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Distribuição

Livre

QUERO
VOAR!
®

A história (real)
de um sonho,
um segredo
e uma asa azul

por Ricardo Silva

Disponível em: “20 e tal capítulos


de puro suspense e adrenalina!”
www.QueroVoar.pt (ou talvez não…)
ÍNDICE

Aviso à Navegação! 2

01 | Cair 3
02 | Pãezinhos Quentes 4
03 | Semente 6
04 | Até à Última 8
05 | Areia nos Pés 9
06 | O Diabo dos Detalhes 11
07 | Rentrée 12
08 | Âmago 13
09 | Coaching 14
10 | Pequenos Segredos 15
11 | Flashback 17
12 | Canícula 18
13 | Hangar 4 19
14 | Anjo da Guarda (de Uma Asa Só) 21
15 | A Aula Mais Importante (ou Talvez Não :-) 22 Sumário Executivo 37
16 | Plano B 24 Dedicatória 38
17 | Now Boarding 25 Créditos 39
18 | O Longo Caminho... Para a Porta 27 Sobre o Anjo da Guarda 40
19 | Jogo Táctico 28 Sobre o Autor 41
20 | Velocidade Terminal 29 Off-Topic: Secção de Classificados 43
21 | Até Onde a Vista Alcança 30 Gostou? Então Ofereça! 44
22 | Infernal Máquina Voadora 32 Aos Bloggers, Webmasters, Editores,
23 | Fallen Angels 33 Jornalistas, e outros Amigos 45
24 | O Freguês Que Se Segue 35 Licenciamento 46
25 | O Fim (do Princípio) 36 Disclaimer 47

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Aviso à Navegação!
O que está prestes a ler não é uma descrição exaustiva da vida do Autor (uuui, isso dava pano p’ra mangas!).

“Quero Voar!” ® é simplesmente o relato de um curto episódio de alucinação positiva, no meio de uma existência
tranquila, e deve ser consumido com moderação.
Sugestão de apresentação: ao som de I'm Like a Bird de Nelly Furtado.
(Mas não é preciso exagerar no volume. :-)
O Autor não se responsabiliza por momentos de risota, troça ou embevecimento.
Os sorrisos já vêm incluídos na embalagem.
Todas as pessoas, factos, datas e locais referidos são reais, e não produto da minha fértil imaginação
(e como ela é fértil :-)
Já sabe como é: the truth, the whole truth, and nothing but the truth.
Vai também reparar que o texto está polvilhado q.b. de expressões parvas em inglês, não sendo uma
pérola de pureza linguística. Não ligue muito. Mea culpa.
É o resultado de muitos anos de exposição prolongada à Internet e à cultura anglófona (maldita globalização!).
Finalmente, se sentir um vislumbre de inspiração ao ler as palavras abaixo, se calhar é um maluco(a)
disfarçado como eu :-) A ideia é mesmo essa:
Carpe diem!

O quê, não viu O Clube dos Poetas Mortos? Tudo bem. A tradução, segundo a minha filha, é:
Acorda p’rá vida!

P.S. Já agora, deixe os seus comentários no blog antes de ir embora. Afinal foi para Si que escrevi isto.
O último a sair que apague a luz, ó faxavor.

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01| Cair
Estou a suar. Estou a cair. Sinto ansiedade. Medo. A queda não acaba.
Está escuro, e continuo a cair. Não vejo nada.
Os segundos passam e começo a habituar-me à sensação.
A ansiedade fica controlada. Começo a apreciar o momento, mas há algo no fundo do meu cérebro
que começa a sussurrar-me.
Continuo a cair, mas agora estou a gostar. Mais um pouco e sinto que já chega.
Tomo consciência de que estou a sonhar.
Acordo. O suor refresca-me a pele. De alguma forma estranha, acabou por ser divertido.
O sonho repete-se esporadicamente durante alguns anos da minha adolescência e juventude.
Tal como um velho amigo que revemos, habituo-me à sensação, a ansiedade já dominada.
Aprendo a apreciar estes breves momentos de queda livre virtual nos confins do meu cérebro.
Decorria a longínqua década de 80.

Algo no fundo do meu cérebro


começa a sussurrar-me.
Fast forward para a vida adulta.
Leio algures num livro de proveniência duvidosa e ensinamentos nebulosos que os sonhos
em que despencamos das alturas são manifestações subconscientes de estados de ansiedade.
É possível. Talvez.
Mas lá que era divertido, era :-)

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02| Pãezinhos Quentes
Alerta/Spoiler!
Segue-se um breve momento de humor :-)
Cépticos, hiper-realistas e pessoas demasiado sérias podem saltar este capítulo.

Final de 2007:
Num passeio fortuito pela Baixa Pombalina, entro numa pequena livraria
(daquelas que, quixotescamente, vão tentando resistir às grandes superfícies).
Movido por forças invisíveis, deambulo sem rumo até que dou comigo a folhear um livro de auto-ajuda (?!)
que estava a vender como pãezinhos quentes.
O Segredo de Rhonda Byrne, obviamente.
Nunca na vida tinha comprado um livro de auto-ajuda, mas sou um leitor ávido e, em frente às prateleiras
do Top 10, a minha curiosidade insaciável venceu uma batalha titânica contra o meu habitual (e aborrecido)
bom-senso.
Sempre disse que, para podermos criticar um livro, temos que o ler primeiro. Certo?
Para não me alongar, e fazer rir ainda mais os cépticos, resumo o grande ensinamento do livro:
“Com coragem e determinação conseguimos atingir qualquer objectivo.”
O Segredo anda todo à volta duma tal Lei da Atracção, fundamental para ser feliz, rico e poderoso,
curar doenças, etc (mas isso é outra novela).
Para mim, a lição era simples e clara:
“Acredita, e consegues.”

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P.S. O poder de que o livro fala (o tal segredo) não é novo. Nos últimos dois mil anos têm-lhe chamado fé.
Como a autora tenta ser agnóstica, prefere chamar-lhe força de vontade.
Acima de tudo, o que é preciso é... acreditar.
Mas à séria: com convicção, determinação e (uma pitadinha de) obstinação.
O mais engraçado é que o pequeno livrinho é completamente boa onda.
Fez-me recordar um velho pregão: good things come in small packages.

Li-o durante algumas semanas e era sempre um exercício revigorante para a boa disposição,
auto-estima e amor próprio. Deixava-me sempre com um sorriso nos lábios.

Altamente recomendado.
Quanto à lição que apregoava, ficou cá dentro, a germinar...

Acreditar com convicção, determinação e


(uma pitadinha de) obstinação.

NOTA
Não, não tenho nenhum acordo secreto com a editora (olh’ó trocadilho) para impingir esta ladainha.
Nem eles precisam de mais publicidade. As pessoas já correm a comprar o livro como se não houvesse amanhã ;-)

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03| Semente
Janeiro de 2008:
Faço anos no próximo mês.
Ultimamente os meus pais habituaram-se a perguntar-me com antecedência que prenda quero.
Lá se foi o efeito surpresa. (Mas assim o cliente fica mais satisfeito ;-)
A magicar um plano rocambolesco, ainda sem contornos bem definidos, resolvo investigar os cheque-oferta
(vouchers para os iniciados) de uma empresa da moda de nome A Vida é Bela.
A Vida é Bela vende (quero dizer, proporciona) experiências, momentos diferentes, actividades especiais
que não fazemos no dia-a-dia. Actividades relaxantes ou radicais. Individuais ou em grupo.
Um mundo de sensações por descobrir :-)
Para um tipo curioso como eu, estava o circo armado.
A imagem é esta: eu a folhear o volumoso catálogo de papel deles, na secção das experiências radicais...
Imaginam? Um desastre à espera de acontecer :-)
Dou comigo a reler as páginas... dos saltos de pára-quedas.
(O quê? Este tipo está louco? Se calhar até tem vertigens :-)
Não, a verdade é que não costumo ter vertigens. E gosto (bastante, parece-me) de andar de avião.
Pareceu-me uma cena cool.

Para um tipo curioso como eu,


estava o circo armado.

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Investigo melhor no site. Pode escolher-se entre os saltos:

• a baixa altitude (baixa dizem eles!), os Best Tandem* aos 3.000 metros, e
• a alta altitude, os Higher Tandem aos 4.200 metros.
Com ou sem gravação de vídeo, é à vontade do freguês.
Hummm, acho que passo bem sem o vídeo. Afinal se a coisa dá para o torto fico mal no boneco...
E ninguém gosta de aparecer no YouTube a fazer figura de parvo, não é?
Quanto à altitude, acaba por ser o preço a ditar a decisão. Fico-me pelo salto mais baixinho
(boa piada, para quem nunca se atirou da porta aberta de uma avioneta trepidante).
Está decidido. Pego no telemóvel.
“Pode ser um voucher d'A Vida é Bela. Eu depois trato do resto...”
“Tudo bem”, é a resposta do outro lado.
Coitados, se soubessem...
O melhor é mesmo não entrar em detalhes ;-)

Ninguém gosta de aparecer no YouTube


a fazer figura de parvo, não é?

* Um salto tandem (pronuncia-se “tandame”) é assim a modos que um salto de pára-quedas com acompanhante,
para malucos ou iniciados na arte.
O pendura vai à frente a gozar a vista, e o instrutor (o tandem master) atrás, a bulir que nem um mouro ;-) Pois...

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04| Até à Última
Agosto de 2008:
Estão a terminar os 6 meses que tenho para marcar a minha experiência d’A Vida é Bela.
Não contei a ninguém o que tenciono fazer. Afinal não quero provocar arritmia nos meus velhotes.
Ainda lhes dava um chilique prematuro. Nem pensar nisso.
Só lá em casa é que sabem. A minha mulher e as miúdas.
A L. guarda as dúvidas para ela. Melhor assim.
Sorri discretamente das poucas vezes que falo do assunto ao longo de quase meio ano. Mas não diz nada.
Entendemo-nos muito bem, está visto :-)
Em Agosto, fazendo um esforço para não parecer trocista, só me pergunta:
“Então, não marcas a experiência? Olha que os vouchers ainda perdem a validade...”
Chiça, que me custa tomar a decisão!
A visão da porta aberta do avião é a que me assusta mais. O vazio. A queda.
Decido-me.
Antes de ir de férias, vou ao site, faço a pré-reserva e fico a aguardar um telefonema de confirmação.
Alea jacta est. Seja.

Sorri, mas não diz nada.


Entendemo-nos muito bem, está visto :-)
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05| Areia nos Pés
Levanto-me no ar como por magia. Em poucos segundos deslizo cada vez mais alto sobre o azul mediterrânico.
A brisa (já quente) da manhã tunisina envolve-me. De repente, noto que algo começa a incomodar-me.
Faltam precisamente duas semanas para o salto, e eis-me a ser baptizado em para-sailing na praia
de Yasmine-Hammamet, destino das férias low-cost deste ano.
“É capaz de ser giro” dizia L. há dois dias atrás, depois de uma caminhada pelo areal para inspeccionar
as conchas autóctones.
O desafio é subir pelos ares, pendurado num pára-quedas puxado por um barco.
Os entrepreneurs desta rentável actividade são um punhado de locais sorridentes,
sempre disponíveis a regatear o preço do passeio.
O regateio, essa nobre actividade ancestral, tem aqui o estatuto de desporto nacional.
“Talvez seja um bom treino para o que vem aí. E o azul da água deve ser espectacular visto do alto”, mentalizo-me.
‘Bute lá! Siga para bingo. Se é a L. a desafiar-me, nunca me encolho.
Das motas de água, banana boat, jet ski e dos veneráveis passeios de gaivota, o que é que ela escolhe?
Andar de pára-quedas atrelada a um barco. E depois o maluco sou eu ;-)
“Quer levar instrutor?”, pergunta-me o rapaz bronzeado, com ar brincalhão. Num francês macarrónico, demasiado
esquecido, tento dizer-lhe que é melhor, mais seguro. Ele reprime uma risada, a expensas do aventureiro acidental.
Quase vejo um balãozinho tipo BD por cima dele:
“Olha, um gajo desta idade, com mais cabelos brancos do que eu tenho pêlos na barba, está com medo
de fazer sozinho uma passeata destas?”
Explica-me como se puxa (com força) a fita direita do pára-quedas para aterrar, como a largar para estabilizar,
e como perceber os assobios em código que ele emite da praia.
No way, José! Não adianta.

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A verdade é que quero apreciar o passeio. Não estou numa de cursos acelerados de pára-quedismo,
para me arriscar a partir uma perna ao aterrar numa sombrinha de palhota, das que ficam bem nas fotos
mas têm demasiado metal por baixo para o meu gosto.
“Você é que sabe”, diz ele, resignado, ao tuga irredutível. Começa a pôr-me o arnês.
A L. já descolou em direcção ao grande azul, também ela com o profissional (uhmmm, será mesmo?) às costas,
a comandar as operações.
Em baixo, abandonado no areal, ponho a máquina digital a render, enquanto as miúdas chapinham
na beira da água morna, ignorando a emoção do momento.
O curto périplo pela faixa costeira de Hammamet termina poucos minutos depois.
O sorriso dela na aterragem dá-me alento.
Vamos a isto, que se faz tarde.

O que é que ela escolhe?


Andar de pára-quedas atrelada a um barco.
E depois o maluco sou eu ;-)

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06| O Diabo dos Detalhes
Atingimos já a altitude máxima, e percebo finalmente o que me incomoda.
G’anda nóia! Tenho o arnês mal colocado por baixo de mim, no sítio onde as costas perdem o nome. Sim, aí mesmo.
Sinto-me a escorregar da faixa do arnês que devia servir-me de “cadeira”.
Não me estou a divertir.
Agarro-me com força às duas fitas do pára-quedas, e ali vou eu. De pernas penduradas no vazio,
a praia ficou para trás, por baixo é só água e eu a escorregar. Quero o meu dinheiro de volta.
Ao fim de uns segundos, tento falar com o instrutor (sim, sim, in your dreams), para me ajudar a “sentar” melhor.
Primeiro em inglês. Nada. Depois em francês. Ainda pior.
Lá em baixo, a paisagem desenrola-se e eu sem a aproveitar.
Tento posicionar-me melhor, mas é difícil puxar a faixa do arnês se todo o nosso peso está... em cima dela,
e só tenho uma mão para me tentar elevar e dar folga. É uma questão de física elementar.
Alavancas, fulcros, por aí...
Que se lixe. Seguro-me com força, e tento apreciar o momento.
O Sol reina supremo, nuvens nem vê-las, o mar está fantástico e a brisa continua ligeira.
A manhã está do best. Fixemos estas imagens, pois então.
Damos a volta por cima da marina e começamos a viagem de regresso.
Lá em baixo, manchas dispersas de algas escurecem a orla marítima.
Que pena não haver corais por estas bandas.
Apesar do imbróglio com o arnês, a aventura vale a pena.
A velocidade suave do pára-quedas permite uma experiência única, tranquila.
Não me arrependo.
Descemos cada vez mais depressa. Da praia, sobem uns apitos trazidos pelo vento.
Rasamos um mar de palhotas e aterramos sem mais delongas.
Foi bom, mas podia ter sido ainda melhor.

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07| Rentrée
Regressamos de férias.
Ligam-me d'A Vida é Bela para acertar os últimos pormenores.
Por email e telefone, fico agradavelmente surpreendido com a eficiência e simpatia do Apoio a Clientes.
Apesar de ser uma das experiências mais baratuchas, parece que me dão tratamento VIP.
A continuar assim, ainda tenho que arranjar um cartão de sócio honorário ;-)
A data da experiência é gravada em pedra:
14 de Setembro de 2008, 11H30, Aeródromo de Évora.
Já não há volta a dar, a não ser que chova ou troveje...
“Na véspera, telefone ao Eddy Resende (o proprietário do avião), para confirmar que o voo se realiza.”
Acertamos contas.
Pago o remanescente por transferência bancária, pois os vouchers não cobriam todo o salto.
Digamos que eu paguei a queda livre e os meus pais o pára-quedas :-)

A data é gravada em pedra.


Já não há volta a dar.

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08| Âmago
Setembro de 2008:
Inicio o processo de mentalização diária, mas falta-me uma peça…
Preciso de uma âncora para me segurar nos momentos de dúvida, para não vacilar.
Para o sonho não ir pelo cano abaixo.
Opto por um truque simples mas eficaz, de origem budista.
Arranjo um mantra para me focar:
“Quero voar”.
Tento não pensar muito no salto para não ficar nervoso.
Quando penso, repito o mantra.
“Quero voar, quero voar, quero voar...”

Tento não pensar muito para não ficar nervoso.

P.S. “Eras capaz de saltar?”, pergunto-lhe.


A minha mulher: “O quê, eu? Atirar-me da porta aberta de um avião? Só se fosse maluca!”
“Sê então bem-vindo ao Clube dos Malucos”, penso para os meus botões. Sorrio interiormente.
Isto até pode vir a ser divertido. Ou não...

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09| Coaching
13 de Setembro de 2008, T-21 horas:
É Sábado, véspera do Dia-D.
Pelo telefone já me confirmaram que está tudo em cima para o voo de amanhã.
Não estão previstas nuvens nem tempo a fazer caretas. Lucky me... ;-)
Seguindo um ritual semanal (a tradição ainda é o que era :-), juntamos a família para o apetitoso almocito
na casa da sogra.
O meu cunhado, que esteve na Força Aérea a long time ago e saltou uma dezena de vezes de pára-quedas,
dá umas breves dicas ao maçarico aprendiz de feiticeiro.
Entre um naco de pão e uma fatia de queijo, lança-me uma última recomendação:
“Atenção à aterragem! Tenta massajar os músculos das pernas antes de saltar.”
Vamos lá ver se não me esqueço.

Não estão previstas nuvens


nem tempo a fazer caretas.
Lucky me… ;-)
P.S. Esqueci-me.

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10| Pequenos Segredos
14 de Setembro de 2008: o Dia-D
No caminho para Évora tento entreter o espírito. Leio o Guia American Express sobre Portugal
para descobrir que maravilhas vamos visitar depois do meu salto. Sim, porque tenciono ficar por cá
para contar a história. Por isso, nada como planear o que fazer após o salto.
Uma visitinha à Capela dos Ossos parece-me sardonicamente apropriada.
Em casa, seguindo as recomendações d'A Vida é Bela, vesti roupa e calçado confortáveis:

• Sweatshirt de manga comprida (pareceu-me menos incómoda que uma t-shirt de manga curta,
para evitar que na fase da queda livre o ar comece a insuflá-la) e
• Ténis com atacadores (sim, não vou querer perder um sapato a meio do voo :-)
Era assim a modos que... ridículo.
A mochila é carregada com um exótico kit de sobrevivência:

• a inevitável máquina fotográfica digital (a minha fiel Canon Powershot G3 que já está boa
é p’rá sucata... só espero que não seja hoje que pife o botão do zoom!)
• bonés (recomendação no email d'A Vida é Bela, porque esperar pelo avião sob o Sol alentejano
não é para brincadeiras - até podiam era recomendar protector solar :-)
• chicletes (para mitigar o nervoso, just in case)
• uma dose extra de roupa interior (sugestão da santa da minha sogra, que eu adoro, e que sabe que...
imprevistos embaraçosos acontecem), e ainda...
• a arma secreta: uns quadradinhos de chocolate negro Pantagruel (daqueles para fazer bolos!),
bem embrulhadinhos em papel de estanho
(Mas ele vai saltar de pára-quedas ou fazer um piquenique???)

Os chocolatinhos têm explicação...

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A verdade é que o yours truly desde miúdo tem, ocasionalmente, quebras de tensão em momentos de... tensão.
Batas brancas, hospitais, agulhas, sangue (sim, do vermelho), conversas sobre doenças ou acidentes, etc e tal...
Estão a ver o filme.
E quando a tensão baixa: suores frios, cara branca e... blackout, pimba!, chão. O incontornável desmaio.
Tecnicamente são crises de hipoglicémia.
Cada pessoa tem os seus limites. O meu é esse.
Ao longo dos anos aprendi (mais ou menos subtilmente) a evitar (pelo menos) as conversas com um delicado
“podemos falar de outra coisa?”. Desafortunadamente, é mais difícil esquivar-me de médicos e hospitais.
Para tentar evitar problemas hoje, vou munido dos supracitados quadradinhos.
São verdadeiras “bombinhas de açúcar” que conseguem revitalizar um morto.
(CORTA!!! Imagem pouco apropriada para quem vai cometer uma loucura).
No momento certo hei-de enfiar uns quantos discretamente no bolso...
(não vá a coisa complicar-se dentro da avioneta, a tal, a trepidante)

Cada pessoa tem os seus limites.

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11| Flashback
O homem roda no meio da pista. Dá voltas. Rodopia qual bailarina fora do contexto. Na ponta do fio uma mancha
fugaz que mal descortinamos. O barulho é o de uma abelha gigante. E se faz barulho.
Sejam bem-vindos ao Campeonato Internacional de Aeromodelismo “Asas de Portugal”
organizado pelo conhecido Júlio Isidro.
A decorrer no Aeródromo de Évora, no dia 14 de Setembro de 2008, justamente na manhã do meu salto.
(Mas eu só descobri tudo isto no dia seguinte, depois de consultar o oráculo da Geração Y, Google para os amigos).
Devo confessar uma coisa.
Quando era miúdo sonhei anos a fio ter um avião telecomandado.
Agora, passo por inúmeras equipas atarefadas, de cócoras, a testar hélices e motores e a dar de beber gasolina,
metanol e outros elixires a estes brinquedos caros. (Boys with toys...)
Nada me prende o olhar.
Compenetrado, caminho ao longo da vedação, alheado da parafernália espalhada pelo chão e pelo ar.
Esqueço tempos idos.
Hoje o meu sonho é outro :-)

Na ponta do fio uma mancha fugaz.


O barulho é o de uma abelha gigante.

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12| Canícula
11H00:
Avançamos os quatro em frente aos hangares que dão uma sombra providencial na manhã alentejana.
(Aposto que conseguia fritar ovos na chapa ondulada dos tectos lá bem em cima.)
Se calhar devia ter marcado o salto para mais cedo.
Como vínhamos de Almada, contei com duas horas para o caminho (que exagero, bem sei), e não queria estar
a arrancar as miúdas do vale dos lençóis logo de madrugada. A um Domingo? Sacrilégio!
Daí ter apontado para as 11H30.
Não faz mal. Como era previsível, chegámos ligeiramente adiantados. Sem stresses. Óptimo.
Até agora consigo manter-me tranquilo.
“Quero voar, quero voar...”

Aposto que conseguia fritar ovos


na chapa ondulada lá em cima.
P.S. As dúvidas assaltam-me. Começo a pensar que tirar fotos ao meu pára-quedas
com o Astro-Rei quase a pino não é boa ideia. Demasiada luz :-(
Desconfio que as fotos vão ficar, como hei-de dizer... uma porcaria.
Apesar do prognóstico reservado, peço à L. para fazer a foto-reportagem.
Só me esqueci de um pequeno pormenor...
Como é que ela vai saber qual é o meu pára-quedas??? (Daaah… ;-)
Vai ter de fotografar os que conseguir... (e o zoom óptico da velharia que é só de 4x, maldição :-(

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13| Hangar 4
Skydive Portugal: o nome aparece proeminente num grande placard branco em frente à área reservada
onde são preparados os pára-quedas.
Agora já sei o nome da empresa a quem vou entregar a minha vida.

Ao lado rabiscaram um boneco tosco, de óculos e cabelo curto eriçado.


(Olha, já sabiam que eu vinha cá hoje :-)
Umas vinte pessoas deambulam por aqui.
Noto com curiosidade a quantidade de equipamento informático em duas secretárias do lado direito do hangar.
Na primeira, dois PCs pertencem ao que me parece ser a “Recepção”.
Mais atrás, ao lado de um grande LCD, um terceiro posto de trabalho.
Uma caixa com um cake de DVDs denuncia a sua função: é aqui que uma rapariga está atarefada,
adivinho eu, a editar os filmes dos “heróis” do dia e a gravar DVDs a contra-relógio.
Será que ainda me vou arrepender de não ter pago o salto com gravação de vídeo?
Hummm... Mas no site era o dobro do preço, e a carteira não estica tanto.
Procuro o “recepcionista”. Ei-lo.
Tiago, um jovem atarefado mas simpático, passa-me dois formulários para a mão.
Um deles típico: nome, morada, data de nascimento, nº do B.I., etc, etc.
Decido não o questionar sobre a necessidade de solicitarem tantos dados. Não me quero chatear.
Estou aqui para saltar, não para defender a minha privacidade :-)
Hoje não me vou armar em activista digital. (Isso foi noutra encarnação, no tempo em que os animais falavam.)
O outro papel é mais “curioso”, mas previsível. É para os isentar de responsabilidade se houver algum... imprevisto.
(Chiça! Nem pensar nisso!)
“Quero voar, quero voar...”

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Pensando bem, que eu saiba, a Skydive nunca teve acidentes. Nem outras empresas portuguesas neste ramo...
(Se tiveram, decididamente que não é agora que eu quero descobrir isso!)
Antes de devolver as folhas, não deixo de reparar numa cláusula que avisa:
Levante as pernas na aterragem, ou então não nos responsabilizamos...
Eh, lá! Mais incisivo que isto não é possível. Um detalhe a fixar, portanto. E nem estava escrito em letra miudinha :-)
Assino o papel. O Tiago, sorridente, aproveita a deixa e propõe-me o upgrade do salto baixo (3.000 metros)
para o salto mais alto (4.200 metros). Os argumentos são convincentes, mas não estou para aí virado.
Para emoção já basta o salto. Mesmo que seja “baixinho”. Para mim, já é alto o suficiente.
“Bom, então pode aguardar aqui que o instrutor já vem”.
Aproveito e faço uma visitinha ao WC. Pelas minhas contas, já é a terceira vez hoje. “Lá ao fundo,
desce as escadas e vira à direita.” O corredor é escuro e silencioso, e as “instalações” já viram melhores dias.
Também dá para perceber que têm visitas frequentes, por heróis de pacotilha como aqui o je.
Vislumbro um amontoado de rolos de papel... vazios. No problem, já vinha preparado.
Os lenços de assoar da minha pequenita mais nova servem agora para outros fins menos nobres.
Valores mais altos se levantam.
Medo? Não. Nervoso? Também não. É só um exercício profiláctico, uma mera precaução.
Com a tripa limpa é menos provável haver incidentes no momento da verdade.
Nem eu sei como vou reagir lá em cima... ou na descida...
(Vem-me à memória uma frase batida: “O seguro morreu de velho e o previdente foi ao seu enterro” ;-)
Tripa limpa: check! Menos uma preocupação.
Ala que se faz tarde.
Volto à “Recepção” em passo de corrida.

Para mim, já é alto o suficiente.


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14| Anjo da Guarda (de Uma Asa Só)
João. Simplesmente João.
João “Zebra”, viria a saber mais tarde. João Ferreira no B.I. e no diploma de vice-campeão nacional de skysurf.
Dizem-me de raspão que tive muita sorte. “Vais com o João? Boa!”, incitam-me. Parece ser popular.
Bíceps à mostra, torso bronzeado, calças amarelas, vistosas e tufadas, lábios cobertos de batom branco
para o cieiro (ossos do ofício, porque as descidas constantes e o Sol não perdoam).
O João é facilmente o retrato do típico “saltador” (“jumper”).
Jovem (quase da minha idade, nas palavras dele :-), afável, começa o briefing.
Tento concentrar-me e absorver tudo o que me diz. Esta conversa é importante, das mais importantes
que tive na vida. Não me posso distrair. Será que me vou lembrar de tudo?
“Ok, Ricardo, não tenhas problemas. Vais fazer um bom salto e vais curtir à brava!”
O ar luminoso dele tranquiliza-me.
Não que eu estivesse nervoso, mas ele ajuda-me facilmente a manter-me tranquilo.
“Tens vertigens?” Acho que não, digo.
“Por acaso (!), há duas semanas atrás estava de férias e fiz um bocadinho de para-sailing numa praia na Tunísia”,
deixo escapar. “Foi a primeira vez e correu, uhhh... bastante bem”. Decido omitir os detalhes técnicos.
Estava ali para o ouvir e não para lhe contar as minhas histórias da treta.
“Para-sailing? Porra, isso que tu fizeste é mais radical do que o salto que vais dar hoje!
Eu só fazia isso se fosse eu a controlar tudo, e a descolar do barco. Tu descolaste da praia?! G’anda maluco!!!”
LOL. Quase que me escangalho a rir. Este tipo é fixe!
Ao ver-me mordiscar um chocolatinho catita, materializado por artes mágicas, fica curioso.
“P’rá tensão baixa?” Sim, mais ou menos, confesso. Mas o problema é só com batas brancas, asseguro-lhe.
Guardo as dúvidas para mim.
“G’anda cromo que me saiu na rifa” deve estar a pensar.

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15| A Aula Mais Importante (ou Talvez Não :-)
Feitas as apresentações, vamos ao que interessa.
Resumindo, existem quatro momentos distintos num salto tandem:
Fase 1: Saída do avião e queda livre (2 ou 3 segundos)
POSTURA: Óculos postos, braços cruzados sobre o peito, costas dobradas para trás (“arqueadas” ao máximo),
pernas dobradas para trás (a passarem por baixo do instrutor), e cabeça deitada (!) no ombro direito do instrutor.
Estes são os primeiros momentos do salto e, tecnicamente, são feitos quase no vácuo criado pela deslocação
do ar à volta do avião.
Podem ocorrer uma ou duas “cambalhotas”, até que o instrutor abre um micro-pára-quedas (o “drog”)
que permite a queda livre na horizontal, para se apreciar melhor a experiência.
Logo que estão estabilizados, o instrutor dá um toque no braço do “pendura” e passa-se à fase 2.
IMPORTANTE: É fundamental as pernas estarem sempre dobradas para trás, nunca para a frente.
A respiração faz-se normalmente pelo nariz, sem problemas.
NOTA: Manter os braços cruzados garante uma “queda” controlada. Esbracejar em pânico não adianta
de nada “pois não tens onde te agarrar... só se for a uma gaivota”, continua o João.
Olha para mim, avaliando-me.
Deve estar a tentar descortinar se eu vou ser “aquele cliente” que lhe vai dar trabalho
ou se vai ser só mais um tandem rotineiro (a somar aos 1.600 saltos que já tem no currículo!).

Fase 2: Queda livre (até 20 segundos no salto baixo, 50 segundos no salto alto)
POSTURA: Óculos postos, braços dobrados em ângulo recto (mais ou menos :-), sempre a “arquear” o corpo todo,
mas agora com a cabeça na posição normal, livre para olhar para o horizonte... ou para baixo!
É para apreciar os escassos segundos desta fase que estou aqui hoje: para cumprir o sonho de voar sem asas!

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Nas duas primeiras fases, a comunicação é feita essencialmente por gestos: o “pendura” deve
ir indicando ao instrutor se está tudo ok (com a sinalética internacional que todos conhecemos).
Isso permite-lhe ir avaliando se o “pupilo” não se está a passar da marmita.

Fase 3: Abertura do pára-quedas e descida (até 5 minutos)


Após a abertura do pára-quedas (a “asa”), esta é a fase mais tranquila e controlada do salto,
em que se pode apreciar melhor a paisagem, sem ter o ar a rugir nos ouvidos (como na fase anterior).
O instrutor fala normalmente, enquanto aproveita para alargar (!) a tira dorsal do nosso arnês para
respirarmos mais facilmente. Também nos ajuda a ajustar a posição do arnês (para nos “sentarmos”
mais confortavelmente, apoiados nas suas pernas). Os óculos são pendurados no pescoço.

Fase 4: Aterragem, com derrapagem incluída (até 3 segundos)


“Quando te avisar, com cada uma das mãos levantas a respectiva perna e apontas a biqueira
do sapato para cima. Só isso.” É o instrutor que faz a aterragem, deslizando por baixo de nós.
Para todos os efeitos vamos escorregar no chão em cima do pobre coitado.
IMPORTANTE: O João relembra-me o papel que assinei: “Pés e pernas para cima!”.
Nem pensar em tentar “travar” a aterragem, para evitar entorses, luxações ou pior...
Afinal, depois de fazer o mais difícil e dar um salto destes, ninguém quer magoar-se à chegada, certo?

Tento processar e assimilar a palestra relâmpago de cinco minutos.


Quero tentar fazer tudo direitinho, by the book.
A minha intuição diz-me que quanto melhor aluno for, mais tranquilo vai ser o nosso salto
e melhor vou poder apreciar o “espectáculo”.
A ver vamos. Continuo tranquilo. Piece of cake...

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16| Plano B
“Para mim é igual: salto alto ou salto baixo. O salto baixo até é mais fácil, porque faço menos esforço nos ombros.
E pagam-me o mesmo.”, explica-me o João. “Mas repara: no salto baixo, quando estamos em queda livre, e estás
a começar a ambientar-te, a sentir-te confortável, eu abro o pára-quedas, e ficas a pensar: o quê, já acabou???
No salto baixo, são 20 segundos de queda. No salto alto, são 50.”
“Estás à vontade. O que decidires está bom para mim.”
O João é persuasor :-) Evitando o discurso de vendedor de time-sharing, conseguiu convencer-me.
Mesmo assim, o vídeo fica para a próxima (para não rebentar o orçamento).
Dirijo-me à “Recepção” munido do belo do cartão multibanco para fazer o upgrade.
O salto alto acaba por ficar mais em conta (mas shhhh, não digam nada a ninguém ;-)
O saldo total da extravagância? 165€
(125€ do salto “Best Tandem” d'A Vida é Bela + 40€ do upgrade da Skydive; montantes em Set. 2008)
“João, ainda tenho tempo para ir ao WC?”, pergunto meio envergonhado. Ele quase ri.
“Claro, deves mesmo ir, porque não quero problemas com fluidos lá em cima”. Como ele me compreende :-)
Já deve ter visto este filme tantas vezes...
Faço um sprint até ao familiar corredor deserto.
Agora é mais rápido. São mesmo só fluidos.
Estou pronto. Siga a dança.

Quando começas a ambientar-te…


O quê, já acabou???
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17| Now Boarding
11H45:
Chega o mini-bus que nos vai levar ao extremo da pista, onde está pousado o grande passaroco.
Acabo por ser o primeiro a entrar, seguido pela tropa de especialistas e aventureiros de fim-de-semana.
O ambiente é de festa :-)
Por perto já andam os operadores de vídeo (cameraflyers) a gravar estes fugazes momentos.
A estes paparazzi ninguém faz cara feia ;-)
Faz-se a contagem das cabeças e arrancamos.
Os veteranos aproveitam para partilhar uns cigarritos na carrinha. Aparentemente, quando estão a confraternizar,
são uns atrás dos outros. Por causa da dependência da adrenalina? Talvez... Não penso no assunto.
A animação é tanta que parecemos um bando de surfistas a caminho da praia :-)
Chegamos ao fim da linha. Três instrutores, a pé, trazem uma escadita para se trepar para a avioneta.
N9347B diz a matrícula na fuselagem. Por baixo um URL: QueroSaltar.Net
(Ai quero, quero. Nem eu vim para outra coisa. 'Bora lá!)
“Atenção às cabeças”. Entramos curvados.
O João decide que somos os últimos a saltar (juro que não pedi nada!), e avisa os colegas.
Como velhinhas cheias de reumático, vamos até junto do cockpit, e sentamo-nos num banco corrido.
Isto vai apinhado qual metropolitano em hora de ponta (mas sem carteiristas nem smell ;-)
Rolamos no tarmac. Aceleramos. Mais um pouco, e deixamos a segurança da Terra-Mãe. Airborne. Agora é que é.
O nível de tranquilidade mantém-se. Aprecio a vista. Está um dia glorioso para voar.
O João, que não me conhece e não sabe que já descolei muitas vezes, entretém-me.
Tentamos encontrar o Templo de Diana, visto das alturas. Ele consegue, eu não.
(Se calhar, devia dizer-lhe que uso óculos e não vejo muito bem ao longe :-) Never mind.
Évora perde-se na distância e continuamos a subir.

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Os minutos passam lentos. Vou trocando comentários esparsos com o João.
Tento distrair-me a olhar pela janela, para manter o espírito ocupado.

O João interrompe-me a reflexão.


“Agora vou fixar-me a ti” diz, enquanto prende o arnês ao meu. “Tenta mexer-te para a frente”.
Tentar, eu tento, mas ele não deixa :-) Estamos “colados”, como irmãos gémeos de ocasião.
“Quando for aberta a porta, vamos até ao fim do banco, e pões-te de joelhos. Vamos assim até à porta.
Mantém as pernas dobradas debaixo de mim.
Em frente à porta, cruzas bem os braços, encostas a cabeça para trás, ao meu ombro direito, e esperas.
Eu decido quando saímos. Basta fazeres o que te ensinei. Ok?”
Ok...
Estou a confiar mais neste tipo do que na maioria das pessoas com quem me cruzei na vida em quase 40 (!) anos.
“Vamos lá, João, vou tentar não te desiludir” digo p’ra comigo.
“Põe os óculos agora”.
“Quero voar, quero voar...”

Aprecio a vista.
Está um dia glorioso para voar.

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18| O Longo Caminho... Para a Porta
Soa um alarme roufenho. Atingimos a altitude certa. 'Tá na hora de bazar.
“Façam-se à vida, rapazes”, deve pensar o piloto.
A porta de plástico transparente é puxada para cima. Aumenta o barulho do vento. A minha pulsação acelera.
Ordenadamente, rastejando como bebés trôpegos, a fila de pára-quedistas à minha direita começa a sair.
Lá para fora, para o vazio.
Primeiro os operadores de vídeo, que ficam lá fora (agarrados a um corrimão na fuselagem!)
à espera que saiam os respectivos protagonistas. Só falta mesmo alguém berrar: Luzes, Câmara, Acção!
O cortejo aéreo prossegue com as estrelas debutantes, e encerra com uns quantos figurantes anónimos (como eu :-).
À minha frente, o pessoal sentado no banco corrido começa a avançar.
Tento mexer-me mas só faço pequenos movimentos desajeitados. Mau, afinal isto é mais difícil do que parecia...
Só com a ajuda sincronizada do João é que nos vamos aproximando da porta, e do meu momento da verdade.
A minha percepção do tempo começa a alterar-se.
Um a um, os pares vão saindo.
Vejo-os a serem arrastados pelo vento, como as folhas das árvores no Outono.
É surreal.
O meu cérebro tenta apreender, processar. Sem grande sucesso.
Limito-me a presenciar a cena, quase como se estivesse em casa a ver um filme.
O avião está quase vazio. Somos os últimos.
As coisas precipitam-se.
Em menos de um fósforo, estou de joelhos à porta.
Não chego a aperceber-me que esta posição é usada para rezar há milhares de anos.
Nem tenho tempo para encomendar a alminha.

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19| Jogo Táctico
Passa um segundo? Não sei.
Sinto-me a cair para a frente, e fecho os olhos.
(O quê, fechar os olhos? Estás maluco ou quê? Vir até aqui e agora fechar os olhos, pá?
Vais perder o espectáculo todo! Não acredito nisto...)
Calma, é simples.
Isto está a ser tão rápido que não tive tempo para ter medo, e não é agora que vou estragar tudo.
Eu explico.
Pelos vídeos que vi online antes de me meter nesta maluqueira, é comum nos saltos tandem o “par”
de pára-quedistas dar uma ou duas “cambalhotas” no ar.
Isso ocorre antes do instrutor estabilizar a queda, abrindo o drog, o tal micro-pára-quedas de controlo.
O meu raciocínio (quase instintivo) naquele momento foi:
se vir a terra a andar às voltas, posso ficar baralhado, sem saber para que lado estou a cair.
Posso atrapalhar-me e esquecer-me do que tenho para fazer. Ou até entrar em pânico.
Não, não vou por aí.
Solução: fechar os olhos um momento, esperar que ele abra o drog, que nos estabilize horizontalmente,
e só então abrir os olhos e começar a curtir.
Fiz batota? Talvez, não sei.
Menos radical, talvez.
E resultou? Se resultou! :-)
Trigo limpo, farinha Amparo! Sem espinhas.
Mas estou a adiantar-me...

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20| Velocidade Terminal
Está escuro. Estou a cair. Damos uma cambalhota. Olhos fechados, braços cruzados com força.
“Arqueia, arqueia”, penso.
Eh, pá, já estamos horizontais. Abro os olhos. Passou um ou dois segundos. Boa! :-)
Quase imediatamente sinto uma pancada no braço direito: é o João a mandar-me abrir os braços.
Cool! Ora cá estou eu armado em Ícaro (sem a parte do bater das asas e do incêndio fatal, livra!).
“Quando formos a cair, posso ter necessidade de ajustar a posição das tuas mãos. Isso é normal, não te preocupes”.
O João mexe ligeiramente a minha mão direita, de palma para baixo. Orienta-a melhor.
Não noto diferença, mas ele é que percebe da poda. :-)
Ooops, os óculos estão demasiado apertados e começam a incomodar-me... Têm uma forma triangular
que não me deixa ver bem o chão (tenho mesmo de sugerir ao João que arranje uns óculos mais confortáveis :-)
Tento ajeitá-los com a mão direita.
Hey, ao mexer a mão direita em direcção aos óculos sinto logo uma mudança na direcção da queda.
Afinal com quatro braços a “moldar” o fluxo de ar, basta um deles mexer para se alterar a aerodinâmica
deste “pacote” de caramelos.
Desisto logo de mexer nos óculos, e concentro-me na experiência da queda.
Sabem que mais? Nos filmes de acção fazem-nos acreditar que a velocidade é alucinante, que o vento ruge
nos ouvidos mas, para mim, está a ser super tranquilo.
Olho em frente e para baixo, sentindo a tensão do ar nos braços.
Isto é quase fácil, e sempre com a sensação reconfortante de ter alguém agarrado às minhas costas.
Alguém que tem um pára-quedas :-)
Vou descontraindo, habituado à situação.
Mergulhamos a quase 200km por hora (!) mas o chão, lá muito em baixo, parece nem se mover.
Está um dia lindo para voar.
E eu estou a voar!

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21| Até Onde a Vista Alcança
O sacão surpreende-me. Antes de perceber o que está a acontecer, passo da posição horizontal
de “tartaruga ninja dos céus” para a tradicional de pára-quedista veterano.
Subo, subo, parece-me. São breves segundos, o suficiente para insuflar a magnífica asa azul acima de nós,
e parar a descida alucinante. Alucinante só em termos teóricos, porque (aprendi agora) não se tem a real
percepção da velocidade.
Começava agora a segunda fase do passeio.
Sempre tranquilo, julgava que me ia aborrecer até aterrar.
(Qual quê! Vai trabalhar, malandro!)
“Já podes tirar os óculos”, oiço atrás de mim. Por momentos até me tinha esquecido do meu anjo da guarda.
“Sem os óculos, consegues sentir o vento na cara. É muito melhor.” dizia-me ele no briefing.
Como é natural, é claro que tem razão.
O dia está lindo. Os campos lá em baixo, apesar de crestados do Sol, são magníficos aos meus olhos.
Que pena não ter saltado na Primavera, para encher os olhos de verde.
Isto é muito melhor do que espreitar pela janela embaciada de um avião!
Consigo olhar com clareza até ao horizonte enevoado. Óculos? Quem precisa de óculos?
“G’anda salto, Ricardo!” diz-me o João, sempre bem-disposto. “Estás a gostar?”, quer saber.
(Oh, pá, se estou a gostar? Podes crer! Grande malha!)
Extasiado, abano a cabeça afirmativamente.
A descida acelerada começa a cobrar o seu preço nos meus ouvidos. É a pressão. Sem grandes problemas,
engulo e passo à frente. Curiosamente, começo a sentir a boca a ficar completamente seca. Será que afinal
estou nervoso? Não me parece. Deve ser do ar a entrar pelo nariz, mais depressa do que é costume...
“A turbulência que estás a sentir é o ar quente a subir dos campos”, explica-me.
A turbulência, oiço-a mais do que a sinto. É o vento a bater nas extremidades do pára-quedas.
É o único ruído que quebra o silêncio à nossa volta.

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Os ouvidos vão ficando um bocadinho “entupidos”, mas nada de preocupante.
“I can see miles from here”, ocorre-me de repente.
(Era a frase derradeira numa velha anedota universitária.)
Sorrio.
Continuo tranquilo. Sempre tranquilo.
E estou a voar :-)

Consigo olhar até ao horizonte enevoado.


Óculos? Quem precisa de óculos?

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22| Infernal Máquina Voadora
“Queres controlar a asa?” surpreende-me de repente o João.
O quê? 'Tás mas é maluco! “Podes continuar tu a guiar, que vais muito bem”, penso eu.
Tento dizer “não, obrigado” com a boca seca e os ouvidos entupidos.
O João insiste. G’anda maluco. “Vá lá, pões a mão direita aqui, onde está a minha”.
Olho para cima, e, hesitantemente, agarro a alça que ele está a agarrar. Será que consigo?, penso.
A mão esquerda vai agarrar a alça do outro lado. Ele larga o pára-quedas.
Estou a controlar a descida. Yes!!! Até a barraca abana!
Decididamente, isto não estava no programa!
“Com a mão direita, experimenta puxar devagar para baixo, e olha para a asa”.
Hesitante, cumpro a ordem, mas devagarinho :-) A asa, suavemente, com elegância, começa a virar.
O chão, (ainda) muito lá em baixo, começa a rodar.
“Vá, mais um bocadinho”. A asa vira mais depressa. Nem acredito.
‘Tou a curtir big time! Só emoções fortes! :-)
Este momento ganha o título de surpresa do dia. Obrigado, João, pelo freebie :-)
(Afinal, sempre há almoços grátis!)
“Lá em baixo, vês o hangar? É lá que as tuas pequenas estão à tua espera.”
Olho para baixo, já completamente habituado à altura, à paisagem, ao Sol e ao vento.
E apercebo-me...
Graças a este rapaz (um verdadeiro “Senhor”), em nenhum momento do salto tive medo.
E isso fez toda a diferença.

Afinal sempre há almoços grátis!


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23| Fallen Angels
“Quando vamos a descer, temos regras. Se uma asa à nossa frente precisa de espaço de manobra,
temos que nos desviar. Assim, vês?”
À nossa frente, ligeiramente acima, uma asa amarela aproxima-se.
O João começa a virar à direita, o chão a aproximar-se.
A nossa velocidade aumenta durante uns momentos, e estabiliza. Sem stress.
A última demonstração técnica da manhã estava a terminar.
Agora há que voltar ao trabalho, para a última tarefa do pendura.
“Está quase na altura de fazeres aquilo que treinámos antes. Levanta a perna direita com a mão.
Força! Isso mesmo. Biqueira para cima. Agora a outra perna. Boa! Descontrai, e prepara-te para repetir”.
O chão aproxima-se, agora muito mais rapidamente.
10 metros, 9, 8, 7, ... “Agora, Ricardo! Levanta.” Vamos a isto: o professor manda.
Não é agora que me vou baldar e chumbar no exame. Cá vamos nós...
Em dois ou três segundos estamos imobilizados na erva castanha, rija, de fim de Verão.
O João, debaixo de mim, desliza muito pouco (muito menos do que nos vídeos online).
De volta ao chão. Estamos parados.
Nem quero acreditar que já acabou.
À nossa volta as asas caídas exalam lentamente como sprinters cansados.
Estou rodeado de sorrisos.
“Vou abrir as retenções, e podes levantar-te”, diz-me. “Dás-me uma mãozinha?”
Uma? Estendo-lhe logo as duas, para o ajudar a levantar.
Nesse momento sinto as emoções à flor da pele. Só me apetece abraçá-lo e agradecer-lhe.
Pelo salto, pelo coaching, pelo profissionalismo, pela simpatia, pela tranquilidade, por tudo.

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Fico-me por um forte aperto de mão, e um sorriso rasgado.
“Portei-me bem?”, quero saber. “Foi um g’anda salto, Ricardo. Espero que tenhas gostado”.
Gostado? Adorei, pá!
Apesar de ser normalmente eloquente (leia-se tagarela), a garganta seca e a emoção fazem
com que não saia grande coisa. Desaperto o arnês em silêncio.
Afinal de contas não é todos os dias que saltamos no vazio e conseguimos voar.
Algures dentro de mim um miúdo realizou um sonho antigo, mas desta vez foi a sério.
The Real Thing.
Consegui!!!

Afinal de contas não é todos os dias


que saltamos no vazio e conseguimos voar.

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24| O Freguês Que Se Segue
12H45:
O João começa imediatamente a trabalhar, enquanto fala comigo.
Afinal de contas, isto faz tudo parte de uma máquina bem oleada, e é preciso despachar serviço.
Há mais gente com sonhos à espera, lá longe, na sombra fresca do hangar 4.
Depois de “apertar e espremer” bem a asa (“para ocupar menos espaço na carrinha”), somos os últimos a entrar.
Vou à frente, ao lado da condutora. Pergunta-me se posso segurar no capacete do operador de vídeo. Claro!
Pego na “bola” negra, com a câmara acoplada, enquanto uma vozinha na minha cabeça insiste que um dia destes
ainda me vou arrepender de ter saltado sem vídeo...
Na pista, o grande pássaro azul e branco prepara-se para levantar com mais uma carrada de clientes expectantes
(e muito ansiosos, provavelmente). Damos-lhe passagem, antes de cruzarmos a pista alcatroada.
Ao aproximar do hangar, vejo os meus tesouros à espera. Já devem estar esfomeadas, adivinho.
São quase 13H. Querem lá saber do salto do pai para alguma coisa. Querem é ir comer!
“Gostaste? Foi giro?”. Sim, foi óptimo! “Isso quer dizer que já podemos ir almoçar?” estão quase a perguntar :-)
Só um instante mais. Antes de levantar a âncora, ainda tenho umas pontas soltas para rematar.
O João já está a estender a asa no chão, para um colega “packer” (de olho clínico e mãos de fada)
começar a dobrar cuidadosamente.
(Aos fins-de-semana esta fábrica de emoções fortes não pode parar, como as boxes na Fórmula 1 :-)
Aproximo-me e volto a cumprimentá-lo. Agradeço-lhe o mais convictamente que consigo.
“Obrigado. Se o salto foi tão bom, foi graças a ti”. Repito-me, bem sei. Mas este senhor merece.
Qual é o apelido? “Zebra. Os meus amigos chamam-me Zebra, por causa do meu fato, ali ao fundo. Vês?”,
diz apontando para um equipamento exuberante às riscas. “O apelido é Ferreira”.
João “Zebra” Ferreira. Não me vou esquecer.

Obrigado, João, por me ajudares a voar.

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25| O Fim (do Princípio)
“Desculpe, aquelas t-shirts são para vender?”, volto atrás e interpelo pela última vez o sempre solícito Tiago.
Aponto para uma mesa onde várias t-shirts azuis com letras brancas garrafais divulgam um endereço familiar:
QueroSaltar.Net
“São 5€, acho eu”. Conferencia com um colega e procura o meu tamanho.
“Só temos o L” diz, um pouco embaraçado. “Está óptima”, parece-me.
“É oferta”, confidencia, sorridente.
Agradeço-lhe, por tudo. E afastamo-nos.
Eu, com a família ao lado, a agarrar uma t-shirt azul.
Uma t-shirt muito especial.
Não que eu vá precisar de uma t-shirt para recordar este dia.
Mas porque tenciono usá-la.
Com orgulho.

Almada,
25 de Setembro de 2008

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SUMÁRIO EXECUTIVO

“20 e tal capítulos de puro suspense e adrenalina...” (ou talvez não)


Sem aditivos nem corantes artificiais.

“Quero Voar!” ® é um pequeno conto, auto-biográfico e bem-humorado, sobre um tipo normal com uma
“vida simples” que tem um momento de inspiração e decide fazer algo de... anormal.
Relata a verdadeira história, e os bastidores, de um salto tandem a 4.200 metros pelos olhos de alguém
que não gosta (muito) de se aventurar no desconhecido.
A narrativa de ritmo intenso é um mix enérgico de factos e disparates reais, com momentos mágicos à Harry Potter
e reflexões profundas à Adrian Mole. Repleto de acutilantes comentários auto-críticos, lê-se num fósforo.
Os factos:

• Data: 14 de Setembro de 2008


• “Dropzone”: Aeródromo de Évora
• Catalisadores: A Vida é Bela feat. Skydive Portugal
• O Herói: João “Zebra” Ferreira
• O Cromo: Ricardo Silva
Advertência:
A odisseia inclui alguns pormenores menos... dignificantes. Para ser fiel à realidade. E para risota geral :-)
Afinal de contas a piada está é nos detalhes.

P.S. “Quero Voar!” ® é um texto original de Ricardo Silva, escrito nos dias a seguir ao salto tandem,
e assinala a estreia fulgurante do Autor no mundo das letras.
(Uhmmm, será fulgurante ou fulminante?... Onde é que arrumei o raio do dicionário? ;-)

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DEDICATÓRIA

“Este Óscar é dedicado...”


Aos meus Pais, que nunca me cortaram as asas.
(E depois eu prego-lhes uma partida destas... Shame on me ;-)
À minha tia M., que aprendeu cedo a voar, e acabou por me contagiar.
Ao João “Zebra” Ferreira, por ter feito toda a diferença.
E a Si, que também sonha. Just do it!

À grande família dos jumpers, skydivers, skysurfers e demais malucos que lerem isto:
Blue skies and safe landings.

Fiquem bem.

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CRÉDITOS

Texto Fotos/Ilustrações
Ricardo Silva Ricardo Silva e L., salvo as excepções abaixo
Revisão Capa
Alberto Silva (Obrigado, Pai :-) Um dente-de-leão (“dandelion”) soprado pelo vento
I. (“Papá, este capítulo está fora do sítio...”, e estava mesmo!) efectua a polinização lançando os seus… pára-quedas (!).
A analogia perfeita ;-)
Martinho R. (5!)
Licensed Shutterstock image: “Blow Dandelion” by Palto
Céu S.
Rui N. Pág. 2
Paulo M. “Carpe Diem Mini Art Quilt”
Photo kindly authorized by Kajsa Wikman (from Turku, Finland)
Revisão Técnica Review / Syko Store / Blog
João “Zebra” Ferreira (“Zebraman”)
Pág. 2 e seguintes
Grafismo/Paginação Variations of “Sheet Film Frame” by Tom Niemann
Baseado no template Report “Median theme” para MS Word Photoshop for Photographers > Frames > Sheet Film
Inspirado pelos manifestos ChangeThis!
Pág. 4
Capa do livro “O Segredo” de Rhonda Byrne
Editora Lua de Papel / Edições Asa

Pág. 6
Logótipo d’ “A Vida é Bela”

Pág. 40
Variation of “Film Frame” by Tom Niemann
Photoshop for Photographers > Frames > Film Frames
Video stills: cortesia Skydive Portugal, A Vida É Bela, RTP

Pág. 46
Logótipo e ícones do licenciamento Creative Commons

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SOBRE O ANJO DA GUARDA

João “Zebra” Ferreira, 32 anos, é skydiver, instrutor de queda livre e tandem master na Skydive Portugal
desde há 4 anos. Conhecido como “Zebraman”, já fez mais de 1600 saltos (até Set. 2008).
Classificou-se em 2.º lugar (na categoria de skysurf) na Taça de Portugal 2004 e no Campeonato Nacional
durante 3 anos consecutivos. Atingiu a 4.º posição no Skysurf Protour 2006.
Em Setembro de 2008 participou na novela “Vitória” da SIC como duplo da actriz Cláudia Vieira
nas cenas de skysurfing.
Pode ser contactado pelo email jjferreira1@gmail.com

Reportagem
Salto Tandem Pedido de Casamento (RTP, 05.08.2007)
(Évora, 02.2008) (Praia do Guincho, 12.2007) (tem as legendas trocadas!)

Clique nos títulos para ver vídeos do Zebraman como tandem master, “menino das alianças” :-) e cameraflyer.

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SOBRE O AUTOR

Ricardo Silva, 38 anos, nascido e criado nas Caldas da Rainha, essa bela localidade, vive em Almada
desde que deu o nó.
Há 12 anos que L. lhe atura o mau génio (até parece!) e as idiossincrasias que vinham incluídas no pacote.
Tem duas filhas lindas que adora, e a quem deve a maioria dos seus cabelos brancos ;-)
Gosta muito de lhes contar histórias.
É um tipo banal com uma “vida simples”, nas palavras do padrinho de casamento.
Uma professora de Português do secundário um dia chamou-lhe idiota em frente à turma toda.
Mas era “idiota no bom sentido”, adiantou logo. “Porque tem muitas ideias.”
(A explicação não impediu a chacota geral ;-)
Ainda hoje continua a considerar-se um verdadeiro idiota.
Informático de formação, não tem um blog pois acha que não tem nada para contar.
Correcção: Agora já tem um blog! Para partilhar esta aventura.

Decidiu escrever “Quero Voar!” ® para reter mais vivamente os pequeninos detalhes desta experiência única.
E para o relembrar que nos podemos transcender quando quisermos. Basta acreditar :-)
Como se divertiu à brava nesta pequena aventura literária, decidiu espalhar a prosa aos sete ventos.
Pode ser que faça alguém… sorrir :-)
CONTACTOS
Opiniões, discursos, chistes e reclamações podem ser afixados como comentários no blog www.QueroVoar.pt
ou dirigidos em privado para o email blog.QueroVoar@gmail.com

O quê? Ainda quer saber mais?


Ok, seguem-se os detalhes exóticos... Veja lá se não adormece ;-)

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• No fim da década de 80, no auge das rádios piratas, usa a Rádio Litoral Oeste (em Óbidos)
para difundir software através do éter (!), para os felizardos que tinham um microcomputador
ZX Spectrum. Cada gravação incluía um boletim noticioso e outras informações importantíssimas :-)
Ideia alucinada a nível nacional e internacional, eram cinco minutos de irritantes pi-pi-pi-ti-tri-ti, para
os ouvintes gravarem e depois meterem no micro, à borla. Imaginem: software public domain via rádio :-)
Ainda hoje se interroga como não cancelaram a licença da rádio por atentado aos ouvidos da população.
O projecto passou abaixo do nível do radar dos incipientes media nacionais da época.

• Começa a trabalhar à séria na década de 90, na equipa de desenvolvimento do INFOCID - Sistema


de Informação ao Cidadão baseado em quiosques multimédia com ecrã táctil.

 come.to/protesto • No fim da década, passa pela fase de agent provocateur. (Já sei, demasiado tempo livre nas mãos :-)
Como activista digital, lança um protesto online, indignado com o encerramento abrupto do Terràvista,
serviço público de alojamento gratuito de sites. Torna-se editor do Guia do Activismo Online.

Passados uns meses vai na conversa de Francisco Godinho e ajuda a montar a Petição pela
Acessibilidade da Internet Portuguesa, para garantir a acessibilidade online nos sites da administração
pública. A Petição, a 1ª enviada ao Parlamento por email, resulta em legislação inovadora a nível europeu.

 ProjectoOrigens.blogspot.com • No final de 2004 arranca com o Projecto ORIGENS - A Nossa História, para recolher informação
genealógica de todos os parentes vivos. Promove uma original almoçarada familiar para fazer o pitching
da ideia mas ninguém lhe liga nenhuma. (Enfim, não se pode vencer sempre). Um dia destes volta à carga.

 EmilioDentroDaTerrina.blogspot.com • Mais recentemente, em Abril de 2008, depois de ler uma história (da sua infância) na aula da filha, decide
lançar a Iniciativa “30 Anos Dentro da Terrina” para promover a reedição de três livros infantis, da
autora da Pippi das Meias Altas. O herói é o pequeno Emílio de Lönneberga, que mora numa quinta na
Suécia e tem uma propensão inata para se meter em sarilhos.
A iniciativa non-profit, baseada no blog Emílio Dentro Da Terrina, é actualmente o seu pet project.

Ah, é verdade, e ainda...

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OFF-TOPIC: SECÇÃO DE CLASSIFICADOS

O Autor de “Quero Voar!” decidiu recentemente mudar de emprego.


Está agora à procura de uma oportunidade para trabalhar na área da divulgação científica.
Porque tem vocação, porque tem know-how, e para realizar um sonho com mais de 10 anos. (Outro :-)
É Você que anda à procura de um colaborador empreendedor para esta área?
Então anda à minha procura!
Planeia procurar? Conhece alguém que ande à procura?
Não perca mais tempo!
Fale comigo.

O email é blog.QueroVoar@gmail.com
Sem compromisso.

P.S. Ajude-me a confirmar novamente que a Lei da Atracção funciona! ;-)

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GOSTOU? ENTÃO OFEREÇA!

Se esta pequena história lhe trouxe boa disposição, excelente!


O quê? Divertiu-se? Então ainda melhor!
Esteja à vontade para reenviar este ficheiro a toda a gente que esteja a precisar de um sorriso,
uma forcinha ou um fugaz momento de inspiração.
Veja lá, ainda se arrisca a que lhe agradeçam ;-)
Se tiver um blog, um site ou uma publicação, saiba como redistribuir ou referir este ficheiro na próxima página.
Mas não se esqueça: deixe os seus comentários (civilizados, se faz favor) antes de sair.
Afinal pode haver crianças a ler isto. Não se esqueça que tudo começou com uma criança e um sonho estranho ;-)
Todos os comentários e bitaites são bem-vindos.
Pode clicar aqui para fazer os seus comentários no blog “Quero Voar!”.
Para comentários mais pessoais, ofertas de emprego, convites para festas, entrevistas e entregas de prémios,
por favor, use o email:
blog.QueroVoar@gmail.com

Muito obrigado por ter me ter dado a sua atenção.


(Nos dias que correm, nem imagina o valor disso ;-)
Seja feliz!

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AOS BLOGGERS, WEBMASTERS, EDITORES, JORNALISTAS,
E OUTROS AMIGOS

~ REDISTRIBUIÇÃO ONLINE ~

O ficheiro .PDF (ebook) com a interminável odisseia “Quero Voar!” ® :

• pode ser redistribuído livremente via internet, mas não pode ser alterado, ok?
• pode ser copiado e reenviado por email ou disponibilizado para download (alojado) noutros sites
• pode ser linkado, recomendado, citado, e até lido em voz alta

Faço um único pedido: se escrever sobre o texto “Quero Voar!” refira sempre o endereço oficial
www.QueroVoar.pt
Posso fornecer versões de alta resolução das imagens aqui usadas. Basta pedir ;-)
Dúvidas? Sou todo ouvidos :-) O email é blog.QueroVoar@gmail.com

~ PUBLICAÇÃO EM PAPEL ~
ATENÇÃO!
O texto “Quero Voar!” ® não pode ser publicado integralmente em papel
(em jornais, revistas, encartes, suplementos, panfletos de supermercado, etc) sem falar primeiro comigo, certo?
No entanto, é permitido o uso de extractos do texto em publicações em papel, para efeitos de análise,
crítica ou recomendação.
Qualquer proposta ou desafio pode ser enviado para blog.QueroVoar@gmail.com

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LICENCIAMENTO

O ficheiro com o texto “Quero Voar!” ® pode (e deve ;-) ser redistribuído à vontade, mas não pode ser alterado.
A redistribuição digital é livre e gratuita.
A comercialização do texto integral está sujeita a autorização prévia do Autor.
Este texto é disponibilizado ao abrigo de uma licença:
Creative Commons “CC BY-NC-ND 3.0”:
Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 3.0 Unported

Atribuição Uso Não- Vedada a Criação


Comercial de Obras Derivadas

© 2008 Ricardo Silva. Alguns direitos reservados.

“Quero Voar!” é uma marca registada de Ricardo Silva.

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DISCLAIMER

Caso haja dúvidas, este texto é totalmente non-profit, sem fins comerciais.
(Ainda não é desta que fico rico e excêntrico, bolas! ;-)
O Autor não tem nenhuma ligação (por ordem de entrada em cena):

• à editora d’O Segredo,


• à empresa de experiências A Vida é Bela,
• à editora dos Guias American Express,
• à fábrica do chocolate Pantagruel, nem
• à escola de pára-quedismo Skydive Portugal.

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C
om uma “vida simples” e sem gostar (muito) de aventuras,
ele decide um dia fazer algo de radical e arriscado.
A 4km de altitude…
Num turbilhão alucinante de acontecimentos que ultrapassam
largamente a sua compreensão, decide (hesitante) investir
toda a sua determinação para realizar um sonho antigo.
Muito antigo...

“Quero Voar!” é um relato apaixonante e bem-disposto


sobre as origens, motivação e dúvidas por trás de uma decisão
que leva alguém comum a tentar ultrapassar as suas próprias limitações,
e a conseguir sobreviver para contar a história. :-)

Numa linguagem simples, urbana e contemporânea,


“Quero Voar!” é um pequeno conto real para inspirar…
e fazer sorrir.

Porque a piada está é nos detalhes.

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Distribuição gratuita ~ 1ª Edição (Rev. 86) ~ 2008.10.01 Texto Disponível para Download em: www.QueroVoar.pt