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Eletrificação Rural: Elementos para o Debate∗

Marcos Vinicius Miranda da Silva


(Doutor em Energia pelo PIPGE/USP)
energiapara@yahoo.com.br

Célio Bermann
(Professor do PIPGE/USP)
cbermann@iee.usp.br

Resumo

Com o advento do desenvolvimento sustentável, a eletrificação rural ganhou espaço

importante nos debates sobre energia, desenvolvimento regional e meio ambiente. Embora

não ela seja determinante para o desenvolvimento socioeconômico do campo, sua

contribuição para a melhoria da qualidade de vida de populações rurais acaba tronando-a

elemento importante para a efetivação desse processo. Neste artigo, analisam-se os

benefícios da eletrificação rural, algumas causas do não-atendimento energético, a

descentralização dos sistemas de oferta e a tendência dos programas de atendimento

elétrico no país, sendo identificados os elementos que deverão fazer parte dos debates sobre

a questão energética na zona rural. Como diretrizes para a implantação de programas de

eletrificação, sugere-se a incorporação de aspectos socioambientais para a tomada de

decisão, bem como o planejamento energético, visando distribuir de forma mais eqüitativa

os benefícios da eletrificação rural entre as regiões do país e definir os sistemas energéticos

com racionalidade econômica e ambiental.


Este artigo deve ser citado da seguinte forma: SILVA, Marcos Vinicius Miranda da; BERMANN, C.
Eletrificação rural: elementos para o debate. In: VIII Congresso Brasileiro de Energia, 1999, Rio de Janeiro.
VIII Congresso Brasileiro de Energia: política energética, regulamentação e desenvolvimento sustentável,
1999. v. III. p. 1273-1281
Os benefícios da eletrificação rural

É notório que os programas de eletrificação desempenham um papel importante no

desenvolvimento de pequenas comunidades rurais, seja melhorando a qualidade de vida,

seja fornecendo energia para algumas atividades produtivas no campo. Embora isso não

signifique que eles sejam suficientes para determinar o desenvolvimento, pois o êxito desse

processo na zona rural dependerá de um conjunto de ações integradas, que envolve a

implantação de outros programas nas áreas de saúde, educação, transporte, etc.

É um esforço inútil levar eletrificação para o campo, visando o desenvolvimento

econômico, se pequenos produtores não têm direito à terra, acesso ao crédito, malha viária

que permita o escoamento da produção, garantias de preços competitivos para os produtos

agrícolas no mercado. Portanto, a energia por si só é incapaz de promover o

desenvolvimento da zona rural.

A literatura sobre a questão energética no campo faz referência a uma série de

benefícios que poderiam ser obtidos em decorrência da disponibilidade energética. Entre

eles mencionam-se: melhoria do padrão de vida, diminuição da pobreza, geração de

empregos, educação, nutrição, segurança, fixação do homem no campo, promoção da

cidadania, coesão social, desenvolvimento das atividades agroindustriais e artesanais,

redução das importações de derivados de petróleo, devido à utilização de fontes renováveis

em substituição ao diesel e ao GLP, e a preservação ambiental.

Esses benefícios, dependendo de suas relações com a disponibilidade energética,

bem como com outros programas de desenvolvimento, podem ser caracterizados como

reais, quando o benefício é obtido sem a necessidade da implantação de outros programas;

realizáveis, quando há a necessidade de implantação de outros programas para promover


benefícios; ou fantasiosos, quando o benefício pode ocorrer independentemente da

implantação de programas de eletrificação rural.

Como exemplo dos benefícios reais, tem-se a contribuição para melhoria da

qualidade de vida, através da iluminação residencial, que proporciona uma luminosidade

ambiental mais adequada, além da possibilidade de reduzir as emissões decorrentes da

queima direta de produtos como o querosene e o óleo diesel, prejudiciais à saúde, utilizados

para atender as necessidades de iluminação.

No caso dos benefícios realizáveis, cita-se o caso da educação, que pode ser

facilitada pela iluminação das escolas e pela possibilidade do uso de equipamentos (TV,

vídeo, etc.) que contribuam para o aprendizado. Entretanto, sua efetivação só acontecerá

mediante a existência de programas educacionais consistentes, com professores

qualificados e bem remunerados.

Como benefício fantasioso, menciona-se a diminuição da pobreza. PEARCE &

WEBB (1987), ao analisarem os possíveis efeitos da eletrificação rural sobre a redução dos

níveis de pobreza, concluem que não existem evidências suficientes que sustentem essa

afirmação, principalmente porque há uma tendência da eletrificação rural beneficiar apenas

as famílias mais ricas.

Os programas de atendimento energético também são visualizados como

catalisadores do desenvolvimento econômico rural. Essa argumentação tem recebido

críticas, pois, em certos casos, o desenvolvimento econômico ocorreu sem a presença de

programas de eletrificação rural (FOLEY, 1989 apud RAGANATHAN, 1993). PEARCE &

WEBB (1987) também fazem referência a esse argumento, afirmando que ele não passa de

“folclore”.
O caráter especial dado aos programas de atendimento energético, na forma da

eletrificação rural, sugere duas situações bastante comuns na área energética. A limitação

do conhecimento, que tende a caracterizar os programas de atendimento energético como o

próprio processo de desenvolvimento rural, quando na realidade eles são apenas parte

integrante desse processo, e a manipulação de informações, muitas vezes utilizada para

sensibilizar os organismos financiadores, visando a obtenção de recursos para a

implantação desses programas em benefício individual.

Se se negligencia o próprio contexto no qual os programas de atendimento

energético deveriam estar inseridos, então, torna-se difícil obter transformações positivas

no meio rural que possibilitem resgatar as pequenas comunidades da exclusão

socioeconômica na qual elas se encontram.

Algumas causas da ausência de eletrificação rural no Brasil

Antes do advento da filosofia do desenvolvimento sustentável, os programas de

atendimento energético eram exclusivamente vinculados às atividades agroindustriais, uma

vez que essas atividades poderiam maximizar os retornos dos investimentos, contribuindo

para minimizar os custos totais anuais da eletrificação rural (SINHA et al, 1994).

Essa postura ao ser adotada no Brasil acabou privilegiando o Sul e Sudeste em

relação a outras regiões do país, como o Norte e o Nordeste, porque aquelas regiões

dispõem de uma melhor infra-estrutura, que facilita o escoamento da produção, terras aptas

à agricultura e uma maior densidade populacional. Esses requisitos, considerados

necessários para valorizar a energia elétrica no campo, acabaram levando a uma


“discriminação sócio-econômica”1 (DE GOUVELLO, 1993), que exclui dos benefícios

oriundos da eletrificação, principalmente para baixas demandas, aquelas regiões que não

possuem tais condições.

Os índices referentes à eletrificação rural no Brasil também caracterizam essa

exclusão. No início da década de 90, o percentual de residências rurais atendidas por

energia elétrica era mais elevado nos estados pertencentes às regiões Sul e Sudeste,

enquanto nos estados da Região Norte esse percentual era relativamente mais baixo. Por

exemplo, os estados de Santa Catarina e São Paulo possuíam respectivamente 81,56% e

60,41% de suas propriedades rurais eletrificadas, enquanto o estado do Pará tinha apenas

0,75% dessas propriedades eletrificadas, o mais baixo índice a nível nacional (CORREIA,

1992).

Uma outra questão relacionada à “discriminação sócio-econômica” refere-se aos

beneficiários dos programas de eletrificação rural. PEARCE & WEBB (1987) e

HOURCADE et al (1990), ao abordarem essa questão, afirmam que as famílias mais ricas

do campo são as maiores beneficiadas por esses programas, pois as tarifas elevadas não

permitem que famílias mais carentes tenham acesso à eletrificação. No Brasil, na metade da

década de 70, observou-se que no campo o consumo de energia elétrica das famílias ricas

correspondia a 36% do consumo total de energia, enquanto a participação da eletricidade no

consumo total das famílias pobres era de 0% (BÔA NOVA, 1985).

O fato de as políticas nacionais de desenvolvimento agrícola terem um caráter

elitista e excludente para os pequenos produtores rurais, devido às dificuldades para a

obtenção de incentivos fiscais e creditícios (TENDRIH, 1990), reforça a tese de que as

1
DE GOUVELLO chama de “discriminação sócio-econômica” a tendência observada no Brasil que beneficia
com eletrificação áreas rurais densamente povoadas e economicamente mais desenvolvidas em detrimento de
outras que não dispõem desses requisitos.
médias e grandes propriedades rurais, que têm mais facilidade para captar tais incentivos e

desenvolver atividades agropecuárias, acabam sendo as privilegiadas em termos de

eletrificação rural.

Os programas de eletrificação rural implantados nos países pobres são geralmente

copiados dos países ricos (DEUDNEY & FLAVIN, 1983; SATHAYE, 1987). Porém isso

não garante o sucesso desses programas, justamente por negligenciar as peculiaridades de

cada região. Fatores como: baixa densidade populacional, consumidores dispersos, baixa

demanda, distância entre a rede e os consumidores, diversidade geográfica, falta de

domínio tecnológico, baixo fator de carga, perdas na distribuição, custos mais elevados,

longo período de retorno dos investimentos, inexistência de renda, entre outros, são

comumente utilizados para justificar o não-atendimento energético. Desse modo, a

implantação de tais programas tende a ser definida apenas por critérios puramente técnico-

econômicos.

Essa postura é criticada por PEARCE & WEBB (1987) em virtude de a eletrificação

rural contribuir para o desenvolvimento social das comunidades atendidas, devendo,

portanto, ser vista por uma ótica que não envolva apenas critérios técnico-econômicos.

A manutenção desses critérios, como os únicos a determinar a viabilidade ou não da

eletrificação rural, levará à máxima na qual os programas de eletrificação rural só terão

sustentabilidade quando os países pobres tiverem um per capita relativamente elevado

(BARNES, 1982 apud RAGANATHAN, 1993). Nesse sentido, argumenta-se que as áreas

rurais de baixa renda terão que esperar pelo crescimento econômico, quando haverá o

aumento da renda rural, motivado pela implantação de outros programas de

desenvolvimento (RAGANATHAN, 1993).


Isso define um quadro bastante pessimista para o meio rural brasileiro, em

particular para a Amazônia, no que diz respeito à eletrificação do campo, pois as políticas

de desenvolvimento, em grande parte, não se destinam à população pobre, considerada

incapaz de promover e obter os benefícios do progresso (TENDRIH, 1990). Desse modo,

estabelece-se um círculo vicioso, onde a eletricidade não é levada à zona rural devido à

ausência de programas de desenvolvimento para valorizá-la, porém esses programas não

são implementados em virtude da ausência de eletrificação. Esse quadro tende a perpetuar o

estágio de exclusão social existente no campo.

A descentralização dos sistemas de oferta energética

A busca por um novo estilo de desenvolvimento, caracterizado pela incorporação da

justiça social e da preservação ambiental ao processo de desenvolvimento econômico,

como forma de reduzir os índices de pobreza e a degradação ambiental do planeta,

representa um passo importante para diminuir os índices de não-atendimento elétrico na

zona rural de regiões carentes.

A adoção dessa postura, na qual as estruturas verticais vêm dando lugar para

estruturas mais horizontais, sendo essa mudança caracterizada por uma maior autonomia

aos níveis locais (SINHA et al, 1994), levará a redução da “discriminação sócio-

econômica” observada no campo em relação à energia. Quando a energia passa a ser vista

também como sinônimo de qualidade de vida, o privilégio dispensado a algumas regiões

pelas políticas energéticas, devido a fatores meramente técnico-econômicos, deixa de

existir, uma vez que qualquer família, independente do contexto geográfico no qual ela se

encontra, tem o direito de ver suas necessidades básicas satisfeitas por essas políticas para

que se estabeleça a cidadania.


Essa mudança de postura em relação ao meio rural foi formalizada na Conferência

de Estocolmo, com a divulgação dos princípios filosóficos do ecodesenvolvimento, onde a

meta principal era elaborar um estilo de desenvolvimento compatível com as peculiaridades

das regiões rurais (SACHS, 1986). Essa filosofia acabou sendo relevante para a questão

energética no campo, porque incorporou o conceito de descentralização dos sistemas

energéticos e as fontes renováveis de energia aos debates.

Em relação à descentralização e à utilização de fontes renováveis, outro

acontecimento importante na década de 70 está relacionado aos “choques” do petróleo,

ocorridos em 1973 e 1979. Com a elevação do preço do barril de petróleo, houve um

natural direcionamento das pesquisas para as fontes renováveis de energia como forma de

reduzir as importações de petróleo (RAPPEL et al, 1984; SATHAYE, 1987). Entretanto,

foi somente depois da Conference on New and Renewable Source Energy, ocorrida em

Nairobi, em 1981, promovida pelas das Nações Unidas, que muitos países passaram a

desenvolver sistemas energéticos mais adequados às suas realidades (DEUDNEY &

FLAVIN, 1983).

Nesse contexto, a descentralização dos sistemas energéticos, baseada no uso de

fontes renováveis de energia, passou a ser vista como uma alternativa aos modelos de

eletrificação rural via conexão à rede, sob a argumentação de que os sistemas

descentralizados são mais adequados à realidade local, principalmente no que se refere às

variáveis de micro escala, onde atuam fatores ecoculturais e socioeconômicos (SINHA et

al, 1994), bem como ao atendimento da baixa demanda energética, por serem menos

dispendiosos do que a eletrificação rural tradicional, pois esta necessita de investimentos

elevados (RANGANATHAN, 1993); e por promoverem a substituição dos derivados de

petróleo (SACHS, 1986). Entretanto, a descentralização dos sistemas energéticos baseados


em fontes renováveis parece ser mais interessante apenas na produção e consumo de

energia em pequena escala (MCLAUGHLIN et al, 1979 apud HURLEY, 1981;

GOLDENBERG, 1981e SINHA; KANDAL, 1991).

Sem nenhuma dúvida, há um certo consenso na argumentação de que os sistemas

energéticos descentralizados, que utilizam fontes de energia locais, têm boas perspectivas

para o atendimento das necessidades básicas de pequenas comunidades rurais (SINHA et

al, 1994), embora, hoje, esse consenso sobre o uso exclusivo de fontes renováveis já não

exista, em virtude da atratividade econômica dos derivados de petróleo, bem como em

função de problemas vinculados à confiabilidade dos sistemas energéticos.

A discussão sobre o processo de descentralização dos sistemas energéticos envolve

além do tipo de energia a ser utilizado, renováveis e/ou derivados de petróleo, questões

político-institucional, socioeconômica e ambiental.

BRINKMANN (1985) analisou a tentativa chinesa de implementar um modelo de

planejamento energético mais descentralizado, com maior autonomia para os níveis

regionais, locais e unidades de produção, e observou que três aspectos podem inibir o

processo de descentralização:

• A coexistência de elementos tanto da centralização quanto da descentralização no

planejamento energético.

• A ausência de responsabilidade parcial nas áreas de atuação, que pode impedir o

desenvolvimento da interdisciplinaridade por parte das instituições.

• A fragmentação e a transição sem a estruturação dos vários subsetores, que envolvem

questões funcionais e de responsabilidade.


Como forma de tornar mais autônomo o planejamento energético, ele sugere que os

tomadores de decisão devem desenvolver uma base de informações que possa direcionar o

planejamento energético e que seja completa, acessível e realizável.

Outro ponto pouco abordado referente à descentralização dos sistemas energéticos

diz respeito aos impactos ambientais locais, bem como suas conseqüências negativas na

estrutura socioprodutiva das pequenas comunidades, que podem ocorrer devido à utilização

dos recursos naturais. Por exemplo, SINHA et al (1994) apontam como uma das grandes

restrições aos sistemas energéticos descentralizados, que visam o aproveitamento da

biomassa florestal, aquelas áreas onde esses recursos estão ameaçados. Em relação aos

sistemas fotovoltaicos, tem-se a possível contaminação dos sistemas ecológicos por

chumbo, caso as baterias automotivas não sejam removidas do local, após o fim da vida

útil.

Esses impactos passam a ser mais significativos do que os impactos ambientais

globais por terem implicações negativas não só nos ecossistemas nos quais as pequenas

comunidades estão inseridas, mas, também, pelo fato de poderem provocar a

desestruturação socioprodutiva dessas comunidades. Ressalta-se que as pequenas

comunidades têm nos sistemas ecológicos as suas bases de sustento.

Os programas de atendimento energético no Brasil

No Brasil, desde a década de 70, tenta-se incorporar à metodologia de planejamento

energético um estudo preliminar, que possibilite o conhecimento dos sistemas ecológicos

locais e da estrutura organizacional das pequenas comunidades rurais, bem como das

relações envolvidas nesse contexto. O levantamento de informações sociais, culturais,

econômicas e ecológicas tem como objetivo principal garantir o sucesso dos programas de

atendimento energético (RAULINO, 1978). Entretanto, a estratégia adotada na prática por


programas como o “Programa de Desenvolvimento Energético de Estados e Municípios -

PRODEEM”, que procura estimular a disseminação em massa de sistemas energéticos

descentralizados, reflete uma grande dicotomia. Por um lado, divulga-se a idéia de que os

sistemas energéticos descentralizados só devem ser implantados a partir de um profundo

conhecimento do contexto que envolve as pequenas comunidades (MME, s.d.). Por outro,

não é exigido que a implantação desses sistemas seja realizada mediante prévio

planejamento energético, que possa indicar quais as alternativas energéticas mais

adequadas em termos econômicos e ambientais para o atendimento da demanda, e não se

discute a criação de mecanismos capazes de garantir a sustentabilidade do atendimento

energético. Além disso, há uma evidente preferência às fontes renováveis, em relação aos

grupos geradores a diesel, sob a frágil argumentação de que esses sistemas contribuem para

as emissões globais de CO2, negligenciando os custos dessa alternativa e o uso de técnicas

mitigadoras desse tipo de impacto, como atividades de reflorestamento.

Esquecem-se os elaboradores de programas com essa tendência, que as fontes

renováveis de energia também podem causar sérios impactos ambientais locais, podendo

comprometer a base de sustento das comunidades atendidas. Sem um planejamento

energético efetivo e a criação de mecanismos que garantam a sustentabilidade do

atendimento energético, a essência de programas dessa natureza vai sempre apresentar uma

pseudo-sustentabilidade.

Na ambiciosa proposta do PRODEEM, previa-se que para 1996, o número total de

projetos a serem implantados era de 300, beneficiando 120.000 pessoas. Para 1999, o

número de projetos previstos chegaria a 5.000, com benefícios para 2.000.000. Em quatro

anos, o governo esperava implantar 9.300 projetos em todo Brasil, com proposta de
atendimento para 3.720.000 pessoas e estimativa de gastos de US$ 110 milhões (MME,

s.d.).

É preciso ressaltar que a iniciativa de direcionar recursos financeiros para o

atendimento energético das pequenas comunidades é extremamente válida nesse programa.

O que merece crítica é a forma com que ele está sendo conduzido na prática.

Quando não é realizado um planejamento energético criterioso, corre-se o risco de

disponibilizar recursos financeiros para os programas energéticos sem que haja o retorno

social esperado, pois esses programas são geralmente abandonados. Dessa forma, a

importância do planejamento energético também reside em evitar que ocorram casos como

o observado na Córsega (França), onde um projeto piloto fotovoltaico (44 kWp) foi

abandonado após 8 anos de funcionamento em virtude da insatisfação dos moradores e

déficit financeiro, do ponto de vista do consumidor ter sido esquecido, da fonte renovável

ter limitado o comportamento do usuário e dos custos elevados de manutenção e operação

do sistema (MOREIRA & PERI, 1993).

Os programas que promovem a disseminação em massa de sistemas energéticos

descentralizados, baseados no uso de fontes renováveis, como acontece hoje no Brasil,

muitas vezes têm na sua essência a criação de mercados para novas tecnologias. Nesse

sentido, ASHOWORTH (1979) apud GOLDENBERG (1981. p.106) comenta que “os

motivos humanitários de auxiliar aos pobres rurais são combinados com o desejo de criar

novos mercados. Isso é particularmente verdadeiro para tecnologias dispendiosas, como as

células fotovoltaicas”.

Qualquer programa de atendimento energético, direcionado às pequenas

comunidades rurais, que tenha na sua essência os interesses de mercado, apresentará falhas,

porque esses interesses geralmente sobrepõem-se aos objetivos sociais e ecológicos,


conseqüentemente não sendo capaz de resolver, na sua totalidade, o problema da exclusão

energética observado no meio rural.

Em síntese, pode-se afirmar baseado em GOLDENBERG (1981) que o programa de

atendimento energético ideal para pequenas comunidades rurais não é aquele que utiliza

tecnologias novas ou convencionais para a produção de energia, mas o que incorpora

verdadeiras propostas de mudanças sociais.

Conclusões

Inegavelmente, a eletrificação rural é um elemento importante para o

desenvolvimento socioeconômico da zona rural, embora ela por si só não seja determinante

para a efetivação desse processo.

Principalmente por contribuir para a melhoria da qualidade de vida no campo, torna-

se necessário modificar os critérios de viabilidade para a implantação de programas de

eletrificação rural, incorporando aspectos sociais e ambientais, visando distribuir mais

eqüitativamente os programas de eletrificação rural entre as regiões do país.

É de fundamental importância a utilização do planejamento energético como

ferramenta para a definição dos sistemas de oferta de energia, que devem ser escolhidos a

partir de três diretrizes básicas: racionalidade econômica, racionalidade ambiental e

sustentabilidade do atendimento energético. Essa postura poderá evitar que sistemas de

atendimento energético venham a ser abandonados pouco tempo depois de suas

implantações.

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