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Memória em Movimento Revista de Comunicaçao, Política e Direitos Humanos ano 1

n o 0

2 o semestre de 2007

I ntrodução

DI REI TO À COMUNI CAÇÃO

Luiz Anastácio Mom esso

No conjunto do debate sobre direitos hum anos, a com unicação cada vez

m ais vem se tornando um tem a de grande interesse, com propostas de

elaboração de direitos específicos. Por um lado, isso se deve à im portância que ela vem assum indo internacionalm ente, especialm ente a partir das guerras m undiais e do desenvolvim ento das novas tecnologias da inform ação. Por outro, por ser um a área de atividade em que os direitos das

legalidade, da

grandes m aiorias são am plam ente violados, sob a capa da institucionalidade, da ação do próprio Estado.

Os antecedentes do direito à com unicação rem ontam ao século XVI I I

na Declaração Universal dos Direitos do Hom em .

e encontram -se expressos

“Todo indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão. Esse direito inclui o de não ser m olestado por causa de suas opiniões, o de buscar e receber inform ações e opiniões e o de difundi-las sem lim itação de fronteiras por qualquer m eio de expressão”. Esse enunciado coloca a liberdade de im prensa: difundir inform ações

e opiniões sem lim itação de fronteiras

Revolução Francesa. Apresentava-se com um caráter universal, pois se tratava de liberdade para todo indivíduo, sem exceção. Na realidade, o conjunto da Declaração é m arcado pelo caráter do individual, da liberdade para o indivíduo. O capitalism o se estrutura tendo por base a livre iniciativa, que perm ite êxito para indivíduos na m edida em que conseguem acesso ao capital. A burguesia queria liberdade para agir, para se organizar, desenvolver sua potencialidade e garantir a posição de classe hegem ônica. Seu sucesso estava condicionado à liberdade individual. Qualquer indivíduo poderia ser bem sucedido, e ser apontado com o vencedor, digno de m érito. Criaram -se filosofias, ideologias e até crenças religiosas que apontavam com o abençoada por Deus toda pessoa econom icam ente bem sucedida, ou seja, que se tornasse burguesa.

Tratava-se de um a exigência da

Professor de Comunicação da UFPE e membro da Comissão de Direitos Humanos Dom Helder Câmara.

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A burguesia queria ter liberdade para em itir suas opiniões, para se expressar e construir sua hegem onia. A im prensa era a porta-voz dos debates acalorados sobre política, filosofia, econom ia, arte, entre outros, que se realizavam em espaços públicos com o cafés, clubes, associações, círculos e praças. Ali, constituíam -se opiniões socialm ente elaboradas, que, por m eio da im prensa, ganhavam a sociedade e se transform avam em opiniões públicas. Elaborou-se um a racionalidade que elevou a opinião pública à condição de expressão m áxim a da sociedade, à qual as autoridades deveriam se subm eter, inclusive o rei ( A voz do povo é a voz de Deus). Era um m om ento revolucionário no qual foram superados dogm atism os e preconceitos arraigados, que se arrastavam respaldados na ideologia da nobreza e do clero. Foi no bojo desse m ovim ento revolucionário que se conquistou a liberdade de im prensa. Sem dúvida, um valor universal. Basta dizer que nas ditaduras no Brasil, na de Vargas e na dos m ilitares, quando a liberdade de im prensa foi suprim ida e instalou-se a censura, toda a sociedade protestou contra a m edida. A liberdade de im prensa propicia um a certa dem ocratização das inform ações. Porém , na sociedade capitalista, ela se estrutura nos m oldes do capital, resultando em lim ites decorrentes do m odo de produção capitalista. As inform ações, desde o início do jornalism o, tornaram -se acessíveis com o m ercadorias, privilegiando os que a elas tinham acesso e discrim inando o restante da população. Constituiu-se um

público privilegiado, com prador de jornais, revistas, literatura

A grande

m aioria da população ficou excluída. Acom panhando as tendências de concentração e centralização do

capital, os veículos de com unicação - inicialm ente os jornais, depois o rádio

e a televisão - tornaram -se cada vez em presas m aiores, com andadas por

um grupo reduzido de pessoas, m onopolizando as inform ações. Constituíram -se as grandes agências internacionais de notícias. A liberdade

de

Essa situação vinha se agravando desde as guerras m undiais. No esforço de guerra, houve um grande aperfeiçoam ento das técnicas e da produção de novos equipam entos. O rádio, cuja tecnologia vinha se desenvolvendo especialm ente dentro dos quartéis, tornou-se fundam ental para o setor de inform ações. Teve um grande aperfeiçoam ento durante a Prim eira Guerra

im prensa cada vez m ais foi se tornando liberdade de em presa.

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Mundial, m as continuou confinado à área m ilitar, às navegações e a atividades de inform ação em outros setores. A partir do início da década de 20 com eçam a surgir as rádios com caráter social. Na Europa, desenvolveu- se principalm ente vinculada aos governos, adquirind o feições públicas. Em

alguns países, com o na Alem anha, proliferou

que inicialm ente ajustou o novo veículo às suas lut as, sofrendo violentas repressões com o avanço do nazism o. Nos Estados Unidos, adquiriram feições com erciais. Por questões decorrentes das condições de cada País, por conta da conjuntura da guerra, o rádio se desenvolveu de form a diferente. Nos Estados Unidos, m uitos dos que trabalharam nos setores de inform ação dos exércitos, depois da guerra, de posse da técnica, transform aram -na em m eios de exploração com ercial, criando o que inicialm ente cham avam de caixinha de m úsica, que depois se tornou um veículo da cham ada com unicação de m assa. No período “entre guerras”, o rádio já era um veículo bastante popularizado. Foi utilizado am plam ente na sua preparação e no seu desenrolar, sendo integrado com o parte das estratégias de m obilização das

populações, da busca de aliados. Adquiriu am plitude internacional com a construção de potentes transm issoras em ondas curtas, sendo a pioneira a Rádio Moscou, criada em 1922, a prim eira de alcance internacional, que a partir de 1929 transm itia em várias línguas, com objetivo de expandir e unificar a luta pelo socialism o. Em 1933, a Alem anh a inaugurava suas em issões em ondas curtas; em 1938, a BBC de Londres e a Paris-Mondial; em 1942, a Voz da Am érica, dos Estados Unidos, e assim por diante, alim entando o conflito m undial, buscando construir hegem onias entre os povos, desm oralizar os adversários, dar apoio m oral às tropas e às populações, estabelecer elo de ligação com batalhões entrincheirados em cam po inim igo ou com focos de resistência isolados.

rapidam ente no m eio operário,

Passada a guerra, ficou a perplexidade com a capacidade de m anipulação de populações inteiras realizada com os recursos da com unicação, além de seu uso direto com o arm a de guerra, com pondo o conjunto das estratégias. Enquanto para os im périos e os novos m ercados em ergentes da com unicação havia um grande otim ism o e um a expansão

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crescente, pessim ism o.

alguns

intelectuais

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e

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setores

da

sociedade

m anifestavam

Segue-se a Guerra Fria, cuja ação fundam ental estava associada à estratégia com unicacional. Tratava-se de um a guerra não declarada, que pendia com o am eaça, podendo desabar a qualquer m om ento. Um a estratégia para desestim ular as lutas dos povos, apresentando-as com o possíveis desencadeadoras de conflitos catastróficos, num m undo polarizado em dois blocos - socialista e capitalista. A principal arm a desse conflito

com unicação, sobretudo os jornais, o cinem a, as rádios e, TV. Um a chantagem infindável. Um a ação de perm anente

desrespeito aos direitos hum anos.

eram os m eios de posteriorm ente, a

A televisão, desenvolvida a partir da década de 50, expandiu-se no Brasil no período da ditadura, principalm ente a partir do final dos anos 60. Foi tam bém o período em que foram construídas infra-estruturas, com o torres de transm issão, satélites, entre outros, possibilitando a integração nacional a partir de centros de decisões econôm ica, política, m ilitar, com criação de redes gerenciadas. Os m ilitares tinham grandes preocupações com a integridade e com o que denom inam de segurança nacional. O Brasil era um País continental, com im ensas florestas, carência de estradas, vias férreas, aeroportos, o que dificultava o controle do território nacional pelos m ilitares. Era recente a revolução cubana, chinesa, o Vietnã sinalizava derrotar os EUA, havia guerrilha por toda parte. O desenvolvim ento dos m eios de com unicação tornava-se fundam ental para a “conquista das m entes”. Nesse período, que as escolas de com unicação foram criadas no Brasil, com o objetivo de form ar profissionais e pesquisadores m oldados pela ótica das teorias funcionalistas im portadas dos Estados Unidos, desenvolvidas, em grande parte, por pessoas que trabalharam no setor de inform ação durante as guerras. No aspecto econôm ico, a com unicação seguiu a m esm a reestruturação m odernizadora e dependente dos dem ais ram os da econom ia. Basta citar a Rede Globo de Televisão, que cresceu tendo vínculos com em presa estadunidense. Os EUA tinham grande produção de bens culturais e a expansão da TV no Brasil abria um im enso m ercado. Vê-se, assim , que toda

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a lógica da im plantação de um m oderno sistem a de com unicação obedecia a

interesses econôm icos, políticos, ideológicos e m ilitares. Em setores dos m eios intelectuais, estudantis, religiosos, em algum as entidades e organizações de esquerda de toda a Am érica Latina com eçam a

se m anifestar preocupações com os direitos à com unicação, com sua

distribuição desigual, com a agressão aos povos, com a invasão cultural. Assim , os debates sobre os direitos hum anos da com unicação não

hoje. Rem ontam à década de 50. Mas é principalm ente a partir

da década de 60 que tom am corpo. Coincidem com o período de descolonização da África e da Ásia. Estava-se em plena Guerra Fria. As organizações de esquerda, de form a geral, analisavam essa situação com o decorrente do conjunto das ações do capitalism o e do im perialism o. Outras forças, que se aglutinavam principalm ente a partir das concepções social-dem ocratas e a cham ada igreja progressista - que rejeitavam o socialism o, m as se contrapunham às práticas do capitalism o im perialista, sobretudo diante do caráter agressivo e expansionista que m arcava o crescente im pério do Norte -, propunham um a

com eçaram

terceira via. Havia se criado o conceito de terceiro m undo, que englobava os países recém -saídos da colonização e os países pobres, fora do bloco socialista. Dem andava-se alívio da dívida externa, m elhores condições de com ercialização e apoio ao desenvolvim ento. Muitos ainda viam os Estados Unidos com o m odelo de dem ocracia e desenvolvim ento e acreditavam na possibilidade de um a terceira via. A com unicação fazia parte desse contexto. Com o desenvolvim ento de tecnologias da com unicação, crescia a produção de bens sim bólicos. As

m

ultinacionais da cultura, a m aioria situada nos Estados Unidos, abriam

m

ercado para seus produtos em todo o planeta. Estabeleceu-se o que os

opositores a essa situação cham aram de invasão cultural. A televisão foi o veículo privilegiado dessa invasão. Rapidam ente tratou-se de sua expansão

e de torná-la popular onde se pudessem constituir novos m ercados para os

bens sim bólicos por ela veiculados. Já no final da década de 60, qualquer

cidadezinha afastada dos centros desenvolvidos, no Brasil, m antinha um aparelho de TV nas praças, onde o povo se aglom erava para ver a m agia da telinha.

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Enquanto os Estados Unidos dispunham de vasta produção para exportação, os países pobres tinham um a produção incipiente. I m portavam todo tipo de produto cultural, desde desenhos anim ados, seriados, film es, program as “educativos”. Nos centros desenvolvidos, eram com uns as m anifestações públicas nas quais m uitos discursos protestavam contra a “enxurrada de enlatados culturais”. Culturas de países eram invadidas e descaracterizadas, quando não destruídas, com o diversas culturas indígenas. Não se tratava apenas de desigualdade de condições, m as de agressão aos povos. Os lim ites éticos ou políticos eram rem ovidos por essas m ultinacionais e pelo governo dos Estados Unidos, por diferentes m eios, desde a diplom acia até a violência e deposição de governantes. A com unicação era sem pre um com ponente im portante dessas práticas. Apesar de os grandes avanços na com unicação serem um a

im portante conquista da hum anidade,

ocorreram num contexto do

capitalism o e im perialism o que, sob a ótica dos direitos hum anos, causou sérias violações para grande parte das populações do globo. Constituiu-se um a séria contradição dentro do m undo capitalista. Mesm o os que não viam

com bons olhos um a saída pelo socialism o, não podiam concordar com essa situação. Cresceu um a pressão em am plos setores da sociedade m undial,

fortalecendo-se ainda m ais um a perspectiva de terceira via. Na década de 70, o debate estava presente na UNESCO e criou-se a NOMI C (Nova Ordem

de

Mundial da I nform ação e Com unicação), que alim entou esperanças m udanças substanciais.

Mas a UNESCO passou a sofrer pressões dos Estados Unidos. As verbas de diversos órgãos, de atividades e de projetos por ela

im plem entadas nesse setor, foram sendo reduzidas ou cortadas, com o

ocorreu tam bém com o CI ESPAL (Centro de Estudos de Jornalism o para

a

Am érica Latina), com sede em Quito, Equador, que form ava profissionais e pesquisadores para abastecer de recursos hum anos o crescente m ercado das com unicações, quando a m aioria de seus intelectuais com eçaram a se m anifestar contrários às teorias funcionalistas da com unicação, geradas nos Estados Unidos, e propunham um a com unicação horizontal e dialógica, tendo com o referenciais a teoria critica e as idéias do educador brasileiro Paulo Freire.

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Apesar disso, a UNESCO criou um a Com issão I nternacional para o Estudo da Com unicação, com participação de 15 países, com posta por estudiosos do tem a e personagens respeitados, entre eles, o conhecido escritor Gabriel Garcia Marques, da Colôm bia. O presidente da com issão foi Sean Mcbride e, com o resultado do trabalho, a com issão publicou um relatório que ficou conhecido por Relatório Mcbride, tendo com o título: Um Só Mundo, Vozes Múltiplas 1 . Foi publicado em 1980 e a UNESCO, cedendo a pressões, negou autorização para um a segunda edição. No debate atual sobre direitos hum anos e com unicação, o relatório Mcbride continua sendo um a referência. Tem um a contribuição im portante, especialm ente pela sistem atização do tem a, que serve de base para a continuidade da discussão.

1 . A difícil tarefa de garantir os direitos hum anos da com unicação

Para a com unicação contem porânea, na sociedade com plexa e globalizada, cada vez m ais se aperfeiçoam técnicas. A inter-relação entre seres hum anos fica m ediada por m áquinas. Toda técnica é um a conquista hum ana. Para sua aquisição entram em ação desde cientistas, pesquisadores, engenheiros, operários, até o trabalhador que produz o alim ento para que essas pessoas possam se dedicar a seu trabalho. Mas estam os num a sociedade capitalista e a técnica, nesse sistem a, se torna propriedade privada. A com unicação é definida com o um bem público. Mas

os equipam entos de com unicar e o conhecim ento sobre seu m anuseio são apropriados por em presas capitalistas. No Brasil, em grande escala, apenas

a TV Cultura, de São Paulo, e raras TVs universitárias se aproxim am do exercício de com unicação pública.

As rádios, com a expansão da TV, passaram para segundo plano no

interesse do grande capital. A m aioria delas se constitui com o pequenas e

e dependentes

m édias em presas, associadas a grupos m aiores, integradas

1 Hacia um nuevo ordem m undial m ás

en nuestro tiem po.

Fondo de Cultura Econôm ica, México/ UNESCO, Paris. 1980. Com 508 páginas, está dividido

y Sociedad; I I – La Com unicación hoy; I I I –

Problem ática: preocupaciones com unes; I V – El Marco I nstitucional y Professional; V – La Com unicación, Manãna; Apédices: 1 – Com entarios Gerales; 2 – Notas; Com issión

em cinco partes e apêndice: I - Com unicación

la com unicación –

UN SOLO MUNDO, MULTI PLES VOCES Com unicación e I nform ación

justo y eficaz de la I nform ación

e

I nternacional de Estudio de los Problem as de la Com unicación.

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de redes para sobreviver. Sobre elas, cada vez m ais se expande o dom ínio

de religiões. As concessões públicas têm sido m oedas de barganha de governos para conseguir aliados ou adesões, ou feitas sob pressões do poder econôm ico e político de setores da burguesia. No interior dos estados

do Norte e Nordeste, a grande m aioria das em issoras pertence a latifundiários ou seus testas de ferro. Quando não, seus proprietários têm que se curvar ao poder local para sobreviver.

Para a sociedade, de form a geral, as rádios não atendem aos requisitos colocados pelos direitos hum anos, m esm o as tentativas de criação e m anutenção de rádios com unitárias - estas têm sido perseguidas sistem aticam ente, com exceção das “rádios com unitárias” de propriedade de igrejas conservadoras ou de políticos de direita ou as que m antêm o nom e de “com unitária”, m as são pequenas em presas com erciais. O acesso à técnica do rádio, já bastante conhecida no m eio popular, continua negado ao povo. As conquistas legais, que a pressão dos

m ovim entos sociais conseguiu realizar, são inviabilizadas no m om ento da

execução. As rádios verdadeiram ente com unitárias, que insistem em se

m anter em funcionam ento, continuam sendo fechadas, com raras exceções.

Para esse im pedim ento, alegam -se razões técnicas. Na realidade, são

principalm ente m otivos políticos e econôm icos. Elas representam um potencial para a organização popular e os m ovim entos sociais. Onde

canal de discussão

conseguem se m anter por algum tem po, tornam -se um

de idéias, de orientação, organização, m obilizações. Por m eio delas, líderes

com unitários passam a ocupar espaços na política local. Do ponto de vista

da econom ia, o fato de conquistarem grandes audiências locais reduz o

público dos veículos com erciais, desvalorizando seus espaços publicitários.

A proliferação de rádios verdadeiram ente com unitárias provavelm ente

inviabilizaria m uitas rádios com erciais.

Assim , no Brasil, o acesso direto da população às rádios com unitárias continua na pauta de luta dos m ovim entos sociais, apesar de já estarm os no início da era da cibernética, ou dos sistem as, caracterizada pelo desenvolvim ento das telecom unicações, satélites geo-estacionários e inform ática, que interligam o globo instantaneam ente.

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Apesar de todos os m ecanism os de controle, da negação do acesso e dos objetivos das classes dom inantes para o rádio, o povo e os m ovim entos sociais têm conseguido, ora por m eio da com pra de horário, sobretudo em em presas radiofônicas m enores, de rádios com unitárias e de outros

m ecanism os, transform ar o rádio no veículo m ais acessível e disponível

para os interesses da população.

Na com unicação contem porânea, portanto, com a sociedade com plexa e em processo de globalização, a com unicação hum ana se torna

cada vez m ais

com unicação fica condicionado às relações sociais que determ inam a posse

e uso dessas m áquinas e desses equipam entos e ao acesso e dom ínio das

técnicas de seu m anuseio. Em relação ao consum o das m ensagens, os equipam entos são am plam ente popularizados. Toda residência tem aparelhos de rádio e TV. Mas quanto à produção e distribuição dos bens sim bólicos, por serem realizadas por em presas capitalistas (indústria cultural), torna a participação da sociedade quase inacessível. Principalm ente com a crescente concentração e centralização do capital.

interm ediada por m áquinas e equipam entos. O direito à

Assim , sob a lógica do capital, há um contra-senso entre as práticas com unicativas da sociedade e a definição de com unicação com o um bem público, bem com o a atribuição das tecnologias da inform ação e da com unicação com o patrim ônios da hum anidade. Há um a contradição que exige m udanças radicais. A UNESCO define a com unicação com o um bem

público e social, um direito público. A concessão de canais é prerrogativa do governo. Mas, na realidade, toda a estrutura é privada e as concessões têm sido realizadas sob pressão econôm ica ou com o m oeda de barganha nas negociações políticas. A com unicação com o inter-relação da sociedade fica prejudicada.

vem os é a incom unicação

Com tanta m áquina de com unicar, o que

interm ediada por essas m áquinas. O direito à propriedade suplanta e anula os direitos à com unicação. A desigualdade do acesso aos m eios é

condizente com a desigualdade geral da nossa sociedade. O m esm o se diga da desigualdade do acesso aos bens culturais. Os lim ites do exercício dos direitos são im postos pelas relações econôm icas e políticas.

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2 . Sujeitos ou objetos da com unicação?

Do ponto de vista econôm ico, os bens de com unicação são tratados com o m ercadorias produzidas pela indústria cultural, ou indústria da cultura. Na verdade, o que essas indústrias vendem não são propriam ente

os produtos culturais ou de lazer: novelas, film es, shows, inform ações,

O que vendem são os espaços publicitários, que são pagos pelas

em presas anunciantes para, por m eio dos anúncios, venderem suas m ercadorias. Em últim a instância, os m eios de com un icação vendem m ercadorias através dos anúncios publicitários. A program ação de um canal de TV, de um a em issora de rádio, as inform ações de um jornal têm o objetivo de conquistar público ou audiência. É a isca para fisgar o com prador dos produtos anunciados. O tam anho e qualidade (capacidade de com pra) do público ou da audiência é que determ ina a dem anda e o valor dos espaços publicitários. O que os veículos de com unicação vendem para as em presas são públicos, ou seja, o nosso tem po com o telespectador, com o ouvinte de rádio ou leitor de um jornal.

futebol

A grande preocupação se torna a conquista de audiência, a obtenção de um a boa posição no I BOPE. Para atingir grandes públicos, os m eios traçam suas estratégias, definindo um indivíduo m édio, genérico, tratado com o um elem ento da m assa, organizado apenas com o público receptivo do veículo, ou seja, com o objeto a ser conquistado. Buscam detectar

tendências desse público e nivelam por baixo a program ação. Para se tornarem atrativos, os m eios buscam transform ar tudo em espetáculo, porque o espetáculo atrai público. Até as notícias perdem a característica de inform ação. A notícia, nesse contexto, pode ser definida com o a inform ação tratada com o m ercadoria, com objetivo de render lucro e m anter o controle

ideológico. Bons program as veiculados pela TV tam bém obedecem

do lucro. Destinam -se a constituir e m anter segm entos de audiência. I sso

caracteriza um aspecto contraditório que pode ser explorado. Dessa form a, os veículos de com unicação, em últim a instância, constituem um a estrutura que serve de suporte para as forças produtivas na sua relação com o m ercado, além de zelarem pela construção e m anutenção da ideologia burguesa. Apesar disso, constituem um cam po de disputa para a contra-hegem onia. A sociedade, que é quem paga pela

à lógica

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m anutenção da publicidade, cujo preço vem em butido no custo dos produtos anunciados, não tem nenhum a ascendência sobre as decisões, os conteúdos, a linha editorial dos m eios. Tem apenas a opção de m udar de um canal para outro, sem influir na program ação de nenhum deles, de trocar de estação de rádio, de m udar de jornal ou não com prar. É

é

é o rei. Na

verdade, é apenas objeto de pesquisa de tendências, pelas quais os veículos orientam os program as e a publicidade. E essas tendências, em geral, tam bém são construídas pelos m eios, pela própria publicidade. Atualm ente, trabalha-se com a teoria de que a audiência não é passiva, pelo contrário, é sujeito da recepção. I sso tem algum fundo de veracidade, porém a TV não propicia condições para um a audiência crítica. Na recepção certam ente há um a oscilação entre conform ism o e resistência, um a seleção do que interessa, um a interpretação que freqüentem ente foge do conteúdo em itido e se orienta pelos interesses do receptor. Porém , nas condições do Brasil, a carga de inform ações sobre um a m assa de indivíduos

isolados, desenraizados de suas culturas pela m igração interna, desorganizados socialm ente, torna m uito lim itado o cam po da resistência. Quando o indivíduo está integrado em organizações nas quais elabora coletivam ente sua visão de m undo ou a interpretação de acontecim entos, organiza a defesa de seus interesses. Quando isso ocorre, certam ente que a recepção das m ensagens da m ídia é realizada com m ais possibilidades de ingredientes de crítica. O problem a cresce ainda m ais nos finais de sem ana, em que a TV se tornou o lazer de grande parte da população. Fica-se m uito tem po diante das telas. Para atrair grande núm ero de pessoas que nesse dia gozam do ócio, as program ações são niveladas em padrões m ais baixos ainda, para

não dizer em futilidades. Ocupam

espetáculos m edíocres, sem valor cultural, sem qualquer conteúdo que contribua para a elevação do espírito. Contribuem , isto sim , para a produção de um vazio nas pessoas e o em brutecim ento hum ano. I solam o indivíduo do contato social, quando poderiam proporcionar um lazer que estim ulasse a cultura, a sociabilidade, atividades lúdico-educativas, de form ação esportiva, entre outros.

contrariam ente alardeado pelos m eios. Dizem que o consum idor

consum idora de bens sim bólicos e nada decide sobre eles, com o

um

tem po

enorm e

das pessoas com

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Dessa form a, as telinhas entretêm a população isentando os poderes públicos de providenciar outros tipos de ócio por m eio de atividades lúdicas, esportivas, culturais e de prom over a sociabilidade das pessoas. Os padrões da TV são colocados a partir dos proprietários dos m eios, em acordo com outros centros de influência, as em presas patrocinadoras. Nesses padrões estão em butidos interesses e ideologias. I nterferem em outros centros de organização da sociedade, com o a fam ília, escola, religião, associações, m ovim entos, e afetam a vida das pessoas, das organizações sociais, das instituições. O acesso pleno ao direito à com unicação por toda a sociedade só se torna possível com sua transform ação real em m eios públicos, assegurados legalm ente, com gestão e controle públicos efetuados pela sociedade através de conselhos e outros m ecanism os. I sso im plica na construção de um a sociedade com am pla participação e, pelo m enos, redução drástica das desigualdades econôm icas e sociais. Enquanto solução desse tipo parece ainda distante, por diversas form as as organizações da sociedade, tanto em âm bito nacional com o m ais geral, travam um a disputa constante pelo acesso a esse direito. Existem fóruns pela dem ocratização da com unicação, organizações, m ovim entos, são realizados debates, sem inários, cam panhas, tudo visando lim itar essa

falsa liberdade de im prensa. Além disso, os m ovim entos e

sociais, em bora em condições desfavoráveis, buscam algum a presença nos

m eios de com unicação, m uitas vezes por m eio da com pra de

espaços para

organizações

program ação própria, especialm ente em rádios. Essa possibilidade de presença tam bém está m uito relacionada à dinâm ica dos m ovim entos sociais, à sua capacidade de criar fatos socialm ente im portantes que gerem interesse para que os m eios os transform em em notícias. Aqui se faz

im portante a ação de com unicadores identificados com os m ovim entos sociais, tanto agindo de dentro deles com o a partir de seu trabalho nos m eios. É a luta da contra-hegem onia. Em âm bito m ais restrito, tanto em relação aos lim ites de um local com o pela circunscrição a um a organização, partido, m ovim ento, entre outros, constrói-se um a infinidade de pequenos veículos pelos quais esses públicos restritos se com unicam , constituídos especialm ente por pequenos jornais e rádios com unitárias. Em m uitos casos, esses veículos não

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conseguem superar o m odelo dom inante de com unicação unidirecional. Mas, em m uitos deles, já se desenvolveram m ecanism os, com o conselhos ou outras form as de participação, por m eio das quais a recepção define, orienta ou controla a produção das m ensagens, quebrando o m odelo unidirecional im plantado pela com unicação-em presa. Ali, no âm bito desses m icro-universos, o direito à com unicação realiza-se plenam ente. Esses m odelos podem servir de referência para se pensar à com unicação para toda a sociedade.

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