Sie sind auf Seite 1von 15

1

JorgeLuiz Introdução
Ferreira
Professor de História da América da
Universidade Federal Fluminense

INCAS E o estudo do Império Inca e da Confederação Asteca re-


velava a existência de sociedades extremamente complexas e
hierarquizadas, com um sofisticado imaginário social. Tal-
vez seja por isto que estas sociedades já foram rotuladas pra-

ASTECAS
ticamente de tudo no que concerne às suas organizações
sociais e políticas: "sociedades primitivas", "escravistas",
"feudais", "socialistas", "democracias militares" etc.
A importação de conceitual pertinente à trajetória his-

Culturas tórica européia não apenas leva a estes rótulos, que em nada
explicam a dinâmica social destes povos, como ainda con-
duz o historiador a deixar escapar as diferenças. Aliás, o pe-

I ~~çÕlQ~--.-~.~
~~. so de 20 séculos de tradição ocidental nos faz ter repulsa ao
diferente ... Vejamos então algumas questões importantes no
estudo dos povos americanos antes da chegada de Colombo,
com o fito de estarmos preparados para perceber, nas pági-
~UTO VENDA PROIBIDA nas adiante, o que de específico existia na organização social
:to0

l'" S\ 3." edição


da Confederação Asteca e do Império Inca.
O traumatismo da conquista e a colonização que se se-
~:JE3lI:>~
AHO<:IA,Ç.t.O ••••• '11.11•••• O( 01"1101 "'tOG.;"ICOr.
gue ensejam um problema no enfoque de como abordar es-
~~.i"
~ -.-;;; .sf" ~. tas sociedades. De um lado, aqueles que exaltam a obra ,\
~ODIRLrtO'"

EDITORA AFILIADA MUont 41 4 civilizarória do europeu, interpretando o período anterior a ~..i,l


36

Seja como for, a conquista empreendida por Hernán


Cortés e a colonização que se segue desagregam e destroem
tudo o que vimos até aqui. E, neste ponto, não me refiro ape-
nas ao aparelho de Estado e às formas de produção material
3
e reprodução social. Estou falando de gente, de pessoas: às
vésperas da conquista, a população da Meso-América era de
aproximadamente 25 milhões de seres humanos; em 1600, me-
o Império Inca: o império
nos de 100 anos depois, cai para 1 milhão. Se a palavra ge-
nocídio pode ser usada com extrema precisão, este é o caso.
dos quatro quadrantes

A Confederação Cusquenha e a expansão

Em finais do século XIII de nossa era; a pequena tribo


dos Incas chega ao Vale do Cuzco e, por esta época, conta
a lenda que de uma caverna a 30 km ao sul do vale saíram
quatro irmãos: Ayar Cachi, Ayar Uchu, Ayar Auca e Ayar
Manco, também conhecido como Manco Cápac. Sem pais,
terras, em extrema pobreza, teriam migrado pelo vale sem
rumo certo, até que Ayar Cachi, voltando à caverna,
transformar-se-ia em Huaca - entidade divina local -, fi-
cando petrificados seus irmãos Ayar Uchu e Ayar Auca. Man-
co Cápac, o último irmão, lançando no ar seu bastão de ouro,
e simbolizando com isso o fim da vida errante e sem rumo,
tomaria sua irmã como esposa e, reunindo as populações dis-
persas que viviam em plena "barbárie" no vale, teria lhes da-
do acesso a formas "civilizadas" de viver. No mito da
caverna, Manco Cápac é, pois, o fundador do Império Inca
e herói civilizador de toda a humanidade.
O mito da caverna traduz o momento em que os Incas
chegam ao Vale do Cuzco, encontrando e se aliando a três
tribos étnicas diferentes: os Sahuasiray são representados por
JI!
39

Ayar Cachi; os AlIcahuisa por Ayar Uchu; os Maras por Ayar circunvizinha a Cuzco, levando os Incas a terem a hegemo-
Auca;_ e representando os Incas, está Manco Cápac, o irmão nia política na região. A partir daí, a expansão que se segue
que nao apenas sobrevivera, como se tornara o herói civili- impulsiona os Incas de encontro ao reino Chimu, última bar-
zador de todos os homens. .
reira ao expansionismo dos Incas, que são derrotados em
O mito dos quatro irmãos órfãos procura dar uma ori- 1463. A herança cultural, administrativa e tributária, herda-
gem comum aos quatro grupos étnicos que passam a formar da pelos chimus, é de fundamental importância na hegerno-
uma confederação no Vale do Cuzco com a chegada dos In- nia inca.
caso Se num momento inicial, histórico, os Incas têm uma Em 1470, assume Tupac Yupanqui e, na lenda e na his-
posição subalterna perante os outros três grupos, e lhes ado- tória, este Inca passa a ser o fundador do Império. Com ele,
tam a língua quechua, por exemplo, o mito procura dar-lhes as comunidades incorporadas ao Império sofreram um pro-
uma origem comum, que culmina com a sobrevivência e su- cesso de unificação e centralização a partir da capital, foi or-
premacia de Manco Cápac, ou da etnia inca. ganizada uma estrutura agrária também unificada, construída
Historicamente, a destruição do Império de Huari mar- uma rede de transportes e comunicações, criada uma buro-
c.a, nos An~~s Centrais, um longo período de dispersão polí- cracia eficaz e um poderoso exército. Em 1493 assumiu Huay-
uca, com vanos Estados locais independentes após o ano 1000 na Cápac, que continuou a expansão com a incorporação de
de nos~a era (veja Ciro F. S. Cardoso, América pré- novas áreas ao Império. Quando morreu de varíola em 1528,
colombiana). Na última seqüência histórico-cultural, entre os importada pelos conquistadores espanhóis, jogou o império
anos 1000 e 1534 a. D., o único reino que alcançou maior dos quatro quadrantes, o Tawantisuyu, na dúvida e incerteza.
projeção foi o Chimu, que chegou a dominar a costa seten- Em pouco mais de um século, a pequena tribo dos In-
trional do Peru e parte do Equador. Sua capital, Chan-Chan, cas passa de uma pequena confederação no Vale do Cuzco
, . população
com estimada em 80 000 habitantes , uma cifra al- para formar o Império mais vasto de toda América pré-
tíssírna para a época, era extremamente urbanizada e, como colombiana. Sob seu poder, foram incorporados centenas de
centro administrativo e tributário do Império, herdaria mais grupos étnicos, culturais e lingüísticos, com aproximadamente
tarde aos Incas toda esta experiência acumulada. A queda 8 milhões de habitantes. A justificação ideológica para a ex-
do reino Chimu abriu para os Incas o caminho para a unifi- pansão e a conquista era semelhante à do espanhol: levar a
cação política dos Andes Centrais. civilização aos povos que viviam na bárbarie. Para os Incas,
I. Instalados no Vale do Cuzco desde fins do século XIII as inúmeras culturas que viviam nos Andes Centrais pratica-
o início da expansão só iria acontecer quase dois séculos mais vam o incesto, eram antropófagos, viviam em guerra, não
tarde. Em 1438, os chancas tentam invadir e tomar a cidade sabiam plantar o milho e desconheciam as relações de paren-
de Cuzco. A chefia inca, exercida na época por Huira Cocha tesco. Cabia aos Incas a missão de inseri-los no mundo civi-
lnca, propõe a fuga com o abandono da cidade. Discordan- lizado e· ensiná-Ios a viverem em paz. Ao contrário dos
do dele, seu filho, Pachacutec lnca, assumiu a liderança da Astecas, os Incas não tinham uma mentalidade belicosa, e
resistência, cujo sucesso levou não apenas à derrota dos chan- a paz era o bem supremo da humanidade e uma dádiva dos
cas, mas à sua subordinação política aos Incas. A vitória so- deuses. Enquanto discurso dominante, os Incas guerreavam
bre os chancas desequilibrou o frágil jogo de forças na área buscando a paz e exerciam a dominação como missão civili-
.tI
40

zatória. Apesar do discurso, os povos conquistados eram sub- O trabalho no ayllu baseava-se na ajuda mútua entre as
metidos à dominação e tributação, e, segundo Favre, os che- famílias na semeadura, colheita, construção de casas etc. e so-
fes das comunidades derrotadas eram levados a Cuzco, sendo mente com o matrimônio o indivíduo adquiria autonomia e pas-
sava a ser um membro efetivo do ayllu. É difícil, inclusive, falar
pisoteados pelo Inca até a morte; seu crânio era usado para
em indivíduo no ayllu, pois este só existia em relação à comu-
beber chicha (bebida fermentada de milho), os ossos viravam
nidade, sendo completamente estranha a idéia de um indivíduo
flautas, os dentes serviam de colares e a pele usada para
isolado, fora de sua população local e de suas relações sociais.
tambores.
No período pré-nupcial, os noivos moravam juntos na casa dos
A expansão inca pode ser vista ao mesmo tempo como
pais da noiva, sob estrita vigilância, para comprovar a sua real
causa e conseqüência de si mesma. A tendência à expansão
compatibilidade. A monogamia fundamentava as relações so-
nasce do próprio êxito da expansão que se inicia com a vitó-
ciais no ayllu, e a separação ocorria somente por grave motivo.
ria sobre os chancas. O desequilíbrio de forças nos Andes A chefia do ayllu era exercida pelo Kuraka, que assu-
Centrais, com a vitória inca, gera a hostilidade dos povos vi- mia esta função por ser, a nível ideológico, o descendente di-
zinhos e o receio de serem atacados leva os Incas a novas con- reto dos fundadores do ayllu e do Huaca, entidade divina
quistas. É neste processo que surge um projeto de unificação local, protetora e tutelar do ayllu. Esta descendência legiti-
geral de toda a região andina central.
mava a posição de chefia do Kuraka. .
Cabia ao Kuraka organizar a produção, velando pela sua
segurança material, distribuir os lotes de terras às famílias
. As relações socioeconômicas no ayllu e arbitrar os conflitos que surgissem no ayllu. Além disso,
cabia também a ele assegurar o sustento aos órfãos, viúvas
A unidade de produção agrícola e reprodução social nos e desvalidos e, por assumir este encargo, recebia a prestação
Andes Centrais era o ayllu, formado por famílias ligadas por de trabalho dos membros da comunidade. Periodicamente,
laços de parentesco que, sem serem organizadas em clãs ou um certo número de homens trabalhavam em suas terras e
linhagens, apresentavam tendência à endogamia com descen- nas do Huaca, cuja produção era acumulada pelo chefe que
dência paralela, ou seja, linha masculina para os homens e a redistribuía em épocas de má colheita ou catástrofes climá-
feminina para as mulheres. ticas, além de garantir o sustento dos inativos. Esta presta-
A posse da terra no ayllu era comunal e se dividia em ter- ção de serviços ao Kuraka, a mita, levou este chefe a acumular
ras cultiváveis e de pastos de uso coletivo. Nesta última, as crian- certos bens, como alimentos, coca, vestuário etc., concentran-
ças e os jovens solteiros criavam animais, lhamas e alpacas, do riquezas e reforçando sua autoridade no ayllu, ainda que
enquanto os campos cultiváveis eram divididos em lotes - tu- não ficasse claramente diferenciada sua posição social em re-
pus -, cuja extensão era a terra necessária para a alimentação lação aos outros membros da comunidade.
de uma pessoa. Cada família recebia lotes de acordo com o nú-
mero de seus membros, e sua distribuição era rotativa e anual
. .
impedindo assim que determinadas famílias obtivessem privi-
' o Império como ampliação do ayllu
légios com o usufruto por longo tempo das melhores parcelas
de terras. Nestas faixas, cada família tinha sua casa, animais o ayllu, enquanto unidade econômica e social de toda
e plantações, garantindo assim sua subsistência. a região andina central, passou a constituir a base de dorni-
42

Kuraka e do Huaca, cujo produto final, a princípio, era da


nação política e exploração social com a dominação inca. Na
própria comunidade, passa a ser desviada para as terras apro-
verdade, encontramos nesta época uma hierarquização entre
priadas pelo Estado. Com a conquista, a mira não é pres:a-
os ayllus, com os maiores e mais poderosos subordinando os
da somente nas terras do Kuraka e do Huaca, mas tambem
menores, e o Império Inca passou a formar uma espécie de
nas terras do Inca e do Sol. Desta maneira, as antigas for-
c.onfederação de confederações de ayllus. Cabe então inves- mas de reciprocidade e redistribuição, e as formas ideológi-
tigar de que recursos se serviu a dominação inca nos Andes
cas que lhe correspondiam, passam a ser reorientadas para
Centrais, a partir da extração de um sobretrabalho das co- a extração de um excedente pelos Incas. Isto pode ser ates:a-
~uni?a.des organizadas em forma de ay/lus, e a justificação do pela correlação entre Kuraka-Huaca e I~c~-~ol, ou seja,
ideológica nesta dominação.
a mita, enquanto trabalho devido ao chefe e a dIVmdade, con-
Como vimos, o ayllu se organizava como propriedade
tinua, agora, inserida em outra dimensão. .
c~munal com o usufruto dos lotes pelas famílias, cujas rela- A dominação inca mantém as antigas relações comum-
çoes ~a~eavam-se na ajuda mútua. O Kuraka era o primeiro tárias buscando apoio e criando novas formas em cima de-
b~nefIcIado no excedente econômico produzido pela comu-
Ias. Q'uando da época da prestação de trabalho nas t~rras' do
mdade,com o trabalho periódico em suas terras e nas do Hua- Inca e do Sol, o Estado distribuía roupas de festa, alimentos
c~ ~ a mita. Com a dominação inca, o ayllu passou por uma e bebidas como antes fazia o Kuraka e, embora mantendo
se~Ie de transformações que são estudadas por M. Godelier, o culto aos deuses locais, incorpora o culto. ao Sol e a seu
cujas teses centrais passaremos a expor. filho, o Inca, ao qual os aldeãos devem oferecer trabalho.
Com a conquista militar, o Estado se apropria da terra Sem mudar a forma e a estrutura das antigas relações de pro-
e recursos naturais do ayltu. O Inca se proclama soberano dução no seio do ayllu, os Incas faziam agora reproduzir uma
da comunidade e divide as terras do ayllu da seguinte manei-
nova forma de exploração nos Andes Centrais.
ra: uma primeira parte são as terras do Estado ou do Inca; Para o êxito da dominação política sobre as diversas co-
um~ segunda, as terras do culto ou do Sol; e a terceira, a munidades, a chefia do Kuraka não apenas teria de ser con-
~aI~: ~arte, é de toda a comunidade conquistada, que é "ce- servada, como também ele deveria ser cooptado. Em troca
dida a população local, numa demonstração da "benevo- de sua cooperação, o Estado permitia-lhe conservar sua che-
lência': eA"g~nerosidade" do Inca conquistador, permitindo fia como organizador da produção agrícola e manter suas ter-
a subsistência da comunidade. ras com a prestação do trabalho comunitário. Preservada a
.. Com a conquista inca há uma subversão nas relações so- figura do Kurako, mantinha-se aos olhos da comunidade o
CIaISdentro do ayllu, quando a propriedade da terra deixa seu papel de representante da aldeia, ao mesmo te~po em
de ser comunal para adquirir o caráter de simples posse e uso que se lhe convertia em elo de ligaçã? en:re .os aldeaos e o
pela po~~lação local. A rigor, a apropriação das parcelas pe- Estado inca. Cooperando com a dommaçao mca, o Kuraka
las famílias, a produção agrícola e as relações de produção mantinha seus privilégios econômicos e de mando no ayllu.
baseadas na ajuda mútua continuam como antes, mas novas Com a dominação inca, o trabalho excedente despendi-
formas de apropriação do excedente agrícola são instituídas do pela comunidade não podia aparecer como "trabalho for-
fundamentando a exploração e subordinação estatal. A mi~ çado", mas sim como "trabalho devido". A mita, enquanto
ta, prestação de trabalho pessoal temporária nas terras do
44

trabalho devido, a nível ideológico, atravessava as relações


de redistribuição e reciprocidade, salientadas por J. Murra tributo. Isto implicava que o casamento representava não ape-
e da qual já falamos no caso asteca. nas a inserção do indivíduo como membro no ~~llu, como
O conceito de reciprocidade supõe relações entre indiví- também na rede de tributação estatal. Ao contrano do caso
duos ou grupos simétricos, e implica que os deveres de uns cor- asteca, o tributo com os Incas era em forma ~e trabalho pes-
respondem a deveres de outros, seja nas relações entre aldeãos, soal, e não em espécie. Estavam isentos .do tnbuto os setores
aldeãos-Kuraka ou comunidade-Estado. O conceito de redis- dominantes ligados ao Estado - guerreiros, burocratas e ~a-
tribuição, por sua vez, implica que um grupo seja coordenado cerdotes -, as crianças, velhos e inválidos. Os Kurakas, ~m-
por outro, legitimando esta subordinação a partir da distribui- tomaticamente, além de estarem dispensados, .recebiam
ção de bens ao grupo coordenado. Desta forma, a reciprocida- tributo na-forma de trabalho pessoal de sua comumdade: ~o-
. de implica que a relação aldeãos-Kuraka e comunidade-Inca seja mo vimos. Era um dos meios de cooptação posto em pratica
marcada por deveres mútuos: o dever do aldeão é a prestação pelo Império. .
de trabalho nas terras do Kuraka e do Inca e a reciprocidade Havia, entre os Incas, três tipos de t~lbutos que as co-
implica que este "trabalho devido" gere um excedente acumu- munidades deviam ao Estado. Um primeiro er~ o trabalho
lado, que possa ser a garantia em períodos desfavoráveis à pro- coletivo nas terras do Inca e do Sol. Com ~ste tributo, o Im-
dução agrícola, que será então redistribuído. pério Inca acumulava considerável quantidade de produ:~s
A redistribuição e a reciprocidade justificam, ideologi- agrícolas para sustentar sua vasta burocr~cla e,pessoal mIl~-
camente, o "trabalho devido" pelos aldeãos em benefício do tar, além de servir de "estoque regulador em epocas de cri-
Kuraka - em suas terras e nas do Huaca -, e do Estado se agrícola. .
inca - terras do Inca e do Sol. O sucesso da dominação in- O segundo tipo de tributo era o serviço pessoal te~po-
ca, como no caso asteca, explica-se não apenas pela força mi- ,.
rano, a mita , em que um certo número de homens saia de
litar, mas predominantemente pelo aparato consensual e suas comunidades e ficava à disposição ,do Esta,d? na c~ns-
persuasivo, que justifica a existência do Estado e legitima a trução e conservação de obras públicas. ~ necessan?, P?rem,
acumulação de um excedente econômico produzido pelas inú- relacionar a mitacom os períodos antenor e postenor a con-
meras comunidades existentes nos Andes Centrais. quista inca. . ..
Antes da conquista, a mita possibilitava ao Kur~ka ter
à sua disposição um contingente de homens pa.ra CUIdar de
A tributação seus rebanhos, atividades de tecelagem e da agnc~ltura, por
um período de três meses a um ano. O trabalh~ nao er~ ngo-
A economia no Império Inca não conheceu a moeda. roso e o Kuraka tinha que demonstrar generoslda~~, alirnen-
As relações comerciais baseavam-se na simples troca, e o tri- tando e dando habitação ao mitayo. Nas fest~s religiosas, por
buto devido ao Inca assegurava a circulação de bens por to- exemplo o Kuraka garantia o milho, a cerveja e a coca. Com
do o Império. a conquista inca, o Estado assumiu os encargos ~ue antes
Toda a população entre 25 e 50 anos era tributada, e eram dos Kurakas e o serviço pessoal tanto podena se: n~s
se o aldeão casasse com menos de 25 anos também pagaria obras públicas como na produção agrícola dentro do propno
ayllu, dependendo das necessidades do Estado.
47

Por fim, o tributo têxtil que tinha, ao mesmo tempo, dupla função: vinculava a comunidade a um conjunto mais
uma função econômica e um ritual religioso, com cada fa- vasto e exilava-a em seu marco local, consolidando as estru-
mília entregando ao Inca uma parte do produto fiado e teci- turas tradicionais.
do. A atividade têxtil era de grande importância para o Nos últimos anos do Império, desenvolveu-se com gran-
Império, e esta necessidade ensejava o surgimento das Ac- de rapidez o segmento dos yanas, espécie de serviço pessoal
elas, mulheres escolhidas e recolhidas ao Templo do Sol, que hereditário, mas que em nada se assemelhava à escravidão
assumiam a posição de esposas subsidiárias do Inca. O tem- clássica ou moderna. Dentre suas atividades principais, os ya-
plo funcionava como verdadeira oficina têxtil, chegando a nas se incumbiam dos serviços no palácio do Inca, do culti-
ter 2 000 Acelas nas vésperas da conquista espanhola. vo de suas terras e chegavam a exercer cargos administrativos.
O tributo devido ao Inca era legitimado a partir de cer- Quando a serviço de um Kuraka, exerciam atividades na agri-
. tas construções ideológicas que mediavam as relações entre cultura, pecuária e serviços caseiros. Como o escravo asteca,
Estado e comunidades. Numa primeira, pela redistribuição, um yana era alimentado, vestido, poderia ter casa, rebanhos
o tributo aparecia para as comunidades como um estoque que e outros bens, mas somente um de seus filhos herdava o es-
seria distribuído em épocas de catástrofes climáticas ou ca- tatuto do pai. Como os yanas eram absoluta minoria nesta
restias. Ocorria o mesmo com a "benevolência" do Inca que, sociedade, devemos considerá-los enquanto setor secundário
se apossando das terras das comunidades, permitia que estas no processo produtivo global e não superestimar seu apare-
as usassem para seu próprio sustento. Além disso, o tributo cimento, coisa que levou alguns estudiosos do assunto a con-
perdia seu caráter meramente econômico - extração de um siderarem o Império Inca como escravista ou feudal.
excedente econômico - e assumia uma capa religiosa, quando Pelo que vimos até aqui, é possível perceber um parale-
o Incaaparecia como o Filho do Sol, aquele que transmitia lo entre Inca-Sol-Irnpério e Kuraka-Huaca-ayllu. Neste ca-
a proteção e a segurança do universo, garantindo a ordem so, o Império Inca reproduzia um gigantesco ayllu,
social. Sua generosidade assegurava o sustento dos velhos ,
inválidos e enfermos e, em épocas de crise, abria os arma-
zéns para a sobrevivência de todos. Para os aldeãos impunha- A organização político-administrativa
se o sentimento de que participavam daquilo que entregavam
ao Inca como tributo, justificando e legitimando a domina- À medida que a expansão política e a subjugação das
ção estatal. A hegemonia inca tinha predomínio no campo comunidades avançavam, o Estado passou a ter uma série
da persuasão, do consentimento, da confiança, da busca à de necessidades para controle, distribuição e apropriação do
aceitação da submissão. excedente agrícola. Uma vasta máquina administrativa, um
O tributo, porém, conservava seu caráter local. O Inca poderoso exército e as obras públicas, particularmente os ter-
proibia o aldeão de sair de sua comunidade, e a mira era pres- raços para o cultivo e os canais de irrigação, alguns abertos
tada no próprio local em que vivia. Como o tributo era en- em rochas; são explicados pela própria expansão e a necessi-
viado a Cuzco, e daí redistribuído a todo o Império, o dade de aumento e controle da produção de mantimentos.
mecanismo permitia ao mesmo tempo a circulação de mer- As grandes obras públicas que se seguem ao aparecimen-
cadorias e o imobilismo social. O tributo assumia então uma to do Estado não o condicionam, conforme a tese defendida
r;::;.f /
J
48

por Karl Wittefogel para o conjunto das "sociedades hidráu- vidia-se em quatro grupos de 10 000 pessoas, cada um che-
licas", em que procura demonstrar que o aparecimento do fiado por um Kuraka que estava subordinado ao Tukrik~k.
Estado decorreu da necessidade de se organizarem grandes Este grupo novamente se subdividia em grupos de 1 000 ~n-
trabalhos coletivos. De fato, no caso inca, a existência de uma divíduos sob o comando de outros tantos Kurakas, e aSSIm
agricultura andina, com a necessidade de construção de ter- por diante até um pequeno grupo de 50 pessoas. Por este es-
raços, é condição prévia para a formação de uma sociedade quema, fortemente hierarquizado, cada Kuraka estava subor:
de classes e do Estado. A conquista e a apropriação de um dinado a um outro, passando pelo Tukrikuk, pelo Apo, ate
sobretrabalho das comunidades levam à concentração de uma o todo-poderoso lnca, a quem cabia a palavra final.
quantidade considerável de um excedenteeconômico, permi- Sem dúvida, uma das figuras mais importantes nesta ca-
tindo e exigindo o desenvolvimento de grandes obras públi- deia de mando era o Tukrikuk, Representante direto do Inca
cas. Mas não é a necessidade de realizar grandes trabalhos na sociedade e exercendo a justiça em seu nome, ao Tukri-
coletivos que enseja o surgimento de uma sociedade de clas- kuk cabia a responsabilidade pela construção e conservação
ses e do Estado; pelo contrário, é a possibilidade de ampliar das obras públicas e a coleta da produção agrícola proveniente
as condições de produção do excedente agrícola que conduz do tributo devido pelas comunidades. Pela importância de
às grandes obras estatais. Neste caso, a construção de terra- sua função não apenas era nomeado diretamente pelo Inca,
ços é fundamental na possibilidade do aumento da produ- como tinha que pertencer à sua linhagem.
ção agrícola, jáque os vales são estreitos, com as terras planas No auxílio ao Tukrikuk, nas atividades de contabilida-
de pouca largura. de, estava o Kipukamaiyoc, a quem cabia a especializadíssi-
A forte centralização político-administrativa de todo o ma tarefa de manejar os kipus, arcos com dezenas de
Império em Cuzco tornou necessária a constituição de uma cordinhas de cores variadas. Pela combinação das cores e dos
vasta burocracia fortemente hierarquizada. nós dados, fazia a contabilidade para o Tukrikuk do tributo
Segundo Favre, toda a população sob domínio inca era a ser arrecadado, do recenseamento da população, do número
dividida em sete unidades que correspondiam a grupos de 10, de homens exigidos para a mita etc. Pela importância de sua
50, 100, 500, 1 000, 10 000 e 40 000 indivíduos. A cada uni- atividade, o Kipukamaiyoc tinha que pertencer à etnia inca,
dade correspondia a chefia de um Kuraka e, no cume da hie- enquanto os outros funcionários poderiam pertencer a ou-
rarquia, estava o Inca que aparecia, a nível do imaginário tras etnias, desde que aculturados pela inca.
coletivo, como o Kuraka dos Kurakas. Com os Incas, os cargos burocrático-administrativos não
O governo do Inca era auxiliado por quatro Apos, con- eram hereditários, e estes funcionários poderiam ser demiti-
selheiros e ao mesmo tempo responsáveis pelas quatro divi- dos por motivos variados. Seus benefícios eram em forma
sões do Império - norte, sul, leste e oeste. Para cada uma de yanas, esposas subsidiárias e terras em suas comuni~ades
destas divisões - sob a chefia de um Apo -, um grupo de de origem, que não constituíam qualquer tipo de proprieda-
40 000 pessoas correspondia a uma "província", governada de individual. A idéia de propriedade coletiva da terra era
por um Tukrikuk, Desta forma, um Apo tinha sob sua res- algo tão enraizado na mentalidade coletiva, que a formação
ponsabilidade uma série de províncias, chefiando igual nú- de uma aristocracia a partir da apropriação fundiária ainda
mero de Tukrikuks. Cada província, por sua vez, subdi- não tinha encontrado espaço.
51

50
. bé a confirmação do Inca, mas esta
vo «urako recebia tam em f do Inca demonstrar sua
Às vésperas da conquista espanhola, os Kurakas que che- . - a apenas uma orrna , .
conflrmaçao er . t rvir na questão sucessona.
. ão procurava me.
fiavam as unidades de 40 000 a 100 indivíduos já formavam presença, pOls.n , . k da chefia de sua comumdade
uma espécie de burocracia média, sem necessidade de per- O Inca só destltula um Kura a 1 ebelião.
" ma omo por exernp o, r
tencerem à etnia inca. Suas funções incluíam a chefia das guer- por falta gravISSl , ~ _'. o reconhecimento da im- .

N a IOglC~ da dommaçao rnca, .
ras e cobrança do tributo. Eram ainda juízes e organizadores , . ção de outros mecamsmos
~ . d Kuraka levava a cria ~ .
na construção de obras públicas. Os Kurakas encarregados
de unidades de 50 e 10 pessoas eram simples capatazes, ten-
do inclusive que pagar tributo.
A importância e o reconhecimento de um Kuraka era di-
~~SC~~~:~;:~s:~~~j~~
portanCla o. _ . aos privilégios economl-
~~;~:i~:;:avam à cooptaçãodo Ku-
raka eo~ o poder c;nt~k~ seu eventual sucessor, era leva-
retamente proporcional ao número de indivíduos que tinha sob O fllh~ de um ur zc~ e educado na corte do Inca. Ao
sua chefia. Se fosse um governador de província, um Tukri- do ainda cnança para Cu 1 d o futuro Kuraka, ao as-
refém e acu tura o, .
kuk, tinha a seu dispor vastos domínios territoriais, manu- mesmo tempo _ hefia erante sua comumdade, era
seio de grandes parcelas do tributo e comando de frações do sumir suas f,unçoes dei c ultu~al, apesar de pertencer a ou-
exército. No caso de chefe de ayllu, não passava de um sim- um Inca a nível menta e c . ãs dos Kurakas iam mo-
ples "juiz de paz". A hierarquização entre os Kurakas criou tra etnia. Também as fld'lhasou plr:as subsidiárias do Inca,
toda uma teia de controle, um sobre o outro, gerando fortís- ca ital, tornan o-se es ,
rar na ~ . destas esposas-refens.
sima centralização nos escalões superiores, culminando no selando alianças a pa.rtlr _, dominação, o poder inca
Inca.. N~ busca da aceltaç~od~~:;ade local, o Huaca. Sua es-
A importância do Kuraka não pode ser medida apenas não deixava escapar nem e colocada no templo para ser
em sua atividade administrativa, pois seria simplificar exces- tátua era levada para Cuzco . um refém em poder do
d na verdade era mais
sivamente a análise e apontá-Io como um simples funcioná- cultua a, mas l' _ 'dolo era exposto a insultos e
rio subalterno. O Kuraka formava, como vimos, o elo de Inca, e em caso de rebe iao o I
ligação do poder central com a população local submetida degradação pública. . íd do o papel dos Kurakas na
e, ao mesmo tempo que executava as ordens do Inca através Examinando c~m mais CUI a erceber que o poder no
do Tukrikuk, representava o Filho do Sol em sua comunida- rede ,d~ dominaçã~ :nca,. P,~~~:~~t~e eles e o Inca. O poder
de. A legitimidade do Kuraka frente ao ayllu que chefiava, Impeno era na p~.~IC~dl~~ Império e sua justificação ideo-
provinda das antigas tradições, legitimava também o poder I
do lnca, a canso I açao dação do tributo nas cornu-
exercido pelo Inca. O espaço de autonomia do Kuraka em
I
lógica eram medid?s pela arrfeca de trabalho agrícola nas
sua comunidade teria de ser respeitado, ao menos tacitamente,
I . d
nída O
es. ra,
o tnbuto em or ma
di
I
às faixas do Inca e do So ,
n
terras do ayllu , que correspo. lam aumentar a extensão das
pelo Inca neste complicado e delicado jogo de forças na ma-
. . d . t ' não havia como
nifestação do poder. Isto pode ser exemplificado na questão era limita o, is o e, onstrução de terraços e
I · , . a não ser com a c .
da sucessão de um Kuraka. Sendo o cargo de chefia no ayllu terras eu tivaveis. . a vez o segundo ti-
" ansão A mita, por su ,
vitalício e hereditário, com sua morte, a investidura de seu
filho era confirmada a partir de um referendo entre os mem-
\ com a propna ~xp '.
po de tributo, tinha uma maior
elasticidade, pois correspon-

bros do ay/lu. Legitimado pela população local, o no-


53
52

seres, faz do homem o que de fato é: um ser finito, pensan-


d.ia ao número de homens que a comunidade cedia tempora-
te, sexuado etc. Assim, a história sagrada passa a ser a histó-
nam.e~t~ ao Inca para o trabalho nas obras coletivas - ue
ria verdadeira, pois, como nos lembra Mircea Eliade, o mito
possibilitava uma maior produção ag rícola Apart' d q .
ta I ,. . Ir a mt- da morte é verdadeiro à medida que o homem morre.
lida~ ~pen~ encontrav~ uma maior elasticidade na possibi-
Como no caso asteca, o imaginário social inca era com-
e o acumulo do tnbuto agrícola e, conseqüentemente
posto por um conjunto de práticas, crenças e costumes que
no aume~to e consolidação de seu poder. '
não se reduziam a uma fórmula única. Porém, comparando
Kur ~ t~lbuto na.forma da mira, porém, era mediatizado pelo
a ~ ocal, pOIS era ele quem recrutava os homens de sua com o caso asteca, o projeto de dominação inca parecia re-
correr com mais freqüência às construções teológicas, com
:i~udmdade, justifican~o este tributo a partir de sua legiti-
.a e per~n.t~ a comunidade. Assim, se a mira permitia uma a imposição do culto solar a todas as comunidades conquis-
. ~al~r yosslbIlldadeno acúmulo do excedente agrícola pelo tadas nos Andes Centrais, cujo alcance político girava em tor-
m~eno, e se o Kuraka era a peça-chave neste sistema, havia no da formulação de uma cultura hegemônica inca. Era um
entao entre o Inca e os Kurakas um equilíbrio de poder N fato político que se cruzava com uma questão de cunho reli-
ge~al, podemos dizer que os possíveis conflitos entre o; Ku~ gioso, e esta tentativa de impor um projeto cultural homogê-
rba.a: e o In~a flc~vam neutralizados pelos laços de redistri- neo por todo o Império nunca foi pretendida por seus vizinhos
uiçao e reciprocidade. do norte.
Ist~ se.m~nifestava na festa anual de Raymi. Nesta fes- Devido às fontes disponíveis, o estudo da área andi-
ta, os~nnclpals Kurakas iam a Cuzco e, representando suas na central não se encontra no mesmo nível que o da Meso-
comunidades, entregavam o tributo ao Inca ' davam presen-
te América. A riqueza maior das fontes disponíveis para o
I s e prestavam contas de suas administrações. Recebiam do caso asteca possibilita aprofundar questões relativas à orga-
S~cab ~ulheres, vestuário luxuoso e yanas como prese~tes nização econômica, à dinâmica social e ao imaginário co-
rm ~ icamente, a festa de Raymi, mais do que uma formal letivo. No caso inca, as fontes se resumem praticamente aos
cortesia, representava uma troca; a reciprocidade entre o o
de~ central e as.diversas comunidades representadas pelo
ra a, materializada na forma de presentes.
;u: restos arqueológicos e textos em línguas européias escri-
tos por cronistas espanhóis, missionários, conquistadores etc.
No caso asteca, além destes, existem textos em língua indíge-
na escritos com caracteres latinos e os livros de pinturas
(códices).
o imaginário inca Uma renovação no estudo dos Incas foi dada por J. Mur-
ra quando usa como fonte as "visitas" , relatórios de funcio-
A cons:rução de um panteão de deuses, por sociedades nários espanhóis sobre as áreas recém-conquistadas. Seja
n? .mesmo nível de desenvolvimento que a dos Incas nã . como for, do ainda pouco que sabemos sobre o imaginário
nifica u " . .., ' ao SIg-
" .. m p'nmltlVISmO cultural", estágio marcado ela social inca, 'percebemos a riqueza em suas formas de ver, con-
afetividade ou coisa similar. Significa que a irrupçã~ do
tar e mesmo viver o mundo, apesar de muitas perguntas ain-
sobrenatural no.mundo dos homens, pela intervenção dos en-
da estarem sem respostas.
tes sobrenaturais, além de relatara origem das coisas e dos
55
Viracocha e o Sol: os deuses do baixo e do alto.
versidade, uma das penalidades que o Império impunha a urna
Dos vários deuses do panteão inca, Viracocha e o Sol comunidade rebelada era sua mudança para a outra zona.
estavam em posição de destaque por representarem o pró- A desestruturação material e cultural que essa população so-
prio universo de ação do Império. Num prisma geográfico fria era completa. Por outro lado, essas transmigrações for-
e ecológico (veja Ciro F. S. Cardoso, América pré- çadas (mitmaq) eram, segundo J. Murra, o meio essencial de
colombiana), os Andes Centrais caracterizam-se por tf'ês áreas colonização agrícola implementada pelos Incas. Pela mitmaq
distintas: o litoral do Pacífico, numa faixa de 3 200 km de levou-se o milho da costa para a serra e a batata da serra pa-
comprimento na direção norte-sul, por 1,5 a 40 km de largu- ra a costa. Assim também os Incas começaram a adentrar pela
ra; as cordilheiras temperadas e frias; e a região amazônica, Amazônia peruana.
parcialmente integrada ao Império. As duas primeiras, por A relação Sol- Viracocha com os Incas lembra a relação
serem o eixo central das culturas existentes desde 1500 a. C. Tlaloc-Uitrilopochtli com os Astecas, mas esta semelhança
e .integradas efetivamente ao Império Inca, refletem o plano também denuncia uma diferença. Ao contrário dos Astecas,
de ação destas .duas entidades. que colocavam as duas entidades em igual posição no culto
Viracocha era o deus criador e civilizador do universo. e adoração sem procurarem unificar o vasto mosaico étnico
Terminada sua obra de gênese material e humana, partiu an- a partir de um projeto religioso homogêneo, os Incas elabo-
dando pelo mar em direção ao oeste - mais tarde Francisco raram um projeto unificador para os Andes Centrais com a
Pizarro seria confundido com Viracocha que prometera vol- imposição do culto solar.
tar. O Sol, personagem sagrado, deus principal e fonte da
vida, teve seu culto difundido e imposto a todas as comuni-
dades conquistadas nos Andes Centrais por razões de ordem A representação do tempo histórico
política.
Como lembra N. Wachtel, Viracocha e Sol são deuses A representação do tempo histórico para os Incas em
complementares: o Sol refere-se ao céu, ao fogo, à serra e muito se assemelhava com a dos Astecas. O tempo histórico
ao alto; enquanto Viracocha aponta para a terra, a água, a também era pensado como um tempo cíclico, não-linear, com
costa, o baixo. No arcabouço mental do período, Viracocha várias humanidades que surgiram e desapareceram junto com
e Sol refletiam as duas culturas e os dois modos diferentes seu próprio tempo.
de vida, marcados pelas variáveis geográficas e ecológicas: O tempo atual dos Incas era entendido como a Quinta
a costa do Pacífico e as cordilheiras andinas. Idade, precedida por outras quatro. A Primeira Idade era cha-
A correlação Sol-serra e Viracocha-costa não deve su- mada de "Homens de Viracocha", e seu fim viria com as
por um mero e reducionista determinismo geográfico. As di- guerras, pestes e, sintomaticamente, com a rebelião dos ob-
ferenças entre as duas zonas são tão delineadas que as culturas jetos contra seus senhores. A Segunda Idade seria a dos "Ho-
formadas nestas regiões agiam sobre este espaço geográfico mens Sagrados", e seu fim foi o de arderem com o Sol. A
e dele sofriam influência, além da não-integração destas duas Terceira Idade, a dos "Homens Selvagens", chegaria ao fi-
zonas durante séculos. Para se ter uma idéia de tamanha di- nal com um dilúvio universal. A Quarta Idade, ou a dos
"Homens Guerreiros", terminaria, paradoxalmente, com a
\ 57
56

decadência completa. Com a Quinta Idade, a "Idade dos In-


I
t
era fundamental, sua legitimação com a vitória circulava na
esfera do sobrenatural, com a investi dura pelo Grande Sa-
cas" , seria o tempo cíclico da etnia que veio regenerar os ho- cerdote que o fazia "Filho do Sol", mediador privilegiado
mens e o corolário e cumprimento das quatro idades entre este mundo e o além. O Inca era o vínculo entre a or-
preceden tes. dem natural e social, entre o mundo dos homens e o divino
e, após a investidura, sua figura ficava acima do próprio
Grande Sacerdote. O penúltimo Inca, Huayna Cápac - ado-
o Inca rado como um deus -, levou 4 000 seguidores, que se imo-
laram voluntariamente, para o acompanharem ao túmu~o.
A necessidade de recorrer às explicações, com base no Em termos de comparação, a imagem que o mundo l Il>
aparato religioso, se fazia presente de forma mais delineada ca tinha de seu monarca diferia fundamentalmente do caso
na legitimação do poder do Inca, levando sua figura a assu- asteca. Neste último, as divindades estavam acima do Tla-
mir posição sem igual no imaginário do período. toani e apenas legitimavam seu poder. Eleito por um grupo
Um novo Inca apresentava-se pobre e órfão e, assumin- de representantes das classes dominantes, seu papel e.ra o de
do o poder, renunciava ao parentesco, à herança e se casava chefia da Confederação e comando das tropas guerreiras. Se
com a irmã, da mesma maneira que Manco Cápac apareceu o mundo asteca pode ser considerado como despótico-
no mundo, reatualizando e tornando presente o mito da ca- teocrático num certo momento a figura do Tlatoani começa
verna. O fato de casar-se com a irmã não apenas rememora- a se reificar, desvencilhando a imagem do chefe da socieda-
va a história do ancestral mítico e o ritualizava, como também de da idéia do guia espiritual.
fechava a entrada de estranhos na dinastia do poder. Mas esta No caso inca, o processo era outro quando não existia
prática consolidou-se somente após a estabilidade da hege- dissociação entre a divindade e o chefe político. O Inca era
moniainca, pois, até então, a necessidade de fortalecer alian- o Filho do Sol, fonte primordial nas relações entre o mundo
ças políticas, levava o Inca a se casar com a filha do Kuraka material e o espiritual, a ligação entre a natureza e a cultura
do ayllu mais próximo. e o ponto de encontro entre os deuses e os homens. Numa.
Um Inca não tinha antecessor nem sucessor e a sucessão palavra, o Inca era o centro carnal do. universo. _ .
legitimava-se a partir da força, ou seja, os irmãos herdeiros pre- A importância do Inca como catalisador da coesao so-
tendentes ao trono, representantes das diversas facções políti- cial nos Andes Centrais pode ser percebida quando do assas-
cas, lutavam até um único vencedor. O período da sucessão era sinato do último Inca, Atahualpa, por Francisco Pizarro.
marcado pela violência e, com o exército dividido, o Império Sobre o assunto, M. León-Portilla cita um cântico quéchua,
mergulhava no caos político com o centro do poder acéfalo, de autor anônimo, que tem por título "Apu Inca Ata-
sem a figura do Inca unificador e centralizado r - era a opor- hualpaman" :
tunidade para várias comunidades tornarem-se independentes.
Com a vitória de um dos pretendentes, a ordem voltava a se Que arco-lris é este negro arco-íris
que se levanta?
impor, como. se o Império renascesse a cada Inca. Para o inimigo de Cuzco horrível flecha
Se a ascensão de um novo Inca era marcada por uma que amanhece.
verdadeira guerra civil, e o controle das tropas do exército
58 59

Por toda parte granizada sinistra o rio brame com o poder de sua dor,
golpeia. seu caudal levantando.
Meu coração pressentia
a cada instante
até em meus sonhos, assaltando-me, As lágrimas em torrentes, juntas,
em sonho profundo, se recolhem.
a mosca azul anunciadora da morte; Que homem não cairá em pranto
dor interminável. por quem amou?
Que filho não há de existir
O sol torna-se amarelo, anoitece,
para seu pai?
misteriosamente;
amortalha Atahualpa, seu cadáver
.e seu nome;
a morte do Inca reduz Gemente, dolente, coração ferido
o tempo que dura uma piscada. sem glórias.
Que pomba amante não dá seu ser
Sua amada cabeça já a envolve
ao amado?
o horrendo inimigo;
Que delirante e inquieto cervo selvagem
e um rio de sangue caminha, se estende,
a seu destino não obedece?
em duas correntes.
Seus dentes rangedores já estão mordendo
a bárbara tristeza; Lágrimas de sangue arrancadas, arrancadas
tornaram-se de chumbo seus olhos de sua alegria;
que eram como o sol, olhos de Inca. espelho vertente de suas lágrimas,
Já ficou gelado o grande coração retratai seu cadáver!
de Atahualpa. Banhai todos, em sua grande ternura,
O pranto dos homens das Quatro Regiões vosso regaço.
afogando-o.
As nuvens do céu já estão
ficando negras; Com suas múltiplas, poderosas mãos,
a mãe Lua, angustiada, com o rosto enfermo, os acariciados;
torna-se pequena. com as asas de seu coração,
E tudo e todos se escondem, desaparecem, os protegidos;
padecendo. com a delicada tela de seu peito,
A terra se nega a sepultar os abrigados;
seu Senhor, clamam agora
como que envergonhada do cadáver com a doi ente voz das viúvas tristes.
de quem a amou,
como se temesse devorar seu guia.
E os precipícios de rochas tremem por seu amo, As nobres escolhidas se inclinaram, juntas,
canções fúnebres entoando, todas de luto,
60 61

o Huillaj Umu se vestiu de seu manto


para o sacrifício.
o límpido e resplandecente trono de ouro,
e teu berço;
Todos os homens desfilaram
os vasos de ouro, tudo,
para suas tumbas.
foi repartido.
Mortalmente sofre sua tristeza delirante
Sob estranho império, acumulados os martírios,
a Mãe Rainha;
e destruídos;
os rios de suas lágrimas saltam
perplexos, extraviados, negada a memória,
sobre o amarelado cadáver.
sozinhos;
Seu rosto está duro, imóvel,
morta a sombra que protege,
e sua boca (diz):
choramos;
"Aonde foste, perdendo-te
sem ter a quem ou aonde nos voltar,
de meus olhos,
estamos delirando.
abandonando este mundo
em minha aflição; Suportará teu coração,
eternamente desgarrando-te Inca,
de meu coração?" nossa errante vida
Enriquecido com o ouro do resgate dispersada,
o espanhol. pelo perigo sem conta
SeU horrível coração pelo poder devorado; cercada, em mãos alheias,
empurrando-se uns aos outros, pisoteada?
com ânsias cada vez mais escuras, Teus olhos, que como flechas de felicidade feriam,
fera enfurecida. abre-os;
Deste-lhas o quanto pediram, os cumulaste; tuas magnânimas mãos
não obstante, te assassinaram. estende-as;
Seus desejos até onde clamaram os fartaste e com essa visão fortalecidos,
tu somente; despede-nos.
e morrendo em Cajamarca
te extinguiste. Adorado como um deus, a desolação, a angústia e a dor
não se referem apenas à perda de um ente querido. Revelam.
II Acabou-se já em tuas veias
o sangue: o alcance místico e milenar do desaparecimento do Filho do
apagou-se em teus olhos Sol. Para as populações dos Andes Centrais, a morte do In-
°1
a luz; ca e a dominação espanhola são processos organicamente li-
no fundo da mais brilhante estrela caiu
teu olhar.
gados, pois com sua ausência desaparece a proteção social
e divina. Privados de seu guia, são condenados a uma vida
Geme, sofre, caminha, voa enlouqueci da
errante, dispersa, pisoteados por estrangeiros, literalmente ór-
tua alma, pomba amada;
delirante, delirante, chora, padece fãos e oprimidos.
teu coração amado. O Filho do Sol, aquele que assegurava a mediação entre
Com o martrrio da separação infinita homens e deuses, garantia de harmonia e ponto carnal do uni-
o coração se rompe. verso, desaparece, e com ele, a referência do mundo. A
/

62

ordem universal foi brutalmente destruída, surgindo o vazio


e o caos. Para o nosso autor desconhecido, só resta, então,
a angústia e a dor. 4
Conclusão

Assim posso afirmar que Deus nunca criou raça mais cheia
de vícios e de bestialidades, sem mistura alguma de bondade
e de cultura. (...) Os índios são mais idiotas do que os asnos,
e não querem fazer esforço no que quer que seja.

Esta foi a conclusão que o dominicano Tomas Ortiz fez


ao Conselho das Índias, ao descrever as sociedades que encon-
trou em sua viagem à América, então recém-conquistada pelos
europeus. O primeiro Vice-Rei de Nova-Espanha (México) acre-
ditava que o trabalho nas minas era o melhor remédio para a
maldade natural do indígena, enquanto Sepúlveda afirmava que
os índios mereciam a opressão porque seus pecados e idolatrias
eram ofensas a Deus. Eduardo Galeano lembra que Bacon,
. Montesquieu, Hume e Bodin negavam-se a reconhecer como
semelhantes os "homens degradados". Hegel falava da impo-
tência física e espiritual da América, e Voltaire acreditava que
os índios eram preguiçosos e estúpidos.
O verdadeiro massacre coletivo, que seguiu à conquista es-
panhola, não deve ser delimitado apenas no período inicial da
expansão comercial e marítima européia nos tempos modernos,
e sim remetido a um processo mais amplo que vem até nossos
dias. Em 1957, a Corte Suprema de Justiça do Paraguai emitiu