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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams Copyright © 2003 dos e-books em cd-rom, Virtual Books Online M&M
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
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GGRRIITTOO DD''AALLMMAA
(Out Cry)
Tennessee Williams
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Sbat n° 34132
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams GGGRRRIIITTTOOO DDD'''AAALLLMMMAAA ((O OOu uut tt CCr rry yy) )) (
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
GGGRRRIIITTTOOO DDD'''AAALLLMMMAAA
((O OOu uut tt CCr rry yy) ))
(
C
Personagens: Feliz e Clara
O espetáculo acontece
antes do espetáculo: numa noite fria de um teatro
desconhecido
durante o espetáculo: numa tarde quente de uma casa em
Nova Belém, e no teatro
após o espetáculo: no teatro e na casa
Ciclorama ao fundo apresenta imagens poéticas mudando
segundo o clima da peça
A divisão em cenas foi feita pelo tradutor
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CCEENNAA 11 Quando as luzes se acendem, Feliz está parado no
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CCEENNAA 11
Quando as luzes se acendem, Feliz está parado no proscênio
de um palco meio inclinado como uma criatura acuada
segurando numa das mãos caderno e caneta. Ouve-se, na
espécie de catacumba em que acaba de chegar, débeis ruídos
vindos não se sabe exatamente de onde. Pedaços de cenários
por toda parte: uma porta abobadada e uma janela com
persiana, um piano antigo e uma escada circular de ferro, um
velho baú cheio de objetos de cena e, ao fundo, uma enorme
estátua negra de um homem acorrentado que espanta Feliz
por ver nela a representação de seu mundo interior. Ele
caminha devagar para o monstro e à medida que dele se
aproxima os sons mecânicos crescem em volume e velocidade.
De repente, lança-se ao pé da escultura que parece dobrar-se
gigantesca sobre ele e, num esforço quase demoníaco, tenta
movê-la. Não consegue porque ela é pesada demais. Grita por
ajuda.
CCEENNAA 22
FELIZ -Tem alguém pra me ajudar a empurrar isso? (pausa)
Sozinho eu não consigo! (eco da palavra sozinho) Esse lugar
tem um eco que repete uma vez só
(batida
de porta lá fora)
Fox? (silêncio) É você, Fox? (mais forte) Fox! (eco de Fox)
Não é possível! (pausa) Meu Deus, onde e quando tudo isso
começou? (esfrega a cabeça com as mãos) Essa sensação de
confusão
tentei
esconder, mas agora ficou tudo tão claro!
(ajoelha-se e tira almofadas do baú. fala irônico e iradamente)
Merda, não é no Marrocos que a peça acontece! O sofá não
veio
(respira
fundo) Cena um: quando as luzes se acendem
estou sozinho no palco, ela nunca entra na hora certa nem em
condições normais.
CLARA - (fora de cena num grito estrangulado) - Feliz!
FELIZ - Sei o que esse grito significa, ela está voltando a si.
Entendo sua má vontade, mas às vezes a paciência também
perde a paciência (uma barata corre pelo palco) Baratas!
(prende a respiração com nojo) Um toque humano. Li em
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams algum lugar que elas são imunes à radiação, por isso serão
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
algum lugar que elas são imunes à radiação, por isso serão os
últimos sobreviventes do planeta.
CLARA - (ainda fora de cena mas com a voz mais limpa) –
Feliz
FELIZ - (olha para a estátua) “O homenzinho selvagem com
um tambor dentro da jaula. Comparado ao medo que cresce
até o pânico, a consciência sumindo, um ser vivo e sensível
não consegue experimentar qualquer emoção criadora, nem o
amor ou o ódio podem se comparar à força
grandeza
ah,
está retórico demais, vou ter de trabalhar nisso depois
(pausa). Vocês já perceberam que estou tentando prender a
atenção de vocês com esse monólogo que só de uma forma
bem genérica tem a ver com
direção à estátua)
(faz
sem olhá-la um gesto em
CLARA – Cadê você?
FELIZ - (arranca e deixa cair uma folha do caderno)– “Há o
amor e suas
alternativas, envolvimentos superficiais
condenados a uma breve duração, mesmo que necessários.
Você não pode prender uma pessoa e depois pedir a ela, por
mais que a ame: toma conta de mim, estou com medo, não
sei o que fazer! Essa pessoa tão amada teria você nas mãos,
acabaria por desprezá-lo, não aceitaria mais a prisão. Em seu
coração há um aparelhinho automático que não pára de
sussurrar: exija, chantagie, despreze, rejeite! Então, na
manhã seguinte você terá de preparar sozinho o seu café, dar
seus próprios telefonemas e ir ao médico pra lhe dizer: doutor,
estou com medo de morrer”
CLARA - (ainda nos bastidores vê o irmão) – Feliz!
FELIZ - Clara! (larga caderno e caneta. agacha-se)
CLARA - (levemente iluminada) - Alguém me chamou?
Feliz – Eu te chamei, que nem louco.
CLARA - Quanto tempo a gente tem?
FELIZ - (vem à boca de cena, para o público) - Imaginem que
há uma cortina aqui (dá Uma olhada através da imaginária
cortina) Está quase na hora, o público já está aí.
CLARA -Cadê todo mundo?
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams FELIZ - Todo mundo? Em algum lugar (para o público) O
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
FELIZ - Todo mundo? Em algum lugar
(para
o público) O
que eu preciso agora é que ela não entre em pânico e
represente bem neste teatro desconhecido, o que não nada
fácil. (Clara entra completamente em cena, insegura e meio às
cegas. dá de cara com a estátua e grita. Feliz deixa cair um
objeto tirado do baú)
CCEENNAA 33
CLARA - De quem é essa aberração?
FELIZ – Sinceramente, não sei, mas daí não sai.
CLARA - Ela sufoca o palco todo. Que peça, meu Deus, pode
ter sido representada debaixo disso? Nem mesmo Medéia ou
Édipo
Daqui
não sai, foi isso que você disse?
FELIZ - (desesperançado) – Não será iluminada
CLARA -Qualquer luz ilumina isso!
FELIZ - Quer parar de gritar? Tem gente na platéia!
CLARA - É você que está gritando!
FELIZ - Por favor, Clara, você
CLARA - Eu o quê?
FELIZ - Sua histeria crônica está acabando com meus
nervos
CLARA - E os meus, hein? Também sou um animal vertebrado
com um sistema nervoso submetido a choque atrás de
choque
(tropeça
e grita de novo) Felix - Cuidado!
CLARA - Feliz, esse monstro é obsceno.
FELIZ - Eu sei, tive a mesma impressão, tentei tirá-lo daí mas
não consegui, pedi ajuda mas ninguém apareceu, então,
agora, o que a gente tem de fazer é esquecer. Depois de
tantas temporadas, você já deve ter percebido que sempre
nos deparamos com certas circunstâncias inalteráveis que
devemos simplesmente ignorar.
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - (controlando o choro) – É, eu também já percebi
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - (controlando o choro) – É, eu também já percebi isso
nessas nossas excursões Intermináveis
circunstâncias
inalteráveis
Pox
vobiscum! Pox rima com Fox
O
que eu vou
fazer daqui pra frente nas minhas horas de folga, enquanto a
gente espera pelos fiscais pra confiscarem nossas coisas, é
FELIZ - Quer fazer o favor! Minha cabeça está estourando!
(segura com força a cabeça)
CLARA - Quem sabe não seria bom fazer uma relação
completa dessas
inesperadas
e inalteráveis
circunstâncias
vejo
você mais tarde (anda lentamente e sem
muita segurança até a boca de cena e ao longo do proscênio.
seus olhos têm um brilho febril pouco natural) Lembra do dia
em que fomos tomar chá na casa daquele pintor? Quando a
gente chegou o porteiro disse: “Ah, ele
não
vale a pena
subir". Não era que não valia a pena, simplesmente que o
velho estava morto diante de uma tela totalmente branca, a
chaleira seca no fogareiro, sentado debaixo de uma clarabóia
com aquela luz de inverno, não vi nenhuma janela no
quarto
este
teatro fica debaixo da terra, é? Será o templo do
prazer de Cablacublacun? (durante esta fala, Feliz fica
paralisado de consternação pela irmã). O rio sagrado deve
correr congelado por aqui
Feliz!
(esbarra em alguma coisa, susto)
FELIZ - Calma, Clara.
CLARA - Você me ajuda a enfrentar esse pesadelo de ruínas?
É como se eu estivesse no mar num navio que tivesse acabado
de afundar, no meio dos vômitos de um naufrágio!
FELIZ - Sombrinha.
CLARA – Sombrinha?
FELIZ - Estou verificando os objetos de cena.
CLARA - Não quero nem pensar nisso
FELIZ - Não pensa, só presta atenção.
CLARA - Não dá mais pra prestar atenção. Nasci e me criei
nessa
profissão! Não vou dar mais um passo até que você
se lembre que é um cavalheiro e meu irmão
aqui, como esse monstro, até que você
Vou
ficar imóvel
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams FELIZ - Luvas! Chapéu CLARA - Eu disse FELIZ - Dá
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
FELIZ - Luvas!
Chapéu
CLARA - Eu disse
FELIZ - Dá um tempo! Sabe, não consigo acompanhar teus
altos e baixos, juro que não. (sobe até o último degrau da
escada de ferro e deixa lá em cima a sombrinha e as luvas de
Clara)
CLARA - Nem eu, é todo um processo sem fim de resignação.
FELIZ - (corta) - Bacia, sabão líquido
argolinha?
cadê
a outra
CLARA - (indo ao proscênio) - Depois dos desastres da última
temporada deveríamos ter ido descansar à beira mar em vez
de excursionar por esses lugares tão primitivos e distantes.
FELIZ - Clara, você sabe muito bem que nenhum de nós dois
tinha a menor chance de parar.
CLARA - Eu não poderia mesmo, não sozinha. Só se você
parasse comigo. (senta no baú)
FELIZ -A gente tem de continuar, não temos saída.
CLARA - Acho que quando duas pessoas viveram e
trabalharam juntas por tanto tempo que é até difícil calcular, é
natural entrar em pânico como eu entrei quando voltei a mim
naquele camarim lá de traz. Sabe o que me acordou? Um
grunhido, o barulho de asas batendo em direção ao teto
invisível, um morcego! Mas não fiquei com medo nem
surpresa. (os dois riem triste e alegres ao mesmo tempo)
Realmente, aquele camarim é um congelador nojento, mas eu
estava tão cansada que dormi sentada numa cadeira com o
encosto quebrado.
FELIZ - Ainda bem que você dormiu.
CLARA - Estou meio zonza e minha voz acabando.
FELIZ -(ainda arrumando os objetos de cena) - Telefone
em
cima do piano
você
nunca consegue entrar em cena sem me
dar uma notícia assim, que está sem voz e que vamos ter de
fazer um espetáculo de mímica.
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - É, no meu caso isso parece ser sempre verdade.
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - É, no meu caso isso parece ser sempre verdade.
FELIZ – Infelizmente nunca é.
CLARA - Eu faço o máximo que posso pra entender teu
nervosismo e ansiedade. Por que não tenta também entender
um pouco meus problemas?
FELIZ - Tento, mas são tantos! Vem cá, tenho algumas coisas
pra você.
CLARA - Também tenho algumas pra você: quero que em
cena me olhe direito, pare de evitar os meus olhos
não
consigo contracenar com alguém quando me olha sem me ver.
FELIZ - Querida, eu continuaria a ver você nem que ficasse
cego.
CCEENNAA 44
CLARA - (voltando ao proscênio) - Deixa eu dar uma olhada
neles.
FELIZ - (impedindo) - Não.
CLARA -Por que?
FELIZ -Quando você olha o público antes do espetáculo acaba
se reprimindo em cena, não consegue se perder na peça.
CLARA -Não sei porque estamos falando assim, como se esta
noite fosse a última e a gente estivesse se culpando por isso!
FELIZ -Você conseguiu descansar, mas eu não, estou
exausto, provavelmente vou esquecer várias falas hoje.
CLARA - Quase sempre antes do espetáculo começar você me
diz que está sem memória.
FELIZ - É.
CLARA - Infelizmente nunca está. (com medo na voz) Essa
não é a camiseta de papai?
FELIZ - Já estou vestido pra peça.
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - A de dois personagens? FELIZ - A outra foi
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CLARA - A de dois personagens?
FELIZ - A outra foi cancelada.
CLARA - Eu tenho de ser informada quando um espetáculo é
cancelado, do contrário não entro em cena. Aquela escada não
é
da "Peça de dois personagens”!
FELIZ - Até agora só chegaram partes do cenário.
CLARA - Ela não leva a lugar nenhum, pára no espaço.
FELIZ - Já coloquei tuas luvas e sombrinha lá em cima, basta
você subir alguns degraus e eu digo que foi pro andar de cima.
CLARA -Está falando sério, quer mesmo representar desse
jeito?
FELIZ – Seriíssimo.
CLARA - E o sofá, cadê?
FELIZ - Também não veio, vamos ter de usar essas
almofadas.
CLARA - Você pretende inventar falas hoje?
FELIZ - Esta noite sinto que vamos ter de improvisar muito,
mas se a gente se deixar perder dentro da peça a
improvisação não vai atrapalhar nada, pelo contrário, vai
tornar a peça ainda melhor.
CLARA - Eu gosto de saber o que estou representando,
principalmente como é que termina essa "Peça de dois
personagens", ela nunca tem fim!
FELIZ - Quando a luz acender você vai voar como um pássaro
através da peça, se esquecer alguma coisa, inventa.
CLARA - Há quanto tempo a gente está aqui? Pra mim parece
a
própria eternidade. Todas aquelas cidades, nunca pensei que
o
mundo fosse tão grande
Pelo
amor de Deus, Feliz,
sinceramente, eu não consigo me lembrar onde foi que
pegamos o último trem. Você se lembra?
FELIZ - Lógico.
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA – Então diz: onde? FELIZ - Agora não, Clara. Não
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA – Então diz: onde?
FELIZ - Agora não, Clara. Não me pergunta nada agora,
certo? Guarda tuas perguntas pra depois do espetáculo.
CLARA - Se importa se eu fizer um comentário sobre tua
aparência?
FELIZ - Não.
CLARA - Você tem os cabelos lindos, mas estão grandes
demais, quase do tamanho dos meus.
FELIZ - Feliz não é o tipo de homem que vai sempre ao
barbeiro.
CLARA - Mas o papel de Feliz não é o único que você
representa. A “Peça de dois personagens” é certamente o
texto mais estranho do nosso repertório, mas não o único.
FELIZ - De hoje em diante pode ser.
CLARA - O resto do grupo não vai gostar nada disso. Por que
é que eles ainda não chegaram?
FELIZ - Sei lá.
CLARA - Maravilha! A excursão termina hoje, é?
FELIZ - Pode terminar se a gente não conseguir fazer um
brilhante espetáculo.
CLARA - Tudo o que eu consigo me lembrar dessa última
viagem, eu devo ter tido muita febre, é que ora estava claro,
ora escuro, então ficava mais ou menos e de novo escuro
paisagem ia de campos pra montanhas e de montanhas pra
campos. Meu relógio congelou. Honestamente, não tenho a
menor idéia de onde a gente está, parece um mausoléu
gigantesco de lugar nenhum. (ruídos e murmúrios guturais na
platéia. vozes. Feliz bate com o pé no chão, a peça vai
começar)
a
FELIZ - Depois eu respondo tuas perguntas, mas não vou
atrasar o início da peça pra responder mais nada!
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CCEENNAA 55 CLARA - Você acha que eu não sou igual
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CCEENNAA 55
CLARA - Você acha que eu não sou igual a você?
FELIZ - É superior.
CLARA - Só numa coisa: sou mais realizada, e insisto em
saber porque só nós dois estamos aqui.
FELIZ - Está ouvindo a gritaria?
CLARA - Parecem gorilas furiosos
A
minha pergunta: onde é
que os outros estão? (procura cigarro) O cigarro
acabando
(acende
o cigarro, seus dedos tremem. O irmão
bate duas vezes com o pé o chão) Fala: e todo mundo?
FELIZ - Quer mesmo saber?
CLARA - Quero.
FELIZ - Acho que não vai gostar. (pega um telegrama do
bolso) Olha, lê.
CLARA -(pegando o papel) - Você sabe que sou cega sem
meus óculos. Acende um fósforo.
FELIZ - (mexe na caixa) - O fósforo acabando
palito para a irmã ler)
(acende
um
CLARA - (lendo alto e devagar) – “Você e sua irmã
são
loucos!
Pedimos dinheiro emprestado para voltar”
(o
fósforo apaga. ela vai ao piano e toca uma tecla) Bem, como
eles dizem
FELIZ - O quê?
CLARA – Loucos
FELIZ - Foi todo mundo embora, ficamos sozinhos. Não tem
um técnico, a não ser dois absurdos contra-regras que
entraram sem uma palavra, colocaram esses pedaços de
cenário
CLARA -Foram embora também?
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams FELIZ - Tentei que falassem, mas eram silenciosos como carrascos, nem
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FELIZ - Tentei que falassem, mas eram silenciosos como
carrascos, nem olharam direito pra mim.
CLARA - Dá pra reconhecê-los?
FELIZ - É você que sabe o nome de todos os contra-regras,
eu sorrio, aperto a mão deles mas não me lembro nunca dos
nomes nem das caras.
CLARA - Você sempre se envolve tanto no que faz que às
vezes mal me reconhece
Entendo isso, mas um grupo novo
não tinha a menor obrigação de compreender, eles devem ter
ficado ofendidos e confusos, chegaram à conclusão de que
você era meio louco, não só um excêntrico, mas pirado
mesmo. E ainda por cima você pegou a mania de ficar
gritando: "louco, estou ficando louco!". Acho que no fim eles
acabaram acreditando nas tuas palavras.
FELIZ - O telegrama diz que só eu sou louco, é?
CLARA - Não, ele diz "você e sua irmã". Pois é querido, nós
artistas nos entregamos tanto ao nosso trabalho que
praticamente não agimos mais como pessoas normais
FELIZ - A não ser por uma morte ou internamento, a gente
está nisso há
CLARA - Há quanto tempo?
FELIZ - Muito tempo.
CLARA - Quanto?
FELIZ - Você sabe?
CLARA - O tempo foi sempre problema teu! (pausa) Não te
dei um pedaço novo de pele pra gola do casaco?
FELIZ - Deu, mas prefiro minha gola antiga.
CLARA - Tudo bem
O
que é que a gente vai fazer agora,
nada ou alguma coisa?
FELIZ - Só os mortos não fazem nada, parece.
CLARA - É, parece.
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams FELIZ - Mas nós dois estamos vivos. CLARA - Vivos e
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FELIZ - Mas nós dois estamos vivos.
CLARA - Vivos e imortais
FELIZ - Os vivos têm de fazer alguma coisa.
CLARA - Bom
pensou no quê ou está esperando uma
inspiração milagrosa?
FELIZ - Representar a "Peça de dois personagens"
CLARA - Impossível.
FELIZ - Necessário.
CLARA - Algumas coisas necessárias são impossíveis.
FELIZ - E algumas impossíveis são absolutamente
necessárias.
CLARA - Que argumento!
FELIZ – Decisão.
CLARA - Feliz Devoto comanda, mas não dá pra comandar
sem alguém pra obedecer. Eu não serei esse alguém porque
sei perfeitamente o que vai acontecer, o caos completo, novas
falas jogadas em cima de mim como pedras. Gostaria de
trabalhar comigo em absoluto pânico e total confusão? Talvez
gostasse, mas não vai não, muito obrigada. Querido, esta não
é a primeira vez que eu tenho de salvar você de sua
autodestruição que me destrói também.
FELIZ - De vez em quando criaremos novas falas, qual o
problema?
CLARA - Eu não. Se a gente tentar dar um espetáculo hoje
isso provaria que é verdade o que o grupo disse da gente. Vou
voltar pro meu camarim, vestir meu casaco e dormir. Dormir
FELIZ - Clara, você já está de casaco. (pausa. ela toca um
acorde no piano)
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CCEENNAA 66 CLARA - Cadê teu uísque? FELIZ - Agora não,
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CCEENNAA 66
CLARA - Cadê teu uísque?
FELIZ - Agora não, depois.
CLARA - Não pode haver peça nenhuma!
FELIZ - Vai haver o quê?
CLARA - Fox anuncia que o restante do grupo e os cenários
não chegaram, por isso não pode haver espetáculo, simples.
FELIZ - (pacientemente) - Nada disso, vai haver espetáculo
sim e com a "Peça de dois personagens". E o Fox também
sumiu. (oferece uísque à irmã num frasco de prata)
CLARA - (bebendo) - Você acha realmente que eles pensam
que somos loucos ou só ficaram putos porque toda essa
excursão acabou num enorme fracasso?
FELIZ - Estou cagando pro que eles pensam.
CLARA - Não acha tudo isso maluco? Eu acho.
FELIZ - Vamos deixar essa conversa para depois, certo?
CLARA - Sabe o que aquela sem vergonha da Amália me
perguntou no trem? "Seu irmão e você sempre entram em
transe antes de um espetáculo?"
FELIZ - Querida, acho que você está fazendo confusão, aquela
sem vergonha da Amália não estava com a gente nesta
temporada. (vai aos bastidores)
CLARA - (alto) - Mesmo com as luzes acesas está um frio de
doer, imagina então na peça, ela acontece no verão e a gente
vai ter de tirar os casacos pro público poder acreditar que faz
calor. (tosse. Feliz volta e tira seu casaco. oferece as mãos à
irmã para tirar o dela, mas Clara só estica os braços com um
olhar de súplica)
FELIZ – Não quero tuas mãos, Clara, só o casaco.
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - Não vou tirar meu casaco nesse congelador nojento! Se
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - Não vou tirar meu casaco nesse congelador nojento!
Se você se acha capaz de fazer tua mímica pra eles, então faz
(Feliz agarra a irmã e arranca o casaco dela. Clara grita. ele
joga o casaco atrás das almofadas e volta a bater no chão,
três vezes e agora com um pedaço de madeira) Feliz, por
favor, tenta compreender o que aquele telegrama me causou,
não posso representar esta noite “A peça de dois
personagens"
eu
não consigo me lembrar de uma única fala!
FELIZ - Quando começar você se lembra.
CLARA - Você acha que está sendo corajoso, mas na verdade
só está sendo irracional. Acredita em mim, não posso, não sei.
FELIZ - (obsessivo) - Você vai representar, Clara.
CLARA - Vou voltar pro camarim e você vai anunciar que
cancelamos a apresentação, por razões de força maior.
FELIZ - Vou até a frente anunciar que trocamos de peça.
Quando eu voltar você vai estar aqui.
CLARA - Nem pensar. Às vezes eu tomo decisões e não volto
atrás.
FELIZ - Olha minha testa: suando.
CLARA – Por que?
FELIZ - Porque é um dia quente de verão em Nova Belém.
CLARA - Uma vez aquele médico me disse que eu e você
éramos extremamente corajosos.Respondi: não, meu irmão e
eu temos medo de nossas próprias sombras! Ele respondeu:
sei, sei, é justamente por isso que admiro tanto a coragem de
vocês. Faz algum sentido? Vou explicar para eles, tentarei ser
bem simpática dizendo que algumas vezes acontecem coisas
que tornam impossível um espetáculo, vou
vou
me humilhar
diante deles, estender minhas mãos pedindo que tenham pena
de nós! (cai de joelhos. Feliz a levanta com carinho)
FELIZ - O telegrama foi um choque, eu sei, mas já
superamos. Agora, o que temos de fazer é lembrar que se não
somos atores não somos nada na vida, nada. Temos de
representar a peça da maneira mais bela possível, como nunca
antes, sem nos importarmos com o nosso medo, entendeu?
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - (passando as mãos no cabelo do irmão) - Teus
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - (passando as mãos no cabelo do irmão) - Teus
cabelos cresceram tanto que você parece um hermafrodita.
FELIZ - É? (sorri. bate com o pau pela última vez no chão, só
uma vez. joga-o atrás das almofadas)
CLARA - Bonne chance! Vejo você depois. (ignorando a
ameaça, Feliz vai até o proscênio fazendo a mímica de passar
pela invisível cortina)
FELIZ - (para o público) - Senhoras e senhores, boa noite!
Gostaria que soubessem que minha irmã e eu estamos
profundamente honrados em dar nossa contribuição a esse
programa, a essa idéia de intercâmbio cultural. Tivemos
algumas, quer dizer, uma série de dificuldades inesperadas,
mas sendo atores há muito tempo estamos habituados a esse
tipo de coisa. Esta noite eu e minha irmã vamos representar
sozinhos porque o restante do grupo ficou preso devido às
excentricidades metereológicas, melhor dizendo, às
perversidades do tempo (ri cinicamente) Felizmente, entre
todos os textos do nosso repertório o que preferimos é
justamente uma peça de dois personagens que,
coincidentemente, se chama "A peça de dois
personagens"
(ri
novamente. tosse) Vamos
CLARA - (intercala) - Coitado
(veste
o casaco)
FELIZ -
representar
para vocês essa peça e esperamos
sinceramente que perdoem as nossas dificuldades técnicas e
os problemas causados pela ausência dos outros, uma
ausência inevitável
(agradece
e volta de costas para o
cenário.em tom de comando fala à irmã) Clara, na marca! Vai
começar.
CLARA - (ameaçando ir para os bastidores) Estou no
camarim. Feliz, por favor, não se humilhe assim.
FELIZ - É você que quer nos desgraçar! O espetáculo tem de
acontecer!
CLARA - Se você ficar aqui ele vai ser de um personagem só e
aí eu terei certeza de que aquele telegrama diz a verdade.
(Feliz desaparece nos bastidores. Clara às cegas começa a sair
do palco, mas pára diante da estátua e encosta sua cabeça
nela.ouve-se o som da cortina se abrindo. a sombra violeta
que cerca um pedaço do palco vai aos poucos clareando.
ouve-se uma gargalhada debochada, inumana, estranha. Clara
16

GRITO D'ALMA, Tennessee Williams

então vira-se rapidamente e olha desafiadoramente a platéia. Feliz volta)

FELIZ - Clara! (a gargalhada aumenta. Clara tira o casaco olhando fixamente a platéia)

CLARA - Quem começa hoje, você ou eu?

FELIZ - Você. (Clara dá uma nota aguda no piano) Tua marca é no telefone.

CLARA - (Sei. (vai até o aparelho)

FELIZ - Vai começar! (pausa)

CCEENNAA 77

FELIZ - Pra quem você está discando? (Ela parece não ouvi- lo)

CLARA - (você está ligando pra quem?

CLARA - Pra qualquer alma por acaso ainda viva neste mundo que desaparece

FELIZ - Então por que está segurando o fone?

CLARA - Pra ver se ele continua funcionando.

FELIZ -Continua?

CLARA - Está zumbindo no meu ouvido.

FELIZ - A telefônica teria avisado se fosse desligar.

CLARA - (vaga e tristemente) - Às vezes não avisam

FELIZ - A casa ainda está ocupada.

CLARA - Mas eles podem ter pensado que não, ela nunca está iluminada, ninguém entra ou sai há tanto tempo

FELIZ - Sei, mas teríamos recebido um aviso.

17

GRITO D'ALMA, Tennessee Williams

CLARA - Não podemos ter certeza disso.

FELIZ - O que a gente não pode é continuar vivendo de fantasias.

CLARA - É, devemos acreditar em coisas

FELIZ - Que aconteçam, coisas que

CLARA - Realmente aconteçam.

FELIZ - Claro, e que dependam da gente.

CLARA - Dependam da gente?

FELIZ - É, isso mesmo. (pausa) É verdade, ficamos chocados

CLARA - Quando as luzes não se acenderam.

FELIZ - Foi uma sorte a lua estar tão Clara, ela iluminou todo o andar de baixo.

CLARA - Mas ficamos esbarrando em coisas lá em cima.

FELIZ - Agora podemos encontrar nosso caminho no escuro, como os cegos.

CLARA - Sem precisar tocar nas paredes.

FELIZ - É uma casa pequena e vivemos nela toda a nossa vida.

CLARA - Você disse que eu banquei a sonâmbula a noite passada.

FELIZ - Você teve uma noite agitada.

CLARA - Você também.

FELIZ - Numa casa tão pequena, quando um de seus ocupantes tem uma noite agitada

CLARA - Deixa o outro acordado. (protestando alto) Por que sou obrigada a dormir naquela câmara da morte?

18

GRITO D'ALMA, Tennessee Williams FELIZ - (controlando-se) - Já não concordamos que o quarto deles
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
FELIZ - (controlando-se) - Já não concordamos que o quarto
deles seria apenas um quarto como outro qualquer? Tudo o
que era deles foi tirado de lá.
CLARA - Menos a voz de papai nas paredes e seus olhos no
teto que não deixam eu fechar os meus
Naquela
noite do
acidente você correu até o pé da escada e ficou bloqueando a
passagem, tive de arrancar você do caminho pra poder chegar
até o quarto
onde
mamãe abriu a porta como se eu fosse
uma desconhecida.
FELIZ - Esquece isso.
CLARA - Ela não deu o menor sinal de me reconhecer, só um
olhar de espanto abrindo a boca numa silenciosa fonte de
sangue, e atrás dela papai me olhando, calmamente
fiquei um pouco surpresa quando apareceu aquela torrente
vermelha e papai dizendo "Ainda não, Clara”, assim, gentil
comigo. Aí eles se afastaram em direções opostas, ela até a
porta do banheiro, onde caiu, ele até a janela, de onde atirou
me dizer que aquele quarto não é mais o quarto deles? Que
agora é meu? Herança que eu não quero pra não ter que me
lembrar
lugar
onde você nunca mais entrou!
FELIZ - Esquece isso!
CLARA - Quem me condenou à morte?
FELIZ - (com forçada calma) - Você não ficou no seu quarto,
veio pro meu.
CLARA - Queria fumar
FELIZ -Não temos mais cigarro desde
CLARA - Será que sou obrigada a ficar sozinha naquele lugar?
FELIZ - Você ficou andando pela casa, procurando coisas
CLARA - É, explorando tudo, todos os cantos.
FELIZ - Achou o que queria?
CLARA - Encontrei esta velha lembrança, este símbolo
a mão e mostra um anel)
(abre
FELIZ - O que?
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - Este anel com a minha pedra da sorte, a
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - Este anel com a minha pedra da sorte, a opala de
fogo.
FELIZ -Pensei que tivesse perdido. (música evanescente)
CLARA - Mamãe uma vez me disse que a opala é uma pedra
de azar.
FELIZ - Mulheres frígidas têm sempre essas superstições
CLARA - As opalas têm péssima fama. Foi presente de papai.
FELIZ - O que era suficiente pra ela implicar com o anel.
CLARA - Pessoas com insônia adoram ficar procurando coisas.
Achei este anel no bolso de um casaco antigo de cotelê todo
mofado
nem
liguei se ele dava azar ou não.
FELIZ - Clara, uma coisa tão linda não pode dar azar a
ninguém. (coloca o anel no dedo da irmã como se fizessem
amor. pára a música)
CCEENNAA 88
CLARA - (batendo numa tecla) - Você não disse que tinha
saído hoje?
FELIZ - Não me viu voltando?
CLARA - Mas não te vi saindo.
FELIZ - Quando alguém volta é porque antes saiu.
CLARA - Foi até onde? Passou dos girassóis ou
FELIZ - Fui até o portão. (pausa) Sabe o que eu vi?
CLARA - Alguma coisa que te deu medo e fez voltar.
FELIZ - Não, não fiquei com medo, só um pouco
assustado
(pára
de representar e fala como ponto. sua irmã
ficou zumbi) Clara.
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - (sumida) - O que? FELIZ - (sempre como ponto
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - (sumida) - O que?
FELIZ - (sempre como ponto e mais alto) - Quê que houve?
CLARA - O telegrama deles ainda está aqui.
FELIZ - Não tem telegrama nenhum na peça!
CLARA - Se não tem por que é que eu estou vendo ele?
Quando a gente vê uma coisa não dá pra pensar que ela não
existe. (Feliz pega o telegrama, amassa e joga longe)
FELIZ - Pronto, acabou, foi só um momento de confusão.
CLARA - Que modo mais cômodo de se livrar de um momento
de confusão!
FELIZ - Sumiu, já disse. (pausa. volta a representar) Deixa eu
te contar o que eu vi no jardim.
CLARA - Conta, conta! (aparece um girassol lindo e enorme
no ciclorama)
FELIZ - Um dos girassóis cresceu tanto que ficou do tamanho
da casa.
CLARA - Não acredito!
FELIZ -Vai lá e olha. (ela quer rir) Olha pela janela então, ele
está na frente do jardim, do lado de cá.
CLARA - Na frente? (Feliz concorda meio sorrindo com a
cabeça, mas evita olhar para a irmã) Ah, você está brincando
comigo.
FELIZ - Não estou não. Olha pela janela. Ele cresceu tão
depressa, como aquele feijão mágico daquela história pra
criança. É dourado e tão brilhante que parece gritar coisas
maravilhosas. Será que atrairia turistas até aqui?
CLARA - Turistas?
FELIZ - Botânicos! A gente conhece esses cientistas, eles
virão em massa até Nova Belém para se extasiarem diante da
maravilha, tirar fotos para a Revista Geográfica Nacional, um
girassol de duas cabeças mais alto que a casa de dois andares
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams onde moram um irmão e uma irmã de dentro dela desde
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
onde moram um irmão e uma irmã
de dentro dela desde que
que
nunca mais saíram
CLARA - Que tarde comprida
FELIZ - É verão, nossa estação preferida, mas depois que a
tarde acabar vamos voltar a dar encontrões no escuro e não
só em móveis e paredes
CLARA - Pode chamar isso de "o poema dos dois irmãos".
Escuro como o nosso sangue.
FELIZ - Nosso sangue?
CLARA - Sim, o nosso sangue é escuro. Se não é, o que é
então? Anormal?
FELIZ - Anormal
CLARA - Agora vamos fechar nossos olhos de crianças e
acender as velas.
FELIZ - Não tem essa fala
CLARA - (rindo brilhantemente) -Tant pis! Che pecato! Azar!
(uma súbita mudança no estilo de representar acontece. eles
parecem haver saído de uma realidade onírica e entrado na
realidade cotidiana)
CCEENNAA 99
FELIZ - Clara, tem alguém batendo.
CLARA – Quem?
FELIZ - Não dá pra ver através da porta.
CLARA - Não estou ouvindo nada. (Feliz bate na mesa com a
mão) Que gente insistente!
FELIZ - Vai ver quem é.
CLARA - Não posso, não estou bem vestida.
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams FELIZ - Está linda. Eu é que estou péssimo, minha camiseta
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
FELIZ - Está linda. Eu é que estou péssimo, minha camiseta
está toda suada.
CLARA - E daí, o calor está insuportável. Vai lá, convida a
pessoa a entrar. Se quiserem me ver, diz que vai me chamar
lá em cima. (vai para a escada)
FELIZ - Meu Deus, será que você chegou ao ponto de ter
medo de abrir a porta?
CLARA - (Clara sobe alguns degraus da escada em
espiral)
pararam
de bater, foram embora. Não, olha, estão
passando um cartão por debaixo da porta! (os dois olham com
medo o imaginário cartão) Pega ele. (Feliz vai até a porta e
pega o cartão. Dá uma olhada e fica com o rosto contraído,
respirando forte)
FELIZ - (lendo) - Serviço de ajuda aos necessitados.
CLARA - Nunca ouvi falar disso.
FELIZ - Nem eu. Acho que devemos ter todo o cuidado com
coisas que nunca
CLARA - (descendo) - Pode ser uma brincadeira de mau
gosto, uma desculpa para
FELIZ - Invadirem a nossa privacidade.
CLARA -Exatamente. Rasga ele.
FELIZ - Não vamos precisar disso, nunca.
CLARA - Não mesmo. Além de tudo, teríamos tantas
perguntas pra responder, entrevistas, questionários. Essas
organizações são tão frias.
FELIZ - Impessoais.
CLARA - Vou colocar ele (pegando o cartão da mão do irmão)
debaixo do retrato de casamento da vovó
se sabe, de uma situação desesperada.
para
o caso, nunca
FELIZ - Pois é, uma situação em que o desespero aumente
tanto que
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - Bom, já sabemos onde ele está. O importante agora
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - Bom, já sabemos onde ele está. O importante agora
é a gente se preparar para uma ação pública contra nós. Eles
sabem que ainda estamos aqui.
FELIZ - Que tipo de ação?
CLARA - Despejo, por exemplo.
FELIZ - Ah, pára de pensar isso, acaba atraindo desgraça pra
gente.
CLARA - Que merda! (anda de um lado para o outro
apertando as mãos)
FELIZ - Fica fria. (senta numa almofada, as mãos debaixo do
queixo e fica olhando o tapete)
CLARA - Vai ficar olhando essa rosa puída do tapete até que
ela murche, é?
FELIZ - E você, vai ficar apertando as mãos como se estivesse
rezando?
CLARA - Ah, eu quero tanto sair hoje, tanto! Andar pelas
ruas, ver gente, conversar.
FELIZ - Então sai.
CLARA - Sozinha?
FELIZ - Quê que tem?
CLARA - Vem comigo.
FELIZ - Hoje não.
CLARA - Por que?
FELIZ - Tenho de ficar, pra proteger a casa.
CLARA - De quem?
FELIZ - Curiosos, invasores! Alguém tem de ficar e esse
alguém sou eu. Você pode ir, tudo bem. Logo que você
acordou deve ter percebido que hoje seria um dia diferente
pra você, um dia de sair, sorrir, fazer visitas. Você até lavou
os cabelos, estão lindos. Está parecendo um anjo. Sai. Por
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams todo lugar onde passar pede um cigarro, diz que esqueceu os
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
todo lugar onde passar pede um cigarro, diz que esqueceu os
seus em casa, não fuma, traz eles pra gente fumar mais tarde.
(abre a porta para a irmã)
CLARA - Abriu a porta praquê?
FELIZ - Pra você sair.
CLARA - Muito elegante da tua parte, mas se você está
pensando que eu vou sair sozinha está muito enganado! (os
dois ficam se olhando, os lábios de Clara tremem, um sorriso
irônico e terno desabrocha no rosto do irmão) Imagine eu
voltando e deparando com um montão de gente na frente da
casa e uma ambulância ou carro de polícia. Isso já aconteceu
antes. (bate a porta) Minhas pernas não conseguiriam ir a
lugar nenhum, quando eu falasse ou sorrisse a expressão do
meu rosto ficaria dura como uma máscara, meu cabelo
grudado no suor da testa
Não
daria pra visitar amigos, aliás,
que amigos?, antes de chegar lá eu voltaria.
FELIZ - Foi você quem disse que queria sair.
CLARA - Nunca me passou pela cabeça deixar você sozinho.
Eu lá fora e a sirene dos bombeiros tocando, um revólver,
pum!, atirando. Você acha que daria pra eu ficar conversando
e sorrindo? (Clara soluça docemente, suas mãos buscam as do
irmão) Meu coração não agüentaria.
FELIZ - Nunca achei que você fosse sair.
CLARA - Sozinha não, claro que não. Agora, conversar com
pessoas, a gente pode fazer isso por telefone. (vai até o
aparelho e disca um número)
FELIZ - Pra quem que você está ligando? (tenta arrancar o
aparelho das mãos da irmã)
CLARA – Padre Antonio? Aqui é Clara Devoto
é,
isso,
filha
(Feliz
tenta outra vez tirar o fone da irmã) Feliz, ele vai
pensar que eu estou
FELIZ - Maluca? Está mesmo!
CLARA - Desculpe, padre, o fone caiu
como?
não,
nada de
mais
eu
e meu irmão ainda vivemos na casa de nossos pais,
depois daquele acidente tão maldosamente descrito nos
25
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams jornais: papai não matou mamãe e depois se matou, nada disso,
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
jornais: papai não matou mamãe e depois se matou, nada
disso, nossa casa foi invadida por um
FELIZ - Protegido da natureza!
CLARA - Assaltante que matou nossos pais, mas a suspeita
caiu sobre nós! Oh, é tão difícil continuar vivendo aqui, meu
irmão e eu nos sentimos tão acuados que quase nunca saímos
de casa. De noite as pessoas ficam fazendo ameaças, mandam
cartas cheias de obscenidades, aquele jornal insiste em nos
chamar de filhos loucos de um homem que era um falso
místico, mas, padre, nossa pai foi realmente uma pessoa com
poderes paranormais e místicos, só possíveis num ariano cujo
elemento é o fogo cardeal. (soluça) Ah, não consigo descrever
para o senhor como tem sido terrível
pedras com um estilingue na gente
o
oh,
filho do vizinho joga
ele acaba de atirar
uma! (Clara deixa o fone cair no mais completo pânico. Feliz o
apanha)
FELIZ – Padre Antonio, minha irmã não tem passado bem, ela
está com febre
CLARA - Não!
FELIZ - Está fora de si, desculpe
(desliga,
limpa o suor da
testa com as mãos que tremem) Beleza! Nossa única chance
de salvação é nossa privacidade e você foi falar besteira logo
para um homem que vai achar seu dever cristão nos internar
num
(Clara
tropeça, grita e toca no piano várias vezes a
mesma tecla. Feliz arranca Clara de lá e fecha violentamente o
piano) Clara!
CLARA -Você não deve nem pensar nessa palavra, ela não
existe
FELIZ - Sei, uma palavra proibida! Quando uma palavra não
pode ser usada seu sentido aumenta, ela fica cada vez maior,
fica tão grande quanto esta casa!
CLARA - Então fala, fica falando ela, fica, seu monstro
perverso, seu
(Feliz
afasta-se) Está assustado, com medo?
FELIZ - Não vou fazer loucura nenhuma, tenho de pelo menos
fingir que há um mínimo de sanidade mental aqui.
CLARA - É isso que você quer? Pensei que estava querendo ir
além de todos os limites. (Feliz olha furiosamente para a irmã.
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams ela sorri silenciosamente formando com os lábios a palavra “manicômio”.
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
ela sorri silenciosamente formando com os lábios a palavra
“manicômio”. depois a sussurra. Feliz pega uma almofada e
Clara fala mais alto) Manicômio, manicômio! (Feliz tapa a boca
da irmã com a almofada segurando-a com força. lutam. Clara
parece estar sendo sufocada. de repente os dois param e
Clara, olhando fixa e apavoradamente para a platéia, fala num
tom calmo e completamente cotidiano) Feliz, tem um homem
armado no público, ele está apontando um revólver pra mim.
FELIZ - Clara, por favor! (olha para a irmã com desespero,
em seguida fala ao público) Infelizmente, acho que vai ser
necessário dar uma parada, ela não está nada bem. (quieto e
calmamente, Feliz leva Clara para fora do palco. ela o
acompanha sem resistir. luz cai repentinamente em estertor)
UM MINUTO DE SILÊNCIO
CCEENNAA 1100
(volta luz. barulho nos bastidores. Feliz surge arrastando Clara
à força. Ambos respiram com dificuldade. Feliz larga a irmã)
FELIZ - (apontando para uma bacia no peitoril da janela) - O
quê que essa bacia está fazendo aqui?
CLARA - (olhando desafiadoramente para a irmão) - É um
brinquedo de criança, já se esqueceu que a gente brincava de
soprar bolhas nos degraus lá de traz?
FELIZ - Nos degraus, não aqui na sala.
CLARA - Ontem você não disse que a gente não tinha nada
pra fazer? Ótimo, agora temos: bolhinhas de sabão. (sopra
uma)
FELIZ - Lindo, mas elas estouram.
CLARA - Tenta. (dá para ele a argolinha. Felix começa a rir)
Qual a graça?
FELIZ - Toda loucura tem o seu lado engraçado. Não podemos
ficar bancando crianças diante do público.
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - Esta fala é minha. FELIZ - (pára de rir)
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - Esta fala é minha.
FELIZ - (pára de rir) - Tem uma coisa que você precisa
saber
CLARA - Feliz, você está pulando toda uma página. (pausa)
Esqueceu tuas falas? (Feliz parece que vai desmaiar. ela o
senta docemente nas almofadas) Descansa, respira, isso,
deixa que eu retomo
de
onde, meu Deus?
FELIZ - Quando papai desistiu
CLARA - Quando papai desistiu do seu equipamento, de suas
leituras espiritualistas e das suas previsões astrológicas,
poucos dias antes daquele inexplicável acidente
verdade, ele não chegou a desistir
bem, na
FELIZ - Não foi ele que desistiu.
CLARA – Foi mamãe que trancou no porão o equipamento
dele.
FELIZ - Menos esta camisa que estou usando agora, com os
signos dele e esse mapa do céu na hora em que nasceu aqui
em Nova Belém.
CLARA - Sabe, ele parecia aceitar, pelo menos não falava
nada, nem mesmo quando ela disse que ia interná-lo no
manicômio do Estado: "É, estou vendo que você está ficando
louco de novo. Ou você mesmo se interna por um longo tempo
ou eu
Ele não reagiu, ficou quieto, a não ser na hora em
que ela mandou ele cortar suas flores sagradas do jardim aí da
frente, dizendo que se ele não fizesse isso ela mesma cortaria
tudo.
FELIZ - É, nossa mãe fez várias ameaças de castração
CLARA - "Ou você corta essas malditas flores ou eu mesma
corto!”
FELIZ - "Faz isso se tiver coragem, faz!"
CLARA - Ela não fez mas papai ficou inquietamente quieto,
sentado olhando pra essa rosa puída no meio do tapete
ela
parecia estar pegando fogo, exatamente como os olhos dele e
os seus agora
quando
um tapete pega fogo numa casa de
28
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams madeira a casa também pega fogo. Olha, nossa casa é de
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
madeira a casa também pega fogo. Olha, nossa casa é de
madeira! Pano e madeira são dois materiais inflamáveis, com
os teus olhos, três!
FELIZ - Não, quatro! Não sou um ciclope de um olho só, e
somando os teus são seis! (ela toca uma nota aguda no piano.
ele olha com raiva para a irmã. Clara volta a tocar a mesma
nota, mais alto) Continua! (pausa)
CCEENNAA 1111
CLARA - (noutro clima) - Você não disse que tínhamos uma
coisa pra fazer?
FELIZ - Sair.
CLARA - Para algum lugar especial ou
FELIZ - À loja do Pontual.
CLARA - Lá?
FELIZ - É.
CLARA - Já tentamos e não conseguimos.
FELIZ -Porque nossa motivação não era forte, e a tarde não
estava tão bonita.
CLARA -Hoje ela está linda.
FELIZ - Só sei que temos de ir ao Pontual. Não te contei, mas
de vez em quando o carteiro consegue atravessar nossa
barricada de girassóis e deixar um aviso de que mais nenhum
pedido será aceito e que nenhuma encomenda será deixada
nos degraus
CLARA - Já sei, já sei. Há muito tempo que a gente está
devendo, que não pagamos nada.
FELIZ - Por isso devemos falar pessoalmente com o dono, no
escritório dele.
CLARA - E onde é que fica esse escritório dentro daquela
fábrica que mais parece um labirinto?
29
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams FELIZ - Pedimos pralgum empregado levar a gente. CLARA - Se
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
FELIZ - Pedimos pralgum empregado levar a gente.
CLARA - Se algum empregado nos vir vai fingir que não viu.
FELIZ - Não se a gente entrar com firmeza. Hoje vamos
entrar como um casal de
CLARA - Prósperos fregueses e bons pagadores.
FELIZ - Isso mesmo. Falamos pessoalmente, convencemos
ele de que apesar de tudo o seguro de papai vai ser pago no
dia
CLARA - Feliz, a gente sabe que isso não vai acontecer em dia
nenhum de mês nenhum de ano nenhum!
FELIZ - Mas temos de dizer que vai!
CLARA - Não sei
não
acho que as coisas
FELIZ - Então não acha, não acha nada então! Você não
consegue ter uma atitude positiva!
CLARA - O pouco que a gente faz sou eu quem faz. (pausa)
Olha, fomos informados pela Cia. de Seguros Progresso, e o
Pontual sabe disso, ele não sabe de tudo?, que o seguro de
papai está, como é mesmo a palavra?
FELIZ -Penhorado.
CLARA -Pois é, o pagamento da apólice está suspenso em
virtude do fato
FELIZ - De um homem ter matado a sua mulher e em seguida
se matado
foi
só um procedimento legal deles, mas a gente
deve
CLARA - Ah, Feliz, o que é que você entende de leis?
FELIZ - Sei que em determinados casos essa legalidade perde
sentido em favor do fato dos filhos estarem sem outro meio de
subsistência
CLARA - Você está subestimando a desumanidade da
Progresso. Meu Deus, eles responderam com apenas três
linhas uma carta que escrevemos e reescrevemos durante
30
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams mais de uma semana, um pedido com nada menos de doze
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
mais de uma semana, um pedido com nada menos de doze
páginas!
FELIZ - Foi um erro termos pedido, deveríamos ter exigido.
CLARA - Você nem colocou a carta no correio.
FELIZ - Dei ela pro carteiro, o dinheiro do selo estava junto,
não se lembra não, é? A Progresso não teria nem respondido
se não tivesse recebido a nossa carta de doze páginas
quando acontecem acidentes terríveis os detalhes ficam
confusos, ou vai dizer que você também não ficou confusa
naquela noite? Desceu a escada correndo e ligou para um
médico morto há cinco anos!
CLARA - Quem é que poderia diferenciar os mortos dos vivos
naquele momento?
FELIZ - Pois é, mas se ele estivesse vivo, saberia o nosso
endereço? Você simplesmente disse pra viúva que era pra ele
vir na casa dos girassóis
é,
os detalhes ficam realmente
confusos. (pausa) Quer me ouvir agora?
CLARA - Estou te ouvindo perfeitamente, mais do que isso é
impossível.
FELIZ - A gente tem de dizer que o que vimos naquela noite
foi mamãe atirar em papai e depois se matar e
CLARA - Uma simples mentira é uma coisa, mas o oposto da
verdade é
FELIZ - (selvagem) - O que é a verdade no meio de pedaços
de metal explodindo nas mãos de um homem levado à loucura
pela ?!
CLARA - (fria) - O que você está sugerindo é que enfrentemos
o sr. Pontual, aquele ricaço, no seu escritório. Será que tem
cadeiras pra gente sentar ou teremos de ficar de pé olhando
pros óculos bifocais dele enquanto gaguejamos essa mentira
maluca ?
FELIZ - (ironicamente) - Poderíamos ficar olhando um
pouquinho acima dos óculos dele, ou abaixo, e falar rápido,
muito rápido
CLARA - Dizendo o quê?
31
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams FELIZ - Que a Progresso decidiu conceder CLARA - Ah, sei,
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
FELIZ - Que a Progresso decidiu conceder
CLARA - Ah, sei, um plano, uma trama
acho
que esse teu
plano deveria amadurecer mais. Amanhã a gente vê isso, hoje
já está tarde.
FELIZ - (frustrado) - Hoje você está tão bonita, tão bem
vestida.
CLARA - A blusa encolheu, acho que ficou meio
indecente.
FELIZ - Atraente.
CLARA – Atraente?
FELIZ - Sedutora.
CLARA - Pra seduzir quem?
FELIZ - Quando você olhar pro Pontual não vai fazer mal
nenhum sorrir pra ele.
CLARA - Nosso medo é nossa coragem. (parece que tem uma
bomba prestes a explodir)
FELIZ - Vamos?
CLARA - Tem gente na rua?
FELIZ – Tem sempre gente nas ruas.
CLARA - E aqueles rapazes grosseiros?
FELIZ - Nunca entendi porque naquele dia você ficou tão
apavorada, eles não estavam fazendo nada.
CLARA - Estavam sim, você sabe porque estava bem do meu
lado.
FELIZ - Não ouvi nada demais.
CLARA - Ficaram me encarando, soletrando um palavrão pra
mim.
FELIZ - Palavrão?
CLARA - É, o mesmo que alguém pichou no muro lá de traz.
32
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams FELIZ - Não tem nada no muro. CLARA - Se você
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
FELIZ - Não tem nada no muro.
CLARA - Se você não tem medo deles, por que não quis ir na
mercearia?
FELIZ - Não quis ir porque você estava apavorada, ia fazer
besteira aqui.
CLARA - O que?
FELIZ -Aquilo que nossos pais fizeram
CCEENNAA 1122
CLARA – Olha, não dá mais pra continuar essa peça.
FELIZ - Dá sim. (silêncio)
CLARA – Fala.
FELIZ - Alguns dias atrás você
CLARA - Eu não, você, você! (pausa) Não dá pra dormir numa
casa onde tem um revólver escondido. Me diz, onde foi que
você escondeu? Vamos destruir ele, juntos. (silêncio) Fala!
FELIZ - Tirei as balas.
CLARA – Colocou onde?
FELIZ - Esqueci.
CLARA – Mentira! Você sabe muito bem que a morte está
nesta casa.
FELIZ - Prefere casas separadas?
CLARA - Você ficou obcecado com essa idéia depois que saiu
do manicômio.
FELIZ - Não sei porquê me prenderam lá!
33
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - Você tinha perdido todo contato com tudo que tivesse
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - Você tinha perdido todo contato com tudo que
tivesse aparência de realidade.
FELIZ - Aparência e realidade não combinam.
CLARA - Tinha parado de falar.
FELIZ - Não tinha o que falar.
CLARA - Olhava pras pessoas sem reconhecer elas.
FELIZ - Não tinha nada nem ninguém pra reconhecer!
CLARA - Numa casa cheia de objetos familiares?
FELIZ - Nada cega mais a gente do que objetos familiares.
CLARA – Nem eu te agüentava.
FELIZ - Você não sabia onde estava.
CLARA - Sabia sim, tanto sabia que de manhã me levantava
enquanto você ficava deitado se escondendo debaixo das
cobertas.
FELIZ - (corre até a escada e começa a subi-la) - Era sinal de
que algo começava a nascer.
CLARA - Uma aparência de
FELIZ - Que a aparência se foda!
CLARA - Calma. (pausa. com força) Onde está o revólver?,
diz. Vou levá-lo ao porão e destruir ele a machadadas, só
assim poderei dormir em paz.
FELIZ - (descendo a escada. cansaço. carinho) - Muitas vezes
a gente não sabe o que nos mantém vivos. (liga o gravador.
no começo a rotação é vagarosa. com o olhar meio perdido,
Feliz encosta a porta de entrada da casa. os dois se olham
profundamente) Você tem o rosto de um anjo
eu
jamais
poderia fazer mal a você, nunca, nem consigo me imaginar
fazendo isso, nem mesmo pra forçar você a atravessar essa
porta (olha para a porta) que nunca consegue ficar
completamente fechada
Clara,
será que você não percebe
que seu inimigo é você mesma?
34
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - Ser o nosso próprio inimigo é ter contra nós
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - Ser o nosso próprio inimigo é ter contra nós o mais
implacável dos inimigos.
FELIZ - A porta ainda está aberta.
CLARA - (sorriso triste) – É
FELIZ - Vamos sair ou desistir pra sempre?
CLARA - Sair, claro
FELIZ - Ótimo. (pausa)
CLARA - Mas você tem de se trocar, ficar elegante. Vou até lá
em cima pegar o teu blazer e uma gravata. Que escada, meu
Deus!
FELIZ – A verdadeira não chegou.
CLARA - Tudo bem, eu subo e você me espera aqui. (sobe a
escada. Feliz desliga o gravador)
FELIZ - Fico sozinho ouvindo vozes e gargalhadas lá fora:
"malucos, loucos!" Aí fecho completamente a porta me
lembrando do que havia dito
CLARA - (corta) - Você disse que talvez ela nunca mais se
abrisse. (silêncio. Clara desce) Pronto, teu blazer e a gravata.
(mostra as mãos vazias)
FELIZ – Invisíveis?
CLARA - (sorriso de deboche) - Veste teu blazer invisível e
põe tua gravata invisível.
FELIZ - Vou fingir que
CLARA - Vamos, passa uma escova no cabelo.
FELIZ - Cadê?
CLARA - No bolso de dentro.
FELIZ - Ah
no cabelo)
(faz
o gesto de tirar uma escova e vai passá-la
35
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - Tudo bem, deixa eu fazer isso (dá um jeito
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - Tudo bem, deixa eu fazer isso (dá um jeito no cabelo
do irmão com os dedos)
FELIZ - Chega, está ótimo.
CLARA - Espera.
FELIZ - Chega!
CLARA - Hum
você
está parecendo um homem muito
importante, com ótimo crédito nas lojas de Nova Belém.
FELIZ -Hummm.
CLARA - Fechou a porta por que?
FELIZ - Por causa da poeira.
CLARA - Não tem poeira nenhuma.
FELIZ – Tinha.
CLARA - Abre então. (Feliz liga novamente o gravador. após
breve hesitação abre a porta) Esperando o quê?
FELIZ – Você.
CLARA - Sai primeiro, te sigo.
FELIZ - Verdade?
Clara – Verdadeira.
FELIZ - Mas vai você primeiro.
CLARA - Então vem comigo
a empurra. ela ofega)
(Feliz
pega firmemente a irmã e
FELIZ - Fora!
CLARA - Vê se não tem ninguém
FELIZ - Não tem ninguém, pára com essa besteira, as tardes
não são eternas!
36
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - Deixa eu por o chapéu! (vai até um pequeno
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - Deixa eu por o chapéu! (vai até um pequeno e
empoeirado espelho oval e coloca seu chapeuzinho de palha.
tudo é muito patético, mas não ridículo)
FELIZ - Pensava que você odiasse esse chapéu.
CLARA - Ele não é chic, claro, mas eu não vou sair sem
chapéu. (tira o raminho artificial da fita de seda do chapéu,
tenta colocá-lo em outra posição) Que horror, não consigo
FELIZ - (arranca o chapéu da cabeça da irmã e o joga na
escada. empurra Clara pela porta afora. agora estão no
jardim. ela protesta, grita, quer voltar. Feliz fecha a porta
atrás deles, pega a irmã pelas mãos e anda com ela alguns
passos) Você vai continuar tremendo assim?
CLARA - Se você continuar me empurrando. (pausa)
FELIZ - Estamos esperando o quê?
CLARA - Uma pedrada do menino do
FELIZ - Não!
CLARA - Feliz, alguma coisa pulou
!
FELIZ - Um canguru pulou! (Clara tenta rir) O escritório do
Pontual fica só um quarteirão e meio daqui.
CLARA - Quem tem pressa come cru.
FELIZ - Se a gente conseguir convencer o Pontual, estamos
feitos.
CLARA - Vai você.
FELIZ – Nada disso.
CLARA - Eu fico e ligo pro Serviço de ajuda.
FELIZ - Maluquice!
CLARA - Esqueci uma coisa lá dentro. (tenta correr até a
janela, mas o irmão não deixa)
FELIZ - Não vai pular janela nenhuma.
37
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - Deixa, estou sentindo uma dor no coração. FELIZ -
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - Deixa, estou sentindo uma dor no coração.
FELIZ - Será que vou ter de levar você à força?
CLARA - Eu vou
FELIZ - Mentirosa, covarde!
CLARA - Oh, Feliz, eu
(corre
até a porta, abre-a e entra. vai
até o peitoril da janela e em silêncio fica olhando o irmão lá
fora)
FELIZ - (concentrado) - Se não somos capazes de andar um
quarteirão e meio até o escritório daquele homem, então não
somos capazes de mais nada, a não ser viver em duas celas
separadas de um hospício. (pausa. com força) Por isso me
escuta agora, Clara: ou você sai daí e nós vamos até lá ou eu
vou embora e não volto nunca mais.
CLARA - Se eu ficar aqui sozinha me mato.
FELIZ - (para o público) - Eu sei
empurro minha irmã pra fora (faz)
por
isso entro pela janela e
CLARA - Eu me agarro em alguma coisa (procura essa coisa)
Já reparou que não tem nada no cenário onde a gente possa
me agarrar? Essa escada não tem corrimão.
FELIZ - (transtornado) - Fica aí então, fica! Quando eu botar
o pé na rua vai ser pra nunca mais voltar!
CLARA – Ficarei esperando.
FELIZ - Vai esperar até morrer. (anda. pára) Adeus! (anda
mais)
CLARA - (falando alto) - Não demora
FELIZ - (na boca de cena e para o público, ofegante) - Vocês
devem imaginar que a frente da casa está coberta de
girassóis. Paro aqui. Sem ela é impossível sair. Não consigo
deixar minha irmã, me sinto desprotegido, sinto frio. Atrás de
mim está nossa casa, respirando como alguém abraçado em
mim, como alguém que me ama
Nosso
lar é tão antigo, tão
aconchegante, parece estar me ordenando delicadamente a
ficar. Obedeço. (volta e entra pela porta) Entro tranqüilo mas
não olho para minha irmã.
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - Não nos olhamos, estamos envergonhados de termos desistido. FELIZ
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - Não nos olhamos, estamos envergonhados de
termos desistido.
FELIZ - Há um silêncio.
CLARA - Um sentimento de culpa.
FELIZ - Ninguém joga pedras, ninguém grita palavrões.
CLARA - A luz do fim de tarde está dourando a mobília
FELIZ - Agora eu tenho certeza de que nossa casa virou uma
prisão.
CLARA - Prisão que a gente conhece. (devagar eles voltam a
se olhar)
FELIZ - Estendo os meus braços
eles parecem não fazer
parte do meu corpo
tenho uma sensação de ansiedade.
CLARA - É difícil respirar
(ela dá dois incertos passos em
direção a Feliz e depois se joga nos braços do irmão. se
abraçam como dois amantes após longa separação. Os lábios
de Clara sussurram palavras inaudíveis ao ouvido do irmão)
CLARA – Não dá
a
escada pára no espaço.
CLARA – Então
(Feliz
afasta-se delicadamente da irmã)
FELIZ - (para o público) - Minha irmã é um jardim
emparedado. (longo silêncio)
CLARA - Ah, o retrato de casamento da vovó! (pega ele e o
olha ternamente) Um diadema de pérolas, a mão levantando o
véu de seu rosto radiante
FELIZ - Toco levemente a mão dela, um sinal de que vou
dizer uma fala importante da peça. (faz) Clara, você não me
disse que tinha encontrado a caixa de munição do revólver?
CLARA - Eu não!
FELIZ - É "disse” que tem de dizer. (para o público) Daí eu
pego o que chamo de objeto central da peça e que ela teme
tanto que se recusa a lembrar que existe. (pega o revólver)
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA – Estava o tempo todo aí? FELIZ - Revólver e
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA – Estava o tempo todo aí?
FELIZ - Revólver e balas nunca estiveram antes em nossa
peça. (pausa. Para o público) Agora eu tiro a munição falsa e
coloco a verdadeira, tão calmamente como se trocasse flores
mortas por vivas num vaso (seus dedos tremem, ele deixa o
revólver cair. Clara dá um grito sufocado, depois ri muito)
Pára com isso! (Clara tapa a boca com as duas mãos) Agora
eu
(parece
que esqueceu novamente o texto)
CLARA - Esqueceu?
FELIZ - Não esqueci nada (para o público) Ponho o revólver
em cima do piano (faz)
CLARA - Daí?
FELIZ - Ligo o gravador. (liga. música evanescente) Apanho a
argola, molho ela na água e sopro uma bolha pela janela.
Imaginem que ela sobe através da luz dourada além da
cabeça de ouro do nosso girassol. Está vendo, Clara?
CLARA - Estou.
FELIZ - Às vezes a gente consegue ver a mesma coisa juntos.
CLARA - Ficamos trancados em quartos separados, você
guardado por homens com olhos de lince e eu por mulheres
com olhares de águia. (toca uma nota) Estamos juntos há
tanto tempo que nunca mais poderemos nos separar.
Voltamos sempre aos nossos girassóis, às nossas
bolhas
estamos
numa estrada sem fim. (o gravador falha e
começa a tocar a música a toda velocidade até parecer um
grito estridente. Clara arranca suas luvas brancas e olha para
o rosto em transe do irmão olhando um ponto perdido
qualquer. Clara respira fundo. Desliga o gravador. barulho ao
desligá-lo. silêncio) Bom
(pega
seu casaco e veste) Veste teu
casaco, já pus o meu. Agora tiro esse maldito chapeuzinho.
(tira, arranca o ramo de flores e joga no chão)
FELIZ - (palidamente) – Que foi?
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CCEENNAA 1133 (a cena vai escurecendo lentamente a partir daqui) CLARA
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CCEENNAA 1133
(a cena vai escurecendo lentamente a partir daqui)
CLARA - Sai desta peça que a platéia está vazia. Pelo amor de
Deus!
FELIZ – O quê?
CLARA - Ficou inconsciente? Um homem da primeira fila
xingou a gente e foi embora, os outros atrás. Não tem mais
ninguém. Finalmente essa tortura acabou.
FELIZ - Porque a peça não é sua!
CLARA - (dando-lhe o casaco) - Não é mesmo. Mas você
escreveu ela pra mim, já se esqueceu? (veste o casaco no
irmão, tenta abotoá-lo)
FELIZ - Não precisa, pára, sei fazer isso sozinho!
CLARA - Só tem mais três cigarros, quer um? (oferece um ao
irmão que continua sem ver nada) Aqui! Chama o Fox, vai. Vê
se tem algum dinheiro pra gente sair daqui e ir pralgum lugar
mais longe que o círculo polar ártico. (pausa) Diabo, quê que
você está esperando, chama o Fox logo!
FELIZ - (gritando) - Fox? (eco)
CLARA - Fox? (eco)
OS DOIS - Fox? (eco)
CLARA - Estou com a impressão que fugiu com o dinheiro da
bilheteria.
FELIZ - Vou atrás dele, até o inferno.
CLARA - Não estou com vontade de ir atrás de ninguém.
FELIZ - Quê que a gente faz então?
CLARA - (recostando-se nas almofadas) - Quero dormir mil
anos.
FELIZ - Vai pegar tuas coisas.
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - Que coisas? FELIZ - Tua bolsa, maleta de mão
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - Que coisas?
FELIZ - Tua bolsa, maleta de mão
CLARA - Não tenho nada pra pegar.
FELIZ - Perdeu tudo de novo?
CLARA – Já te disse há vários dias que minha maleta tinha
sumido.
FELIZ - As coisas ultimamente andam sumindo.
CLARA - Até parece que a gente ainda está representando a
nossa peça. A pior coisa que sumiu de nossas vidas eu sei o
que foi: não foi o Fox nem o grupo, teu uísque ou mesmo o
sucesso que nos faz continuar vivos. Nada disso. A pior coisa
foi a consciência do que está acontecendo com as nossas
vidas. Não temos sequer a coragem de falar disso, é como se
fosse um segredo que insistimos em esconder um do outro,
uma conspiração meio maluca, apesar da gente saber
perfeitamente que o outro sabe de tudo. (toca uma nota)
Quanto à nossa peça, muitas vezes já me perguntei se ela não
é muito pessoal, impossível do público compreender
FELIZ - O que é que você quer dizer com muito pessoal?
CLARA - Muito pessoal! Tanto que usamos nossos próprios
nomes nela.
FELIZ - No dia em que fizemos a primeira leitura você disse
que ela era boa, mas que como vinho novo tinha de
amadurecer pra ficar melhor.
CLARA - Eu nunca disse isso, mas sei quem disse, foi aquela
velha atriz. Foi ela também quem disse que a peça era um
verdadeiro desafio pros atores, parecia mais um exercício de
virtuosismo do que propriamente uma obra-de-arte.
FELIZ - No nosso grupo nunca teve atriz velha nenhuma.
CLARA - Ah, Feliz, você se esquece de tudo. Não se lembra
daquela atriz que morreu queimada no incêndio daquele hotel?
FELIZ - Ah, sei! Ela adorava incineração, queria que suas
cinzas fossem cremadas.
42
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - Que besteira. Acho que estamos cansados demais para falar
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - Que besteira. Acho que estamos cansados demais
para falar coisa com coisa. Telefona e pede um taxi pra nos
levar até o hotel, vai. (Feliz senta-se no banco do piano.
silêncio) Me ajuda a levantar, minhas pernas não agüentam
mais. (Feliz tenta levantar mas não consegue) Assim nunca
que vamos sair daqui. Último cigarro. Você tem mais?
FELIZ - Acabou. (acende o cigarro da irmã)
CLARA - Vamos dividir. (fuma) Feliz, será possível que nossa
peça nunca termine? (passa o cigarro para o irmão)
FELIZ - Mesmo que a gente fosse louco como disse o
telegrama nunca conseguiríamos representar uma peça que
não tivesse fim.
CLARA - Então diz: ela termina como?
FELIZ -Ela não tem um fim convencional, só isso.
CLARA - Que fim não convencional é esse? (passa o cigarro
para a irmã) Ela parece que pára sempre antes de acontecer
uma coisa terrível. Aí você diz para o público: o espetáculo
terminou!
FELIZ - É perfeitamente possível uma peça não terminar, qual
o
problema?
CLARA - Nunca soube que você acreditava na eternidade
(Feliz a olha significativamente) As coisas terminam, têm de
terminar.
FELIZ – Acha? (pausa. levanta-se) Vamos! Pro hotel. Amanhã
a
gente vê o resto.
CLARA - Antes do espetáculo você me disse que o Fox não
tinha feito reserva.
FELIZ - O único hotel desta cidade fica do outro lado da rua,
não precisa de reserva nenhuma. (atravessa rapidamente o
palco e vai aos bastidores. Clara tenta ir atrás mas pára de
cansaço, bem em frente à estátua)
CLARA - (para a estátua) - Inalterável
circunstância
inalterada
(fora do palco ouve-se sons frenéticos, passos
correndo, punhos e pés socando e chutando objetos, gritos
43

GRITO D'ALMA, Tennessee Williams

abafados, durante todo o tempo em que dura a fala de Clara. às vezes chamam sua atenção. lentamente ela se vira para olhar o proscênio sob um foco de luz) Coitado, ele perdeu todos os seus argumentos sobre o impossível ser

absolutamente necessário

acho

que o impossível e o

necessário andam os dois pelo mundo sem se reconhecerem nunca. (barulho metálico lá fora) Bem, nem sempre tudo esteve perdido, houve noites de triunfo, aplausos entusiasmados, temporadas gloriosas, celebrações

memoráveis

atravessar

o Amazonas numa barcaça aberta,

aquela ponte com anjos de pedra e de repente uma

tempestade de gelo em cima da gente

a

gente cantando.

Lindo! (canta um trecho de "Com ele rose" ou "Dicintello

vuoie". pára ouvindo gritos distantes) Feliz?

Ah, aquela noite

no vinhedo junto ao Prata, as luzes brilhando lá longe, soldados portenhos cantando em coro! (canta um trecho de

um tango ou milonga. mais socos e gritos abafados) Feliz?!

(pausa) "Sua irmã e você são loucos

vocês

sempre entram

em transe durante um espetáculo?" Óbvio, e depois também.

Há tanto tempo mortos e abandonados

Feliz.

Feliz! Quando

ele perceber que eu não estou atrás dele como sempre estive

não vai mais voltar

(Feliz

volta. Parece não vê-la, mal

consegue respirar, está desorientado, confuso) Tudo bem? Por

acaso estamos outra vez diante de circunstâncias inalteráveis? (Feliz desaba em cima das almofadas) É, já percebi que estamos novamente diante de um desastre. Primeiro vamos

colocar tudo de novo dentro do baú

enquanto

isso a gente se

prepara. (coloca tudo dentro do baú, menos as almofadas sobre as quais o irmão está sentado). Vai falar comigo ou não?(silêncio) Sim ou não?

FELIZ - Clara, acho que a gente vai ter de continuar aqui.

CLARA – Nessa geladeira?

 

FELIZ – É.

CLARA -Por que?

 

FELIZ - Todas as portas estão fechadas e como o prédio não tem janelas, parece um caixão.

CLARA - Está querendo me dizer que vamos ter de ficar aqui congelando até alguém abrir a porta amanhã de manhã?

FELIZ - Não tenho a mínima idéia de quando vão abrir a porta.

 

44

GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - (gritando) - Quero sair desse túmulo! Sair! (meio louca
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - (gritando) - Quero sair desse túmulo! Sair! (meio
louca de medo, ela roda pelo palco e termina agarrando o
telefone da peça. percebe isso e o larga como se ele ferisse
sua mão)
FELIZ - Clara, não adianta ficar histérica.
CLARA - E o telefone lá de traz?
FELIZ – Mudo como este.
CLARA - Tenho a impressão que isso é uma metáfora onde
você está querendo me prender, mas me recuso ser presa
nela!
FELIZ - Mesmo que isso fosse possível, eu iria querer?
CLARA – Claro, afinal a peça é tua e esse é o fim que você
tanto queria!
FELIZ - Querida, eu não quero fim nenhum, a não ser
CLARA - A não ser?
FELIZ - Acho que não temos outra escolha, a não ser
CLARA - Caminhar do capelão ao carrasco sem qualquer
resistência, não é?
FELIZ - A sentença já foi dada há tanto tempo que o medo da
execução simplesmente acabou. Até o medo tem um limite, ao
contrário do que digo no meu monólogo de abertura
CLARA - (quase sem voz) - Monólogo de abertura?
FELIZ - (apaixonado) - Eu comecei uma nova peça, mas fiquei
cansado demais para terminá-la hoje.
CLARA - Meu Deus!
FELIZ - (com a mesma paixão) - Hoje, antes de você entrar,
eu criei o monólogo de abertura de uma outra peça, fechada,
impenetrável
(joga a cabeça para traz numa silenciosa
gargalhada de deboche) É, você poderia colocar o problema
assim: o medo é limitado pela habilidade que uma pessoa tem
de conseguir não pensar mais nele.
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA – A não ser (bate sua cabeça contra a do
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA – A não ser
(bate sua cabeça contra a do irmão.
ouve-se um som metálico oco)
FELIZ - Esse teatro cheio de ecos está vazio, o aquecimento
foi desligado e até o metal se contrai com o frio.
CLARA - Você falou com um tom poético na voz
Vai ficar
parado? Eu não. Vou encontrar uma maneira de sair daqui.
(movimenta-se inutilmente em várias direções, aterrorizada
pelo escuro que envolve a pequena área ainda iluminada do
palco. a cada pequena corrida, pára de repente com gestos
secos e rápidos) Grito sufocado da minha alma! (bate com a
mão no peito)
FELIZ - Desiste, Clara, é inútil. Há capítulos em nossas vidas
e
é preciso aceitar que um deles seja o último.
CLARA - Com quem você pensa que está falando, hein? Não é
com uma velhinha da Casa dos Artistas não, mas com sua
prática irmãzinha! (pausa) Feliz, por favor, está um frio de
doer, parece que vem de outro mundo. Será que este teatro é
a
nossa última e eterna prisão?
FELIZ -Talvez.
CLARA - Sempre achei que os teatros fossem prisões
de explosões distantes) Está ouvindo? Tiros!
(som
FELIZ - Fogos de artifício. (mesmo som) Está com medo?
CLARA - Estou cansada demais pra sentir medo. Estranho,
sempre tive pavor só de pensar que pudesse ficar presa num
lugar, foi sempre o maior medo da minha vida, mas agora eu
só estou sentindo cansaço
e
um frio que me dói os ossos. Se
não fosse isso, iria eu mesma olhar se tudo o que você disse é
verdade mesmo.
FELIZ - Você acha que foi sonho? (sai pela porta do cenário.
Clara fica em pânico)
CLARA - Onde é que você vai?
FELIZ - Pegar o telegrama do grupo. (volta com o telegrama,
desamassa-o lê como se tivesse acabado de recebê-lo)
46
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - Você está pensando uma coisa terrível e eu já
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - Você está pensando uma coisa terrível e eu já sei o
que é.
FELIZ - Às vezes a gente pensa a mesma coisa juntos.
CLARA - Ai, está cada vez mais frio.
FELIZ - Durante o espetáculo também estava frio, mesmo
com os refletores ligados, mas eu estava tão perdido nele que
senti calor como se fosse verão.
CLARA – Precisamos voltar pra peça.
FELIZ – Precisamos.
CLARA - O palco está escuro.
FELIZ - Se podemos imaginar o verão podemos imaginar luz.
CLARA -Só se nos entregarmos à peça.
FELIZ – É, completamente.
CLARA - Podemos tentar.
FELIZ - Não temos outra saída.
CLARA - Vamos fazer de casaco?
FELIZ - Se tirássemos eles, mais os girassóis e nossas bolhas
de sabão no dourado entardecer, a sensação de verão virá
mais fácil.
CLARA - Vamos parar onde paramos hoje ou tentar encontrar
o
fim?
FELIZ - Não se preocupe com isso, amor, o fim virá até nós.
(Clara repentinamente prende a respiração levando sua mão à
boca) Que foi?
CLARA - Nada
(Feliz
ajuda a irmã a tirar o casaco. enquanto
ele tira o dele ela esfrega os braços contra o frio. Feliz apanha
o
revólver da mesa)
FELIZ -Onde coloco?
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GRITO D'ALMA, Tennessee Williams CLARA - Debaixo da almofada. (Feliz coloca e Clara liga o
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
CLARA - Debaixo da almofada. (Feliz coloca e Clara liga o
gravador) Vamos mesmo achar o fim da peça?
FELIZ -Quando ele chegar já estaremos tão perdidos nela que
nem notaremos.
CLARA - Começamos do telefonema?
FELIZ – É. (Clara vai ao telefone. pausa) O espetáculo
começa!
CLARA – Quando tem de haver um espetáculo, custe o que
custar, então ele será obrigatoriamente bom. (pega o fone)
CCEENNAA 1144
(a cena volta a iluminar-se)
FELIZ - Clara, pra quem você está ligando?
CLARA - Para alma alguma por acaso ainda viva nesse mundo
que desaparece.
FELIZ – Está segurando o fone por que então?
CLARA - Pra ver se ele continua funcionando.
FELIZ -A gente teria sido avisado se tivessem cortado a linha.
CLARA - É um erro depender de avisos, especialmente
quando uma casa parece vazia. (põe o fone no gancho)
FELIZ - Foi uma noite cansativa.
CLARA – Foi.
FELIZ - Eu não consegui dormir nada, a noite toda. Fiquei
ouvindo você andar pela casa como se estivesse procurando
alguma coisa.
CLARA – Estava e encontrei. (olha o anel. pausa) Já se
perdeu na peça?
48
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams FELIZ - Já. É um dia quente de verão, estou sentindo
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
FELIZ - Já. É um dia quente de verão, estou sentindo calor.
CLARA - (passando a mão na cabeça do irmão) - Tenho
certeza que a Progresso e o Pontual vão acreditar na nossa
história. Se a gente acreditar nela, então tudo que a gente
precisa vai acontecer.
FELIZ - Pula, fala do girassol gigante.
CLARA – Agora?
FELIZ - É.
CLARA - Feliz, olha pela janela, tem um girassol enorme lá
fora, do tamanho da casa! (ciclorama. Feliz respira
profundamente e debruça-se sobre a janela)
FELIZ – Puxa a vida, sua cor é tão brilhante que ele parece
gritar!
CLARA - Fica olhando. (vai até a almofada debaixo da qual
está o revólver e a levanta. Grita surdamente. põe novamente
a almofada em cima dele. olha para o irmão)
FELIZ - (olhando o girassol) - Depressa, vem ver, não vai
durar muito! (Clara segura a mão do irmão e os dois ficam
olhando o girassol)
CLARA - A imaginação é uma necessidade
FELIZ -
de
nossas vidas. (as luzes vão diminuindo e os dois
aceitam a escuridão como se ela fosse a própria morte,
conquistada)
CCAAII OO PPAANNOO
49
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams SSoobbrree oo aauuttoorr ee aa oobbrraa Thomas Lanier Williams, nasceu em
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
SSoobbrree oo aauuttoorr ee aa oobbrraa
Thomas Lanier
Williams, nasceu em
Columbus, Missouri,
Estados Unidos, em 26
de março de 1911.
Batizado como Thomas
Lanier Williams, a
própria escolha de seu
pseudônimo representa
um recuo no passado.
Em 1914, foi viver em
St. Louis, Mississípi,
para acompanhar o pai.
Ali, por causa de seu
sotaque sulino, os
amigos lhe deram o
apelido de
"Tennessee". Em
homenagem à sua
origem, bem como ao
sobrenome dos pais,
ele passou a se assinar
Tennessee Williams.
Depois de estudar em diversas universidades, trabalhou por
algum tempo numa fábrica de sapatos e em 1938 licenciou-se em
arte dramática pela Universidade de Iowa.
Tornou-se conhecido do público com "The Glass Menagerie"
escrita em 1944, e traduzida como "À margem da vida", estudo
sobre a decadência de uma família aristocrática do sul dos Estados
Unidos, cenário habitual de suas obras. A atmosfera de cortesia
hipócrita que dissimula a brutalidade das relações humanas é uma
constante nas peças de Tennessee Williams. Brilhantes exemplares
do gênero dramático americano conhecido como "tragédia do
homem comum".
Blanche Du Bois, de "Um bonde chamado desejo", é a própria
imagem da decadência e um dos personagens mais pungentes da
história do teatro. O tom simbólico dessa peça tornou-se mais
agressivo e direto no drama, que lhe valeu o primeiro Prêmio
Pulitzer, A Streetcar Named Desire (1947).
50
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams O relativo fracasso do romance The Roman Spring of Mrs. Stone
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
O relativo fracasso do romance The Roman Spring of Mrs.
Stone (1950; A primavera romana da senhora Stone) e da comédia
alegórica Camino Real (1953) induziram-no a retornar à temática
anterior, e nos anos seguintes publicou uma série de obras, como
Cat on a Hot Tin Roof (1955; Gata em teto de zinco quente),
Suddenly Last Summer (1958; De repente no último verão) e
Sweet Bird of Youth (1959; Doce pássaro da juventude), notáveis
pela atmosfera passional e a exposição crua de conflitos sexuais e
sociais.
Com The Night of the Iguana (1961; A noite do Iguana), cujo
argumento descreve a busca da paz espiritual no México por um
padre alcoólatra, Williams esboçou uma evolução estilística que no
entanto foi truncada. Distúrbios nervosos, o alcoolismo e o uso
indiscriminado de tranqüilizantes distanciaram Williams da literatura
e levaram-no a um colapso em 1969. Suas obras posteriores não
tiveram a originalidade nem o sucesso das anteriores. Tennessee
Williams escreveu ainda dois romances, ensaios, poesia, roteiros
cinematográficos, contos e uma autobiografia. Morreu em Nova
York, em 25 de fevereiro de 1983.
"Tennessee
foi escritor
extraordinário e
homem
encantador.
Extremamente
modesto e de fala
mansa, foi um ser
transparente,
indefeso e
vulnerável a todos
e a tudo.
Cruelmente
sincero, poeta de alma puríssima, sofreu arraigada neurose que lhe
corroeu as entranhas. Por isso teve um vida cheia de mágoas,
embora nunca mentisse ou dissesse algo desagradável a respeito de
alguém. Se tivéssemos uma sociedade que desse apoio e assistência
a um homem de sua fragilidade, certamente ele teria vivido mais e
melhor. Era homossexual, mas não afeminado nem agressivo por
esse motivo. Jamais tomou liberdades com os atores de suas
peças”.
(depoimento de Marlon Brando em Brando, pág. 104, Ed. Siciliano,
1994)
"Acho que é minha melhor peça, o mais belo texto que escrevi
desde Um bonde chamado desejo. Na verdade, nunca deixei de
trabalhar nele. Para mim é uma obra-prima, sinceramente. É um
51
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams grito d'alma na exata medida em que toda verdadeira criação artística
GRITO D'ALMA, Tennessee Williams
grito d'alma na exata medida em que toda verdadeira criação
artística é um grito d'alma".
Assim TW define Out Cry, sua última grande peça, terminada de
ser escrita em 1973, dez anos antes de sua morte.
Dois irmãos atores em excursão, Feliz e Clara, são abandonados
pelo restante do grupo num desconhecido e frio palco subterrâneo.
Em meio a um clima tenso e denso, ao mesmo tempo em que
delicado e sensual, eles representam para um público hostil que
pouco a pouco os abandona A peça de dois personagens, escrita por
ele para ela e cujos personagens são também dois irmãos com seus
mesmos nomes vivendo numa Nova Belém ensolarada em meio à
lembrança da morte trágica dos pais.
Ficção dentro da ficção ou drama autobiográfico de medo e
perdição para poucos e ninguém num teatro esquecido do mundo?
Casamento magistral de poesia e psicologia, a peça é um pungente
grito contra a solidão e a violência de nosso mundo falido, uma
sublime declaração de amor à arte e um vigoroso apelo à criação
como única chance de renascimento do homem.
~~~~~~
52