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Texto literário e texto não-literário

É impossível tentar explicar esse assunto de forma autoritária sem


levar e consideração os questionamentos capazes de por em dúvida
alguns conceitos a respeito do tema proposto. De acordo com alguns
estudos e segundo alguns livros didáticos apresentaremos os critérios
mais adotados atualmente para caracterizar o texto literário.

Antes de qualquer coisa, precisamos saber que o próprio conceito de


LITERATURA sofreu mudanças ao longo do tempo. Isso aconteceu
devido a diversos pontos de vista, diversas formas de analisá-la, ou
seja, os vários olhares sobre ela, influenciados por cada momento
histórico que, em literatura se costuma associar aos “Estilos de
Época”.

O termo literatura, além da simples designação da bibliografia ou


texto escrito, denomina também um certo tipo de obras que teriam
algo em comum com as plenamente aceitas como literárias, de
caráter estritamente estético e ficcional. Por outro lado, a indústria
cultural publica uma enorme quantidade de obras onde o “ficcional”
predomina e que, no entanto, não são consideradas literárias.

Autores há que preferem estabelecer como critério esse caráter


ficcional e não-ficcional dos textos. Os autores que assim pensam não
negam que o texto literário interprete aspectos da realidade afetiva,
mas que o faz de maneira indireta, recriando o real num plano
imaginário. Assim, Graciliano Ramos inventou um certo Fabiano e
uma certa Sinhá Vitória para revelar uma verdade sobre tantos
fabianos e tantas sinhás vitórias.

Esse critério, apesar de por em evidência aspectos importantes da


obra literária, esbarra num problema muito sério: a dificuldade em
discernir o real do fictício em certas situações concretas.

Sou religioso, Eu não sou


logo, tudo que religioso,
está na Bíblia sou cético,
acredito ser ateu.
real. Portanto,
tudo na
bíblia pra
mim é
ficção.

Modernamente, diz-se que a diferença está no fato de que o texto


literário tem uma FUNÇÃO ESTÉTICA e de que o texto não-literário
tem uma FUNÇÃO UTILITÁRIA (informar, convencer, explicar,
documentar, etc.). Trata-se de um estudo do pensador russo Roman
Jakobson:

Roman Osipovich Jakobson (em russo: Роман Осипович Якобсон)


(11 de outubro de 1896 - 18 de julho de 1982)

Vamos mostrar abaixo o diagrama das funções da linguagem juntas a


cada elemento da comunicação para que possamos entender melhor:

Nota-se entre parênteses as seis funções da linguagem e


suas relações com cada elemento da comunicação. Pois
bem, a FUNÇÃO ESTÉTICA seria a (função poética)
centrada na mensagem, enquanto a FUNÇÃO UTILITÁRIA
seria as funções (função referencial e função conativa)
centrada no destinatário, ou melhor, no leitor (já que busca
convencer. Convencer quem?) e no referente, quer dizer,
no contexto, na informação, uma vez que busca explicar,
informar, conceituar.
Observação Lembre-se: o termo “POÉTICA” usado
importante: por Jakobson para a função inclui
também os outros gêneros literários,
tais como o romance, as crônica, os
contos, as fábulas. Porém exclui,
jornais, revistas, por serem estes
pertencentes a função utilitária.

O problema é que num texto tanto literário quanto não-literário pode


haver combinações de todas estas funções da linguagem. Isso que
dizer que num poema, num romance ou numa notícia de jornal
podem aparecer todas as funções, mas o que vai caracterizar o texto
como sendo ou não literário será a predominância desta ou daquela
função.

É mais fácil explicar FUNÇÃO ESTÉTICA de FUNÇÃO UTILITÁRIA, por


meio de notícias tiradas de jornais ou revista e de poemas. Mas como
explicar, por exemplo, a função poética num romance, num conto ou
em uma crônica?

A Função Poética ou Função Estética possui elementos


capazes de fazer um texto deixar de ser informativo,
explicativo, e passar a ser ARTÍSTICO. Tal função se concentra
na mensagem de tal forma que quem lê um texto nessas
circunstâncias, mesmo sem entender o que está escrito,
apreende-lhe o essencial, podendo sentir-se transportado
para o desconhecido, porém Belo.

A esses elementos (podemos citar aqui, as figuras de


linguagens, os recursos rítmicos, sonoros, métricos; as
estruturas da narrativa, etc) capazes de estabelecer a
existência de uma função poética da linguagem, Jakobson
denominou-os de LITERARIEDADE.

Portanto, podemos dizer que o que distingue um texto literário de um


não-literário é a predominância ou não da Literariedade.

Percebemos de imediato a literariedade em um texto quando este


constitui uma linguagem de conotação, melhor dizendo, quando as
palavras em um texto literário são conotativas e cria significados
novos. Porém num texto cuja função é utilitária, as palavras
possuem, geralmente, sentido conotativo e não criam significados
novos.

DENOTAÇÃO – é a
significação objetiva
da palavra. Pode-se
dizer que é a palavra
em “estado de
dicionário”.
Exemplo: mar= massa de
águas salgadas do globo
terrestre, oceano

CONOTAÇÃO – é a
significação subjetiva da
palavra. Ocorre quando a
palavra evoca outras
realidades por associações
que ela provoca: Exemplo:
mar= imensidade, infinito,
mistério, liberdade.

Por último, podemos falar do caráter intocável do texto literário.


Quando se faz um resumo de um noticiário, de um texto informativo,
ganha-se o essencial, o mais importante. Já se se resume um texto
literário, perde-se o mais importante dele. Não se pode tirar ou
acrescentar nada num poema pronto. É diferente dizer que

E dizer os “Eu possa me dizer do


seguintes amor (que tive)
O amor não pode versos... Que não seja imortal,
durar a vida inteira, posto que é chama,
mas, enquanto durar Mas que seja infinito
deve ser muito enquanto dure”
intenso

(Vinícius de Moraes)
Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913 — Rio de
Janeiro, 9 de julho de 1980

Soneto de fidelidade
Vinicius de Moraes
Composição: Vinicius de Moraes / Capiba
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
Referências Bibliográficas:

Para Entender o Texto - Leitura e Redação. Autor: Savioli, Francisco


Platão. Editora: Ática. Categoria: Linguística / Redação .

Manual da teoria literária. Autor. Rogel Samuel. Editora / data.


Vozes/1986

Literatura: textos & técnicas João Domingues Maia

AGUIAR E SILVA, Vitor Manuel - Teoria da literatura. Coimbra

http://letras.terra.com.br/vinicius-de-moraes/86563/