Sie sind auf Seite 1von 7

Instituição Toledo de Ensino

Hermenêutica Jurídica

III.3 MÉTODO SISTEMÁTICO

Prof. Ms. José Luiz Antiga Jr.

MÉTODO SISTEMÁTICO - TEORIA:

Introdução: unidade do direito

O direito é uno e indivisível. Quando estudamos Direito Civil, Direito

Processual Penal, Direito do Trabalho, etc., ou quando nos deparamos com classificações do direito, tais como a que divide o direito em direito privado e direito público, na verdade estamos diante de divisões meramente didáticas. Essas

divisões/classificações têm o condão de facilitar o estudo, o conhecimento do direito. Além dessa função didática, as divisões e classificações do direito visam possibilitar

o conhecimento sobre os diversos tipos de problemas que existem na sociedade, e que precisam ou podem ser solucionados pelo direito.

As leis fazem parte de um sistema complexo, o jurídico. Juntamente com

outras fontes do direito, as leis escritas estão em harmonia entre si. Há, no sistema jurídico, conexões possíveis entre os textos legais. O estudante deve ter em mente que cada artigo de lei, cada capítulo ou título de um código, ou cada ramificação do direito (Direito Civil, Penal, Processual, etc.) é, na verdade, parte de um todo, parte de um sistema social classificado como jurídico.

Relembrando o que dissemos anteriormente, o texto de lei é diferente da

norma jurídica, pois essa última é fruto de um processo de interpretação, consistindo

a interpretação na atribuição de um sentido/significado e na delimitação de alcance

desse texto. Logo, é possível dizer que a produção (construção) da norma depende, várias vezes, da análise da conexão entre textos de artigos de leis diversas, de diferentes ramificações do direito. Assim, determinado texto de um artigo do Código Penal pode depender da análise em conjunto com certo parágrafo de artigo do Código Civil, por exemplo.

Isso significa que, no processo de interpretação do texto, ou seja, de construção da norma, é necessário que o interprete tenha uma visão sistemática do direito. É relevante que o intérprete analise as conexões possíveis entre textos de leis diversas, pois essa conexão possibilita a construção de uma norma coerente com o sistema. Ter visão sistemática do direito é compreender que nenhum texto de lei pode ser interpretado isoladamente, senão que deve sempre ser pensado como sendo parte de um todo, e que as várias partes desse sistema devem estar em harmonia.

2

Função do método sistemático

A função hermenêutica do método sistemático é a possibilidade de coerência do sistema na construção da norma.

Neste sentido, Ferraz Jr. ao escrever sobre o método sistemático, ensina:

“A primeira e mais importante recomendação, nesse caso, é de que, em tese, qualquer preceito isolado deve ser interpretado em harmonia com os princípios gerais do sistema, para que se preserve a coerência do todo”. 1

Fontes do direito

Como Paulo Nader ensina, “quando um magistrado profere uma sentença, não aplica regras isoladas; projeta toda uma ordem jurídica ao caso concreto”. 2

O direito possui várias fontes. A principal classificação acerca do tema faz uma divisão entre fontes materiais e fontes formais. Por fontes materiais podemos entender todos os fatores sociais que influenciam na criação do direito: aspectos econômicos, sociológicos, políticos, religiosos, etc. Em outras palavras, fontes materiais do direito são todas aquelas circunstâncias sociais que fazem nascer o direito. Trata-se, na feliz expressão de Ferdinand Lassale, dos fatores reais de poder.

As fontes formais do direito são, por outro lado, os modos pelos quais o direito se positiva em um ordenamento jurídico. Mediante fontes materiais (fatores sociais) se cria a consciência coletiva da necessidade de que o ordenamento jurídico passe a disciplinar determinada matéria. Ao cumprir essa tarefa, ou seja, ao disciplinar determinada matéria, tornando-a jurídica, o Estado adota várias formas, tais como leis, costumes, jurisprudência.

Parte da doutrina considera que são fontes formais apenas as leis e os costumes. Dependendo do sistema jurídico do país, leis e costumes poderiam ser classificados em razão de sua importância. Assim, nos países de tradição romanística, a lei teria papel de fonte formal primária, e o costume o papel de fonte formal secundária ou complementar. É o que ensinam alguns doutrinadores:

“Para os países que seguem a tradição romano-germânica, como o Brasil,

a

principal forma de expressão é o Direito escrito, que se manifesta por leis

e

códigos, enquanto que o costume figura como fonte complementar”. 3

1 Introdução ao estudo do direito, p. 289.

Introdução ao estudo do direito, p. 278. 3 Paulo Nader, op. cit., p.143.

2

3

No caso da jurisprudência, há duas correntes: autores que entendem ser ela fonte formal e aqueles que entendem que a jurisprudência sequer chega a ser fonte do direito. Vejamos as duas posições:

Paulo Nader trata do tema da seguinte maneira:

“A jurisprudência, que se forma pelo conjunto uniforme de decisões judiciais sobre determinada indagação jurídica, não constitui uma fonte formal, pois a sua função não é a de gerar normas jurídicas, apenas a de interpretar o Direito à luz dos casos concretos”. 4

Já Miguel Reale, um dos maiores juristas da história do Brasil, ensina:

“A jurisprudência, muitas vezes, inova em matéria jurídica, estabelecendo normas que não se contêm estritamente na lei, mas resultam de uma construção obtida graças à conexão de dispositivos, até então considerados separadamente, ou, ao contrário, mediante a separação de preceitos por largo tempo unidos entre si. Nessas oportunidades, o juiz compõe, para o caso concreto, uma norma que vem completar o sistema objetivo do Direito”. 5

A discussão é muito interessante, mas parece que Miguel Reale tem razão ao classificar a jurisprudência como fonte do direito, pois no processo de construção da norma (interpretação do texto atribuindo-lhe sentido e delimitando-lhe o alcance) a jurisprudência é fator de convencimento do intérprete. A jurisprudência é o resultado da interpretação de textos legislativos, ou seja, é uma norma jurídica. Além disso, o legislador não tem a capacidade de prever todos os casos aos quais a lei será aplicada no momento de sua criação. Assim, a lei passa a ser aplicada a inúmeros casos não previstos pelo legislador. As peculiaridades desses casos levam os Tribunais a criarem novas normas.

Além desses argumentos jusfilosóficos há um, recentemente, bem objetivo. Trata-se da súmula vinculante, recentemente inserida no texto constitucional mediante a emenda constitucional nº 45, que acrescentou o artigo 103-A, na Carta Magna, que dispõe:

Art. 103-A. O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, mediante decisão de dois terços dos seus membros, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, aprovar súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma estabelecida em lei.

4 Op. cit., p. 143. 5 Lições preliminaries do direito, p. 168.

4

Temos que, após esse argumento objetivo, fica difícil contestar o caráter de fonte formal da jurisprudência.

Fontes e método sistemático

De acordo com o que dissemos anteriormente, são fontes formais do direito:

as leis, os costumes e as jurisprudências, bem como os contratos (fonte negocial).

Assim sendo, no processo de interpretação, ao adotar o método sistemático, é necessário que se faça a relação entre as fontes, e não apenas entre disposições de apenas uma das fontes. Em outras palavras, não se deve aplicar o método sistemático apenas comparando-se dispositivos de leis, ou vários costumes entre si, ou mesmo algumas jurisprudências com outras que tratam do mesmo assunto, mas sim o texto da lei COM a jurisprudência, COM o costume, ou o costume COM a jurisprudência e, ainda, dispositivos da lei, com jurisprudências e costumes. Afinal, as fontes formais do direito são os modos pelos quais o sistema jurídico está posto, está positivado. Interpretar sistematicamente é analisar todas as fontes possíveis sobre determinado assunto do direito. Se o assunto é tratado por um texto de lei e também pela jurisprudência de algum Tribunal, é necessário que se interprete ambos, de uma forma harmônica, tentando dar unidade ao sistema. Se o assunto é tratado por textos de três ou quatro leis e também por costumes locais, é preciso que se atribua um sentido às essas formas de expressão do direito de modo que seja preservada a unidade do sistema.

Método sistemático e controle de constitucionalidade

Sabemos que, no sistema jurídico brasileiro, é necessário que todas as espécies legislativas estejam em harmonia com a Constituição. Isso significa, grosso modo, que qualquer lei ou ato normativo que não esteja de acordo com os preceitos da Constituição devem ser retirados do ordenamento jurídico, não devem produzir efeitos.

A própria constituição prevê alguns mecanismos que possibilitam evitar incompatibilidades no ordenamento jurídico. Estamos falando do controle de constitucionalidade. Esse controle pode e deve ser feito antes da lei ou ato entrar em vigência, ocasião em haverá controle preventivo. Porém, esse controle prévio pode ser falho, ocasião em que determinada lei ou ato normativo terá vigência, ainda que manifestamente inconstitucional. Frise-se, ainda, a hipótese de uma lei ter sido promulgada antes da própria constituição, que é de 1988. Nesse caso, o controle de constitucionalidade só poderá se dar de forma repressiva, ou seja, após a lei ou ato normativo estar produzindo efeitos jurídicos, estar em vigência.

5

O que motiva tal controle é a necessidade de compatibilidade formal e

material das espécies legislativas com a Constituição. Ou seja, se a lei, durante o seu processo de criação, não respeita os trâmites previstos na constituição, tem-se que a mesma é formalmente inconstitucional, devendo sofrer a pena de ser extirpada do ordenamento. Caso a lei contrarie as normas constitucionais, ou seja, o sentido a ser-lhe atribuído contraria a Constituição, ela deve ser, também, retirada do ordenamento jurídico, por ser materialmente inconstitucional.

Como premissa maior do controle de constitucionalidade temos o fato de que a Constituição é o que inicia um novo ordenamento jurídico, sendo sua lei maior.

O que nos interessa nesse plano é que esse controle de constitucionalidade se dá, na maior parte das vezes, mediante aplicação do raciocínio fornecido pelo método sistemático.

O método sistemático exige que o exegeta faça a interpretação jurídica

sempre mediante a Constituição, em face dela, em respeito à ela. Em outras palavras, mediante o método sistemático é que se torna possível analisar os vários textos normativos e confrontá-los com as disposições constitucionais. Essa análise possibilita a concluir se determinada lei é ou não inconstitucional e, consequentemente, deve ou não permanecer no ordenamento jurídico.

no ápice do seu sistema uma

Constituição. Suas disposições devem ser interpretadas primando-se pela conformidade de umas com as outras, de modo que não existam regras isoladas.

O direito

é

um

todo unitário

que tem

EXEMPLO 1:

Código de Processo Penal (Lei nº 5869/73)

TÍTULO IX Da Prisão e da Liberdade Provisória

CAPÍTULO I Disposições Gerais

Art. 283. A prisão poderá ser efetuada em qualquer dia e a qualquer hora, respeitadas as restrições relativas à inviolabilidade do domicílio.

Constituição Federal de 1988

Art. 5º ( ) XI - a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial;

6

Lei nº 4.898/65

Art. 4º Constitui também abuso de autoridade:

a) ordenar ou executar medida privativa de liberdade individual, sem as formalidades legais ou com abuso de poder;

EXEMPLO 2:

Código de Processo Civil (Lei nº5.869/73)

Art. 246 - É nulo o processo, quando o Ministério Público não for intimado a acompanhar o feito em que deva intervir. Parágrafo único. Se o processo tiver corrido, sem conhecimento do Ministério Público, o juiz o anulará a partir do momento em que o órgão devia ter sido intimado.

Código de Processo Civil (Lei nº5.869/73)

Art. 82. Compete ao Ministério Público intervir:

I - nas causas em que há interesses de incapazes;

II - nas causas concernentes ao estado da pessoa, pátrio poder, tutela, curatela, interdição, casamento, declaração de ausência e disposições de última vontade;

III - nas ações que envolvam litígios coletivos pela posse da terra rural e nas demais causas em que há

interesse público evidenciado pela natureza da lide ou qualidade da parte.

EXEMPLO 3:

Código de Processo Civil (Lei nº 5869/73)

LIVRO II Do Processo de Execução Título II Das Diversas Espécies de Execução CAPÍTULO V Da Execução de Prestação Alimentícia

Art. 733 Na execução de sentença ou de decisão, que fixa os alimentos provisionais, o juiz mandará citar o devedor para, em 3 (três) dias, efetuar o pagamento, provar que o fez ou justificar a impossibilidade de efetuá-lo. § 1º Se o devedor não pagar, nem se escusar, o juiz decretar-lhe-á a prisão pelo prazo de 1 (um) a 3 (três) meses.

Súmula STJ nº 309 - O débito alimentar que autoriza a prisão civil do alimentante é o que compreende as três prestações anteriores ao ajuizamento da ação e as que vencerem no curso do processo.

EXEMPLO 4:

7

EMENTA DE ACÓRDÃO DO STF:

"Pena Regime de cumprimento Progressão Razão de ser. A progressão no regime de cumprimento da pena, nas espécies fechado, semi-aberto e aberto, tem como razão maior a ressocialização do preso que, mais dia ou menos dia, voltará ao convívio social. Pena Crimes hediondos Regime de cumprimento Progressão Óbice Artigo 2º, § 1º, da Lei n. 8.072/90 inconstitucionalidade Evolução jurisprudencial. Conflita com a garantia da individualização da pena artigo 5º, inciso XLVI, da Constituição Federal a imposição, mediante norma, do cumprimento da pena em regime integralmente fechado. Nova inteligência do princípio da individualização da pena, em evolução jurisprudencial, assentada a inconstitucionalidade do artigo 2º, § 1º, da Lei n. 8.072/90." (HC 82.959, Rel. Min. Marco Aurélio, DJ 01/09/06).

Questão: podemos dizer que a decisão acima revela a jurisprudência do STF? Resposta. Sim, afinal, não se trata de uma decisão isolada. No mesmo sentido: HC 86.953-MC, DJ 28/10/05; HC 86.986, DJ 28/10/05; HC 84.122-QO, DJ 27/08/04.

Textos de lei interpretados para se chegar à conclusão transposta na ementa acima:

Lei nº 8.072/90 - Lei de crimes hediondos

Art. 2º. Os crimes hediondos, a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins e o terrorismo são insuscetíveis de:

I - anistia, graça e indulto;

II - fiança e liberdade provisória.

§ 1º. A pena por crime previsto neste artigo será cumprida integralmente em regime fechado.

CONSTITUIÇÃO FEDERAL Art. 5º XLVI - a lei regulará a individualização da pena e adotará, entre outras, as seguintes: