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O Preâmbulo da Constituição brasileira de

1988 e sua ideologia

Sérgio Luiz Souza Araújo

Sumário
1. Introdução. 2. A ideologia democrática.
3. A ideologia do Estado social. 4. A ideologia
dos direitos individuais. 5. A ideologia da li-
berdade. 6. A ideologia da segurança. 7. A ideo-
logia do bem-estar. 8. A ideologia do desen-
volvimento. 9. A ideologia da igualdade. 10. A
ideologia da justiça. 11. A ideologia da socie-
dade fraterna. 12. A ideologia da sociedade plu-
ralista. 13. A ideologia da sociedade sem pre-
conceitos. 14. A ideologia da paz na ordem in-
terna e ordem internacional. 15. Sob a proteção
de Deus.

1. Introdução
A Constituição brasileira de 1988 con-
tém magnífico Preâmbulo:
“Nós, representantes do povo bra-
sileiro, reunidos em Assembléia Na-
cional Constituinte para instituir um
Estado Democrático, destinado a as-
segurar o exercício dos direitos sociais
e individuais, a liberdade, a seguran-
ça, o bem-estar, o desenvolvimento, a
igualdade e a justiça como valores
supremos de uma sociedade fraterna,
pluralista e sem preconceitos, funda-
da na harmonia social e comprome-
tida, na ordem interna e internacio-
nal, com a solução pacífica das con-
trovérsias, promulgamos, sob a prote-
Sérgio Luiz Souza Araújo é Doutor em
Direito. Professor nas Faculdades de Direito
ção de Deus, a seguinte Constituição
da Universidade Federal de Minas Gerais e da da República Federativa do Brasil.”
Pontifícia Universidade Católica de Minas Analisando o Preâmbulo enquanto ex-
Gerais. pressão ideológica, percebe-se que extrai sua
Brasília a. 36 n. 143 jul./set. 1999 5
legitimidade da representação dos consti- igualdade econômica e social de indi-
tuintes do povo brasileiro. Está aqui uma víduos ou grupos. Não é por outra
claríssima demonstração de fé na democra- razão que a questão da eficácia das
cia, de fé no povo como fonte de todo o po- normas constitucionais programá-
der. É este, aliás, o objetivo imediato afirma- ticas, ou das normas-objetivo, apre-
do pelo Preâmbulo e imposto pela História: senta-se como um dos grandes pro-
a instituição do Estado Democrático. blemas atuais do direito público”4.
Nesse sentido que a tarefa mais importante
2. A ideologia democrática da ação política será a promoção e a conser-
vação do sentimento democrático, que tem
Segundo Fábio Konder Comparato, “é só
como um dos seus eixos de sustentação a
a democracia que garante ao máximo a ple-
tolerância. Como explica Marcelo Perine:
na satisfação dos legítimos interesses de in-
“Com efeito, o que se pode pedir
divíduos, grupos e da própria nação como
de todos os cidadãos numa socieda-
um todo”1. A ideologia democrática, na li-
de democrática não é a adesão a uma
ção de Antônio Carlos Wolkmer, “correspon-
filosofia ou a um dogma religioso, mas
de a um ideal de convicção positiva acerca
a convergência deliberada dos esfor-
da natureza humana, na medida em que de-
ços de todos para certos resultados
lega ao próprio homem a responsabilidade
práticos que podem suportar, subje-
de reger seu destino”2.
tivamente, explicações teóricas
Esse autor traz a lume os princípios fun-
diferentes”5.
damentais da democracia lecionados por
Reo Christenson:
“a) soberania popular; 3. A ideologia do Estado social
b) liberdade humana em sociedade; Entre os objetivos impostos pelo Preâm-
c) igualdade humana; bulo para serem assegurados pelo Estado
d) o consentimento e o princípio do Democrático estão: o exercício dos direitos
contratualismo; sociais e individuais; a liberdade; a segu-
e) o Estado é o depositário de poderes rança; o bem-estar; o desenvolvimento; a
delegados: princípio da repre- igualdade e a justiça. São esses os valores
sentação; supremos a serem garantidos pela Consti-
f) participação do cidadão no gover- tuição.
no; De todos esses valores, em primeiro pla-
g) ambiente da diversidade e conflito; no, é colocado o exercício dos direitos sociais
e e individuais. É importante notar que, em
h) fé democrática nos homens e no relação a esses direitos, em primazia, são
progresso”3. situados os direitos sociais. Com efeito, o
A fé na democracia estipulada no Pre- homem do nosso tempo não é um ser abs-
âmbulo é uma resposta ao regime ditatorial trato, como o imaginou a burguesia na Revo-
vigente no país durante vinte anos (1964- lução Francesa. O homem de hoje requer
1984). É uma demonstração de confiança no educação, saúde, trabalho. Está aqui o obje-
homem, pois só há possibilidade de vida tivo supremo, a inspiração normativa do de-
social, de ordem durável, com a inteira li- cidido intervencionismo estatal, a fim de que
berdade democrática. Convém notar que a o poder cumpra seus deveres para com a
democracia não deve ser entendida apenas sociedade e, assim, seja possível a plena re-
como um sistema de regulação formal da alização dos direitos e liberdades. A pleni-
vida política, mas, sobretudo, tude humana somente se concretizará se a
“como imposição de fins ou objetivos sociedade proporcionar as bases e reais con-
comuns, notadamente no campo da dições de sua efetivação.
6 Revista de Informação Legislativa
A ideologia constitucional impõe que a alcançar o poder e utilizar o Estado em pro-
prosperidade coletiva tenha clara primazia veito do proletariado, operando tranqüila-
em relação aos direitos de índole individua- mente a almejada transformação social, que
lista. Vemos, assim, que o Estado social alme- a burguesia tanto teme. Paulo Bonavides
jado pela Constituição brasileira é fruto da explica com muita lucidez:
intervenção ideológica do socialismo. Entre- “Quando o Estado, coagido pela
tanto, o “Estado social” não se confunde pressão das massas, pelas reivindica-
com o “Estado socialista”. A distinção é fei- ções que a impaciência do quarto es-
ta por Paulo Bonavides: tado faz ao poder político, confere, no
“Esse contraste que assim estabe- Estado constitucional ou fora deste,
lecemos nos permite escapar do erro os direitos do trabalho, da previdên-
usual de muitos que confundem o ‘Es- cia, da educação, intervém na econo-
tado social’ com o ‘Estado socialista’ , mia como distribuidor, dita o salário,
ou com uma socialização necessaria- manipula a moeda, regula os preços,
mente esquerdista, da qual venha a combate o desemprego, protege os en-
ser o prenúncio, o momento prepara- fermos, dá ao trabalhador e ao buro-
tório, a transição iminente. Nada crata casa própria, controla as profis-
disso. sões, compra a produção, financia as
O Estado social representa efetiva- exportações, concede o crédito, insti-
mente uma transformação superestru- tui comissões de abastecimento, pro-
tural por que passou o antigo Estado vê necessidades individuais, enfren-
liberal. Seus matizes são riquíssimos ta crises econômicas, coloca na socie-
e diversos. Mas algo, no ocidente, o dade todas as classes na mais estreita
distingue, desde as bases, do Estado dependência do seu poderio econômi-
proletário, que o socialismo marxista co, político e social, em suma, estende
pretende implantar: é que ele conser- a sua influência a quase todos os do-
va sua adesão à ordem capitalista, mínios que dantes pertenciam, em
princípio cardial a que não renuncia. grande parte, à área da iniciativa in-
Daí compadecer-se o Estado social dividual, nesse instante o Estado pode
no capitalismo com os mais variados com justiça receber a denominação de
sistemas de organização política, cujo Estado Social”7.
programa não importe em modifica- Para esse autor, o Estado ingressa na
ções fundamentais de certos postula- senda da socialização parcial quando a sua
dos econômicos e sociais”6. presença no domínio econômico se faz ain-
Para esse autor, o equívoco pertinente à da mais imediata e ele se põe a concorrer
distinção entre Estado social e Estado socia- com a iniciativa privada, nacionalizando e
lista se deve, ainda, ao fato de haver, no seio dirigindo indústrias. E exemplifica:
da burguesia e do proletariado, uma orien- “Quando o Brasil cria o monopó-
tação política que pretende chegar ao socia- lio estatal do petróleo e funda a Petro-
lismo por via democrática, criando previa- brás, não toma essa iniciativa doutri-
mente as condições propícias a essa transi- nariamente em nome de um Estado
ção política. O Estado social seria, portanto, social, mas de um Estado socialista,
um componente nessa transição, “seria meio embora não o confesse”8.
caminho andado”, de vez que esse Estado O Estado social que o Preâmbulo procla-
exige o reconhecimento por parte da bur- ma deve ser entendido conforme o conceito
guesia dos direitos do proletariado. E, entre elaborado por Paulo Bonavides:
esses direitos, os mais cobiçados seriam os “O Estado Social, por sua própria
direitos políticos, de vez que permitiriam natureza, é um Estado intervencionis-
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ta, que requer sempre a presença mili- beralismo enquanto ‘ismo’, ou seja, re-
tante do poder político nas esferas so- gime, ou mesmo doutrina, tal como nos
ciais, onde cresceu a dependência do séculos XVIII e XIX. Trata-se da per-
indivíduo, pela impossibilidade em sistência de valores: do valor liberda-
que este se acha, perante fatores de, do valor controle-dos-atos-esta-
alheios à sua vontade, de prover certas tais, do valor garantia-de-direitos, do
necessidades existenciais mínimas”9. valor ‘certeza jurídica’”12.
O que se busca no Estado social é a pri- Os direitos individuais são valores obje-
mazia da coletividade em relação ao indiví- tivos em normas jurídicas que atendem às
duo. É essa também a tônica do discurso de aspirações e às necessidades do homem. São
Rui Barbosa: valores fundamentais para a realização do
“Já não se vê na sociedade um homem e a convivência das pessoas. A pro-
mero agregado, uma justaposição de posta de uma sociedade comunitária, tole-
unidades individuais, acasteladas rante, tem como idéia diretora e vinculante
cada qual no seu direito intratável, o credo nos direitos do homem.
mas uma entidade naturalmente or-
gânica, em que a esfera do indivíduo 5. A ideologia da liberdade
tem por limites inevitáveis, de todos
Outro componente ideológico estipulado
os lados, a coletividade. O direito vai
no Preâmbulo é a liberdade. Sobre ela, diz
cedendo à moral, o indivíduo à asso-
Paulo Bonavides: “Discuti-la, conceituá-la,
ciação, o egoísmo à solidariedade
aplicá-la, eis o desespero dos constitucio-
humana”10.
nalistas, dos filósofos políticos, dos soció-
O Preâmbulo da Constituição brasileira
logos, de todos os teóricos do direito
de 1988 impõe, assim, como primeira meta
público”13.
a realização da justiça social11. É esse o fe-
A liberdade que o Preâmbulo proclama
nômeno ideológico maior que condiciona to-
como valor supremo não é a liberdade clás-
das as demais metas traçadas no Preâmbulo.
sica do liberalismo14.
É, portanto, a partir dessa ideologia que se
Para se conceituar a liberdade, tem de se
pode configurar com clareza a ordem jurí-
levar em consideração os fatores econômi-
dica introduzida e a sua efetiva possibili-
cos, pois esses são indispensáveis à verda-
dade de eficácia.
deira liberdade humana. A liberdade de que
fala o Preâmbulo é a liberdade de luta con-
4. A ideologia dos direitos individuais tra as injustiças sociais e econômicas do
No Preâmbulo, está também assegurado mundo capitalista; é a liberdade – diz
o exercício dos direitos individuais. Essa Joaquim Carlos Salgado – “de busca do ho-
meta deve ser entendida em conformidade mem de sua justa participação na riqueza
com a doutrina de Nelson Saldanha: social”.
“A permanência de moldes cons- Não é outra coisa o que diz Cecília Mei-
titucionais provindos do esquema li- reles: “Ser livre é ir mais além: é buscar ou-
beral, dentro do Estado dito social, tro espaço, outras dimensões, é ampliar a
deve ser considerada em conexão com órbita da vida”15.
a sobrevivência de valores liberais Nesse enfoque ideológico em que trata-
dentro das sociedades contemporâ- mos a liberdade, convém transcrever a ma-
neas, dominadas sem embargo por vá- gistral lição de Joaquim Carlos Salgado:
rios traços antiliberais, ou por tendên- “Num terceiro momento, liberda-
cias socializantes e estatizantes. de surge não só como idéia que diri-
Não se trata, convém salientar de me o conflito escolha-norma, mas tam-
imediato, de uma permanência do li- bém o que possa existir entre o agir
8 Revista de Informação Legislativa
humano e o determinismo do mundo de toda ordem jurídica. Essa idéia é desen-
natural. Nesse caso, a liberdade é o volvida por Charles de Visscher:
domínio da natureza, pelo seu conhe- “Le droit ne trouve son expression objective
cimento e pelo trabalho. Aqui se arti- et sa sanction que dans l’appui du pouvoir; le
culam os valores polares que norteiam pouvoir reste preáecaire s’il heurte trop ouverte-
a construção de uma sociedade racio- ment le droit. Aussi longtemps que la tension
nal no mundo contemporâneo: a liber- virtuelle qui existe entre eux ne sépasse pas cer-
dade e o trabalho enquanto valores que taines limites, le souci d’un ordre a maintenir
se incorporam como conteúdos dos di- peut retenir l’action politique du povoir dans
reitos axiais da pessoa humana, que l’orbite du droit. La nécessité de l’ordre est ainsi
atendem à realização do homem nas le point de coincidence où la politique et la justi-
duas dimensões, em que, desde Aris- ce peuvent se recontrer et se compléter mutuelle-
tóteles, convencionou-se considerá-lo: ment”18.
zóon logikón – De tal modo essas di- É nesse sentido o raciocínio de Recaséns
mensões axiológicas se articulam que Siches:
não é possível falar em trabalho (hu- “uma das antinomias do Direito con-
mano) sem que seja obra criadora, siste precisamente em que este deve
portanto livre, de um ser racional, do servir a um propósito de certeza e se-
mesmo modo que não se pode pensar gurança e, ao mesmo tempo, às neces-
um ser livre sem o trabalho que de- sidades suscitadas pela mudança so-
senvolve no seu mundo e em si mes- cial e pelos desejos de progresso”19.
mo, pois que o homem se faz livre na É assim extremamente atual a afirmação
história (Hegel): a realidade que o ho- de Fábio Konder Comparato:
mem trabalha e muda, enquanto ser “Parece óbvio que a segurança,
livre, não é, nesse caso, apenas a rea- como resultado a democratização,
lidade natural (stricto sensu), mas a sua só pode ser obtida, nas atuais con-
própria realidade humana. É nesse dições históricas brasileiras, com a
sentido que a liberdade é o piso sensível diminuição das desi-
(Hegel) e o teto do direito, e dirige o gualdades sociais, que o regime
destino do Ocidente para a constru- empresarial-militar de 64 acentuou,
ção de uma sociedade igualitária e li- desmedidamente”20.
vre, ou seja, em que toda forma de do-
minação se substitua no consenso da 7. A ideologia do bem-estar
‘Razão que é a todos’”16. O bem-estar como valor fixado pelo Pre-
Para esse autor, a liberdade deve ser pen- âmbulo só assume vigência com a efetiva-
sada como forma de vida numa sociedade ção do real exercício da liberdade, da ordem,
racionalmente organizada, “em que se su- da justiça, da segurança e da prosperidade
pere a contradição direito-poder, sem o que de todos.
toda ação que se dirige a construir uma so- O bem-estar está intimamente ligado ao
ciedade justa ou livre será cega, sem nenhu- valor desenvolvimento do qual trataremos a
ma perspectiva de progresso para melhor”17. seguir.

6. A ideologia da segurança 8. A ideologia do desenvolvimento


A segurança é também um dos valores- O Brasil é atualmente a oitava economia
fins objetivados no Preâmbulo. Com efeito, do mundo. Entretanto, a maior parte da
no regime democrático, o indivíduo precisa população brasileira está alijada dos
ter a certeza de segurança objetiva de seus benefícios do desenvolvimento, pois convém
direitos. A segurança é condição essencial destacar que o desenvolvimento não se con-
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funde com o mero crescimento econômico, justiças das desigualdades econômicas. É
medido em termos de produto nacional, nem esse o teor da análise de Francisco Ayala:
mesmo o crescimento per capita. E o que real- “A igualdade é condição inexcu-
mente caracteriza a realidade brasileira é o sável da democracia: o princípio da
subdesenvolvimento em virtude das gritan- igualdade perante a lei tem por fun-
tes desigualdades sociais. É por isso que, ao damento de sua justiça a hipótese de
mencionar o desenvolvimento, o Preâmbu- uma igualdade material entre os ci-
lo da Constituição brasileira indica que a dadãos. Quando esta não existe, a
iniqüidade social só pode ser corrigida com mera igualdade formal de trato jurídi-
a instauração do processo desenvolvimen- co se traduz em resultados iníquos.
tista. O desenvolvimento supõe a melhoria Sem um certo grau de igualdade ma-
das condições de vida dos diferentes seg- terial, e sobretudo econômica – pois o
mentos da população, buscando-se cada vez econômico é de natureza social, im-
mais a supressão dos desequilíbrios. plica relação e não pode ser levado
Nesse sentido assevera Caio Navarro de em conta numa consideração estrita
Toledo: do indivíduo isolado –, é impossível
“qualquer ideologia de desenvolvi- que haja liberdade política, é impos-
mento nacional deverá representar sível que exista uma democracia au-
concretamente os interesses situacio- têntica”23.
nais (atualmente convergentes) das A igualdade exige, na democracia, equi-
diversas classes que compõem a for- líbrio econômico de todas as classes sociais
mação social brasileira”21. de forma a assegurar a todos o mínimo
Conclui-se assim que a ideologia do de- indispensável a uma vida digna. Não será
senvolvimento impõe por parte do Estado a fora de propósito recordar aqui as palavras
realização de políticas ou programas em to- de Rui Barbosa: “A regra da igualdade não
dos os campos, notadamente no campo de consiste senão em quinhoar desigualmente
saúde, de educação, de moradia, de trans- os desiguais, na medida em que se
porte, no campo financeiro, energético, sa- desigualam”24.
nitário, industrial, agrícola etc. Ciência e téc-
nica são meios maravilhosos a serviço de 10. A ideologia da justiça
fins humanos. A concepção de justiça é formulada com
maestria por Joaquim Carlos Salgado:
9. A ideologia da igualdade “... a justiça como idéia corresponden-
te ao nosso tempo é concebida como
Para Joaquim Carlos Salgado,
justiça social, em que a distribuição
“o princípio do tratamento igual de da riqueza social (espiritual e mate-
todos perante a lei, em que pese ser rial), produzida pelo trabalho de to-
abstrato (proíbe ao rico e ao pobre dor- dos, tem, como critério, o mérito de
mir sob a ponte, segundo Anatole cada um, avaliado pelo seu trabalho e
France), é, por outro lado, uma das pela natureza ética do seu ser, na me-
grandes conquistas da cultura jurídi- dida em que não é apenas instrumento
ca ocidental. A consciência da injus- que se valora pela sua utilidade pro-
tiça se aguça diante da consciência do dutora (meio), mas pessoa ou fim em
privilégio, do tratamento desigual si mesmo (Kant), pela dignidade pró-
dado pela lei a uns e outros, provoca pria que possui como ser livre”25.
o desconcerto social”22. A justiça a que alude o Preâmbulo deve,
A igualdade a que se refere o Preâmbulo pois, ser interpretada como o valor justiça,
tem como preocupação fundamental as in- que tem na igualdade de oportunidades, na
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realização dos direitos fundamentais, na Sociedade fraterna é a que busca o bem-
efetivação do bem-estar e da prosperidade estar de todos em geral; é a sociedade soli-
de todas as pessoas suas primeiras mani- dária que almeja a felicidade de todos. Para
festações. a construção da sociedade fraterna, mister
A justiça assegurada no Preâmbulo não se faz, em primeiro lugar, que o indivíduo
se refere a minorias ou grupos financeiros, crie uma espécie de justiça interior, institu-
nem sindicais ou econômicos de qualquer cionalizada, obrigatória, que torne efetiva a
natureza. É justiça para todo o povo brasi- solidariedade, isto é, que procure vencer em
leiro, a quem é assegurado o bem-estar e o si mesmo o egoísmo e a avareza. É preciso
desenvolvimento. ter a lembrança permanente de que cada
“Um clamor por justiça – diz Ar- homem é membro de uma comunidade. Para
tur Ribeiro Neto. Este é o princípio se construir a sociedade fraterna, é também
básico do comportamento e do imagi- necessária a intervenção do Estado em fa-
nário político do país. Quanto mais vor dos desajustados no agrupamento soci-
pobres e menos instruídos forem os al, minorando-lhes a situação de desigual-
indivíduos, mais intenso é o senti- dade econômica e, assim, abrindo-lhes a
mento de injustiça e de indignação oportunidade de conquistar a felicidade. Diz
moral, mais intensa é a reivindicação Maritain:
de uma reparação. A idéia de justiça “O que a consciência profana ad-
da maioria da população brasileira, quiriu, caso não se volte para a barbá-
contudo, está dissociada da lei e do rie, é a fé na fraternidade humana; o
direito positivo. Justiça significa ape- sentido do dever social da compaixão
nas menos miséria”26. pelo homem, na pessoa dos fracos e
dos sofredores; a convicção de que a
11. A ideologia da sociedade fraterna obra política, por excelência, é tornar
a própria vida em comum melhor e
A despeito das adversidades, um espíri-
mais fraternal, trabalhando ao mes-
to de união deve-se estabelecer entre os ho-
mo tempo para fazer da arquitetura
mens. Jacques Maritain prefere falar em com-
panheirismo, porque evoca um conjunto de das leis, das instituições e dos costu-
relações positivas. Ele explica: mes dessa vida em comum um lar
“Evoca a idéia de companheiros para irmãos”29.
de viagem que fortuitamente se encon- No dizer de Albertino G. Moreira: “... cada
tram reunidos neste mundo, cami- indivíduo deve receber da sociedade tudo
nhando pelas estradas da terra – fun- quanto seja necessário ao desenvolvimento
damentais que sejam suas oposições de sua personalidade”30.
– em bom acordo humano, de bom ros- É preciso estarmos alertas ao modelo de
to e em cordial solidariedade”27. sociedade que remete o homem à solidão,
O fundamento de uma sociedade frater- “ao isolamento em relação aos outros
na invocada no Preâmbulo encontra suas homens por um individualismo que
bases no cristianismo, sem deixar de estar não parou de se exasperar, da idade
inspirada também nas idéias do socialismo dos ‘conquistadores’ à decadência
utópico que é todo impregnado do ideal de última das multidões solitárias, pela
justiça e de fraternidade28. extensão das concorrências selvagens
Em verdade, são perfeitamente con- da economia de mercado, o esmaga-
ciliáveis as idéias socialistas com os mento dos mais desprovidos pelos
princípios cristãos. O cristianismo é em menos escrupulosos, as técnicas de
suas origens um movimento dos humil- cobiça cuja expressão mais brutal
des como o socialismo. acha-se na publicidade e no marketing,
Brasília a. 36 n. 143 jul./set. 1999 11
enxertando necessidades artificiais em leis, movimentos de opinião, coerção
como verdadeiras próteses do desejo política, discriminação no emprego, no sa-
egoísta. Esse sistema engendra neces- lário, no acesso à educação, à informação, à
sariamente a violência, notadamente saúde... enfim, a plena convivência dos que
entre os jovens, frustrados de objetos têm os mesmos direitos, porém, participan-
que se lhes ensina a desejar e de que do de experiências variadas. Diferentes,
os mais favorecidos, os herdeiros da porém iguais na fruição de conquistas de
riqueza ou do saber, apropriam-se uma sociedade democrática.
pela especulação ou fraude” 31. Da sociedade fraterna, pluralista e sem
preconceitos resulta a harmonia social.
12. A ideologia da sociedade pluralista
Quando no Preâmbulo se fala de socie- 14. A ideologia da paz na ordem
dade pluralista, reafirma-se a fé na ideolo- interna e ordem internacional
gia democrática. É a demonstração de con- Tanto no âmbito interno, dentro do Bra-
fiança na opinião pública. Impõe-se a ne- sil, como na ordem internacional referente
cessidade da formação de partidos políti- aos Estados soberanos, as controvérsias se-
cos sólidos e com densidade ideológica em rão dirimidas pacificamente. Essa é a deter-
que são veiculadas posições e propostas dos minação do Preâmbulo. Impõe-se, assim, o
mais variados matizes ideológicos. É a idéia diálogo tanto como fonte primordial na so-
de convivência amena, da tolerância reli- lução dos conflitos sociais dentro do Brasil
giosa, da liberdade intelectual em estudar e como para dirimir os confrontos de ordem
pesquisar quaisquer temas pertinentes à internacional. A prudência deverá tempe-
ciência sem o execrável patrulhamento rar todas as reivindicações, pois é no clima
ideológico. de paz que o direito pode desenvolver-se.
O pluralismo é consoante com a multi- A grande preocupação política expres-
plicação das associações livres, comunitá- sada nesse ponto do Preâmbulo é a paz. Para
rias, sindicatos e constitui um estímulo e tanto, é necessário o clima de confiança en-
uma contribuição para o alargamento da tre o governo e os cidadãos e entre os Esta-
participação política. Norberto Bobbio fala dos soberanos, o que significa e pressupõe
do pluralismo: um sentimento de solidariedade.
“É uma luta travada em nome da A ordem internacional encontra sua base
concepção de uma sociedade articu- em fins humanos, na realização e luta pela
lada em grupos de poder que se situ- garantia dos direitos humanos. Os Estados
em, ao mesmo tempo, abaixo do Esta- soberanos têm como missão a realização dos
do e acima dos indivíduos, e, como direitos humanos, e isso explica a necessi-
tais, constituem uma garantia do in- dade de os Estados terem uma concepção
divíduo contra o poder excessivo do funcional e moderada dos seus poderes.
Estado, por um lado, e, por outro, uma É importante notar que, em ambas as or-
garantia do Estado contra a fragmen- dens, exige-se a transformação da realida-
tação individualista”32. de econômica, sem o que falar em direitos
fundamentais da pessoa humana constituir-
13. A ideologia da sociedade sem se-á pura retórica.
preconceitos
Por sociedade sem preconceitos deve-se
15. Sob a proteção de Deus
compreender sua abstenção de quaisquer Quando o Preâmbulo faz a invocação da
julgamentos baseados em diferenças de cor, proteção de Deus, está a demonstrar algo
credo, raça, sexo, idéias a se expressarem extraordinário: a importância de Deus. Isso
12 Revista de Informação Legislativa
torna relativa toda soberania social. Afasta- 2
WOLKMER, Antônio Carlos. Demarcações
se toda tirania absolutista que sacraliza o históricas para uma temática das ideologias. Re-
poder e pretende fazer de um dirigente um vista Brasileira de Estudos Políticos. Belo Horizonte,
(59) : 123-57, jul., 1984, p. 133.
Deus na terra. A economia, a política, a ciên- 3
Ibidem, op. cit. p. 133-134.
cia e as artes não podem separar-se da fé 4
COMPARATO, Fábio Konder. Op. cit. p. 429.
que lhes determina seus fins divinos e hu- 5
PERINE, Marcelo. Maritain, um contemporâ-
manos. A vida, em todas as dimensões, en- neo. Belo Horizonte : PUCMinas, 1998, p.12.
contra em Deus sua unidade. “Ele é a ori- 6
BONAVIDES, Paulo. Do Estado liberal ao Esta-
gem e o fim, o exterior e o interior”. Ade- do social. 4ª ed., Rio de Janeiro : Forense, 1980, p.
mais, mostra fé na transcendência da pes- 205.
7
Ibidem, p. 208.
soa humana, pois o homem, assediado por 8
Ibidem, p. 209.
suas cobiças e pelas solicitações exteriores, 9
Ibidem, p. 228.
é constantemente ameaçado de se dispersar 10
RUI BARBOSA. Obras completas de Rui Barbo-
no múltiplo. A fé é de modo indivisível essa sa: Campanha presidencial, 1919. Rio de Janeiro :
reintegração de nosso ser fragmentário à Ministério da Educação e Cultura, 1956, v. 46, t. 1,
unidade e à liberdade divinas. É com fé em p. 74-5.
Deus que se encontra o caminho e a espe-
11
Segundo Joaquim Carlos Salgado, “o Estado
social é o que declara, como sua finalidade central,
rança de transformação da sociedade para
a realização da justiça social e, por isso, dos direi-
melhor. “O homem vive em um mundo em tos sociais.” In: Constituinte e Constituição. Belo
que ele tem o poder não apenas de transfor- Horizonte, UFMG, 1986, passim.
mar mas de transcender. Quando não sente 12
SALDANHA, Nelson. O Chamado “Estado
a necessidade dessa ultrapassagem, uma Social”. Revista Brasileira de Estudos Políticos, Belo
sociedade se desintegra”33. Compreender a Horizonte, (62) : 55-82, jan. 1986, p. 76.
vida em sua totalidade é, em primeiro lugar, 13
BONAVIDES, op. cit. p. 30.
perceber que o mundo não é o jogo de forças 14
“No liberalismo, o valor da liberdade, segun-
inconscientes e sem objetivos. Não é apenas do Viertkand, cinge-se à exaltação do indivíduo e
experiência exterior dos fatos, mas desco- de sua personalidade, com a preconizada ausência
berta interior dos sentidos. Não podemos e desprezo da coação estatal”. Cfr. Bonavides, op.
aceitar uma vida social que desloque o ho- cit. p. 31.
mem e desintegre a sociedade. Uma fé ligan-
15
MEIRELES, Cecília. Escolha o seu sonho. 8ª ed.
do o homem à sua origem e ao seu fim é que Rio de Janeiro: Record, s/d, p. 10.
16
SALGADO, Joaquim Carlos. A necessidade
dá um sentido à sua vida, criando para o
da filosofia do direito. Revista da Faculdade de Direito
homem uma dimensão transcendental para
da UFMG. Belo Horizonte, 31 (30/31) : 13-19, 1987/
o seu ser. “Desde antes da existência dos
1988, p. 18-19.
mundos e do devir dos mundos, o Ser divi- 17
SALGADO, Joaquim Carlos. Op. cit. p. 19.
no é ele próprio o amor, o amante e o 18
VISSCHER, Charles de. Théories et réalités en
amado”34. droit international public. Paris : Editions a Pedone,
Constatamos, pois, que o Preâmbulo, em 1953, p. 171.
sua significação profunda, revela uma cla- 19
RICASÉNS SICHES, Luis. Nueva filosofía de la
ra manifestação axiológica que se nutre das interpretación del derecho. México-Buenos Aires :
aspirações da sociedade. Sendo assim, todo Fondo de Cultura Económica, 1956, p. 281.
o texto constitucional há que ser interpreta- 20
COMPARATO, Fábio Konder. Op. cit. p. 430.
do em íntima conexão com as ideologias 21
TOLEDO, Caio navarro de. ISEB-Fábrica de
perfiladas no Preâmbulo. ideologias. São Paulo : Ática, 1977, p. 47.
22
SALGADO, Joaquim Carlos. Op. cit. p.
18-19.
Notas 23
AYALA, Francisco. Apud SOUZA, Daniel
Coelho de. Interpretação e democracia. 2ª ed., São
Paulo : Revista dos Tribunais, 1979, p. 150.
COMPARATO, Fábio Konder. Democrati- 24
BARBOSA, Rui. Oração aos moços. Rio de
zação e segurança. Revista Brasileira de Estudos
Políticos. Belo Horizonte, (60/61) : 421-42, jan./ Janeiro : Casa de Rui Barbosa, 1956, p. 32.
jul. 1985, p. 429.
25
SALGADO, Joaquim Carlos. Op. cit. p. 19.

Brasília a. 36 n. 143 jul./set. 1999 13


26
NETO, Artur Ribeiro. Para eleitor, justiça 30
MOREIRA, Albertino G. Noções de direito social.
significa fim da miséria. Folha de São Paulo, São São Paulo, Saraiva, 1940, v. I, p. 352.
Paulo, 24-9-89, p. B-8. 31
GARAUDY, Roger. As promessas do islã. Pas-
27
MARITAIN, Jacques. Princípios de uma política sim.
humanista. Rio de Janeiro : Agir, 1946, p. 144. 32
BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. 2ª
28
HUGON, Paul. História das doutrinas econômi- ed., Brasília : UnB, 1986, p. 928.
cas. 6ª ed., São Paulo : Atlas, 1959, p. 208 e ss. 33
HAMIDULLAH, Mohammad. Introdução ao
29
MARITAIN, Jacques. Cristianismo e democra- islã. São Paulo : C.D.I.A.L., 1991, passim.
cia. Rio de Janeiro : Agir, 1945, p. 39. 34
Idem, ibidem.

14 Revista de Informação Legislativa