida no início deste
trabalho.
Para Descartes, quando o coração está alongado e desinflado, só há,
em suas concavidades, um pouco de sangue que restou daquele que se
rarefez anteriormente. Esse pouco de sangue rarefeito, que aí restou, ao se

10
AT XI,p.202
11
AT XI, p. 226
12
AT XI, pp. 241-243.
Marisa C. de O. F. Donatelli 148

misturar com o que entra, comporta-se como uma levedura, fazendo com que
ele se aqueça e se dilate rapidamente. Assim, o coração enrijece, dilata-se e
distribui o sangue pelo corpo por meio das artérias. Com a saída do sangue
rarefeito, o coração se alonga e desinfla. Em resposta às críticas de Plempius
ao calor cardíaco, Descartes recorre à descrição do experimento com peixes,
cujo coração extraído pulsa por muito mais tempo do que o coração de um
animal terrestre. A pulsação, após a extração, é explicada pela penetração de
um pouco de sangue de uma parte do coração em uma outra um pouco mais
quente. Isso significa que o coração é impelido a continuar a pulsar, por uma
força mínima; afinal, quanto menor é a quantidade de qualquer humor – e o
sangue é um tipo de humor - tanto mais facilmente pode ele se rarefazer,
provocando a dilatação. O exemplo, pautado em analogia, ao qual Descartes
recorre, para justificar essa afirmação, é o de licores que, ao se misturarem a
outros, se aquecem e inflam. Da mesma forma, no coração reside algum humor
equivalente a um fermento, com o qual um outro humor, ao se misturar, dilata-
se13. Assim, convém esclarecer, a rarefação à qual Descartes se refere, aqui,
consiste na manutenção da forma do licor e aumento de seu volume,
distinguindo-se da outra maneira, quando o licor transforma-se em fumo e
muda a forma. Plempius, em sua objeção, na carta de janeiro de 1638, refere-
se a este último tipo de rarefação, que não é considerado por Descartes na
explicação do movimento do coração, uma vez que não há ar nos ventrículos
do coração, mas somente sangue. Esse modo de rarefação, que se dá em um
momento, considerado pelo filósofo na explicação do movimento cardíaco,
implica o aumento de volume do sangue, adquirindo, portanto, novo
movimento, figura ou situação, de forma que suas partículas necessitam de um
lugar mais amplo. É assim que a diástole será defendida como se dando em
um momento e não de forma gradativa.

“Quando o sangue aumenta de volume no coração, a maior parte dele irrompe pela
aorta e pela veia arteriosa, mas ainda fica uma outra parte em seu interior que
preenche os ventrículos. Aí, atinge um novo grau de calor e uma certa natureza como
a do fermento: imediatamente depois, enquanto o coração desinfla, faz com que,
misturando-se muito rapidamente ao novo sangue, que escorre para dentro através
da veia cava e da artéria venosa, infla-se rapidamente e sai pelas artérias, depois de

13
AT I, pp. 521-534 (Descartes à Plempius, 15.2.1638)
A influência de Descartes no pensamento médico holandês: alguns exemplos 149

ter deixado para trás uma parte qualquer de si que funciona como um fermento.”(AT I,
p.530)

A fermentação também é defendida por Descartes no processo de


digestão. A explicação mecanicista, ao se voltar para os movimentos que
dependem de peças menores, invisíveis, adotará uma ordem, e cada
movimento representará uma função. Essas funções serão explicadas por meio
da intervenção de líquidos, separação, agitação e calor das partículas,
fermentação, destilação, disposição dos poros e desigualdade entre as
partículas, como é o caso da digestão. A digestão, assim, está baseada no
processo que pode ser comparado com a ação de líquidos sobre a cal e de
ácidos sobre o metal. O líquido presente no estômago, e que está na base da
digestão, provém do sangue e atua como ácido junto aos alimentos,
dissolvendo-os, como ocorre em todas as fermentações14.

Primeiramente, os alimentos são digeridos no estômago dessa máquina pela força de


alguns líquidos que, ao se introduzirem entre suas partes, separam-nos, agitam-nos e
os esquentam: assim como a água comum faz com as partes da cal viva, ou a água-
forte com aquelas dos metais. Além do fato de que esses líquidos, sendo trazidos
rapidamente do coração pelas artérias, como vos direi mais adiante, não podem
deixar de ser muito quentes. E mesmo os alimentos são tais, normalmente, que
poderiam se corromper e esquentar sozinhos: assim como faz o feno nas granjas,
quando é recolhido antes que esteja seco. E sabei que a agitação que as pequenas
partes desses alimentos recebem ao esquentar, junto àquela do estômago e dos
intestinos que as contêm, e à disposição dos pequenos filetes que compõem os
intestinos, faz com que, à medida que elas são digeridas, desçam pouco a pouco pelo
conduto por onde as mais volumosas dentre elas devem sair, e que, entretanto, as
mais sutis e as mais agitadas encontrem aqui e ali uma infinidade de pequenas
cavidades, por onde elas escoam nas ramificações de uma grande veia que as leva
para o fígado e em outras que as levam para outros lugares, sem que haja nada além
da pequenez dessas cavidades que as separa das mais volumosas. (AT XI, 121)

Nota-se, então, que para Descartes os alimentos têm o poder de


fermentação, a exemplo do que ocorre com o feno quando é colhido antes de
estar seco. O mesmo processo adotado na explicação do batimento cardíaco
encontra-se na base explicativa da digestão. Aliás, a digestão necessita do
calor cardíaco enviado pelas artérias juntamente com os líquidos que são
mencionados nesse processo de fermentação que caracteriza a digestão, ou
seja, os alimentos dotados daquele poder, juntamente com as partes fluidas
levadas pelo sangue, que facilitam todo o processo, possibilitam a dissolução

14
AT IX, 250-1
Marisa C. de O. F. Donatelli 150

que ocorre no estômago15. Por meio da adoção da fermentação como causa do


calor, que está presente nos dois processos mencionados, que podem ser
explicados pelo mecanicismo, sem recurso às faculdades, Descartes reforça o
distanciamento em relação a Galeno e Aristóteles no que diz respeito às
explicações sobre a atuação do calor na digestão.
A importância da fermentação no funcionamento do corpo vivo situa-se
no fato de ela estar presente em processos fisiológicos fundamentais para o
bom andamento da máquina corporal. Assim, os dois aspectos fundamentais
de sua fisiologia – movimento do coração e digestão – adotam essa teoria na
base de suas explicações, como extensão da adoção do mecanicismo na
compreensão dos processos fisiológicos.

III

A obra de Hogelande, dedicada a Descartes, intitula-se Pensamentos


nos quais a existência de Deus, a espiritualidade da alma e sua união com o
corpo são demonstradas, com uma breve descrição da economia do corpo
animal e sua explicação mecânica16 e volta-se, na primeira parte, para
questões concernentes à existência de Deus e a defesa de sua bondade.
Curioso notar que em sua demonstração da existência de Deus, Hogelande
recorre à circulação do sangue, como expressão da suma sabedoria. A
segunda parte volta-se para a explicação da união entre alma e corpo. Nesse
aspecto, Hogelande apresenta uma interpretação bastante original, ao traçar
uma analogia entre a união da alma ao corpo e a de um vapor no líquido. O
processo de fermentação do sangue no coração está na base dessa união, de
tal forma que, segundo o médico holandês, a alma tem que se acomodar à
forma do corpo, participando de tudo o que lhe acontece, estando como que
encarcerada no sangue, sendo liberada – sendo dissolvida a união, portanto -
quando o calor cessa. Hogelande refere-se à matéria sutil que, pela
fermentação, envolve-se em uma matéria mais grosseira; porém, essa matéria

15
AT VI,53
16
CORNELIUS VAN HOGELANDE, Cogitationes, quibus Dei existentia et animæ spiritalitas, et
possibilis cum corpore unio, demonstrantur : necnon brevis historia œconomiæ corporis
animalis proponitur, atque mechanique explicatur, Amsterdam, 1646.
A influência de Descartes no pensamento médico holandês: alguns exemplos 151

sutil é corpórea, e todo o movimento que recebe é atribuído a suas partes, o


que constitui um problema em relação ao paralelo traçado com a alma, uma
vez que ela é considerada como imaterial17. A exemplo de Descartes,
Hogelande dá destaque ao papel da glândula pineal no processo de separação
dos espíritos do sangue.
Quanto à terceira parte de sua obra, referente à economia do corpo
animal, o autor se volta para a ação dos líquidos no corpo, com ênfase no
papel da fermentação, que está na base do processo de digestão, a exemplo
do que Descartes defende no tratado O homem e na Descrição do corpo
humano. No que concerne à patologia, a febre (a doença mais discutida na
época) será considerada como conseqüência da fermentação dos humores,
além da acidez do sangue. Nesse ponto, o distanciamento em relação a
Descartes se dá pela desconsideração do aspecto geométrico das cavidades
pelas quais os humores escoam. Os acessos de febre são explicados por
Descartes, não só a partir da consideração da mistura, ao sangue, do humor
corrompido que se aquece e se dilata, o que constitui o processo de
fermentação, mas também com base no mecanismo de abertura das cavidades
por onde escoa essa matéria corrompida que causa o aumento do calor, além
do caráter geométrico das partículas de matéria no sangue. Descartes atribui
e, nesse ponto, seguindo a tradição18, o aumento da temperatura do corpo e a
pulsação acelerada ao aumento do calor cardíaco. Sabendo que esse calor
cardíaco – fogo sem luz – é mantido pelo sangue, a causa da febre pode ser
atribuída ao fato de haver no sangue algo que provoque uma alteração nesse
calor: a matéria corrompida que faz com que esse calor se intensifique. Ora
esse elemento mórbido é formado por meio da putrefação que ocorre quando
os humores param de se mover. Dessa forma, a explicação da origem da febre
é construída a partir do movimento da matéria, e as diferenças entre a
periodicidade dos acessos de febre são atribuídas ao tempo necessário para a
maturação do humor, de forma que ele possa se misturar ao sangue e entrar
no coração. Quanto aos acessos, afastando-se da tradição, Descartes

17
AT V, 48 (Elisabeth à Descartes, mai 1647)
18
Cf. Fernel, Pathologia.
Marisa C. de O. F. Donatelli 152

recorrerá à sua física para fundamentar a sua explicação. Os acessos ocorrem


quando os poros, que fecham a cavidade que contém a matéria corrompida,
cedem à pressão, expurgando a parte abundante. A diversidade dos acessos
será atribuída à diversidade do caráter geométrico das cavidades que
contiverem aquela matéria e que é variável entre os homens. Dessa forma,
ocorre uma transposição da explicação de caráter físico-geométrico para a
explicação dos seres vivos.
A explicação física da febre se dá a partir do movimento da matéria e do
recurso aos elementos, presentes nos Princípios da Filosofia. Além de
considerar o mecanismo de abertura das cavidades por onde escoa a matéria
corrompida, Descartes, em suas Cogitationes circa generationem animalium,
recorre ao caráter geométrico das partículas de matéria no sangue.

“No sangue, há quatro principais gêneros de partes [de matéria]: pequenas e lisas
como o espírito do vinho, pequenas e ramificadas como o óleo, espessas e lisas
como a água e o sal, espessas e ramificadas como [as partículas] de terra ou as
cinzas.” (AT XI, p.536)

Esses gêneros de partes de matéria do sangue apresentam


configurações diferentes que serão importantes para a atribuição de causas
aos diferentes tipos de febre: os sintomas serão esclarecidos pelo recurso à
geometria dessas partículas. Assim como nos Princípios, Descartes recorre à
diversidade de configuração das partículas de matéria para explicar os
fenômenos da natureza, na patologia, especificamente no caso das febres, o
mesmo ocorre:

“As pequenas e lisas causam a febre intermitente (que dura um ou mais dias) ao
estarem retidas e se deteriorando nas extremidades dos vasos por causa da
interrupção da transpiração insensível. As espessas e lisas causam a febre cotidiana,
ao se deteriorarem no estômago e nos intestinos. As pequenas e ramificadas causam
a [febre] terçã, ao se deteriorarem no reservatório da bílis. As espessas e ramificadas
causam a [febre] quartã ao se deteriorarem no baço.” (AT XI, pp.536-537)

Um outro ponto a ser considerado na explicação cartesiana dos acessos


de febre, além do caráter geométrico das cavidades e das partículas do
sangue, e que também se vale da física, está relacionado ao movimento
circular da matéria, conforme a segunda lei da natureza exposta nos
A influência de Descartes no pensamento médico holandês: alguns exemplos 153

Princípios19. Isso porque a circulação do sangue será responsável pela


transmissão da febre a todo o corpo. Em uma carta a Newcastle, de 164520, ao
tratar dos tremores que acompanham o início do acesso das febres como
conseqüência do “frio da febre”, Descartes afirma que o acúmulo de humor
21
corrompido em alguma parte do corpo, ao fim de um, dois ou três dias corre
nas veias e, ao se misturar com o sangue, indo ao coração, impede que ele se
aqueça e se dilate como de costume e, conseqüentemente, constitui um
impedimento para aquecer o resto do corpo. Como isso só se dá no início do
acesso, depois que esse humor mistura-se ao sangue, aquece-se e dilata-se
mais que o sangue no coração. Isso provoca o calor do acesso que dura até
que esse humor corrompido se evapore ou seja reduzido à constituição natural
do sangue.
Apesar de Descartes, na patologia, se valer do conhecimento
proveniente da experiência dos médicos que costumava acompanhar, no que
diz respeito à etiologia, o filósofo recorre constantemente à explicação física, a
partir dos princípios estabelecidos por meio da razão, que evocam o
movimento da matéria e a configuração das partes que compõem a matéria. O
mesmo recurso pode ser constatado na fisiologia, porém, nesse ponto, pode
ainda ser notada a importância heurística da experiência.

IV

É conhecida a influência do mecanicismo cartesiano no pensamento


médico, especificamente, no que concerne à explicação do funcionamento do
corpo. A influência do pensamento de Descartes nessa área, porém, agrega
uma outra teoria, decorrente do mecanicismo: a fermentação apresenta-se
como uma teoria importante e muito usada nas explicações médicas do século
XVII, como pode ser constatado em Harvey, ao explicar a diástole, e em Van
Helmont, ao explicar o processo de digestão. Descartes, ao tomar por base a
distinção substancial entre alma e corpo, estrutura suas explicações sobre as

19
No que concerne a essas leis, há uma alteração na ordem que consta no Mundo.
20
AT IV, 188-192
21
Tempo necessário para sua maturação torná-la fluida, por isso a febre é designada como
cotidiana, terçã e quartã.
Marisa C. de O. F. Donatelli 154

funções do corpo em operações materiais. Desta forma, a digestão e o


movimento cardíaco são compreendidos por meio dessas operações materiais
que estão na origem das fermentações.
Essa ênfase na fermentação, comum no século XVII, é devida,
principalmente, aos estudos realizados por Jean-Baptiste Van Helmont22 no
que diz respeito ao processo de digestão. Segundo esse autor, a digestão pode
ser compreendida a partir da ação de um fermento ácido proveniente do baço.
Ao lado desse fermento, outros concorrem para o andamento do processo,
assim como o fermento do fel e o fermento do fígado. Dessa forma, todo o
funcionamento do corpo está regulado pela ação de fermentos, e o processo
de digestão apresenta-se como central por fornecer princípios nutritivos aos
outros órgãos.
Descartes, por sua vez, adota o princípio da fermentação e a concepção
do fogo cardíaco adaptando-os aos princípios da mecânica. A adoção de
recursos tirados de seus estudos de química, mencionados em carta a
Mersenne em 163023, na explicação concernente ao funcionamento dos
corpos, em conjunção com a teoria física do mecanicismo, possibilita a
Descartes a composição de uma teoria médica que abrange todos pontos
necessários para a compreensão dos processos fisiológicos, sem que seja
preciso recorrer a elementos que ultrapassem a esfera daquilo que pretende
explicar. A sua cosmologia com a teoria dos turbilhões, na qual três elementos
atuam, compondo um universo sólido e contínuo, em que o vazio é impensável,
está na base de toda a explicação física concernente aos fenômenos da
natureza. O arranjo que se dá entre os três elementos será responsável pelo
surgimento dos mais variados fenômenos que podem ser entendidos, portanto,
como conseqüências das reações que surgem dessas combinações. Nesse
contexto, a fermentação, que alia o aspecto químico ao físico, se apresenta
dotada de importância pelo fato de dar conta do principal processo, qual seja o
de aquecimento do sangue no coração que está na origem de todos os outros
processos fisiológicos.

22
Médico e químico belga que viveu de 1557 a 1644.
23
AT I, 137 (A Mersenne, 15 avril 1630)
A influência de Descartes no pensamento médico holandês: alguns exemplos 155

Da mesma forma, Hogelande vai se valer das idéias cartesianas de


turbilhões e matéria sutil, mas o destaque maior em sua obra é dado à teoria
da fermentação, tal qual encontramos em Descartes. No entanto, a exemplo do
que pode ser encontrado em Van Helmont, a interpretação do médico holandês
dará maior abrangência à atuação da fermentação, de forma que ela está
presente na maior parte de sua obra anteriormente citada, podendo ser
apontada como fundamental para a compreensão do funcionamento do corpo
humano. Assim, pode ser notado que Hogelande, ao se apropriar de algumas
idéias de Descartes, cria uma interpretação própria que respeita as
peculiaridades do sistema cartesiano, ainda que trabalhe com elementos
provenientes de um autor que não pode ser considerado, exatamente, como
próximo dos parâmetros adotados por Descartes, como é o caso de Van
Helmont e seu princípio imaterial denominado arqueu.
Nesses contatos mantidos com médicos, pode ser notada a importância
dada à experiência, o distanciamento da tradição e a adoção de princípios
mecânicos na explicação do funcionamento do corpo humano. Além disso, a
participação de Descartes nas discussões médicas deixa entrever o seu papel
de consultor. A análise da correspondência que Descartes manteve com os
médicos possibilita a constatação de que eles lhe escreviam com o objetivo de
buscar a sua opinião sobre assuntos ligados à medicina, e não para
estabelecer correções e impor juízos, o que deixa transparecer a importância
que o filósofo teve no cenário médico holandês.

Bibliografia Primária

DESCARTES, R. Oeuvres de Descartes, publiés par Charles Adam &


Paul Tannery (AT). Paris: Vrin avec le concours du Centre National du
Livre, 1996.

VAN BEVERWICK, J. Epistolicae questiones cum doctorum


responsis. Rotterdam: Arnoldi Leers, 1644.

VAN HOGELANDE, C. Cogitationes, quibus Dei existentia et animæ


spiritalitas, et possibilis cum corpore unio, demonstrantur :
necnon brevis historia œconomiæ corporis animalis proponitur,
atque mechanique explicatur, Amsterdam, 1646.
Marisa C. de O. F. Donatelli 156

Bibliografia Secundária

AUCANTE, V. “Os médicos e a medicina”. Cadernos de História e


Filosofia da Ciência, Campinas, série 3, v. 8, n.1, 1998, p.59-78.

BERTHIER, Auguste-Georges. “Le mécanisme cartésien et la physilogie


au XVIIe siècle”. Isis, 1920-21, p.21-58.

BLOCH, Ernest. “Die chemischen Theorien bei Descartes un den


Carrtesianern”. Isis. t.1, fasc. 4, 1914, p.590-636.

DIBON, Paul. Regards sur la Hollande du siècle d’or. Napoli: Vivarium,


1990.

SCHAMA, Simon. O desconforto da riqueza: a cultura holandesa na


época de ouro.São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

TATON, René. (dir..). História geral das ciências. São Paulo: Difusão
Européia do Livro, 1960. (t. II, v. 2 e 3)

ZUMTHOR, Paul. A Holanda no tempo de Rembrandt. São Paulo:


Companhia das Letras, 1989.
A teoria da relatividade de Einstein como exemplo de criação
científica1

Michel PATY
Centre National de la Recherche Scienfique (CNRS); Equipe REHSEIS; Université Paris 7;
Departamento de Filosofia/USP

RESUMO: Propomos uma introdução ao tema da “filosofia da criação


científica” tomando o caso da descoberta, ou melhor, da invenção da nova
teoria da relatividade (restrita e geral) por Einstein no inicio do século XX.
Este caso é particularmente adequado para conceber como novas idéias
como estas, que deviam transformar a física, fizeram sua aparição no
campo do conhecimento no decorrer de um processo mental dentro de um
sujeito singular, guiado em suas questões pela preocupação pelo inteligível,
concebido como sendo acessível através da racionalidade. Einstein ele
mesmo estava consciente de que tais processos de formação de formas e
de conteúdos novos de conhecimento correspondem literalmente a
“criações pela mente”, além de, ao mesmo tempo, serem elementos
objetivos de uma representação do mundo. Na sua filosofia do
conhecimento, ele baseava sua concepção da descoberta e da invenção
científica, concebidas como um processo criador, sobre a “livre escolha” de
conceitos e idéias teóricos por parte do pensamento (sua concepção, a este
respeito, era parente daquela do matemático e físico Henri Poincaré). Essa
“liberdade lógica” com relação aos dados factuais se estabelece, na sua
perspectiva, sobre a crítica humeana da indução, sobre a recusa do
empirismo puro e sobre uma concepção da inteligibilidade racional tributária
de Kant, ao mesmo tempo em que sobre a crítica do apriorismo kantiano.
PALAVRAS-CHAVE: criação científica; epistemologia; filosofia; física;
racionalidade; relatividade.

O conhecimento científico é geralmente estudado pelos filósofos através


da consideração (no melhor dos casos) das proposições da ciência
estabelecida, na sua verdade parcial e provisória, no seu valor de verdade pela
sua submissão aos testes experimentais (para as ciências da natureza), na
estrutura das suas teorias, nos conteúdos “semânticos” de seus conceitos…
Raramente, ele é considerado nos processos de sua elaboração, onde ele se
apresenta na diversidade e, muitas vezes, na precariedade e na instabilidade
de suas elaborações. As tendências dominantes da filosofia do século XX

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.

1
Conferência baseada em argumentos apresentados no artigo “A criação científica segundo
Poincaré e Einstein”, tradução de Sérgio Alcides, Estudos Avançados (São Paulo, Br), 15, n°
Michel Paty 158

excluíam de fato a descoberta e a invenção científica do campo legítimo das


investigações da filosofia do conhecimento (veja, em particular, Reichenbach
[1938], Popper [1935, 1972]). Porém, estudos de casos, o testemunho de
alguns cientistas-filósofos do século passado e suas tentativas de auto-analíse
dos seus próprios processos de pensamento, fornecem elementos precisos
que nos permitem enfrentar esta proibição consensual. Tudo mostra, com
efeito, que o pensamento criativo de novas idéias científicas não escapa, numa
parte bem significativa, do campo do pensamento racional. Sem estudar aqui
este problema na sua generalidade (“é possível uma filosofia da criação
científica?”), contentaremos aqui em tomar como estudos de casos dois
momentos de aparição de novos conhecimentos como efeito de criação
científica, casos acerca dos quais existem dados bastante seguros que nos
permitem acompanhar os processos de pensamento e remetê-los a uma
procura de caráter racional: as invenções, pelo físico Albert Einstein, das
teorias da relatividade restrita e geral. Depois da descrição destes casos nítidos
de criação, evocaremos as próprias concepções de Einstein sobre os
processos do pensamento e sobre o problema da criação científica,
considerado filosoficamente. Concluiremos apelando à filosofia para que
retome em toda a sua extensão este tema de tamanha importância, que foi
indevidamente deixado de lado e, com ele, toda uma dimensão fundamental do
pensamento e da atividade científica.

Criação científica ao vivo: Einstein e a teoria da relatividade restrita

Einstein formulou sua teoria da relatividade em dois momentos, que


correspondem a duas formas, a teoria da relatividade restrita, alcançada em
1905 (mas “ruminada” ao longo de quase dez anos), e a teoria da relatividade
geral, cuja primeira idéia lhe ocorreu em 1907, e que foi apresentada em sua
forma acabada em 1915.2 Essas duas etapas de sua teoria, que correspondem

41 (jan-abr.), 2001, 157-192. Reproduzo aqui, para os Anais do Encontro, com algumas
modificações, extratos deste artigo concernentes a Einstein, conforme o título da palestra.
2
Os textos fundadores dessas teorias foram republicados na edição crítica das obras
completas de Einstein atualmente disponível: Einstein [1987-1998], vols. 2, 3, 7. Para uma
A teoria da relatividade de Einstein como exemplo de criação científica 159

de fato a duas teorias distintas, ainda que a segunda possa ser vista como um
prolongamento ou uma radicalização da primeira, constituem invenções
científicas no pleno sentido da expressão. Não pretendemos aqui analisá-las
completamente, enquanto tais, dando conta do processo de sua gênese em
toda a sua complexidade: seria tarefa difícil, quiçá impossível, se a
pretendêssemos; seria exaustiva, e os aspectos psicológicos, em particular,
permaneceriam inacessíveis. Limitar-nos-emos a investigar aí os elementos
significativos da racionalidade própria a esse trabalho do pensamento, bem
como o “salto lógico” que constitui a criação científica3.
A criação, mesmo quando ocorre no domínio científico, transcende a
racionalidade linear tanto quanto a lógica, e mesmo somente a partir dos
pontos de vista filosófico ou epistemológico, não devemos nos ater a estas da
maneira como as poderíamos reconstituir depois – com todos os sedimentos
de interpretações e reestruturações teóricas. O aporte do trabalho de Einstein
nos dois casos era, tal como os problemas que ele estudava, de natureza
racional, como o foi também a sua resposta particular (e o mesmo vale, em
geral, para as invenções científicas de outros pesquisadores). Toda a questão
está em saber se o caminho da criação que vai da formulação do problema até
sua solução é também, e até que ponto, dessa natureza, bem como se é
possível seguir o fio dessa racionalidade.
No que diz respeito à gênese da relatividade restrita, da qual sabemos
ter sido elaborada a partir de dificuldades da teoria eletromagnética, ainda que
seu aporte tenha mais tarde ultrapassado essa teoria em particular, o próprio
Einstein apresentou diversas vezes preciosas indicações, não exaustivas, mas
coerentes entre si. Em suas “Notas autobiográficas”, redigidas em 1946, ele
indica como “na época em que [ele] era estudante, o tema que mais [o]

tradução francesa dos textos principais, ver Einstein [1989-1993], vols. 2, 3. Consulte-se ainda
a correspondência, distribuída em vários volumes dessas edições.
3
Paralelamente ao trabalho de Einstein sobre o que ia ser chamado posteriormente a teoria da
relatividade restrita, assinalamos as contribuições de H.A. Lorenz em 1904 e de H. Poincaré
em 1905, próximas pelos seus resultados do trabalho de Einstein, mas diferentes por varias
implicações fundamentais: em particular as teorias de Lorentz e de Poincaré correspondem a
uma dinâmica electromagnética, e deixam de lado a questão dos conceitos de tempo e espaço
na sua generalidade (não há confronto entre estes conceitos na sua forma na dinâmica
electromagnética e na mecânica clássica). Veja Paty [1993a], chap 2, 3, Paty [1996a, 2005].
Michel Paty 160

fascinava era sem dúvida a teoria de Maxwell”.4 Desde seu segundo ano no
Polytechnicum de Zurique, ele “reencontr[ou] o problema da luz, do éter e do
movimento da Terra”, problema que nunca mais o abandonaria. Também se
sabe, através de outra reminiscência, mais antiga e de difusão restrita (trata-se
de uma conferência pronunciada em 1922, em Kioto, no curso de sua viagem
ao Japão, e só publicada em inglês há bem pouco tempo), como lhe ocorreu a
idéia da teoria da relatividade. “Foi há cerca de dezessete anos”, declarou ele
em 1922, “que a idéia de tentar desenvolver o princípio da relatividade me
ocorreu ao espírito”.5 Essa idéia originou-se “no problema da ótica dos corpos
em movimento”. Tratava-se do problema do éter e da possibilidade de
demonstrar o movimento da Terra com relação a este.
Dispomos, além disso, de alguns raros testemunhos contemporâneos
diretos, através de cartas a amigos guardadas ou redescobertas, que
confirmam essa preocupação: podemos acompanhar nessa correspondência, a
partir de setembro de 1899, a Mileva Maric, sua futura esposa, depois em 1901
a seu colega Marcel Grossmann, em seguida a Michele Besso, o amigo do
Bureau des brevets, o interesse constante de Einstein pelos problemas que o
conduziram à teoria da relatividade restrita em 1905.6 Aludindo mais tarde a
esse período, ele ressaltaria a convicção que tinha na época de que, em face
dos problemas da eletrodinâmica, “somente a descoberta de um princípio
formal para o movimento”, a exemplo da termodinâmica, poderia conduzir “a
resultados seguros”.7
Também sabemos que um fenômeno físico específico tem um lugar
estratégico na reflexão e no encaminhamento das idéias de Einstein: “O
fenômeno da indução eletromagnética me permite formular o postulado de um
princípio de relatividade (restrita)”.8 A importância desse fenômeno em seu
pensamento é confirmada por outros textos:9 ele constitui uma espécie de

4
Einstein [1946], p. 32. Ela devia seu caráter revolucionário, comenta Einstein, ao fato de fazer
a passagem da idéia de ação à distância à de campo.
5
Einstein [1922].
6
Einstein [1987-1998], vol. 1, Einstein & Besso [1979]. Cf. Paty [1993a], cap. 2.
7
Einstein [1946], grifo meu, M. P.
8
Einstein [1946], grifo meu, M. P.
9
Em particular o manuscrito Einstein [1920]. Para uma análise correspondente, ver Paty
[1993a], capítulos 2 e 3.
A teoria da relatividade de Einstein como exemplo de criação científica 161

arquétipo da relação entre os fenômenos eletromagnéticos e a relatividade dos


movimentos. Em resumo, o campo magnético e o campo elétrico exercem um
sobre o outro uma ação recíproca cujo efeito resultante é sempre o mesmo,
não importando qual dos dois é posto em movimento e qual permanece em
repouso. No entanto, observou Einstein, a teoria eletromagnética então
disponível – a de Maxwell e Lorenz – explicava o surgimento de uma corrente
no circuito eletromagnético fechado por dois processos diferentes segundo
cada um dos casos: o éter em repouso absoluto, lugar e apoio suposto desses
campos, introduzia de fato uma assimetria na natureza dos fenômenos
(indução magnética num caso, força eletromotriz no outro).
“A idéia de que estivessem em jogo dois casos essencialmente distintos
era para mim insuportável”, escreveu Einstein:10 não podia ser senão uma
diferença de pontos de vista, e não uma diferença real. A seus olhos, a teoria
tratava de fenômenos físicos reais, e não deveria partir de um ponto de vista
particular sobre eles. Sua formulação do problema teórico estava, portanto,
orientada por um programa de objetividade que, num certo sentido,
sobredeterminava o seu pensamento físico em relação a uma simples
preocupação com os dados empíricos e as equações (quer dizer, com aquilo
que hoje é freqüentemente chamado de uma modelização). Mas nem por isso
ela deixava de pertencer ao campo da racionalidade. O confronto entre a
exigência metateórica (que, de fato, entranha a sua concepção mesma da
teoria) e o estado de coisas encontrado fazia com que ele assim explicitasse
duas idéias teóricas correlatas e expusesse o seu caráter fundamental: o de
um princípio de relatividade estendido da mecânica ao eletromagnetismo, e o
de uma invariabilidade das leis dos movimentos relativos. Não se nota aqui
nada além de uma linha de raciocínio conscientemente percorrida, que
estabelece as condições de uma formulação particular – original – das
dificuldades da teoria eletromagnética:11 a saber, em final de contas, o
confronto entre duas proposições físicas de cunho teórico tomadas como
princípios: o princípio da relatividade e o da constância da velocidade da luz

10
Einstein [1946].
11
Sobre o que está epistemologicamente subjacente à formulação de uma “dificuldade” (e não,
por exemplo, uma “anomalia”), ver Paty [1993a, 1996b].
Michel Paty 162

(expressão, para Einstein, daquilo que a teoria eletromagnética de Maxwell tem


de mais fundamental).
Do confronto das duas proposições surgiu a solução, que consiste em
reformar o espaço e o tempo. O fio de uma racionalidade direta já não parece
suficiente, aqui, para guiar sozinho o movimento do pensamento: a dificuldade
era de fato um obstáculo real, que demandava, para que se seguisse adiante,
um verdadeiro salto conceitual. Einstein nada mais nos disse a esse respeito, e
sem dúvida não teria sabido reproduzir exatamente a seqüência de reflexões
que acompanhou a tomada de consciência da dificuldade. Não conhecemos
senão o momento da saída: o espaço e o tempo, que servem para exprimir os
fenômenos físicos e os movimentos dos corpos, deviam ser concebidos como
grandezas plenamente físicas, portanto submetidas elas mesmas aos dois
princípios, o que deveria conduzir à mudança da sua definição.
Como a reflexão de Einstein passou do enunciado da dificuldade a uma
tal solução, que corresponde, de fato, à inversão do problema? Deixando de
considerar os dois princípios como irreconciliáveis (a velocidade da luz,
enquanto estremecimento do éter, não poderia ser a mesma em todos os
referenciais de inércia, o que contrariava o princípio da relatividade), ele os
admitiu como fundamentais e reconstruiu sobre eles toda a física. Ou melhor,
toda a teoria do movimento enquanto tal, ou seja, toda a cinemática, e as
modificações da física propriamente dita (pois não se tratava nesse momento
de uma reconstrução, mas de um ajuste) viriam em seguida.
É que os dois princípios irreconciliáveis não estavam sozinhos, mas
constituíam um complexo conceitual com as propriedades que os
acompanhavam. O obstáculo que se erguia perante o pensamento pode ser
visto como um nó de conceitos imbricados, no qual nada permite à primeira
vista a identificação dos fios que possibilitam a resolução do novelo
embaraçado. Somente um tipo de apreensão sintética imediata, mais intuitiva
do que analítica, deu a ver, de súbito, depois de várias semanas de esforços
infrutíferos, uma via de saída, os fios a serem puxados.
Entre as propriedades que sustentavam os dois princípios, uma saltou à
vista, proposição implícita que os estreitava. Einstein a indica em suas
retrospectivas: era a regra de adição galileana das velocidades. A partir daí,
A teoria da relatividade de Einstein como exemplo de criação científica 163

não havia mais apenas duas, e sim três proposições que, tomadas em
conjunto, eram irreconciliáveis. Tal foi o fio que permitiu o desfecho: se fosse
suprimida a regra das velocidades, os dois princípios poderiam ser conciliados,
mediante uma outra regra de composição a ser buscada. Era preciso ter a idéia
mencionada acima da inversão de perspectiva teórica, e também pensar no
espaço e no tempo como grandezas físicas, contrariamente a suas definições
absolutas admitidas por Newton. Eis aí toda uma rede de reflexões, incluindo a
crítica dos conceitos físicos (e a influência, entre outras, da análise de Mach),
que deve ter tido um papel relevante, por meio de um apelo sintético da
intuição. No trabalho teórico sobre essas grandezas, uma vez ultrapassado o
obstáculo, o lugar ocupado pela questão da simultaneidade e pela crítica de
seu caráter absoluto é revelador da complexidade dessas noções em conjunto,
ligando-se além disso à tomada de consciência da impossibilidade de ações
instantâneas à distância.
Podemos identificar com bastante precisão o que foi, em Einstein, o
momento da invenção de sua solução (solução da dificuldade identificada), que
determinou sua descoberta da teoria da relatividade. Esta comporta, a partir da
ordenação das relações entre os conceitos físicos, e em primeiro lugar entre os
espaços e os tempos, uma parte de dedução (as equações de transformação
que fazem a passagem de um referencial de inércia a outro), depois do
momento de intuição sintética que abriu o caminho, e a reconstrução das
grandezas no percurso desse caminho a partir de então balizado.
Mas onde se situa o ato propriamente criador? Bem se nota que ele
caracteriza todo o movimento do pensamento, desde a própria fixação de um
alvo para si, pela escolha de suas próprias razões, através de uma formulação
dos problemas condicionada por uma certa exigência de inteligibilidade, depois
a identificação das dificuldades a superar, em seguida a formulação de um
princípio de uma solução, até as modalidades do trabalho mais comum (no que
ele tem de essencialmente demonstrativo e dedutivo) de estabelecimento das
relações de grandezas que são o corpo da teoria. Esse trabalho de criação se
utiliza do raciocínio (que não encerra apenas dedução, mas é também
construtivo ao constituir os objetos) tanto quanto da intuição, termo pelo qual
designamos aqui uma percepção (intelectual) sintética de um complexo de
Michel Paty 164

conceitos. Acrescentemos ainda que o raciocínio, mais explícito, e a intuição,


concebida neste sentido, não são dois modos de pensamento em oposição, já
que na escolha de seus caminhos o raciocínio é freqüentemente guiado pela
intuição (o que é evidente no caso aqui estudado).

Os atos criadores da teoria da relatividade geral.

Pode-se seguir de maneira semelhante a gênese, no pensamento de


Einstein, da teoria da relatividade geral como extensão do princípio da
relatividade e generalização da teoria da relatividade restrita a quaisquer
movimentos. A constituição de tal teoria também comporta diversas fases, que
podemos retraçar mais facilmente que no caso anterior. Cada uma delas foi
pontuada por publicações importantes, e as reflexões e as observações do
autor que acompanhavam seu andamento ou dele faziam a retrospectiva, em
número bem maior, esclarecem certos aspectos característicos de seu
trabalho, em particular as suas intenções programáticas.
Mas tampouco aí isto significaria que uma reconstituição completa seja
possível. Se um fio de racionalidade clara corre ao longo do trabalho de
elaboração dessa teoria de um novo gênero (uma teoria das invariâncias
conducente a uma espécie de geometria da gravitação), ele se perde em
diversas retomadas nos nós complexos que somente uma intuição de gênio e a
aquisição de uma habilidade no manejo do formalismo matemático poderiam
resolver. A criação, talvez aqui mais do que em qualquer outro caso, torna-se
manifesta, e Einstein tinha plena consciência disto.
A consciência desse salto explícito do pensamento criador para edificar,
do início até o fim (ou quase isso) uma teoria física que parecia então
radicalmente nova foi fundamental para seu pensamento físico e
epistemológico. Esta consciência radicalizou sua concepção da natureza do
trabalho teórico e reorientou em parte sua maneira de abordar os problemas
físicos, modificando sua concepção do papel da matemática. Este exprimia a
partir de então melhor que tudo, a seu ver, o salto criador necessário à
representação teórica da realidade física. “É na matemática que reside o
A teoria da relatividade de Einstein como exemplo de criação científica 165

princípio criador” – chegou ele a escrever, a esse propósito.12 No entanto, esta


fase, cujo sentido não nos deve iludir (o trabalho matemático permite realizar
uma demanda física),13 foi precedida por outras, em que a inteligência criadora
se apoiava, mais classicamente, como a anterior, sobre um pensamento dos
fenômenos, de seus principios e conceitos.
Na origem da teoria da relatividade geral, encontravam-se duas
considerações de natureza conceitual, ambas ligadas com uma crítica da
inércia, propriedade fundamental dos corpos materiais e de seu movimento. A
primeira concernia a natureza dos referenciais de inércia, animados por
movimentos retilíneos e uniformes uns em relação aos outros, aos quais
apenas se aplicava o princípio de relatividade da primeira teoria (relatividade
restrita aos movimentos inerciais). A escolha desse tipo de movimento é
arbitrária, observou Einstein, porque nós é que escolhemos os movimentos
inerciais dentre todos aqueles que existem na natureza. Reencontra-se aqui a
exigência de objetividade para as teorias: com essa diferença frente à anterior
(a indução eletromagnética no caso da relatividade restrita), sem o apoio de
qualquer evidência dada pelos fenômenos. Para Einstein, ela não deixava de
corresponder a uma exigência fundamental, filosófica, sobre a natureza e sua
representação. Seguia-se daí a necessidade de estender o princípio de
relatividade a quaisquer movimentos, superando o “privilégio” concedido aos
movimentos inerciais.
A outra consideração, formulada ao mesmo tempo que a primeira,
tratava do conceito de massa inercial, que caracteriza, de fato, tal como a
relatividade restrita o estabelecia, não somente os corpos mas também as
trocas de energia: apesar de o laço que estabelece entre a energia e a inércia,
a teoria da relatividade restrita se calava acerca da relação entre a inércia e o
peso. O efeito desse questionamento foi a formulação do princípio da igualdade
da massa inercial e da massa gravitacional (o “princípio de equivalência”).
Na gênese das idéias de Einstein, esta segunda razão parece ter sido a
que mais suscitou a sua reflexão, fazendo com que ele tomasse consciência do

12
Einstein [1933].
13
Ver Paty [1993a], capítulo 5.
Michel Paty 166

caráter imperativo da primeira (todos os fenômenos podiam ser tratados no


quadro da relatividade restrita, exceto a gravitação, devido à sua ligação com
os movimentos acelerados). Ela se traduzia para ele numa “experiência de
pensamento” (“Gedenkenexperiment”), que ele próprio qualificou mais tarde
como “o pensamento mais feliz da [sua] vida”, resumido na seguinte frase: “Se
alguém cai num movimento de queda livre, ele não sente o próprio peso”.14
Isso eqüivale a transcrever a igualdade (a identidade) da massa inercial e da
massa gravitacional numa equivalência entre um campo de gravidade, ou de
gravitação, homogêneo, e um movimento uniformemente acelerado. Einstein
assim se dava conta de que não se tratava tanto de incorporar o campo de
gravitação à teoria da relatividade (restrita), mas sobretudo de utilizá-lo como
meio de ultrapassar a covariância privilegiada dos movimentos inerciais,
generalizando-a a todos os tipos de movimentos. Ele esperava que tal
generalização lhe “fornecesse de um só golpe a solução do problema da
gravitação”.15 A essência da teoria da relatividade geral se encontrava,
portanto, nesse pensamento, e o artigo de 1907 esboçava, em conclusão ao
que fora exposto da teoria da relatividade restrita, o programa de sua pesquisa
nessa direção.
É possível seguir quase que passo a passo seus esforços para realizar
esse projeto até a instauração da teoria da relatividade geral no final do ano de
1915.16 Mencionemos aqui apenas, ainda que não o possamos detalhar, o
primeiro “momento matemático” da invenção, que data de 1912: Einstein
percebia então a insuficiência do espaço euclidiano e a necessidade de uma
formalização matemática do problema da covariância geral sobre o modo do
espaço-tempo (relativista) de Minkowski, estendido com a ajuda do cálculo
tensorial absoluto de Ricci e Levi-Civitta.17 Era-lhe agora necessário “criar pela
matemática”,18 chegando às equações que em todos os pontos do espaço-

14
Einstein [1922, 1946]. Esse pensamento lhe ocorreu em novembro de 1907, segundo
Abraham Pais (Pais [1982], p. 178).
15
Einstein [1946].
16
Ver Pais [1981], e a coleção Einstein Studies, organizada por Don Howard e John Stachel
(em particular Howard & Stachel [1989], Eisenstaedt & Kox [1992]).
17
Ver Paty [1993a], capítulo 5.
18
Ver acima.
A teoria da relatividade de Einstein como exemplo de criação científica 167

tempo apresentavam a métrica não-euclidiana em função do campo de


gravitação nesse ponto.

Reflexões de Einstein sobre o pensamento e sobre a criação científica

Einstein concebia a experiência da criação científica como uma forma


particular da experiência mais geral do pensamento. Segundo ele, o ato de
“pensar” põe em jogo, além das imagens resultantes das impressões dos
sentidos, os conceitos, “todo o nosso pensamento [sendo] um jogo livre com os
conceitos”.19 Entretanto, embora o pensamento de um indivíduo se forme
graças ao aprendizado e ao uso social das palavras,20 ele julgava, por
experiência própria, que o pensamento conceitual “se desenrola em larga
medida sem fazer uso de signos (palavras)”. E também considerava, em
consonância com o que dizia Poincaré sobre a invenção científica, que ele se
efetua “de fato, num grau elevado, de maneira inconsciente”.21
Além disso, ele ligava o pensamento científico, seja em se tratando de
sua formação no indivíduo ou da criação, à experiência do espanto, tal como
ele relata ter experimentado na infância, aos quatro ou cinco anos de idade, ao
ver girar a agulha de uma bússola; ou ainda, mais tarde, ao descobrir num livro
as demonstrações da geometria de Euclides.22 O filósofo Baruch de Espinosa,
cerca de três séculos antes, tivera uma experiência semelhante de iluminação
de sua inteligência a propósito da média proporcional.23
A experiência do conhecimento, para Einstein, era ao mesmo tempo a
da aquisição da intuição:24 a intuição física para aquilo que lhe dizia respeito,
que constituía o que ele ainda denominava seu “instinto científico”, que ele
evocava freqüentemente a propósito do sentido de tal conceito, assim como a
propósito dos debates sobre a direção que deveria tomar, a seus olhos, a teoria
física. Essa intuição, à qual ele requeria, desde seus anos de estudante, que
“distinguisse claramente o que é importante do ponto de vista fundamental, por

19
Einstein [1946], p. 6-7.
20
Einstein [1941].
21
Einstein [1946], p. 6-7.
22
Ibid., p. 8-11.
23
Ver o seu Breve tratado (Espinosa [1656]). Cf. Paty [1986], p. 294.
Michel Paty 168

meio do que se pode assegurar as bases, daquele resto de erudição mais ou


menos supérflua”, opera na racionalidade, no estágio da invenção como no da
avaliação e no da crítica (por exemplo, sobre a física quântica).25 Em todo
caso, antes da análise vem o estágio da invenção propriamente dita, onde a
intuição desempenha o papel principal.
Trabalhar com as idéias é sempre, para Einstein, trabalhar com a
racionalidade. Não se pode, no entanto, fazer da intuição, e da invenção na
qual desempenha um papel tão grande, uma descrição normativa: ela advém
da experiência singular, e se liga à atividade mental em geral. É uma visão
imediata, a partir da qual se pode reconstituir logicamente as razões, mas que
repousa sobre as experiências anteriores do pensamento, e os processos
mentais relativos à atenção a um problema seguem geralmente um caminho
indireto.26 Sua experiência, acima evocada, mostra que o importante, neste
sentido, é estar impregnado da consideração do problema, tê-lo volvido e
revolvido até chegar a uma formulação racional que porte em si a virtualidade
da solução.
Pois o pensamento é guiado por uma certa maneira de dispor seus
elementos de informação: chegar à solução de um problema é formar uma
imagem clara ao final do processo, escolhendo entre os elementos deixando-se
guiar pela intuição. Vale o mesmo para os conceitos, que fazem o pensamento,
e a partir dos quais se forma uma representação inteligível do mundo, e para
as palavras da linguagem: tais signos são ligados às impressões sensíveis por
certas regras, segundo uma correspondência relativamente estável.27 Na
ciência, o sistema de conceitos que visa a uma representação das experiências
dos sentidos é, “no que concerne à lógica”, “um jogo livre com os símbolos
segundo as regras do jogo dadas arbitrariamente (quanto à lógica)”. O mesmo
se pode dizer também sobre o “pensamento de todos os dias”.28

24
Em alemão, “Einfuhlung”. Einstein [1946c], p. 14-15.
25
Paty [1994, a sair].
26
Ver, para indicações detalhadas, Paty [1993]. p. 383.
27
Einstein [1936, 1941].
28
Einstein [1944]. Ver a observação antes feita, no mesmo sentido, por Helmholtz, em texto de
1894 sobre “A origem e a interpretação correta das impressões dos nossos sentidos”: “As
imagens memorizadas das impressões dos sentidos podem tornar-se elementos na
A teoria da relatividade de Einstein como exemplo de criação científica 169

A experiência do pensamento dos conceitos, em particular do


pensamento científico, faz intervir um pensamento ao mesmo tempo consciente
e semiconsciente, para o qual o conceito funciona como um signo particular,
sem se identificar a uma palavra. “Não é necessário”, indica Einstein, “que um
conceito seja relacionado a um signo (uma palavra) perceptível pelos sentidos
e reprodutível; mas quando é o caso, o pensamento se torna comunicável”.
Para ele, o “pensamento se desenrola em larga medida sem fazer uso de
signos (palavras), de fato, num grau elevado, de maneira inconsciente”.29
Analisando seu próprio caso, ele assinalou, ao responder ao
questionário de Jacques Hadamard sobre “a psicologia da invenção no domínio
matemático”,30 que “as palavras e a linguagem, escritas ou faladas, não
parecem desempenhar o menor papel no mecanismo do meu pensamento”.31
Sobre o funcionamento deste, ele ofereceu então as seguintes informações:
“As entidades psíquicas que servem de elementos ao pensamento são certos
signos ou imagens mais ou menos claras, que podem ser reproduzidas e
combinadas ‘à vontade’”, e que estão em relação com conceitos lógicos do
problema posto. A atividade mental, o “jogo bastante vago” sobre esses
elementos ou signos (que, no caso, são “de tipo visual e às vezes motor”), é
sustentada emocionalmente pelo “desejo de enfim atingir os conceitos
logicamente relacionados”, e o jogo sobre os elementos em questão “visa ser
análogo a certas conexões lógicas que estamos pesquisando”. Somente num
estágio secundário, quando as associações encontradas entre os elementos
são bastante estáveis e podem ser reproduzidas à vontade, partimos “a custo”
em busca “de palavras ou outros signos convencionais” que possam exprimir a
solução nos termos do problema.32
O lingüista Roman Jakobson assinalou a concordância entre a descrição
feita por Einstein do gênero dos signos que entram no processo de
pensamento e aquela que ele mesmo poderia propor, a saber, que “os signos

combinação de idéias, embora tais impressões não possam ser descritas pelas palavras, e
portanto conceitualizadas” (ver Helmholtz [1971]).
29
Einstein [1946].
30
Hadamard [1945].
31
Einstein [1945].
32
Einstein [1945].
Michel Paty 170

são um apoio necessário do pensamento”, e que “o pensamento interior,


sobretudo quando é criador, prefere [à linguagem comum] os sistemas de
signos que são mais flexíveis, menos padronizados do que a linguagem e que
dão mais liberdade e dinamismo ao pensamento criador”.33

Outros elementos sobre o tema filosófico da criação científica

O tema da criação científica, tal como o encontramos na experiência


vivida de cientistas que também foram filósofos como Einstein (e como
Poincaré), parece ligado, portanto, de um lado a processos de pensamento em
que a racionalidade, mesmo se não for total, permanece essencial e passível
de ser apreendida em diversas seqüências, entre uma problematização inicial e
a obtenção de resultados e, de outro lado, a problemas epistemológicos
fundamentais sobre a constituição e a natureza do conhecimento científico. É
assim natural que esse tema pertença de direito ao domínio da investigação
filosófica e que não possamos nos contentar em remetê-lo à psicologia ou ao
estabelecimento de consensos sociais cristalizados em “paradigmas”.
Sobre o primeiro aspecto, mesmo nos momentos em que o fio de um
raciocínio não se deixa ver, e quando ele se perde nos nós complexos que o
pensamento parece vencer a saltos, tudo indica que a atividade inconsciente
do espírito é dirigida por uma atenção, um esforço, uma vontade.
Poincaré atribuía ao inconsciente a tarefa de estabelecer as
combinações de idéias que são úteis, por eliminação e por escolha.34
O matemático Jacques Hadamard retomando, no seu livro sobre a
“psicologia da invenção” no campo da matemática, uma comparação feita por
Poincaré entre as idéias elementares se choqueando dentro da mente e os
átomos entregues ao acaso, imaginou o espírito, em sua primeira reflexão
sobre um problema, discutindo os elementos de idéias, e estes últimos, no
período inconsciente, continuando seu percurso de maneira desordenada :
“Essa desordem pode ter grande valor, porque os raros confrontos que são
úteis, sendo de natureza excepcional e produzindo-se entre idéias que são

33
Jakobson [1980].
34
Poincaré [1908c], in [1908a] ed. 1918.
A teoria da relatividade de Einstein como exemplo de criação científica 171

muito afastadas, serão provavelmente os mais importantes”.35 É uma imagem


que se aproxima da idéia de parentescos profundos, mas não aparentes, entre
elementos conceituais distanciados, que recobrem as analogias matemáticas
no sentido desenvolvido em varias oportunidades por Poincaré. Elas serão aqui
apreendidas em seu próprio movimento. A elegância matemática é a forma
daquilo que dá, nos termos de Poincaré, a “harmonia” e a “beleza intelectual”,36
que correspondem à instantaneidade da evidência, à qual se liga, afinal, para
Poincaré bem como para Einstein, assim como para Descartes três séculos
atrás,37 a inteligibilidade.
Os psicólogos Paul Souriau e F. Paulhan, que se interessaram pela
invenção, citados por Hadamard, defendiam a esse respeito pontos de vista
contrários: Souriau considerava que ela se produzia por acaso,38 enquanto
Paulhan nela via, mais classicamente, o efeito da reflexão.39 Para Hadamard, a
atividade mental inconsciente, a seu ver essencial para o processo, não se
efetua de modo algum por acaso: “A descoberta”, escreveu ele, “depende
necessariamente da ação preliminar mais ou menos intensa do consciente”,
assinalando o que Poincaré tinha dito sobre a ação diretora da consciência
sobre o inconsciente, definindo “mais ou menos a direção geral na qual o
inconsciente deve trabalhar”.40
Essa diretividade do consciente sobre o inconsciente é traçada por
outros filósofos nos termos mais precisos de um tipo de esquema geral dos
processos do pensamento. Théodore Ribot propunha uma espécie de
algebrização dos signos mentais em função do problema considerado em seus
termos racionais: resolve-se um problema supondo-o já resolvido, e busca-se
qual é a combinação de elementos que permite a solução: chega-se primeiro
ao resultado, depois volta-se atrás para estabelecer o fio que a ele conduziu.41
Retomando essa idéia em sua reflexão sobre o “esforço intelectual”, Bergson
acrescentou que “o todo se apresenta como um esquema”, e “a invenção

35
Hadamard [1945], ed. francesa, p. 52-53.
36
“Le choix des faits”, in Poincaré [1908a], ed., 1918, p. 15-17.
37
Paty, [no prelo, a].
38
Souriau [1881].
39
Paulhan [1904]
40
Hadamard [1945].
Michel Paty 172

consiste precisamente em converter o esquema em imagem”, e a imagem


contém “os meios pelos quais o efeito foi atingido”.42 Transcrevendo nesses
conceitos a observação do psicólogo Paulhan43 de que a invenção literária e
poética vai “do abstrato ao concreto”, Bergson escreveu que a invenção,
artística ou científica, vai “do todo às partes e do esquema à imagem”.
Para Bergson, o esforço mental supõe “elementos intelectuais em vias
de organização”, com uma tendência ao “monoideísmo”, que é um estado
característico da atenção: a unidade (mas não a simplicidade) assim traçada é
a de uma “idéia diretriz comum a um grande número de elementos
organizados”. Ele acrescenta: “é a própria unidade da vida”. Esse esforço
intelectual sobre as imagens que não têm em entre si senão “semelhança
interior”, como uma “identidade de significação”,44 lembra as analogias
matemáticas de Poincaré.
Num sentido bem parecido, Emile Meyerson se interrogava sobre os
esquemas que a razão segue ao constituir as imagens da realidade, tais como,
por exemplo, as da física, ou pelo menos sobre as “tendências a que o espírito
do pesquisador obedece”, e que “a razão procura fazer com que
prevaleçam...”45 Ele relacionava sua enquete à insuficiência das concepções
apriorística e empirista no que concerne à aquisição das ciências, em particular
da matemática, e ao conhecimento dos “verdadeiros domínios da reflexão
matemática”. Se ele os via, por sua vez, num movimento do diverso em direção
ao idêntico, isso não representa uma reconstituição ou uma redução às formas
da racionalidade que nos parecem familiares com a ciência atual, e seu
propósito de interrogar as formas históricas do conhecimento era similar, para
ele, ao dos antropólogos que se preocupam em compreender a lógica própria
da “mentalidade primitiva” (como os esquemas de participação de Lévy-
Bruhl).46 Sob a diversidade das formas de raciocínio ele descobria um esquema

41
Ribot [1900].
42
Bergson [1919], in [1959], p. 947.
43
Paulhan [1901].
44
Bergson [1919], in [1959], p. 958.
45
Meyerson [1931], vol. 1, p. xix. Ver Meyerson [1921].
46
Meyerson [1931], vol. 1, p. 81.
A teoria da relatividade de Einstein como exemplo de criação científica 173

comum a qualquer pensamento humano. Seja qual for a teoria envolvida, o


problema assim abordado fica posto.
As descrições dos filósofos mencionados – e singularmente as de
Bergson – tendem então igualmente a mostrar a importância epistemológica
dos processos do pensamento criador. (Não menciono aqui, referindo a outro
trabalho, as concepções dos filósofos empiristas e pragmaticos como Ernst
Mach, Charles S. Peirce e William James, que contribuem a questão da
criação, porém obviamente sem referência forte a racionalidade, e num cunho
essencialmente psicológico47). Afinal de contas, é por meio de tais criações que
os objetos do pensamento são postos, como representações do mundo, por
mais provisórias que sejam, e é também por isso que a ciência existe. Parece
claro, deste modo, que não basta analisar as formas sob as quais ela é
comunicada e ratificada, mas que também importa saber como os elementos
do conhecimento surgem com a novidade daquilo que, até então inexistente, é,
num certo momento, inventado e criado.

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Fisicalismo redutivo e sondas epistemológicas

Osvaldo Pessoa Jr.


Departamento de Filosofia/USP

Resumo: A partir de uma metafísica naturalista, examina-se a questão de


como exprimir o fisicalismo redutivo, que é distinguido de teses
concernentes a um reducionismo teórico. Isso é feito a partir de uma “sonda
epistemológica”, um observador abstrato com propriedades bem definidas.
Para caracterizar diferentes afirmações do fisicalismo, define-se um
“demônio escalar”. Exploram-se também possíveis simetrias entre espaço,
tempo e escala. A abordagem alternativa do “método das cópias” também é
apresentada.
Palavras-chave: fisicalismo, naturalismo, emergência, escala, redução,
realismo

1. Introdução Terminológica: Fisicalismo

O materialismo é a tradição segundo a qual tudo que existe são


entidades materiais. Concebe-se que a matéria é desprovida de alma ou de
uma racionalidade intrínseca. Além disso, não haveria uma finalidade ou
propósito na natureza. Isso resulta numa valorização da causação eficiente, e
na concepção de mundo conhecida como “mecanicismo”, cujas nuanças
iremos evitar. Dois grandes problemas do materialismo, desde sua origem
entre os atomistas gregos, têm sido explicar a perfeição da vida e explicar a
alma (Lange, 1875).
Hoje em dia, a tradição materialista desembocou no que tem sido
chamado fisicalismo, ou mais precisamente “fisicalismo realista”. Isso porque a
física contemporânea se funda não só no conceito de matéria, mas também em
conceitos como energia, entropia, campos, etc. Há inclusive versões do
fisicalismo realista que não são materialistas, como o energeticismo do séc.
XIX, que considera que o que chamamos matéria é fundamentalmente uma
forma de energia.
Por “realismo” entendem-se visões de mundo que postulam teses a

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
Osvaldo Pessoa Jr. 180

respeito da realidade, independentemente da presença ou não de um


observador. Na passagem para o séc. XX, o materialismo, que fora reanimado
pelos avanços na fisiologia e na biologia evolutiva, passou a ser ofuscado pela
postura “descritivista” da tradição positivista, que considera que a ciência só
deve atribuir realidade para aquilo que é observável. A questão sobre a
natureza última da realidade, questão própria de uma metafísica da natureza,
não teria importância dentro da tradição positivista.1
Um termo que pode ser usado para englobar tanto os fisicalistas quanto
parte dos sensacionistas, como Hume, é naturalismo. Esta é uma atitude de
valorização da nossa experiência, que se referiria a um mundo que possui uma
certa unidade e segue leis, e não sofre ingerências de entidades
antropomórficas como almas voluntariosas. É uma atitude que valoriza o
conhecimento científico contemporâneo, levando em conta, por exemplo, os
resultados da psicologia ao estudar problemas filosóficos (Lacey, 1995). O
naturalismo é consistente com o ateísmo, o agnosticismo, o panteísmo (Deus
se identificado com essa natureza) e com o deísmo (Deus não interfere na
natureza). Uma metafísica naturalista buscaria entender a constituição do
sujeito epistemológico a partir da natureza, opondo-se (mas sem
necessariamente excluir) a uma metafísica do sujeito, que se fundamenta em
intuições primeiras.

2. Reducionismo

Para o fisicalismo realista, um ser humano é basicamente um


amontoado de moléculas, organizadas de maneira complexa, e interagindo
com um ambiente complicado. Mas o termo “basicamente” esconde uma
ambigüidade. Será que somos “apenas” isso? O “fisicalismo emergentista” vai
dizer que não: além de sermos feitos de moléculas, há propriedades novas que

1
Dentro do movimento do positivismo lógico, buscou-se inicialmente reconstruir a ciência a
partir de uma linguagem “fenomênica”, referente apenas às observações ou dados sensoriais
(“sensacionismo”), mas depois considerou-se aceitável utilizar uma linguagem que se refira a
coisas e a suas propriedades, linguagem essa que se chamou “fisicalista”. Esta acepção do
termo fisicalismo é um tanto diferente da anterior, e poderia ser nomeada “fisicalismo
descritivista”. Ela introduz uma tese metafísica mínima, a de que os objetos do mundo se
Fisicalismo redutivo e sondas epistemológicas 181

emergem da complexidade, como a vida e a consciência, que vão além das


possibilidades de compreensão da físico-química. Tais propriedades não
seriam redutíveis às propriedades das ciências físicas, e mesmo aspectos de
nossa consciência não seriam redutíveis às leis da biologia. Mas o que significa
“ser redutível”?
Existem vários usos do termo “reducionismo”. Em geral, designa a
situação em que um domínio de fenômenos pode ser assimilado a um outro
domínio aparentemente distinto (Dupré, 2000). A epistemologia dos positivistas
lógicos buscava a “redução” de todas as proposições significativas a relatos de
observações. Outro exemplo, no início do séc. XX, foi o projeto de “reduzir” a
matemática à lógica. E na física, fala-se por exemplo em “reduzir” as leis dos
gases às leis que regem os choques entre moléculas.
Em todos esses exemplos, o reducionismo é tomado como uma relação
entre proposições lingüísticas, entre teorias, e não entre entidades reais.
Reservemos pois o termo “fisicalismo” (dentro da concepção realista) para nos
referirmos à realidade, às coisas-em-si, aos entes do mundo, independente da
existência de seres humanos. Nesse sentido, estaria no domínio “ôntico”, que
se distingue do propriamente “ontológico” (segundo a acepção de Heidegger,
1971, nota 14, p. 76).
Retomemos o exemplo da física, que é um exemplo prototípico de
redução: a “micro-redução” da termodinâmica à mecânica estatística. O
conceito de temperatura, no nível macroscópico, seria redutível ao de energia
cinética de moléculas, no nível microscópico, de tal forma que leis
macroscópicas, como a equação dos gases, poderiam ser deduzidas de leis
microscópicas (Nagel, 1961, pp. 338-45). Nos exemplos de micro-redução, em
geral há muitos micro-estados que correspondem a um único macro-estado. O
termo “estado” é antes de tudo uma construção teórica, e nesta acepção o
termo “redução” se aplica. Porém, quando se quer exprimir a situação que
ocorre de fato no mundo (no nível ôntico), fala-se em diferentes realizações

comportam como coisas, ou seja, como objetos da física clássica (tese desafiada pela física
quântica).
Osvaldo Pessoa Jr. 182

físicas (microscópicas) do (referente do) macro-estado (ver por exemplo Kim,


1998, p. 19).2

3. Ontologia Geral

A distinção terminológica entre ontológico e ôntico pressupõe uma


postura realista. A atitude “descritivista” de um positivista identificaria esses
dois domínios. Aceitando a distinção, o problema que surge é como seria
possível fazer referência ao ôntico sem pressupor uma visão de mundo ou uma
teoria (em termos das quais a referência seria “ontológica”). Como falar sobre a
coisa-em-si?
Uma solução é admitir que nada pode se falar sobre o ôntico, mas, para
todos os efeitos, colocar em seu lugar uma ontologia geral que seja consistente
com as ontologias particulares das teoria físicas contemporâneas. O
fisicalismo, então, referir-se-ia a esta ontologia geral, ao passo que
considerações sobre reducionismo fariam referência explícita a ontologias de
teorias científicas particulares.
Como então construir uma ontologia geral, esse “simulacro do ôntico”?
Não podemos simplesmente importar a ontologia de nossas melhores teorias
científicas porque não há um consenso sobre qual seja tal ontologia. Apesar de
as teorias físicas contemporâneas terem comprovado sucesso prático, há uma
subdeterminação das interpretações ontológicas dessas teorias com relação às
próprias teorias. Por exemplo, a física quântica admite um interpretação realista

2
O exemplo que acabamos de ver pode ser classificado como um exemplo de reducionismo
teórico ou entre teorias (SEARLE, 1997, p. 165; RUSE, 1995, p. 750): as leis e fenômenos
descritos segundo uma teoria científica (como a termodinâmica) seriam explicáveis em termos
de outra teoria (a mecânica estatística). Neste procedimento de redução, no entanto, afirma-se
a identidade entre entidades de uma teoria e outra (no exemplo visto, entre temperatura e
energia cinética média). Nesse sentido, alguns caracterizam tal procedimento como um
reducionismo ontológico (Horgan, 1995): a tese de que as entidades, os tipos, as propriedades,
os fatos postulados por uma teoria científica são idênticos a entidades de uma outra teoria.
SEARLE (1997, p. 164), em sua classificação de cinco sentidos do termo “redução”, reserva o
termo “redução ontológica de propriedades”. O que ele chama de “redução ontológica” (assim
como RUSE, 1995), por exemplo a tese de que “cadeiras são nada exceto coleções de
moléculas”, parece recair mais no domínio ôntico, de forma que reservaremos o termo
fisicalismo redutivo para esta tese. Outro sentido importante do reducionismo, na ciência, é o
reducionismo metodológico: independente de se de fato é possível efetuar um reducionismo
ontológico detalhado, por exemplo entre processos psicológicos e neurológicos, a tese
Fisicalismo redutivo e sondas epistemológicas 183

ondulatória, em que as entidades fundamentais são ondas, mas também uma


interpretação realista dualista, em que as entidades fundamentais são ondas e
partículas (sem falar da interpretação positivista, que associa quadros
ontológicos sem comprometimento com sua existência) (ver Pessoa, 2005).
Qual seria então a ontologia geral a ser adotada em discussões sobre o
fisicalismo?
A descrição da ontologia geral deve deixar em aberto questões
subdeterminadas pelas teorias físicas. Além da questão da natureza
corpuscular/ondulatória, outro ponto que não deve ser fechado é a suposição,
geralmente feita em reconstruções conjuntistas da realidade (Hellman &
Thompson, 1975), de que existem elementos básicos (Ur-elementen) na
realidade. Mesmo reconhecendo que quarks, léptons e bósons de interação
são entidades fundamentais do Universo, há evidências de que existe física
interessante em níveis mais microscópicos ainda, quando a gravitação se
unificaria com as interações forte e eletrofraca.
Outra questão em aberto é se a natureza é determinista ou estocástica.
A própria definição de “determinismo” é de difícil formulação. Brevemente, é a
tese de que o estado do Universo em um instante fixa ou determina o estado
do Universo em qualquer instante futuro. As dificuldades desta definição
envolvem estabelecer o que se entende por estado e como se dá a citada
determinação. Poder-se-ia, por exemplo, dizer que o determinismo permite que
em princípio se possa prever o estado futuro do universo, mas o que significa
“em princípio”?

4. Espaço, Tempo e Escala

Tendo em vista as limitações mencionadas, postularemos como


ontologia geral para nosso Universo a existência de entidades (cuja natureza
não será especificada) distribuídas no espaço e no tempo. Além disso,
consideramos a existência de diferentes escalas no espaço e no tempo. Para o
espaço, a escala designa diferentes tamanhos: microscópico, macroscópico

metodológica recomenda que o cientista, em sua prática, deva buscar descobrir tais conexões
redutivas (RUSE, 1995).
Osvaldo Pessoa Jr. 184

etc. Para o tempo, a escala denota diferentes taxas de mudança (velocidades):


rápida, lenta etc. Uma idéia heurística é considerar as escalas espacial e
temporal como dimensões adicionais da física.
Temos assim uma ontologia geral com propriedades bem pouco
específicas. Como podemos nos referir a esta realidade de uma perspectiva
que não envolva um observador humano? Uma solução seria postular a
existência (nessa realidade) de um sujeito abstrato, que observaria o mundo
sem afetá-lo de maneira nenhuma.

5. Sondas Epistemológicas

Chamaremos tais observadores abstratos de sondas epistemológicas,


cujas propriedades devem ser definidas de maneira precisa (em termos de um
Universo que segue uma certa ontologia geral).
Um exemplo famoso seria o “demônio de Laplace”, que é utilizado para
que se dê sentido à expressão “previsibilidade em princípio” usado na definição
de determinismo. O demônio de Laplace teria as propriedades de “onisciência
instantânea” (conhece o estado de todo o Universo em um instante temporal
com resolução e acurácia perfeitas), “erudição científica” (conhece com
exatidão as leis que regem o Universo – no caso, a mecânica clássica),
“superinteligência” (é capaz de calcular, quase instantaneamente, fazendo uso
da onisciência e da erudição, o estado de um Universo determinista em
qualquer outro instante de tempo) e “não-distúrbio” (a existência da sonda não
afeta de forma alguma o funcionamento da realidade).3

3
Uma sonda epistemológica poderia ser usada para aumentar o poderio do “critério
verificacionista de significado”, dos positivistas lógicos. A afirmação “há um tiranossauro
dormindo no terreno ao lado” teria significado porque há uma receita para verificar sua verdade
ou falsidade (qual seja, passear pelo terreno com os olhos abertos). Mas teria sentido a
afirmação “havia um tiranossauro dormindo no terreno ao lado há exatamente 100 milhões
anos atrás”? Ora, se supusermos um Universo determinista, poderíamos definir uma “sonda
temporal”, com as propriedades de observação local e de não-distúrbio, que viaja para o
passado, observa a situação no referido terreno, e retorna para o presente com a informação
solicitada (tal caracterização teria que ser refinada para impedir viagens ao futuro ou para
contemplar Universos indeterministas). A sonda temporal poderia nos auxiliar a exprimir
diferentes hipóteses a respeito do início do tempo: segundo a teoria de Hawking-Turok, nossa
sonda poderia rumar o quanto quiséssemos para o passado, antes de retornar. Uma
modificação da sonda temporal poderia ser útil também para exprimir propriedades de histórias
contrafactuais, em um mundo indeterminista. Suporíamos que esta “sonda contrafactual”
Fisicalismo redutivo e sondas epistemológicas 185

À medida que os “poderes” de semelhantes sondas forem se


aproximando das capacidades humanas reais, chegaremos a sondas
epistemológicas reais, como uma nave que ruma aos confins do Sistema Solar
enviando-nos sinais de rádio.

6. Demônio Escalar

Podemos definir um “demônio escalar”, que resulta de uma restrição na


propriedade de onisciência do demônio de Laplace. Suporemos que tal
demônio escalar possa sondar diferentes escalas espaciais e temporais por
meio de um “filtro”, que focaliza sua atenção numa escala específica, barrando
qualquer informação concernente às outras escalas, acima e abaixo daquela
sendo enfocada.4 Para nossos propósitos, consideraremos que o demônio
escalar possa observar duas escalas espaciais diferentes ao mesmo tempo, ou
duas escalas temporais diferentes na mesma região espacial (alegoricamente,
cada olho poderia usar filtros diferentes).
Um aspecto adicional de tal demônio envolve a quantidade de
informação necessária para descrever o Universo em uma certa escala.
Intuitivamente, é razoável considerar que a quantidade de informação
necessária para descrever o Universo numa escala mais microscópica (ou
numa escala temporal mais rápida) é maior do que a quantidade de informação
necessária para descrevê-lo em uma escala mais microscópica (numa escala
temporal mais lenta).
O que chamaremos fisicalismo redutivo afirma que a informação no nível
mais baixo é suficiente para que o demônio possa computar o estado do
mundo em um nível mais alto, no mesmo instante de tempo. O fisicalismo

pudesse ir para o passado de nosso mundo factual, até uma certa data inicial, e de lá ela
rumaria para uma história diferente, até a data de hoje. De lá, então, ela poderia voltar para a
data inicial; um problema seria que marcador ela usaria para encontrar novamente o nosso
ramo histórico, trazendo-nos informações sobre mundos possíveis.
4
O “demônio de Maxwell” utiliza semelhantes óculos para poder ver com resolução fotônica a
posição de moléculas de um gás que se aproximam de uma portinhola, que ele controla sem
dissipar energia. Uma propriedade essencial desta sonda epistemológica é que ela não
consegue observar o mundo sem provocar um distúrbio ou, se conseguir, terá que apagar
informações passadas em sua memória. Em ambos os casos, ela dissipa energia, o que é
necessário para que possa adquirir informação sobre o mundo e diminuir a entropia do gás em
questão.
Osvaldo Pessoa Jr. 186

emergentista negaria esta tese, mesmo considerando que o demônio escalar


teria acesso ao Universo todo em cada escala particular (em outras palavras, o
conhecimento do Universo todo numa escala microscópica não seria suficiente
para sua superinteligência computar o estado do Universo em uma escala
macroscópica).

7. Estruturas Temporais e Escalares

A idéia de considerar as escalas espacial e temporal como dimensões


coloca o problema de se a estrutura das coisas, vistas sob as perspectivas das
diferentes dimensões, são semelhantes. Um exemplo de semelhança ocorre
para a relação de determinação entre eventos ou estados5. No tempo, a
determinação entre eventos é a “causação” entre um evento anterior e um
posterior; na escala, podemos tomar a “realização física” (refletida, na teoria
científica, como um reducionismo ontológico) como a relação de determinação
de um nível inferior para um superior. Essa simetria entre causação e redução
pode ser estendida para estruturas mais complicadas.
Por exemplo, existe uma estrutura temporal de causação conhecida
como “condição INUS” (Mackie, 1965; ver Fig. 1). Um certo efeito E pode surgir
a partir de um conjunto suficiente de causas {A,B,...} ou também de um
conjunto suficiente {C,D,...}. Isso é estruturalmente semelhante à
“superveniência”, envolvendo realização múltipla, tanto na escala espacial
quanto temporal. Na Fig. 1, o macro-estado E pode ser realizado tanto pelo
conjunto de micro-estados {A,B,...} quanto por um outro conjunto {B,C,...}.
Porém, há também diferenças entre as duas situações, já que a relação
de redução envolve uma mudança na quantidade de informação (medida pelo
demônio escalar), ao contrário da causação – pelo menos em um mundo
“reversível”.

5
O termo “determinação” não deve ser confundido com “determinismo”. O primeiro é mais
geral, exprimindo a situação em que o estado de uma região espaço-temporal-escalar
restringe, mesmo que fracamente e probabilisticamente, o estado de outra região.
“Determinismo” é uma situação de determinação forte e não-probabilística entre diferentes
regiões temporais, ou seja, é um tipo de causação forte.
Fisicalismo redutivo e sondas epistemológicas 187

Figura 1: Comparação entre a estrutura causal INUS e as diferentes realizações


físicas de um mesmo estado macroscópico.

O demônio escalar permite que se caracterize a tese da “causação


descendente” sem comprometimentos essencialistas com a noção de
“causalidade” (comprometimento este presente por exemplo na importante
noção de causa como “capacidade”, Searle, 1997, p. 166). Consideremos um
Universo estocástico (não-determinista). O demônio escalar, em posse agora
da propriedade de erudição científica, observa um nível microscópico do
Universo e computa o estado microscópico para o dia seguinte, com uma certa
probabilidade p1 de acerto. Suponha agora que, além de observar inicialmente
o estado microscópico, ele também observasse o estado macroscópico inicial.
Se ao computar o estado microscópico do dia seguinte a probabilidade de
acerto p2 for maior do que p1, então esta situação confirmaria a tese da
causação descendente. Em suma, defender ou negar a tese da causação
descendente implica diferentes cenários para um Universo contendo um
observador abstrato que satisfaz as propriedades do demônio escalar. Está
claro que não temos como decidir qual dos dois cenários corresponderia à
verdade, mas ao menos estipulamos um critério teórico para distingui-los.

8. Método das Cópias

A postulação de sondas epistemológicas pode ser vista como um


artifício para se definir conceitos referentes a uma realidade para além da
observação humana. Ela não exclui a fecundidade de outras estratégias de
definição de conceitos, como o “método das cópias”.
Considere a definição de determinismo. Ao invés de postular o demônio
de Laplace, pode-se proceder da seguinte maneira. Imagine que uma cópia
Osvaldo Pessoa Jr. 188

perfeita do Universo seja feita, e que esses dois Universos evoluam


temporalmente de maneira independente. Se em qualquer instante posterior
esses dois Universos estiverem sempre no mesmo estado, então a evolução é
dita determinista.
Como procederíamos no caso da definição de fisicalismo redutivo?
Teríamos que imaginar que fosse feita uma cópia do Universo que fosse
idêntica apenas em uma certa escala espacial microscópica, e em todas as
inferiores. Neste caso, os dois Universos seriam necessariamente idênticos nas
escalas superiores? Se sim, teríamos uma situação consistente com o
fisicalismo redutivo, ao passo que a negação desta identidade seria uma forma
forte de fisicalismo emergentista. É interessante considerar uma tese
emergentista mais fraca que fosse consistente com a identidade dos dois
Universos: ela argumentaria que propriedades emergentes são determinadas
pelas escalas inferiores, mas que mesmo assim estas propriedades seriam
“novas” em relação às propriedades microscópicas.
A possibilidade de que os dois Universos considerados sejam diferentes
seria o análogo escalar (espacial) ao indeterminismo na dimensão temporal.
Tal situação de não-redutibilidade não parece ser contemplada pela física
estatística clássica, que se utiliza de uma concepção bastante simples a
respeito de como se dá a passagem de propriedades mais microscópicas para
as mais macroscópicas, envolvendo médias e procedimentos de “grão grosso”
(coarse graining). Em outras palavras, o demônio escalar se utilizaria destas
leis de mudança de escala para computar o estado macro a partir do micro.
Mas será que essas leis são verdadeiras? Será que elas não dependem da
natureza última do espaço, por exemplo, se tal espaço tem a estrutura descrita
pela análise matemática standard (que é o caso da física estatística clássica)
ou se ele tem uma estrutura fractal, ou mesmo quântica (em um sentido a ser
definido)? A princípio, tais leis de passagem de escalas parecem consistentes
com o fisicalismo redutivo, mas seria interessante explorar logicamente a
negação desta tese.
Fisicalismo redutivo e sondas epistemológicas 189

Agradecimentos

Este trabalho beneficiou-se dos comentários críticos de André Leclerc,


Charbel El-Hani, Irinéa Batista, Julio Vasconcelos, Paulo Abrantes e Pim
Haselager. Agradeço também aos organizadores do III Encontro da Rede
Paranaense de Pesquisa em História e Filosofia da Ciência pelo excelente
fórum de discussão.

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Matéria e substância segundo Leibniz

Patricia Coradim Sita


Departamento de Ciências Sociais/ UEM

Resumo: Leibniz alia uma leitura mecanicista da natureza à uma substância


teleologicamente orientada. A relação entre matéria e substância se torna
elemento fundamental da sua concepção de mundo e exige um esforço de
adequação que se realiza com o estabelecimento de uma substância
imaterial (mônada) como “requisito” da matéria.
Palavras-chave: matéria, substância, causa eficiente, causa final

A teoria leibniziana das substâncias pode ser adequadamente


investigada a partir da discussão sobre o estatuto da matéria. Não que Leibniz
colocasse em dúvida a existência da matéria componente do mundo real, ou
que tivesse se dedicado a uma prova de como é possível que haja algo
material. A discussão que encontramos nos seus textos se dirige para um
esclarecimento sobre a natureza da matéria.
Essa explicação pode ser notada na tentativa do autor em conciliar a
idéia de mônada à da causa eficiente. A mônada é uma substância simples, ou
seja, imaterial1, enquanto a causalidade eficiente é sempre uma causalidade
mecânica, própria do domínio das partículas físicas. Como aliar a causalidade
mecânica a um universo constituído de substâncias simples imateriais, voltadas
para um determinado fim? Leibniz compartilha da concepção mecanicista de
que todos os processos físicos, materiais, podem ser mecanicamente
explicados. Mas isso não implica que eles não possam ser, também,
teleologicamente explicados. Podemos evidenciar essa conciliação através da
distinção das substâncias simples e compostas e suas respectivas
características: sobre os corpos materiais estão atuando as leis referentes às
causas eficientes, sobre as substâncias simples agem as causas finais. Trata-
se portanto de assumir um mecanicismo que não é absoluto, uma vez que se

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
Patricia Coradim Sita 192

pretende conciliá-lo com a teleologia, mas lógico.


Leibniz pretende demonstrar que as causas finais e as eficientes não
são contraditórias, mas conciliáveis de tal modo que não houvesse a
necessidade de escolher entre as explicações mecânicas ou naturezas
incorpóreas (Discurso de Metafísica, 22). O sentido teleológico, entretanto,
subordina os atos das criaturas e os atos do conhecimento uma vez que o que
ocorre no mundo e o que conhecemos do mundo só são possíveis graças a
existência da finalidade. Essa finalidade pode ser entendida, portanto, como
uma perfeição que reside em Deus, através da qual tiveram início tanto as
criaturas quanto o saber que elas possuem. Trata-se, portanto, de um mesmo
conjunto de princípios apresentado como conjunto de atos: atos de Deus, do
mundo natural, do conhecimento. Atos cujo princípio é teleológico. Seu
transcurso ocorre em função destes aparentes extremos – a natureza e o
conhecimento – que, entretanto, são os mesmos na unidade do ser supremo –
Deus.
As causas eficientes são, portanto, parte das causas finais, como
instâncias de um ato que transcorre no mundo segundo uma finalidade. A
monadologia é o sistema que possibilita a Leibniz conciliar essas causas. Para
o filósofo as leis mecânicas respondem necessariamente a uma finalidade
como sua razão última. Essas leis mecânicas são contingentes, ou seja, é
possível conceber um outro mundo regido por outras leis naturais. Como se
explica que sejam essas e não outras as que regem nosso mundo? Pela
liberdade de Deus que, como ocorre com toda liberdade, implica uma
finalidade, já que não pode haver liberdade naquilo que é indiferente.
Essa divisão das causas não seria apropriada para Leibniz se implicasse
em níveis independentes: eles devem constituir uma unidade harmônica2. A
reunião de concepções conflitantes engendra no bojo do sistema leibniziano a
possibilidade dessa harmonia entre os opostos. A harmonia perpassa sua

1
Ora, onde não há partes, não há extensão, nem figura, nem divisibilidade possíveis, e, assim,
as Mônadas são os verdadeiros Átomos da Natureza, e, em uma palavra, os Elementos das
coisas. (Monadologia, 3)
2
As almas atuam por apetições, fins e meios, segundo as leis das causas finais. Os corpos,
segundo as leis das causas eficientes ou dos movimentos. E ambos os reinos o das causas
eficientes e o das causas finais, são harmônicos entre si. (Monadologia, 79)
Matéria e substância segundo Leibniz 193

filosofia sobretudo na maneira pela qual formula a concepção de mundo: todas


as partes produzem um conjunto de acordes que soa como música a Deus3.
Não podendo existir outro mundo capaz de reproduzir os mesmos acordes,
Leibniz conclui que este é o melhor dos mundos possíveis.
Um dos problemas envolvidos nessa discussão é como aliar a matéria
inerte ao movimento dos corpos. Na terceira carta de Leibniz lemos: “Sou de
opinião que toda substância criada é acompanhada de matéria.”
A relação entre a matéria e a substância é discutida em vários textos de
Leibniz sem, contudo, ser conclusiva. Na primeira carta de Leibniz ele afirma
que “Na minha opinião, a mesma força e vigor subsiste sempre, passando
somente de matéria em matéria, conforme as leis da natureza e a bela ordem
preestabelecida.”
Considerada como designando o constituinte passivo de tudo o que
existe, a matéria supõe a existência das formas ativas, como a alma. Cada
porção de matéria exprime todo o universo, mas se considerada à parte de
todas as almas, de todas as forças ativas, ela é apenas uma abstração. Unida
a uma alma, forma uma única substância. Em um texto intitulado Reflexões
sobre o progresso da verdadeira metafísica e particularmente sobre a natureza
da substância explicada pela força, de 1694, Leibniz afirma que

para esclarecer essa noção (de substância), aqui direi que a reflexão sobre o conceito
de força é de grande auxílio para a compreensão da natureza da substância. Essa
força ativa é diferente da faculdade dos escolásticos, que consiste apenas em uma
possibilidade aproximada de ação e que nela mesma está morta, por assim dizer, e
inativa, a menos que seja excitada por algo exterior a ela. Mas a força ativa envolve
uma enteléquia, ou uma atividade; está a meio caminho entre uma faculdade e uma
ação, além de conter em si mesma um certo esforço ou conatus. É levada à ação por
si mesma sem qualquer necessidade de auxilio, desde que nada a impeça. (4)

3
Segundo Deleuze (2000) o uso do termo harmonia é pertinente à teoria musical: “Duas razões
podem levar a acreditar que a referência musical é precisa e concerne ao que se passa na
época de Leibniz. A primeira é que a harmonia é sempre pensada como preestabelecida, o que
implica precisamente um estatuto muito novo; e, se a harmonia opõe-se ao ocasionalismo, é
visto que a ocasião desempenha o papel de uma espécie de contraponto que ainda pertence a
uma concepção melódica e polifônica da música. É como se Leibniz estivesse atento ao que
estava em via de nascer com a música barroca, ao passo que seus adversários permaneciam
ligados à antiga concepção. A segunda razão é que a harmonia relaciona a multiplicidade não
a uma unidade qualquer, mas a uma certa unidade que deve apresentar caracteres
distintivos.”( p. 213-4)
Patricia Coradim Sita 194

Há que se notar que Leibniz defendia a idéia de força como uma


entidade última cuja quantidade deveria ser constante. A força ativa entendida
como força metafísica primitiva é constituída, portanto, como a forma. Assim
como há a força ativa temos a força passiva que constitui a matéria e pode ser
entendida como a resistência (impenetrabilidade ou inércia) de um corpo.
A resistência, essa força passiva, é o que constitui a essência da
matéria. Diferentemente de Descartes que considerava a extensão como a
propriedade essencial dos corpos, Leibniz acredita que a extensão não pode
constituir a essência dos corpos (Discurso de Metafísica, 12). Extensão é uma
propriedade de uma coisa, que ela leva consigo de um lugar para o outro.
Segundo Russell, a extensão é a única qualidade comum a todas as
substâncias criadas e se repete sempre, sendo, por fim, aquilo que identifica
uma coisa, na medida em que ela é indiscernível. Ele afirma que

como não há duas coisas realmente indiscerníveis, a extensão implica a abstração


daquelas qualidades nas quais elas diferem. Assim uma coleção de mônadas só é
extensa quando pomos de lado tudo exceto a materia prima de cada mônada e a
propriedade geral da atividade, e consideramos apenas a repetição dessas
qualidades. (p. 103)

A materia prima de que fala Russell é o repetido tomado per se, aquilo
que é pressuposto pela extensão como repetição, puramente passiva, diferente
da materia secunda, dotada da força ativa.
A noção de substância expressa logo no início da Monadologia (1 e 2) é
indicativa do tratamento que o autor dispensará a essa idéia: “Visto que há
compostos, é necessário que haja substâncias simples, pois o composto é
apenas a reunião ou agregatum dos simples.” Ora, Leibniz está pressupondo
neste momento que a substância não é um conceito que precise ser
problematizado. Ele é claro por si mesmo. Ainda que a Monadologia não possa
ser considerada um bom referencial para a investigação deste conceito, uma
vez que é um texto da maturidade (1714), e ainda que não estejamos aqui
defendendo uma identidade conceitual entre o conceito de mônada e o de
substância individual, notamos que já em 1686, no Discurso de Metafísica, a
primeira menção do autor à substância (artigo 8) nos oferece uma definição
que abrange seu aspecto lógico, cuja base está fundada na estrutura das
proposições categóricas constituídas por sujeito e predicado: “É correto,
Matéria e substância segundo Leibniz 195

quando se atribui grande número de predicados a um mesmo sujeito e este


não é atribuindo a nenhum outro, chamá-lo substância individual.”
É pressuposto que uma substância se define através dos seus
predicados: “A natureza de uma substância individual (...) consiste em ter uma
noção tão perfeita que seja suficiente para compreender e fazer deduzir de si
todos os predicados do sujeito a que se atribui esta noção.” (Discurso de
Metafísica, 8)
Uma dificuldade encontrada nessa caracterização é que do fato dos
predicados constituírem a essência do sujeito (uma vez que a soma de todos
os predicados presentes e futuros faz de uma substância aquilo que ela é) não
segue que a substância seja o conjunto dos seus predicados. Todo predicado é
predicado de algo, predicado de um sujeito. A substância, entendida como
sujeito lógico da predicação, não é dependente de nada e subsiste, portanto,
inteiramente independente dos seus atributos.
Podemos afirmar que os predicados nada mais são do que atributos
que, como tais, devem ser atributos de uma substância. Assim, todo predicado,
sendo necessariamente predicado de um sujeito, e considerando a figura
desse sujeito como substrato ao qual os predicados devem estar referidos, o
sujeito pode ser entendido como a contraparte lógica da substância.
Segundo a ontologia leibniziana, infinitas possibilidades subsistem no
intelecto divino. Não cabe a Deus conceber os conceitos das substâncias que
serão criadas mas apenas eleger entre os entes possíveis aqueles que serão
convertidos em entes reais. Antes mesmo da criação do mundo real os seres já
subsistem enquanto possibilidades e, ainda como mero possível, já possui
todos os seus atributos caracterizadores. O ser tornado real atualiza seus
atributos como predicados. Qualquer que seja o possível tornado real, todos os
estados dessa substância já estão presentes em seu próprio conceito, o que,
afinal, possibilita que haja uma livre escolha divina. Isso implica em que, se
uma substância sofre alterações em seu desenvolvimento através do tempo,
que nada mais pode ser senão alterações em seus atributos originários, deve
haver, necessariamente, além desses atributos que se alteram e sucedem, um
elemento de permanência tal que funcione como identificador da substância.
Patricia Coradim Sita 196

Se uma substância sofre alterações ao longo do tempo ela permanece a


mesma, embora modificada. A questão é que a substância deve trazer um
elemento de permanência que a identifique apesar da mudança sofrida. Ora, os
predicados de uma substância são aquilo que ela possui de mais particular,
distintivo do que ela não é e que não permite que outra seja tomada como
idêntica a ela.
Estruturar esse aspecto lógico implica também em fazer dos princípios
da não-contradição e da razão suficiente um dos elementos definidores do
papel de Deus na determinação das substâncias. No opúsculo Sobre a
liberdade e a possibilidade (1680-82) Leibniz afirma que “não há nada sem
razão, isto é, não há proposição na qual não exista conexão entre o sujeito e o
predicado, ou seja, nenhuma proposição que não possa ser demonstrada a
priori”. Ao postular uma certa hierarquia onde possibilidade e existência são
categorias ontológicas fundamentais, Leibniz mantém a independência das
substâncias em relação ao que é exterior.

Bibliografia

DELEUZE, G. A dobra: Leibniz e o barroco. Trad. Luiz B. L. Orlandi.


Campinas: Papirus, 2000.

BELAVAL, Y. Études leibniziennes. Paris: Gallimard, 1993.

LEIBNIZ, G. W. Discurso de Metafísica. Correspondência com Clarke.


Monadologia. Trad. Marilena Chauí. São Paulo: Abril Cultural, 1975.
(Col. Os pensadores)

ROBINET, A. (ed.) Leibniz, G. W: Correspondance Leibniz-Clarke.


Paris: 1957.

RUSSELL, B. A filosofia de Leibniz: uma exposição crítica. São Paulo:


Editora Nacional, 1968.
Mersenne e o debate em torno do copernicanismo

Paulo Tadeu da Silva


Departamento de Filosofia/UESC

Resumo: O debate acerca do copernicanismo ainda se apresenta como um


aspecto de grande importância na história da ciência desenvolvida ao longo
do século XVII. Nesse sentido, o objetivo deste trabalho consiste em
apresentar uma análise da postura assumida por Marin Mersenne frente ao
copernicanismo. Para tanto, a exposição estará circunscrita aos tratados
publicados pelo autor em 1634 e a algumas correspondências do mesmo,
particularmente as cartas enviadas a Antoine de Rebours (novembro
de1633) e a Nicolas-Claude Fabri de Peiresc (28 de julho de1634). A partir
desses elementos pretende-se mostrar em que sentido a postura de
Mersenne frente ao problema em questão não pode ser entendida apenas
do ponto de vista internalista (isto é, levando-se em conta apenas os
elementos de ordem epistemológica), mas deve levar em consideração
aspectos de ordem religiosa, teológica e social. A reticência de Mersenne
em defender clara e abertamente a verdade das hipóteses copernicanas
não está fundamentada apenas na ausência de provas cabais em prol do
sistema em questão, mas em grande medida nos entraves relacionados
com a teologia e com a hierarquia eclesiástica.
Palavras-chave: Copernicanismo, Ciência, Mersenne, Cosmologia.

O debate acerca do copernicanismo é um dos aspectos centrais da


ciência no século XVII, principalmente se tomarmos como referência a figura de
Galileu Galilei. Como sabemos, em 1632, Galileu publica o Diálogo sobre os
dois máximos sistemas do mundo, cuja temática gira em torno de dois sistemas
astronômicos: o ptolomaico e o copernicano. Ainda que a defesa do
copernicanismo esteja fortemente associada a essa obra, não pretendo
desenvolver aqui qualquer comentário substancial sobre a mesma. Ainda
assim, cabe indicar o interesse de Mersenne pelo trabalho desenvolvido por
Galileu. Além das referências que podemos encontrar na correspondência do
padre Mersenne, é preciso indicar ainda duas outras: Les Méchaniques de
Galilée (1634) e Les nouvelles pensées de Galilée (1639), traduções de textos
de Galileu feitas por Mersenne. Dito isso, façamos algumas advertências
iniciais quanto ao posicionamento do filósofo francês com respeito ao
copernicanismo. Se, por um lado, Mersenne não encontra argumentos

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
Paulo Tadeu da Silva 198

decisivos em favor do copernicanismo, notamos que ele se vale de algumas


estratégias utilizadas por Galileu para mostrar que os argumentos físicos
elaborados contra esse sistema não se sustentam. Nesse sentido, meu objetivo
consiste em avaliar a postura de Mersenne frente ao sistema copernicano.
Para tanto, utilizarei algumas passagens dos tratados publicados 1634 e
algumas cartas do terceiro e quarto volumes da Correspondance.
Em 1º de setembro de 1631, Mersenne escreve uma carta a Jean Rey1
comentando uma obra publicada pelo último, a saber: os Essays. No segundo
parágrafo desta carta Mersenne se refere a uma das teses defendidas por Rey,
segundo a qual, a Terra, em virtude de seu peso, localiza-se no centro do
universo. Ao apontar a tese em jogo, Mersenne lembra que vários autores,
entre eles Copérnico e alguns astrônomos ilustres, sustentam que a Terra se
move ao redor do Sol e, além disso, que ela não está no centro do Universo.
Ainda que a passagem em questão não aponte para uma postura clara em
defesa do copernicanismo, ela parece indicar alguma inclinação de Mersenne
com respeito ao sistema em questão.
Em outra carta, enviada a Antoine de Rebours em novembro de 1633, é
possível notar não somente o cuidado com que Mersenne discute a hipótese
copernicana, mas também as dificuldades com as quais o autor está envolvido.
Num primeiro momento, temos a impressão de que Mersenne está inclinado a
reconhecer a veracidade do sistema proposto por Copérnico. Todavia, alguns
parágrafos depois, nota-se que ele recua frente a um problema crucial, a saber:
a fé.
Solicitando a avaliação de Rebours quanto aos argumentos em prol do
movimento terrestre, Mersenne passa a expor as razões que, segundo ele,
obteve em uma discussão com um homem de bem (infelizmente não temos
qualquer referência quanto à identidade de tal personagem). O primeiro
argumento abordado por Mersenne diz respeito à ordem do universo tendo em
vista o princípio de harmonia. Ele relata o que segue:

“Ele toma a primeira da bela ordem que é observada entre todos os grandes corpos
do mundo, cujos movimentos são tanto mais velozes quanto eles são menores, pois a

1
O documento encontra-se em MERSENNE, M. Correspondance, Vol. 3, p. 186.
Mersenne e o debate em torno do copernicanismo 199

Lua faz seu curso em 29 dias, Mercúrio em 80 dias, Vênus em nove meses, o Sol em
um ano, Marte em dois, Júpiter em doze e Saturno em trinta anos, de sorte que os
tempos dos circuitos que fazem esses corpos vão sempre aumentando na proporção
de suas grandezas, e conseqüentemente o céu das estrelas deve ser imóvel, ou
mover-se muito lentamente, a fim de preservar a mesma ordem dos outros céus, e
em nada perturbar na harmonia do universo. O que não pode ocorrer se a Terra não
se move em vinte e quatro horas.”(MERSENNE, M. Correspondance, Vol. III, p. 570)

Em primeiro lugar, é preciso notar que Mersenne considera uma


determinada ordem harmônica no movimento dos orbes celestes. Segundo o
princípio aqui invocado, o período necessário para que cada um percorra seus
respectivos circuitos (isto é, suas circunferências) varia de acordo com o
tamanho dos mesmos (ou seja, de seus circuitos). Assim, quanto menor for o
circuito mais rapidamente ele será percorrido. Desse modo, segue-se que a
esfera das estrelas fixas deve manter-se imóvel ou mover-se muito lentamente.
Ora, o que Mersenne conclui é que essa harmonia não seria preservada se a
Terra não se movesse em vinte e quatro horas. Isso significa que o dia e a
noite não deveriam ser tomados como resultado do movimento da esfera das
estrelas fixas, mas da Terra. Desse modo, para que essa ordem seja
preservada é preciso que a Terra esteja em movimento e não parada. Assim,
parece imprescindível reconhecer o movimento diurno da mesma, uma vez que
negá-lo significa negar os requisitos de ordem e harmonia da natureza.
Outro argumento levantado na carta diz respeito ao lançamento de uma
bala de canhão em direção ao ocidente com velocidade igual a da Terra. De
acordo com aqueles que negam o movimento terrestre, a bala permaneceria
parada, visto que ela estaria sujeita a dois movimentos de igual intensidade e
direções opostas. Ora, como isso não ocorre, conclui-se que a Terra está
parada. Entretanto, é preciso levar em conta que todos os corpos terrestres
participam do movimento realizado pela Terra, assim, é como se ele não
existisse. Vale lembrar que isso não diz respeito apenas aos corpos
inanimados presentes na natureza: nós também participamos do movimento
terrestre. Assim, uma vez que também partilhamos do mesmo movimento, não
conseguimos, enquanto habitantes deste planeta, perceber o movimento que o
mesmo realiza.
Além desses dois aspectos, Mersenne levanta ainda o seguinte:
Paulo Tadeu da Silva 200

“Há muito tempo afirmamos que é certo que a Terra se move em vinte e quatro horas
em torno de seu eixo, se o Autor da natureza fez todas as coisas pelo caminho mais
curto de todos os possíveis, e que é mais fácil e mais curto dar uma volta sobre o alto
das torres de Notre Dame para ver toda a cidade de Paris do que se a cidade se
movesse, e o olho permanecesse sempre em um mesmo lugar.”(MERSENNE, M.
Correspondance, Vol. III, p. 571)

O argumento utilizado está relacionado com o princípio de simplicidade:


é muito mais simples fazer a Terra girar em torno de seu eixo no período de
vinte e quatro horas do que obrigar todo o universo girar em torno dela.
Portanto, se Deus, ao criar o mundo, optou pelo caminho mais simples
possível, a Terra deve necessariamente realizar o movimento de rotação
sustentado pelo copernicanismo.
Todavia, nem mesmo a soma de todos esses argumentos parece
suficiente para que Mersenne opte definitivamente pelo sistema copernicano.
Podemos afirmar que existem, aos olhos do autor, boas razões em prol do
copernicanismo, contudo, elas não provam definitivamente a verdade do
mesmo. A proposta copernicana deve ser tomada como plausível, mas não
como verdadeira. O que está em jogo não diz respeito apenas ao campo
estritamente científico, mas leva em conta a fé. Segundo Mersenne, Deus
poderia, em virtude de sua onipotência e inteligência suprema, ter mantido a
Terra imóvel e fazer com que o restante do universo estivesse em movimento.
Dada a finitude da razão humana, não nos é possível compreender os motivos
que levaram Deus a escolher este ou aquele caminho. De fato, é precisamente
isso que encontramos no seguinte trecho da carta a Rebours:

“Mas não teremos nem ciência nem revelação da maneira segundo a qual Deus
regulou os movimentos do Universo, pois ainda que ele não faça qualquer coisa
inutilmente, e que não haja nada de supérfluo em suas obras, entretanto, ele pode ter
grandes razões, pelas quais faz girar o firmamento deixando a Terra imóvel. É por
esse motivo que me parece mais apropriado suspender nosso julgamento do que se
deixar levar por conjecturas que se levantam em favor desse
movimento(...)”(MERSENNE, M. Correspondande, Vol. III, p. 571)

Os aspectos abordados até aqui revelam uma postura bastante


cautelosa de Mersenne. Tal posicionamento pode ser igualmente detectado
nos tratados publicados em 1634. Podemos destacar seis momentos nos quais
Mersenne está diretamente envolvido com a hipótese do movimento da Terra.
Mersenne e o debate em torno do copernicanismo 201

Questão 11 das Questions Inouyes: “Podemos saber se a Terra se move


todos os dias em torno de seu eixo, e a cada ano em torno do Sol, e se há
habitantes nos Astros”.
Questão 34 das Questions Théologiques, Physiques, Morales et
Mathematiques 2: “Que razões temos para provar, e para persuadir do
movimento da Terra, em torno de seu eixo, no período de vinte e quatro
horas?”.
Questão 37 das Questions Théologiques: “Que razões podemos ter para
crer que a Terra se move em torno do Sol, e que ele está no centro do
mundo?”.
Questão 44 das Questions Théologiques: “O que há de mais notável nos
Diálogos que Galileu fez sobre o movimento da terra? Esta questão contém
todo o seu primeiro Diálogo”.
Questão 45 das Questions Théologiques: “O que há de notável no
segundo Diálogo de Galileu”.
Vejamos inicialmente o que Mersenne sustenta na proposição 11 das
Questions Inouyes:

“Visto que nós não podemos formar qualquer conclusão demonstrativa sem um meio
termo que serve como um elo necessário ao atributo e ao sujeito, e que este meio
termo nos falta neste assunto, não é possível saber se a Terra se move, ou se ela
está imóvel, enquanto o Sol, e as Estrelas se movem, de modo que podemos explicar
todos os fenômenos que tem ocorrido até o presente tanto pelo movimento da Terra,
quanto pelo movimento dos Astros. Entretanto podemos dizer que ela se move em
torno de seu eixo, se Deus seguiu o caminho mais curto de todos os possíveis dentro
da ordem e dos movimentos de todas as partes do Universo.” (MERSENNE, M.
Questions Inouyes, Prop. 11, Ed.Fayard, p. 37)

Essa passagem nos mostra uma situação muito parecida com aquela
encontrada na carta remetida a Antoine de Rebours. Encontramos aqui dois
aspectos bastante claros. O primeiro diz respeito à impossibilidade de decidir
entre a hipótese ptolomaica e a copernicana. Segundo Mersenne, não
dispomos de elementos suficientemente fortes para optar definitivamente por
uma das duas hipóteses. Note-se que Mersenne confere o mesmo peso aos
dois sistemas, como se eles tivessem o mesmo valor instrumental. O segundo
aspecto está relacionado mais uma vez com o princípio de simplicidade. Se
Paulo Tadeu da Silva 202

Deus escolheu o caminho mais simples, então a Terra gira em torno de seu
próprio eixo.
A mesma situação comparece na proposição 34 das Questions
Théologiques. Os argumentos arrolados em favor do movimento da Terra têm
em vista a mesma simplicidade e ordem pressupostas no final do primeiro
parágrafo da proposição 11 das Questions Inouyes. Além disso, de modo
análogo ao que foi dito naquele momento, Mersenne não vê razões
inquestionáveis para afirmar o movimento ou o repouso da Terra. Além desses
aspectos é preciso chamar a atenção para o famoso problema da queda dos
corpos. Seguindo a mesma linha de Galileu, o que, vale lembrar, será
retomado no segundo livro do Harmonie Universelle (1636/37), Mersenne
afirma que esse fenômeno não acarreta qualquer prejuízo para a hipótese
copernicana. Para ambos, todos os objetos presentes na Terra participam do
movimento realizado por ela. Portanto, esteja ela em movimento ou não, os
movimentos em seu interior não sofrerão qualquer alteração.
A questão 37 das Questions Théologiques, diferentemente das questões
precedentes, não discute o movimento da Terra em torno de seu eixo, mas a
possibilidade de seu movimento anual em torno do Sol. Os argumentos
apresentados, embora relacionados com outro tipo de movimento, estão
igualmente fundamentados nos princípios de ordem e simplicidade. No caso do
movimento anual, a situação permanece inalterada: não é possível afirmar
definitivamente que a Terra gira em torno do Sol.
As questões 44 e 45 das Questions Théologiques são dedicadas a uma
rápida sinopse das duas primeiras jornadas do Diálogo de Galileu. A meu ver,
elas não alteram o quadro exposto até aqui.
Com vimos a postura de Mersenne é extremamente cautelosa quando o
assunto em discussão diz respeito à defesa do copernicanismo. Dada a sua
condição, o padre Mersenne não sustenta definitivamente a doutrina de
Copérnico. Tal posicionamento merece algumas considerações.
Em primeiro lugar, é preciso notar que Mersenne, ao longo de algumas
passagens dos tratados de 1634 e em algumas proposições do segundo livro

2
A partir desse momento esse texto será indicado como Questions Théologiques.
Mersenne e o debate em torno do copernicanismo 203

do Harmonie Universelle (principalmente as proposições 3, 4, 16, 17, 19 e 20)


separa a defesa do copernicanismo de determinados resultados físicos obtidos
por Galileu. Assim, parece-me que Mersenne separa a cosmologia da
mecânica terrestre e defende que é possível sustentar uma série de inovações
concernentes à segunda, sem que seja necessário sustentar, por isso, a
verdade de determinadas suposições cosmológicas. Este é o caso, por
exemplo, do problema da queda dos corpos. Por outro lado, é importante
lembrar que embora não se possa, aos olhos de Mersenne, sustentar que o
sistema copernicano revela a real estrutura do universo, ele pode, do ponto de
vista instrumental, ser utilizado para efeito de cálculo.
Em segundo lugar, Mersenne, seguindo a mesma linha de Galileu,
procura mostrar que determinados argumentos levantados contra o sistema
copernicano não têm qualquer efeito. Em vários deles deve-se ter em mente a
idéia de que todos os corpos presentes na Terra participam de seu movimento.
Portanto, como dito algumas vezes ao longo da presente exposição, a
influência desse movimento é nula para os eventos em questão. Mesmo
supondo, como Mersenne o faz no segundo livro do Harmonie Universelle, que
a trajetória de um objeto em queda livre não seja retilínea (imaginando-se que
ela fosse vista por um observador fora da Terra, enquanto esta, supostamente,
se move em torno de seu eixo), para nós, habitantes dela, o curso realizado
pelo objeto continua a ser visto como uma reta.
Em terceiro lugar, Mersenne se mantém fiel ao seu propósito de conciliar
ciência e fé. Como nos alerta Lenoble, em seu livro Mersenne ou la Naissance
du Mecanisme, Mersenne dedicou grande parte de sua vida a combater a
filosofia naturalista, as práticas ocultistas e as chamadas pseudociências. Tal
projeto tem como conseqüência a construção de um modelo de ciência que ao
mesmo tempo fortaleça o projeto mecanicista e, além disso, preserve a fé. O
que notamos com respeito à hipótese copernicana é que esses dois campos
estão em jogo. Se, por um lado, é preciso considerar os aspectos científicos
concernentes ao problema em questão, por outro, é preciso lembrar que
Mersenne quer, seja em virtude de sua estreita relação com a Igreja, seja por
conta das conseqüências advindas de uma eventual defesa do
copernicanismo, preservar o outro pilar de sua filosofia, qual seja, a fé. É
Paulo Tadeu da Silva 204

justamente nesse terreno que encontramos alguns elementos adicionais para


uma avaliação mais profunda do problema da defesa do copernicanismo em
Mersenne.
A reticência do filósofo em sustentar a verdade do sistema copernicano
está fundamentada em dois planos distintos: o epistemológico e o teológico.
Seguindo os mesmos cânones presentes em outros autores do século XVII,
Mersenne entende que a ciência deve ser erigida por meio de experiências
bem conduzidas e expressa em linguagem matemática. Ora, o primeiro
requisito, quando associado aos eventos celestes, nos conduz à necessidade
de que nossas afirmações estejam fundamentadas em dados observacionais.
É a partir deles e da matemática que podemos, em alguma medida, constituir
uma ciência sobre os movimentos celestes. Contudo, nem a observação nem a
matemática fornecem, para Mersenne, razões suficientemente fortes e
incontestáveis para que possamos afirmar categoricamente a verdade das
hipóteses aventadas por Copérnico. Assim, como vimos anteriormente, o que
nos resta é tratar tais hipóteses sob uma perspectiva meramente instrumental.
Não há como asseverar a sua realidade efetiva.
Por outro lado, a cautela de Mersenne não está fundamentada
unicamente nesses motivos. É também em virtude de razões teológicas e
religiosas que o autor abre mão de qualquer compromisso realista com respeito
ao copernicanismo. A fim de tornar isso mais evidente, é preciso recorrer mais
uma vez à correspondência do autor. Na carta enviada a Nicolas-Claude Fabri
de Peiresc em 28 de julho de 1634 encontramos o seguinte:

“Eu vos envio os três pequenos tratados que fiz, a fim de que possais receber algum
contentamento entre vossas ocupações mais sérias.

Eu vos peço que envieis ao Monsenhor Doni, quando por alguma ocasião o
encontrar, aqueles nos quais seu nome está. Neles, as Questions Morales,
mathematiques etc. são diferentes das vossas, uma vez que existem razões para o
movimento da Terra sem refutação, para as quais eu coloquei a sentença dos
cardeais como remédio, como vós vereis. Mas uma vez que me foi dito que houve
algum barulho entre os doutores da Sorbonne em virtude das razões que eu não
recusei, suprimi todas as questões as quais se poderia formalizar, e coloquei outras
que vós vereis no livro para o Monsenhor Doni, que serão mais próprias para Roma.
Contudo, se não vos agradar de vê-las ali, enviá-las-ei separadas.”(MERSENNE,
Correspondance, vol. 4, p. 267)
Mersenne e o debate em torno do copernicanismo 205

Esse trecho da carta contém dois elementos importantíssimos. Em


primeiro lugar, Mersenne reconhece que existem razões sem refutação em
favor do movimento terrestre. Tal afirmação se opõe justamente àquilo que o
autor afirma em uma passagem da carta enviada a Rebours. Com efeito, nela
podemos observar claramente que Mersenne não se compromete com a
verdade da hipótese copernicana; mais do que isto, ele diz que não existem
razões suficientemente fortes para asseverar a verdade da hipótese em
questão. Todavia, e aqui podemos provavelmente encontrar a raiz do
problema, Mersenne afirma, nesse mesmo momento da carta a Peiresc, que
suprimiu as questões diretamente relacionadas com a hipótese em jogo (ou
seja, com a hipótese do movimento terrestre), as quais poderiam gerar algum
tipo de acusação. Além disso, ele informa Peiresc de que introduziu a sentença
dos cardeais (a saber, a sentença contra Galileu) como atenuante às razões
que ele mesmo não havia recusado. Ora, tudo isso indica a forte influência dos
aspectos teológicos e religiosos na postura adotada pelo autor. É em virtude da
autoridade eclesiástica que Mersenne expurga de alguns exemplares das
Questions Théologiques as questões 34, 37, 44 e 45, substituindo-as por
outras nas quais não encontramos qualquer referência ao copernicanismo que
pudesse ser tomada como uma defesa da verdade de tal sistema. Os
enunciados das questões que substituem as originais, anteriormente indicadas,
são os seguintes: questão 34, “Saber se podemos estabelecer uma nova
ciência dos sons, que seja nomeada psofologia ou com outro nome que se
queira.”; questão 37, “Saber quanto se deve estar elevado sobre a superfície
da Terra, ou sobre outros corpos que se queira, maiores ou menores, para ver
um espaço dado.”; questão 44, “Qual deve ser a força da voz para ser
transportada e estendida até a Lua, ao Sol e ao firmamento, seja naturalmente
ou por artifício?”; questão 45, “É permitido ensinar nas Escolas que a Terra é
imóvel?”.
Ora, como se vê, há uma clara limpeza do terreno. Ao substituir as
questões 34, 37, 44 e 45, Mersenne retira das Questions Théologiques os
elementos a partir dos quais ele poderia, em princípio, receber algum tipo de
censura. É importante notar que a questão que substitui a de número 45 não se
afasta totalmente da astronomia e da cosmologia. Contudo, a posição
Paulo Tadeu da Silva 206

assumida pelo autor nos indica a sua filiação com um instrumentalismo


vinculado ao expediente de salvar os fenômenos. Nela lê-se o seguinte:

“Mas é preciso enfatizar que não é intenção da censura impedir o cálculo dos eclipses
e dos astros pelo método de Copérnico, visto que esta operação não causa qualquer
dano à Escritura, e que ela não se opõe a seu julgamento.”(MERSENNE, Questions
Inouyes, 1634, p. 425)

Essa passagem nos mostra um aspecto interessante. Nota-se que


Mersenne defende a utilização instrumental do sistema copernicano sem
comprometer-se com uma interpretação realista do mesmo. Nessa perspectiva,
não entra em jogo a verdade do sistema, mas que tipo de utilidade ele teria
para determinados cálculos. Utilizado nesses termos, o copernicanismo não
entra em conflito com a Escritura justamente porque não se coloca em questão
a sua verdade. Vale lembrar ainda que Mersenne, nesse mesmo momento, diz
que se os cientistas agissem com discrição e discernimento, não estariam
sujeitos a censura e não teriam que se retratar. Evidentemente isso é uma
clara referência ao caso de Galileu.
A carta remetida a Peiresc permite, portanto, compreender a natureza e
as razões do expurgo em questão: a decisão de Mersenne é um claro resultado
de seus compromissos religiosos e da hierarquia eclesiástica à qual ele estava
submetido. Nesse sentido, acredito que é justamente em virtude de tais
motivações que podemos encontrar uma outra justificativa para a hesitação de
Mersenne em defender clara e abertamente a verdade do sistema copernicano.
Os aspectos aqui abordados nos mostram que a ciência não se encontra
imune a fatores de ordem social. O envolvimento de Mersenne com o debate
em torno do copernicanismo indica claramente em que medida motivações de
ordem teológica e religiosa, vinculadas à hierarquia e à autoridade
eclesiásticas, desempenham um papel decisivo na defesa de teorias
científicas. Tudo isso mostra que a investigação da história da ciência não
pode, em alguns casos, restringir-se a uma interpretação estritamente
internalista, levando-se em consideração tão somente os aspectos de ordem
epistemológica. Com efeito, a fim de entender alguns episódios da história da
ciência é preciso ter em vista os aspectos externos ao jogo estritamente
científico. A meu ver, Mersenne é um bom exemplo disso.
Mersenne e o debate em torno do copernicanismo 207

Bibliografia

HINE, W. L. “Mersenne and copernicanism”. Isis, 64, 1, 1973, p. 18-32.

HUMBERT, P. “Marin Mersenne et les astronomes de son temps”. Revue


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LENOBLE, R. Mersenne ou la Naissance du Mécanisme. Paris: Librairie


Philosophique J. Vrin, 1943.

MERSENNE, M. Correspondance du Père Marin Mersenne. Paris: CNRS,


1933.

MERSENNE, M. Harmonie Universelle (1636-37). Paris: CNRS, 1975.

MERSENNE, M. Questions Inouyes (1634). Paris: Fayard, 1985.


A crítica de Berkeley ao método das fluxões de Newton

Alex Calazans
Mestrando em Filosofia/UFPR

RESUMO: Mesmo conquistando um relativo sucesso entre vários


matemáticos modernos, o método newtoniano das fluxões, quando surgiu,
foi alvo de inúmeras criticas. Berkeley foi um dos seus críticos mais ativos. É
n’O Analista que ele acusa Newton de assumir conceitos problemáticos
como fundamento do método das fluxões. Esses conceitos colocariam
dúvidas relevantes quanto ao então inquestionável rigor demonstrativo da
matemática. O principal conceito ao qual Berkeley refere-se é o denominado
por Newton como momentos: são quantidades matemáticas geradas em
intervalos de tempo infinitamente pequenos. Ataca-se os momentos por
duas vias: a primeira é uma crítica epistemológica, sustentada por um
critério sensível de evidência e estruturado com um vínculo entre sentidos e
imaginação. O outro caminho refere-se às contradições provocadas pelos
momentos nas demonstrações, ou seja, são problemas metodológicos que
não são evitados porque Newton estaria se apoiando em algo que é, antes
de tudo, epistemologicamente defeituoso. Há, portanto, um vínculo entre
esse dois lados da crítica de Berkeley. Em nossa investigação, após
apresentar essa mão dupla da crítica berkeleiana, pretende-se compreender
como tal controvérsia reprova o rigor demonstrativo do método de Newton,
mas, em um âmbito mais amplo, não se torna uma eliminação por definitivo
da possibilidade de qualquer demonstração no campo da matemática. Além
do mais, procura-se discutir essa questão à luz da filosofia da matemática
acarretada pela doutrina do esse est percipi (ser é ser percebido),
apresentada na obra de Berkeley Tratado Sobre os Princípios do
Conhecimento Humano..
Palavras-Chave: Fluxões; Momentos; Percepção; Inteligibilidade

Introdução

Newton, ao elaborar o método das fluxões, possuía como principal


objetivo solucionar matematicamente questões que envolvessem o movimento.
Apesar de não ter sido o pioneiro, ao propor soluções a essas questões e
incluir o movimento na matemática, Newton obteve um sucesso extraordinário
com respeito a diversos problemas matemáticos, entre eles o problema de
determinar com rigor e precisão a velocidade de um ponto em um instante de
tempo de uma dada trajetória. Com efeito, o método das fluxões tornou-se a
principal ferramenta matemática de Newton, a ponto de permear quase todo o

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
A crítica de Berkeley ao método das fluxões de Newton 209

seu trabalho científico. Em sua obra central, por exemplo, Princípios


Matemáticos da Filosofia Natural (1687), Newton utiliza-se do método das
fluxões para resolver questões de mecânica, o que se constitui como uma
grande novidade.
Todavia, Berkeley colocou o método das fluxões, n’O Analista (1734),
como principal alvo de uma crítica. Tal método, para Berkeley, necessitou
passar por uma investigação, mesmo que muitos matemáticos o tenham
tratado como um pretenso avanço na resolução de problemas no campo da
geometria, isto é, mesmo que o método das fluxões tenha sido considerado
“...a chave geral a auxiliar os modernos matemáticos a destrancar e revelar os
segredos da geometria e, consequentemente, da natureza” (Analista.§3).
Nessa investigação, Berkeley apontou para problemas que atingem
diretamente o rigor demonstrativo do método das fluxões. Isso acontece,
porque Berkeley se apoia em conteúdos sensíveis para decidir sobre a
inteligibilidade das coisas. Assim, encontraram-se no método newtoniano
fundamentos que não resistem a tal critério apresentado; fundamentos que
pretendem possuir uma característica que está além do que é sensível. Dessa
maneira, surgem dúvidas razoáveis sobre as demonstrações realizadas a partir
de tais princípios demonstrativos.
Berkeley ao rejeitar o método das fluxões, baseando-se no sensível
como critério de inteligibilidade, necessitou incluir em sua crítica uma
possibilidade para se realizar demonstrações dos teoremas matemáticos. É
com isso que propriamente chegamos ao objeto de investigação. Como é
possível estruturar um critério de inteligibilidade fundamentado no conteúdo
sensível (que se restringe ao particular e ao singular), sem eliminar toda
possibilidade de demonstração geométrica, que necessariamente refere-se ao
universal?. Assim, quando for necessário, tomaremos paralelamente o texto
Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano (1710) para esclarecer
a questão acima apresentada.
Alex Calazans 210

O que necessitamos fazer, em princípio, é compreender alguns


fundamentos do método das fluxões. O principal deles é o conceito de
momento. Para entendê-lo devemos, primeiramente, aceitar que o movimento
é capaz de produzir quantidades matemáticas: “...linhas são geradas pelo
movimento de pontos, planos pelo movimento de linhas...” (Analista,§3)1. Além
disso, devemos aceitar que existe um tempo matemático2 (absoluto) que
sempre acompanha e é comum a todos os movimentos. Dessa forma, por
causa dos movimentos ocorrem em função de um mesmo tempo, i. é, por
possuírem um elemento comum entre si, há a possibilidade de compará-los e
diferenciá-los.
Mais precisamente, é a partir de dois pontos de vista que a diferenciação
se evidencia. O primeiro é da observação da própria quantidade matemática
maior ou menor, produzida no mesmo intervalo de tempo. O outro modo de
diferenciar o movimento se constitui a partir da observação das velocidades
com que a produção das quantidades geométricas se estabelecem. Entenda-se
velocidade como sendo a produção de quantidades matemáticas em função do
tempo. Assim, um movimento torna-se diferente de outro pelas diferentes
velocidades e quantidades produzidas em um mesmo intervalo de tempo.
No método das fluxões as “...velocidades são chamadas fluxões
[fluxions]; enquanto que as quantidades [matemáticas] geradas são chamadas
quantidades fluentes [flowing quantities]” (Analista.§3). Para Newton, fluxões e
quantidades fluentes surgem em partes muito pequenas de tempo, pois há a
possibilidade dividi-lo infinitamente até chegarmos a um instante de tempo3. É

1
Newton não foi o primeiro a tratar o movimento como produtor de magnitudes geométricas.
Josseph afirma que outros matemáticos, inclusive contemporâneos de Newton, já
consideravam esse tratamento muito comum. “Essa concepção cinemática não é uma inovação
newtoniana; isso é dominado nas Lectiones Geometricae de Barrow e pode ser igualmente
encontrado em outros escritos” (Josseph, p.143).
2
Newton expressa essa noção de tempo da seguinte maneira: “O tempo absoluto, verdadeiro
matemático, por si mesmo e da sua própria natureza, flui uniformemente se a relação com
qualquer coisa externa...” (Principia, Escólio das definições, I). Assim, segundo Cohen, o tempo
considerado dessa maneira passa a ser para Newton o “pano de fundo do
movimento”(Cohen,I.2002, p.452).
3
Um instante é a quantidade infinitamente pequena de tempo com a qual as fluxões e
quantidades fluentes são geradas. Nas palavras de Newton: “Fluxões são aproximadamente
A crítica de Berkeley ao método das fluxões de Newton 211

aqui que chegamos ao conceito de momento: considera-se momento tanto as


fluxões instantâneas como, também, as quantidades fluentes geradas nesse
mesmo instante de tempo. Isso fica melhor explicitado nas próprias palavras de
Newton: “[os] incrementos ou diminuição momentâneos [das quantidades
matemáticas] são o que eu chamo de momentos (...) O mesmo ocorre se em
lugar de momentos se tratar das velocidades dos incrementos (que também
podem chamar-se movimentos, mutações, fluxões de quantidades) ou bem de
qualquer quantidade finita proporcional a ditas velocidades”(Principia, II, Lema
II). Portanto, momentos são esses dois elementos citados produzidos em um
instante de tempo e determiná-los é o objetivo do método das fluxões.
Há dois últimos aspectos importantes da noção de momento que
devemos apresentar. O primeiro é a interpretação que coloca os momentos
como as quantidades com as quais os movimentos se iniciam ou finalizam.
Porém, não se deve concebê-los como quantidades finitas, i. é,
desconsideram-se as magnitudes dos momentos, pois são quantidade que se
localizam entre o nada e uma quantidade finita4 e, assim, são compreendidos
como princípios que geram quantidades finitas (Analista,§4). O outro aspecto
refere-se à possibilidade de se determinar momentos de outras ordens. Isso
significa que se pode obter uma nova fluxão instantânea a partir de uma
primeira. O que possibilita isso é o tempo matemático, pois ele é comum a
todos os movimentos a ponto de ser reutilizado na obtenção da velocidade
instantânea com que um primeiro momento é produzido. Tal velocidade
instantânea constitui-se um momento de um primeiro momento. No entanto,
esse processo pode ir ao infinito: “...das citadas fluxões existem outras fluxões,
sendo estas fluxões das fluxões chamadas de segundas fluxões. E as fluxões
dessas segundas fluxões são chamadas de terceiras fluxões, e assim
sucessivamente, quarta, quinta, sexta etc., ad infinitum” (Analista, §4).

como os Aumentos dos Fluentes gerados em partes iguais, mas infinitamente pequenas, do
Tempo” (Newton. De quadraturam curvarum. Publicado por: Whiteside, 1964, vol.1.p.141)
4
Newton não considera os momentos como quantidades finitas geradas em um tempo
infinitamente pequeno, provavelmente, para evitar que as quantidades matemáticas sejam
compostas de indivisíveis: “...como a hipótese dos indivisíveis parece um tanto obscura (...)
optei por reduzir as demonstrações (...) à primeiras e últimas somas e razões das quantidades
nascentes e evanescentes...” (Principia.I.I.escólio).
Alex Calazans 212

II

Com essa apresentação (sucinta) podemos tratar agora da controvérsia


de Berkeley que é dirigida, principalmente, aos momentos. Para mostrar como
eles são problemáticos e afetam rigor do método das fluxões, percorrem-se
dois caminhos. Um deles refere-se à questão de quão inteligível é o conceito
de momento. O outro caminho incide sobre as demonstrações, baseados nos
momentos.
Quanto à inteligibilidade, os momentos tornam-se suspeitos em virtude
da maneira como as faculdades mentais estruturam-se e têm acesso aos
conteúdos. As faculdades em questão são os sentidos e a imaginação,
conforme se observa na seguinte afirmação de Berkeley sobre tais faculdades
em relação com os momentos.

“...assim como nossos sentidos, ficam exauridos e intrigados com a percepção de


objetos extremamente diminutos, também a imaginação, faculdade que deriva dos
sentidos, fica sumamente exaurida e intrigada para conceber idéias claras das
partículas mais diminutas do tempo, ou dos ínfimos incrementos aí gerados; e muito
mais ainda para compreender os momentos, ou incrementos das quantidades
fluentes em statu nascenti, em sua origem ou começo primeiríssimos da existência,
antes de se tornarem partículas finitas” (Analista.§4)5.

Aqui, há um duplo comprometimento apresentado. Um deles, é


considerar os sentidos como a faculdade que primeiro acessa os conteúdos
mentais, ou seja, há uma seqüência para obtenção dos conteúdos, tendo nos
sentidos o ponto de partida. Em segundo lugar, trata-se do vínculo entre tais
faculdades. Entende-se que a imaginação “deriva” dos sentidos, supostamente,
porque quem fornece o conteúdo para imaginação é a própria faculdade dos
sentidos. Desse modo, sem o vínculo a imaginação não atuaria ou, até mesmo,
não existiria. Assim, o vínculo não só possibilita a atuação da própria
imaginação, como, também a limita a produzir objetos que nunca ultrapassarão
as características dos objetos fornecidos pelos sentidos. Imaginar é trabalhar
com o que é primeiramente sensível. Assim, Berkeley atribui somente a essas
duas faculdades o papel de determinar se algo é compreensível ou não.

5
A sublinha é minha.
A crítica de Berkeley ao método das fluxões de Newton 213

É nesse sentido que os momentos são considerados como conceitos


ininteligíveis; eles não resistem ao critério apresentado. Como os momentos
são quantidades sem magnitudes, geradas em um fluxo temporal infinitamente
pequeno, assim, encontram-se além da própria capacidade de percepção dos
sentidos. Por outro lado, também, nem mesmo a imaginação fornece
inteligibilidade a esses objetos, porque isso está fora de sua capacidade. O
conteúdo que é imaginado incide no mesmo campo do conteúdo dos sentidos:
o do finito. Dessa maneira, com tal critério, tudo o que diz respeito ao conceito
de momento fica inteiramente rejeitado. Por exemplo, recusa-se o processo de
se obter fluxões instantânea de outra, ou momento de outro momento ad
infinitum. Pois, a “...celeridade incipiente de uma celeridade incipiente, o
aumento nascente de um aumento nascente, isto é, de uma coisa que não tem
magnitude, (...), ao menos que eu me engane, se revelará impossível...”
(Analista,§4). Logo, enquadrar-se à percepção, tanto dos sentidos quanto da
imaginação, é a base do que Berkeley, entende, n’O Analista, como algo
compreensível.

III

Passemos à recusa de Berkeley às demonstrações que se baseiam


nessa teoria de momentos. O que Newton demonstrou, como sendo o
momento gerado pelo movimento nascente de duas quantidades fluentes
multiplicadas, enquadra-se inevitavelmente na problematização berkeleyana.
No Lema II, Livro II dos Principia, uma quantidade fluente A multiplicada por
outra B produz o retângulo AB. Como, em um movimento nascente, o lado A
possui um momento a e o lado B possui o momento b, Newton apresenta em
sua demonstração que o incremento produzido desse retângulo é
compreendido como: aB + bA6. O problema que Berkeley encontra na

6
1ª Demonstração: “Um retângulo, como AB, aumentando por um fluxo contínuo, quando
ainda faltava dos lados A e B metade de seus momentos (½)a e (½)b, era A – (½)a vezes B –
(½)b, ou AB – (½) aB – (½)bA + (¼)ab; todavia, assim que os lados A e B são aumentados
pelos outros meio momentos, o retângulo transforma-se em A + (½)a vezes B + (½)b, ou AB
+ (½)aB + (½)bA + (¼)ab. Subtraia-se desse retângulo o retângulo anterior e restará o excesso
aB + bA. Portanto, com a totalidade dos incrementos a e b dos lados gera-se o incremento aB
+ bA do retângulo. Q.E.D.” (Principia. II, II).
Alex Calazans 214

obtenção desse resultado, é Newton considerar os momentos, no início da


demonstração, como uma quantidade deficiente (como faltando ½ a e ½ b),
justo em um movimento que nasce ou que aumenta a partir de um limite
determinado. Isso é uma manifesta contradição, pois o que se pretende é
encontrar a fluxão instantânea de um movimento nascente e não evanescente.
O procedimento da demonstração não justifica, segundo Berkeley, esse
tratamento negativo do conceito de fluxão instantânea; muito menos o
tratamento de momentos como quantidades finitas que podem ser dividias em
partes, ou seja, tratar os momentos como “½ a e ½ b”, algo considerado
inteiramente estranho. “Afirma-se que a magnitude dos momentos não é levada
em conta, mas supõe-se que esses mesmos momentos se dividam em partes.
Isso não é fácil de conceber...” (Analista, §11). O que Berkeley está apontando
é a necessidade de Newton dispensar ab, porque são quantidades “variáveis e
indeterminadas” (Principia, Lema II, Livro II). Isto é, por se tratar de duas
quantidades sem magnitude, assim, está implícito a falta de possibilidade de
determiná-las.

“Nada se pode fazer enquanto não se descarta a quantidade ab. Para tanto, a noção
das fluxões é alterada e iluminada sob formas diversas: aspectos que deveriam ser
claros como princípios fundamentais tornam-se confusos, e termos que deveriam ser
usados de maneira constante torna-se ambíguos” (Analista, §10).

Portanto, segundo Berkeley, Newton ao tentar descartar ab realiza um


procedimento que não condiz com uma verdadeira demonstração, porque
muda suposições iniciais aceitas, a saber: primeiro, o movimento como
nascendo; segundo, que os momentos não são quantidades finitas ( algo que
contrasta quando Newton divide-os na metade, característica aceita somente
para as magnitudes finitas).
No entanto, Berkeley apresenta a demonstração que realmente
considera verdadeira. Isto é, se tratarmos o movimento como nascente, sem
considerar alguma quantidade como faltando, muito menos dividida pela
metade, mas sim como sendo acrescentada, obteremos como momento o
seguinte resultado: aB + bA + ab7. Aqui não há contradição, pois “...isso é

7
2ª Demonstração: “Mas está claro que o método direto e verdadeiro para obter o momento
ou incremento do retângulo AB é considerar os lados aumentados por seu incrementos inteiros
A crítica de Berkeley ao método das fluxões de Newton 215

universalmente válido para as quantidades a e b sejam elas o que forem,


grandes ou pequenas, finitas ou infinitesimais, incrementos, momentos ou
velocidades” (Analista, §9). Aqui, portanto, o que é interessante ser observado,
é a aceitação de Berkeley de um possível padrão demonstrativo.
Dessa forma, vemos que há um vínculo da crítica à inteligibilidade dos
momentos com a crítica ao rigor demonstrativo. Isso acontece quando Berkeley
apresenta que é a necessidade de se descartar ab que leva às contradições. É
no próprio conceito de momento que Newton se baseia e se justifica para
descartar ab, ou seja, no conceito que considera o momento como uma
quantidade indeterminada; como princípio nascente de quantidades finitas, por
se localizar entre o nada e uma quantidade finita. Assim, objetos ininteligíveis,
como os momentos, só produziram um conceito impreciso; e os passos
baseados em tal conceito só promovem erros e contradições em uma
demonstração.
Isso basta para esclarecer as razões de Berkeley para suspeitar do rigor
do método das fluxões. É aqui que surge a questão a ser resolvida. Podemos
reformulá-la, desmembrando-a em outras questões, da seguinte maneira: como
devemos compreender o vínculo entre sentidos e imaginação ao ponto de
impor restrições aos conceitos matemáticos? Como se sustenta que realmente
há esse vínculo, visto que n’O Analista não se mostra isso adequadamente?
Por outro lado, vimos Berkeley sugerir a aceitação de uma demonstração
geométrica, assim, cabe-nos questionar: se o padrão de inteligibilidade é o
sensível, qual é a geometria que resiste a esse padrão? Ou melhor, ao se
apegar ao sensível, que se restringe ao particular e ao singular, o padrão de
inteligibilidade não estaria eliminando a própria possibilidade da demonstração
geométrica, que necessariamente refere-se ao universal?

e multiplicá-los um pelo outro, A + a vezes B + b, cujo produto AB + aB + bA + ab será o


retângulo aumentado; donde, se subtrairmos AB, o resto aB + bA + ab será o verdadeiro
incremento do retângulo, ultrapassando o obtido pelo método anterior, ilegítimo e indireto, na
quantidade ab”. (Analista, §9).
Alex Calazans 216

IV

Uma possível resposta para essas questões pode ser formulada ao se


compreender qual o objeto do conhecimento humano apresentado no Tratado
sobre os Princípios do Conhecimento Humano. Nessa obra (anterior a’O
Analista) sustenta-se que as “idéias” percebidas são o único objeto que produz
conhecimento. Como isso é possível? Para Berkeley, há três possíveis origens
para nossas idéias, isto é, tudo o que é idéia diz respeito somente ao conteúdo
fornecido por estas três maneiras (Pri.§1). A primeira, é recebê-las impressas
de forma atual nos sentidos (como: cor, cheiro e vários sons). A segunda, trata-
se das idéias que sentimos a partir das paixões e operações do espírito (são
excitações como amor, alegria e tristeza, que se sentem quando as sensações
da primeira maneira atingem o espírito). E, a terceira e última maneira, são as
idéias que surgem com o auxílio da memória e da imaginação ao compor,
dividir ou representar as idéias surgidas pelas outras maneiras. São somente
esses três tipos de origem das idéias que Berkeley aceita, havendo, todavia,
entre elas uma ordem para que as idéias atinjam o espírito, onde o ponto
inicial de todas são os sentidos.
Contudo, como algo pode vir a ser considerado um genuíno objeto do
conhecimento na filosofia berkeleyana? Berkeley argumenta contra a
possibilidade de haver um mundo independente do que seja percebido pelos
sentidos. “E que percebemos nós além das nossas próprias idéias ou
sensações? E não repugna admitir que alguma ou um conjunto delas possa
existir impercebido?” (Pri.§4). Ao apontar essa impossibilidade,
necessariamente, identifica-se a idéia como o objeto do conhecimento. Todo o
conteúdo que pode ser conhecido não vai além das percepções ou das idéias
adquiridas pelos três modos acima citados; isso resulta, obrigatoriamente na
negação de idéias ou conhecimentos inatos. Nada surge na mente sem que
tenha uma relação com a percepção obtida por algum dos órgãos dos sentidos.
Assim, falar de algo, inclusive sobre a existência, que não possua o respaldo
no fato de ser percebido é, para Berkeley, falar coisas sem sentido algum. “O
que se tem dito da existência absoluta de coisas impensáveis sem alguma
relação com o seu ser–percebidas parece perfeitamente ininteligível” (Pri.§3).
A crítica de Berkeley ao método das fluxões de Newton 217

Fica evidente que pensar é possuir idéias e possuir idéias é, antes de tudo,
possuir percepções. O objeto do conhecimento não pode possuir outra forma
que não seja idéia. É esse o significado da doutrina contida na expressão latina
do esse est percipi,8 “ser é ser percebido”(Idem).
Berkeley, nos Princípios, também apresenta o vínculo entre os sentidos
e a imaginação ao acessarem o objeto do conhecimento. Como se consegue
sustentar esse vínculo? Ele observa que todas as idéias que a imaginação
produz podem de alguma maneira se reduzir a uma idéia vinda pelos sentidos.

“...por mim tenho realmente a faculdade de imaginar ou representar-me idéias de


coisas particulares e de variamente as compor e dividir. Posso imaginar um homem
bicípite ou a parte superior de um homem ligada a um corpo de cavalo; posso
considerar a mão, os olhos, o nariz separado do resto do corpo. Mas olho e mão
imaginados terão forma e cor particulares. Igual mente a idéia de homem imaginado
tem de ser de homem branco ou preto ou moreno, direito, curvado, alto, baixo ou
mediano” (Pri.Int.§10)

Berkeley sustenta a sua tese ao indicar que os exemplos produzidos,


tanto pela composição, como pela separação, sempre possuem algo que é
particularmente percebido. Mesmo a composição de idéias, como no exemplo
da ligação da parte de um corpo humano ao de um cavalo, não retira a
característica de que cada parte ligada pode realmente ser percebida pelos
sentidos. Portanto, a imaginação necessariamente deve atuar com o que é
sensível.
Voltando à matemática, para Berkeley, a geometria deve possuir suas
raízes no esse est percipi por encerrar pretensos objetos do conhecimento. E,
é com base nas idéias percebidas que, nos Princípios, rejeita-se a divisibilidade
infinita da extensão (infinito potencial) e a extensão como contendo infinitas
partes (infinito atual). Quanto à extensão, o que unicamente se percebe são
quantidades finitas e isso é percorrer uma quantidade enumerável de partes.
Todavia, qualquer interpretação de infinito considera a extensão como
detentora de quantidades inumerável de partes, o que é uma manifesta
contradição (Pri.§124). O que está por trás da recusa desses infinitos, é evitar
que a geometria seja uma ciência da abstração: proposta da doutrina das

8
Aqui não nego que Berkeley, nos Princípios, se compromete com uma ontologia ao expressar
essa máxima. Porém, suspendo por enquanto essa interpretação e retenho o critério de
Alex Calazans 218

idéias abstratas. Berkeley apresenta dois tipos de abstração pertencentes a


essa doutrina. A primeira, trata-se da separação de qualidades sensíveis que
não são realmente encontradas juntas. A outra, diz respeito a possibilidade de
formar noções ou idéias gerais abstratas das coisas (Pri.Int.§10). O
matemático, baseando-se nessa doutrina, poderia “...convencer-se (pense-se o
que se pensar dos sentidos) de que a extensão em abstrato é infinitamente
divisível” (Pri.§125). Berkeley, rejeita terminantemente essa doutrina, porque
ela contradiz o esse est percipi.
A noção de universalidade que estamos procurando, para permitir as
demonstrações, poderia ser fornecida por uma idéia geral abstrata. Porém,
Berkeley admite que se pode construir o universal sem apelar à doutrina das
idéias abstratas. A resposta encontra-se na relação que se pode fazer entre os
particulares. Uma idéia particular torna-se universal quando nela existem as
propriedades que podem ser relacionadas a todas as possíveis idéias
particulares com iguais propriedades. Assim, é da relação essas idéias que a
universalidade surge e não da apreensão de idéias abstratas independentes e
isoladas dos particulares. Dessa maneira, os particulares atuam como
representativos de outras idéias particulares9. Há, para Berkeley, assim, idéias
gerais, porém não abstratas. É com isso que se chegamos à universidade
necessária às demonstrações. Com a relação entre os objetos geométricos
particulares é que se estabelece a universalidade das demonstrações, ou seja,
uma linha é usada na demonstração como representativa de outras, incluindo
maiores. “por outras palavras, o geômetra abstrai da sua grandeza – sem
implicar que ele forme uma idéia abstrata, mas apenas que ele não cura da
grandeza particular...” (Pri.§126). A linha é vista como um símbolo para outras
linhas, o que nos leva a concluir, que nos Princípios o objeto geométrico
constitui-se não somente em atualmente percebido mas, também, em possíveis
percebidos.

inteligibilidade que se faz ai presente.


9
Esse processo acontece semelhantemente na linguagem: “...se quisermos atribuir sentido às
nossas palavras e falar somente do que podemos conceber, concordaremos – creio eu – que
uma idéia particular (...) torna-se geral quando representa todas as idéias particulares da
mesma espécie” (Pri.Int.§12).
A crítica de Berkeley ao método das fluxões de Newton 219

Podemos facilmente assumir que toda essa filosofia da matemática dos


Princípios conservou-se n’O Analista, o que resolveria definitivamente as
questões propostas? Há uma dificuldade muito grande para fazer isso, porque
nos Princípios a filosofia da matemática está comprometida como o esse est
percipi. É sabido, que nessa máxima, além do critério de inteligibilidade,
Berkeley está apresentando uma ontologia para as idéias. A existência para
uma idéia consiste em ser percebida. Em contrapartida, n’O Analista, não se
apresenta o critério de inteligibilidade vinculado a um comprometimento
ontológico. Assim, como podemos resolver esse impasse para permitir a
aproximação das filosofias dos dois textos e solucionar a questão proposta?
Essa é a problemática que ainda está em fase de pesquisa. No entanto, no
decorrer das investigações, tentaremos mostrar que o impasse somente
poderá ser resolvido quando compreendermos como a exposição do critério de
inteligibilidade, n’O Analista, assume, antes de tudo, um caráter estratégico:
para criticar a crença, de outros matemáticos, de que a inteligibilidade das
quantidades infinitamente pequenas é garantida primeiramente pela
imaginação. E isso será melhor sustentado com a investigação da
possibilidade de uma postura instrumentalista da matemática n’O Analista.

CONCLUSÃO

Ao levantarmos a crítica berkeleiana n’O Analista ao método das fluxões


– tanto à inteligibilidade dos momentos quanto ao rigor demonstrativo – nos
deparamos com a questão de quais eram as considerações filosóficas para as
demonstrações matemáticas que estavam sustentando tal crítica. No entanto,
nos referimos aos Princípios como um recurso para responder essa questão. E
ficou estabelecido que na doutrina do “ser é ser percebido” encontra-se a
fundamentação de como a imaginação deriva dos sentidos. Pois, essa
faculdade, mesmo sendo ativa, sempre produz idéias que necessariamente
possuem características do que é sensível. Nada do que é imaginado vai além
da finitude do conteúdo sensível, o que impede, segundo Berkeley, colocar a
imaginação como a faculdade que teria o papel de fornecer aos momentos a
inteligibilidade. Assim, apegando-se ao sensível, Berkeley tenta excluir da
Alex Calazans 220

matemática a noção de infinito e qualquer outra noção que possua as


características de idéias abstratas pertencente à doutrina da abstração.
É desse ponto de vista que os conhecimentos da matemática devem se
construir. No entanto, evita-se a impossibilidade da demonstração geométrica –
no sentido da demonstração ser algo universalizado ou generalizado – com a
apresentação de um conceito de universalidade, mesmo mediante critérios
sensíveis. Isto é, Berkeley apresenta a universalidade como conseqüência da
relação entre os particulares. Um particular torna-se universal quando contém
as propriedades que podem referir-se a todos os demais na relação. Assim,
surge o símbolo ou termo geral. Na geometria esse símbolo é usado para
fornecer o caráter de universalização da demonstração. Um linha nesse
sentido, torna-se não só representado do que poder ser atualmente percebido
mas também do que pode ser possivelmente percebido. No entanto, o conceito
de relação, necessário para o conceito de universalidade e indispensável para
qualquer demonstração, é apresentado nos Princípios. Vimos que aproximar os
dois texto de Berkeley não se mostra uma tarefa fácil e imediata, pois cabe-
nos ainda saber da postura de Berkeley diante da problemática ontológica n’O
Analista. Essa é a fase que ainda está em andamento.

BIBLIOGRAFIA

BERKELEY, G. (1992) ‘De Motu’ and ‘The Analyst’ [ed., with commentary,
Douglas M. Jesseph] Dordrecht and Boston.

BERKELEY, G. (1989[1710]) Tratado sobre os Princípios do


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Natural Philosophy [Trad. I. B. Cohen and A. Whitman; white a guide
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A crítica de Berkeley ao método das fluxões de Newton 221

NEWTON, I. (1979) Princípios Matemáticos; Óptica; O peso e os equilíbrio


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São Paulo: Abril Cultura (Col. Os Pensadores).

WHITESIDE, D. T. (1964) (ed.) The Mathematical Works of Isaac Newton.


2 vols. New York/London: Johnson Reprint Corporation.
A relação entre inferência e conexão necessária no Tratado da
Natureza Humana de David Hume

Claudiney José de Sousa


Mestrando em Filosofia/UFPR

Resumo: Neste breve artigo pretendo discutir o problema da causalidade


em Hume a partir de dois temas centrais do primeiro livro do Tratado: a
inferência e a conexão necessária. Neste sentido, o artigo visa,
modestamente, analisar em que medida estes dois temas estão
intimamente relacionados por conta do mesmo tipo de necessidade. Se
interdependem na medida em que ao analisar o problema da inferência –
visando resolver o problema da conexão necessária – Hume acaba
descobrindo que o fundamento da mesmainferência é a própria transição
resultante da união habitual das idéias em nossa mente, que nada mais é
que a própria conexão necessária.
Palavras-chave: causalidade, inferência, conexão necessária, hábito,
crença, qualidade.

Na terceira parte do Tratado, ao se perguntar pelo fundamento da


causalidade, Hume analisa um exemplo da relação de causa e efeito e observa
que a hipótese de que a idéia de causalidade talvez pudesse derivar das
qualidades dos objetos, deve ser imediatamente descartada (Cf. T.I.iii.2, p. 75).
Não sendo, segundo ele, uma qualidade particular dos objetos então ela deve
derivar de relações que possam ser consideradas essenciais à causalidade tais
como a contigüidade espaço-temporal dos objetos e a sucessão, ou seja, a
prioridade temporal da causa em relação ao efeito. No entanto, estas duas
relações, embora essenciais à causalidade, não nos dão uma idéia completa
da mesma, ou seja, embora sejam “condições necessárias”, não são
“condições suficientes” para a exata compreensão da idéia que ele está
investigando1 (Cf. T.I.iii.2, p. 75-76). Segundo Hume,

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.

1
Segundo Dicker, “Hume pretende fazer aquilo que os filósofos contemporâneos chamam de
uma análise da causalidade: uma definição que especifique, de maneira não circular, todas
aquelas afirmações que devem ser verdadeiras para uma relação causal ser obtida, ou que dê
A relação entre inferência e conexão necessária 223

um objeto pode ser contíguo e anterior a outro, sem ser considerado como causa
dele. Há uma CONEXÃO NECESSÁRIA que deve ser levada em consideração e que
é uma relação muito mais importante [ou mais abrangente] do que aquelas outras
duas acima mencionadas (T.I.iii.2. p. 77; maiúsculas e itálicos do autor).

Sendo assim, precisaríamos passar então a investigar a natureza dessa


conexão e colocar a questão pela sua origem ou a questão pela impressão da
qual ela deriva, já que ela parece poder fornecer-nos uma resposta última a
respeito da idéia de causalidade. No entanto, Hume percebe a abrangência do
tema e a problemática em que se envolve com a análise de tal idéia e acredita
que talvez possa minimizar o problema analisando, antes, outras questões que
possam conduzi-lo com mais segurança a esse tópico fundamental. Abandona,
portanto, a investigação direta sobre a natureza dessa conexão, desdobrando o
problema a respeito da necessidade em dois outros problemas contidos nas
seguintes questões:

[i] Por que razão nós afirmamos ser necessário que cada coisa, cuja existência tenha
um começo, deva também ter uma causa? [e ii] Por que nós concluímos que tais
causas particulares devem necessariamente ter tais efeitos particulares; e qual é a
natureza da inferência que fazemos de um ao outro e da crença que nós depositamos
nela? (T.I.iii.2 p. 78; itálicos do autor).

Estas duas questões são, em última instância, duas maneiras distintas


de resolver um e mesmo problema, qual seja, o de esclarecer o fundamento da
idéia de conexão necessária. A segunda questão, como afirma Barra, enquanto
refere-se ao problema da indução, se apresenta apenas como uma possível
solução – posteriormente descartada – na tentativa de resolver a primeira
questão, que diz respeito ao problema da causalidade2 (Cf. Barra, 2000, p. 86).
Hume inclusive destaca o conceito de necessidade em ambas as questões,
como se elas fossem apenas desdobramentos de um problema maior. Mas
observe que outros dois conceitos também são destacados, a saber, inferência

as condições necessária e suficiente para a afirmação de que X causa Y” (Dicker, 1998, p. 99;
itálicos do autor).
2
Vale ressaltar que minha análise estará, em grande medida, fundamentada na concepção de
Barra, segundo a qual estas duas questões colocadas por Hume, dizem respeito,
respectivamente, aos problemas da causalidade e da indução. Acredito que a sugestão de
Barra a esse respeito é bastante clara e de fato resolve alguns problemas de interpretação
acerca das ásperas discussões da parte III do Tratado. Segundo Barra, “enquanto o primeiro
diz respeito às condições de existência das coisas [problema ontológico], o segundo diz
respeito às suas condições do conhecimento (crenças e inferências) [problema
epistemológico]” (Barra, 2002, p. 85).
Claudiney José de Sousa 224

e crença, e isso sugere que a exata compreensão da conexão necessária


dependerá da análise anterior destes conceitos. O próprio autor afirma que a
investigação do tema da inferência é relevante porque talvez ele acabe
revelando que “é a conexão necessária que depende da inferência em lugar de
a inferência depender da conexão necessária” (T.I.iii.6. p. 88).
Hume aborda rapidamente e parcialmente a primeira questão (ou
problema da causalidade) – apenas na seção 3 da parte III do Tratado –
limitando-se a refutar argumentos de alguns filósofos que visam legitimar a
necessidade da causa3, passando logo em seguida, à análise da segunda
questão relativa à inferência causal, ou problema da indução, ao qual farei uma
rápida menção, com o objetivo de discutir alguns pontos que esclarecem o
problema referente à idéia de conexão necessária.
Uma das primeiras constatações de Hume a respeito dessa discussão é
a de que a inferência que fazemos da causa ao efeito não deriva do exame de
seus objetos nem de sua essência, ou seja, “não há nenhum objeto que
implique a existência de outro se considerarmos esses objetos em si mesmos e
nunca olharmos para além das idéias que formamos deles” (T.I.iii.6, p. 86-87 ).
Então, é somente pela experiência que podemos inferir a existência de um
objeto da existência de outro. A experiência revela-nos que em todos os casos
de conjunção entre causa e efeito particulares, os dois objetos são percebidos
pelos sentidos e recordados e que, quando raciocinamos, apenas um é
percebido ou lembrado e o outro é suprido pela experiência.
Com isso, Hume acaba também por descobrir uma nova relação
essencial à causa e efeito. Além da contigüidade e sucessão, a conjunção
constante também se apresenta enquanto estritamente essencial para a
constituição desta relação. No entanto, esta nova relação não implica nada
além do fato de que “objetos semelhantes têm sempre sido colocados em
iguais relações de contigüidade e sucessão” (T.I.iii.6. p. 88). Esta multiplicidade
de casos semelhantes que percebemos na conjunção constante de objetos não

3
Hume rejeita, por exemplo: i) as objeções de Hobbes de que deve haver uma causa, capaz
de determinar o ponto do espaço e do tempo em que a coisa começa a existir; ii) a concepção
de Clarke, segundo a qual, sem uma causa, a coisa teria de produzir-se a si própria e iii) as
A relação entre inferência e conexão necessária 225

nos revela nenhuma idéia nova como é a de conexão necessária que estamos
investigando.
Além disso, é preciso saber ainda, em que está fundada a própria
inferência a partir da experiência, se no entendimento ou na imaginação, ou em
outras palavras, saber se a inferência pode ser realizada pela razão ou por
uma associação e relação de idéias. Segundo o autor, “se fosse a razão, ela
procederia sob o princípio de que aqueles casos de que não tivemos
experiência devem se assemelhar àqueles casos de que tivemos experiência, e
que o curso da natureza continua sempre uniformemente o mesmo (T.I.iii.6 p.
89; itálicos do autor). No entanto, os argumentos para fundamentar esta
proposição (sejam eles demonstrativos ou prováveis) nos conduzem a uma
circularidade. Sendo assim, a única alternativa seria a de que a inferência é
produzida pela imaginação ou associação de idéias.
Dessa forma a imputação de regularidade à natureza depende
intrinsecamente das operações da imaginação. Trata-se de uma relação
naturalmente introduzida pelos próprios objetos. Segundo Hume, o que ocorre
é que existem algumas relações ou associações que nos fazem passar
naturalmente de um objeto a outro, mesmo sem haver uma razão para a
transição. Assim, “podemos estabelecer como regra geral que, sempre que a
mente, constante e uniformemente, faz uma transição sem nenhuma razão, ela
está sendo influenciada por estas relações [semelhança, contigüidade e causa
e efeito] (T.I.iii.6, p. 92; itálico meu). Então, a passagem da idéia ou impressão
de um objeto à idéia de outro (inferência) é determinada por princípios que
produzem a união dessas idéias na imaginação (conexão).

Se as idéias não tivessem mais união na fantasia do que os objetos parecem ter no
entendimento, nunca poderíamos realizar uma inferência das causas aos efeitos, nem
poderíamos depositar nossa crença em qualquer questão de fato. A inferência,
portanto, depende unicamente da união das idéias (T.I.iii.6, p. 92).

A experiência da conjunção constante cria em nós uma disposição para


passar de um objeto a outro, mas a criação desta disposição não é produto da
razão ou do entendimento, mas da imaginação. É em razão desta união na

afirmações de Locke de que, se não houvesse causa, a coisa teria de ser produzida pelo nada
(Cf. T.I.iii. 2-3, p. 79-82).
Claudiney José de Sousa 226

imaginação que, nas relações de causa e efeito partindo da experiência,


concluímos algo que ultrapassa os casos de que tivemos experiência. Somente
a imaginação poderia ampliar nossa experiência passada na direção da
experiência futura. Por isso Hume pode concluir que,

Ainda que a causalidade seja uma relação filosófica, que implica contigüidade,
sucessão e conjunção constante, é apenas enquanto relação natural, que produz
uma união entre nossas idéias, que somos capazes de raciocinar sobre ela ou extrair
dela alguma inferência (T. I.iii.6. p. 94; itálicos do autor).

Mas como afirma Barra, “os raciocínios de causa e efeito não envolvem
apenas a concepção imaginária de um objeto ausente aos sentidos. Além de
concebe-los (...) é preciso também acreditar na sua existência” (Barra, 2000, p.
89), ou seja, é preciso concebe-los uma maneira diferente, mais intensa, forte e
vivaz. É nisto que consiste a crença; ela é uma “IDÉIA VIVAZ RELACIONADA
OU ASSOCIADA A UMA IMPRESSÃO PRESENTE” (T.I.iii.7, p. 96).
Por fim, é preciso considerar que, embora esta força e vivacidade da
crença lhe sejam transmitidas pela impressão dos sentidos, ela depende do
COSTUME ou HÁBITO para ser produzida, pois, somente depois de termos
observado a mesma impressão em circunstâncias passadas, aparecendo
constantemente conjugada a outra impressão que a sucede ou que a antecede,
é que podemos dar origem a este sentimento que é a crença. Dessa forma,
somente o hábito poderia nos levar a fixar nossa crença num evento futuro,
pois, mesmo após a observação da conjunção constante de objetos, não temos
razão para fazer a inferência. Ele é, portanto, o único princípio de determinação
dos eventos futuros.
No entanto, conforme afirma Barra, “o hábito somente pode oferecer
uma solução promissora para o problema da indução se puder também
fundamentar a idéia em que se baseiam todas as nossas expectativas acerca
da regularidade da natureza” (Barra 2000, p. 91). Dessa forma nos envolvemos
propriamente com o problema da idéia de conexão necessária, uma vez que,
somente ela pode fornecer uma base sólida para tais expectativas.
Investiguemos, portanto, esta idéia, com o intuído de esclarecermos este
problema.
A relação entre inferência e conexão necessária 227

Fiel a seu método de análise, o autor acredita que, se temos essa idéia
de necessidade, devemos investigar, em um caso qualquer de causa e efeito, a
impressão correspondente a essa idéia. No entanto, nas relações de causa e
efeito percebemos apenas contigüidade e sucessão entre os objetos e nunca
uma terceira relação ou conexão necessária entre eles. Da mesma forma, a
observação de vários exemplos semelhantes em relações semelhantes de
contigüidade e sucessão não ajuda muito na descoberta da conexão
necessária, pois, “a reflexão sobre várias instâncias apenas repete os
mesmos objetos e, portanto, nunca pode fazer surgir uma nova idéia”
(T.I.iii.14, p. 155), que é o que estamos procurando.
No entanto, embora a repetição não gere uma nova idéia, ela produz
uma nova impressão que, conseqüentemente, deve ter uma idéia
correspondente A esta “impressão nova” deve corresponder também uma
“idéia nova”.

Depois de uma repetição freqüente, descubro que, quando um dos objetos aparece, a
mente é determinada pelo costume a considerar seu acompanhante usual e a
considera-lo de um modo mais intenso, por causa de sua relação com o primeiro
objeto. É esta impressão, então, ou determinação, que me fornece a idéia de
necessidade (T.I.iii.14, p. 156; itálicos do autor)

Então, esta determinação é que promove a inferência da causa ao


efeito, ou seja, fazemos uma passagem fácil em decorrência desta
determinação. E o mais importante, esta é a mesma determinação responsável
pela idéia de conexão necessária que estamos investigando.
Com isto percebemos que ambos os problemas, da causalidade e da
indução, parecem desembocar em uma única resposta. Ambos são resultado
desta determinação da mente, ou nova impressão gerada pelo costume. É por
este motivo que Hume se priva de uma investigação direta da impressão
correspondente à idéia de necessidade nas primeiras seções da parte III do
Tratado. Era preciso investigar a fundo uma série de outras questões que
pudessem nos conduzir com segurança ao tema da causalidade. Dessa forma,
Hume espera mostrar que há uma cumplicidade ou interdependência entre
Claudiney José de Sousa 228

causalidade e indução4. A explicação da idéia de necessidade depende de uma


compreensão de como se dá a inferência. Em suma, era preciso compreender
primeiro a inferência baseada na relação para somente depois compreender a
própria relação de causa e efeito (Cf. T.I.iii.14, p.169). Além disso, podemos
concluir que a resposta para ambos os problemas, da causalidade e da
indução, surge da experiência como afirma Barra.

Se a partir da experiência pudéssemos inferir indutivamente regularidades


necessárias entre duas idéias, isso nos obrigaria, então, a conecta-las de modo
necessário mediante uma relação de causa e efeito, pois, não temos nenhuma idéia
de necessidade que não seja derivada dessa relação. Todavia, por outro lado, não
temos nenhuma idéia de conexão necessária que não seja ela mesma também
derivada da experiência (Barra, 2000, p. 86).

A partir daqui nos deparamos com um novo problema: já vimos que a


causalidade não é uma qualidade particular dos objetos e também que a
análise dela enquanto mantendo as relações de contigüidade, sucessão e
conjunção constante, não nos ajudou a esclarecer o problema da conexão
necessária. Hume acredita ser preciso, então, proceder a uma investigação
sobre a própria noção de poder e eficácia5 atribuídos à relação de causa e
efeito. Tema que tem intrigado muitos filósofos antigos e modernos por ser,
como afirma o próprio Hume, um dos problemas centrais da filosofia.
No entanto, não é meu objetivo fazer aqui uma reconstrução exaustiva a
respeito da opinião destes filósofos quanto à origem da idéia de poder. Basta
lembrar apenas que Hume rejeita: i) a explicação de Locke de que esta idéia
seria obtida raciocinando-se sobre a observação das diversas novas produções
na matéria; ii) as propostas da filosofia Antiga e Medieval, que apelam para
princípios tais como formas substanciais, matéria etc. que não se reduzem a
nenhuma propriedade conhecida dos corpos, sendo totalmente ininteligíveis e
inexplicáveis; iii) a tese cartesiana de que, como a matéria é destituída de

4
Esta seria uma das razões para não se pensar que Hume estabelece uma divisão, em sua
discussão sobre a causalidade, entre uma fase puramente negativa e outra positiva. Segundo
Smith, “uma vez mais se manifesta que não cabe distinguir, na economia interna do texto
humeano, entre uma parte negativa e cética, baseada no princípio da cópia, e outra positiva e
naturalista, baseada nas associações da imaginação ou instintos naturais” (Smith, 1995, p. 97).
5
Cabe lembrar que Hume inicia esta análise esclarecendo que “os termos eficácia, ação,
poder, força, energia, necessidade, conexão e qualidade produtiva são quase sinônimos”. Se
é assim, não se pode definir qualquer deles por meio dos demais, como fazem erroneamente
alguns filósofos.
A relação entre inferência e conexão necessária 229

poder, Deus seria a fonte última e imediata de todo o poder; iv) a hipótese dos
newtonianos que sustentam a idéia da chamada eficácia das causas segundas,
atribuindo “à matéria um poder e energia derivados mais reais” (T.I.iii.14, p.
193); v) a concepção de que a idéia de poder provenha da observação de
casos individuais das operações da mente sobre os corpos ou sobre as idéias
ou de que talvez tenhamos uma idéia geral de poder (Cf. T.I.iii.14. p. 157-162).
Segundo Hume, nas explicações sobre a idéia de poder dadas acima, as
expressões “força”, “poder” ou “eficácia”, acabaram perdendo seu significado
verdadeiro ao serem erroneamente aplicadas, por isso, precisamos proceder a
uma nova aplicação destas idéias, conferindo-as um significado ao analisá-las
de acordo com o método experimental de raciocínio.
Para Hume, somente depois da conjunção constante é que começamos
a atribuir uma conexão necessária entre os objetos. No entanto, objetivamente
não há diferença entre um único par de eventos e uma grande quantidade de
pares de eventos semelhantes. A observação de uma multiplicidade de pares
de eventos semelhantes não acrescenta nada aos objetos. O que ocorre é que
os casos semelhantes não produzem uma nova qualidade nos objetos que
possa ser o modelo dessa idéia, mas “a observação dessa semelhança produz
uma nova impressão na mente; e esta impressão é seu modelo real” (T.I.iii.14,
p. 165; itálicos do autor). Então a necessidade é uma impressão interna da
mente, nascida da observação da semelhança. Isso ocorre porque a
observação da semelhança, em vários casos, cria uma determinação na mente
para passar de um objeto ao que usualmente o acompanha. Ao multiplicar
nossas idéias, a repetição faz com que sofram um acréscimo em relação ao
que são quando da observação de um caso isolado. Essa determinação é o
único efeito da semelhança e, segundo Hume, deve ser a mesma coisa que a
idéia de necessidade (Cf. T.I.iii.14, p. 163-164).
A multiplicidade, embora não acrescente nada aos objetos externos,
acrescenta algo à mente do observador. A observação de muitos casos
similares da relação de causa e efeito adiciona à mente um sentimento de
expectativa ou antecipação. Este sentimento é a impressão da idéia de
conexão necessária, que no Tratado, recebe o nome de impressão de
Claudiney José de Sousa 230

reflexão6. A única impressão interna que pode dar origem à idéia de conexão
necessária é essa “propensão produzida pelo costume, a passar de um objeto
à idéia de seu acompanhante usual” (T.I.iii.14, p. 165). Sendo assim, o autor
pode concluir que “a necessidade é algo que existe na mente e não nos
objetos” (T.I.iii.14, p. 165). Enfim, se ela não é uma qualidade dos corpos, não
pode ser outra coisa senão uma determinação do pensamento, ou uma
qualidade presente em nossa mente, que possibilita a conexão entre os
objetos.
Com esta resposta a respeito da origem da idéia de necessidade, Hume
consegue, inclusive, descobrir o fundamento da inferência causal, ou seja, “o
fundamento de nossa inferência é a transição que surge da união habitual”
(T.I.iii.14, p. 165) ou seja, é a própria conexão necessária.
De posse desses argumentos, Hume pode então dar uma definição
clara de causa. Uma definição de causa enquanto comparação de idéias
(definição filosófica) e enquanto associação de idéias (definição natural) na
tentativa de diferencia-las, embora, para ele esta seja apenas uma
consideração diferente sobre os mesmos objetos (ou eventos). Mas antes
disso, o autor lembra ainda que somente depois de toda essa análise
poderíamos dar uma definição precisa da relação porque a natureza da
relação depende da natureza da inferência, ou seja, tínhamos que examinar
primeiro a inferência baseada na relação (problema da indução) para somente
depois poder explicar a própria relação de causa e efeito (problema da
causalidade), o que fica claro agora com as duas definições de causa.

Podemos dar duas definições dessa relação, que diferem apenas por apresentarem
uma opinião diferente do mesmo objeto, fazendo-nos considera-las como uma
relação filosófica, ou como uma relação natural; como uma comparação de duas
idéias, ou como uma associação entre elas. [i] Nós podemos definir uma CAUSA
como um objeto precedente e contíguo a outro, em que todos os objetos semelhantes
ao primeiro são colocados em iguais relações de precedência e contigüidade com os
objetos semelhantes ao último (...). [ii] Uma CAUSA é um objeto precedente e
contíguo a outro e tão unido a ele que a idéia de um determina a mente a formar a
idéia do outro, e a impressão de um a formar uma idéia mais vívida do outro”
(T.I.iii.14, p. 170; itálicos e maiúsculas do autor).

6
Segundo Dicker, este é também “o ponto de contato entre a teoria da causalidade de Hume e
sua explicação psicológica do raciocínio causal e indutivo” (Dicker, 1998, p. 107). Eu diria, o
ponto de contato entre os problemas da causalidade e da indução.
A relação entre inferência e conexão necessária 231

Observe, a partir destas duas definições7, que o exame de um caso


isolado de causa e efeito revela apenas que objetos semelhantes estão em
relações semelhantes de contigüidade e sucessão. Até aqui temos todos os
elementos para descrever uma relação filosófica de causa, ou seja, uma mera
comparação entre idéias. A primeira definição pode ser interpretada enquanto
uma definição de causa como ela ocorre objetivamente na natureza,
independente de uma mente que a observa. Mas quando percebemos que a
relação de conjunção constante só opera sobre a mente por meio do costume,
que determina a imaginação a fazer uma transição da idéia de um objeto à
idéia daquele que o acompanha usualmente, e da impressão de um a uma
idéia mais vívida do outro, temos aí os elementos para uma definição natural
de causa. Observemos ainda que a primeira definição não faz nenhuma
referência a conexão necessária entre objetos. A conexão necessária é própria
da segunda definição de causa. A primeira definição envolve apenas conjunção
constante entre eventos.
Por outro lado, a diferença entre estas duas definições está pautada na
diferença entre concepção e crença, que está na maneira de concebermos as
idéias. A diferença entre comparação e associação é, dessa forma,
determinada em grande medida, pela crença. Para alterar de algum modo a
idéia de um objeto particular, a única coisa que podemos fazer é aumentar ou

7
Segundo Dicker estas duas definições de causa tem chamado bastante a atenção dos
comentadores, principalmente pelo fato de serem definições diferentes de um mesmo objeto,
como afirma Hume. Para ele, de acordo com estas duas definições, “um par de eventos pode
satisfazer (...) [a primeira] sem satisfazer (...) [a segunda], e reciprocamente, um par de eventos
pode satisfazer (...) [a segunda] sem satisfazer a primeira” (Dicker, 1998, p. 114). Para ilustrar
este caso, utilizemos um exemplo do próprio Dicker: “suponhamos, por exemplo, que todos os
eventos similares a E1 [evento 1] são eventos macroscópicos que nós freqüentemente
observamos e eventos similares a E2 [evento 2] são eventos microscópicos que a ciência não
têm entretanto descoberto. Então, pode ser verdadeiro que eventos como E1 são sempre
seguidos por eventos como E2, mas falso que eventos como El sempre levam-nos a esperar
eventos como E2” (Idem). Neste caso, apenas a primeira definição de causa seria satisfeita.
Está claro, portanto, que as duas definições não são equivalentes. A respeito das
interpretações diante da equivalência ou não entre as duas definições, Dicker acha importante
ressaltar que “alguns comentadores tem argumentado que apenas a primeira definição
representa sua real opinião [opinião de Hume] (veja Robinson, 1962). Alguns têm argumentado
que ele tem duas teorias diferentes que podem ser integradas em uma única (Beauchamp e
Rosemberg, 1981). Stroud (1977:89) está seguro de que Hume nunca teve a intenção,
estritamente falando, de dar uma definição da causação. Recentemente, Don Garrett (1997:
107-17) tem argumentado que as duas definições de Hume podem ser interpretadas de tal
modo que voltem a ser equivalentes” (Idem).
Claudiney José de Sousa 232

diminuir sua força e vividez. E é exatamente o que proporciona a crença,


presente na associação de idéias, ou seja, na segunda definição de causa. É
por isso também, que a relação ou associação com uma impressão presente é
determinante para a crença, fazendo-a tornar-se uma idéia vívida. A impressão
confere à idéia a mesmas qualidades existentes nela; qualidades as quais
Hume atribui nomes tais como firmeza, solidez, força, vividez ou mesmo
conexão necessária. Por isso a conexão necessária passa a ser uma qualidade
adicionada a mente do observador mediante a crença proporcionada pelo
hábito.

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Descartes e Newton: a questão de conciliar a descontinuidade
da matéria e a continuidade do espaço.

Veronica Ferreira Bahr Calazans


Mestranda em Filosofia/UFPR

Resumo: A questão de conciliar a descontinuidade da matéria e a


continuidade do espaço serve-nos, aqui, como fio condutor para uma
discussão que, para além de um enfoque puramente mecânico, pretende
evidenciar a relevância das conseqüências mecânicas da questão para a
estruturação de elementos importantes da modernidade. As soluções
propostas por Descartes e Newton para tal questão não apenas fornecem
fundamentos para os sistemas de ambos os autores, como apontam para
diferenças significativas entre eles. Interessa-nos investigar o alcance de
tais diferenças, especialmente no que diz respeito ao caráter metodológico
a às bases metafísicas de cada um dos sistemas.
Palavras-Chave: espaço, matéria, movimento, atração, vazio.

Um dos elementos importantes que marca o início da modernidade é,


sem dúvida, o surgimento da chamada nova ciência. Esta caracteriza-se por
uma autonomia, no que diz respeito aos seus métodos e critérios,
fundamentada no ideal de que a razão deve “apoiar-se nela mesma” e, assim
procedendo, é capaz de “formular juízos sólidos e verdadeiros sobre tudo que
se lhe apresenta” ( Descartes, 1999; Regra I). Uma das principais pretensões
dessa nova ciência é a de abandonar os métodos baseados em critérios de
qualidade para adotar aqueles que se sustentam em critérios de quantidade,
possibilitando, assim, a matematização dos fenômenos.
Embora possamos encontrar, já em Kepler, Galileu e outros autores,
explicações de fenômenos que se pautam por essa pretensão, é somente com
Descartes que ela alcança o estatuto de um modelo sistemático do mundo
físico, analisado a partir de um ferramental matemático e contendo leis
matematicamente estruturadas.
Entretanto, o sistema mundi cartesiano foi alvo de críticas que
evidenciaram dificuldades insuperáveis, do ponto de vista da mecânica; a
principal delas foi dirigida por Newton. Porém, a relevância dessa crítica não

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
Veronica Ferreira Bahr Calazans 234

reside apenas nas conseqüências mecânicas. Levando em conta a afirmação,


de Newton, de que “o ensinamento (de Descartes, no que diz respeito a
definições cruciais, como lugar e movimento) é confuso e contrário à razão”,
por incorrer em contradições e produzir conseqüências absurdas; vemos ser
alvejada, igualmente, a pretensão cartesiana de oferecer um sistema em que o
mundo físico é explicado, em sua totalidade, a partir dos preceitos da razão.
Muitas foram as questões que conduziram as investigações da nova
ciência. Optamos por tratar, aqui, de uma questão que se mostra relevante na
medida em que as soluções propostas para ela fornecem as bases para os
sistemas de ambos os autores; e, principalmente, apontam para diferenças
viscerais entre eles. Trata-se da questão de conciliar a evidente
descontinuidade da matéria e a continuidade do espaço, ditada pela razão. Tal
questão nos servirá como “fio condutor” para uma discussão que não pretende
limitar-se às suas conseqüências mecânicas, mas sim evidenciar a relevância
dessas conseqüências para a estruturação de elementos importantes da
modernidade. Então, nesse projeto, pretendemos investigar de que modo o
ideal de a razão “formular juízos sólidos e verdadeiros sobre tudo que se lhe
apresenta” leva à solução cartesiana da questão; e, por outro lado, em que
medida poderíamos considerar que a solução apresentada por Newton abala
essa pretensão de, através da razão, tudo explicar. Para tanto, dois textos
serão fundamentais: os Princípios da Filosofia de René Descartes e os
Princípios Matemáticos da Filosofia Natural de Isaac Newton.
O tratamento dado por Descartes à questão pode ser exposto em três
premissas que servem de fundamento para a sua solução. Primeiramente,
devemos considerar que Descartes estabelece uma supremacia cognitiva do
pensamento sobre os sentidos: não é possível apreender a natureza das
coisas através dos sentidos. As percepções sensoriais fariam parte da relação
entre o espírito e o corpo a ele ligado. Por isso mesmo, por fazerem parte de
um composto de corpo e espírito, as percepções sensoriais não podem gerar
um conhecimento que dê conta da natureza das coisas, um conhecimento que
cabe, ipso facto, ao espírito como tal e somente a ele. Descartes estabelece
claramente essa supremacia do espírito sobre os sentidos no seguinte trecho
da Sexta Meditação:
Descartes e Newton 235

“Mas essa natureza me ensina realmente a fugir das coisas que causam em mim o
sentimento da dor e a dirigir-me para aquelas que me transmitem algum sentimento
de prazer; porém, não vejo que, além disso, ela me ensine que dessas diferentes
percepções dos sentidos devêssemos concluir alguma coisa acerca das coisas que
existem fora de nós, sem que o espírito as tenha analisado cuidadosamente. Pois é,
ao espírito, e não ao composto de espírito e corpo, que cabe conhecer a verdade
dessas coisas”. (Descartes, 1973, 6ª metitação)

Fica evidente que aos sentidos cabe o conhecimento prático destinado à


conservação da vida, restando ao entendimento, e somente a ele, conhecer a
natureza das coisas. “Depois dessa reflexão facilmente abandonamos todos
os preconceitos fundados nos sentidos, e só nos serviremos do entendimento
para examinar a (...) natureza...” (Pr II 3).
Em segundo lugar, o pensamento apreende o espaço como um “corpo
contínuo” com extensão em comprimento, largura e altura, enquanto que os
sentidos percebem uma matéria descontínua. Neste ponto, põe-se,
propriamente, a questão de conciliar um espaço contínuo com a matéria
descontínua que ele contém. Mas, o que é isso que, na matéria, os sentidos
percebem? Ora, no que diz respeito às qualidades da matéria, não seriam a
dureza, o peso, a cor e outras tantas, qualidades apreendidas pelos sentidos?
Portanto, porque elas não são conhecidas pelo entendimento, nenhuma delas
– ou quaisquer outras qualidades às quais temos acesso através dos sentidos
– faz parte da natureza da matéria. “Sua natureza consiste apenas no fato de
ser uma substância que tem extensão” (Pr II 4). Isso significa que é possível
pensarmos um corpo desprovido de qualquer uma das demais qualidades, mas
nunca desprovido de extensão. Desse modo, a extensão é reconhecida como
atributo essencial da matéria, o que a torna essencialmente contínua. Por outro
lado, os sentidos a apreendem de maneira descontínua, ou seja, apreendem
aquelas qualidades não-essenciais.
Como terceiro ponto, destacamos que, segundo Descartes, ao
examinarmos a idéia que temos de corpo, consideramos que se trata de “uma
substância extensa em comprimento, largura e altura” (Pr II, 11), coincidindo,
então, com a idéia de espaço. Assim, é somente pelo pensamento que espaço
e corpo se diferem, pois a extensão, que constitui o corpo, do mesmo modo
constitui o espaço, ou seja, a natureza de ambos é a extensão. Fica, portanto,
Veronica Ferreira Bahr Calazans 236

estabelecida uma identidade entre a matéria e o espaço, visto que


compartilham a extensão, como atributo essencial.
Do que dissemos até agora, podemos concluir que, para Descartes, a
descontinuidade da matéria não faz parte da sua natureza, mas apenas da
percepção que temos da matéria, por intermédio dos sentidos.
Entretanto, de que modo essa matéria que é essencialmente contínua,
na medida em que compartilha com o espaço seu atributo essencial, pode
manifestar-se aos sentidos de maneira descontínua? Ou seja, o que permite
aos sentidos a apercepção daquelas qualidades não-essenciais da matéria?
Segundo Descartes, o movimento.
Da identificação entre espaço e matéria segue-se uma impossibilidade
de que um ocorra sem o outro. Então, se todo o espaço é matéria, não pode
haver nele aquilo que se chama de vazio. Consequentemente, o movimento
torna-se condição para a divisibilidade da matéria, na medida em que, para
dividir duas partes quaisquer, é necessário separá-las. Além disso, a matéria é
una; pois, ao se considerar qualquer porção de matéria – ou qualquer outro
possível mundo material – será necessário admitir que em sua essência ela é
puramente extensão, como tudo aquilo que é material, e por isso, porque toda
matéria compartilha da mesma essência, não seria possível conceber nenhuma
outra matéria. “Logo, só há uma matéria em todo o universo e só a
conhecemos porque é extensa” (Pr II 23). Se é assim, a matéria, por essência,
é contínua; entretanto, ela se manifesta indiscutivelmente de forma
descontínua; o que somente é possível através do movimento e da
divisibilidade: “todas as propriedades que nela (na matéria) apercebemos
distintamente apenas se referem ao fato de poder ser dividida e movimentada
segundo as suas partes e, por conseqüência, poder receber todas as afecções
resultantes do movimento dessas partes” (Pr II 23). Ou seja, o movimento – e
consequentemente a divisibilidade – é o mais direto responsável pela
diversidade de estados em que a matéria se encontra disposta, garantindo que
esses estados possam ser apreendidos separadamente.
Estrutura-se, então, um sistema composto de dois elementos, quais
sejam, a extensão e o movimento, que evidenciam-se como “princípios claros e
distintos”. A partir deles, e somente desses dois, deve-se poder explicar todos
Descartes e Newton 237

os fenômenos do mundo físico. Porém, se é o movimento que permite a


descontinuidade, mas ela não faz parte da natureza da matéria; cabe-nos
perguntar se o estatuto do movimento, nesse sistema, não se reduziria ao de
mera aparência. Se assim não for, o que nos impede de considerar a
descontinuidade, garantida por ele, tão essencial quanto a própria extensão?
Além disso, a solução proposta por Descartes, para essa questão de
conciliar espaço contínuo e matéria descontínua, produz uma outra dificuldade,
no que se refere à definição de movimento que se segue dessa solução.
Tocamos, aqui em um dos pontos vitais da crítica que Newton dirige ao sistema
mundi cartesiano. Descartes define o movimento como “a translação de uma
parte da matéria ou de um corpo da proximidade daqueles que lhe são
imediatamente contíguos” (Pr II 25). Newton expõe diversas conseqüências do
ensinamento de Descartes no que concerne à essa definição. Entretanto,
apresentaremos apenas duas, visto que cada uma delas, por si só, evidencia o
absurdo de tal ensinamento. E, justamente essas conseqüências, segundo
Newton, “evidenciam ao máximo o absurdo da posição de Descartes”, que nos
“leva a concluir que um corpo em movimento não tem nenhuma velocidade
determinada (primeira conseqüência) e nenhuma linha definida (segunda)”
(Newton, 1979:216). O que se segue daí é ainda mais grave, por abalar
diretamente as duas primeiras leis cartesianas do movimento: “não se pode
afirmar que a velocidade de um corpo que se move sem resistência seja
uniforme, nem se pode dizer que é reta a linha na qual se efetua o seu
movimento” (idem). Isto posto, a questão que se impõe é a de saber em que se
sustentam essas afirmações de Newton.
Primeiramente, é preciso considerar a noção cartesiana de lugar. Este, é
determinado pela posição da vizinhança contígua ao corpo que se está
considerando. Nesse caso, como é possível determinar o ponto de partida do
movimento desse corpo? Newton responde: é simplesmente impossível. Ao
iniciar-se o movimento, aquela vizinhança que circundava o corpo,
anteriormente, é desfeita. E, mesmo que se pretenda determinar o lugar de
início do movimento a partir de corpos distantes (seguindo a concepção
vulgar), o problema se mantém; já que, no sistema cartesiano, pode-se dizer de
todos os corpos que, mesmo que não estejam verdadeiramente em movimento,
Veronica Ferreira Bahr Calazans 238

participam do movimento de outros corpos. Então, pode-se dizer que o lugar


existe apenas enquanto os corpos mantêm as mesmas posições. Pois bem, em
se tratando do movimento de um corpo, assim que ele deixa o seu lugar de
origem, esse lugar deixa de existir, e portanto, não pode mais ser determinado.
Disso decorre que não é possível determinar o espaço percorrido por um
corpo, visto que não se consegue encontrar seu ponto de origem. Ou seja, não
há como saber qual o comprimento, qual a distância percorrida. Vale notar que
a velocidade de um corpo é obtida pela distância percorrida em um certo
intervalo de tempo. Por isso mesmo – porque a velocidade depende da
distância percorrida – , Newton conclui que “o movimento cartesiano não é
movimento, pois não tem velocidade” (Newton, 1979: 217).
Pelas mesmas razões, assim como não se pode determinar o lugar do
movimento, também não se pode encontrar seus pontos intermediários. Assim,
tendo em vista as duas primeiras leis do movimento, ambas estão
comprometidas. A primeira, porque não se pode afirmar que a velocidade de
um corpo, que se move sem resistência, é uniforme; uma vez que, como já
vimos, o corpo nem mesmo tem velocidade. A segunda, pela impossibilidade
de se obter a localização dos pontos intermediários do movimento, o que
evidentemente impediria a qualquer um de afirmar que um corpo se desloca
em linha reta.
Escolhemos estas duas conseqüências porque elas evidenciam um
problema que, segundo Newton, é crucial para provar o absurdo do sistema
cartesiano: a definição de lugar. Até agora está provado que essa definição de
lugar tem como produto uma concepção de movimento que gera, por sua vez,
conseqüências absurdas. Entretanto, esta definição está firmada em certas
bases que, por isso, serão o alvo da crítica, daqui em diante. Isso fica claro ao
levar-se em conta que o problema da definição de lugar é que ela se estrutura
a partir de corpos que, de um modo ou de outro, estão constantemente em
movimento. É preciso que se encontre algo destituído de movimento a que se
possa referir a definição de lugar e, assim, possibilite uma coerente atribuição
de movimento aos corpos. Dito isto, qual seria o melhor candidato para assumir
essa condição? O espaço, a extensão por si mesma, diria Newton. E, para
Descartes e Newton 239

tanto, seria imprescindível distinguir o espaço, destituído de movimento, dos


corpos, como coisas móveis.
Distinguindo espaço e matéria, Newton começa a estruturar um sistema
mundi diferente do cartesiano, concebido como composto de três elementos: a
matéria, descontínua e móvel; o espaço, contínuo e imóvel; e o movimento.
Esse sistema, então, vê-se obrigado a reconhecer uma matéria descontínua,
não apenas na aparência, e distinta do espaço contínuo. Tal distinção introduz
o vazio como condição para que o movimento newtoniano escape às criticas
dirigidas a Descartes. Contudo, a introdução do vazio conduz a uma outra
dificuldade: impõe-se a necessidade de estabelecer um elemento capaz de
conferir a esse sistema uma unidade física e intelectual, visto que, com o vazio,
ele não pode mais contar com aquela pressão que todo corpo exercia sobre o
outro, no sistema cartesiano, por contato. Poderíamos reformular essa questão
nos seguintes termos: o que impede que essa matéria, que se movimenta
livremente no vazio, torne-se um aglomerado sem ordem, caótico, de partículas
de matéria isoladas? Trata-se, aqui, de perguntar pelo elemento que confere a
ordem ao sistema, ou seja, que faz dele propriamente um sistema.
A resposta oferecida por Newton não oferece menos dificuldades que a
própria questão. Segundo ele, todas as partículas de matéria estão unidas por
uma lei matemática: a lei da atração. Assim, cada uma delas se relaciona com
todas as demais, “desempenhando seu papel” no sistema. Portanto, a atração
é estabelecida como esse elemento que confere unidade ao sistema,
contrastando e unindo, ao mesmo tempo, a continuidade do espaço e a
descontinuidade da matéria. Porém, são inúmeras as dificuldades implicadas
nessa concepção, primeiramente em virtude de que ela supõe uma ação à
distância, não menos problemática que a própria existência do vazio.
Então, por um lado, a atração permite que todos os movimentos do
universo possam ser explicados pelas mesmas leis, matematicamente
estruturadas. Isso nos permitiria afirmar que, em certo sentido, Newton cumpre
aquele ideal de um modelo sistemático do mundo físico, em que todos os
fenômenos podem ser reduzidos a elementos quantitativos comuns e
explicados matematicamente. Entretanto, esse elemento que confere unidade
ao sistema não é, ele mesmo, explicado pelo pensamento em uma cadeia de
Veronica Ferreira Bahr Calazans 240

razões, conforme as pretensões cartesianas. Isso é evidenciado ao máximo


pela consagrada frase Hipoteses non fingo, em que, tratando do problema de
estabelecer uma causa para a lei da atração gravitacional, Newton afirma que
qualquer que fosse a causa para as propriedades da atração, ela deveria ser
tratada como hipótese, assim como tudo aquilo que não pode ser deduzido dos
fenômenos. Por isso, a própria investigação da causa da atração não teria
lugar na filosofia experimental: “Nessa filosofia, as proposições particulares são
inferidas dos fenômenos e, posteriormente, generalizadas por indução”
(Newton, 1999: 155).
Com esse breve desenvolvimento da questão de conciliar a matéria
descontínua e o espaço contínuo que a contém, pretendemos ter apontado
para a relevância de tal questão no que se refere a um importante elemento da
modernidade: o ideal de um modelo sistemático que explique,
matematicamente, todos os fenômenos.
O tratamento dado por Descartes à questão está perfeitamente em
acordo com sua pretensão de reduzir os fenômenos naturais a princípios
implicados na natureza matemática da matéria (extensão e movimento). Desse
modo, embora houvesse uma metafísica da natureza conferindo
sustentabilidade metodológica a esse sistema, suas conseqüências mecânicas
apresentaram dificuldades insuperáveis.
Através da crítica, ao empenhar-se em evidenciar essas dificuldades,
Newton estabelece um sistema que, finalmente, é capaz de explicar, pelo
mesmo conjunto de leis matemáticas, todo o universo; mas que, por outro lado,
não dispõe de uma metafísica da natureza capaz de conferir inteligibilidade ao
elemento que estabelece a unidade do próprio sistema: a atração.
Tendo em vista este percurso, o sistema mundi evidencia um critério
radicalmente distinto, daquele oferecido por Descartes, para a filosofia natural.
Ao considerar a afirmação de que : “Nessa filosofia (filosofia experimental), as
proposições particulares são inferidas dos fenômenos e, posteriormente,
generalizadas por indução”, poderíamos dizer que ela aponta para uma
dissociação metodológica entre a ciência e a metafísica ? Caberá, assim, a um
desenvolvimento posterior, a tarefa de investigar até que ponto o tratamento
dado por Newton, à questão aqui tratada, compromete o ideal cartesiano de um
Descartes e Newton 241

critério, para as ciências, sustentado sobre as bases de uma metafísica da


natureza.

Bibliografia:

COHEN, I. B. & WESTFALL, R. S.(2002) NEWTON: Textos, Antecedentes


e Comentários. [Trad. Vera Ribeiro]. Rio de Janeiro: Contraponto

DESCARTES, René Princípios da Filosofia [Trad. João Gama] Lisboa:


Edições 70.

DESCARTES, R. (1973) Meditações [Trad., J. Guinsburg e B. P. Junior]


São Paulo: Abril (Col. Os Pensadores).

DESCARTES, R. (1999[1628]) Regra para a Orientação do Espírito [Trad.


Maria E. Galvão] São Paulo: Martins Fontes.

KOYRÉ, A. (2001) Do Mundo Fechado ao Universo Infinito. [Trad. D. M.


Garschagen] Rio de Janeiro: Forense Universitária.

NEWTON, I. (1999 [1687]) The Principia: Mathematical Principles of


Natural Philosophy [Trad. I. B. Cohen and A. Whitman; white a guide
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NEWTON, I. (1979) Princípios Matemáticos; Óptica; O peso e os equilíbrio


dos fluidos. [Trad. C. L. de Matos, P. R. Mariconda e L. J. Baraúna)
São Paulo: Abril Cultura (Col. Os Pensadores)

WHITESIDE, D. T. (1964) (ed.) The Mathematical Works of Isaac Newton.


2 vols. New York/London: Johnson Reprint Corporation.

WHITESIDE, D. T. (1960) “Patterns of Mathematical Thought in Later


Seventeenth Century” Arc. Hist. Exact. Sci. 1: 179-388.
As manchas solares de Galileu Galilei

Felipe Ribas
Graduando em Filosofia/UNICENTRO

Resumo: A referida comunicação analisa o papel das manchas solares na


história da filosofia natural, sua função empírica na comprovação da
corrupção do universo torna-se uma prova irrefutável do pensamento
galileano que direcionava-se estritamente contrário à cosmologia
aristotélica. Assim sendo, serão apresentados os esforços de Galileu em
comprovar as suas idéias acerca das manchas solares tentando refutar,
simultâneamente, o pensamento aristotélico representado pela figura do
padre Scheiner.
Palavras-chave: manchas solares; cosmologia; Galileu

As manchas solares poderiam representar, na história da filosofia


natural, um fato interessante para aqueles que acreditavam que poderia haver
corrupções no céu ao contrário do que pregava a ciência tradicional que
baseava suas teorias no modelo cosmológico aristotélico. Galileu (1564-1642)
concebia o universo uma maneira muito mais quantitativa, ou seja, de uma
forma mais matemática onde o cosmo era organizado racionalmente, através
da geometria. Desse modo, os representantes do aristotelismo não poderia
conceber e explicar de uma maneira mais completa os fenômenos que
passaram a ser observados por Galileu quando este apontou seu telescópio
para o céu.
O telescópio de Galileu passou a funcionar como um sentido mais
apurado da visão humana, uma maneira de poder perscrutar o céu e
desvendar seus mistérios. A aparição das manchas solares acabaria
acarretando uma grande discussão acerca do modelo cosmológico em vigor,
afinal, sua presença muito além do mundo supra-lunar provaria que as idéias
tradicionalistas poderiam estar erradas e que o heliocentrismo de Copérnico
poderia ser, ao menos, cotado como possível. Esta idéia revolucionária acabou
transformando a questão do aparecimento das manchas numa discussão
acalorada entre Galileu e um padre da Companhia de Jesus chamado Cristoph

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
As manchas solares de Galileu Galilei 243

Scheiner (1577-1615) que encarnava a figura do tradicionalismo.


Apesar de Galileu ter registrado de uma maneira mais completa e
detalhada o fenômeno das manchas solares no conjunto de suas três cartas
enviadas a Welser em 1612 sob o título de Istoria e Dimostrazioni Intorno alle
Macchie Solari, Kepler, um ano antes, já havia realizado estudos sobre as
manchas. Entretanto, sua teoria pregava que as manchas aparentes do sol
nada mais eram do que a passagem de um dos planetas até aquela época
conhecidos, no caso Mercúrio, “acima” do disco solar. Algum tempo depois, já
no ano de 1610, Galileu também veio a realizar as observações das manchas,
entretanto seus registros deixam claro que elas não eram formas permanentes
cujo movimento mostrava-se sempre uniforme e contínuo sem alterações em
sua figura, afinal, se as manchas fossem realmente planetas sua disposição
não seria esta, ou seja, as manchas do sol não obedeciam a um padrão que
confirmasse sua origem como sendo o de planetas transitando sobre o disco
solar.
As manchas solares não apresentam um movimento sistêmico e
ordenado, ou seja, elas agregam-se e se desagregam sem seguir um
movimento uniforme e não obedecem a um padrão constante e perene,
mostrando-se algumas vezes dispersas e em outros casos agrupadas,
rumando em intervalos regulares de forma cíclica ou em ligeiras aparições
visíveis no corpo solar. Assim sendo Galileu afirma que:

“... figuras vão mudando continuamente, algumas com rápida e diferentíssima


mutação, outras com breve e menor variação (...) outra a desordenar-se num
movimento particular, de agregar-se e desagregar-se, condensar-se e rarefazer-
se...”(Ed. Naz., Vol. V:1968)

O telescópio de Galileu permitiu que fossem observadas de uma


maneira mais completa as manchas do sol. Contrariando a idéia do transito de
planetas, Galileu, em seus gráficos, pôde demonstrar que as manchas podiam
ser observadas em hemisférios e ângulos diferentes na superfície solar, ou
seja, elas não surgiam apenas num único plano dentro do círculo do astro,
mas sim, agrupadas e separadas em diferentes localizações dentro dos seus
hemisférios. Caso as teorias de planetas em interposição com o sol fossem
Felipe Ribas 244

reais, elas pareceriam manchas únicas, num ciclo transitório retilíneo através
do sol (ou em torno dele) e não agrupadas em corpos separados.
A discussão entre Galileu e Scheiner é o início das discussões referente
à aparição das manchas no sol. É exatamente nesta discussão que a tradição
aristotélica de incorruptibilidade do céu poderá encontrar seu fim, as manchas
acabam evidenciando alterações numa regiao celeste nobre, ou seja, na região
lussidíssima e purrísima do sol. Como afirmado anteriormente, a principal
divergência era a respeito da inalterabilidade celeste. As observações de
Galileu não produziram qualquer efeito sobre Scheiner que, confiante na
ciência tradicional, acreditava serem as manchas uma agregação de planetas e
não mudanças geradas no disco solar, apesar de que o padre concordava com
Galileu quanto ao fato de que as manchas não estavam localizadas abaixo da
esfera lunar.
Nas primeiras páginas da segunda carta sobre as manchas solares,
Galileu, através de suas observações e ilustrações geométricas, praticamente
comprova a impossibilidade de as macchie oscure do disco solar serem apenas
a sombra gerada pela transição de planetas. Galileu afirma que as manchas
não estão tão distantes do sol e que elas encontram-se separadas dele por um
intervalo não tão grande, com isso ele atesta que devido a distância entre a
Terra e o Sol este intervalo é imperceptível. Assim sendo: “... não estão
altamente distantes da superfície dele (Sol), entretanto lhes são contíguas;
separadas, assim, por pouco intervalo que é, em suma, imperceptível...”
(Saragat, 1968, p. 117).
Todavia, tal observação já poderia proporcionar a idéia de que as
manchas observadas eram oriundas do próprio corpo solar e estavam
contiguas a ele graças a curta distância em que se encontravam ou, que
poderiam ser fenômenos que se originavam mais próximos do sol. Mas uma
coisa é certa, as manchas já não poderiam incorporar a idéia de uma
agregação de planetas como afirmou Scheiner, afinal, os planetas pertenciam a
uma ordem elíptica que transitava em uma órbita muito mais afastada do Sol
do que as observações de Galileu demonstravam a respeito da proximidade
das manchas com o corpo solar. Tal proximidade anulava também a idéia de
que as manchas se encontravam abaixo da esfera lunar, causando assim o
As manchas solares de Galileu Galilei 245

efeito da paralaxe. A afirmação de Galileu a respeito da grande proximidade


das manchas no disco solar elevava a hipótese de perturbações e fenômenos
que geravam a alteração e a corrupção do cosmo numa região muito superior à
esfera lunar, contrariando visivelmente a doutrina aristotélica da inalterabilidade
do céu.
Ainda na 2ª Carta sobre as manchas solares destinadas a Marco
Welser, Galileu praticamente liquida a possibilidade de que tais manchas
sejam, na realidade, um ajuntamento de planetas em trânsito pela região solar,
como insistia em afirmar o Padre Scheiner. Na referida carta, Galileu expõe o
fenômeno como sendo corpos que alternam suas durações num movimento
que pode variar em velocidade e em grau de aparição e de posicionamento.
Galileu descreve os aparecimentos das manchas em intervalos diferentes,
desse modo as manchas podem surgir num espaço de “... breve duração,
como de um dois ou três dias, ou de outra (duração) mais longa, como de 10,
15 e, creio eu, agora de 30 e 40 (dias) e mais...”(Saragat, 1968, p. 117).
Esta irregularidade do pensamento do jesuíta impossibilita o mero
trânsito de planetas, já que esta situação, devido à ordem de movimento das
esferas das estrelas fixas, definiria o aparecimento das manchas solares como
um movimento regular graças a evolução dos planetas, há ainda a descrição
da irregularidade das formas físicas no aparecimento das manchas. Galileu
observa uma mutação constante nas projeções das manchas, algumas
sofrendo uma mutação acelerada e diferenciada e outras obedecendo a um
padrão mais tardio e de menor variação em sua constituição física; mesmo o
seu movimento aleatório apresenta um padrão de agregação e desagregação
das manchas. E em outro aspecto apresenta um padrão ordenado e uniforme
numa linha paralela ao corpo solar. Todavia, nesse modo ordenado de
apresentação das manchas não se pode afirmar que, neste caso específico, se
trate da transição de planetas, afinal, como dito anteriormente, as manchas não
obedecem à um padrão retilíneo e uniforme constante.
Galileu contraria a idéia de que as manchas no sol poderiam ser da
mesma natureza daquelas que forma observadas na lua e que ele próprio
relatou no seu Sidereus Nuncios, afinal, as manchas escuras que surgiram na
superfície lunar não eram formadas por qualquer presença de um corpo alheio
Felipe Ribas 246

à própria Lua, pairando sobre sua superfície, mas sim pela iluminação da sua
superfície repleta de irregularidades. Apesar de Galileu descartar a
possibilidade de uma semelhança entre as manchas solares com as manchas
apresentadas na lua, ele não acreditava que as manchas fossem mais escuras,
afinal, a luz do sol impede a observação da lua, bem como a observação das
estrelas fixas e também dos planetas, entretanto sua luz não impede a
observação das manchas. Este fato levou Galileu a crer que as manchas
solares apresentavam-se de uma forma mais clara, elas só pareciam mais
escuras devido a forte luminosidade emanada pelo sol. Assim sendo, Galileu
passou a crer que as manchas solares não tinham, necessariamente, que
obedecer ao mesmo padrão de matéria que os planetas, ou seja, de uma
matéria com maior grau de densidade ou mais opaca. A comparação das
manchas às nuvens afirma também o principio pelo qual os corpos mais
escuros são vistos com mais dificuldade do que corpos mais claros quando
apresentados sob uma luminosidade mais intensa. Desse modo Galileu atribui
a obscuridade das manchas ao contraste do brilho intenso do sol.
A teoria galileana de que as manchas são mais semelhantes a nuvens
pode ser confirmada ainda na 1a carta, segundo Galileu:

“... não é necessário que a matéria dessa mancha seja muito opaca e densa, a qual
se deva razoavelmente estimar que seja (a mesma) da Lua ou de outro planeta; mas
uma densidade opaca similar aquela de uma nuvem já é suficiente, numa
interposição entre o Sol e nós, para (parecer) escura e ngra.” (Ed. Naz., Vol. V,1968)

Com isso, é possível concluir que a aparição das manchas e suas


observações por parte de Galileu, levataram novas conceções contra a
doutrina aristotélica, afinal, as manchas solares acabaram trazendo algumas
dúvidas quanto à inalterabilidade do céu. Todo o cuidado que Galileu teve em
observar as manchas nos mesmos horários e seus gráficos desenhados com
extrema cautela levantam outras questões; se ele se valeu de um método
experimental de interrogar a natureza ou se a discussão sobre as manchas foi
conduzido através de um sistema observacional, todavia, estas questões não
serão discutidas nesta comunicação. O que de fato busca-se salientar aqui, é a
importãncia das manchas solares dentro das revolução científica dos séculos
As manchas solares de Galileu Galilei 247

XVI e XVII, afinal, a discussão acerca de sua existência acabou possibilitando


novos caminhos sobre a visão natural do mundo.

Bibliografia

ARISTÓTELES. Física I e II. Trad. de Lucas Angioni. Campinas, 1999.

ÉVORA, F. Rodrigues. A revolução Copernico Galileana. Campinas:


UNICAMP, 1993.

Le Opere di Gelileo Galilei. Volume V. 1968.

MOSCHETTI, Marcelo. A unificação do cosmo. O rompimento de


Galileu com a distinção aristotélica entre céu e terra. Campinas,
São Paulo: (n.n.), 2002.

KOYRÉ, A.. Estudos de história do pensamento científico. Rio de


Janeiro: Ed. Forense Universitária; Brasília: Ed. Universidade de
Brasília, 1982.

KANT, I. Crítica da Razão Pura, Coleção Os Pensadores. São Paulo:


Nova Cultural, 1999.
EIXO TEMÁTICO 2:
TELEOLOGIA NA BIOLOGIA
Alguns pressupostos subjacentes às teorias sobre a natureza e
origem da vida

João Carlos M. Magalhães


Departamento de Genética, SCB/UFPR

Resumo: A noção de “vida” não tem uma definição clara em biologia. Não
há concordância sobre quais são características mínimas que um objeto
deve ter para ser considerado vivo, nem se é possível definir vida desta
maneira. As teorias sobre a origem da vida refletem as concepções de seus
autores sobre a natureza da vida. Alguns dos principais problemas da
filosofia da biologia estão implicados nesta discussão. Na concepção
predominante atualmente, a vida teria se desenvolvido a partir de algum tipo
de molécula capaz de se reproduzir e posteriormente teria surgido a célula
primitiva. A seleção natural, juntamente com as leis da física e da química,
seria suficiente para explicar a origem da organização biológica. Teorias
alternativas propõem a precedência de agregados de moléculas
organizadas em redes autocatalíticas. S. Kauffman preconiza a necessidade
de novos princípios biológicos, referentes à complexidade e auto-
organização. Nesta comunicação discute-se alguns aspectos de duas
diferentes concepções sobre o que é vida e como se deu sua origem, com o
fim de relaciona-las às questões da teleologia e do reducionismo na biologia
contemporânea.
Palavras-chave: filosofia da biologia; teleologia; reducionismo; definição de
vida.

“[...] a metafísica é fundamental em


todo ramo da ciência. A metafísica não
é um campo de estudos bem definido,
um fundamento básico e único em
cima do qual erigimos uma estrutura
escalonada para a física, química,
biologia, psicologia, sociologia, etc.,
senão, melhor dizendo, algo que
participa de cada campo, que
condiciona o pensamento de cada um
de nós de forma sutil e diversa, e do
qual nem sempre somos
conscientes”.D. Bohm, 1968

Introdução

Embora intuitivamente todos saibam identificar os seres vivos, as noções


de “vida” e “organismo” são extremamente vagas em biologia. Não há acordo

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
João Carlos M. Magalhães 250

sobre o significado preciso destes conceitos. A concepção adotada influi na


abordagem de problemas científicos relevantes acerca da origem da vida,
distinção entre o animado e o inanimado, busca de vida em outros planetas,
possibilidade de criação de vida artificial, etc. Esta discussão remete a alguns
dos principais problemas da filosofia da biologia: o significado de conceitos
como indivíduo e organização, a natureza das relações entre o todo e as
partes, a possibilidade de redução das teorias biológicas à física e à química e
também à questão da teleologia.

Conceito biológico de vida

Existe uma vasta literatura sobre a natureza e origem da vida, tanto


trabalhos científicos propriamente ditos, como discussões de caráter histórico e
filosófico acerca do assunto.1 De um modo geral, pode-se dizer que alguns
pressupostos parecem estar implícitos na concepção biológica de vida, tal
como se pode depreender dos textos correntes:
1. Os fenômenos vitais podem ser explicados em termos científicos.
Segundo Oparin (1948), pioneiro das teorias modernas sobre a origem
da vida, “vida é uma forma superior de organização da matéria”. De acordo
com a postura fisicalista contemporânea, os seres vivos pertencem ao mundo
da natureza e todos os fenômenos relativos a eles podem ser explicados
cientificamente, ao menos em princípio. Não se recorre a concepções místicas
ou vitalistas.
2. Embora obedecendo às leis da física e da química, a vida só pode ser
explicada por intermédio de leis próprias da biologia.
A tendência atual parece ser a de negar a possibilidade de redução da
biologia a ciências mais básicas. Na prática, a pesquisa biológica em
bioquímica, genética e biologia molecular, entre outras áreas, emprega
largamente métodos emprestados da física e da química para investigar
aspectos particulares dos fenômenos relativos aos seres vivos, não
distinguindo as explicações propriamente biológicas das demais.
Conscientemente ou não, isto é estendido à concepção sobre a natureza da
Alguns pressupostos subjacentes às teorias sobre a natureza e origem da vida 251

vida. Defende-se a autonomia da biologia, mas assume-se na prática uma


posição “reducionista”. Para entender esta aparente contradição é preciso
recordar algumas noções elementares da biologia, o que será feito mais
adiante.
3. A vida é uma propriedade global de certos sistemas físicos complexos
(organismos) os quais apresentam uma coleção de propriedades que os
caracterizam como vivos. Utilizando este conjunto de propriedades como
critério é possível distinguir os objetos “animados” (vivos) dos “inanimados”
(não vivos).
Apresentar um conjunto de propriedades que caracterize os seres vivos
seria dar uma definição nominal de vida, o que pode não ser suficiente, porém,
se for compatível com os diversos ramos da biologia contemporânea,
equivaleria a delimitar o objeto mais fundamental desta área de conhecimento.
Não há, entretanto, concordância sobre quais seriam estas propriedades (cf.
Rizzotti, 1996). Qualquer lista de propriedades reflete concepções subjetivas
sobre a natureza da vida e também sobre o caráter da biologia como ramo
particular da ciência. Na verdade, não há sequer clareza quanto à atribuição do
status de “ser vivo” a certas entidades, como é o caso dos vírus, do próprio
planeta Terra, ou sua biosfera, (a hipótese de “Gaia” é vista por muitos como
mais do que mera analogia) ou ainda de “criaturas virtuais” em computadores,
por exemplo.
A seguir veremos algumas daquelas propriedades, sem pretensão de
esgotar o assunto, mas apenas para situar a discussão.
1. Individualidade
Não são os materiais que constituem um organismo em um dado
momento que o caracterizam e o distinguem do meio, mas a sua organização.
O ser vivo é um conjunto complexo de partes e relações. Mesmo no organismo
mais elementar, a célula ou molécula primordial, a organização já estaria
presente. Encontramos assim outra propriedade relacionada à primeira:
2. organização.

1
Estes e outros assuntos relacionados são tratados em uma coletânea publicada recentemente
(El-Hani e Videira, 2000).
João Carlos M. Magalhães 252

Obviamente, trata-se de um tipo particular de organização. A vida pode


ser vista como uma propriedade emergente, ou coletiva, do conjunto das partes
do organismo e de relações dinâmicas entre elas. Cada ser vivo existe durante
certo tempo e em um meio do qual não pode ser isolado e permanecer vivo.
Para isto utiliza matéria e energia do meio nos processos inerentes à sua
existência. Devemos considerar, portanto, outra propriedade:
3. metabolismo,
isto é, o conjunto de reações químicas implicadas nas transformações
de matéria e energia necessárias à manutenção da organização dinâmica,
característica dos seres vivos. Estes seres são sistemas termodinamicamente
abertos que mantém sua ordem interna dissipando energia livre do meio (cf.
Prigogine e Stengers, 1997).
Estas propriedades (1-3) ainda não bastam. Para entendermos o que é
vida somos forçados a recorrer à noção de adaptação, no sentido filogenético
do termo, isto é, o ajuste das características dos indivíduos, das populações e
das espécies ao ambiente onde vivem. Esta idéia, que fundamenta boa parte
da biologia, é provavelmente o principal traço distintivo desta ciência em
relação à física e à química.
A adaptação parece implicar em finalidade na natureza, p. ex. a
embriogênese de um órgão que só funcionará em uma etapa posterior do
desenvolvimento do organismo ou a evolução filogenética, que em muitos
casos parece tender para um certo fim. Aceitando-se que conceitos como
adaptação e função biológica não são apenas metáforas, como explica-los sem
cair em uma concepção teológica (em que tudo foi previamente projetado por
um deus), ou em uma concepção teleológica em que causas finais (de
qualquer natureza) determinariam eventos anteriores?
É preciso, pois, considerar como surge a adaptação, tanto no nível
individual como em relação ao conjunto das formas vivas. Para isto é
necessário considerar outros processos, também relacionados entre si:
4. Reprodução.

Com exceção de algum organismo primordial, todos os demais surgem a


partir de outros seres vivos; isto implica em herdar a informação necessária
Alguns pressupostos subjacentes às teorias sobre a natureza e origem da vida 253

para gerar a organização característica da espécie, mas este processo não é


exato.
5. Variação.
A reprodução dos ácidos nucléicos é sujeita à “erros de cópia”
(mutações) que, embora causem desorganização ou perda de informação
(entropia), podem gerar variações transmissíveis. Além da mutação aleatória,
outros processos associados à reprodução, como a recombinação gênica,
podem gerar variação hereditária. Importa ressaltar que podemos distinguir
dois tipos de entidades associadas: o interactor (p. ex. uma bactéria) e o
replicator (p. ex. o seu genoma). Nada impede que em alguma situação
particular um interactor e um replicator sejam a mesma entidade.
6. Evolução.
Na ausência de restrições externas, a reprodução tende a aumentar
exponencialmente o número de organismos e isto implica em uso crescente de
recursos do ambiente. Caso alguma variação hereditária aumente a chance de
sobrevivência ou a eficiência reprodutiva da entidade que a contém, tenderá a
se apresentar em maior freqüência nas gerações posteriores. Este seria, em
resumo, o mecanismo da seleção natural. O processo garante a existência de
um fluxo de “informação” do meio para o organismo, ou melhor, para seu
replicator, um processo histórico no qual as espécies “aprendem” a lidar com o
meio, ou seja, adaptam-se.
Assim temos fenômenos relativos a organismos individuais (organização
e metabolismo) e processos relativos a grupos de organismos (reprodução,
variação e evolução no sentido adaptativo).
Uma crítica recorrente à teoria da evolução é que a seleção natural pode
mudar uma estrutura orgânica pré-existente, mas não poderia criar adaptações
inteiramente novas ou órgãos complexos. Tomando o exemplo do olho, sua
função só seria possível com o órgão completo, isto seria tomado como
evidência de design. Evidências filogenéticas, modelos teóricos e simulações
tem demonstrado que este argumento não tem procedência. É preciso
destacar que algumas mutações aumentam a quantidade de DNA, permitindo o
surgimento de novas características e eventualmente gerar estruturas
orgânicas complexas com funções inteiramente novas.
João Carlos M. Magalhães 254

7. Composição.
Um último critério em nossa lista é a composição material. Para muitos a
vida é necessariamente baseada no carbono e só é possível porque este
elemento forma moléculas complexas e combina-se com outros elementos,
como nitrogênio, hidrogênio e oxigênio. A composição química é um critério
importante, entre outras coisas, para a busca de vida em outros planetas.
Talvez seja possível a existência de vida baseada em outros materiais, como
silício, que também pode formar polímeros. Pode-se pensar em uma
concepção mais abstrata de vida, que privilegie a organização
independentemente de uma base material específica. Esta poderia incluir, por
exemplo, os programas de simulação em computadores conhecidos como “vida
artificial”. A questão é saber se entidades deste tipo seriam vivas (em algum
sentido aceitável) ou apenas modelos analógicos de fenômenos referentes aos
seres vivos que são o objeto tradicional da biologia.
Com isto terminamos nossa lista. Diferentes autores selecionam,
classificam e apresentam as propriedades dos seres vivos de modo diverso,
mas o que foi apresentado acima toma por base noções bem estabelecidas
que podem ser encontradas em qualquer manual introdutório à biologia e isto
resume a questão para o que segue.
Na verdade, qualquer definição de “vida” baseada nas características
dos “seres vivos” nos coloca na mesma situação de quem pretenda definir algo
como, por exemplo “mesa” a partir de uma conjunção de propriedades
partilhadas por todas as mesas. Provavelmente não encontraremos uma lista
de propriedades necessárias e suficientes para isto. Podem existir mesas que
não possuem todas as propriedades listadas, ou objetos que são mesas, mas
que não são identificados a partir da lista. Pode-se, entretanto, pensar definir
“mesa” a partir de suas funções, mas isto teria suas próprias dificuldades. A
seleção de propriedades dos seres vivos acima indica o conjunto de objetos
que estamos tratando, embora de forma um tanto vaga. Como qualquer outra
lista de propriedades, não fornece critério consensual e adequado para definir o
que é um ser vivo.
Maturana e Varela propuseram uma outra abordagem para a definição
de vida, introduzindo a noção de organização autopoiética (cf. Maturana e
Alguns pressupostos subjacentes às teorias sobre a natureza e origem da vida 255

Varela, 2001). Uma organização deste tipo caracteriza-se por: ser um sistema
autônomo; seus componentes são relacionados por uma rede contínua de
interações; os componentes são produzidos pela própria rede; o sistema é e
separado do meio por alguns de seus componentes (como a membrana
celular). A autopoiese forneceria uma definição de vida: os seres vivos são
sistemas que produzem continuamente a si próprios (confere também
Emmeche e El-Hani, 2000).2 A alegação de que esta concepção supera de
plenamente a confusão de critérios não parece procedente. Apenas prioriza
alguns critérios (autonomia, organização em rede, metabolismo) em detrimento
de outros.

Teorias sobre a origem da vida

O problema da distinção entre o vivo e o não vivo está intimamente


ligado ao problema da origem da vida. Em algum momento da história evolutiva
algum sistema físico passou a apresentar as características mínimas dos seres
vivos, sejam lá quais forem estas características. Vamos considerar
brevemente esta questão.
Pode-se distinguir dois grupos de teorias sobre a natureza e origem da
vida:
(i) as que enfatizam os processos elementares referentes às moléculas
orgânicas.
(ii) as que enfatizam a organização e o funcionamento do ser vivo como
sistema complexo.
A corrente contemporânea predominante (ver p. ex. Orgel, 1985)
defende a hipótese que primeiro ente biológico seria uma molécula auto-
reprodutora, o replicon primitivo. Esta visão tornou-se quase hegemônica nas
últimas décadas e inspirou muita pesquisa teórica e experimental, com
resultados importantes.

2
Segundo Kauffman, concepções semelhantes e mais antigas podem ser encontradas em
diversos autores, incluindo Kant (cf. Kauffman, 1995, p. 274).
João Carlos M. Magalhães 256

É importante ressaltar que o replicon seria um polímero orgânico (não


importa discutir aqui a natureza química desta molécula) que, embora não
tendo um metabolismo autônomo, apresentaria uma estrutura (seqüência de
subunidades) e variação. Esta variação influiria em sua capacidade de
“sobrevivência” e de reprodução. Apresentaria, portanto, um valor adaptativo
(fitness), sendo sujeita à seleção natural.
As propriedades que versam sobre a reprodução, origem e transmissão
da informação (variação e suas leis) podem ocorrer na própria molécula, a qual
em interação com o meio e com outras moléculas semelhantes, teria dado
origem ao processo evolutivo. A célula, isto é organismo delimitado e
estruturado de modo a manter seu metabolismo autonomamente, teria surgido
em um estágio posterior. Esta vertente está bastante avançada existindo,
inclusive, teorias quantitativas que visam explicar como a molécula auto-
reprodutora permitiu gerar maiores níveis de organização, como a teoria dos
hiperciclos de Eigen (cf. Michod,1999).
De qualquer modo, nesta visão as leis fundamentais já estariam dadas.
Restaria esclarecer detalhes sobre a composição e história geológica da Terra
primitiva, e proceder a modelagem dos processos que possivelmente
ocorreram. A teoria da seleção natural, acrescida da química dos compostos
orgânicos, forneceria base suficiente para esta modelagem. Note-se que a
ênfase é posta na competição entre entidades biológicas elementares que,
num primeiro momento seriam moléculas e só mais tarde agregados de
moléculas e células individualizadas.
Existem teorias alternativas para a origem da vida que defendem a
primazia da organização e metabolismo, isto é, do todo, vertente similar à de
Oparin (1956). Entre os autores atuais que partilham esta visão destacam-se
Margulis (cf. Margulis e Sagan, 2002), Maturana e Varela (2001), Kauffman
(1997, 1995) e de Dyson (1999). De acordo com Kauffman, por exemplo,
conjuntos de moléculas originadas aleatoriamente no oceano primitivo surgiram
espontaneamente, separados do meio externo por uma membrana. Esta
primeira célula incluiria redes de processos fisiológicos, reações bioquímicas
em que todas as moléculas seriam formadas, uma reação sendo catalisada
pelo produto de alguma outra. A vida, o funcionamento desta rede metabólica
Alguns pressupostos subjacentes às teorias sobre a natureza e origem da vida 257

autocatalítica, seria uma propriedade emergente do sistema. O proto-


organismo sofreria um tipo primitivo de reprodução por divisão aleatória, sem
necessidade de alguma molécula portadora da memória biológica. Tal molécula
teria sido integrada posteriormente. Na fase inicial da evolução, o conjunto do
sistema funcionaria como o genótipo do mesmo. Além da seleção natural, para
Kauffman, haveria necessidade de considerar novas leis biológicas, referentes
à origem da complexidade e auto-organização, irredutíveis a leis e teorias mais
elementares.
Este holismo contemporâneo é genuinamente científico; as conjecturas
de Kauffman baseiam-se em argumentos plausíveis e permitem a derivação de
modelos quantitativos e previsões testáveis experimentalmente. Não tem
qualquer relação com concepções místicas, como o chamado design
inteligente. Não implica em privilégio especial de algum “todo” previamente
estabelecido, uma vez que o primeiro ser vivo teria resultado do acoplamento
de partes pré-existentes, conforme leis naturais. Implica apenas antecedência
temporal do organismo (ou sistema autopoiético) sobre a molécula portadora
da informação. A própria pesquisa biológica poderá refutar ou corroborar esta
hipótese.

A origem de outros níveis de organização

Uma das críticas ao pensamento biológico contemporâneo é que em


genética e biologia molecular raramente se leva em conta o papel ativo do
organismo; o que importa é a sua composição, genes, caracteres e processos,
considerados, até certo ponto, isoladamente. Os organismos são vistos como
simples conjuntos destes elementos. Esta visão identificada com o
reducionismo em biologia, mas o termo está sendo usado de forma vaga e, no
presente caso, não implica em negar a existência de leis biológicas referentes
à seleção natural. Para autores comprometidos com a visão sistêmica,
entretanto, mesmo assim seria uma limitação que se estenderia para as teorias
sobre a origem da vida e da organização biológica.
Os entes biológicos estão organizados em diferentes níveis, desde
moléculas até ecossistemas. Diferentes disciplinas e programas de pesquisa
João Carlos M. Magalhães 258

abordam estes níveis com teorias e métodos particulares. Assim, no estágio


atual de desenvolvimento científico, “organismo” e outros conceitos biológicos
são definidos, ou especificados de algum modo, dentro do contexto de
disciplinas particulares. Esta idéia não é inteiramente satisfatória, pois se
conceitos tão importantes apresentam diferentes significados, tendem a
confundir as relações interdisciplinares.3
Partindo da teoria molecular da origem da vida, em uma abordagem,
matematicamente sofisticada, Michod (1999) generaliza a teoria da seleção
multinível, de modo a dar conta da origem dos níveis superiores da
organização biológica. Tanto a individualidade como a organização em níveis
pode ser explicada a partir da noção de fitness. Ao contrário da visão
tradicional da seleção natural, que toma os genes como unidade de seleção
enfatizando apenas a competição entre estas unidades, sua síntese explora a
idéia de cooperação, a qual permitiria a emergência de novas unidades de
seleção. Falando por alto, o relaxamento da competição entre as unidades de
um certo nível (p. ex. genes) permitiria o surgimento de unidades superiores de
organização (p. ex. células), cujas partes cooperariam entre si. Haveria assim
uma transferência de fitness entre níveis. Embora a teoria de Michod possa ter
profundas implicações para a concepção de vida, o que importa no momento é
sua afirmação do conceito de fitness como conceito central da biologia
(Michod, op.cit.).

Conclusão

Como seria de se esperar, a concepção que se tem sobre a natureza da


vida continua influindo nas teorias sobre a sua origem e evolução. Devido ao
caráter altamente especulativo destas teorias, tal influência torna-se
problemática.
É possível conceber o fenômeno vital como conseqüência exclusiva das
leis físico-químicas, e neste caso as noções tipicamente biológicas como

3
Conforme Lewontin, Rose e Kamin (1984), o reducionismo, enquanto doutrina, leva a
confundir nível de organização orgânica com nível de explicação, isto é, a confundir aspectos
ontológicos e epistemológicos.
Alguns pressupostos subjacentes às teorias sobre a natureza e origem da vida 259

organismo, adaptação, função biológica etc., seriam apenas formas de


descrever uma realidade físico-química complexa. Aceitando-se este ponto de
vista, as noções teleológicas seriam apenas metáforas. Esta é uma concepção
reducionista de fato e parece indicar resquícios do mecanicismo em biologia.
Uma outra posição, predominante hoje em dia, concebe a seleção
natural como princípio independente que se sobrepõe (ou que é superveniente)
às leis da física e da química, não podendo ser obtido a partir destas leis. Este
princípio seria necessário para explicar os fenômenos biológicos, como a
origem e evolução da vida, porém sem necessidade de outros princípios
biológicos fundamentais. Assim, o raciocínio teleológico, inerente à biologia,
teria encontrado sua justificação definitiva. A própria noção de teleologia
poderia ser substituída pela de teleonomia, convenientemente explicada em
termos de seleção natural (ver Monod, 1970). Neste caso, um conceito
fundamental é fitness e pode-se pensar em construir uma definição de vida a
partir deste conceito.
A posição de Kauffman, e de outros que adotam visão sistêmica, embora
minoritária, é também razoável. No que diz respeito à origem de sistemas
biológicos complexos, em particular a primeira célula viva, não se pode
descartar de antemão a possibilidade de princípios explicativos adicionais.
Aceitando esta idéia, a organização biológica seria fruto de dois tipos de leis:
as referentes à seleção natural e as referentes à auto-organização, embora
estas ainda não estejam totalmente esclarecidas (cf. Kauffman, 1995).
Também neste caso não está claro se tais leis seriam independentes, não
dedutíveis a partir das leis da química e da física. Note-se que esta dúvida
pode perdurar mesmo na eventualidade de que a teoria de Kauffman venha a
ser corroborada experimentalmente e aceita pela totalidade da comunidade
científica.
Sobre a questão da definição de vida, é preciso considerar ainda que
uma definição científica terá um sentido preciso apenas em referência a um
sistema teórico construído em uma linguagem adequada e com seus
fundamentos claramente apresentados. Partes da teoria biológicas têm sido
estudadas desta maneira (ver, p.ex. Magalhães e Krause, 2000, e bibliografia
que se encontra naquele trabalho). Como é bem estabelecido mesmo em uma
João Carlos M. Magalhães 260

teoria construída formalmente nem todos os conceitos poderão ser definidos,


alguns terão de ser introduzidos como primitivos. Isto significa que para definir
vida teremos que lançar mão de outros conceitos, tomados como primitivos no
sistema.
A não ser no interior de disciplinas específicas como a genética de
populações e a sistemática filogenética, a ciência biológica parece
desenvolver-se mais por tentativa e erro do que por procedimentos analíticos,
ressentindo-se da falta de uma linguagem unificada que permita uma
abordagem quantitativa e integrada. É de se esperar que a análise da estrutura
lógica das teorias da biologia (independentemente da abordagem utilizada para
se fazer isto) tenha importância não apenas para a filosofia da ciência,
podendo contribuir para uma progressiva unificação de áreas da biologia que
hoje se desenvolvem mais ou menos separadamente. Este tipo de estudo,
entretanto, poucas vezes influiu efetivamente sobre o que pensam e fazem os
cientistas (cf. Papavero, 1989). Talvez, devido ao imenso desenvolvimento de
áreas como a biologia molecular ocorrido nos últimos anos, esta percepção
possa estar mudando entre os biólogos (ver p. ex. Lazebnik, 2002). De
qualquer modo, não existe uma teoria abrangente dos sistemas biológicos que
permita atualmente uma definição de vida válida para todos os ramos da
biologia.

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Teleologia e ciências da vida na época das luzes: o finalismo
na teoria da geração de Maupertuis

Maurício de Carvalho Ramos


Pós-doutorando em Filosofia/USP

Resumo: No presente estudo, discuto o problema da teleologia nas ciências


da vida a partir de certas controvérsias desenvolvidas nos séculos XVII e
XVIII em torno do problema da geração orgânica. Primeiramente, examino a
articulação de certos elementos das teorias da geração de Descartes e de
Malebranche com o problema da causalidade final na explicação dos
fenômenos naturais e, a seguir, introduzo as concepções de Maupertuis
como caso particular de tratamento do tema na época das Luzes. Após
expor as idéias centrais de sua teoria, concluo retomando a questão da
teleologia e propondo uma avaliação da posição de Maupertuis diante do
dilema entre acaso e finalidade na produção dos fenômenos de geração
orgânica.
Palavras-chave: Teleologia. Finalismo e Mecanicismo. Geração.
Epigênese. Preexistência. Maupertuis.

O debate acerca do papel do finalismo nas explicações científicas tem


como um de seus temas fundamentais a crítica da concepção mecanicista em
biologia. As primeiras aplicações dos princípios da ciência mecânica ao estudo
dos fenômenos biológicos podem ser localizadas no século XVII, tendo
Descartes como um de seus primeiros expoentes. A partir de então, as
controvérsias que marcaram o desenvolvimento de boa parte dos principais
conceitos e teorias biológicas passaram, direta ou indiretamente, pela crítica à
aplicação do mecanicismo para explicar os fenômenos biológicos. Tal crítica,
por sua vez, teve como elemento recorrente e central o que pode ser
sinteticamente designado como "o problema da teleologia nas ciências da
vida". Minha contribuição para o debate da questão será feita através do exame
de certas controvérsias desenvolvidas nos séculos XVII e XVIII em torno do
problema da geração orgânica. Primeiramente, tratarei da formulação da teoria
da preexistência dos germes a partir da crítica à embriologia cartesiana e, em
seguida, desenvolverei certos aspectos da teoria da geração dos corpos
organizados do astrônomo e geômetra francês Pierre-Louis Moreau de

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
Teleologia e ciências da vida na época das luzes 263

Maupertuis, cuja obra é representativa do pensamento francês do século XVIII.


Descartes toma como fundamento de sua embriologia a teoria
hipocrática da dupla semente: os progenitores produzem líquidos seminais que,
misturados no ato da cópula, estabelecem as condições iniciais para a
geração. Interpretando mecanicamente esse processo, as partículas seminais
masculinas e femininas contidas nos dois semens, produzem o embrião
segundo as leis gerais do movimento. A matéria seminal é da mesma natureza
que a matéria ordinária que compõe os demais corpos naturais, ou seja, é
inerte e não exibe qualquer qualidade vital especial. Para garantir a diversidade
das formas a serem geradas, Descartes postula uma grande variedade de
formas para os corpúsculos envolvidos no processo. O elenco inicial básico de
corpúsculos necessário para a formação dos embriões é mais ou menos o
mesmo encontrado na produção do Universo, da Terra e de suas partes.
Mesmo que seja necessário postular uma maior diversidade de formas para dar
conta da complexidade orgânica, elas são sempre mais simples do que o
organismo que formarão; ou seja, não há estruturas preformadas. Os
movimentos necessários para a localização precisa dessas partes na estrutura
orgânica são regidos pelas leis mecânicas. Em resumo, trata-se de uma
epigênese mecânica.
Essa concepção da geração é coerente com a concepção de caráter
essencialmente matemático da natureza que prioriza os atributos geométricos
da matéria e que procura interpretar a ordem total da natureza como o
resultado da atuação de leis quantitativas. A ordem orgânica do animal adulto
pode ser deduzida da ordem orgânica da semente e vice-versa. Como as leis
são imutáveis, para um conjunto inicial de condições materiais obtém-se
sempre o mesmo resultado final: em princípio, no plano biológico, as leis do
movimento garantem o aspecto conservativo da reprodução que resulta na
constância temporal das espécies. Isso significa que, sendo as leis invariáveis,
a produção da diversidade biológica depende da diversidade das condições
iniciais presentes nas sementes.
Temos aqui uma primeira dificuldade diretamente ligada às explicações
teleológicas dos processos vitais. Esta dependência das condições iniciais
revela a incapacidade da teoria cartesiana explicar a especificidade do
Maurício de Carvalho Ramos 264

processo, ou seja, é necessário partir de uma ordem orgânica inicial específica


para a geração das diferentes espécies de organismos cuja origem a teoria não
explica. A crítica de Cudworth, por exemplo, incide justamente sobre este
ponto. O autor afirma que o De la formation du foetus, onde aparece a
embriologia de Descartes, é “precário e contestável em toda sua extensão; não
faz uma aplicação às diferenças existentes nos vários Animais, nem oferece a
menor razão do porquê um Animal de uma espécie não poderia ser formado a
partir da semente de uma outra” (apud Pyle, 1987, p. 233). A explicação da
diferença específica da geração e, até certo ponto, o isolamento reprodutivo,
deverá contar, além de matéria e do movimento, com algum tipo de princípio
organizador ou diretivo. Se para Descartes as leis naturais podem gerar
sempre o mesmo universo a partir de uma condição caótica inicial, o mesmo
não se aplicaria à geração dos organismo. A semente do universo pode ser
qualquer uma, mas a dos organismos deve contar com alguma forma de pre-
organização ou preformação que também deve ser explicada.
As tentativas de resolver os problemas oriundos da embriologia
cartesiana geraram uma profusão de teorias de difícil sistematização; mas,
mesmo assim, podemos identificar duas classes de teorias em função da
resposta dada às dificuldades que apresentamos anteriormente. Primeiramente
há as teorias que conservam a idéia do animal-máquina e as linhas gerais do
esquema mecanicista cartesiano, mas recusam sua epigênese mecânica. Os
mecanicistas posteriores a Descartes substituirão essa epigênese pela teoria
da preexistência dos germes. A segunda classe, menos uniforme que a
primeira, inclui teorias que recusam o animal-máquina e aceitam a epigênese,
mas trata-se agora de uma epigênese dinâmica que explica o formação do
embrião por meio de forças de atração ou forças análogas. A teoria da geração
de Maupertuis adotou este caminho explicativo e, antes de passarmos ao seu
exame, discutiremos brevemente alguns detalhes acerca do vínculo da
epigênese mecânica e da preexistência com o problema da teleologia.
Segundo Hutchison (1983), o advento da filosofia mecânica no século
XVII levou a uma concepção sobrenaturalista do mundo físico. Despojando a
matéria de suas formas, qualidades e virtudes naturais a ela atribuídas pela
filosofia naturalista tradicional, a atividade da matéria passou a ser entendida
Teleologia e ciências da vida na época das luzes 265

como o efeito imediato da ação de Deus. Em um estudo do papel das teorias


biológicas na revolução científica do século XVII, Pyle (1987) confere maior
precisão à tese de Hutchinson. Ele entende que os autores envolvidos na
primeira fase de desenvolvimento da filosofia mecânica expressaram
concepções sobrenaturalista apenas no âmbito metafísico de suas teorias. Já
os mecanicistas da segunda geração, como Malebranche, teriam
comprometido-se com uma visão sobrenaturalista integral, a saber, para os
âmbitos físico e metafísico da realidade. Resumindo a tese de Pyle, ele propõe
como elemento central desse processo de sobrenaturalização a adoção da
teoria da preexistência dos germes. Estabelecida filosoficamente por
Malebranche, esta teoria afirma que todos os organismos foram gerados
diretamente por Deus no instante da criação. Quando nasce uma planta ou
animal não ocorre uma nova produção na natureza, mas há apenas o
crescimento de germes preexistentes. As leis mecânicas e o esquema geral do
mecanicismo cartesiano poderiam ser adaptados de modo a explicar apenas o
crescimento do germe. Contudo, todos os germes existentes, em todos os
tempos, foram diretamente causados por uma ação milagrosa ou sobrenatural.
Tornando-se capaz de explicar a complexidade e a especificidade da geração
bem como o isolamento reprodutivo das espécies, a teoria preexistência foi
incorporoda às teorias embriológicas oficiais dos séculos XVII e XVIII.
Colocando essa interpretação histórica na perspectiva do problema da
teleologia nas ciências da vida, podemos acrescentar que a filosofia natural
pré-cartesiana aceitava a existência de causas finais intrínsecas e, com elas,
produzia explicações teleológicas internalistas dos processos gerativos. Mas as
simpatias, almas, virtudes e qualidades ocultas da tradição, cujo poder ativo
sustentavam a existência de uma causalidade final interna na natureza, foram
eliminadas pelo programa cartesiano que passou a considerar como legítimas
apenas as explicações mecânicas. Esta é a interpretação corrente que leva à
conclusão de que o mecanicismo cartesiano abandonou todo recurso à
teleologia. Porém, se considerarmos o desenvolvimento do cartesianismo de
maneira mais ampla, como fizeram os autores antes citados, perceberemos
que o mecanicismo e a teleologia não foram concepções que se excluiam
mutuamente. As concepções originais de Descartes teriam supostamente
Maurício de Carvalho Ramos 266

abandonado o recurso à causalidade final intrínseca da filosofia natural


tradicional, mas o vínculo metafísico que as leis mecânicas possuem com uma
fonte divina permite identificar em Descartes a operação de uma finalidade
extrínseca sobrenatural. O recurso a esta forma de finalidade abre a
possibilidade para explicações teleológicas externalistas e este seria o caráter
das explicações de Descartes para a geração do universo, do sistema solar e
dos corpos organizados terrestres. Porém, como bem mostrou Martínez (1998)
em um estudo sobre o tema, esta dependência de uma causa primeira
sobrenatural revelaria uma ambigüidade na concepção de lei natural em
Descartes: a explicação de fenômenos históricos por leis seria ou bem uma
ilusão ou estas leis teriam um poder intrínseco de gerar uma ordem e, assim,
teriam o mesmo caráter teleológico intrínseco das entidades dinâmicas que o
cartesianismo pretendeu banir da filosofia. Porém esta ambigüidade
desaparece em seu posterior desenvolvimento no que diz respeito a
formulação da preexistência dos germes. Como parte do processo de
sobrenaturalização da física ao qual se refere Pyle, a teoria da preexistência
incluiu a origem dos próprios embriões explicitamente no âmbito dos milagres
e, portanto, excluiu-a do âmbito da física e da explicação por leis. Com isso, ela
adere a uma clara concepção teleológica externalista.
Nosso próximo e último passo é, então, aplicar essa mesma análise do
problema da telelologia à epigênese dinâmica que, como vimos, constitui uma
segunda alternativa às insuficiências da embriologia de Descartes. Contudo, ao
invés de uma análise geral, discutiremos a teoria da geração de Maupertuis e,
assim, passaremos diretamente a um caso particular que ilustra de modo
exemplar a maneira pela qual a época das luzes enfrentou as dificuldades em
torno da geração orgânica herdadas do século XVII.
As concepções de Maupertuis sobre a geração dos organismos
aparecem principalmente em duas de suas obras, a Vénus Physique, de 1745
e o Système de la Nature, de 1752. Referências importantes ao tema também
aparecem em seu Essai de Cosmologie de 1750. A teoria da geração
desenvolvida na Vénus Physique é uma típica epigênese dinâmica. A geração
orgânica ocorre a partir da mistura dos líquidos seminais paterno e materno
que contém partes próprias à geração dotadas de forças especiais de atração
Teleologia e ciências da vida na época das luzes 267

na forma de afinidades químicas. As diferenças de afinidades entre as partes


seminais são determinadas por sua origem no corpo dos pais. Partes oriundas
de um determinado órgão terão maior afinidade, se atrairão com maior
intensidade e, desse modo, no processo gerativo o embrião reproduzirá a
disposição orgânica dos progenitores. Tal conjectura é apresentada juntamente
com uma crítica às inconsistências empíricas da teoria da preexistência, mas o
ponto que nos leva diretamente ao problema da teleologia é a crítica que
Maupertuis dirige ao próprio fundamento filosófico e metodológico da noção de
preexistência. Segundo o autor, se atribuirmos uma causa sobrenatural à
produção dos germes ou embriões, estamos eliminando do âmbito da física o
verdadeiro problema ou objeto a ser investigado. A pesquisa autêntica sobre a
geração deve explicar como se forma o próprio embrião, ou seja, a explicação
de sua formação deve sair do âmbito sobrenatural tanto quanto seu
crescimento.
Esta crítica mantém-se na elaboração da segunda versão de sua teoria
que aparece no Système de la Nature. Nesta obra a epigênese dinâmica
baseada na atração newtoniana perde sua prioridade. O autor passa a
entender que sendo a atração "uma força uniforme e cega espalhada por todas
as partes da matéria", é incapaz de explicar a regularidade exigida para a
formação dos organismos, ou seja, a força de atração, tomada em sua
formulação geral, não pode, sozinha, explicar o caráter teleológico da geração.
Também não mais considera satisfatória a utilização das afinidades químicas.
Sendo elas atrações que seguem outras leis, seriam necessários tantos tipos
de atrações quantas fossem as partes diferentes da matéria que participassem
da formação do organismo.
Com tais posição, Maupertuis afasta-se do projeto de elaboração de
uma embriologia epigenética fundada exclusivamente na química newtoniana e
atribui à matéria, juntamente com suas propriedades físicas, propriedades
psíquicas capazes de atuar na ordenação dos corpos. Maupertuis afirma que o
problema da geração somente será explicado se atribuirmos às partículas
seminais os atributos de desejo, aversão e memória. No processo de formação
do embrião a atração espalhada por todas as partes da matéria não será mais
uniforme e cega: a intensidade dessa força poderá variar segundo a aversão
Maurício de Carvalho Ramos 268

ou o desejo dos elementos materiais por estabelecer certas interações e a


direção da ação dessa força será orientada por uma memória capaz de restituir
às partes orgânicas a disposição conforme à sua espécie. Com sua teoria
reformulada, Maupertuis enfrentou todas as dificuldades que a geração dos
organismos colocava para a ciência mecânica de sua época. Não pretendemos
discutir aqui, mesmo resumidamente, suas explicações para cada caso. O que
faremos é passar diretamente para o exame da relação de sua teoria com o
problema teleológico.
Atribuir propriedades psíquicas à matéria para orientar a geração
orgânica e, com isso, garantir a especificidade do processo, parece ser um
apelo direto à causalidade final. A ordem das condições iniciais da geração já
está parcialmente garantida pela origem somática das partes seminais, mas o
"encaixe" destas partes conta ainda com a ação coordenadora do desejo, da
aversão e da memória. Assim, pareceria que tal diretividade do processo
implicaria um finalismo intrínseco e o cerne das explicações da teoria de
Maupertuis teriam um caráter teleológico internalista. Em linhas gerais, esta
conclusão está correta, mas é preciso torná-la ainda um pouco mais precisa;
para tratar com mais algum detalhe da questão, precisamos incluir em nossa
discussão certos aspectos de seus estudos em física.
O desenvolvimento da obra física de Maupertuis possui muitos paralelos
com o desenvolvimento de sua teoria da geração. Inicialmente o autor constrói
uma teoria física e astronômica baseada na filosofia natural de Newton mas,
posteriormente, passa a procurar por um princípio ainda mais geral que a
atração, capaz de reduzir todas as leis físicas até então consideradas como as
mais fundamentais. Tal princípio vincula-se metafisicamente a uma concepção
de Deus como produtor de leis capazes de garantir a estrutura do universo tal
como revelam os fenômenos, e fisicamente a uma lei de conservação das
ações envolvidas na produção destes mesmos fenômenos. Tal lei é o princípio
da mínima ação: quando ocorre alguma mudança na Natureza, a quantidade
de ação necessária para tal mudança é a menor possível. Com a expressão
matemática deste princípio Maupertuis deduziu as leis da óptica, do repouso e
do movimento dos corpos e, acreditando ter encontrado o grande invariante da
Teleologia e ciências da vida na época das luzes 269

natureza, utilizou-o na formulação de uma prova da existência de Deus


baseada nas leis gerais da física.
A noção metafísica que fundamenta o princípio físico da mínima ação e
que estabelece a relação de Deus com a natureza que Maupertuis utilizou em
sua prova é a seguinte: todas as coisas estão de um tal modo ordenadas que
uma Matemática cega e necessária executa aquilo que a inteligência mais
esclarecida e mais livre prescreve. A utilização de um tal princípio de economia
claramente implicaria re-introduzir as causas finais na física, problema sobre o
qual Maupertuis esteve bem consciente: "Eu conheço a repugnância que vários
Matemáticos têm pelas causas finais aplicadas na Física e mesmo aprovo-a
até certo ponto" (Maupertuis, 1965, p. 20). A utilização de hipóteses finalistas
na física deve, segundo o autor, restringir-se ao âmbito das leis mais gerais e
não podem ser utilizadas para explicar o detalhe dos fenômenos. Em outras
palavras, Maupertuis adere, no âmbito de sua física, a um finalismo intrínseco
restrito às leis naturais.
A sustentação dessa forma de finalismo associada à sua prova científica
da existência de Deus contou com a crítica de outras provas alternativas que
visavam obter o mesmo resultado. Maupertuis criticou particularmente as
provas oferecidas por Newton e seus seguidores, tiradas da uniformidade e da
conveniência das diferentes partes do Universo. Além de não aceitar como
suficiente o argumento baseado na necessidade de uma escolha para o
estabelecimento da direção do movimento dos planetas, atacou duramente as
provas oriundas da conveniência refletida nas partes dos animais, o que nos
leva de volta ao problema da geração. Nestas provas cada detalhe da estrutura
dos organismos é vinculada a uma função vital específica e, assim, a perfeição
com que todas as necessidades dos organismos são satisfeitas provaria a ação
da Providência divina nos mínimos detalhes da natureza. Maupertuis
considerou as provas deste gênero, comuns entre os físico-teólogos ingleses,
ingênuas e ridículas, mais capazes de encorajar o ateísmo do que de
proporcionar uma prova racional da existência de Deus. De certa forma,
Maupertuis devolve à Teologia Natural de inspiração newtoniana a acusação
de ateísmo imputada ao mecanicismo cartesiano.
Maurício de Carvalho Ramos 270

Contudo, apesar de sua firme posição a este respeito, Maupertuis


conhece claramente o risco envolvido no ataque à Teologia Natural. O
argumento que se apresentava para refutar o emprego deste finalismo
exagerado ia na direção totalmente oposta, ou seja, apelar para o acaso e para
a ausência total de finalidade na natureza. Maupertuis apresenta como
exemplo de tal posição uma passagem do livro IV do Rerum Natura de
Lucrécio nos seguintes termos: "a utilidade não foi de modo algum o objetivo,
(...) ela foi a conseqüência da construção das partes dos Animais (...) o acaso
tendo formado os olhos, as orelhas, a língua, serviu-se deles para ver, para
escutar e para falar" (Maupertuis, 1751, p. 24). Em resumo, temos aqui um
dilema entre duas posições extremas associadas à relação entre forma e
função dos organismos. Segundo o atomismo de Lucrécio, a forma, produzida
casualmente, precede e determina a função e, assim, não haveria sentido em
atribuir quaisquer desígnios ou finalidades aos seres vivos. Mas a conveniência
generalizada observada na natureza entre as formas e as funções orgânicas
reclama o oposto: a função ou utilidade é anterior à forma que lhe está
associada e deve provir de algum projeto. A posição de Maupertuis diante
deste dilema nos oferece os detalhes adicionais que buscávamos acerca do
papel preciso da teleologia em sua teoria da geração. O que entrará aqui em
questão será o problema da origem dos primeiros organismos.
Há dois contextos distintos nos quais Maupertuis explica a geração dos
primeiros corpos organizados sobre a Terra. Dentro do que chamamos o
quadro físico das origens o autor afirma o seguinte "na combinação fortuita das
produções da Natureza (...) o acaso, diríamos, teria produzido uma multidão
inumerável de indivíduos; um pequeno número encontrar-se-ia construído de
maneira que as partes do animal pudessem satisfazer suas necessidades; em
um outro infinitamente maior, não havia nem conveniência nem ordem e todos
pereceram: animais sem boca não podiam sobreviver, outros que careciam de
órgãos para a geração não se podiam perpetuar; os únicos que restaram são
aqueles onde se encontravam a ordem e a conveniência: e essas espécies que
vemos hoje são apenas a mínima parte daquilo que um destino cego havia
produzido" (Maupertuis, 1751, p. 24). Esta conjectura, aparentemente muito
semelhante à explicação atomista, parece eliminar qualquer finalidade ou
Teleologia e ciências da vida na época das luzes 271

precedência da função sobre a forma na geração dos primeiros organismos.


Porém, acreditamos que temos aqui uma diferença sutil, capaz de garantir uma
certa fidelidade à explicação atomista e, ao mesmo tempo, de evitar um apelo
irrestrito ao acaso. As estruturas produzidas de modo fortuito não satisfazem
automaticamente as necessidades orgânicas; a maioria delas não se fixa no
tempo através da geração por não exibir a combinação de partes ou de órgãos
capaz de garantir o desempenho necessário à sobrevivência. O acaso pôde
produzir seres orgânicos, mas não é ele que estabelece quais serão as
estruturas funcionalmente viáveis e, assim, deve existir algum tipo de
predeterminação com relação à composição funcionalmente conveniente de
órgãos capaz de engendrar e de manter um organismo vivo. Tal
predeterminação é encontrada no segundo contexto em que Maupertuis explica
a origem dos primeiros organismos. No interior do que designamos como
quadro metafísico das origens, o autor afirma que "Deus, ao criar o mundo,
dotou cada uma das pequenas partes de matéria com alguma propriedade
semelhante àquilo que em nós chamamos desejo, aversão e memória; a
formação dos primeiros indivíduos sendo milagrosa, aqueles que lhes
sucederam não são mais do que os efeitos dessas propriedades" (Maupertuis,
1965a, p. 183). As propriedades psíquicas presentes nas partes seminais,
fundamento de sua última teoria da geração, possuem uma origem
sobrenatural, cuja atuação no âmbito físico, desde a origens dos primeiros
organismos, vem regulando e selecionando as combinações fortuitas. Desse
modo, produz como resultado o fato de que os organismos pertencentes a
todas as espécies existentes exibam uma perfeita combinação de forma e
função que se realiza na construção de estruturas que atendam a
necessidades. Assim, concluindo nossa discussão, vemos que há claramente
na teoria da geração de Maupertuis uma finalidade intrínseca operando na
produção dos fenômenos por meio de um princípio gerativo fundamental que,
apesar de não possuir o mesmo estatuto legiforme do princípio físico de
mínima ação, guarda relações muito semelhantes com uma fonte sobrenatural
e extrínseca de organização.
Maurício de Carvalho Ramos 272

Referências bibliográficas

HUTCHINSON, K. R. Supernaturalism and the mecanical philosophy.


History of Sciences, 2, p. 297-333, 1983.

MARTÍNEZ, S. F. Sobre la relación entre historia y causalidad en la


biología. In: BARAHONA, A. & MARTÍNEZ, S. (Org.). Historia y
explicación en biología. México: Univ. Nacional Autónoma de
México/Fondo de Cultura Económica, 1998. p. 23-41.

MAUPERTUIS, P.-L. M. de. Essai de cosmologie. [s.l.], 1751.

________. Oeuvres. Hildesheim, Georg Olms, 1965a. v. 2.

________. Oeuvres. Hildesheim, Georg Olms, 1965b. v. 4.

PYLE, A. J. Animal generation and the mechanical philosophy: some light


on the role of biology in the Scientific Revolution. History and
Philosophy of Life Sciences, 9, 2, p. 225-54, 1987.
Notas sobre evolução e teleologia no pensamento de Charles
S. Peirce

Max Rogério Vicentini


Departamento de Filosofia/UEM

Resumo: A tese central investigada neste trabalho é a de que a lei da


mente elaborada por Charles S. Peirce pode ser vista como uma forma
diferenciada de causalidade que procura explicar como certos fenômenos,
bastante disseminados no universo, mas particularmente pertinentes à vida
e à mente, podem ocorrer. Procura-se-á, com este intuito, realizar uma
investigação conceitual que esclareça o significado deste princípio
peirceano de aquisição de hábitos, ou lei da mente, como é denominado em
algumas passagens, e dessa maneira indicar que a abordagem peirceana
coloca e sugere aspectos que ainda permanecem estranhos ao contexto de
discussão atual, mas que, segundo o autor, são de profunda relevância para
o delineamento de uma visão adequada do crescimento da ordem no
universo e para a explicação da origem e aumento de complexidade dos
sistemas.
Palavras-chave: teleologia, cosmologia, evolução, causalidade, acaso, lei.

“Genesis is production from ideas.”


Charles S Peirce

Em um universo temporalmente estruturado, no qual o futuro é


assimétrico ao passado, uma inteligência, que aprende com a experiência,
desenvolve um padrão de comportamento que visa responder eficientemente
aos diversos desafios que o surgimento de novidades estabelece.
Esse desenvolvimento, que para Peirce é bem caracterizado pelo termo
crescimento, molda, dentro de sua concepção cosmológica, todos os
elementos constituintes de nosso universo, desde o mais rígido dos elementos,
até aqueles mais voláteis; desde um diamante, até a própria mente humana.
Esse universo em crescimento encontra no acaso seu constituinte fundamental,
como uma decorrência lógica necessária do princípio que manda não postular
o incognoscível no seio da natureza (CP 6, 64), e que Peirce assume como
uma máxima do agir científico. Na passagem do acaso primordial ao universo
ordenado e regido por leis interfere um princípio que o autor denomina de lei da

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
Max Rogério Vicentini 274

mente ou princípio de aquisição de hábitos.


O processo de crescimento, ou evolução, dirá o autor, deve ser
explicado como estando submetido aos mesmos princípios a que todos os
demais fenômenos estão, assim, faz-se necessário encontrar uma lei que
tenha na sua aplicação o motor de seu fortalecimento, ou seja, uma lei que
possa crescer devido a sua própria natureza: esta é a lei da mente. Como
afirma Peirce: “a única tendência que pode crescer por sua própria virtude, a
tendência de todas as coisas a adquirirem hábitos” (CP 6,100).
Peirce descreve a lei da mente como o fato de que as “idéias tendem a
se dispersar continuamente e a afetar certas outras que permanecem em uma
relação peculiar de afetabilidade com relação a elas. Nesta dispersão elas
perdem intensidade, e especialmente o poder de afetar as outras, mas ganham
em generalidade e se tornam amalgamadas com outras idéias” (CP 6, 104).
É natural atribuir a uma lei o caráter de absoluta, como o atribuído às leis
da física; a lei da mente, entretanto, não requer uma exata conformidade na
produção de seus efeitos. Como afirma Peirce, “a conformidade exata estaria
em conflito inequívoco com a lei, uma vez que isso cristalizaria
instantaneamente o pensamento e impediria as formações posteriores de
hábitos” (CP 6, 23). A lei da mente apenas torna um certo sentimento mais
provável (likely). Em outras palavras, podemos dizer que a lei da mente inclina
o curso futuro dos eventos a uma certa direção sem, contudo, determiná-lo.
Como afirma Peirce, “a causa final não determina de que modo particular algo
se realizará, mas unicamente que o resultado terá um certo caráter geral” (CP
1, 220). É a causa final, diz Peirce, que atribui existência a um objeto de uma
classe. Não devemos, todavia, entender essa atribuição como algum tipo de
produção miraculosa. É o próprio autor que esclarece em que sentido preciso
ele entende essa atribuição: “o que eu entendo pela idéia conferindo existência
aos membros individuais de uma classe, é que ela lhes confere o poder de
produzir resultados neste mundo, que ela lhes confere, equivale dizer,
existência orgânica, ou, em uma palavra, vida” (CP 1, 220).
Seguindo na explicação dessa idéia, Peirce elabora uma distinção entre
um indivíduo e a matéria que o compõe. Essa distinção se cristaliza na frase
“um homem é uma onda, mas não um vórtice” (CP 1,220). Ainda que ele seja
Notas sobre evolução e teleologia no pensamento de Charles S. Peirce 275

indissociável das partículas que o compõe, nem todas as propriedades que


podem ser atribuídas ele são adequadas a elas. Tomemos o exemplo fornecido
por Peirce:

Tome um cadáver: disseque-o, mais perfeitamente do que jamais foi dissecado.


Tome todo o sistema de veias sanguíneas, como nós o vemos desenhado nos livros.
Trate o sistema de nervos espinal e simpatético, o sistema alimentar com os seus
adjuvantes, o sistema muscular, o sistema ósseo, da mesma maneira. Coloque-o
todo em uma cabine de tal modo que de um certo ponto de vista, cada um aparece
superposto ao outro em seu lugar próprio. Este seria um espécime singularmente
instrutivo. Mas chamá-lo de homem seria algo que ninguém faria ou sonharia nem
mesmo por um instante. Mas a melhor definição que poderia ser elaborada seria uma
dissecação similar. Ele realmente não atuaria no mundo como o objeto definido faria.
Ele nos habilita a ver como as coisas funcionam, na medida em que nos mostra a
causa eficiente. A causa final, que é o que caracteriza o definitum, não é abordada.
(CP 1, 220).

A partir deste exemplo, Peirce esclarece a distinção entre causa


eficiente e causa final que aqui discutimos. A causa eficiente é aquela na qual
as partes compõem o todo, enquanto que na causa final percebemos o todo
chamando por suas partes.
Com essas considerações em mente, Peirce conclui que a causa
primária atuante no universo em crescimento deve ser a causa final, não
ignorando, contudo, que “causa final sem causa eficiente é inócua (helpless);
um mero chamar por partes é o que qualquer homem pode fazer, mas elas não
virão sem a causa eficiente. Causa eficiente sem causa final, entretanto, é pior
do que inócuo, é mero caos, e o caos não é nem mesmo caos sem causa final;
é um nada vazio” (CP 1, 211). Como indica Silveira (1985), “o que o cosmo
evolucionário exige para se efetivar na organização crescente que o define, é a
presença de duas causas cujo modo de operar é reciprocamente inverso:
causa final e causa eficiente” (Silveira, 1985, p. 8). Assim, sob a atuação da lei
de aquisição de hábitos ou da mente, há um contínuo crescimento da
uniformidade a partir das formas diferenciadas. Mas “as mudanças divergentes
à lei estão agindo perpetuamente a fim de aumentar a variedade do mundo, e
são controladas por um tipo de seleção natural ou de qualquer outro tipo (pois
Peirce julga que a seleção natural não seja, por si só, suficiente) de tal forma
que o resultado geral deve ser descrito como ‘heterogeneidade organizada’ ou
melhor ‘variedade racionalizada’”. (CP 6, 23).
Max Rogério Vicentini 276

A idéia, ou causa final, atuaria, desse modo, como um atrator para a


realização de um determinado curso de eventos, inclinando acontecimentos
que se processariam em função de um ser in futuro. Dizer que o futuro não
influencia o presente é uma doutrina inaceitável, afirma Peirce (CP 2, 86). A
defesa desta doutrina negaria a possibilidade da existência de causas finais e
fins atuando na constituição do cosmo. Certo é, contudo, que a maneira do
futuro atuar sobre o presente se distingue daquela efetuada pelo passado. O
passado atua de maneira direta, dualista, enquanto o futuro necessita de um
meio, ou uma maquinaria, como diz o autor, através do qual possa exercer sua
influência. Silveira (1985) esclarece que “enquanto esta última [causa eficiente]
atualiza-o pela força, a primeira [causa final], muito mais genuína, faz derivar o
próprio cosmo de uma idéia, antecipa o todo às partes, cabendo à causa
eficiente a composição efetiva – e, de algum modo, defectiva – do todo pela
ação recíproca das partes” (Silveira, 1985, p. 8).
Os exemplos da atuação da causa final são muitos. No que tange ao
pensamento, particularmente em sua atividade teórico-criativa, a presença do
ser in futuro, como um atrator, é inequívoca. Procedemos à verificação de
nossas candidatas a leis gerais por meio de experimentos. Variamos
gradualmente as condições de nossos experimentos para constatar o que
acontece. Se estivermos no caminho errado, uma enfática negativa fará com
que reconsideremos nossas hipóteses, de tal modo que, em um longo prazo (a
long run), elas se tornem cada vez mais adequadas e corretas. Ou seja, “isto
equivale a dizer, que conjeturamos as leis bit por bit” (CP 1, 86).
Um leitor atento poderá, nesta altura, julgar por meio da descrição
oferecida da lei da mente, ou causa final, que a sua aplicação restringe-se ao
âmbito dos fenômenos mentais, particularmente os humanos. A fim de evitar
esse equívoco, fazem-se necessárias algumas palavras a respeito da distinção,
elaborada por Peirce, entre causa final e propósito. A causa final possui uma
abrangência muito maior do que o propósito, sendo este apenas o tipo de
causa final que estamos mais habituados. Em um texto de 1902, Peirce
esclarece que “um propósito é um desejo operativo” (CP 1, 205). Ainda que
para os seres humanos o propósito se apresente como uma condução
autocontrolada que mira um certo ser in futuro que aparece como desejável,
Notas sobre evolução e teleologia no pensamento de Charles S. Peirce 277

quando consideramos a atuação da causa final em seu sentido mais amplo,


constatamos que o significado do termo não retém nada de sua interpretação
psicológica.
Para melhor ilustrar a atuação da causa final no cosmo podemos
lembrar que a atuação da causa final não é outra coisa que a evolução (cf. CP
2, 86). Nota-se, na formulação peirceana, um alargamento das fronteiras
tradicionalmente consideradas como limitantes da ação da evolução. Não só o
reino orgânico cresce com a evolução, mas todo o cosmo assim procede.
Peirce procurará montar um quadro teórico no qual a evolução é o aspecto
marcante de todos os acontecimento, nos mais variados campos.
Em uma formulação geral Peirce distinguiu três tipos de evolução: a
evolução por variação fortuita, denominada de evolução ticástica, ou ticasmo,
a evolução por necessidade mecânica, denominada de evolução anancástica,
ou anancasmo e a evolução por amor criativo, denominada de evolução
agapástica, ou agapasmo.
Os três modos de evolução são compostos pelos mesmos elementos
gerais, diz Peirce. Os pais passam uma quantidade de “talentos”
espontaneamente para a geração seguinte e esta possui a disposição de
apanhá-los e desenvolvê-los e, dessa maneira, servir a um propósito geral.
Esses elementos mostram-se mais claramente no agapasmo, mas também
estão presentes de maneira diversa no ticasmo e no anancasmo. Essas duas
formas podem ser vistas como formas degeneradas de agapasmo, afirma o
autor.
A evolução agapástica, que por ser mais representativa da atuação da
causalidade final, interessa-nos, aqui, mais de perto. Este tipo de evolução
considera que a própria idéia possui uma força de atração que conduz o
pensamento para si. Como afirma Peirce:

O desenvolvimento agapástico do pensamento é a adoção de certas tendências


mentais, não totalmente descuidadas como no ticasmo, nem completamente cegadas
pela mera força das circunstâncias ou da lógica, como no anancasmo, mas por uma
imediata atração da própria idéia, cuja natureza é adivinhada depois que a mente a
possui, pelo poder da simpatia, isto é, por virtude da continuidade da mente... (CP 6,
307).
Max Rogério Vicentini 278

Quando Peirce refere-se ao pensamento, este deve ser entendido como


“o princípio primordial para a compreensão não só dos fenômenos do espírito,
mas da totalidade do cosmo” (Silveira, 1989, p. 75). A matéria, afirma Peirce,

... em obediência ao princípio, ou máxima, da continuidade, de que devemos assumir


que as coisas são contínuas tanto quanto possamos, urge que devamos supor uma
continuidade entre os caracteres da mente e da matéria, de tal forma que a matéria
não seria mais do que mente, que tendo hábitos de tal modo empedernidos é levada
a agir com um grau particularmente elevado de regularidade mecânica ou rotina (CP
6, 277).

Em decorrência da aceitação da idéia de continuidade entre a mente e a


matéria, Peirce se autodenomina em algumas passagens de idealista objetivo,
afirmando a sua diferença com relação ao monismo materialista, indica que “o
[monista materialista] faz da lei da mente um resultado especial das leis da
matéria, enquanto que o [idealista objetivo] faz com que as leis da matéria
sejam um resultado especial da lei da mente” (N 1, 200).
A partir de 1890, tendo conseguido vários avanços no estabelecimento
das categorias da experiência, Peirce oferece uma interpretação da noção de
hábito na qual lhe é conferido um estatuto ontológico, distanciando-se, dessa
maneira, tanto da noção humeana, como daquela utilizada pelos psicólogos do
início do século XX, como afirma Bortolotti “o hábito passa a ser a categoria
universal da lei, dotado de objetividade” (Bortolotti, 2003, p. 1). Segundo
Peirce, “um hábito não é uma afecção da consciência, é uma lei geral da ação,
de tal forma que em um certo tipo geral de ocasião um homem será mais ou
menos apto a agir de um certo modo geral” (CP 2, 148). Como uma lei geral, o
hábito se entranha na própria constituição do cosmo.
O princípio de aquisição de hábitos, ou lei da mente, é tomado por
Peirce como o modo pelo qual as leis do cosmo se constituíram. Em outro
momento, o filósofo dirá que “está claro que nada a não ser o princípio do
hábito, ele mesmo devido ao crescimento de uma tendência infinitesimal do
acaso em direção à aquisição de hábitos, é a única ponte que pode ligar o
abismo entre o acaso do caos e o cosmo da ordem” (CP 6, 263). Segundo
Santaella “para Peirce, a tendência do universo a adquirir novos hábitos,
tendência esta que tem seu expoente na mente humana, é aquilo que permite
o contínuo crescimento da potencialidade da idéia” (Santaella, 2004, p. 248-9).
Notas sobre evolução e teleologia no pensamento de Charles S. Peirce 279

No plano da evolução cosmológica o hábito, ou a lei, inclina a um


desenvolvimento do universo que tem como meta torná-lo mais razoável.
Peirce afirma que “lei é par excellence a coisa que quer uma razão” (CP 6,12).
O incremento da razoabilidade do universo não é, contudo, um processo
que se desenvolva sem tropeços. Para bem compreendermos esse
desenvolvimento faz-se necessário uma incursão, ainda que breve, devido aos
limites dessa exposição, na teoria das inferências que Peirce desenvolveu, em
particular, no tipo de inferência denominado de abdução ou retrodução, termos
que traduzem o vocábulo apagoge empregado por Aristóteles.
Nos trabalhos produzidos entre 1865 a 1901, vemos Peirce aprofundar e
desenvolver suas análises e concepções do processo de produção de
inferências, culminando com a distinção de três tipos de raciocínios que se
integram e concorrem para a realização do conhecer: a indução, a dedução e a
abdução. O problema de se determinar a origem das premissas de qualquer
raciocínio foi uma constante a conduzir suas investigações nesse período.
Conforme ressalta Santaella (2004), a interpretação da abdução tem sido um
tópico polêmico entre os comentadores da obra de Peirce. O que distingue
esse processo inferencial é o fato de ser, ao mesmo tempo, um processo
instintivo e ter a natureza de uma inferência lógica. É por meio da abdução,
deixa claro Peirce, que as novidades são introduzidas no processo evolutivo da
natureza e do homem. A dificuldade do tratamento e compreensão desse
conceito fundamental é bem sintetizada por Santaella ao se perguntar: “se as
hipóteses são frutos da maravilhosa faculdade imaginativa humana, como
podem elas se acomodar dentro da forma de uma inferência lógica?”
(Santaella, 2004, p. 109).
A intuição, entendida como flash de criatividade, é a base do processo
de abdução que terá como finalidade a produção de uma nova idéia ou forma,
que poderá dar lugar a uma inclinação geral ou hábito. Em uma leitura rápida, é
tentador compreender esse flash como sendo de natureza intuitiva. Nada mais
equivocado, se levarmos em conta que a principal crítica que Peirce endereça
a Descartes refere-se justamente ao conceito de intuição. Para Peirce, toda
cognição possui uma base inferencial, como é bem conhecido a partir dos
textos de 1898-99. Se não há a possibilidade de uma cognição sem a
Max Rogério Vicentini 280

existência de uma cognição que a preceda, como entender o surgimento da


novidade que a abdução põe em cena?
A solução parece derivar do caráter habitual do instinto. Peirce afirma
que todo instinto tem o caráter de um hábito e, dessa forma, distingue a ação
por ele produzida da reação bruta e cega. São derivados da própria evolução a
que está submetido o cosmo e o homem como uma parte integrante. Santaella
aponta que “do instinto peirceano germina a abdução, fonte de todas as
iluminações e criações humanas, mas também o mais frágil de todos os
raciocínios, o mais falível, sem nenhum poder de comprovação, necessitando
da dedução e da indução para que possa ter qualquer valor de verdade”
(Santaella, 2004, p. 113-14).
A utilização de explicações que envolvam causalidade final tem sido
insistentemente evitada pela filosofia e ciência contemporâneas. Essas
abordagens tentam reduzir as explicações teleológicas a explicações baseadas
unicamente em causação eficiente. Mesmo certos biólogos. Como aponta
Menno Hulswit, até mesmo certos biólogos evolucionários mantêm que, a
biologia não possa ser feita sem a linguagem teleológica, as explicações dos
processos biológicos não podem ser baseadas em nada além do que a
causação eficiente.
Uma caracterização da causação final, que na visão desses filósofos e
cientistas é problemática, possui ao menos as três seguintes características,
segundo Hulswit:

• Referência a um evento individual futuro.

• A influência do evento individual futuro sobre o evento presente.

• A determinação completa do curso do evento em direção ao estado


final do processo.
A abordagem que Peirce propõe da causalidade final não apresente
nenhuma dessas características, insistir na presença dessas três propriedades
é um equívoco de entendimento. A compreensão da formulação peirceana
envolve vários aspectos de sua teoria, que são por si sós de difícil exposição,
centraremos nossa atenção aqui na maneira que Peirce realiza a
caracterização do ser in futuro que atrai e direciona o acontecimento dos
Notas sobre evolução e teleologia no pensamento de Charles S. Peirce 281

eventos. Ou seja, de que maneira podemos compreender o fim a que se dirige


o curso dos eventos.
Peirce insiste que o ser in futuro é uma idéia e como tal possui um
caráter geral. Ora, o que é geral não pode ser um evento, uma vez que esses
são individuais e concretos. Como aponta em CP 1, 341, os fins não são mais
do que ‘desejos operativos’. E aqui não podemos evitar a linguagem
antropomórfica, pois é a única a nossa disposição, segundo Peirce. Alguma
coisa desejada é sempre de um certo tipo. Desejamos um certo tipo de sorvete
e não um específico. É claro que há graus de especificidade nos desejos, mas
eles são sempre gerais. Desse modo, a causa final é geral, não concreta.
A maneira como a causa final atua sobre os eventos presentes na
concepção de Peirce também difere da caracterização acima oferecida. A sua
influência, como já foi apontado acima, é apenas uma inclinação; não existe em
concreto no futuro, mas é apenas um horizonte de possibilidades. Sob certas
circunstâncias, ela determina um curso de acontecimentos com o objetivo de
que o fim seja obtido, sob outras, o curso dos acontecimentos é alterado. Como
aponta o autor: “A causação final não determina de que modo particular algo
será alcançado, mas unicamente que o resultado terá um certo caráter geral”.
(CP 1, 211). Desse modo, é um tipo de causação eminentemente falível.
Menno Hulswit refere-se a ela como sendo “não uma coisa concreta, mas um
tipo, uma mera possibilidade; nada mais que um estado final ideal para o qual
um processo tende” (Hulswit, p.4). Desse modo, a concepção peirceana de
causalidade final evita os principais problemas vistos pela ciência moderna
como obstáculos à sua utilização.
É desse modo, portanto, que podemos concluir que a grande lei atuante
na constituição do cosmo ordenado é a lei da mente ou princípio de aquisição
de hábitos, que atuando por meio de uma idéia que permanece como um ser in
futuro, atrai os acontecimentos de forma a incrementar o grau de razoabilidade
no universo. Essa lei, que rege um processo eminentemente falível recebe na
descrição Peirceana sua melhor definição: “uma força gentil que comumente
prevalece” (CP 2, 389).
Max Rogério Vicentini 282

Bibliografia

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pensamento de C. S. Peirce” Anais do V Simpósio em filosofia e
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SANTAELA, L. O método anticartesiano de C. S. Peirce. São Paulo:


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____________________. “Charles Sanders Peirce: ciência enquanto


semiótica” Trans/Form/Ação, nº 12, 1989, p. 71-84.
Sobre a importância do objeto em Descartes, o número e a
ordem das paixões na II parte das Paixões da Alma

Gustavo Piovezan
Graduando em Filosofia/UEM

Resumo: A relação estabelecida entre sujeito e objeto, a partir da


modernidade, pode ser observada e estudada em Descartes,
particularmente, nas Paixões da Alma, obra na qual dedicamo-nos um
tempo maior ao desenvolver deste. Ao instaurar a teoria das paixões, o
autor, reafirma o seu mecanicismo, visto que o surgimento de uma ou outra
paixão qualquer só se dá devido ao movimento que os espíritos animais
realizam em torno da glândula pineal. Tal movimentação destes espíritos
faz com que a admiração, independentemente de qualquer outro
sentimento, seja a primeira paixão a existir no sujeito, e desta última, surge
as outras demais, entretanto, é todo este processo não se faz de uma forma
que não a mecanicista, através dos processos fisiológicos da circulação
sangüínea, respiração e digestão, básicos e necessários à maquina
humana.
Palavras-chave: paixões, glândula pineal, espíritos animais e objeto.

I – Introdução:

O presente trabalho tem a finalidade de esclarecer sobre a importância


do objeto, concernente à relação com as paixões que afetam a alma; o número
e a ordem em que elas podem ser produzidas na alma. Tema este, tratado na II
parte das Paixões da Alma, de Descartes. Para uma melhor compreensão do
tal conteúdo, entretanto, nos é necessário o uso da obra Tratado do Homem do
mesmo autor, pelo fato de que nas Paixões da Alma a exposição da fisiologia
do corpo humano é feita de uma forma mais sucinta e, que ao ver de Descartes
está intimamente ligada ao surgimento das paixões em nós.
O Tratado do Homem é a obra onde o autor estabelece uma explicação
minuciosa da fisiologia do corpo demonstrando seu mecanicismo. Também,
faremos o uso das Meditações de Filosofia Primeira onde será declarada a
união entre alma e corpo como uma verdade e, também, como, através desta
união, nos diferenciamos dos animais e máquinas. E como objetivo deste faz

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
Gustavo Piovezan 284

parte, ainda, demonstrar como se dá a enumeração e a ordem das paixões


dentro do segundo capítulo das Paixões da Alma.

II – As Meditações de Filosofia Primeira e a união entre corpo e alma:

É interessante como Descartes elabora sua argumentação para chegar


à verdade da união entre corpo e alma nas Meditações: na primeira meditação
elabora o princípio da dúvida hiperbólica; na segunda parte para a natureza do
espírito humano a partir da conquista do cogito a primeira verdade, que, no
entanto, é garantida pela verdade da existência de Deus, declarada na terceira
meditação; já a quarta traz o critério de verdade: a clareza e distinção; na
quinta meditação encontramos a prova ontológica de Deus como real e
possível e, por último, tem-se a sexta meditação que trata da existência das
coisas matérias e da distinção real entre a alma e o corpo humano.
Digo ser interessante a argumentação do autor, pelo fato de que apesar
de ser explanados vários e diferentes temas nas Meditações, são abordados e
encadeados, de modo a tornar a constituição da obra una. Prova disso, é a
forma com que elucida os dois principais temas da sexta meditação, a qual nos
deteremos um pouco mais.
Primeiramente Descartes analisa a questão da existência das coisas
materiais e, no que concerne a estas afirma-se, de antemão, que tudo o que é
concebido clara e distintamente é possível que exista, uma garantia disso é a
imaginação que “nada mais é que uma aplicação da faculdade que conhece ao
corpo que lhe é inteiramente presente e, portanto, que existe”1. No entanto, a
faculdade de imaginar não é a mesma coisa que a pura intelecção ou a
concepção, esta última, se dá, ao exemplo do autor, em abstrair um triângulo
como um polígono constituído de três linhas. Já a imaginação, se dá na
consideração destas três linhas pela força e aplicação interior do espírito, ou o
simples ato de, mentalmente, imaginá-lo.
Tem-se após isso, uma análise da sensação e “quais são as coisas que
até aqui considerei [Descartes] como verdadeiras, tendo-as recebido pelos

1
Descartes. Meditações de Filosofia Primeira. P. 130.
Sobre a importância do objeto em Descartes 285

sentidos”2. Ora, às vezes os sentidos podem oferecer conclusões verídicas,


mas, também, falsas a respeito de determinado objeto. Então, igualmente
confiamos desconfiando de nossos sentidos, uma vez que eles não podem ser
um critério do qual obteremos a certeza a respeito de qualquer investigação
científica. E assim,

“... começo a melhor conhecer a mim mesmo e a descobrir mais claramente o autor
de minha origem, não penso, na verdade, que deva temerariamente admitir todas as
coisas que os sentidos parecem ensinar-nos, mas não penso tampouco que deva
colocar em dúvida todas as coisas em geral”.3

Afora isso, Descartes começa sua argumentação sobre a distinção entre


alma e corpo. Tanto um quanto o outro subsiste intimamente ligados4, de forma
a estabelecerem um composto de duas substancias: (1ª) a pensante (2ª) e a
extensa. Nos Principia Descartes afirma de uma forma mais clara a respeito da
distinção entre alma e corpo:

“Que existe um determinado corpo que está mais intimamente ligado a nossa mente
do que qualquer outro é evidente, a partir do fato de nosso claro reconhecimento de
que a dor e outras sensações nos atingem de maneira inteiramente inesperada. A
mente está ciente de que estas sensações não provêm apenas dela mesma e não
podem pertencer a ela, simplesmente em virtude de ela ser uma coisa pensante. Ao
contrário, elas só podem pertencer em virtude de a mente estar ligada a algo
diferente dela mesma, que é extenso e móvel, e ao qual chamamos corpo humano.”5

Contudo, nas Meditações, a união de fato entre corpo e alma se dará


quase no final da sexta meditação, quando Descartes, após mencionar que os
nossos desejos e apetites, por exemplo, a fome, a sede, etc. “nada são exceto
maneiras confusas de pensar que provêm e dependem da união e como que
da mistura entre espírito e corpo”6.

2
Ibidem: p. 131.
3
Ibidem: p, 134.
4
A respeito deste assunto o que garante a união de fato da alma e do corpo, como das outras
demais verdades é Deus. Lebrun afirma que “É o elemento essencial da prova da distinção:
Deus não pode deixar de fazer o que eu concebo clara e distintamente. Só este princípio basta
para invalidar todas as conclusões derivadas da união de fato entre a alma e o corpo.” (
LEBRUN, G. In: Descartes.p. 134. nota 164.).
5
Descartes. Principia. II, art. 2. In: Gaukroger, p. 157.
6
Descartes. Meditações. P. 136.
Gustavo Piovezan 286

III – A fisiologia de Descartes no Tratado do Homem

Segundo Descartes, então, somos este composto de corpo e alma, o


corpo sem a alma seria apenas uma máquina funcionando para alguma
determinada função:

Vemos os relógios, as fontes artificiais, os moinhos e outras máquinas semelhantes,


que, sendo feitas só pelos homens, não deixam de ter a força de se mover por si
mesmas de diversas maneiras; e eu não poderia imaginar tantas espécies de
movimentos que supondo sejam feitos pelas mãos de Deus, nem lhe atribuir tanto
artifícios que não se possa imaginar que essa máquina não os possua ainda.7

Ora, assim como o homem produz máquinas diversas, os relógios,


moinhos, etc., e estas, por sua vez, devido às suas estruturas, funcionam
sozinhas, Deus, também, "produziu", ou melhor, criou o homem, ainda que
tenha dado a ele uma alma que possui a capacidade de sentir e de pensar,
entre tantas outras. No entanto, se Deus não tivesse dado ao homem a alma,
como mencionamos acima, o seu corpo funcionaria apenas mecanicamente.
E desenvolvendo este tema, do homem como máquina, o autor falará,
primeiramente, de que maneira se dá nessa máquina o processo digestivo, em
seguida o respiratório e, por último, o circulatório e, é neste último processo
fisiológico onde situa-se a teoria dos espíritos animais, imprescindível para a
compreensão do surgimento das paixões. Primeiramente, tem-se o corpo e o
coração, onde em sua concavidade direita há um fogo8, que sem luz, infla e
dilata o sangue que aí, necessariamente, tem de passar9. Passando pelo
coração, este sangue segue para o pulmão e o restante do corpo. Contudo, no
pulmão, que refrescado pelo ar recebido do meio externo, através da
respiração, o sangue condensa-se novamente para retornar ao coração, depois
de passar pelo restante do corpo e órgãos, e, o processo da circulação
sangüínea recomeçar.

7
Descartes, Tratado do homem. In: Marques, J., Descartes e sua concepção de homem.
8
O diferencial entre os homens e animais é a alma, pois o fator caracterizador da vida, tanto
nos homens, bem como nos animais, é este fogo que produz calor e, no entanto, não possui
luz.
9
Descartes, Tratado do homem. In: Marques, J., Descartes e sua concepção de homem. p.
143.
Sobre a importância do objeto em Descartes 287

Este sangue que faz uma "circulação perpétua"10 em nosso corpo é


composto por algumas partes, e estas partes, Descartes dirá que vão ter ao
baço, à vesícula biliar, às artérias, estômago, intestino, etc.

E, em todos estes lugares, é somente a situação, a configuração e a pequenez dos


poros por onde elas [as partículas do sangue] passam que faz que umas passem
antes do que as outras e que o resto do sangue não as possa seguir (...) Mas o que é
necessário observar principalmente, aqui, é que todas as partes mais vivas, mais
fortes e mais sutis deste sangue vão ter às cavidades do cérebro (...)11

Na passagem supracitada tem-se, de uma forma ainda implícita, sobre a


teoria dos espíritos animais, que é fundamental para o desenvolvimento e
realização das paixões em nós. Tanto que tal teoria é retomada nas Paixões da
Alma, no I capítulo, para depois, a partir do II Descartes começar a discussão
sobre as paixões em geral.
Rotuschuh, ao comentar sobre, esboça uma breve explicação desta
teoria cartesiana sobre os spiritus animalis cotejando-a com a tradição antiga:

A tradição antiga desde Galeno, falava de "spiritus naturalis", formados no fígado,


que, no coração, tornam-se "spiritus animalis", cuja a característica é a leveza e a
fineza de sua estrutura. Fernel explica o espirito vital como "corpus aetherum caloris
facultatem sedes viniculum", o espirito vital "in aeris prope mutantur"e o espirito
natural como "vaporis speciem animalem" (Universia Medicin, Phisiologia, liber IV).
Descartes prefere somente usar os espíritos animais que não são produzidos no
cérebro mas sim comprimidos nos poros dos vasos sangüíneos. São de natureza
material, móveis e semelhantes a uma chama. Por causa de sua natureza corpórea
não podem ser considerados intermediários entre corpo e alma.12

No Tratado do homem, esta teoria desenvolve-se da seguinte forma:


temos no cérebro a glândula pineal que é envolta por minúsculos vasos
sangüíneos onde não passam as partes "mais volumosas" do sangue, uma vez
que tais partes podem perder a sua agitação. Mas, passam, somente, aquelas
partes que são como que "um certo vento muito sutil, ou, antes, uma chama

10
Ibidem., p. 146. Rotschuh afirma que Descartes conhecia a teoria de Harvey sobre a
circulação sanguínea e seguia tal teoria por ela encaixar-se em seu sistema, contudo, segundo
a carta a Mersene, Descartes só teria lido sobre tal teoria após já escrita a obra do Tratado do
homem. O que seria diferenciado na teoria cartesiana com relação à de Harvey é o papel
passivo do coração que move-se em conseqüência do sangue esquentado. Posto que “na
verdade o coração movimenta-se na sístole e impulsiona, de maneira ativa, o sangue”
(Rotschuh., apud. Marques, J., p. 144).
11
Descartes, Tratado do homem. In: Marques, J., Descartes e sua concepção de homem., p.
147.
12
Rotschuh., apud. Marques, J., p. 147.
Gustavo Piovezan 288

muito viva e muito pura, que é chamada de espíritos animais"13, estes espíritos
animais por serem muitos sutis e puros não perdem a sua agitação, diferindo,
assim, daquelas partes mais volumosas.

E, enfim, quando houver alma racional nesta máquina [o corpo humano], ela terá a
sua sede principal no cérebro e será nela como que o encarregado da fonte, que
deve estar nas aberturas onde vão ter todos os tubos dessa máquina, quando quiser
exercitar, impedir ou mudar de algum modo seus movimentos.14

IV – A teoria das paixões:

Sendo a existência de Deus uma verdade clara e distinta e que, desta


verdade podemos conceber as outras demais verdades é estabelecido que há
uma união entre alma e corpo, como demonstramos mais acima. Todavia,
desta união resulta um problema: a alma sem o corpo vive, mas vive pelo fato
de ser imortal enquanto criada por Deus para essa infinitude, já o corpo não
vive sem a alma porque “é apenas uma coisa extensa e que não pensa”, ou
seja, uma máquina como os demais animais, que assim o são considerados
por não possuírem alma15.
E, esta alma sendo racional, na medida que se relaciona com os objetos
que lhe são apresentados pode, devido ao movimento dos espíritos animais na
glândula pineal, despertar em nós uma ou outra determinada paixão16:

Mas isso não é suficiente para podermos diferenciá-las umas das outras [as paixões],
é necessário procurar suas fontes e analisar suas primeiras causas, mas, ainda que
possam algumas vezes ser causadas pelas ações da alma, que se determina a
conceber estes ou aqueles objetos, e também pelo exclusivo temperamento do corpo
ou pelas impressões que se encontram acidentalmente no cérebro (...)17

Ernesto Faria traz em seu Dicionário Escolar Latino Português o


significado do termo objeto, que advindo do latim, obiectus, significa: (1º) ação

13
Descartes, Tratado do homem. In: Marques, J., Descartes e sua concepção de homem., p.
148.
14
Ibidem., p. 150.
15
Conferir acima a nota nº 8.
16
O corpo por si só, ou seja, sem a presença de uma alma, não pode ser afetado por alguma
paixão, porque, como dissemos, ele é “apenas uma coisa extensa e que não pensa”, logo, o
que determina o afetar de alguma paixão em nós é a racionalidade que a alma possui, mas fica
claro que o corpo está unido à alma e, é desta união que também surgem as paixões: a alma
sofre com as paixões e estas se dão por um processo fisiológico que acontece no corpo (o
movimento dos espíritos animais).
Sobre a importância do objeto em Descartes 289

de pôr adiante, barreiras, obstáculo. (2º) objeto [algo] que se oferece à vista de
alguém, espetáculo18.
Dentre essas duas concepções trazidas pelo dicionário, ambas podem
ser aplicadas ao estudo das Paixões da Alma de Descartes, e procuramos
ressaltar o termo obiectus, pelo fato de que ele parece ter uma grande
importância dentro dessa obra de Descartes, no tocante a como se dão as
paixões em nós. Pois um obstáculo, uma barreira, [1ª definição] que se oferece
aos nossos olhares independentemente se ele seja algo material, como, por
exemplo, a escada de um edifício a qual temos de subir para chegar aos
apartamentos, ou algo imaterial, como Deus19. Tanto um quanto outro objeto,
material como imaterial, são apresentados a nós como espetáculos [2ª
definição], não no sentido contemplativo que o termo pode oferecer, mas, no
sentido de chamar a nossa atenção àquele objeto com o qual estabelecemos
uma relação.
A partir disso, podemos, também, lançar a noção de objeto em
Descartes, que não seria outra coisa senão tudo, ou melhor, todas as coisas
que afetam a alma, produzindo nela esta ou aquela paixão. Estas definições
que admitir do dicionário, fez com que tornasse mais óbvia a noção cartesiana
a respeito do objeto. Ora, uma “barreira, um obstáculo, algo que se oferece à
visão ou, ainda, um espetáculo” são coisas que, cartesianamente falando,
afetam a nossa alma.
Esta relação primeira que estabelecemos com o objeto, simplesmente o
fato de vê-lo, já é uma determinada paixão, a primeira de todas as outras,
chamada de admiração. É a primeira, pelo fato de que quando alguém entra
em contato com algum objeto, esta pessoa não pode, por exemplo, amá-la ou
odiá-la sem antes admirá-la, é como que automático, ao estabelecer uma

17
Descartes, Paixões da Alma. Art. 51.
18
FARIA, Ernesto. Dicionário Escolar Latino Português/Ernesto Faria, revisão de Ruth
Junqueira de Faria. Brasília: FAE, 1994. P. 367.
19
Deus se oferece ao olhar não no sentido literal da expressão, até mesmo porque ele é um
ser que não possui corpo, e, por isso, não pode ser oferecido aos nossos olhares, mas, sim,
enquanto um objeto o qual se estabelece uma relação, por exemplo, um monge, Deus, na
figura de um monge, é o principal objeto de sua busca e relacionamento; nesse sentido, então,
ele é oferecido aos nossos olhares, como um objeto.
Gustavo Piovezan 290

relação com um objeto, e este, devido à sua raridade, provocar a admiração,


afetando, deste modo, a alma.
Vimos como os espíritos animais são descritos dentro do Tratado do
homem, tais espíritos20, também, são mencionados no I livro das Paixões,
ainda que de uma forma mais simples, para as pessoas que não leram a sua
obra a respeito da fisiologia do corpo humano não encontrem dificuldades de
compreensão acerca do assunto em questão e, novamente explica, que,
quando o sangue sai do coração vai diretamente ao cérebro, e dentro deste
sangue, existem partes mais vivas e delicadas, no entanto, ao direcionarem-se
ao cérebro por serem as veias deste em demasia pequenas o sangue não
consegue adentrar em sua totalidade, por isso somente aquelas partes
minúsculas, ou “aqueles elementos mais agitados e tênues”21 lá penetram,
estas partes como sabemos são os espíritos animais.
Afora isso, dirá ainda, dentro da primeira parte, que as funções da alma
são os nossos pensamentos, que podem dar-se de duas formas: a primeira é
22
através das ações da alma e a segunda é através de suas paixões , as ações
da alma provêm de sua vontade, mas as paixões provêm dos objetos que
estão fora de nós, no mundo exterior. Descartes define-as:

(...) julgo que podemos em geral defini-las por [1ª] percepções, ou sentimentos, ou
emoções da alma, [2ª] que atribuímos particularmente a ela, e que são provocados,
sustentados e fortalecidos por algum movimento dos espíritos.23

20
No corpo humano temos: os órgãos, os músculos, os membros, etc. Sabemos, hoje em dia,
que a interação dos músculos com os ossos constitui o sistema motor, no entanto são os
músculos a principal causa do movimento de nossos membros. Para Descartes, o que
chamamos de movimentos de contração e relaxamento dos músculos se dão por causa dos
espíritos animais, que circulando em nosso sangue através das artérias e veias chegam ao
cérebro, onde as veias vão cada vez mais se estreitando até o ponto de somente passarem
estes espíritos animais e quando chegam à glândula pineal, onde se situa a sede da alma,
partem para os músculos ou os nervos devido ao comando da glândula, de modo que causam
o inflar (contrair) do músculo, por exemplo, quando contraímos o nosso bíceps os espíritos
animais de uma tamanha rapidez saem do cérebro e do restante do corpo onde estão inflando
o músculo, o mesmo acontece com uma queimadura, quando colocamos a mão sobre o fogo,
os espíritos, da mesma forma com que acontece com os músculos, saem do cérebro e do
restante do corpo fazendo-nos sentir a sensação do queimar. A este último processo, o do
fogo, podemos perceber uma grande semelhança aos processos de transmissão
neurofisiológicas.
21
Descartes, Paixões da Alma. Art. 10.
22
Idem. Art. 17.
23
Idem. Art. 27.
Sobre a importância do objeto em Descartes 291

Percepções no sentido de não serem constituídas de ações ou vontades


da alma; sentimentos, por causa da relação dos objetos com os sentidos e
emoções pelo fato de que, “de todas as espécies de pensamentos que ela
pode ter, não existem outras que a agitem e a abalem com tanta violência
quanto essas paixões”24. Descartes diz que são atribuídas a ela (a alma)
porque a alma é diferente de todos os objetos e coisas que existem.
É interessante, da mesma forma, notarmos o que diz Guenacia a
respeito de como se dá a definição das paixões:

(...) a questão da natureza ou da origem das paixões não é a principal aos olhos de
Descartes, e que a única e a verdadeira resposta a uma paixão da alma (que é uma
ação do corpo) é uma ação da alma (e logo uma “paixão” do corpo, se assim
podemos dizer, pois para “padecer” é preciso ser consciente). As ações da alma são
suas vontades. Mas uma vontade não poderia se opor ao involuntário, como são os
movimentos corporais.25

Descartes estabelece que a alma não tem, ou melhor, não é constituída


de matéria, ela está intimamente ligada ao corpo, todavia, se por acaso ocorrer
de perdermos um braço ou uma perna não perderíamos uma parte da alma.
Sendo a alma unida ao corpo, deve haver alguma parte na qual uma reação do
organismo causa em nós os diferentes sentimentos. O autor dirá que esta parte
do organismo é uma glândula que está situada bem no meio do cérebro, a
glândula pineal, porque é nela que estão reunidos os demais comandos das
atividades do corpo.
Descartes cria de tal maneira que essa era a sede das paixões a ponto
de dizer que aí é o lugar da alma e, deste lugar ela “ilumina” todo o restante do
corpo com suas paixões através da impressão dos objetos na tal glândula, que
gerará em nós alguma reação sentimental.
A grande dificuldade está em que a alma pode produzir sentimentos os
quais nós muitas vezes não desejamos e é aí que entra o papel fundamental
da vontade, pois, por exemplo, se obtemos um sentimento de alegria ao ver
uma pessoa que estava longe de nós há muito tempo e tal pessoa nos é muito
querida, é obvio que não queiramos tão rapidamente sair de sua companhia
sem satisfazer antes a nossa de saudade.

24
Idem. Art. 27.
25
Guenancia, P., p. 118.
Gustavo Piovezan 292

Essa saudade descrita no exemplo acima é determinada senão apenas


pela vontade, pois é esta que nos faz desejar a presença da pessoa que
sentíamos saudade. Todavia, a vontade não pode ser coagida, por isso
somente as ações da alma estão sob sua regência, já as paixões não.
Feito uma breve exposição do que é a glândula, quando movida pelos
espíritos animais produz em nós alguma paixão, e, também, no que consistem
estes espíritos animais, partiremos agora para uma lista das paixões e no que
cada uma delas constituem.
Descartes enumera quarenta tipos de paixões, a saber: a admiração, a
estima, o desespero, a generosidade, o orgulho, a humildade, a torpeza, a
veneração, o desdém, o amor, o ódio, o desejo, a esperança, o temor, o ciúme,
a segurança, o desespero, a indecisão, a coragem, a ousadia, a emulação, a
covardia, o pavor, o remorso, a alegria, a tristeza, a zombaria, a inveja, a
piedade, a satisfação, o arrependimento, o favor, o reconhecimento, a
indignação, a cólera, a gloria, a vergonha, o fastio, o pesar e a alegria.
Feita a enumeração, Descartes, dirá que ela difere das existentes até
então porque os que vieram antes dele em suas enumerações não abrangiam
todas as paixões como a enumeração. No mais, fica estabelecido que seis são
as paixões primitivas, as outras demais ou derivam destas ou são suas
espécies, elas são: (1ª) a admiração, (2ª) o amor, (3ª) o ódio, (4ª) o desejo, (5ª)
a alegria e (6ª) a tristeza.
(1ª) A admiração, como dito anteriormente é obtido através do contato
que se obtém com algum objeto, esta paixão não provoca nenhuma mudança
no corpo, pois só tem a finalidade do conhecimento do objeto com que está em
contato. E,quando a alma está ‘possuída’ por essa paixão de uma forma
excessiva tem-se já, não mais esta paixão e, sim, uma outra, o espanto.

O motivo é que pelo fato de não ter nem o bem nem o mal por objeto, mas apenas o
conhecimento da coisa que é admirada, ela não se relaciona ao coração e ao sangue,
dos quais depende todo o corpo, mas somente ao cérebro, onde se localizam os
órgãos dos sentidos que auxiliam nesse conhecimento.26

(2ª e 3ª) O amor assim como o ódio, provêm do modo com que nos
relacionamos com os objetos: se os desejamos a nós, temos o amor que pode
Sobre a importância do objeto em Descartes 293

ser de dois modo: o amor de benevolência e o de concupiscência, por exemplo,


quando nos apaixonamos, e nossa paixão é correspondida, temos o anseio de
ver tal pessoa, que nesse caso representa o objeto com o qual estamos
estabelecendo uma relação, pela qual o sentimento da paixão está florescendo,
esta forma de amor é a de concupiscência por causa de querermos ela (a
pessoa) conosco, a forma da benevolência também pode ser dada neste
exemplo, mas quando se deseja apenas o bem à pessoa amada; já, se
repelimos o objeto, temos o ódio, a aversão, por exemplo, o que algumas
pessoas sentem ao experimentarem o jiló [objeto] pode vir a ser uma forma de
ódio.
(4ª) O desejo é a sensação que temos ao querer possuir algo (um
objeto) o qual nos parece bom e proporciona-nos algum benefício, podemos
utilizar o exemplo da paixão, quando nos apaixonamos, a pessoa pela qual
estamos apaixonados, se não nos corresponde, faz como que os espíritos
amimais movam-se em nossa glândula pineal provocando em nós o
sentimento do desejo.
(5ª e 6ª) A alegria é produzida na alma quando está em contato com
algum objeto que lhe traga a sensação de bem. Todavia, Descartes, deixa claro
que esta alegria só é paixão quando não é produzida intelectualmente, através
da própria alma, mas, sim com relação a algo fora dela, por exemplo, o
sentimento obtido por meio da relação com algum objeto que sentíamos o
desejo de nos apropriar, pode provocar em nós ou a alegria ou o amor, esta
alegria que pode ser produzida em nós é a alegria como paixão, a alegria
intelectual diz Descartes,

“Chega à alma pela própria ação da alma, e que se pode considerar uma agradável
emoção excitada em si própria, na qual consiste o gozo que ela frui do bem que seu
entendimento lhe representa como seu. É verdade que quando a alma está unida ao
corpo, essa alegria intelectual não pode deixar de acompanhar a outra, que é uma
paixão; pois, tão logo o nosso entendimento percebe que possuímos algum bem”27

Ou seja, mesmo sendo uma alegria intelectual, o fato de estarmos


unidos à nossa alma, faz com que essa alegria intelectual produza em nós a

26
Descartes, Paixões da Alma. Art. 71.
27
Ibidem: 91.
Gustavo Piovezan 294

alegria enquanto paixão; já a tristeza é produzida quando a alma se encontra


indisposta e recebe algo mal, por exemplo: quando entramos em contato com
um objeto e o admiramos, essa admiração pode acarretar em nós a tristeza
caso a alma encontre-se indisposta, e também, se intelectualmente nos
sentimos tristes essa tristeza intelectual, pode, do mesmo modo como a alegria
intelectual gera a alegria como paixão, gerar em nós a tristeza como paixão.

V – Conclusão.

E desta forma, se dão a enumeração e a ordem das paixões em


Descartes, seis são as paixões primitivas, todas as outras só o são em função
destas, ou como derivação ou, como a forma com que os espíritos animais se
movem na glândula pineal, provocando uma ou outra paixão. Mas, qualquer
que seja a paixão gerada em nós, elas só podem ser geradas devido aos
objetos que nos são apresentados, pois somente através do contato com tais
objetos é que sentimos ou deixamos de sentir algo.

Bibliografia

DESCARTES, René. As Paixões da Alma. Introdução de Giles-Gaston


Granger, prefácio e notas de Gérard Lebrun; tradução de J. Guinrburg
e Bento Prado Júnior. São Paulo: Abril Cultural, 1993.

DESCARTES, René. Meditações. Introdução de Giles-Gaston Granger,


prefácio e notas de Gérard Lebrun; tradução de J. Guinrburg e Bento
Prado Júnior. São Paulo: Abril Cultural, 1993.

DESCARTES, René. O Tratado do Homem. In: Marques, Jordino.


Descartes e sua concepção de homem. São Paulo: Loyola, 1993.

GUENANCIA, Pierre. Descartes. Tradução de Lucy Magalhães. Rio de


Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1991.

GAUKROGER, Stephen. Descartes uma Biografia Intelectual.tradução


de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: EdUERJ: Contraponto, 1999.

FARIA, Ernesto. Dicionário Escolar Latino Português/Ernesto Faria,


revisão de Ruth Junqueira de Faria. Brasília: FAE, 1994.
EIXO TEMÁTICO 3:
CIÊNCIA: CRITÉRIOS E VALORES;
PÓS-MODERNISMO NA CIÊNCIA
Complejo de valores, cambio social y estrategia cognitiva: la
propuesta de Hugh Lacey revisada

Fernando Tula Molina


UNQ – CONICET (Argentina.)

En este trabajo quiero destacar la importancia de las reflexiones de


Hugh Lacey sobre la discusión sobre la neutralidad valorativa de la ciencia, y al
mismo tiempo poner en evidencia los puntos débiles de su propuesta.
La obra de Lacey (p.e. Is Science Value Free?, 1999) ha enriquecido la
discusión vinculada a la presencia y efectos de los valores en la ciencia gracias
a la introducción de distinciones significativas y relevantes. Tal es el caso de la
distinción entre valores personales y sociales. En los primeros el componente
de deseo personal y el componente de creencia están ligado a la identidad
personal y al objetivo de desarrollar una vida plena. En sus diversos modos
pueden estar presentes en la conciencia, articulados en palabras, pero
fundamentalmente manifestados en el comportamiento (pp. 23-24). Para lograr
credibilidad no debe haber una brecha muy grande entre las predicciones que
podemos inferir a partir de la articulación en palabras, y los valores
manifestados en la práctica (p.25). Los cinco modos de reestablecer el
equilibrio son ajuste, resignación, creatividad marginal, búsqueda de poder y
transformación desde abajo. Nos son excluyentes pero reflejan lo que la
persona es y cuáles son sus valores más fundamentales (p. 39).
Los valores personales pueden lograr institucionalizarse en instituciones
sociales, convirtiéndose en valores sociales. Estos últimos, en la medida que
adquieren peso legal o son altamente aceptados en la sociedad, limitan los
valores personales. Lo que puede ser articulado en palabras es una función de
los recursos lingüísticos disponibles en la sociedad, los que reflejan en cierta
medida las condiciones de bienestar que son dominantes y se refuerzan en la
sociedad (p. 26). Estos también tienen diversos modos. Pueden encontrarse
manifestados en programas, leyes y políticas sociales, como expresados en las
prácticas cuyas condiciones provee y refuerza (p.28). Es importante tener en

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
Complejo de valores, cambio social y estrategia cognitiva 297

cuenta que toda brecha entre articulación y manifestación de los valores


sociales, será interpretado de modo diferente por los diferentes grupos, dando
lugar a los diferentes discursos políticos (p. 28).
También es relevante la distinción entre valores (considerados
aisladamente) y los complejos de valores (el total de los valores mantenidos de
modo simultáneo por personas o instituciones) con relación a ciertos supuestos
sobre la naturaleza humana, lo que constituye el bienestar y las
potencialidades del hombre – en principio, todos sujetos a escrutinio empírico
(p. 43) - que le permiten defender ciertos objetivos (vinculados al yo o a la
sociedad) como valiosos (p. 40), y dignos de esfuerzo para concretar su
manifestación plena. Finalmente, también es preciso notar que no todos los
complejos de valores son viables, por lo que es necesario distinguir aquellos
que lo son de aquellos que no.
Pero aún más fundamental, para la comprensión de la práctica científica
y del abordaje propuesto por Lacey, es la distinción entre valores sociales y
valores cognitivos. Cuando aquello que es valorado es una creencia o una
teoría, estamos en presencia de valores cognitivos (p. 45). Una creencia es una
actitud proposicional que, junto con deseos, intenciones y objetivos, pueden
tener un papel causal en la generación de acciones. Una creencia es
verdadera, si su contenido proposicional es verdadero, por lo que su evaluación
crítica es idéntica a un abordaje cognitivo sobre ella (p. 46). Cuando estas
creencias se consolidan se convierten en conocimiento. De todos modos, no
siempre es racional actuar de acuerdo a las mejores creencias disponibles,
dado que nuestros objetivos deben adecuarse primeramente a nuestros
valores. La evaluación de las creencias, pertinentes para la planificación de la
acción dependen tanto del ideal de verdad, como de su relevancia, i.e. ser
apropiados para orientar acciones tendientes a obtener nuestros objetivos (p.
48) (debe ser consistente con el conocimiento científico).
El desacuerdo entre las creencias puede deberse a diferentes factores:
a) los diferentes orígenes que las causan (social, psicológico, experiencial), b)
la defensa de diferentes valores cognitivos, 3) el compromiso con diferentes
prácticas de obtención de creencias (p. 52). Ante tal desacuerdo, la posibilidad
de la tesis de la neutralidad valorativa de la ciencia depende de que las teorías
Fernando Tula Molina 298

científicas puedan ser propiamente evaluadas (en tanto que teorías científicas)
(p. 55). Para tal fin, Lacey hace otra distinción de interés al separar reglas de
valores. Lacey asocia la evaluación a través de reglas al proyecto
metodologista de procurar la objetividad a través de la aplicación de un
conjunto finito de pasos formales (cuyo caso ideal se cumpliría en la
matemática), y – salvo el falsacionismo - al objetivo central de una alta
confirmación. Este proyecto enfrenta dos dificultades principales; la primera
referida al escaso acuerdo sobre la naturaleza de las reglas (inductivas,
deductivas, hipotético deductivas, probabilísticamente formalizadas) y la
segunda vinculada al escaso desarrollo de la teoría de la confirmación. Ante
tales dificultades su estrategia apuesta a defender la imparcialidad de la ciencia
en función de la evaluación de los valores cognitivos que éstas manifiestan (p.
57). Estos valores cognitivos serán: adecuación empírica, poder explicativo y
de unificación, posibilidad de encapsular posibilidades, consonancia,
conectividad y holismo respecto de otras teorías, solución de problemas,
simplicidad, entre otros (pp. 58-60).
Es posible estimar el grado de manifestación de tales valores a través de
criterios generales y criterios vinculados con la adecuación empírica. Entre los
últimos (E) encontramos: representatividad, pertenencia a fenómenos
característicos del dominio de explicación, relevancia para confrontar
críticamente teorías alternativas y confiabilidad (por el rigor de los métodos
utilizados en su obtención). Entre los generales encontramos: testabilidad
comparativa, comprensividad comparativa, fuerza local comparativa,
comparabilidad con las teorías mejor establecidas, capacidad de respuesta a
las críticas (pp. 62-66).
De modo más general, su análisis divide el problema de la neutralidad
valorativa en tres subtesis vinculadas a la imparcialidad (juicios basados
exclusivamente en valores cognitivos), neutralidad (consistente con todo juicio
de valor, sin consecuencias valorativas y no tendenciosa) y autonomía (el
objetivo propio de la ciencia es procurar teorías imparciales y neutrales, sin
interferencia exterior) (cap. 4)
Si bien hay al menos cuatro tipos diferentes de consideraciones
relevantes para determinar si el criterio utilizado está asociado a valores
Complejo de valores, cambio social y estrategia cognitiva 299

cognitivos (i.e. a partir de teorías generales del conocimiento, de


consideraciones de epistemología genética y evolutiva, de su posibilidad o
imposibilidad y referidas a si sirve o no a los objetivos de la ciencia), Lacey se
concentra exclusivamente en la consideración referidas as los objetivos de la
ciencia (p. 93)
Estas distinciones, vinculadas con el aspecto más análitico de su trabajo,
en pos de una mayor precisión conceptual, se vinculan con distinciones de
mayor peso relacionadas con su propio posicionamiento frente al problema y a
las soluciones posibles. Ejemplo de ello es su distinción entre dos modos
diferentes de comprensión: la comprensión amplia (basada en el
reconocimiento de objetos y sistemas compatibles con sus principios y leyes –
así como de las condiciones particulares que dan cuenta de las diferencias) y la
comprensión plena (que busca la comprensión del objeto o sistema en sus
múltiples aspectos y niveles tanto hacia lo más general como hacia lo más
particular). Esta distinción ya afecta al tipo de estrategia que debe seguir la
investigación científica.
Según Lacey a partir de las obras de Fracis Bacon y Galileo Galilei se
impuso una estrategia de conocimiento que denomina materialista (en general
cuantitativa y matemática, aplicada a partir de mediciones, intervención
instrumental y operaciones experimentales). En su opinión, a partir de allí ese
fue el modo privilegiado de investigación científica. Y dado que la estrategia
materialista es compatible con el carácter homogeneizante de la comprensión
amplia y no con el carácter multifacético de la comprensión plena, se ha
argumentado frecuentemente que esta última nada tiene que ver con los
objetivos de la investigación científica sistemática. Ante tal argumento, la
respuesta de Lacey es que existen estrategias alternativas (a la materialista)
que pueden guiar la actividad científica.
Este último punto es importante porque se vincula directamente con la
discusión sobre cuáles son los objetivos de la ciencia. Cada estrategia
involucra un valor constitutivo que regulará los criterios aceptables de
aceptación de teorías y, consecuentemente, tanto las teorías aceptables y la
elección final entre ellas. La estrategia materialista se preocupará sólo por
explorar las posibilidades materiales de los objetos y sistemas, dejando de lado
Fernando Tula Molina 300

sus restantes dimensiones. La propia idea de avance científico estará asociada


a ir agotando (o actualizando) al máximo tales posibilidades, y las mejores
teorías serán las que encapsulen y permitan el abordaje a un número mayor de
las posibilidades materiales de los objetos y sistemas. Dentro del planteo de
Lacey, es en este punto donde la discusión sobre los valores cobra su mayor
importancia, porque sólo un cambio de los valores que constituyen la estrategia
materialista, pueden conducir a que el interés y el objetivo de la ciencia esté
puesto en explotar otra clase de posibilidades.
De todos modos, un cambio de este tipo no es en ningún caso sencillo,
dado que cada estrategia se encuentra en una relación dialéctica de mutuo
refuerzo con un conjunto particular de valores sociales, por lo que las
condiciones de realizabilidad de las posibilidades, indentificadas bajo una
determinada estrategia, incluye estructuras sociales (institucionales) que se
identifican con tales valores. En el caso de la estrategia materialista, el valor
con el que interactúa (y que, a su vez, la refuerza), es el valor de control de la
naturaleza, que habría comenzado – según Lacey – con la ciencia baconiana y
galileana.
En mi opinión, este es el primer punto que debe ser discutido y revisado,
dado que el tratamiento histórico que hace Lacey del núcleo central de la obra
de Bacon y de Galileo, es absolutamente insuficiente, esquemático y
completamente funcional a sus tesis. Para resaltar el contraste, opone el valor
de control de la naturaleza con el de armonía con el todo, que a su juicio sería
el valor dominante en la Edad Media. Esta exageración no sólo borra de un
plumazo la ciencia renacentista, sino que supone una idea lineal de progreso,
donde los tiempos previos a la Edad Media, estarían todavía más alejados del
valor moderno de control, por lo que no merecen consideración alguna. Nada
más lejos de la realidad histórica en el caso de la medicina del Corpus
Hipocrático, toda la obra científica de Aristóteles, la astronomía alejandría y
musulmana, la ingeniería romana, sólo por citar algunos ejemplos. En todos
esos casos el valor de control de la naturaleza fue central para garantizar la
eficacia, y objetivo central de la investigación sistemática de la naturaleza.
De todos modos, no es mi intención que esta crítica al aspecto histórico
de su propuesta quite mérito a la reflexión filosófica sobre el problema de los
Complejo de valores, cambio social y estrategia cognitiva 301

valores en la ciencia. A mi juicio, el aspecto más interesante de la propuesta de


Lacey, y por lo cual creo que merece una consideración y reflexión detenida, es
la idea de posibilidades perdidas (lost possibilities). Mientras la ciencia se
mantenga dentro de una estrategia materialista, serán únicamente las
posibilidades materiales de los objetos y sistemas que motivarán la curiosidad
científica, y las capacidades de implementación tecnológica. Creo que este es
de algún modo un avance ciego, guiado más por objetos que por objetivos, por
meras posibilidades que por posibilidades vinculadas a valores. El punto central
es que las posibilidades que deben investigarse en primer término son aquellas
que sean relevantes para la realización de nuestros valores.
El capítulo dedicado a los movimientos populares es plenamente
ilustrativo de este punto. En lugar de preguntar “¿cómo maximizar la
producción bajo condiciones materiales optimas?” La pregunta es “¿cómo
puedo producir de tal modo que las personas de cierta región tengan acceso a
una dieta bien balanceada en un contexto que aumente la participación local y
sustente el medio ambiente?” Esta segunda pregunta no presupone que las
problemas del orden social se subordinan a la implementación de nuevos
controles; no considera a la biología, ecología y sociología separadamente. Se
pregunta: ¿cuáles son las condiciones socio-económicas y los efectos sociales
de la producción agrícola? ¿quién controla tal producción? ¿qué uso se hace
de ella? ¿cómo se distribuye? ¿cómo afectan las condiciones socio-
económicas de producción a las de la distribución, y viceversa? ¿cuáles son los
efectos sobre la salud y la ecología? La investigación sobre la producción no se
hace solamente en función de variables materialistas más generales, sino
también de las variables sociales dentro de las cuales las materiales son en sí
mismas una función.
Este abordaje presta atención a lo local y lo particular. Concuerdo con
Lacey cuando agrega: “Este es el tipo las cosas que debemos investigar si
aspiramos a dar nueva forma al mundo de la vida y experiencia cotidiana de
modo que el control debe de ser el valor hegemónico, sino contenido por la
existencias de valores iluminados por el desarrollo auténtico.” En mi opinión
esta discusión debe considerar como contexto epistemológico lo que en algún
momento se denominó contexto de implicación: ¿qué implica lo que estoy
Fernando Tula Molina 302

haciendo (investigando) para los demás, el medio ambiente y las generaciones


futuras?
Desde el punto de vista epistemológico, un punto que en mi opinión
perjudica la propuesta de Lacey es el hecho de arrastrar el problema de la
inconmensurabilidad, lo cual queda en plena evidencia en el capítulo dedicado
a Kuhn. Es esta perspectiva la que lo conduce a esquematizar las estrategias
en la forma A vs. B y a sostener, que para que pueda darse un cambio de
estrategias debe darse previamente un cambio social, que a su vez posibilite
un cambio de valores y de rumbo para la actividad científica. A mi juicio, el
aspecto central y más rico de su perspectiva se beneficiaría de desligarse
definitivamente de tratar de solucionar, al mismo tiempo, el viejo problema de la
inconmensurabilidad.
Es muy ambigua la noción de mundo social en su propuesta y en
general está asociada a los aspectos que cobran significado y relevancia en el
mundo cotidiano. En mi opinión, la propuesta de Lacey requiere mayor detalle
en cuanto a qué quiere decir con “cambio de estrategia”. Si con ello quiere
decir que se produzca un cambio efectivo, sin ninguna duda que previamente
deben mudarse los objetivos de las instituciones y sus relaciones con el resto
del cuerpo social. Sin embargo, creo que el cambio efectivo sólo puede ser
consecuencia del cambio teórico, de la discusión reflexiva y crítica sobre dónde
deben invertirse los enormes recursos materiales e intelectuales relacionados
con la actividad científica; y, por supuesto, sobre cuáles son los mejores
medios de alcanzar tales objetivos.
Sea como fuere, la propuesta de Lacey mantiene el mérito de señalar
que debemos discutir al mismo tiempo el problema de los valores cognitivos
con el de los valors culturales. Y ello sin caer en relativismo de ninguna índole
dado que, “sin importar la estrategia utilizada, las afirmaciones de conocimiento
deben estar basadas en virtud de cuán bien manifiestan valores cognitivos; no
sólo en virtud de su potencial significado para el complejo de valores adoptado.
Sentenças protocolares e a construção de um sistema
científico.

Gelson Liston
Departamento de Filosofia /UEL

Resumo: O presente trabalho visa apenas apresentar uma proposta de


discussão sobre o debate entorno das sentenças protocolares ocorrido na
década de 30 entre os principais integrantes do Círculo de Viena, a saber,
Neurath, Carnap e Schlick.
Assim como Carnap, Neurath procura estabelecer os fundamentos da
ciência unificada por meio de uma linguagem unificada, a saber, a linguagem
fisicalista. Contudo, Neurath se distancia do fenomenalismo carnapiano
defendido no Aufbau, e sua tese fisicalista revisionista se apresenta como uma
crítica ao fundacionalismo advogado por Carnap. A posição de Neurath,
posteriormente aceita por Carnap, é de que a linguagem da ciência unificada,
devido ao progresso do conhecimento, se apresenta numa situação de
contínuo desenvolvimento.
A posição fisicalista de Neurath não é reducionista. Para ele o
importante é que a linguagem, na qual a ciência unificada é expressa, permita
fazer predições sobre qualquer tipo de evento que ocorre na natureza, sem,
contudo, ter de ser reduzida a algum tipo de nível de objetos, por exemplo à
objetos autopsicológicos ou físicos, como é o caso do sistema construcional
fenomenalista de Carnap. Tampouco Neurath se refere a objetos no sentido
carnapiano, pois o que realmente interessa, em seu modo de tratar a ciência
unificada, são as leis que possibilitam predizer algum tipo de fenômeno
cientificamente relevante. Apenas as predições devem ser redutíveis a
enunciados de observação. Se esses objetivos forem alcançados de forma
bem sucedida, então podemos afirmar que encontramos correlações funcionais
entre leis e fenômenos em estruturas no espaço e no tempo. A interpretação de
Neurath sobre as leis é instrumentalista, ou seja, leis são sistemas para se
fazer predições bem sucedidas.
O modo pelo qual Neurath pensa a unidade lingüística da ciência

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
Gelson Liston 304

unificada sem reducionismo é sustentado pela idéia de que não é necessário, e


tampouco possível, a redução dos sistemas de leis a uma única linguagem tida
como ideal, no caso a linguagem física, mas que esta linguagem sirva para
fazer predições sobre qualquer evento da natureza. O que esses sistemas de
leis, de diversas áreas, têm em comum é uma espécie de jargão universal
[universal slang] que possibilita a comunicação, sem a necessidade de
tradução, mesmo que qualquer termo da linguagem ordinária fisicalista possa
ser substituído por termos da linguagem da ciência avançada e esta, por sua
vez possa ser formulada, ou explicada com o auxílio da outra. No jargão
universal não existe sentenças primitivas. Com isso, Neurath apresenta sua
posição em relação à linguagem fisicalista e aos fundamentos da ciência
unificada com a tese de que não há nada que possa gozar de uma posição
absoluta e conclusiva, pois qualquer enunciado, mesmo as sentenças
protocolares básicas, que são sentenças factuais como quaisquer outras, é
passível de revisão. Esta parece ser a mensagem de Neurath em sua famosa
metáfora do barco e evidencia sua oposição à postura de Carnap em relação
aos enunciados protocolares que, segundo este, não requerem verificação
(isso já em sua fase fisicalista).

Bibliografia

AYER, A. J. 1959. Logical Positivism. New York: The Free Press.

CARNAP, R. 1932. The Unity of Science. Bristol: Thoemmes Press.

___. 1969.[1928]. The Logical Structure of the World. Berkeley e Los


Angeles: University of California Press.

NEURATH, O. 1959a. “Protocol Sentences”. In.: Ayer, 1959.

___. 1959b. “Sociology and Physicalism”. In: Ayer, 1959.

SCHLICK, M. 1988 [1934]. “O Fundamento do Conhecimento”. São


Paulo: Abril Cultural, Os Pensadores.
Racionalidade e incomensurabilidade científica: uma reflexão
sobre o relativismo cognitivo

Robinson Guitarrari
IBMEC-SP e UniFECAP

Resumo:O debate atual sobre a racionalidade científica tem envolvido uma


tomada de posição quanto ao relativismo epistemológico. Um dos focos do
debate consiste na superação do relativismo presente em pronunciamentos
de Thomas Kuhn sobre a escolha científica. Procurando libertar-se de um
relativismo kuhniano nas justificações de escolhas científicas, Hilary Putnam
e Larry Laudan apresentam estratégias bastante distintas. Putnam vê
incoerências autodestrutivas em tal relativismo, especialmente por duas
razões: sua formulação seria auto-refutante e, quanto aos atributos
cognitivos, essa posição não permitiria distinguir o homem de qualquer
outro ser. Laudan procurou desmistificar os efeitos que a
incomensurabilidade kuhniana teria causado para uma visão de
racionalidade dirigida por regras metodológicas e, além disso, buscou
mostrar a falta de poder explicativo do relativismo decorrente dela. O
presente trabalho investiga se há razão para considerar que o relativismo
gerado pela incomensurabilidade kuhniana constitui uma ameaça à
racionalidade científica.
Palavras-chave: Thomas Kuhn; incomensurabilidade; relativismo
epistemológico; relativismo cognitivo; racionalidade científica; mudança
científica.

No presente trabalho, procuro resumir os resultados das análises que


procedi em minha tese de doutorado (GUITARRARI, 2004) acerca das
conseqüências da defesa da incomensurabilidade entre paradigmas rivais para
a avaliação da racionalidade de uma escolha científica, à luz dos
pronunciamentos de Kuhn e das críticas que Putnam e que Laudan lhe
dirigiram.*
Concentro a análise no que Doppelt chamou de ‘incomensurabilidade
epistemológica’: a tese que afirma a existência de conjuntos rivais de
problemas, estratégias e padrões de avaliação compartilhados por parte
significativa da comunidade científica, mas que nega a existência de um
conjunto neutro de problemas, de estratégias e de padrões de avaliação ao

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
Robinson Guitarrari 306

qual cada membro da comunidade científica poderia ter acesso em uma


situação de escolha.
Dentro desse quadro, procurei responder aos seguintes problemas: (i) a
incomensurabilidade epistemológica impede a formulação de juízos de
superioridade epistêmica de um paradigma em relação a outro? (ii) Se não
impede, é o caso de um juízo ser tão relevante quanto qualquer outro? (iii) E,
por fim, se não vale tudo, quais as limitações que a defesa da
incomensurabilidade epistemológica acarretaria?
Putnam vê incoerências autodestrutivas no relativismo kuhniano,
especialmente por duas razões: a sua formulação seria auto-refutante e,
quanto aos atributos cognitivos, essa posição implicaria a falência da
capacidade cognitiva humana, pois não preservaria qualquer noção objetiva de
correção, isto é, não haveria como distinguir o paradigma que penso ser o mais
racional de ser aceito do que de fato é mais racional de aceitar.
Para Laudan, a incomensurabilidade seria um caso raro e o relativismo
decorrente dela faria da formação do consenso uma coincidência cósmica.
A questão que se coloca é se a posição kuhniana padece de tais
problemas.
Sobre Kuhn defendo os seguintes pontos:
1. Em primeiro lugar, que, de uma perspectiva kuhniana, a
incomensurabilidade epistemológica não impede que sejam formulados
juízos de superioridade epistêmica ou pragmática de um paradigma em
relação ao seu rival. (De fato, a incomensurabilidade epistemológica
kuhniana, por ser entre paradigmas, garante que há divergências em que
ambas as escolhas são racionais. Porque a noção de paradigma exige que
parte significativa da comunidade científica tenha sido agregada em função
de realizações sem precedentes: cada parte da comunidade científica que
se confronta tem boas razões para afirmar que a sua decisão é a mais
racional.)

*
Sou muitíssimo grato ao meu professor Caetano Ernesto Plastino, que orientou a minha tese
de doutorado, por ter discutido comigo, de maneira detalhada, todos os passos do trabalho,
pelas diversas sugestões e por ter concedido parte fundamental do material bibliográfico.
Racionalidade e incomensurabilidade científica 307

2. Em segundo lugar, defendo que não se pode afirmar afirmar que uma
alternativa é tão racional quanto qualquer outra, porque a
incomensurabilidade nega a existência de padrões neutros exigidos em um
tal juízo.
3. Em terceiro lugar, defendo que não é necessário adotar uma visão anti-
relativista para que se possa proceder a uma avaliação racional. Pois, no
caso de Kuhn, as escolhas podem ser consideradas racionais se e
somente se elas estão apoiadas em boas razões reconhecidas pela
comunidade científica, isto é, na capacidade do paradigma em solucionar
problemas, na sua simplicidade, no seu poder explicativo e preditivo, na
sua precisão, na sua fertilidade, na sua consistência interna e externa, por
exemplo.
As restrições de um modelo kuhniano de racionalidade implicam que as
justificações de escolha científica gozam de virtudes epistêmicas e pragmáticas
(em sentido estrito), reconhecidas pela comunidade científica. Contudo, tais
razões não são compulsivas porque os conjuntos de problemas, estratégias de
solução e valores não são igualmente compartilhados pelos defensores de
paradigmas rivais. Tais razões justificam uma preferência, mas não são
capazes de impô-la a todo participante da comunidade científica. É que, por
outro lado, é possível também haver boas razões para fazer outra escolha. Em
particular, os problemas que só o paradigma a que se deu preferência resolve,
ou o modo de se compreender certos valores para tal escolha ou ainda o
conflito entre os pesos que foram atribuídos para os valores compartilhados
pelas comunidades rivais constituem, cada um por si e conjuntamente, razões
para compreender que legitimamente dois cientistas de comunidades rivais
podem adotar diferentes paradigmas com base em boas razões.
Isso significa que as boas razões (pragmáticas em sentido estrito e
também epistêmicas), reconhecidas por parte da comunidade científica, são
condições necessárias e suficientes para julgar se uma certa escolha pode ser
dita racional.
Contudo, o fato de uma mudança ser racional não é suficiente para que
a mudança se dê: as boas razões são estratégias eficazes de persuasão, mas
não implicam a conversão do cientista.
Robinson Guitarrari 308

Com essa reconstrução de Kuhn, é possível mostrar os seguintes


pontos:
1. Que as objeções de Putnam não se aplicam ao relativismo kuhniano.

1.1. Em primeiro lugar, o relativismo kuhniano não é auto-refutante;


isto quer dizer que a suposição de que ele é verdadeiro não implica
a sua falsidade. Para mostrar isso, notemos que dois juízos
diferentes sobre qual dos paradigmas em competição é mais
racional aceitar não são contraditórios se formulados de
perspectivas diferentes. Mas também é preciso ver que a exigência
de interpretação para que haja compreensão e comunicação é, de
certa forma, satisfeita pelo quadro kuhniano.
1.2. Em segundo lugar, a acusação de que o relativismo nega a
existência de padrões de correção, pode ser refutada à medida que
mostramos que, dentro do modelo kuhniano, um cientista pode
distinguir o que se pensa ser uma decisão racional do que é
considerado racional pela comunidade científica.
2. Quanto às objeções de Laudan pode-se notar uma limitação do
relativismo kuhniano. Mas os seus argumentos contra as evidências de
incomensurabilidade não são convincentes para passarmos a acreditar
que o seu modelo reticulado, muito mais do que permitir, ele é capaz de
explicar a formação de consenso.
De acordo com o modelo reticulado, proposto por Laudan, os
compromissos da investigação científica são divididos em três classes: a
metodológica, a teórica e a axiológica. Tal modelo prescreve que não deve
haver hierarquia alguma entre tais classes de compromissos. Todas estão em
pé de igualdade. Além disso, o reticulado de Laudan afirma que a maior parte
das mudanças é gradual e se caracteriza por procurar maximizar o equilíbrio
epistêmico do reticulado. Ora, com essa visão, não é à toa que ele procurará
minimizar o impacto da incomensurabilidade epistemológica.
2.1 Como mencionei, para Laudan, o modelo kuhniano não explica a
formação de consenso. Quanto a esse aspecto, concordamos com
Laudan. Mas a razão para isso é que dentro do relativismo kuhniano
a racionalidade não implica o consenso, ou seja, as boas razões não
Racionalidade e incomensurabilidade científica 309

são compulsivas. Já Laudan pensa que o relativismo kuhniano


impede que o consenso seja alcançado por razões científicas. Para
ele, o modelo tornaria o debate científico inconclusivo por envolver
um solipsismo que estaria sempre sendo reforçado. Defendo, contra
a interpretação de Laudan, que o relativismo kuhniano não promove
um solipsismo nem torna o debate inconclusivo.
Para tanto, ele colocou o cientista individual como o agente-
parâmetro de ação racional e enfatizou o papel das motivações
subjetivas presentes nas decisões individuais. Ao contrário, destaco
a comunidade científica como o agente-parâmetro de ação racional
e ressalto a relevância dos padrões notadamente epistêmicos e
pragmáticos (em sentido estrito) para a aceitação de um paradigma.
A nossa posição é a de que, embora a caracterização de uma
mudança como racional não seja suficiente para gerar consenso, tal
racionalidade é condição necessária para o consenso, isto é, o
consenso não é alcançado sem boas razões; portanto, a obtenção
do consenso não acontece por acaso. Além disso, as boas razões
levantadas no confronto entre defensores de paradigmas rivais
possuem um forte apelo persuasivo, embora não tenha o poder de
conversão imediata de toda uma comunidade científica; portanto,
não é o caso de que o debate científico será sempre inconclusivo.
Por fim, como devemos analisar o comportamento da comunidade
científica, está excluída a idéia de que se trata de um solipsismo que
se reforça.
2.2 Além disso, para Laudan, a incomensurabilidade epistemológica é
um caso raro na história da ciência. Em seu propósito de minar suas
evidências favoráveis, Laudan ataca a tese de que as regras
metodológicas são ambíguas, de que os pesos que os defensores
de paradigmas rivais lhes atribuem são diferentes, de que com as
revoluções científicas há perdas de epistêmicas e de que as
revoluções científicas são caracterizadas por mudanças em blocos
covariantes de compromissos científicos.
Robinson Guitarrari 310

Para Laudan, as regras decisivas não são ambíguas, o conjunto


de regras não apresenta conflito, as perdas de explicação, ocorridas
nas mudanças teóricas, não são perdas epistêmicas, e, por fim, ele
defende que as mudanças científicas tipicamente acontecem aos
poucos, e não em blocos covariantes.
As críticas de Laudan à incomensurabilidade epistemológica
abordam os quatro casos.
[Casos 1 e 2] Notamos que foram bastante artificiais as réplicas
de Laudan aos casos de ambigüidades de padrões e das
determinações conflitantes geradas pelos diferentes pesos que
esses padrões podem assumir para cada parte da comunidade
envolvida na disputa: Kuhn não precisa afirmar que todas as regras
são ambíguas; também não precisa mostrar que todo conjunto de
regras apresenta conflito.
[Caso 3] Quanto ao caso das mudanças acontecerem aos poucos
e não em blocos covariantes, devemos ressaltar que o argumento de
Laudan não estabelece o seu ponto: se, por meio de alguns
exemplos, Kuhn não poderia sustentar a tese de que na história da
ciência as mudanças ocorrem em blocos covariantes, devemos notar
que esse recurso também não sustenta a tese defendida por Laudan
segundo a qual as mudanças científicas são freqüentemente
graduais.
[Caso 4] Por fim, quanto ao caso das perdas de problemas
resolvidos nas mudanças de exemplares, notamos que, para superar
a incomensurabilidade epistemológica, Laudan teria de mostrar que,
na maior parte dos casos históricos, todas as perdas de explicação
não constituem perdas de apoio empírico.
(Notemos que, para que o modelo reticulado explique o consenso
em ciência, Laudan precisa mostrar que a incomensurabilidade
epistemológica é um caso raro.)
Assim, podemos notar que os argumentos de Laudan que
dependem de uma pesquisa histórica não mostram que a da
incomensurabilidade é um caso raro. As teses de que são raros os
Racionalidade e incomensurabilidade científica 311

casos de perdas epistêmicas e também de que a maior parte das


mudanças não ocorre em blocos covariantes não foram
estabelecidas. Além disso, faltou a Laudan a apresentação de regras
claras, não ambíguas, imparciais e decisivas para afastar o
argumento de Kuhn em favor de que os padrões de avaliação
podem ser interpretados de maneira diversa, como também que
eles, em paradigmas rivais, podem assumir pesos conflitantes.
Mesmo sem saber a freqüência com que a incomensurabilidade
epistemológica ocorre, a nossa análise da perspectiva kuhniana mostra que,
embora a formação de consenso não seja explicada apenas por fatores
científicos, (i) o consenso em ciência não se faz sem uma boa razão, (ii) que
existem padrões de correção, (iii) que o relativismo kuhniano não implica a sua
falsidade e, por fim, (iv) que o relativismo kuhniano não implica que o debate
entre defensores de paradigmas rivais seja inconclusivo.
Com isso, podemos dizer que, ainda que não tenha o poder explicativo
desejado por muitos, um modelo kuhniano de racionalidade não representa o
pior dos mundos possíveis, como muitas objeções supõem.
De uma perspectiva kuhniana, a autoridade da comunidade científica
não implica que o poder e o interesse sejam determinantes de uma escolha.
Embora aceite que o interesse, o poder e a autoridade cumpram um papel
significativo na negociação em ciência, Kuhn discorda da tese extrema
segundo a qual “o poder e o interesse é tudo o que existe” (KUHN, 1992).
Kuhn jamais procurou questionar o valor cognitivo da ciência. Mesmo
que a pesquisa científica não busque o mundo ele mesmo, “independente da
mente ou da cultura”, o status cognitivo da ciência fica preservado com a
prática de resolver quebra-cabeças.
Com essa maneira de compreender a escolha científica, a objetividade e
a racionalidade passam a ter outro significado (KUHN, 1977a, 337-338). Nessa
interpretação, os interesses individuais e de grupos rivais também podem pesar
em uma escolha, mas, para poderem imperar, jamais estarão dissociados dos
interesses intersubjetivamente compartilhados que estão relacionados com a
capacidade de solucionar quebra-cabeças considerados relevantes. Nos casos
de mudanças científicas, quase sempre há confronto sobre qual é o conjunto
Robinson Guitarrari 312

de problemas relevantes, e como atacá-los. Por isso, embora a racionalidade


não implique consenso, é necessário que a mudança científica esteja baseada
em boas razões.

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A visão kuhniana de ciência aplicada a geografia física, sua
história e epistemologia: do renascimento à nova
geografia
Emerson Vizzotto de Barros
Graduando em Geografia/UEL

Rosana Figueiredo Salvi


Departamento de Geociências/UEL

Introdução

A Terra é o palco onde se desenrola a atividade dos homens. O seu


aspecto atual á apenas uma simples fotografia instantânea em relação às
constantes modificações que ela apresenta. Mais móvel e mais variável se
revela ainda a atividade humana.
Os agrupamentos humanos são os infatigáveis aproveitadores do Globo,
através do qual, para os mais diversos fins, eles multiplicam as suas viagens.
Assim, os cominhos poeirentos da Ásia foram, a séculos de distância, pisados
pelos soldados de Alexandre, percorridos pelas caravanas dos mercadores,
martelados pelos cascos das hordas mongólicas, calcados pelas rodas dos
automóveis; os homens utilizaram-nos sucessivamente para satisfazer o seu
gosto de risco e aventura.
Ora a aventura – qualquer que seja o seu motor: lucro, curiosidade,
necessidade – é, de fato, o prólogo, a primeira etapa da Geografia. É, para
além do horizonte habitual, a beleza movediça do mar, o silêncio parado das
estepes abrasadas de sol, a pitoresca constituição das gigantescas montanhas;
é a teimosa e dura vontade do pioneiro, a penosa marcha do explorador
obstinado, a inflexível confiança do navegador impelido para o largo.
Esta ida constante às “regiões estranhas” é, para nós, a herança
implícita da instável humanidade primitiva.

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.
A visão kuhniana de ciência aplicada a geografia física, sua história e epistemologia 319

Porque, bem antes dos périplos gregos ou dos grandes descobrimentos


marítimos do século XV, já os primeiros homens exploraram a superfície do
Globo.
Entretanto, a onipresença do homem sobre a terra, a universalidade das
suas deslocações em grupos não provocaria forçosamente o enriquecimento
do patrimônio comum da humanidade, a fisionomia das regiões percorridas ou
habitadas. E foi esta a obra dos sábios gregos que não só revelaram a forma
da Terra, mas realizaram uma representação regional da superfície terrestre
com o auxílio de medições astronômicas, do cálculo das latitudes, assim como
da utilização das coordenadas terrestres.
Contudo, por mais importantes que fossem estas aquisições, elas eram
apenas um esboço. A etapa decisiva seria vencida no século XIX; é então que
a Geografia atinge o seu pleno significado, transferindo o seu campo de estudo
da descrição para a compreensão dos fatos localizados.
É a Europa e à civilização européia que a Geografia deve o lugar
privilegiado que ocupa entre os principais ramos do saber humano.
Até ao século XV, os europeus consertaram-se, segundo a expressão de
Platão, como rãs acocoradas à beira do Mediterrâneo. Depois, bruscamente,
abandonaram o berço demasiado rígido deste mar fechado e singram para o
mar alto à descoberta dos oceanos e dos continentes (CLOZIER, 1950).
Observando este caráter histórico do desenvolvimento de uma ciência,
Thomas Kuhn, em sua obra A estrutura das revoluções científicas, sugere que
talvez a ciência não se desenvolva pela acumulação de descobertas e
invenções individuais. Estabelecendo uma perspectiva histórica para a análise
do desenvolvimento de uma ciência, Kuhn observa que os estudos dos
Historiadores da Ciência começaram a traçar linhas diferentes, freqüentemente
não-cumulativas, de desenvolvimento para a ciência; um estudo que procurou
apresentar a integridade histórica da ciência, a partir de sua época.
Esses estudos históricos sugerem a possibilidade de uma nova imagem
da ciência. Desta forma Kuhn visa, em sua obra A Estrutura das Revoluções
Científicas, delinear essa imagem ao tornar explícitas algumas das implicações
da nova historiografia.
Para isso Kuhn divide o processo científico em:
Emerson Vizzotto de Barros & Rosana Figueiredo Salvi 320


Período de Ciência Normal, que se dá pautado no
Paradigma – conceito este criado por Kuhn.
• Período de Crise na ciência, que acontece por
conseqüência das Anomalias que surgem no Paradigma.
• Revolução Científica, que ocorre com o estabelecimento
de outro Paradigma que melhor explique as Anomalias.
• Restabelecimento do período de Ciência Normal.
Veremos, com mais detalhes a partir de agora, como se deu o
desenvolvimento dos conhecimentos geográficos e a formação da Geografia
como ciência constituída levando em conta a visão de kuhniana de como a
ciência se desenvolve, caminha, analisando como se dá esse processo em
cada uma das categorias delineadas por Kuhn e aplicando esta visão ao
desenvolvimento dos conhecimentos geográficos e à formação da Geografia
como ciência.

A pré-história da Geografia Física

Até ao século XV, os europeus consertaram-se, segundo a expressão de


Platão, como rãs acocoradas à beira do Mediterrâneo. Depois, bruscamente,
abandonaram o berço demasiado rígido deste mar fechado e singram para o
mar alto à descoberta dos oceanos e dos continentes. (Clozier, 1950)
Para a Geografia, como para quase todos os setores do saber humano,
o Renascimento significou uma época de renovação e de febril atividade. É o
tempo das grandes viagens, que revelam mundos desconhecidos, das grandes
descobertas científicas, que fornecem novas bases a todos os conhecimentos
e dos avanços tecnológicos que possibilitam a navegação em alto mar, devido
ao aparecimento da bússola e do astrolábio e a criação da caravela de largo
velame e de bordas altas, que reduz a insegurança dos navegantes.
Os conhecimentos acompanham esse avanço técnico: a Geografia de
Ptolomeu foi traduzida em latim em 1409, já em 1436, o veneziano Andréa
Blancho apresentava o portulano que trazia as últimas descobertas
portuguesas. Em 1484, o cosmógrafo de Nüremberg Martim Behaim constrói o
globo que tomou o seu nome. Eram conhecimentos de natureza geográfica,
ligados a expansão mercantil, ampliando o chamado “mundo conhecido”. Essa
ampliação atinge seu limite maior quando, no fim do século XV, Vasco da
A visão kuhniana de ciência aplicada a geografia física, sua história e epistemologia 321

Gama chega à Índia abrindo roteiros que, no século seguinte, se tornarão


conhecidos. É a época em que Colombo chega a América e Cabral chega ao
Brasil. Fernão de Magalhães dá a volta ao mundo. A cartografia acompanha
essa expansão. Cartógrafos como Ortelius e Mercator registram esses
conhecimentos. Copérnico liquida a concepção ptolomaica do nosso sistema
planetário, difundindo o heliocentrismo, desde a publicação de sua obra, em
1543, De Revolutionibus Orbium Coelestium.
Os chamados descobrimentos prosseguem no século XVII e as
invenções são aprimoradas, assim os pesados galeões, mais longos e mais
largos, substituem as caravelas; o cálculo da longitude se aproxima da
exatidão; a velocidade dos navios pode ser medida; aparecem os relógios
marítimos e os cronômetros; Torricelli inventa o barômetro. As viagens se
multiplicam, em todos os mares e, nos fins do século XVII, começam a assumir
caráter científico, ou pelo menos a tê-lo como presente. A informação era,
assim, abundante, mas caótica, pois descrevia a tudo aquilo peculiar a
Geografia como o que se referia às plantas, aos animais, ao clima, aos mares,
aos rios. O particular assumia proporções inumeráveis. Fazia falta o geral. Mais
ainda o universal. No século XVII surgiram duas obras gerais: a Introdução a
Geografia Universal, de Cluverius, de 1626, e a Geographia Generalis, de
Varenius, de 1650. Em Varenius a Geografia tem um de seus maiores
pioneiros. No final do século XVII, G. Sanson publica a sua Introduction à la
Géographie, desenvolvendo as idéias de Varenius.
Sodré (1987) considera encerrada, no fim do século XVIII, a “pré-
história” da Geografia, ou seja, o seu processo preliminar, preparatório para a
formação dessa ciência.
A Geografia esboça as suas grandes linhas no século XVIII, afirmando-
se e definindo-se, compondo contribuições de diversas origens. Ao fim do
século XVIII, a Geografia havia reunido condições para emancipar-se. Podia
compor seus elementos, espalhados nos mais diversos campos do
conhecimento, e sistematiza-los. Esses mesmos conhecimentos, que
pertenciam a outros domínios, seriam tratados pela Geografia de maneira
específica.
Emerson Vizzotto de Barros & Rosana Figueiredo Salvi 322

A Formação da Geografia Moderna: Caracterizando a Natureza da


Geografia Física na sua Vertente Tradicional

De acordo com Sodré (1987), no ano de 1845, quando Humboldt iniciou


a publicação do Cosmos, as condições haviam amadurecido para uma síntese
do conhecimento geográfico acumulado.
Os méritos de Humboldt são altíssimos. Fundou os métodos de
observação de quase todos os setores da Geografia Física. É ainda ele que
deve ser considerado o criador da Geografia Botânica.
Nenhum outro viajante se lhe compara como observador. A Humboldt
pertence incontestavelmente o mérito de, em primeiro lugar, ter formulado e
aplicado os dois princípios essenciais que fazem da geografia uma ciência
original.
Karl Ritter, na Ciência Comparada da Terra, adota os princípios
apresentados por Humboldt. Ao passo que Humboldt era um sábio e um
viajante, servido por um notável sentido da observação, Ritter possuía uma
cultura histórica e filosófica; com o primeiro, as ciências naturais tinham sido
postas ao serviço da Geografia, com o segundo é a História que vem em seu
auxilio. A Ciência Comparada da Terra procura discernir as relações do homem
com o solo e a influência das condições naturais sobre o desenvolvimento das
sociedades.
Pode-se concluir que os fenômenos que as outras ciências dissociam,
pela análise ou pela experimentação, a Geografia trata na ordem concreta das
coisas, na sua diversidade complexa, na sua realidade em constante mudança,
pois a natureza, como declara Ritter, não é uma mecânica morta. Deste modo
a Geografia acaba por usar os resultados das ciências da natureza e do
homem, a servir-se dos dados da Geologia, da Botânica, da Meteorologia, da
História, da Estatística, etc.
É este o significado da obra de Humboldt e de Ritter.
Com efeito, a definitiva formação da Geografia não podia tardar mais. A
germinação das sementes lançadas por Humboldt e Ritter teve lugar assim que
surgiram as condições políticas e ideológicas favoráveis, no último terço do
século XIX, na Prússia (futura Alemanha). Após a constituição do estado
A visão kuhniana de ciência aplicada a geografia física, sua história e epistemologia 323

alemão, onde as primeiras cadeiras de Geografia foram criadas, em 1870,


surge Ratzel com a Antropogeografia.

Discutindo as concepções formadoras da Geografia Física Tradicional e


os seus paradigmas fundadores

A Geografia desenvolveu-se de modo bastante diverso, três


pensamentos e formas de se fazer Geografia distintos constituem os três
grandes paradigmas da Geografia Tradicional. São eles: o determinismo, o
possibilismo e o idiográfico-nomotético.
Estes três pensamentos se constituíram nos três grandes paradigmas da
Geografia Tradicioal porque forneceram aquilo que Kuhn define como essencial
função de um paradigma: proporcionar os fundamentos, os métodos, para a
prática posterior de uma ciência. Nas palavras de Kuhn:

A Física de Aristóteles, o Almagesto de Ptolomeu, os Principia e a Óptica de Newton,


a Eletricidade de Franklin, a Química de Lavoisier e a Geologia de Lyell – esses e
muitos outros trabalhos serviram, por algum tempo, para definir implicitamente os
problemas e métodos legítimos de um campo de pesquisa para as gerações
posteriores de praticantes da ciência. Puderam fazer isso porque partilharam duas
características essenciais. Suas realizações foram suficientemente sem precedentes
para atrair um grupo duradouro de partidários, afastando-os de outras formas de
atividade científica dissimilares. Simultaneamente, suas realizações eram
suficientemente abertas para deixar toda a espécie de problemas para serem
resolvidos pelo grupo redefinido de praticantes da ciência” (KUHN, 1962, p. 29).

Aos trabalhos, teorias que possuem as duas características essenciais


descritas por Kuhn, a saber, suas realizações foram suficientemente sem
precedentes para atrair um grupo duradouro de cientistas e, simultaneamente,
suas realizações foram suficientemente abertas para deixar toda a espécie de
problemas para serem resolvidos pelo grupo de praticantes da ciência, Kuhn
chama de “Paradigma” e comenta que “a aquisição de um paradigma e do tipo
de pesquisa mais esotérico que ele permite é um sinal de maturidade no
desenvolvimento de qualquer campo científico” (KUHN, 1962).
Segundo Kuhn (1962), quando um paradigma se estabelece, quando um
indivíduo ou grupo produz uma síntese capaz de atrair a maioria dos
praticantes da ciência, este paradigma passa a implicar uma definição nova e
mais rígida do campo de estudos. Define-se melhor as características da
“matriz disciplinar” em que se ira respaldar para produzir o conhecimento.
Emerson Vizzotto de Barros & Rosana Figueiredo Salvi 324

Após o estabelecimento do paradigma, a ciência entra no período


“normal” ou de “ciência normal”, onde, a partir daí, as pesquisas se nortearão
pelo paradigma vigente. Sendo assim, podemos inferir que a Geografia
Tradicional inicia o seu período de “ciência normal” a partir da constituição do
primeiro dos seus três paradigmas, o Paradigma Determinista.

A Visão Ratzeliana de Geografia

A obra pioneira de Friedrich Ratzel constituiu a ponta inicial do longo fio


do determinismo ambiental, primeiro paradigma da Geografia Tradicional.
Nela procurava mostrar que a distribuição do homem na superfície da
Terra havia sido mais ou menos determinada pelas forças naturais,
descrevendo, no volume final, a distribuição existente.
Em sua outra obra intitulada Geografia Política, que tinha como produto
as investigações comparativas das relações entre o Estado e a superfície da
Terra, Ratzel procura difundir que o aspecto geográfico do Estado reside na
sua relação necessária com o solo; nesse solo, evolui na mesma medida em
que crescem os seus recursos.
De acordo com Sodré (1982) o determinismo geográfico é fruto de uma
concepção metafísica e mecanicista da natureza. Esta interpretação
mecanicista da natureza foi embrionária desde a época da Idade Média, e seu
amadurecimento coube a Descarte e a Newton. Seus trabalhos e idéias
ajudaram na criação de um quadro completo da concepção científica do Mundo
baseado nos princípios da Mecânica que regiam, na época, as interpretações
da ciência.
Pode-se concluir que, a partir de Newton, se estabeleceu, segundo Kuhn
(1962), o primeiro paradigma para as ciências, o “paradigma mecanicista”. A
Geografia, como ciência constituída, herda grande parte da idéia mecanicista
de Mundo elaborada por Newton.
A idéia de evolução da natureza foi lentamente elaborada e mais
lentamente aceita, nos anos 40 do século XIX, a ciência passa a desenvolver
leis específicas dos diferentes domínios da natureza e a considerar a existência
de laços entre eles. De empírica tornou-se teórica. Criou as condições
A visão kuhniana de ciência aplicada a geografia física, sua história e epistemologia 325

necessárias para o abandono da estrutura metafísica e mecanicista dos


séculos XVII e XVIII, formulando leis mais gerais de desenvolvimento da
natureza e estabelecendo a concepção dialética e materialista da natureza
(Sodré, 1982, p.79).
A obra de Darwin suscitou, na comunidade científica, a aceitação do
caráter dialético da natureza.

A Visão Lablachiana de Geografia

Vidal de La Blache, reconhecendo a relação dialética entre homem e


natureza, colocou com clareza, do ponto de vista geográfico, a noção de meio.
Nas palavras de Vidal de La Blache:

“Sob este nome de meio, caro à escola de Tainá, sob o de vizinhança, de emprego
freqüente na Inglaterra, ou mesmo sob o de ecologia, que Haeckel introduziu na
linguagem dos naturalistas, termos que, no fundo, se referem à mesma idéia, a
sempre e mesma preocupação que se impõe ao espírito, à medida que se descobre
mais a íntima solidariedade que une as coisas e os seres. O homem faz parte dessa
cadeia e, em suas relações com o que o cerca, ele é, ao mesmo tempo, ativo e
passivo, sem que seja fácil determinar, na maior parte dos casos, até que ponto ele é
uma coisa ou outra (...) . Do ponto de vista geográfico, o fato da coabitação, isto é, do
uso comum de um certo espaço, é o fundamento de tudo” (LA BLACHE, 1948, p.104,
apud SODRÉ, 1982).

La Blache mostrou ainda a importância do esforço do homem, em sua


relação com o meio:

“Vê-se como, espontaneamente, independentes uns dos outros, em pontos muito


diversos, organizaram-se gêneros de vida. Forçando a tirar partido dos recursos
fornecidos pelo meio, não podendo fazer sua vida depender dos laços fracos e
aleatórios do comércio, o homem concentrou o seu engenho em um número por
vezes muito restrito de materiais e soube aplicá-los a uma extraordinária
multiplicidade de serviços” (LA BLACHE,1948, p.131, apud SODRÉ, 1982).

Pouco a pouco, cresce a corrente que inclui o homem na paisagem e lhe


concede papel ativo em relação ao meio geográfico.
La Blache colocou o problema desta forma:

“Devemos partir da noção de que a Terra é um reservatório que contém energias


adormecidas, cujas sementes foram plantadas pela natureza, mas cujo uso depende
do homem. É ele quem, modelando-as à sua feição, demonstra sua individualidade.
O homem estabelece a sua ligação entre elementos díspares, colocando uma
organização significativa das forças em lugar dos efeitos incoerentes da circunstância
local. Desse modo, a região adquire identidade e se distingue de outras, tornando-se,
no curso do tempo, como uma medalha fundida à imagem de um povo” (LA BLACHE,
1908, p.8, apud SODRÉ, 1982).
Emerson Vizzotto de Barros & Rosana Figueiredo Salvi 326

La Blache preocupou-se então com o estudo da relação do homem e o


meio físico, passando a admitir que o meio exercia alguma influência sobre o
homem, mas que este, dependendo das condições técnicas e do capital que se
dispunha, podia exercer influência sobre o meio. Daí o surgimento da
expressão “Possibilismo” que, posteriormente, tornou-se a denominação de um
dos paradigmas da Geografia Tradicional, em oposição ao Paradigma
Determinista.
Surge aqui uma das grandes vertentes da Geografia, a Geografia Física,
pois a geografia proposta por La Blache era concebida como o estudo da
paisagem. Conforme Moraes (2003), Vidal fundou a corrente que se tornou
majoritária no pensamento geográfico. Pode-se dizer que, após suas
formulações, o núcleo central dessa disciplina estava constituído.

A Visão Hartshorniana de Geografia

A Escola Geográfica Norte Americana desenvolveu-se a partir da


segunda metade do século XIX e o seu grande foi Richard Hartshorne, que foi
muito influenciado pelo pensamento do geógrafo alemão Alfred Hettner.
Ele desenvolveu as teses do mestre alemão a quem seguia e especulou
sobre a análise das inter-relações entre os fenômenos, admitindo duas formas
de estudá-los: ou partir do particular, da região – o que ele chamou de
Geografia Idiográfica, que seria uma geografia regional; ou de forma
generalizadora - a que ele denominou Geografia Nomotética, que seria uma
geografia geral.
Na proposta de Hartshorne a Geografia teria sua individualidade e
autoridade decorrente de uma forma própria de analisar a realidade. O método
especificamente geográfico viria do fato dessa disciplina trabalhar o real em
sua complexidade, abordando fenômenos variados, estudados por outras
ciências. Para Hartshorne, o estudo geográfico não isolaria os elementos, ao
contrario trabalharia com suas inter-relações.
A proposta de Hartshorne pode ser considerada como um terceiro
paradigma - o Paradigma Idiográfico - Nomotético - para a Geografia
A visão kuhniana de ciência aplicada a geografia física, sua história e epistemologia 327

Tradicional, que se estabelece concomitantemente com o Paradigma


Determinista e o Paradigma Possibilista

Os Fundamentos Teórico – Metodológicos da Geografia Física Tradicional

Com o objetivo de cada vez mais incluir a Geografia no rol das ciências
naturais, a própria definição de Geografia muda diversas vezes. Clozier a
define da seguinte forma:

“A Geografia estuda a fisionomia do Globo, isto é, os aspectos que resultam do


clima, do relevo, das associações vegetais, dos agrupamentos humanos, assim como
as forças físicas e humanas que presidem à sua formação no espaço e no tempo; ela
procura explicar a sua correlação, quer no conjunto terrestre que as condiciona a
todas, quer nos quadros regionais em que elas se localizam” (CLOZIER, 1950, p.87).

Observa-se então que a Geografia nasce física, sendo esta, descrições


do clima, do relevo, da hidrografia, da vegetação e do homem como simples
habitante de diferentes paisagens. Dada essa característica da Geografia
Tradicional, a distinção entre os termos Geografia Física e Geografia não será
relevante no presente trabalho.
Com uma visão geral, a Geografia procura observar, descrever,
enumerar, classificar e explicar os diferentes fenômenos da natureza, como o
clima, o relevo, a hidrografia e a vegetação. Cada um desses elementos era
visto separadamente. A visão regional procura observar, descrever, classificar
e comparar as inter-relações entre os elementos da natureza, somando as
ações humanas.
Segundo Clozier, a Geografia Tradicional já não se contenta em ser um
simples catálogo de fatos localizados; pelo contrário, pretende dar deles uma
explicação científica, a autonomia da Geografia está definida:

“As suas investigações incidem, ao mesmo tempo, sobre fatos que observa
diretamente e sobre resultados que outras ciências obtiveram aplicando aos fatos a
observação e a experiência. Mas a Geografia não utiliza estes resultados
isoladamente; restabelece-os no seu ambiente natural, coloca-os na ordem concreta
das coisas; precisa, portanto, a inesgotável variedade das combinações de que
resultam as paisagens morfológicas, as paisagens botânicas, os gêneros de vida dos
grupos humanos” (CLOZIER, 1950, p.93).

Observa-se a constante presença, na Geografia Tradicional, de fatos de


ordem climática, biológica, histórica, etc. Para Clozier, essa capacidade de
Emerson Vizzotto de Barros & Rosana Figueiredo Salvi 328

convergência dos fatos é que dá à investigação geográfica sua originalidade e,


principalmente sua utilidade (Clozier, 1950).
Com esses fatos, a Geografia Tradicional lida através, principalmente,
da observação e da descrição, reflexo direto do positivismo no campo
Geográfico, resultado do contexto que cercou o surgimento da Geografia e da
influência das Ciências Naturais, mais especificamente, da Física Newtoniana e
da visão mecanicista de Mundo que esta disseminou através da comunidade
científica, o que propiciou, a princípio, o estabelecimento do Paradigma
Newtoniano sobre todas as ciências.
Conforme Clozier (1950), a descrição e a localização são, se não a
tarefa essencial, pelo menos os primeiros passos da Geografia. Aquele que
pode melhor exemplificar o papel e o valor da descrição em Geografia é Paul
Vidal de La Blache, o fundador da escola geográfica francesa. É na obra
Quadro da Geografia da França que melhor aparece o estilo de La Blache.
Neste livro, La Blache procura sempre colocar a paisagem num conjunto mais
vasto, situando-a em relação às grandes unidades regionais. Procura, com a
descrição, ressaltar os traços típicos e evocadores e explicitá-los de forma que
todos possam percebê-los.
Deste modo, em Vidal de La Blache, a descrição tem, como o fato
geográfico, a sua originalidade numa forma de convergência; todos os traços,
qualquer que seja a sua natureza, concorrem para precisar a fisionomia dos
lugares. Ao mesmo tempo, porém, esta descrição é seletiva; elimina certos
traços e junta outros, pois no fundo, ela orienta-se segundo um determinado
pensamento. É uma descrição científica e, por conseqüência,
esquematizadora. A descrição de Vidal de La Blache esquematiza, por ser
dirigida, por se orientar para a explicação. É, sem dúvida, um retrato que
pretende traçar, mas um retrato cujas linhas evoquem as forças que
modelaram a fisionomia de uma região.
Utilizando-se de vasta documentação, Vidal de La Blache discerne os
fatores físicos de uma região, mas também, a intensidade das transformações
que esta região sofreu pela intervenção humana. Traçando a evolução de uma
dada região, a Geografia de La Blache se encontra impregnada de História.
A visão kuhniana de ciência aplicada a geografia física, sua história e epistemologia 329

Na visão de Clozier (1950), a descrição geográfica é científica e,


portanto, seletiva. Teoricamente, deveria analisar todos os elementos da
paisagem, mas na prática elimina certos traços explicativos:
1 – Porque situa a paisagem num quadro que corresponde a um
conceito pré-estabelecido: montanha, planície, etc.
2 – Porque é guiada por um pensamento que procura certos traços
típicos em vista de uma explicação.
Entretanto, não há descrição geográfica sem a explicação que lhe dá
sentido.
A descrição da “face da Terra” é, ao mesmo tempo o princípio e o fim do
trabalho geográfico.
A explicação geográfica parte da descrição e, para demonstrar que se
encontra bem fundamentada, utiliza dois meios de investigação que, segundo
Clozier (1950), são: a observação e o documento cartográfico.
Clozier explica que para substituir a experiência, o geógrafo utiliza os
documentos cartográficos. Em suas palavras:

“As cartas, sobretudo as cartas de grade escala, são, para o geógrafo, ao mesmo
tempo o complemento e a correção da observação. O complemento, porque, por mais
vasto que seja o campo de visão, a paisagem percebida é estritamente limitada. A
carta vem então substituir o exame direto e enriquecer a observação; (...). A correção
também, porque uma carta, mesmo de grande escala, é sempre um esquema, isto é,
uma interpretação simplificada da realidade; ela elimina os traços secundários e
constitui, deste modo, um incentivo para a generalização e, portanto, para a
explicação; (...)” (CLOZIER, 1950, p.101).

A leitura inteligente de uma carta permite assim a visão indireta da


superfície e que dela se extraiam os elementos de uma descrição explicativa.
A observação e o documento permitem a passagem da descrição à
explicação. A partir dos fatos observados através de múltiplos estudos locais e
regionais, são estabelecidas leis gerais.
Para se chegar a estabelecer leis gerais, o geógrafo tradicional utiliza
dois processos:
1 – O processo de extensão ou de localização.
2 – O processo de comparação ou de analogia.
Nos dois processos acima comentados, a descrição e a generalização
são sempre dominadas pela explicação causal.
Emerson Vizzotto de Barros & Rosana Figueiredo Salvi 330

Como já dito, a Geografia segue as sugestões das analogias para ir dos


fatos às leis. Esta regra é aplicável à Geografia Geral e também à Geografia
Regional, pois é o meio de observar o encadeamento natural dos fenômenos e
a sua extensão. Entretanto, conforme Clozier (1950), a Geografia não se utiliza,
para isso, do método indutivo. Ela procede por identificação de complexos de
mesma ordem por confrontação dos fenômenos situados num mesmo plano;
utiliza, portanto, o raciocínio dedutivo. Entretanto por vezes, a dedução fica
ligada a proposições intuitivas na Geografia, adquirindo um caráter legitimo no
processo científico.
A análise geográfica pode conduzir, portanto, a uma teoria, isto é, a uma
organização de conceitos em sistemas coerentes. A hipótese de trabalho se
torna semelhante a um postulado matemático, isto é, a uma proposição a priori,
saída de sugestões baseadas na observação, sem que uma demonstração
direta seja possível. Daí as variações nas explicações e no método geográfico
que resultam, ao mesmo tempo, da sensibilidade do geógrafo e do assunto
estudado.
A Geografia Tradicional existiu, hegemônica, até os anos de 1950.
Durante este período de 105 anos, que, segundo Sodré (1985), se iniciou em
1845, quando Humboldt publicou Cosmos, a Geografia Tradicional deixou uma
ciência elaborada, um corpo de conhecimentos sistematizados, com relativa
unidade interna. Elaborou um rico acervo empírico, fruto de um trabalho
exaustivo de levantamento de realidades. Esse acervo veio a se constituir um
substantivo material para pesquisas posteriores devido a sua minúcia e
fidedignidade à realidade, para tanto, desenvolveu-se finas técnicas de
descrição e representação. A Geografia Tradicional elaborou conceitos como
território, ambiente, região, habtat, área, gênero de vida, que estão presentes
nas discussões geográficas até hoje. Deixou fundamentos que delimitaram um
campo geral de investigações, articulando uma disciplina autônoma. Elaborou
um temário válido, identificou problemas e levantou questões relevantes.
A visão kuhniana de ciência aplicada a geografia física, sua história e epistemologia 331

O Corte Epistemológico a e Mudança de Paradigma na Geografia:


Geografia Tradicional X Nova Geografia

A Geografia Tradicional foi uma das ciências mais promissoras de sua


época, de seu “mundo”. Entretanto, com o advento da II Guerra Mundial, o
“mundo” mudou. Esta guerra provocou a destruição da economia e das cidades
da maior parte dos países europeus; velhos valores sociais e morais
desapareceram e a destruição material provocou a necessidade de
reconstrução. Os administradores, os políticos, os cientistas, os professores e o
povo em geral se perguntavam o que reconstruir e como reconstruir. Surge,
neste cenário, os estudos designados Amenagenent du Territoire, na França,
procurando dar ao planejamento uma dimensão ao mesmo tempo histórica e
geográfica por fazer o diagnóstico da situação existente e desenvolver a
prospectiva, projetando o crescimento para o futuro estabelecendo etapas a
curto e longo prazo.
Todo esse contexto em que se encontrava o Mundo influenciou
profundamente e provocou grandes mudanças nos setores científico,
tecnológico, social e econômico.
Moraes (2003) cita quatro pontos em que estas mudanças afetaram a
concepção dos geógrafos sobre a Geografia Tradicional, quatro pontos que
Kuhn (1962) chamaria de anomalias do Paradigma Tradicional da Geografia:
1 – Mudança da base social e econômica.
A realidade havia mudado, deixando defasado aquilo que não
acompanhou o ritmo da mudança, os fundamentos e as formulações da
Geografia Tradicional estavam engendrados com uma configuração social que
já não se apresentava mais.
O desenvolvimento do modo de produção capitalista contribuiu muito
para esta modificação social. O capitalismo havia entrado na era monopolista,
não se tratava mais de múltiplas empresas médias concorrendo no mercado,
mas sim dos grandes trustes, do monopólio e do grande capital.
Uma revolução tecnológica entrepunha-se aos dois momentos.
O Estado passou a influenciar na ordenação e regulação da economia
devido ao fato de que, com a crise de 1929, as teses de livre iniciativa, da
ordem natural e auto-regulação do mercado haviam caído por terra, suscitando
Emerson Vizzotto de Barros & Rosana Figueiredo Salvi 332

a necessidade da intervenção estatal na economia. O planejamento econômico


foi estabelecido como uma arma de intervenção do Estado e, com ele, o
planejamento territorial, com a proposta de ação deliberada na organização do
espaço.
A realidade do planejamento colocava uma nova função para a
Geografia e, para desempenhá-la, havia a necessidade do desenvolvimento
técnico e tecnológico no meio geográfico.
A geografia Tradicional não apontava nessa direção.
2 – Mudança na organização do Espaço e crise das técnicas tradicionais
de análise geográfica.
O desenvolvimento acentuado do Capitalismo proporcionou grandes
mudanças tanto nas paisagens urbanas como rurais. A urbanização atingiu
graus nunca antes observados, apresentando fenômenos novos e complexos,
como as megalópoles.
Com a mecanização e industrialização da atividade agrícola as
comunidades locais tenderam a desaparecer articulando-se à redes intrincadas
e complexas de relações mundializadas proporcionadas pelo desenvolvimento
tecnológico dos transportes e comunicação. A realidade local passou a ser
apenas como um elo de uma cadeia que articulava o mundo inteiro.
Isto defasou o instrumental de pesquisa da Geografia. Estes não davam
mais conta nem da descrição e representação dos fenômenos da superfície
terrestre. Criados para explicar situações simples, não conseguiam apreender
a complexidade da organização atual do espaço.
3 – Crise do fundamento filosófico da Geografia Tradicional.
O positivismo clássico, sobre o qual se fundamentava a Geografia
Tradicional havia sofrido crises internas e renovações, entretanto a Geografia
permanecia como baluarte deste. O desenvolvimento das ciências e do
pensamento filosófico já havia ultrapassado em muito os postulados positivistas
que passaram a figurar por demais simplistas. A própria complexidade da
realidade e dos instrumentos de pesquisa haviam envelhecido o positivismo
clássico.
4 – Problemas internos, questões de formulação, lacunas lógicas e
dubiedades.
A visão kuhniana de ciência aplicada a geografia física, sua história e epistemologia 333

Um dos pontos a salientar era a indefinição do objeto de análise da


Geografia Tradicional, que servia de alvo de críticas sobre a autoridade da
Geografia por outras ciências.
Tendo em vista todas essas limitações que a Geografia Tradicional
apresentava, iniciou-se um movimento de mudança, de renovação da
Geografia. Seu intuito geral é o de uma “reformulação metodológica” que de
conta das novas realidades que se apresentaram a Geografia.
Na mudança do período da Geografia Tradicional para o período da
Nova Geografia se constitui o que Kuhn (1962) chamou de Crise no paradigma
vigente.
Quanto às diferenças filosóficas, são fundamentais. Observa-se que não
há encadeamento entre a Geografia Tradicional e a Nova Geografia, mas a
ocorrência de verdadeiras rupturas epistemológicas. As duas concepções
geográficas possuem, conceitos, valores, técnicas, e problemas diferentes.
Segundo Marly Bulcão (1999), ocorre o que Bachelard, em sua obra
Essai sur la Connaissance Approchée, defende como sendo o motor da
revolução científica: a reformulação do pensamento, a retificação.
Neste momento de “corte epistemológico”, a ciência rompe com o
passado, assumindo uma nova trajetória.
Bulcão comenta:

“A nova epistemologia vai romper com a noção de uma Razão imóvel, pois as
ciências contemporâneas são o testemunho de que o espírito científico está em
constante evolução. Com o aparecimento das novas teorias como a relatividade de
Einstein, a mecânica quântica, a teoria ondulatória, as geometrias não-euclidianas,
etc, ficou demonstrado que a estrutura da Razão é variável, pois seus princípios se
modificaram. Em La valeur enductive de la reletivité, vai ficar bem claro o aspecto de
novidade das teorias contemporâneas. Bachelard julga necessário afirmar a
variabilidade do espírito científico, mostrando que o desenvolvimento do
conhecimento se faz através de retificações que a cada momento renovam os
princípios da Razão. Conforma diz Bachelard: ‘a doutrina de uma Razão absoluta e
imutável é uma filosofia superada’”. (BULCÃO, 1999, P.14)

Essa ruptura com o passado e a adoção dessa nova trajetória não


significa necessariamente, segundo Marly Bulcão, uma negação total deste
passado, podendo ser mais bem caracterizada como um englobamento, no
qual o passado passa a ser apenas uma das possibilidades de abordagem.
(Bulcão, 1999, p.152)
Emerson Vizzotto de Barros & Rosana Figueiredo Salvi 334

Considerando todo esse conjunto de idéias e de abordagens que se


difundem e se desenvolvem a partir dos anos de 1950, a Geografia sofre uma
grande mudança dando origem a um período que, segundo Christofolleti
(1982), posteriormente, G. Manley chamou, no jornal The Guardian de 17 de
março de 1966, de Nova Geografia.

Conclusão

A Geografia Física Tradicional caracterizou-se, fundamentalmente, por


construir seu aparato teórico – metodológico a partir das grandes descrições
físicas da paisagem formuladas por meio de observações dos aspectos visíveis
do real, valendo-se de um arsenal cartográfico para isso. Seus resultados se
restringiram a este tipo de instrumental que habilitou tecnicamente o
conhecimento geográfico, pautado numa concepção positivista da ciência. Mas
não apenas: os geógrafos tradicionais tinham também uma formação
enciclopedista, demonstrada nas narrativas desenvolvidas por meio da idéia de
ciência de síntese.
Três grandes paradigmas podem ser identificados na Geografia Física
Tradicional: o Paradigma Determinista, o Paradigma Possibilista e o Idiográfico
- Nomotético. Quando esses paradigmas não respondem mais aos problemas
geográficos da ordem vigente, a comunidade geográfica reivindica mudanças,
demonstrando as anomalias do paradigma tradicional que culmina, então,
numa crise. Desta crise emerge um novo paradigma que vem estabelecer,
novamente, um período de ciência normal na Geografia. Este será objeto de
análise em um posterior trabalho.

Bibliografia

BULCÃO, Marly. O Racionalismo da Ciência Contemporânea: Uma


Análise da Epistemologia de Gaston Bachelard. Editora UEL,
1999, Londrina.

CLOZIER, René. As Etapas da Geografia. Publicações Europa –


América, 1950, Lisboa.

CHRISTOFOLETTI, Antônio. Perspectivas da Geografia. 1982. DIFEL.


São Paulo.
A visão kuhniana de ciência aplicada a geografia física, sua história e epistemologia 335

DE MARTONE, Emmanoel. Traite de Geographie Physique. In:


Panorama da Geografia, Vol I. Edições Cosmos, 1953, Lisboa.

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1992, Rio de Janeiro.

KUHN, Thomas. A Estrutura das Revoluções Científicas. Perspectiva,


1997, São Paulo.

MORAES, Antônio Carlos Robert. Geografia: Pequena História Crítica.


Hucitec Ltda, 2003, São Paulo.

SODRÉ, Nelson Werneck. Introdução a Geografia: Geografia e


Ideologia. 6ª Edição. Vozes, 1987, Petrópolis.
EIXO TEMÁTICO 4:
ESTUDOS TEÓRICOS-
METODOLÓGICOS EM HISTÓRIA E
FILOSOFIA DA CIÊNCIA;
EDUCAÇÃO CIENTÍFICA E
MATEMÁTICA
O ensino de teorias físicas mediante uma estrutura histórico-
filosófica1

Irinéa de Lourdes Batista


Departamento de Física/UEL

Resumo: A contribuição da História e Filosofia da Ciência para o Ensino


de Física tem sido tema de várias pesquisas preocupadas com a conexão
dessas três áreas, particularmente com a explicitação da relação história–
filosofia. Nosso trabalho se insere no contexto do desenvolvimento de
referenciais teóricos que auxiliem na criação de instrumentos de
aperfeiçoamento de uma capacidade analítica para a implementação de
uma aprendizagem de conceitos e teorias físicas de forma estruturada,
articulada e integrada. Esse processo envolve a identificação e
caracterização de modelos científicos por uma reconstrução histórico-
filosófica que pressupõe a superação dessa modelagem para a obtenção de
uma teoria abrangente.
UNITERMOS: História e Filosofia da Ciência; ensino de Física; modelos;
prototeoria; estrutura teórico-conceitual.

Abstract: The role of History and Philosophy of Science for Physics


Teaching has been theme of several worried researches with the correlation
of those three areas, particularly with explicit relationship history–philosophy.
Our work is inserting in the context of the development of theoretical
references for the creation of instruments to improve an analytic capacity
which implements a learning of concepts and physical theories in a
structured, articulated and integrated mode, involving the identification and
characterization of scientific models by historical-philosophical
reconstruction which presupposes the overcome of that modeling for the
obtaining of an universal theory.
Keywords: History and Philosophy of Science; Physics Teaching;
models; prototheory; conceptual- theoretical structure.

Introdução

Para ponderarmos a respeito dos vários problemas no ensino da Física,


abordamos como referenciais teóricos aspectos que consideramos mais

BARRA, E. et alii. (orgs.) Anais do III Encontro da Rede Paranaense de Pesquisa em


História e Filosofia da Ciência. Curitiba: SCHLA/UFPR, 2005.

1
Esta é uma versão revisada e ampliada de nosso trabalho apresentado no IX EPEF, sendo
parcialmente apoiado pela CAPES e Fundação Araucária.
Irinéa de Lourdes Batista 338

relevantes para o nosso trabalho, quais sejam, as estruturas conceituais, as


concepções prévias e a contribuição do enfoque histórico-filosófico para o
ensino da Física. Enfatizamos o papel que a História e a Filosofia da Física
podem desempenhar, como subsídio para a melhoria do ensino de Física, pela
relação que esses domínios de conhecimento possuem e demonstram com as
estruturas de conhecimento e com as concepções prévias, como fonte de
exemplares históricos analiticamente estudados que mostram a estrutura e a
dinâmica da construção de uma teoria, como também fonte de concepções
alternativas (que podem ser competidoras ou não) de explicações e conceitos.
Apresentamos, como resultado, um estudo no qual discutimos a construção de
teorias e explicações científicas e os elementos que as estruturam, articulam e
dinamizam, com enfoque na discussão sobre a enunciação e construção de
modelos como subsídio para o ensino de Física.
Em nossa investigação da busca de uma estrutura para construção de
teorias baseadas em modelos nos deparamos com uma questão
epistemológica no processo de passagem dos modelos construídos para a
nova elaboração teórica, a qual uma vez bem estabelecida é alçada ao
patamar de teoria: como se dá esse processo de passagem? Ele é direto, sem
uma etapa intermediária na qual ocorram reformulações aperfeiçoadoras de
uma síntese conceitual inovadora? Essa seria uma situação que consideramos
imprópria, pois conhecemos ao longo da história da ciência vários processos
construídos de sínteses chegando a atingir o coroamento da coerência teórica.
Assim, pareceu-nos necessário haver uma instância emergente e diferente dos
modelos, um elemento epistemológico (mas com fundamentações filosóficas)
com compromissos ligados à estabilidade teórica, sem amarras a conceitos
anteriores (com independência de suas origens) e propositor de novas
entidades para o estudo científico. Para responder a essa lacuna conceitual
criamos a concepção de prototeoria, etapa intermediária entre o modelo e a
teoria.
Diferentemente dos modelos, que são uma aquisição intelectual
mediada do desconhecido em termos do conhecido, a prototeoria propõe
elementos conceituais novos que deverão ser confirmados, tendo como
conseqüência uma nova teoria propriamente dita. Todavia, a contribuição da
O ensino de teorias físicas mediante uma estrutura histórico-filosófica 339

prototeoria não é tão somente a sua potencialidade heurística, mas o fato de


que extraia objetivamente, do processo de investigação de construção e
estruturação de um dado conhecimento, qual é a essência e o próprio vir-a-ser
do período de transição e consolidação de uma nova teoria. A compreensão
desse processo se torna um recurso de análise metodológico, epistemológico,
ontológico, historiográfico e, com as devidas adaptações, em recurso didático.

1. Reflexões sobre o Ensino de Física

Quando nos dedicamos à melhoria do ensino de Física, estamos


grandemente sensibilizados pelos problemas que, em geral, atingem o ensino
de forma global. No entanto, em relação à Física, temos características
especiais quanto às dificuldades de compreensão e fixação de conceitos que
muitas vezes exigem, nesses processos, grande abstração e reflexão para
serem aprendidos pelo aluno.
Os alunos no ensino superior, por exemplo, reproduzem fielmente a lei
da Inércia e demonstram impaciência quando aprofundamos uma explicação
apresentando várias maneiras de esclarecê-la. Dessa forma, muitas vezes eles
implicitamente nos convencem da redundância de tal empreendimento. No
entanto, esses mesmos alunos nos surpreendem com erros conceituais em
exercícios ou discussões que envolvam tal lei. Um exemplo disso é a hesitação
que encontramos nos alunos, em nossa prática em sala de aula, quando
fazemos uma pergunta célebre dos pensadores peripatéticos a respeito do
movimento de rotação da Terra: – se a Terra gira em torno do seu eixo, por que
quando soltamos uma pedra de cima de uma torre, essa pedra cai ao pé dessa
torre e não para trás dela?
Uma outra situação se dá quando é requisitada a análise do movimento
de uma esfera descendo por um plano inclinado, na qual se pede a velocidade
do centro de massa da esfera no fim desse plano, levando-se em conta o
momento de inércia da esfera. Surpreendentemente, ao utilizarem a lei da
Conservação da Energia Mecânica, fazem a transformação da energia
potencial da esfera em energia cinética rotacional, ignorando a translacional (e
as possíveis perdas). É evidente, novamente, que conceitos fundamentais
Irinéa de Lourdes Batista 340

como os de referencial inercial e coeficientes de inércia estão muito pouco


relacionados com a cultura científica que esses alunos possuem.
O que se pode perceber é que os alunos, apesar de enunciarem uma
determinada lei da Física, não compreenderam todo o seu significado. Por
outro lado, uma vez que eles têm idéias próprias sobre o movimento,
construídas ao longo de suas experiências de vida, vemos também que elas
não sofreram confrontações ou reformulações mediante o ensino escolar,
mesmo que esses alunos tenham obtido sucesso nas etapas escolares. Isso
significa que saber apresentar e operacionalizar o enunciado de uma lei não é,
segundo uma formação que permite uma evolução escolar desse tipo, saber
estabelecer as relações entre conceitos e atingir um todo conceitual. Dessa
forma, os alunos não percebem a estrutura teórico-conceitual, formada por
conceitos, leis e princípios, que explica determinado fenômeno.
Sabemos que a tomada de consciência de tal estrutura não é fácil, uma
vez que a própria estrutura não é simples. Consideramos, como já dissemos, a
Física estruturada a partir de conceitos, leis e princípios, formando teorias que
usam uma linguagem matematizada e possuem o compromisso de
consistências lógicas e empíricas. No entanto, temos na Física, fatores não
lógicos, uma vez que a observação e a percepção são influenciadas pela
cultura dos indivíduos e pelos pressupostos teóricos embutidos nos métodos
experimentais e na análise de dados obtidos.
A investigação científica é um modo de estender nossa percepção do
mundo, e não principalmente um modo de obter conhecimento sobre ele.
Existe, desse modo, uma implicação direta entre o cientista e a
percepção/observação, uma inter-relação entre a percepção/observação e
cultura, dando-nos como produto, a ciência.
Desses primeiros indícios, temos a complexidade na compreensão do
conhecimento físico como processo de construção. Um processo que, como
tal, se dá guardando uma estrita relação com a própria evolução humana, qual
seja, cheio de conflitos, impasses, saltos e cortes conceituais. Essa
complexidade fica majorada se os conhecimentos são apresentados de forma
dogmática, restritos a uma aprendizagem das leis e fórmulas que as exprimem
e, daí, o seu uso, com uma finalidade utilitária de aplicação em uma profissão.
O ensino de teorias físicas mediante uma estrutura histórico-filosófica 341

Desse modo, tem-se a impressão de que a ciência está acabada, com nada
mais a se descobrir, quando, na verdade, estamos nos primeiros passos do
conhecimento do mundo exterior.
O que acreditamos é que o ensino das ciências físicas deve dar
significado à evolução humana, para fazer compreender e admirar o grande
esforço coletivo de adaptação e transformação representado pela nossa
ciência. A redução da Física à pura técnica, em certos casos; à técnica
experimental e, em outros, à técnica matemática para a dedução lógica de
conseqüências dos axiomas da teoria, evita questionamentos conceituais no
seu ensino e gera uma formação limitada, estreita e acrítica. Assim, a
investigação e o ensino da Física não devem ignorar simetricamente os
avanços e os contrastes históricos que deram origem às idéias científicas
atuais.
Para ponderarmos a respeito dos vários problemas já levantados no
ensino de Ciências, especificamente da Física, vamos usar como referenciais
teóricos aspectos que consideramos mais relevantes para o nosso trabalho,
quais sejam, as estruturas conceituais, as concepções prévias e a contribuição
do enfoque histórico-filosófico para o ensino da Física. A importância desses
aspectos quanto à tomada de conhecimento de conteúdos e os problemas
decorrentes disso, mais a relação entre esses aspectos, é que vão nortear
nossas análises.

2. As Estruturas no Processo de Aprendizagem e na Construção da


Ciência

A existência de estruturas conceituais é reconhecidamente importante,


para J. Piaget e D. Ausubel, no processo de aprendizagem e, assumindo esse
pressuposto, é na explicitação dessas estruturas que acreditamos estar uma
maneira de contribuir com a melhoria do ensino da Física. Apresentaremos, de
maneira sintética, uma conceituação de estrutura conceitual e de
aprendizagem significativa concebida por esses dois autores, baseada em
CHIAROTTINO (1980) e MIZUKAMI (1986) para J. PIAGET, e em MOREIRA (1982)
para D. AUSUBEL.
Irinéa de Lourdes Batista 342

As estruturas mentais de cognição, para Piaget, são resultados de uma


construção realizada pelo indivíduo a partir de sua interação com o meio
fornecedor de informações, desde que esse meio seja realmente interventor e
criador de problemas (ou de estímulos), e que o indivíduo tenha capacidades
endógenas para ser perturbado e responder aos problemas.
O indivíduo – a partir de seus esquemas motores que inicialmente
derivam-se de reflexos a acontecimentos mas, por assimilação e acomodação,
vão ser passíveis de modificação – irá compensar as perturbações, por meio
de adaptação progressiva, até obter a equilibração e com isso construir
estruturas específicas para o ato de conhecer.
A aprendizagem implicará, então, numa estruturação, ou seja, numa
interação das estruturas cognitivas com os novos acontecimentos, atribuindo-
lhes significações, portanto, assimilando-os às estruturas mentais. A educação
consistirá em desenvolver o raciocínio, mediante a proposição de situações de
desequilíbrios, nas quais a ação do indivíduo buscará um objetivo ou fim pré-
estabelecido por ele mesmo. Para Piaget, os domínios mais adequados para
as atividades criadoras seriam especialmente o da Matemática e o das
Ciências, nas quais a atividade de pesquisa e as situações problemáticas
seriam o melhor método para a aquisição de conhecimento e para a construção
da própria inteligência pelo indivíduo.
Em Ausubel, encontramos uma teoria na qual o conceito central é o da
aprendizagem significativa, que é o processo pelo qual uma nova informação
se relaciona com um aspecto relevante da estrutura de conhecimento do
indivíduo, sendo essa estrutura advinda de abstrações de suas experiências e
possuidora de uma hierarquia entre os conceitos. O aspecto relevante com o
qual a nova informação se relaciona tem o nome específico de subsunçor
(idéia-âncora), significando um conceito ou proposição mais ampla, que age
como subordinador de outros conceitos (novos ou não) na estrutura cognitiva e
como ancoradouro no processo de assimilação. Esse processo de subsunção
se explica pelo princípio de assimilação. A interação entre tais conceitos
modifica e diferencia o próprio subsunçor, caracterizando a aprendizagem
significativa.
O ensino de teorias físicas mediante uma estrutura histórico-filosófica 343

NOVA INFORMAÇÃO • ⇔ • SUBSUNÇOR

• ANCORAGEM •
O processo contínuo de interação que o indivíduo estabelece com os
novos conceitos exige uma preocupação com a programação do conteúdo,
pensando-se especificamente nas questões de ensino. Assim, serão
importantes as formas para proporcionar a diferenciação progressiva, explorar
explicitamente as relações entre proposições e conceitos, chamar a atenção
para diferenças e similaridades, reconciliar inconsistências reais ou aparentes,
entre os conceitos. Desse modo atinge-se a reconciliação integrativa, que é a
antítese à prática usual dos livros-texto (separação de idéias e tópicos em
capítulos e seções). Um dos recursos instrucionais desenvolvidos a partir
desses princípios e, visando uma aprendizagem significativa, é o mapa
conceitual. Ele é, num sentido amplo, um diagrama indicando relações entre
conceitos; neste caso específico, se torna um diagrama hierarquizado que
procura refletir a organização conceitual de um estudo, uma disciplina, ou aula.
Cabe ainda ressaltar que não existe "o mapa conceitual", pois existem várias
maneiras de traçar um mapa, dependendo sempre do entendimento e
interpretação dados pelo sujeito criador.
Em relação à questão da estrutura, há ainda uma outra dimensão
relevante para a compreensão da Física, ou seja, na forma de um produto
complexo de investigações científicas. Tal como apresentado por ROBILOTTA
(1988), o mapa conceitual pode representar um conjunto de relações lógico-
matemáticas de uma teoria e também representar um conteúdo associado à
totalidade de tal teoria. Nesse último caso, um conceito que é essencial a uma
teoria tem seu significado determinado pelo seu contexto, pela sua posição na
estrutura conceitual dada. Dessa forma, temos um jogo no qual o todo dá
significado às partes que, por sua vez, constituem o todo.

No caso da Física, esse jogo acontece porque o conhecimento está organizado em


estruturas teóricas que, como quaisquer estruturas, tendem a ser autocontidas e a se
auto-explicar.(ROBILOTTA, 1988, p.10)

Queremos com isso enfatizar que a Física é mais do que a soma de


suas várias partes (dinâmica, eletrostática, etc); ela tem uma unidade própria,
Irinéa de Lourdes Batista 344

tem identidade e estrutura; cada parte desempenha sua função, se articula com
as demais, como as partes de um corpo ou organismo. Essa característica é
importante para se contrapor à visão fragmentada que muitas vezes está
presente no ensino. Tais reflexões sobre o papel da estrutura no processo de
aprendizagem têm por objetivo buscar um referencial para pensar na maneira
pela qual as discussões sobre os conceitos e teorias poderiam contribuir para o
ensino da Física.

3. A Investigação Histórico-filosófica e o Ensino da Física

Além dos dois aspectos apresentados nos itens anteriores,


apresentamos, agora, uma discussão sobre o papel que a História e a Filosofia
da Física podem desempenhar, como subsídio, para a melhoria do ensino de
Física. Esse papel se estabelece com a relação que esses domínios de
conhecimento possuem e demonstram com as estruturas de conhecimento e
com as concepções prévias; como fonte de exemplares históricos
analiticamente estudados que mostram a estrutura e a dinâmica da construção
de uma teoria e como também fonte de concepções alternativas (que podem
ser competidoras ou não) de explicações e conceitos.
A partir de nossa pesquisa sobre a contribuição de uma abordagem
histórico-filosófica no ensino de Física, desenvolvemos um referencial de
trabalho no qual procuramos abordar a construção de teorias e de explicações
científicas e os elementos que as estruturam, articulam e dinamizam, com
enfoque na discussão sobre a enunciação e construção de modelos, mas com
o compromisso (pressuposto) epistêmico de aperfeiçoá-los e mesmo superá-
los.
Como elementos nucleares, explicitamos o perfil estrutural, que mostra
como se dá a construção de um conhecimento específico, que fornece
instrumentos para realizar a análise filosófica do objeto de estudo e, ao mesmo
tempo, subsidia o desenvolvimento de uma estrutura consistente, integradora
de adaptações e transformações didáticas. E apresentamos, também, o perfil
articulador, responsável pela inserção de um determinado conhecimento em
uma teoria mais abrangente e, conseqüentemente, em um corpo maior de uma
O ensino de teorias físicas mediante uma estrutura histórico-filosófica 345

ciência, que nos propicia condições para analisar a dinâmica conceitual de um


tema em estudo, bem como o desenvolvimento da conexão entre os conteúdos
estudados e o seu aprimoramento, ressaltando as relações que se
estabeleceram entre eles, além de nos mostrar como articular tais conteúdos
em uma elaboração didática. O desenvolvimento de tal referencial teórico para
análise é resultado da elaboração e aplicação de diversos estudos que
realizamos a respeito da formação inicial e em serviço de professores
Para a nossa exposição crítica sobre a construção de modelos2, faremos
uma reconstrução com base no texto de I. B. NOVIK (in KUZNETSOV, I. V. &
OMEL'YANOVSKII, M. E., 1965, p.381.), do qual retiramos alguns conceitos,
mas realizamos uma formulação e uma sistematização diversas das propostas
por esse autor, principalmente no que diz respeito ao conceito de construção-
de-modelos e na introdução de uma nova conceituação, a prototeoria.
Para NOVIK, o conceito de modelo deve ser generalizado a fim de que a
compreensão de um modelo não seja confinada à interpretação no espírito da
Física Clássica como um sistema pictórico (isto é, mecânico); o modelo deve
ser considerado, no espírito do estágio moderno de investigação, como uma
estrutura lógico-matemática.
Essa abordagem ao modelo-construído é justificada pela importante
regularidade do processo cognitivo moderno, que é associado a um importante
incremento no papel da categoria de relação. Nós podemos compreender a
natureza de microentidades na forma de modelos, mas os modelos neles
mesmos não são pictóricos, ou, de alguma forma, o conceito exato de
ilustração precisa sofrer uma generalização radical.
Assim, acatando a crítica desse autor, se a primeira característica
principal de construção de modelo é a redução nele de elementos de
ilustração, então a segunda peculiaridade em nossa definição é o papel

2
A nossa escolha pela construção de modelos se deu a partir de uma longa conversa com
Newton C. A. da Costa a respeito de modelos na Física e as várias imprecisões conceituais
percebidas em textos gerais usados na formação superior inicial, na literatura específica em
vários campos do saber, bem como em nossa busca de um esclarecimento mais aprofundado.
Agradecemos as contribuições nas análises realizadas, sobre nossa elaboração, por Michel
Paty e Pablo R. Mariconda. Há também de se ressalvar a análise de teorias elaboradas por
princípios; nessa perspectiva sugerimos consultar a interessante obra “Princípios: seu papel na
filosofia e nas ciências”, Dutra, L. H. A. e Mortari, C. A. (org.), NEL/UFSC, Florianópolis, 2000.
Irinéa de Lourdes Batista 346

realçado (na cognição) de modelos consistindo de elementos lógicos. Dotando


esses elementos lógicos com uma relativa independência e considerando-os
como objetos de investigação, os cientistas têm estendido drasticamente as
possibilidades cognitivas de fazer modelos.
A construção de modelos lógicos é um potente acelerador do
conhecimento físico dos dias atuais. Hoje, a compreensão física não presume
uma representação mecânica, pictórica, do processo físico. Nós vemos que
não só o conceito de modelo, mas ainda a idéia de compreensão física é
generalizada na teoria do conhecimento.
Assim, com o objetivo de esclarecer o que enunciamos como o conceito
de modelo, formulamos um conceito generalizado de construção-de-modelos: é
um método de aquisição mediada do conhecimento em que a entidade sob
estudo é investigada via outro objeto, que está em certa correspondência com
o primeiro e é capaz de substituí-lo durante certos estágios do processo
investigativo (cognitivo).
De acordo com essa definição, um modelo é uma entidade natural ou
artificial, relacionada de alguma forma à entidade sob estudo ou a alguns dos
seus aspectos. Esse modelo é capaz de substituir o objeto (entidade) em
estudo (isto é, de servir como uma “quasi-entidade” relativamente
independente), e de produzir (sobre essa investigação) certos conhecimentos
mediados concernentes à entidade sob estudo.
A importância do conceito generalizado de modelo na Física Moderna,
por exemplo, é particularmente evidente quando nos propomos a considerar a
função epistemológica da construção de modelo. Se do ponto de vista
ontológico, construção de modelo é uma correlação de uma nova entidade com
algo já relativamente estudado, então do ponto de vista epistemológico, sua
construção é uma forma de relacionamento entre uma teoria emergente e uma
teoria já estabelecida; isto nos permite raciocinar sobre o desconhecido com
base no conhecido.
Os modelos mecanicistas (pictóricos) servem como uma ligação
conectora entre novos fenômenos físicos e teorias físicas antigas. Um exemplo
de modelo pictórico nesses termos seria o modelo planetário do átomo
baseado na analogia entre o átomo e o sistema solar – plenamente de acordo
O ensino de teorias físicas mediante uma estrutura histórico-filosófica 347

com o espírito da Física do século XIX. É um exemplo clássico de um modelo


construído via analogia, raciocinando sobre o desconhecido por meio do
conhecido, mas sem preocupações com peculiaridades ontológicas.
Entretanto, no desenvolvimento da cognição, um “modelo” é empregado
em conexão com um diferente tipo de problema: não está em questão
relacionar novos fatos a velhas teorias, mas em passar de velhas para novas
teorias. Quando um novo fato está estabelecido no conhecimento físico,
primeiro uma tentativa é feita para interpretá-lo nas bases das idéias teóricas
existentes, por meio de uma ligeira modificação sem qualquer suposição
radicalmente nova. Se não há sucesso, recorre-se a novas suposições. Aqui, o
modelo de analogia é substituído por um modelo de hipótese, que é uma forma
preliminar de explicar novos fenômenos que não são explicados pela teoria
antiga. Esse tipo de construção-de-modelo é de grande valor prático e é
particularmente importante no desenvolvimento da Física de Partículas
Elementares, exemplar histórico que apresentaremos como o vir-a-ser de uma
nova teoria.
Na construção de modelo de hipótese temos que a sua elaboração não
é o resultado mas só o ponto de partida do conhecimento lógico. A ênfase é
desviada para o segundo estágio: a investigação do modelo construído, cujo
resultado é a transição para a formulação de uma teoria consistente, coerente,
de uma entidade física definida.
Em síntese, então, um modelo com esses compromissos não é só uma
forma de relacionamento entre uma teoria antiga e uma nova, é também uma
forma de transição para uma nova teoria, uma forma de interpretação
preliminar dos fenômenos físicos novos e também não-familiares que não são
abrangidos pela teoria pré-existente.
Essa visão geral da construção-de-modelo indica que no processo
cognitivo, o ato de modelar é tão inerente quanto a divisão entre conhecido e
desconhecido. A função epistemológica da construção-de-modelo está
intimamente ligada à natureza preliminar do conhecimento na forma de modelo.
O modelo, assim o consideramos, é a primeira forma de compreensão teórica
de novas entidades, que gera freqüentemente contradições aparentes em
nossa compreensão dessas novas entidades à luz da antiga teoria. Por essa
Irinéa de Lourdes Batista 348

razão, ele é, como era, uma exigência para uma teoria consistente, não-
contraditória, que estimule o desenvolvimento de uma compreensão teórica
sobre o assunto.
Podemos eleger os principais fatores associados a uma interpretação
generalizada do método de construção-de-modelo:
1) a correspondência objetiva entre o modelo e o que está sendo
modelado;
2) um modelo pode figurar como um substituto para o objeto sob estudo
(modelo como quasi-objeto);
3) a natureza da imagem e a natureza do objeto no processo de
construção-de-modelo formam uma unidade, como aspectos de dois estágios
inseparáveis desse processo;
4) a função heurística: uma explicação preliminar do fenômeno que não
tem qualquer outra explicação na antiga teoria.
Para discutirmos o papel dos modelos no processo de formação e
desenvolvimento das teorias, tendo como exemplo a Física das partículas
elementares, podemos dividir os modelos usados no processo cognitivo em
dois tipos:
- modelos ilustrativo-metodológicos (mais clássicos);
- modelos heurísticos (preliminares, incompletos, pontos de partida para
uma explicação).
Dependendo do grau de expressão da natureza da entidade a ser
modelada, julgamos pertinente dividir os modelos heurísticos em
fenomenológicos (descrevem certos aspectos que caracterizam o modo como
um processo físico se desenvolve, mas não explicam por que ele ocorre
precisamente daquela maneira) e tipo-essência (fornece certas interpretações
preliminares das essências e causas do processo físico).
Os modelos fenomenológicos incluiriam modelos classificatórios que
percebem regularidades específicas nas relações das entidades físicas, mas
não são capazes de explicar suas essências. Eles têm seu papel, têm largo
uso (por exemplo, a teoria de Dirac do elétron faz uso de um modelo
representando o elétron na forma de um ponto enquanto que em teorias não-
locais o elétron é visto como uma nuvem difusa), mas têm valor limitado na
O ensino de teorias físicas mediante uma estrutura histórico-filosófica 349

elaboração da teoria das partículas elementares, pois não são tão heurísticos
como os modelos de sistematização.
Para caracterizar os elementos que servem como objeto de construção-
de-modelo, os modelos tipo-essência são convenientemente divididos em
lógico-matemáticos e em ontológicos. Os modelos lógico-matemáticos são
sistemas de elementos lógico-matemáticos, cuja estrutura é análoga à
estrutura das entidades físicas; se eles possuem tal estrutura em um grau
inferior, chamamo-los de modelos lógico-matemáticos fenomenológicos e, se
eles a possuem em um grau superior, chamamo-los de modelos lógico-
matemáticos tipo-essência.
Os modelos ontológicos servem como suposições iniciais concernentes
às peculiaridades essenciais de certos domínios da realidade física. O
reconhecimento dessas peculiaridades de existência real permite obter
resultados teóricos importantes.
A matematização da Física exerce um papel inquestionável para o
alcance e a estabilidade de suas teorias, contribuindo para a sua
cognoscibilidade, intersubjetividade e universalização. Sendo assim, em qual
sentido e em quais condições os elementos do aparato matemático podem ser
considerados um modelo na investigação física?
– O aparato matemático deve expressar uma condição de conteúdo
básico: analogia com os respectivos aspectos do processo físico. Tal analogia
é de natureza específica, que não se reduz a uma correspondência elemento-
a-elemento entre o modelo e o objeto sendo modelado.
– Ocorre a presença de um isomorfismo de um tipo especial: a alguns
aspectos do processo físico corresponde uma expressão matemática tomada
com uma certa integralidade que não pode ser decomposta em quaisquer
elementos.
Por exemplo, a estrutura da equação de Dirac, para a eletrodinâmica
quântica (QED) como um conjunto, é uma analogia de certos aspectos
significantes no comportamento do elétron e, por esta razão, quando
investigando a equação, obtemos informação sobre o elétron de forma
mediada.
Irinéa de Lourdes Batista 350

Empregamos o termo modelo lógico-matemático para assinalar a


diferença essencial entre modelos matemáticos e modelos de símbolos. A
linguagem matemática tem sua própria lógica, que é relativamente
independente da lógica de um processo físico e, por essa razão, reproduz o
conteúdo físico indiretamente. Em contraste, modelos de símbolos gravam
diretamente a estrutura do objeto a ser modelado e não têm sentido fora da
estrutura criada.
A tarefa essencial de um modelo consiste, como já dissemos, em dar
uma interpretação preliminar para um novo fenômeno. Assim, o formalismo
matemático pode ser um desenvolvimento prévio para a elaboração de uma
teoria física consistente e para experimentações decisivas. Nesse caso, o
modelo matemático é construído a partir de um fenômeno cuja natureza física
ainda não foi revelada; tal construção não é feita por analogia mas por uma
extrapolação matemática chamada de método de hipóteses matemáticas.
O formalismo matemático, desse modo, é capaz de dar não somente um
esquema de cálculo para estudos quantitativos de um fenômeno de natureza
qualitativa desconhecida, como também de descrever essa própria natureza
qualitativa para a qual nenhum método consistente de solução quantitativa da
equação apropriada ainda existe. Tal é o caso na Física Moderna com respeito
à não-linearidade das equações, a qual é considerada como uma expressão de
um aspecto qualitativo fundamental das partículas elementares: suas
capacidades de auto-ação e auto-influência. Aqui o formalismo matemático
compreende um aspecto essencial de relação das partículas elementares, mas
os métodos quantitativos de solução de tais equações não são ainda
totalmente satisfatórios.
Os modelos lógico-matemáticos fenomenológicos podem incluir modelos
gráficos, que não objetivam explicar um processo físico, mas produzem um
esquema pictórico conveniente por realizar cálculos e previsões. Exemplo disso
são os diagramas de Feynman, que dão uma representação esquemática do
mecanismo de interação entre partículas elementares.
O segundo tipo de modelo matemático produz uma interpretação do
processo como um conjunto, não somente incorporando suas relações
quantitativas, mas também descrevendo qualitativamente certas relações
O ensino de teorias físicas mediante uma estrutura histórico-filosófica 351

essenciais de um dado processo ou fenômeno, e é o mais importante para o


desenvolvimento do conhecimento físico. Este segundo tipo de modelo
matemático, modelos matemáticos tipo-essência, dá uma descrição mediada
da natureza qualitativa do processo físico.
Algumas posições intermediárias podem existir entre os dois tipos: de
um lado, um modelo elabora um padrão fenomenológico de cálculo que não
pressupõe qualquer nova propriedade do processo físico, mas, por outro lado,
de suas relações matemáticas surgem idéias tipo-essência fundamentais (por
exemplo, as relações de dispersão e a invariância relativística).
Assim, a natureza racional da construção de modelos consiste,
primeiramente, no fato de que ela será consistentemente substanciada no
desenvolvimento subseqüente da teoria; posteriormente, ela avança não em
uma estatística simples e arbitrária, do tipo máquina de checar hipóteses, mas
sim pela adição de certas condições objetivas.
Consideramos quatro condições do tipo ontológico para o seu avanço:
1) Um modelo (ontológico) precisa responder às necessidades
existentes racionalmente definidas.
Na Física Moderna, as necessidades matemáticas assumem o papel de
um importante fator teórico que produz um efeito sobre a lógica da pesquisa
física, pois um aspecto característico de um modelo ontológico físico é seu
relacionamento orgânico com um modelo matemático apropriado.
2) As novas idéias que fundamentam um modelo precisam ser
necessárias e suficientes para suplantar – ao menos, de início – as dificuldades
da teoria em questão.
3) Em modelos novos, a quantidade de informação obtida tem de ser
maior que aquelas perdidas pela substituição do modelo aceito.
4) Não introduzir fatores tão exóticos que estejam fundamentalmente
além do escopo da inteligência humana.
Ressaltamos que compreendemos modelos matemáticos, relacionando-
os com a primeira condição, como instrumentos matemáticos com novas
peculiaridades estruturais que freqüentemente envolvem uma rejeição de
axiomas matemáticos “ordinários”.
Irinéa de Lourdes Batista 352

Em nossa investigação da busca de uma estrutura para construção de


teorias baseadas em modelos nos deparamos com uma questão
epistemológica no processo de passagem dos modelos construídos para a
nova elaboração teórica, a qual uma vez bem estabelecida é alçada ao
patamar de teoria: como se dá esse processo de passagem? Ele é direto, sem
uma etapa intermediária na qual ocorram reformulações aperfeiçoadoras de
uma síntese conceitual inovadora? Essa seria uma situação que consideramos
imprópria, pois conhecemos ao longo da história da ciência vários processos
construídos de sínteses chegando a atingir o coroamento da coerência teórica.
Assim, pareceu-nos necessário haver uma instância emergente e diferente dos
modelos, um elemento epistemológico (mas com fundamentações filosóficas)
com compromissos ligados à estabilidade teórica, sem amarras a conceitos
anteriores (com independência de suas origens) e propositor de novas
entidades para o estudo científico. Para preencher essa lacuna conceitual
criamos a concepção de prototeoria3, etapa intermediária entre o modelo e a
teoria.
Definimos prototeoria como a concepção que nasce de modelos
heurísticos, que têm primeiro uma instância fenomenológica e depois uma
instância tipo-essência, e que deve amadurecer para se tornar uma teoria. Na
instância fenomenológica, tem-se a participação de modelos classificatórios já
sistematizados. Na instância tipo-essência, participam modelos lógico-
matemáticos superiores, cujas estruturas matemáticas estão em analogia com
a estrutura de entidades físicas e que já produzem uma ontologia das
entidades em estudo.
A prototeoria possui, assim, força heurística suficiente para ser testada
racionalmente e pode ser reconstruída historicamente, a partir de uma análise
retrospectiva em que identificamos quais as bases conceituais que levaram a
uma teoria bem-sucedida. É significativo ressaltar que encontramos na
literatura da área científica e da filosofia da ciência uma imprecisão de variado
enfoque a respeito de termos como teoria, hipótese, modelo, enunciado, dentre

3
O termo prototeoria, um neologismo, foi por nós cunhado (em 1996) em semelhança ao
significado de proto-história (protohistoire): período cronológico intermediário entre a pré-
história e a história.
O ensino de teorias físicas mediante uma estrutura histórico-filosófica 353

outros, muitas vezes apresentados como de mesmo estatuto epistemológico


ou, ainda mais confuso, como sinônimos. Para a nossa análise, considerando
que tal ambigüidade implica em falta de clareza e profundidade para a
compreensão da construção do conhecimento científico, é importante enunciar
o que entendemos por teoria científica, seja ela de alcance específico ou
universal.
Entendemos uma teoria física como uma elaboração que seja coerente
com os aspectos empíricos com os quais ela se relaciona, com o maior grau de
abrangência – no sentido de explicar os dados experimentais já conhecidos e
quaisquer outros novos que vierem a existir – e que seja coerente segundo
uma lógica escolhida, seja ela clássica ou heterodoxa, na sua estrutura
matemática, no seu domínio de aplicabilidade e em um conjunto de regras que
permitam conectar a teoria com uma estrutura lógico-matemática e com o
domínio empírico estabelecido4. Com tal concepção, procuramos não cair em
algum erro epistemológico com uma conceituação excessivamente rigorosa do
que seja uma teoria física.
A diferenciação entre a prototeoria e modelos heurísticos é que
diferentemente destes últimos, que são uma aquisição intelectual mediada do
desconhecido em termos do conhecido, a prototeoria propõe elementos
conceituais novos que deverão ser confirmados, tendo como conseqüência
uma nova teoria propriamente dita. Todavia, o que coloca a discussão da
prototeoria não é tão somente a sua potencialidade heurística, mas o fato de
que extraia objetivamente, do processo de investigação de construção e
estruturação de um dado conhecimento, qual é a essência e o próprio vir-a-ser
do período de transição e consolidação de uma nova teoria. A compreensão
desse processo se torna um recurso de análise metodológica, epistemológica,
ontológica e historiográfica.
Podemos, assim, sistematizar nossas idéias em um quadro de hierarquia
ascendente no qual expomos as relações discutidas:

4
Baseamos nossa definição, com algumas modificações, em DA COSTA (1997, p.107)
Irinéa de Lourdes Batista 354

QUADRO DE SISTEMATIZAÇÃO

TEORIA

PROTOTEORIA

MODELOS MODELOS MODELOS


FENOMENOLÓGICOS HEURÍSTICOS TIPO-ESSÊNCIA

MODELOS MODELOS MODELOS MODELOS


CLASSIFICATÓRIOS DE SISTEMATIZAÇÃO LÓGICO-MATEMÁTICOS ONTOLÓGICOS

MODELOS MODELOS
LÓGICO-MATEMÁTICOS LÓGICO-MATEMÁTICOS
FENOMENOLÓGICOS TIPO-ESSÊNCIA

Para exemplificar nosso estudo com uma análise e classificação de uma


elaboração teórica, abordamos a chamada Teoria de Fermi para o decaimento
β. Essa formulação é um bom exemplar uma vez que a encontramos na
literatura enunciada como “tentativa de teoria”(Fermi), ou ainda, “hipótese de
interação universal”(Leite Lopes), o que para nós vem demonstrar que existe
um diferencial, uma qualidade inovadora até então não estabelecida. Ela pode
ser identificada como uma prototeoria, um estágio intermediário do
desenvolvimento da compreensão do que se chamará de Teoria das Interações
Fracas, no qual já encontramos elementos fundamentalmente novos, porém
ainda sem uma estrutura teórica totalmente coerente e uma abrangência
empírica de maior grau.
Assim, tal prototeoria tem na sua instância fenomenológica alguns
parâmetros constantes que são determinados experimentalmente, usando
modelos classificatórios do decaimento β já conhecidos, mas que não o
explicam. Nessa instância, ela também utiliza a analogia da criação/aniquilação
do par e-- ν com a criação/aniquilação do fóton na QED, e o modelo n-p de
força nuclear de Heisenberg – que introduz a noção de núcleon.
Na sua instância tipo-essência, tem-se a participação, como modelo
lógico-matemático, do número quântico isospin, da QED de Dirac e do método
da segunda quantização, originando a proposição da interação local entre duas
correntes: a nuclear e a de partículas leves. Tal modelo responde a uma
O ensino de teorias físicas mediante uma estrutura histórico-filosófica 355

ontologia sobre os princípios de conservação de energia, de momentos e de


carga.
Por fim, essa prototeoria propõe como elementos conceituais novos a
necessidade de uma nova partícula – o neutrino, cuja existência é inexplicável
em outro contexto teórico, uma nova constante (g) na natureza que mostra a
existência de um novo tipo de interação na matéria – a interação fraca – e uma
forma nova de correntes de interação, que relaciona outras partículas da
matéria (nêutron, próton e anti-neutrino) além do elétron, como já conhecido na
QED.
Como uma prototeoria, a elaboração de Fermi mostrou sua
originalidade, força e eficácia e, também, mostrou suas deficiências e
limitações que implicaram em reelaborações conseqüentes do próprio
desenvolvimento teórico da Física. Concluindo, a prototeoria de Fermi contém
inconsistências segundo a lógica clássica, uma vez que une tratamentos
relativísticos (corrente leptônica) e não-relativísticos (corrente de núcleons). Em
seu próprio arcabouço teórico encontramos problemas físicos uma vez que sua
constante de acoplamento não é renormalizável. No entanto, apesar de suas
limitações, ela responde bem aos resultados experimentais em baixa energia
(por volta de 300 MeV)5.

Exemplar de Análise

TEORIA
ELETROFRACA

PROTOTEORIA DE FERMI
Interação local entre correntes;
constante g; partícula neutrino e suas propriedades;
corroboração experimental; interação V–A; etc.

Instância Fenomenológica Instância Heurística Instância tipo-essência


analogia com criação/aniquilação de fótons; Proposição e justificativa qualitativa Número quântico Isospin;
modelo n-p de Heisenberg; da existência da partícula neutra (Pauli). método da segunda quantização;
classificação de decaimentos de Sargent. Princípios de Conservação (E, L, p, Q).

5
Para detalhes dos desdobramentos históricos e conceituais dessa proposta de Fermi, ver
BATISTA (1999 e 2001).
Irinéa de Lourdes Batista 356

Com a evolução constante da investigação na área das partículas,


trabalhando com altas energias, foi natural a insatisfação e a busca de
melhoramento dessa prototeoria. Concomitante a isso, o desenvolvimento
contínuo e profícuo do formalismo na Física Quântica de Campos e Mecânica
Quântica instrumentalizou os físicos para reelaborações menos problemáticas.
Contudo, a despeito dos problemas e limites, a idéia emergente e fundamental
das interações fracas entre correntes – uma idéia nova e frutificadora para a
descrição do comportamento quântico da matéria – está nas concepções de
Fermi. Assim, consideramos a prototeoria de Fermi revolucionária não como
produto subseqüente do desenvolvimento normal dos trabalhos da física
quântica vigente, mas como aquela capaz de criar uma nova área de pesquisa
na Física, a Física de Altas Energias, atualmente conhecida como a Física de
Partículas.

4. Contribuição de uma Reconstrução Histórica-filosófica para a Pesquisa


em Ensino de Física

Como dissemos anteriormente, objetivamos um trabalho no qual


procuramos abordar a construção de teorias e explicações científicas e os
elementos que as estruturam, articulam e dinamizam, enfocando a enunciação
e construção de modelos, mas também apresentando uma proposta
interpretativa com um elemento adicional (prototeoria) na explicação da
obtenção das teorias. Com a estrutura histórico-filosófica obtida acreditamos
que podemos contribuir na análise a respeito do conhecimento científico, bem
como no processo cognitivo.
O ensino de Ciências por meio de modelos tem sido um tema de
interesse crescente na pesquisa em Educação Científica. No entanto, o termo
modelo tem sido usado com sentidos diversos na literatura tanto na área de
História e Filosofia da Ciência como na área de Educação. Encontramos em
Krapas et al. (1999) uma interessante sistematização de categorias relativas
aos sentidos de modelos encontrados em periódicos internacionais, na qual os
autores destacam
O ensino de teorias físicas mediante uma estrutura histórico-filosófica 357

(...) a polissemia do conceito de modelo e a existência de diversos tipos de modelos


(mental, conceitual, etc) para os diversos autores; o papel central da analogia na
formação dos modelos; a importância pedagógica dos processos de modelagem...
(KRAPAS, S. et al, 1999, p. 6)

A importância da discussão sobre modelos para a dimensão cognitiva já


é consensual para a comunidade científica envolvida na pesquisa dos
processos de ensino e de aprendizagem.

Fica então registrada a conseqüente necessidade de, além de mapear os sentidos


mais usuais atribuídos ao termo [modelo], (...) explicitar as perspectivas teóricas a
partir das quais se investigam modelos em ciências e na educação em ciências.
(KRAPAS, S. et al., 1999, p.10)

Concordando com os autores, nosso trabalho se insere nessa


perspectiva de fundamentação e sistematização teórica para a reflexão sobre a
conceituação a respeito de modelos e, sendo esse o enfoque primordial, sobre
a construção de explicações científicas que alcancem o estatuto de teorias. O
conhecimento dessas estruturas conceituais, explicitadas da forma como
elaboramos, implementam e colaboram para a ocorrência da aprendizagem.

Ou seja, para que o estudante aprenda um determinado modelo, não basta que seja
apresentado a ele, senão que deveriam de ser-lhe apresentadas uma série de
situações que lhes permitissem perceber os conceitos, relações e propriedades dos
modelos físicos...(GRECA, I. L. & MOREIRA, M. A., 2002, p.22)

Com essa fundamentação, uma discussão com abordagem histórico-


filosófica recria o ambiente contextualizador que permite entender a origem da
problemática, do desafio conceitual e/ou empírico – como se apresentaram as
questões, as hipóteses, os elementos conflitantes – e os desenvolvimentos
subseqüentes, atingindo os conhecimentos procedimentais (os comos) além
dos declarativos (o quê), para uma reestruturação fundamental, no sentido de
ruptura com as bases conceituais originais. Uma elaboração conceitual que
implica em um abandono de um corpo teórico prévio, com a criação de uma
idéia totalmente nova, apresenta a superação de uma estrutura epistemológica-
cognitiva subjacente. Esse rompimento conceitual permite pensar o
desconhecido com os novos instrumentos de análise e, assim, se no início do
processo cognitivo recorremos a analogias, haverá o momento de abandoná-
las em favor de novas estruturas de pensamento.
Irinéa de Lourdes Batista 358

Argumentamos que uma abordagem histórico-filosófica apresenta e


contribui para a compreensão do porquê uma proposição é considerada
comprovada, estabelecida como conhecimento, e como ela se relaciona com
outras proposições na Física. Pensamos que o aluno/professor que é
estimulado a pensar mediante uma estrutura epistemológica-cognitiva
relacionada a um dado conteúdo estará mais apto a explicar quaisquer
proposições, conceituações, de maneira integrada e desenvolver, por meio de
sua própria crítica, uma visão ampliada e consistente da atividade científica.
Defendemos, pois, que o desenvolvimento didático – formal e empírico –
do conteúdo físico (e também de outras ciências) deve levar em consideração
a história desse conteúdo e os problemas de interesse epistemológico
(problemas geradores), pois o desenvolvimento de um trabalho que envolva
tais aspectos pode propiciar uma compreensão maior do processo de criação
de conhecimentos físicos, evidenciando o papel da epistemologia histórica da
Física como agente atuante na inteligibilidade das teorias. Ou seja, pensamos
que o processo de ensino e de aprendizagem na educação científica deve
invocar o trabalho com uma abordagem pedagógica que envolva
integradamente a História, a Filosofia e a Ciência.
Buscando uma síntese a partir dos referenciais teóricos apresentados,
nossa discussão apresentou a investigação de um objeto de estudo por meio
da reflexão e da análise filosófica, fundamentada nos perfis estrutural e
articulador dos conhecimentos envolvidos na reconstrução histórica. A função
da estrutura apresentada (instância de modelos Æ prototeoria Æ teoria) para
investigar a construção e consolidação de teorias é explicitar os fundamentos e
os eixos condutores do conhecimento científico, bem como identificar a
dinâmica da articulação desses eixos ao longo da história da ciência estudada.
Assim, propomos tal estrutura como um recurso didático para a organização e
discussão dos conteúdos científicos, tornando-se parte da estrutura para o seu
ensino.
No elenco de nossas preocupações também possuem lugar as
argumentações a respeito da aplicação dos referenciais históricos e filosóficos
no ensino das ciências, tendo na sua essência a pertinência e a necessidade
desses referenciais como elementos de decisão dessa aplicação. Assim,
O ensino de teorias físicas mediante uma estrutura histórico-filosófica 359

sustentamos a nossa proposta pois consideramos que aqui a abordagem


histórico-filosófica funciona como um fio condutor dos raciocínios, como um
elemento na estrutura didática que favorece a cognoscibilidade dos conteúdos,
que justifica racionalmente a coordenação didática desses, estabelecendo-se
no próprio corpo integrado das estruturas de ensino e, como pretendemos, de
aprendizagem.
Desse modo, em função de sua coerente adaptação didática, os
instrumentais obtidos pela análise histórico-filosófica integram-se de maneira a
quase ficarem indiferenciáveis; eles não estarão participando como exemplos
históricos adicionais no ensino ou como elementos buscando uma integração
ciência-tecnologia-sociedade, como podemos encontrar em farta literatura
sobre a contribuição da história e filosofia no ensino de Ciências. Essa
integração relacional e cognitiva é a principal característica que buscamos
evidenciar, com a apresentação de recursos teórico-metodológicos para obtê-la
no ensino, reconhecendo que um dos desafios postos é o pleno entendimento
de que se trata de um processo interdisciplinar, no qual o objetivo norteador
dessa elaboração didática é o ensino de ciências (ou de uma ciência) e é ele
que dita as prioridades das escolhas. Dessa forma, como é de nossa
convicção, fortalece-se a compreensão do conhecimento científico e não se
confunde o seu ensino com o ensino de História e Filosofia da Ciência.

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