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O mito do agente infiltrado -


ou uma lei que apazigua medos
Francisco Moita Flores

Quando me chegou à mão a lei n.º 45/96 - que altera o regime jurídico do tráfico e consumo
de estupefacientes decretado em Janeiro de 1993 - lembrei-me de um antigo professor de
História Institucional e Política que sublinhava o efeito perverso e contraditório das leis que
saíram da Revolução Francesa, que perseguindo uma finalidade ontológica que se
consubstanciava na preocupação com o exercício do direito de cidadania, determinaram o
rolar infinito de cabeças nas guilhotinas justiceiras colocadas no largo defronte das
Tulherias e que um paradoxo da História veio a entregar-lhe o nome de Place Concorde.
Vem isto a propósito do art. 59º daquela lei que tipifica as chamadas "condutas não
puníveis" e que começa da seguinte maneira:
"1 - Não é punível a conduta de funcionário de investigação criminal ou de terceiro
actuando sob controlo da Polícia Judiciária que, para fins de prevenção ou repressão
criminal, com ocultação da sua qualidade e identidade, acertar, detiver, guardar,
transportar ou, em sequência e a solicitação de quem se dedique a essas actividades,
entregar estupefacientes, substâncias psicotrópicas, precursores e outros produtos
químicos susceptíveis de desvio para o fabrico ilícito de droga ou precursor."
Á primeira vista estamos perante um passo significativo no combate ao tráfico de
estupefacientes. A lei permite infiltrações de agentes policiais nas redes de comercialização
da droga o que, do ponto de vista operacional, traz aparentemente mais valias na eficácia da
prevenção e da repressão criminal. É uma atitude aparentemente progressista e avençada.
Porém, no nosso entender, é uma disposição demagógica, populista e cujos efeitos podem
acabar nas guilhotinas da Place Concorde.

1 - A propaganda política

É sabido que o combate à droga não é um fenómeno ideologicamente neutro nem


politicamente inocente. Foi bandeira de propaganda política do Partido Socialista que
durante a última campanha eleitoral assumiu a droga como o seu primeiro e principal dos
inimigos, foi objecto de dura arguição do PP que tem vindo a advogar um regime jurídico-
penal com sobrecargas de penas para os traficantes de droga, tem sido um espaço de debate
do PCP que centra esta problemática no branqueamento de capitais e, finalmente o PSD que
assumindo a herança de dez anos de governação crítica com alguma ironia e sarcasmo a
actuação do actual governo enredado nas mesmas teias e embaraços.
Hoje em nome do combate á droga criou-se um aparelho institucionalizado de funcionários,
de unidades de apoio á toxicodependência envolvendo milhões de contos e milhares de
postos de trabalho. A droga é responsável, directa ou indirectamente, por cerca de 80% dos
processos crime em julgamento nos tribunais judiciais de Lisboa e Porto, 76% dos presos
(incluindo preventivos e condenações transitadas em julgado) estiveram em contacto com
os estupefacientes.
Perdoe-se-nos esta conclusão por ser excessivamente cínica: se por um golpe de mágica
acabasse o tráfico e a toxicodependência milhares de médicos, enfermeiros, assistentes
sociais, psicólogos, advogados, farmacêuticos ficariam á beira do desemprego. Para já não
falar de políticos e magistrados. E ainda muito mais grave, retiravam-se argumentos ao
Ministério Público para reivindicar crescentes poderes totalitários sobre a máquina judicial
e o padre Feytor Pinto ficava sem emprego.
É evidente que é uma conclusão cínica e absurda. O Ministério Público tem todas as razões
para cada vez mais se assumir como um Estado dentro do estado, enquanto ao alto
comissário do Projecto Vida desejamos que Deus lhe dê muitos e bons anos de vida para
prosseguir a sua obra evangélica.
Agora, esvaziando de ironia esta reflexão, devemos dizer que esta novidade normativa, que
permite a infiltração de redes criminosas de tráfico de estupefacientes, é um instrumento
jurídico que reforça os poderes institucionais de que falámos mas encerrando perigos,
embora secundarizados ou até benéficos para a propaganda política, que podem potenciar o
incremento da comercialização da droga.
Algumas situações da história judicial recente, com particular destaque para dois
julgamentos que ocorreram em Olhão e Tavira o ano passado, mostraram como a utilização
do "terceiro actuando sob controlo da Polícia Judiciária", ou seja do informador que
trabalha para a organização criminosa e, simultaneamente, colabora com a polícia tem o
efeito da história do chouriço e do porco. A polícia apreende umas toneladas de haxixe,
ignorando ou ficando distraída á passagem do triplo da tonelagem que segue a caminho dos
seus destinos finais no norte da Europa.
Sublinhe-se o puritanismo hipócrita da lei que teme a palavra informador, chamando-lhe
"terceiro". Em França, o legislador segue o mesmo caminho, designando-o por "indicateur".
"Terceiro" ou "indicateur" é um instituto policial com um século de existência. É o "bufo"
em gíria que tem valido mais do que milhões de contos investidos em computadores e
muito mais barato do que os Congressos, Encontros, Conferências e Palestras que
inventariam as mil e uma fórmulas alquímicas de combater o grande tráfico de
estupefacientes. A história policial dos últimos vinte anos, no que respeita ás apreensões de
droga, viveram quase sempre da existência deste "terceiro" que agora a lei timidamente
vem institucionalizar formalmente. Por tal razão, não estamos perante uma novidade mas
sim em face da assunpção da importância do "bufo" no combate ao tráfico de
estupefacientes. Ou por outras palavras, caso o futuro venha a confirmar algumas situações
de que apenas se conhecem os contornos epidérmicos, estamos perante a possibilidade da
disposição legal abrir as portas á propaganda política e a negócios desta natureza:
- Chamem a televisão, avisem os jornais e façam lá este brilharete. Tomem oito toneladas
de haxixe e entretenham-se, enquanto nós fazemos passar trinta! O "terceiro" está agora em
condições legais de realizar este negócio. Basta que não diga á polícia que vai passar as tais
trinta toneladas e apenas lhe fale das oito. Voltando á ironia, poderíamos dizer que nas suas
finalidades últimas o poder político, no que respeita á propaganda política contra o negócio
da droga poderá ficar preso dos caprichos do "terceiro" isto é, do "bufo". Ou seja, o
combate aos estupefacientes garante o exercício do direito de cidadania ao velho "chibo",
"bufo", "informador", institui a delação como um argumento jurídico que reaviva os
procedimentos processuais de Torquemada ou de Varojão Távora.

2 - O Agente infiltrado

A figura do Agente infiltrado, ou recuperando as terminologias do célebre art. 5º, "o


funcionário de investigação criminal" cuja conduta não é punível no que respeita á
possibilidade de traficar estupefacientes, se tiver como preocupação da sua atitude acções
de prevenção e repressão criminal, coloca-nos problemas de natureza mais complexa e,
ainda, alimentados no húmus da demagogia e da propaganda.
Em primeiro lugar porque remete o agente de polícia para o conflito gerado por Maquievel
entre a moral substantiva dos meios e a moral formal dos fins a atingir e que os
racionalistas do séc. XVIII ousaram pensar ter arrumado de vez. Expliquemo-nos melhor.
Pensamos que esta figura do "Agente infiltrado" tal como é desenhado pela norma jurídica
consubstancia o velho e tradicional confronto entre a Moral e o Direito e revela como a
necessidade de eficácia formal do regime processual penal submerge - e perverte - a
dimensão ôntica que procura assegurar o valor do indivíduo como um dos pilares do
edifício constitucional. Isto é, este artigo da lei 45/96 vem autorizar um funcionário da
justiça e a respectiva cadeia de comando a tornarem-se autores do crime de tráfico de
estupefacientes despenalizando a sua conduta em nome da prevenção e da repressão
criminal.
Sejamos sérios. O que esta lei inscreve, e denuncia, é outro nível de incapacidade e de
ignorância confrangedora perante a vida e a complexidade que representa o fenómeno do
narcotráfico. Revela o medo de quem legisla face ao mundo e ainda mais grave, o medo
face aos seus próprios argumentos jurídicos e morais.
De facto, ao aceitar como boa, do ponto de vista ético, a atitude que despenaliza Agentes da
Polícia infiltrados em organizações criminosas de tráfico de estupefacientes, o legislador
teria sido obrigado a ir mais longe. É que os negócios de narcóticos perdeu há mais de uma
década a dimensão local, regional ou provinciana que permite admitir que infiltrar uma
organização e desmantelá-la é tarefa para dois ou três agentes de uma brigada de
estupefacientes. O tráfico transnacionalizou-se, é indissociável de outros comportamentos
delituosos com particular destaque para o branqueamento de capitais, ganhou uma
dimensão intercontinental e superou a nível mundial o negócio do armamento, colocando-
se actualmente no primeiro lugar dos negócios clandestinos.
A realidade é muito mais complexa do que esta bagatela jurídica que temos vindo a criticar
e publicada com honra de Lei. Quando o legislador aceita o princípio de que os fins
justificam os meios ao permitir a institucionalização do "Agente infiltrado", tem a
obrigação de levar até ás últimas consequências a sua convicção para nos fazer crer que não
estamos perante um mero acto de propaganda, mas em face de uma política severa de olho
por olho e dente por dente. Ao permitir a "aceitação, a posse, a guarda, o transporte", ao
autorizar que o "Agente infiltrado" cumpra ordens de traficantes permitindo-lhe "entregar
estupefacientes" para melhor realizar as tarefas de repressão e prevenção criminal, deveria
ter cumprido a cadeia lógica de procedimento, no que respeita á investigação policial,
autorizando a infiltração de Agentes na teia económico-financeira de branqueamento de
capitais por forma a atingir os traficantes naquilo que para si é primordial e a única razão de
ser da sua existência, ou seja, a reprodução de dinheiro.
Inibindo esta possibilidade e outras possibilidades - sabe-se que ao tráfico de
estupefacientes estão associadas outras redes criminosas que se dedicam á comercialização
de armas, de falsificação de documentos, de viciação de veículos e até de prostituição -, a
despenalização de condutas prevista no art. 59º revela-se como um acto de mera
propaganda que procura efeitos populistas que apaziguam medos e manipulam esperanças
dos mais crédulos e que, por outro lado, legitima situações de difícil aplicação do ponto de
vista policial ou com elevados riscos profissionais e deontológicos para os "Agentes
infiltrados". Por tal razão não traz do ponto de vista prático resultados tão optimistas quanto
optimistas foram os progenitores da Lei. Os resultados estão á vista. Pese o facto de apenas
terem decorrido onze meses desde a entrada em vigor daquele diploma não há notícia de
mais e melhores apreensões de droga, de desmantelamento de alguma organização de
tráfico de estupefacientes que não acontecesse com o regime jurídico anterior.

3 - A Norma Jurídica e a Sociologia da "Droga"

Como se vê, a grande novidade do "Agente infiltrado", do ponto de vista prático, afirmou a
instituição do "informador" como uma figura parapolicial, o que significa que a norma não
comanda a vida. Condiciona-a, mas não a determina. Ao creditar identidade ao "terceiro",
i.e. ao "bufo" a lei veio recuperar uma prática policial que a moderna investigação criminal
nunca desprezou e que obrigou a dezenas de anos de mentiras em relação ao regime
jurídico, utilizando velhos formulários que começavam invariavelmente "segundo
informação anónima", "segundo um telefonema de pessoa que não se quis identificar" para
que fosse possível accionar mecanismos policiais. O "bufo" passava a informação ao
Agente, a troco de umas imperiais com tremoços, e depois da entrada na União Europeia,
ganhando a dignidade que ser europeu exige, a troco de imperiais com camarão, o Agente
passava a informação ao Chefe, este ao Inspector, este por sua vez ao Magistrado, e embora
todos soubessem que a matéria em apreciação vinha do "chibo", formalmente todos faziam
de conta que o tal "telefonema anónimo" era a poção mágica que permitia apreender 2, 3 ou
4 toneladas de haxixe.
É a única virtude do art. 59. Permite ao polícia assumir a sua relação com a informação
oriunda do mundo criminal sem mentir e, por outro lado, é o tardio mas sempre louvável
reconhecimento de que sem este mundo de informações clandestinas o trabalho de polícia é
uma abstracção.
Ninguém ignora, sobretudo quem conhece os estudos e as experiências mais avançadas
sobre a "infiltração de Agentes", particularmente aquelas que foram feitas pela DEA em
países da América do Sul e da América Central, que não é possível encarar uma política
séria de combate ao tráfico de estupefacientes que seja alheia á troca de informação, de
ajuda mútua, de colaboração recíproca entre as polícias de diversos países, elegendo como
tarefa central de toda a estratégia repressiva o desmantelamento das redes de
branqueamento de capitais.
Enquanto isto, é preciso penetrar no interior do fenómeno imbricando-o naquilo que o
potencia, que o anima e lhe garante a continuidade, ou seja a explosão demo-urbanistica
que nos últimos cinquenta anos modificou a geografia humana do mundo produzindo os
grandes concentrados metropolitanos. É certo que as drogas acompanham a humanidade há
séculos, mas é axiomática a constatação que foi no interior das grandes metrópoles que
cresceu de forma exponencial o consumo de heroína e cocaína e a partir daí, irradiou de
forma capilar a todo o país, sendo regra que se repetiu em todos os países desenvolvidos do
Ocidente.
Como assinala Ruffié, a necessidade de consumo droga nasce do garrote que asfixia os
mecanismos de coesão das sociabilidades. Emerge entre os interstícios deixados pelo vazio
dos laços psicoafectivos de solidariedade horizontal e vertical, surgindo a metrópole como
o palco desagregador de todas estas relações sociabilitárias e, por outro lado, como a
principal protagonista e destinatária do grande tráfico porque nela surgem as condições
psicológicas, afectivas, sociais e culturais que predispõem aos maiores consumos.
Discutir tráfico e consumo de droga iludindo a história que lhe determinou o protagonismo
que hoje assume no quadro das preocupações judiciais de todo o mundo, é ignorar que as
sociedades metropolitanas contemporâneas são o imenso receptáculo onde tudo se joga:
traficantes, polícias, consumidores, magistraturas têm aí o seu privilegiado terreno de
confronto, tal como é nas metrópoles que se jogam e se decidem as políticas criminais. Ora
é sabido que a política e polícia resultam do mesmo étimo - pólis. Se a política é a arte de
administração da cidade, a polícia não passa do instrumento auxiliar da política para a
administração da pólis. Pensar numa boa polícia com uma má política é inverter os dados
do problema. No caso da legislação sobre o "Agente infiltrado" a política criou condições
para que se desenhe uma má polícia, mas como étimos são étimos, a culpa não será da
polícia mas sim da política quando as guilhotinas da Place Concorde deceparem o direito de
cidadania que o populismo da propaganda garantiu ao produzir o texto legal em apreço.