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FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO

V MESTRADO EM ESTUDOS AFRICANOS

O Senegal nas rotas lusíadas


Contributo para o estudo da presença da
Língua Portuguesa na África Ocidental a partir do século XV

Dissertação apresentada por


Maria de Lurdes Pires Gomes Martins Reis Leitão

Orientadora:
Professora Doutora Elvira Mea

Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto

2007
INTRODUÇÃO

“… e o que se mostrava no mapa mundy, quanto ao desta costa, nom era


verdade, ca o nom pintavam senom a aventura; mas esto que agora he posto nas cartas,
foe cousa vista por olho, segundo já tendes ouvido”
Gomes Eanes de Zurara1

A partir da Literatura de Viagens2 sobre os Descobrimentos Portugueses na


Costa Ocidental de África, tentamos conhecer melhor as movimentações dos
navegadores portugueses naqueles novos lugares e o relacionamento que estabeleceram
com povos tão diferentes cuja existência se desconhecia. Todos os temas abordados, as
referências feitas por esses viajantes, testemunhas oculares da época, podem ser pistas
para compreender os povos africanos, os seus modos de vida, os seus interesses, as suas
acções, porque falam “de cousa vista por olho”3. Por outro lado, aspectos da geografia
dos lugares descritos podem também contribuir para explicar comportamentos e
acrescentar dados para a construção da História desses povos; é a face visível que
consideramos assemelhar-se à da época pré-colonial e pós-colonial, e que poderá ajudar
a explicar movimentos dos grupos e dos reinos que ali viviam. Gostaríamos de
contribuir, principalmente através de textos ou registos dos portugueses da época das
Descobertas, para trazer não só conhecimento sobre as realidades observadas pelos
portugueses, verificar como foram interpretadas por eles, mas também identificar
condicionalismos da natureza sobre a acção do homem, investigar sobre os reinos
africanos existentes, procurar compreender as vivências e as acções humanas, num
espaço muito extenso, com características geográficas e especificidades climáticas
muito distintas das da Europa. Por isso, é importante também descobrir a humanidade
africana, os seus modos de vida, os seus contactos, as suas mudanças e os seus
interesses, as marcas culturais que deixaram, e eventualmente, identificar aspectos
culturais que permaneceram até aos nossos dias e que os exploradores portugueses
teriam encontrado.

1
G. E. de ZURARA (1453); vide ZURARA, Gomes Eanes de, Crónica do Descobrimento e Conquista da
Guiné (Introdução pelo Visconde de Santarém), publicada por J. P. Aillaud, Paris, 1841, Cap. LXXVIII,
“Das legoas que estas caravellas do Iffante forom a allem do cabo, e doutras cousas místicas”, pp. 371-
372
2
Ao longo deste estudo, e como fizemos na nota supra, a indicação de um autor seguida de data constitui
uma referência à data de produção do referido texto
3
G. E. de ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. LXXVIII, pp. 371-372

1
Neste sentido, procuramos dados sobre a relação destes povos com os
portugueses e com a Língua Portuguesa. Queremos recolher vestígios do passado que
possam explicar o interesse crescente do Senegal e dos senegaleses pela Cultura e
Língua Portuguesas, na actualidade. Esse interesse terá origem nas memórias de um
passado remoto? Terá outras causas, na época presente? Ou haverá uma confluência das
consequências do passado e dos interesses actuais do país?
Com o nosso estudo, pretendemos captar principalmente elementos que se
relacionem com os territórios do Senegal e a zona circundante que faz fronteira com a
Gâmbia, a Mauritânia, o Mali, a Guiné-Bissau e a República da Guiné (Conacri),
embora não existisse esta divisão territorial em países, nem quando os portugueses
descobriram o continente africano nem mais tarde. Ou seja, na nossa análise sobre o
passado, devemos integrar os dados no contexto de toda a África Ocidental (Guiné, no
século XV).
Depois da Conferência de Berlim de 1884, a organização do território criou
contextos e perspectivas específicas. Ainda assim, hoje, como há quinhentos anos, esta
região apresenta determinados traços geográficos e culturais que devem ser realçados
para compreender como foi condicionada pela natureza a fixação de múltiplos grupos
humanos, com características muito específicas nos seus modos de vida, e conhecer
também os interesses e as necessidades que moveram as suas acções ao longo dos
tempos, antes e depois da colonização.
O Senegal é um Estado no litoral do Oeste africano. Com uma superfície de
196722 km²; o seu relevo é plano e pouco elevado. Muitos planaltos se estendem a
perder de vista, mas as altitudes são sempre inferiores a 130 metros. Perto da fronteira
da Guiné, no Sudeste, encontra-se o ponto mais elevado do país, nas montanhas do
Fouta Djalon (581m). No Noroeste, os planaltos ultrapassam ligeiramente os 100 metros
e a sua altitude baixa progressivamente de Leste para Oeste, não ultrapassando os 20
metros no Ferlo ocidental, no Siné-Saloum e na Casamansa. Também se encontram
dunas fixas que se estendem na região de Cayor e de Jalofo. Devido à escassez e à
irregularidade das chuvas, o Senegal é atingido frequentemente por períodos de seca
que provocam consequências dramáticas sobre o equilíbrio ecológico e sobre as
actividades humanas. O clima, a exploração agrícola contínua e as más escolhas de
produtos a cultivar causaram uma grave erosão dos solos, já de si pouco variados,
excepto na região de Dacar, no litoral. Predominam os solos arenosos, mais fáceis de
trabalhar, e os solos argilosos, mais compactos e mais difíceis de cultivar.

2
O rio Senegal estende-se ao longo de 1700 km, do Fouta Djalon, na República
da Guiné (Conacri), a Saint-Louis, percorrendo o território senegalês de Sul a Norte e
delimitando as fronteiras deste com o Mali e a Mauritânia. Este rio foi ocupado pelo
mar há 5500 anos, construindo um delta ao longo dos tempos, cujas correntes fluviais
são constituídas por areia muito fina com solos muito salgados, a Oeste de Richard Toll.
Este rio favoreceu a penetração colonial no Sudão, sendo hoje factor de
desenvolvimento e de integração regional, possuindo um vasto potencial de
aproveitamento agrícola, através dos projectos de irrigação desenvolvidos pela
Organização para a Valorização do Rio Senegal, na qual participam a República da
Guiné (Conacri), a Mauritânia, o Mali e o Senegal. É corrente4 dizer-se que o nome do
país provém da expressão “sunugal”que significa “a minha piroga”; isso explica a
importância atribuída ao rio que se transfere para a designação do próprio país.
No Senegal correm ainda outros três rios importantes: o Casamansa, o Gâmbia e
o Saloum. As regiões da Casamansa e do Siné-Saloum, nomes que advêm dos rios que
as atravessam, são regularmente submersas pelas marés. A Gâmbia é um pequeno
Estado de 11295 km², um enclave no território senegalês que acompanha o rio do
mesmo nome, não tendo nenhuma das suas margens mais de 30 km de largura.
A península do Cabo Verde apresenta um relevo de colinas e de planaltos, com
solos pedregosos; ao longo da costa Norte, encontram-se dunas litorais que isolaram os
lagos, testemunhos da última submersão marítima. Esta área apresenta um relevo
vulcânico: os montes das Mamelles elevam-se em Dacar a 105 metros de altitude e são
o que resta de um planalto antigo de origem vulcânica. Os pequenos planaltos do Cabo
Manuel, em Dacar, e da ilha de Goreé constituem-se de lavas e todos estes relevos
formam uma costa rochosa. As costas Sul e Oeste da península são, aliás, geralmente
acidentadas, com falésias.
Referimos ainda, pela proximidade geográfica, a existência do rio Níger.
Verdadeira espinha dorsal do território maliano, tem suscitado muito interesse dos
geógrafos e dos historiadores. Os mistérios ligados à orientação, à nascente, ao estuário
e às cidades próximas do maior rio da África ocidental (4200 km desde a nascente, na
República da Guiné, até à foz na Nigéria) só foram esclarecidos por vários exploradores

4
A. D. BOILAT (1853); vide BOILAT, Abbé David, Esquisses Sénégalaises, Karthala, Paris, 1984. Esta
ideia, profundamente enraizada, é, ainda assim, contestada por autores como Etienne Smith; vide SMITH,
Etienne, “La nation «par le côté» - le récit des cousinages au Sénégal", in Cahiers d’études africaines,
parentés, plaisanteries et politique, 184, Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Paris, 2006

3
nos séculos XVIII e XIX. Este rio é parcialmente navegável em território maliano,
especialmente no delta interior que se forma a partir de Ségou. O delta vivo cobre uma
superfície de 30000km² e estende-se numa imensa planície com os seus múltiplos
braços que formam um mar interior. As águas do Níger alimentam numerosos lagos,
fazendo a ligação entre a zona de savana e a desértica. Sendo fonte de vida para
numerosos pastores e agricultores, este rio testemunha a presença de civilizações e de
impérios africanos. Ainda no Mali, encontramos o deserto do Sara que cobre metade da
superfície do país, a Norte de Tombuctu e de Gao. As dunas dominam. Só alguns oásis
e poços escavados pelo homem permitem aos raros habitantes viver ali da pastorícia e
do comércio do sal. Os dias tórridos, as noites frias e as tempestades de areia tornam a
vida quase impossível no deserto.
Mas é na Mauritânia que se sente a omnipresença desta força poderosa do
deserto do Sara, como se fosse um grande oceano de areia. Neste país de 1030700km², o
único curso de água importante é o Senegal que, por esse motivo, é simplesmente
chamado “o rio”. Toda a produção agrícola se concentra na orla do rio que, no final do
“hivernage”, a estação das chuvas, chega a atingir 20 km de largura perto do seu
estuário. Na estação seca, o rio encontra-se abaixo do nível do oceano e este último tem
tendência a penetrar profundamente no interior das terras. O rigor extremo do clima
desértico é temperado apenas no Sul, durante a estação das chuvas, e na orla costeira. A
Mauritânia é pois, naturalmente, um país com baixa densidade populacional,
praticamente nula a Leste de Nouakchott.
Ao longo dos tempos, a situação de finisterra do Senegal terá proporcionado a
fixação de vários grupos humanos e de vagas migratórias sucessivas de povos, de
origens diversas, vindos principalmente do Norte e do Leste. No rio Senegal terão
passado os mais antigos e importantes fluxos migratórios da sub-região: grupos negros
do Sara, outros mestiços berberes que terão fugido para o Sul mais húmido e populações
sudanesas autóctones ou vindas do Leste. Estes encontros dariam azo a conflitos e ter-
se-iam constituído grupos, até compor a originalidade étnica senegalesa actual.
Contudo, a informação histórica sobre a África Ocidental e sobre os territórios
do Senegal é, em geral, escassa e encontra-se muito dispersa. Por outro lado, as relações
culturais entre Portugal e o Senegal também não têm sido muito visíveis. É frequente
encontrar entre os senegaleses (povo, estudantes e professores) pouca informação, ou
ideias infundadas, e expectativas irrealistas relativamente aos portugueses e a Portugal.
Visto como um dos países da Europa, Portugal é considerado pelos senegaleses como

4
um país onde se vive bem. Se se falar do passado, por um lado pensam erradamente, por
exemplo, que os portugueses foram os responsáveis pelo início da escravatura em
África; por outro lado tendem a valorizar demorada e excessivamente certas
ocorrências, causas e consequências da Guerra Colonial nos países lusófonos africanos.
Generalizaram ideias sobre esses contextos, expressas demasiadas vezes, sem
fundamento e sem contexto ou tempo definidos, causando-nos alguma estranheza por
reflectirem um certo desconhecimento de realidades portuguesas do presente e do
passado. Ao mesmo tempo, os senegaleses manifestam surpreendentemente enormes
simpatias pelos Portugueses, reconhecem com frequência os falantes de Língua
Portuguesa e vêem Portugal, ou a Europa, como um paraíso dourado, para onde muitos
desejam emigrar em busca de melhores condições de vida.
De facto, o contacto directo com este povo, durante alguns anos, permitiu-nos
identificar não só indícios de uma enorme falta de informação sobre a História e a
Cultura portuguesas, mas sobretudo um interesse particular pela Língua Portuguesa e,
em geral, uma afabilidade inesperada para com os portugueses. Desde logo, esse
convívio proporcionou-nos uma reflexão privilegiada sobre a presença e as marcas
portuguesas que possam permanecer neste povo, independentemente da sobreposição da
influência francófona. Foi crescendo a nossa curiosidade sobre várias constatações e
evoluímos para um interesse mais sério com o objectivo de responder às nossas
questões, dúvidas e perplexidades, neste domínio da influência portuguesa sobre a
cultura senegalesa. Por conseguinte, julgamos ser de grande importância aprofundarmos
o nosso conhecimento sobre o Senegal, com pesquisas e dados históricos sobre assuntos
acerca dos quais existe, por vezes, uma certa visão distorcida ou mesmo falsa, que paira
sobre o o passado e o presente português nestes espaços. Até porque novos dados
poderão levar-nos a descobrir ligações importantes, desejáveis e úteis para o futuro da
difusão da Língua e da Cultura Portuguesas no Senegal.
Na verdade, o que nos causou maior admiração foi, sem dúvida, o interesse
crescente pela Língua Portuguesa no Senegal. Surgiam-nos impressões contraditórias
sobre os objectivos a alcançar com a instituição do ensino do Português. Que
motivações teriam os estudantes que frequentam os Cursos de Português da
Universidade Cheikh Anta Diop, em Dacar? Por isso, inquirimos os estudantes, e os
resultados desse processo foram clarificadores, em alguns pontos, sobre as
características actuais da cultura senegalesa. Ao mesmo tempo, encontrámos respostas
objectivas sobre a ligação dos senegaleses à Cultura e à Língua Portuguesas.

5
1. A LÍNGUA PORTUGUESA COMO INSTRUMENTO PARA A
CONSTRUÇÃO DA HISTÓRIA DE ÁFRICA: O CASO DO SENEGAL

O passado de África continua a suscitar a curiosidade de muitos estudiosos. Ao


longo dos tempos, os mistérios que envolvem este continente têm despertado interesses
múltiplos e até divergentes. Após as Descobertas dos portugueses, outros europeus se
deslocaram para esses mesmos lugares, seguindo os passos dos primeiros navegadores
que passaram por aqueles mares, querendo obter as famosas riquezas ali existentes. Por
que razão os interesses de vários países europeus coincidiriam, ao mesmo tempo, nos
mesmos lugares até então desconhecidos? Foi talvez um momento de grande euforia
quando se soube que, no continente africano (à época, designado por Etiópia, sob a
influência dos estudiosos da Antiguidade Clássica), tinham sido encontradas as riquezas
e as rotas do ouro de que se falava na Europa.
Por um lado, a África pré-colonial carece de documentos escritos que nos
transmitam informações e testemunhos da época. Não foram ainda identificadas as
fontes concretas, escritas ou outras, que teriam apoiado as expedições lusas no século
XV. Os conhecimentos anteriores seriam insuficientes para orientar os navegadores para
as regiões posteriormente descobertas pelos portugueses porque não se fundamentavam
num conhecimento adquirido pela experiência, que trouxe a “clara certidom da verdade”
(Fernão Lopes), sendo “a madre de todas as cousas”5 (Duarte Pacheco Pereira). De
acordo com a História, e entre muitos autores que desenvolvem esta ideia, Óscar Lopes
apresenta uma explicação fundamentada e especialmente minuciosa para o sentido da
aventura portuguesa quatrocentista:

5
ALBUQUERQUE, Luís de, Introdução à História dos Descobrimentos Portugueses, Col. Fórum da
História, Publicações Europa-América, 5ª ed., Mem-Martins, 2001, pp. 292, ”Não é menos importante
salientar que a prática de uma navegação astronómica, bem como a necessidade de serem observadas as
condições físicas da atmosfera e dos mares ajudou a criar o clima propício para o surto de um
experimentalismo que veio a dar no decurso do século XVI alguns dos frutos mais sazonados da ciência
portuguesa. Nem sempre a invocação da experiência na pena de Duarte Pacheco Pereira exprimirá já um
convívio interrogador com os fenómenos do mundo físico, se bem que nalguns passos inegavelmente o
acuse; meio século antes, Azurara empregava expressões idênticas a algumas das usadas no Esmeraldo de
situ orbis, mas num sentido simplesmente literário. (…) ou quando D. João de Castro procurava uma
explicação para a anomalia que notara no desvio da agulha e afastava uma peça de artilharia que lhe
estava próxima que supôs ser (e era) a responsável pelo caso, ou , ainda, quando este mesmo navegador
mandava lançar fardos de palha às águas da foz de um rio para assim reconhecer a orientação das
correntes superficiais nelas criadas, é irrecusável que estavam a considerar a experiência como “madre de
todas as coisas” (palavras de Duarte Pacheco Pereira), num sentido positivo, e não retórico.”

6
“…diz respeito a uma importante conotação que liga a palavra experiência à
palavra perigo, que parece não lhe ser etimologicamente afim mas que o é do ponto de
vista paragramático e conotativo, e isto já em latim: um saber de experiência feito não
é simplesmente aquilo a que Bertrand Russell deu a designação inglesa de knowledge
by acquaintance. A experiência relacionada com a prática náutica quatrocentista já se
não reduz a uma sedimentação passiva: o ver claramente visto que encontraremos
enfatizado em Camões não constitui um simples ver (…) trata-se do saber resultante de
um risco (perigo) que se correu, sob as condições de uma metodologia náutica,
cosmográfica e cartográfica afinal tão complexa como a metodologia de um
laboratório de experimentação mecânica.”6
Fomos investigar, procurando apoio em conhecimentos de vários documentos,
narrativas, roteiros e literatura de viagens, em estudos e dados da Literatura, também da
Geografia, da Economia e da História.
É nosso desejo recorrer, sempre que possível, a documentos escritos em Língua
Portuguesa, como contributo para a construção da História de África, para estudar e
avaliar a influência dos portugueses e da Língua Portuguesa nos povos que viviam na
África Ocidental, com quem os navegadores contactaram pela primeira vez. Interessam-
nos especialmente os territórios e os nativos do actual Senegal, como vimos. Assim, no
que diz respeito a Portugal, o nosso interesse incide principalmente sobre o momento e
a época em que o Estado Português empreendeu assumidamente viagens de
Descobrimentos, no século XV, ou seja, a partir de 1415, data oficial do início destas
aventuras marítimas. Mas incide igualmente sobre a permanência de portugueses nesses
territórios ao longo dos séculos, assistindo às várias evoluções que foram ocorrendo
junto dos indígenas e a relação de continuidade dos portugueses com África.
De acordo com um estudo de História Moderna7, as fontes documentais escritas
em Língua Portuguesa, sobre as Viagens do Senegal à Serra Leoa (1453-1508), na
primeira fase das Descobertas, são as seguintes:
- Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara (1453-1460?);
- Este liuto he de rotear…, de um português anónimo (1480-1485?);

6
LOPES, Óscar, A busca de sentido, Questões de Literatura Portuguesa, Ed. Caminho, Lisboa, 1994, pp.
31
7
HORTA, José da Silva, “A Representação do Africano na Literatura de Viagens, do Senegal à Serra
Leoa (1453-1508)”, in “Mare Liberum”, nº 2, 1991

7
- “…certos capítulos das prouincias do titulo real…”, de Valentim Fernandes
(1502);
- Da viagem de Dom Francisco viso rey…, de Mayr /Valentim Fernandes (1505-
1506);
- Crónica da Guiné [versão da], de Valentim Fernandes (1506);
- Descripçam de Cepta por sua costa…, de Valentim Fernandes (1506-1507);
- Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira (1505-1508).
Destes textos, apenas três tiveram um redactor português que coincide com o
autor: Gomes Eanes de Zurara, Português Anónimo e Duarte Pacheco Pereira.
Não podendo ter acesso a todas estas fontes escritas em Português, quisémos
assegurar, contudo, a informação das fontes mais conhecidas e mais importantes para a
História dos Descobrimentos portugueses, para reunir mais informação, de acordo com
as referências do mesmo estudo. Assim, referem-se ainda os seguintes textos, um escrito
em italiano e os outros dois em Latim, cujos informadores foram portugueses:
- Relação das Viagens de Pedro de Sintra, de um português anónimo e do
italiano Luís de Cadamosto (1463-1465?);
- De prima inuentione Guinee…, de Diogo Gomes de Sintra, escrito em Latim
(1484-1496);
- De inuentione Africae…, do alemão Jerónimo Monetário, escrito em Latim
(1495?).
De todas estas fontes escritas, sobre os Descobrimentos e várias viagens
promovidas pelo Estado Português naquele período de tempo, consultámos com maior
preocupação e regularidade, não só por razões de maior acessibilidade mas também pelo
seu significado e importância histórica, as que a seguir se indicam:
- Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara (1453-1460?);
- Relação das Viagens de Pedro de Sintra, de um português anónimo e do
italiano Luís de Cadamosto (1463-1465?);
- De prima inuentione Guinee…, de Diogo Gomes de Sintra, escrito em Latim
(1484-1496);
- Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira (1505-1508).
Explorámos também a informação dada por viajantes que, à época, estavam
declaradamente ao serviço do Infante D. Henrique e do Estado Português:
- Carta, Usodimare, (1455);
- Viagens de Luís de Cadamosto (1463-1465?).

8
Além destes, acrescentamos outros títulos, que não figuram naquele estudo,
referentes a uma época mais tardia, que nos permitiram observar a evolução da presença
e da influência portuguesas até aos finais do século XVII, de entre os quais analisámos
com maior atenção a “Discripção da Costa de Guine e Situação de todos os Portos e
Rios della, e Roteyro para se Poderem Navegar todos seus Rios”, de Francisco de
Lemos Coelho, um relato, escrito na ilha de Santiago de Cabo Verde, em 1684, redigido
por um capitão português, sobre a sua própria vivência nestes lugares, ao longo de mais
de duas décadas.
Continua a ser necessário consultar as fontes escritas, mas também é
indispensável desenvolver métodos e realizar estudos científicos sobre as marcas
arqueológicas que existem. Devem investigar-se os vestígios visíveis e analisar-se as
culturas hoje existentes, transmitidas sobretudo pela tradição oral. A recolha de dados é
muito importante para África, para se compreender e se conhecer melhor, sob pena de
se perderem irremediável e rapidamente, conhecidas as influências perturbadoras da
globalização, hoje idênticas em todo o mundo, questionando as especificidaddes
culturais dos povos. A transmissão oral da História tem imensas limitações, sabemos
que aquilo que não se regista, por escrito ou por outra forma material, ou se perde ou se
transforma. Diz o povo, em língua portuguesa, que “quem conta um conto, acrescenta
um ponto”. Sabemos que é verdade, pois conhecemos esses fenómenos pela nossa
própria experiência do quotidiano, que não difere das outras culturas, nem da africana;
por muito que se queiram defender as memórias da cultura de transmissão oral, nunca se
poderá aprofundar o conhecimento do passado se não se recorrer a outras fontes e a
outros métodos para a recolha de dados. Muita informação se perdeu com o passar dos
tempos. Nem os próprios africanos podem garantir ou afirmar toda a história do passado
das gerações anteriores. A História de África continua por detrás de uma enorme e
densa obscuridade.

1.1. Perspectiva Histórica da Senegâmbia

Embora percorrendo, como pioneiros europeus, toda a costa ocidental africana,


os portugueses concentraram as suas actividades na faixa a Sul do Cabo Verde – onde
se encontra a actual capital, Dacar. Esta área é designada por Senegâmbia e pertenceu,
durante séculos, ao Estado do Gabú e pequenos reinos a ele ligados.

9
A compreensão da evolução política do reino do Gabú, das suas relações com os
vizinhos – e, em particular, com o Fouta – e do conflito entre o animismo autóctone e a
islamização exógena, são importantes para a análise do quadro geopolítico encontrado
pelos portugueses e da sua evolução até à situação política, étnica, linguística e cultural
actuais.
Fundado no século IV pelos berberes, o império do Gana8 tornar-se-ia um
território próspero ao longo dos séculos, graças ao comércio transariano dos escravos,
do sal e do ouro. Estendia-se do Senegal ao Níger, passando pelo Sul da Mauritânia.
Koumbi Saleh seria a capital, situada ao Sul da Mauritânia actual, uma cidade
florescente. Parece que o Gana animista manifestava uma grande tolerância para com os
muçulmanos, dado que a sua capital tinha uma dúzia de mesquitas. Audaghost (hoje
Tegdaoust), outra cidade da Mauritânia, era também uma cidade de caravanas próspera.
O ouro do Gana era trocado por tecidos, armas, vidraria e cerâmica com o mundo
muçulmano, por intermédio dos berberes, donos de dromedários. Contudo, o
crescimento económico provocou a reacção dos berberes nómadas que se aliaram aos
almorávidas, tomaram e queimaram Audaghost (1054) e lançaram a “jihad” - guerra
santa – contra o Gana animista. O Império do Gana sobreviveria até ao século XIII,
antes de ser anexado ao Império do Mali. Uma das principais consequências para a
região foi a conversão ao Islão da maior parte da população.
Os antepassados dos sérères, jalofos, toucouleurs e peuls estariam implantados
entre o Tagant e o Adrar (ou seja, na actual Mauritânia) e participariam na intensa
actividade do reino de Tekrour, a Ocidente do império do Gana, em ambas as margens
do troço médio do rio Senegal (correspondendo, grosso modo, à Mauritânia e à actual
área do Fouta Toro, ou seja, a margem esquerda do Senegal médio), que se tornou um
grande eixo do comércio transariano de escravos, de ouro e de sal. As primeiras
referências ao Tekrour surgem em crónicas árabes do século IX, e terá sido fundado
pelos peuls vindos do Norte. Em conflito com o Gana, terá abraçado a causa dos
almorávidas (1040) e terá sido o primeiro reino subsariano a converter-se ao Islão. Mais
tarde, viria a cair sob o domínio do império do Mali, mas sempre conservando um
estatuto particular, em grande parte devido ao respeito que detinham os toucouleurs

8
“Ghana” significa “chefe de guerra dotado de um poder sobrenatural” em língua mande. Contudo, o rei
era designado Kaya Magan (rei do ouro) e o reinado era o Wagadu.

10
junto dos outros povos, por terem sido os primeiros a islamizar-se. Mais tarde, a sua
importância viria a diminuir com a emergência do Jalofo e do Cayor.

Mapa 1: O Senegal pré-colonial do séc. XV ao séc XVIII9

O Cayor era um pequeno reino situado entre a foz do rio Senegal e a península
do Cabo-Verde. Quando Cadamosto10 menciona a sua existência, em 1450, o Cayor está
dependente do reino do Jalofo; mas, no final do século XVI, aproveitando a queda do
império Songai11, o chefe Detye Fu-Ndiogu proclamou-se rei do Cayor que, situado na

9
« Les Atlas de l’Afrique, Sénégal », Les éditions Jeune Afrique, 5ª ed. Paris, 2000
10
L. de CADAMOSTO e P. de SINTRA (1463-1465?); vide CADAMOSTO, Luís de, Viagens de Luís
de Cadamosto e de Pedro de Sintra, Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1988, pp. 116 e ss
11
No século XVI, estendia-se do Senegal até à curva do Níger e desapareceu neste século. O povo Songai
vivia nas duas margens do rio Níger, povo do Níger e do Mali.

11
costa, foi o primeiro a beneficiar das relações comerciais com os europeus que ali
procuravam peles, ouro, marfim e escravos capturados nas regiões limítrofes. Apesar de
tentativas diversas, nunca conseguiu anexar o Baol, a Sul, e teve relações difíceis com
os vizinhos, tendo sofrido uma derrota severa pelos lébous de Dacar, no Século XVII.
Aliás, no final desse século, o Cayor estava preso entre dois vizinhos poderosos: os
franceses, a Norte (Saint-Louis) e a Sul (Dacar) e os toucouleurs do Fouta Toro que
promoviam a guerra santa - tendo já previamente derrotado a dinastia diananké do
Jalofo – e que acabaram por invadir e converter os seus habitantes. Em 1886, com a
morte do seu chefe Lat Dior, da responsabilidade dos franceses, o reino do Cayor
desapareceu.
O Jalofo nasceu da vontade de separação do Tekrour por Ndiadiane Ndiaye, no
final do século XIV, para estender os seus domínios na direcção do Sudoeste,
englobando pequenos domínios como o Walo, o Cayor, o Baol e o Sine Saloum. A
sociedade era dominada pelo rei (“bour”), seguindo-se-lhe os nobres, os homens livres,
as gentes de casta (ferreiros, tecelães, “griots” – trovadores) e os escravos. Estes eram
rapidamente integrados na sociedade por via de casamentos e adopções. A sucessão era,
matrilinear e o reino foi por vezes dirigido por princesas (“linguères”). A desagregação
do Jalofo começou com a secessão do Cayor, em 1566, seguindo-se-lhe outros reinos
vassalos e o estabelecimento dos franceses na foz e na costa do Senegal. O Jalofo deu
origem aos wolofs, a maior etnia do Senegal actual.
O Mali, pequeno Estado malinké, existiria desde o século XI. Muito ligados à
sua cultura e ao animismo, os malinkés viveram muito tempo da caça e da agricultura.
Mas a extensão da escravatura árabe provocava êxodos muito importantes de
populações, em particular do reino do Gana. Conta-se que Soundjata, o herói lendário
cantado pelos “griots” malinkés, após a conquista de Kirina, em meados do século XIII,
estendera o seu império pela conquista, ordenara prospecções auríferas e criara, em cada
região, forças militares para fazer reinar a ordem, a segurança e a justiça. De campo de
captura privilegiado para os esclavagistas, o Mali tornar-se-ia um Estado respeitado por
todos. O império ocuparia, nessa altura, uma área compreendida entre o Atlântico e a
embocadura do Níger. O comércio transariano apresentaria um crescimento prodigioso.
Assim, expandia-se uma civilização cujas principais cidades eram Niani, Kansala,
Tombuctu, Oualata, Djenné e Gao. A partir do século XIV, várias revoltas terão
eclodido sucessivamente, até à queda do império, em meados do século XVII.

12
Por outro lado, parece que também os lugares, os vestígios pré-históricos e os
dados fornecidos pela tradição oral permitem pensar que o povoamento do território do
Senegal, em épocas anteriores à chegada dos europeus, se efectuou a partir do Norte e
do Leste com a chegada de muitas vagas migratórias. As últimas grandes migrações
terão sido as dos jalofos, dos mandingas, dos peuls e dos sérères, pertencendo todos a
um grupo designado Bafour12, cuja expansão em vários ramos parece estar
correlacionada com a pressão almorávida. Assim, a História do Senegal pré-colonial
caracteriza-se pela existência de reinos e de Estados que foram progressivamente
divididos ou desintegrados.
Alguns pesquisadores incluem as populações da Senegâmbia no grupo de
línguas atlântico-ocidental, por oposição ao grupo “sudanês” (peuls, toucouleurs,
wolofs…).
Grande parte dos povos do grupo atlântico-ocidental (bainouks, balantas,
beafadas, papel, para o grupo atlântico, e bassaris, koniaguis, badiarankés, pajadinkas
para o grupo continental, no interior) têm estruturas matrilineares (ao contrário dos
povos “sudaneses”) e terão sido os primitivos e responsáveis da civilização megalítica
de que subsistem testemunhos no Siné-Saloum.
Os bainouks são, aliás, considerados os “mestres do solo” pelas outras etnias e, à
data das invasões mandingas, seriam os únicos com reinos constituídos ou, pelo menos,
com capacidade de resistência. Também os balantas e os diolas seriam anteriores aos
demais povos, na Casamansa. De facto, o Pakao, o Djassi, o Boudhié, o Balmadou eram
territórios povoados por bainouks e balantas.13 No século XIX, os bainouks da Baixa
Casamansa terão sido em grande parte assimilados pelos malinkés (mandingas). Quanto
aos balantas, os residentes da margem direita do rio Geba, ter-se-ão integralmente
diluído nos mandingas, enquanto que os da margem esquerda terão permanecido
irredutíveis e atacavam mesmo os primeiros.
Os mandingas, em geral, teriam já uma ocupação antiga (anterior ao século XIII
e confirmada pelas conquistas de Tiramaghan, às ordens do mítico Soundjata, por volta
de 1240) da área entre a península do Cabo Verde e a Gâmbia, de acordo com as
tradições wolof, lébou ou sérère. Contudo, esses mandingas seriam oriundos do país

12
THIAM, Iba Der, “Préhistoire et histoire”, in Les Atlas de l’Afrique, Sénégal, Les éditions Jeune
Afrique, 5ª ed., Paris, 2000
13
NIANE, Djibril Tamsir, Histoire des Mandingues de l’Ouest, Karthala-Arsan, Paris, 1989, pp. 119

13
Soninké (no Sudeste do actual Senegal e no Sudoeste do Mali), como atesta a presença
dos patrónimos Diafounou ou Wagadou, nas linhagens nobres.
Em termos gerais, o Gabú terá conhecido quatro fases históricas:
1. Um período pré-mandinga, das origens ao Século XIII, testemunhada pelas
tradições sérères e wolofs, a Norte, e pelas badiarankés e bainouks, a Sul.
2. O período maliano, de 1240 ao desaparecimento do império, no século XVII,
durante o qual é constituído o Gabú e criada uma capital, Kansala (hoje desaparecida).
3. O Gabú independente cujo apogeu ocorreu no século XVIII, com o tráfico
negreiro (1650-1790).
4. O declínio e queda, entre 1790 e 1867.

Mapa 2: O Gabú no séc. XVIII14

A história do povoamento do Senegal é também a do relacionamento entre o


Fouta e o Gabú e, em particular, dos seus conflitos que, mais do que religiosos (o Fouta
é sobretudo representado pelos peuls muçulmanos), foram de luta política pelo domínio
da sub-região: atraídos pela prosperidade do Gabú, obtida através do tráfico negreiro, o
reino teocrático do Fouta Djalon procurou dominar os pequenos reinos costeiros de
Baga e Nalou (Rios Pongo e Nunes) e sentiram-se atraídos pelas praças de Bissau,

14
D. T. NIANE, Op. Cit.

14
Cacheu, da Gâmbia e de Seju (actual Sédhiou, na Casamansa). A queda de Kansala e a
derrota do Gabú teve, como primeira grande consequência, a islamização da região;
logo de seguida, ocorreram as conquistas coloniais, com efectiva ocupação dos
territórios.
O contacto entre os mandingas (incluindo socés, soninkés e malinkés) e as
populações da Senegâmbia é antigo e difícil de determinar. As tradições orais do Siné
dão unanimemente conta da presença, no local, de populações mandingas15 quando os
sérères chegaram do Fouta Toro (nos Séculos XI-XII, provavelmente no rescaldo das
guerras religiosas entre muçulmanos e animistas desencadeadas pelos almorávidas nas
províncias ocidentais do Gana)16 e distinguem esse povoamento mais antigo de outro,
mais recente, ao tempo do reino do Mali. Os sérères rechaçaram ou assimilaram aqueles
mandingas e constituíram-se como “guélowars” (a aristocracia local).
A vaga “maliana”, a partir do século XIII, é mais facilmente reconhecível pelo
facto de as famílias provenientes do Wagadou (“império do Gana”, em Soninké) terem
conservado o nome do seu país de origem, uma prática corrente na África ocidental,
como refere Djibril Niane que assinala, também, o hábito mandinga de chamar os
estrangeiros pelo nome dos seus países.17 A origem da migração do General
Tiramaghan18, com uma comitiva de cerca de cem mil pessoas, está ainda por explicar,
mas uma tradição oral refere que se terá devido à recusa daquele de acompanhar o
“mansa” (rei) Soundjata19 na conversão ao Islamismo, o que justificaria o facto de os
mandingas daquela região se manterem animistas até ao princípio do século XX, apesar
da pressão peul. As áreas conquistadas por Tiramaghan, a Sul, adquiriram o nome de
Gabú. Os efeitos desta campanha nas nomenclaturas são interessantes: à medida que os
exércitos chegavam a localidades, certas famílias ficavam ali estabelecidas, geralmente
por decisão do próprio Tiramaghan; assim, a Norte, o patrónimo “Sylla” (do General
sarakholé Lamine Sylla) foi integrado pelos wolofs, enquanto que, no outro extremo, a

15
Chamados de “Socés” no Sine e no Jalofo
16
D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 16-17
17
D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 16-17
18
Terá ocorrido por volta de 1250; vide D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 13, e NANTET, Bernard,
Dictionnaire de l’Afrique, Histoire Civilisation Actualité, Larousse, Paris, 2006, « Mali (Empire du)».
19
Soundjata foi o mais notável rei do Mali. De acordo com a lenda, os animistas que fugiam dos
almorávidas foram recolhidos pelo rei do Sosso que, no entanto, tentou matar os doze príncipes do reino
do Mali. Apenas sobreviveu Soundjata que conseguiria, mais tarde, unir os chefes de clãs malinkés
através da admiração pelas suas façanhas, liderar as conquistas dos reinos do Gana e do Sosso e reformar
profundamente o ordenamento político-social da África ocidental. Vide D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 13 e
ss, e B. NANTET, Op. Cit., « Mali (Empire du)»

15
Sul do rio Gâmbia, instalou as famílias Keita e Diatta que viriam, por vezes, a juntar aos
seus nomes o patrónimo Manjang.
Por volta de 1450, dois séculos após a expedição de Tiramaghan, as províncias
ocidentais tinham um claro domínio mandinga. O povoamento malinké era denso ao
longo dos rios Gâmbia e Casamansa, até aos confins do Fouta Djalon. Assim, a maior
parte dos povos da Alta e Média Casamansa – baïnouks, balantas, badiarankés, etc –
poderia considerar-se mandinga. De resto, os navegadores portugueses incluíam todos
os povos da Casamansa, incluindo os diolas, na categoria dos mandingas. Contudo, os
mandingas não impuseram a sua língua, embora os chefes diolas a utilizassem para fins
comerciais.
A chegada dos portugueses foi um acontecimento maior na História da região;
num primeiro momento atribulada, com notórias dificuldades de comunicação,
desconfiança e violência, rapidamente a relação com os autóctones melhorou, quando
estes perceberam que os portugueses procuravam, sobretudo, comerciar.
Um conjunto de circunstâncias auxiliou o rápido estabelecimento de relações
comerciais profícuas: em 1433 os tuaregs conquistaram Tombuctou e expulsaram a
guarnição malinké; de 1462 a 1492 os songai revoltaram-se, conquistaram a área
meridional do Níger, até ao delta interior e conquistaram Djenné; os malinkés viram,
assim, cortado o acesso às pistas sarianas mas tinham ainda o controlo das regiões
auríferas de Bouré e Bambouk; ainda tentaram reanimar a pista ocidental com destino a
Sidjilmassa, em Marrocos (passando pela feitoria portuguesa de Ouadane20), mas esta
cidade estava em declínio após a deslocação para o Cairo do eixo comercial do mundo
muçulmano. É neste contexto que se ouve falar, por volta de 1445, da chegada de uns
brancos em navios gigantes; e quando, em 1456, Diogo Gomes subiu o rio Gâmbia21,
tendo já estabelecido boas relações com os autóctones, foi recebido pelo rei do Bintang
e fez a paz com o “mansa” do Niomi, o Manding-Mansa (rei dos mandingas) deu ordem
aos mercadores das margens do Níger para dirigirem as suas caravanas para Oeste. Os
portugueses tornaram-se rapidamente familiares de todo o universo mandinga, com uma
predilecção pelas regiões da Casamansa, Cacheu e Rio Grande. Grandes caravanas
partiam do Manding, para viagens que podiam durar quatro a seis meses, atravessavam

20
Ouadane integra um triângulo de três cidades históricas do Leste da Mauritânia, com Atar e Chinguetti.
Era a feitoria portuguesa mais afastada da costa Atlântica e a localidade, inscrita como Património
Mundial da UNESCO, foi restaurada entre 2004 e 2006 com apoio financeiro do Estado português.
21
D. T. NIANE, Op. Cit., cita Diogo Gomes de Sintra, neste contexto

16
o Diarra, o Bambouk e encontravam os portugueses no Cantor ou no Woulli. Este
comércio permitia ao Manding-Mansa e à sua corte receberem directamente produtos
manufacturados europeus, a um preço dez vezes inferior ao praticado pelos
intermediários árabes. Do seu lado, os portugueses recebiam o ouro maliano
praticamente na fonte, dispensando a mediação onerosa dos árabes. No início, o ouro
seria o bem mais procurado pelos portugueses, seguindo-se-lhe as especiarias e, apenas
em terceiro lugar, os escravos.22 Os “mansa” e os “farins” – chefes locais - da Gâmbia e
da Casamansa foram, na verdade, os grandes beneficiários do comércio com os
portugueses, cabendo apenas ao Manding-Mansa o rendimento dos direitos sobre o
comércio do ouro.
Ao contrário dos flups e dos balantas que se mostraram muito reticentes ao
contacto com os portugueses, os vizinhos kassangas entregaram-se ao comércio e
mesmo a uma certa ocidentalização, patente no fausto da corte do rei Massa Tamba23,
conquistador do reino dos bainouks, que trocava um bom cavalo por dez a quinze
negros.24 Ora, segundo o mesmo autor, Massa Tamba disporia de uma cavalaria de
cinco mil cavalos…
Os portugueses fixaram-se em número significativo na Casamansa, no Cacheu e
no Rio Grande, sendo a sua principal base Toubaboudaga, próxima de Brikama (na
actual Gâmbia), a capital de Massa Tamba. Contudo, no Século XVI, a base principal
dos portugueses era o arquipélago de Cabo Verde.
O desenvolvimento do comércio com os portugueses e a dinamização das feiras
situadas nas rotas para a costa aceleraram o movimento migratório para Ocidente
iniciado pelos malinkés; por sua vez, o comércio de escravos tornou-se a principal
actividade comercial entre europeus e soberanos da costa, os quais tiveram tendência
para se libertarem da vassalagem ao Manding Mansa, emancipando-se.
Os malinkés misturaram-se com as populações locais (bassaris e bainouks,
essencialmente, mas não só) e souberam beneficiar do costume local de transmissão da
herança do tio aos sobrinhos, filhos da irmã. Para tal, adoptavam também o nome do clã
materno e tornavam-se, deste modo, donos legítimos do Gabú; deste modo, nomes
malinkés foram sendo substituídos por outros: Traoré (clã de Tiramaghan) deu lugar a

22
D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 31
23
Massa Tamba chegou mesmo a criar uma aldeia para brancos, junto à capital Brikama, em 1580, vide
D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 32
24
A. DONELHA (1625); vide DONELHA, André, Descrição da Serra Leoa e dos rios de Guiné e do
Cabo Verde, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, Lisboa, 1977, pp. 166 e nota 286, pp. 311

17
Sane e Mané, Keita (clã de Mansa Wali, filho de Soundjata que acompanhou
Tiramaghan) foi substituído por Sagna e Mandjan, etc. Contudo, os mandingas que
chegaram mais tarde – sobretudo os muçulmanos, que não adoptaram o regime familiar
local – guardaram os nomes originais (Cissé, Touré, Diané, Diaby, Dabo, Souaré). Os
muçulmanos não faziam parte da comitiva de Tiramaghan mas, na sua crónica, André
Donelha já refere o seu grande número.
A data de chegada dos pastores peuls à Senegâmbia também não está
rigorosamente determinada: terão vindo na comitiva de Tiramaghan, ou antes? Sabemos
apenas que os dois povos viviam juntos no Wagadou e no Manding, ao tempo de
Soundjata. Em regra, os peuls acampavam ao lado das aldeias de agricultores,
beneficiando do pasto das terras em pousio e estrumando-as; respeitavam as autoridades
locais e não tinham ambições políticas; esta seria uma regra geral de comportamento,
que os levava a ser bem aceites pelos agricultores.
Contudo, nos Séculos XV e XVI os peuls transformar-se-iam em ferozes
guerreiros, pondo em risco o Império do Mali e as províncias da Senegâmbia. Ignora-se
o motivo pelo qual, em 1460, os peuls invadiram as províncias ocidentais, embora se
acredite25 que tenha a ver com os conflitos no delta interior do Níger entre os
mandingas, os songai e os tuaregs. André Donelha refere um rei dos Fulos muito
belicoso que saiu da cidade de Fouta e decidiu conquistar grande parte da Guiné”. Este
rei, Dulo (ou Diallo) Demba atravessou o rio Senegal, vindo de Leste, penetrou no
Jalofo onde derrotou os wolofs em diversas batalhas e atingiu a Gâmbia. Os malinkés
não contiveram esta investida dos peuls que atravessaram o Gabú, atingiram o Rio
Grande e chegaram às portas do reino Beafada, cujos reis os detiveram. Não obstante,
os peuls, animistas como as populações autóctones, integraram-se facilmente com estas.
O primeiro grande chefe dos peuls foi Tenguella Diadié Bah que, contornando o
Gabú pelo Leste, atravessou o rio Senegal com o seu exército e, com o apoio dos
bambaras, empreendeu a conquista do Bambouk e do reino de Diarra. O Manding
Mansa, Mahmoud II, solicitou a ajuda militar de D. João II26 que enviou uma
embaixada a Niani, em 1490, chefiada por Pêro de Évora e Gonçalo Eanes. Contudo,
embora a comitiva presenteasse o Manding Mansa, com ofertas dignas de um grande
soberano, Portugal não deu apoio militar, eventualmente porque cedo se apercebera de

25
LY-TALL, Madina, L’Empire du Mali, N.E.A, Dakar / Abidjan, 1977, pp. 48
26
BARROS, João de, Décadas da Ásia, public. Hernâni Cidade, Agência das Colónias, Lisboa, 1945, e
M. LY-TALL, Op. Cit., citados por D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 57

18
que o poder do Mansa era mais simbólico do que real27. O perigo acabaria por ser
afastado graças aos songhai – também atraídos pelo comércio atlântico – que derrotaram
Tenguella Bah, em Diarra, em 1512. Uma nova investida, em 1535, liderada por Koly
Tenguella (filho de Tenguella Diadié Bah e que talvez tenha ficado para a História
como o maior chefe peul), daria origem a um novo pedido de apoio de Mansa
Mahmoud III, neto de Mahmoud II, a Portugal que, novamente, enviou uma embaixada
mas não deu qualquer apoio militar. Das movimentações de Koly Tenguella ficou, entre
outros aspectos, o patrónimo Bâ na Casamansa, na Gâmbia e na Guiné.
Em 1625, o Manding Mansa detinha ainda um poder quase lendário mas
emergia, na costa, o reino do Gabú, cujo Governador, ou Farim Cabo, se tornou o
“Gabou mansa-ba, senhor de todos os reis Mandingas e dos Jalofos, Berbecins e de
diversos reis estabelecidos do lado Norte”28. É provável que este domínio chegasse ao
Siné até ao século XVII, quando as províncias gambianas se emanciparam do Gabú. No
século XVIII, parece que o Mansa-ba dispunha de um grande corpo de fuzileiros bem
armados, porquanto, observador não só dos conflitos que opunham brancos portugueses,
franceses e ingleses, mas também das incursões esporádicas de holandeses e
dinamarqueses, estava ciente de que só com uma forte organização poderia tirar
proveito do comércio com os europeus. O Mansa-ba seria o mais importante fornecedor
de escravos cujo efectivo rondava, anualmente, três a cinco mil.
No final do século XVI, o Gabú tornara-se um Estado guerreiro e uma área de
passagem das caravanas. Ao longo das pistas para a costa surgiram numerosas aldeias
de mercadores, os morocounda, termo que vem do facto de lidarem com comerciantes
“mouros” (muçulmanos malinkés ou sarakholés). Os diolas eram os maiores
mercadores, tinham entrepostos seguros nas aldeias, onde pernoitavam e deixavam os
seus feridos, e formavam sociedades familiares: os parentes, dispersos pelas aldeias,
comunicavam entre si através de mensageiros. As mercadorias eram transportadas em
pequenas etapas até aos portos e esta forma de agir contribuía certamente para reforçar
os fortes laços que uniam os clãs diolas entre si.
Os diolas estavam presentes em todo o Gabú e, a partir de certa altura, eram
apenas concorrenciados, seriamente, pelos lançados. As feiras, que os diolas animavam,
tinham por vezes uma dimensão apreciável, como o mercado semanal de Cacheu, entre

27
D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 61
28
A. DONELHA, Op. Cit., pp. 121, citado por D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 75

19
Novembro e Junho, ao qual acorreriam sete a oito mil pessoas para trocarem
mercadorias locais e portuguesas.
No final do Século XVII, o domínio português na Casamansa era já posto em
questão pelos franceses e ingleses; contudo, se estes conseguiram dominar as águas
gambianas, havia fortes resistências a Sul. As feitorias de Bissau, Cacheu e Farim eram
palco de constantes transações. E os beafadas de Cacheu preferiram, a dado momento,
os franceses aos portugueses, enquanto os diolas, malinkés e sarakholés mantiveram as
suas relações, vendendo ferro e algodão.
No século XVIII, os grumetes (filhos de portugueses e africanas) povoavam
todos os rios, formando uma classe sócio-profissional de comerciantes.29 Misturados
com as populações locais e partilhando os seus hábitos, vivendo em condições de
grande insalubridade, formaram uma sociedade intermediária e o Português, combinado
com as línguas locais, deu origem ao crioulo. Os diolas, que, como vimos, eram os
rivais dos lançados, aprenderam a falar Português, Francês ou Inglês.
Até à queda do reino do Gabú, o animismo permaneceu a sua crença oficial. Por
oposição ao “moro” (mouro), chamava-se soninké ao malinké que pratica o culto
tradicional e bebe vinho. Mas, no século XIX, os muçulmanos eram já muitos e
procuravam libertar-se da autoridade dos que bebiam vinho. Por fim, a queda de
Kansala, em 1867, marcou o fim do reino do Gabú e trouxe a destruição das florestas
sagradas e a islamização generalizada dos gabounkés, o que levou, também, à
transmissão do poder dos nobres (“nianthio”, em Mandinga), de pais para filhos e não
de tios para sobrinhos.
Em 1725 os peuls fundaram o Estado muçulmano do Fouta Djalon. A infiltração
peul nas montanhas, propícias à pastorícia transumante, começara provavelmente no
século XIII e intensificara-se no século XVII. No início do século XVIII, os peuls eram
já suficientemente numerosos para conspirarem contra os chefes djalonkés animistas
que derrotaram finalmente em Talansan, em 1730. Os vencedores peuls organizaram um
novo poder, reduzindo os anteriores senhores à escravatura. Os chefes religiosos que
tinham dirigido a insurreição tornaram-se os novos chefes das províncias. Deu-se,
assim, uma alteração radical no quadro geopolítico regional, o aparecimento de um
Estado muçulmano no seio dos vizinhos animistas. Contudo, a situação não seria bem
aceite pelos djalonkés que passaram a organizar acções de guerrilha contra as aldeias

29
D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 95-96

20
peuls e a aristocracia guerreira dos “marabouts” durante quase toda a segunda metade
do século XVIII. Entre 1784 e 1789, todo o Fouta foi assolado por uma guerra violenta,
resultante de um levantamento de animistas, com um exército tão vasto que certas
tradições chegam a estimá-lo composto por quatrocentos mil homens (o que é
certamente um exagero mas transmite uma noção da sua dimensão), que reagiram às
campanhas dos “almany” (chefes dos peuls) Karamoko Alfa (contra o Gabú e
Konkodougou) e Ibrahima Sory Maoudo (para Leste), demasiado destrutivas e
frequentes contra as suas aldeias. Os animistas (incluindo peuls não islamizados),
conduzidos por Koné Bouréma Sidibé quase exterminaram os muçulmanos mas,
confiantes na vitória definitiva, não perseguiram nem capturaram Sory Maoudo que
conseguiu reunir tropas e contra-atacar Kondé Bouréma em plena estação das chuvas,
vencendo-o. O Fouta estava salvo, e os peuls prepararam um exército forte, condição de
sobrevivência necessária do Estado muçulmano rodeado por vizinhos animistas.
No final do século XVIII, o Fouta Toro torna-se também um reino teocrático,
com a vitória dos torodbés, tal como o Boundou e o Fouta Djalon. E, se a aristocracia
demonstra o seu apego às práticas religiosas tradicionais, as massas camponesas
acentuam a sua conversão ao Islão.
Os Estados gabounké e peul apresentavam semelhanças, sendo ambos
federações de provínicas autónomas e, tal como os primeiros, os peuls limitaram-se a
dotar-se de um poder central forte. Mas os gabounkés permaneceram, em geral,
camponeses misturados com os autóctones bainouks, diolas e beafadas, adoptando
inclusive os nomes destes. Ao contrário dos mandingas, os peuls, que permaneceram
pastores transumantes durante muito tempo, acabaram também por se sedentarizar em
aldeias “foulasso” ou “foulacounda”, mas ocuparam as terras dos autóctones (djalonkés,
bagas e sares) e reduziram estes povos à escravatura. Ainda assim, com o tempo, os
peuls acabaram por se miscigenar com os autóctones, procurando impor, contudo, a sua
língua, o pulaar, e a sua cultura; e se, num primeiro tempo, concederam o estatuto de
homens livres aos vencidos islamizados, os peuls acabaram por travar a conversão30,
optando por manter os autóctones nas suas crenças tradicionais e na situação de
escravatura.
No início do século XIX, o Estado peul consolida-se através de uma sociedade
fortemente hirarquizada, dominada por uma aristocracia de “marabouts” guerreiros; em

30
D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 130

21
cada província (“diwal”) as “paróquias” (“missidé”) organizam em seu redor um
conjunto de territórios e aldeias (“roundé” e “foulasso”). Os vencidos eram cerca de três
quartos da população mas não tinham quaisquer direitos políticos; os peuls pobres e os
convertidos podiam deslocar-se entre “missidés”, mas os djalonkés, quais servos da
gleba, não podiam sair dos “roundés”. Os aristocratas distinguiam-se em dois estratos,
os guerreiros e os letrados – estes eram particularmente numerosos em Labé, na actual
República da Guiné (Conacri). O almany era eleito por um colégio de letrados e de
chefes de guerra das nove províncias31, residia em Timbo, era simultaneamente chefe
religioso e temporal da confederação e dirigia pessoalmente a djihad fora do Fouta. Por
último, dois clãs, os Alfaya e os Soriya, alternavam no poder de dois em dois anos, uma
prática aparentemente copiada aos gabounkés32.
Entre 1799 e 1870 o Fouta viveu um período estável, embora Estados animistas
como Solima, Sankaran e Tamba o tenham atacado regularmente e, sobretudo, apesar de
algumas dificuldades internas como a oposição dos muçulmanos ortodoxos da confraria
Kadiryia33 aos almany do Fouta e de Timbo. Este núcleo de resistência (a sua capital,
Boketo, só foi conquistada e destruída em 1884) na estrada entre Timbo e a actual
Freetown, terá levado os almany a intensificarem as suas campanhas a Norte, contra o
Gabú que dominava o território entre a Gambia e o Rio Nunes.
O Fouta Djalon desempenhava um papel relevante na vida económica da sub-
região da Guiné-Gâmbia, enquanto centro de comércio de gado, de cereais, de algodão e
de mel, e mercado de escravos. Os ingleses (em Freetown), os franceses (junto aos rios
Nunes e Pongo) e os portugueses (há muito estabelecidos nos estuários dos rios Grande
e Casamansa) competiam na atracção das caravanas que provinham do Fouta.
A partir de 1830, os franceses e ingleses passam a ter o objectivo de levar o
trabalho a África, já que não era mais possível trazer mão-de-obra, por causa da
industrialização que deixava de requerer aquela de modo tão intensivo. Assim,
iniciaram uma nova política agrícola, distribuindo sementes de amendoim e de algodão,
o que dinamizou de novo o comércio.

31
As nove províncias eram Timbo, Fodé Hadji, Kébali, Labé, Kolladé, Koin, Timbi, Fougoumba e Bhuria
32
D. T. NIANE, Op. Cit., pp 131
33
Confraria ainda hoje presente na África ocidental, fundada no Iraque por Abd al-Qadir al-Jilani, no
século XII, com vista a converter os povos ao verdadeiro islamismo. Vide THORAVAL, Yves,
L’ABCdaire de l’Islam, Ed. Flammarion, Paris, 2003, pp. 49, e BARRY, Boubacar, La Sénégambie du
XVe au XIXe Siècle, L’Harmattan, 1988

22
Por volta de 1840, o Gabú está em crise: os franceses estabelecem-se na
Casamansa, o Fouta Djalon tem, em Sédhiou, um porto de escoamento para as suas
mercadorias, dispensando as caravanas de seguirem até à Gambia e os almany
esforçam-se por controlar as pistas de caravanas que atravessam o Gabú. Em 1845,
subiu ao trono o mansa-ba Dianké Wali, o último rei dos gabounkés. Com Wali, o Gabú
conheceria um sobressalto de poder e de reorganização que culminaria com o ataque a
Manda e a destruição integral desta cidade peul. Desde o final do Século XVIII nenhum
exército gabounké tinha conseguido passar o Koliba e guerrear no Fouta. Mas em 1849,
o novo almany Oumar, desejoso de vingar a incursão de Manda, proclamou a guerra
santa e mobilizou um exército de seis mil homens, incluindo uma numerosa cavalaria de
mais de três mil cavalos. A batalha de Bérékolon concluiu-se ao fim de cinco dias com a
vitória peul, mas estes, consideravelmente enfraquecidos, retornaram ao Fouta com
menos de metade dos efectivos.
Em 1850, o Gabú, que perdera o mito da invencibilidade, sofre com as incursões
peuls, com as sublevações dos muçulmanos e com a implantação cada vez mais forte
dos europeus na Senegâmbia. Kansala já não controlava, por exemplo, as províncias do
rio Geba, na actual Guiné-Bissau, nem as vias para Cacheu e Farim. O reino era ainda
grande, mas encontrava-se dividido pelas guerras e minado por dentro, não pelo peul
mas pelo muçulmano malinké, aliado natural do Fouta.
Do seu lado, as provínicas malinkés da margem Norte do rio Gambia separaram-
se do Gabounké, embora sendo consideradas territórios de Tiramaghan34. Assim, nos
séculos XVII e XVIII, os reinos do Badibou, do Niani e do Wouli teriam uma grande
autonomia.
Os reis de Niomi vigiam com severidade o acesso ao Gâmbia, não hesitando em
recorrer à força, a única prática respeitada pelos mercadores. Contudo, o reino declina
no final do século XVIII e as rivalidades exacerbam-se. Ao contrário, o Saloum vive
nesse tempo um período de expansão, impõe-se, ganha um acesso directo ao Gâmbia e
entra no comércio de escravos. Os muçulmanos são cada vez em maior número na área
do Gâmbia, tomam consciência da sua força e tentam mesmo ingerir-se nos assuntos do
Estado. Em consequência da pressão muçulmana, o Niani divide-se em dois reinos, no
início do século XIX, o Alto e o Baixo Niani, cujos princípes se guerreiam. Entretanto,

34
Segundo Djibril Tamsir Niane, esses territórios terão sido, na verdade, domínio de expansão de tropas
não comandadas por Tiramaghan, seriam posteriores à invasão deste. Subsiste, no entanto, um grande
desconhecimento em relação a todo este período

23
os peuls e os jalofos, atraídos pelo comércio de escravos, fundaram diversas aldeias,
entregaram-se à cultura de amendoim e colocaram-se sob a protecção dos milicianos
dos negociantes, com os quais lidam directamente. Por fim, um chefe religioso (um
marabout) toucouleur, Maba Diakhou-Ba, decidiu levantar armas em nome do Islão e
impor-se ao Niani e ao Badibou35.
O reino do Wouli, o mais extenso dos gambianos, também não escapou aos
efeitos do comércio de escravos. Os ingleses mantinham pelo menos desde o século
XVIII feitorias em Fatatenda e Yarboutenda que se tornaram pólos de atracção de
malinkés e de sarakolés. Os soninkés governavam sem trabalhar, desprezavam
ostensivamente os muçulmanos o que, também aqui, acabou por provocar a revolta
destes contra a aristocracia tradicional, ociosa e parasitária.
Por volta de 1850, os franceses tinham conseguido tornar Sédhiou uma praça
comercial mais importante do que as de Ziguinchor e de Cacheu, controladas pelos
portugueses, mas a influência portuguesa estava ainda bem presente sob forma do
crioulo: «En 1849, le nouveau résident Emmanuel Bertrand-Bocandé nous a laissé de
fort riches Notes sur la Guinée Portugaise ou Sénégambie méridionale. Ayant appris le
créole portugais et le malinké, il avait une grande expérience des pays mandingues»36.
Ou seja, as duas línguas francas nos territórios mandingas eram o malinké,
naturalmente, e o crioulo do Português.
A desagregação lenta do reino do Gabú foi explorada pelos franceses que, a
pouco e pouco, foram considerando território seu, áreas da Casamansa (Boudhié em
1849, seguida das aldeias de Patiabor, Bajari e Bunu), não sem resistências locais:
soninkés, primeiro, e balantas, depois, opuseram forte resistência às forças muçulmanas
aliadas dos franceses. Em 1854 os franceses aproveitaram incidentes com balantas para
conquistar a margem esquerda do Casamansa, entre Binako e Bambanjon. Perante estes
acontecimentos, Kansala já não tinha, de facto, qualquer autoridade ou força para reagir,
tanto mais que os residentes franceses apoiavam, secretamente, os peuls do Fouta
Djalon contra o poder animista.
Nos anos 1860, precipita-se a queda do Gabú, com sucessivas deserções de
“nianthios” num contexto em que a guerra com o Fouta se tornara palco de complexas
alianças e traições, mais ditadas por motivos políticos e económicos do que religiosos.

35
I. D. THIAM, Op. Cit.
36
D. T. NIANE, Op. Cit., pp 174

24
A terrível batalha de Kansala (dita pelos mandingas “Guerra da exterminação da raça
gabounké”), em 1867, ditou a derrota definitiva do Gabú, a destruição da capital pelo
próprio mansa Dianké Wali e a morte da grande maioria da sua aristocracia perante um
exército peul de trinta e dois mil homens, dos quais doze mil cavaleiros, todos de branco
vestidos e usando o nome de Mamadou (Maomé).
Com a conquista de Kansala, parece estar-se perante o início do domínio peul e
da islamização. Contudo, a conquista colonial sobreveio pouco depois, com Portugal, a
França e o Reino Unido a partilharem entre si os reinos gambianos e do Gabú.
No final do século XVIII e no início do século XIX, o Fouta Djalon tornara-se
um dos centros mais importantes da cultura islâmica na África ocidental, mas o papel
principal foi muitas vezes desempenhado não por peuls, mas por diakhandés e
sarakolés. Os peuls tinham centros corânicos reputados em Touba (na actual Guiné
Conacri37), Sombili, Koula, Daralabé e Dow Sare e recorreram ao alfabeto árabe para
escrever o pulaar que se tornou, deste modo, escrita e veículo de difusão cultural e
literária. Os letrados peuls escreviam tanto em pulaar como em árabe e, em Timbo ou
em Labé, o Estado subvencionava os membros da classe que podiam, assim, viver
exclusivamente para estudar. A escola corânica era obrigatória para todas as crianças
filhas de pais livres; nela se cultivava o amor pelo bem mas, também, o ódio do
animismo e o desprezo por todos os descrentes. Mais tarde, gerou-se uma tendência
para um culto de superioridade sobre outras raças negras (tratadas de “balébés” – os
negros38).
Uma das grandes confrarias do Senegal é a dos Mouridas, fundada por Amadou
Bamba M’Backé, um marabout (chefe religioso) toucouleur falecido em 1927. Após ter
feito os seus estudos junto de Cheikh Sidiya, membro eminente da grande confraria
Qadiriyya ou Khadrya (ainda muito presente na sub-região e a terceira mais importante
no Senegal), criou a sua própria confraria, por alegada inspiração do anjo Gabriel. O
mouridismo, virado inicialmente para os jalofos, preconiza que o trabalho manual é tão
importante para o discípulo (“talibé”) como a oração e esses ensinamentos são
transmitidos nas “daaras” (escolas corânicas). O centro da confraria é Touba, uma
cidade fundada por Amadou Bamba em 1886, a 60 km a Leste de Djourbel.

37
A cidade guineense de Touba foi o mais pujante centro de difusão corânica na sub-região, no século
XIX, sob a condução das chefias religiosas Khadrya; não confundir com a cidade senegalesa de Touba,
sede da confraria mourida.
38
D. T. NIANE, Op. Cit., pp 136

25
A outra grande confraria (não se sabe, em bom rigor, qual delas é a que tem mais
adeptos) é a Tidjane, fundada em 1737 por Sidi Ahmed Al Tidjani, em fés, Marrocos. A
Tidjania é uma confraria sufi39 que visa uma ascenção individual pela purificação do
indivíduo; repousa no ensino religioso tradicional da “sunna” (feitos e gestos do Profeta
Maomé), da recitação de excertos do Corão e de textos da própria confraria. A Tidjania
(também presente na Guiné-Bissau) foi difundida no Senegal e no vale do Níger pelo
conquistador Toucouleur El-Hadj Omar Tall durante a guerra santa contra os animistas
(1856). O seu sucessor, El-Hadj Malick Sy compreendeu a supremacia dos
colonizadores e adoptou uma via pacífica. A sede da confraria é em Tivaouane, a cerca
de 40 km a Norte de Thiès, na estrada que liga esta importante cidade com Saint-Louis.
Os tidjanes têm um comportamento mais discreto do que os mouridas e, tal como estes,
realizam uma grande peregrinação anual. No caso dos tidjanes, trata-se do Gamou que
corresponde ao Maoloud, comemoração do nascimento do Profeta. Para os mouridas, é
o Magal, comemorando o dia do regresso do exílio e da visão profética do fundador da
confraria.
Os limites administrativos da colónia francesa do Senegal foram estabelecidos
em 1904, após a criação da África Ocidental Francesa (1895) e da deslocação da capital
de Saint-Louis para Dacar (1902). Avançam então obras públicas e a conquista agrícola
do Leste, comandada, no terreno, pelos marabouts mouridas.
Em 1945, dois deputados, Lamine Guèye e Léopold Senghor, têm assento na
Assembleia Constituinte francesa. A actividade política acompanha-se da criação de
partidos políticos distintos dos da metrópole. Associados na Federação do Mali em
Janeiro de 1959, o Sudão e o Senegal pedem a independência que obtêm no quadro
unitário, no dia 4 de Abril de 1960. Porém, a Federação não resiste e, a 20 de Agosto de
1960, a Assembleia senegalesa proclama a independência do país. Desde então, o país
evoluiu para um regime pluripartidário, sob a batuta do primeiro Presidente, Léopold
Senghor que, após 20 anos no poder, se tornou o primeiro Chefe de Estado a dele sair
antes do término de um mandato. Seguiu-se-lhe o também socialista Abdou Diouf, de
1980 a 2000, ano em que, a 19 de Março, o liberal Abdoulaye Wade ganhou as eleições
presidenciais, em nome da “alternância”.

39
O Sufismo, corrente mística do Islão, nascida no século VIII, opõe-se ao Islão legalista e privilegia a
apropriação pessoal da verdade corânica. Esta “maleabilidade”, contrária à do chiismo ou do sunismo,
poderá justificar a sua popularidade na África ocidental, porquanto permite uma melhor adaptação às
práticas animistas enraizadas. Ainda hoje, são raros os chiitas e os sunitas num país fortemente islamizado
como o Senegal.

26
1.2. A presença portuguesa

Primeira razão do Infante

“E porque o dicto Senhor [Infante] quis disto saber a verdade, parecendo-lhe


que se ele ou algum outro senhor se não trabalhasse de o saber... e vendo outrossim
como nenhum outro príncipe se trabalhava disto, mandou ele contra aquelas partes
seus navios, por haver de tudo manifesta certidão, movendo-se a isso por serviço de
Deus e d’el- Rei D. Eduarte seu senhor e irmão que aquele tempo reinava. E esta até
que foi a primeira razão de seu movimento.”40

Foi esta razão do Infante que levou a Língua Portuguesa para África, e depois
para todos os continentes; ainda que não esteja escrito, o facto é que os Descobrimentos
marítimos tiveram como consequência directa e inabalável a transferência do código
linguístico português para terras novas. E tal como noutros países africanos, a Língua
Portuguesa deixou as suas marcas na costa ocidental de África, nomeadamente no
Senegal. Naqueles territórios, por onde passaram, os descobridores lusos registaram o
que viram e o que lhes aconteceu em contacto com a natureza e com as novas gentes, e
passaram a comunicar com eles. Mas, falando línguas diferentes, parece-nos que os
estrangeiros e os autóctones levaram tempo para aprender a língua do outro, e não
comunicariam pela linguagem verbal, desde o início. Então, como se justifica ou se
explica a seguinte afirmação?
“Aos negros todos trate com boas palavras e não se engane, cuidando que não
entendem o portuguez (sic) por que o não fallão: pois os mais delles o entendem
bastantemente.”41
Parece que a presença portuguesa foi tão intensa, desde meados do século XV,
que permitiu a aprendizagem da língua portuguesa pelos nativos, como informa este
capitão português, Francisco de Lemos Coelho, que passou mais de vinte anos da sua

40
G. E. ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. VII, “ no qual se mostram cinquo razoões porque o senhor
iffante foe movido de mandar buscar as terras de Guynea”, pp. 44-49.
41
F. L. COELHO (1684); vide COELHO, Francisco de Lemos, Duas Descrições Seiscentistas da Guiné,
(Manuscritos Inéditos Publicados com Introdução e Anotações Históricas de Damião Peres) Academia
Portuguesa de História, Lisboa, 1990, pp. 114

27
vida nos territórios correspondentes ao actual Senegal. Em meados do século XVII, data
desta afirmação, apesar da presença dos holandeses, dos franceses e dos ingleses, os
indígenas africanos não só reconheciam como compreendiam bem o Português, antes de
conhecerem a influência francófona nos territórios do actual Senegal, colonizado pela
França, depois de muitas rivalidades e conflitos com os outros europeus que ali se
fixavam. Após a descoberta destes territórios, parece que os portugueses se distribuíam
pela região de forma algo indeterminada ou desordenada. A partir do século XVI, outros
europeus se fixaram nesses mesmos territórios e impuseram a ocupação daqueles
espaços; logo iam construindo fortalezas, com grandes exércitos, para protegerem o seu
comércio e manterem os seus interesses em diversas áreas, como observaremos mais à
frente.
Por isso, torna-se necessário conhecer melhor a acção dos portugueses e falar
dos antecedentes das Descobertas, para um entendimento mais correcto da evolução das
investidas dos portugueses até alcançarem aqueles espaços e compreender o grau de
influência que tiveram junto daqueles reinos africanos.
Por estas alturas, no século XV, os nautas portugueses manifestavam já o
conhecimento de técnicas de navegação das mais avançadas da Europa. Empreendendo
viagens marítimas cada vez mais frequentes e mais afastadas da costa portuguesa,
enriqueciam-se de um saber que os manteve na linha da frente dos Descobrimentos
marítimos e terrestres sobre o continente africano:
“Todo o movimento de expansão marítima supõe igualmente um mínimo de
condições orgânicas gerais, ou seja, um ambiente económico internacional que solicite
aquele esforço, e particulares, isto é, um conjunto de aptidões específicas em
determinado povo ou grupo social que lhe permitam levá-lo a cabo.”42
Portugal era já no século XIV, uma nação consolidada, que conquistara as
condições que fundamentam a expansão lusa. Os portugueses sempre se inclinaram para
os trabalhos do mar, dada a situação geográfica do país. Estando também rodeados por
Estados poderosos e rivais, a Norte, a Sul e a Oriente, a expansão para o oceano era
determinada não só por circunstâncias geográficas mas também políticas, económicas e
religiosas:

42
J. CORTESÃO (1931-1934); vide CORTESÃO, Jaime, História da Expansão Portuguesa, INCM, vol.
IV, 1993, pp. 14

28
“Todo o movimento da expansão geográfica obedece antes de mais às
necessidades da procura e do transporte dos produtos. Que outras coisas de carácter
espiritual possam somar-se a estas, e em geral apareçam fundidas com elas, não é
menos verdade; mas na base de todos os descobrimentos geográficos, de carácter
perdurável, encontram-se as razões económicas. Trata-se de uma regra sem excepção,
cuja plena validade pode estudar-se na história de todos os povos navegadores, desde
os cretenses e os tartéssios até aos holandeses e aos ingleses.”43
De facto, a experiência acumulada ao longo de alguns séculos, pelo menos desde
o início da nacionalidade, contribuiu para impulsionar as descobertas do século XV e
muitos homens corajosos puseram a sua vida em perigo ao serviço da nação.
As Cruzadas44 permitiam não só a experiência do contacto com outros povos,
inclusivamente com o mundo islâmico, mas também o conhecimento da Terra Santa
onde os portugueses podem ter obtido muitas informações sobre as características do
Oriente, das Índias, do comércio, das riquezas, das especiarias dali provenientes, e
mesmo ouvir falar de um reino cristão, como o do Preste João das Índias, isolado entre
muitos reinos árabes infiéis, e entre os turcos que também ameaçavam a Europa, que
dominavam aquelas regiões ao longo de toda a Idade Média.
A Reconquista cristã, em toda a Península Ibérica, colocou Portugal em contacto
privilegiado com os muçulmanos e essa experiência e o conhecimento directo do
inimigo da fé cristã acabou por ter repercussões positivas na expansão portuguesa do
século XV. A luta contra os Mouros foi um investimento no futuro, ou seja, logo no
início das Descobertas avançaram com conhecimento de causa sobre os muçulmanos.
O desenvolvimento da marinha de guerra e a protecção da marinha mercante por
parte dos monarcas portugueses contribuiu naturalmente para o domínio dos mares, para
as aventuras no oceano Atlântico e no Índico.

43
J. CORTESÂO (1931-1934); Op. Cit., pp. 14
44
Nova Enciclopédia Larousse, 1994, Vol. 7: Cruzadas, Dá-se o nome de “cruzadas” às expedições
militares empreendidas pela Europa cristã entre os sécs. XI e XIII, sob o impulso do papado, no intuito
socorrer os cristãos do Oriente, reconquistar o Santo Sepulcro (local do túmulo de Cristo) aos Turcos
muçulmanos, e mais tarde, para defender os Estados fundados pelos cruzados na Síria e na Palestina.
Graças a um fortesurto demográfico, o Ocidente inverteu no séc. XI o movimento que fazia dele uma
cidadela cercada, submetida às incursões de sarracenos, Escandinavos e Húngaros. Pouco depois do início
da Reconquista Ibérica e da instalação na Itália Meridional, as cruzadas manifestaram esse novo
dinamismo. (…) Para além do nascimento de Estados latinos no Oriente, as cruzadas tiveram como
consequência a criação das ordens religiosas e militares (Hospitalários, Templários, cavaleiros
Teutónicos) e a multiplicação dos contactos entre o Oriente (muçulmano e bizantino) e o Ocidente.
Contudo, não modificaram profundamente as correntes comerciais nem o intercâmbio cultural.”

29
Estavam portanto reunidas as condições essenciais para os portugueses
garantirem o sucesso desta empresa dos Descobrimentos, estímulo (luta contra o infiel),
experiência (conhecimento do mundo árabe e muçulmano), conhecimento técnico
(técnicas de navegação avançadas, desenvolvidas ao longo de vários séculos no Oceano
Atlântico).
A crise económica do século XIV, assim como a pestilência, que se estenderam
por toda a Europa, despoletaram a necessidade urgente e o desejo de encontrar
equilíbrios e soluções, alternativas, novas riquezas para restituir a estabilidade e o nível
de vida a que a Europa já se habituara. Em Portugal, faziam-se sentir com mais
acuidade as dificuldades na aquisição de determinados produtos, estando mais afastado
das rotas comerciais vindas do Oriente, controladas pelos árabes, depois pelos
comerciantes da península itálica, e a partir daí distribuídas para o interior da Europa.
Para ter acesso a esses produtos, os comerciantes portugueses ou iam buscá-los
directamente pelo Mediterrâneo, comprando-os a intermediários, portanto mais caros,
ou então esperavam pela sua distribuição por toda a Europa, adquirindo-os tardiamente
nas nossas costas, pelas rotas da Flandres, com custos mais elevados também. Portugal
tentou e conseguiu sair deste ciclo vicioso de dependências dos produtos exóticos e
deliciosos do Oriente, além de que tinha notícias sobre a existência de ouro em África,
tão perto do Algarve.
Além disso, em terra de pescadores, estes desde sempre se aventuraram ou se
arriscaram no alto mar, por questões de sobrevivência, para o seu sustento; navegar é,
pois, uma actividade muito antiga, tradicional e necessária para os portugueses, que
marcará sempre a cultura lusitana. A coragem destes homens, não podendo ser
ignorada, associava-se a uma experiência marítima muito arreigada e que foi
naturalmente posta ao serviço da nação, com os fidalgos da coroa e a gente da câmara
do Infante, escolhidos e coordenados para penetrar em territórios nunca vistos e
imprevisíveis.
Desde o tempo do conde D. Henrique e de seu filho D. Afonso Henriques45,
primeiro rei de Portugal, no século XII, preparavam-se embarcações para lutar contra os
ataques dos mouros, havendo notícia de combates navais. Essas galés serviam também
para espiar os movimentos da armada castelhana na costa. No tempo de D. Sancho I, foi

45
ALMEIDA, Fortunato de, História de Portugal desde os tempos pré-históricos a 1580, Vol. I, Bertrand
Editora, Lisboa, 2003, pp. 229

30
muito importante a existência de navios na conquista de Silves. Mais tarde, D. Afonso
III foi o primeiro monarca a preocupar-se com a construção de uma marinha de guerra.
D. Dinis fez grandes inovações na marinha, chamando homens experimentados para
formar os marinheiros portugueses. E os progressos deste rei permitiram a D. Afonso IV
obter permissão do papa Bento XII para fazer guerra aos infiéis. No reinado de D.
Fernando, construíram-se muitos navios, tendo o rei concedido privilégios aos que
comprassem navios estrangeiros ou que os construíssem nos estaleiros portugueses.
D. João I, depois de confirmar a independência nacional, iniciou as conquistas
de além-mar, a Expansão marítima e a obra dos Descobrimentos:
“Em 1415, portanto decorridos apenas quatro anos sobre a assinatura da paz
com Castela, o rei de Portugal, à frente de uma enorme expedição militar (19.000
combatentes, 1700 marinheiros, 200 navios), conquistou a importante cidade de Ceuta,
no Norte de África. Este facto é considerado como o ponto de partida da polítca oficial
da expansão ultramarina.”46
Inspirado pelos valores de cavalaria, D João I quis revitalizar, tradições através
dos seus filhos47, entre os quais se distinguiram D. Duarte, D. Pedro, e D. Henrique, D
Fernando. Desejando que fossem armados cavaleiros, quis organizar grandes torneios,
mas os infantes preferiam mostrar as suas qualidades e conquistar aquela dignidade em
situações concretas de guerra para defender o reino:

“Não consentiu a morte tantos anos


Que de Herói tão ditoso se lograsse
Portugal, mas os coros soberanos
Do Céu supremo quis que povoasse.
Mas, pera defensão dos Lusitanos,
Deixou, Quem o levou, quem governasse
E aumentasse a terra mais que dantes:
Ínclita geração, altos Infantes.

Não foi do Rei Duarte tão ditoso

46
SARAIVA, José Hermano, História concisa de Portugal, Publicações Europa-América, Col. Saber, 7ª
ed., Mem-Martins, 1981, pp. 122
47
F. ALMEIDA, Op. Cit., pp 275, “ Os filhos de D.João I, além de deixarem grandes exemplos de
virtudes religiosas, morais e cívicas, tiveram alta cultura intelectual, prova de que não houve menor
cuidado em formar-lhes a inteligência do que em educar-lhes a vontade. Diversos factos provam que os
infantes eram muito estudiosos e ilustrados. Em carta dirigida a seu irmão D. Duarte, quando este subiu
ao trono, dizia o Infante D. Pedro: “ E como quer, Senhor, que visse muitos Livros com singulares
doctrinas aos Reys e Príncipes, quaes deveem seer, e vós delles tenhaaes muytos “ etc. [vide Pina, Rui de,
Crónica de El-Rei D.Duarte, cap IV], (…) D. Duarte possuía uma livraria relativamente numerosa e
selecta.”

31
O tempo que ficou na suma alteza,
Que assi vai alternando o tempo iroso
O bem co mal, o gosto co a tristeza.
Quem viu sempre um estado deleitoso?
Ou quem viu em Fortuna haver firmeza?
Pois inda neste Reino e neste Rei
Não usou ela tanto desta lei?

Viu ser cativo o santo irmão Fernando


(Que a tão altas empresas aspirava),
Que, por salvar o povo miserando
Cercado, ao Sarraceno se entregava.
Só por amor da pátria está passando
A vida, de senhora feita escrava,
Por não se dar por ele a forte Ceita.
Mais o pubrico bem, que o seu, respeita.48

A conquista de Ceuta foi uma oportunidade para a concretização desses desejos


do rei e significava expulsar os mouros, como acontecera na reconquista do território
português, dois séculos antes. Fizeram-se os preparativos para a conquista de Ceuta,
oficialmente o ponto de partida das aventuras portuguesas em África:
“Ceuta era um importante centro comercial terrestre e marítimo; situava-se
numa região agricolamente rica e num bom porto estratégico, que dominava o estreito
de Gibraltar. Podia servir de base para novas conquistas e, além do prestígio que um
tal feito representava para o rei, proporcionava-lhe ocupação para muitos nobres, cuja
profissão eram as armas.”49
E, apesar do falecimento da rainha D. Filipa de Lencastre, a 18 de Julho de 1415,
D. João I não desistiu desse projecto. No dia 25 de Julho, partiu da praia do Restelo, o
que prova a importância desta empresa e a forte convicção do rei.50 E, além do esforço
continuado dos monarcas portugueses, significava retomar a tradição nacional de defesa
e de expansão da civilização Cristã contra o Islão. Levar o Cristianismo para terras
africanas era um desejo de todos e um compromisso antigo com a Santa Sé. Sabe-se
igualmente que o infante D. Henrique estava, desde muito cedo, empenhado em fazer o
reconhecimento da costa ocidental de África, como relata Diogo Gomes de Sintra,

48
L. V. CAMÕES (1572); vide CAMÕES, Luís Vaz de, Os Lusíadas, Porto Editora, Lisboa, 1982, Canto
IV, est. 50, 51,52, pp. 175 e 176
49
J. H. SARAIVA, Op. Cit., pp. 122
50
F. ALMEIDA, Op. Cit., pp. 267

32
almoxarife desta localidade, um dos homens da casa do Infante, enviado em expedições
nos mares da incógnita Guiné:
“No ano do Senhor de 1415, um fidalgo do reino de Portugal, D. João de Castro
(que era capitão da armada feita pelo Infante Dom Henrique, filho de D. João I, rei de
Portugal, e irmão da duquesa da Borgonha, mãe de Carlos, Infante esse que sempre
cuidou em manter fidalgos de boa estirpe e mandá-los às suas custas saber de regiões
estranhas), D. João de Castro, navegando pelo mar Atlântico, tomou pela força uma
parte de uma ilha dita Grã-Canária (...) Ao voltar, deparou com fortíssimas ondulações
marítimas a que os portugueses chamam correntes (...) Foi assim que o sobredito
capitão voltou a Portugal no meio das maiores dificuldades e deu conta ao Senhor
Infante do que acima se descreve.”51
Podem acompanhar-se as consequências das acções do Infante, de acordo com
os avanços que a pouco e pouco os exploradores lhe anunciavam, que se iam fazendo no
oceano Atlântico; é possível apreciar uma certa continuidade dos planos do Infante, e as
reacções, as alterações, as adaptações imediatas ao conhecimento que os corajosos
navegadores transmitiam no regresso das aventuras:
“Por outra parte, no ano seguinte, 1416, mandou o senhor Infante D. Henrique
um nobre cavaleiro, de nome Gonçalo Velho, passar além das ilhas Canárias, sem se
afastar da costa, com a intenção de saber o motivo de tamanhas correntes de mar.”52
Há razões para acreditar que, no século XIV, já se conhecia o arquipélago da
Madeira e algumas ilhas dos Açores. Além disso, a verdade é que muitos estrangeiros
viajaram até Portugal ao longo do século XIV para trabalhar em múltiplos ofícios,
alguns deles convidados pelos sucessivos monarcas; e no século XV muitos oferecerem
os seus serviços ao Infante, na empresa dos Descobrimentos. Entre outros, de variadas
nacionalidades, os genoveses Cadamosto e Usodimare colocaram-se ao serviço da
Coroa Portuguesa:
“Tendo eu ficado no Cabo S. Vicente pelo modo sobredito, o dito Senhor
mostrou haver grande prazer com a minha ficada e fui dele mui bem recebido; e depois
de muitos e muitos dias mandou armar-me uma caravela com o lote de cerca de 90
tonéis da qual era patrão um Vicente Dias, natural de Lagos, que é um lugar próximo
do Cabo de S. Vicente 16 milhas. E fornecida de todas as coisas necessárias para a

51
D. G. SINTRA (1484-1496); vide SINTRA, Diogo Gomes de, Descobrimento Primeiro da Guiné,
(Edição crítica de Aires A. Nascimento), Ed. Colibri, Lisboa, 2002, pp. 51
52
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 53

33
nossa viagem, em nome de Deus e em boa hora, partimos do sobredito Cabo S. Vicente
no dia 22 de Março de 1455,...”53
E também uma carta de Antoniotto Usodimare (de 12 de Dezembro de 1455),
assinala a presença deste aventureiro e comerciante genovês em Portugal, precisamente
no mesmo ano:
“E o Senhor Rei, vendo o que se passava, queria excluir-me de tal empresa, mas
graças aos rogos do tal secretário, concordou em que eu vá a essas partes com esse
secretário. Por isso, em nome de Deus volto a fretar uma caravela na qual seguirei, e
levarei um carregamento dos servidores do Senhor Infante, e espero com o negócio
equilibrar todo o meu futuro”.54
Portanto, é certo também que Sagres se tornou num centro de cultura da arte
náutica e um centro de contactos privilegiados, conhecido por toda a Europa, onde se
concentraram muitos estrangeiros. Muitos acalentavam a esperança de participar nas
aventuras dos portugueses, por necessidade, por curiosidade ou por ambição, esperando
enriquecerem tal como outros viajantes; significa que, desde muito cedo, estas viagens
cumpriram os objectivos económicos de Portugal.
Várias fontes nos informam sobre a grande actividade marítima dos portugueses.
Uma dessas fontes é a narrativa de Diogo Gomes de Sintra, reveladora do estado de
espírito que animou muitos dos que participaram nas primeiras descobertas. Confirma
que os portugueses se embrenharam no oceano Atlântico, desfazendo muitas lendas
medievais sobre o Mar Tenebroso, misterioso e povoado de monstros, assustando os
que ousassem avançar mais além. Dos perigos do mar os portugueses tinham já um
claro conhecimento e a experiência necessária para se lançarem no mundo incógnito.
Este projecto, para o qual contribuíram vários reis, surge como uma necessidade
mas também uma nova aventura para o país, surgindo a figura do Infante D. Henrique
como o mais veemente impulsionador dessa grande empresa dos Descobrimentos:
“ (…) bem-aventurado é o Infante D. Anrique que o glorioso Deus, pera se isto
comprir, escolheu; e, assi, são bem-aventurados os Reis de Portugal que suas vezes
sobcederam, e em tanto lograram a glória, riquezas e honra destas conquistas e
comércio, com paz e acrecentamento, enquanto, com caridade e aspereza, servindo

53
L. CADAMOSTO e P. SINTRA (1463-1465?); Op. Cit., pp. 89 e 90
54
“Portugaliae Monumenta Africana”, vol. I, in Mare Liberum, INCM, 1993

34
Nosso Senhor, delas bem usaram. A qual navegação começou o Infante, por serviço de
Deus, do cabo de Não pera diante.”55.
E não só pelo que acima se transcreve. Mais impressionante se torna a sua acção,
se considerarmos a seguinte afirmação do cronista Gomes Eanes de Zurara, a primeira
razão do Infante enunciada no começo deste nosso capítulo e que fundamenta a
intencionalidade da sua acção:
“E porque o dicto senhor quis disto saber a verdade, parecendo-lhe que se ele
ou algum outro senhor se não trabalhasse de o saber, nenhuns (…) e vendo outrossim
como nenhum outro príncipe se trabalhava disso (…)”.56
Pressupõe que outros príncipes poderiam interessar-se pela sua causa, mas a
convicção e os fundamentos do Infante eram mais fortes e a sua vontade foi
determinante. Diogo Gomes de Sintra parece acompanhar de muito perto as intenções
do Infante e as evoluções dos acontecimentos:
“Nesse tempo, recebeu o Infante Dom Henrique graça, privilégio e Cartas do
Sumo Pontífice, que então era Eugénio IV, de que nenhum príncipe, rei ou senhor
algum ousaria ir às partes da Guiné sem licença sua e do rei de Portugal, sob pena de
excomunhão.”57
Na edição crítica de Aires A. Nascimento, que temos consultado58, esclarece-se
que “na realidade, a Bula de concessão é de Nicolau V e data de 1454; o Papa Eugénio
IV é anterior (1431-1447).” Contudo, os factos estão correctos, o que pode significar
um erro de memória do informador, navegador e homem muito próximo do Infante e da
Coroa portuguesa, que pode ter feito este registo muito tempo depois de ocorrerem estas
situações.
Esta notícia repete-se mais tarde, por volta de 1508, com Duarte Pacheco
Pereira, em Esmeraldo de Situ Orbis; retoma esta linha de raciocínio, baseando-se ou
não nas nossas fontes, ou noutros testemunhos à época mais acessíveis. Com grande
naturalidade revela que o Infante não só concebeu um projecto para Portugal, tendo-o
transmitido a vários reinos, acreditando talvez que seria útil e necessária a ajuda de
outros reis para tão importante empresa. Ao que parece, os europeus não acreditaram
nas suas informações e declinaram qualquer interesse:

55
D. P. PEREIRA (1505-1508); vide PEREIRA, Duarte Pacheco, Esmeraldo de Situ Orbis, (Introdução e
Anotações Históricas de Damião Peres), Academia Portuguesa de História, 3ª ed, Lisboa, 1988, pp.79
56
G. E. ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. VII, pp. 44-49
57
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 65
58
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit.

35
“ E tanto que a estes reinos foram trazidos os primeiros negros e por ele
sabida a verdade da Santa Revelação, logo o Infante escreveu a tôdolos reis cristãos
que o ajudassem a este descobrimento e conquista por serviço de Nosso Senhor, e todo
o proveito igualmente lograssem, o que eles não quiseram fazer; mas, havendo isto por
vaidade, lhe renunciaram seu dirieto. Pelo qual o Infante mandou ao Santo Padre, o
Papa Eugénio IV, Fernão Lopes de Azevedo, fidalgo de sua casa e do Conselho de El-
Rei D. Afonso o Quinto, comendador-mor da Ordem de Cristo; o qual apresentando ao
Sumo Pontífice a embaixada do Infante e renunciação dos ditos Reis, lhe foi outorgado
tudo o que pediu.”59
Ainda de acordo com Zurara, o Infante teria várias razões para o descobrimento
e a conquista de novas terras, entre elas, as mais evidentes seriam: conhecer a costa
africana para além das ilhas Canárias; procurar outros povos cristãos; desenvolver
relações comerciais; defender-se contra os mouros, conhecendo melhor o seu poder
naqueles territórios; procurar aliados cristãos contra os mouros; difundir a fé cristã.
O Infante D. Henrique era um homem privilegiado, se considerarmos que se
encontrava numa posição de maior acessibilidade a todo o tipo de informação que
circulasse no país ou no estrangeiro. Com certeza, a proximidade à Coroa, a sua posição
social e a sua formação permitir-lhe-iam o acesso mais facilitado a várias fontes, às
informações dos autores da Antiguidade ou de fontes medievais, como por exemplo O
Livro de Marco Polo. Desconhecem-se ainda as fontes concretas de informação do
Infante mas aquelas e o contexto económico das rotas comerciais, à época, já poderiam
permitir-lhe projectar o descobrimento do caminho marítimo para a Índia, de onde
vinham há muito as especiarias para a Europa, pelas rotas do mar Vermelho; buscava
também as informações que, desde o século XII, circulavam na Europa, acerca do reino
cristão do Preste João das Índias, com grande probabilidade conhecido dos comerciantes
árabes que controlavam o comércio no Oriente e que, por razões comerciais,
obviamente contactavam com os comerciantes europeus, venezianos e genoveses,
intermediários daquelas mercadorias.
Acreditava-se que aquele rei cristão poderia ser um aliado dos cristãos e de
Portugal, contra os muçulmanos que eram por aqueles considerados como uma ameaça.
Mas as informações sobre a localização deste reino eram contraditórias. Sabia-se da
existência deste reino contudo as informações seriam confusas. Assim, ao longo de

59
D. P. PEREIRA (1505-1508), Op. Cit., pp. 79

36
muitos anos, os portugueses procuraram a localização e o auxílio do reino do Preste
João da Etiópia60:
“Das Alagoas do rio Nilo de que, neste capítulo acima, falamos, temos sabido
que delas um grande braço corre, por meo da Etiópia Inferior, contra oucidente, o
qual, segundo a ordem do caminho que traz das longas terras de que vem, dizem os
61
Etiópios que o rio de Çanagá é; porque de tôdolos rios desta região da Etiópia os
quais por muitos anos cada dia praticamos, sabemos certo que este é o maior, segundo
se mais largamente dirá no capítulo que adiante vier, que do rio de Çanagá falar.”62
Sabe-se que o Infante D. Henrique orientava esta empresa dos Descobrimentos e
parece que antecedia as descobertas por informações concretas, objectivos e cálculos em
vários domínios, além de uma complexa preparação das viagens; escolhia-se o
comandante da expedição, pensava-se no número de naus e de marinheiros, a
quantidade de mantimentos e de água para o tempo de viagem previsto, ao que se
juntavam técnicas e instrumentos de navegação, etc. Eram investimentos consideráveis
para um país com poucos recursos e que, à época, vivia em crise económica. Os
resultados que conhecemos sobre estas expedições indicam que não eram concretizadas
ao acaso, decorriam de estudos de várias fontes escritas, da parte do Infante, do rei D.
Duarte, de contactos múltiplos e variados com o exterior. Eram acções pensadas,
estudadas, aplicadas com ponderação e prudência, ou não teria sido tão rápida e eficaz a
descoberta dos lugares desconhecidos e imprevisíveis. E, de facto, é inegável que se
revelaram muito perigosos em determinadas etapas destas aventuras marítimas.
A costa ocidental africana foi a primeira etapa dos Descobrimentos. Teve a força
do primeiro impacto, sobre os intervenientes directos e depois sobre o mundo; uma
acção que trouxe muitos perigos e muitas novidades que os marinheiros portugueses

46 L. ALBUQUERQUE, Op. Cit., pp.174, “ A ideia de uma extensa Etiópia é confirmada em Santo
Isidoro. Nas Etimologias, depois de nos dizer que os Etiópios são negros porque “ o queima a
proximidade do Sol”, situa a região numa larga faixa transversal da África, que de modo nenhum se pode
identificar com a Etiópia de hoje. O texto de Santo Isidoro diz assim: A Etiópia na parte ocidental é
montanhosa, arenosa no meio e ao oriente deserta. Estende-se desde o monte Atlas até aos limites do
Egipto, ao meio-dia tem o oceano e por setentrião o Nilo. O Nilo aqui referido não podia deixar de ser o
rio dos Negros de Solino e Nunchul de Mela, isto é, o Senegal dos navegadores portugueses. Mas o texto
é ainda mais afirmativo, quando acrescenta: Há duas Etiópias: uma que está próxima da saída do Sol, e
outra que está no ocaso, junto da Mauritânia.
Conclui-se, portanto, que uma tradição geográfica estabelecida desde os primeiros séculos da era cristã
dava o nome de Etiópia a uma larga região que se estendia do Atlântico à contracosta; os seus limites
setentrionais seriam, de ocidente para nascente, a Mauritânia (prolongada até ao rio dos Negros), a Núbia
e o Egipto.”
47 Os habitantes da Etiópia são os guinéus, no século XV.
62
D. P. PEREIRA (1505-1508), Op. Cit., pp. 25

37
tiveram que compreender. Para um marinheiro da Idade Média que, ao longo da vida,
ouviu falar de histórias aterradoras sobre o Mar Tenebroso e o fim do mundo, esta linha
da costa significava um perigo iminente, uma ameaça de morte. Seria de ânimo leve
que, ainda hoje, um homem comum viajaria numa nave em direcção à Lua ou a Marte?
E, além deste obstáculo psicológico que os navegadores tiveram de vencer, com muita
ousadia e coragem, a verdade é que, souberam depois, aquele mar era de facto muito
perigoso, muito agitado, com muitas correntes marítimas e ventos que dificultavam
grandemente a navegação, exigindo conhecimentos avançados sobre as técnicas de
navegar, sobre os ventos e as marés, etc. Por outro lado, a necessidade de encontrar
alternativas económicas para resolver os problemas do país, os objectivos de ir sempre
cada vez mais longe e difundir a fé cristã, eram motivos tradicionais e suficientes para
iluminar o espírito destes marinheiros portugueses que se orgulhavam de combater em
defesa da nação. Eram homens nobres e homens do povo, despertos para as coisas
novas, para a aventura, para arriscar, orientados para recolher e registar todas as
informações sobre os lugares que ninguém conhecia.
Muitas naus portuguesas seguiram na direcção da costa africana por volta de
1420 e 1430. O Cabo Não já era conhecido no século XIV e ultrapassar o mais
assustador - o Cabo Bojador -, a apenas sessenta léguas além do outro cabo, já era com
grande probabilidade a principal preocupação do Infante D. Henrique. Gil Eanes,
enviado pelo Infante, conseguiu dobrar o grande obstáculo do Cabo Bojador em 1434,
constatando que o mundo se alargava a partir dali, muito ao contrário do que se
esperava. E, tendo ultrapassado este cabo intimidatório, as descobertas sucederam-se a
um ritmo mais rápido. No ano seguinte, o mesmo Gil Eanes e Afonso Gonçalves
Baldaia chegaram ao Rio do Ouro, encontrando o ouro, essa enorme riqueza de que
havia notícia na Europa.
Então, estas viagens começaram, naturalmente, a chamar a atenção de um maior
número de pessoas e de nações, mais interessados nos proveitos que delas poderiam
obter. Facilmente podemos deduzir que múltiplas informações sobre as Descobertas dos
portugueses se espalharam, desordenadamente, sobretudo pelos outros países europeus e
pelo continente africano, na segunda metade do século.
Multiplicaram-se as expedições até 1450. O Cabo Branco foi atingido por Nuno
Tristão em 1441 e talvez este tenha sido o primeiro navegador a chegar ao Senegal, ao
rio Gambia e ao Saloum. Em 1444, Dinis Dias descobriu o Cabo Verde e o Cabo dos
Mastros que se situam no território da República do Senegal. E, em menos de trinta

38
anos, os portugueses tinham descoberto e baptizado muitos novos lugares. Este ritmo
acelerado das Descobertas atesta, uma vez mais, a orientação dos marinheiros para
executar um plano, estando dispostos a ir a toda a parte para conseguir notícias novas
para o Infante, sobre os lugares e as gentes que encontrassem, cujas culturas
desconheciam completamente.
Portanto, não se pode afirmar que houvesse certo tipo de premeditações da parte
dos portugueses, por exemplo em relação à exploração dos indígenas destes lugares.
É necessário separar os antecedentes das Descobertas e as suas consequências
directas em novos contextos económicos e culturais. O facto é que os projectos
marítimos do Infante e da Coroa portuguesa alcançaram prestígio, o reconhecimento e o
privilégio papal para continuar a empresa dos Descobrimentos e a divulgação da fé
cristã. Passados alguns anos, as recentes Descobertas eram reconhecidas e valorizadas:
“o mesmo papa Nicolau V, em 8 de Janeiro de 1455, pela bula Romanus
Pontifex, declara que as terras já descobertas ou a descobrir pertenciam ao rei de
Portugal e aos seus sucessores a título perpétuo, proibindo que alguém nelas
penetrasse sem autorização daquele monarca e reconhecendo o monopólio comercial
dos portugueses nesses territórios, incorrendo em pena de excomunhão quem nelas
exercesse comércio sem autorização dos monarcas portugueses.
Pela bula Inter Caetera, de 13 de Março de 1456, o papa Calisto III concede ao
prior-mor da Ordem de Cristo63 [Infante D. Henrique] a jurisdição espiritual nas terras
portuguesas do ultramar, dando-lhe o poder de instituir benefícios eclesiásticos.”64
Na verdade, as conquistas que os monarcas empreenderam na costa africana
foram legitimadas pela Santa Sé, e esse reconhecimento foi também uma conquista dos
portugueses; sendo, desde a sua fundação, uma nação profundamente lutadora e
religiosa, sempre os reis procuraram legitimar as suas conquistas, junto da Santa Sé,
para vê-las reconhecidas internacionalmente. De facto, a 18 de Junho de 1452, pela bula
Dum Diversis, Nicolau V concedeu aos reis de Portugal a autorização e a liberdade de

63
Nova Enciclopédia Larousse, 1994, vol 7: Ordem de Cristo “Ordem que herdou em Portugal, os bens
e muitos dos membros da Ordem dos Templários, extinta pelo Papa Clemente V a instâncias de Filipe, o
Belo, que cobiçava as suas riquezas. Fundada por D. Dinis, foi aprovada (1319) por João XXII, que lhe
atribuiu a regra de S. Bento. A sua sede transferiu-se (1357) de Castro Marim para Tomar. Teve um papel
notável no empreendimento dos Descobrimentos (descoberta, conquista e evangelização de novas terras),
sendo seu administrador o infante D. Henrique. Com D. Manuel (que a chefiou desde 1484), a ordem
ficou dependente da Coroa. A Ordem de Cristo foi secularizada em 1789, extinta em 1910 e restabelecida
em 1918 para premiar altos serviços militares ou civis.”
64
J. C. MAGALHÃES, 1990, pp. 43

39
adquirir os domínios dos muçulmanos e de possuir os seus bens, num contexto de
combate aos infiéis, incitando-os a propagar o cristianismo (e originando o direito de
padroado concedido pelos papas a Portugal, também no Oriente).
Sabe-se que o Infante D. Henrique, sendo o orientador desta empresa dos
Descobrimentos, tinha o apoio da Coroa portuguesa. Frequentemente se regista o desejo
dos próprios navegadores de levarem ao Infante boas novas e provas sobre os lugares
descobertos – por exemplo flores, papagaios, pessoas negras. E o espanto com as novas
realidades não se esgotou em cada viagem; pelo contrário, foi-se expandindo e a
curiosidade também:
“Sem mentir, digo que vi uma grande parte do mundo, mas nunca vi coisa
semelhante a esta.”65
E, a par da surpresa dos navegadores portugueses, também o Infante reagia às
novidades:
“Ao ouvir isto, o Infante Dom Henrique incitou-o a ir saber daquelas terras por
mar para estabelecer comércio com elas e para garantir casa aos seus nobres. O dito
cavaleiro voltou a ter com o senhor Infante e deu-lhe conhecimento de ter encontrado
um mar sereno, mas cum contínuo vento rijo de aquilão e enorme quantidade de peixe
nas costas de tal mar.
O Infante mandou então aparelhar uma nau a que deram o nome de Talbin e
por capitão deu-lhe o copeiro de sua casa, de nome Afonso Gonçalves Baldaia.”66
O interesse do Infante é observável em vários momentos desta narrativa, embora
deva depreender-se que estas iniciativas precisam de um certo tempo de preparação,
meses e até anos, se considerarmos alguns períodos de paragem por outros motivos
políticos nacionais. Não era tudo imediatamente estabelecido, outros interesses se
intercalavam e condicionavam os avanços nas acções marítimas; e, ainda assim, o ritmo
das descobertas foi rápido, orientado pela lucidez deste homem determinado e atento às
mudanças:
“Por outra parte, depois da chegada do senhor Infante da armada com o rei
Afonso, depois do cerco e tomada da cidade de Alcácer, trouxe à memória ao senhor
Infante o que me dissera o rei Nomimans quanto a mandar-lhe tudo o que lhe
encomendara.

65
D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 65
66
D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 53

40
Isso tudo fez o Infante e mandou para ali um sacerdote parente do Cardeal, o
abade de Souto da Casa, para ficar com aquele rei e instruí-lo na fé. Além disso,
mandou com ele um moço da sua câmara, de nome João Delgado. Era isto no ano de
1458.”67
Ainda na mesma linha de raciocínio, o espanto dos marinheiros portugueses
manifestava-se naturalmente em relação a tudo o que viam, até a existência de redes de
pesca, feitas à maneira dos africanos, que denunciavam sem dúvida a presença humana.
E transportavam para Portugal essas surpresas visíveis, causando forte impressão junto
do Infante:
“Chegaram à costa do mar que toma o nome de Rio do Ouro, onde acharam
muitas redes feitas com cascas de árvores, porque naquele lugar há imensa actividade
de pesca.
Admirou ele [o senhor Infante] as redes que traziam com eles feitas pelos
homens daquela terra.”68
Compreensivelmente, este mesmo espírito se manifestou em relação às pessoas
que encontraram naqueles lugares:
“E vendo eles que nada aproveitavam, regressaram a Portugal e deram novas
de tudo ao senhor Infante.
Com isso o senhor Infante ficou muito satisfeito, pois tinham encontrado rasto
de gente.”69
Parece-nos que perante as diferenças encontradas nos nativos etiópios, os
navegadores pioneiros nesta aventura não hesitaram em mostrar as diferenças humanas
daquelas gentes ao senhor Infante, o príncipe D. Henrique que organizava todas estas
expedições marítimas:
“Ordenou-lhes que fossem até ao Rio do Ouro e que, se encontrassem gente,
fizessem tratado de paz com ela. Assim foram até ao Rio do Ouro; de noite foram com
batéis até à costa e ao alvorecer viram uma gente que vinha tirar água a um poço.
Cheios de satisfação, saltaram em terra com as suas armas e apanharam treze
homens e mulheres, enquanto o resto fugia. (...) E voltaram a Portugal, a ter com o
senhor Infante que muito se alegrou em sua companhia.
Por esses teve início o conhecimento daquela região. (...)

67
D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 86
68
D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 55
69
D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 57

41
O senhor Infante ficou a saber por eles o caminho para chegar a Tambucutu.
Disseram-lhe muitas mentiras.”70
Assim, o Infante D. Henrique ia recebendo novos dados sobre os novos lugares.
E das viagens da Descoberta traziam-se desta forma muitas informações concretas, que
o Infante aproveitava e adequava aos seus objectivos em vários domínios. Eram
investimentos consideráveis para um país que, à época, como em toda a Europa, vivia
dificuldades económicas e transformações sociais irreversíveis, como a falência do
feudalismo e as necessidades crescentes de rendimento por parte das classes senhoriais
que provocavam a ineficiência deste modo de produção. Também devido às
rudimentares técnicas de produção utilizadas nos trabalhos agrícolas, tornaram-se
insuportáveis as exigências dos senhores aos servos; como consequência das miseráveis
condições de vida dos trabalhadores, emergiu a burguesia e criaram-se novas
oportunidades sociais.
Portanto, estas expedições não eram concretizadas ao acaso, não poderiam
expor-se ao fracasso e perder tudo, embora fossem sempre um risco, como qualquer
investimento. Tal como nos nossos dias, investir era difícil e inseguro, exigindo adquirir
certo tipo de informações e de condições estratégicas. Com tempo para um certo
amadurecimento, faziam-se estudos de várias fontes escritas, mantinham-se e
promoviam-se contactos diversos com o exterior. Eram acções e investimentos que
levaram à descoberta de uma tão grande extensão de lugares imprevisíveis, em que
muitos pereceram. Neste contexto da Natureza, da navegação e do armamento, muitas
coisas não se podiam prever, por desconhecimento, e haveria muitas outras que
eventualmente nos ocorrem, designadamente: a especificidade dos perigos a que se
expunham naqueles mares e terras nunca antes visitados; distância a percorrer até
àqueles lugares; espaço e duração das viagens; dificuldades que teriam de enfrentar na
resolução de novos problemas náuticos, climáticos ou outros; número de marinheiros;
clima adverso; doenças; tipo de alimentação no mar e noutros lugares; receptividade
(amigável ou hostil) das gentes que encontrassem; adequação do armamento que
possuíam para a defesa e o ataque.
Um século depois, ainda está bem viva a memória das vidas que se perderam
nestas expedições marítimas, que Luís Vaz de Camões, n’ Os Lusíadas, não deixa cair

70
D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 57-59

42
no esquecimento e situa-nos, em vários momentos da epopeia, nesse contexto do perigo
e das incertezas, tanto no mar como em terra:
“No mar, tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida;
Na terra, tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?”71
Apesar de tudo, os portugueses partiram intencionalmente de Portugal para
descobrir novos mundos; e pela primeira vez na História mundial, contornaram o
continente africano, chegaram à Índia por via marítima e viram o Brasil.
A descoberta da costa ocidental africana foi a vivência de toda uma realidade
nova, diferente e estranha. Foi uma acção que trouxe muitos perigos e muitas novidades
que os marinheiros, portugueses e estrangeiros, ao serviço do Infante D. Henrique,
tiveram de compreender, foram postos à prova para algo que nunca tinham visto, ouvido
ou sentido.
Caminhando para o desconhecido, os navegadores partiam de Lagos, no
Algarve, ou do Restelo, em Lisboa, ao serviço da Coroa portuguesa ou do Infante D.
Henrique que orientavam este projecto de Estado, virados para a conquista do Oceano
Atlântico, além do estreito de Gibraltar e do Norte de África, já sobejamente conhecidos
e explorados pelos povos do Mediterrâneo.
Como se prepararam para o desconhecido? Que experiência tinham para se
lançarem em aventuras no mar “Oceano”? Que marinheiros se colocavam nestas
expedições?
Diogo Gomes aponta-nos muitos dos primeiros navegadores e caracteriza-os, o
que nos permite identificar as classes sociais, a posição social dos navegadores
escolhidos para comandar as expedições e desbravar os caminhos ocultos:
“No ano do Senhor de 1415, um fidalgo do Reino de Portugal, D. João de
Castro (que era capitão da armada feita pelo Infante D. Henrique...) navegando pelo
Mar Atlântico, (...)” 72

71
L. V. CAMÕES (1572), Op. Cit., Canto I, est. 106

43
“Por outra parte, no ano seguinte, 1416, mandou o senhor Infante Dom
Henrique um nobre cavaleiro, de nome Gonçalo Velho, passar além das ilhas
Canárias.”73
No início da expansão, logo os fidalgos da corte eram chamados a cumprir esta
grande responsabilidade, como uma missão de guerra ou de paz, e nem sempre bem
sucedida, vendo-se de repente e frequentemente em grandes dificuldades que os
obrigavam a regressar ao reino.
As escolhas dos comandos das tripulações para estas viagens incidiam
naturalmente sobre nobres cavaleiros e sobre aqueles que, com certeza, o Infante já
conhecia bastante bem, confiando-lhes altas responsabilidades como a de comandar
viagens que representavam muitas dificuldades, que exigiam experiência de navegação
e de vida; daí que muitos deles tivessem já uma idade avançada. Mas, por outro lado,
colocava também homens jovens, capazes, da sua confiança, mais fortes e resistentes,
acautelando assim outros imprevistos, partilhando as virtudes de todos os que lhe
estavam mais próximos e que aceitassem esses desafios da aventura marítima, pelo
prestígio da nação:
“O Infante mandou então aparelhar uma nau a que deram o nome de Talbin e
por capitão deu-lhes o copeiro de sua Casa, de nome Afonso Gonçalves Baldaia. Com
ele mandou dois moços fidalgos com dois cavalos (...)”74
“Imediatamente, o senhor Infante fez uma armada de duas caravelas e mandou
por capitão-mor um cavaleiro já de idade que se chamava Nuno Tristão; por capitão
em outra caravela ia Antão Gonçalves, muito moço, que depois teve o castelo de
Tomar, com outros moços da câmara do senhor Infante”75
Estes homens, com experiências de vida diferentes, tinham contudo o
denominador comum de alguma proximidade ao príncipe, ao Infante D. Henrique, que
também não deixava de os premiar, de os recompensar pela coragem e valentia
demonstradas. Portanto, muitos alcançaram grande prestígio no reino em consequência
das suas acções nas Descobertas, tal como este Antão Gonçalves, por exemplo.
São homens e navegadores portugueses, com estas características, que atingem o
rio Senegal e o Cabo Verde, onde ainda hoje é considerado e homenageado o primeiro

72
D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 51
73
D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 53
74
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 53-54
75
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 57

44
navegador português que ali desembarcou, Dinis Dias, embora se pense que Nuno
Tristão terá sido o primeiro a chegar a estes sítios:
“Depois o senhor Infante expediu caravelas: numa ia alguém da sua própria
Casa, de nome Gonçalo de Sintra, e noutra um certo Dinis Dias; e queria que fossem
além do lugar chamado Pedra da Galé, para ver se mais longe poderiam apanhar ou
descobrir mais línguas (...)”76
A partir do momento em que fizeram o reconhecimento desta região, as viagens
passaram a ter não só o objectivo da descoberta desses lugares, mas também a
descoberta de novas áreas e rotas de mercado com os indígenas, o que obrigava a uma
maior eficácia da comunicação com os nativos – “descobrir mais línguas” - para obter
as informações necessárias sobre os produtos, os interesses dos intervenientes e dos
intermediários. Para isso, procuraram formas para desenvolver as trocas comerciais mas
também para as facilitar, passando pela necessidade de criar uma maior proximidade.
Assim, foi provavelmente quando descobriram um lugar onde afluíam periodicamente,
de forma sustentável, muitos comerciantes africanos para transaccionarem os seus
géneros, que em Portugal se decidiu construir uma fortaleza, para se instalarem
definitivamente e com maior segurança nesses circuitos comerciais, também para
defender o território contra os infiéis e instruir os nativos na fé cristã. Era também um
lugar aprazível, na ilha de Arguim, na actual Mauritânia:
“Mais além chegaram a um lugar que agora tem o nome de Arguim. (...)
A ilha tem muitos lugares onde nasce água doce na areia.
Por causa disso, o senhor Infante mandou depois fazer aí uma fortaleza.
Pôs aí gente segura de cristãos com um sacerdote de nome Polono, da vila de
Lagos, o qual foi o primeiro que celebrou os ofícios divinos na Guiné (...). Esta
fortaleza foi construída no ano de 1445.”77
Foi o lugar escolhido preferencialmente pelos navegadores, pelas condições
mais favoráveis que oferecia à presença humana, ficando a meio caminho entre o que
conheciam (que não ia além da Serra Leoa) e Portugal. Parece representar, assim, uma
estratégia para abranger e controlar melhor a totalidade dos territórios descobertos,
geridos unicamente pelos portugueses, naquela altura. Estas motivações podem
justificar o facto de os portugueses não terem uma presença mais forte no Cabo Verde,

76
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 59
77
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 59 e 61

45
no actual Senegal, desde que conheceram aqueles lugares, tendo-se adaptado às
circunstâncias que encontraram, e traçando sempre os seus objectivos em consonância
com aquilo que iam descobrindo, num processo de causa/ efeito. Muito cedo, montaram
essa estratégia que, à época, e naquele ponto das aventuras era mais benéfico e seguro
instalarem-se em Arguim do que no Cabo Verde, que acabavam de conhecer. Estando já
bastante distante do reino, as viagens até ao Cabo Verde eram necessariamente mais
penosas e dispendiosas do que a partir de Arguim, tanto para Norte como para Sul:
“De novo o senhor Infante fez uma armada de quatro caravelas. Os capitães:
Gil Eanes de Vilalobos, cavaleiro; Lançarote, almoxarife do Rei em Lagos; Nuno
Tristão e Gonçalo Afonso de Sintra. E houve muitos homens de nobreza que foram a
Arguim (...)”78
Deste modo, talvez possamos compreender mais facilmente por que motivos os
piratas e os outros europeus se introduziram rapidamente nos territórios do actual
Senegal, dado que as orientações dos portugueses se desviaram, mais para Norte e, mais
tarde, situaram-se também mais a Sul, nos territórios da actual Guiné-Bissau e outros
circundantes; isto também porque, tendo sido os primeiros a chegar ao continente
africano, procuraram a zona onde o comércio era mais intenso e onde os nativos eram
menos agressivos, pois, nas primeiras viagens ao Cabo Verde há notícia de tripulações
dizimadas, quase por completo, pelos negros que atiravam setas envenenadas ou que
atacavam de surpresa e de forma traiçoeira os visitantes que se aproximassem de terra,
como veremos mais adiante:
“Depois de o senhor Infante ter sabido notícias tão horrendas mandou uma
caravela armada de paz e de guerra, indo nela por capitão o já referido Nuno Tristão
que havia estado nas terras dos Cenegas com outros nobres. De Portugal navegaram
directamente até Cabo Verde.”79
É muito importante a atitude do Infante e dos navegadores perante os indígenas.
Enquanto transportava largos investimentos para as expedições marítimas, igualmente
ia sabendo de acontecimentos nefastos junto dos navegadores que comprometia nestas
viagens; não seria muito agradável perder as tripulações, ou as embarcações, ou
desviarem-se e não concretizarem os seus objectivos:

78
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 61
79
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67

46
“Ao ouvir contar as notícias desagradáveis da morte dos seus cristãos, o senhor
Infante ficou muito triste. Andava então pelo seu paço um certo fidalgo do Reino da
Suécia que viera a Portugal para ser armado cavaleiro além-mar, em África; era seu
nome Abelhart. Desejando ele ver terras estranhas e principalmente as da Guiné,
rogava ao senhor Infante que o mandasse a tais paragens; anuiu o senhor Infante ao
seu pedido e deu-lhe uma caravela armada com alguns nobres da sua corte.”80
Se considerarmos os contextos de “notícias desagradáveis”, torna-se mais
compreensível que o Infante recebesse, de bom grado, a ajuda de outros príncipes ou de
estrangeiros destemidos, impressionados com estas aventuras inovadoras, como este
fidalgo da Suécia.
Por outro lado, não hesitava e continuava a armar caravelas para novas viagens,
com recurso a homens próximos da sua câmara ou do próprio rei:
“Não muito tempo depois, o senhor Infante armou uma caravela de Lagos que
tomava o nome de Picanço e fez seguidamente Diogo Gomes capitão dela. Armou
também outras duas caravelas para irem além. Fez de Diogo Gomes o capitão-mor
destas caravelas e numa das outras ficou como capitão João Gonçalves Ribeiro, criado
do Infante, enquanto na outra ficava Nuno Fernandes Baía, escudeiro do mesmo
Infante. E mandou-lhes que fossem além o mais que pudessem.”81
Neste caso, trata-se da experiência do navegador português, cujo manuscrito
temos vindo a consultar. Refira-se que, apesar da polémica que existe acerca da origem
deste texto, partilhamos a posição apresentada por Aires A. Nascimento que atribui a
autoria desse documento a Diogo Gomes de Sintra. Trata-se das informações recolhidas
por um português, que passou de forma marcante pelos territórios descobertos,
inclusivamente pelo território actual do Senegal. Para nós, tem grande valor a
experiência de uma testemunha ocular, de um navegador que teve contacto directo com
as novas realidades e com as novas gentes. Ainda que nos pareça que muitos destes
dados tenham sido escritos ou registados muito posteriormente aos acontecimentos ou
que possam ter sido adulterados ao longo dos tempos por algum possuidor do
documento, a verdade é que está aqui presente a cultura dos Descobrimentos que se
conhece e aceita em outros textos sobre as Descobertas.

80
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 69
81
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 69 e 71

47
Diogo Gomes empreendeu viagens ao serviço do Infante e do rei D. Afonso V,
teve várias oportunidades para aprofundar os seus conhecimentos na região do Senegal,
que nos interessa especificamente:
“Dois anos depois, porém, o rei Dom Afonso armou uma grande caravela, em
que me mandou por capitão. Levava eu dez cavalos comigo e fui à terra dos Barbacins
(...). O rei deu-me poder sobre as costas do mar, de tal modo que todas as caravelas
que encontrasse em terra da Guiné ficassem sob minha jurisdição ou domínio (já que
ele sabia que ali havia caravelas que levavam espadas e armas para os mouros),
ordenando-me que as trouxesse sob prisão até ele em Portugal”82
Reflecte-se até uma querela entre Diogo Gomes de Sintra e o genovês António
de Noli, acerca do descobrimento das ilhas de Cabo Verde, por ambos afirmarem ter
sido os primeiros a pôr o pé naquele arquipélago, precisamente na sequência desta
viagem ao Cabo Verde, em que se cruzaram e navegaram lado a lado; a descoberta tem
sido atribuída ao genovês, mas a questão ainda não parece estar cabalmente esclarecida:
“Com a ajuda de Deus em doze dias cheguei aos Barbacins e achei ali duas
caravelas, a saber, uma em que ia Gonçalo Ferreira, criado da Casa do senhor Infante,
homem morador no Porto, cidade de Portugal, que transportava cavalos para ali. Na
outra caravela estava como capitão o mercador genovês António de Noli, que também
transportava cavalos.”83
Partiam as naus com tripulações diminutas, inicialmente nem todos arriscavam o
seu futuro nestas aventuras, principalmente sem saberem se tirariam algum proveito
disso; por outro lado, o país não tinha muitos recursos e o investimento nestas viagens
era exigente e elevado; por isso, tudo era pensado, calculado com peso e medida, diante
de muitas incertezas sobre o que iriam encontrar e/ou ganhar. Outras dificuldades havia
como, por exemplo, os mantimentos que não se podiam conservar com segurança, com
facilidade, durante tempo incerto, em quantidades que de todo não podiam prever de
forma exacta se seriam as necessárias, as suficientes ou as melhores para lhes
permitirem resistir aos perigos ocultos em situações imprevisíveis.
Estas fragilidades, à partida, revelam também a enorme força do projecto do
Infante D. Henrique e do Estado português, que não se detiveram perante os obstáculos,
porque tinham objectivos firmes, inquestionáveis, e que muitos até transformaram na

82
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 89
83
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 90

48
oportunidade para encontrar uma vida melhor. O povo vivia numa grande pobreza; era
necessário lutar e arriscar para sobreviver. O Estado procurava soluções, tomava a
iniciativa para resolver problemas do país, buscava novas riquezas (metais preciosos,
especiarias da Índia, e outros produtos de difícil acesso em mercados longínquos),
novos caminhos e mais curtos para os mesmos produtos que poderiam obter, na fonte, a
mais baixos preços; teriam um mercado mais lucrativo, sem concorrência, e acederiam a
esses produtos que há muito escasseavam na Europa.
E, na sequência do espírito cavaleiresco medieval, muitos nobres estavam
dispostos a travar batalhas contra os infiéis ou conquistar novos lugares pelo prestígio
d’El-Rei de Portugal.

1.3. Os indígenas da Guiné

Segunda razão do Infante

“E a segunda foi porque considerou que, achando-se em aquelas terras alguma


povoação de Cristãos, ou alguns taes portos em que sem perigo pudessem navegar, que
se poderiam para estes reinos trazer muitas mercadarias, que se haveriam de bom
mercado, segundo razão, pois com eles não tratavam outras pessoas destas partes, nem
doutras nenhumas que sabidas fossem; e que isso mesmo levariam para lá das que em
estes reinos houvesse, cujo tráfego trazeria grande proveito aos naturaes.”84

Efectivamente, os portugueses vieram a desvendar mistérios que existiam desde


a Antiguidade Clássica, que os autores greco-latinos tinham difundido com base em
ideias fantasiosas sobre o Mar Tenebroso e sobre o litoral do continente africano, sem
contudo o terem visto, sem viverem a experiência do contacto com as realidades que
descreviam com tanto pormenor. Mas também existiam muitas lendas do conhecimento
do povo, e basta observar algumas das mais antigas representações do Mundo, para
termos a percepção destas influências até ao século XV:
“Num primeiro grupo, que teve muita aceitação nos meios religiosos, devem ser
reunidos os pequenos diagramas circulares onde é corrente a representação
esquemática do mundo conhecido, de acordo com os textos bíblicos. (...)

84
G. E. ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. VII, pp. 44-49

49
Num segundo grupo deveremos juntar todos os planisférios e mapas, de nítida
filiação nos esquemas anteriores e na geografia erudita do cristianismo, onde se
anotam as representações, quase sempre imprecisas e profundamente erradas, de
países e acidentes mais conhecidos.
Num último grupo, de origem mais recente, terão de ser reunidos todos os
documentos cartográficos subsidiários das cartas náuticas, por terem sido desenhados
por cartógrafos que também eram autores destas ou que delas se serviram ao traçar a
representação do mundo que então se sabia ser habitado pelo homem.”85
De tal modo, que até à Idade Média, essas lendas intocadas resistiram,
convenceram, assustavam e dissuadiam muitos da exploração daqueles espaços. Entre
muitos documentos, apresentamos um exemplo, sobre lugares ainda próximos de
Portugal, citado pelo mesmo autor, Luís de Albuquerque, na mesma obra:
“Item. Está, pois, a ilha Canária, dita Canária pela grande quantidade de cães
que estão nela, muito grandes e fortes. Diz Plínio, mestre de mapas-mundo, que nas
ilhas Afortunadas há uma ilha onde crescem todos os bens do mundo, e sem semear e
sem plantar crescem todos os frutos. [...] Por este motivo acreditam os pagãos das
Índias que, quando morrem, vão as suas almas para aquelas ilhas e vivem por todo o
tempo do odor daqueles frutos e eles crêem que é o seu paraíso; mas para dizer a
verdade, isto é fábula.”86
Ainda gostaríamos de apresentar outra referência ao texto de um dos autores
mais influentes em Portugal e Espanha, à época, Pompónio Mela:
“No seu pequeno tratado de Geografia, Pompónio Mela não se limitou a
localizar as regiões do Mundo e a descrevê-las: acrescentou aos dados estritamente
geográficos indicações sobre a fauna, usos e costumes desses países; e é neste aspecto
que o livrinho se afasta muito da realidade, pois dá tal crédito a fantasias que o seu
autor é muito justamente apontado como um dos pioneiros desta literatura de
maravilhas.”87
Refira-se também o mais conhecido texto de John de Mandeville, dentro da
literatura deste género:
“O autor, imputando ao seu personagem uma longa viagem que nunca fez,
meteu na história dessas fingidas andanças pelo Mundo tudo quanto pôde encontrar de

85
L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 110-111
86
L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 120
87
L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 134

50
mais extraordinário na então já vasta bibliografia dessa geografia fantástica; e os
romances de cavalaria, dando aqui e além umas pinceladas romanescas, ajudaram a
compor os ingredientes de que saiu essa obra que é muito justamente considerada como
uma das maiores mistificações que a história da geografia regista.
Aparecem neste livro: as montanhas que vão para além das nuvens e dão
sombra com oitenta e seis milhas de extensão; a torre de Babilónia, morada de
dragões, serpentes e outros animais venenosos que não consentiam a aproximação de
visitantes; o “ paraíso terreal”, situado na mais alta montanha da Terra, tão alta que
tocava a Lua; e todos os lugares-comuns que os seus antecessores tinham
laboriosamente inventado – a Fénix, as trevas perpétuas no Norte da China, as
riquezas incríveis na mesma China e do Egipto, etc.
O que singulariza Mandeville é, porém, o poder de convicção com que redige as
maiores patranhas, conferindo-lhes um tom de autenticidade que elas não possuíam
noutros autores (…).)”88
Há ainda a considerar a grande difusão na Europa do Livro de Marco Polo:
“ O Livro de Marco Polo difundiu-se por toda a Europa e é muito de aceitar que
tenha entrado em Portugal na bagagem do infante D. Pedro, quando ele em 1428
regressou da sua jornada pelas “sete partidas”, como nos diz Valentim Fernandes no
intróito da edição em língua portuguesa que do texto nos deu. Porém, em relação ao
“plano da Índia”, Marco Polo apenas poderia ter sido um dos factores auxiliares que
contribuíram para o seu desabrochar; só mais tarde, tal como o foi para Colombo,
teria servido de meio de informação, o que, de resto, a edição portuguesa do princípio
do século XVI claramente denuncia.”89
Sobre estas maravilhas que se contavam, também se pronuncia Diogo Gomes de
Sintra, contrariando Ptolemeu, um dos grandes mestres antigos da Geografia que
influenciou a Idade Média e a Renascença. Contudo, há que ter em conta que a obra
deste autor só foi traduzida, vertida para Latim no século XV, o que inviabiliza
seguramente a sua grande influência nos Descobrimentos portugueses:
“Estas coisas que aqui se escrevem damo-las com a devida vénia do ilustríssimo
Ptolemeu, que muito de bom escreveu acerca da divisão do mundo, mas nesta parte
enganou-se. Escreveu, com efeito, que o mundo se dividia em três partes: uma povoada

88
L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 138
89
L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 130

51
que ficava a meio do mundo; a setentrional, segundo escreveu, não era povoada devido
ao frio excessivo; escreveu também que a parte equinocial do meridião era também
desabitada por causa do calor excessivo. Descobrimos que tudo era diferente.”90
Na verdade, ao contrário do que sucedera com as descobertas das ilhas da
Madeira e dos Açores, que posteriormente vieram a ser povoadas pelo reino de
Portugal, havia gente muito diferente e estranha na costa da Guiné, nunca antes visitada:
“Na viagem, passaram além do cabo de Tofia e acharam uma terra despovoada
e arenosa, como a anterior, sem vegetação nem àrvores. Indo mais além depararam
com uma terra cheia de àrvores, nomeadamente palmeiras, e saíram a terra. A sua
gente era toda negra.”91
No primeiro contacto, considerar o impacto da novidade é fundamental para
compreender os acontecimentos e, parece-nos, não se pode sequer esquecer ou
desvalorizar este aspecto, sob pena de se distorcerem os factos. Ao conhecerem os
habitantes destas terras, colocavam-se novas situações à presença dos portugueses nos
territórios da costa ocidental africana, onde tem início uma História comum, europeia e
africana, incluindo os territórios do actual Senegal que queremos observar.
Como poderíamos caracterizar estes contactos pioneiros? Que importância e que
influência têm no futuro destes povos?
O contexto da situação de comunicação era novo para os visitantes e para os
nativos. As gentes e os lugares, à primeira vista, apresentavam características distintas.
Os estrangeiros surgiram de repente, vindos do mar, navegando, eram brancos e
maioritariamente homens (há poucas notícias sobre mulheres que embarcassem nestas
primeiras expedições de exploração marítima). Camões, mais de um século depois
destes acontecimentos, não deixa de recordar esse contexto da dor dos marinheiros, na
hora da partida para aquelas viagens incertas; lembra-nos esses dramas humanos da
separação das famílias e dos amigos:

“A gente da cidade, aquele dia,


(uns por amigos, outros por parentes,
Outros por ver somente) concorria,
Saudosos na vista e descontentes.
E nós, co a virtuosa companhia
De mil religiosos diligentes,

90
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 63 e 65
91
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 63

52
Em procissão solene, a Deus orando,
Pera os batéis viemos caminhando.

Em tão longo caminho e duvidoso


Por perdidos as gentes nos julgavam,
As mulheres cum choro piadoso,
Os homens com suspiros que arrancavam.
Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso
Amor mais desconfia, acrecentavam
A desesperação e frio medo
De já nos não tornar a ver tão cedo.

(...)

Qual em cabelo: “ Ó doce e amado esposo,


Sem quem não quis Amor que viver possa,
Porque is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha e não é vossa?
Como, por um caminho duvidoso,
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento,
Quereis que com as velas leve o vento?”

(...)

Nós outros, sem a vista alevantarmos


Nem a Mãe, nem a Esposa, neste estado,
Por nos não magoarmos, ou mudarmos
Do propósito firme começado,
Determinei de assi nos embarcarmos,
Sem o despedimento costumado,
Que, posto que é de amor usança boa,
A quem se aparta, ou fica, mais magoa.”92

Naturalmente, estas experiências vividas pelos portugueses nestas viagens


estavam fora do alcance dos africanos a Sul do Sara. Os autóctones daqueles sítios
longínquos, integrados numa paisagem específica, apresentavam aspectos humanos,
alguns semelhantes e outros diferentes; tinham a pele negra, eram homens, mulheres e
crianças. Também as indumentárias terão impressionado uns e outros, dentro das suas
referências culturais, e terão ultrapassado o horizonte de expectativa de ambos os lados,
com certeza. As modas eram outras. As experiências sobre o mundo também divergiam,
só de ver e de olhar:

92
L. V. CAMÕES (1572); Op. Cit., Canto IV, est. 88-93

53
“As caravelas, indo além de Cabo Verde, ou seja, em direcção ao polo
antárctico, descobriram uma terra desabitada. Avançando mais além descobriram uma
grande praia e chegaram a ela com os seus batéis. E logo saiu das árvores gente em
número de cor negra.”93
Para os exploradores portugueses, o calor, a flora e a fauna causariam sensações
novas e estranhas aos sentidos, não só pelo que havia de diferente mas também pelas
semelhanças que encontravam na terra e nos seres. O mundo estendia-se aos seus olhos
com aspectos novos que apreenderam dentro das suas referências culturais e que, quase
inadvertidamente, foram transplantadas por eles próprios para estes sítios e em contacto
com estas gentes distintas.
Afinal, não se cruzaram com monstros marinhos nem o mar entrou em ebulição,
nem sabiam desta gente negra. Facilmente concluíram que o senhor Infante tinha razão
para querer que atravessassem aquele mar “Oceano”, para ir “mais além”; estava
portanto bem informado e muito melhor do que quaisquer outros príncipes da Europa.
Tinham diante dos olhos a prova de todas as expectativas do Infante e logo isso lhes
servia de novo estímulo psicológico para continuar a participar nesta grande e corajosa
empresa dos Descobrimentos, um projecto que só traria prestígio a estes aventureiros,
ao Infante e à Coroa portuguesa. Renovava-se o estímulo com a descoberta seguinte e
entusiasmavam-se com a possibilidade de trazer as novidades a Portugal, juntamente
com as provas que pudessem encontrar, tudo o que estivesse ao seu alcance. Renovava-
se a confiança no futuro.
Houve entendimento entre os portugueses e os nativos daquelas terras?
Como estabeleceram o contacto? Como comunicaram?
Diogo Gomes de Sintra conta vários episódios cujas consequências dependiam
ou da capacidade de comunicar dos estrangeiros ou da receptividade dos indígenas:
“ Os cristãos faziam-lhes sinais de paz, mas eles não entenderam. Mandaram-
lhes os cristãos mercadorias que tinham trazido com eles a terra, mas eles receberam-
nas sem se disporem a falar. Os cristãos bem teriam podido apanhar alguns, mas não
ousavam fazê-lo pois o senhor Infante tinha-lhes mandado que não lhes fizessem nada
de mal e assim eles lhes fizeram.”94

93
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67
94
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 63

54
Em primeiro lugar, os navegadores ao serviço do Infante não ousariam quebrar
as suas orientações e as instruções que recebiam seriam de um rigor extremo, sendo
inquestionável a admiração pelo príncipe. Mas a adaptação dos navegadores não foi
fácil, com certza, e nem todos teriam saúde que resistisse àquelas mudanças climáticas
fortes e repentinas.
Perante aqueles homens novos, era necessário comunicar. As mercadorias,
objectivas e concretas, apresentadas directamente, seriam um sinal dos interesses dos
estrangeiros em trocar os seus produtos, levaria à acção idêntica da parte dos que ali
viviam, mas a comunicação verbal seria impossível por desconhecerem a língua uns dos
outros. Portanto, uma característica comum aos visitantes e aos autóctones seria a
própria capacidade, desejo e necessidade de comunicar95; além da prática da utilização
de um turgimão / língua, teriam de recorrer a formas não verbais de comunicação e os
conteúdos das mensagens seriam de uma enorme simplicidade, seriam sinais humanos
gestuais, universais, muito óbvios, concretos, para se entenderem; esses aspectos
humanos universais devem ter sido a base da comunicação entre os indígenas e os
visitantes portugueses. Diríamos que esses conteúdos universais deveriam abranger tudo
aquilo de que um ser humano precisa para viver em contacto com uma determinada
comunidade e com a natureza.
Apesar das diferenças humanas encontradas (no início, a cor da pele, a
indumentária, a expressão verbal), houve um reconhecimento mútuo e imediato de seres
humanos, homens e mulheres. Mas a curiosidade e a criatividade humanas, de ambos os
lados, não pararam na observação do que lhes era estranho. Desde os primeiros
encontros, esta identificação psicológica existiria, o que de certa forma contribuiria para
aproximar estes grupos humanos de origens e culturas distintas. Sem falarem a mesma
língua, os primeiros contactos entre os portugueses e os guinéus, basear-se-iam num
conhecimento intrínseco dos aspectos humanos universais, o que nem sempre foi
pacífico. Eram contactos que ofereciam dificuldade, à partida, e portanto desenvolviam-
se resistências de ambas as partes; seriam lentos e complicados, cansativos e a precisar
de uma enorme paciência e dedicação. Teriam de criar as condições para uma atmosfera
de confiança entre os interlocutores, sob pena de não se entenderem e de não
conseguirem os objectivos a que se propunham. Seria contudo raro este tipo de relação

95
CARVALHO, José G. Herculano de, Teoria da Linguagem, Natureza do Fenómeno Linguístico e a
Análise das Línguas, Coimbra Editora, vol I, 6ª Ed, Coimbra, 1983, pp. 11-54

55
calma e pacífica. Muitas vezes, os indígenas atacaram imediatamente, com as suas setas
envenenadas, aqueles que consideravam como invasores ou inimigos. Por outro lado, os
visitantes tinham de aceitar os termos do negócio impostos por aquelas gentes.
Além de ficarem impressionados com a nova paisagem, os navegadores
portugueses foram surpreendidos por estas habilidades dos negros que apareciam e
desapareciam repentinamente debaixo do seu olhar e não esperavam, com certeza, a
recepção daquela gente do reino de Beseguiche:
“ (...) Avançando mais além, descobriram uma grande praia e chegaram a ela
com os seus batéis. E logo saiu das árvores gente em número de cor negra.
O senhor daquela gente, de nome Beseguiche, era homem malvado e traiçoeiro
e todos os seus vizinhos o odiavam pela sua extrema malvadez; atirou ele setas
envenenadas aos cristãos e ficaram alguns cristãso feridos e imediatamente morreram
do veneno (...) Não tendo entrado em terra, regressaram eles ao rio Cenega, onde
encontraram as outras caravelas suas e assim todos regressaram a Portugal.”96
Estas “notícias horrendas” chegavam ao senhor Infante que mudava de estratégia
consoante os acontecimentos relatados pelos navegadores, que experimentavam
situações novas como esta e se sujeitavam a perder a vida nestas aventuras junto de
povos e de culturas desconhecidos.
Não perdendo o entusiasmo, o Infante de novo mandou uma caravela armada de
paz e de guerra, indo nela por capitão Nuno Tristão que havia estado nas terras dos
Cenegas com outros nobres:
“De Portugal navegaram directamente até Cabo Verde avançando para além,
até uma terra de homens malvados a que dão o nome de Sereres. Encontraram muitos
deles na praia do mar com arcos e setas envenenadas e não quiseram eles falar com os
cristãos.”97
Não parece ter sido fácil desembarcar nestas terras dos Cenegas, muito menos
comunicar com eles, pois em cada etapa que os portugueses venciam, acontecia uma
surpresa indesejável, no mar ou em terra:
“Avançando para além, navegaram para terra de Barbacins e descobriram um
pequeno rio que agora tem o nome de rio Nuno Tristão. Indo além depararam com
muitos negros dessa terra em almadias dentro do rio e fora dele no mar. Com setas

96
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67
97
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67

56
envenenadas mataram eles todos estes cristãos, tomaram a caravela, puxaram-na para
dentro do rio e fizeram-na em pedaços. Eu, Diogo Gomes, muito tempo depois, tive uma
âncora do rei dos negros que me fez presente dela.”98
Encontraram muita resistência dos indígenas ao longo da costa africana que
descobriram. Estes primeiros passos dos portugueses em terras de Cenega não foram
fáceis, foi necessário negociar, fazer contratos de paz e colocaram-se outras questões
como a necessidade de comunicar de forma eficaz. Apesar de levarem os “língua” como
intérpretes para falar com as gentes negras, estas revelaram-se agressivas e mantinham a
distância contra os invasores dos seus territórios, atacavam frequentemente as
embarcações portuguesas, demonstrando assim que estavam habituados a contextos de
guerra, com técnicas específicas para afugentar os inimigos. E os navegadores tiveram
de se proteger destes ataques, tendo sido obrigados várias vezes a regressar a Portugal.

1.4. O comércio no Cabo Verde

Terceira Razão do Infante

“A terceira razão do Infante foi porque se dizia que o poderio dos Mouros
daquela terra d’Africa era muito maior do que se comummente pensava, e que não
havia entre eles Cristãos nem outra alguma geração. E porque todo sisudo, por natural
prudência, é constrangido a querer saber o poder de seu inimigo, trabalhou-se o dicto
senhor de o mandar saber, para determinadamente conhecer até onde chegava o poder
daqueles infiéis.”99

Além da descrição da geografia e das gentes que os exploradores portugueses


encontraram, interessa-nos neste momento observar principalmente o tipo de relações
comerciais que se estabeleciam entre as gentes que habitavam aquelas terras, entre si e
com estes estrangeiros, à época. Muitíssimas expedições marítimas se organizaram em
Portugal até se desenhar a costa ocidental africana:

98
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67
99
G. E. ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. VII, pp. 44-49

57
“O senhor Infante mandou que as caravelas avançassem mais além. Indo,
porém, de paz e de guerra, descobriram um cabo belíssimo que entra pelo mar a que
deram o nome de Cabo Verde. (…) As suas gentes são extremamente negras.” 100
No que diz respeito aos primeiros contactos humanos nesta região, desde logo, o
leitor destes relatos pode facilmente deduzir que aquelas gentes estavam preparadas
para o combate, recorrendo a tácticas de uma enorme eficácia, afirmando-se como
verdadeiros senhores daqueles lugares. De facto, só eles conheciam bem aquela terra, a
sua beleza, os seus perigos, os seus segredos e as suas riquezas, tendo naturalmente
desenvolvido técnicas de defesa e de ataque que utilizavam contra qualquer ameaça.
Não foi fácil pôr o pé neste solo, de acordo com as notícias dessa época sobre
navegadores que, imediatamente atacados ao longo da costa, ficavam sem capacidade
de resposta, morrendo ou regressando inevitavelmente a Portugal. Ao avistar as
embarcações, os africanos nem sempre esperavam para identificar ou comunicar com os
visitantes. Por isso, as negociações exigiam certos cuidados e a criação das condições
necessárias para esse mercado:
“(…) descobriram um grande rio que tem o nome de Cenega, muito povoado.
Falaram os cristãos com essa gente através dos homens que traziam consigo e fizeram
pazes com eles, trocaram as suas mercadorias e trouxeram daí muitos negros
comprados.
E assim desde esse tempo até agora de cada vez trazem mais negros desde esse
lugar, que já não têm conta. A terra chama-se Gelofa (...) habitada também por negros
e em tão grande multidão de gente que custa a acreditar; (…) Pôs o senhor Rei duas
casas naquela terra de Cenégios para trocar as suas mercadorias por ouro, são elas a
de Arguim e a de S. João que fica próximo de Tofia e Anterote.” 101
Podemos depreender que, em algumas situações, foi necessário, e até mesmo
imperativo, estabelecer relações de paz, não só para conseguir uma aproximação
efectiva a estas gentes, mas também para possibilitar posteriormente trocas comerciais.
O espírito guerreiro daquelas gentes é perceptível nas descrições apresentadas
neste documento e podemos observar que se movimentavam ou se deslocavam não só
com frequência, rapidamente e com facilidade, para vender e comprar produtos vários,
mas também estavam sempre equipados para a guerra. Tão depressa faziam a guerra

100
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 65
101
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 63 e 65

58
como a paz, consoante o modo de aproximação dos estrangeiros ou os seus próprios
interesses comerciais:
“O senhor da terra, porém, pretendendo falar comigo na margem do rio, numa
grande floresta, trouxe com ele grande número de homens armados com setas
envenenadas, azagaias, espadas e adagas. Eu aproximei-me dele levando-lhe como
presente meus biscoitos e vinho do nosso, pois eles não têm vinho a não ser de palma.
(…) Ele deu-me três negros, duas mulheres e um homem (…)102
Estes senhores dos reinos africanos teriam esta enorme flexibilidade quando se
tratava de trocas comerciais. De acordo com as palavras de Diogo Gomes de Sintra,
neste contexto das relações comerciais, estes povos facilmente se entregavam à troca de
géneros, parecia terem hábitos nesse sentido e uma receptividade muito grande aos
produtos oferecidos pelos estrangeiros. Davam, em troca, homens e mulheres, que
também ofereciam de presente, como forma de reconhecimento ou para manifestar o
seu contentamento. Era, assim parece, uma prática comum e habitual entre os africanos:
“No outro dia (…) vimos gente do lado direito e aproximámo-nos dela e fizemos
pazes com eles. O senhor deles chamava-se Frangazick, sobrinho de Farisangul,
grande príncipe dos negros. Recebi deles 180 pesos de ouro em troca das nossas
mercadorias, a saber, panos, manilhas e outras coisas.103 (…)
Ele deu-me três negros, duas mulheres e um homem. Manifestou-me o seu
contentamento e cheio de alegria e de satisfação jurou-me (…)”104
A receptividade era tanta que se espalhavam, por todas as terras, mesmo muito
longínquas, as notícias sobre a presença dos navegadores. Praticavam-se trocas de
produtos, muitos deles desconhecidos dos “cristãos” portugueses (como por exemplo,
“dentes de elefante, malagueta em grão e em casca, tal como cresce”105):
“Acordadas as pazes com eles, correu fama por toda a terra de que havia
cristãos em Cantor e acorreram de todas as partes até ali, a saber do norte de
Tombucutu, bem como moradores do lado sul fronteiras à Serra de Gelei, tendo vindo
igualmente gentes de Quioquium que era uma grande cidade (…)”.106
Pode deduzir-se que o comércio entre estes povos era uma actividade de enorme
importância e que esses interesses económicos expandiram-se ainda mais com a

102
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 79
103
D. G. SINTRA (1484-1496);Op. Cit., pp. 73
104
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 79
105
D. G. SINTRA (1484-1496);Op. Cit., pp. 71
106
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 73

59
chegada dos produtos vendidos pelos portugueses. Por outro lado, estas gentes tinham
no continente africano, e em vastas regiões, uma organização comercial bastante sólida,
se tivermos em consideração o conhecimento profundo que tinham de possuir para
organizar e investir em grandes caravanas de camelos para transportar ouro e outros
produtos valiosos pelo deserto.
Todos os modos de vida pareciam assentar num sistema económico de trocas
comerciais que implicava uma mobilidade calculada e o investimento na força de
trabalho de escravos, sem a qual esses objectivos económicos, à época, não se poderiam
concretizar, dadas as duríssimas condições para o transporte das mercadorias e a
agressividade do clima, só para referir algumas das dificuldades óbvias que este tipo de
empresas enfrentaria:
“Fiquei a saber por eles que em tal cidade [Quioquum] havia abundância de
ouro e que por ali passavam as caravanas de camelos e dromedários que
transportavam as mercadorias de Cartago ou de Tunes, Fez, do Cairo e de toda a terra
dos sarracenos com carregamento de ouro que é transportado das minas do Monte
Gelu [Fouta Djalon]. A outra parte desse monte, no lado oposto, chama-se Serra
Leoa.”107
Por outro lado, há notícia de frequentes conflitos entre os vários senhores
daquelas terras, revelando-se uma organização política instável, a um tal ponto que
acontecia os líderes refugiarem-se junto dos estrangeiros, procurando protecção contra
os adversários ou rivais que sobrepunham o seu poder na sequência de jogos de poder
ou de guerras entre estes povos africanos:
“Era isto no porto de Zaza. Aí encontrei também Borgebil que havia sido rei de
Gelofa e que daí fugira por medo do rei de Burbruck que lhe tomara a terra.”.108
Portanto, a posse da terra era um sinal de poder mas também de riqueza do
senhor que a habitava, acompanhado dos seus súbditos e por homens de corte que se
distinguiam por determinados sinais como, por exemplo, brincos de ouro nas orelhas;
mas o líder do grupo nem sempre tinha garantida grande estabilidade no seu posto,
sujeito a guerras e cobiças constantes naquelas regiões.
Por fim, há um outro aspecto muito pertinente a considerar no desenvolvimento
de relações comerciais com os povos do continente africano. Trata-se da forma como

107
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 75
108
D. G. SINTRA (1484-1496) ; Op. Cit., pp 89

60
comunicavam, dado que se falavam línguas diferentes e desconhecidas nestas regiões.
Naturalmente, o aspecto linguístico foi, com toda a certeza, uma das primeiras
dificuldades sentidas pelos marinheiros portugueses e rapidamente tiveram necessidade
de resolver os problemas de comunicação. Para isso, como já dissemos, uma das mais
antigas estratégias dos navegantes foi a utilização de intérpretes (o “língua” ou
“turgimão”), emissores e receptores de mensagens, que poderiam levar à paz ou à
guerra. Os primeiros “língua” vinham até da Índia109, o que não deixa de ser
surpreendente, nesta fase das Descobertas - devia pensar-se que a Índia estava muito
perto; outras vezes, escravos e prisioneiros de guerra eram utilizados para contactos
com outros grupos. A comunicação entre os povos era difícil e, por conseguinte, os
interesses económicos foram sempre mais importantes para as populações, ao longo de
muitos séculos. E isto é tão verdade que os africanos nem precisavam de falar para
negociar, fazendo usualmente uma troca muda dos produtos, com determinadas regras
que os visitantes portugueses passaram a conhecer e aprenderam a utilizar no comércio
com estes povos. Portanto, eliminavam o obstáculo linguístico e substituíam-no por um
outro sistema que garantia a clareza nas transacções comerciais e a transmissão dos
mesmos interesses. Nem uns nem outros precisaram de aprender ou de falar línguas
diferentes, porém comunicavam, devido a interesses comuns:
“E as gentes de uns lugares, aos quais um deles chamou Bètu e outro
Abanbarraná e o outro Bahá, vão a esta terra de Toom comprar o ouro por
mercadorias e escravos que lhe levam; os quais no modo de seu comércio, tem esta
maneira, silicet: todo aquele que quer vender escravo ou outra cousa, se vai a um lugar
certo pera isto ordenado e ata o dito escravo a ua árvore e faz ua cova na terra,
daquela cantidade que lhe bem parece; e, isto feito, arreda-se afora um bom pedaço, e
então vem o rostro de cão, e se é contente de encher a dita cova de ouro, enche-a, e se
não, tapa-a com a terra e faz outra mais pequena, e arreda-se afora. E como isto é
acabado, vem seu dono do escravo e vê aquela cova que fez o rostro de cão, e, se é
contente, aparta-se outra vez fora; e tornado o rostro de cão ali enche a cova de ouro.
E este modo tem em seu comércio e assi nos escravos como nas outras mercadorias; eu
falei com homens que isto viram.”110

109
BETHENCOURT, Francisco; CHAUDHURI, Kirti et al., História da Expansão Portuguesa, Volume I,
A Formação do Império (1415-1570), Círculo de Leitores, 1998, pp. 418
110
D. P. PEREIRA (1505-1508); Op. Cit., pp. 107

61
Concluindo sobre estas ideias, podemos salientar três facetas dos africanos que
habitavam a costa ocidental de África: guerreiros exímios, comerciantes experientes e
verdadeiros senhores destes territórios. Desde logo, em meados do século XV, estes
traços foram referidos ou apresentados por vários informadores portugueses. Estes terão
conhecido muitas situações semelhantes às que foram analisadas. Revelaram muitas
características dos indígenas africanos que nem sempre são devidamente consideradas,
merecendo ser interpretadas e avaliadas com uma ponderação mais imparcial, ou seja,
uma leitura menos marcada por acontecimentos ainda recentes, como a descolonização,
por exemplo. Contudo, mais tarde, surpreendentemente, os africanos foram dominados,
explorados, vendidos na sua própria terra; e foi assim que se espalharam pelo mundo
inteiro.

62
2. O SENEGAL E OS PAÍSES LUSÓFONOS

Nesta parte do nosso estudo, interessa-nos observar de que modo a presença


portuguesa pode ser um traço cultural comum aos países da costa ocidental africana,
principalmente no litoral, onde se fixavam mais demoradamente os navegadores e os
comerciantes, após as Descobertas. Os portugueses espalharam-se pelos territórios
africanos, e desse ordenamento espontâneo resultaram regiões que sofreram maior ou
menor influência portuguesa. Por exemplo, as ilhas despovoadas de Cabo Verde,
quando foram encontradas, geridas apenas pelos portugueses que aceitaram fixar-se
naquele arquipélago, estavam mais isoladas e protegidas de influências externas, pelo
menos enquanto não foram rota preferencial dos piratas europeus também. Por
conseguinte, são mais evidentes as marcas da cultura portuguesa.
Pelo contrário, no continente africano, os portugueses não estiveram isolados ou
sozinhos, pois eram terras muito povoadas e posteriormente foram ainda ocupadas por
outros europeus. Quando os portugueses entraram na costa ocidental africana, eram os
primeiros europeus a chegar, desconheciam totalmente a cultura, os modos de vida dos
nativos da região, as formas de organização das gentes que viviam naquelas aldeias, as
línguas que falavam, etc. Começaram certamente a passar por ali e a tentar comunicar
com as comunidades que encontrassem, com o objectivo de criar zonas de negócio, o
que nem sempre foi fácil, como vimos. Contudo, terá sido um factor de avanço
conseguir contactar de alguma forma com os indígenas e obter informações cada vez
mais pormenorizadas sobre, por exemplo, o tipo de mercado que ali se estabelecia, em
que regiões preferencialmente se juntavam os indígenas para obter os produtos por
todos procurados. Tendo conhecido os locais de maior confluência do mercado africano,
acederam rapidamente a esses produtos e instalaram-se nas zonas de maior incremento
do comércio, passando a fazer concorrência nesses circuitos da economia. Arguim foi
um desses pontos de mercado que se transformou num centro comercial de grande
influência portuguesa:
“ E esta terra se chama Azara. E estes homens falam a língua dos Azenegues e
adoram a burla da seita de Mafoma.
(…) é achada ua alagoa pequena que se chama Idamém, na qual todo o tempo
do ano acham áugua e ali pousam os Alarves que vão de Arguim com suas
mercadorias, e doutras partes, e tomam folga e dão de beber a seus camelos e tomam
áugua pera o caminho. E quatro légoas desta alagoa, contra o sueste está outra alagoa

63
chamada Enseri. E neste deserto há uãs salinas donde tiram muito sal, e muito fino,
nesta maneira, scilicet, em certos lugares cavam a terra e acham, altura de um côvado,
uã fita como tábua e muito longa, de uã légua de comprido ou mais e às vezes menos, a
qual tem de grossura três dedos; e esta cortam em cantidade de seis palmos de longo e
três de largo; e destas tábuas cinco delas carregam um grande camelo. E é muito bom e
alvo, e eu o vi em Lisboa na casa da Mina, onde se fazem os tratos de Guiné, o qual ali
trouxeram de Arguim. E deste deserto levam os Alarves muitos camelos carregados
deste sal pera a feira de Tambucutu, onde por ele hão muito ouro.”111
Além deste mercado no continente africano, os portugueses foram
desenvolvendo um outro, paralelo, nas ilhas do Cabo Verde, que veio a ter ainda maior
influência no comércio português, principalmente após a Descoberta do caminho
marítimo para a Índia. Aquele espaço insular foi povoado e administrado pela Coroa
portuguesa, sendo um dos lugares preferenciais de escala dos navios vindos do Oriente.
Assim, a marca portuguesa foi-se espalhando um pouco por todos os espaços africanos
que os marinheiros visitavam ou onde se iam estabelecendo, como se sabe, no
continente ou nas várias ilhas atlânticas, numa presença contínua e permanente ao longo
de vários séculos, até ao século XX. Hoje, permanecem a Língua e a Cultura
portuguesas.
No ocidente do continente africano, a acção dos portugueses foi contudo
dispersa, desde as Descobertas. Por um lado, a extensão das terras era imensa,
impossível de ser controlada completamente; por outro lado, outros povos habitavam
nessas partes, tendo as suas próprias dinâmicas de poder, económicas e culturais. Além
desses aspectos, mais tarde, a partir do século XVI, veio a acrescentar-se a acção de
outros europeus, nessas zonas, que acabaram por transformar gradualmente as estruturas
organizativas dos africanos aí existentes. Como consequências imediatas, os territórios
africanos iam sendo ocupados e divididos entre quem se instalava e conseguia expandir
de forma mais eficaz o seu poder e a sua influência, situações que se mantiveram e se
aprofundaram até ao século XX, quando existia um continente caracterizado por uma
mescla quase indecifrável de marcas europeias e africanas.
Assim, os portugueses e a Língua Portuguesa fixaram-se definitivamente no
arquipélago de Cabo Verde, desenvolvendo-se ao longo de muitos séculos uma cultura
isolada, no meio do Atlântico, muito específica nesse espaço insular, habitado por

111
D. P. PEREIRA (1505-1508); Op. Cit., pp. 91

64
negros trazidos do continente africano e por brancos vindos da Europa. Na actualidade,
Cabo Verde mantém-se um país lusófono.
Na costa ocidental africana, os portugueses e a Língua Portuguesa dispersaram-
se por vários territórios, o que diminuiu a capacidade de intervenção de Portugal.
Contudo, vários países lusófonos aí surgiram na época da descolonização: Guiné-
Bissau, Angola, São Tomé e Príncipe. E muitos outros países mantêm, até hoje, muitas
das influências portuguesas que marcaram os lugares, a cultura e a História desses
povos. Essas marcas existem debaixo do pó dos tempos. Só investigações muito
específicas poderão trazer à luz essa acção portuguesa, oculta por sobreposições
sucessivas de acontecimentos que marcaram os africanos e todo o Mundo.
Encontrar no Senegal vestígios da presença portuguesa, idêntica à que se verifica
nos países lusófonos, é assim o nosso maior objectivo e a proposta deste nosso estudo.
Neste país francófono, a Língua Portuguesa é reconhecidamente necessária, em vários
contextos, onde há uma vontade nacional, por vários motivos, de intensificar as relações
com os países lusófonos da região, nomeadamente Guiné-Bissau e Cabo Verde, sem
excluir os outros. São também, com grande probabilidade, razões históricas,
económicas e culturais que definem o conflito recorrente em Casamansa, no Sul do
Senegal, área contígua à Guiné-Bissau. A Língua Portuguesa continua presente naqueles
lugares, sendo facilmente reconhecida e sentida como útil em certas situações.

2.1. A colonização

Quarta Razão do Infante

“A quarta razão foi porque de XXXI anos que havia guerreava os Mouros,
nunca achou rei Cristão nem senhor de fora desta terra que por amor de nosso senhor
Jesus Cristo o quisesse á dita guerra ajudar. Queria saber se se achariam em aquelas
partes alguns príncipes Cristãos em que a caridade e amor de Cristo fosse tão
esforçada que o quisessem ajudar contra aqueles inimigos da Fé.”112

112
G. E. ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. VII, pp. 44-49

65
Interessa-nos observar o tipo de relações que se estabeleceram nesta mesma
costa ocidental africana, nos territórios da actual República do Senegal e nos espaços
circundantes onde chegou a Língua e a Cultura portuguesas, desde o século XV.
Em 1444, o português Dinis Dias desembarcou no Cabo Verde, continuando as
viagens, integradas nas orientações do Infante D. Henrique. Como vimos, o objectivo
destas viagens era já, com grande probabilidade, descobrir novas rotas comerciais, um
caminho marítimo que permitisse o acesso ao comércio das Índias, aos mercados das
especiarias que à época vinham, por outras rotas, do Oriente para a Europa. Como
ilustrámos anteriormente, parece-nos que esses interesses económicos justificam o
primeiro impulso para esta grande aventura das viagens marítimas empreendidas pelos
portugueses. Embora tudo pareça indicar que, à época, se adivinhava uma distância
mais curta, e um acesso mais rápido a esses mercados.
Acreditava-se que isso era possível pelas informações que, na Idade Média, na
Europa, já se conheciam, não só por livros escritos na Antiguidade, mas também do
relato de experiências de navegadores e de comerciantes de épocas mais recentes. A
história dos irmãos Vivaldi é recorrente, embora tenham desaparecido no mar sem mais
notícias. A história de Marco Polo, que navegou vários anos pelo Oriente, com o seu tio,
deixou descrições inovadoras e impressionantes para o mundo, sobre esses lugares
igualmente desconhecidos para os europeus. Mas também as lutas contra as invasões
muçulmanas na Europa colocaram os europeus em contacto com a cultura árabe, muito
bem informada sobre determinadas rotas de comércio, não só as que vinham do Oriente
pelo mar Vermelho, mas também as que existiam em África, se bem que o deserto do
Sara se tenha apresentado como um obstáculo intransponível ou muito arriscado de
ultrapassar para atingir o Sul do continente africano. Portanto, sempre algum
desconhecimento permanecia sobre o interior de África; era inevitável, pelo calor, pelas
condições climáticas e pelas condições insalubres que naquela época os homens tinham
menos capacidade de vencer, as doenças e a morte que provocavam.
Seria preciso conhecer muito bem os territórios. Os árabes sempre estiveram
melhor posicionados para conhecer as transacções comerciais que se faziam no Norte de
África, incluindo o Egipto, mas quase desconheceriam o continente africano mais a Sul.
Contudo, havia comerciantes vindos do Sul do Sara que, em caravanas, vinham fazer
comércio ao Norte de África, e também conheciam as rotas para Tombuctú. Contudo, o
interior do continente africano e a extensão das terras só muito depois do século XV
vieram a ser explorados.

66
Os portugueses chegaram à costa ocidental africana nas primeiras décadas do
século XV, por iniciativa da Coroa portuguesa que tinha interesses e objectivos
económicos, mas também se empenhou a nível religioso em busca do reino do Preste
João, na Etiópia (ou seja, África), que não sabiam localizar de forma exacta no
continente africano. Contudo, havia notícias desse reino cristão, do qual o Infante D.
Henrique esperaria apoio e ajuda para combater o Islão, contra o qual os portugueses já
se tinham debatido em Portugal, na conquista e reconquista cristãs do território
peninsular, para expulsar os mouros. À época, significaria uma continuação e uma
extensão da História de Portugal, um combate ao infiel, perfeitamente lógico e coerente
com a mentalidade tradicional portuguesa. Aliás, nos textos que consultámos, quando se
referem os descobridores portugueses, os autores destes textos chamam-lhes “cristãos”,
com enorme frequência, o que devia ter um significado muito mais específico. Haveria
implícitamente motivações religiosas muito fortes que conduziram a essa grande
aventura marítima portuguesa. Tratava-se de facto de um projecto realizado por cristãos.
O Infante D. Henrique empreendeu este projecto dos Descobrimentos marítimos
às suas próprias custas e com o apoio do Estado ou dos reis de Portugal: D. João I, D.
Duarte e D. Afonso V. Permaneceu, ao longo de vários reinados, esta iniciativa do
Infante para procurar um mundo novo, terras e gentes desconhecidas, e tinha acesso a
muitas informações. Ainda no início das Descobertas, quando o maior obstáculo foi
ultrapassado, depois do cabo Não, do cabo Bojador, à volta do qual muitas lendas
existiam (“quem passar além do cabo de Não tornará, sim ou não”113), o Infante
informou outros príncipes cristãos da Europa, pedindo-lhes apoio nesta empresa para
combater os infiéis, para conquistar as terras e tirarem proveito de novas riquezas. Mas
esta informação do Infante D. Henrique, para levar os reinos europeus a participar nesta
aventura dos Descobrimentos, não foi suficiente para obter o apoio desejado. Gomes
Eanes de Zurara refere-se, na Crónica da Guiné, a este desinteresse e falta de
solidariedade dos príncipes cristãos:
“E porque o dicto senhor quis disto saber a verdade, parecendo-lhe que se ele
ou algum outro senhor se não trabalhasse de o saber, nenhuns mareantes nem
mercadores nunca se disso intrometeriam, porque claro está que nunca nenhuns
daquestes se trabalham de navegar senão para donde conhecidamente esperam
proveito; e vendo outrossim como nenhum outro príncipe se trabalhava disto, mandou

113
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 51

67
ele contra aquelas partes seus navios, por haver de tudo manifesta certidão, movendo-
se a isso por serviço de Deus e d’el-Rei D. Eduarte, seu senhor e irmão, que aquele
tempo reinava114.”
Mais tarde, também Duarte Pacheco Pereira, na sua obra misteriosamente
intitulada Esmeraldo De Situ Orbis (não se esclareceu ainda cabalmente o significado
da palavra Esmeraldo) reafirma este desinteresse dos príncipes cristãos europeus, sobre
as Descobertas de Portugal:
“A qual navegação começou o Infante, por serviço de Deus, do Cabo de Não
pera Diante. E tanto que a estes reinos foram trazidos os primeiros negros e por ele
sabida a verdade da Santa Revelação, logo o Infante escreveu a tôdolos reis Cristãos
que o ajudassem a esse descobrimento e conquista por serviço de Nosso Senhor, e todo
o proveito igualmente lograssem, o que eles não quiseram fazer; mas, havendo isto por
vaidade, lhe renunciaram o direito. Pelo qual, o Infante mandou ao Santo Padre, o
Papa Eugénio quarto, Fernão Lopes de Azevedo, fidalgo de sua casa e do conselho de
el-Rei D. Afonso o Quinto, comendador-mor da Ordem de Cristo; o qual apresentando
ao Sumo Pontífice a embaixada do Infante e renunciação dos ditos reis, lhe foi
outorgado tudo o que pediu.”115
Devemos pois realçar o facto de a Santa Sé ter apoiado e estimulado o projecto
dos Descobrimentos portugueses, na condição de os portugueses lutarem contra os
infiéis e difundirem a fé. Podemos, pois, afirmar que as Descobertas estão
inegavelmente ligadas ao Catolicismo e ao poder da Santa Sé. Naquela época, o poder
temporal dos papas era aceite por todos os reis e príncipes cristãos da Europa, tinha
reconhecimento internacional desde o século XI. Gregório VII (1020-1085) foi o papa
que afirmou definitivamente o poder temporal do Sumo Pontífice e da Santa Sé,
reconhecida e aceite na cristandade, não só por razões religiosas mas também políticas,
pelo prestígio que conferia aos reis e às nações, com legitimidade inquestionável. Não é
portanto inesperada ou surpreendente esta preocupação do Infante D. Henrique em
informar a Santa Sé das suas conquistas ultramarinas e consequentemente obter
benefícios para o país. Neste ponto, torna-se necessário lembrar e demonstrar que, já
desde a fundação da nação portuguesa, o reconhecimento dos papas e a vassalagem de
D. Afonso Henriques à Santa Sé, foram alicerces fundamentais para o poder e o

114
G. E. ZURARA (1453), Cap. VII, pp. 44-49
115
D. P. PEREIRA (1505-1508); Op. Cit., pp. 79-80

68
prestígio dos reis de Portugal. Era natural que D. Afonso Henriques quisesse obter o
reconhecimento da sua qualidade de rei independente pelo Sumo Pontífice. Assim, pela
bula Manifestis Probatum116, de 23 de Março de 1179, D. Afonso Henriques garantiu a
continuidade da independência portuguesa. Nesta bula, era do interesse da Santa Sé que
os reis católicos expandissem a fé cristã e combatessem os seus opositores, os infiéis;
por isso, o papa Alexandre III vem, desta forma, reforçar o seu apoio no combate aos
infiéis e ao mesmo tempo, incita D. Afonso Henriques a prosseguir na obra da
“dilatação da fé cristã.” Este objectivo cristão continua a existir ao longo dos
Descobrimentos marítimos, pelas informações de Zurara e de vários outros autores.
Quando a expansão portuguesa se inicia, a nação portuguesa está consolidada e
o projecto dos Descobrimentos surge sempre alicerçado na História e na Religião de um
povo, determinado nas suas acções e interveniente nos destinos do país, com memória
assente nos valores da Independência portuguesa, de Afonso Henriques, e das relações
com a Santa Sé. Esses valores tradicionais mantiveram-se ao longo dos séculos, até ao
século XV, e até muito mais tarde. Assinale-se, por exemplo, a luta diplomática, travada
por Portugal, para ser reconhecida a independência após a Restauração, em 1640, em
que inúmeros obstáculos foram colocados, junto da Santa Sé, por vários países europeus
com influência junto dos papas. E só em 1670, os representantes diplomáticos de
Portugal conseguiram alcançar esse objectivo, o reatamento das relações com a Santa
Sé, pelo breve de Clemente X, Ex Litteris, de 19 de Julho de 1670.
Portanto, é fundamental não isolarmos estes valores tradicionais nem os
excluirmos da orientação e dos objectivos nacionais durante tantos séculos. Nesta época
que estamos a observar, estes factos assumem relevância na concepção das Descobertas
e nas suas consequências sobre os territórios do continente africano, pois, também foi
sempre um compromisso de Portugal expandir a religião cristã, mantendo boas relações
com a Santa Sé nesse domínio. Tomemos, pois, ainda como referências, estes dois
documentos, duas bulas papais (Dum Diversis de 18 de Junho de 1452 e Romanus
Pontifex de 8 de Janeiro de 1455) que legitimaram as Descobertas e as conquistas dos
portugueses em África, reconhecendo o monopólio comercial dos portugueses nos
territórios africanos e o compromisso dos cristãos.

116
Monumenta Henricina, citada por MAGALHÃES, José Calvet, Breve História Diplomática de
Portugal, Colecção Saber, Publicações Europa-América, 2ª ed., Mem-Martins, 1990, pp 231

69
Como se explicam então as ingerências de outros europeus que não
participaram nessas Descobertas? Como se entenderam estes novos contextos
económicos, políticos e religiosos? Como reagiram os portugueses à invasão europeia
nos territórios que tinham descoberto com legitimidade e sofrendo tantas adversidades?
Até 1500, enquanto os grandes navegadores portugueses se orientavam por
novos percursos para a Índia e para o Brasil, alguns desses viajantes iam-se instalando
por terras africanas. Há notícias de que alguns portugueses ficaram nas terras do
Senegal, nas ilhas de Cabo Verde, dispersos por todas as terras de Guiné, isto é, por
toda a África Ocidental, onde fazem História também os países lusófonos, Cabo Verde,
Guiné-Bissau, Angola e os espaços insulares de S. Tomé e Príncipe. Porém, essas
memórias, sobre os contactos com os indígenas, são escassas. Registam-se não só em
poucos documentos escritos mas também na aprendizagem que os indígenas fizeram
sobre a Língua Portuguesa, a marca mais profunda dos portugueses e talvez a única não
planeada. A distribuição demográfica dos portugueses por estes territórios existiu, sem
dúvida, embora a sua dispersão e a falta de registos materiais sobre esses aspectos
possam colocar obstáculos ao conhecimento do grau de influência que exerceram nesses
lugares.
Estes dados históricos da Europa parecem irrelevantes para os africanos, à
partida não têm que ver directamente com as gentes daqueles territórios. Mas é um facto
que os africanos aprenderam a Língua Portuguesa, provavelmente na medida das
necessidades que tinham no comércio com os portugueses, que teriam uma presença
forte e única, até certo momento. No que diz respeito aos países africanos,
especificamente aos territórios do Senegal, sabemos que muitos portugueses se fixaram
ali. E os africanos comunicaram, primeiro só com os portugueses, mais tarde receberam
os outros europeus. Mas ser-lhes-ia difícil distingui-los por serem todos “brancos”; além
disso, os africanos desses territórios, recentemente descobertos, não dispunham de
qualquer referência cultural acerca dos estrangeiros. Ou seja, conheceram e partilharam
o comércio de interesse comum, passaram a distinguir os portugueses pela língua cuja
sonoridade já lhes era mais familiar, mais próxima e mais fácil. Esse aspecto da
anterioridade dos portugueses está bem ilustrado na descrição de Francisco de Lemos
Coelho:
“Por tudo isto que tenho dito se verà o muito proveito que se pode tirar deste
rio, por que se Guine he hum ovo, pódese bem, com verdade, dizer que elle he a gema.
He lastima que o estrangeiro se esteja aproveitando delle, sendo que nos o

70
descubrimos; mas á isso dis elle que, se fomos os descubridores, o fomos para elles, e
com rezaõ o dizem. Tudo isto se poderá remediar sem os escandelizar, mandando Sua
Alteza, que Deos Guarde, fazer hua feitoria em qualquer parte do rio, com os géneros
que elle trás e comprados da primeira mão, para que se pudessem dar com o commodo
que elle os dà, e deste modo tendo-os os portugueses, os do rio haviaõ de vender o que
tivessem antes aos seus que aos estrangeiros; e faltando-lhe o negocio dos portuguezes,
que he a maõ por que o fazem, logo despejaraõ o rio. E quando Sua Alteza naõ quizesse
meter fazenda sua podia consignar o negocio a mercadores que fizecem bolça, que aqui
se ouvera ella de fazer e naõ em Cacheo, donde se naõ hade tirar interece nenhu, nem
hade servir mais do que ruína, assim a esta ilha como a todo Guine, como a esperiencia
mostrara.”117
Também é certo que nos apercebemos de algum desânimo da parte deste capitão
português. Manifesta claramente o desejo de uma intervenção mais forte da Coroa
portuguesa no comércio do Cabo Verde, para que os portugueses obtivessem mais
lucros e para que lhes fizesse justiça porque eles eram, ao que parece, os intermediários
essenciais no mercado com os estrangeiros europeus e os africanos.
Os nativos de África desconheceram durante séculos os conflitos diplomáticos
que se deram entre vários países europeus, após as Descobertas portuguesas. Contudo,
os destinos de África decidiam-se na Europa, desde o século XVI. Os europeus
despertaram para o continente africano e os territórios ultramarinos portugueses foram
sendo ocupados directamente por outros (holandeses, franceses, ingleses, espanhóis) ou
trocados entre os europeus, consoante o interesse dos tratados e dos acordos de quem os
queria ratificar.
O que aconteceu foi que Portugal, a partir do século XVI, acabou por ser
pressionado, ou forçado, de várias formas e por vários adversários, ou à reconquista de
territórios por ele descobertos ou a cedê-los perante a invasão e as condições impostas
por outros. Nesta época, a nação portuguesa tinha dado a toda a Europa uma experiência
inovadora e invejável; por exemplo, logo estimulou a França e a Inglaterra a
empreenderem viagens aos lugares de que os portugueses tiravam tamanhos proveitos.
As grandes riquezas que os portugueses obtinham do comércio que faziam na África
ocidental provocaram sobretudo a cobiça dos franceses e dos ingleses.

117
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp 136-137

71
Desde então, a actividade dos corsários franceses contra a navegação e os
domínios portugueses intensificou-se. Naturalmente, perante os prejuízos causados, a
Coroa portuguesa reagiu a esses ataques. E, por exemplo, no tempo do rei D. João III de
Portugal e do rei Francisco I de França, houve necessidade de negociações entre os dois
países que levaram à assinatura do acordo de 14 de Julho de 1536 – o “Tratado de
Lião”. Este tratado mostra a relação de forças que se estabelecia entre estas duas nações
europeias, os interesses que as guiavam e os conflitos que existiam. Mediante este
acordo, o rei de França permitia que o rei de Portugal vigiasse a acção dos piratas e dos
corsários nos portos de França e que, se necessário fosse, efectuasse o sequestro dos
seus navios. Além disso, a França comprometia-se a castigar os seus súbditos que se
apoderassem de navios ou de territórios pertencentes a Portugal.
Apesar dos termos deste tratado, no sentido de se respeitar o comércio português
em África, os corsários franceses continuaram a atacar a navegação portuguesa:
“Os sucessivos monarcas franceses, Henrique II, Francisco II, Carlos IX e
Henrique III, prosseguiram na mesma política de publicarem cartas patentes proibindo
aos seus vassalos os ataques aos domínios e ao comércio de Portugal e consentindo,
sub-repticiamente, na actividade dos corsários franceses. (...)”118
E os franceses continuaram a ameaçar os domínios e as viagens dos portugueses
ao longo de todo o século.
Também no século XVI, no reinado de D. Sebastião, os ingleses atacaram os
domínios portugueses em África e a acção deste monarca português, com a ajuda das
suas frotas, evitava sucessivos assaltos dos corsários:
“ Os corsários ingleses continuavam entretanto a visitar a costa da Guiné, o
que motivou nova reclamação do embaixador português contida numa memória
dirigida à rainha Isabel em 25 de Junho de 1562. Os navios de guerra portugueses, por
outro lado, apresavam e metiam a pique os navios ingleses que encontravam na Costa
da Mina e no Golfo da Guiné, tratando-os como piratas, como aconteceu com o navio
Mignon da expedição de William Rutter. (…)
A resposta do governo inglês foi feita nos moldes das respostas anteriores,
dizendo que a rainha proibira aos seus súbditos visitar as terras de África que pagavam

118
J. C. MAGALHÃES (1990), Op. Cit., pp. 49

72
tributo a Portugal, mas que, em relação às restantes, não via razão para decretar tal
proibição.”119
Só na sequência de vários ataques à soberania portuguesa se compreende que o
rei de Portugal, D. Sebastião, dirigisse uma mensagem de um tal teor, e tão definitiva, à
rainha de Inglaterra, dizendo-lhe:
“ (...) que se os ingleses julgavam que lhes seria lícito invadir o território
português e como corsários cometer actos de pirataria, roubando os vassalos
portugueses, era lícito a estes repelir e punir tais atentados e ultrajes, o que não podia
ser considerado como um crime pelos príncipes que julgavam com justiça, tanto mais
que não devia causar admiração que os portugueses suportassem sem indignação que
estrangeiros se apossassem do que eles haviam conquistado com tanto trabalho e à
custa de tanto sangue, para gozarem do fruto de suas fadigas.120”
Apesar deste grave aviso, a Inglaterra continuava a emanar documentos contra
os portugueses e a manter um posicionamento ambíguo em relação a Portugal. Por isso,
a dada altura, o rei D. Sebastião colocou todos os meios à sua disposição em defesa da
sua nação e dos territórios ultramarinos que lhe pertenciam, impedindo o comércio dos
ingleses em todos os lugares possíveis. Noutros momentos, em Março de 1569, privou
os ingleses das propriedades que possuíam em Portugal e fortificou a cidade de Lisboa.
Impediu o comércio dos ingleses em todos os portos de mar e reforçou a defesa em
África, principalmente em Ceuta e Tânger. E para evitar os assaltos aos navios
portugueses vindos das Índias, enviou vinte navios para os Açores. Estes são apenas
alguns dos exemplos mais significativos que podemos recolher sobre iniciativas
incisivas dos reis de Portugal em defesa dos interesses da nação, contra a cobiça dos
estrangeiros europeus que agiam impunemente e fora de qualquer contexto legal,
atacando pessoas e bens, não olhando a meios para atingir os seus objectivos, assinando,
apenas, em último recurso e sem verdadeira intenção de cumprir, acordos com Portugal
para restabelecer uma ordem que mais tarde não reconheceriam.
Estas acções de D. Sebastião tiveram como efeito imediato a interrupção do
comércio dos ingleses com Portugal. E os prejuízos foram tão elevados que os
negociantes apelaram repetidas vezes à rainha para que a situação se modificasse.

119
J. C. MAGALHÃES (1990), Op. Cit., pp. 51
120
VISCONDE DE SANTARÉM, Quadro Elementar, vol XV, p. CXXIII, citado por J. C. Magalhães
(1990), Op. Cit., pp. 52

73
Pelos mesmos motivos do anterior tratado com a França, o rei de Portugal e a
rainha de Inglaterra assinaram também um acordo - o “Tratado de abstinência”, de
1576:
“(...) um documento da mais alta importância pelo qual a nascente potência
marítima que era a Inglaterra, que tendo abraçado o protestantismo não reconhecia a
validade das bulas papais em que se afirmava o direito exclusivo português às suas
conquistas ultramarinas, reconhecia formalmente esse domínio português.”121
Contudo, este Tratado tinha a duração de apenas três anos. Nessas circuntâncias,
os ingleses alimentaram a esperança de o renovar e de fazer alterações às disposições
deste acordo. Não podemos saber se essas pretensões se efectuariam porque entretanto o
rei de Portugal faleceu em 1578, na sequência de uma trágica batalha em Alcácer-
Quibir, ainda antes de expirar a validade deste Tratado, ficando Portugal numa grave
crise de sucessão. Só devido a estas situações imprevisíveis, que deixaram o país à
mercê, aconteceu a ocupação espanhola e a impossibilidade de renovação destes
acordos com a França ou com a Inglaterra, que não se viram obrigados a respeitá-los no
futuro, retomando-se o contexto anterior que os portugueses repudiaram e quiseram
evitar a todo o custo.
Por outro lado, acrescentam-se ainda os holandeses que atacaram e ocuparam
muitos dos domínios ultramarinos portugueses. Em 1590, os holandeses atacaram o
Brasil, ocuparam a Baía ( em 1624) e Pernambuco (em 1630); ao mesmo tempo, as
esquadras holandesas, em guerra com a Espanha, apresavam os navios portugueses e
espanhóis, sem distinção. Na costa ocidental africana, como no Oriente, a Companhia
Holandesa das Índias orientais ocupou diversas posições portuguesas e espanholas,
comprometendo o comércio português.
Após a Restauração da Independência, D. João IV, tendo o objectivo firme de
recuperar os domínios portugueses ocupados e preservar os que lhe restavam, tentou
estabelecer a paz com a Holanda. Por isso, propôs um acordo de aliança com os
holandeses, concedendo-lhes liberdade de comércio em Portugal, com a condição de
proibirem os seus súbditos de fazerem a guerra aos portugueses e de lhes tomarem os
navios. Foram as disposições do Tratado de Tréguas, de 12 de Junho de 1641, assinado
por dez anos, entre Portugal e a Holanda. Estas alianças com Portugal eram bastante

121
J. C. MAGALHÃES (1990), Op. Cit., pp. 55

74
convenientes para os holandeses que estavam em guerra com a Espanha, permitindo-
lhes controlar de forma mais eficaz as adversidades.
No ano seguinte, apesar dos esforços da diplomacia portuguesa, os holandeses
recusaram-se a restituir Luanda e S. Tomé, afirmando que essas conquistas eram
legítimas, por serem anteriores ao tratado de 1641; argumento dúbio, sem fundamento,
pois as conquistas portuguesas também eram anteriores ao mesmo acordo. Em
contrapartida, no Brasil, pela mesma altura, os portugueses derrotaram os holandeses
em vários territórios (Tabocas, Guarapés) que estes ocupavam indevidamente. E em
1641, também foi um comandante português que, vindo do Brasil com a sua frota,
libertou Luanda em 1649, derrotando de novo os holandeses. Estes mostravam-se
renitentes em renunciar ao domínio dos territórios portugueses reconquistados. E, em 26
de Janeiro de 1654, uma poderosa armada portuguesa, comandada por Pedro Jacques de
Magalhães e Francisco de Brito Freire, reconquistou também Pernambuco, último
reduto dos holandeses no Brasil. Em Setembro de 1657, os Estados Gerais enviaram a
Lisboa uma missão. Quiseram apresentar várias exigências relativas à recuperação das
conquistas holandesas no Brasil, Angola e S.Tomé. Não foram satisfeitas, ou seja, essas
negociações foram um fracasso para os enviados holandeses. Assim, retiraram-se,
depois de concluírem o seu plano com a entrega de uma declaração de guerra.
Mas Portugal estabelecia alianças também com países que estavam fora deste
contexto de guerra e cujo auxílio poderia ser muito conveniente. Por exemplo, D. João
IV manteve negociações com a Suécia, de que resultou o acordo de paz assinado em
Estocolmo, em 29 de Julho de 1641. Este tratado, além de estabelecer a paz entre ambos
os países, determinava que nenhum dos dois países ajudaria inimigos comuns e permitia
aos suecos:
“livremente navegar aos reinos de Portugal e dos Algarves e às Províncias e
Ilhas que a eles pertencem e comerciar também livremente nos territórios portugueses,
estabelecendo diversas normas para regular o comércio e a navegação de ambos os
países.”122
Em conclusão, sobre estes factos, poderemos dizer que é notória a ambiguidade
e a duplicidade das acções dos países europeus relativamente às relações que
mantinham com Portugal sobre os territórios ultramarinos, na posse legítima dos

122
CASTRO, Borges de, Colecção de Tratados, vol. I, pp. 338, citado por J. C. Magalhães (1990), Op.
Cit., pp. 89

75
portugueses havia mais de um século. Esta legitimidade advém de três factos: primeiro,
por terem descoberto esses lugares; segundo, por terem autorização da Santa Sé,
anterior à Reforma, para explorarem os novos sítios descobertos ou a descobrir; terceiro,
havia territórios já ocupados pelos portugueses. Aqueles europeus não tinham
justificações legítimas para disputar aquelas terras, muito menos dissimulando o
conhecimento das posses dos portugueses naqueles territórios:
“Il n’entre pas dans mon plan de discuter des questions de découverte;
cependant je vois avec peine différents auteurs modernes enlever aux Portugais
l’honneur d’avoir découvert le Sénégal, et l’attribuer aux habitants de Dieppe, en 1364.
Nous savons que la plupart des expéditions françaises étaient faites par des navires du
port de Dieppe et des côtes de Normandie; mais il ne faut pas oublier que les Français
et les Anglais trouvaient partout, sur ces côtes, les Espagnols et les Portugais établis et
installés, y possédant des comptoirs bâtis et ayant donné des noms à tous leurs postes,
ainsi qu’aux rivières, aux caps, aux montagnes, et que ces moms sont restés jusqu’à nos
jours, malgré les changements de domination. Il ne faut pas oublier non plus que les
Français et les Anglais unissaient ensemble leurs forces pour combattre les Portugais,
leurs ennemis communs.”123
Neste contexto, houve de facto atentados à soberania portuguesa, como vimos.
Se houve algum fundamento legal, foram os próprios acordos que Portugal teve
necessidade de assinar para repor a ordem formalmente, e por escrito, para o
reconhecimento internacional do seu poder. Contudo, as riquezas de África eram já
sobejamente conhecidas e a invasão dos territórios africanos era inevitável. Os ataques
às posições portuguesas foram cada vez mais frequentes e Portugal não tinha meios para
controlar tão grande extensão territorial em África, na Índia ou no Brasil, acabando por
se fixar em certas regiões preferenciais para os seus interesses:
“Les traditions même de tous les peuples du Sénégal confirment ce que j’avance
ici. Dans tous les royaumes du Sénégal, non seulement sur les côtes maritimes mais
même dans l’intérieur, on donne au pays des blancs, soit que ceux-ci viennent de
France ou d’Angleterre, ou même de l’Amérique, le nom de tugal, qui se prononce
tougal; or, n’est-il pas évident que c’est le mot Portugal dont ils ont retranché la

123
A. D. BOILAT (1853) ; Op. Cit., pp. 196-197

76
dernière syllabe, suivant l’habitude du pays, dont les peuples évitent autant que
possible les mots de trois syllabes?”124
O Abade Boilat falava no século XIX e, de facto, ainda hoje os senegaleses
chamam Toubab aos estrangeiros “brancos”, e principalmente aqueles que têm posses,
que mostram estar numa situação confortável na vida. Perante tais afirmações,
constatamos que os portugueses deixaram marcas notáveis e visíveis que os indígenas
manifestavam, mas que nem sempre identificariam como portuguesas, após o
aparecimento dos outros europeus. Confirma-se também a relação conflitual entre os
europeus e o ataque às posses portuguesas, como temos vindo a demonstrar com
testemunhos escritos, portugueses e estrangeiros.
Nestas condições, os estrangeiros europeus vieram sobrepor-se à influência
portuguesa, de mais de um século, à época, nas terras africanas, criando-se um
complexo cruzamento de interesses económicos, sem lei nem ordem, em que os
africanos também participaram e intervieram com os seus produtos e iniciativas, ainda
que ignorassem os acordos diplomáticos, que se firmavam na Europa, sobre as suas
terras. É certo, porém, que quiseram tirar proveito de um novo contexto económico,
como os europeus. Porém, acabaram por ser submetidos lentamente e colonizados pelos
invasores, mais tarde, a partir do século XVIII.
Assim, parece-nos que, desde o século XVI, o domínio europeu, em certas
regiões de África, é muito ambíguo e impreciso, de acordo com circunstâncias acima
descritas. Torna-se evidente que os europeus desviaram os seus interesses económicos
para África e que os portugueses foram literalmente ameaçados e atacados no exercício
das suas transacções comerciais e nos territórios que geriam. Desde então, cedo se
delinearam e constituíram os futuros povos colonizadores naquelas terras, aos quais
outros países europeus se acrescentam um pouco por todo o continente africano, até à
descolonização, no século XX.
A região ao Sul do Sara é um mosaico de confluências, de interesses e de
culturas diferentes, opositores uns aos outros – os vários povos europeus guerrearam-se
entre si, ao longo de pelo menos três séculos, pela posse de territórios em África.
Os africanos abriram a porta para o comércio com os portugueses, os “brancos”.
E, a partir daí, desconhecendo a Europa e o mundo fora do seu continente, os indígenas
consideraram que todos os brancos eram portugueses - um grave equívoco- e

124
A. D. BOILAT (1853) ; Op. Cit., pp. 197

77
continuaram com o comércio, sem estabelecer distinções entre os europeus, sem
conhecer nada mais:
“Les blancs eux-mêmes, de quelque nation qu’ils puissent être, sont appelés
toubab; ce mot n’est que la corruption du mot tougal; c’est comme s’ils disaient le pays
de Por-tugal et les hommes por-toubab. L’article de position, d’après les règles de la
langue woloffe, étant be, il eût fallu dire tougal-be, le blanc; ils ont trouvé plus doux
d’en former le mot toubab, en retranchant l’l et changeant le b en g.”125
Obviamente, este grave equívoco parece não trazer qualquer vantagem aos
portugueses quando já não eram os únicos brancos em África e a complexidade das
relações económicas e humanas aumentou, mais do que nunca. A verdade é que parece
que se criou, até hoje, uma interpretação errónea, injusta e falsa, sobre a presença
portuguesa porque confundida com a presença posterior dos outros europeus brancos.
Este equívoco dos africanos ainda existe hoje nas suas memórias, como nos foi dado a
perceber por conversas informais que pudemos ter no quotidiano, no Senegal. Contudo,
não significa que os portugueses sejam mal recebidos pelo povo senegalês. Pelo
contrário, são até muito afectuosos com os portugueses, e a gentileza senegalesa chega
até a ser desconcertante em certas situações. Esta história pareceu-nos sempre mal
contada, pois, a História de África tem ainda hoje estas enormes fragilidades e
equívocos por explicar. Contudo, como vimos, os franceses, os ingleses e os holandeses
atacaram realmente, desde muito cedo, a posição portuguesa no “Cabo Verde”, e não só.
E, embora os portugueses não se tivessem retirado daqueles sítios, há que
esclarecer a História dos portugueses na região, para que não se misture com os
resultados posteriores da ocupação dos holandeses, dos franceses e dos ingleses, que
não hesitaram em instalar-se com os seus exércitos, fortalezas e comércio ao sul do
Sara, entre os séculos XVI - XIX. Muitos dos acontecimentos que se deram nessa região
estão muito mal explicados pelos próprios africanos (a transmissão oral tem graves
limitações), nomeadamente sobre a escravatura na ilha de Goreia, o pomo da discórdia
entre estes europeus, como confirma Francisco de Lemos Coelho no seu relato.
A falta de respeito, pelos territórios ultramarinos de Portugal, levou a um jogo
dissimulado de acordos e tratados que estes países da Europa acederam em assinar,
muitas vezes estando em guerra uns com os outros, usando estes acordos para se
escudarem uns nos outros e atingirem os seus objectivos nacionais específicos, em

125
A. D. BOILAT (1853); Op. Cit., pp. 197-198

78
detrimento dos prejuízos causados aos outros e fora de qualquer quadro legal. Ou seja,
agiam impunemente, fazendo declarações de guerra a Portugal vazias de sentido (o caso
dos holandeses), querendo recuperar bens que eles próprios extorquiram aos
portugueses. Mas, ao que parece, era a lei do mais forte que ainda vigorava, e não outra.
Daí em diante, foram lutas de poder constantes entre os europeus, baseados nas
excessivamente famosas riquezas de Portugal, vindas de África, do Oriente e do Brasil.
Tinham interesses não só em extorquir as riquezas de Portugal mas também em ocupar
e dominar os territórios que possuía, até ao século XX. E Portugal só guardou uma
pequena parte de tantos lugares que descobriu, teve de negociar muitos dos territórios e,
mais tarde, a Conferência de Berlim (1884) conferiu de novo uma falsa autoridade aos
europeus para continuarem a ocupar África.

2.2. O tráfico negreiro

Quinta Razão do Infante

“A quinta razão foi o grande desejo que havia de acrescentar em a santa fé de


nosso senhor Jesus Cristo, e trazer a ela todalas almas que se quisessem salvar,
conhecendo que todo o mistério da encarnação, morte e paixão de nosso senhor Jesus
Cristo foi obrado a este fim, silicet, por salvação das almas perdidas, as quaes o dito
senhor queria por seus trabalhos e despesas, trazer ao verdadeiro caminho,
conhecendo que se não podia ao Senhor fazer maior oferta;”126

Ao longo do século XVI, os africanos continuaram a transaccionar os seus


produtos com os europeus em África, alheios às movimentações dos estrangeiros na
Europa. E, com a pirataria dos ingleses, dos franceses e dos holandeses, a segunda vaga
de europeus, começaram a ameaçar-se os territórios até aí desvendados pelos
portugueses, concedidos pela Santa Sé e com direito de padroado nesses lugares. Os
africanos estavam muito longe de imaginar que a sua terra já tinha outros donos, outros
chefes, outros senhores.
Negociava-se a posse dos territórios ultramarinos e os novos habitantes em
África, europeus, estendiam a sua presença com navios, com fortalezas, com exércitos

126
G. E. ZURARA (1453) ; Op. Cit., Cap. VII, pp. 44-49

79
nos lugares africanos, sem se considerar o passado daqueles lugares ou daqueles povos,
entrando sem pedir licença, entrando porque a porta estava aberta. Em meados do
século, não consideravam que fosse uma invasão de propriedade privada, isso não era
importante nem existia para os corsários cuja profissão era precisamente invadir
territórios alheios. Eram acções que se enquadravam na mentalidade de povos
conquistadores, cuja cultura assentava na capacidade de alargar as potencialidades das
nações. Para eles, a conquista e o domínio de mais espaço eram um sinal de poder que
os submetidos seriam necessariamente obrigados a aceitar. De novo, agiam de acordo
com a lei do mais forte que ganha independentemente dos meios que se utilizem. Claro
que, depois de tomarem indevidamente posse desses territórios, preocuparam-se muito
com a defesa destes para que não viessem outros extorquir-lhos também. E, de facto,
estes territórios do actual Senegal foram muito disputados.
Portanto, a ocupação dos territórios efectuou-se gradualmente com a construção
de fortalezas para a defesa e para o ataque, perante as ameaças com que se deparava
naqueles lugares e que se mantiveram durante largos tempos. Os africanos nem sempre
se deixaram submeter; vejamos por exemplo este comentário de um observador
seiscentista:
“ (…) e aldea que fica a vista do porto chamão aldea dos Hereges. Foi aldea de
mais negocio que teve este rio de Gambia, e ainda hoje o Inglez tem húa feitoria nella,
e dá muitos couros e muita cera e alguñs negros, e vivem brancos filhos da terra, nella.
O gentio he bárbaro, e ordinariamente anda esta terra dividida em dous bandos, e em
guerras, que cada um quer ter seu rey, e por isso os caminhos por terra não são muito
seguros. Tem, fora a terra dos Banhús de que querem fazer estes dois reinos, muitos
falupos sugeitos, os quais são aqui mãos, e salteadores no caminho e grandes ladróes,
que não està pessoa algúa segura com elles em todo este caminho.”127
Contudo, os europeus iam tirando os seus proveitos nas novas zonas, e os
africanos até ajudaram no rápido desenvolvimento deste comércio em que se integraram
com facilidade; mas a relação que ao longo do tempo se estabeleceu favoreceu o
domínio de uns sobre os outros.
Claro que os africanos não terão visto sempre com bons olhos a aproximação
destes estrangeiros, não só porque eram invasores, mas também porque eram novos
concorrentes às suas actividades económicas e geravam novas forças de poder. Os

127
F. L. COELHO (1684) ; Op. Cit., pp. 114

80
estrangeiros vieram alterar para sempre o relacionamento entre os vários reinos
africanos estabelecidos, que também já mantinham frequentes conflitos, pelo que
indicam fontes escritas:
“Perguntei que senhores reinavam naquelas terras e responderam-me que na
parte dos negros havia um senhor de nome Sambegenu e da parte oriental o senhor se
chamava Semanagu; que estavam sempre em guerra e que não havia muito tempo
tinham travado grande batalha e vencera Semanagu. (…) Depois que voltei a ter com o
senhor Infante, ao referir-lhe tudo isto, disse-me ele que um certo mercador de Orão
lhe tinha escrito, já tinham decorrido dois meses, falando da guerra ou batalha que
houvera entre Semanagu e Sambegenu. E assim daria crédito a tudo.”128
Além dos conflitos que já existiam entre os africanos, a presença estrangeira
levou a que se acendessem rivalidades entre os reinos, acrescentaram-se novos
interesses com os novos produtos dos estrangeiros e a organização dos indígenas não se
manteve, adequou-se às novidades, naturalmente dentro de referências culturais
africanas pré-existentes:
“A principal fazenda para estes portos de Jalofos he coral fino comprido e
quanto mais grosso milhor, o qual se vende a pedras, e há coral que dão por huã pedra
hum couro; e a mim me derão hum hermozo negro por hum ramal de coral.”129
Os nativos de África, concretamente os que se fixaram na região do actual
Senegal, quiseram também controlar as suas áreas de influência, junto dos estrangeiros
e, por isso, deslocavam-se até onde fosse necessário para ter acesso às novas
mercadorias e para trocarem os seus produtos tão desejados pelos novos comerciantes:
“São os portuguezes que aqui morão obrigados, senão são empedidos da
doença, a hirem vezitar o rei da terra todos os annos huã ves e levarem-lhe muito bom
prezente conforme sua possibilidade, que as vezes custa mais de cem mil reis, isto em
muito boas pessas de prata, agoardente em barris ou frasqueiras, coral fino, escarlatas
e outras couzas, conforme cada um tem; o rei lho gratefica e lhe dá muitas vezes mais
do que val o que lhe leva, conforme o acha e he sua fortuna; o que lhe dá são negros,
couros, cavallos, camellos, que aos brancos servem muito para conduzirem couros, que

128
D. G. SINTRA (1484-1496) ; Op. Cit., pp.75
129
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 65

81
tambem comprão pella terra dentro se tem já muito cabedal: e um camello carrega
quarenta e cincoenta couros.”130
Mas o comércio seiscentista que se fazia em África tinha diferenças
relativamente ao que se conhecia na Europa, que os negros não conheciam. Os europeus
passaram a ter acesso a novos produtos e os seus grandes interesses eram riquezas
naturais do continente africano, especialmente o ouro, muito famoso, embora depois se
tenham acrescentado outros produtos naturais que existiam em grande abundância
naquelas regiões, como o sal, os couros, especiarias e, como vimos, até as pessoas se
trocavam como forma de reconhecimento ou de pagamento:
“A aldea do porto de Aly fica em passando o Cabo dos Mastros (…). Os negros
são os mesmos e os negócios como no Arrecife; mas aqui com mais abundância, que há
dia em que se comprão dous mil couros: o rei vende muitos negros a troco de prata, e
custa um negro bom vinte patacas.”131
Doutras vezes, estes mesmos grupos africanos da costa ocidental africana, a sul
do deserto do Sara, usavam formas específicas para comerciar, evidenciando
simultaneamente o seu poder:
“Entrando pelo rio de Borçallo se vai por elle duas marés antes de chegar ao
porto, que fica mais de tres legoas afastado do reino. Ainda em navio se manda recado
ao rey com um prezente, o qual diz o mandador o dia que hade vir; e enquanto não vem
ninguém compra nada. Vindo o rei vè a fazenda toda que trás o navio, e as vezes sò elle
o despacha porque vende muitos negros e fermozos; e hà ocasião em que só em hum
dia vende cem negros. O milhor género para o negocio he prata e agoardente; o rei era
no fim dos annos que estive naquellas partes bixirim, que he como legislador da ley de
Mafoma, com que não comprava tanta agoardente, mas na terra gastavase bem porque
não defendia comprar-se.”132
Para estes africanos, os produtos de pouco valor que os europeus traziam eram a
grande novidade e parece que não souberam atribuir o valor correcto aos seus próprios
produtos, ou não trocariam tanto ouro por uns pedaços de tecido ou por bugigangas; diz
Diogo Gomes, a certa altura, “recebi deles 180 pesos de ouro em troca das nossas
mercadorias, a saber, panos, manilhas, e outras coisas.”133 Trocavam muito ouro por

130
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 101
131
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 102
132
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 106
133
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp 71

82
outros produtos menos valiosos, o que foi representando cada vez maiores lucros para
os estrangeiros:
“Este reino de Manjagar he sogeito ao rei de Borçallo como o da Barra e o do
Badibó. Aqui costuma o rei vir commerciar com os navios quando não vão a sua terra,
e vende muitos negros. Hà nesta terra muitos couros e os milhores de todo o rio, tem
muitos arros limpo e negros. Em a mesma terra (…) Os moradores dela são
mercadores bixirins. He de muito tracto, comprasse muita roupa, ouro e muitos boñs
couros como os de Manjagar. Vendesse muito bem collas, de que estes mandingas são
muito amigos.”134
Portanto, os europeus conheciam os dois continentes, estavam mais bem
informados sobre os vários tipos de mercado. Conheciam o valor comercial dos
produtos e as possibilidades de escoamento de tudo quanto compravam, alargaram
enormemente as suas áreas de negócios. Quanto aos nativos destas mesmas regiões do
ocidente africano, alargaram o mercado com os novos produtos exportados pelos
estrangeiros, só conheceram o contexto comercial nas suas terras, não atribuíam tão alto
valor aos seus produtos como os estrangeiros, embora as ocasiões de negócio fossem
sempre momentos a que davam grande ênfase. Quanto aos escravos, eram vendidos
pelos africanos indiscriminadamente aos estangeiros, com certas distinções no preço
atribuído:
“São os Jalofos todos mahometanos e por isso ruins para se reduzirem. As suas
guerras são a cavallo, e há muitos na terra; e o rei e fidalgos tem muito (sic) mouriscos
que lhe trazem os mouros com quem confinão pelo rio de Sanagâ, e são boníssimos, e
há cavallos que custa (sic) vinte e sinco e trinta negros.”135
“(…) Alguns donos de navios costumão hir (…) em alguns destes portos (…) e
comprão nelle marfim, roupa, couros e muitos negros, e he bom levar bebida, que
ainda que os negros são mahometanos bebem muito vinho e agoardente e dão hum
negro bom por sete ou oito botijas de agoardente, (…)”136
Depois, os estrangeiros, donos dessas pessoas transaccionadas como bens,
transportavam-nas como faziam com as restantes mercadorias, para diversos lugares do
mundo, e vendiam-nas de novo. Estes, desenraizados das suas terras, para onde não
regressavam, ou morriam nas viagens ou passavam a viver em lugares que lhes eram

134
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 120
135
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 101
136
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 126

83
completamente estranhos e sem liberdade, embora esta última condição lhes fosse talvez
a menos estranha porque nas terras africanas era comum haver escravos, estar ao serviço
e sob o domínio absoluto de alguém.
Também os europeus já tinham aquelas terras sob o seu domínio, o comércio
compensava largamente e instalaram-se sem grandes contrariedades. No que diz
respeito ao caso dos portugueses, os primeiros a chegar, sabemos de duas feitorias, as
mais conhecidas naquelas regiões e de que ainda existem vestígios. Estruturaram o
comércio com aqueles povos e, desde muito cedo, orientaram os interesses dos
indígenas para os seus próprios produtos:
“Pôs o senhor Rei duas casas naquela terra de Cenégios para trocar as suas
mercadorias por ouro; são elas a de Arguim e a de S. João, que fica próximo de Tofia e
Anterote.”137
Apesar dos esforços da diplomacia portuguesa na Europa e de algumas
resistências dos africanos nas suas terras, os europeus ficaram definitivamente sediados
naqueles territórios africanos, com os seus fortes e os seus exércitos para protegerem as
suas actividades comerciais.
Por exemplo, é interessante a história da ilha de Goreia, onde os portugueses
elevaram uma capela, o primeiro edifício ali construído:
“Le poste de police (ancien dispensaire) s’élève peut-être à l’emplacement òu les
maçons portugais, allant construire le fort d’El Mina sur la Cote de l’Or (actuel Ghana),
édifièrent en 1481 la première chapelle de l’île. Dans le recueil de textes portugais
rassemblés par Valentim Fernandes (1506-1507), on peut relever: …une église de pierre
couverte de paille qui a été faite par les gens qui accompagnaient Diogo de Azambuja
quand ils allèrent construire le château de Saint Georges de la Mine. Dans cette église
sont enterrés beaucoup de chrétiens qui se trouvaient pour (ou qui moururent pendant)
la traite sur cette côte et venaient se faire enterrer dans cette île pour l’amour de cette
église… Ce poste de police est sans doute la construction la plus ancienne de Gorée: il
figure déjà sur les plans du XVIIe siècle comme magasin et sur ceux du XVIIIe siècle
comme forge.”138
A ilha de Goreia foi, muitíssimo disputada entre os estrangeiros, funcionando
como escala para os navios vindos do Sul do Continente africano, mas também para os

137
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 65
138
CAMARA, Abdoulaye e BENOIST, Joseph Roger, Gorée – Guide de l’Île et du Musée Historique,
IFAN – Cheikh Anta Diop, 1993, pp. 13

84
que vinham das Américas ou da Europa, onde se intensificava de formas nefastas o
mercado de escravos. Vejamos o caso da presença holandesa, que deu o nome actual à
ilha:
“Em passando Cabo Verde esta a ilha de Bersiginche, desviada da terra firme
também uma legoa, a qual os olandezes, que erão em meu tempo senhores della,
chamavão a ilha de Gure; e em ella tinhão duas fortalezas, a mayor defronte da terra
firme, ao longo da agua, aonde estava a feitoria e casa do general e mais soldados; e a
outra defronte dessa ao mar, distancia de um tiro de mosquete, em a qual entravão
todos os dias huma parte da esquadra da gente que entrava de guarda na fortaleza de
baixo; tendo em ambas para esse effeito oitenta the cem homens da guerra, fora a gente
que era necessária para o negócio.”139
De acordo ainda com as notícias deste capitão português, que nos deixa aqueles
e estes testemunhos escritos, também os ingleses se iam instalando em África,
disputando com os holandeses estes territórios ultramarinos na costa ocidental africana,
incluindo esta pequena ilha:
“Também aqui [Cabo Verde, Gure] vinhão os navios de Cacheo (...) e aqui
vinham todos os anos de Olanda, duas e tres naos grandes a carregar dos ditos generos
[cera e marfim] que levavão para a cidade de Amsterdam donde tinham o assento da
Companhia de Africa que asim lhe chamavão; e tiravão tanto interesse desta ilheta que
tomando-lha o inglês em meu tempo, no anno de 1663, não repararão em andarem as
guerras muy acesas entre essas duas nações para que logo no anno seguinte não
mandassem o seu general Rut com uma esquadra de quatorze náos de guerra a
restauralla; assim que por aqui se verá os lucros que tirarão dos negócios que aqui
farião”140.
A ilha foi passando de mão em mão e, pouco tempo depois, chegou a vez dos
franceses que se apoderaram definitivamente de Goreia, tão cobiçada pelos estrangeiros
que por ela iam passando:
“Hoje [1684] lha tem tomado o francês, e se tem feito senhor de todo negocio
desta costa de Jalofo”141.
Diz ainda Francisco de Lemos Coelho, o redactor desta notícia do séc. XVII,
sobre aqueles lugares de Cabo Verde e a ilha de Goreia, o seguinte:

139
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 96-97
140
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 97
141
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 98

85
“Defronte desta ilha, na terra firme, está um cabozinho que chamão o Cabo
Gaspar, detraz do qual há húa insiada muito boa e grande, que entra pella terra dentro
que parece cá de fora rio. (…) era no meu tempo boníssima escalla esta para os navios
que vinhão de Cacheo com negros para esta ilha, porque aqui refrescavão a sua
armação, fazião aguada fresca, compravão muito mantimento se necessitavão delle e os
regallos que querião na ilha, sendo do flamengo benignamente agazalhados”142.
Assim, os europeus faziam os seus negócios na ilha com os navios vindos do
Norte ou do Sul, por mar e em terra. Na opinião deste observador português, seria
aprazível visitar aquelas aldeias que existiam na orla costeira e mais para o interior:
“Desta enseada do cabo de Gaspar se vai por terra em muito bons cavallos ao
porto de Arrecife, que são três legoas, e he caminho muito alegre, porque há nelle
muitas aldeas e muito frequentadas de gente, e muito vinho de palma de que muitos
brancos gostão”143.
Por ali se misturavam os estrangeiros com os indígenas africanos, no território
do actual Senegal, instalando-se por lá definitivamente não só muitos portugueses,
flamengos, ingleses e franceses mas também judeus fugindo às perseguições da
Inquisição na Europa, desde finais do séc. XV:
“Em o porto de Arrecife ou Recife he que está junto da agoa a aldea principal, e
nella vivem os portugueses e os brancos filhos da terra, e viverão já muitos judeos com
cazas muito grossas, nascidos em Portugal, que aqui se vinhão declarar porque os
defendião os reis da terra e não podião ser castigados por isso. Aqui tem o flamengo
huma feitoria com mercador aparte, e o francês tem outra”144.
Parece, pela descrição que nos é apresentada, que nestes lugares havia já desde
há muito tempo um negócio estável e frutuoso também para os franceses, que
posteriormente acabaram por dominar a região:
“ (…) porque a este porto [Arrecife ou Recife] vem todos os annos húa náo
francesa grande e poderoza, a qual vinha ordinariamente em Novembro, que he o fim
das agoas ou Inverno desta costa, e estava athe o São João que he o principio do
Inverno; e aqui carregava de courama de vaca e levava ordinariamente trinta e cinco
ou quarenta mil couros. (…)”145

142
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 98
143
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 99
144
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 99
145
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 99

86
Os ingleses acabaram por se instalar mais a Sul, junto ao rio Gâmbia, por volta
de meados do século XVII, onde os seus produtos seriam muito apreciados.
“Sahindo do porto de Borçallo se vai ao rio de Gambia, o qual não tem entrada,
ainda que tem baixos de banda do Norte e de banda do Sul (…) Assim que havendo
inglez no rio melhor genero hé couros, cera e marfim; para que vendido com o
estrangeiro se sortée dos géneros do rio, que são ferro, agoardente, contaria miuda
preta e branca, panno vermelho, cristal numero vinte e doiz, papel miudo, que em hum
dia gastaria vinte resmas. (…)
Em este porto de Barra não há negocio nem ninguém surge nele senão para
aguardar maré para hirem para o porto de Julufré, que he do mesmo reino e fica
defronte da fortaleza do Inglez.146”
Este capitão português descreve os espaços ocupados pelos estrangeiros,
distinguindo-os com clareza, com muito pormenor, sabendo de todos os seus interesses
e relações. Apresenta o poderio europeu ali instalado, com uma enumeração dos
produtos com que carregavam os seus navios para comerciar e dos lugares onde era
costume haver mercado. Mas estes carregamentos, pelo que nos é dado perceber, não se
destinavam aos africanos, e todos os anos renovavam estas actividades que dariam
muito lucro noutros lugares, venderiam a outras gentes e noutros contextos económicos
mais lucrativos, onde esses produtos eram escassos e pagos a melhores preços, em que
se incluía o tráfico de pessoas:
“Defronte deste porto de Julufré, a meyo rio, que terá aqui mais de húa legoa de
largo, está húa ilheta que o Ingles tem bem fortificada; sendo que he couza piquena,
mas está muito deffensavel com húa fortaleza de pedra e cal, e cazas dentro para o
General, e almazens para as fazendas, com mais de vinte pessas de artelharia; e a roda
da ilheta, entre as pontas que faz, tem feito ao lume da agoa três plataformas com
quatro pessas de artelharia cada húa; tam rasas com a agoa que quando ha mareta,
lhes lava as bocas. Aqui lhes vem as naos de Inglaterra deitar o ferro e fazendas de que
está ordinariamente bem provida, e carregão de couros de vaca e de bicho, feitos no
rio, os quais constão de antas sinsins, tancões e gimguisangas e são melhores e mais
estimados esses que os de vaca, marfim e cera; e levão hum anno por outro, comprados
no rio, sincoenta mil couros e mil e quinhentos quintaes de cera e marfim. Também
comprão muitos negros que embarcão para as Barbadas, para cujo negocio e deffensão

146
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 111

87
da fortaleza tem ordinariamente outenta athe cem homeñs, assim de soldados como
gente maritima e mercadores para andarem nos pataxos, que ordinariamente tem dous
para conduzirem a fazenda que fazem os feitores, que poem en diversos portos deste
rio. Também compram algum ouro (…).”147
Entretanto, como veremos a seguir, os indígenas continuavam a organizar-se
com os seus reinos, tal como no séc. XV os portugueses os encontraram. Era uma
organização política que se mantinha à margem destas transacções económicas com os
estrangeiros, sendo previsível que a presença dos estrangeiros tenha interferido, a longo
prazo, nas relações de poder entre os reinos africanos e na relação de forças entre os
chefes dos reinos, consoante os interesses, as riquezas, as culturas e os líderes.

2.3. Os reinos africanos

“ Fiquei a saber por eles que em tal cidade [Quioquum] havia abundãncia de
ouro e que por ali passavam as caravanas de camelos e dromedários que
transportavam as mercadorias de Cartago ou Tunes, Fez, do Cairo e de toda a terra
dos sarracenos com carregamento de ouro, porque aí há abundãncia de ouro que é
transportado das minas do monte Gelu [Fouta Djalon]. A outra parte desse monte, no
lado oposto, chama-se Serra Leoa.”148

Diogo Gomes de Sintra transmite, no seu livro de memórias que temos vindo a
referenciar, a ideia da existência de vários reinos dispersos nestes territórios, em meados
do século XV. Também Francisco de Lemos Coelho, nos finais do séc. XVII, descreve
estes lugares, correspondentes aos do actual Senegal, divididos em vários reinos ao
longo da costa, entre o rio Senegal, passando pelos rios Gâmbia e Casamansa, até aos
sítios que hoje pertencem à Guiné-Bissau, como veremos:
“Deste Cabo Verde ou rio de Sanagá athe o rio Gambia há de costa trinta e tres
legoas, e nesse destricto todo está a região do Grão Jalofo em o qual há sinco reinos a
saber: o do Grão Jalofo, que se estende do dito rio de Sanagá pela terra dentro, e vai
confinando com os mais reinos jalofos, os quais antigamente todos erão seus vassallos
não havendo nesta nasção mais rei soberano que este do Grão Jalofo; mas todos se lhe

147
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 112-113
148
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp 73 a 75

88
revelarão e fizerão senhores soberanos e hoje não tem mais poder do que os outros reis
desta nasção; e somente o reconhecem e tem como couza sagrada e nenhu lhe intenta
guerra, tendo-a continuamente huns com os outros principalmente nas sucessões dos
reinos em os quais he tudo comum, assim nos ritos e ceremonias, como no negocio da
mercancia e generos para elle.”149
Observamos, desde logo, que vários reinos eram a base da organização destes
territórios, provavelmente anteriores à chegada dos portugueses.Vamos agora ter em
conta as suas dinâmicas originais, tentando distingui-las da influência europeia.
Precisamente, torna-se interessante compreender esses reinos independentes,
como viviam, que tipo de relações estabeleciam entre si, de paz ou de guerra, as causas
e os efeitos dos modos de vida que tinham desenvolvido. Tentaremos reencontrar
formas específicas da organização destes povos africanos. Para isso, seguiremos o olhar
dos informadores portugueses, que escreveram as suas impressões sobre o que viram e
descreveram, até certo ponto, o relacionamento entre estes reinos. A partir dessas fontes
conhecemos, pelo menos alguns dos reinos africanos, seriam com grande probabilidade
os mais proeminentes e os mais conhecidos. É importante conhecer a forma como se
orientavam, os seus interesses e maneiras de viver, que durante séculos se mantiveram
desligados da presença estrangeira, tendo evoluído de forma autónoma, provavelmente
até ao presente. Nos finais do século XVII, as estruturas administrativas e sociais
africanas parecem manter traços independentes, funcionando com a lógica que os
concebera durante os séculos anteriores:
“Tenho dado notícia de todos os reinos dos Jalofos, que são quatro, a saber, o
de Encalhor, o do porto de Aly, cujo Reino se chama Bool, o de Joalla, cujos negros se
chamam Brebesis e são os mais valentes de todos, e o de Borçallo, que são mais em
terras mas mais cobardes, que assim os dispos o Criador para que deste modo se
podessem conservar.”150
Também por esta transparência e por este estado de espírito, descomprometido
mas atento, podem aceitar-se com segurança as apreciações que se fazem sobre o
carácter destes povos, o que era também um traço distintivo entre eles, como veremos.
Quando se diz o que acima acabámos de transcrever, fica claro que os reinos negros se
distinguiam pela força, “são os mais valentes”, pelo número e pela extensão de terras

149
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 95-96
150
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 106

89
que ocupavam,“que são mais em terras”, embora o maior poder seja reconhecido aos
que tivessem mais coragem, e não aos que possuíssem mais territórios ou mais súbditos
porque estes eram “mais cobardes.” São apreciações de um português que viveu com
estes povos, ou seria, talvez também nestes aspectos que se distinguiam os indígenas
entre si.
Já no iníco do século XVI, também Duarte Pacheco Pereira se referia aos
mesmos lugares onde se situavam estes reinos, mas o desconhecimento sobre os reinos
era maior, como é natural, se compararmos com o documento acima transcrito, sem
deixar de haver uma clara complementaridade:
“ (…) E em língua dos Negros se chama este rio Encalhor e a terra dali,
Çanaga, e o reino, Jalofo. E em nossos dias se resgatavam aqui escravos negros, dez e
doze por um cavalo posto que bom não fosse (e pola má governança que se nisto teve,
até seis não podem haver); e assim resgatavam aqui algum pouco ouro por lenço e por
pano vermelho e por outras coisas. E este rio mandou descobrir o virtuoso infante D.
Anrique por Dinis Dias, cavaleiro e Infante del-rei D. João, seu padre, e por Lançarote
de Freitas, seus cavaleiros e capitães. E quando este rio de Çanaga foi descoberto e
novamente sabido, disse o Infante que este era o braço do Nilo que corre pela Etiópia
contra oucidente, e disse verdade. E quando aqui havia bom resgate, se tiravam deste
rio, em cada ano, quatrocentos escravos e outras vezes menos a metade, havidos pelos
ditos cavalos e outras mercadorias.”151
E aquele português, Francisco de Lemos Coelho, tendo vivido mais de vinte
anos na vizinhança destes reinos, não pode deixar de intervir na sua descrição com
alguma subjectividade, expressando juízos de valor sobre a conduta destes povos que
conheceu bem de perto. Assim, vai dizendo o que pensa acerca deles, com
generalizações por vezes, com dados muito específicos doutras. Fá-lo da forma como
qualquer um de nós faria, nos nossos dias, ao contar impressões pessoais da viagem que
realizou, mas também com as marcas da cultura em que se inseria:
“O porto he boníssimo e a terra he muito sadia e muito lavada dos ventos, muito
abundante de tudo, assim de carnes como pescado, que he o milhor e mais que em toda
a costa da Guiné; e entre outros peixes que há são huns que chamão enxovas, que tem

151
D. P. PEREIRA (1505-1508); Op. Cit., pp. 94

90
esta costa, muita sardinha e tam barata que eu comprava huma barca chéa por meya
pataca, que he o menos dinheiro que corre ali.”152
No caso desta testemunha portuguesa, devemos valorizar a experiência
adquirida, ao longo de décadas, em contacto com povos culturalmente muito diferentes.
De facto, este documento torna-se mais valioso pela proximidade e pela experiência
pessoal que apresenta, garantindo um conhecimento muito profundo das realidades em
causa. Aliás, ele próprio explica por que motivo faz este relato e não se mostra
preocupado com o facto de o “Leytor, amigo,” eventualmente não gostar ou não
acreditar nas coisas que ele conta, o que revela do autor uma atitude interessante e até
bastante moderna, pela comunicação com os seus leitores eventuais, pela
espontaneidade e pela segurança que manifesta; parece duvidar de uma recepção
positiva da sua mensagem; contudo, está consciente das novidades que conta e confiante
na utilidade da sua experiência para os vindouros:
“Enquanto gostares lê, sequer por cousa nova; em te enfadando disso dize o que
quizeres, advertindo que não he minha tenção fazello para ti, pois não gostas delle;
mas sabe que o que aqui escrevo são verdades, e que faço isto com testemunha de vista
e como quem nesta costa gastou vinte e três annos vivendo em várias partes, como no
discurço da obra verão; e nas mais commerciei em seus portos em os meus navios com
que navegava.
Creyo, Amigo Leytor, de tua benevolência me perdoarás os erros e não censures
a fazer tantas digressões entrometendo histórias que não competem a discripção da
costa; mas como ella he de si tam seca e intratável, que de si não dá nada, o fis de
prepozito para se saborear o gosto.”153
Faz-se então a apresentação dos lugares e dos reinos respectivos, acima
enunciados, começando de Norte para Sul. De acordo com este relato português, os
reinos que dividiam aquelas terras e gentes eram inicialmente os reinos submetidos ao
do Grande Jalofo. Com o tempo foram-se compartimentando e disseminaram-se vários
reinos, cada vez mais divididos.
O caso de Encalhor, primeiro reino que o autor assinala, teria uma forte ligação a
Portugal, conta-se até um episódio antigo significativo sobre as relações que Portugal
estabelecera, muito cedo, com estes povos, ao ponto de estes pedirem auxílio ao rei de

152
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 99
153
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 93

91
Portugal para apoiar a reconstrução deste reino ameaçado. Pode-se depreender que nos
finais do século XV, as relações com Portugal não se tinham deteriorado, pelo contrário,
existia uma enorme esperança e interesse no apoio vindo do Estado Português:
“O primeiro reino que desta nasção conhecemos pello comercio he o de
Encalhor o qual se estende do rio do Senegá athe húa casta de negros desta nação que
chamão Xercos, e he a terra donde he senhor o Príncipe Bumugelém que em tempo de
El-Rei Dom João o segundo foi a Portugal pedir socorro ao Senhor Rey dito para
restaurar o seu reino que se lhe tinha revelado. (…)”154
Independentemente do desfecho insólito desta situação, a verdade é que o apoio
de Portugal era visto como uma grande força para resolver os próprios conflitos dos
reinos africanos. Este episódio reflecte expectativas positivas que se criaram junto de
alguns povos africanos que não considerariam a presença portuguesa como invasora ou
inimiga.
O segundo reino seria o reino de Bool, onde viveriam muitos “brancos” ou
europeus, ou seja, onde a influência destes terá sido mais profunda, não só pelo
comércio mas também pela vizinhança e convívio directo que desde cedo se instalou
naquela área, onde hoje encontramos marcas linguísticas dos portugueses, por exemplo
nos topónimos como Portudal (porto de Aly) - se a origem não é portuguesa, pelo
menos tem uma evolução e uma estrutura muito próxima da Língua Portuguesa, sendo
este um exemplo, entre outras muitas palavras portuguesas de uso comum, no Senegal,
nos nossos dias:
“Tres legoas abaixo deste porto do Arrecife comessa o reino de Bool que tem
por costa nove legoas; nelle esta a aldeã do porto de Aly que he aonde vivem os
brancos; no mejo deste caminho está hua casta de negros (…) Chamão-se Xercos. (…)
Os negros são os mesmos e os negocios como no Arrecife ; mas aqui com mais
abundancia, que hé dia em que se comprão dous mil couros; o rei vende muitos negros
a troco de prata, custava um negro bom vinte patacas.”155
Não há uma descrição tão pormenorizada como a que responde mais
directamente ao objectivo das viagens naqueles lugares, nomeadamente a indicação dos
sítios e do percurso que se deve escolher, por mar e por terra, do comércio, dos
produtos, das formas como se transaccionavam as mercadorias e até alguns valores

154
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 97
155
D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 102

92
atribuídos aos bens. Por esse motivo, torna-se difícil aprofundar o conhecimento das
características destes reinos designados, que estão inseridos principalmente no contexto
das transacções comerciais que se efectuavam entre os europeus e os africanos. Parece-
nos ainda assim que estes povos indígenas mantiveram alguma reserva sobre os seus
modos de vida; ou então, esses eram aspectos que os estrangeiros não quiseram
explorar, por falta de interesse ou de tempo, por se dedicarem prioritariamente ao
comércio; ou seria porque os aldeamentos se encontravam resguardados, sendo de
difícil acessibilidade. Seja qual for a razão, na verdade, não encontramos uma
caracterização profunda, bem localizada e distinta, sobre a constituição de todos os
reinos africanos enunciados neste documento. Contudo, esta repartição e a designação
destes deixam clara a divisão dos territórios por vários reis, que escolhiam
preferencialmente uma localização junto dos rios, cuja função, entre outras, seria a de
divisória, para separar as terras e as gentes.
Assim, temos o terceiro reino referido, o de Joalla, que se prestava a muitos
conflitos, pelas condições da paisagem. Mas era aqui que se acomodavam muitos
portugueses:
“O porto de Joalla he muito conhecido (…)
Querendo ir por terra do porto de Aly para o porto de Joalla são também nove
legoas, e vaisse pella beira da agoa. Em o meyo do caminho está um rio que devide
estes dois reinos, que chamão o rio Sereno, e a terra, á terra do Sereno, em elle de huã
banda e da outra há aldeas; as do Norte, do rey de Bool, e as do Sul do rey de Joalla; e
parece que criou Deos este asillo para muitos portuguezes que vevião nestes dous
portos; por que se vevião com temor do rei da terra, em huã noite andavão estas quatro
legoas e passavão da outra banda, aonde ficavão seguros, e destes não faltavão
brancos nestas aldeas, o rio se vadea de baixamar.”156
Segue-se o quarto reino, o de Borçallo, que tinha uma maior extensão do que os
anteriores e, talvez por isso, se subdividia noutros reinos, ou comunidades mais
pequenas, submetidos e administrados pelo reino maior:
“Deste porto de Joalla ao rio de Borçallo, que he muito perigozo de entrar… Há
nelle um riacho fundo que chamão o rio de Palmeirinha, e he a demarcação do reino de
Joalla com o de Borçallo (…) De todos estes reinos he o mais dilatado em terras, pois
comessa do rio de Palmeyrinha e vay athe o rio de Gambia, e sobe por elle asima athe

156
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 104

93
o rio de Nanhigega, que são perto de secenta legoas, em o qual districto põem muitos
reyzinhos que lhe são tributários.”157
Mas os reinos que se espalhassem para o interior do continente não eram tão
visitados e o autor assume o seu desconhecimento sobre essas áreas, mais longínquas do
mar e dos locais de negócio preferenciais dos portugueses e dos outros europeus:
“ Da terra do Gran Jalofo não he mais que as notícias que dei; que como fica
pela terra dentro não temos comunicação com elle.”158
Contudo, depreende-se que a influência cultural de certos grupos africanos
abrange grandes extensões, no século XVII:
“Pella terra dentro, confinante com o reino do Gran Jalofo, está o reino do
Gran Fulo cuja costa se chama Tugutá ou Tutá, e há neste reino gente sem número,
todos dados mais a lavoura e criação de gado, de que tem infinita quantidade, do que a
guerra. He este reino dos Fullos tam dillatado que os conhecemos pela terra dentro do
rio de Sanagá athe a Serra Leoa, e dizem se estendem athe Angolla.”159
Apesar das limitações da época ao conhecimento do vasto continente africano,
conclui-se que os portugueses tiveram o engenho necesário para estabelecer contactos
com boas fontes de informação e terão viajado o suficiente para terem uma ideia
bastante correcta da dimensão e da complexidade das sociedades e territórios com que
contactavam. Neste caso, pensamos que o autor se refere ao reino dos fulas, isto é, o
Fouta peul que foi, de facto extenso, teve uma influência marcante, deixando mais
raízes que outros reinos anteriores (por causa do grande número de súbditos, que se
instalaram em territórios geograficamente muito alargados, e, em parte, porque foram o
principal veículo difusor do islamismo na sub-região). Hoje, aqueles lugares
correspondem aos territórios de vários países cujas sociedades têm semelhanças, devido
à proximidade cultural, histórica e geográfica desses povos. Assim, muitas famílias
podem ter-se dispersado, até podem ter perdido o contacto entre si, desenvolvendo-se de
forma autónoma, mas com as mesmas marcas e referências culturais.
Naturalmente, os autores portugueses dos séculos XV a XVII não podiam
delimitar muito bem os territórios de todos os reinos que referem; no caso em apreço, o
capitão português tenta fazer essa delimitação geográfica, mas parece-nos que não
seriam do seu conhecimento certos detalhes. De acordo com as suas experiências, estes

157
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 106
158
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 107
159
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 109

94
reinos parecem distinguir-se também por características específicas dos seus líderes e
dos seus súbditos, ou seja, esses agrupamentos viviam separados, até isolados, pelo que
tinham experiências históricas e culturais próprias. Com grande probabilidade se
identificam com as etnias ou famílias, tal como hoje ainda existem no Senegal. São
muito diversificadas e dificilmente se separam, preservando os seus costumes e as suas
leis ao longo dos tempos. Haveria, no século XVII, idêntica autonomização de grandes
famílias, fechadas a tudo o que pudesse ameaçar as suas estruturas, os seus laços de
união ou o seu poder?
Sobre estes assuntos, recordamos um pequeno episódio que presenciámos
quando pedimos a identificação a um estudante senegalês. Não foi por acaso que ele se
apresentou com o nome da família primeiro, depois com o nome próprio. Quando
pedimos também o nome da etnia, ele mostrou-se muito incomodado. Depois explicou-
nos que, dessa forma, teríamos acesso pormenorizado às suas origens e às da sua
família, ou seja, era como se nós estivéssemos a entrar em domínios privados ou
reservados. Obviamente, nós não atribuímos este significado à sua identificação pessoal.
Mas, no Senegal, dizer estes dados é expor-se a uma leitura do seu passado. Nós não
temos igual informação, do passado, da história, das famílias e das etnias do Senegal.
Aquele mundo estava ali mesmo à nossa frente, oculto pela palavra.
De facto, no Senegal, esta imagem das etnias ainda está muito presente no
quotidiano, embora desconheçamos muito das suas histórias e tradições. Pode ter sido
também um aspecto distintivo dos reinos antigos africanos, de que falávamos.
Espalhavam-se e afirmavam-se naqueles extensos territórios que, por isso mesmo,
permitiam-lhes viver longe uns dos outros, controlando o seu pedaço de terra, muitas
vezes isolados nas suas aldeias, sem outros contactos que não fossem os da sua
comunidade, o que proporcionava um certo fechamento ou distanciamento do resto do
mundo. De alguma forma, abriram-se mais para o mundo quando os europeus
chegaram. Estes reinos passaram a receber visitantes. E os nativos compraram produtos
novos, desenvolveram outros interesses e contactaram com outros homens. Mas sem
experiência, pouco habilitados para responder às exigências deste novo mundo, como
vimos, os interesses variaram ou mudaram, as guerras eram outras, vindas de outros
contextos:
“Querendo hir mais por este rio de Bitam asima, que he pernada do rio de
Gambia, deste porto de Bintam a seis legoas está outro reino de Banhús, que chamão o

95
reino de Sangedegú, e aldea que vista a vista do porto chamão a aldea de mais negocio
que teve este rio de Gambia, e ainda hoje o Inglez tem húa feitoria nella.”160
Aqui, neste ponto, não podemos distinguir claramente os reinos das aldeias,
onde viviam determinadas comunidades, também designadas por outros nomes. Por
isso, parece que a certa altura os reinos confundem-se – o reino de Banhús é também o
reino Sangedegú - e ficamos com a sensação de que esses reinos também seriam mais
diversificados, com várias comunidades de diferentes proveniências e características. E
a complexidade acentuou-se mais ainda, a partir de certo momento, com a chegada dos
europeus que instalaram as suas feitorias, nessas comunidades ou reinos. Podem ter
provocado uma colisão de interesses no mercado comum. Estes agrupamentos africanos
trocavam os mesmos produtos, tinham as mesmas necessidades e os mesmos desejos.
Criou-se uma concorrência comercial e acenderam-se eventuais rivalidades entre esses
grupos e as suas lideranças, o que acontecia, como vimos atrás acerca deste mesmo
reino de Sangedegú.
Por causa desta organização diversificada, mesclada de famílias, de
proveniências e de costumes, estes pequenos reinos apresentavam fragilidades que
podem ter-se arrastado ao longo dos tempos. Por exemplo, Casamansa é hoje um
território de conflitos frequentes que podem estar relacionados com a proximidade
geográfica e étnica da Guiné-Bissau:
“Neste porto de Boaguer se embarcará em canoa, das muitas que vão para
Buzetõ ou Bajetõ ou Bajatõ … e logo dará na madre do rio de Caza-mança, o qual
atravessará a hir buscar a terra do Sul, assim por lá estar a boca do rio que vay entrar
como por se livrar dos Sacalates, que he huã nação de negros que estão entre os
Falupos da boca do rio da banda do Sul e o reino dos Bacotes, e estes são os olandezes
do rio, que não vivem mais que de furtar e roubar as canoas que atravessão aqui.”161
Esses conflitos podem também existir devido à história mais recente desse
território, dominado pelos portugueses e depois pelos franceses, na sequência de jogos
de guerra dos povos colonizadores que separaram reinos e etnias:

160
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 114
161
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 115

96
“Barbosa du Bocage aceitou ceder à França a bacia do rio Casamansa contra o
reconhecimento da esfera de influência portuguesa numa longa faixa do território
ligando Angola a Moçambique. O acordo ficou ajustado em Dezembro de 1885 (…)”162
Devemos ainda chamar a atenção para a extensão da religião islâmica
disseminada por todos estes reinos africanos, destacando-se como característica comum
e unificadora, de Norte a Sul destes lugares da costa ocidental africana, na região ao Sul
do Sara. Na verdade, esse aspecto religioso define ainda actualmente a maior parte do
povo senegalês. Mais de 90% da população segue o Islão:
“Tornando ao nosso rio de Gambia e ao porto de Bintam (…) o primeiro porto
que tem he o de Tancoroale aonde há húa boa aldeã, e o reino se chama de Quiam, e o
rei se chama Taram de Quiam; e já tudo isto, assim de húa banda como de outra, são
Mandingas, nação que vindo por hospedes da terra de Mandincança se naturalizarão
aqui (…) sendo todos mahometanos, mais ainda que os Jalofos.163
Os aspectos religiosos poderão também contribuir para um melhor conhecimento
da evolução destes povos, sendo talvez até uma fonte inesgotável de informações.
Contudo, pela complexidade e pela extensão desse tema, poderíamos desviar a atenção
para aspectos que não podemos aprofundar neste nosso trbalho. Preferimos limitar-nos
aos contactos entre as várias culturas.
Não pára por aqui a referência aos reinos africanos que parecem espalhar-se e
subdividir-se ao longo da costa ocidental:
“Deste porto de Nhacoi ao de Findifeto, há seis legoas, o qual fica de banda do
Sul (…) He o primeiro porto do reino de Oli, que lhe aqui chega o reino de Nhani; e
todos estes reinos tem mais cognominamento de Mansa, como Nhanimansá,
Olimansá.”164
Esta proliferação de reinos permite-nos pensar que, apesar da grande extensão
das terras que estamos a observar, o poder dos seus chefes sofreria de certas
instabilidades. O poder e a autoridade estavam muito repartidos e sem ligações ou
relações específicas entre eles. Por exemplo, não parece haver o reconhecimento claro
da pertença das terras ao reino vizinho e, por isso, fariam guerras por terras comuns.
Também viveriam a grandes distâncias uns dos outros, o que evitaria outros conflitos.

162
J. C. MAGALHÃES (1990), Op. Cit., capítulo “A questão dos limites dos domínios portugueses no
último quartel do século XVIII”, sub-capítulo “4. Asconvenções luso-francesa e luso-alemã de 1886; o
«mapa cor-de-rosa»”, pp. 183
163
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 117
164
F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 129

97
Mas os interesses e as necessidades eram os mesmos e, por isso mesmo, haveria
combates para conseguir o mesmo objecto. Nos locais de comércio, encontravam-se por
razões de sobrevivência, realizariam as trocas úteis a todos, mas produtos como o ouro,
a prata e o sal davam prestígio aos governantes, eram de mais difícil acesso, havia rotas
comerciais estabelecidas para estas riquezas, o que implicava um esforço maior e, por
vezes, guerras para os adquirir.
Os portugueses ter-se-ão cruzado com uma sociedade caracterizada por uma
multiplicidade de lideranças e de comunidades dispersas em territórios subdivididos por
reinos diferenciados. Para um estrangeiro, não seria fácil abarcar toda esta
complexidade. Manter interesses comerciais ao longo de toda a costa da Guiné e
comunicar com tantos grupos, deve ter levado a mal-entendidos frequentes, entre os
africanos e os visitantes. De facto, os portugueses foram vítimas de muitos ataques, mas
também foram muito bem recebidos por outros grupos. E a permanência e o
entendimento nas relações comerciais acabaram por estabelecer interesses comuns,
hábitos e até expectativas. Assim, os portugueses, ao mesmo tempo que planeavam o
seu comércio naquelas regiões, acabaram por se fixar nas zonas mais adequadas aos
seus interesses e mais lucrativas, comunicando com os nativos, firmando a sua presença
na economia e falando em Português. Como vimos, no século XVII os indígenas
compreendiam e reconheciam bem a língua que os portugueses falavam.
Além disso, a ausência de interesse, condicionalismos geográficos ou de tempo,
bloqueio dos reinos africanos, fossem quais fossem os motivos para não explorarem o
interior do continente africano, é certo que só muito mais tarde se desbravaram essas
terras; e, ainda hoje, existem muitas dúvidas sobre a evolução dos povos africanos e
sobre lugares mais recônditos. Mas esta falta de informação parece não existir apenas na
Europa, os próprios africanos têm dificuldade em encontrar fontes documentais que
confirmem ou infirmem as numerosas tradições orais.
Os regimes políticos africanos ainda são modelos inspirados no mundo
ocidental. Os modos de vida são também influenciados pelos europeus e emigram
preferencialmente para os países colonizadores. Têm como línguas oficiais as dos povos
que os submeteram, mas falam, no dia-a-dia, línguas nem sempre escritas e raramente
estudadas. Por isso, dizem, no Senegal, que quando morre um ancião é como se
desaparecesse uma biblioteca.
O que se verifica, contudo, e cada vez mais, é a adopção de modelos
estrangeiros, falando aqui apenas do Senegal especificamente, ao mesmo tempo que se

98
buscam as origens culturais africanas. Mas avança-se lentamente, o que nos parece ser
um sinal de persistência dos atrasos no desenvolvimento deste continente, que ninguém
conseguirá modificar sem a participação voluntária e convicta dos africanos. Conhecer
as origens culturais das populações, ou mantê-las, não devem, de forma alguma,
significar um recuo ao passado porque as culturas africanas também evoluíram e
sofreram sucessivas adaptações a novas realidades que conheceram. Pelo contrário,
devem integrar-se as culturas específicas na situação actualmente vivida e projectar o
futuro para o desenvolvimento do país dentro dos modelos que já escolheram. Parece-
nos que não há ainda sensibilidade real deste povo e dos seus líderes para se unirem
com objectivos benéficos para todos e contribuírem para o bem comum, para melhorar
efectivamente a qualidade de vida das pessoas.

99
3. INQUÉRITO AOS ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS

Quisémos conhecer as razões do interesse crescente pelo estudo da Língua


Portuguesa no Senegal cujo ensino foi decretado em 1967 por Léopold Sedar Senghor,
primeiro Presidente da República do Senegal – as primeiras classes foram leccionadas
por um guineense, Benjamim Pinto Bull, nos liceus Van Vollenhoven (actual Lamine
Guèye) e John F. Kennedy, em Dacar, seguindo-se, em 1972, a criação da Secção de
Português na Faculdade de Letras da Universidade Cheikh Anta Diop.
No momento da descolonização, não deixa de ser contraditório que, neste país
africano e francófono, se julgue importante que as novas gerações aprendam esta
Língua de um colonizador com o qual o Senegal estava, à época, de relações
diplomáticas cortadas, apoiando o PAIGC – Partido para a Independência da Guiné e
Cabo Verde - na sua luta pela independência e sofrendo incursões militares portuguesas
na região da Casamansa.
Contudo, faz algum sentido que, para o diálogo e o relacionamento entre países
africanos, seja urgente esta via de comunicação, onde existe uma multiplicidade de
línguas étnicas convivendo com as línguas oficiais dos antigos colonizadores europeus.
As políticas económicas destes países dependem de uma comunicação cada vez mais
eficaz, de uma associação de esforços para resolver problemas prementes que afectam
muitos países do continente africano.
O primeiro Presidente da República do Senegal, Léopold Sédar Senghor, era um
homem de cultura, universalista e arauto da Negritude, cujo país ensaiou, nas três
primeiras décadas de independência, duas federações: em 1960, a efémera Federação do
Mali e, entre 1982 e 1989, a Federação da Senegâmbia. Assim, é natural que tenha
considerado importante o ensino de línguas estrangeiras, para servirem de instrumentos
de trabalho e/ou políticos, na parceria entre países e para unir África ao resto do Mundo.
Por outro lado, o Presidente-Poeta publicou as suas ideias, valorizando África e
os africanos. Tendo sido divulgadas pelo continente africano, contribuiram para o
desenvolvimento de um esforço colectivo no sentido de reencontrarem as identidades
nacionais, para a emancipação da Negritude e para a procura do reconhecimento das
suas culturas noutros continentes, mas também para a afirmação de supostos valores que
interessava realçar em diversos planos – nos organismos do sistema das Nações-Unidas,
nas relações entre doadores e beneficiários da ajuda pública ao desenvolvimento, etc.

100
Não será com certeza uma coincidência que, no ano de 1961, Senghor tenha
escrito a tão conhecida Elégie des Saudades165, em que afirma ter a sua gota de sangue
português e onde relembra aspectos da cultura portuguesa que se espalhou por todo o
continente africano.
Para além da influência de Senghor, outras razões haverá certamente para que
muitos jovens senegaleses optem pelos Estudos Portugueses e que se verifique, ao longo
de quase quatro décadas, um aumento significativo de estudantes nos Ensinos
Secundário e Superior.
Observemos então os aspectos específicos abordados num inquérito, com temas
diversos, elaborado com o objectivo de obter o máximo de informação possível sobre a
opção dos estudantes universitários pelos Estudos Portugueses. Contudo, reconhecemos
que muitas outras abordagens teriam sido possíveis sobre a cultura senegalesa.

3.1. Público-alvo

O público-alvo do presente inquérito é constituído pelo universo dos estudantes


inscritos nos cursos de Estudos Portugueses da Universidade Cheikh Anta Diop em
Dacar, Senegal. A estrutura dos cursos, inspirada no sistema francês166, é a seguinte:
1. “Licence” – diploma que sanciona a conclusão dos 3 primeiros anos de ensino
Superior (ou seja, Bacharelato); para obter a “Licence”, os alunos frequentam
sucessivamente o Duel I (1º ano), o Duel II (2º ano) e o ano de Licence (3º ano);
2. “Maîtrise” – diploma de conclusão do 4º ano (logo, equivalente a uma
Licenciatura);
3. “Études de 3ème cycle” – diploma de conclusão do 5º ano (equivalente a um
Mestrado), que pode ser obtido por duas vias: i) “DEA” – “Diplome d’Études
Appliquées” (via científica, na qual os alunos apresentam uma dissertação) ou ii) DESS
(via profissionalizante, na qual os alunos fazem um estágio);
4. Doctorat d’Etat, equivalente ao Doutoramento.
Ao todo, no ano lectivo da realização do inquérito (2004-2005), estavam
inscritos 646 alunos nos referidos cursos, distribuídos da seguinte forma:

165
SENGHOR, Léopold Sédar, Oeuvre Poétique, Éditions du Seuil, Paris, 1990
166
Há mecanismos de transição – transferência ou continuação de estudos - quasi automáticos da UCAD
para as Universidades francesas. Assim, dada a especificidade do sistema senegalês, preferimos manter as
designações originais.

101
- Licence: 568 (87,9%) - 294 em “Duel I” (45,5%, 1º ano);
- 164 em “Duel II” (25,4%, 2º ano);
- 75 em “Licence”( i.e., no 3º ano 11.6%167);
- Maîtrise: 75 (11,6%);
- DEA: 2 (0,3%);
- 3ème Cycle: 1 (0,15%).
No total, foi possível obter respostas válidas de 300 alunos (a que acrescem 6
inquéritos parcialmente utilizáveis), isto é 46,4% do universo, o que constitui uma
amostra muito representativa, da qual não constam, apenas, os níveis superiores (“DEA”
e “3ème Cycle”) cujo efectivo, como vimos, é, no entanto, diminuto e pode considerar-
se praticamente irrelevante para os efeitos do presente trabalho. A validade desta
amostra não reside apenas no seu efectivo, mas também na repartição dos alunos que
responderam:
- 279 (93% da amostra) no conjunto dos três primeiros anos
- 133 de “Duel I” (44,3%);
- 90 de “Duel II” (30%);
- 56 de “Licence” (18,6%);
- 26 de “Maîtrise” (8,7%).
Os desvios entre as frequências relativas (por anos) do universo e da amostra são
de:
(-1,2)% em “Duel I”;
4,6% em “Duel II”;
7% em “Licence”
(-2,9)% em “Maîtrise.
Assim, podemos, sem receios, considerar representativa a amostra para os
objectivos deste inquérito.

3.2. Questões

O inquérito distribuído aos alunos foi idêntico ao que se reproduz nas duas
páginas seguintes:

167
As percentagens entre parêntesis referem-se também ao universo total dos estudantes de Português na
UCAD.

102
103
104
O inquérito está dividido em duas partes: “1. Identificação Pessoal” e “2.
Estudos Portugueses”.

1. Identificação Pessoal:

A primeira parte visou colher informações de carácter pessoal sobre os alunos,


com um certo detalhe, de forma a poder ir mais além do mero recenseamento e
estabelecendo algumas correlações entre os dados apurados. Um dos objectivos
prosseguidos com este inquérito foi o de apurar, com a maior clareza possível, o
universo socio-económico de cada aluno, porquanto, sendo o Senegal um país pobre,
com baixas taxas de frequência escolar, as contingências de natureza económica e social
podem ter um papel importante no desempenho do aluno, nas suas ambições e,
eventualmente, podem constituir-se como factores da escolha dos estudos superiores em
Português. Por outro lado, um retrato das origens geográficas dos alunos e dos seus
familiares ascendentes poderia ser útil para detectar movimentos migratórios e,
eventualmente, tirar conclusões sobre as motivações da escolha da frequência dos
cursos de Português da Universidade Cheikh Anta Diop.
Para o efeito, optámos por perguntar aos alunos (sempre que possível, com a
opção de escolha múltipla, para melhor facilidade de escolha e de expressão), os
seguintes dados de natureza pessoal:
- Nome de família (os nomes designam, por vezes, origens étnicas e estratos);
- Idade;
- Local e região de nascimento;
- Etnia e língua étnica (coincidiriam?);
- Se os alunos exerciam alguma actividade profissional e qual;
- Com quem viviam antes do ingresso na Universidade;
- Com quem viviam à data do preenchimento do inquérito;
- Pedia-se também o preenchimento de um quadro de dados (nome, local e país
de nascimento, etnia e profissão) relativos aos pais e aos avós.

2. Estudos Portugueses:

A segunda parte do inquérito visou compreender melhor a relação dos alunos


com a Língua Portuguesa. Por um lado, procurando verificar a convicção com que

105
tinham optado pela frequência dos seus cursos, as expectativas futuras e as perspectivas
de saídas profissionais. Pareceu-nos igualmente importante analisar os primeiros
contactos dos alunos com a Língua Portuguesa, os motivos que os levaram – nos casos
em que tal aconteceu – a ter a disciplina de Português no Ensino Secundário. Assim, a
segunda parte incluiu as seguintes questões:
- Como teve conhecimento do ensino do Português no Senegal?
- Se estudou Português no liceu, por quantos anos e por que motivos;
- Por que motivos escolheu fazer estudos superiores de Português?
- O que pensa e o que gostaria de fazer profissionalmente após a conclusão do
curso de Estudos Portugueses;
- Por último, um pedido para os alunos indicarem países, por ordem decrescente,
incluindo o Senegal, onde gostariam de viver após a conclusão dos seus estudos
universitários.
Importa notar que algumas questões colocadas aos alunos parecem repetitivas
ou, pelo menos, com respostas sobrepostas; tal não foi casual, mas antes, propositado.
Com efeito, não ignorávamos, com a experiência da docência na Universidade Cheikh
Anta Diop, as dificuldades de interpretação de perguntas redigidas em Português –
sobretudo, dos alunos do primeiro ano - nem o condicionamento à resposta franca que
alguns factores culturais e sociais objectivamente poderiam constituir.

3.3. Análise e comentários das respostas

3.3.1. Identificação Pessoal:

Como vimos, os alunos participaram no inquérito em grande número, com


empenhamento e seriedade. Tendo também em conta a proporcionalidade da repartição
dos alunos por nível de ensino, reiteramos que a amostra proporciona um elevado grau
de probabilidade às respostas obtidas, constituindo um retrato muito claro e fidedigno
do universo dos estudantes de Português na Universidade Cheikh Anta Diop.
Seguidamente, analisaremos os resultados obtidos junto dos já referidos 300
alunos:

106
3.3.1.a - Nomes de família:

Quadro 1.1. Nomes citados pelo menos três vezes

NOME n168 Etnia mais citada 2ªetnia mais citada Outras etnias citadas
Diarra 12 Diola (10) Balanta (2)
Gomis 11 Manjaco (11)
Ndiaye 11 Wolof (4) Halpulaar (3) Sérère (2), Fula (1) e
Manjaco (1)
Diouf 10 Sérère (9) Wolof (1)
Diop 9 Wolof (5) Sérère (2) Diola (1) e Halpulaar (1)
Sane 9 Diola (7) Fula (2)
Mané 8 Balanta (5) Mandinga (2) Bainouk (1)
Sambou 8 Diola (6) Mancanhe (1) e Bainouk (1)
Diedhiou 7 Diola (7)
Faye 7 Sérére (6) Fula (1)
Mendy 7 Manjaco (7)
Sagna 6 Diola (6)
Badji 5 Diola (5)
Coly 5 Diola (3) Bainouk (2)
Diallo 5 Peul (3) Fula (1) Halpulaar (1)
Sarr 5 Sérère (4) Papel (1)
Sene 5 Sérère (5)
Ba 4 Halpulaar (2) Fula (1)
Bampoky 4 Mancanhe (4)
Camara 4 Mandinga (2) Diola (1) e Socé (1)
Fall 4 Wolof (4)
Baldé 3 Peul (2)
Bodian 3 Diola (3)
Dione 3 Sérère (3)
Dramé 3 Mandinga (2) Manjaco (1)
Gaye 3 Wolof (3)
Keïta 3 Toucouleur (1), Bambara (1)
e Mandinga (1)
Manga 3 Diola (3)
N’gom 3 Sérère (2) Wolof (1)
Niang 3 Wolof (2) Toucouleur (1)
Sadio 3 Balanta (3)
Seck 3 Wolof (3)
Senghor 3 Diola (2) Sérère (1)
Tendeng 3 Diola (3)

168
n: número de vezes que o nome foi citado pelos alunos

107
Quadro 1.2. Nomes citados duas vezes
NOME Etnias citadas NOME Etnias citadas
Badiane Diola e Sérère Nancasse Mancanhe
Banana Manjaco Ndecky Mancanhe
Bassene Diola Ntab Mancanhe
Cissé Wolof e Lébou Sall Halpulaar e Sérère
Dia Toucouleur Sidibe Sarakholé e Bambara
Diaw Toucouleur e Lébou Sow Wolof e Halpulaar
Dieng Wolof Sy Peul
Diompy Mancanhe Sylla Sarakholé e Wolof
Gueye Wolof Tamba Diola
Kante Bambara e Mandinga Tine Sérère
Kassé Sérère Top Wolof

Quadro 1.3. Nomes citados uma vez


NOME Etnia citada NOME Etnia citada NOME Etnia citada

Alveringa Crioula Diol Wolof Maro Manjaco


Babene Diola Djiba Diola M'baye Wolof
Bahoum Sérère Djighaly Mandinga Mbengue Wolof
Baïlo Peul Fam Wolof Nahekane Mancanhe
Bandiaky Mancanhe Faty Mandinga Nahoukane Mancanhe
Barbosa Papel Fofana Mandinga Ndione Wolof
Basse Manjaco Fofo Balanta Ndiongue Wolof
Bassoucou Mancanhe Gano Peul Ndiougou Wolof
Bayo Mandinga Goudiaby Diola Ndour Sérère
Biagui Diola Hane Wolof Pandoupy Mancanhe
Biaye Balanta Ka Papel Preira Manjaco
Boye Wolof Kadiona Mancanhe Sakho Sarakholé
Cabral Mancanhe Kaly Mancanhe Sanka Mancanhe
Carvalho Crioula Kampintane Mancanhe Savane Mandinga
Cissokho Bambara Kathiaw Mancanhe Sonko Diola
Corréa Manjaco Kenene Halpulaar Soumaré Soninké
Danfa Balanta Kinty Manjaco Tamega Bambara
Diafouna Mandinga Konnte Diola Teuw Wolof
Diagne Wolof Kor Manjaco Thiam Wolof
Diakhate Wolof Koroboung Mandinga Thioub Wolof
Diamé Bainouk Leye Wolof Tidiane Diola
Diarra Bambara Lima Mancanhe Tomy Mancanhe
Diasse Wolof Lopis Diola Touré Mandinga
Diassy Manjaco Mancabou Mancanhe Traoré Soninké
Dieisse Bainouk Mandika Mancanhe
Dieme Diola Marna Manjaco

108
A análise dos quadros 1.1. a 1.3. evidencia, antes de mais, a composição
multiétnica do Senegal. Os alunos citaram 19 etnias (incluindo o crioulo), as quais
podem variar, em número, consoante os autores.
Uma das referências que tomámos, neste domínio, foi o livro “Peuples du
Sénégal”169, cuja publicação foi apoiada pelo Ministério da Cultura do Senegal e pelo
Comissariado para as Relações Internacionais da Comunidade Francesa da Bélgica,
segundo o qual estaríamos em presença de 16 etnias, na medida em que consideram os
seus autores que os soninkés e os sarakholés são a mesma etnia, bem como os peuls e os
halpulars.
Para estes autores, algumas etnias constituem sub-grupos de outras:
- Os toucouleurs seriam um sub-grupo da etnia peul;
- Os lébous170 constituiriam um sub-grupo da etnia wolof;
- Os bambaras constituem um sub-grupo da etnia mandinga.
Estas acepções variam, como dissemos, de autor para autor, e de país para
país171; contudo, para maior comodidade de leitura dos elementos colhidos no inquérito,
seguidamente damos algumas definições inspiradas no Dicionário da África172, que nos
parecem compatíveis com a linha dominante das fontes que conhecemos:
- Diolas: povo da Baixa Casamansa, muito apegado à sua independência. São
associados aos flups, aos diamatas, aos balantas, aos manjacos, aos mancanhes e aos
bainouks. Alguns diolas vivem também do outro lado da fronteira com a Guiné-Bissau e
a solidariedade permanece muito forte entre estas populações. Permanecendo
largamente animistas, ainda que sensíveis ao Islão a Leste, são tradicionalmente
governados por “reis-sacerdotes” e reagrupam-se no seio de associações (sociedades
secretas) que mantêm uma forte coesão social. Cada família trabalha o seu lote de terra,
mas a propriedade geral é colectiva, tal como os trabalhos de desmatamento. Habitando
geralmente nas zonas florestais atravessadas por rios, os diolas cultivam principalmente
o arroz, o milho e o sorgo, bem como plantas de consumo familiar (mandioca, ínhamo,
feijão, batata doce), praticando, ainda, a pesca em água doce e a caça pequena.

169
DIATTA, Christian Sina; DRAME, Mamadou; DIOP, Abdoulaye Bara; BIDIAR, Jean-Paul
Thiarthiar; NDIAYE, Raphaël; NDIAYE, Mamadou; TOUNKAR, Kéba: Peuples du Sénégal, Ed. Sépia,
Saint-Maur,1996
170
Tradicionalmente residentes na Península do Cabo Verde e na ilha da Goreia
171
Para a Guiné-Bissau, por exemplo, vide: GARCIA, Francisco Proença, Guiné 1963-1974: Os
Movimentos Independentistas, o Islão e o Poder Português, Comissão Portuguesa de História Militar e
Universidade Portucalense Infante D. Henrique, Lisboa 2000
172
B. NANTET, Op. Cit., A tradução e a adaptação são nossas

109
- Mandingas ou Mandes: populações da África ocidental falando línguas mande
e vivendo nas regiões servidas pela rede comercial “dyula”173 e no antigo império do
Mali (Manden é raiz comum a Mali, Mandinga e Mande). Constituem o principal
conjunto linguístico da sub-região. Dele fazem parte os dan e os gouro (Costa do
Marfim), os mendé (Libéria e Serra Leoa), os bambara (Mali) e os mandingas
propriamente ditos (Gambia e Senegal). Os malinkés (Guiné Conacri e Mali actual),
manika ou mendeka (“gentes do Mali”), formam o grupo mais importante, com os seus
mercadores “dyula” que difundiram o mande em toda a savana. No Fouta Djalon, os
djalonkés era Mandes, ourives animistas que asseguravam a riqueza do império do
Mali. Há uma forte identidade cultural entre estas populações associadas por antigas
tradições e cujos clãs se referem, de perto ou de longe, aos impérios do Gana e do Mali.
- Peuls, fulbes ou fulas: povos tradicionalmente criadores de gado que falam o
fulfude. Os peuls intitulam-se fulbe (ou halpulars), mas são também chamados de peuls
(países francófonos), fulani (países anglófonos) e fulas. Uma predominância de autores,
como Mamadou Ndiaye174 e Makhtar Diouf175, consideram que, independentemente da
sua designação, inclui os subgrupos toucouleur e laobé, critério adoptado pelas
autoridades para o recenseamento de 1988, ao contrário do de 1976 em que os
toucouleurs surgiam à parte176). A origem dos peuls é ainda misteriosa, sabendo-se que
estão significativamente presentes em 16 actuais Estados africanos, numa área cujos
vértices são a Mauritânia, a Noroeste, os Camarões a Sul e o Sudão a Oriente (quadrante
do qual provêm e para onde voltarão, segundo as lendas tribais)177. Este povo de
pastores e nómadas está tradicionalmente ligado ao seu gado, que é a sua única riqueza,
e o leite, trocado contra o milho dos sedentários e os produtos manufacturados, é a única
moeda. Os peuls repugnam separar-se dos seus animais, cuja carne não comem, a não
ser aquando de cerimónias rituais. Nos peuls do Oeste, sedentários e islamizados, a
sociedade contém castas de artesãos integrados nos quatro grandes clãs Peuls: Ba,
Barry, Dia, Sow. Por último, recorda-se que os peuls se converteram muito cedo ao
Islão.

173
Não confundir “dyula” (comerciantes) com os diola (etnia)
174
C. S. DIATTA et al, Op. Cit., pp. 139
175
DIOUF, Makhtar, Sénégal, les ethnies et la Nation, Les Nouvelles Editions Africaines du Sénégal,
Dakar, 1998, pp. 24
176
Há ainda quem considere, como alguns alunos participantes no inquérito, que os fula são um subgrupo
dos peuls
177
C. S. DIATTA et al, Op. Cit., pp. 39 e ss.

110
- Sérères: Constituindo cerca de um quinto da população do Senegal, os sérères
vivem sobretudo na costa a Sul de Dacar, até à foz do Saloum. Constituem uma das
mais antigas populações do país. Assim, atribuem-se-lhes os vestígios do passado mais
longínquos, em particular os restos de aldeias do vale do Senegal associados à
metalurgia e a antigos cemitérios animistas. Terão desaparecido desta região no século
XII, na sequência da islamização pelos almorávidas, seguido do aumento do poderio do
reino do Jalofo. Originariamente animistas, muitos sérères converteram-se ao
cristianismo com a chegada dos Europeus.
- Soninkés ou sarakholés: povo vivendo no Oeste maliano, no Sudeste da
Mauritânia e no Leste do Senegal. Agricultores praticando também a pecuária, os
soninkés têm uma sólida tradição de comércio e de emigração. Constituídos a partir da
mestiçagem de várias populações amalgamadas à época do império do Gana, serão
também os sucessores dos agricultores expulsos das regiões mais setentrionais pela
desertificação.
- Wolofs ou jalofos: população constituindo perto de metade dos habitantes do
Senegal, a maior parte dos quais são islamizados. O sistema social piramidal herdado do
antigo império do Jalofo continua a ser praticado. Os wolofs compõem uma etnia que,
tal como a sua língua que se tornou praticamente franca no Senegal, irradiou a partir da
área original do Jalofo. Trata-se da maior etnia senegalesa, cuja importância social
esteve muito tempo aquém da demográfica, mas que tende agora a inverter esta
situação, graças ao talento comercial dos seus membros e à sua ascensão no poder
político, principalmente desde 2002, a que não é alheia a vitalidade das confrarias
religiosas, em particular, a mourida (os membros da outra grande confraria, tidjane, são
associados a um comportamento mais contemplativo). Assim, de grandes cultivadores
de amendoim, os wolofs passaram a comerciantes com um peso cada vez maior na
economia senegalesa.
No universo dos alunos inquiridos, ocorrem 132 nomes diferentes, dos quais 106
são exclusivos de uma etnia e, dos 26 restantes, 6 são maioritariamente referentes a uma
só etnia (75% ou mais dos casos). Em geral, podemos assinalar uma certa constância na
correspondência entre nome e etnia dos povos meridionais (Casamansa e costa a Sul da

111
Península do Cabo Verde), em contraste com a maior heterogeneidade das tribos178 do
interior, particularmente os peul e os wolofs.
O objectivo de reunir os dados recolhidos nestes quadros extensos é o de
salientar, desde logo, que existe, no Senegal, uma grande correspondência entre os
nomes e as etnias que permite, aos autóctones, saberem muitas vezes, pelo simples
anúncio do nome, elementos sobre a condição social e a origem geográfica do
interlocutor, senão com precisão, pelo menos situando a região da família deste e as
etnias possíveis. Assim, podemos depreender que a sociedade senegalesa se apresenta
fortemente estratificada, embora isso se verifique num plano informal: a Constituição
garante, na letra, a igualdade entre todos.
No Senegal e como poderemos apreciar adiante, a matriz de casamentos
tradicionalmente “aceitáveis” entre etnias é, para o estrangeiro, quase esotérica, mas,
por vezes, muito clara para os locais, constituindo um facto importante para o estudo
das relações pessoais e para a compreensão da vida socio-política do país. No Senegal, a
pertença étnica já não tem estatuto oficial nem é mencionada nos documentos de
identidade. Todavia, praticamente ninguém a esconde, antes é referida com facilidade.
Muitos patrónimos permitem a identificação étnica; eis alguns exemplos:
- Os Fall, Guèye e Seck são wolofs;
- Os Faye, Ndour e Sarr são sérères;
- Os Diatta, Diédhiou e Manga são diolas;
- Os Ba, Diallo e Sow são peuls;
Na maior parte das sociedades senegalesas, ao lado de um patrónimo colectivo,
que significa a pertença a uma família ou a um clã, cada pessoa tem um nome que a
designa enquanto indivíduo. Mas mesmo o nome próprio é muitas vezes escolhido
dentro de um leque restrito; por vezes, o nome invocará circunstâncias relativas ao seu
nascimento, como é o caso na maioria dos diolas.
Vale a pena determo-nos sobre algumas práticas diolas que, como veremos ao
longo do inquérito, constituem o grupo mais significativo dos estudantes de Estudos
Portugueses.
Nos diolas, por exemplo, Boalijo significa “para que serve?” (usado, neste caso,
com um intuito aparentemente depreciativo, com vista a desviar a atenção dos maus

178
Este termo será sempre utilizado com o sentido de “cada uma das divisões de um povo”, “conjunto de
famílias que provêm de um tronco comum, sob a autoridade de um chefe”, ou “conjunto de clãs”
Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Ed.,7ª ed, 1995.

112
espíritos de uma criança que nasce depois do ritual do Kanhalen); Kusumenso significa
“reuniram-se”; Sibilumbai é “de onde vêm?” Por outro lado, os nomes diolas são muitas
vezes escolhidos para honrar parentes.
Contudo, é também prática corrente que, para além dos nomes oficiais, outros
possam ser dados, formalmente ou não, para uso diário. Assim, os mesmos diolas
podem adicionar ao nome tribal um outro, cristão ou muçulmano, não necessariamente
inscrito no estado civil, sendo que o uso de um ou de outro é por vezes exclusivo, outras
vezes não; em todo o caso, é-lhes indiferente que o nome de uso seja, ou não, o oficial.
Um estudo sobre a marca étnica na escolha dos nomes próprios na área de
Oussouye, na Casamansa179 constatou que 76% dos diolas, 91% dos manjacos e 90%
dos mancanhes optaram por atribuir nomes próprios cristãos aos seus filhos, enquanto
que 78% dos halpularen, 73% dos mandingas e 71% dos wolofs dão nomes
muçulmanos aos seus filhos.
Outro dado interessante do mesmo estudo, quando optaram por dar um nome
étnico aos seus filhos, nenhuma das 260 crianças halpular recebeu um nome diola,
enquanto que, nesta etnia, 47% dos nomes atribuídos relevavam de uma outra etnia.
Marie-Louise Moreau conclui que a repartição dos indivíduos nas duas grandes
categorias de nomes próprios está fortemente condicionada pela sua pertença étnica e
que menos de 2% dos indivíduos possuem simultaneamente nomes cristãos e
muçulmanos, o que leva a pensar que estes dois universos são vistos não somente como
distintos, mas, também, como opostos. Contudo, assinala também que a existência de
um nome religioso é mais uma forma de obter reconhecimento institucional, e não pode
ser interpretada, necessariamente, como a adesão à religião em causa.
De facto, o animismo continua presente e o nome diola, mesmo que, como
vimos, não “oficial”, é por vezes o mais utilizado e significativo entre os diolas. Esta
situação, que poderia levar á diluição, a prazo, de elementos identitários diolas, seria
reforçada pela imagem depreciativa que outras etnias teriam daquela etnia (vista como
constituída por empregadas domésticas e por camponeses atrasados no obscurantismo
das práticas tradicionais), “atestada” pelo facto de não se verem nomes diola em
crianças de outras etnias.

179
MOREAU, Marie-Louise, « Le marquage des identités ethniques dans le choix des prénoms en
Casamance (Sénégal) », in Cahiers d’Études Africaines, Langues déliées 163-164, 2001. Note-se que,
para este estudo, a autora considera « halpularen » os peuls e toucouleurs ; nos “mandingas”, inclui os
bambaras; e nos “manjacos”, inclui os crioulos, o que a própria autora considera “discutível”.

113
Contudo, M.-L. Moreau regista o fenómeno do aumento significativo dos nomes
diola no seio da etnia, o que considera um indicador de afirmação da identidade,
correspondente “a um sobressalto identitário, a cuja afirmação a crise casamansence,
com o seu movimento independentista, e a ocupação militar da região180 poderão não
ser alheias”.
A título ilustrativo da riqueza etnográfica do ocidente africano, vejamos também
algumas características dos peuls.
Na origem, os nomes peuls podiam designar a ocupação dos seus titulares
(“peuls da vaca”, ainda dedicados à pastorícia, “peuls do livro”, dedicados ao Islão e ao
ensino corânico, e “peuls do tambor” que detêm o poder nos grandes territórios). Assim,
os peuls reconheciam-se através de quatro grandes clãs associados aos elementos da
natureza (fogo, ar, terra e água), à cor dos bovinos (amarelo, vermelho, branco e negro),
e aos quatro pontos cardeais:
- Jal, Jallo (Dial, Diallo, mas também Ka, Kan ou Kane): associados ao Leste, ao
sol nascente, ao símbolo do fogo e aliados à vaca amarela;
- Ba (mas também Mbaalo e Balde): associados ao Oeste, ao poente, ao ar e à
vaca vermelha;
- Bari (Barry, mas também Sangare e Moodibaa’be – os letrados): associados ao
Norte, à terra e à vaca branca;
- Soh (Sow, mas também Sidibe, Dikko, Soonde): associados ao Sul, à água e à
vaca negra.181
Salamatou Sow refere ainda “la parenté à plaisanterie” (termo utilizado para
referir uma aliança entre tribos, povos e / ou castas que pode valorizar aspectos
antepassados comuns, esquecer outros e facilitar ou dificultar casamentos ou
tratamentos preferenciais) entre Jallo e Ba, ou entre Bari e Soh.
Há ainda peuls mais identificados com o sedentarismo, que têm como nomes de
clã mais usuais: Ly, Sy e Tall.
Outros povos senegaleses, como os wolofs, os sérères ou os mandingas têm,
também, nomes ligados a clãs; mas o objecto do presente trabalho e a dimensão
aconselhável do mesmo não justificam o alongamento nesta matéria, para além destes

180
Marie-Louise MOREAU cita aqui a tese de doutoramento de MARUT, J.-C., “La question de la
Casamanse (Sénégal). Une analyse géopolitique”, Université de Paris VIII, Paris
181
SOW, Salamatou, “Les noms sociaux en fulfulde”, in Cahiers d´études africaines, Langues déliées,
163-164, Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Paris, 2001

114
dois exemplos do vasto e complexo universo das nomenclaturas na África ocidental e
das interpretações que elas consentem junto dos iniciados.

3.3.1.b - Idade

Atente-se ao seguinte quadro relativo à repartição etária dos alunos:

Quadro 2. Repartição etária dos alunos

Idade Duel I Duel II Licence Maîtrise Total %


19 2 2 0,7
20 11 1 12 4,1
21 19 3 22 7,5
22 35 13 4 52 17,6
23 39 18 9 66 22,4
24 17 22 13 1 53 18,0
25 5 18 16 5 44 14,9
26 1 7 7 4 19 6,4
27 1 3 3 8 15 5,1
28 1 2 4 7 2,4
29 1 1 0,3
30 1 1 0,3
31 0 0,0
32 0 0,0
33 0 0,0
34 1 1 0,3

A análise das idades dos alunos revela alguns aspectos marcantes:


- O ingresso tardio na Universidade: só 0,7% dos alunos têm menos de 20 anos;
- As dificuldades escolares: não há nenhum aluno de “Licence” (3º ano) com 21
anos, nem de “Maîtrise” com 23 e o maior efectivo (moda) em cada ano lectivo ocorre,
em geral, na mediana (23 anos em “Duel I”, 24 em “Duel II”, 25 em “Licence” – cuja
mediana seria 25,5 - e 27 em “Maîtrise”);
- A permanência limitada na Universidade: devido às dificuldades escolares
registadas e, provavelmente, à falta de meios financeiros, os alunos acabam cedo os
estudos ou abandonam rapidamente, sem os concluir;
- São em pequeno número os que terminam o curso;
- Poucos iniciam a sua actividade profissional dentro da formação em Estudos
Portugueses;
- Verfica-se, nestes alunos, um atraso sistemático para o início de uma
actividade profissional.

115
Fica, assim, patente o difícil ambiente que ainda prevalece no Senegal para os
estudos, quer pela pobreza geral, quer pelo implícito insucesso escolar no Ensino
Secundário. Assim, a taxa de escolaridade no ensino primário era, em 2000, de apenas
60,7%, o que, traduz, contudo, uma nítida progressão durante a década anterior, pois
aquele ratio era de 48,1% em 1990, mas as evoluções positivas foram uma regra em
África, exceptuando a Namíbia e a Tanzânia182.

3.3.1.c - Local de nascimento

Para melhor estudar esta matéria, vejamos um mapa da divisão administrativa do


Senegal:

Mapa 3: Regiões e capitais regionais do Senegal183

Analisemos agora a distribuição geográfica dos locais de nascimento dos alunos,


relacionando-a com os anos que frequentam na Universidade Cheikh Anta Diop:

182
Fonte: MINEDAF, 8ª Conferência dos Ministros da Educação dos Países africanos, Dezembro 2002 e
PNUD, matrizes elaboradas na base dos questionários nacionais relativos ao processo de
acompanhamento dos Objectivos do Milénio para o Desenvolvimento, Agosto de 2003, citados por:
RHAZAOUI, A; GRÉGOIRE, L-J; MELLALI, S: L’Afrique et les Objectifs du Millénaire pour le
Développement, Ed. Económica, Paris, 2005
183
« Les Atlas de l’Afrique, Sénégal », 2000

116
Quadro 3. Distribuição por área de nascimento
Ano Duel I Duel II Licence Maîtrise Total %
Região / país
Dacar 17 17 12 1 47 14,4
Djourbel 4 7 4 2 17 5,4
Fatick 8 2 4 3 17 5,4
Kaolack 5 4 3 1 13 4,1
Kolda 23 13 9 5 50 15,9
Louga 2 1 1 4 1,3
Saint-Louis 3 3 4 10 3,1
Tambacounda 5 5 1 2 13 4,1
Thiès 11 13 2 1 27 8,6
Ziguinchor 56 23 16 10 115 36,5
Outros países 1 1 2 0,3

Os dados compilados no Quadro 3 evidenciam a predominância dos alunos do


Sul do Senegal no universo dos estudantes de Português da Universidade.
Com efeito, 52,4% dos estudantes nasceram nas duas regiões da Casamansa, a
província mais meridional do Senegal e que separa a Gambia da Guiné-Bissau. Grosso
modo e sem prejuízo de posteriores análises, a repartição indicada indicia a
predominância das etnias diola, manjaco, mancanhe, mandinga, balanta, fula e papel.
Contudo, é importante reter que parte dos elementos destas etnias nasceram já na
região de Dacar (cidade e arredores), fruto do êxodo rural que se iniciou com a
designação daquela cidade como capital da África Ocidental Francófona e que se
intensificou a partir de 1960, quando se tornou a primeira – e, até ao momento, única –
capital do Senegal.
Também relevante é o peso de Thiès neste quadro, resultante da presença de
muitos estudantes sérères. Os sérères residem em geral na “Petite-Côte” e no Siné-
Saloum, a Sul de Dakar, área pertencente às regiões de Thiès, Fatick e (pouco) Kaolack.

3.3.1.d – Etnia

Procuraremos verificar se as etnias têm habitats tradicionais e se os elementos


estatísticos permitem explicar a proporção de cada etnia na amostra. O primeiro aspecto

117
relevante será a análise comparativa da repartição por etnias dos alunos com a do
Senegal. Vejamos, para o efeito, o Quadro 4184:

Quadro 4. Repartição das etnias na amostra de estudantes e na população do


Senegal

Repartição das etnias na amostra de Repartição das etnias na população


estudantes senegalesa
Diola 23,3% Wolof 42,7%
Wolof 15,7% Sérère 14,9%
Sérère 13,8% Peul 14,5%
Manjaco 9,8% Toucouleur 9,3%
Mancanhe 9,2% Diola 5,3%
Mandinga 5,3% Mandinga 3,6%
Balanta 4,3% Sarakholé 1,7%
Peul 3,0% Bambara 1,3%
Fula 2,3% Manjaco 1,0%
Bainouk 2,0% Mouro 1,0%
Bambara 2,0% Balanta 0,8%
Toucouleur 1,6% Lébou 0,8%
Papel 1,0% Socé 0,6%
Sarakholé 1,0% Mancanhe 0,3%
Lébou 0,7% Laobé 0,3%
Socé 0,3% Bassari 0,1%

A etnia mais representada no universo de estudantes de Português é a diola que,


no Senegal, é apenas a quinta. A percentagem de estudantes diolas na amostra é
praticamente o quádruplo da sua representatividade no Senegal. Os wolofs seguem com
15,7%, apenas 1,9% a mais do que os sérères. Ora, na população senegalesa, a
proporção entre wolofs e sérères é de 1,83 para 1, ou seja, quase o dobro.
Com uma percentagem de alunos acima da representatividade na população
senegalesa, temos as seguintes etnias: diola (4,4)185, manjaco (9,8), mancanhe (30,7),
mandinga (1,5), balanta (5,4) e bambara (1,5). Refira-se o caso dos bainouks, fulas
(quando citados à parte dos peuls) e papel que, segundo os autores citados, têm uma
expressão irrelevante (no conjunto e com outras etnias, perfazem 1,3%) na população
senegalesa. Ora, na amostra, estão representadas com, respectivamente, 2%, 2,3% e 1%.
Com uma percentagem de alunos inferior à frequência relativa na população
senegalesa, temos as etnias wolof (-63,3%), sérère (-7,3%), peul (-79,3%), toucouleur

184
Tendo em conta que utilizaremos os elementos fornecidos por C. S. DIATTA et al, Op. Cit.,
seguiremos a fusão das etnias que adoptam
185
Indicamos, entre parêntesis, a proporção entre as frequências relativas na amostra e na população
senegalesa

118
(-82,8%), sarakholé (-41,2%), lébou (-12,5%), socé (-50%), bassari, laobé e mouros.
Procuraremos, ao longo deste documento, dar pistas de explicação para esta situação.
Façamos, também o exercício de simplificação, agrupando os dados em grandes
grupos étnicos186:

Quadro 5 - Repartição das grandes famílias de etnias na amostra de estudantes e


na população do Senegal

Repartição das etnias na Repartição das etnias na


amostra de estudantes população senegalesa

Grupo subguineense (diolas, 49,6% Grupo sahelo-sudanês (wolofs, 58,4%


bainouks, bassaris, manjacos, sérères, lébous)
mancanhes, balantas, papel)
Grupo sahelo-sudanês (wolofs, 30,2% Grupo halpular 25,1%
sérères, lébous) (peuls / fulas, laobés, toucouleurs)
Grupo mande (mandingas, 8,6% Grupo subguineense (diolas, 7,5%
soninkés / sarakholés, diakhanés, bainouks, bassaris, manjacos,
bambaras, djalonkés, socés) mancanhes, balantas, papel)
Grupo halpular 6,9% Grupo mande (mandingas, 7,2%
(peuls / fulas, laobés, toucouleurs) soninkés / sarakholés, diakhanés,
bambaras, djalonkés, socés)
Mouros - Mouros 1,0%

O quadro fala por si, no que refere à predominância do grupo sub-guineense:


praticamente metade do universo.
O grupo mande, também mais presente a Sul do que a Norte do Senegal,
completa o conjunto das famílias cuja proporção na amostra de estudantes é superior à
da população do país. Contudo, a diferença de proporções indicia que uma elevada
concentração de estudantes de Estudos Portugueses de uma determinada etnia não é,
apenas, consequência da sua proximidade geográfica com países lusófonos, pois tanto
Kolda, como Ziguinchor, fazem fronteira com a Guiné-Bissau.
Ao invés, o grupo sahelo-sudanês tem uma proporção de estudantes claramente
inferior à sua predominância (58,4%) na população senegalesa. Como vimos, esta
constatação é também válida para a etnia sérère, que integra este grupo.
O grupo halpular é o que tem uma maior desproporção, negativa, entre a
percentagem nos alunos e na população.

186
MBOW, Raymonde, e KANE, Ahmadou Fadel, «Peuplement et ethnies», in « Les Atlas de l’Afrique,
Sénégal», Les éditions Jeune Afrique, 5ª ed., Paris, 2000

119
Mapa 4: Grupos étnicos no Senegal actual187

Para tentar encontrar explicações para as dissemelhanças entre as proporções das


etnias na população senegalesa e no universo dos alunos de Estudos Portugueses da
Universidade Cheikh Anat Diop, comecemos por relacionar as etnias dos alunos com as
suas regiões de nascimento, de modo a verificar uma eventual diferenciação de zonas
dos habitats das etnias:

187
MBOW, Raymonde, e KANE, Ahmadou Fadel, «Peuplement et ethnies», in « Les Atlas de l’Afrique,
Sénégal», Les éditions Jeune Afrique, 5ª ed. Paris, 2000

120
Quadro 6. Relação etnia / área de nascimento dos alunos
Área Da- Djour- Fa- Kao- Kol- Lou- Saint Tamba- Thiès Ziguin- Costa
car bel tick lack da ga Louis counda chor do
Etnia Marfim

Diola 4 1 5 61
Bainouk 6
Balanta 2 8 3
Crioula 2
Mancanhe 3 1 12 1 11
Manjacos 5 8 1 15
Papel 1 2
Wolof 17 5 1 5 4 5 3 6 1
Lébou 1 1
Sérère 7 4 15 1 15
Mandinga 2 1 9 3 2
Bambara 1 1 2 1 1
Sarakholé 1 2 2
Socé 1
Peul 3 2 2 4 3 1 1 2 1
Fula 4 1 2
Toucouleur 1 2 1 1 1

Verifica-se, no quadro 5, uma diferenciação zonal da origem das etnias188:


a) Grupo subguineense (Ziguinchor, Kolda, Dacar)
- bainouks, diolas e papel: Ziguinchor;
- balantas, mancanhes e manjacos: Kolda;
- crioulos: Dacar;
b) Grupo sahelo-sudanês (Dacar, Thiès, Fatick)
- wolofs: Dacar;
- lébous: Dacar e Djourbel;
- sérères: Fatick e Thiès;
c) Grupo mande (Kolda, Ziguinchor, Dacar-Djoubel-Kaolack-Tamba-Thiés)
- bambaras: Kaolack;
- mandingas: Kolda;
- sarakholés: Thiès e Ziguinchor;
- socé: Djourbel;
d) Grupo halpular (Kolda, Saint-Louis, Dacar-Tambacounda)
- fulas: Kolda ;
- peuls: Kolda;

188
Entre parêntesis, indicam-se as três principais, por gupo e por ordem decrescente

121
- toucouleurs: Djourbel.
A diferenciação zonal apresenta, no entanto, variações significativas entre
grupos étnicos: assim, o grupo subguineense regista a maior concentração (64,5%) de
nascimentos na província mais citada, Ziguinchor, enquanto que os demais grupos têm
uma muito maior dispersão: o grupo mande tem apenas 31% em Kolda, o grupo
halpular, 25% em Kolda, e o grupo sahelo-sudanês tem 22,6% em Dacar.
O quadro 6 permite ainda constatar a grande variedade das etnias presentes em
Dacar, atraídas pelas funções inerentes ao estatuto de capital, mas também em Kolda e
em Ziguinchor, revelando as características de cruzamento étnico da região da
Casamansa que foi posse de diversos impérios coloniais.
Para aprofundar esta análise, optámos por introduzir, também, as áreas de
nascimento de pais e avós de alunos, interrelacionando-as entre si e com as etnias.
O estudo da região de nascimento de pais e avós fornece indicações sobre
origens étnicas, mobilidade das famílias dos estudantes e pode fornecer pistas, de
natureza geográfica e cultural, sobre a motivação dos alunos para frequentarem os
cursos de Português na UCAD:

Quadro 7 – Relação etnia / região de nascimento dos pais


Depart.189
Dkr Djb Ftk Klk Kld Lga St.L Tmb Ths Zgr Estrangeiro190
Etnia
Diola 1 8 1 128 GB(3)
Bainouk 12
Balanta 18 5 GB(2)
Crioulo GB(3)
Mancanhe 15 25 GB(16)
Manjaco 1 16 34 GB(7)
Papel 3 GB(3)
Wolof 19 13 6 11 10 14 3 13 4
Lébou 3 1
Sérère 2 4 45 31
Mandinga 2 15 1 4 6 GB(3), MAU(1)
Bambara 1 1 4 1 3 MALI(1)
Sarakholé 3 1 2 2 2
Socé 2
Peul 4 2 3 9 1 13 1 3 CV(1)
Fula 6 2 2 GB(2), GC(2)
Toucouleur 1 5 1 1 1 1

189
Legenda: Dkr – Dacar; Djb – Djourbel; Ftk – Fatick; Klk – Kaolack; Kld – Kolda; Lga – Louga; St.L
– Saint-Louis; Tmb – Tambacounda; Ths – Thiès; Zgr – Ziguinchor;
190
Legenda: CV – Cabo Verde; GB – Guiné-Bissau; MAU – Mauritânia; GC – República da Guiné
(Conacri);

122
No que respeita à região de origem dos pais dos alunos, mantêm-se no essencial
as características assinaladas para os estudantes, mas com particularidades:
a) Grupo subguineense (Ziguinchor, Kolda, Dacar-Kaolack-Thiès)
- bainouks, diolas, mancanhes, manjacos e papel: Ziguinchor;
- balantas: Kolda;
- crioulos: Guiné-Bissau;
b) Grupo sahelo-sudanês (Fatick, Thiès, Dakar)
- lébous, wolofs: Dacar;
- sérères: Fatick;
c) Grupo mande (Kolda, Ziguinchor, Tambacounda)
- bambaras: Kaolack;
- mandingas: Kolda;
- sarakholés: Dacar;
- socés: Djourbel;
d) Grupo halpular (Kolda-Saint-Louis, Djourbel)
- fulas: Kolda;
- peuls: Saint-Louis;
- toucouleurs: Djourbel.
Comparando a concentração dos nascimentos de cada grupo étnico no
departamento citado mais vezes, temos que esta é de: 68,8% em Ziguinchor, para o
grupo subguineense; 28,5% em Fatick, para o grupo sahelo-sudanês; 27,3% em Kolda,
para o grupo mande; e 26,2% em Kolda ou Saint-Louis, para o grupo halpular.
Assim, a concentração nos primeiros departamentos de nascimento dos pais era,
nos casos sahelo-sudanês e halpular, maior do que no caso dos filhos e, no caso mande,
inferior em 3,7%. Contudo, as diferenças não são muito significativas, destacando-se
sobretudo o grupo subguineense, que apresenta, para ambas as gerações, valores
superiores a 65% (arredondando à unidade) e os outros grupos que, na geração dos pais,
têm valores compreendidos entre os 26 e os 28% e, na geração dos filhos, entre 23%
(sahelo-sudanês) e 31% (mande).
Em detalhe, podemos observar que os pais bainouks provêm exlusivamente da
província de Ziguinchor, onde nasceram, também, 91% dos pais diolas.

123
Por sua vez, a percentagem de pais wolofs nascidos em Dacar era menor que a
dos filhos (20% em vez de 37%), visualizando-se claramente a grande disseminação no
território da etnia, sobretudo a Norte do rio Gambia.
Quanto aos pais sérères, 93% nasceram nas regiões de Thiès e de Fatick mas esta
província destaca-se (55% contra 38%), ao contrário do equilíbrio que se verifica nos
filhos (36% para ambos os departamentos).
Ao contrário dos filhos, é na região de Ziguinchor que nasceram mais pais
manjacos (59%) e não em Kolda.
Também no caso dos peuls, a região principal de nascimento dos pais é Saint-
Louis e não Kolda, embora esta tivesse um forte efectivo; parece notar-se, em todo o
caso, um movimento geracional no sentido Norte-Sul.
Por último, uma parte significativa (7,4%) dos pais nasceu noutros países e, em
particular, na Guiné-Bissau (6,6%), onde nasceram 100% dos crioulos e 50% dos papel.
Aprofundemos ainda mais a perspectiva de análise, observando, no quadro 7, os
departamentos de nascimento dos avós, sempre em função da etnia:

Quadro 8 – Relação etnia / região de nascimento dos avós191


Depart.
Dkr Djb Ftk Klk Kld Lga St.L Tmb Ths Zgr Estrangeiro192
Etnia
Diola 9 228 GB(10), MALI(3),
MAU(1)
Bainouk 18 GB(4)
Balanta 26 7 GB(12)
Crioulo GB(10), PT(1)
Mancanhe 9 29 GB(36), CV(2)
Manjaco 1 16 34 GB(50)
Papel 4 GB(4)
Wolof 28 11 4 13 38 29 3 19 6
Lébou 6 2
Sérère 4 8 87 2 1 51
Mandinga 2 23 1 8 10 GB(12), GAM(2),
GC(1), MALI(1),
MAU(1)
Bambara 6 2 1 1 MALI(10)
Sarakholé 4 2 4 6
Socé 4
Peul 1 3 9 6 7 24 2 4 GC(4), GBO(1),
MALI(1)
Fula 6 8 GB(6), GC(4)
Toucouleur 2 2 3 8 4 1CV

191
Legenda idêntica à do quadro 6, acrescida de: GAM – Gâmbia; GBO – Gabão; PT - Portugal
192
Legenda: CV – Cabo Verde; GB – Guiné-Bissau; MAU – Mauritânia; GC – República da Guiné

124
O Quadro 8 ajuda a apreender melhor a mobilidade intergeracional das etnias.
Vejamos, antes de mais, um resumo dos dados relativos aos grupos e às etnias:
a) Grupo subguineense (Ziguinchor, Kolda, Guiné-Bissau)
- bainouks, diolas, mancanhes, manjacos: Ziguinchor;
- balantas: Kolda;
- crioulos: Guiné-Bissau;
- papel: Ziguinchor e Guiné-Bissau;
b) Grupo sahelo-sudanês (Fatick, Thiès, Louga)
- lébous: Dacar;
- sérères: Fatick;
- wolofs: Louga;
c) Grupo mande (Kolda, Tambacounda, Guiné-Bissau)
- bambaras: Mali;
- mandingas: Kolda;
- sarakholés: Tambacounda;
- socés: Djourbel;
d) Grupo halpular (Saint-Louis, Kolda, Kaolack)
- fulas: Saint-Louis ;
- peuls: Saint-Louis;
- toucouleurs: Thiès
Em matéria de concentração dos nascimentos nos departamentos mais citados,
regista-se pouca diferença em relação ao que foi referido para os estudantes e seus pais:
o grupo subguineense é o que apresenta menor dispersão, com 62,3% dos nascimentos
em Ziguinchor; os demais grupos situam-se num curto intervalo: 33% dos halpulars
nasceram em Saint-Louis; 29,2% dos sahelo-sudaneses nasceram em Fatick; e 22,8%
dos mandes nasceram em Kolda.
Analisando os resultados obtidos para os grupos étnicos nas três gerações,
detectamos alguns padrões estáveis:
- o grupo subguineense tem sempre, no departamento de Ziguinchor, o seu foco
de nascimentos, com elevadas concentrações: (de avós para netos) 62,3%, 68,8%,
64,5%;
- Kolda é sempre o departamento com mais nascimentos do grupo mande, e a
tendência parece ser a de uma crescente concentração: 23%, 27%, 31%;

125
- o grupo sahelo-sudanês apresenta uma cada vez mais baixa concentração (29%,
28,5% e 23%);
- o grupo halpular apresenta também uma tendência para reduzir a concentração
(33%, 26%, 25%) e uma aparente tendência migratória de Norte para Sul. Acerca deste
grupo valerá a pena relembrar que são, na origem, pastores, pelo que a desertificação
progressiva do Sahel poderá ter influenciado parcialmente esta tendência migratória.
Será também pertinente assinalar que os departamentos citados são bastante
diferentes entre si, em termos de extensão, pelo que a “concentração” na maior
província, a de Tambacounda, com os seus 59602km² (ou na de Saint-Louis, também
muito vasta e, sobretudo, muito extensa) não é comparável à concentração efectiva nos
550km² do departamento de Dacar.
Por último, assinale-se também uma nítida imigração, para o Senegal, de muitas
das famílias dos alunos mas que, também nesta matéria, a situação é bastante distinta
entre os grupos étnicos.
Assim, o peso dos nascimentos no estrangeiro passa, no total, de 17,1% nos
avós, para apenas um nascimento nos alunos. Ou seja, o fenómeno imigratório parece,
para estas famílias consolidado, ainda que fosse interessante, noutro âmbito, avaliar o
impacto da emigração, para fora do Senegal e do próprio continente africano, cuja
pulsão existe entre os alunos, como veremos adiante.
Mas, como dissemos, notam-se grandes diferenças entre grupos étnicos, no que
respeita à imigração:
Assim, podemos considerar que o grupo que parece ter origens mais antigas no
território do Senegal, de acordo com os dados colhidos no inquérito, é o sahelo-sudanês,
constituído, recordamos, por wolofs, sérères e lébous. O facto de nenhum avó, nem
nenhum aluno destas etnias ter nascido fora do Senegal revela bem o seu enraizamento
no país, conforme tivemos já a ocasião de assinalar, e, também, uma menor
miscigenação, provavelmente devido ao facto de os seus “terroirs” não serem contíguos
ás fronteiras do país. No que respeita aos nascimentos dos pais, apenas três ocorreram
no estrangeiro (1,7%).
No grupo halpular, 16% dos avós nasceram no estrangeiro, valor que desce para
8,2% nos pais e 3,1% entre os alunos deste conjunto étnico.
O peso dos avós do grupo mande nascidos no estrangeiro é bastante relevante:
26,7%. Esse valor desce para 9,1% nos pais e para zero nos alunos.

126
Por último, o grupo subguineense tinha uma percentagem de avós nascidos no
estrangeiro inferior à dos mandes - mas, ainda assim, elevada (25,9%) -; contudo, é nos
pais subguineenses que há mais nascimentos no estrangeiro (11,3%), o que poderá
indiciar laços fortes com povos da Guiné-Bissau (designadamente, os flups) que, por
motivos diversos – instabilidade político-militar e pobreza crónicas – continuam a
emigrar daquele país para o Senegal.
Em pormenor, os avós diolas nascem predominantemente na Casamansa (90,8%
em Ziguinchor, valor idêntico ao dos filhos, e 3,6% em Kolda) mas também no
estrangeiro (4% na Guiné-Bissau, 1,2% no Mali e 0,4% na Mauritânia).
As áreas de nascimento dos avós bainouks evidenciam uma diferença relativa às
dos filhos e netos, a favor da Guiné-Bissau (18,2%).
Os wolofs não são essencialmente originários da região do Cabo Verde, mas sim
de uma faixa contígua ao litoral a Norte desta (o Jalofo), como se evidencia pelo facto
de Louga ser a região onde nasceram mais avós (25%) daquela etnia, seguida de Saint-
Louis (19,2%) e de Dacar (18,5%).
Em certas etnias, é maior a frequência de avós nascidos no estrangeiro do que
em qualquer região do Senegal: os papel (100% na Guiné-Bissau), os crioulos (91% na
Guiné-Bissau), os bambaras (50% no Mali), os mancanhes (47,4% na Guiné-Bissau) e
os manjacos (49,5% na Guiné-Bissau).
Nos pais séréres, Fatick continua a predominar (56,9%), embora com uma forte
presença em Thiès (33,3%).
Demonstra-se, também, o carácter itinerante dos peuls, com um notório
equilíbrio da sua disseminação pelo Senegal (excepto em território sérère) e pelos países
a Leste e Sudeste do Senegal. Contudo, no caso dos peuls propriamente ditos, destaca-
se a região de Saint-Louis (38,7%) que inclui toda a margem esquerda do rio Senegal a
jusante do município de Bakel, ou seja, uma grande parte do Fouta Toro.
Observemos dois mapas de fluxos, entre os países e regiões de nascimento dos
avós e dos pais, e destes para os seus filhos.

127
MAPA 5 – Fluxos migratórios dos avós dos alunos193

Na primeira fase, dos avós para os pais, nota-se imediatamente que o principal
fluxo migratório ocorre da Guiné-Bissau para a Casamansa, com predominância de
Ziguinchor, mas com uma presença importante de Kolda.
Igualmente significativos, embora de intensidade menor, são os fluxos República
da Guiné (Conacri) para Kolda, de Saint-Louis para Dakar, e de Thiès para Djourbel.
No caso da Guiné-Bissau, dois factores relevam para este fluxo migratório: o
parentesco entre vizinhos de uma fronteira artificial, traçada pelos europeus e que
dividiu etnias e a Guerra Colonial. Não temos, neste trabalho, qualquer possibilidade de
apurar a relação entre os fluxos Norte-Sul e Sul-Norte que, entre a Casamansa e a
Guiné-Bissau ocorreram à época, nem conhecemos estudos nesse sentido que nos
pudessem esclarecer melhor sobre qual das duas motivações terá sido a principal (sendo
que, naturalmente, se tivesse predominado o factor étnico, seria provável que os fluxos
se assemelhassem em ambas as direcções, enquanto que a motivação de fuga aos
confrontos militares geraria um maior fluxo Sul-Norte).
O caso de Saint-Louis é um exemplo de êxodo rural generalizado que se faz
sentir no Senegal há décadas. Não é, consabidamente, um caso isolado em África, nem

193
Provavelmente entre a Segunda Guerra Mundial e a Independência do Senegal

128
no Mundo, embora pareça estar, agora, em fase de regressão. O fenómeno tem
geralmente as mesmas causas – procura de emprego e de oportunidades nos polos
urbanos – mas é, no caso senegalês, agravada por três factores adicionais: as secas
recorrentes e a consequente desertificação que afecta o Sahel; as pragas de gafanhotos e
uma emigração persistente para outros continentes. Atente-se, também, ao caso de
Louga, que sofre um visível êxodo, embora disperso em todas as direcções.
Quanto ao fluxo de Thiès para Djourbel, dever-se-á ao aparecimento, nesta
região, da cidade de Touba, lugar “santo” da confraria mourida. De uma pequena aldeia,
Touba tornou-se uma cidade com cerca de 400 mil habitantes (próxima de outra urbe
significativa, Mbacké), onde a lei é, na prática, estabelecida pelo Califa Geral dos
mouridas. É uma zona franca, e o local de muitos comércios que aproveitam as
romagens constantes e, sobretudo, a grande peregrinação anual que junta cerca de dois
milhões de fiéis. Não surpreende, deste modo, que muitos senegaleses a procurem para
residir e / ou desenvolver uma actividade económica, ao abrigo da protecção e das
influências que os chefes religiosos têm, de facto, em todas as esferas do poder.

MAPA 6 – Fluxos migratórios dos pais dos alunos194

194
Provavelmente entre a Independência do Senegal e os anos 80

129
Na segunda fase – transição das regiões de nascimento de pais e filhos –
verifica-se a redução do fluxo proveniente da Guiné-Bissau, embora permaneça
importante. Significativo é o facto de não haver registo de qualquer fluxo da Guiné-
Bissau para Ziguinchor, mas, apenas, para Kolda. De resto, há também um fluxo
significativo de Ziguinchor para Kolda, o que pode ser parcialmente explicado pelo
desvio das estradas comerciais entre a Guiné-Bissau e Dacar após o início dos actos de
violência armada do MFDC. Com efeito, os assaltos a viaturas e, mesmo, a colocação
de minas, ocorreram com maior frequência na área de Ziguinchor, prejudicando assim a
rota Bissau - Ziguinchor – travessia do rio Gambia por “ferry” em Farafeni - Kaolack.
Esta poderá ser, também, uma explicação para algum fluxo em direcção de
Tambacounda (cruzamento das estradas para Dacar, para o Mali, para a Guiné Conacri
via Kédougou ou via Medina Gounass e a alternativa para Bissau - quer por contornar a
Gambia na ligação a Kolda, quer entrando no país vizinho por Pirada, na direcção de
Gabú e Bafatá) e centro ferroviário na linha Dacar - Bamako) e para os êxodos de
Ziguinchor para Dacar e, até Kaolack, significativamente maiores do que os de Kolda.
Outro aspecto bem patente é a aceleração do êxodo em direcção de Dacar, um
fenómeno que está hoje comprovado, estando a população da capital no limiar dos 2,5
milhões de habitantes, à custa de uma desertificação humana do interior e do Norte.
A análise da dispersão dos habitats étnicos pode ser facilitada pela análise das
regiões ou países de origem dominantes em cada geração, por etnia. Assim, se, para
uma etnia, a região onde ocorre a maioria dos nascimentos for sempre a mesma ao
longo das gerações, há constância; de igual modo, interessa também ver qual a
frequência relativa dos nascimentos nas referidas regiões dominantes: quanto mais
próximo do valor máximo de 100%, maior é a concentração da etnia numa dada região;
ao invés, as etnias mais nómadas tenderão a não ter regiões de origem dominantes.
Vejamos, assim, o seguinte quadro síntese que complementa, detalhando, a
análise relativa aos grupos:

130
Quadro 9 – Regiões ou países onde ocorre a maior frequência relativa de
nascimentos por etnia:

Geração Avós Pais Alunos


País / Frequência País / Frequência País / Frequência
região relativa região relativa região relativa
Etnia
dominante dominante dominante
Diola Ziguinchor 90,8 Ziguinchor 90,8 Ziguinchor 85,9
Bainouk Ziguinchor 81,8 Ziguinchor 100,0 Ziguinchor 100,0
Balanta Kolda 57,8 Kolda 72,0 Kolda 61,5
Crioulo RGB 90,9 RGB 100,0 Dacar 100,0
Mancanhe RGB 50,0 Ziguinchor 44,6 Kolda 42,9
Manjaco RGB 49,5 Ziguinchor 59,7 Ziguinchor 51,7
Papel Ziguinchor 50,0 Ziguinchor 50,0 Ziguinchor 66,7
Wolof Louga 25,2 Dacar 20,4 Dacar 36,2
Lébou Dacar 75,0 Dacar 75,0 Dacar 50,0
Sérère Fatick 56,9 Fatick 54,9 Fatick 35,7
Mandinga Kolda 37,7 Kolda 46,9 Kolda 52,9
Bambara Mali 50,0 Kaolack 36,4 Kaolack 33,3
Sarakholé Tambacounda 37,5 Dacar 30,0 Thiès 40,0
Socé Djourbel 100,0 Djourbel 100,0 Djourbel 100,0
Peul Saint-Louis 38,7 Saint-Louis 35,1 Kolda 21,1
Fula Saint-Louis 33,3 Kolda 42,9 Kolda 57,1
Toucouleur Thiès 40,0 Djourbel 50,0 Djourbel 33,3

Constata-se que certas etnias mantêm, ao longo das gerações, a mesma região ou
país predominante em matéria de nascimentos: bainouks (Ziguinchor), balantas (Kolda),
diolas (Ziguinchor), lébous (Dacar), mandingas (Kolda), papel (Ziguinchor), sérères
(Fatick) e socé (Djourbel); contudo, convirá relembrar que as amostras de lébou, papel e
socés são pequenas, pelo que a fiabilidade de eventuais conclusões é menor.
Assinalem-se, também, as elevadas e constantes frequências relativas dos
nascimentos dos bainouks e dos diolas em Ziguinchor, o que demonstra a fixação
territorial daquelas etnias naquela região.
Para continuar a analisar a dispersão, podemos analisar, no Quadro 9, duas
ocorrências complementares:
- as regiões e países onde ocorre a segunda maior frequência relativa de
nascimentos por etnia;
- o somatório das frequências relativas às primeira e segunda regiões onde
ocorrem mais nascimentos:

131
Quadro 10: segundas áreas onde ocorrem mais nascimentos, por etnias
Geração Avós Pais Alunos
2º País / Frequência 2º País / região Frequência 2º País / região Frequência
região mais relativa mais citado relativa mais citado relativa
Etnia citado 2ª ∑ 1ª 2ª ∑ 1ª 2ª ∑ 1ª
maior e 2ª maior e 2ª maior e 2ª
Diola RGB 4,0 94,8 Kolda 5,7 96,5 Kolda 7,0 92,9
Bainouk RGB 18,2 100,0 100,0 100,0
Balanta RGB 26,7 84,5 Ziguinchor 20,0 92,0 Ziguinchor 23,1 84,6
Crioulo Portugal 9,1 100,0 100,0 100,0
Mancanhe Ziguinchor 38,2 82,2 RGB 28,6 73,2 Ziguinchor 39,3 82,2
Manjaco Ziguinchor 33,7 83,2 Kolda 28,1 87,8 Kolda 27,6 79,5
Papel RGB 50,0 100,0 RGB 50,0 100,0 Dacar 33,3 100,0
Wolof Saint-Louis 19,2 44,4 Saint-Louis 15,1 35,5 Thiès 12,8 49,0
Lébou Djourbel 25,0 100,0 Djourbel 25,0 100,0 Djourbel 50,0 100,0
Sérère Thiès 33,3 90,2 Thiès 37,8 92,7 Thiès 35,7 71,4
Mandinga RGB 19,7 57,4 Ziguinchor 18,8 65,7 Tambacounda 17,7 70,6
Bambara Kaolack 30,0 80,0 Thiès 27,3 63,7 Dacar, Djourbel, 16,7 50,0
St.-Louis, Thiès
Sarakholé Dacar, St.- 25,0 62,5 St.-Louis, 20,0 50,0 Ziguinchor 40,0 80,0
Louis Tambacounda,
Ziguinchor
Peul Kaolack 14,5 53,2 Kolda 24,3 71,2 Dacar, St.-Louis 15,8 36,9
Fula Kolda, RGB 25,0 58,3 St.-Louis, 14,3 56,2 Tambacounda 28,6 85,7
Tambacounda,
RGB, GC
Toucouleur Ziguinchor 20,0 60,0 Dacar, Kolda, 10,0 60,0 Dacar, St.-Louis, 16,7 50,0
St.-Louis, Thiès, Tambacounda,
Ziguinchor Ziguinchor

Podemos separar as etnias em diversos grupos, consoante a dispersão das duas


regiões em que ocorrem mais nascimentos de cada. Vejamos o
Quadro 11: Repartição dos nascimentos pelas regiões dominantes de cada etnia
Etnias em que 80% ou Avós: bainouks, crioulos, diolas, socés
mais dos nascimentos
Pais: bainouks, crioulos, diolas, socés
ocorrem na região
dominante Alunos: bainouks, crioulos, diolas, socés
Etnias em que 80% ou Avós: balantas, bambaras, lébous, mancanhes, manjacos, papel, sérère
mais dos nascimentos
Pais: balantas, lébous, manjacos, papel, sérères
ocorrem nas duas
regiões dominantes Alunos: balantas, fulas, lébous, mancanhes, papel, sarakholés
Etnias em que 50% a Avós: balantas, bambaras, lébous, mancanhes, papel, sérères
80% dos nascimentos
Pais: balantas, lébous, manjacos, papel, sérères, toucouleurs
ocorrem na região
dominante Alunos: balantas, fulas, lébous, mandingas, manjacos, papel
Etnias em que 50% a Avós: fulas, mandingas, peuls, sarakholés, toucouleurs
80% dos nascimentos
Pais: bambaras, fulas, mancanhes, mandingas, peuls, sarakholés, toucouleurs
ocorrem nas duas
regiões dominantes Alunos: Bambara, Mandinga, Manjaco, Sérère, Toucouleur
Etnias em que as duas Avós: wolofs
regiões dominantes
Pais: wolofs
representam menos de
50% dos nascimentos Alunos: peuls, wolofs

132
Da observação do quadro 11 resultam os seguintes traços gerais:
Quatro das etnias têm o seu habitat tradicional concentrado numa só região
(bainouks, crioulos, diolas e socés) e mantêm-se estáveis, sendo de reter a excepcional
ligação, ao longo das três gerações, dos bainouks e dos diolas a Ziguinchor.
No extremo oposto, é assinalável a dispersão dos habitats wolof e peul: as
regiões onde nascem mais alunos peuls são Kolda, a Sul, seguida de Saint-Louis, a
Norte, e Dacar, ao Centro; por sua vez, os wolofs apresentam valores mais altos em
Dacar e Thiès, mas, também, em Saint-Louis, Kaolack e Djourbel.
Os sérères apresentavam-se muito concentrados na mesma área, o Siné-Saloum,
administrativamente dividida entre as regiões de Fatick e de Thiés, nas gerações
anteriores. No que respeita aos locais de nascimento dos alunos desta etnia, assinala-se a
emergência de Dacar, e nota-se uma tendência para o aumento da frequência relativa de
nascimentos de sérères em Thiès, em detrimento de Fatick, o que se explica facilmente
pela proeminência daquela cidade, a terceira mais povoada do Senegal (se for
considerado o aglomerado de Touba / Mbacké), industrialmente activa (é um importante
entroncamento rodo-ferroviário, sendo também conhecida como a “cidade do carril” e
nela se implantaram indústrias importantes) e a sede de um departamento onde se
encontram os mais importantes recursos turísticos (a “Petite Cote”, com a importante
estação balnear de Saly Portugal, mas também Mbour, Somone e Nianing).
Como referimos, os mandingas parecem estar em processo de concentração,
enquanto os bambaras, os peuls, os sérères e os toucouleurs estarão a disseminar-se.
Avaliemos, em conjunto, todos os nascimentos, por etnias e regiões / países:

Quadro 12a – Repartição, por regiões, de todos os nascimentos no Senegal


Região de nascimento Avós Pais Alunos Total Frequência
relativa
Dacar 46 34 47 127 6,6
Djourbel 30 28 17 75 3,9
Fatick 91 51 17 159 8,2
Kaolack 32 21 13 66 3,4
Kolda 95 90 50 235 12,2
Louga 48 12 4 64 3,3
Saint-Louis 69 33 11 113 5,8
Tambacounda 21 13 12 46 2,4
Thiès 79 49 26 154 8,0
Ziguinchor 345 223 106 674 34,8
Total Senegal 856 554 303 1713 88,5

133
Quadro 12b – Repartição, por países, dos nascimentos ocorridos fora do Senegal
e sua frequência relativa ao total de todos os nascimentos

País de nascimento Avós Pais Alunos Total Frequência


relativa
Cabo Verde 3 1 4 0,2
Costa do Marfim 1 1 0,1
Gabão 1 1 0,1
Gambia 2 2 0,1
Guiné-Bissau 144 39 183 9,5
Guiné (Conacri) 9 2 11 0,6
Mali 15 1 16 0,8
Mauritânia 2 1 3 0,2
Portugal 1 1 0,1
Total Estrangeiro 177 44 1 222 11,5

A análise de todos os nascimentos de alunos e familiares referidos no inquérito


permite confirmar a importância de Ziguinchor (34,8%) e da Casamansa em geral, que
inclui Kolda (12,2%) e que, no conjunto, representa 47% do universo estatístico.
Vejamos, ainda, um outro quadro comparativo:

Quadro 13 – Repartição da população senegalesa, por regiões, em 2000, e comparação


com as frequências relativas da repartição dos nascimentos de alunos e
familiares:

Região População Frequência Frequência Frequência Frequência


em 2000195 relativa da relativa dos relativa dos relativa dos
poulação em nascimentos nascimentos nascimentos
2000 de avós, pais de pais e dos alunos
e alunos alunos
Dacar 2326929 24,4 6,6 9,0 15,5
Djourbel 902327 9,5 3,9 5,0 5,6
Fatick 628969 6,6 8,2 7,5 5,6
Kaolack 1100938 11,6 3,4 3,8 4,3
Kolda 797165 8,4 12,2 15,5 16,5
Louga 555052 5,8 3,3 1,8 1,3
Saint-Louis 842409 8,8 5,8 4,9 3,6
Tambacounda 518040 5,4 2,4 2,8 4,0
Thiès 1310933 13,8 8,0 8,3 8,6
Ziguinchor 543886 5,7 34,8 36,5 34,9
Total Senegal 9526648 100,0 88,5 95,1 99,7

Ziguinchor e Kolda são as únicas regiões onde a frequência relativa de


nascimento de alunos é superior à da população. Sendo o valor de referência da

195
Fonte : Departamento de Projecções e de Estatísticas do Ministério da Economia e das Finanças citado
pelo Programa das Nações Unidas para o Desevolvimento, Rapport National sur le développement
humain au Sénégal, 2001 – Gouvernance et Développement Humain, PNUD, 2001

134
população aquele obtido em 2000, é naturalmente discutível compará-lo com as regiões
de nascimento e, em particular, as dos pais e dos avós, na medida em que, para tal, seria
importante conhecer a repartição da população há 25 e 45 anos atrás, por exemplo.
Contudo, podem-se tirar pistas de interpretação, do facto, por exemplo, de que, tanto no
agregado das três gerações, como no dos nascimentos de pais e filhos, Fatick tem,
também, frequências relativas superiores à repartição da população senegalesa em 2000,
o que poderá querer dizer que, ou o peso da população Sérère está a diminuir em Fatick,
ou aquela etnia se está a transferir para Thiès.
Ainda assim, as frequências dos nascimentos de alunos e a da população de
Fatick e Tambacounda, em relação ao todo nacional, estão próximas, divergindo 1% e
1,4%, respectivamente.
As observações dos dois parágrafos anteriores sugerem a divisão do território
senegalês em três áreas, no que diz respeito à apetência das populações para estudarem
o Português:
- A Casamansa, que se dirá de alta apetência;
- As regiões de Thiès, Fatick e Tambacounda (ou seja, um eixo
aproximativamente transversal a Norte da Gâmbia, com a excepção de Kaolack), de
apetência média;
- As regiões a Norte desse “eixo” e de Kaolack, de apetência baixa (embora
Dacar apresente uma evolução sensível).
O caso específico da Casamansa suscita alguns comentários adicionais: a região
representa 38,8% dos nascimentos de avós, 52,3% dos nascimentos de pais e 51,3% dos
nascimentos de alunos, ou seja, as frequências relativas dos pais e dos alunos são quase
idênticas, mas representam um significativo acréscimo em relação à dos avós.
Tal facto explica-se pelas migrações dos avós, sobretudo a que teve origem na
Guiné-Bissau, com destino à Casamansa: com efeito, 9,5% de todos os nascimentos
ocorreram na Guiné-Bissau, mas a repartição por gerações é muito desigual (13,9% dos
avós, 6,5% dos pais e 0% dos alunos).
A Guiné-Bissau, na qual ocorreram 82,4% de todos os nascimentos ocorridos no
estrangeiro, é claramente o maior foco de origem das migrações de familiares
ascendentes dos alunos e o seu peso na amostra indicia que esse factor será porventura
relevante nas motivações para a escolha dos cursos de Português na Universidade
Cheikh Anta Diop.

135
Sabe-se que, dos restantes países vizinhos, houve migrações significativas para o
Senegal, mas estas não se reflectem na nossa amostra.
Com efeito, o Senegal teve, ao longo do Século XX, um saldo migratório
positivo.
Numa primeira fase, até aos anos 1950-60, grandes contingentes de
trabalhadores do Mali, da Guiné (Conacri) e, mesmo, do então Alto Volta (hoje,
Burkina Faso) vinham sazonalmente para o Senegal, na estação quente e húmida
(“hivernage”), para o cultivo do amendoim (de que o Senegal chegou a ser o maior
produtor). Destes trabalhadores, muitos acabaram por se estabelecer no Senegal, com as
respectivas famílias.
O movimento sazonal para a bacia do amendoim (cujo polo principal é Kaolack)
era também interno: em primeiro lugar, com os wolofs, mas, também, com os
toucouleurs e os soninkés / sarakholés. Os wolofs que, por sua vez, foram a primeira
etnia a migrar massivamente para Dacar, deram início a um importante êxodo rural que
só não teve consequências mais visíveis por causa das elevadas taxas de crescimento
natural que asseguraram um crescimento da população senegalesa de 100,1% entre 1976
e 2000196, embora desigualmente repartido (a taxa de crescimento natural entre 1988 e
1995 variou entre 1,3% em Louga e 3,8% em Dacar e em Djourbel).
Com a independência, as estatísticas tornaram-se menos fiáveis e não existe um
balanço oficial do saldo migratório senegalês desde então (embora, na actualidade, se
saiba que é largamente desfavorável), tanto mais que o exercício é dificultado pelos
laços de parentesco e linguísticos que unem residentes do Senegal, da Gâmbia, da
Guiné-Bissau, da Guiné (Conacri), do Mali e da Mauritânia.
Sabe-se, em relação às comunidades lusófonas e de acordo com informações
transmitidas pelas respectivas Embaixadas em Dacar, que os efectivos de originários de
Cabo-Verde e da Guiné-Bissau rondarão os 20 a 25 mil no primeiro caso (com
tendência de estagnação) e serão superiores a este valor, com tendência crescente, no
segundo caso.
A emigração caboverdiana para Dacar (capital da África francófona ao tempo
colonial e, por isso, também ponto de passagem para uma emigração para a França) é

196
Fonte : Departamento de Prospecção e Estatística do Ministérios das Finanças, citada por PNUD,
Op.cit.

136
um tema clássico da própria literatura e da música, tendo ocorrido, ao contrário da
guineense, principalmente antes da independência, em 1975:
“Pouco se sabe da emigração para o Senegal. Trata-se de tema abandonado
pela quase totalidade dos investigadores caboverdianos, mas curiosamente, também
não é considerado pelos investigadores não-caboverdianos que se têm interessado pela
evolução do arquipélago. (…) Consideramos de pura incoerência histórica pretender
fixar o início da emigração caboverdeana para o Senegal, a partir de 1903. Citamos o
caso dos lançados que exerceram uma acção preponderante sobre o comércio do litoral
e interior da África Ocidental que eram na maioria naturais das ilhas de Cabo Verde.
A construção do porto de Dakar recebeu uma grande contribuição da mão-de-
obra caboverdiana, a tal ponto que l’Avenue Gambetta era popularmente conhecida
como l’Avenue des Portugais.”197
Relativamente à Guiné-Bissau, sabe-se que os manjacos e os mancanhes
emigraram em grande número, na segunda metade do Século XX, para a Baixa
Casamansa; sabe-se, ainda, que os fulas se dirigiram antes para a Alta Casamansa ou
para Dacar, onde denotam algum activismo cultural e associativo, sendo bastante
distinto o modo de inserção na sociedade senegalesa.
Os guineenses tenderam a estabelecer-se, num primeiro tempo, na Casamansa,
para prosseguirem as suas ocupações tradicionais (agricultura e pesca) e, em Dacar, são
essencialmente operários e empregados domésticos (exceptuando um pequeno grupo de
quadros superiores das instituições internacionais – Nações-Unidas, Bretton Woods,
União Económica e Monetária da África Ocidental, com delegações regionais em
Dacar, que ali têm o seu lugar de origem que suspendem ocasionalmente para
presenças, não raras vezes efémeras, nos Governos guineenses).
Os caboverdianos concentram-se em Dacar, onde exercem, tradicionalmente,
grande parte das artes, sejam musicais, sejam ofícios como electricistas, carpinteiros,
marceneiros, barbeiros – de que tinham quase o exclusivo na capital – e cabeleireiras e,
no caso das mulheres, alguns trabalhos domésticos. Numa segunda fase ou geração, os
caboverdianos desenvolveram uma importante actividade comercial ou empresarial
(restaurantes, agências de viagens e imobiliárias, empresas de armação e industriais) e,
talvez por força de uma maior atenção dos pais, uma parte significativa prosseguiu

197
CARDOSO, Pedro, Folclore Caboverdiano, Edição da Solidariedade Caboverdiana, Paris, 1983, pp.
XIII (Prefácio de Alfredo Margarido)

137
estudos superiores, estando aquela comunidade bem representada ao nível de profissões
como médicos, advogados, magistrados, gestores de empresas e quadros superiores.
A diferença de comportamento entre as duas comunidades “lusófonas” (que
tendem, na realidade, a expressar-se nos respectivos crioulos do Português) está também
patente na amostra de alunos: sendo relativamente idênticas na população, a
percentagem de alunos de origem guineense é elevada, enquanto que apenas 0,2% de
todos os estudantes, pais e avós nasceram em Cabo Verde.
A mera origem familiar num país lusófono constituirá, nestes termos, uma
condição suficiente para motivar o estudo do Português na Universidade Cheikh Anta
Diop?

3.3.1.e – Língua e miscigenação étnicas

Por curiosidade, pedimos aos alunos que designassem a sua língua étnica.
Os resultados confirmam o facto de muitas etnias terem línguas próprias, que
utilizam. Contudo, não questionámos sobre a língua mais correntemente usada, pois
sabe-se que o Wolof se tornou uma língua quase franca, falada, no mínimo, por 3/4 da
população senegalesa.
Assim, podemos fazer uma distinção em função da regra da associação etnia /
língua:
- Nenhum bainouk, balanta, bambara, crioulo, mancanhe, sarakholé, socé,
soninké, toucouleur ou wolof declara qualquer outra língua para além da que tem o
nome da sua própria etnia;
- Os lébous e papel, devido, porventura, à sua reduzida presença na amostra,
dividem-se: os lébous citam, em igual proporção, o Lébou e o Wolof; e 1/3 dos papel
refere o crioulo como língua;
- As demais etnias referem uma língua predominante e, num ou noutro caso,
uma segunda ou terceira: para além do mandinga que diz falar Socé (na verdade, são a
mesma língua), um manjaco cita como língua o Pulunde e um sérère refere falar Diola.
Nos restantes casos, citem-se apenas dois aspectos:
- Os diolas falam a sua própria língua em 94% dos casos. Dos restantes, 4,3%
preferem referir sub-grupos linguísticos (Bayotte, Erame, correspondentes a aldeias) e
um aluno cita como língua étnica o crioulo;

138
- O Pulaar é falado pelos peuls, pulaars e por dois fulas (que referiram, no
inquérito, que os fulas são Pulaars).
Assim, constata-se que, não obstante a tendência para generalizar o Wolof, como
“língua nativa” (sobretudo dirigida a partir de Dacar e recorrendo aos meios
audiovisuais de comunicação social), a par do Francês, língua oficial, as etnias
senegalesas resistem à assimilação e salvaguardam a sua identidade, no plano
linguístico e não só; de facto, observem-se os quadros seguintes, relativos à
miscigenação étnica:

Quadro 14a - Casamentos dos pais – miscigenação étnica - grupo subguineense


Mães diola bai- balan- criou- man- man- papel man- fula
nouk ta lo jaco canhe dinga
Pais
Diola 66 1 1 1
Bainouk 2 4
Balanta 1 11
Crioulo 1
Manjaco 1 1 27 1
Mancanhe 1 27
Papel 2

Quadro 14b - Casamentos dos pais – miscigenação étnica - grupo sahelo-sudanês


Mães wolof lébou sérère diola man- bam- sara- peul tou-
dinga bara kholé cou-
Pais leur
Wolof 37 2 1 1 1 1 3 1
Lébou 1 1
Sérère 39 1

Quadro 14c – Casamentos dos pais – miscigenação étnica – grupo mande


Mães man bam sara dio bai ba man wo sérè peul tou mou
din ba kho la nou lan jaco lof re cou ros
Pais ga ra le k ta leur
Mandinga 6 1 1 1 1 1 1 1 1 1
Bambara 3 2 1
Sarakholé 1 1 2 1
Socé 1

Quadro 14d – Casamentos dos pais – miscigenação étnica – grupo halpular


Mães peul fula toucou- diola criola wolof lébou sérère bam-
Pais leur bara

Peul 12 1 1 2 1 1
Fula 6
Toucouleur 2 1 2 1

139
Quadro 15a – Casamento de avós – miscigenação étnica – grupo subguineense
Avós diola bai- balan- crioula manja- man- papel outros
Avôs nouk ta co canhe
Diola 129 1
Bainouk 12
Balanta 24
Crioulo 1 1
Manjaco 1 2 42 1
Mancanhe 39
Papel 2 4

Quadro 15b – Casamento de avós – miscigenação étnica – grupo sahelo-sudanês


Avós wolof lébou sérère sara- peul tou- outros
Avôs kholé couleur
Wolof 63 4 2 1 1 1
Lébou 4
Sérère 1 72 1

Quadro 15c – Casamento de avós – miscigenação étnica – grupo mande


Avós man- bam- sara- diola ba- wolof sérère peul ou-
Avôs dinga bara kholé lanta tros
Mandinga 17 1 4 2 1
Bambara 8 1 1 1 1
Sarakholé 1 2 3
Socé 1

Quadro 15d – Casamento de avós – miscigenação étnica – grupo halpular


Avós peul fula tou- diola papel wolof sérère man-
Avôs couleur dinga
Peul 23 1 1
Fula 14
Toucouleur 6 3 3

Através dos quadros anteriores, pretendemos observar até que ponto, nos
casamentos, as pessoas de cada etnia procuram manter-se-lhe fiéis à etnia, ou se há uma
miscigenação.
Os resultados não deixam dúvidas e reflectam um traço colectivo da sociedade
senegalesa, a da preferência à própria etnia quando se trata de encontrar um cônjuge.
Mas há diferenças por etnia e por sexo:

140
Quadro 16 – Frequência relativa dos casamentos com pessoas da mesma etnia
Etnia dos % Etnia das % Etnia dos % Etnia das %
Pais mães avôs avós
Crioulo 100,0 Papel 100,0 Bainouk 100,0 Fula 100,0
Fula 100,0 Manjaco 96,4 Balanta 100,0 Lébou 100,0
Papel 100,0 Mancanhe 93,1 Fula 100,0 Mancanhe 100,0
Sérère 97,5 Balanta 91,7 Lébou 100,0 Manjaco 100,0
Mancanhe 96,4 Sérère 90,7 Mancanhe 100,0 Mandinga 94,4
Diola 95,7 Diola 86,8 Diola 99,2 Diola 94,2
Balanta 91,7 Fula 85,7 Sérère 97,3 Balanta 92,3
Manjaco 90,0 Wolof 80,4 Peul 92,0 Serère 91,1
Wolof 78,7 Bainouk 80,0 Manjaco 91,3 Bambara 88,9
Bainouk 66,7 Mandinga 75,0 Wolof 87,5 Wolof 88,7
Peul 66,7 Peul 66,7 Mandinga 68,0 Peul 88,4
Bambara 50,0 Bambara 50,0 Bambara 66,7 Bainouk 85,7
Lébou 50,0 Lébou 50,0 Papel 66,7 Toucouleur 75,0
Mandinga 40,0 Sarakholé 50,0 Crioulo 50,0 Papel 66,7
Toucouleur 33,3 Toucouleur 50,0 Toucouleur 50,0 Crioulo 33,3
Sarakholé 20,0 Crioulo 20,0 Sarakholé 33,3 Sarakholé 33,3
Português 0,0 Mouro 0,0 Socé 0,0
Socé 0,0 Mouro 0,0

Assim, no que respeita aos pais, vejamos aspectos sobre a fidelidade étnica nos
casamentos.
Verifica-se uma absoluta fidelidade à etnia dos homens fulas, papel e crioulos,
embora o número de ocorrências seja pequeno nas duas últimas, logo estatisticamente
pouco relevantes; nos casos femininos, apenas a etnia papel parece ter absoluta uma
fiedelidade absoluta. É curiosa a diferença entre a prática dos fulas inquiridos e a dos
peuls que, em princípio, são uma só etnia; tal situação poderá explicar-se por desvio
estatístico (este universo não é suficientemente grande para garantir conclusões), ou por
particularidades sociais locais que indicam que, mesmo no seio de uma família étnica,
há diferenças assinaláveis, possivelmente determinadas pelo meio envolvente.
Regista-se uma fidelidade praticamente integral (superior a 90%) nos homens
sérères (97,5%), mancanhes (96,4%), diolas (95,7%), balantas (91,7%) e manjacos
(90,0%), e, nas mulheres manjacas (96,4%), mancanhes (93,1%), balantas (91,7%) e
sérères (90,7).
Constata-se uma fidelidade superior a 50% em quase todas as etnias, excepto,
nos homens mandingas, toucouleurs e sarakholés, e nas mulheres crioulas (assinale-se,
também neste caso, que o baixo número de crioulas na amostra não permite que se
considere representativa da “etnia” ou do grupo).
Quanto aos avós, refira-se:
- que a fidelidade à etnia parece ser maior do que a dos filhos (pais dos alunos);

141
- a absoluta fidelidade, nos homens bainouks, balantas, fulas, lébous e
mancanhes, e nas avós fulas, lébous, mancanhes e manjacas;
- uma grande fidelidade (superior a 90%) nos homens diolas, sérères, peuls e
manjacos, e nas mulheres mandingas, diolas, balantas e sérères;
- uma fidelidade superior a 50% em quase todas as etnias, excepto nos avôs
sarakholés e nas avós crioulas e sarakholés.
Para complementar esta análise, vejamos o seguinte quadro:

Quadro 17 – Outras etnias com que se registam casamentos


Etnia Pais Mães Avôs Avós
Bainouk 1 1 0 1
Balanta 1 1 0 1
Bambara 2 3 4 1
Crioulo 0 4 1 1
Diola 3 9 1 3
Fula 0 1 0 0
Lébou 1 1 0 0
Mancanhe 1 2 0 0
Mandinga 9 2 4 1
Manjaco 3 1 3 0
Mouro - 2 2 -
Papel 0 0 1 2
Peul 5 4 2 3
Português 1 - - -
Sarakholé 3 1 2 3
Sérère 1 3 2 4
Socé 1 - 1 -
Toucouleur 3 2 2 2
Wolof 7 5 5 4

Com o quadro 17 pretendemos verificar se, quando não há fidelidade absoluta à


própria etnia para casar, há uma dispersão dos restantes matrimónios por muitas ou
poucas outras etnias. E os resultados permitem distinguir dois grupos de etnias: as que
se “misturam” com poucas etnias e as que, aparentemente, são menos selectivas.
Antes de mais, assinale-se que em nenhuma etnia se registou, no conjunto de
todos os estratos familiares, uma incompatibilidade absoluta. Contudo, as etnias
bainouk, balanta, fula, lébou, mancanhe e papel (a amostra de socé não é, de facto,
representativa e deve ser vista como mandinga) são claramente renitentes em
diversificar as suas uniões e não o fazem com etnias com as quais não tenham uma
ligação evidente, seja ela de coabitação geográfica, de origem comum ou de parentesco
linguístico. Assim, as associações constatadas são as seguintes:

142
1. Nas avós (não há miscigenação por iniciativa masculina): bainouk – manjaco;
balanta – mandinga; papel – crioulo; e papel – português;
2. Nos pais: bainouk – diola; balanta – diola; lébou – peul; e mancanhe –
crioulo;
3. Nas mães: bainouk – mandinga; balanta – mandinga; fula – diola; lébou –
peul; mancanhe – diola; e mancanhe – manjaco.
Ou seja, as associações constatadas são maioritariamente intra-subguineenses
(5), ocorrendo também entre estes e mandes (2), portugueses (1) e halpulars (1); a
associação que não envolve subguineenses dá-se entre sahelo-sudaneses e halpulars, o
que também não surpreende.
No oposto, os diolas, mandingas, peuls e wolofs mencionam mais de 15 outras
etnias com as quais casaram. Contudo, estes casos são bastante diferentes entre si: nos
diolas, são as mulheres que aceitam mais facilmente (ou aceitam as suas famílias por
elas) casar com outras etnias; nos mandingas são, ao contrário, os homens quem mais
contribui para diversificar os casamentos; as únicas etnias que têm um comportamento
semelhante em ambos os sexos são os peuls e os wolofs.
Face a quanto precede, podemos concluir que, em geral, as pessoas que desejam
contrair matrimónio, fazem-no preferencialmente com alguém da mesma etnia (ainda
que, assinale-se, a poligamia seja legalmente permitida no Senegal).
Assim, 6 das 18 etnias analisadas198 têm, no conjunto das duas gerações
analisadas, uma média igual ou superior a 90% de casamentos com pessoas da mesma
etnia: mancanhes (97,3%), fulas (96,5%), manjacos e sérères (94,3%), balantas e diolas
(94%). Todas estas etnias habitam tradicionalmente a Casamansa, à excepção dos
sérères. Por outro lado, das etnias com amostras minimamente significativas, a
toucouleur é aquela com uma menor percentagem de fidelidade étnica: 52%, ainda
assim maioritária.
Mesmo as etnias conhecidas pela sua maior mobilidade, os wolofs e os peuls,
apresentam valores relativamente altos de fidelidade étnica: 84% e 78,5%,
respectivamente.

198
Consideramos, para este efeito, o crioulo como uma etnia – o que é obviamente discutível – mas não o
português.

143
Nestes termos, a ideia de que o Senegal é um país de intensa miscigenação
étnica199 propagandeada oficialmente, sobretudo por um núcleo wolof mourida muito
activo, só pode ser entendida comparativamente com o passado ou com outros Estados
africanos.
No entanto, fica claro, na amostra, que há sempre excepções, em todas as etnias
minimamente representadas, e que a miscigenação ocorre com diversas outras etnias.
Analisando os dados do quadro 17 e fazendo a média das quatro categorias (pais, mães,
avôs e avós) no que respeita ao número de outras etnias com as quais se registaram
casamentos, os valores obtidos variam entre o mínimo dos Fula (0,25) e o máximo dos
Wolof (5,25%). Já vimos que o comportamento dos géneros, dentro de cada etnia, pode
variar; mas assinale-se que este indicador atinge os seus três valores mais altos em
etnias com percentagens de fidelidade bastante diferentes: 5,25 nos Wolof (84% de
fidelidade), 4 nos Diola (94%) e nos Mandinga (69,3%). E sabe-se que, quando a pessoa
decide não casar no interior da etnia, vários factores entram em jogo na escolha, dos
quais a coabitação local, a afinidade cultural / linguística, e a segregação por castas.
Um dado interessante pode ainda ser extraído das análises precedentes. Das
etnias com uma representatividade na amostra igual ou superior ao dobro da sua
representatividade na população senegalesa, todas têm uma fidelidade à etnia, na
escolha da pessoa a desposar, muito elevada (83,3% dos bainouks, 83,5% dos papéis,
94% dos balantas e dos diolas, 94,3% dos manjacos, 96,5% dos fulas e 97,3% dos
mancanhes). E fica por saber se, caso as amostras das etnias bainouk e papel fossem
maiores, se os valores então apurados não tenderiam a alinhar-se com os outros, acima
dos 90%.
Os dados até agora apurados suscitam uma questão: por que motivo(s) os povos
da Casamansa – ou do grupo subguineense, mais propriamente – apresentam, em vários
aspectos, comportamentos muito distintos dos demais grupos senegaleses?
Detenhamo-nos, por momentos, sobre o conceito de “parenté à plaisanterie”,
acima referido e que é alvo de estudos e de algum debate no Senegal.200
Há vários tipos de parentescos, e já nos referimos aos parentescos entre
patrónimos.

199
M. DIOUF, Op. Cit., pp. 95
200
Seguimos, para este tópico, DIALLO, Youssouf, “Identités et relations de plaisanterie chez les Peuls
de l’ouest du Burkina Faso”, in Cahiers d’études africaines, parentés, plaisanteries et politique, 184, 2006,
pp 709 e ss. Traduziremos parenté à plaisanterie, literalmente, “parentesco para gracejo”, por
“parentesco.”

144
Um outro parentesco clássico é o que une os peuls e os ferreiros, resultante de
uma suposta aliança sagrada. As regras da aliança entre ambos prescrevem a entreajuda
recíproca, evitar conflitos entre membros dos dois grupos e a interdição da aliança
matrimonial. Ora, quanto mais sagrada é considerada a aliança, mais pesadas são as
obrigações e acutilantes os “gracejos” entre aliados. No caso da aliança peuls / ferreiros,
por exemplo, são interditos casamentos entre os verdadeiros parceiros rituais e a
transgressão das regras e tabus sexuais pode ter grave consequências, através de sanções
ocultas que trazem a morte ou o azar para o parceiro faltoso. Por isso, uma transgressão
das regras exige sempre uma reparação, pecuniária ou meio de um sacrifício expiatório.
Outro exemplo será a relação entre bambaras e peuls, que obriga os segundos a
servir um dos primeiros, tratando-lhe do gado, sem o que será tratado de fútil. Não se
trata, aqui, de uma relação resultante de uma aliança celebrada no passado, mas antes
ilustrando as relações de força do passado.
Uma das consequências dos “parentescos” é a adopção pelos cativos ou
dominados, voluntária ou por imposição, dos patrónimos dos dominantes. Esta é uma
das razões pelas quais alguns patrónimos bem marcados de uma etnia se disseminaram
por outras. Em Ségou (Mali), por exemplo, o clã real atribuía o epíteto de “Fula” (ou
peul) a todos os indivíduos, livres ou servos, e grupos de indivíduos que tinham como
actividade principal a vigilância dos rebanhos bovinos. Assim, um parentesco inicial
entre dois patrónimos originariamente ligados, intrinsecamente, a duas etnias
específicas, pode actualmente ser invocado por pessoas com esse nome mas de outras
etnias e/ou funções sociais. Youssouf Diallo dá o exemplo dos Ouattara, inicialmente
Dogossié-fing, um grupo de caçadores itinerantes da actual Costa do Marfim que se
tornaram vassais de Bamba, influente chefe de guerra do Kong e foram, por isso,
chamados de bamba-jon (escravos ou sujeitos de Bamba). Ora, séculos depois, na
África ocidental, é tradição que, quando um Ouattara encontra um Kulubali (Koulibaly),
Koné, Bamba, Câmara, Diarra ou Sidibé, irão trocar gracejos.
No Senegal, os “parentes” tratam-se frequentemente por primos. Na “vox
populi”, os parentescos são inúmeros: os sérères seriam cativos dos toucouleurs, os
sérères seriam primos dos peuls, os sérères seriam primos dos diolas, etc. Contudo,
alguns parentescos não são tão antigos como parece e o conceito presta-se a
manipulações de propaganda por parte de qualquer Estado desejoso de consolidar a
unidade nacional feita, como sabemos, a partir das fronteiras imprudentemente
desenhadas pelo colonizador.

145
Etienne Smith201 tenta evidenciar que, “no contexto senegalês, a récita dos
parentescos é uma tentativa de reorganização dos contos plurais e divergentes nascidos
da crise do regime de verdade histórico do nacionalismo senegalês. Apresenta-se como
uma pedagogia da convergência que insiste sobre as similitudes e as ligações
horizontais “pelo lado” entre comunidades, a fim de, por um lado, tirar legitimidade às
imaginações separatistas e, por outro, de fazer circular uma representação pluralista da
nação, não limitada ao seu centro “islamo-wolof” (Diouf 2001). Este discurso é feito
por certas franjas do aparelho cultural do estado senegalês, cuja capacidade de produção
de elites neo-tradicionais e de uma ideologia culturalista não carece de mais
demonstrações (Diagne 1992, 1996). É fruto da formulação de etno-histórias por
amadores, da multiplicação de jornadas culturais organizadas por associações locais,
mas também da participação de agentes culturais estatais familiarizados com o discurso
sobre a «cultura» e cujas profissões são assim valorizadas (professores, bibliotecários,
eruditos, tradicionalistas, linguistas militantes das línguas nacionais, inspectores de
academia, escritores, «peritos culturais», responsáveis de rádios comunitárias, militantes
de associações de desenvolvimento, etc)”. Ora, se o parentesco entre sérères e
toucouleurs parece ser geralmente considerado pelos senegaleses, bem como os peuls -
Didhiou, peuls - mandingas no antigo Gabú, peuls - balantas e peuls - soninkés, já o
mesmo não se passa entre lébous e sérères ou toucouleurs, nem entre estes e diolas, nem
entre diolas e sérères, como afirma o autor.
Por vezes essas dúvidas advêm de uma questão de precedência, sendo incómodo
admitir, a esta ou aquela etnia, que se foi, no passado, vassalo, escravo ou vencido de
outra. De resto, a aliança firma muitas vezes a vontade de omitir no futuro,
deliberadamente, a memória de um conflito ou de uma humilhação. Unidos pelo pacto
de silêncio, os parentes afastam definitivamente pretextos de conflitos, omitindo a
autoria do golpe inicial e apagando as hierarquias, mas guardam, nas piadas, a
possibilidade de desafiar o outro, sem consequências. Um exemplo é o parentesco peul -
mandinga, resultado da batalha de Kansala.
Atendamos, em particular, e acompanhando Étienne Smith, a questão do
parentesco entre sérères e diolas, por envolver as duas etnias mais presentes no universo
dos alunos de Estudos Portugueses da Universidade Cheikh Anta Diop.

201
E.SMITH , 2006, Art. cit., pp 907 e ss

146
Segundo aquele autor202, “a emergência da récita dos parentescos é inseparável
do surgimento da crise casamansence como teste à integração nacional no Senegal. Isto
é particularmente claro no que concerne o activismo do Governador Diola Saliou
Sambou, na origem do primeiro Festival das origens no país sérère (Janeiro de 1994) e,
mais tarde, da criação da Associação Cultural Aguène e Diambogne (ACAD) em 1994
que reagrupa os quadros sérère e diola dedicados à promoção do parentesco. (…) A
récita dos parentescos, que se inscreve na história mais vasta das convergências (De
Jong, 2005), faz parte da contra-ofensiva cultural do Estado senegalês, para disputar ao
MFDC o monopólio da produção de discursos sobre a etno-história diola. (…) Assim, a
promoção do parentesco operada pela ACAD deu lugar a três festivais das origens
alternando entre países sérère e diola: o objectivo era o de arrimar os diola à nação
senegalesa por intermédio desta relação privilegiada de parentesco com os sérère,
emblematizando o coração da senegalidade”. Em conclusão, nota o autor, apesar de
sectores diolas rejeitarem qualquer ligação aos sérères, é forçoso reconhecer a qualidade
do trabalho da ACAD: Enquanto que, em 1967, menos de 27% dos diolas afirmavam
conhecer o mito de Ageen (que, teria sido separada da sua irmã Jamboñ ao largo de
Sangomar por uma tempestade que quebrou a sua embarcação, dando origem aos diolas
e aos sérères), em 2003 eram cerca de 60%. O abade Diamacoune Senghor, líder
histórico do MFDC, admitia a ligação diola - sérère, mas dava a primazia aos primeiros.
Esta visão é naturalmente polémica e, ainda que assim fosse, jamais seria
assumida pelo Estado senegalês. Para nós, a capacidade de utilização de propaganda ao
serviço dos estados africanos é um dado adquirido, por vezes, com assinalável eficácia;
e o Senegal, país de exímios oradores e com elites cosmopolitas, tem naturalmente
quadros bem capazes de executar uma tal política. Contudo, também sentimos, na nossa
passagem pelo Senegal, que a ideia de uma relação especial entre diolas e sérères é
comum, não tendo nós ferramentas para aferir até que ponto aquele autor está, ou não,
próximo da verdade. A própria crise militar na Casamansa é complexa, tendo o MFDC
diversas facções que produzem, não raras vezes, argumentos contraditórios para
justificar a sua acção.
Neste contexto, para Etienne Smith o Wolof surge como algo à parte. Não é,
neste contexto da promoção dos parentescos, apresentado como uma identidade própria,
mas antes como uma língua e, sobretudo, um produto final da História senegalesa. Em

202
E. SMITH, 2006, art. Cit., pp. 920-921

147
abono da sua tese sobre um estereótipo do wolof mourida em oposição às tradicionais
qualidades distintivas de cada etnia, E. Smith refere diversos estudos sobre estereótipos
(Diarra e Fougeyrollas, 1969; Fougeyrollas, 1970; Mk. Diouf, 1998; E. Smith, 2003) e
sobre representações linguísticas (Julliard, 1991; Moreau, 1994, 1996; Thiam, 1996;
Swigart, 1996; Rasoloniaina, 2000).
Etienne Smith conclui afirmando que o quadro de promoção dos parentescos dá
ao grupo sérère, o mais “wolofizado” de todos os pontos de vista, um papel central, o de
núcleo da constelação, tendo este grupo laços históricos e afinidades com todos os
outros.
Em conclusão, o factor étnico parece ter importância na escolha dos cursos de
Português na Universidade Cheikh Anta Diop. As etnias mais representadas pelos
alunos revelam, em geral, uma forte identidade étnica, com evidente procura de
cônjuges que perpetuem a linhagem. Este comportamento é baseado em tradições
culturais e em pressões familiares, mas permite, também, a perenidade da memória
antiga, na qual se podem incluir, nas etnias do Sul do Senegal, a memória da presença
portuguesa, a Língua Portuguesa. No caso das populações do Sul, a vizinhança com a
Guiné-Bissau lusófona (quer em termos oficiais quer na utilização do crioulo do
Português), conjugada com a presença de familiares e, mesmo, de terras, do outro lado
da fronteira traçada pelos colonizadores, é obviamente um importante factor adicional
para a motivação dos jovens para aprenderem o Português.
A presença portuguesa fez-se também sentir em território costeiro sérère, cujo
número de alunos de Português é elevado, mas inferior à proporção daquela etnia na
população senegalesa. Logo, não justifica tudo, de per se.
De facto, os wolofs não têm uma memória forte da passagem portuguesa,
embora esta tenha sido efectiva; contudo, a extensão do domínio Jalofo incluía vastas
terras do interior e, de qualquer modo, após a presença portuguesa registou-se a
holandesa, a inglesa e, sobretudo, a francesa, mais recente, bem mais intensa e
marcante.
Assim, para além do factor étnico, a vivência urbana (que contribui para a erosão
daquele) e o interesse dos pais na educação dos filhos são importantes para a decisão de
prosseguir estudos superiores, quaisquer que sejam. Investiguemos, pois, factores
adicionais.

148
3.3.1.f – Contexto social – profissões exercidas na família e a questão das castas

A sociedade senegalesa é também marcada pela existência, informal, de castas;


informal, na medida em que estas não são oficialmente reconhecidas nem é permitida,
nos termos da Constituição, qualquer distinção em função das mesmas. Contudo,
existem, mais numas etnias do que noutras, sem a importância que lhes é atribuída na
Índia, mas a África Ocidental (essencialmente o Mali) é a sub-região, no continente,
onde se coloca este problema com maior acuidade. As principais castas no Senegal são
as dos “griots” (trovadores, que asseguram a transmissão da História e das tradições por
via oral), dos ferreiros, joalheiros, cordoeiros e tecelões, e as dos escultores de madeira
que se confundem com a etnia laobé.
O reconhecimento das castas permite compreender melhor algumas
características políticas, sociais e económicas do Senegal, mas não é simples, porque o
fenómeno varia entre etnias (por exemplo, os pescadores são uma casta entre os
toucouleurs, mas não nos wolofs).
Em certos casos, o problema das castas sobrepõe-se à questão étnica:
“Numa família fora de casta Wolof ou Toucouleur, qualquer projecto de
casamento com uma pessoa de casta esbarra com reticências podendo ir até à ruptura
total com os parentes. É um domínio em que a tradição continua a preceder o Islão, no
Senegal”203.
Para o mesmo autor, esta situação tem a vantagem de encorajar matrimónios
inter-étnicos, na medida em que uma família intransigente sobre o casamento de um dos
seus com uma pessoa de casta diferente, no seio da etnia, pode tornar-se tolerante
relativamente à união com uma pessoa de outra etnia, na qual não existem castas (os
diolas, por exemplo), ou elas têm o mesmo nível.
Por outro lado, a influência da casta é muito importante na política:
“Os grandes grupos étnicos muçulmanos Wolof e Haal Pulaar aceitaram
Senghor durante duas décadas como Presidente da República, descartando qualquer
consideração étnica ou confessional. Mas pode dizer-se, (…) que não estão prontos a
ver a magistratura suprema ser exercida por um Wolof ou um Toucouleur muçulmano

203
M. DIOUF, Op. Cit., pp. 126 e ss

149
se ele pertencer a uma casta, quaisquer que possam ser as suas qualidades humanas e
as suas competências.”204

Neste inquérito não era possível colocar a questão das castas, desde logo porque
nem todas as etnias as têm, mas também porque se trata de uma questão muito delicada.
Assim, este elemento não foi considerado, embora possa ser parcialmente
antevisto através da análise das profissões dos pais (ressalve-se, no entanto que, nos
meios urbanos e perante o desemprego, há pessoas sem casta que exercem funções
habitualmente reservados aos de casta, e vice-versa):

Quadro 18 - Profissões exercidas pelos familiares dos estudantes


Profissão Pais Mães Avôs Avós Total %
Agricultor 119 30 273 81 503 24,9
Não refere 23 48 206 216 493 24,4
Doméstico 0 156 3 183 342 17,0
Empregada doméstica 0 13 0 224 237 11,8
Comerciante 17 18 13 20 68 3,4
Falecido 6 1 23 23 53 2,6
Sem profissão 4 8 13 22 47 2,3
Trabalhador manual / artes 21 6 17 2 46 2,3
Reformado 31 3 6 2 42 2,1
Técnico especializado 22 7 12 1 42 2,1
Ilegível 1 0 3 36 40 2,0
Professor 16 8 2 0 26 1,3
Forças da Autoridade 11 0 7 0 18 0,9
Marítimos, incluindo pescadores 7 0 10 0 17 0,8
Operário 3 2 10 0 15 0,7
Técnico Superior 9 1 5 0 15 0,7
Funcionário Público 7 0 2 0 9 0,5
Chefe religioso 0 0 2 0 2 0,1
Empresário 2 0 0 0 2 0,1

O quadro 18 permite antever um difícil quadro socio-económico para a vida dos


alunos. A categoria profissional predominante, no geral e no sexo masculino, é a dos
agricultores (24,9%) que não têm, em geral, remunerações elevadas. O peso dos
agricultores mantém-se constante (24,8%) nos pais. No sexo feminino as mães e avós
dedicam-se geralmente ao trabalho doméstico. Há também profissões dominadas pelo

204
M. DIOUF, Op. Cit., pp. 127

150
sexo masculino tais como as forças da autoridade, funcionários públicos, pescadores,
empresários, técnicos superiores e chefe religioso.
O facto de os alunos não conseguirem referir a profissão em 24,4% dos parentes,
sobretudo avós, é sintomática: alguns serão inactivos, outros falecidos, outros, de facto,
desconhecidos; as domésticas são também um caso especial porque é plausível que
alguns alunos tenham confundido esta ocupação (activa mas não remunerada), com
“empregada doméstica”. Assim, numa perspectiva pessimista, os não remunerados
poderão atingir 45,7%.
Apenas 3% dos familiares exerce funções de “casta” e não mais de 3,6% (6,2%
dos pais) é empresário, comerciante ou chefe religioso, ocupações que poderão garantir
uma remuneração superior à média. A estas, poder-se-ia acrescentar as forças da
autoridade e os técnicos superiores o que, ainda assim, não excederia 4,5% dos
familiares (9,7% dos pais).
Ou seja, a esmagadora maioria dos familiares dos alunos provêm de um meio
economicamente desfavorecido, o que não permite as condições necessárias para um
estudo sereno. A evolução positiva de avós para pais é uma realidade (assinale-se a forte
redução da proporção de empregadas domésticas para 2,2% dos pais), mas é muito
provável que menos de 10% destes tenham condições acima da média.
Relativamente aos próprios alunos, 282 (94%) referem não ter actividade
profissional. É um valor surpreendentemente baixo, se tivermos em conta as profissões
dos parentes ascendentes e as idades relativamente avançadas dos alunos. Contudo, este
indicador também revela duas realidades sentidas no Senegal: o desemprego massivo
entre os jovens e uma atitude muito reivindicativa face às alegadas obrigações do
Estado de financiar os seus estudos, alimentação e alojamento205.
Os restantes 18 (6%) alunos citam as seguintes ocupações profissionais:
- 14 alunos de Duel I declaram exercer uma profissão (4 agricultores, 3
futebolistas, 2 informáticos, 1 alfaiate, 1 andebolista, 1 artista e 1 pintor);
- 4 alunos de Duel II declaram exercer uma profissão: (2 informáticos, 1
carpinteiro e 1 canalizador);
- Nenhum estudante de “Licence” exerce uma profissão;

205
Esta atitude reivindicativa faz-se sentir numa conflitualidade permanente, com greves e confrontos
com as polícias recorrentes, em qualquer ano lectivo, que presenciámos na nossa actividade de leitora.

151
- Apenas um aluno de “Maîtrise” trabalha, como agente no Serviço de Comércio
de Pikine.

3.3.1.g – Agregados familiares dos alunos

A nomenclatura e a dimensão dos agregados familiares dos alunos fornecem


igualmente elementos de análise importantes sobre as condições de estudo e de trabalho
dos alunos.
Assim, não basta conhecer o rendimento de uma família para aferir a sua
qualidade de vida, sendo relevante a dimensão do agregado. Por outro lado, se o aluno
não vive com os pais, tal poderá criar alguns problemas de adaptação, embora as
famílias senegalesas incentivem, tradicionalmente, a mobilidade dos seus.
Por último, a análise de tais dados permite observar as redes familiares que se
dizem muito desenvolvidas no Senegal, tal como em toda a África Ocidental.

Quadro 19 – Pessoas com quem vivia antes da entrada na Universidade


Duel I Duel II Licence Maîtrise Total %
Só 1 2 0 0 3 1,0
Com outras pessoas, 31 24 14 5 74 24,2
não familiares
Com familiares 96 60 40 21 217 70,9
Não refere 6 4 2 0 12 3,9

Assinale-se que a maior parte dos alunos (70,9%) vivia com familiares antes de
ingressar na Universidade e que apenas 1% vivia só.

Quadro 20 – Pessoas com quem vivia à data do inquérito


Duel I Duel II Licence Maîtrise Total %
Só 9 8 4 5 26 8,7
Com outras pessoas, 54 33 17 6 110 36,8
não familiares
Com familiares 58 38 31 11 138 46,2
Não refere 11 6 4 4 25 8,4

A proporção de alunos que vive com familiares desce para 46,2%, o que
significa que cerca de 24% poderá ter migrado da sua área de residência para Dakar.
Este valor é provavelmente maior, na medida em que alguns alunos deixaram os locais

152
de residência dos pais e vieram habitar com familiares, pelo que estão incluídos na
mesma categoria.
Por outro lado, poucos são os alunos que vivem sós, mesmo depois do ingresso
na Universidade; tal poderá significar, apenas, falta de recursos para arrendar uma casa,
ou mesmo, um quarto, mas, também, a apetência senegalesa para a vida em colectivo e
um aproveitamento dos alojamentos para estudantes no interior do recinto universitário.

Quadro 21 – Pessoas da família com quem viviam


Com quem vive Antes da entrada na UCAD À data do inquérito
ou vivia
Pais e outros 214 93,5% 103 69,1%
Só mãe 4 1,8% 2 1,3%
Só pai 2 0,9% 1 0,7%
Avós 3 1,3% 1 0,7%
Irmãos 2 0,9% 8 5,4%
Tios 4 1,8% 29 19,5%
Primos 0 - 4 2,7%
Sobrinhos 0 - 1 0,7%

Dos alunos que mencionaram com quem viviam, verificamos que a percentagem
dos que habitavam com os pais era de 96,2% antes do ingresso na Universidade e de
71,1% depois. Assim, confirma-se a ideia de que pelo menos 25% terá migrado para
Dakar, a fim de prosseguir estudos na capital.
Mas o facto de a proporção de alunos que habitavam com os tios e primos passar
de 1,8% para 22,2% após o ingresso na Universidade, evidencia a importância e a
coesão da família senegalesa. E esta asserção é tanto mais evidente se tivermos presente
que grande parte dos familiares dos alunos não reside na península do Cabo Verde, mas
sim nas regiões tradicionalmente habitadas pelas respectivas etnias. Quase estaremos
tentados a afirmar que, em geral, quando há parentes na área de Dakar, os alunos
aproveitam a rede e a solidariedade familiares, por motivos económicos e não só.

Quadro 22 – Dimensão dos agregados familiares com quem viviam os alunos


Nº de familiares Antes da entrada na UCAD À data do inquérito
com que vive
1 a 4 pessoas 43 24,0% 71 53,4%
5 a 9 pessoas 89 49,7% 38 28,6%
10 a 14 pessoas 33 18,4% 16 12,0%
15 a 19 pessoas 4 2,2% 6 4,5%
20 a 24 pessoas 7 3,9% 1 0,8%
Mais de 25 pessoas 3 1,7% 1 0,8%

153
No que concerna a qualidade de vida do aluno e, em particular, os meios
financeiros, é mais importante analisar com quantas pessoas, e não com quem vive,
embora este último factor possa interferir no seu estado de espírito.
Os elementos recolhidos e constantes do Quadro 22 são eloquentes: as famílias
senegalesas são muito numerosas, o que indicia um baixo rendimento per capita, logo,
menor disponibilidade para estudos bem sucedidos e, sobretudo, longos. Mas este dado
transmite também o interesse com que as famílias vêem os estudos dos seus filhos,
adivinhando-se reais sacrifícios para sustentar os jovens, tanto mais que, como vimos,
estes raramente exercem actividades remuneradas, nem mesmo a tempo parcial. E,
embora a maioria dos alunos que reside com a família habite, após o ingresso na
Universidade, com agregados que não excedem os quatro elementos, é importante reter
que 46,6% partilha tecto com cinco pessoas ou mais.
Por outro lado, os factos de 49,7% dos alunos provirem de famílias com cinco a
nove elementos e, ainda mais importante, de 26,2% pertencerem, antes do ingresso na
Universidade, a agregados com mais de dez membros, é suficiente para traçar um
quadro sobre a estrutura da família senegalesa e a pirâmide demográfica triangular da
população daquele país.
É pois num contexto socio-económico marcado por uma população jovem, em
forte crescimento (pelo efeito conjugado da alta natalidade e do aumento da esperança
de vida) e por uma economia que, sobretudo no domínio comercial, repousa no “sector
informal”, que os alunos têm de competir para concluir os seus cursos bem
classificados, na expectativa de aproveitar as escassas hipóteses de colocação no
mercado de trabalho, designadamente, no ensino. Neste sentido, constitui também
motivo de alguma admiração que tantas famílias façam sacrifícios para que estejam
inscritos 646 alunos nos cursos de Português da Universidade Cheikh Anta Diop, sem
grandes possibilidades de que esta formação habilite directamente para uma saída
profissional.

154
3.3.2. Estudos Portugueses

3.3.2.a – Antecedentes e motivos da escolha do Português

Quadro 23 - Como teve conhecimento do ensino do Português no Senegal?


MOTIVO N.º DE ALUNOS
Disciplina de opção na Escola onde estudava 147 35,9%
Procurou informação porque gostava do Português 94 23,0%
Documentação na Escola onde estudava 74 18,1%
Através da família ou de amigos 40 9,8%
Outras razões 54 13,2%

Sem grande surpresa, é na escola secundária que os alunos descobrem a


possibilidade de aprender o Português. Veremos, adiante, que a rede do ensino da nossa
Língua, na principal região de origem dos alunos, é bastante densa. No conjunto das
duas opções correlacionadas, 54% dos alunos terão descoberto o Português por ser uma
disciplina de opção na Escola onde estudavam, logo, provavelmente, no acto da
matrícula, ou pela acção de divulgação dos professores que procuram distribuir toda e
qualquer documentação que promova a Língua. Refira-se, de resto, que a permanência
dos professores de Português numa determinada escola depende da inscrição dos
alunos, pelo que os docentes lançam mão de todos os (escassos) recursos para
convencerem os alunos a matricularem-se.
Quanto ao segundo motivo – “procurou informação porque gostava do
Português” – parece-nos imputável aos contactos com a Língua, na sua forma original
ou através do crioulo, que muitos alunos tiveram no seio das famílias ou na vizinha
Guiné-Bissau (incluindo os meios de comunicação social desta, isto é, televisão, rádio
que podem chegar à região da Casamansa). Esta motivação pode ser associada à quarta
mais citada – descobriu o Português através da família ou dos amigos, adivinhando-se
que alguns alunos tiveram alguma dificuldade em escolher o motivo.
Dos alunos inquiridos, 13,2% invocou outras razões.

155
Quadro 23 bis – Outras razões
MOTIVO MENCIONADO N.º DE ALUNOS
Queria falar Português 11
Para conhecer a civilização e a História de Portugal 11
Gosta da Língua e da Cultura portuguesas 9
Desde criança que quer falar Português 2
Porque o Senegal faz fronteira com a Guiné-Bissau 1
Porque o pai era professor na Guiné-Bissau 1
Para telefonar ao irmão que está em Portugal 1
Gosta muito da Língua de Camões e quer falá-la 1
Porque é uma língua muito importante 1

Os motivos aqui invocados valem, sobretudo, pela curiosidade; mas assinalem-


se as menções mais votadas que denotam um certo voluntarismo, embora se possam
encarar as hipóteses de se tratar de formulações justificativas de escolhas mais ou
menos involuntárias, ou mesmo, de amabilidade para com a professora portuguesa.
Inquiridos sobre os antecedentes no liceu, 300 alunos responderam que já tinham
estudado Português no Ensino Secundário, com durações variáveis:

Quadro 24 – Duração dos estudos de Português no Liceu


Duração dos estudos Frequência absoluta Frequência relativa
2 anos 2 0,7
3 anos 178 59,3
4 anos 40 13,3
5 anos 67 22,3
6 anos 6 2,0
7 anos 4 1,3
9 anos 1 0,3
11 anos 1 0,3
12 anos 1 0,3

Os períodos de estudo de Português no Liceu mais frequentes são, naturalmente,


os 3 anos – geralmente os últimos do Ensino Secundário206, com 59,3%, e os 5 anos207,
com 22,3%. Os restantes casos serão muitas vezes repetições de anos.
Note-se, porém, a grande diferença de frequência relativa entre os dois valores
mais citados, que demonstra que o Português é essencialmente ensinado no que, em
Portugal, seria o Ensino Secundário propriamente dito, e não no terceiro ciclo do
Básico.

206
O sistema senegalês tem uma terminologia idêntica ao Francês. Assim, neste caso, será a Seconde,
Première e Terminale
207
Neste mesmo caso, a Quatrième e a Troisième

156
Perguntámos aos alunos quais os motivos que os levaram a frequentar a
disciplina de Português no Liceu. Trata-se de uma pergunta relativamente semelhante à
primeira pergunta (“A”) desta segunda parte do inquérito, permitindo verificar a atenção
dos alunos e a consistência das respostas que deram. 163 alunos escolheram uma
resposta, 137 optaram por várias e 2 não responderam. Os resultados foram os
seguintes:

Quadro 25 – Motivação para o estudo do Português no Liceu


Motivo Citações
Era uma opção na escola 145
Queria ser Professor 118
Interesso-me pela Cultura Portuguesa 111
Interesso-me pela História de Portugal 92
Ouvia falar Português 53
Gosta da sonoridade 44
Já falava Português 26
Outros 72

As duas respostas mais citadas eram relativamente previsíveis: 145 alunos


referiram ter optado pelo Português, pelo simples motivo de que era uma das disciplinas
oferecidas pela Escola, e 118 alunos parecem privilegiar a via profissional, afirmando
desejarem ser professores mais tarde.
As respostas mencionadas em terceiro e quarto lugares (“interesso-me pela
Cultura Portuguesa” e “interesso-me pela História de Portugal”) são mais difíceis de
interpretar; os alunos responderam por sentirem verdadeiramente essas motivações? Por
cortesia? Não esqueçamos contudo que vários optaram por respostas múltiplas. Ou, tão
só, por estes motivos constarem do formulário? É difícil esclarecer e houve,
provavelmente, de tudo.
Quanto às três restantes opções constantes do inquérito, poderão agrupar-se num
conjunto que subentende um contacto – falado, ouvido – com a nossa Língua; ao todo,
123 respostas mencionaram um destes factores.
Relativamente aos “outros motivos”, os estudantes identificaram 35 distintos,
alguns dos quais francamente surpreendentes: “ser embaixador”, “ser ministro”, “ser
dentista”, “quero ganhar muito dinheiro”, “lutar pelo desenvolvimento da Língua de
Camões”, “era uma obrigação fazer a Língua Portuguesa na minha turma” e “no
primeiro dia de aulas, o meu nome estava na turma de Português”… Os motivos mais

157
citados pelos alunos são: “ser intérprete” (17 alunos); “ser diplomata”, Embaixador ou
“trabalhar na Embaixada” (7), “ser investigador” (5 alunos) e “ser jornalista” (3).
A pergunta seguinte incidiu sobre as motivações para fazer estudos superiores de
Português. Os resultados foram os seguintes:

Quadro 26 – Motivação para os estudos superiores de Português


Motivo Citações
Quero ser Professor 136
Gostei das aulas no Liceu 101
Pelos mesmos motivos referidos em B 82
Interesso-me pela Cultura Portuguesa 82
Interesso-me pela História de Portugal 59
Porque tem saídas profissionais 26
Porque não entrei no curso que queria 15

Antes de mais comentários, assinale-se que, como em todas as perguntas deste


sub-capítulo, os alunos puderam fazer escolhas múltiplas.
A resposta mais frequente foi “quero ser professor”, o que indica que a
Licenciatura ainda representa uma saída profissional credível, além de que a frequência
dos estudos liceais não só não terá dissuadido aqueles que invocaram este objectivo
como motivação para os iniciar, como terá aumentado o número de adeptos da
docência. Questionados sobre onde desejavam ser professores (no Liceu ou na
Universidade), os alunos que escolheram esta resposta dividiram-se do seguinte modo:
72 querem ser professores na UCAD, 31 no Liceu e 16 referem ambas.
O segundo motivo – “gostei das aulas no Liceu” – é um tributo aos professores
senegaleses e ao seu esforço louvável, num contexto difícil, como veremos.
Último aspecto relevante, o facto de apenas 15 alunos referirem que seguiram
Português porque não entraram no curso que queriam. Se este número corresponde à
realidade ou se é fruto de alguma susceptibilidade que leva a não admitir a negação da
expectativa, não o sabemos; de qualquer modo, o valor apurado é muito baixo e
significa, também, que no Senegal, a função docente é ainda socialmente prestigiada,
em todo o caso, bem mais do que na Europa em geral, e em Portugal, em particular;
convém, a este respeito, não esquecer que se trata da perspectiva de um emprego
estável, uma carreira no estado que, embora relativamente mal remunerada, garante casa
de função, vencimento mensal e pensão de reforma (apenas 2% dos senegaleses
contribuem para a Segurança Social…).

158
3.3.2.b – Expectativas quanto ao futuro profissional

A questão seguinte incidia sobre as expectativas dos alunos relativamente ao seu


futuro profissional. Designadamente, colocámos duas questões precisas: “O que pensa
fazer profissionalmente quando concluir o seu curso de Estudos Portugueses na UCAD”
e “o que gostaria de fazer quando terminar o seu curso de Estudos Portugueses”; ou
seja, quisemos distinguir entre o que os alunos realmente gostariam de fazer e aquilo
que, de modo realista, pensavam estar ao seu alcance. Os resultados foram os seguintes:

Quadro 27 – Ambições e expectativas dos alunos quanto ao seu futuro


profissional

Ordem de O que gostaria de fazer após a n O que pensa fazer após a n


prefe- conclusão dos estudos conclusão dos estudos
rência
1ª Professor universitário 78 Estudos portugueses no 90
estrangeiro
2ª Estudos portugueses no 54 Professor universitário 58
estrangeiro
3ª Professor de liceu 31 Professor de liceu 48
4ª Outra profissão ligada à Língua 24 Investigador 25
Portuguesa
5ª Outros estudos no estrangeiro 20 Outros estudos no estrangeiro 21
6ª Investigador 16 Outra profissão ligada à Língua 11
Portuguesa
7ª Ter outras profissões 7 Estudos portugueses no Senegal 6
8ª Estudos portugueses no Senegal 3 Outros estudos no Senegal 3
9ª Outros estudos no Senegal 3 Ter outras profissões 1

Em primeiro lugar, verifica-se que um número significativo de alunos não quis,


ou não soube, responder: 78 alunos não escreveram o que gostariam de fazer e 31 não
referiram o que pensam fazer; ou seja, uma parte dos alunos já não tem, ou não refere,
um ideal profissional…
A carreira docente universitária beneficia claramente de uma imagem positiva
entre os alunos de Português da UCAD; no universo das escolhas possíveis para os
alunos que escolheram estas licenciatura e mestrado, ser professor universitário
representa um posto de trabalho vitalício e fixo, em Dacar, relativamente prestigiado
(embora a sociedade senegalesa seja materialista), com uma remuneração superior à

159
média dos funcionários e viagens ao estrangeiro para congressos e serviços – bem
remunerados – de interpretação. Naturalmente, nem todos os alunos que gostariam de
seguir essa carreira pensam que o vão conseguir, mas, ainda assim, cerca de 20% dos
alunos considera que a mesma está ao seu alcance.
Ao contrário, o número de alunos que gostaria de ser professor liceal é pouco
mais de metade daqueles que pensam vir a seguir essa carreira; ou seja, esta constitui
uma segunda escolha, plausível e realista, para muitos alunos (30%).
Curiosamente, são mais os alunos que pensam poder prosseguir estudos
Portugueses no estrangeiro do que aqueles que, a priori, gostariam de o fazer.
Confessamos que ficámos surpreendidos com este dado. Com efeito, a pulsão para a
emigração é uma realidade patente em todo o Senegal, sejam quais forem as
habilitações literárias dos jovens; ora, seria, a nosso ver, de esperar que os alunos
desejassem emigrar, mas que, em menor número, esperassem consegui-lo, atendendo
aos exigentes critérios de concessão de vistos de estudo – e outros – nas missões
consulares estrangeiras. A única explicação credível assenta na sensação de que não há
saídas profissionais para os alunos no Senegal, pelo que estes desejarão tentar a sorte no
estrangeiro. O estrangeiro já não surgiria, assim, pelo menos a este nível social, como
um “El-dorado”, mas sim como um mal necessário para uma parte significativa dos
alunos. Por outro lado, deve ser tida em conta a recente vaga de emigração clandestina
por via marítima que começou a ganhar amplitude precisamente no ano de realização do
inquérito, em 2005, e que foi vista, num primeiro tempo e por muitos candidatos à
emigração, como um expediente de resultado quase garantido, tanto mais que o então
recém-empossado Governo espanhol acabara de legalizar 700 mil imigrantes em
situação irregular. Por outro lado, a escolha dessa nova rota marítima é mais barata do
que as vias “clássicas” de tentar comprar passaportes, vistos falsos ou adulterados e
influências, o que, numa sociedade pauperizada, tem óbvia importância.
Deste universo de alunos, 8% gostaria de “ter uma profissão ligada à Língua
Portuguesa”, mas apenas 3,6% acreditam que o poderão conseguir. Assinale-se que
pedimos aos alunos que identificassem a referida profissão, e, no total das duas
questões, 12 responderam diplomata, 6 hospedeiro e 3, intérprete.
Ao contrário e, também, surpreendentemente, são mais os alunos que
consideram possível ser investigador, do que aqueles que mencionam esse desejo. Para
esta situação não temos qualquer explicação, pois não temos conhecimento de carreiras
ligadas à investigação nacional senegalesa (os poucos investigadores presentes no

160
Senegal são, em geral, mestrandos e doutorandos, ou funcionários e agentes contratuais
do CNRS – Centre National de Recherche Scientifique – francês).
As restantes categorias têm uma frequência praticamente irrelevante, mas vale a
pena observar as respostas obtidas sob um outro ângulo, somando as pontuações
atribuídas pelos alunos às diversas alternativas de respostas (de 1 ponto para a primeira
preferência até 10 pontos para a última). Deste modo, não focamos apenas a primeira
preferência que, em muitos casos, pode não constituir uma opção clara e evidente na
mente dos alunos:

Quadro 28 – Somatório das pontuações obtidas pelas respostas dos alunos sobre
o que gostariam de fazer após a conclusão dos estudos

O que gostaria de fazer após a


Profissão conclusão dos estudos
Ser professor universitário 760
Continuar os estudos portugueses no estrangeiro 874
Ter uma profissão ligada à Língua Portuguesa 1015
Ser investigador 1025
Ser professor no liceu 1043
Prosseguir outros estudos no estrangeiro 1144
Continuar os estudos portugueses no Senegal 1294
Ter outras profissões noutros países 1340
Ter outras profissões no Senegal 1394
Prosseguir outros estudos no Senegal 1453

Quadro 29 – Somatório das pontuações obtidas pelas respostas dos alunos sobre
o que pensam fazer após a conclusão dos estudos

O que pensa fazer após a


Profissão conclusão dos estudos
Continuar os estudos portugueses no estrangeiro 741
Ser professor universitário 811
Ser professor no liceu 1046
Ser investigador 1058
Prosseguir outros estudos no estrangeiro 1083
Ter uma profissão ligada à Língua Portuguesa 1228
Continuar os estudos portugueses no Senegal 1486
Prosseguir outros estudos no Senegal 1498
Ter outras profissões noutros países 1518
Ter outras profissões no Senegal 1585

Nos quadros 28 e 29, quanto mais baixo é o valor, maior é a preferência. Assim,
mantêm-se, em geral, a ordem das preferências do quadro 27, sobre o que gostariam e o

161
que pensam fazer os alunos após a conclusão dos seus estudos e sobre o que pensam
realmente fazer.
No que se refere ao que os alunos gostariam de fazer, mantém-se a docência
universitária no cimo das preferências e o prosseguimento de outros estudos no Senegal,
em último. A única diferença relevante é a descida da profissão de professor liceal para
quinto lugar, embora as diferenças com os terceiro e quarto, “ter uma profissão ligada à
Língua Portuguesa” e “ser investigador”, sejam pouco significativas.
No que se refere ao que os alunos pensam fazer após a conclusão dos estudos, a
ordem das escolhas é idêntica. Assim, confirma-se que os alunos vêem na possibilidade
de prosseguir os Estudos Portugueses no estrangeiro uma perspectiva mais exequível do
que ser professor universitário o que, se por um lado é mais realista (poucas serão,
previsivelmente, as aberturas de vagas na UCAD); por outro lado surpreende, atendendo
à dificuldade, por todos conhecida, de obter vistos e bolsas de estudo no estrangeiro,
pelo que se afigura, de algum modo, uma “fuga em frente”, na qual a emigração é vista
como a solução para as incertezas do futuro.

3.3.2.c – Pulsão migratória

Perante uma tentação migratória previsível, pois ela é, actualmente,


absolutamente generalizada na sociedade senegalesa, quisemos apurar a sua intensidade
e quais seriam os destinos favoritos. Para o efeito, pedimos aos alunos que colocassem,
por ordem decrescente, os cinco países no mundo onde gostariam de viver após a
conclusão dos seus estudos universitários, incluindo o Senegal, para aferir se, em
condições de equidade, os alunos prefeririam ficar no seu país ou, ainda assim, emigrar.
Conhecendo as grandes dificuldades dos jovens senegaleses em encontrar
trabalho, sabíamos que a apetência geral dos senegaleses para a migração também se
verifica no seio dos estudantes de Português da UCAD; ora, a visão idealizada das
perspectivas de emprego no estrangeiro terão certamente levado alguns alunos a, por
realismo, ponderarem as contingências e não responderem, em relação ao seu país,
como fariam se este estivesse em condições idênticas com os demais. Ainda assim, os
resultados foram interessantes e significativos, tendo os estudantes referido 19 países, a
saber:

162
Quadro 30 – Países onde os alunos gostariam de viver após a conclusão dos
estudos – 1ª preferência

País Frequência % País Frequência %


Portugal 118 38,9 Canadá 3 1,0
Senegal 92 30,4 Suíça 3 1,0
Brasil 29 9,6 Austrália 2 0,7
França 22 7,3 Inglaterra 2 0,7
E.U.A. 10 3,3 África do 1 0,3
Sul
Cabo Verde 6 2,0 América do 1 0,3
Sul
Itália 4 1,3 Bélgica 1 0,3
Guiné-Bissau 4 1,3 Marrocos 1 0,3
Angola 3 1,0 Moçambique 1 0,3

A preferência por Portugal é significativa, mas não muito surpreendente: os


alunos estudam Português, pelo que lhes parece natural trabalharem num país lusófono
(53,1%) e, particularmente, no nosso país, que é visto como rico, desenvolvido e
integrando a União Europeia, à qual proporciona o acesso.
O valor obtido pelo Senegal poderá surpreender pela negativa se considerarmos
que tivemos o cuidado de mencionar “após a conclusão dos estudos”, isto é, em nada
supondo que estes não poderiam dar acesso a um emprego no próprio país; contudo,
pensamos que os alunos não responderam a esta pergunta em abstracto, mas, antes, que
terão incluído no seu raciocínio a probabilidade de poderem ter trabalho no Senegal,
bem como o próprio poder de atracção da emigração.
Mencione-se, também, a atracção visível que exercem a França e os Estados
Unidos (16,9% no conjunto) nos jovens senegaleses; mesmo que se afigure improvável,
a qualquer estudante senegalês, conseguir obter um emprego naqueles países com um
diploma de Português, não deixam de exprimir o desejo de para ali emigrarem,
provavelmente para exercerem profissões não relacionadas com a nossa Língua.
Para melhor apreender a atracção de cada país, optámos por somar as pontuações
atribuídas pelos alunos, dando 5 pontos à primeira escolha e 1 à quinta:

163
Quadro 31 – Países onde os alunos gostariam de viver após a conclusão dos
estudos – somatório das pontuações

País Frequência País Frequência

Portugal 1106 Marrocos 10


Senegal 709 África do Sul 8
França 634 Emiratos Árabes Unidos 5
Brasil 630 México 5
Estados Unidos da América 293 Timor-Leste 5
Cabo Verde 164 Gambia 4
Canadá 147 Japão 3
Angola 121 Polónia 3
Itália 107 Suécia 3
Espanha 102 Arábia Saudita 2
Guiné-Bissau 91 Índia 2
Suíça 79 Argentina 1
Inglaterra 68 Camarões 1
Moçambique 45 China 1
Austrália 36 China – R A Macau 1
Bélgica 34 Dinamarca 1
Alemanha 26 Luxemburgo 1
São Tomé e Príncipe 23 Mali 1
Países Baixos 12 Rússia 1

Ao todo, os alunos referiram mais do que os 19 países citados como primeira


preferência, designadamente, 38.
Confirma-se que Portugal é o país mais atractivo e por uma diferença maior em
relação ao Senegal - o segundo preferido – comparativamente à mera relação das
primeiras escolhas. A França vem, desta feita, em terceiro lugar, ligeiramente à frente
do Brasil. Os Estados Unidos são uma quarta preferência destacada, seguido por Cabo
Verde, o Canadá, Angola, Itália e Espanha, o último país que “obtém” mais de 100
pontos.
Curiosamente, a Guiné-Bissau surge de seguida, o que indicará a vontade de
regressar a um território de origem familiar ou, eventualmente, de trabalhar num país
vizinho, lusófono, fazendo valer a utilidade do curso tirado na UCAD e a possibilidade
de serem professores de Francês – língua estrangeira – na Guiné-Bissau, o que revela
um intercâmbio útil entre os dois países.
Assinale-se, também, que o Senegal não aparece, no quadro 30, tão destacado do
terceiro nomeado, como no quadro 29. Cremos que este resultado advém do elevado
número de alunos que gostaria, naturalmente, de viver no seu próprio país e que, como
tal, o colocaram como primeira escolha, quando optaram por referi-lo.

164
Assim, dos dez países mais citados, quatro são europeus, três são africanos, dois
são norte-americanos e um sul-americano e os países lusófonos obtêm 48,7% do total
das preferências manifestadas.

165
4. A DIFUSÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA NO SENEGAL

J’ai retrouvé mon sang, j’ai découvert mon nom l’autre


année à Coïmbre, sous la brousse des livres. »

L. S. Senghor208

4.1. Léopold Sédar Senghor

Senghor, a sua poética e os valores da Negritude representam uma vontade forte


de construir uma ponte entre África, Portugal e o Mundo. Com a sua obra estabeleceu
laços universais e solidariedades com toda a Humanidade. De facto, ter escrito em
língua francesa não significa uma ligação apenas à França ou ao antigo colonizador. É
antes consequência da sua formação e da sua experiência no país natal, mas também
vontade de difundir a cultura africana :
« Et puisqu’ìl faut m’expliquer sur mes poèmes, je confesserai encore que
presque tous les êtres et choses qu’ils évoquent sont de mon canton : quelques villages
sérères perdus parmi les tanns, les bois, les bolongs et les champs. Il me suffit de les
nommer pour revivre le Royaume d’enfance – et le lecteur avec moi, je l’espère - « à
travers des forêts de symboles ».209
Quem leria os seus poemas se estivessem escritos em sérère, a sua língua
étnica? Seria preciso esperar por uma tradução ? Não traria vantagens óbvias para
África nem para os africanos, seria uma perda de tempo na difusão da sua mensagem à
Humanidade. De facto, uma ideia universal escreve-se em todas as línguas. Mas é
importante e relevante que este poeta tenha escolhido uma estratégia que facilitou, sem
dúvida, a transmissão desses conteúdos ao maior número possível de eventuais
receptores. Sendo a língua oficial do Senegal, veiculada no ensino e nos meios de
comunicação social, não é de estranhar que Senghor tenha expresso pensamentos e
sentimentos através da Língua Francesa. A língua vale assim pelos conteúdos que
transmite e pelo acto de os comunicar. Numa situação comunicativa, a língua refere
experiências e culturas dos indivíduos e dos povos. Senghor não escreveu na sua língua

208
L. S. SENGHOR, Op. Cit., pp.203
209
L. S. SENGHOR, Op. Cit., pp. 160

166
étnica (sérère), pois, não permitiria uma tão rápida transmissão dos conteúdos africanos
ao resto do mundo e fechar-se-ia na esfera cultural das etnias do Senegal. Mas a sua
estratégia resultou.
Senghor, pela sua obra, apresenta um traço de união entre o passado e o presente
dos africanos, marca uma continuidade e uma reconciliação com o passado, atitude que
pode ser um ponto de partida pacífico, estável e duradouro para considerar e debater, de
forma poética, muitos dos equívocos existentes sobre África, no passado e no presente.
Transmite e defende assumidamente a ideia da Negritude.
Por exemplo, “ Ethiopiques” é um conjunto de textos em que Senghor explora,
desde logo, o sentido da palavra grega « aithiops » que designa o que é negro. Não é
tanto o código linguístico que se valoriza, mas antes o significado, o conteúdo da
mensagem que se quer projectar, para revelar aquele conceito, é o ritmo, a emoção e a
verdade que a palavra encerra na mensagem poética :
“ Le Nègre singulièrement, qui est d’un monde où la parole se fait spontanément
rythme dès que l’homme est ému, rendu à lui-même, à son authenticité. Oui, la parole
se fait poème.”210
Ainda, no conjunto de poemas designado por “Nocturnes”, destacamos também
“Elegia das Saudades”211 , onde o poeta se associa à Língua e à Cultura Portuguesas,
parte de um mundo de que se recorda vagamente, que o “eu” lírico quis alcançar com a
sua poesia, embora se trate de uma reflexão crítica sobre um passado remoto :
" Monde scellé de caractères stricts et mystérieux, ô nuit
des forêts vertes, aube des plages inouïes !
J’ai bu – murs blancs collines d’oliviers - un monde
d’exploit et d’aventures d’amours violents et de cyclones.
Ah ! boire tous les fleuves : le Niger le Congo et le Zambèze,
l’Amazone et le Gange.
Boire toutes les mers d’un seul trait nègre sans césure non
Sans accents
Et tous les rêves, boire tous les livres, les ors, tous les prodiges de Coïmbre.
Me souvenir, mais simplement me souvenir… "212

210
L. S. SENGHOR, Op. Cit., pp. 156
211
L. S. SENGHOR, Op. Cit.
212
L. S. SENGHOR, Op. Cit. , pp. 203

167
Senghor manifesta, com frequência, um interesse especial por Portugal,
realçando memórias de tempos antigos, não só referindo-se à presença dos portugueses
no território do Senegal, mas também para homenagear o seu próprio povo e as
respectivas façanhas antigas, de tempos distantes, quase míticos.
A proximidade de países lusófonos também o desperta para este tipo de
reflexões que se desenham como projectos para o futuro. É evidente a necessidade e a
utilidade da Língua Portuguesa naquela região. Senghor ter-se-á apercebido
precocemente das vantagens de uma associação do Senegal com os países lusófonos e
soube avaliar a importância definitiva das marcas do passado em África. E, talvez por
isso, considerando interesses económicos, políticos e culturais do seu país natal, o
Presidente-Poeta decidiu oferecer a formação em Língua, Literatura e Cultura
Portuguesas às futuras gerações. Parece-nos uma vontade firme e muito consolidada,
com alicerces nesses desejos de universalidade e nessa favorável vizinhança de países
lusófonos, como a Guiné e Cabo Verde com quem o Senegal se relaciona em inúmeros
contextos, sem excluir os outros países e alargando ainda mais as potencialidades da
influência do Senegal no continente africano, com a diversificação de aliados.
É Senghor o fundador inquestionável dos Estudos Portugueses no Senegal. A
sua identificação com um passado longínquo, ligado aos vestígios da acção portuguesa,
transporta-o para uma dimensão poética e cultural. Através dela, e no contexto
improvável e surpreendente da Guerra Colonial, aparece muito cedo no seu espírito a
ideia da instituição do ensino do Português no Senegal, num território já mesclado de
tantas outras culturas e línguas. A cultura francesa influenciou a vida de Senghor, mas
no seu percurso de vida esteve sempre aberto a todo o mundo e às causas africanas.
Especialmente ligado à sua gota de sangue português, que declarava ter, atribuindo a si
próprio e ao povo do Senegal uma ligação muito forte à História de Portugal :
« Ah ! Je confonds confonds, je confonds présent et passé. »
(…)
« Mon sang portugais s’est perdu dans la mer de ma Négritude.
Amália Rodriguez, chante ô chante de ta voix basse
Les saudades de mes amours anciennes
Des fleuves des forêts des voiles, des océans des plages de soleil
Et les coups donnés et le sang versé pour des choses futiles.

168
J’écoute au plus profond de moi la plainte à voix d’ombre des saudades »213

A apologia da Negritude aparece ligada à presença portuguesa numa elegia que


fala de tempos remotos, em que se lembram as batalhas travadas em África, e cuja
expressão recorre mesmo aos signos do código linguístico português :
« Cétait au siècle de l’honneur.
La bataille était belle, le sang vermeil la peur absente.
A l’ombre de mes dunes, chantent les saudades de mes gloires perdues. »214

A Negritude surge como um apelo ao povo do Senegal, fazendo-o acreditar em


glórias do passado, buscando um orgulho nacional através de memórias, longínquas
e/ou recentes. Na verdade, os problemas da pobreza de África continuam a ser de muito
difícil resolução. É, pois, imperativo estimular os africanos para a acção, com
fundamentos que vão ao mais profundo do seu ser, como fazia Senghor ao transpor o
conceito de Negritude para a sua poesia. O conceito ficou. Mas não há continuidade
nem correspondência visíveis na acção. As pessoas continuam receptivas ao que vem do
exterior, mas mantêm-se fechados nas suas esferas culturais sem resolver os problemas
da pobreza. Emigrar para a Europa não é resposta para todos nem para todas as
carências que se vivem no Senegal, e noutros países africanos. É necessário que os
africanos se sintam bem na sua própria terra.
Contudo, Senghor abriu a porta para a resolução de certos problemas. Muitos
dependem da boa comunicação entre os povos. Outros dependem de um esforço
continuado, colectivo e convicto, para empreender acções de defesa da Humanidade em
perigo. Infelizmente, as novas tecnologias não contribuem de forma eficaz para a
resolução de todos os problemas do Desenvolvimento Humano, e não produzem
milagres. Não se confie excessivamente na tecnologia que sempre terá limitações. Há
que apostar mais na capacidade criadora e infindável das pessoas, que transformam o
mundo. É bom que todos possam ter um computador e acesso à Internet. O Senegal faz
já um esforço significativo para reduzir a “fractura numérica”. Mas seria lógico que
antes se tivesse acabado com a fome e a miséria, no país. Não é saudável uma ínfima
refeição ou uma pequena porção de arroz, por dia, para um estudante. A construção de

213
L. S. SENGHOR, Op. Cit., pp. 206
214
L. S. SENGHOR, Op. Cit., pp. 204

169
uma casa começa pelos seus alicerces e não pelo tecto. O computador veio intensificar
as possibilidades de comunicação entre os povos mas o desenvolvimento humano
continua a depender da vontade dos homens e da solidariedade entre os povos.

4.2. O Ensino Secundário

4.2.1. Estrutura do sistema

A estrutura do Sistema de Ensino do Senegal, Secundário ou Superior,


identifica-se com a organização do Sistema de Ensino Francês. O Ensino é veiculado
em Francês, língua oficial no país, e costuma iniciar-se o estudo de uma segunda língua
estrangeira (LV II) nas turmas de Quatrième (4e), prolongando-se essa aprendizagem
até ao último ano do Ensino Secundário, ou seja, proporciona-se a opção pela
aprendizagem de uma outra língua estrangeira ao longo de cinco anos. Devemos ter
presente que nenhuma destas é a língua materna da generalidade dos alunos que, como
vimos, falam as suas línguas étnicas. Mas quando entram para o Ensino Primário é
obrigatório realizarem os seus estudos em Língua Francesa. É uma situação de
bilinguismo normal para qualquer estudante senegalês, em escolas públicas ou privadas.
Com a família, entre amigos, entre si, os estudantes são falantes do Wolof, do Sérère ou
de outras línguas das suas etnias. Na escola, no liceu e na Universidade recebem toda a
sua formação em Língua Francesa e são avaliadas as suas competências na língua
oficial do país, que condicionam a sua progressão nos mais variados cursos. Contudo, a
Faculdade de Letras da Universidade Cheik Anta Diop de Dacar também oferece, aos
alunos de Estudos Portugueses, Espanhóis ou Italianos, o ensino e a formação em várias
línguas étnicas: Wolof, Sérère, Pulaar, Diola, pelas quais os estudantes podem optar, tal
como pelo Inglês.
Portanto, um jovem senegalês pode iniciar a sua aprendizagem da Língua
Portuguesa com a idade de 13/14 anos e prosseguir esses estudos até terminar o Ensino
Secundário, completando cinco anos de aprendizagem desde o ano escolar de
“Quatriéme” (4ème), pode até licenciar-se em Estudos Portugueses. A par desta
situação, nem sempre se encontra esta consistência e esta regularidade no processo de
Ensino/Aprendizagem da Língua Portuguesa. Podem surgir múltiplas situações de
alunos com maior ou menor sucesso, mas há situações problemáticas e complexas que

170
actualmente podemos encontrar na UCAD. Há alunos que frequentaram no liceu apenas
dois, três ou quatro anos de Português (LV II - Langue Vivante II). Esta irregularidade
na frequência da disciplina de Português, no liceu, deve-se a um situação específica.
Trata-se do conceito de “Grands Commençants” que se iniciou a partir da década de
1980, ou seja, alargou-se o Ensino do Português aos estudantes de faixas etárias mais
elevadas. Os alunos podem iniciar mais tarde a sua aprendizagem do Português (LV2),
na turma de “Seconde” (2nde, ou seja, o início do Secundário, em Portugal), podendo
completar um ciclo de três anos no ensino secundário.
Mais tarde, podem candidatar-se ao Curso de Estudos Portugueses no Ensino
Superior. Nos últimos anos, tem havido um número crescente de candidatos que são
seleccionados directamente pelos professores da Faculdade de Letras, de acordo com as
suas habilitações literárias e mediante uma entrevista. Após a selecção e quando
admitidos, os alunos inscrevem-se no curso. Na Faculdade de Letras, funciona o
Departamento de Línguas Românicas, onde se integram o Português, o Espanhol e o
Italiano.

4.2.2. Quadro geral do Português no Ensino Secundário em 2004/ 2005

Para termos uma ideia sobre o espaço actual do ensino da Língua Portuguesa no
Senegal, é importante conhecermos dados sobre as regiões e as escolas secundárias
onde se inicia o estudo da Língua Portuguesa. Começamos por apresentar as escolas
frequentadas pelos estudantes universitários que escolheram continuar os Estudos
Portugueses na UCAD (Universidade Cheikh Anta Diop). Trata-se do público-alvo do
inquérito, cujos resultados foram já apresentados. Os estudantes universitários da
UCAD, inscritos em DUEL I e DUEL II, no ano lectivo de 2004-2005, realizaram os
seus estudos do Ensino Secundário nas seguintes escolas, de várias regiões do Senegal:
- Região de Dakar: Cours Sainte Marie de Hann, Lycée John F. Kennedy,
Lycée Lamine Gueye, Lycée Mixte Maurice Delafosse, Lycée des Parcelles Assainies e
Lycée Seydina Limamou Laye, em Dakar; Lycée Abdoulaye Sadji e Lycée Moderne em
Rufisque;
- Região de Djourbel: Lycée d’Enseignement Général em Djourbel;
- Região de Fatick: Lycée Léopold Sédar Senghor em Fatick, e CEM de
Palmarin;
- Região de Kaolack : Lycée Valdiodio Ndiaye em Kaolack;

171
- Região de Kolda: Lycée Alpha Molo Balde, em Kolda; Lycée Ibou Diallo, em
Sédhiou;
- Região de Saint-Louis: Lycée Charles De Gaulle e Lycée Louis Faidherbe, em
Saint-Louis ;
- Região de Tambacounda: Lycée Mame Cheikh Mbaye, em Tambacounda;
- Região de Thiès: Lycée Léopold Sédar Senghor, em Joal; CEM Malick Sy e
Lycée Malick Sy, em Thiès;
- Região de Ziguinchor: Lycée Alioune Sane, em Bignona; Lycée Aline Sitoé
Diatta, em Oussouye; CEM de Thionk-Essyl; CEM Amilcar Cabral, Lycée Djignabo e
Lycée Saint Charles Lwango, em Ziguinchor.
Dado o número total de alunos seleccionados para o curso de Estudos
Portugueses da Faculdade de Letras da Universidade Cheikh Anta Diop, e de acordo
com estes dados recolhidos junto dos alunos, poderemos depreender que estas são as
escolas secundárias que apresentam geralmente maior sucesso no ensino da Língua e
Cultura Portuguesas, no Senegal.
A Embaixada de Portugal em Dacar procurou também saber, com exactidão, em
2004, o panorama completo do ensino do Português no Senegal, na medida em que, até
então, todos (anteriores leitores, professores senegaleses, inspectores de Academia, etc)
falavam em “cerca de” 8, 9, 10 mil alunos. Considerou-se, então, que a desejável
melhoria do apoio ao ensino do Português começaria por uma definição de prioridades,
baseada na realidade sobre a distribuição dos efectivos de escolas, professores e alunos.
Para efeito, o Embaixador pediu-nos a colaboração para conduzir este trabalho que se
revelou, autentica mas inesperadamente, de morosa investigação.
Num primeiro momento, recorreu-se ao Ministério da Educação do Senegal, ao
qual foram solicitados os elementos em causa. Apesar de promessas reiteradas, o facto é
que nunca se recebeu uma listagem do Ministério da Educação, acabando um
responsável por reconhecer, em Dezembro de 2004, que os serviços não tinham
conhecimento da realidade do país, nem um sistema estatístico de rotina e operacional.
Foi então necessário recorrer a uma abordagem diferente, tendo sido pedido à
autora que realizasse um trabalho metódico de contacto de todas as escolas senegalesas
passíveis de oferecer aulas de Português.
Assim, começámos por solicitar aos participantes do “Colóquio sobre o Ensino
Recíproco do Português e do Francês” (realizado em Dezembro de 2004), o
preenchimento de uma folha, com indicação da escola em que leccionavam e dos

172
contactos. Infelizmente, apesar de muitas insistências, não foi possível contactá-los a
todos, verificando-se que certos números de telefone estavam errados.
Numa segunda fase, procurámos contactar, uma a uma, todas as escolas
indicadas pelo Ministério da Educação, pelos professores e as constantes na lista
telefónica (o que, ainda assim, poderá não ter garantido a cobertura integral do espaço
escolar senegalês). Infelizmente, entre números errados e ausência frequente de
responsáveis, nem sempre foi possível obter respostas. Assinale-se que, devido à
inexistência de viatura disponível da Embaixada e às limitações orçamentais que
impossibilitavam o pagamento de deslocações a cidades distantes, não nos foi possível
efectuar deslocações ao terreno.
Por outro lado, tendo presente a evidente falibilidade das informações prestadas,
optou-se por repetir todas as chamadas das escolas que informaram ter alunos de
Português, para confirmar os dados fornecidos, tendo por vezes sucedido que se
verificaram contraditórios, obrigando a uma terceira chamada. Solicitou-se a todas as
escolas que enviassem os dados por escrito, mas apenas duas o fizeram.
Os dados solicitados foram os seguintes:
- nome exacto da escola;
- localidade, endereço, telefone, fax e correio electrónico;
- nº de alunos de Português por ano escolar;
- n.º e nome dos professores de Português;
- nome e contacto do Director da escola;
- se a escola tem clube de Português.
Os dados obtidos relativos às escolas que leccionam Português estão
parcialmente resumidos no quadro 32, retendo-se os seguintes elementos:
- Escolas recenseadas: 93215
- Escolas contactadas: 86
- Escolas que não têm Português: 29
- Escolas que têm Português: 57
- Nº de Professores: 92216
- Nº de total de alunos: 10966217.

215
Recordamos que o Português só é disponibilizado a partir da 4ème / 8º ano de escolaridade
216
Assinala-se que não foi possível obter os nomes dos Professores de 17 escolas que têm alunos de
Português - o que poderá ser estranho para quem não conheça a Administração senegalesa, pelo que é
provável que o efectivo se aproxime dos 110 docentes

173
Os alunos recenseados estão repartidos pelos seguintes anos:
- em 4ème: 1409 (12,8%);
- em 3ème: 1071 (9,8%);
- em 2nde: 3257 (29,7%);
- em 1ère: 3050 (27,8%);
- Em Terminale: 2282 (20,8%).
Por último, foram recenseados oito clubes de Português, mas a maioria dos
Directores não estava bem informada sobre esta actividade nas escolas.
Vejamos, de seguida, a rede de escolas senegalesas em que se leccionava
Português no ano lectivo de 2004-2005. Devido ao grande número de escolas, optámos
por dividi-las por quadros evidenciando a repartição regional

Quadro 32a – Escolas onde se lecciona Português e alunos inscritos (2004-2005)


– Norte e Centro interior do Senegal

ESCOLA LOCALIDADE N.º DE ALUNOS


4eme 3eme 2nde 1ere Term TO-
TAL
CEM André Guiaber Saint-Louis 22 42 64
CEM Mpal Saint-Louis 27 22 11 60
CEM Sancaré Saint-Louis 2 1 3
Lycée Charles de Gaulle Saint-Louis 41 64 19 124
Lycée Cheick Omar Foutya Tall Saint-Louis 16 16 15 47
Collège Privé Cheikh Assane Ndiaye Djourbel 9 7 4 20
Lycée d'Enseignement Général Djourbel 262 382 150 691
Lycée Techniq. Cheikh Ahmadou Bamba Djourbel 49 27 28 104
CEM Acapes Tambacounda 43 43
CEM Moriba Diakite Tambacounda 85 71 156
CEM Quinzambougou Tambacounda 61 14 75
CEM Thierno Souleymane Agne Tambacounda 52 42 94
Collège Waounde Ndiaye Tambacounda 18 10 1 3 32
Lycée de Tambacounda Tambacounda 267 85 83 435
Lycée Mame Cheikh Mbaye Tambacounda 149 121 45 315
TOTAL 265 191 814 748 348 2263

217
Contudo, não foi possível obter esta informação em 2 escolas, pelo que, tendo também em conta que
não conseguimos contactar 8 escolas, é razoável apontar para uma fasquia superior a 11000 alunos

174
Quadro 32 b/c - Escolas onde se lecciona Português e alunos inscritos (2004-
2005) – Centro Oeste e Casamansa

LOCA- N.º DE ALUNOS


ESCOLA LIDADE 4eme 3eme 2nde 1ere Term TO-
TAL
CEM Abdoulaye Mathurin Diop Dacar 52 63 115
Cours Sainte-Marie de Hann Dacar 15 4 22 13 16 70
Ecole Fadilou Diop Dacar 86 80 166
Lycée Blaise Diagne Dacar 21 25 145 131 40 362
Lycée Galandou Diouf Dacar 10 20 10 20 7 67
Lycée J F Kennedy Dacar 12 7 85 120 54 278
Lycée Lamine Guèye Dacar 57 41 13 111
Lycée Mixte Maurice Delafosse Dacar 71 73 60 204
Lycée Parcelles Assainies Dacar 225 176 112 513
Lycée Seydina Limamoulaye Guediawaye – DK 136 47 46 229
Lycée de Mbao Mbao – DK 40 54 30 124
Lycée Abdoulaye Sadji Rufisque – DK 65 47 33 145
Nouveau Lycée de Rufisque Rufisque – DK 102 16 27 145
CEM Malick Sy Thiès 40 40
CEM Modeime Lat Dior Thiès 2 2
Cours Bede Yacine Thiès 10 1 2 5 18
Kocc Barna Privé Promo Educ Thiès 1 6 5 3 15
Lycée Malick Sy Thiès 145 287 122 554
Nouveau Lycée de Thiès Thiès 96 148 244
CEM Lamine Senghor Mbour – TH 22 12 34
Lycée Léopold Sedar Senghor Mbour – TH 32 45 27 104
CEM Djim Momar Gueye Kaolack 53 54 107
CEM Valdiodio Ndiaye Kaolack 42 38 80
Lycée Valdiodio Ndiaye Kaolack 216 45 44 305
CEM Collège Maounde Kande Kolda 12 10 3 12 37
CEM Kolda Kolda 62 75 137
Groupe Scolaire An Nur Kolda 5 2 7 14
Lycée Alpha Balde Kolda 29 82 34 145
CEM Amadou Maputhe Diagne Sedhiou – KOL 101 82 183
CEM Saint Jean Sedhiou - KOL 2 2
Lycée Ibou Diallo Sédhiou – KOL 73 57 232 116 81 559
Lycée Chérif Sambidine Haidara Velingara – KOL 68 10 78
CEM Kandé Ziguinchor 0
CEM Tété Diadhiou Ziguinchor 99 50 149
CEM Thionk Essyl Ziguinchor 163 139 135 121 80 638
Collège Goudomp Ziguinchor 75 120 195
Collège Lwanga Charles Ziguinchor 180 150 206 536
Collège Malick Sall Ziguinchor 130 130
Lycée Djinabo Ziguinchor 190 447 208 845
Aline Sitoé Diatta Oussouye – ZG 40 84 38 28 47 237
Lycée Ahoune Sane Bignona - ZG 45 83 618 746
CEM de Sindiane Sindiane – ZGR 20 20 40
TOTAIS 1144 880 2443 2302 1934 8703

A análise do quadro 31 permite retirar algumas conclusões:

175
Os alunos das principais regiões e cidades do Senegal têm a possibilidade de
aprender Português no 3º Ciclo do Ensino Básico e no Secundário (terminologia
portuguesa), à excepção das regiões de Louga e de Fatick, bem assim como das cidades
de Bakel, Matam e Podor, que ficam muito distantes da capital regional, Saint-Louis,
em pleno interior Nordeste, área de fraca densidade populacional e habitada pelas etnias
Peul, Toukouleur e Wolof.
Relativamente à região de Fatick, assinale-se que a Escola de Palmarin, na qual
muitos alunos tradicionalmente frequentam o Português, estava, no ano da análise, sem
professor, na medida em que o titular fora para Portugal como bolseiro. Ora, sucede
que, devido à organização interna do sistema de ensino senegalês, esta situação pode
provocar o fim do ensino da nossa Língua, na medida em que, se não houver professor,
deixa de haver a oferta da disciplina que é, não raras vezes, prontamente substituída por
outra218, sem possibilidade de regresso à situação inicial. No seu regresso, o professor
poderá ter sido colocado noutra escola. Este tipo de consequências de uma certa
inadequação da figura da concessão de bolsas anuais foi diversas vezes objecto de
reparos e informações dos sucessivos leitores na UCAD ao Instituto Camões, mas sem
êxito até àquela data.
No cômputo geral, a Casamansa destaca-se claramente pela oferta disponível e
pelo número de alunos: 18 escolas (5 das 7 com mais alunos) e 4671 alunos (42,6%).
Contudo, assinale-se que a percentagem de alunos casamansences que frequentam a
disciplina de Português no Ensino Secundário é menor do que a de inscritos na UCAD.
Este dado explica-se, a nosso ver, pelo aumento dos alunos inscritos na disciplina nas
escolas da região de Dakar (2529 alunos - 23,9%)., de que, porventura, uma parte
significativa poderá ter familiares ascendentes da Casamansa ou da Guiné-Bissau.

218
O Instituto Cervantes é, nesta matéria, particularmente agressivo e eficaz na promoção do Espanhol

176
CONCLUSÃO

Não é muito difícil depreendermos que na África Ocidental estejam ocultos


muitos vestígios da presença portuguesa. Muitos lugares, que são hoje países distintos,
não tiveram sempre essa configuração, nem a tinham à chegada dos portugueses nas
suas caravelas, no século XV. A presença de vários países lusófonos, relativamente
próximos geograficamente, é indício óbvio da disseminação de marcas portuguesas.
Principalmente a Língua Portuguesa está espalhada pelo continente africano e os
africanos identificam-na há séculos. Nos nossos dias, talvez a marca linguística seja a
maior evidência das Descobertas lusíadas. De facto, é aquela que vingou, como marca
histórica e pela necessidade de comunicação humana, embora não pareça ter havido,
desde o início desse projecto luso, um plano específico de difusão da Língua. Mais
tarde, após a conferência de Berlim, os territórios africanos ficaram divididos e
desenhados com régua e esquadro no mapa, de acordo com os interesses dos países que
colonizaram África, a partir do século XVIII. Mas a vontade dos europeus de dividir, de
separar e de ter aquelas terras não conseguiu desmembrar completamente as culturas
dos povos que aí habitavam. Esses povos e as suas culturas continuaram a evoluir com
as suas dinâmicas próprias, tal como em tempos anteriores. Sempre o poderio
estrangeiro, em geral, assentava nas relações comerciais, perpetuando a busca de
riqueza e de melhores condições de vida em proveito próprio nesses lugares. Os
estrangeiros, visitantes ou invasores de África, adquiriram escassos conhecimentos
sobre as particularidades culturais dos nativos. Esse interesse não fazia parte dos
objectivos e das prioridades dos tratados que assinaram ao longo dos séculos. Por isso, a
antiguidade da presença portuguesa e muitas marcas iam sendo preservadas,
memorizadas, pelos nativos, ainda que sem intencionalidade específica, e dentro dos
seus hábitos culturais. Assim, apesar da descolonização e das lutas pela independência
mais recentemente, a nossa ideia-chave é que está ainda em curso a Expansão da
Lusofonia.
No começo, a convicção do Infante D. Henrique foi maior na grande aventura
dos Descobrimentos. O Infante manifestava uma consciência especial, de prudência e
bom senso, sabendo, desde logo, que estava a expor-se a muitos perigos no espaço
desconhecido, tal como demonstrámos. A Santa Sé deu um voto de confiança e
acreditou que essa aventura poderia ser uma via para simultaneamente combater os

177
infiéis e difundir a fé cristã. Por isso, concedeu tudo o que os portugueses pediram e
legitimou todas as suas Descobertas, incluindo as suas conquistas futuras em lugares
desconhecidos. Apoiou os Descobrimentos portugueses e cristãos, ab initio.
A Coroa portuguesa igualmente deu sempre um grande valor às determinações
da Santa Sé, para legitimar grandes conquistas portuguesas, e não só, que adquiriram
grande prestígio internacional, por intermédio de relações pacíficas e respeitosas com o
poder da Igreja Católica. Assim, toda a Nação se entregou a essa aventura marítima,
também com grande empenho na procura do reino cristão do Preste João das Índias,
porque a devoção do povo português era profunda e muito menos reservada do que
actualmente. Fizeram-se múltiplos investimentos, prepararam-se intensa e
continuadamente as expedições marítimas, embora não se registassem dados seguros
que orientassem os navegadores de forma inequívoca. O desconhecimento da “Etiópia”
era quase total, excluindo o Norte banhado pelo Mediterrâneo.
Quando os portugueses chegaram à África ocidental, os africanos foram, de
facto, surpreendidos pelos visitantes, e tudo indica que mantiveram as suas dinâmicas
culturais. Como sabemos, o confronto de culturas tem particularidades que nem sempre
facilitam a comunicação entre os povos. Era grande a dispersão dos habitantes da África
ocidental, antes e depois dos lusíadas. Vários fluxos migratórios, de proveniências
diferentes, se tinham fixado nesses lugares, disputando os poderes e as riquezas naturais
daqueles sítios. Apresentavam uma consistente organização na troca dos produtos destas
terras. Ao longo dos séculos, vários povos chegaram, instalaram-se e dispersaram-se
naquele imenso continente, onde o Islão surgiu também como uma invasão sobre as
culturas de muitos grupos. O Islão árabe219 foi impondo essa religião cuja influência

219
LEWIS, Bernard, Os árabes na História, (trad) Ed. Estampa, 2ª ed, 1996, pp 158-160: o primeiro traço
que nos chama a atenção é o poder assimilativo da cultura árabe, muitas vezes indevidamente apresentado
como meramente imitativo. As conquistas árabes uniram, pela primeira vez na história, os vastos
territórios que se estendem desde as fronteiras da Índia e da China até às proximidades da Grécia, Itália e
França. Durante algum tempo pelo seu poder militar e político, durante muito mais tempo pela sua língua
e pela sua fé, os Árabes uniram numa única sociedade duas culturas inicialmente colidentes –a tradição
mediterrânica milenar e diversificada, da Grécia, Roma, Israel e do Próximo Oriente antigo,e a rica
civilização da Pérsia, com padrões de vida e de pensamento próprios e os seus férteis contactos com as
grandes culturas do Oriente mais afastado. Da coabitação de muitos povos, fés e culturas no seio da
sociedade islâmica nasceu uma civilização nova, diversa nas suas origens e nos seus criadores, e no
entanto imprimindo em todas as suas manifestações o cunho característico do Islão árabe. Desta
diversidade da sociedade islâmica ressalta um segundo traço característico, particularmente surpreendente
para o observador europeu – a sua relativa tolerância. Contrariamente aos seus contemporâneos do
Ocidente, o muçulmano medieval raramente sentiu necessidade de impor o seu credo pela força a todos
aqueles que se encontravam subjugados à sua autoridade. Tal como eles, ele sabia perfeitamente que, na
devida altura, aqueles que acreditavam em algo diferente sofreriam as penas do Inferno. Mas ao contrário
deles, não via qualquer vantagem em se antecipar ao julgamento divino neste mundo. A maior parte das

178
nem sempre foi benéfica nem pacífica, sendo a causa do declínio de grandes impérios
africanos (Mali, Gabú) e de conflitos duradouros na região. A sua influência
permaneceu até aos nossos dias com marcas visíveis, definitivas e complexas que
merecem um estudo exaustivo e específico, que nós não tínhamos como objectivo
abordar. Contudo, não se pode ignorar a sua existência no Senegal.
Os árabes invadiram também a Península Ibérica, os portugueses reconquistaram
o território cristão, assimilaram aspectos dessa cultura mas expulsaram os muçulmanos
e, na sequência desse plano nacional, da acção e da vontade firmes dos monarcas,
restabeleceram as suas raízes culturais e a posse dos territórios. No século XV, como na
época da Reconquista, os portugueses voltam a unir-se para a concretização de um novo
plano nacional, para o qual também contribuiu o engenho de muitos monarcas que
possibilitaram os Descobrimentos, com as suas iniciativas no aperfeiçoamento
continuado da marinha portuguesa, que seria a chave para resolver muitos problemas do
país, no futuro. Por um lado, o desenvolvimento da marinha permitia não só uma maior
eficácia no ataque aos inimigos mas também a defesa e a protecção do país. Por outro
lado, serviu para combater os infiéis, o Islão, e expulsá-los do território. Portanto, a
unidade do povo português em torno de grandes projectos nacionais foi, ao longo dos
tempos, a maior garantia do sucesso de certas acções, incluindo aqui obviamente as
Grandes Descobertas. Embora a maior riqueza que se espalhou no mundo nem sequer
tenha obedecido a um plano desde o começo. Falamos da difusão da Língua Portuguesa.
que até hoje permanece em tantas partes de África. Além dos países lusófonos, também
no Senegal, como noutros países africanos onde os portugueses passaram, deixaram-se
marcas ainda por explorar.
A aventura portuguesa, pode dizer-se, foi sendo preparada ao longo de séculos,
ignorando e desconhecendo totalmente o passado africano. Quando chegaram a esses
lugares, os portugueses surpreenderam-se com as paisagens e os povos que
encontraram, precisaram de tempo para assimilar as práticas culturais locais e adaptar-se
às novas realidades, mas conseguiram fazê-lo com êxito, de acordo com as orientações

vezes sentiu-se satisfeito por pertencer à fé dominante numa sociedade de muitas fés. Impôs aos restantes
algumas discriminações sociais e legais, em sinal da supremacia, e a advertência não se fazia esperar se
alguma vez parecessem dispostos a esquecê-lo. De outro modo, concedia-lhes a sua liberdade religiosa,
económica e intelectual, e dava-lhes a oportunidade de contribuírem de forma notável para a própria
civilização árabe.

179
recebidas no reino e não à maneira dos africanos, cada povo agiu dentro das suas
características culturais. Devemos considerar que as Descobertas tiveram início com o
desconhecimento completo da existência dos povos e das culturas ao Sul do rio Senegal.
Não se podem atribuir intenções aos portugueses que eles nunca poderiam ter antes de
lá chegarem, como por exemplo a exploração do homem preto pelo homem branco; o
racismo não existia, por desconhecimento de uns e de outros. O que aconteceu depois é
consequência de novas realidades em que todos participaram, e em que ninguém foi
sempre inocente.
Pelo contrário, no continente africano, os povos apresentavam-se muito
divididos e dispersos, além de disputarem entre si as mesmas riquezas e os mesmos
poderes, o que reforçava a conflitualidade, com todas as consequências dela
decorrentes. Por outro lado, havia um confronto entre as diversas culturas originais
destes povos, de diversas proveniências e a intromissão da religião islâmica que veio
alterar profundamente a organização social e subverter hierarquias instituídas,
constituindo um factor adicional de desordem, com grande impacto, além dos conflitos
que já existiam entre os muitos reinos.
Quando os portugueses chegaram à África ocidental, depararam já com os traços
predominantes da diferença de civilizações ainda hoje verificável. Com efeito, a
influência islâmica, já bem presente, mesclada com as tradições animistas, criou um
subtipo cultural e civilizacional específico e distinto, quer das sociedadade tribais
“puras” da África negra, quer das magrebinas e, obviamente, muito diferente da
portuguesa.
Por outro lado, após a chegada dos europeus, além da escassez de documentos
em certos períodos de tempo, África surge sempre ligada às culturas e às acções dos
colonizadores, o que lhe retira conteúdos, substância e objectividade; pois, os africanos
estão, geralmente, ocultos pelos acontecimentos mais recentes da colonização europeia,
acentuam-se as perplexidades sobre o tráfico negreiro e desvalorizam-se frequentemente
características específicas dos povos africanos, que não são da responsabilidade dos
colonizadores, o que leva estes povos a não empreenderem uma reflexão exaustiva
sobre as suas acções no passado. Por exemplo, no contexto da escravatura, nem todos os
argumentos que se apontam contra o antigo colonizador são de aceitar para justificar as
dificuldades em que vivem, na medida em que já existia em África, e os africanos
aderiram a muitas das acções dos estrangeiros. Por outro lado, mantêm apoios diversos,
dos países cooperantes e dos planos da Ajuda Pública ao Desenvolvimento do chamado

180
Terceiro Mundo, que deviam reverter para o bem comum e, como se sabe, isto
raramente acontece.
Apesar das mudanças de contextos políticos e económicos, os africanos
continuam a refugiar-se num “certo” e ainda nubloso passado, marcado pela
interferência de estrangeiros, para justificar a maneira como vivem e não sentirem a
urgência de mudar. Contudo, ao mesmo tempo, integram a influência islâmica sem a
questionarem e distinguem as suas identidades, afirmando mantê-las bem vivas e
seguras, pelo saber e pelas tradições transmitidos de geração em geração. Afinal, as suas
culturas específicas estiveram e estão sempre presentes nos seus modos de vida.
Portanto, conjugam estas três vertentes culturais e civilizacionais (islâmica, europeia e
culturas autóctones) que, de acordo com as conveniências, interferem nas suas acções,
na resolução de problemas e na preparação do futuro. Não deixa de ser verdade que essa
mescla de culturas pode dificultar a escolha de uma via de mudança e de
desenvolvimento dos países.
Por isso, interessa conhecer essa partilha dos territórios e das riquezas do
continente, pelos indígenas e pelos estrangeiros, ao longo de mais de cinco séculos.
Parece-nos mais ou menos claro que, até hoje, devemos entender que, desde o século
XV, há uma História comum em África, dos estrangeiros (europeus e não só) e dos
nativos africanos, várias culturas, com vidas que partilhavam os lugares, as riquezas da
terra e do mar, o comércio, desejado por todos, e a partir do qual se desenvolveu um
novo contexto económico. A sociedade, os hábitos e os costumes, a religião, ou seja,
estes aspectos das culturas que se cruzaram, não impediam os contactos comerciais nem
separavam totalmente as gentes que por ali passavam.
Temos de ver, contudo, duas excepções, ou dois aspectos que mudaram os
indígenas. Por um lado, a religião islâmica mantém influências mais antigas e mais
fortes sobre os povos do Norte de África. Contudo, a religião católica implantou-se
reconhecidamente, desde muito cedo, por acção dos portugueses:
“Les Portugais sont sans contredit les premiers qui envoyèrent des prêtres sur
les côtes qui nous occupent en ce moment. Quoique nous n’ayons aucun registre
concernant leur mission, la chrétienté de Joal, dont nous parlerons plus tard, en est une
preuve palpable. Nous les verrons s’honorer du nom de Portugais et conserver
glorieusement leur titre de chrétiens, malgré toute leur ignorance et toutes leurs
superstitions. Les vieillards de quatre-vingt-dix ans se vantent encore d’avoir été les
enfants de choeur des derniers missionaires portugais, et aiment encore à raconter des

181
traditions de leurs pères touchant les premiers qui portèrent chez eux le flambeau de la
foi.”220
Por outro lado, há também a transmissão / imposição das línguas europeias dos
colonizadores. Apesar disso, muitas línguas étnicas resistiram às interferências dos
estrangeiros e continuam a ser faladas pelos nativos de África.
Existem várias descrições de África, escritas por europeus, deixadas por
navegadores, comerciantes, governantes, missionários, que nos legaram as suas
experiências em contacto directo com os africanos, desde o século XV. Os africanos não
escreveram sobre essas épocas mais remotas, contaram a sua História de geração em
geração. Mas esses elementos da tradição oral não coincidirão com os dados históricos
enunciados em fontes escritas por outros que viram e contaram o que viveram nesses
tempos, nesses lugares, em contacto com esses povos?
Consideramos que o período entre os séculos XV e XVII, ao momento da
chegada dos portugueses, será o momento de maior impacto dos novos contactos
culturais, aquando das Descobertas desta costa africana. Por isso, esses acontecimentos
apresentam especificidades sobre a difusão da Língua Portuguesa junto dos indígenas.
Podemos estudá-las para compreender melhor os vestígios da presença portuguesa que
parecem influenciar os projectos culturais, políticos e económicos do Senegal na
actualidade. Por serem tão antigas, a influência e as consequências da presença dos
portugueses nos territórios do actual Senegal, encontram-se muitas vezes por detrás da
cortina da colonização.
Desde muito cedo, os africanos sabiam orientar-se com eficácia naqueles largos
espaços. Temos notícia das caravanas que organizavam para trocar os seus bens e que
são a prova sobre o conhecimento que tinham para empreender acções que lhes
interessassem verdadeiramente. As riquezas dos lugares – o ouro e outros metais
preciosos, o sal e os escravos – eram produtos muito valiosos e abundantes, à volta dos
quais se foram construindo e desfazendo muitos reinos africanos, ao longo de várias
gerações e de muitos séculos, muito para além da data das Descobertas dos portugueses.
São culturas diferentes, desde sempre. Mas, apesar de longínqua, a influência
portuguesa deixou marcas, reminiscências e vestígios visíveis no povo senegalês, tal
como pudemos verificar e concluir neste nosso estudo e também pela análise do
inquérito aos estudantes universitários de Estudos Portugueses na Universidade Cheikh

220
A. D. BOILAT (1853); Op. Cit., pp. 20

182
Anta Diop de Dakar. Além das fontes documentais que consultámos, de períodos
diferentes da História, de vários autores que viram, viveram e transmitiram
características concretas destas realidades, este inquérito acrescenta aspectos da
actualidade senegalesa e deu-nos a possibilidade de confrontar o passado com o
presente. Mas também permite antecipar medidas de acção para a difusão da Língua
Portuguesa no Senegal, dado que existe um tão grande interesse e empenho neste
desenvolvimento.
Como pudemos constatar e, em síntese, devemos reter as conclusões principais
mais pertinentes do inquérito realizado junto dos alunos da UCAD. Os alunos
manifestaram, na sua grande maioria, um gosto especial pela língua e cultura
portuguesas, tendo recebido estímulos para os Estudos Portugueses, da parte da família
e de amigos, sendo principalmente provenientes de regiões geográficas do Sul do
Senegal, na fronteira com a Guiné-Bissau, país lusófono, a que acresce a predominância
das etnias do Sul entre os estudantes, o que explica também a distribuição e a
concentração das escolas do ensino secundário. Estes resultados confirmam portanto
que essa apetência dos jovens senegaleses para os Estudos Portugueses tem causas
muito remotas que continuam a influenciar as escolhas ou as preferências deste povo.
Ao mesmo tempo, fica comprovado que, através das etnias e das famílias, a transmissão
oral de experiências e de conhecimentos, de geração em geração, continua bem viva e a
orientar as escolhas dos mais jovens africanos.
Os dados históricos aqui enunciados e as realidades evidenciadas pelo inquérito
mostram um interesse significativo do Estado senegalês no ensino do Português,
merecendo, no nosso entendimento, um apoio muito maior do que aquele que tem sido
prestado por Portugal. Em particular, a região da Casamansa deve ser objecto de uma
atenção especial, tendo em conta a sua posição geográfica (fronteira da Guiné-Bissau), a
sua etnia tradicionalmente dominante (diolas ou flups, espalhados pelos dois países) e a
grande concentração de escolas, professores e alunos de Português, provavelmente das
mais elevadas nos países que não integram a CPLP. Além disso, esta região é distante
de Dakar – e ainda mais isolada desde o desastre do navio Joola, 2002 - o que cria
graves dificuldades de mobilidade aos docentes que queiram fazer formação na capital.
Em geral, os contactos realizados permitiram verificar a nítida dificuldade no
domínio da língua de muitos professores, sem prejuízo do grande empenhamento e
motivação que alguns revelam no exercício das suas funções. Assim, parece-nos do
máximo interesse restabelecer um programa de bolsas de curta duração (2 meses, no

183
máximo), a gozar no Verão em Portugal, de que todos os professores, rotativamente,
deveriam beneficiar regularmente ao longo da vida profissional (de 5 em 5 anos, por
exemplo), para manter um contacto directo com a Língua. As bolsas de curto prazo
parecem preferíveis, não apenas por questões de natureza económica, mas também
porque se verificou, no passado, que bolsas anuais levavam à extinção da oferta de
Português nas escolas a que pertenciam os professores beneficiários. Por outro lado,
afiguram-se também mais úteis os contactos regulares com Portugal, em vez de uma
grande e única estada em Portugal.
Além de tudo isto, os materiais são escassos e muitas vezes desactualizados ou
inadequados, por vezes mesmo contraproducentes para um conhecimento realista do
nosso país. Trata-se de um problema que começa, desde logo, na Universidade, sem
meios de qualquer ordem para um ensino superior mais digno e cujos docentes
privilegiam sectores ou perspectivas da nossa Literatura e da nossa Cultura que se
afiguram 30 anos atrasados. Parece-nos, pois, urgente dotar as escolas de manuais – que
ali não existem – e utilizar parte do acervo do ICA (Instituto Camões), por exemplo,
para equipar as biliotecas e clubes com livros em Português, que suscitam curiosidade e
interesse dificilmente compreensíveis para qualquer europeu que não sabe o que é
aprender em condições tão deficientes. Parece-nos também que o projecto já esboçado
de distribuição de jornais por escolas, como materiais de trabalho, em parceria com a
TAP – Air Portugal, seria muito útil para manter todos os professores e alunos em
contacto com a realidade actual portuguesa. Por último, parece-nos imprescindível
apoiar melhor a Universidade, atribuindo ao leitorado de Português pelo menos um
equipamento de projecção de filmes e imagens (computador portátil e projector), para
que os alunos (646 no ano lectivo de 2004-2005) possam familiarizar-se com a Língua e
com o País.
Por, outro lado, criar e gerir com competência Bibliotecas ou Centros Culturais
de Língua Portuguesa, como o de Cabo Verde, a título de exemplo, seria estabelecer
alicerces definitivos para a permanência e/ou para a continuidade da expansão da
Língua Portuguesa, em vários países, atestando e reforçando a sua actual pertinência na
comunicação a nível mundial.
São algumas pistas que deixamos com o objectivo de valorizar a continuidade da
Expansão da Lusofonia em África. Ali existem tantos países lusófonos, tantos falantes
da nossa língua e tanta vontade de aprender e de manter o laço histórico que continua a
aproximar os nossos países! Com a Língua Portuguesa construímos, há muitos séculos,

184
uma “auto-estrada da comunicação”. Por isso, chamamos a atenção para o facto de esta
realidade ser frequentemente negligenciada ou mal entendida, tendo vindo a excluir-se
sucessivamente oportunidades para o desenvolvimento e o crescimento de todos estes
países africanos, que Portugal poderia apoiar. Todos poderão beneficiar de projectos
facilitadores e multiplicadores para o enriquecimento cultural, também económico,
contribuindo mutuamente para a estabilidade, para uma maior qualidade de vida,
valorizando e espalhando este bem comum, a Língua Portuguesa, uma ponte entre
Portugal, África e o Mundo.

185
MAPAS

Mapa 1 - O Senegal pré-colonial do século XV ao século XVIII ---------------- 11


Mapa 2 - O Gabú no século XVIII --------------------------------------------------- 14
Mapa 3 - Regiões e capitais regionais do Senegal --------------------------------- 116
Mapa 4 - Grupos étnicos no Senegal actual ----------------------------------------- 120
Mapa 5 - Fluxos migratórios dos avós dos alunos ---------------------------------- 128
Mapa 6 - Fluxos migratórios dos pais dos alunos ---------------------------------- 129

QUADROS

Quadro 1 - Inquérito -------------------------------------------------------------------- 103


Quadro 1.1. - Nomes citados pelo menos três vezes -------------------------------- 107
Quadro 1.2. - Nomes citados duas vezes ---------------------------------------------- 108
Quadro 1.3. - Nomes citados uma vez ------------------------------------------------- 108
Quadro 2 - Repartição etária dos alunos ----------------------------------------------- 115
Quadro 3 - Distribuição por área de nascimento ------------------------------------- 117
Quadro 4 - Repartição das etnias na amostra de estudantes e na população
do Senegal ------------------------------------------------------------------- 118
Quadro 5 - Repartição das grandes famílias de etnias na amostra de
estudantes e na população do Senegal ----------------------------------- 119
Quadro 6 - Relação etnia/ área de nascimento dos alunos --------------------------- 121
Quadro 7 - Relação etnia/ região de nascimento dos pais ---------------------------- 122
Quadro 8 - Relação etnia/ região de nascimento dos avós --------------------------- 124
Quadro 9 - Regiões ou país onde ocorre a maior frequência relativa de
nascimentos por etnia ------------------------------------------------------- 131
Quadro 10 - Segunda área onde ocorrem mais nascimentos, por etnias ----------- 132
Quadro 11 - Repartição de nascimentos pelas regiões dominantes de cada etnia 132
Quadro 12 a - Repartção, por regiões, de todos os nascimentos no Senegal ------ 133
Quadro 12 b - Repartição, por países, dos nascimentos ocorridos fora do Senegal
e sua frequência relativa no total de todos os nascimentos--------- 134
Quadro 13 - Repartição da população senegalesa, por regiões, em 2000, e
comparação com as frequências relativas da repartição dos

186
nascimentos de alunos e familiares ----------------------------------- 134
Quadro 14 a - Casamentos dos pais – miscigenação étnica – grupo subguineense 139
Quadro 14 b - Casamentos dos pais – miscigenação étnica –
grupo sahelo-sudanês--------------------------------------------------- 139
Quadro 14 c - Casamentos dos pais – miscigenação étnica – grupo mande ----- 139
Quadro 14 d - Casamentos dos pais – miscigenação étnica – grupo halpular ---- 139
Quadro 15 a - Casamentos de avós – miscigenação étnica – grupo subguineense 140
Quadro 15 b - Casamentos de avós – miscigenação étnica –
grupo sahelo-sudanês---------------------------------------------------- 140
Quadro 15 c - Casamentos de avós – miscigenação étnica – grupo mande ------ 140
Quadro 15 d - Casamentos de avós – miscigenação étnica – grupo halpular ----- 140
Quadro 16 - Frequência relativa dos casamentos com pessoas da mesma etnia -- 141
Quadro 17 - Outras etnias com que se registam casamentos ----------------------- 142
Quadro 18 - Profissões exercidas pelos familiares dos estudantes ---------------- 150
Quadro 19 - Pessoas com quem vivia antes da entrada na Universidade --------- 152
Quadro 20 – Pessoas com quem vivia à data do inquérito --------------------------- 152
Quadro 21 – Pessoas da família com quem viviam ----------------------------------- 153
Quadro 22 – Dimensão dos agregados familiares em que viviam os alunos ------ 153
Quadro 23 - Como teve conhecimento do Ensino do Português, no Senegal ----- 155
Quadro 23 bis - Outras razões ----------------------------------------------------------- 156
Quadro 24 - Duração dos Estudos de Português no liceu --------------------------- 156
Quadro 25 - Motivação para o estudo do Português no liceu ------------------------ 157
Quadro 26 - Motivação para os Estudos Superiores de Português ------------------ 158
Quadro 27 - Ambições e expectativas dos alunos quanto ao seu futuro
profissional ----------------------------------------------------------------- 159
Quadro 28 - Somatório das pontuações obtidas pelas respostas dos alunos
sobre o que gostariam de fazer após a conclusão dos estudos ------ 161
Quadro 29 - Somatório das pontuações obtidas pelas respostas dos alunos
sobre o que pensam fazer após a conclusão dos estudos ------------- 161
Quadro 30 - Países onde os alunos gostariam de viver após a conclusão dos
estudos – 1ª preferência --------------------------------------------------- 163
Quadro 31 - Países onde os alunos gostariam de viver após a conclusão dos
estudos – somatório das pontuações ------------------------------------- 164
Quadro 32 a - Escolas onde se lecciona Português e alunos inscritos

187
(2004- 2005) – Norte e Centro interior do Senegal ------------------ 174
Quadro 32 b/c - Escolas onde se lecciona Português e alunos inscritos
(2004-2005) – Centro Oeste e Casamansa ---------------------------- 175

BIBLIOGRAFIA

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197
ÍNDICE

Introdução ………………………………………………………………… 1

1. A Língua Portuguesa como instrumento para a construção da


História de África : o caso do Senegal ……………………………… 6
1.1. Perspectiva histórica da Senegâmbia ……………………………. 9
1.2. A presença portuguesa …………………………………………… 27
1.3. Os indígenas da Guiné …………………………………………… 49
1.4. O comércio no Cabo Verde ……………………………………… 57

2. O Senegal e os países lusófonos …………………………………….. 63


2.1. A colonização ……………………………………………………. 65
2.2. O tráfico negreiro ………………………………………………… 79
2.3. Os reinos africanos ………………………………………………. 88

3. Inquérito aos estudantes universitários ……………………………. 100


3.1. Público-Alvo ……………………………………………………... 101
3.2. Questões …………………………………………………………. 102
3.3. Análise e comentários das respostas ……………………………... 106
3.3.1. Identificação Pessoal ……………………………………….. 106
3.3.1. a - Nomes de família …………………………………… 107
3.3.1. b - Idade ………………………………………………. 115
3.3.1. c - Local de nascimento ………………………………… 116
3.3.1. d - Etnia ………………………………………………… 117
3.3.1. e - Língua e miscigenação étnica ………………………. 138
3.3.1. f - Contexto social – profissões exercidas na família e
a questão das castas…………………………………. 149
3.3.1. g - Agregados familiares dos alunos……………………. 152
3.3.2. Estudos Portugueses ………………………………………… 155
3.3.2. a - Antecedentes e motivos da escolha do Português …… 155
3.3.2. b - Expectativas quanto ao futuro profissional …………. 159
3.3.2. c.- Pulsão migratória ……………………………………. 162

198
4. A difusão da Língua Portuguesa no Senegal …………………………. 166
4.1. Léopold Sédar Senghor ……………………………………………. 166
4.2. O Ensino Secundário ………………………………………………. 170
4.2.1. Estrutura do sistema ……………………………………… 170
4.2.2. Quadro geral do Português no Ensino Secundário
em 2004 / 2005 …………………………………………… 171

Conclusão ……………………………………………………………………. 177

Mapas ……………………………………………………………………... 186


Quadros …………………………………………………………………… 186
Bibliografia ……………………………………………………………….. 188
Índice ……………………………………………………………………… 198

199