Sie sind auf Seite 1von 18

PARTE 01

O som do chiado que o tênis surrado fazia em contato com o chão lustrado a cada

passo não podia ser ouvido por ninguém, ainda eram seis horas da manhã e ninguém havia chegado à universidade ainda, com exceção do professor Nereu e do exótico visitante que caminhava passando pela frente de sala a sala.

Após alguns minutos o visitante encontra justamente a porta da sala do professor Nereu, no setor de física teórica. Nereu Barros é professor titular da universidade desde antes de concluir seu doutorado na área de modelagem de sistemas complexos, e é de praxe chegar muito mais cedo à universidade para revisar seus estudos e preparar sua aula do dia.

O som de três batidas em sua porta o retiram de seus devaneios, quando abre a

porta se surpreende, supôs que fosse um zelador ou outro professor que eventualmente também poderia chegar mais cedo, mas não lembrava de ter visto o indivíduo do outro lado da

porta antes.

- Bom dia professor, embora eu saiba da resposta, gosto sempre de começar com

um “como está o senhor?” – enquanto falava isso foi adentrando à sala do professor mesmo

antes de ser convidado, apresentando uma intimidade que obviamente não tinha.

- Desculpe, comentou o professor perplexo nós nos conhecemos?

- Claro, quer dizer, isso depende! Eu sempre penso em uma resposta para isso, sabe, uma resposta que seja curta e objetiva, mas nunca encontrei.

O professor fitou atentamente a inesperada visita, realmente não se lembrava de

ter visto aquela pessoa antes, e isso era estranho pois era um bom fisionomista. Além do mais,

ele não fazia bem o perfil de alguém que frequentasse o ambiente de universidade particular, seus trajes, embora inteiras, eram visivelmente mais simples.

espere! disse alterado

quando viu o rapaz apagando as anotações que tinha feito em sua lousa Você não pode

mexer aí!

- Desculpe, é sério, eu não lembro mesmo de vo

,

- Relaxa professor, temos problemas maiores para trabalhar hoje. Aliás, quase

esqueci, desmarque todas as aulas que o senhor tem hoje. Logo o senhor vai se interessar, vai

por mim, me de uns 10 minutos, por ae

O rapaz começou a esboçar algumas fórmulas, desenhos e esquemas na lousa,

que agora não apresentava mais nenhum resquício do que tinha antes. Aos poucos o professor

foi deixando a preocupação e tensão para passar a sentir uma curiosidade cada vez mais aguda, conforme o rapaz escrevia suas anotações.

Depois de observar atentamente

tudo

que

estava escrito

em

sua

lousa, o

professore Nereu retornou a tentativa de dialogo com o rapaz.

- Como você conseguiu chegar a isso? É impressionante! Quem é você afinal de

contas?

- Então, essa parte é sempre a minha preferida, sabe, o brilho no seu olhar.

- O que você quer dizer, eu não estou entendendo nada, dá para você falar sério

comigo?!

- Eu estou falando sério com o senhor, para começar, isso tudo é obra do senhor, foi tudo desenvolvido pelo senhor.

- Como é? Você está alterado meu amigo?

- Ok, vamos lá, nós estamos trabalhando nisso já tem o que, uns três a quatro

anos, mas o senhor nunca vai se lembrar, então nem tente. Inclusive, o último dia que

conversamos foi ontem, e foi quando o senhor acrescentou essas anotações aqui.

- Eu não sei se eu peço para você sair daqui ou se as minha opções.

na verdade eu nem sei quais

- Olha só, pense comigo professor, se eu estiver falando a verdade, o senhor não

teria interesse em continuar o seu trabalho? Pense, o próprio senhor disse que é impressionante. A outra opção é que tudo isso seja uma viagem psicodélica minha, e o senhor

pode continuar com isso e sei lá, ganhar um Nobel?

- Olhe

- Vamos lá, não temos muito tempo a perder, - o visitante confere seu relógio já perdemos quase meia hora nessa brincadeira.

O professor pega o telefone e deixa um recado para a coordenação de física dizendo para cancelar todas as aulas do dia e decidiu dar o braço a torcer e trabalhar com o visitante.

- Você ao menos tem um nome?

- Pode me chamar de Breno.

****************************

Ambos, professor Nereu e Breno estavam visivelmente esgotados, era próximo de completar meio dia, a equação na lousa não tinha avançado em nada, mas as conversas a respeito eram proveitosas para Breno, serviriam de estímulos para estudos futuros.

- Acho que temos que dar uma pausa, quer almoçar?

- Claro, o senhor vai querer a salada de sempre, hoje eu acho que vou pegar um

bife.

- Como você sabe

alias, agora no almoço nós teremos um tempo interessante

para você me explicar que loucura é essa que está acontecendo.

- Ok, nós sempre fazemos isso no almoço. Quase sempre, uma vez você me enganou e chamou a polícia, foi engraçado.

Já devidamente acomodados com seus respectivos almoços na mesa.

- Bom, Breno, vamos lá, pode começar!

- É bom o senhor se preparar, nesse momento o senhor costuma ficar bastante

perturbado. Eu não sei bem dos detalhes, mas com base no que nós conversamos nesses anos todos, nós criamos uma teoria. No começo eu pensei que estava preso, sei lá, em um looping no tempo, mas pelo que a gente conversou pode ser que não seja muito bem isso. Todos os dias, exatamente as 05:24h da manhã, esse mesmo dia começa, e termina exatamente as 10:24h do dia seguinte. É como se as últimas 29 horas do mundo fossem repetidas toda vez que o relógio marca 10:24h. Curiosamente, eu sou o único que mantém as lembranças de todos esses dias. Enquanto todo mundo volta para o momento de início exatamente com as mesmas memórias que tinha no dia original, eu continuo vivendo. Quando me dei conta disso eu pensei ter que tinha ficado louco, então depois de mais algum tempo eu cheguei a conclusão que não estava louco, e decidi aproveitar. Eu podia fazer tudo que eu quisesse, que 29 horas depois tudo seria reiniciado e não haveria nenhum registro do que eu tinha feito. Quase um ano se passou, e eu já estava enjoado de fazer qualquer coisa e viver sempre o mesmo dia, mesmo que eu tomasse atitudes diferentes, algumas coisas ficavam, como as notícias, os programas de TV. E eu também acabei ficando preso nesta cidade, se eu sair de carro, depois de 29 horas ele volta ao local original, e consecutivamente eu também. Pensei em ir andando, mas eu acabo voltando também sempre para a minha cama. Foi quando decidi

buscar alguma ajuda, e encontrei o seu nome.

- Nossa, eu não tenho palavras

- Pois é, imagine o que eu passei contando isso para o senhor pela primeira vez,

levei mais de uma semana para descobrir uma maneira de chegar no senhor sem que eu tivesse problemas. A partir de então eu sempre transcrevo todas as conclusões do senhor na lousa, e o senhor sempre fica interessado. Geralmente. E aos poucos o senhor vai desenvolvendo uma maneira de verificar o que está acontecendo e como isso pode parar.

- Então é como se a cada dia eu pegasse um trabalho começado por alguém e o continuasse, mas o trabalho é meu desde o início?

- Isso mesmo. Para falar a verdade, eu não sou cientista, nem sou formado para

falar a verdade. Alguns professores até me diziam que eu era meio atrasado. Nesses anos que passei no mesmo dia pratiquei memoria fotográfica, para memorizar tudo o que o senhor faz,

já que anotações, fotos, e qualquer outro tipo de registro desaparecem no final do ciclo.

- Então, pelo que você me falou, até onde nós sabemos, você é a única forma de preservar informações nesse, não sei nem como dizer

- Eu continuo chamando de looping, mesmo que possa não ser.

- Ok, então nesse looping de 29 horas, você é o único que consegue seguir em

frente.

- Não sabemos, nunca encontrei mais ninguém que também estivesse passando

por isso. Até fiz um blog por um tempo, sabe, vai que alguém numa situação semelhante procurasse por alguém. Mas sem resultados. Por enquanto, o senhor tem sido a minha melhor

ideia.

- Mas as equações, as que fazemos lá dentro, não têm nada a ver com isso. Como podemos estar progredindo?

- Várias vezes o senhor entendeu a relação daquilo na lousa com o que eu estou

contando. Outras vezes o senhor não consegue fazer a ligação. Isso varia muito. Hoje

obviamente é um dos dias que o senhor não entende.

- Mas eu nunca falei nada sobre isso, quer dizer, supondo que isso tudo seja

verdade?

- A, comentou que poderia ser uma simulação, sei lá. Ontem o senhor disse que estava perto de chegar a um resultado que poderia fechar a equação.

- Eu não sei, ficamos a manhã toda lá e eu não percebi nada disso.

- Não tem problema, às vezes levamos meses até o senhor pensar em alguma

coisa. O chato mesmo é ter que contar isso todo dia. Mas professor, devo dizer que já estamos

gastando muito tempo nesse recreio, devemos voltar aos afazeres.

- Espere. Se o que você está falando é verdade mesmo, por que eu faria alguma coisa, para mim a realidade vai ser sempre normal. Não faria diferença.

- Eu posso dar vários motivos para o senhor. Curiosidade científica, sede de

conhecimento, o senhor sabe, no fundo o senhor quer chegar ao fundo de tudo que está escrito lá, é natural, veio do senhor. Em último caso, eu posso sei lá, matar a sua família por

alguns dias, e o senhor terá vários dias de sofrimento. É melhor colaborar.

Uma pontada de medo e tensão voltaram ao coração de Nereu, embora sentisse no seu interior que aquela matemática era muito parecida com sua linha de pensamento, o fato de alguém ameaçar sua família o deixou muito desconfortável. Se não pela ciência, era melhor fazer aquilo para não contrariar um possível maluco.

Enquanto voltavam para a sala Breno lembrou de algo que foi dito no dia anterior pelo professor, naquele mesmo percurso.

- Professor, ontem o senhor me falou algo, lembrei agora. Pode ser que ajude. O

senhor comentou que pela simulação que está fazendo através da equação, tudo indica que o

que está acontecendo é antinatural, não um fenômeno natural. Como se o caminho natural tendesse para um percurso, mas algo está impedindo esse percurso, e por isso o tempo fica repetindo.

Olhe, eu acho que você não precisa ficar aqui. Eu não sei se

eu já contei em outros dias como esse, mas eu gosto de trabalhar sozinho. Por que você não sai, vai fazer alguma coisa, sei lá, um cinema, e volta amanhã antes das 10:24 para eu te passar as novas descobertas?

- Isso é interessante

- Tudo bem, embora eu já tenha assistido várias vezes todos os filmes que estão

passando, vou dar uma volta. Professor, não tenha medo, não vou fazer nada com a sua família, só falei aquilo para te dar um estímulo, mesmo que tenha sido na base do medo. Amanhã pela manha eu volto, e por favor, não fuja. O senhor já fez isso umas 35 vezes, e é sempre desagradável.

Dito isso, Breno não esperou por uma resposta do professor, apenas virou para o outro lado do corredor, e saiu andando calmamente. O professor decidiu dar uma chance ao rapaz, ele era muito convincente. Caso tudo fosse verdade, esse seria um dos dias que ele usaria toda sua capacidade cognitiva para progredir nos estudos do estranho fenômeno.

****************************

Oito horas do dia seguinte, e novamente o ranger do tênis de Breno pelo piso do corredor que leva à sala de Nereu podia ser ouvido. Breno esperava, como todos os dias nos últimos quase quatro anos de sua vida, que dessa vez fosse o dia em que ele obteria uma resposta sobre como mudar toda aquela loucura que se instaurou sobre sua vida de uma hora para outra.

O professor abriu a porta antes mesmo que Breno conseguisse bater. Estava com um semblante carregado, talvez fosse cansaço, em outras ocasiões ele já tinha passado a madrugada toda envolvido no processo, talvez fosse agonia de saber, mesmo que momentaneamente, que viveria, sem perceber, aquele mesmo dia para sempre. Ou talvez ele realmente tivesse conseguido achar uma resposta para a equação que tinha construído.

- Olá Breno, pode entrar! Tem café na garrafa ali, se quiser um pouco

- Está tudo bem professor?

- Sabe, mesmo até o momento que almoçamos ontem eu achava que tudo que

você tinha falado era fruto de uma mente perturbada, perturbada e genial, claro, para propor tudo isso aqui, e apontou para a lousa mas então eu percebi nesses pequenos símbolos

aqui no cantinho.

- O que tem eles? No dia que o senhor fez me disse que eles eram importantes para o futuro da pesquisa, caso tudo o que eu falasse fosse verdade.

- Pois é, e é, porque esses símbolos são uma brincadeira que eu fiz com a minha

filha. É uma linguagem de códigos simples, que só nós dois conhecemos. Eu não tina reparado

até então porque a sua presença estava me deixando tenso, mas depois que você saiu eu pude trabalhar mais calmamente.

- Mas o que isso quer dizer, o senhor descobriu alguma coisa?

- Eu não sei, talvez eu já tenha falado isso para você antes e não me lembre, mas o

que fizemos aqui foi identificar uma forma de alterar o caminho de um sistema caótico. O que em teoria não deveria ser possível.

- O senhor nunca falou nada sobre isso para mim antes.

- Bom, vou tentar explicar de uma maneira não tão complicada. Um sistema é

formado por elementos, ok? Quanto mais elementos, mais complexo é o sistema, e conforme vai aumentando o número de elementos, mais caótico o sistema fica. Isso vai até um momento no qual um evento acontece. Neste momento duas coisas podem acontecer, uma é que o resultado deste evento destrua todo o sistema e a outra é que este evento reorganize o sistema, que continuará existindo, mas de uma maneira organizada, voltando aos poucos para

o caminho do caos.

- Ta, não sei se entendi muito bem, mas o que isso tem a ver com tudo isso.

- Nessas equações nós conseguimos identificar uma variável que era desconhecida até então, uma pequena variável que pode influenciar de alguma maneira este evento que eu falei para você. Agora, como ela vai interferir nisso também não tem como saber.

- Eu continuo sem entender, professor.

- Vou fazer uma analogia. Digamos que eu e você estejamos morando na mesma

casa. Nós não temos celulares, computadores e nenhuma outra forma de se comunicar com outras pessoas, a não ser um telefone fixo dentro dessa casa. A nossa regra é simples, a casa

nunca pode ficar vazia. Quando você sai, eu fico para pegar os recados, e quando eu saio você faz a mesma coisa. Agora digamos que mais 10 pessoas venham morar nessa casa também, todas sem celulares e afins, como no nosso caso. A regra é a mesma, a casa nunca pode ficar sozinha, então pelo menos uma pessoa deve estar em casa quando os outros estiverem fora. O número de elementos (pessoas) desse sistema (casa) aumentou. A complexidade aumentou. Agora ninguém nunca sabe quem pegou os recados ou quem ficou na casa. Ou quando uma pessoa pega um recado, sai antes da pessoa para qual o recado era destinado chegar. Tudo vira uma bagunça. Agora vamos supor que por esse motivo você perder uma ótima oportunidade de emprego. Esse seria o evento. Devido a evento duas coisas poderiam acontecer, uma é você expulsar todo mundo da casa e retornaríamos para a situação de equilíbrio, quando éramos apenas dois, ou, mesmo muito irritado, você decidir, por exemplo, comprar um mural, colocar o nome de todo mundo nele, com um bloquinho de papel do lado do telefone, assim, não importa quem recebesse o recado, anotaria e colocaria no mural. O sistema estaria organizado novamente e continuaria existindo.

- Entendi

- Esse é o normal, agora, o que a gente concluiu com essa equação aqui, foi que

existe uma possibilidade de, durante o evento, um fator desconhecido atuar. Seria algo como

o telefone quebrar, sei lá, logo depois que você comprou o mural. Então até você mandar

arrumar o telefone, o sistema funcionaria de uma maneira diferente, pois todo mundo poderia sair de casa, talvez alguns comprariam um celular, sei lá, e depois quando o evento voltasse ao

caminho convencional, as coisas seriam diferentes. Claro, são especulações que nós podemos fazer a partir dessa equação aqui, mas o certo seria trabalhar nela do começo ao fim, e não em partes, desse jeito.

- Pois é professor, mas não é possível trabalhar nela do começo ao afim, - olha

para o relógio em menos de uma e meia o senhor nem vai lembrar que eu existo.

- Então, por isso acho melhor falar isso agora. Eu andei pensando. Eu não entendo

o motivo disso tudo estar acontecendo, esse looping como você chama. Mas vamos pensar. E

se isso tudo for um evento normal, ninguém mais no mundo percebe, e para todos a vida seguiria normalmente. Você é a única pessoa que não está seguindo esse esquema natural,

então, eu acredito que eu fiz todas essas deduções com base numa teoria.

- Que teoria?

- De que você é o fator desconhecido que esta interferindo sobre um evento.

- E o que isso quer dizer? Que tudo isso é culpa minha?

- Eu não sei, não saberia dizer, mas eu creio que o máximo que posso fazer por

você é isso.

- Eu não acredito nisso, desabafou desolado o senhor era a minha melhor esperança, não sei o que fazer agora.

- Posso fazer uma pergunta?

- Claro

- Nesse tempo todo, durante esses anos, você nunca pensou em, você sabe e fez um gesto passando o polegar pelo pescoço.

- Me matar? Claro que sim, quase todos os dias. Mas nunca tive coragem. No

fundo eu sempre tive a esperança de que isso fosse passar e eu poderia voltar a ter a minha vida normal.

- Eu entendo. Bom, temos quase uma hora até tudo voltar ao início. Quer

conversar?

- O senhor perguntou sobre eu querer me matar. O senhor acha que se eu morrer as coisas podem voltar a ser como eram antes?

- Sinceramente, isso me passou pela cabeça, como no caso do telefone, no

momento que ele foi reparado, o sistema pode voltar a fluir, mesmo que com alterações. Eu

não sei Breno, talvez sim, talvez não.

- O que o senhor faria no meu lugar?

- Eu acho que escolheria um desses dias aleatórios, faltaria ao trabalho, não levaria minha filha para a escola, e também convenceria minha mulher a faltar no trabalho dela. Nós três sairíamos, sei lá, fazer um programa, só nós três. Seria um dia muito bom, e quando se aproximasse o final, eu escreveria uma carta explicando tudo, dizendo para as duas que eu as amo muito, mas que precisaria ser feito. E daria cabo, sabe, da minha existência. Se funcionasse elas teriam alguma coisa para se apegar, embora eu ache que não seria suficiente. Se não funcionasse, eu teria que refazer o plano, mas sempre ficaria com elas. Você tem mulher, filhos, família?

- Minha família são meus pais, mas eles moram a mais de 29 horas daqui, nunca

poderei vê-los novamente. Não tenho mulher nem filhos. Nem namorada. Fica por alguns instantes pensativo, com o olhar distante Nesse tempo todo, eu percebi uma garota, não sei, talvez fosse o dia dela levar o cachorro para passear no parque. Às vezes eu sentava na grama

e ficava só observando, o cachorro correndo atrás da bolinha e pulando de volta nela, e os dois se divertindo. E ela é linda, como é linda. E eu penso numa vida toda que não teremos nunca juntos, nem com ela, nem com nenhuma outra. Olha professor, eu agradeço por tudo o que o senhor fez por mim.

- Onde você vai?

- Não importa não é mesmo, afinal, daqui a alguns minutos estarei na minha cama de novo. Adeus meu amigo!

****************************

05:24h da manhã, Breno esta deitado em sua cama, com seu pijama de foguetes. Mesmo com seus 20 e poucos anos, gostava de pijamas, e gostava de foguetes. Este dia, embora fosse igual a todos os outros, parecia mais melancólico e obscuro. Provavelmente era uma projeção de seu estado de espírito.

Foi até a cozinha, com passos lentos e arrastados, o desanimo tomava conta de todo seu ser. Abriu a geladeira, e ficou lá, olhando para tudo eu estava la dentro. Não que já não soubesse, afinal, eram sempre as mesmas comidas, o mesmo pedaço de pizza congelado,

o

mesmo final de uma garrafa de dois litros de coca cola, os mesmos 5 ovos, a panela de arroz,

o

feijão no pote de sorvete

Pegou um pacote de leite, o chocolate em pó, o liquidificador e umas pedrinhas de gelo. Preparou um copo de 500 ml de milk-shake caseiro, sem sorvete, como se arrependia de não ter comprado sorvete naquele dia, poderia ter sorvete para sempre. Acomodou-se na poltrona, no meio da sala, sem nem ao menos acender a luz. O Sol ainda iria demorar um pouco para aparecer, mas ele ficou ali, bebendo seu milk-shake e pensando em sua vida.

Quando o relógio acusou 7 horas da manhã, já em seu quinto copo de chocolate com leite, pegou o telefone, não menos melancólico de deprimido do que quando levantou, e discou os dígitos, lentamente, bem lentamente.

- Alo?

- Alo, oi mãe, tudo bem?

- Breno? Tudo bem? Aconteceu alguma coisa meu filho?

- Tudo. Não aconteceu nada, por que alguma coisa teria acontecido?

- Nunca vi você levantar cedo!

- Pois é né, é que eu queria pegar o pai antes dele sair de casa.

- A, ta bom, ele está no banho, quando sair eu chamo ele

- Não, espera mãe!

- Você tem certeza que está tudo bem?

- Sabe, eu só queria dizer que eu amo a senhora, obrigado por ter cuidado de mim, a senhora e o pai me deram uma vida muito feliz.

- Breno, o que está acontecendo? Você está me deixando aflita!

- Não precisa se preocupar mãe, só acordei hoje com vontade de dizer como

vocês dois são especiais para mim. Sabe, eu não falo muito isso, mas eu sempre senti! Bom, eu

preciso ir agora, a senhora pode dizer isso para o pai também? Eu preciso desligar agora, tenho um compromisso.

- Filho, está tudo bem mesmo, estou vendo na sua voz que tem alguma coisa

estranha acontecendo! Não preocupa a mãe assim, você sabe que a gente te ama demais!

- Esta tudo bem mesmo mãe, eu preciso mesmo ir agora, amanha eu ligo para a senhora de novo e a gente conversa melhor, esta bem?

- Tudo bem então, eu vou esperar, vê se não vai aprontar nada heim!

- Pode deixar, manda um abraço para o pai. Um beijo para a senhora, até amanhã.

Quando colocou o telefone no gancho o choro explodiu. Ele tinha tomado sua decisão, sabia que para ele é muito provável que não houvesse um amanhã. Ficou mais algumas horas em sua poltrona, aliando a tristeza de uma morte certa.

Perto do meio dia se arrumou, colocou uma roupa boa, pegou algum dinheiro e saiu. Foi até o parque, sentou onde costumava ficar e esperou. Ela levaria uma meia hora para chegar ainda. Pode reparar no lago, nas aves que estavam por ali, na mata que cobria todo o cenário ao fundo. Pessoas andando de bicicleta, outras correndo, outras ainda andando de patins, passeando com seus cachorros. O sol estava forte, era um dia interessante para um

passeio, mesmo que estivesse no meio da semana, quem não tinha um trabalho, ou tivesse um tempo livre poderia aproveitar muito bem o seu dia ali. Alias, que felicidade para quem estava fazendo isso, por tantos anos puderam aproveitar esse parque como seus inúmeros últimos dias.

Olha lá, o Golden Retriever de quem estava esperando. Ele veio correndo na frente, como acontecia todos os dias. Logo atrás veio sua dona, com a coleira na mão, correndo atrás dele, não com preocupação, mas com felicidade. Era evidente que estava se divertindo. Por tanto tempo Breno ficou sentado só observando a garota dos seus sonhos, nunca teve a coragem, ou melhor, nesse caso, nunca teve a esperança de falar com ela. Era uma causa perdida, mesmo que ela gostasse dele, com algumas horas depois ela nem lembraria que ele existe.

De qualquer maneira, esse era um dia diferente, afinal, logo ele também não se lembraria dela, aliás, logo ele não teria mais lembrança de nada, estaria morto. Levantou, limpou a calça das folhas secas que estavam grudadas, e foi em direção a bela jovem do Golden Retriever. Meio sem jeito puxou assunto, e para sua surpresa, e também para sua tristeza, ela foi muito receptiva.

Decidiu deixar a angustia pelos fatos futuros de lado e aproveitar aquele

momento como se fosse um dia normal. Conversaram bastante, ele brincou com o cachorro também, descobriu porque ela parecia sempre feliz, o cachorro era mesmo muito divertido. A convidou para um café, numa lanchonete ali do parque mesmo, e ela aceitou. Conversaram mais, perceberam que não tinham muito em comum, mas a companhia dela o agradava muito,

e pelo que parecia, a companhia dele também parecia ser agradável para ela. Deram algumas

risadas. Nesse pequeno intervalo de tempo ele esqueceu de todos os anos que viveu no mesmo dia, foi como se tudo estivesse certo e normal, como se cada coisa estivesse exatamente onde deveria estar e tudo era perfeito. Ao final ela passou o seu número de telefone para ele. Se existisse um amanhã para ele, com certeza ligaria. Ele aceitou com uma

felicidade utópica.

Quando se despediram, ele deu um abraço nela, ela não era do tipo de menina que beijaria um estranho no primeiro dia, por mais agradável que o estranho pudesse parecer. Mas ela reparou no abraço que recebeu que esse estranho realmente sentia algo especial por ela, talvez fosse um abraço de “quero mais”. Para ele, foi um abraço de “adeus”.

A noite foi até a universidade que consumiu boa parte dos seus dias iguais. O

professor Nereu não estava em sua sala, mas Breno sabia disso. Ele estava dando sua aula para

a turma de física do 6º ano. A porta estava aberta. Breno ficou ali do lado de fora, só observando.

- Desculpe, poço te ajudar? Perguntou o professor quando percebeu a presença de Breno na porta.

- Não, não, desculpe, só estou procurando o banheiro, pode continuar, não queria atrapalhar. Respondeu com tom de pesar e saiu fazendo barulho com seu tênis.

Por mais que o professor Nereu não se lembrasse de sua existência, nesses anos todos que passaram juntos ele se tornou um bom amigo. Muitas de suas conversas mais profundas foram com ele. Havia dias que eles nem trabalhavam tanto, só conversavam. É claro que isso só significava alguma coisa para ele mesmo, mas mesmo assim era importante.

De volta em casa, Breno tomava coragem para fazer o que deveria fazer, o que por muito tempo não tinha tido coragem. Para falar a verdade mesmo neste momento ainda não estava preparado, se é que alguém pode estar preparado para isso. Ele não sabia muito bem como fazer, nos filmes as pessoas se jogam de um prédio ou dão um tiro na cabeça. Ele não tinha tempo para comprar uma arma, alias, nem sabia como comprar uma, e não ia se jogar de um prédio e correr o risco de se machucar todo e não morrer. Por isso foi até a farmácia, roubou alguns medicamentos controlados, e era para eles que estava olhando neste momento.

Já tinha destacado todos os comprimidos das cartelinhas, e uma caneca de café repousava ao lado só esperando para servir como caminho dos fármacos da boca para o estômago. Já passava da meia noite, menos de dez horas para o dia voltar ao começo, e Breno já tinha se decidido. Pegou de três em três todos os comprimidos da mesa, e com o café foi tomando, até acabarem. O mal estar veio antes de terminar, ele se arrastou para sua cama, e esperou pela morte deitado. Aos poucos sentia a vida se esvaindo de seu corpo, até o momento que só restou a escuridão, e em seguida, não existia mais nada.

PARTE 02

Um clarão muito forte ofuscava os olhos de Breno. Aos poucos, enquanto recuperava a visão, pôde perceber onde estava. Era um café, alias, sempre passava por ali quando ia trabalhar, tinha vontade de tomar um refrigerante e comer uma coxinha com catupiry, mas nunca teve tempo, e, durante os anos que passou revivendo os mesmos dias, nunca tinha lembrado em passar por ali.

Quando recobrou completamente a visão, percebeu que havia uma latinha de coca com um copo de vidro com duas pedrinhas de gelo, e uma coxinha num pratinho com um guardanapo por baixo. Acompanhavam duas bisnagas, um de ketchup e outro de mostarda. Agora, ficou surpreso mesmo quando, do outro lado da mesa, sentada com um sorriso tranquilo, estava ela, a menina do parque, que brincava com o cachorro.

- Laila? O que você está fazendo aqui? Alias, onde é aqui? Perguntou enquanto

observava atentamente todo o lugar. Parecia exatamente com o lugar que se lembrava, a rua, o semáforo na esquina, os carros estacionados, as lojinhas do outro lado da rua. A única coisa

que o incomodava era que só estavam os dois, e aquela rua era relativamente movimentada.

Ainda sorrindo tranquilamente a moça falou:

- Eu não sou Laila!

Quando ouviu a voz que saiu da boca um frio subiu por sua espinha, era evidente que aquela moça na sua frente nem humana era.

- Desculpe-me, erro de configuração, - depois de alguns instantes e agora, está

melhor?

Quando fez a pergunta já era novamente a voz que Breno lembrava ser a de Laila.

- Quem exatamente é você e o que você quer comigo?

- Nós somos uma equipe, a imagem que você está vendo foi uma forma de

aparecermos para você de uma maneira que seu cérebro fosse capaz de interpretar. Quanto à

segunda pergunta, nós temos muito interesse por você.

- Quem são vocês, que equipe de que? Cobriu o rosto com as duas mãos, como

numa expressão de revolta. - Quando eu penso que minha vida vai voltar ao normal, fica ainda

mais estranha.

- Do que você consegue se lembrar?

passou um

tempo refletindo olhando para o nada ligar para meus pais, falar com a minha mãe. Eu lembro também de ter falado com você, quer dizer, com a verdadeira Laila, foi uma tarde

ótima. O que mais, eu fui ver o professor Nereu, ele não se lembrou de mim. Eu acho que assaltei uma farmácia, é, é isso, - para por mais um momento e se espanta com o que lhe passa pela cabeça e eu me matei! Conclui pronunciando sílaba por sílaba.

- Dos anos que passei vivendo o mesmo maldito dia. Lembro de

- Isso mesmo! Respondeu com a mesma calma do início. Na verdade aquela

calma estava mais parecendo uma apatia do que de fato uma tranquilidade, e isso o estava

começando a deixar incomodado.

-Isso é o inferno?

- Inferno não existe.

- Isso é algo como, sei lá, um pós-morte?

- Nós não entendemos direito a natureza da sua pergunta, mas acreditamos que

dizer que quando vocês, humanos, morrem, apenas desaparecem. Não existe nada para vocês

depois da morte.

- Isso não pode ser verdade. Afinal, quem é você, alias, vocês? Ou o que são

vocês?

- Nós somos também uma civilização, muito antiga, na verdade, somos a civilização original. Nós somos a primeira forma de que surgiu e adquiriu consciência na Eternidade. Você, e todas as outras formas de vida que você conhece, são uma criação nossa. Até algumas que você não conhece também.

- Como é?

- Para você entender tudo, nós devemos explicar tudo do começo para você. Para

começar, isto aqui não é a sua Terra original, é uma reprodução. Você é um ser inferior e não teria capacidade de se comunicar diretamente conosco. Sendo assim recriamos uma simulação que nos possibilita fazer você entender o que queremos dizer, e também entender o que você

quer falar.

- Então isso tudo aqui não é real?

- Claro que é, só não é seu planeta original, é uma recriação de uma região que

nós identificamos que tinha algum valor para você, e foi assim que escolhemos esse corpo

para conversar com você.

- Laila. Sussurrou.

- Mas continuando. Nós estamos passando por um problema muito crítico, o mundo está prestes a acabar.

- O meu mundo acabou há muito tempo.

- Essa resposta foi inesperada. Bom, na verdade o seu mundo ainda não acabou, e

é por sua causa, por isso você nos despertou tanto interesse.

- Vish, la vamos nós de novo. Falou levando o olhar para o alto.

- As conclusões que você e o outro humano chegaram são bem parecidas com as

que nós temos, claro que a ciência da Terra é bem primitiva, mas serve para ilustrar. Você sabe

o que é um bit?

- Não.

- Um bit é a menor unidade de informação. Até algum tempo nós pensávamos

que a informação era ilimitada, que sempre poderíamos criar e aprender, fazer coisas novas.

Foi então que um dos nossos cientistas descobriu que existia uma dimensão onde toda a informação criada na Enternidade era contida. Ele buscou isso por ambição, afinal, quem tivesse acesso a esta dimensão seria detentor de todo o conhecimento produzido na história

da Eternidade. Uma quantidade quase infinita de bytes disponível para acesso. O cientista em

si acabou sendo recolhido antes de concluir seu plano, mas uma equipe continuou trabalhando nisso.

- Nisso o que?

- Uma forma de acessar esta dimensão que guarda toda informação produzida.

Sabe, tudo está nessa dimensão, desde as teorias dos maiores gênios até o número de árvores que caíram em um dia de chuva forte em alguma cidadezinha minúscula do seu planeta. Tudo que acontece gera uma carga de informação que é mandada para lá. Ou seja, informação é produzida a cada momento. Existem maneiras de se registrar, transferir, trabalhar as informações. Na Terra vocês usam tecnologia eletrônica que é capaz de fazer isso, mas um simples pedaço de papel já é suficiente para armazenar uma quantidade limitada de

informação.

- Olha, eu estou acompanhando, mas não estou entendendo muito bem o que eu tenho a ver com tudo isso. Eu não tenho nem o ensino médio completo!

- Educação formal é um conceito criado pelos humanos, isso não significa nada.

Pois bem, a equipe que ficou responsável por conseguir acessar esta dimensão falhou em todas as suas tentativas. Nunca encontraram um modo de fazer com que funcionasse. Por

outro lado, descobriram um dado alarmante, de uma importância maior do que teria se tivessem êxito em sua tarefa.

- E que descoberta foi essa?

- A dimensão que recebe todas as informações geradas não é ilimitada!

- O que isso quer dizer?

- Que em um dado momento nenhuma informação poderá ser produzida. Nunca

mais.

- Tá, esse alvoroço então é porque vocês não vão mais poder aprender nada?

- Não, como eu disse, até mesmo o acontecimento mais irrelevante gera uma

quantidade de informação. Existem algumas teorias sobre o que pode acontecer quando a dimensão não tiver mais espaço para armazenar mais informações. Uma delas prega que a partir do ponto de saturação máxima de informação, a existência em toda eternidade irá congelar, e assim continuará congelada, parada num instante anterior à saturação. Outra teoria postula que toda a eternidade desaparecerá, e que toda a informação desaparecerá junto, e todo o processo de criação começará do zero. A terceira teoria acredita que quando a dimensão da informação estiver cheia, todas as novas informações continuarão a ser criadas,

mas que as antigas serão destruídas. O problema disso é que as informações a serem deletadas seriam randômicas, aleatórias, ou seja, usando um problema terrestre como exemplo, pode ser que a ação de amarrar um tênis seja suficiente para deletar o conhecimento sobre a cura da malária. Existem outras teorias menos importantes.

- Qualquer uma das três parece terrível, mas você, vocês, ainda não me disseram o que isso tudo tem a ver comigo e com os últimos anos terríveis que passei!

- Certo. Tendo esta preocupação era óbvio que deveríamos direcionar nossos

esforços para tentar encontrar uma maneira de reverter essa situação. Nós tentamos de todas as maneiras encontrar um caminho alternativo que nos fornecesse alguma segurança, ou

mesmo uma esperança, mas nada deu certo. Ainda estamos tentando, temos cientistas trabalhando nisso de todas as formas possíveis e imagináveis. E é ai que você entra.

- É aqui que eu entro? Do que você, vocês, estão falando?

- Nós somos uma equipe que procurou criar simulações nas quais as condições fossem semelhantes as que estamos passando.

Neste momento Breno estava prestes a desistir de tentar entender. Pegou sua coxinha, colocou um pouco de ketchup e deu uma mordida.

- Você é uma dessas simulações. Foi o tempo para engasgar com a coxinha que estava comendo.

- O que? Perguntou com a boca ainda cheia.

- Nós criamos um mundo nas mesmas condições, embora fosse um mundo diferente, para ver o que aconteceria.

- Você está me dizendo que vocês criaram o planeta Terra, e que os humanos eram apenas um experimento? Ainda exaltado.

- Não, nós criamos todo o seu universo no nosso laboratório, e não só os

humanos, mas todos os seres vivos existentes nele faziam parte do experimento.

 

-

Eu não posso acreditar nisso!

-

Vocês na Terra também faziam algo semelhante. Criavam ambientes virtuais.

-

Mas não com seres vivos! Gritou.

-

Como pode dizer isso, vocês nunca nem chegaram perto de definir corretamente

o

que é vida.

Breno ficou sem palavras, não soube o que responder, a partir de então decidiu só aceitar o que a imagem de Laila lhe falaria.

- Como o seu, criamos inúmeros universos, com tempos de vida tão curtos quanto

o seu, nós limitamos a quantidade de informação que poderia ser criada em cada um.

- Meu universo tinha mais de 13 bilhões de anos, eu me lembro de ter lido isso na sala do professor Nereu

- 13 bilhões de anos terrestres, isso não é muito para nós.

- Continue, por favor. Pediu em um tom de voz desanimado.

- De todos os universos que criamos

- E destruíram. interrompeu.

- apenas o seu nos deu um resultado relevante.

- E que resultado foi esse?

- Você! Você é a primeira evidencia que nos permite ter alguma esperança.

- Eu o que?

- Todos os outros universos, quando concluída sua cota de informação, acabavam

sendo destruídos, de diversas formas. A maioria respondia as três teorias que eu comentei

com você a pouco. O único universo que não foi destruído foi o seu.

- Espere um pouco. Breno parou por uns 2 minutos tentando entender tudo que

tinha ouvido até aquele momento. Mesmo que os seres com quem estava conversando estivessem tornando a linguagem mais simples, ainda era difícil de entender tudo o que falavam. Você está dizendo que aquela história de ficar repetindo as últimas 29 horas por

todo esse tempo era culpa minha?

- Teoricamente era para todo o seu universo ter sido destruído, congelado parado

no tempo, zerado ou com informações deletadas, mas destruído. Nós acreditamos que você seja uma anomalia desse universo que acabou impedindo o que era para acontecer. Mas como as coisas não seguiram conforme eram para acontecer, houve um erro, e todo o seu universo

passou a reviver repetidas vezes o equivalente às últimas 29 horas terrestres.

- Ta, e agora, eu me matei, tudo vai voltar ao normal?

- Você é uma anomalia, você não pode morrer.

- É o que? Eu me lembro de ter morrido, bom, de ter me matado!

- Isso é verdade, por isso trouxemos você para cá. Enquanto conversamos nós

estamos recolhendo uma série de dados sobre você, logo vamos concluir toda a coleta.

- E depois o que vai acontecer?

- Voltaremos a colocar você na Terra.

- E a vida continua?

- Sim, da mesma maneira como tem sido.

- Espera! Disse se levantando da cadeira que estava Você está me dizendo que

vai me colocar para viver naquele mesmo inferno de dia para passar tudo de novo?

- Infelizmente isso é necessário, agora estamos colhendo alguns dados seus, mas

precisamos ainda de algum tempo para conseguir identificar a sua relação com o erro, para ver

como você consegue produzir informação ainda e interagir com todo esse problema.

- Não, vocês não podem estar falando sério.

- Estamos. Respondeu o corpo de Laila ainda mantendo o mesmo sorriso no

rosto.

- Vocês não vão conseguir nada! Eu vou continuar me matando!

- Não vai dar certo. Para a nossa sorte, como vocês humanos costumam dizer,

parte da sua anomalia impede que você codifique a informação da morte. Então poderemos estudar você até entendermos todo o processo envolvido na produção de informação que vem

de você.

- Acontece que vocês me tiraram do meu universo para ter essa pequena conversa idiota, ou seja, ele já vai ser destruído, vocês nunca poderão continuar com isso! Na realidade não sabia se isso seria verdade, mas lembrava de uma das conversas com Nereu, na

qual este comentou que um experimento não pode ser alterado, se não seus resultados também seriam, algo assim.

- Isso seria verdade, se nós tivéssemos tirado você do seu universo, mas não é o

caso.

- O que? Perguntou com espanto, ainda estava de pé.

- Esse é um planeta que podemos chamar de planeta virgem. Nós inserimos um

em cada universo que criamos, em uma localização que nenhuma civilização, por mais avançada que seja, não conseguiria chegar. Ele serve justamente para isso. Quando encontrássemos algum possível resultado promissor, teríamos que coletar alguns dados mais diretos, e precisaríamos de uma plataforma para isso. Esse planeta é chamado de planeta virgem porque pode assumir as características de qualquer outro planeta do universo.

- Então, eu ainda estou no meu universo? Balbuciou.

- Exatamente, e quando as 29 horas completarem, tudo voltará a ser como tem

sido.

Breno olhou para um lado, olhou para o outro, e sem saber direito o motivo começou a correr, a fugir. Corria pelas ruas com toda a força que tinha nas pernas. Gritava, berrava, sua pernas já estavam cansadas, já estava sem fôlego, cãibras começaram a afligir os músculos de suas pernas. Foi então que caiu.

- Você não tinha necessidade de fazer isso.

Escutar a voz de Laila, aquela Laila falsa, fez seu sangue gelar. Estava de joelhos no chão com a cabeça abaixada. Levantou-a vagarosamente e foi quando percebeu que estava no mesmo lugar, do lado da cadeira que estava sentado e tinha derrubado.

Ficou ali, desolado, sem se mover, apenas de joelhos com a cabeça abaixada. A figura aparentemente humana ao seu lado também não pronunciou nenhuma palavra. Ficaram assim por quase uma hora.

Laila se levantou. Mas isso não despertou o interesse de Breno, perdido no mar de pensamentos obscuros que inundavam sua mente.

- Pronto. Disse a mulher Concluímos.

- Que se fodam todos vocês! Respondeu sem esperança.

Um novo clarão tomou conta do ambiente, o que fez Breno fechar os olhos, como uma forma inconsciente de proteção. Quando os abriu novamente estava em sua cama, deitado, e seu relógio marcava 05:24h.

Não é irônico?! Por toda a existência a humanidade se preocupou em não ter um futuro, enquanto que no final morreram pela extinção do passado.