Sie sind auf Seite 1von 20
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA FACULDADE DE DIREITO Entre Arremedos e Desmandos: a LOUOS/2012 e os caminhos

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

FACULDADE DE DIREITO

Entre Arremedos e Desmandos: a LOUOS/2012 e os caminhos da política, da justiça e do desenvolvimento urbano na cidade do Salvador

DÉBORA BRAGA E GABRIEL FERNANDEZ

PROF. SAMUEL VIDA

SOCIOLOGIA JURÍDICA

SALVADOR FEVEREIRO DE 2013

DÉBORA BRAGA E GABRIEL FERNANDEZ

Entre Arremedos e Desmandos: a LOUOS/2012 e os Caminhos da Política, da Justiça e do Desenvolvimento Urbano na Cidade do Salvador

Trabalho apresentado à disciplina Sociologia Jurídica, da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia- UFBA, como requisito parcial de avaliação do semestre corrente.

Salvador Fevereiro de 2013

INTRODUÇÃO

Neste presente trabalho temos por objetivo destrinchar alguns temas que envolvem a Lei de Ordenamento Uso e Ocupação do Solo, aprovada em 2012 e mantida sub judice até a atual data. Tais temas, que serão apresentados em seminário na matéria de Sociologia Jurídica da Universidade Federal da Bahia, ministrada pelo professor Samuel Vida, foram divididos em quatro grandes tópicos que serão devidamente apresentados e discutidos: 1) A LOUOS e o Ordenamento Jurídico Brasileiro; 2) Histórico dos Planos de Desenvolvimento Urbano de Salvador e a LOUOS/2012; 3) Movimentos Sociais, Estratégia Judiciária e Resistência à LOUOS/2012; 4) LOUOS/2012 e o Contexto Político Atual. Dentro de cada um desses temas está, de forma mais ou menos implícita, a nossa abordagem teórica, que deve muito à monografia de conclusão de curso de Marcos Napoleão do Rego Paiva Dias Filho, além de sua colaboração e amizade; a tematização jurídico normativa, a qual recorremos em muito ao nosso aprendizado nas matérias propedêuticas da Ciência do Direito e da Teoria Constitucional; e a pesquisa de campo, que se constitui em uma entrevista com o apoiador da luta pelo direito à cidade Manoel Nascimento, advogado formado em 2005 pela Universidade Federal da Bahia, atualmente funcionário do CEAS (Centro de Estudos e Ação Social), ao qual agradecemos, além das valiosas informações, pela simpatia e hospitalidade. Nos anexos, além de outras coisas, temos o nosso roteiro de entrevista com Manoel Nascimento. Passadas as preliminares, vamos então à discussão da LOUOS/2012.

1.

A LOUOS e o Ordenamento Jurídico Brasileiro

Para entender as polêmicas em torno da aprovação da lei municipal 8.167/2012 (LOUOS/2012) devemos primeiramente contextualiza-la ao ordenamento jurídico brasileiro. A constituição federal de 1988(CF/88) dispõe, em seu Art. 182, que:

“A política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em lei, tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem- estar de seus habitantes.”.

Esse dispositivo, que inicia o capítulo de política urbana de nossa constituição, demonstra a preocupação do poder constituinte originário 1 com o direito à cidade. Três características podem ser abstraídas dessa norma: a primeira é a de que se trata de uma norma com eficácia limitada de legislação 2 , ou seja, necessita de lei ulterior para produzir efeitos plenos a partir desta; a segunda, é a de que demanda do município a responsabilidade de criar sua própria política de desenvolvimento urbano; a terceira é a de que possui um claro viés social ao pregar a “função social da cidade” e a “garantia do bem-estar de seus habitantes”. A regulamentação desse artigo da constituição se dará com a lei federal n° 10.257, o conhecido Estatuto das Cidades, aprovado somente em 2001, e que, entre outros comandos, exorta ao município a responsabilidade de construção do Plano Diretor, que atuará como centro articulador da política de desenvolvimento urbano da cidade a partir das diretrizes fixadas em seu Art. 2° 3 .

1 Poder constituinte originário “é o destinado à criação do Estado, dotando-o de estrutura peculiar por meio de uma constituição.” In: SILVA NETO, Manoel Jorge. Curso de Direito Constitucional. Ed. Lumen Juris. 6° Ed. Rio de Janeiro, 2010.

  • 2 Conceito do doutrinador Vezio Crisafulli. In: SILVA NETO, Manoel Jorge. Curso de Direito Constitucional. Ed. Lumen Juris. 6° Ed. Rio de Janeiro, 2010.

  • 3 Art. 2 o A política urbana tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana, mediante as seguintes diretrizes gerais: I – garantia do direito a cidades sustentáveis, entendido como o direito à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infra-

Esse plano, uma vez aprovado pelo município, atua dentro do ordenamento jurídico como uma lei geral que pode, porventura, ser auxiliada por instrumentos complementares que operacionalizem princípios, diretrizes ou funções previstas em seu corpo. Uma lei de ordenamento do uso e ocupação do solo, como lei complementar ao Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), poderia então dispor sobre aspectos parciais do programa de desenvolvimento urbano uma vez que não fosse de encontro com toda legislação que lhe dá fulcro. No caso da aprovação da LOUOS/2012, na cidade de salvador, essa premissa, assim como outras tantas, parece não ter o valor que lhe é devido. Para Manoel Nascimento, os Planos diretores são instrumentos que irão tratar de questões macros relacionadas ao planejamento urbano. Uma lei de ordenamento do uso e ocupação do solo, por sua vez, utilizará elementos dos planos, tais como gabaritos, zoneamentos, entre outros, e destrinchará esses elementos, juntamente com formas de

estrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras gerações; II – gestão democrática por meio da participação da população e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade na formulação, execução e acompanhamento de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano; III – cooperação entre os governos, a iniciativa privada e os demais setores da sociedade no processo de urbanização, em atendimento ao interesse social; IV – planejamento do desenvolvimento das cidades, da distribuição espacial da população e das atividades econômicas do Município e do território sob sua área de influência, de modo a evitar e corrigir as distorções do crescimento urbano e seus efeitos negativos sobre o meio ambiente; V – oferta de equipamentos urbanos e comunitários, transporte e serviços públicos adequados aos interesses e necessidades da população e às características locais; VI – ordenação e controle do uso do solo, de forma a evitar: a) a utilização inadequada dos imóveis urbanos; b) a proximidade de usos incompatíveis ou inconvenientes; c) o parcelamento do solo, a edificação ou o uso excessivos ou inadequados em relação à infra-estrutura urbana; d) a instalação de empreendimentos ou atividades que possam funcionar como pólos geradores de tráfego, sem a previsão da infra-estrutura correspondente; e) a retenção especulativa de imóvel urbano, que resulte na sua subutilização ou não utilização; f) a deterioração das áreas urbanizadas; g) a poluição e a degradação ambiental; VII – integração e complementaridade entre as atividades urbanas e rurais, tendo em vista o desenvolvimento socioeconômico do Município e do território sob sua área de influência; VIII – adoção de padrões de produção e consumo de bens e serviços e de expansão urbana compatíveis com os limites da sustentabilidade ambiental, social e econômica do Município e do território sob sua área de influência; IX – justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes do processo de urbanização; X – adequação dos instrumentos de política econômica, tributária e financeira e dos gastos públicos aos objetivos do desenvolvimento urbano, de modo a privilegiar os investimentos geradores de bem-estar geral e a fruição dos bens pelos diferentes segmentos sociais; XI – recuperação dos investimentos do Poder Público de que tenha resultado a valorização de imóveis urbanos; XII – proteção, preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído, do patrimônio cultural, histórico, artístico, paisagístico e arqueológico; XIII – audiência do Poder Público municipal e da população interessada nos processos de implantação de empreendimentos ou atividades com efeitos potencialmente negativos sobre o meio ambiente natural ou construído, o conforto ou a segurança da população; XIV – regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas por população de baixa renda mediante o estabelecimento de normas especiais de urbanização, uso e ocupação do solo e edificação, consideradas a situação socioeconômica da população e as normas ambientais; XV – simplificação da legislação de parcelamento, uso e ocupação do solo e das normas edilícias, com vistas a permitir a redução dos custos e o aumento da oferta dos lotes e unidades habitacionais; XVI – isonomia de condições para os agentes públicos e privados na promoção de empreendimentos e atividades relativos ao processo de urbanização, atendido o interesse social.

viabilizá-los. É sua função “estabelecer ligações entre esse planejamento macro com obras individualmente consideradas” 4 .

2.

Histórico

dos

Planos

de Desenvolvimento Urbano de Salvador e a

LOUOS/2012

 

O Plano Diretor, partindo de sua definição e análise, deve ser utilizado de forma a promover e/ou viabilizar o desenvolvimento de uma cidade. A conclusão (óbvia, mas comumente ignorada) que podemos chegar é que esse planejamento deve visar medidas a médio ou longo prazo, que possam, dentro de uma estrutura complexa e plurissignificativa que compõe a cidade, adequar-se a melhorias na vida da população em geral. O que se observa, no entanto, é que questões referentes ao transporte, infra- estrutura, adensamento populacional e meio ambiente, por exemplo, tem planejamento defasado. Para Manoel Nascimento, esses planejamentos não apresentam melhorias no que diz respeito à situação dos bairros mais populosos e populares de Salvador. O Nordeste de Amaralina é um dos bairros de maior densidade populacional do Brasil e suas necessidades são pouco atendidas. O governo não demonstra interesse na qualidade de vida desses cidadãos. Os problemas relacionados aos gabaritos da orla, que comumente são os mais discutidos, são apenas uma parcela pequena das conseqüências dessa defasagem 5 . Apesar dos primeiros planejamentos urbanos da cidade serem datados da década de 40, foi a partir do PDDU de 2004 que o planejamento urbano deveria estar em consonância ao Estatuto da Cidade. Segundo Falcão:

“Aprovado em 05 de julho de 2004 através da Lei 6.586/04, o PDDU foi caracterizado por um viés técnico e meramente economicista, destinado a atender interesses secundários no que se refere a questões urbanas, sem desconsiderar as desigualdades sociais.(Falcão, 2006)” 6

  • 4 Informações retiradas da entrevista realizada com Manoel Nascimento. Endereço disponível em anexo.

  • 5 Informações retiradas da entrevista realizada com Manoel Nascimento. Endereço disponível em anexo.

  • 6 In: DIAS FILHO, Marcos Napoleão do Rego Paiva. Salvador e a Copa do Mundo de 2014: a construção de uma cidade de exceção. Trabalho de Conclusão e Curso (Graduação). Faculdade de Direito, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2012.

Além disso, o procedimento de aprovação não foi devidamente acessado pela população, violando leis tanto municipais quanto do próprio Estatuto da Cidade. O fato de atender a expectativas empresariais e inibir a participação popular demonstram o abuso de autoridade e a insuficiência desse Plano Diretor. Em um intervalo de apenas quatro anos, outro plano diretor (PDDU/2008) é aprovado, novamente trazendo desconfianças em relação a sua legalidade. A participação popular mais uma vez foi contida. Apesar das várias oportunidades de espaços para discussão, a divulgação era feita pela internet (veículo que nem todos têm a facilidade de acesso, principalmente pessoas de menor nível socioeconômico) e o método utilizado era excessivamente técnico, dificultando o entendimento por parte da sociedade civil leiga em questões formais tratadas nessas audiências 7 . Questões políticas também influenciaram na aprovação irregular do PDDU de 2008. Segundo Ana Fernandes:

“A

mudança

das

alianças,

a

dança

dos

partidos, as substituições de secretariado, a pequena adesão da Câmara de Vereadores ao tema, a perspectiva meramente eleitoreira da maioria dos representantes do executivo e do legislativo e a apatia enviesada do judiciário - que sistematicamente deferiu, até o momento, todas as ações relativas à argüição de legalidade do Plano - inviabilizaram a construção de um projeto consistente de desenvolvimento para a cidade, pensado no médio prazo.” 8

Com a notícia de que Salvador seria uma das sedes da Copa do Mundo FIFA 2014 e a necessidade de organizar a cidade para o evento, foi proposto um novo projeto de lei (428/2011) pelo então prefeito João Henrique, conhecido como PDDU da Copa.

7 In: DIAS FILHO, Marcos Napoleão do Rego Paiva. Salvador e a Copa do Mundo de 2014: a construção de uma cidade de exceção. Trabalho de Conclusão e Curso (Graduação). Faculdade de Direito, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2012. 8 FERNANDES, Ana. “Salvador, PDDU 2008: Agonia do Espaço Público”. Em: < http//terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2705302-EI6578,00.html> Acesso: 27/01/2013.

Esse, sem dúvidas, um dos mais polêmicos e de impactos relevantes (até mesmo preocupantes), tinha como alguns dos objetivos alterações na rede de hotelaria, no entorno da Arena Fonte Nova e outras mudanças estruturais para atender a demanda da Copa, sobrecarregando serviços básicos como coleta de lixo e transporte na orla marítima entre outros, através da alteração da lei de Zoneamento 7.400.08-PDDU. É importante relembrar o que a todo o momento discutimos: projetos de planejamento para uma cidade devem ser cuidadosamente analisados, além de terem a obrigação de tratar de todas as questões necessárias ao desenvolvimento, e não apenas considerar aspectos econômicos e acontecimentos específicos. E, sem causar espanto visto ao histórico de planos diretores aqui analisados, o projeto passou por várias ilegalidades em seu processo de aprovação e discussão. Segundo Marcos Napoleão,

“No caso em análise o PL.428/2011 foi proposto em regime de urgência à Câmara de Vereadores, sem a realização de audiências prévias. O projeto foi entregue à Câmara no dia 24de novembro e as audiências começaram no dia 4 de dezembro, ocorrendo quatro audiências seqüenciais, onde a ausência de informações foi uma constante, não sendo apresentados sequer os estudos de impacto gerado pelas mudanças propostas.” 9

Dessa forma, a Copa é utilizada como argumento para desrespeitar questões jurídicas, aspectos urbanos carentes de real planejamento, violando direitos através de uma postura autoritária e estrategicamente emergencial, facilitando o processo da apropriação privada na cidade de Salvador. Nesse momento conturbado, já estava tramitando na Câmara a Lei de Ordenamento do Uso e Ocupação do Solo (LOUOS), que segundo rumores da época,

9 DIAS FILHO, Marcos Napoleão do Rego Paiva. Salvador e a Copa do Mundo de 2014: a construção de uma cidade de exceção. Trabalho de Conclusão e Curso (Graduação). Faculdade de Direito, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2012.

apesar de não admitidos pelo Governo, receberia emendas que tratavam sobre parte das alterações do PDDU da Copa, o que a tornaria inconstitucional, graças aos aspectos técnicos já abordados anteriormente. O que eram “rumores” virou sinônimo de abuso de autoridade e injustiça: as emendas adicionadas a LOUOS foram aprovadas, de forma ilegal e sem o conhecimento da sociedade. Além disso, os interesses atendidos eram claramente restritos, fato observado facilmente através da exibição dessas emendas, que tratavam, entre outras, da ampliação do gabarito da orla, a extinção do Parque Ecológico do Vale Encantado, criação de perímetros destinados a construção de hotéis etc. Apesar da LOUOS ser classificada também como uma lei de oportunidade (criada com fins específicos para um determinado momento), o que é estabelecido por ela não é novidade. O regime de contratação, a flexibilização da legislação de licitação, a Via Expressa, a Linha Viva, Avenida Atlântica já eram previstos desde a década de 70. É possível que na época em que foram pensadas não havia condições políticas ou econômicas para aplicá-las, e a Copa atualmente ofereceu essas condições. No entanto, sabendo que um plano diretor não pode ser aprovado sem a devida atenção por parte do Ministério Público e da sociedade civil, transferir os instrumentos para uma lei complementar foi a “solução” rápida e confortável encontrada pelo governo para a aprovação dos mesmos. A ilegalidade do processo, porém, quando constatada, travou a aprovação, provocando insatisfação tanto para o mercado imobiliário e governo, quanto para população, dificultando a realização de necessidades reais e antigas da cidade 10 .

  • 3. Movimentos Sociais, Estratégia Judiciária e Resistência à LOUOS/2012

Devido aos reiterados abusos e práticas de desrespeito a população soteropolitana observados na LOUOS/2012, construída sem a participação popular e atendendo a interesses de uma parcela mínima representada pelos segmentos empresariais, a principal forma de expressão de repúdio da sociedade civil se deu através de movimentos sociais. Vários foram os movimentos que se manifestaram contra os projetos, utilizando desde a internet como meio de divulgação e de confecção de cartas/comunicados ou a participação de audiências como instrumento de força e veiculação.

10 Informações retiradas da entrevista realizada com Manoel Nascimento. Endereço disponível em anexo.

O que mais se destacou, devido principalmente por tratar quase que exclusivamente das questões urbanas (mesmo não sendo o PDDU ou a LOUOS o motivo de seu surgimento), foi o movimento “Desocupa Salvador”, inspirado nas manifestações do Occupy 11 ao redor do mundo. Em meio a insatisfações pelo uso abusivo da Praça de Ondina por empresas privadas ligadas ao carnaval, o movimento, que se afirma independente e apartidário, utilizando também a internet como divulgação e promovendo uma ação na Praça Municipal, “com a adesão de aproximadamente 1000 pessoas, segundo o Jornal A Tarde” 12 , como primeira manifestação contra a apropriação privada da cidade e sua administração ( principalmente em questões urbanas). A partir dessa, inúmeras foram as demonstrações da indignação popular com a gestão da cidade e com o processo de aprovação e construção dos planejamentos urbanos, incluindo manifestações na Prefeitura, no carnaval e até passeatas com participação do dobro de pessoas em comparação a primeira. Além da articulação com o Ministério Público e a Defensoria, o debate promovido por essas movimentações geraram a iniciativa de um projeto chamado “A cidade que queremos”, com fóruns abertos a participação pública realizados no Teatro Vila Velha e discussões voltadas aos problemas causados pelo desleixo observado no que é prioridade ou não nos tópicos de planejamento da cidade, indo desde a infraestrutura urbana, saneamento básico e transporte. A luta contra os desmandos nas aprovações dos sucessivos PDDU’s soteropolitanos não se limitou às ruas, como também, através dos instrumentos cabíveis, ganhou espaço na arena judicial. Tanto o PDDU de 2004, como o aprovado em 2008, foram questionado judicialmente através de ação civil pública. Com o “PDDU da Copa” não poderia ser diferente, dada a quantidade de arbítrios que envolveram os trâmites dessa lei. Os Ministérios Públicos Federal e Estadual requereram “nulidade do processo de tramitação do Projeto de Lei n° 428/2011” por meio de uma Ação Civil Pública. Os principais questionamentos envolviam a “violação da ampla e irrestrita publicidade do projeto de lei e a falta de edital de convocação e metodologia das supostas audiências

  • 11 O movimento OCCUPY aconteceu em várias cidades do mundo com o objetivo de denunciar as medidas de austeridade perante a crise de 2008. Sua versão mais conhecida aconteceu em Wall Street em oposição ao caos imobiliário causado por falhas no sistema financeiro norte americano.

  • 12 Em: < http://movimentodesocupa.wordpress.com/historico/ > Acesso em: 04/02/2013

públicas realizadas” 13 , fatos decorrentes da metodologia de regime de urgência imposta ao processo de aprovação da Lei n° 428/2011 na câmara municipal. A medida foi acatada em caráter liminar pelo Juiz Gilberto Bahia, da 5° Vara de Fazenda Pública, suspendendo, em tese, o ímpeto do legislativo soteropolitano em aprovar o Projeto de Lei antes do fim do ano de 2011 14 . É nesse momento delicado das instituições de salvador que entra em cena a LOUOS/2012. No dia 29 de dezembro de 2011, apenas uma semana após o deferimento da liminar, “a Louos, que até então só atualizaria uma lei de 1984, ganhou dez emendas e se transformou em uma réplica do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) criado para a Copa de 2014”, conforme denuncia matéria do Jornal Metrópole 15 . A aprovação recorde da LOUOS/2012, com a inclusão de grande parte dos dispositivos previstos no Projeto de Lei do “PDDU da Copa”, constitui-se um grande desrespeito ao princípio da separação dos poderes, ao devido processo legislativo e ao próprio ordenamento jurídico brasileiro. Em um só golpe, a maioria constituída no legislativo baiano, e mesmo algumas figuras da oposição, desconsideraram a liminar que impunha restrições à votação dos artigos da Lei municipal n°428/2011, e transformaram o que deveria ser uma Lei Complementar em um novo Plano Diretor para Salvador, em flagrantes contradições com o Plano vigente (PDDU/2008) e sem nenhum tipo de participação popular. Outras mudanças significativas foram a alteração do conselho municipal da cidade e do conselho de meio ambiente municipal 16 . A série de ilegalidades envolvendo a LOUOS/2012 levou o Ministério Público Estadual a protocolizar uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIn) pedindo a anulação de diversos artigos que consagravam tais desmandos 17 . Embora com alguma demora, o TJ-Ba acata o pedido liminarmente, suspendendo assim o efeito das disposições questionadas pelo Ministério Público até o conteúdo da ADIn seja votado.

A própria prefeitura de salvador viria recorrer dessa decisão liminar, embora tenha recebido respostas negativas tanto do TJ-Ba quanto do STF 18 . O futuro da LOUOS e do planejamento urbanístico de Salvador encontra-se, ainda neste momento, nas mãos da justiça. Mas também dos lances de fachada e de bastidores da política soteropolitana.

  • 4. LOUOS/2012 e o Contexto Político Atual

Como percebemos, a aprovação da LOUOS/2012 é o episódio mais recente de uma longa novela envolvendo os poderes públicos soteropolitanos, o mercado imobiliário e agressões diversas aos diretos à cidade. O personagem mais evidente dessa história é o antigo prefeito de salvador João Henrique. Eleito com o apoio popular, sob os auspícios de encerrar o domínio carlista na cidade de salvador, João Henrique se mostrou um ator político com vida própria, transitando de partidos, reconfigurando alianças políticas e mudando seu foco administrativo aos sabores de seu projeto pessoal de poder. A aliança com o capital imobiliário garantiu sua sobrevida no poder e lhe deu tônus político (além de muito dinheiro) 19 20 para realizar suas manobras, contando na maioria das situações, com o apoio de quase toda a câmara municipal. A sua falta de habilidade política e respeito às instituições, além do descaso para com a cidade, fizeram, no entanto, que João Henrique fosse renegado pelas forças políticas que disputaram sua sucessão, na eleição de 2012 para prefeito de Salvador. É nesse contexto que surge o novo prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto. Advindo de um grupo político/familiar de cepa conservadora, ACM Neto herda de seu avô o capital político que hegemonizou a Bahia durante sucessivas décadas. Neto também aparece como principal aposta de sobrevida para os Democratas (antigo PFL), que, além de perder quadros como José Arruda e Demóstenes Torres, envolvidos em escândalos de corrupção, foi desfalcado pelo ex-prefeito de São Paulo e atual líder do PSD, Gilberto Kassab. Tem como um dos desafios de seu mandado lidar com o impasse judicial em que se encontra a LOUOS/2012.

  • 19 As relações de doação de campanha para do prefeito e do comitê municipal de seu partido estão

  • 20 Uma boa análise dos slogans dos sucessivos mandatos de prefeito de João Henrique e sua crescente adesão aos interesses do mercado imobiliário está na charge disponível nos anexos. Foi retirada de <http://passapalavra.info/?p=2101> Acesso em: 16/02/2013

Esse problema encontra uma série de variáveis de ordem judicial, institucional e política. Segundo Manoel Nascimento, ainda é cedo para prever como se dará a relação do novo prefeito com a LOUOS/2012. Indicando, porém, a necessidade de se ficar atento para variáveis, como o financiamento de campanha do candidato, o perfil de seus indicados para os órgãos ligados ao desenvolvimento urbano. Deve-se perceber também como fatores perigosos nesse processo a ligação histórica dos Magalhães com a construção civil e a grande capacidade de articulação política do novo prefeito 21 .

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É com a observação, descrição e avaliação desse episódio inconcluso que damos por fim nosso presente trabalho. Embora a tarefa acadêmica tenha se findado, ficou em nós a angústia de perceber os rumos impostos pela política dominante à nossa cidade, a percepção da necessidade de lutar, das mais diversas formas, por uma melhor política urbanística para Salvador e, também, a esperança de dias melhores, nos quais as

21 Informações retiradas da entrevista realizada com Manoel Nascimento. Endereço disponível em anexo.

instituições baianas sirvam ao povo e à cidade, e deixem de apenas se servir destes,

como parece ser regra

implícita

nesses últimos tempos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAHIA. STF nega pedido feito pela Prefeitura de Salvador sobre Louos, diz MP-BA. G1 Bahia. 14. agosto 2012. Disponível em:

DIAS FILHO, Marcos Napoleão do Rego Paiva. Salvador e a Copa do Mundo de 2014:

a construção de uma cidade de exceção. Trabalho de Conclusão e Curso (Graduação). Faculdade de Direito, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2012. FERNANDES, Ana. “Salvador, PDDU 2008: Agonia do Espaço Público”. Disponível em: < http//terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2705302-EI6578,00.html> Acesso:

27/01/2013.

SILVA NETO, Manoel Jorge. Curso de Direito Constitucional. Ed. Lumen Juris. 6° Ed. Rio de Janeiro, 2010. D’EÇA, ALINE. Lei que alterou a LOUOS deve ser declarada inconstitucional, requer o MP baiano. Ministério Público do Estado da Bahia. 18 mai. 2012. Disponível em:

< http://www.mp.ba.gov.br/visualizar.asp?cont=3819> Acesso em: 05/02/2013. DESOCUPA. O Movimento Desocupa. Movimento Desocupa. Disponível em: < http://movimentodesocupa.wordpress.com/historico/ > Acesso em: 04/02/2013 JURISDIÇÃO. Ação Civil Pública com pedido liminar. 14 dez. 2011. Disponível em:<http://www.mp.ba.gov.br/atuacao/cidadania/gepam/modelos/acoes/ACP_PDDU_d a_COPA_ultima.pdf> Acesso em: 01/02/2013 Disponível em: < http://atarde.uol.com.br/noticias/5794035> Acesso em: 01/02/2013

Anexos

ROTEIRO DE ENTREVISTA

DADOS DO ENTREVISTADO

Nome: Manoel Nascimento Profissão: Advogado/funcionário do CEAS

Data: Entrevista realizada no dia 03/02/2013.

OBJETIVOS

Visando uma maior compreensão prática e ampliação do entendimento da estrutura, instrumentos e conseqüências do processo de confecção e aprovação da Lei de Ordenamento do Uso e Ocupação do solo, relacionada ao último Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (mais conhecido como PDDU da Copa), e visto a complexidade das implicações dos vários problemas criados pelas defasagens desse processo (abordadas no trabalho), a dificuldade de avistá-las coerentemente em um cotidiano no qual as possíveis realidades sejam abordadas, ou seja, os efeitos desta para a sociedade e para a democracia, assim como para o direito, realizamos uma entrevista com o militante Manoel Nascimento, advogado intimamente ligado com movimentos urbanos da cidade de Salvador, como o MSTB, e funcionário do CEAS (Centro de Estudos e Ação Social), profissional com uma visão e contato relevantes no tema estudado.

PERGUNTAS e AVALIAÇÃO

1)Qual a sua formação? 2)Qual a ligação com o direito à cidade? 3)Em que contexto surge a LOUOS? A que interesses ela se presta? 4) Quais os principais problemas que a LOUOS traz consigo? 5) Como o movimento social se portou perante a LOUOS?

Dessa forma, a entrevista possibilitou tanto uma coleta de informações, ricas em uma avaliação crítica e diferenciada do que normalmente é veiculado, mostrando-nos outras formas de tratar do assunto, além de (e principalmente) perceber o contexto da época, ampliando a visão prática sobre os interesses e as consequências da tentativa de aprovação da LOUOS/2012. O contato com um profissional, militante ligado às questões urbanas, que graças a sua atuação obteve experiência e propriedade para abordar a questão, enriqueceu a argumentação através da percepção de outros setores

envolvidos no processo, além de demonstrar seus efeitos para a sociedade, para a cidadania, para o direito e em diversas outras instâncias.

PARTE DA ENTREVISTA JÁ ESTÁ DISPONÍVEL NOS ENDEREÇOS:

COMPOSIÇÃO DO CONSELHO MUNICIPAL DE SAVADOR – CMS

PDDU – Lei nº 7.400/2008

  • 17 representantes do Poder Público:

13 - Prefeitura

02 - Governo do Estado 02 - Governo Federal

  • 24 representantes da sociedade civil:

11 – Movimentos sociais e populares 04 – Entidades empresariais 04 – Entidades sindicais

03 – Entidades profissionais, acadêmicas e de pesquisa 02 – Organizações não-governamentais

Nova LOUOS – Lei nº 8.167/2012

  • 07 representantes do Poder Público:

05 - Prefeitura 01 - Governo do Estado

01 - Governo Federal

  • 09 representantes da sociedade civil:

01 – Movimentos sociais e populares 04 – Entidades empresariais 01 – Entidades sindicais 02 – Entidades profissionais, acadêmicas e de pesquisa 01 – Organizações não-governamentais

COMPOSIÇÃO DO CONSELHO MUNICIPAL DO MEIO AMBIENTE – COMAM

Lei nº 6.916/2005

  • 06 representantes da Prefeitura

  • 12 representantes da sociedade civil: (exceto setor

patronal):

  • 02 da comunidade científica (Universidades)

  • 03 das ONGs ambientalistas

  • 03 das Federações Sindicais

  • 03 de entidades profissionais

  • 01 da FABS

  • 03 representantes do setor patronal

Nova LOUOS – Lei nº 8.167/2012

  • 07 representantes do Poder Público

  • 07 representantes da sociedade civil (exceto setor

patronal)

  • 07 representantes do setor patronal

Charge com Slogans da Prefeitura de Salvador