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UNIVERSIDADE DE LISBOA

FACULDADE DE BELAS-ARTES

UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE BELAS-ARTES PARQUE DA PRÉ-HISTÓRIA DA ARRÁBIDA UM CAMINHO PARA UMA MUSEOLOGIA

PARQUE DA PRÉ-HISTÓRIA DA ARRÁBIDA

UM CAMINHO PARA UMA MUSEOLOGIA PARTICIPATIVA

Carla Raquel Lourenço Santana

MESTRADO EM MUSEOLOGIA E MUSEOGRAFIA

2011

UNIVERSIDADE DE LISBOA

FACULDADE DE BELAS-ARTES

UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE BELAS-ARTES PARQUE DA PRÉ-HISTÓRIA DA ARRÁBIDA UM CAMINHO PARA UMA MUSEOLOGIA

PARQUE DA PRÉ-HISTÓRIA DA ARRÁBIDA

UM CAMINHO PARA UMA MUSEOLOGIA PARTICIPATIVA

Carla Raquel Lourenço Santana

MESTRADO EM MUSEOLOGIA E MUSEOGRAFIA

Dissertação Orientada pelo Prof. Doutor Luís Jorge Gonçalves e Coorientada pelo Prof. Doutor Paulo Sá Caetano

2011

Para o meu pai.

Agradecimentos

Agradeço a todos os que me ajudaram na realização desta investigação e que conseguiram conviver comigo durante o último ano, em particular ao Professor Doutor Luís Jorge Gonçalves, pela orientação e por partilhar comigo um projeto que antes de ser “nosso” foi dele.

Também ao Professor Paulo Caetano pela coorientação, porque desempenhou um papel muito importante e sempre se mostrou disponível.

Um agradecimento especial aos que partilharam a minha ânsia de respostas

e a dificuldade em formular perguntas, em particular ao Professor Manuel Calado, ao Miguel Manso, ao João Ventura, ao Ricardo Mendes, à Carla Pereira e à Elisa Ochôa, mas também a todos os que em alguma conversa me cederam a sua opinião. Obrigada Teresa, pelas traduções.

Devo também agradecer a todas as pessoas que constantemente impressionadas me dizem: Mestrado em Museologia? Mas isso não tem nada que ver com Design de Comunicação!. Espero com este estudo conseguir elucidá-las.

À minha família e amigos pelo apoio incondicional e por acreditarem num

projeto que passou também a ser deles, especialmente ao Renato.

PARQUE DA PRÉ-HISTÓRIA DA ARRÁBIDA: UM CAMINHO PARA UMA MUSEOLOGIA PARTICIPATIVA

Resumo:

Partindo do estudo do património natural e cultural da Serra da Arrábida e com base no resultado das investigações arqueológicas levadas a cabo no território de Sesimbra, mais propriamente na Serra do Risco, propõe-se a criação de um Parque da Pré-história da Arrábida.

Para a construção do projeto são lançadas as bases para uma Museologia Participativa em que se pretende, a par da salvaguarda e valorização do património, uma efetiva aproximação e responsabilização da comunidade local através da sua interação no processo construtivo.

São equacionadas questões relacionadas com a musealização de sítios e monumentos arqueológicos e analisados parques semelhantes em Portugal e na Europa.

A falta de exemplos que consigam abarcar todas as questões envolvidas neste projeto leva a que a temática se torne inaugural no panorama das instituições culturais.

Palavras-chave: Comunicação, Comunidade, Museologia Participativa,

Arqueologia, Património Natural, Património Cultural, Parque da Pré-história.

PRE-HISTORIC PARK OF ARRÁBIDA: A WAY TO A PARTICIPATING MUSEOLOGY

Abstract:

Based upon studies carried out at the natural and cultural heritage sites of the Serra da Arrábida and bearing in mind the results of archaeological investigations undergone in the Sesimbra area namely Serra do Risco, we propose the creation on a Pre-historic Park of Arrábida.

For the construction of this project there must be basis for a Participating Museology in which we project safeguard and valorize the heritage an effective approximation and responsibilisation of the local community through the interaction in the constructing process is paramount.

There are similar questions related with the creation of museums of sites and archaeological monuments in parks analysed in Portugal and in Europe.

The lack of existing examples that embrace all the questions in this project gives rise to a theme wich turns it inaugural in the panorama of cultural institutions.

Keywords:

Communication, Community, Participating Museology, Archaeology, Natural Heritage, Cultural Heritage, Pre-historic Park.

Índice

INTRODUÇÃO

1

I. Pertinência da Temática e Objectivos da Investigação

2

II. Metodologia de Investigação

3

III. Organização do Trabalho

5

Capítulo 1 Caminho Para Uma Museologia Participativa

9

1.1 – A Construção do Museu

11

1.1.1 – Ecomuseu

21

1.1.2 – Património e Comunidade

23

 

1.1.2.1

– O Projeto Educativo

26

1.1.3

– Museologia Participativa

28

1.2 – Museologia e Arqueologia

30

1.2.1

– Processo de Musealização de Sítios Arqueológicos

32

1.2.1.1 – Escavação e Investigação

33

1.2.1.2 – Critérios de Representatividade do Sítio

33

1.2.1.3 – Política de Intervenção

34

1.2.1.4 – Interpretação / Reconstituição

34

1.2.1.5 – Gestão e Manutenção

36

1.2.1.6 – Infraestruturas

36

1.2.1.7 – Comunicação

37

1.2.1.8 – Sinalização

38

1.2.2

– Parques Arqueológicos

39

1.2.2.1 – Caracterização geral

41

1.2.2.2 – Organização

41

1.2.2.3 – Programação

42

1.2.2.4 – Divulgação

43

1.2.3

– Um Estudo de Caso - Algaba de Ronda

44

Capítulo 2 As Terras do Risco

51

2.1

– A especificidade da Paisagem

52

2.1.1 – Factores Naturais

52

2.1.2 – Factores Culturais

57

2.1.3 – Factores Turísticos e Económicos

61

Capítulo 3 Parque da Pré-história da Arrábida

63

3.1 – Enquadramento de Um Projeto

63

3.2 – O Papel da Museologia Participativa

65

3.3 – Objectivos Estratégicos

66

3.4 – Modelo de Implementação

67

3.5 – Narrativas

68

3.6 – Programa Museológico: Um Projeto Duas Possibilidades

69

 

3.6.1 – A Utopia do Risco

69

3.6.2 – A Realidade no Risco

71

3.7 Modelo de Comunicação

72

3.8 – Matriz FOFA

75

SÍNTESE FINAL

77

BIBLIOGRAFIA

WEBGRAFIA

81

85

Índice de Figuras

Figura 1: Variáveis basilares na nova museologia

25

Figura 2: Evolução da Instituição Museal

28

Figura 3: Mapa do parque Algaba de Ronda

45

Figura 4: Vista aérea da recriação do povoado de Pré-história

Recente da Algaba de Ronda

46

Figura 5: Atividades educativas e didáticas dirigidas a públicos escolares . 47

Figura 6: Detalhe do acesso a uma das cabanas do povoado

47

Figura 7: Trabalho experimental do sílex mediante a técnica da pressão

48

Figura 8: O Rosto do Risco

51

Índice de Tabelas

Tabela 1: A diferenciação entre o museu tradicional e o ecomuseu

23

Tabelas 2, 3 e 4: Fases do Projeto Educativo

26

Tabela 5: Evolução do discurso museológico

29

Tabela 6: Parques arqueológicos analisados

40

Tabela 7: Escala cronostratigráfica do Meso-Cenozóico

54

Tabela 8: Matriz FOFA do projeto do Parque da Pré-história da Arrábida

76

Índice de Anexos

Anexo I: As Terras do Risco

II

Anexo II: Roteiro do Parque da Pré-história da Arrábida

III

Anexo III: Galeria de Imagens

IV

Lista de Abreviaturas

ICOM - International Council of Museums

MINOM - Movimento Internacional para uma Nova Museologia

CNRS - Centro Nacional de Pesquisa Científica de França

PNA - Parque Natural da Arrábida

PPA - Parque da Pré-história da Arrábida

) (

não poderei deixar à posteridade mais do que o meu testemunho, a que ela chamará vestígio se chegar até ela. Paul Veyne

INTRODUÇÃO

I. Pertinência da Temática e Objectivos da Investigação

A necessidade de comunicação inerente aos indivíduos pauta a sua

vivência ao longo dos tempos. Os modos de expressão utilizados como meio para comunicar variam consoante o contexto cronológico, natural, cultural e social dos seus criadores. Todos os homens, em todas as épocas sentiram esta necessidade que fez deles inevitavelmente comunicadores, mesmo nas comunidades primitivas, das quais os meios de comunicação se mostram eficazes passados milhares de anos após a sua utilização. O papel dos investigadores da atualidade será então ler os vestígios destes testemunhos, e contar a sua história ou a “nossa” história. Este é o mote para a realização da

presente investigação. O conjunto de vestígios descobertos na Serra da Arrábida, mais propriamente nas Terras do Risco deve, pela sua excepcionalidade comprovada neste estudo, ser interpretado e comunicado através da criação de um Parque da Pré-história da Arrábida, que se pretende que seja construído para e pela comunidade local. Aliar a unicidade natural e cultural deste território num projeto coerente e sustentável é vital para a sua correta salvaguarda e divulgação.

O processo de construção de um projeto patrimonial está subjugado aos

princípios da museologia como ciência que pretende valorizar e divulgar os

testemunhos do homem. A relação que se estabeleceu entre a instituição museal e os seus públicos sofreu mutações constantes e significativas ao longo da sua existência, encontrando-se hoje num patamar em que a

interatividade e a experimentação funcionam como catalisadoras do processo construtivo. Neste contexto são objectivos nucleares desta investigação:

a) Entender o desenvolvimento da instituição museal ao longo dos tempos, mas em particular recair sobre o seu papel na formação social e intelectual dos cidadãos;

b) Estabelecer os princípios de uma nova concepção da museologia, com aplicabilidade prática, tendo em consideração a sua relação com as

comunidades;

c)

Conhecer processos de valorização e musealização do património

arqueológico e em particular projetos que aliem o património natural ao património cultural;

d) Reconhecer a particularidade da Serra do Risco no universo da Arrábida, tendo em vista a criação de uma estrutura museológica a ela subordinada;

e) Propor a criação de um projeto impar com características peculiares e

em que se inaugure uma nova concepção da museologia;

f) Verificar as reais possibilidades para a realização do projeto através da

apresentação de objectivos e estratégias de atuação concretas.

II. Metodologia de Investigação

As prospecções arqueológicas iniciadas no ano de 2009 na Serra da

Arrábida revelaram um conjunto de elevado valor patrimonial, para o qual desde logo se pretendeu criar um propósito. Considerando a dificuldade de

apresentação das temáticas relacionadas com as comunidades pré-históricas,

a solução mais viável pareceu a criação de uma estrutura museológica que cumprisse a função de exposição e comunicação das descobertas, de uma forma lúdica e pedagógica. A concepção de um projeto com estas

características suscitou muitas dúvidas, essencialmente pela falta de referentes

e exemplos que abarcassem todas as áreas em estudo, nomeadamente a Biologia, Geologia, Arqueologia e Museologia.

O processo inicial passou então pela recolha de informação dos

exemplos que mais se aproximariam do proposto, como parques arqueológicos ou museus de arqueologia com ênfase na reconstituição histórica. As questões acerca do objectivo primordial do projeto começaram então a surgir: Será um espaço maioritariamente de lazer e diversão? Poderão conciliar-se a vertente lúdica e pedagógica em atividades motivadoras que desenvolvam a investigação arqueológica? Terá o parque um impacto efetivo junto da comunidade local? A análise dos exemplos nacionais e europeus considerados como amostra revelou algumas lacunas nas respostas procuradas. Assim, foi

necessária uma reflexão detalhada sobre a museologia e o modo como se

poderia adaptar e evoluir para permitir a efetiva participação dos visitantes na construção do museu.

A concepção proposta baseia-se na análise de exemplos de projetos

educativos em que as instituições procuram estabelecer uma relação estreita

com os seus visitantes, o ambiente e a comunidade local.

A bibliografia analisada serviu essencialmente para o cruzamento de

dados e teorias que permitissem uma visão abrangente sobre o mundo dos museus, o seu caminho e possibilidades futuras.

No que concerne à vertente arqueológica, foram considerados essencialmente estudos e ensaios sobre a valorização do património arqueológico na atualidade e o modo como se estabelece a incursão da arqueologia experimental em projetos de investigação.

A aproximação ao universo em estudo, a Serra da Arrábida, foi trabalhada pelo meio de visitas ao local, acompanhadas por técnicos e investigadores envolvidos nos trabalhos arqueológicos ou ligados à vertente científica do estudo da paisagem, possibilitando assim a recolha de testemunhos relevantes quanto ao impacto do projeto a nível ambiental, cultural e social.

O facto de se projetar uma estrutura no seio do Parque Natural da

Arrábida, levanta questões pertinentes no que concerne à legislação a que o espaço está subordinado, sendo então fulcral equacionar estratégias sustentáveis que não inviabilizem a realização do projeto. Foi também considerada a propriedade dos terrenos e os interesses a ela inerentes, bem como a necessária institucionalização do processo, dado que o espaço abrange os concelhos de Sesimbra e Setúbal. As entrevistas realizadas na investigação, a técnicos da Câmara Municipal de Sesimbra e a elementos da equipa que trabalhou no terreno desde o início das descobertas, foram de cariz informal. Os testemunhos recolhidos, não obedecendo a regras metódicas próprias da entrevista, serviram essencialmente para se apurarem as opiniões dos entrevistados, de modo a possibilitar o cruzamento dos dados recolhidos para organização do pensamento construtivo do processo de realização do Parque da Pré-história.

III. Organização do Trabalho

O enquadramento teórico da investigação apresentada está estruturado

de modo a refletir as temáticas que concorrem à formulação do processo de criação do Parque da Pré-história da Arrábida.

A presente nota introdutória pretende dar a conhecer a pertinência da

temática bem como os objectivos a atingir com a realização da investigação, sua metodologia e organização teórica. Museologia e Arqueologia são conceitos basilares trabalhados no Capítulo 1. Inicialmente é dada a conhecer a construção da instituição museal desde a sua origem e sobretudo a importância da relação que estabelece com os públicos desde então. O conceito de Ecomuseu é inevitavelmente estudado, para que as relações entre património e comunidade se compreendam. São analisados métodos que concorrem à realização de projetos educativos com comunidades, numa tentativa de estabelecer os princípios orientadores da Museologia Participativa. A inauguração deste conceito é fulcral visto que pretende estabelecer uma aproximação cuidada e trabalhada aos públicos, de modo a que estes se tornem parte integrante do processo construtivo do museu. A existência de serviços educativos nas instituições culturais teve um impacto significativo no que toca à diversificação da oferta e aumento de visitantes. Contudo, está ainda numa fase inicial o reconhecimento destas instituições no campo social e intelectual, como integrantes do processo educacional dos indivíduos. Pretendesse então reconhecer este papel e enaltecê-lo para que nos dias de hoje e no futuro se possam construir processos em parceria, valorizando a identidade cultural dos locais e sua comunidade, bem como contribuir para o seu desenvolvimento social e económico. No campo da Arqueologia são explicitados os princípios, estratégias e dificuldades inerentes ao processo de musealização de sítios arqueológicos para que melhor se entenda o universo a tratar posteriormente. A escassa informação sobre parques arqueológicos ou da pré-história dificultou a tarefa essencial de análise da sua organização e funcionamento. Contudo, a pesquisa levou à seleção de uma amostra significativa analisada segundo os seguintes critérios: caracterização geral, organização, programação e

divulgação. Será ainda analisado com maior pormenor o caso específico da Algaba de Ronda, pela sua semelhança no que diz respeito à tentativa de aproximação aos públicos através da arqueologia experimental. O Capítulo 2 apresenta o território que servirá de cenário ao projeto, as Terras do Risco. Pretende-se esmiuçar a especificidade da paisagem de modo a que se compreendam as variáveis naturais, culturais e simbólicas que a tornam passível de ser, urgente e devidamente, salvaguardada e divulgada. A sua geodiversidade e biodiversidade serão assim exploradas para que se conheça o território desde a sua formação à atualidade, abordando-se as questões que levaram à sua ocupação pelas comunidades pré-históricas. Esta ocupação será também caracterizada e mapeada através do estudo das evidências arqueológicas existentes. Considerando a hipótese de realização de uma estrutura museológica neste contexto, deve perceber-se a relação que se estabelece entre ele e a comunidade local, daí a necessidade de enquadrar a Arrábida nas dinâmicas turísticas e económicas vigentes na região. Após análise do território a trabalhar e passando à fase de apresentação do projeto, no Capitulo 3, devem refletir-se as políticas de valorização do património no concelho de Sesimbra, de modo a enquadrar o Parque da Pré- -história e entender as razões que o tornam necessário. O entendimento deste projeto passa pela explicação do papel da já referida Museologia Participativa na sua realização, de modo a que se estabeleçam objectivos estratégicos e se desenhe um modelo de implementação. A conjuntura ambiental da Arrábida é equacionada assim como os parâmetros legislativos de que depende. Acrescendo a este contexto a atual escassez de meios financeiros, na concepção do programa museológico sentiu-se a necessidade de apresentar duas possibilidades. Ambas são viáveis e cumprem os objectivos propostos, sendo a primeira para a criação da estrutura in situ, ou seja, na Serra do Risco, e a segunda para a criação deslocalizada do polo aglutinador do parque. Os fenómenos culturais da atualidade estão marcadamente dependentes do contexto social e económico dos indivíduos, daí a necessidade de se refletir sobre o modo como se pode comunicar o património e motivar os públicos quando não estão asseguradas todas as condições vitais à sua adequada sobrevivência. É então objectivo nesta fase, conceber um modelo de

comunicação eficaz e que possa ter um impacto efetivo e positivo junto dos potenciais frequentadores do parque. Para a concepção de qualquer projeto é considerada essencial uma avaliação do ambiente e condições em que se insere. Para tal, foi criado um quadro de análise FOFA (ou SWOT) em que se apresentam pontos fortes e pontos fracos inerentes ao projeto, e oportunidades e ameaças provenientes do ambiente externo em que está inserido. Finalmente, as Considerações Finais pretendem esclarecer o lugar da Museologia Participativa enquanto modeladora do processo de construção do Parque da Pré-história da Arrábida, lançando questões no campo da valorização do património natural e cultural. São tecidas sínteses conclusivas que, em resposta aos objectivos traçados, procuram efetivar o melhor caminho para a implementação e comunicação do Parque como estrutura patrimonial autossustentável.

Capítulo 1 Caminho Para Uma Museologia Participativa

Comunicação

(nome feminino)

1.

ato ou efeito de comunicar;

2.

troca de informação entre indivíduos através da fala, da escrita, de um código comum ou do próprio comportamento;

3.

facto de comunicar ou estabelecer uma relação com algo ou com alguém; relação; correspondência;

o

4.

o

que se comunica; mensagem; informação; aviso; anúncio;

5.

meio técnico usado para comunicar; transmissão;

6.

capacidade de entendimento entre as pessoas através do diálogo;

7.

passagem de um local a outro; acesso; via; órgãos de comunicação social; conjunto dos jornais, revistas e dos meios audiovisuais que têm como missão principal informar

o público.

(Do latim communicati ō ne-, «ação de participar») 1

Museologia (nome feminino) Ciência que trata da construção, disposição e equipamento dos museus, no sentido de criar as condições internas que mais bem valorizem a exposição do recheio e lhe assegurem a longevidade em perfeito estado, bem como o arranjo e realce da distribuição desse recheio. (Do grego mouse ĩ on, «museu» +lógos, «tratado; estudo» +-ia) 2

1 http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/comunicação 2 http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/museologia

O aparecimento do segundo indivíduo na terra, constitui em si, o mote

para o modo como as relações se estabelecem desde aí à atualidade. Sendo características únicas do Homem a linguagem e a capacidade intelectual, a atividade social depende das relações que se estabelecem e do modo como se estabelecem. O como, é o elo de ligação das comunidades. A comunicação estabelecesse assim, desde o início, como meio fundamental para a vida em sociedade. Nem em todos os momentos a comunicação se estabeleceu da mesma maneira, mas quer através da fala, da escrita ou da criação de objetos, os

homens começam a criar modos de expressão que possibilitam a interação, quer uns com os outros (em comunidade), quer com o meio que os rodeia (na construção de estruturas básicas que melhorem o dia a dia), quer com o que não compreendem (o lado místico da inevitabilidade da morte ou a incompreensão de fenómenos naturais de grande expressão).

A comunicação deu assim origem a variados testemunhos de todas as

épocas aos quais é conferido determinado estatuto e importância, quer pelo seu valor estético e simbólico, quer pelo seu valor histórico e pelo contributo

que podem fornecer na compreensão das civilizações. A necessidade de agrupar esses testemunhos, artísticos ou documentais, estabelece as origens do museu, e consequentemente, ao longo dos tempos, da ciência que se encarrega de estabelecer os seus princípios e funções, a museologia. Pretende-se então, nestas primeiras páginas, explanar a evolução da instituição museal e da museologia até à atualidade, para que se compreendam e justifiquem os caminhos e desafios que se apresentam num futuro próximo às instituições que se encarregam, em primeira instância, do depósito e exposição dos testemunhos da humanidade.

1.1 – A Construção do Museu

Conceito de Museu 3

1 – Museu é uma instituição de carácter permanente, com ou sem personalidade jurídica, sem fins lucrativos, dotada de uma estrutura organizacional que lhe permite:

a) Garantir um destino unitário a um conjunto de bens culturais e valorizá-los através da investigação, incorporação, inventário, documentação, conservação, interpretação, exposição e divulgação, com objectivos científicos, educativos e lúdicos;

b) Facultar acesso regular ao público e fomentar a democratização da cultura, a promoção da pessoa e o desenvolvimento da sociedade.

2 – Consideram-se museus as instituições, com diferentes designações, que apresentem as

características e cumpram as funções museológicas previstas na presente lei para o museu, ainda que o respectivo acervo integre espécies vivas, tanto botânicas como zoológicas, testemunhos resultantes da materialização de ideias, representações de realidades existentes ou virtuais, assim como bens de património cultural imóvel, ambiental e paisagístico.

Funções do museu 4

O museu prossegue as seguintes funções:

a) Estudo e investigação;

b) Incorporação;

c) Inventário e documentação;

d) Conservação;

e) Segurança;

f) Interpretação e exposição;

g) Educação.

3 Artigo 7.º da Lei n.º 47/2004 4 Artigo 3.º da mesma Lei.

O início da história dá-se com a invenção da escrita, “Por essência, a

história é conhecimento através de documentos” 5 , sistema que através da associação de símbolos gráficos comuns a um conjunto de indivíduos que os reconhecem e descodificam, lhes permite comunicar de modo simples e eficaz. Mas, já na pré-história, ou seja, aquando da existência de civilizações antes da escrita, era possível estabelecer relações de significação para que os indivíduos se entendessem com facilidade. As relações deviam estabelecer-se, como referido acima, em comunidade, com o espaço físico, mas também com

o lado místico e incompreensível. A misticidade da vida e da morte, tanto no

que se refere ao homem como ao universo, pode considerar-se marcante nestas civilizações, dela fazem depender as suas rotinas e rituais. Interessa nesta relação abordar a importância dada aos túmulos que construíam para os mortos e seus pertences. A crença na vida após a morte, pauta assim a

construção dos primeiros depósitos de objetos, que, sem qualquer lógica ou discurso, serviam de meio entre a vida terrena e a sagrada, ou o desconhecido. Neste contexto, é compreensível que já na pré-história determinados objetos, detentores de um estatuto que os elevava da sua mera função utilitária, fossem depositados em locais sagrados.

A perda de função para permanecimento na memória colectiva, é pois

uma característica do objecto de museu. O objecto pode dizer tanto da sua época, para além do seu valor estético e artístico, que deve ser exposto e dar

o seu contributo na construção e no não esquecimento da história.

O saber foi então “guardado” ao longo dos tempos em locais mais ou

menos organizados e com, ou sem, a preocupação de ser dado a conhecer democraticamente. A palavra museu deriva do grego mouse ĩ on, nome dado pela civilização grega aos Templos das Musas, locais de estudo e criação onde se reuniam os saberes. Os objetos belos ou provenientes do conhecimento científico e filosófico eram então acumulados em espaços sagrados, onde apenas a elite académica ou religiosa poderia privar, de que é exemplo a Pinacoteca de Atenas.

5 VEYNE (2008): 13

As grandes conquistas da época romana foram retratadas e dadas a

conhecer nos locais públicos para exaltação do poder imperial e como epíteto da eternidade. Nesta época é permitida a exposição de coleções privadas à sociedade e a investigação é levada a cabo não apenas pela ânsia do saber, mas pelo gosto pelo colecionismo.

O cristianismo relega toda a vida terrena para segundo plano e centra a

intelectualidade na igreja e seu imaginário. A arte serve de suporte para a transmissão da doutrina e como meio para educar o povo na cristandade, sendo então patrocinada e apoiada pelos poderes vigentes. Os mosteiros e os

palácios da época medieval são assim autênticos depósitos de tesouros com elevado valor artístico, simbólico e económico.

A ânsia pelo saber e o gosto pelo colecionismo acima referidos acabam

por culminar, no Renascimento, na multiplicação das câmaras de maravilhas (Wunderkammer) e das câmaras de arte (Kunstkammer), os gabinetes dos humanistas e dos príncipes adquirem um importante papel na formação do gosto. Os artistas, gradualmente, são reconhecidos pelos seus saberes filosóficos e matemáticos e deixam o universo do simples artesão executante. A investigação passa para níveis mais refinados, notando-se na pintura o gosto pela ruína, fruto de uma investigação arqueológica emergente. Os estudos científicos são cada vez mais elaborados e começam a desenhar-se os primeiros museus de ciência natural. Giorgio Vasari (1511-1574), funda em 1563 a Accademia del Disegno, em Florença, lançando o mote para o ensino académico das artes e impul- sionando a formação de coleções ímpares que pudessem servir de modelo aos aprendizes. Vasari elaborou estudos sobre vários génios do Renascimento contribuindo para o reconhecimento de um estatuto próprio para as artes e os artistas, conferindo-lhes identidade própria e valorizando as suas obras. As grandes galerias da renascença ostentavam o poder e a riqueza do colecionador. As paredes eram forradas a quadros dos grandes mestres, para melhor se entenderem motivações e técnicas, que através da comparação serviriam de modelo às artes do futuro. Contudo, esta organização confusa e sem pretensões ao nível da narrativa ou discurso vinha estabelecer o primeiro modelo de exposição das obras.

As cortes mais abonadas começam pois trocas comerciais para

engrandecer as suas coleções dando-se o mote para um mercado artístico nem sempre lícito.

É premente referir que a catalogação das obras vai gradualmente

evoluindo. Os primeiros documentos que pretendem inventariar os pertences das famílias mais ricas são os seus testamentos, que possibilitam hoje, saber a origem de determinadas obras. No decorrer dos séculos XVI e XVII verifica-se a preocupação de descrever, mesmo que sumariamente, a constituição das coleções pelo seu crescente valor económico num mercado da arte que se

começa a formar. As conquistas do território pelas nações imperiais levam a descobertas

de valor científico e etnográfico elevado. Descobertas essas, que eram também

tidas como testemunhos colecionáveis e passíveis de serem estudados.

A primeira instituição que surgiu na história com o nome de museu foi o Ashmolean Museum, “Founded in 1683, the Ashmolean is Britain’s first public museum and home to the University of Oxford’s world-class collections of art and archaeology.” 6

A partir de meados do século XVIII os museus propagam-se pelo

território e crescem em número e progressivamente em qualidade. Iniciam-se grandes mudanças na sociedade e no modo de entender a história que pautam

o desenvolvimento da instituição museal. Neste século Johann Joachim

Winckelmann (1717-1768) estabelece os fundamentos para o estudo da história da arte, apesar do seu reconhecimento académico apenas se consolidar em 1844 na Universidade de Berlim. 7 O modelo sistemático e científico da história da arte começa a ser delineador do discurso da museologia. As obras passam a ser apresentadas cronologicamente por

escolas nacionais e começam a notar-se esforços para uma maior coerência

na apresentação/exposição. A revolução cultural do Iluminismo contribui para a

sistematização dos campos temáticos dos museus, o que do ponto de vista do discurso museológico, é fulcral para o desenvolvimento do papel desta

instituição na sociedade.

6 http://www.ashmolean.org/transforming/ 7 http://pt.wikipedia.org/wiki/História_da_arte

A Revolução Francesa (1789-1799) altera completamente a direção que

tomava o mundo. O “tempo das luzes” clarifica mentalidades e, apesar de marcada por muitas disputas com consequências negativas, desbrava caminho para políticas sociais e culturais democráticas, dando direitos iguais aos indivíduos. 8 O ensino e o conhecimento devem ser para todos. As coleções começam gradualmente a passar do domínio privado para o público, sendo mesmo algumas transferidas para o património estatal. A acessibilidade às obras vai aumentando e a instituição pública museu, apercebesse das suas potencialidades formativas e didáticas e, sem fins lucrativos, toma como

principal objectivo o serviço público.

O Museu do Louvre abre portas a 10 de Agosto de 1793 com o intuito de

inaugurar estes princípios de igualdade. As coleções reais são apresentadas ao público em geral segundo uma seleção rigorosa. Evidentemente passamos de uma museologia da contemplação, onde em primeira instância as obras seriam individualmente contempladas com fins de aprendizagem, para uma museologia do discurso, onde organizado cronologicamente e por escolas, o conjunto das obras acarreta uma mensagem que deve ser transmitida ao seu público. Aquando destas transformações, os museus de arqueologia seriam os mais numerosos, servindo de inspiração para os artistas e prestigiando os seus colecionadores, contundo, possibilitando uma maior aceitação de novos ideias artísticos com o início dos museus de arte contemporânea, para exaltação do espírito cultural do presente. Em 1815 dá-se outra alteração diplomática a nível global de grande importância, o Tratado de Viena. Nos museus algumas das repercussões são a criação dos descentralizados museus de província e a abertura de academias das artes com sede em coleções locais. Esta descentralização havia de ser posta à prova com a tão relevante, Revolução Industrial que tem início em Inglaterra em meados do século XVIII e se propaga gradualmente pelo mundo ao longo do século XIX. A

8 Como todas as revoluções, apesar de se apoiar em ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade”, teve o seu lado negro, que não passou aquém dos museus. As pilhagens de bens artísticos e tesouros foram uma constante, fazendo com que alguns se perdessem completamente da sua origem nunca tendo regressado. É um facto que o conhecimento deve ser de todos, mas sendo o património delineador da memória colectiva de um povo, é essencial que as questões de pertença não sejam descuradas.

industrialização e a proletarização trazem ao mundo alterações económicas e sociais consideráveis, iniciando-se mudanças que pautariam as tecnologias e os processos de fabrico do futuro. As classes sociais sofrem mudanças no que toca ao seu poder económico, sendo a classe dominante a burguesia. A fuga massiva dos meios rurais para os centros urbanos é também característica desta época em que se buscam melhores condições de vida a todo o custo. Vários movimentos artísticos pretendiam chegar a todos os indivíduos, e, para que isso fosse possível, havia que diminuir os custos de produção dos objetos e produzi-los em quantidades significativas, perdendo-se assim a importância dada ao génio artístico e sua individualidade. As artes decorativas surgem como resposta a estas necessidades. A exaltação do mundo industrial tem o seu apogeu nas grandes exposições universais, onde se mostram ao mundo as possibilidades cada vez mais democráticas das industrias emergentes. Continuamos então perante um discurso museológico/museográfico que pretende exaltar de modo elitista (porque as soluções continuam inalcançáveis à maioria dos indivíduos), mas democrático (todos podem ser espectadores dos progressos tecnológicos e artísticos da ideologia triunfante). A perda de poder da igreja e da realeza culmina na transferência dos seus bens culturais para o estado, o que possibilita a criação de um maior número de museus estatais. Ao longo do século XIX os museus vão gradualmente ocupando o seu lugar na sociedade e no ensino artístico. Os ideais positivistas resultantes de tantas alterações filosóficas, científicas e sociais no mundo, têm também os seus reflexos no modo de pensar o museu. A datação, a classificação e a documentação (agora também com o apoio da fotografia que surge em 1826) começam a ser encaradas como essenciais nas coleções, e com o desenvolvimento das profissões técnicas relacionadas com o museu, o restauro assume também o seu papel na preservação das obras. 9 Os desenvolvimentos científicos e tecnológicos são também evidentes no campo da arqueologia, em que os progressos físicos e químicos contribuem

9 RIVIÈRE (1989): 100

para a identificação e datação das descobertas arqueológicas e paleontológicas, e abrem o caminho à pesquisa do retrato tecnológico, económico, social e cultural dos primeiros homens. 10 Essencial para esta investigação é também o estudo da terra e da sua antiguidade, que se inicia com a necessidade de exploração dos recursos geológicos e mineiros. A mobilização do povo para as grandes cidades leva à perda das sociedades rurais notando-se a necessidade de reunir e preservar os testemunhos deixados para trás nos museus de antropologia. A demarcação temática e multidisciplinar dos museus vai-se delineando crescendo estes exponencialmente em número e na qualidade da oferta aos seus públicos alvo. Paralelamente a estes acontecimentos, as ciências naturais ganham também em estatuto e os territórios naturais começam a ser vistos também como património preservável. Os parques nacionais ganham identidade e legislação próprias e são organizados de modo a que se possa tirar deles todo o partido possível, respeitando ecossistemas característicos que necessitam de maior cuidado e vigilância. O primeiro parque natural do mundo é o Yellowstone National Park, criado em 1872 no estado do Wyoming, Estados Unidos da América. Os museus de natureza selvagem propagam-se assim pelos Estados Unidos e pelo mundo. As revoluções e progressos acima descritos, e muitos mais que não têm lugar nestas páginas mas são de igual relevância, conduzem-nos até ao século XX, século de consolidação, mas também de ruptura no que toca ao campo dos museus. Os museus são agora instituições reconhecidas pelo seu valor patrimonial e educativo, e organizados sistemática e metodologicamente, possibilitam o desenvolvimento de novas linguagens e discursos. São construídos museus de raiz para albergar coleções de renome, ou para constituição de novas coleções, contemporâneas. As galerias e os centros de arte desempenham também um papel fundamental, principalmente no que toca ao desenvolvimento de um mercado da arte cada vez mais rico e globalizado.

10 Ibidem: 100

Os desafios colocados à museologia são crescentes e proporcionais às

transformações da sociedade. Os diretores dos museus apercebem-se de que estes desempenham um papel relevante na formação dos cidadãos e iniciam atividades públicas cada vez mais frequentes, como visitas guiadas ou conferências e palestras subordinadas a variados temas. A aproximação aos públicos através do discurso começa a fazer cada vez mais sentido até se tornar vector estruturante do programa museológico. Contudo, aquando da 1ª Guerra Mundial (1914-1918), é evidente a destruição ou fecho de muitos museus com coleções de grande importância. Nesta altura, como nas revoluções anteriormente apresentadas, as pilhagens são uma constante e a alienação de património volta a verificar-se. Em 1937, Jean Perrin (1870-1942) cria o Palais de la Décoverte, em Paris. Este museu pedagógico da ciência e da tecnologia pretendia dar aos

públicos a possibilidade de ver e experimentar a ciência, aproximando-os do conhecimento, sobretudo os mais jovens.

A 2ª Guerra Mundial (1939-1945) tem também repercussões

significativas na museologia, sobretudo no que toca à exaltação do patriotismo

e à predominância das ideologias políticas de cada nação. O museu é utilizado de novo, como meio de comunicação entre o poder e os cidadãos.

O prelúdio da crescente importância da função educativa nos museus,

foi já explicitado, mas é verdadeiramente a partir de meados do século XX, que

os museus na sua generalidade se começam a encaminhar nesta direção.

A criação em 1946, do International Council of Museums (ICOM), a

primeira organização profissional não governamental dedicada aos museus, vem alterar substancialmente o modo como estes se autogeriam e avaliavam. Com sede em Paris, "o ICOM é a maior organização internacional de museus e profissionais de museus dedicada à preservação e divulgação do património natural e cultural mundial, do presente e do futuro, tangível e intangível.” 11 O auxílio aos profissionais de museus passa por áreas como “cooperação e intercâmbios profissionais; sensibilização e divulgação dos museus; formação profissional; promoção da ética profissional dos museus; preservação do património e combate ao tráfico ilícito da propriedade cultural.” 12

11 http://www.icom-portugal.org/pagina,123,152.aspx
12

Ibidem

As conferências gerais do ICOM passaram a desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento dos museus a partir de então. É assumido que a museologia é uma ciência prática, subsidiada a conhecimentos de outras ciências, sendo assim multidisciplinar, mas autónoma no toca à criação do seu discurso e pensamentos delineadores. Em 1985, em Lisboa aquando do segundo Workshop Internacional da Nova Museologia, nasce o Movimento Internacional para uma Nova Museologia (MINOM) 13 , apoiado em princípios de justiça e igualdade aplicados na sociedade e que levam à reflexão do conceito de museologia global. As diferenças sociais e culturais dos indivíduos podem ser ultrapassadas num pensamento único e gerador de melhores condições de vida, sendo a museologia um meio para atingir este fim. As funções da museologia, recolher, preservar, investigar, gerir e divulgar os testemunhos do homem e da natureza com fins de educação e deleite, estão completamente consolidadas e alterando o significado e produzindo novo conhecimento apoiado na reflexão teórica e prática, esta ciência pode servir de suporte educacional na formação dos cidadãos, não apenas a nível cultural e artístico, mas também intelectual e social. Chegamos então a uma época em que os públicos são parte integrante e indissociável dos museus, como geradores de discussão e reflexão para melhor satisfazer as necessidades e expectativas da sociedade em constante mutação a nível político, económico, social e artístico. Os museus de hoje, estudam os públicos para melhorar a sua oferta e estreitar laços. A linha de pensamento seguida até ao momento parece de fácil compreensão, sendo justificada a evolução do museu até aos nossos dias. Mas será hoje o museu essa instituição completamente virada para os seus públicos? Serão as ofertas culturais suficientemente interessantes? Estará o património verdadeiramente salvaguardado? “A recente explosão de iniciativas propatrimoniais, muitas vezes incompetentes ou orientadas por interesses egoístas, e o crescimento das indústrias do turismo de lazer e do turismo cultural têm gerado numerosos efeitos negativos no campo social e sobre a preservação do próprio

13 http://www.minom-icom.net/index.php

património.” 14 A afirmação de Adília Alarcão parece responder às questões acima colocadas. Por um lado podemos refletir sobre as mais valias dos museus de hoje como a maior salvaguarda do património, a aproximação aos públicos ou a melhor eficácia na comunicação, mas por outro, não podemos esquecer os perigos que acarretam determinadas ideias pré-concebidas e institucionalizadas que são tidas em conta sem uma interpretação válida para cada um dos casos. Vivemos na sociedade dos excessos e da múltipla oferta a todos os níveis. Os visitantes dos museus aumentam, mas exigem consequentemente atividades mais ricas em conteúdo e experiência, que nem todos podem oferecer. O excessivo número de museus, nacionais, locais, regionais, públicos ou privados, leva-nos a situações de precariedade e deficiência ao nível dos recursos económicos e consequentemente humanos. O défice em número e formação dos recursos humanos dos museus públicos acarreta consequências inevitáveis e por vezes irreversíveis para os museus, ou para as obras, no que toca a problemas relacionados conservação, ou conservação preventiva.

Durante muitos anos o inventário (ou o bom inventário) não foi considerado essencial para o bom funcionamento do museu, hoje sabemos que é fulcral, pois através dele a salvaguarda do património é mais eficaz, e a política de incorporações da instituição pode também ser mais fundamentada.

O património in situ, ou seja, o património que deve ser salvaguardado

no seu local de origem sem que possa ser transferido para as instalações do museu, é também uma preocupação.

A degradação de alguns museus e a falta de recursos que viabilizem a

sua correta manutenção tem estado também em discussão. As instituições que dependem somente dos subsídios estatais, tendem a correr sérios riscos dada a atual situação económica global. Estas são apenas algumas questões prementes que podem ser tidas em conta quando falamos na falência do museu de hoje. As políticas de gestão dos museus são estanques e devem obedecer à legislação em vigor, o que faz com que muitas entidades gestoras de museus

14 ALARCÃO (2009): 9

não procurem soluções viáveis e criativas, conforme a lei, para melhor responder às suas necessidades.

O museu depende somente das pessoas. Das pessoas que o gerem e o

fazem funcionar, e das pessoas que o visitam e através dele adquirem conhecimento. O individuo é em todos os sentidos parte integrante desta

instituição, e ela dependerá consequentemente dele.

1.1.1 – Ecomuseu

Após entendimento da evolução da instituição museal ao longo dos tempos, é vital para este projeto uma passagem explicativa sobre o conceito de ecomuseu. As repercussões do museu na sociedade serão então cada vez mais evidentes ao longo das próximas páginas. Este conceito é considerado por muitos autores utópico e inalcançável, mas por outros, o início de uma era para uma nova museologia, não apenas do discurso mas da comunidade.

A palavra ecomuseu é aplicada pela primeira vez por Robert Poujade

(1928), ministro do ambiente de França, em 1971 aquando da 9ª conferência geral do ICOM, contudo, os ideais deste conceito haviam sido explanados por Georges Henri Rivière (1897–1985) e Hugues de Varine (1935), seu substituto no cargo de presidente do ICOM em 1965.

A relação entre o homem e o seu ambiente natural deverá ser o mote

para o desenvolvimento destes museus do tempo e do espaço, contribuindo a alteração da visão da política de ordenamento do território com vista às receitas provenientes do turismo e a valorização das áreas protegidas com estruturas museográficas que permitissem um maior diálogo com a comunidade, para a sua real concretização. O público e a qualidade da relação que mantem com o referente (museu, exposição, obra) são então as razões motivadoras para novas concepções na forma de devolver o espaço e o tempo à comunidade. Un espejo en el que dicha comunidad se mira para reconocerse, en el que indaga la explicación del territorio en el que está arraigada, junto a las colectividades predecesoras, tanto en la discontinuidad como en la continuidad de las generaciones. Un espejo que esta comunidad ofrece a sus huéspedes para

hacerce comprender mejor, com el respeto debido a su trabajo, sus comportamientos y su intimidad.” 15 Os membros da comunidade, em conjunto com as instituições que detêm o poder, devem ser fazedores do processo museológico e nele encontrar retorno melhorando substancialmente a sua vida. “Un ecomuseu es un instrumento concebido, construido y explotado conjuntamente por un poder y una comunidad.” 16 A parceria entre a comunidade e as instituições detentoras de poder administrativo e económico deve resultar numa construção benéfica para ambas e para o património que pretendem salvaguardar e valorizar. Ecomuseu pode então ser caracterizado segundo as seguintes variáveis: una expresión del tiempo (apresentando o passado, o presente e preparando o futuro); una interpretación del espacio (de espaços privilegiados que mantêm uma relação estreita com a sua comunidade ao longo dos tempos e ao mesmo tempo são dela caracterizadores); un laboratório (onde o estudo histórico, a formação, a investigação e a cooperação são variáveis indissociáveis); un conservatório (na medida em que pretende preservar e conservar o património); una escuela (subordinando as suas atividades a temáticas ricas à comunidade com vista à compreensão e resolução dos seus problemas). 17 Como instituição do e para o território e a comunidade, o ecomuseu traduz a ocupação de um espaço físico por um conjunto de pessoas através da interpretação dos seus testemunhos patrimoniais ao longo dos tempos. Assim sendo, pode diferenciar-se do museu tradicional no que toca aos seus vectores caracterizadores. A diferenciação entre o museu tradicional e o ecomuseu, foi sintetizada por Varine em 1974, no quadro seguidamente apresentado.

15 BOLAÑOS (2002): 284 16 Ibidem. 284 17 Esta sintetização o é resultado da análise dos textos BOLAÑOS (2002) 2 RIVIÈRE (1989) 2 e HUBERT (1989). Os pontos em comum nas teorias são caracterizadores do conceito interdisciplinar de ecomuseu, que aqui, se pretende servir de apoio à formulação de novas ideias geradoras do projeto a apresentar no decorrer deste trabalho.

Museu Tradicional

Ecomuseu

Coleção

Património

Público

Comunidade 18

Edifício

Território

Tabela 1: A diferenciação entre o museu tradicional e o ecomuseu 19

1.1.2 – Património e Comunidade

“Le musée est une institution en perpétuelle mutation.” 20 Esta afirmação de Rivière caracteriza genérica e sumariamente o que ele considera como museu, ou ecomuseu. As constantes transformações a que se refere são simplesmente fruto da incontornável relação de dependência entre o museu e os seus públicos. Ora se estes estão em constate desenvolvimento porque inseridos numa sociedade mutável, o museu terá também constantemente de acompanhar essa evolução para melhor se adequar a novas necessidades. Como se comprovou nas páginas anteriores, ao longo dos séculos, mas principalmente no século XX, as alterações sociais e culturais foram constantes e fulcrais para o modo como hoje se encara a mediação entre o museu e os públicos. Assim, numa sociedade onde as ofertas são múltiplas a todos os níveis, o museu tem a tarefa de encarar na sua missão uma preocupação crescente no que toca a modelos de comunicação e interação. As componentes lúdica e pedagógica nunca devem ser descuradas, devendo devolver-se ao destinatário da mensagem de modo claro e apelativo os pontos de partida e de chegada às conclusões apresentadas. A diversidade de públicos é hoje encarada como uma mais valia para o museu, sendo as diferenças sociais, económicas, intelectuais ou culturais trabalhadas para melhor se chegar a cada grupo. As interpretações possíveis devem ser tratadas pelos técnicos do serviço educativo do museu para que a

18 Pode dizer-se que a comunidade, como criadora e paralelamente destinatária do seu próprio discurso, tem um valor acrescentado. Este princípio será tão válido, que atualmente nas novas concepções museológicas, se pretende dos públicos dos museus que sejam criadores e simultaneamente fruidores do produto do museu. (Esta afirmação será retomada, e devidamente explanada, nas páginas seguintes)

19

20

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecomuseu

DESVALLÉES (1989): 346

comunicação gere conhecimento e massa crítica, influenciando os modos de

ver e de compreender o mundo. “Los educadores deben ser capaces de dotar a los visitantes de instrumentos para cuestionar la comprensión, el significado y la voz de los mensajes expositivos, aportando nuevas lecturas que proporcionarán una visión más amplia e crítica de la institución museística.” 21

A aposta na criação de serviços educativos em Portugal apenas se deu

relativamente 10 anos, com o projeto do Centro de Pedagogia e Animação do Centro Cultural de Belém. Primeiramente, as atividades centravam-se num público infantil e juvenil que visitava as instituições no âmbito escolar. “A escola, ao encaminhar as crianças e os jovens para esses espaços, pressupõe que a problematização dos usos sociais da memória, das relações e produções materiais e simbólicas do homem ao longo do tempo, em diferentes sociedades e culturas possa contribuir para o desenvolvimento de uma atitude cidadã.” 22

Esta efetiva envolvência dos jovens nas problemáticas do museu, pretende através da memória cultural, da aquisição de conhecimento e da emoção, sensibilizá-los não apenas para a salvaguarda do seu património, mas para o entendimento de um mundo que é consequência do passado e no qual as transformações contemporâneas devem ser cuidadosamente equacionadas. Este pensamento parecerá conservador, mas não devemos esquecer que o desequilíbrio global do presente, pela total mediatização da vida pública e até da privada, pode causar nos jovens o desinteresse pelas suas origens e o culto das novas formas de comunicação, que devem ser aproveitadas com total consciência e tentando ao máximo salvaguardar a esfera individual. “El museo es un elemento de integración educativa y social en tanto que puede articular una educación formal com la no formal, relacionando las personas com su barrio, com los medios de comunicación y com las nuevas tecnologías.” 23

A necessidade dos museus de ir ao encontro dos seus públicos efetivou-

-se também com outros grupos como séniores, portadores de deficiência, minorias (população imigrante e etnias marginalizadas) e comunidades locais, ansiando os públicos por experiências novas que justifiquem uma relação

efetiva com a instituição museal.

21 JUANOLA e COLOMER (2005): 37

NASCIMENTO e ALMEIDA (2008): 3 23 JUANOLA e COLOMER (2005): 33

22

Neste contexto, aproximamo-nos novamente dos princ’pios do ecomuseu. Tendo a instituiç‹o museal atravŽs do serviço educativo a miss‹o de proteger e divulgar o patrim—nio em estreita relaç‹o com a comunidade, que deve ser interveniente regular e n‹o apenas visitante pontual, atravŽs de parcerias que promovam o desenvolvimento cultural e social de determinado territ—rio. A aproximaç‹o de indiv’duos desinteressados pelo seu meio cultural e social do museu, promove ou pode promover a n’vel local (em primeira inst‰ncia) a melhoria das condiç›es de vida das comunidades, que fazedoras do seu discurso e intervenientes na hist—ria quer pelo conhecimento do passado ou pela construç‹o do futuro, se apresentam no in’cio e no final de uma cadeia social e cultural, como criadoras e fruidoras do patrim—nio.

Comunidade Museu Patrim—nio
Comunidade
Museu
Patrim—nio

Figura 1: Vari‡veis basilares na nova museologia (elaboraç‹o pr—pria)

Sucintamente, a intervenç‹o dos projetos educativos combina assim as três vari‡veis basilares da nova museologia:

¥ Comunidade: gerou e gera os testemunhos culturais e com eles aprende sobre o seu passado, presente e futuro;

Património: os testemunhos culturais da comunidade do passado ou do presente que são interpretados para um melhor entendimento do mundo e do outro (do passado ou do presente);

Museu: construído pela e para a comunidade é local de memórias,

conhecimento e encontros com a história e com os outros (do passado

ou do presente).

1.1.2.1 – O Projeto Educativo

Pretendesse agora refletir sobre as fases necessárias à realização de um projeto educativo. Esta organização metodológica do modo como se pode verdadeiramente envolver a comunidade num projeto, pretende abrir caminho a uma visão rica de acontecimentos museológicos possíveis, que não se confinam apenas ao domínio ou ao espaço físico da instituição. A crescente falta de financiamento para atividades culturais tem com certeza minado o trabalho das instituições, mas cada vez mais se aprenderá a trabalhar com um mínimo, não razoável, mas inevitavelmente suficiente. A

criatividade desempenha aqui um papel relevante, servindo de apoio à criação de projetos aliciantes e com parcerias válidas.

O museu pode então ter um papel importante na formação dos

cidadãos, auxiliando os poderes vigentes nas suas tarefas, cada vez mais

difíceis de cumprir.

1ª Fase

Levantamento dos Recursos (diagnóstico da situação)

- sociais

grupos sociais e de solidariedade social

- económicos

empresas; sectores de atividade; índices de produtividade; população ativa

- culturais

equipamentos públicos e privados; situação geográfica; faixas etárias;

estratos sociais dos públicos

- educativos

rede escolar; educação de adultos; número de professores

- mentais

atitudes dominantes; inovações de ponta – artísticas, científicas,

tecnológicas

- políticos

estrutura político-administrativa; forças políticas e sua organização

2ª Fase

Metas a alcançar: Objectivos (quanto mais concretos mais realizáveis)

- no terreno das instituições

incentivar a proliferação de instituições para promover a discussão e reflexão democrática

- no tecido social

comunicação entre os grupos para enriquecimento social; roteiros turísticos e culturais

- na animação do tecido económico

formação profissional e novos postos de trabalho

na renovação de estratégias educativas

-

novas pedagogias para formação dos alunos

na dinamização cultural da região estabelecendo parcerias

-

museu como recurso da comunidade escolar e com produtos culturais de qualidade

no desenvolvimento integral da região captando parceiros

-

ambiente; urbanismo; qualidade de vida; desenvolvimento sustentado

- nos comportamentos societários

desenvolver atitudes com as minorias

- na animação comunitária

centros históricos revitalizados com espaços de entretenimento e lazer

3ª Fase

Estratégias de intervenção museológica

- exposições

no museu, em associações e instituições culturais e itinerantes (pelos equipamentos escolares)

- organização de novos projetos

nas empresas, centros de saúde ou escolas

recolha, estudo e constituição de coleções, inventário e pesquisa

-

apelo à comunidade do seu sentido de preservar as memórias e passado histórico

partilha de saberes técnico museológicos

-

fichas de património desenvolvendo o interesse para os jovens levem os seus familiares e amigos; voluntariado nas tarefas de recepção do museu e apoio às exposições

- atividades de extensão educativa

promover o estudo da história local e ensino de expressões artísticas

- intervenção comunitária

relacionando população ativa com as escolas em temas comuns nas exposições

discussão de temas importantes para a região e seu futuro

-

debates; congressos; colóquios; encontros

protocolos com universidades e museus para novos projetos de investigação e reflexão museológica

-

Tabelas 2, 3 e 4: Fases do projeto educativo 24

24 Esquema realizado através da análise e resumo do documento DUARTE (2010)

1.1.3 Ð Museologia Participativa

Ò( ) d'impressions sensitives fortes qui accompagnent la vision de l'objet et renforce son impact ou son message. L'Žcrit devient alors inutile ou minimum: la pŽdagogie, la signification passent par l'object, as prŽsentation au visiteur, et non plus par le texte. Cet apport de Georges Henri Rivière est fondamental. Le exposition ne pourra plus jamais être cet affichage gŽant das pages d'un livre que l'on serait tenu de dŽchiffrer.Ó 25 A alteraç‹o de paradigma presente na afirmaç‹o advŽm da evoluç‹o hist—rica do museu que atr‡s se explicitou. A t—nica n‹o pode continuar na informaç‹o textual, por vezes dif’cil de decifrar (pois Ž constru’da por investigadores numa linguagem pouco corrente), mas no objecto e nas emoç›es que o muse—logo e equipa de tŽcnicos do serviço educativo lhe pretendem atribuir. Como j‡ foi comprovado, as possibilidades de interpretaç‹o s‹o t‹o infinitas quanto a individualidade de cada ser, mas cabe ˆ equipa do museu estudar significados e emoç›es para transmitir aos pœblicos o que se pretende ensinar e o modo como se d‡ a conhecer cada objecto expositivo.

Figura 2: Evoluç‹o da instituiç‹o museal 26

Objeto
Objeto

¥ conservaç‹o

Sujeito ¥   pœblico Objeto + Sujeito
Sujeito
¥   pœblico
Objeto + Sujeito

¥ comunicaç‹o

25 LAVALOU (1989): 361 26 Esquema baseado na teoria de D’az Balerdi, apresentada na obra La Mirada Inquita (2005): 28

) (

todos los dŽmas. La primera se caracterizar’a por la preponderancia del objeto. La segunda, por la del sujeto. La tercera, por el acento que se pone en la relaci—n entre el sujeto y el objeto. O lo que es lo mismo, conservaci—n, pœblico y communicaci—n.

tres grandes etapas, cada una de las cuales gira en torno a un vector prioritario al que se supeditan

O modo como interpretamos a evolução da instituição museal pode

também ser diverso, mas a sua ideologia inerente acaba por caminhar para as mesmas conclusões. No esquema acima representado, observamos a evolução tendo em conta as duas variáveis base, o objeto e o sujeito. É de fácil compreensão que

a comunicação é a fase em que nos encontramos atualmente. Esta deve ser geradora de emoção e conhecimento para uma verdadeira relação entre a instituição e os públicos. Os públicos e a sua experiência são agora mais importantes que tudo o

resto. Não descurando de todas as preocupações inerentes ao museu, como a preservação, a conservação ou a investigação. O museu deve ser capaz de equacionar todas as variáveis da melhor forma para que a comunicação se faça através da experimentação. O público hoje deve ser construtor do museu

e do seu discurso, com as parcerias que se inauguraram com a evolução do conceito de ecomuseu e com os projetos dos serviços educativos. Num crescendo cronológico, podemos no esquema abaixo identificar as fases de evolução do discurso museológico.

Acumulação

Objetos

Culto

Classificação

Contexto

Apresentação

Reconstituição

Espetáculo

Público / espectador

Interatividade

Experimentação

Público / fazedor

Tabela 5: Evolução do discurso museológico (elaboração própria)

Hoje, e no futuro a museologia deve ser cada vez mais uma ciência da participação, da investigação teórica, mas também da investigação prática. Os investigadores e técnicos dos museus devem munir de ferramentas os seus públicos para que estes se encontrem capazes de fazer o museu. Conciliando a museologia participativa com o turismo e a cada vez mais facilitada mobilidade dos indivíduos, é possível aumentar a oferta cultural de modo cuidado e não gratuito.

1.2 – Museologia e Arqueologia

Conceito e âmbito do património arqueológico e paleontológico 27

1 – Integram o património arqueológico e paleontológico todos os vestígios, bens e outros indícios da evolução do planeta, da vida e dos seres humanos:

a) Cuja preservação e estudo permitam traçar a história da vida e da humanidade e a sua relação com o ambiente;

b) Cuja principal fonte de informação seja constituída por escavações, prospecções, descobertas ou outros métodos de pesquisa relacionados com o ser humano e o ambiente que o rodeia.

2 – O património arqueológico integra depósitos estratificados, estruturas, construções, agrupamentos arquitectónicos, sítios valorizados, bens móveis e monumentos de outra natureza, bem como o respectivo contexto, quer estejam localizados em meio rural ou urbano, no solo, subsolo ou em meio submerso, no mar territorial ou na plataforma continental.

3 – Os bens provenientes da realização de trabalhos arqueológicos constituem património

nacional, competindo ao Estado e às Regiões Autónomas proceder ao seu arquivo, conservação, gestão, valorização e divulgação através dos organismos vocacionados para o efeito, nos termos da lei.

4 – Entende-se por parque arqueológico qualquer monumento, sítio ou conjunto de sítios arqueológicos de interesse nacional, integrado num território envolvente marcado de forma significativa pela intervenção humana passada, território esse que integra e dá significado ao monumento, sítio ou conjunto de sítios, e cujo ordenamento e gestão devam ser determinados pela necessidade de garantir a preservação dos testemunhos arqueológicos aí existentes.

5 – Para os efeitos do disposto no número anterior, entende-se por território envolvente o contexto natural ou artificial que influencia, estática ou dinamicamente, o modo como o monumento, sítio ou conjunto de sítios é percebido.

27 Artigo 74.º da Lei n.º 107/2001

As comunidades e os forasteiros (turistas) podem em conjunto, se motivados para tal, viver experiências culturais cada vez mais ricas, construindo memórias que justifiquem o passado, o presente e também o futuro.

Nesta fase deve estabelecer-se um paralelo entre a instituição museal e

o património arqueológico, para que se entenda a relação entre museologia e

um conceito comummente relegado para fins de entretenimento e lazer, o de parque. Pretende caracterizar-se não um tipo de museu ou de parque, mas um museu-parque onde os dois conceitos se fundem para lúdica, pedagógica e

comunitariamente se apresentarem a origem do homem, da arte e da ocupação e apropriação de um território. Para esta caracterização contribuem os conhecimentos anteriormente explicitados, de nova museologia, ecomuseu

e projeto educativo, de modo a que temáticas tão ricas e complexas do ponto

de vista educacional, como as da pré-história, possam ser fruídas pelos

públicos, e compreendidas pela comunidade, de forma simbólica e divertida, mas também direta e séria. Nas páginas seguintes é objecto de estudo a arqueologia e sua correta valorização. A criação de estruturas culturais que abordem estas temáticas é frequente, mas o que se pretende no projeto a apresentar, é o estudo de todas as problemáticas que concorrem para uma instituição cultural inovadora, cujos princípios basilares se apoiam na já apresentada museologia participativa. “Bens a defender, a usufruir, a explorar de mil maneiras, o património cultural e natural entra a pouco e pouco na Escola (como objecto de estudo para os mais velhos, como objecto de sensibilização para os mais novos) e invade as esferas da governação local e central, já para garantir a sua preservação, já para atrair turismo e financiamento ou, ainda, prestígio e

poder.” 28 Adília Alarcão refere-se aqui às transformações de meados do século

XX que ainda hoje se verificam no que concerne às motivações da salvaguarda

e proteção do património cultural e natural considerando que, “Quando não

alicerçada em bases conceptuais largamente debatidas e experimentadas, a ânsia de proteger, restaurar e rendibilizar (cultural e/ou economicamente) um bem patrimonial pode conduzir aos piores resultados.” 29

28 ALARCÃO (2009): 12 29 Ibidem. 13

1.2.1 – Processo de Musealização de Sítios Arqueológicos

A musealização in situ de testemunhos arqueológicos é uma constante

desde os anos 80 do século XX, o papel do arqueológo ganhou importância

acrescida. Este investigador que interpreta vestígios à primeira vista inócuos para a maioria dos observadores, tem desde então, a árdua tarefa de interpretação e construção de metodologias de abordagem de modo a comunicar e simultaneamente preservar os testemunhos mais antigos da humanidade. Daí à atualidade esta temática foi-se consolidando quer através de encontros e congressos, quer através da realização de intervenções pioneiras que abriram caminho a discussões cada vez mais prementes.

A educação pela arqueologia passou também a desempenhar o seu

papel na consciencialização social para a preservação e conservação do

património com vista à formação da memória colectiva. A valorização dos sítios para sua apresentação pública é uma forma de conservação ativa, estando assegurados os meios necessários à manutenção dos vestígios arqueológicos.

A valorização de sítios arqueológicos não pode nunca ser promovida

gratuitamente, e deve apoiar-se em critérios mais ou menos estabelecidos, que pautam a validade futura do projeto. “Inequivocamente, qualquer ideia de projecto só será possível depois de terem sido levados a cabo trabalhos de escavação e investigação. O projecto só poderá alicerçar-se num plano específico interdisciplinar. O segundo passo será o de avaliar se o local se inscreve dentro dos critérios estabelecidos, para ser seleccionado como representativo num plano nacional dos sítios arqueológicos a investir a nível da sua interpretação e abertura ao público. Ou seja, afirma-se a importância científica de todas as áreas arqueológicas, mas nem todas apresentam perfil turístico nem correspondem aos critérios de selecção referenciados. Eliminados estes problemas e aceite o local como tendo as condições exigidas para ser aberto ao público, há toda uma série de decisões a ser planeadas em conjunto: a definição de orçamentos e a filosofia de intervenção – conservação, restauro e soluções para a optimização de leituras, estruturas de acolhimento, constituição de equipas, manutenção e tutela da gestão, integração em circuitos ou itinerários regionais, sinalização correcta e eficaz divulgação. 30

30 MATOS (2008): 44

Com base nestas sucintas linhas orientadoras apresentadas por Olga Matos, apresentam-se agora os passos essenciais para a valorização/musealização de um sítio arqueológico.

1.2.1.1 – Escavação e Investigação

“A investigação científica tem que ser o motor inicial e primordial da actividade arqueológica.” 31 O resultado dessa investigação, apoiada na descoberta de vestígios relevantes para a construção de teorias sobre o passado do homem, serve de mote à proteção do património e da memória colectiva das comunidades. Os vestígios arqueológicos podem surgir em locais mais ou menos remotos, mas o seu papel no panorama geral pode ser fulcral para o desenvolvimento de novas teorias e conclusões. É dado adquirido que a investigação arqueológica pode contribuir para o desenvolvimento das sociedades atuais, principalmente como já se referiu, na formação da consciência de um passado que nos é comum, e sem o qual o presente seria completamente diferente.

1.2.1.2 – Critérios de Representatividade do Sítio

Os vestígios do passado devem ser devidamente estudados e inventariados, para posteriormente se avaliarem as suas reais capacidades de demonstração dessa memória colectiva aos públicos. No passado, as escavações eram consideradas local de interesse científico, mas ingenuamente ou por falta de meios, eram deixadas ao abandono, o que resultou muitas vezes na sua destruição ou pilhagem. Hoje, apesar de se reconhecer a escassez de informação em alguns sítios que consequentemente não podem ser valorizados, todo o seu contributo é devidamente documentado e são acionados os meios necessários para a sua possível salvaguarda. Por outro lado, o reconhecimento cultural de outros sítios, leva a que sejam devidamente classificados segundo as leis vigentes, e como consequência, protegidos de modo a que se reúnam as condições favoráveis à sua posterior valorização. Podem considerar-se o valor cultural dos sítios, a sua adequada conservação e integração em paisagens naturais

31 Ibidem.: 34

de comprovado interesse, e a sua inserção geográfica num destino turístico por excelência, variáveis essenciais para que se considere a sua valorização/musealização. 32

1.2.1.3 – Política de Intervenção

Quando é do interesse geral a valorização para posterior abertura ao público do sítio arqueológico deve ter-se presente a necessidade de integração do mesmo “na estrutura cultural, social e económica do espaço geográfico” 33 , tornando-o num polo dinamizador turística e pedagogicamente.

O distanciamento natural dos públicos em relação aos sítios

arqueológicos é justificado com a sua falta de ferramentas interpretativas para descodificação dos seus longínquos significados, devendo ser este o princípio

orientador da política de valorização. Para que se forneçam estas ferramentas tão necessárias, é vital preparar o local evidenciando as suas características e pormenores, quer através da limpeza e do restauro, quer através da sua interpretação arqueológica, geológica e antropológica.

Os objectivos culturais e educacionais devem ser delineados para que

se definam as estratégias a seguir.

1.2.1.4 – Interpretação / Reconstituição

Muitas pessoas entendem que a interpretação do património (móvel ou imóvel) dá dele uma visão sempre mais ou menos distorcida, mas todos sabemos quanto ajuda a usufruir um monumento ou um sítio ou uma colecção, se deles tivermos uma informação inteligente, motivadora.” 34 Este é o desafio, tornar a investigação acessível aos públicos de modo motivador, para que estabeleçam com o património uma verdadeira relação de pertença e memória do seu passado. Para a concretização deste princípio interpretativo dos vestígios arqueológicos concorrem inúmeros factores devendo destacar-se as características do sítio, enaltecendo-as e conferindo-lhes o protagonismo devido.

32 CALADO e ROCHA (2008): 85

33 SILVA e SILVA (2008): 93 34 ALARCÃO (2009): 14

As interpretações, como já foi referido, são tantas quantos os indivíduos

que as fazem, mas neste campo, cabe ao arqueológo e ao museólogo em conjunto delinear a interpretação que melhor pode tornar o sítio num local de fruição o mais abrangente possível. Os públicos são variados, é certo, e não se podem descurar as diferentes elações que serão tiradas tanto por investigadores e especialistas, como por jovens estudantes ou crianças, pela população local ou pelos turistas. A tarefa é árdua, mas deve ser trabalhada para que os resultados sejam os melhores.

A interpretação da informação deve transparecer as motivações,

contextos e modus operandi dos primeiros homens num discurso criativo e apelativo para que o interesse e análise crítica dos públicos sejam estimulados

e consequentemente se compreenda a origem dos vestígios apresentados e suas implicações e importância na atualidade.

As reconstituições são elementos aglutinadores das variáveis apresentadas, pois a interpretação tem a sua realização máxima na reconstituição do sítio como seria aquando da sua construção e utilização. Embora seja uma temática cara aos investigadores, o evoluir das tecnologias e

a descoberta de novos sítios por todo o mundo, tem facilitado a tarefa de

interpretação física e até simbólica destes espaços milenares. A evocação do passado deve na reconstituição ser o mais cuidada possível, pois é comum a proliferação de reconstituições inócuas em significado e que apenas apelam ao sentido cénico dos visitantes. As novas tecnologias no que concerne a materiais para construção de maquetas ou reconstituições gráficas, audiovisuais ou virtuais estão também suficientemente desenvolvidas e possibilitam ao investigador e ao técnico ou artista a construção de modelos que respeitem os vestígios arqueológicos,

reconstruindo o que hipoteticamente seria a sua estrutura e apresentação inicial. Não se devem mistificar estes processos construtivos. Ao visitante deve ser fornecido todo o material possível para que saiba de antemão estar perante uma reconstituição hipotética fundamentada por uma investigação rigorosa.

No que toca a reconstituições é passível ainda referir as reconstituições

de ambientes e vivências nos afamados ateliers. Aqui, mais uma vez, deve pensar-se cuidadosa e criativamente para que estes não sejam apenas

repetições supérfluas de instituição para instituição. Aos públicos deve ser fornecida a experiência, mas também a investigação que a possibilitou. Parecerá excessiva a quantidade de informação que deve ser fornecida aos públicos, mas não será, se as estratégias para a sua apresentação forem prévia e rigorosamente estudadas.

1.2.1.5 – Gestão e Manutenção

A gestão dos sítios musealizados dependerá diretamente do projeto de

intervenção. Esta poderá estar a cargo de organismos públicos ou privados e daí decorreram todas as especificidades orçamentais e de recursos humanos a que o projeto estará vinculado. Contudo, convém aqui reter que mesmo um bom projeto dependerá crucialmente da sua gestão e manutenção futuras. A manutenção do sítio e de estruturas afectas, quando se verificam, deve ser convenientemente trabalhada de modo a que se evitem situações constantes de abandono e degradação precoces. A relação do sítio com as atividades turísticas da região a que está afeto pode ser uma mais valia, quando os programas de gestão e manutenção funcionam inequivocamente.

1.2.1.6 – Infraestruturas

A existência ou não de infraestruturas de apoio ao sítio arqueológico

depende normalmente dos recursos económicos disponíveis e da sua relevância patrimonial. Mas, existindo ou não centros de acolhimento ou de interpretação, o visitante deve sentir-se recebido e perceber que o sítio comunica com ele e foi valorizado para que essa relação se estabeleça com o menor ruído possível. Assim, pede-se aos autores dos projetos a humildade necessária para com os vestígios arqueológicos e para com os seus visitantes, em construções que respeitem as características históricas, artísticas, simbólicas e funcionais dos bens culturais em questão. Nesta altura deve também referir-se a importância das paisagens naturais que normalmente servem de pano de fundo aos sítios arqueológicos. A diversidade natural dos locais deve ser trabalhada para que se tire o melhor

partido possível do envolvimento paisagístico dos sítios que, muitas vezes desempenha a função de acolhimento dos visitantes.

1.2.1.7 – Comunicação

O objectivo primordial da musealização in situ de estruturas

arqueológicas é a recuperação de memórias apagadas pelo tempo e consequente devolução aos públicos das descobertas sobre os modos de vida dos seus antepassados, consciencializando-os da urgência da sua preservação. As políticas de comunicação desempenham então um papel vital na apresentação e divulgação dos sítios de modo claro e apelativo, mas informado e rigoroso. Considerando que as relações do património com os públicos estão a

ser repensadas e estruturadas de modo a que se estabeleça um diálogo efetivo entre estas duas variáveis, essencialmente através de experiências, devem os modelos de comunicação ser também repensados.

Os públicos esperam atividades aliciantes e que respondam às suas

necessidades específicas, a comunicação deve satisfazê-las quer se trate de um grupo de turistas estrangeiros, um grupo de investigadores ou um grupo de crianças de uma escola local. A oferta deve assim ser variada no que toca por exemplo a itinerários e visitas propostas. Os materiais de apoio devem também agrupar vários níveis de informação, para os mais curiosos e para os que apenas buscam informação sumária. O discurso deve ser acessível e através de estratégias gráficas em painéis interpretativos e brochuras, ou multimédia em quiosques digitais ou áudio e vídeo guias o visitante deve iniciar um processo de descoberta do sítio como melhor lhe convier.

É importante relembrar que quando se trata de património arqueológico

os referentes de que os visitantes dispõem para o seu entendimento, são na maioria dos casos mínimos, daí a importância das representações hipotéticas

da vida dos primeiros homens. A aproximação é mais evidente quando se

disponibilizam maquetas, documentários ou ilustrações que permitam visualizar espaços e artefactos desconhecidos nos seus contextos de utilização.

A promoção e divulgação dos sítios devem também ser projetadas com

igual rigor e criatividade. Não esqueçamos que o modo como se divulga o sítio

funciona como convite para os visitantes. Nos dias de hoje é inevitável a presença na internet. Uma boa página de apresentação com acesso à programação das atividades e a disponibilização de materiais didáticos de qualidade despertam o interesse de potenciais visitantes. A integração em circuitos internacionais, nacionais ou regionais pode também ser equacionada e trazer mais valias não só ao monumento mas também à comunidade local. A divulgação jornalística quer na televisão ou rádio, embora comporte custos representa um crescendo no número de visitantes. No campo mais científico é importante valorizar a investigação sobre o sítio arqueológico em edições da especialidade que possam de algum modo contribuir para sua divulgação, mas também para outras descobertas semelhantes. A programação direcionada à comunidade é também um modo de divulgação, assim como as parcerias com escolas ou associações locais.

1.2.1.8 – Sinalização

A facilidade nas deslocações é hoje um fenómeno caro no que diz

respeito às motivações turísticas dos indivíduos. Assim, para que o património se inscreva nas suas atividades de eleição, deve o mesmo ser convenientemente sinalizado e de fácil acesso. Podemos definir duas variáveis caracterizadoras deste tipo de sinalética, a exterior e a interior.

A exterior é referente à sinalização rodoviária, que deve funcionar a

nível internacional e ser complementada pela sinalização regional e local que melhor encaminharão os visitantes aos sítios arqueológicos.

A interior, nos percursos e sítios em questão, deve sempre que possível ser bilingue e visível para que a visita se dê confortável e naturalmente.

1.2.2 – Parques Arqueológicos

Após entendimento das medidas necessárias à musealização de sítios arqueológicos, é altura de se passar para um nível mais elevado dessa valorização e interpretação, a criação de parques arqueológicos. A criação de parques desta natureza é relativamente recente, tem as suas origens na criação dos parques naturais, mas apenas se começa a aproximar do território da investigação arqueológica na década de 90 do século passado, o que faz com que os projetos ainda não estejam completamente estruturados e se mantenham em constante evolução. Estas estruturas caracterizam-se sumariamente pela musealização de sítios arqueológicos agregada a um museu ou centro interpretativo próprios, ou encaminhada para os museus normalmente locais, que os tutelam, e pela existência de uma programação específica que tende a aproximar os públicos dos testemunhos e contextos do passado. São poucos os exemplares a que se pode fazer referência, e ainda menos, a quantidade de informação que na sua generalidade disponibilizam. Na tabela que se segue, são enumerados os parques que se tomaram de exemplo. A aproximação a cada um deles, apenas foi possível através da informação que é disponibilizada na web, que servirá de ponto de partida para o entendimento das suas características históricas, arqueológicas e espaciais, organização, estratégia de abordagem aos públicos e programação. Os exemplos analisados foram divididos em dois grupos dada a sua natureza. No grupo 1 estão os que não dependem dos sítios arqueológicos para a realização das suas atividades, apoiando a sua interpretação e abordagem temática em reconstituições. O grupo 2 refere-se aos parques que desenvolvem a sua atividade nos sítios arqueológicos a que dizem respeito, podendo nalguns casos, como já foi ressalvado, existir infraestruturas onde se encaminham os visitantes e lhes é dada a conhecer a extensão do parque e suas atividades.

Tabela 6: Parques arqueológicos analisados

 

NOME / SITE

REGIÃO

PAÍS

 

Parc de la Préhistoire do Musée du Malgré-Tout http://users.skynet.be/cedarc/parc/parc.html

Treignes

Belgique

Musée de Préhistoire des Gorges du Verdon http://www.museeprehistoire.com/

Quinson

France

Parc de Préhistoire de Bretagne

Malansac

France

http://www.prehistoire.com/index2.php

SESTA - Site officiel du Service d'Exploitation des Sites Touristiques de l'Ariège http://www.sesta.fr/

Tarascon-sur-

 

-Ariège

France

Le Musée de Préhistoire de Tautavel

   

http://www.tautavel.com/articles-5/99-168-le-musee-de-

prehistoire-de-tautavel/ Le Musée de Tautavel – Centre Européen de Pré-histoire

http://www.450000ans.com

Tautavel

France

Chasseur de La Préhistoire – L'Homme de Tautavel, Il y a 450 000 ans http://www.tautavel.culture.gouv.fr/

1

Flag Fen Archaelogy Park http://www.flagfen.com/

Peterborough

England

Archaeolink Prehistory Park http://www.archaeolink.co.uk/

Aberdeenshire

Scotland

Parque Arqueológico de Atapuerca http://www.elpais.com/static/viajero/castillaleon/atapuerca/ parque_arqueologico.html http://www.visitasatapuerca.com/

Atapuerca

España

Museo de Altamira http://museodealtamira.mcu.es/

Cantabria

España

Parque Prehistórico de Málaga http://www.complejohumo.org/

La Araña

España

Algaba de Ronda http://www.algabaderonda.com/

Málaga

España

Valle Camonica - Archaeopark http://www.invallecamonica.it/aree/risorseculturali/parchitema

Valle

Italia

tici/scheda.aspx?IdRisorsa=310&Lingua=ITA

Camonica

http://siti.voli.bs.it/itinera/05/05/preistorica/default.htm

 

Parque Nacional Serra da Capivara http://www.fumdham.org.br/parque.asp

Piauí

Brasil

Parque Arqueológico do Vale do Côa

Vila Nova de Foz Côa

 

http://www.igespar.pt/pt/monuments/53/

Portugal

2

http://www.arte-coa.pt/

Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo

   

http://81.193.119.47/~museu/direita.html

Mação

Portugal

http://www.museumacao.pt.vu/

1.2.2.1

Caracterização geral

Os parques arqueológicos analisados têm em comum o facto de se apoiarem em investigações arqueológicas consistentes e rigorosas. Na sua maioria funcionam agregados a museus de arqueologia, pois o património arqueológico, objecto do parque, é por eles tutelado. Existem casos em que a relevância de um conjunto de sítios foi o mote para a criação de uma estrutura independe que pretende dinamizá-los e interpretá-los, com o objectivo de os devolver à comunidade com condições de acesso e informação melhoradas. A interpretação dos sítios é apresentada normalmente no local, através de painéis explicativos, em ambiente rural (quando o espaço do parque é para isso destinado) através de reconstituições, ou pela realização de exposições permanentes ou temporárias em infraestruturas criadas para o efeito. O funcionamento destas estruturas é fundamentado num conjunto diversificado de atividades para públicos variados, mas maioritariamente pretende-se atrair a comunidade escolar, que se apresenta como o seu meio de subsistência.

1.2.2.2 – Organização

O conceito de parque arqueológico ou da pré-história está ainda em

construção, pelo que a escassa oferta tende a procurar cativar os seus públicos através das experiências cénicas que possibilitam, o que leva a que

muitas vezes acabem por descurar do sentido pedagógico e investigacional em reconstituições pouco rigorosas.

É também importante que se entenda que a denominação parque,

funciona para estruturas delimitadas espacialmente e que circunscrevem as suas atividades na sua área limítrofe, mas também, num sentido lato, para agrupar conjuntos de sítios arqueológicos que podem ser percorridos com ou sem a presença de pessoal especializado. Neste segundo caso é comum a existência de uma estrutura de acolhimento que fornece as informações necessárias sobre a oferta do parque. Normalmente neste centro de acolhimento existem serviços básicos como sanitários, cafetaria ou restaurante, mas também de apoio como lojas e salas ou auditórios para a realização de encontros ou atividades.

Retomando a temática das reconstituições, constatou-se nestes exemplos que elas são o elemento primordial, sendo a partir delas dados a conhecer os modos de vida da pré-história, comummente através da reconstrução de sítios arqueológicos em maquetas à escala ou em tamanho real. É também recorrente o recurso a ilustrações de cenas do quotidiano nas exposições e nos painéis explicativos e a áudio-guias para apoio às visitas. No que toca à gestão destes parques, pouca informação é fornecida, talvez porque na sua maioria dependem de instituições estatais e dos seus subsídios, ou de apoios e parcerias. A realidade é que em todos a entrada é paga e os preços semelhantes tanto nos privados como nos públicos, entre os 5 e os 10 a entrada normal, sendo todas as atividades ou visitas guiadas acrescidas de valores variáveis. De salientar é o facto de muitos promoverem a sua autossuficiência, quer através dos lucros com a bilheteira, ou do aluguer de espaços para eventos e nalguns casos através da venda de produtos regionais, o que representa uma mais-valia pela aproximação à comunidade.

1.2.2.3 – Programação

A diversidade da oferta destes parques é lugar comum, e embora

tenham como público mais frequente a comunidade escolar, é objectivo atingir um espectro alargado de visitantes. Assim, a programação é nalguns casos

rica e diversificada e conjuga com a pré-história temáticas variadas. Música, dança, teatro, artes plásticas, literatura e desporto são algumas das áreas que se pretendem conjugar.

O papel dos serviços educativos acaba por ser fulcral no encontro entre

as sociedades da pré-história e a investigação arqueológica com os diversos públicos. A oferta no que toca a ateliers é semelhante em todos os parques. Existem ateliers de arqueologia, caça, pintura, fogo, ferramentas, cerâmica, pistas e acampamento, na sua maioria com preocupações pedagógicas e não apenas de entretenimento. Destacam-se algumas variantes interessantes em que se pode fazer a visita com base em determinado período cronológico, o que engrandece a oferta e multiplica os itinerários possíveis. Nos exemplos analisados a facilidade no acesso a visitas guiadas com marcação prévia é bastante enfatizada, bem como a capacidade para receber

pessoas portadoras de deficiência, embora em alguns casos seja visível a falta de meios ou a existência de acessos próprios para pessoas em cadeiras de rodas.

A existência de programas de investigação conceituados e em constante

evolução contribui para que se melhore a informação disponibilizada tornando-

-a mais especializada e rigorosa. Normalmente existem centros de estudos e pesquisa associados aos parques ou aos museus.

A tónica na experiência do visitantes é, ou deverá ser estruturante neste

tipo de instituições, mas nem em todas existe investigação associada à arqueologia experimental tão relevante nos dias de hoje. Sendo a sua implantação em ambiente rural e não nos grandes centros urbanos, é vital nestes parques uma estreita relação com a comunidade local. As suas memórias e testemunhos devem ser enquadrados numa perspectiva de cooperação para o enriquecimento cultural, social e económico da região.

1.2.2.4 – Divulgação

A tecnologia permite hoje a disseminação da informação a um nível planetário e instantâneo, o que faz com que seja mais simples e eficaz a qualquer instituição dar a conhecer a sua existência e a sua programação, apelando à visita dos públicos através de páginas apelativas. As ferramentas são cada vez mais acessíveis e através de uma simples página na web os resultados são visíveis. Contudo, nos exemplos descritos verificou-se a fraca aposta neste meio de comunicação, e a não atualização de conteúdos, em alguns casos com anos de atraso. Somos levados a pensar se o parque encerrou por algum motivo ou se simplesmente não aposta na divulgação. Contudo, a organização da informação é normalmente invariável, as diferenças verificam-se na quantidade e qualidade dos conteúdos e na aposta em visitas ou animações virtuais que permitam ao cibernauta, potencial visitante, viajar no tempo e sentir o apelo à visita. Algumas reconstituições com animações multimédia e ilustrações de qualidade são o suficiente para que se desperte o interesse para temáticas caras, normalmente tratadas de modo científico e complexo.

A acrescentar a estes factores é essencial disponibilizar materiais pedagógicos de apoio às visitas ou de promoção, o que na generalidade se verificou. Esses materiais devem ser instrumentos para entendimento das visitas e atividades do parque, e sempre que possível devem ser específicos quanto ao público alvo que se pretende atingir. Uma das áreas mais importantes nestes sites é a dos contactos e acessos, que muitas vezes foi relegada para segundo plano. É de extrema importância o destaque que se dá aos acessos e localização do parque, bem como alojamentos na área limítrofe, para que os visitantes não tenham qualquer dificuldade na viagem e para que percebam que é simples a chegada ao destino.

1.2.3 – Um Estudo de Caso - Algaba de Ronda

A análise que se segue pretende complementar as conclusões acima

apresentadas através do estudo-caso de um projeto premiado a nível europeu, que se assemelha nas suas características estruturais ao que se pretende apresentar posteriormente. “La labor científica enriquece la labor educativa de forma que ambas

consolidan el proyecto integral para la investigación, conservación y difusión del patrimonio que se inició en el Centro Algaba de Ronda.” 35 A Algaba de Ronda está situada numa propriedade rural nas imediações da cidade de Ronda, enquadrada por uma paisagem de tipo mediterrâneo com reconhecida riqueza a nível histórico, geológico e natural. Os trabalhos de investigação no campo da pré-história recente e os consequentes achados patrimoniais culminaram na criação de um projeto que se pretende interdisciplinar, com o principio basilar da interpretação dos dados arqueológicos através de experiências concretas e didáticas.

O projeto comtempla um parque científico da pré-história e um centro de

educação e congressos onde é objetivo primordial a compreensão dos modos de vida e conteúdos culturais dos homens da pré-história em cada momento da sua existência. A estrutura organizacional do parque pressupõem a ordenação do território e a existência de atividades de subsistência, como a agricultura ou

35 ELENA, ARIAS, GONZÁLEZ e VERGARA (2008): 146

a pecuária, que desempenham assim papéis fundamentais, ao gerar conhecimento através dos ateliers e ao gerar lucro através das receitas provenientes da venda dos produtos.

através das receitas provenientes da venda dos produtos. Figura 3 : Mapa do parque 3 6

Figura 3: Mapa do parque 36

A visão da experiência proveniente da investigação e da investigação

possibilitada pela experimentação, sendo a última uma ferramenta que permite

interpretar os dados arqueológicos, é o que nos convém analisar no denominado “proyecto arqueoexperimental” da Algaba de Ronda.

O projeto teve início em 2003 com a construção de um povoado com 60

hectares para contextualização da paisagem e recursos originais da pré- -história, através da investigação arqueoexperimental. Para a sua realização foi fulcral, através da experimentação arqueológica, chegar a um conhecimento profundo sobre como seria a organização e os processos de trabalho destas sociedades longínquas. O entendimento das indústrias da pedra e da metalurgia e as suas técnicas construtivas teve em consideração os recursos disponíveis na época.

36 http://www.algabaderonda.com/

Figura 4 : Vista aérea da recriação do povoado de Pré-história Recente da Algaba de

Figura 4: Vista aérea da recriação do povoado de Pré-história Recente da Algaba de Ronda (Foto: Juan Terroba) 37

A complementar o carácter científico desta experimentação encontramos a sua função didática pela criação de estruturas que permitem comunicar as conclusões encontradas, bem como os processos inerentes às mesmas. Os programas de atividades contemplam o conhecimento do passado pré-histórico através de experiências lúdicas, para o desenvolvimento intelectual dos indivíduos e para o aproveitamento dos recursos naturais do território, e também o desenvolvimento de um turismo alternativo. Os ateliers disponíveis são organizados segundo temáticas nucleares como a agricultura e pecuária, a pré-história e arqueologia, a educação ambiental, a geologia e a ornitologia. A difusão do conhecimento e a política de sensibilização face ao património arqueológico e natural local é facilitada pela envolvência da comunidade, em especial dos artesãos que contribuem com os seus conhecimentos tecnológicos para a realização do projeto.

37 ELENA, ARIAS, GONZÁLEZ e VERGARA (2008): 98

Figura 5 : Atividades educativas e didáticas dirigidas a públicos escolares (Foto: Juan Terroba) 38

Figura 5: Atividades educativas e didáticas dirigidas a públicos escolares (Foto: Juan Terroba)

38

Os programas educativos e os seus materiais de apoio são desenhados considerando as características heterogéneas dos variados grupos que procuram o parque e o centro de educação. É enfatizada a metodologia de investigação que possibilita as conclusões aplicadas nas atividades e a proveniência e correta utilização das matérias primas na organização de cursos, exposições ou documentários.

na organização de cursos, exposições ou documentários. Figura 6 : Detalhe do acesso a uma das

Figura 6: Detalhe do acesso a uma das cabanas do povoado (Foto: David García) 39

O povoado foi construído de raiz no local do parque, o que leva a que a justificação seja trabalhada com maior rigor para o entendimento correto da envolvência da paisagem. Numa primeira fase foi necessária a colaboração de

38 ELENA, ARIAS, GONZÁLEZ e VERGARA (2008): 141 39 ELENA, ARIAS, GONZÁLEZ e VERGARA (2008): 113

especialistas e artesãos para correta aplicação dos dados resultantes da investigação acerca dos recursos utilizados, formas de extração, comportamentos e técnicas construtivas. Deve evidenciar-se o facto de todos os processos terem sido recriados à maneira das primeiras sociedades da pré- história, desde a utilização das matérias até às formas de construção. Todos os processos foram organizados e documentados com vista à investigação arqueoexperimental. A caracterização das sociedades, os contextos e recursos geológicos e a caracterização da paisagem, nomeadamente pela flora e fauna, foram experimentados aquando da construção do povoado, e as conclusões daí resultantes, contribuíram para desenvolvimentos significativos no que toca à investigação a nível nacional e internacional. A recriação das industrias da pré-história é em tudo um processo complexo, não só pela escassa informação comprovada e a proliferação de teorias hipotéticas não comprovadas, mas pelo carácter laborioso das experiências necessárias à sua compreensão.

das experiências necessárias à sua compreensão. Figura 7 : Trabalho experimental do sílex mediante a

Figura 7: Trabalho experimental do sílex mediante a técnica da pressão (Foto: Juan Terroba) 40

No que toca à indústria lítica, este projeto possibilitou o entendimento e desmistificação de algumas teorias no que concerne a possíveis utilizações das matérias e as suas relações de distribuição e intercâmbio no território da península ibérica. As parcerias desempenham aqui um papel relevante, nomeadamente pela colaboração da Universidade de Granada e do Centro Nacional de Pesquisa Científica de França (CNRS).

40 ELENA, ARIAS, GONZÁLEZ e VERGARA (2008): 119

A experimentação metalúrgica, cerâmica e têxtil são também focadas, e apesar do seu carácter trabalhoso e moroso as peças que resultam destas produções são consideradas de grande qualidade e utilizadas no povoado para as atividades do quotidiano. As atividades agropecuárias centram-se no cultivo de cereais e na fabricação e utilização de ferramentas com base nas técnicas da pré-história, sem recurso a qualquer componente utilizado na atualidade, com vista ao entendimento da mobilidade dos povos e aproveitamento dos recursos naturais disponíveis à milhares de anos. Numa perspectiva global do entendimento deste projeto com características tão próprias, somos levados a concluir que o que se objectiva efetivamente é a possibilidade de se privar num espaço que verdadeiramente nos transporta para uma sociedade do III e II milénios a.C., visando na sua estrutura organizacional princípios de autossuficiência e aproveitamento dos recursos disponíveis para a fomentação de práticas de conservação do património e intercâmbio de conhecimentos e experiências científicas. Contudo, a acrescentar à dificuldade no acesso e à escassa sinalização, é de salientar que o funcionamento deste espaço depende estritamente da marcação prévia da visita ou atividade, não estando disponível para os turistas ocasionais que procuram, sem conhecer o projeto, experiências culturais para enriquecer a sua viagem.

Capítulo 2 As Terras do Risco

Capítulo 2 As Terras do Risco Figura 8 : O Rosto do Risco (Foto: autora) Oh,

Figura 8: O Rosto do Risco (Foto: autora)

Oh, como surge majestosa e bela, Com viço da criação, a natureza

No solitário vale! E o leve insecto

E a relva e os matos e a fragrância pura

Das boninas da encosta estão contando Mil saudades de Deus, que os há lançado,

Com mão profusa, no regaço ameno

Da solidão, onde se esconde o justo.

E lá campeiam no alto das montanhas

Os escalvados píncaros, severos, Quais guardadores de um lugar que é santo; Atalaias que ao longe o mundo observam, Cerrando até o mar o último abrigo Da crença viva, da oração piedosa, Que se ergue a Deus de lábios inocentes. Sobre esta cena o sol verte em torrentes Da manhã o fulgor; a brisa esvai-se Pelos rosmaninhais, e inclina os topos Do zimbro e alecrineiro, ao rés sentados Desses tronos de fragas sobrepostas, Que alpestres matas de medronhos vestem;

O rocio da noite à branca rosa

No seio derramou frescor suave,

E inda existência lhe dará um dia.

Formoso ermo do sul, outra vez, salve! 41

41 Excerto do poema A Arrábida (1830) de Alexandre Herculano.

É chegado o momento de nos focarmos sobre o património que serve de

pretexto à realização deste estudo, a Serra da Arrábida, mais concretamente as Terras do Risco, pois “a par do legado cultural, resultante da actividade humana, também a natureza é considerada um património que pode ser preservado e explorado para o bem comum ou irreversivelmente delapidado”. 42

É essencial dar a conhecer a riqueza histórica e natural que torna a

Serra da Arrábida num local passível de receber um projeto semelhante aos analisados anteriormente, não apenas para enaltecer a sua importância no que diz respeito a vestígios arqueológicos da pré-história, mas sobretudo para que

seja reconhecido e preservado como um ecossistema particular, possuidor de uma biodiversidade e geodiversidade com características únicas a nível nacional, peninsular e, até nalguns casos, mundial.

O abismo que por vezes se cria entre a população e locais protegidos e

com restrições peculiares como a Arrábida, pode ser transposto através da sua correta valorização e aproveitamento, numa perspectiva de devolução à população visando uma estreita relação com a sua memória cultural.

2.1 – A especificidade da paisagem

2.1.1 – Factores naturais

A Serra da Arrábida está localizada na extremidade meridional da Península de Setúbal (Estremadura) e ocupa os concelhos de Setúbal, Palmela e Sesimbra, numa faixa aproximadamente com largura de 7 quilómetros e comprimento de 35 quilómetros, sendo a sua altitude máxima de 501 metros no anticlinal do Formosinho. A área, que compreende 10 800 hectares, é tutelada pelo Parque Natural da Arrábida (PNA) desde 1976, estando todo o seu território classificado como Sítio de Especial Interesse para a Conservação da Natureza. São objectivos do PNA “proteger os valores geológicos, florísticos, faunísticos e paisagísticos locais bem como testemunhos materiais de ordem cultural e histórica.” 43

42 ALARCÃO (2009): 12 43 http://portal.icnb.pt/ICNPortal/vPT2007-AP-Arrabida?res=1680x1050

A cadeia rochosa da Arrábida é formada quase exclusivamente por

rochas sedimentares que funcionam, geológica e morfologicamente de barreira entre o oceano e o continente. A formação das unidades geológicas desta região remonta aproximadamente ao início do período Jurássico, há cerca de 200 milhões de anos (Tabela 7), quando os continentes Europeu e Americano ainda faziam parte da mesma massa continental. Até ao final do Cretácico Inferior (há cerca de 100 milhões de anos) toda esta região da Arrábida esteve exposta aos fenómenos que originaram a abertura e formação do Oceano Atlântico, mas, durante o Miocénico a compressão causada pelos movimentos

das placas tectónicas africana e europeia deu origem a um forte enrugamento que culminou, cerca de 18 milhões de anos, no alinhamento de relevos que conhecemos hoje como a cadeia montanhosa da Arrábida. 44 Durante milhões de anos a ação da erosão sobre as rochas deu forma

aos relevos que hoje se observam. A Serra do Risco, o ponto mais alto do litoral continental português, com 380 metros, descrita por Sebastião da Gama como “fóssil de uma onda”, será o palco do projeto a apresentar, não apenas pela sua excepcionalidade natural, mas também histórica e pela sua ocupação milenar hoje comprovada. 45

É também importante verificar que os fenómenos erosivos sobre as

rochas calcárias levou ao desenvolvimento de monumentos naturais e geológicos como as inúmeras grutas que se estendem ao longo da costa, algumas com elevada relevância no que toca à ocupação humana, os campos de lapiás e as “marmitas de gigante” da ribeira do Risco. A abundância de cursos de água nos terrenos argilosos, em conjunto com as cavidades criadas nos calcários por ação da erosão, levou também à formação de algumas aberturas particulares nos terrenos, que dão pelo nome de sumidouros, sendo

que o mais conhecido é o Sumidouro da Brecha ou Grande Sumidouro.

A riqueza geológica da Arrábida foi substancialmente explorada pelo

homem para a extração de materiais de construção, como o calcário e o gesso. Até meados da década de 70 era permitida a extração de Brecha da Arrábida, uma rocha de origem sedimentar com características únicas a nível nacional e provavelmente mundial, utilizada como material nobre para fins ornamentais,

44 CAETANO (2010): 17 e 23 45 CALADO et alii (2009): 13-31

que pode ser encontrada, por exemplo, na Igreja do Cabo Espichel, no Convento de Jesus em Setúbal e no Palácio da Pena, em Sintra. Apesar da indústria extrativa estar cada vez mais dependente e condicionada pela legislação ambiental que abrange o património natural, na Serra da Arrábida, perto da Serra do Risco existem em funcionamento pedreiras que se ocupam da extração de calcário e dolomito, com enorme dimensão e com um impacte visual muito significativo numa paisagem única.

Tabela 7: Escala cronostratigráfica do Meso-Cenozóico (M.a. – Milhões de anos) 46

: Escala cronostratigráfica do Meso-Cenozóico (M.a. – Milhões de anos) 4 6 4 6 CAETANO et

46 CAETANO et alii (2009): 32

A unicidade da paisagem das terras do Risco é indissociável das suas

características florísticas, que pela sua especificidade apresentam complexos de vegetação sem paralelo em Portugal e provavelmente no Mundo. A flora da Arrábida é composta por núcleos de vegetação maquis mediterrânico dada a especificidade do clima temperado com influência atlântica e do relevo caracteristicamente “acidentado que permitiu a diferenciação de microclimas e a existência de uma grande diversidade de espécies que, em determinados lugares, atingem portes inigualáveis”. 47

O clima mediterrâneo, que pressupõe duas estações que se opõem de

forma extrema, o verão e o inverno, intercaladas por outras de características mais amenas, o outono e a primavera, somado à localização litoral na costa ocidental portuguesa, que se traduz em valores mais elevados de humidade e maior amenidade nas temperaturas, influenciam a tipicidade da flora, possibilitando condições ecológicas que culminam na existência de configurações particulares. As áreas onde a vegetação se mantém próxima do original foram classificadas como reservas integrais do PNA, onde o acesso apenas é permitido para observação e estudo científico, com vista à inalteração dos seus ecossistemas particulares. São disso exemplo a Mata do Solitário, a Mata Coberta e a Mata do Vidal. Neste contexto, e acrescendo a influência humana no uso dos terrenos na atividade agrícola e pastorícia, a configuração atual da vegetação da Arrábida permite a identificação de 1450 espécies e subespécies registadas passíveis de serem utilizadas pelo homem em variados campos. Dessas espécies destacam-se o carvalho-português (Quercos faginea), a azinheira (Quercus rotundifolia), o medronheiro (Arbutus unedo), o loureiro (Laurus nobiles), o zambujeiro (Oleaeuropaea var. sylvestris), o carrasco (Quercus coccifera), o folhado (Viburnum tinus), a murta (Myrtus communis), o aderno (Phillyrea latifolia) e, com valor acrescido pela sua raridade, o Narcissus calcicola (espécie particular com distribuição comedida no território nacional), a Convolvulus fernandesii e a Euphorbia Pedroi, até agora apenas registadas no território arrabidense. Podem ainda identificar-se espécies mais comuns como

47 PEREIRA e MENDES (2009): 130

orquídeas, orégãos, tomilho, alfazema, rosmaninho, alecrim, salva, aroeira,

zimbro, pilriteiro, funcho, rosa albardeira, pinheiro, cardo e variadas espécies de cogumelos. 48

O coberto vegetal que chegou aos nossos dias não foi em muito

alterado tendo em conta a sua configuração de há três milénios, pelo que é

fácil concluir que as utilizações que hoje reconhecemos na variedade de espécies de que dispomos na Serra da Arrábida, devem ter também sido exploradas pelos primeiros ocupantes deste território. Desde essas sociedades pré-históricas, que estudaremos adiante, até

aproximadamente ao século XIX este território desenvolveu-se naturalmente e com escassa intervenção humana. Local privilegiado para a prática da caça, pela fauna terrestre diversificada, viu extintos no início do século XX lobos, veados e javalis, podendo no entanto hoje encontrar-se os últimos com grande facilidade dado terem sido recente e anonimamente reintroduzidos. Na atualidade estão registadas 213 espécies de vertebrados, e inventariadas 130 espécies de insetos e cerca de 450 de escaravelhos. 49

No que toca aos vertebrados terrestres identifica-se, essencialmente nas

grutas e arribas, espécies particulares de morcegos como o morcego-de- peluche (Miniopterus schreibersii), o morcego-rato-grande (Myotis myotis) e o morcego-de-ferradura-mourisco (Rhinolophus mehelyi), os dois últimos em perigo de extinção. No restante território podemos encontrar mamíferos como o coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus), o gato-bravo (Felis silvestris), a geneta (Genetta genetta), o texugo (Melles melles), o saca-rabos (Herpestes ichneumon), a doninha (Mustella nivallis), a raposa (Vulpes vulpes) e a fuínha (Martes foina). As condições de inacessibilidade dos afloramentos rochosos permitem a existência de aves com elevado interesse como a rara águia-de- bonelli (Hieraetus fasciatus) sendo o caso único a nível nacional de nidificação em escarpa sobre o mar, o francelho-de-dorso-liso (Falco naumanni) e o falcão-peregrino (Falco peregrinus), estas espécies protegidas, mas também o pombo-das-rochas (Columba livia), a coruja-das-torres (Tyto alba), o andorinhão-real (Apus melba), o Melro-azul (Monticula solitarius), o rabirruivo- preto (Phoenicurus ochrurus), o bufo-real (Bubo bubo), o bufo-pequeno (Asio

48 Ibidem: 130

49 Ibidem: 132

otus), o noitibó-de-nuca-vermelha (Caprimulgus ruficollis) o andorinhão-pálido (Apus pallidus), o abelharuco (Merops apiaster), o pica-pau-malhado-grande (Dendrocopos major). 50

A salamandra-comum (Salamandra salamandra), o sapo-comum (Bufo

bufo), a cobra-rateira (Malpolon monspessulanus), a cobra-de-ferradura (Coluber hippocrepis), a cobra-de-escada (Elaphe scalaris), o sardão (Lacerta lépida), a lagartixa-ibérica (Podarcis hispânica), são alguns dos anfíbios e répteis identificáveis. 51 De entre as milhares de espécies de invertebrados inclui-se uma das

poucas classificadas como em Perigo Crítico de Extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza, a aranha cavernícola do Frade (Anapistula ataecina). 52

A riqueza natural a nível nacional e europeu, não se verifica apenas no

plano terrestre, sendo que em 1998 foi delimitada a reserva marinha do PNA. Intitulada de Parque Marinho Professor Luiz Saldanha contempla cerca de 53 km 2 correspondentes a 38 km de costa, onde habitam mais de 1000 espécies de fauna e flora marinha, entre as quais o roaz corvineiro (Tursiops truncatos) no estuário do Sado. 53 A indissociável relação económica e emocional das gentes de Sesimbra com o “seu” mar tem alimentado polémicas variadas em torno da reserva.

2.1.2 – Factores culturais

Não é ao acaso que a paisagem da Arrábida aparece cantada por poetas ao longo dos tempos. A misticidade do local foi desde cedo

reconhecida, e o facto de se manter praticamente inalterado torna-o passível de um recolhimento e contemplação até hoje explorados.

A passagem de monges anacoretas dos séculos VI a XVIII por esta

região é verificada nos vestígios descobertos em grutas, que utilizavam como

escape ao mundo e para aproximação ao divino, remontado as origens do topónimo Arrábida, do árabe Rabita, que significa convento. 54

50 Ibidem.: 132

51 Ibidem.: 133

52 http://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Natural_da_Arrábida
53

54 CALADO et alii (2009): 37

PEREIRA e MENDES (2009): 133 e http://www.ccmar.ualg.pt/biomares/parque_marinho.html

No século XVI, com as mesmas motivações, Frei Agostinho da Cruz

(1540-1619) lá se recolheu durante mais de quatro décadas, descrevendo a serra e as emoções que lhe proporcionava na sua poesia. 55

O anteriormente citado Alexandre Herculano (1810-1877) acabou

também por utilizar a sua poesia como meio de enaltecer as maravilhas deste

local, recorrendo igualmente à sua relação estreita com a entidade divina e com a natureza no seu estado mais selvagem. 56

Já no século XX, aconselhado pelos seus médicos devido à sua

debilitada saúde, Sebastião Artur Cardoso da Gama (1924-1952) acaba por eleger a Arrábida para sua morada permanente. Natural de Vila Nogueira de Azeitão, desde cedo manteve com a serra uma relação de dependência emocional que se reflete na sua obra literária. “A Arrábida vai ocupando Sebastião da Gama. Pela serra passeia, lá contempla, observa, sente o viver da natureza; transforma-a em espaço de leitura e de escrita; demora-se no aprofundamento de uma relação intensa com ela. Isso lhe servirá para a cantar e para a trazer para tema principal do seu primeiro livro, “Serra-Mãe, datado de 1945 ( )” 57 que teve como mote o poema escrito dois anos antes, assinado com o pseudónimo de Zé d’Anicha (derivando da denominação da Pedra da Anicha, um afloramento rochoso do Portinho da Arrábida) que viria a receber o mesmo nome. Relevante é também o texto de 1949 “A região dos Três Castelos – circuito turístico” que serve de enquadramento a atividades realizadas atualmente, nomeadamente em 2009 no âmbito do programa Ciência Viva no Verão, “A Geologia da Região dos Três Castelos de Sebastião da Gama”. 58 As características morfológicas, biológicas, geológicas, culturais e simbólicas da Arrábida foram evidenciadas por obras literárias, mas também pelas marcas da ocupação territorial deixadas ao longo dos tempos. Porto de abrigo natural na época Romana, lugar ermo e de difícil acesso, como era considerada na Idade Média, lugar sagrado, comprovado pela construção do Convento da Arrábida no século XVI, ou residência nobre, pela riqueza dos

55 Elegia II (Da Arrábida) (s/d)

56 A Arrábida (1830)

RIBEIRO (2011): 13 58 CALADO et alii (2009)

57

solos e abundância da caça de que é exemplo a Quinta de Calhariz, a Arrábida teve uma longa ocupação ao longo da história, mas também da pré-história. Hoje, é possível precisar com maior exatidão os períodos de ocupação dos nossos antepassados mais remotos, dada a investigação arqueológica que tem sido levada a cabo no território sesimbrense, desde os finais do século XIX que possibilitou a edição de uma das primeiras cartas arqueológicas em Portugal, pelas mãos de Eduardo da Cunha Serrão. “Na verdade, a investigação arqueológica sesimbrense começou, como vimos, por se focar exclusivamente no Paleolítico, envolvendo, aliás, alguns dos nomes mais sonantes da arqueologia portuguesa dos finais do séc. XIX e da primeira metade do século XX.” 59 A grande densidade de vestígios arqueológicos descobertos ficou durante várias décadas, confinada a teorias de difícil comprovação a nível global, mas de elevada relevância a nível individual, de que são exemplo a Lapa do Fumo, referência obrigatória no meio científico nacional, ou a Roça do Casal do Meio, de que nos ocuparemos com mais pormenor adiante.

A localização marítima privilegiada pela estreita ligação aos estuários

dos rios Tejo e Sado e pela abertura ao oceano Atlântico devem ter sido preponderantes para o desenvolvimento territorial, económico e social do território da Arrábida. Embora alguns factos sejam hoje comprováveis, a investigação dos solos subaquáticos que circundam este território poderá ser determinante no preenchimento de lacunas temporais nas teorias elaboradas. Em falta está ainda o intensivo trabalho de inventariação e estudo dos vestígios recolhidos e a sua comprovação através das técnicas atuais da arqueologia experimental. 60

A investigação iniciada em 2007 e aprofundada em 2009 por técnicos,

alunos e professores da Câmara Municipal de Sesimbra, da Faculdade de Belas-Artes e da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e da Universidade de Évora, originou uma nova carta arqueológica de Sesimbra, atualizada e com avanços significativos no que concerne à importância das comunidades pré-históricas sesimbrenses. O território de Setúbal constitui também alvo de prospecções, visto ser cada vez mais provável a existência de

59 CALADO et alii (2009): 13 60 Ibidem.: 17

um proto-estado que abarcaria toda a região da Arrábida. “No decorrer do projeto «Carta Arqueológica de Sesimbra», foi identificado um vasto complexo arqueológico da Idade do Bronze (cerca de 1200 a.C.), cuja evidência de maior escala é o Povoado do Risco, com cerca de 100 hectares, o que o torna num dos maiores povoados deste período da Europa. Este vasto complexo estende- se pela Arrábida, o que faz pensar na existência de um «proto-estado» nesta região, na época da Guerra de Tróia e do tempo dos heróis Aquiles, Heitor ou da bela Helena, no mundo grego, de Ramsés II no Egito, ou do êxodo dos judeus com Moisés. Por outro lado, a «Carta Arqueológica de Sesimbra» e a

«Carta Arqueológica de Setúbal», cujo projeto de investigação está a decorrer, têm possibilitado entender os momentos, as estratégias de ocupação e o aproveitamento dos recursos do Homem nesta região ( ).” 61

A excepcionalidade arqueológica da Arrábida, e especificamente das

Terras do Risco, é então justificada pela existência de um povoado da Idade do Bronze, acima mencionado, de um povoado Neolítico, do monumento Roça do Casal do Meio e do valioso espólio descoberto na Lapa da Cova.

O povoado do Risco (Idade do Bronze, cerca de 1200 a.C.) apresenta

características únicas, não apenas pela sua extensão, aproximadamente até ao Portinho da Arrábida, mas também por se situar num local sem estruturas defensivas construídas ou naturais, mas com um domínio visual privilegiado sobre todo o território. As prospecções no terreno levam a crer que terá sido de curta duração, mas que poderia ter um papel comercial fundamental. As questões simbólicas que marcam a Serra do Risco não foram com certeza descuradas, o que terá levado os nossos antepassados a reutilizar a Roça do Casal do Meio, “um caso isolado no que diz respeito às práticas funerárias da Idade do Bronze em Portugal” 62 , descoberta por Konrad Spindler nos anos 70, arqueológo que estudou o Homem do Gelo, Otzi. O monumento terá sido construído antes de ser utilizado como sepultura para dois indivíduos, enterrados com objetos votivos e peças de adorno. Apesar de complexa, a leitura dos vestígios cerâmicos é de elevada importância na caracterização das ocupações pré-históricas. Na Arrábida é notável, pela estreita relação entre a terra e o mar, a utilização de grutas para

61 GONÇALVES (2011) 62 CALADO (1993): 67

rituais variados, comprovada hoje pela interpretação dos “restos” dos objetos utilizados. Anterior ao povoado do Risco, terá sido o dos Prados (Neolítico Final, cerca de 3000 a.C.), de menor dimensão que se estabelece pela busca dos recursos agrícolas e pastoris, caracterizadora da revolução neolítica. 63 Por fim, é de referência obrigatória a recente descoberta do espólio da Lapa da Cova, onde se situaria um santuário fenício do qual nos restam contas de colares, materiais de adorno em ouro e restos de cerâmica manual e também de roda. Esta caracterização resumida do espólio arqueológico do Risco é suficiente para se entender a necessidade emergente de o preservar, estudar, mas sobretudo apresentar à comunidade. A investigação não deverá servir apenas para satisfazer os estudiosos que a conseguem perceber e valorizar, mas sim para se criarem motivos de identificação e construção de conhecimento na comunidade e nos visitantes, para que a sua relação com o passado se dê efetiva e adequadamente, e se entenda que os nossos antepassados não seriam “homens das cavernas”, como é primariamente instituído no imaginário infantil, mas sim indivíduos pensantes e em constante construção na busca de meios de subsistência que são hoje adquiridos à priori, porque por eles foram explorados e inventados.

2.1.3 – Factores Turísticos e Económicos

Grande parte dos terrenos da Serra da Arrábida constituem a Quinta de Calhariz, propriedade do Duque de Palmela, D. Pedro Domingos de Sousa e Holstein Beck. A agricultura, a pecuária, a vinha, a produção florestal e a produção de queijos são atividades regulares, das quais se tira proveito dos recursos naturais do território. A par destas atividades é de destacar a importância turística da Arrábida, que nos últimos anos tem levado à sua exploração por empresas do meio que ai realizam visitas organizadas como percursos pedestres pela serra e grutas. Estas empresas são detentoras de autorização não apenas do PNA, como do Duque de Palmela, que numa tentativa de condicionar o trânsito na

63 Para percepção territorial das evidências arqueológicas consultar o Anexo I.

área do Parque, optam por autorizar estas atividades em detrimento da utilização inadequada do espaço. Também a Câmara Municipal de Sesimbra tem procurado dar a conhecer este património natural e cultural através de visitas guiadas ou passeios de BTT. A presença domingueira de visitantes oriundos dos concelhos limítrofes é também relevante, sobretudo na estrada que “rasga” a Serra desde o concelho de Sesimbra até ao concelho de Setúbal. Contudo, e apesar de ser condenável pelo impacto negativo que exerce sobre a paisagem e os ecossistemas naturais deste local, bem como sobre o espólio arqueológico que se pode ter perdido, a atividade económica por excelência na Serra da Arrábida, é a extração de inertes.

Capítulo 3 Parque da Pré-história da Arrábida

3.1 – Enquadramento de Um Projeto

O concelho de Sesimbra tem atualmente cerca de 50 000 habitantes distribuídos por três freguesias. Até à década de sessenta teve como atividades económicas centrais as pescas e a agricultura, verificando-se apenas no último quartel do século XX um crescendo na importância da atividade turística. Destino turístico com ênfase nos factores sol e praia, sofre inevitavelmente da instabilidade característica da sazonalidade.

A partir de finais da década de noventa do século XX, outros produtos

turísticos começaram a emergir baseados na viabilização dos recursos dos patrimónios natural e cultural, que até à data permaneciam marginais dos

fluxos regulares do turismo em Sesimbra. O pretexto da inquestionável riqueza natural do PNA, atrás explicitada, era então relegado para segundo plano, não se criando condições de exploração turística convenientes.

A classificação das jazidas de pegadas de dinossauro da Pedra da Mua,

de Lagosteiros e da Pedreira do Avelino como Monumento Natural em 1997, a criação dos percursos “Chã dos Navegantes” (PR1 - SSB) e “Maravilhas do Cabo” (PR2 - SSB) em 2005, e a criação da “Rota de Cezimbra” (PR3 -SSB), percurso pedestre do Castelo medieval à vila, em 2007, foram alguns dos importantes avanços para a necessária preservação, valorização e divulgação do património natural. Quanto ao património cultural, foi em 1998 aprovado o plano museológico de Sesimbra, agora em fase de revisão. Sesimbra começa a ser entendida como espaço museológico para o qual é necessário criar uma narrativa patrimonial coerente. Por todo o território, os monumentos e a paisagem deixam sobressair vestígios da ocupação humana ao longo dos tempos. O Castelo reporta a uma paisagem medieval, a Capela do Espírito Santo dos Mareantes ao hospital medieval do século XV e à arte sacra, a Fortaleza de Santiago à defesa da costa e às atividades marítimas.

De 2007 a 2009 as descobertas arqueológicas, atrás descritas, no âmbito do projeto da carta arqueológica acabam por completar algumas lacunas na história e pré-história deste território. A dimensão da descoberta arqueológica em termos europeus, pela existência do grande complexo da Idade do Bronze, aliada à importância geológica, biológica e simbólica da paisagem, devem ser aproveitadas para a construção da narrativa territorial que se pretende ser motivadora de “uma viagem no tempo” desde a formação da Terra (recuando 200 milhões de anos) à atualidade. Hoje, pode considerar-se que reside na valorização e divulgação do património sesimbrense o meio por excelência de se distinguir e evoluir como concelho turístico, trabalhando-se o território com uma visão pro-patrimonial e sustentável, de modo a construir vetores caracterizadores e distintivos no panorama turístico nacional. O Plano Estratégico de Turismo do Concelho de Sesimbra, realizado em 2009 e que atualmente se encontra em fase de implementação, contribuiu também para uma visão mais abrangente do concelho e dos seus referenciais turísticos. Inaugurando políticas de valorização e sustentabilidade desafiantes para toda a comunidade pretende- -se caracterizar e estabelecer a autenticidade de Sesimbra. A par desta política de valorização deve encorajar-se uma estreita relação e efetiva participação da comunidade local nas estratégias patrimoniais adoptadas. Como se viu desde o início neste trabalho, o património do passado deve ser lugar comum da população do presente de modo a que esta dele se orgulhe e nele se reveja. A identidade cultural e a memória coletiva são o caminho para a referida, e necessária, museologia participativa, que conciliada com a visão turística local deve resultar no aumento quantitativo e, essencialmente, qualitativo da oferta cultural e turística de modo cuidado e não gratuito. Está então lançado o mote para a criação de um Parque da Pré-história da Arrábida (PPA), onde os visitantes podem viajar no tempo e entender conceitos tão complexos como longínquos da sua realidade.

3.2 – O Papel da Museologia Participativa

O abismo que por vezes se cria entre a população e locais protegidos e

com restrições peculiares como a Arrábida, pode ser transposto através da sua

correta valorização e aproveitamento, numa perspectiva de devolução à população visando uma estreita relação com a sua memória cultural.

É vital reter que apesar de não ser um museu, na primária acepção da

palavra, o PPA deverá ser organizado através dos princípios estruturais da museologia. A desmistificação desta temática foi já suficientemente abordada

no Capitulo 1, mas deve ser agora realmente assimilada a efetiva importância pedagógica e social da museologia nos dias de hoje.

O sistema educativo nacional promove cada vez menos a formação nas

áreas da História, Arqueologia e Artes, sendo esta de geração em geração

cada vez mais elementar. Será, neste contexto lugar comum, a importância destas áreas de estudo na formação dos indivíduos e da sua estrutura intelectual bem como da sua identidade cultural, fulcrais para o relacionamento em sociedade. A atitude dos públicos perante estas temáticas é normalmente contemplativa, sendo visível o abismo entre eles e os monumentos, principalmente os de épocas mais remotas. O caminho será então “quebrar o gelo” dando-as a conhecer através de paralelismos com o presente e sobretudo através da experimentação. O ato comummente designado por “pôr

a mão na massa” facilita a apreensão e entendimento de conceitos e técnicas desconhecidos como os dos nossos antepassados. O PPA deverá ser construído a partir da investigação já constituída, pelos técnicos e investigadores envolvidos, mas também em parceria com a

comunidade local, promovendo-se o debate sobre as temáticas do património,

a sua salvaguarda, preservação, importância e potencial turístico e no modo

como pode ser catalisador de novas atividades económicas rentáveis. O envolvimento das pessoas num projeto que se quer para as pessoas, pode ser um fator vital para o seu sucesso, não só por ser inovador, mas porque será com certeza motivador. A relação descomprometida que se estabelece com o património da Arrábida, pode ser contrariada e mesmo, num futuro próximo,

invertida.

3.3 – Objectivos Estratégicos

Para a construção do PPA devem então considerar-se os seguintes objectivos estratégicos:

consolidar as investigações levadas a cabo nos domínios da geologia, biologia e arqueologia do território da Arrábida para construção de uma narrativa pedagógica e acessível a diversos públicos;

promover a divulgação do património natural e cultural através da reconstituição histórica apoiada na investigação científica e arqueológica do território;

rentabilizar social, cultural e economicamente a Arrábida com vista à construção de um novo polo de atração turística através de um projeto inovador que se baseia nos princípios da museologia participativa;

construir um referente cultural identificável para que a promoção do parque possa verdadeiramente considerar-se diferenciadora no panorama turístico nacional e europeu;

devolver à comunidade local um espaço que lhe estava restrito quer através do seu envolvimento nas fases de construção do parque, quer através das atividades que de uma forma lúdica e pedagógica devem refletir os modos de vida e de exploração dos recursos locais dos seus antepassados;

dinamizar a economia local através da promoção dos produtos da região;

criar atividades para os mais jovens relacionadas com o conhecimento e salvaguarda do passado patrimonial na lógica da arqueologia da paisagem e da arqueologia experimental;

promover o reaproveitamento de estruturas pré-existentes para a concretização do parque de modo a que o impacto na paisagem seja nulo;

apostar na qualificação e exigência no que diz respeito aos recursos humanos afetos à equipa de trabalho do parque;

continuar as prospecções no terreno para que a investigação se engrandeça com o aparecimento de novas evidências;

identificar e musealizar outros sítios de interesse natural e cultural do PNA inserindo-os nos circuitos turísticos nacionais;

motivar a comunidade e os visitantes para a possibilidade de construção de projetos com escassos recursos financeiros, numa altura em que a conjuntura nacional e mundial afetam a vivência quotidiana das famílias.

3.4 – Modelo de Implementação

O PPA deverá funcionar como polo dinamizador da atividade natural,

cultural e consequentemente turística da Arrábida, e inevitavelmente como estudo de caso nos panoramas arqueológico e museológico em Portugal. Como tal, o carácter inovador da experiência, mas também a atual situação económica nacional pautam a sua concepção. Partindo dos escassos recursos financeiros disponíveis e do vasto processo de investigação, pretendesse construir um processo baseado na máxima work in progress, em que a participação dos visitantes e da comunidade dará o mote à criação das estruturas que devem funcionar como apoio às visitas e aos ateliers. Numa fase inicial de experimentação e investigação arqueológica, em parceria com alunos e professores da Universidade de Belas-Artes da Faculdade de Lisboa, deve iniciar-se a construção de uma cabana, de cerâmicas, ferramentas e objetos do quotidiano essenciais às comunidades pré-históricas, em atividades lúdicas e pedagógicas segundo os princípios da arqueologia experimental. Esta tipologia de atividades deverá ser desenvolvida ao longo da

construção do parque, dando a conhecer à comunidade local o projeto, para que se estabeleçam relações de pertença e identificação. Os públicos devem sentir a necessidade do parque mesmo antes da sua efetiva criação.

O processo participativo que se pretende inaugurar tem em vista os

objectivos da museologia participativa, sendo aberto aos públicos, para que eles se sintam participantes ativos no mesmo. As conclusões resultantes desta investigação participada devem sempre que possível ser devolvidas à comunidade através de debates públicos, colóquios, edição de pequenas

publicações ou até através do meio com maior eficácia com a criação de uma página na web, devidamente trabalhada e atualizada pela equipa de trabalho envolvida no projeto. Está em vigor desde o dia 12 de Setembro de 2011 um protocolo de cooperação entre os municípios de Sesimbra e Setúbal, a Faculdade de Belas- -Artes da Universidade de Lisboa e a Casa de Calhariz que visa a continuação da recolha de informação arqueológica e o aprofundamento da investigação científica para a elaboração dos conteúdos necessários à construção do PPA. Até ao final de 2013 (período em que vigorará o protocolo), uma comissão de trabalho eleita pelos representantes do protocolo, com a participação essencial de representantes do PNA, deverá trabalhar com vista a uma definição oficial do PPA, um modelo de gestão, negócio e governação, bem como um estudo de viabilidade económica e um estudo de impacte ambiental. Neste último são fatores a considerar, as questões sensíveis relacionadas com a fauna e flora do local, a mobilidade e acessibilidade, a gestão ambiental e o impacto na paisagem que um projeto no coração do PNA possa acarretar.

3.5 – Narrativas

O facto do projeto ter como ponto de partida uma paisagem classificada com comprovado valor natural e cultural, fá-lo depender inevitavelmente de duas valências estruturais, a da narrativa natural e a da narrativa cultural. Para a concepção da narrativa natural do parque concorrem a necessária descodificação dos enquadramentos geológico, florístico e faunístico do território, considerando a sua evolução e ocupação ao longo dos tempos, bem como o importante papel que o PPA pode desempenhar na organização do espaço e no controle da circulação arbitrária que por vezes tem consequências tremendas para os habitats. Viabilizando um estudo de impacte ambiente, o parque deverá sujeitar-se a regras que possibilitam o seu bom funcionamento, nomeadamente no que diz respeito ao livre trânsito de visitantes e ao número máximo de participantes em visitas ou atividades específicas. Existem duas hipótese a equacionar que podem também valorizar ecologicamente este projeto, a existência de um centro de recuperação de

animais selvagens, inexistente na região, e a criação de um espaço de agricultura biológica à semelhança dos cultivos das comunidades neolíticas. No que concerne à narrativa cultural, esta de maior complexidade representativa, deve apostar-se na reconstituição de duas aldeias, uma correspondente ao povoado Neolítico e a outra ao povoado da Idade do Bronze, as épocas com maior relevância no território, embora possam ainda existir reconstituições de períodos anteriores como o Mesolítico. Os dois espaços museológicos que se pretende que sirvam de ponto de partida aos percursos pelo parque, são subjugados às temáticas da origem e evolução do homem, e ao enquadramento cultural, cronológico e territorial do períodos em questão, novamente com ênfase no Neolítico e na Idade do Bronze.

3.6 – Programa Museológico: Um Projeto Duas Possibilidades

No decorrer deste trabalho foram explicitadas e justificadas as variáveis que concorrem à criação do PPA, numa lógica de preservação e valorização do património natural e cultural inigualável que caracteriza a Serra da Arrábida. Deve então, na lógica de construção do programa museológico, considerar-se o carácter peculiar de uma intervenção deste género num território que obedece a políticas de preservação e utilização bastante restritivas como as que pautam o PNA. Neste contexto, é viável e considera-se mais prudente, a apresentação de duas possibilidades para a efetiva criação do PPA, uma in situ e uma outra deslocalizada.

3.6.1 – A Utopia do Risco 64

A criação do PPA é motivada, em primeira instância, pela descoberta do grande povoado da Idade do Bronze, pelo que a solução ideal para a sua concretização será a apropriação do território que outrora foi habitado pelas sociedades pré-históricas, as Terras do Risco. Nesta solução, o acesso é efetuado através da estrada de Calhariz até ao portão das Terras do Risco, onde se encaminham os visitantes para o local reservado ao estacionamento das viaturas. Nesta área de pedreiras artesanais abandonada onde não seriam necessárias intervenções para o cumprimento

64 Consultar Anexo II e III.

desta função, poderá também existir uma pequena zona de recepção e acolhimento e uma primeira abordagem à envolvente natural, através do aproveitamento das pequenas pedreiras para leitura geológica da paisagem. O percurso para a área central do parque pode depois ser efetuado a pé, ou de mini bus (elétrico), sendo a informação sobre a paisagem (geologia, mas em particular fauna e flora) disponibilizada através de painéis fixos ao longo do percurso, audioguias ou até meios audiovisuais para visionamento no mini bus ou através de dispositivos portáteis alugados à entrada do parque. Durante todo o percurso são possíveis derivações, devidamente controladas, para visitar monumentos dispersos pelo território como as marmitas de gigante ou grutas de interesse comprovado. Os visitantes devem na primeira zona de acolhimento ter acesso a toda a informação (guias e folhetos) necessária à programação da sua visita e às variáveis de segurança e boa conduta a equacionar durante as visitas. O percurso continua até ao Casal do Meio onde pode existir uma cafetaria, através do reaproveitamento de ruínas existentes, e o polo de interpretação sobre a origem e evolução do homem. Nas imediações é apresentada uma reconstrução das duas fases do monumento Roça do Casal

do Meio, aproveitando uma clareira natural, partindo do interesse dos visitantes

a visita, ou não, aos vestígios do monumento. Continuando o percurso pela estrada, sempre com a preocupação de

abordar aspectos paisagísticos e culturais, aproxima-se o grande sumidouro e

o carvalho milenar onde se pode teatralizar a vivência de um xamã na época

pré-histórica. É chegada então a área central e de serviços de apoio ao parque e aos visitantes, nas antigas cavalariças (estrutura em ruínas passível de ser reaproveitada) onde se devem instalar sanitários, uma loja, e espaços exteriores e interiores para atividades múltiplas de educação e animação patrimonial. As exposições sobre os períodos culturais em análise, o Mesolítico, o Neolítico, o Calcolítico, e a Idade do Bronze, devem também ser equacionadas nesta estrutura. Pretende-se que a abordagem a estas temáticas passe do global ao local, para que se entenda a relevância dos povoados da Arrábida no panorama internacional do estudo e investigação da pré-história.

Perto desta área de exposições e serviços, devem existir os momentos de reconstrução das aldeias. A ocupação mesolítica apresentada através de um acampamento, a revolução neolítica e a Idade do Bronze através de aldeias. Estes espaços devem ser devidamente delimitados e interpretados, de modo a que seja visível a evolução técnica e cultural de época para época. Apelando ao sentido cénico e simbólico do território, propõe-se nas imediações, a reconstrução da gruta da Lapa da Cova com referência ao santuário fenício que ai se descobriu. Os visitantes podem neste momento ser convidados a participar na descoberta do tesouro através da recriação de uma escavação arqueológica. Associados aos aglomerados habitacionais reconstruídos funcionam os ateliers, pautados pelas atividades do quotidiano das comunidades em estudo, como o talhe da pedra, o fogo, a cerâmica, a tecelagem, a fundição, a caça, a pastorícia, a agricultura, a alimentação, as artes da guerra ou as artes da morte. Nos pastos que marcam a paisagem das Terras do Risco é passível a introdução de animais selvagens como touros e cavalos (num espaço devidamente delimitado, por questões de segurança evitando qualquer tipo de acidente) enquadrando o cenário do quotidiano da pré-história. A concepção apresentada apesar de acarretar variáveis complexas, para as quais se procuram soluções, nomeadamente no que diz respeito às questões ambientais e legislativas, deve ser verdadeiramente equacionada. A realização do PPA com estas características confere-lhe uma identidade própria e vinculativa como estrutura museológica de relevo no panorama nacional. O seu sucesso dependerá com certeza da eficaz participação da comunidade local e da capacidade criativa da equipa de trabalho que desenvolverá as primeiras atividades.

3.6.2 – A Realidade no Risco

Pelo facto de a Serra do Risco, como área protegida, estar subjugada à restrita legislação do PNA e pela escassez dos recursos financeiros disponíveis, é vital equacionar a hipótese da não realização in situ do PPA. Propõe-se então a sua concepção deslocalizada.

Ao conceber o território pela sua riqueza natural, como tem sido trabalhado ao longo das anteriores páginas, e considerando os vestígios culturais disponíveis para contar a sua história, rapidamente se apreende o conceito de Parque da Pré-história da Arrábida, pois ele existe, mesmo sem uma estrutura física delimitada. Os vestígios e monumentos arqueológicos, os monumentos geológicos e as particularidades da fauna e da flora da Arrábida, podem ser agrupados em inúmeros percursos temáticos e atividades específicas, que organizados numa programação coerente organizada através de um pensamento científico e comunicacional comum, dão corpo à estrutura museológica que se pretende. Na impossibilidade de se reconstruir o passado no seu local concreto, deve conceber-se um centro expositivo de interpretação (que poderá funcionar fora dos limites da Serra) onde que se dão a conhecer os contextos e narrativas trabalhados na investigação e onde se disponibiliza a informação necessária ao encaminhamento dos visitantes para os percursos existentes. As atividades de arqueologia experimental, propostas anteriormente, bem como a construção de cabanas são passíveis com poucos recursos e essenciais para a lógica construtiva do parque no imaginário da população. Esta solução depende da correta musealização dos sítios de interesse que se referem nos percursos e, inevitavelmente, da boa organização do centro interpretativo que se pretende que descentralize as atenções pelo território. A oferta variada e criativa no que toca às atividades é também fulcral para que os públicos se sintam motivados a visitar o PPA e a participar na sua construção.

3.7 – Modelo de Comunicação

Uma das temáticas mais debatidas na atualidade no mundo dos museus é a sua importância na vida social para que se justifique o seu financiamento público. É um facto que neste trabalho já foi suficientemente justificada essa importância, e que o que estará em causa não será o financiamento quer seja ele público ou privado. O que falta explanar, é que a importância social só poderá ser efectivada consoante a visão estratégica, objectivos e modelos

construídos. As estruturas museológicas têm hoje de ser concebidas criativamente através de modelos de gestão e comunicação sustentáveis. A vivência da maioria das famílias, potenciais visitantes destas estruturas, é hoje desenhada segundo critérios prioritários de sobrevivência. Para estes critérios concorrem necessidades básicas como a habitação, a alimentação, o vestuário, e outras, numa lista em que a educação, mais concretamente a educação patrimonial, as atividades culturais e o lazer estão no vértice mais distante. Neste contexto, devem exigir-se aos públicos contribuições que vão de encontro às suas possibilidades, mas sobretudo, devem criar-se factores motivadores que caracterizem as experiências disponibilizadas como únicas, onde a par da diversão, quase que subliminarmente, exista construção de conhecimento. A instituição museal pode considerar-se assim um equipamento social e educacional básico. Estas variáveis devem ser parte integrante do modelo de divulgação e comunicação do PPA, funcionando ele para qualquer uma das propostas acima apresentadas, e no processo de construção de referentes sugestivos que apelem ao imaginário dos visitantes. O público escolar da grande Lisboa, os visitantes ocasionais de fim-de- -semana, o público dos aglomerados urbanos limítrofes, os turistas que procuram atividades diferentes no âmbito do turismo cultural e da natureza, os estudantes, investigadores e interessados nas temáticas abordadas, e a população local, são o universo que frequentará o PPA. A diversidade entre os públicos leva a que seja fulcral o desenvolvimento de várias níveis de conhecimento e linguagem para que nenhum grupo seja excluído. Apenas os estudantes e investigadores da área têm facilidade em apreender conceitos tão distantes e de percepcionar a monumentalidade dos sítios arqueológicos, mesmo em casos em que os vestígios sejam praticamente inexistentes. A maioria dos públicos não terá essa facilidade, pelo que a utilização de uma linguagem simples e apelativa com referentes da atualidade, facilita a compreensão dos modos de vida das primeiras comunidades. Na realidade, as atividades são semelhantes, a caça, a construção, a cerâmica, apenas variam as técnicas e matérias disponíveis à data, e o modo como se percepcionaria o

território. Podem então estabelecer-se paralelos concretos com vista à eficácia do discurso patrimonial. Na ótica do utilizador, devem considerar-se os fatores surpresa, inovação e experimentação em atividades o mais ricas possível. No que concerne ao património natural devem equacionar-se parcerias com empresas ou associações que operam na Arrábida para a realização de percursos pedestres, escalada e rapel, espeleologia, BTT ou observação da fauna e flora. No campo do património cultural, os referidos ateliers são vitais e devem funcionar com uma periodicidade específica, dependente das condições logísticas disponíveis. A atividade arqueológica permanente e inserida em visitas de grupo desempenha também um importante papel para o entendimento da missão do PPA. A programação cultural pode ser tão vasta quanto o que se desejar, sempre tendo em vista os objectivos e missão do parque. O teatro, a música, a dança ou as artes plásticas podem ser inseridos em encontros ou espetáculos específicos. É também de extrema importância o desenvolvimento da atividade científica através de colóquios, encontros e debates abertos à comunidade, e da edição de estudos resultantes dos avanços nas investigações. Para que o PPA seja considerado uma estrutura de relevante interesse é necessária a aposta na sua comunicação, interna e externa. A comunicação interna prende-se com todos os problemas de sinalização e acessibilidade dos percursos e monumentos que se pretendem atores principais neste processo de construção. A correta marcação e limpeza dos percurso é essencial, para que os visitantes identifiquem que estão no parque e não num simples trilho abandonado. A informação disponibilizada pelos diversos meios de comunicação interna como painéis, audioguias ou suportes multimédia deve ser cuidada e trabalhada considerando a diversidade de públicos existente, para que se possa ter maior retorno. Neste campo é ainda necessário um vasto trabalho de identificação e musealização dos monumentos arqueológicos de interesse comprovado que se podem divulgar no PPA para que a sua importância seja compreensível e não questionada. O plano de divulgação externa do parque deve passar não apenas pelos suportes gráficos de apoio às visitas como folhetos, roteiros e mapas, mas pela criação de uma plataforma de fácil acesso (página web) onde, através de

animações multimédia, vídeos, jogos ou recriações sejam dados a conhecer os conteúdos científicos da estrutura museológica. É de máxima importância a promoção nas escolas, junto dos professores e alunos através de atividades especificas que os tornem interessados e os levem a divulgar o parque junto das suas famílias e amigos. A proximidade à comunidade local passa pela conjugação da atividade do parque com atividades comerciais locais e pela promoção de debates sobre temáticas de interesse comum. As publicações já referidas e a edição de suportes multimédia, como DVD’s, bem como a realização de exposições temporárias, itinerantes ou não, são também meios relevantes. A atual parceria com a Faculdade de Belas-Artes deve ser aproveitada com vista à criação de atividades de investigação que possam lançar a discussão sobre o caso inédito do PPA, em Portugal e na Europa, com vista a divulgá-lo à comunidade científica. O processo de construção peculiar que deve ser inaugurado na criação do PPA, fá-lo depender em grande parte do sucesso e impacto da sua comunicação. Deverão então ser equacionadas, desde o início do processo, estratégias comunicativas de curto prazo, que em constante mutação, devem refletir e dar a conhecer todas as fases do processo de construção.

3.8 – Matriz FOFA

É essencial à realização de qualquer projeto a sua análise segundo uma matriz FOFA, em que as Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças são equacionadas para melhor se construírem as suas estratégias e objectivos. A análise apresentada é possível dada a conjuntura atual de fatores que concorrem à realização do PPA, podendo a mesma ser alterada à medida que se alteram as condições do projeto. Assim, este cruzamento hipotético de fatores, deve ser realizado a cada fase do projeto para que através de uma avaliação eficaz, o mesmo se possa moldar às necessidades identificadas.

Tabela 8: Matriz FOFA do projeto do Parque da Pré-história da Arrábida

FORÇAS

FRAQUEZAS

Proximidade de grandes centros urbanos, nomeadamente de Lisboa;

Deficiente exploração do interesse científico e natural da Arrábida até aos dias de hoje;

Facilidade e rapidez dos acessos;

Falta de referentes para criação de um discurso comum a diversos públicos pela inexistência de um marco cultural facilmente identificável;

Riqueza natural e cultural inexplorada;

Binómio natural serra e mar;

Riqueza natural que propícia o desporto de aventura;

Sinalética insuficiente ao longo de todo o PNA e abandono de estruturas de contemplação ou interpretação da paisagem;

Défice de sinalização nos percursos pedestres que levam aos sítios de interesse arqueológico;

Reconhecimento da população em geral na necessidade de criar polos turísticos dinamizadores e atrativos que possam desenvolver economicamente a região;

Falta de material de divulgação;

Projeto pioneiro no território nacional que

Inexistência de propostas turísticas concretas e sustentáveis em torno do património natural e

pretende seguir as lógicas de sucesso comprovadas noutros países da Europa;

Interesse público e privado na viabilização, rentabilização e divulgação do território e seu património, nomeadamente dos municípios de Sesimbra e Setúbal e da Casa de Calhariz;

A atratividade do lugar baseada na sua invulgar beleza cénica;

A especial relevância científica, pedagógica e cultural do património natural e cultural da região.

cultural da Arrábida que possam motivar os operadores turísticos e consequentemente os seus clientes;

Falta de alojamento turístico em áreas rurais que promovam o desenvolvimento do turismo de natureza;

Fiscalização insuficiente dos usos indevidos do território do PNA;

Inexistência de estruturas de apoio aos visitantes e de centros interpretativos.

OPORTUNIDADES

AMEAÇAS

Preservação da paisagem de modo mais controlado;

Existência de políticas patrimoniais que visam a lógica inversa à utilização e rentabilização do património cultural e sobretudo do património natural;

Criação de um produto cultural, pedagógico e turístico inovador;

Devolução da história à comunidade local;

Valorização da região numa época de crise económica e social;

Divulgação internacional na rede de parques arqueológicos;

Possibilidade de parcerias nacionais e internacionais com universidades e instituições que operam nos campos da arqueologia experimental e da museologia;

Inauguração de parcerias efetivas com a comunidade na construção do parque;

Criação de postos de trabalho diretos e indiretos, muitos deles qualificados;

Possibilidade de reabilitação de edificações

degradadas e inutilizadas, com vista à criação de locais de interpretação do património natural e cultural. !

Concorrência de destinos com maior oferta cultural e maior capacidade de promoção e divulgação da sua programação;

Relutância do PNA quanto à exploração do território protegido;

Legislação por vezes castradora no que toca à mobilidade dos visitantes pelo parque;

Relação descomprometida e por vezes desinteressada da população local com a Serra da Arrábida;

Relação hostil da população local com o PNA pelas constantes proibições, nomeadamente quanto à Reserva Marítima;

Falta de interesse por parte da comunidade local;

Dificuldade em fidelizar públicos pela escassa oferta de turismo da natureza;

Excessiva massificação que se prevê para empreendimentos turísticos em Sesimbra.

SÍNTESE FINAL

A Arrábida, hoje candidata a Património Mundial da UNESCO ergue-se

na paisagem há milhões de anos e presencia a vivência do homem desde a pré-história. Não será impossível imaginar este território aquando da sua ocupação pelas comunidades do Neolítico ou da Idade do Bronze, mas será para isso como se verificou, necessária uma interpretação cuidada dos vestígios dessa ocupação para que possa ser comunicada sem se desconfigurar a riqueza natural e cultural que o caracteriza. Neste contexto, a investigação apresentada pretende despoletar o debate saudável que antecede a realização do Parque da Pré-história e apresentar um caminho possível para a sua concretização. A caracterização das fases da construção do museu nos diferentes contextos cronológicos apresentados e a percepção da direção que seguiu, no que concerne ao seu relacionamento com os públicos, possibilitou a introdução

do conceito de Museologia Participativa neste estudo. É certo que os princípios que lhe estão intrínsecos têm vindo gradualmente a ser implementados e testados pelas instituições culturais, nomeadamente na realização de atividades com públicos escolares, mas pretende-se agora vincar a sua importância na medida em que poderá estabelecer-se aquando da criação das instituições, visando a participação das comunidades locais numa ótica construtiva em que se consideram especificações culturais e sociais características do contexto, bem como o desenvolvimento do sentido estético, artístico, critico e intelectual dos sujeitos.

A salvaguarda do património será assegurada se as comunidades locais

desempenharem o seu papel de protetoras e comunicadoras da sua identidade cultural. Para isso, devem estas ser motivadas pela apresentação de dados concretos e apelativos para construção de uma memória histórica comum e para possibilitar ou facilitar a sua leitura da paisagem e compreensão do território. Esta concepção museológica na qual se pretende uma transformação fundamental dos visitantes, comummente agentes passivos, em agentes ativos no contexto patrimonial, deve agora ser trabalhada no caso concreto do Parque da Pré-história da Arrábida, com base no modelo de implementação e no modelo de comunicação apresentados.

Verificou-se que a dispersão e falta de informação no que diz respeito ao património arqueológico do concelho de Sesimbra despoleta o desinteresse

dos públicos. Acrescendo a esse factor existe ainda a restrita política de valorização e divulgação do património natural do Parque Natural da Arrábida.

A educação patrimonial deve ser então um objetivo assumido na criação

desta instituição que permite aglutinar o conhecimento cultural e natural do território da Arrábida num programa coerente e rico que lhe possa atribuir novo valor e significado junto dos públicos da atualidade. Embora se tenha verificado que a valorização de sítios arqueológicos, e

sobretudo a apresentação de contextos relacionados com as comunidades pré- históricas, se encontra ainda num nível primário de desenvolvimento no território nacional, é exequível a sua exploração em projetos participados e que primem pela valorização dos recursos locais. A necessidade de criar uma estrutura que encaminhe e organize o território e os seus testemunhos reforçando a identidade cultural poderá possibilitar, nestes moldes, a maior proteção do património e o desenvolvimento de atividades económicas e turísticas sustentáveis em torno dele.

A presente investigação poderá então contribuir para:

a) a reflexão acerca do lugar da chamada Museologia Participativa na construção conceptual e programática das instituições museológicas a partir do desenvolvimento de princípios inaugurados na concepção da ecomuseologia e da nova museologia;

b) despoletar uma nova leitura do património arqueológico e natural e sua valorização, programação e divulgação tendo em vista a sua salvaguarda e investigação constantes;

c) equacionar as variáveis sociais, económicas, ambientais, culturais e turísticas do território na criação de um projeto que pretende valorizar a região em que se insere e os seus habitantes;

d) congregar vários conhecimentos para construção de narrativas em torno do património natural e cultural num só projeto;

e) aglutinar os resultados da investigação do património da Arrábida de modo a que se possam, segundo critérios pedagógicos, chegar a narrativas concretas para apresentação pública de dados biológicos, geológicos e arqueológicos;

f) dar o mote para o diálogo entre as instituições e a comunidade com

vista à criação do Parque da Pré-história da Arrábida;

g) lançar hipóteses de concretização práticas em torno das quais se podem iniciar os trabalhos de divulgação e comunicação do Parque apoiados na máxima work in progress. Neste contexto, pode sumariamente descrever-se a organização do

Parque da Pré-história da Arrábida considerando as seguintes linhas orientadoras:

1. existência de duas narrativas base, uma em torno do património cultural e outra em torno do património natural:

1.1. património cultural: abordar as temáticas que concorrem à compreensão das origens do homem e sua evolução, bem como características específicas dos movimentos culturais em análise através de exposições e reconstituições variadas; 1.2. património natural: possibilitar várias leituras da paisagem segundo critérios geológicos e biológicos para o entendimento da utilização dos recursos naturais do território, mas também com vista a promover a valorização e proteção de ecossistemas particulares;

2. equacionar as reais hipóteses de realização do projeto segundo as duas propostas apresentadas:

2.1. in situ: no território das Terras do Risco criar infraestruturas que permitam a visita e permanência no local, para atividades específicas inseridas na programação do PPA relacionadas com as exposições, monumentos e reconstituições existentes; 2.2. deslocalizada: organizar o território de modo conceptual para que possa ser comunicado como um todo num polo centralizador que encaminhe os visitantes e lhes dê a conhecer as atividades do PPA;

3. iniciar o processo de criação do PPA (considerando qualquer uma das propostas acima apresentadas) segundo os princípios da Museologia Participativa em atividades experimentais que visem a continuidade da investigação e o início dos trabalhos da instituição cultural;

4. implementar o modelo de comunicação para que o PPA se institua no imaginário local como necessário e fulcral para o desenvolvimento das atividades culturais e turísticas da região.

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