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Medo, humilhações, pressões...

Entendendo o que é a

VIOLÊNCIA
PSICOLÓGICA
PANCADAS INTERNAS
A tortura causada pela violência psicológica, a mais comum e também silenciosa forma de
pressão existente atualmente
Por André Almeida - 3º Período de Jornalismo
Versões de Violência

Q
uando era criança, Gustavo* era
constantemente agredido por colegas
de classe. "Ouvia todo dia eles me
chamando de bichinha, viadinho, essas
coisas." Esse tipo de violência faz parte
de um quadro que não consta na lista de crimes mais
denunciados, mas que é tão perigoso quanto qualquer
outro tipo de violência. Trata-se da violência psicológica
que ocorre diariamente, atinge um número enorme de
pessoas e, ao contrário de outros crimes, não é denunciado
na grande maioria dos casos.
Gustavo superou tudo que passou numa boa. Hoje
estuda direito, trabalha como funcionário público e vive
uma vida tranqüila ao lado de amigos que aceitam sua O Relatório Mundial da Organização
homossexualidade. Só reclama que nos lugares héteros Mundial da Saúde (OMS) de 2002 divide a
que freqüenta ainda é visto com "olhares estranhos". Mas violência para que se possa explicar e trabalhar
que ainda assim consegue rir da própria condição de com cada tipo de forma mais clara e objetiva.
estranho no ninho. Abaixo, um esquema de como se classificam as
A história de Gustavo pode ser considerada um violências.
bom exemplo de superação, mas nem tudo termina assim.
A escola pode ser um ambiente de grande acúmulo de * Auto-infligidas, que se referem a
traumas que serão carregados durante a vida. A professora comportamentos suicidas e os auto-abuso;
Virgínia Alexandrino diz que a prática do chamado
bullying é comum e sempre que ela passa dos limites é * Violências interpessoais, classificadas em
necessária a intervenção do professor. Segundo a dois âmbitos: o intrafamiliar e o comunitário. O
professora negros e afeminados são as maiores vítimas dos primeiro ocorre entre os parceiros íntimos e
abusos de colegas de classe. Sua companheira de trabalho, entre os membros da família e o segundo
professora Lígia Patrícia, afirma que é comum casos de acontece no ambiente social, entre conhecidos
alunos agressores que trazem de casa problemas que e desconhecidos;
interferem no comportamento em sala de aula. "Os alunos
que mais agridem são os mais agredidos", diz a professora.
Neste ponto concorda o psicólogo João Alves Filho. Ele
* Violências coletivas, que são atos violentos
diz que pessoas que trazem histórico de traumas estão que acontecem nos âmbitos macro sociais,
propensas a se tornarem pessoas agressivas. O que não políticos e econômicos.
significa que seja uma regra. Segundo o próprio psicólogo
Em conjunto com os tipos acima citados,
algumas pessoas apresentam o psiquismo frágil, o que as
tem-se ainda a violência expressa, que pode
torna mais fracas em relação às conseqüências das
aparecersob a forma de violência física,
agressões verbais.
psicológica, sexual e negligência ou abandono.
Na escola pode estar o início de tudo, mas a
violência psicológica pode estar além das salas de aula.
"Ela é muito comum em adultos, nos relacionamentos
conjugais" afirma o psicólogo que exemplifica com casos Violência Psicológica
em que ocorre uma dependência por parte de um dos
parceiros e esta dependência se torna alvo de críticas agressões verbais ou gestuais com
destrutivas do tipo "você não faz nada" ou "você é um(a)
inútil". Estas agressões, com o tempo, podem causar a o objetivo de aterrorizar, rejeitar,
baixa de auto-estima ou ainda se tornar uma patologia mais humilhar a vítima, restringir a
grave como a depressão.
Uma situação de pressão psicológica combinada liberdade ou ainda, isolá-la do
com o psiquismo frágil, tem o poder de marcar um convívio social
indivíduo para sempre e de diversas formas. Há quem
supere, há quem tome atitudes extremadas e há quem
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repasse isso para frente. Não é incomum vermos pais Ipatinga passou por momentos angustiantes. Ela
que educam os filhos nos mesmos moldes que foram atendia as pessoas que chegavam para se consultar, era a
educados no passado. primeira pessoa a ser vista por quem ali entrava e
Além do bullying, existe na categoria violência também o alvo daqueles que se irritavam com o serviço
psicológica um leque imenso de formas de pressão. O de atendimento público. "As pessoas demoravam para
trabalho é um local onde regularmente se apuram casos. serem atendidas e achavam que a culpa era minha, me
Margarete Bittencourt, Assistente Social e Terapeuta xingavam." Começaram as dores de cabeças constantes,
Familiar, afirma que profissionais das áreas da Saúde e quase todos os dias até que ela teve um ataque
Segurança estão sempre sujeitos à passarem por tal convulsivo. Após consultas com Margarete, ela
situação por lidarem com pressões e cobranças conseguiu ser remanejada para a área interna do
diariamente. Paulo Sérgio*, soldado do 14º Batalhão da hospital.
PM de Ipatinga, afirma que o grande volume de Mas os recepcionistas não são os únicos que
trabalho, as cobranças e até mesmo ameaças podem se vivem à beira de um ataque de nervos. Auxiliares de
tornar um grande fator de risco para os militares. enfermagem tem muito do que reclamar. O intenso
Sem dúvida, esses fatores estão atrelados a ritmo de entra e sai muitas vezes não deixa espaço nem
muitos casos de depressão que atingem os diversos tipos para um lanche, os plantões que podem se estender à
de profissionais. Nem mesmo profissões mais mais de 12 horas de trabalho tornam muitos
glamourizadas escapam. O publicitário Júlio Cézar profissionais dependentes de calmantes, já que para eles
Palhares convive diariamente com o stress de serviços a o acesso à esse tipo de substância é facilitado. Juntando a
serem entregues, clientes exigentes, campanhas. Mas esses fatores o medo da concorrência, a necessidade de
compensa tudo no fim de semana praticando seu hobby atualização constante e o desrespeito aos limites
preferido: cozinhar, na cozinha ao lado do escritório que comuns de cada pessoa tem-se uma situação de
é fechado na sexta e reaberto somente na segunda-feira violência psicológica no trabalho, que, dependendo da
para recomeçar tudo de novo. abordagem, pode ser classificada como assédio moral.
O psiquismo forte é importante nessas horas. A Organização Internacional do Trabalho (OIT)
Júlio Cézar afirma que às vezes dá vontade de se jogar descreve o assédio moral como o comportamento de
do 7º andar do prédio em que vive, mas fica só na uma pessoa para rebaixar um trabalhador ou um grupo
vontade. O soldado Paulo Sérgio diz que em seus 11 de trabalhadores, através de meios vingativos, cruéis,
anos de profissão viu colegas não suportarem a pressão e maliciosos ou humilhantes. São críticas repetitivas e
desistirem da carreira militar, entrando em depressão e desqualificações, isolando-o do contato com o grupo e
acabando com a própria vida. "O caso que mais me difundindo falsas informações sobre ele.
chamou atenção foi o de uma militar que tinha dois Marie-France Hirigoyen, psiquiatra francesa,
filhos e se matou no dia das mães." elaborou uma lista de atitudes hostis e comportamentos
A recepcionista Cristina* que trabalhou durante que caracterizariam o assédio moral (veja o quadro
5 anos na recepção do Pronto Socorro Municipal de abaixo). Nesta lista eles se dividem em Deterioração

Lista de Comportamentos hostis e destrutivos


Aqui estão listados os principais sintomas de abusos por parte de colegas e/ou chefes no ambiente profissional
Deterioração proposital das condições de trabalho É desacreditada diante de colegas, superiores ou
O superior não transmite as informações úteis para a subordinados
realização de tarefas Espalham rumores a seu respeito
As decisões são sistematicamente contestadas Atribuem-lhe problemas psicológicos
O trabalho é criticado de forma injusta ou exagerada Zombam de suas deficiências físicas ou de seu aspecto
Há pressão para não fazer valer os direitos de trabalho físico
(férias, horas extras, prêmios) É imitada, caricaturada, injuriada com termos obscenos
Atribuição, contra a vontade, de trabalhos perigosos ou degradantes
O trabalho que normalmente lhe compete é substituído Criticam sua vida privada
por outros Zombam de sua origem, nacionalidade, crença religiosa
Falta de respeito com relação à sua saúde ou convicções políticas
São dadas instrunções impossíveis de se executar Atribuem-lhes tarefas humilhantes
Indução ao erro Ameaças de violência física
Superiores hierárquicos ou colegas não dialogam com a Agressões físicas, mesmo que de leve, empurrões
vítima Falam com ela aos gritos
A comunicação com ela é unicamente por escrito Invadem sua vida privada com ligações telefônicas ou
Recusam todo o contato com ela, mesmo o visual cartas
É posta separada dos outros Seguem-na na rua, é espionada diante do domicílio
Ignoram sua presença, dirigindo-se apenas aos outros É assediada ou agredida sexualmente (gestos ou
A direção recusa qualquer pedido de entrevista propostas)
Utilizam insinuações desdenhosas para qualificá-la Não levam em conta seus problemas de saúde.
Fonte: Mal-estar no trabalho: redefinindo o assédio moral - Marie-France Hirigoyen
Editora Bertrand do Brasil, São Paulo, 2002.
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proposital das condições de trabalho; psicólogos" diz o soldado com uma situação de pressão
Isolamento e recusa de comunicação; Paulo Sérgio. que leva à uma tentativa de suicídio o
Atentado contra a dignidade; Em ambientes assim, os primeiro passo é investigar o
Violência verbal, física e sexual. filhos que assistem a tudo são histórico e o contexto em que vive o
Existem várias formas de marcados desde cedo pelo paciente. "Para entender o ser
assédio moral, mas é importante fantasma da violência. E a falta de humano é preciso entender o homem
frisar que, para ser considerado base familiar acaba sendo um fator como um todo". Para isso é
assédio, é importante que haja os decisivo para um futuro sem necessária uma investigação que
fatores repetição e intencionalidade, grandes perspectivas. O soldado envolve a família, os amigos, o
caso contrário a agressão é de relata o caso de um homem que trabalho. "Só assim é que
natureza psicológica. matou a própria mãe, teve três descobrimos os motivos que levam
Um outro fator que diferencia filhos, duas meninas e um menino, uma pessoa a uma atitude dessas".
o assédio moral da violência e engravidou a mais velha. A garota O tratamento de um caso de
psicológica é que o primeiro vem casou-se com um homem que violência psicológica é difícil pois
ganhando espaço nos fóruns de tempos depois veio a assassinar o este é um tipo de violência que não
justiça. Já as vítimas da violência pai estuprador. O filho mais novo e deixa marcas físicas em quem a sofre.
psicológica muitas vezes sofrem irmão da garota violentada é hoje Os sintomas iniciais são sutis.
caladas e são raros os casos de um traficante perigoso do bairro Agressividade, ansiedade e
pressões que renderam processos e Bom Jardim, em Ipatinga, com temperamento difícil podem estar
vitórias às suas vítimas. Vale lembrar várias passagens pela polícia. relacionados. Depressão, disfunções
que o preconceito verbal contra To d o s e s s e s a g r a v a n t e s sexuais e transtornos alimentares são
negros, que se encaixa na categoria contribuíram e fizeram o rapaz ser indícios que o trauma avançou para
violência psicológica, segue uma o que é hoje, mas como já afirmou um estágio mais avançado.
linha contrária e o número de João Alves Filho, não existe uma N e s s a s h o r a s é
denúncias contra racistas vêm regra. O mesmo soldado concorda imprescindível a ajuda de um
cresecendo. e conta o caso de uma mãe psicólogo que orientará a vítima. Em
Um outro fator contribuinte traficante e usuária de drogas alguns casos mais graves o paciente
de violência se encontra nas também moradora do bairro Bom deve ser encaminhado para um
ameaças. Casos de abusos contra Jardim que foi assassinada por psiquiatra ou até mesmo para um
mulheres por parte de seus questões ligadas ao tráfico. "Os terapeuta.
companheiros deixam de ser filhos dela são todos honestos e
denunciados simplesmente pelo fator trabalhadores".
financeiro. Em muitos casos Casos como os citados
mulheres, de baixa renda, na maioria acima mexem com toda estrutura
dos casos, chegam a chamar a familiar e quase sempre são
polícia, mas ao verem que o chefe da tratados com o auxílio de um
família, o provedor, está indo embora assistente social. Margarete já viu
retiram a queixa. "Algumas até de perto situações como essas e
pendem que a gente dê conselhos vem tratando desses problemas há
para o cara, acham que somos mais de 15 anos. Quando se depara

VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ?


Pessoas nas ruas falam sobre seus medos e relacionam-os com fatores psicológicos
Maria Paulina Ilza Rosário
Maior medo: dirigir, mas
afirma que o seu segundo Maior medo: violência
maior medo, o de lagartos e nas estradas.
cobras, vem da infância
devido ao medo da mãe.

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Violência Psicológica e Medo

violência psicológica pode vir


através de pequenas ações do dia-a-
Muitas vezes, casos de fobia
dia. Dizer coisas simples como "o
estão diretamente ligados à algum
monstro vai te levar", "cuidado com anemia falciforme, tipo raro da
trauma sofrido anteriormente. Arlete
o bêbado" ou "não sai de casa doença. Por faltar muito às aulas
Ferreira, por exemplo, diz que seu
porque tem um doido lá fora" pode devido à doença e ser discriminada
medo de andar de moto começou
trazer para a criança medos e por seus colegas, ela não tinha mais
quando viu um amigo sofrer um
inseguranças que poderão vontade de ir à escola. O trabalho da
acidente e perder uma perna. Maria
acompanhá-la durante toda sua equipe de assistência social foi levar
Aparecida Teixeira relata que após
vida. à escola orientações sobre a doença
ter sido assaltada por um homem de
Uma pesquisa da tanto para alunos quanto aos
boné, passou a ter medo da violência
ABRAPIA (Associação Brasileira professores que também sabiam
nas ruas. "Quando a gente é
Pais, Infância e Adolescência) muito pouco a respeito. “Deu certo. A
assaltada, o trauma nunca passa",
divulgou que a violência garota voltou a estudar, dentro dos
afirma a dona de casa que após o
psicológica está em 3º lugar no seus limites, mas não reclama mais
incidente não consegue ver um
ranking das agressões sofridas por em ir para à escola”.
homem usando boné sem se lembrar
crianças com menos de dez anos. Sem dúvida alguma é
e ficar com medo. "Já cheguei a
Atrás estão o abandono ou possível melhorar esta questão
avançar um sinal por causa do
negligência e a agressão física. A delicada que é a violência
medo", conta. Geraldo Lima também
tortura psicológica passa na frente psicológica com muita educação e
tem medo da violência, mais
da exploração sexual infantil. Este qualidade nas relações. Se levarmos
especificamente da agressão física
estudo tem sido utilizado pelo em consideração que as agressões
"por causa de tudo que a gente vê na
UNICEF para ajudar na elaboração físicas são frutos de agressões
televisão".
de planos de combate a esses tipos psicológicas, ao trabalhar essa
"Uma criança pode ter medo
de violência. A ABRAPIA também questão desde o início estaremos
da polícia por ter visto alguém ser
tem se preocupado em mudar esse mudando para melhor nossa relação
preso" diz o soldado Paulo, que já
quadro tomando medidas como uns com os outros.
passou pela situação descrita acima.
orientação de pais, professores e
"Paramos uma viatura próximo a
alunos. Margarete Bittencourt não
uma lanchonete e sem mais nem
faz parte da ABRAPIA mas
menos um menina começou a chorar,
acredita que essas atitudes que
depois descobrimos que ela tinha
poderão mudas os conceitos. Por
visto o pai ser preso e ficou
isso ela e sua equipe mantém
traumatizada".
frequentemente visitas a escolas no
Esses traumas são totalmente
intuito de orientar as pessoas e
comuns, mas quando são levados
ensiná-las de como conviver com
para a vida adulta passam a exigir
as diferenças. Um caso que chamou
cuidados. Os pais têm um papel
a atenção da pesquisadora foi o de
importante nessas horas, pois a
uma garota de 14 anos que sofria de

Laudelino Abreu
Maiores medos: solidão e * alguns nomes foram trocados a pedido de seus respectivos
desprezo, perder a donos por questões pessoais
memória como aconteceu
quando tinha 26 anos.

Arlete Ferreira Mônica Laurentino


Maior medo: perder a mãe. Maior medo: morrer assassinada.
Seu segundo maior medo Seu outro grande medo é passar
passou a ser a moto, depois novamente pela situação de ter um
de ver um amigo perder uma assaltante em sua casa.

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