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Leandro Calbente Câmara


Derrida e o jogo das estruturas

“Há portanto duas interpretações da interpretação, da estrutura do signo e do

jogo. Uma procura decifrar, sonha decifrar uma verdade ou uma origem que escapam ao

jogo e à ordem do signo, e sente como um exílio a necessidade da interpretação. A

outra, que já não está voltada para a origem, afirma o jogo e procura superar o homem e

o humanismo, sendo o nome do homem o nome desse ser que, através da história da

Metafísica ou da onto-teologia, isto é, da totalidade da sua história, sonhou a presença

plena, o fundamento tranqüilizador, a origem e o fim do jogo” 1 .

Esta frase sintetiza uma das mais importantes críticas ao estruturalismo francês

na década de 1960, quando as idéias estruturais ainda ocupavam uma posição central

naquele contexto intelectual. Jacques Derrida, o autor do texto, sempre realizou um

diálogo crítico com os autores mais importantes do momento estruturalista, como

Claude Lévi-Strauss, Jacques Lacan ou Michel Foucault. Esta postura já podia ser

observada em seus primeiros textos, como Force et Signification ou Cogito et histoire

de la folie. Porém, foi em 1966, na ocasião do Colóquio As Linguagens Críticas e as

ciências do homem na Universidade de Johns Hopkins (Baltimore), que o filósofo

francês realizou seu comentário mais radical e crítico em relação ao estruturalismo.

Esta crítica, porém, não significa a completa renuncia daquela “aventura do

olhar” 2 representada pelo estruturalismo. Na verdade, como defende François Dosse, o

1
Derrida, A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências humanas, p. 249, doravante citado
como ESJ.
2
Derrida, Force et signification, p. 09. No mesmo texto, Derrida fala “comme nous vivons de la
fécondité structuraliste, il est trop tôt pour fouetter notre rêve. Il faut songer en lui à ce qu’il pourait
signifier”, p. 11.
2

pensamento derridiano é uma radicalização, um levar ao extremo, uma torção, dos

procedimentos estruturais de leitura e crítica textual 3 .

Partindo dessa perspectiva, minha proposta nesta reflexão é discutir e comentar

o funcionamento desta radicalização operada por Derrida em seus textos. O ponto de

partida, evidentemente, será o seu texto A estrutura, o signo e o jogo no discurso das

ciências humanas, ao qual irei costurar as idéias presentes em outros textos relevantes

para a questão.

------ x ------

Derrida aponta, no início de seu texto, que “a palavra estrutura têm a idade da

épistémè isto é, ao mesmo tempo da ciência e da filosofia ocidentais, e que mergulham

suas raízes no solo da linguagem comum, no fundo do qual a épistémè vai recolhê-los

para os trazer a si num deslocamento metafórico” 4 . Para o filósofo, o conceito de

estrutura é muito anterior ao próprio momento estruturalista, ele está profundamente

relacionado com a possibilidade da construção de uma linguagem filosófico e científica,

e com isso está filiado naquilo que o autor identifica como tradição metafísica do

pensamento logocêntrico ocidental.

É preciso entender esta característica com atenção. Para Derrida, nosso

pensamento é logocêntrico porque busca um princípio, uma origem, um centro, um

espaço que garanta uma ordem ao pensamento, um acesso seguro a presença imediata

3
François Dosse, História do estruturalismo: o canto do cisne, p. 37. De maneira similar, Leyla
Perrone-Moisés explica que “o que foi chamado desconstrução, como ele [Derrida] costuma dizer, é uma
leitura minuciosa de textos da tradição ocidental (textos filosóficos e literários), para ‘desconstruir’ seus
pressupostos idealistas, dualistas, logocêntricos, etnocêntricos. Nesse sentido de crítica textual, a
desconstrução é uma versão mais refinada da ‘desmontagem’ estruturalista, com base filosófica anti-
totalitária e anti-idealista”, em Pós-Estruturalismo e desconstrução nas Américas, p. 222.
4
ESJ, p. 230.
3

do ser. Por isso, a noção de épistémè, tomada de empréstimo, mas num sentido

deslocado, da obra de Michel Foucault 5 , é aquilo que circunscreve o pensamento

filosófico da linguagem comum, que insere este pensamento neste espaço ordenado. Na

sua interpretação, este campo epistêmico funciona segundo um sistema de

“constrangimentos fundamentais, de oposições conceituais fora das quais ele se tornaria

impraticável”. Pode-se dizer que uma característica importante do pensamento

derridiano é justamente a torção deste sistema de oposições conceituais, como veremos

mais adiante 6 .

Esta filiação da estrutura à épistémè, no entanto, foi afetada por aquilo que

Derrida denomina como um “acontecimento” (événement) na história do conceito. O

acontecimento em questão se refere a possibilidade de pensar o descentramento da

noção de estrutura. Até então, “a estrutura, ou melhor a estruturalidade da estrutura,

embora tenha sempre estado em ação, sempre se viu neutralizada, reduzida: por um

gesto que consistia em dar-lhe um centro, em relacioná-la a um ponto de presença a uma

origem fixa. Esse centro tinha como função não apenas orientar e equilibrar, organizar a

estrutura (...) mas sobretudo levar o princípio de organização da estruturar a limitar o

que poderíamos denominar jogo da estrutura” 7 .

A estruturalidade da estrutura é aquilo que possibilita a formação deste centro

fixo, capaz de garantir “a determinação do ser do ente como presença”, e por isso trata-

5
A noção de épistémè é importante na primeira fase do pensamento foucaultiano, marcado pela descrição
arqueológica dos saberes. Em As Palavras e as Coisas, Foucault trata dessa noção como “a região
intermediária entre os códigos fundamentais de uma cultura, os que regem sua linguagem, seus esquemas
perceptivos, seus intercâmbios, suas técnicas, seus valores, a hierarquia de suas práticas, e as teorias,
científicas e filosóficas que explicam todas essas formas de ordem”. Ademais, na sua perspectiva não é
possível falar em uma épistémè, mas em várias, marcadas por um processo de descontinuidade histórica.
Assim, há uma épistémè renascentista, uma clássica e uma moderna. Cf. Edgardo Castro, Vocabulário de
Foucault, p. 139-140.
6
Jacques Derrida, Positions, p. 14 (tradução minha).
7
ESJ, p. 230.
4

se da matriz de toda metafísica. Como o pensamento nunca escapou da clausura desta

metafísica, Derrida pode falar que sua história consiste, simplesmente, na substituição

de um centro para outro, mas sempre ocupando a mesma função, a mesma limitação do

jogo, garantindo uma “proximidade absoluta da voz e do ser, da voz e do sentido do ser,

da voz e da idealidade do sentido” 8 .

Dessa maneira, creio que para entender melhor a importância dessa afirmação

seja necessário observar o que Derrida entende por jogo. Segundo ele, “podemos

denominar jogo a ausência de significado transcendental como ilimitação do jogo, isto

é, como abalamento da onto-teologia e da metafísica da presença” 9 . Fica claro que a

estruturalidade da estrutura consiste, simplesmente, nessa busca por um significado

transcendental, algo exterior à própria estrutura, mas que garante a sua ordem e seu

funcionamento.

O que interessa, porém, é que em determinado momento foi possível provocar

uma ruptura ou um abalo nesse mecanismo. Como ele explica:

“o acontecimento de ruptura, a disrupção a que aludia ao começar, ter-se-ia

talvez produzido no momento em que a estruturalidade da estrutura deve ter

começado a ser pensada (...). Desde então deve ter sido pensada a lei que

comandava de algum modo o desejo do centro na constituição da estrutura, e

o processo da significação ordenando os seus deslocamentos e as suas

substituições a essa lei da presença central. (...) Desde então deve-se sem

dúvida ter começado a pensar que não havia centro, que o centro não podia

ser pensado na forma de um sendo-presente, que o centro não tinha lugar

natural, que não era um lugar fixo mas uma função, uma espécie de não-lugar

8
Jacques Derrida, Gramatologia, p. 14-15, doravante citado como GR. Ver também ESJ, p. 231. O
trecho continua de maneira muito reveladora: “Poder-se-ia mostrar que todos os nomes do fundamento,
do princípio, ou do centro, sempre designaram o invariante de uma presença (eidos, arque, telos, energia
ousia, aletheia, transcendentalidade, consciência, Deus, homem, etc.)”
9
GR, p. 61.
5

no qual se faziam indefinidamente substituições de signos. Foi então o

momento em que a linguagem invadiu o campo problemático universal; foi

então o momento em que, na ausência de centro ou de origem, tudo se torna

discurso (...) isto é, sistema no qual o significado central, originário ou

transcendental, nunca está absolutamente presente fora de um sistema de

diferenças. A ausência de significado transcendental amplia indefinidamente


10
o campo e o jogo da significação”

Esta possibilidade de descentrar a estrutura, abalar a estruturalidade da estrutura,

movimento característico de sua época, foi anunciada na obra de muitos autores, entre

os quais, ele cita nominalmente Nietzsche, Freud e Heidegger. Estes autores

questionaram o sistema de oposições que tornava possível, por exemplo, a distinção

entre sensível (significante) e o inteligível (significado), evitando a redução do primeiro

ao segundo. Este questionamento acaba arrastando com ele a noção de signo, tão

fundamental para o funcionamento da metafísica. E mais importante: este

questionamento abala decisivamente a expectativa de encontrar um significado

transcendental.

Um efeito direto desta situação é a possibilidade de nascimento de um novo

campo das ciências humanas: a Etnologia, ou antropologia estrutural 11 . Portanto, o

momento estruturalista torna-se possível graças ao movimento de perda de um

significado transcendental, de uma presença plena de sentido. O que resta ao filósofo é

observar o “rigor crítico com que é pensada a relação desses [novos] discursos com a

história da Metafísica e com os conceitos herdados”. Por isso, Derrida irá realizar no seu

10
ESJ, p. 231-232 (grifo meu).
11
“Podemos com efeito considerar que a Etnologia só teve condições para nascer como ciência no
momento em que se operou um descentramento: no momento em que a cultura européia – e por
conseqüência a história da Metafísica e dos seus conceitos – foi deslocada, expulsa do seu lugar,
deixando então de ser considerada como a cultura de referência”, em ESJ, p. 234.
6

texto, a partir desse ponto, uma leitura minuciosa da obra de Lévi-Strauss, e de maneira

mais geral do próprio discurso estruturalista, segundo esta perspectiva.

Inicialmente, o que conduz a leitura de Derrida é a maneira como Lévi-Strauss

utiliza em sua obra a oposição natureza/cultura, “oposição mais velha do que Platão”.

Segundo ele, o etnólogo, ao estudar a proibição do incesto, identifica um problema, um

verdadeiro escândalo, que embaralha estas distinções: “a proibição do incesto apresenta

sem o menor equívoco, e indissoluvelmente reunidos, os dois caracteres em que

reconhecemos os atributos contraditórios de duas ordens exclusivas: constitui uma regra

[ordem da cultura], mas uma regra que, única entre todas as regras sociais, possui ao

mesmo tempo um caráter de universalidade [ordem da natureza]” 12 .

Apesar do escândalo, porém, o etnólogo não abre mão desta oposição. Ele opta

por não lhe “atribuir nenhum valor de verdade, nem nenhuma significação rigorosa”,

estando pronto para “abandoná-los a qualquer momento se outros instrumentos

parecessem mais cômodos”. Por isso, Derrida pode falar que “Lévi-Strauss pensa deste

modo poder separar o método da verdade, os instrumentos do método e as significações

objetivas por ele visadas” 13 .

O que se vê, portanto, é um pensamento que no mesmo movimento que

desarticula o funcionamento dos pares de oposição, o reafirma e o reutiliza. É como se a

reflexão do etnólogo abrisse caminho para uma crítica da metafísica, mas torna a ela

novamente, mesmerizado pela segurança do ser como presença 14 . Isso fica ainda mais

claro quando Derrida realiza um segundo movimento de leitura da obra de Lévi-Strauss,

12
Claude Lévi-Strauss, As estruturas elementares do parentesco, apud ESJ, p. 236.
13
ESJ, p. 238.
14
Sobre isso, há uma passagem muito interessante em GR: “Conservando e anulando, ao mesmo tempo,
oposições conceituais herdadas, este pensamento [de Lévi-Strauss] mantém-se, portanto, como o de
Saussure, nos limites: ora no interior de uma conceitualidade não criticada, ora pesando sobre as clausuras
e trabalhando na desconstrução”, p. 129-130.
7

demonstrando como este reatualiza um procedimento de rebaixamento da escritura

frente à palavra falada.

Para tanto, Derrida recupera uma breve passagem do livro Tristes Trópicos para

refletir sobre o tema. Nela, Lévi-Strauss relata um evento que presenciou enquanto

acompanhava uma tribo de Nhambiquaras no interior do Brasil: o chefe da tribo aprende

a mimetizar a escritura do antropólogo e tenta utilizar esse artifício para dominar os

demais membros da sua comunidade 15 .

Este episódio ganha uma importância muito grande na reflexão do autor: a

escrita aparece como um elemento externo ao sistema social daquela tribo e, por isso,

capaz de desorganizar toda o funcionamento “da comunidade imediatamente presente a

si mesma, sem diferência (différance), comunidade da fala em que todos os membros

estão ao alcance de alocução” 16 . A fala, a voz como palavra viva, que carrega o mais

próximo de si o sentido, é contraposta à escritura, um significante secundário, e que por

isso carrega consigo a violência e o afastamento da presença originária do ser.

Para Derrida, esta desconfiança, esse rebaixamento da escritura em relação a

palavra é, talvez, a marca mais importante do fonologocêntrismo ocidental. Isto porque,

a voz “produtora do primeiro significante, ela não é um mero significante entre outros.

Ela significa o ‘estado da alma’ que, por sua vez, reflete ou reflexiona as coisas por

semelhança natural. Entre o ser e a alma, as coisas e as afeções [affection], haveria uma

relação de tradução ou de significação natural; entre a alma e o logos uma relação de

simbolização convencional”. A fala assume, assim, o caráter de uma “linguagem

universal que, portanto, pode apagar-se por si própria”. E continua: “A época do logos,

portanto, rebaixa a escritura, pensada como mediação de mediação, e queda na

exterioridade do sentido. (...) A diferença entre significado e significante pertence de

15
O breve relato pode ser encontrado em Claude Lévi-Strauss, Tristes Trópicos, p. 319-328.
16
GR, p. 167.
8

maneira profunda e implícita à totalidade da grande época abrangida pela história da

metafísica” 17 .

Dessa maneira, Lévi-Strauss está apenas reafirmando toda esta tradição, inerente

a todo pensamento metafísico, ao recuperar a distinção entre fala e escritura na sua

reflexão sobre a tribo dos Nhambiquaras. Com isso, começa a tornar-se mais

compreensível o sentido de uma frase como esta: “voltada para a presença perdida ou

impossível, da origem ausente, esta temática estruturalista da imediatidade interrompida

é portanto a face triste, negativa, nostálgica, culpada, rousseauísta, do pensamento do

jogo” na obra do etnólogo francês, de maneira particular, e no conjunto do pensamento

estruturalista, de maneira mais global 18 .

Para Derrida, o momento estruturalista anuncia o campo do jogo, porém não

naquele sentido utilizado pelo próprio filósofo, mas como o campo de “substituições

infinitas no fechamento de um conjunto finito. Este campo só permite estas

substituições infinitas porque é finito, isto é, porque em vez de ser um campo

inesgotável, (...) lhe falta algo, a saber um centro que detenha e fundamente o jogo das

substituições. Poderíamos dizer (...) que este movimento do jogo, permitido pela falta,

pela ausência de centro ou de origem, é o movimento da suplementariedade” 19 .

Na perspectiva estruturalista, pois esta questão perpassa o conjunto destes textos

e autores, o centro fixo, a estruturalidade da estrutura, é substituído por um elemento

suplementar, um significante suplementar, que garante o funcionamento do signo, que

realiza a ligação entre o significante e o significado. A importância desse significante

flutuante, no pensamento estruturalista, é atestada por Gilles Deleuze: “É desta maneira,

como vimos, que o não-sentido não é a ausência de significação, mas ao contrário, o

17
GR, p. 13-15.
18
ESJ, p. 248.
19
ESJ, p. 244-245.
9

excesso de sentido, ou aquilo que proporciona sentido ao significado e ao significante.

O sentido aparece aqui como o efeito de funcionamento da estrutura, na animação de

suas séries componentes” 20 .

E continua:

há diferentes estruturas, organizada segundo significantes flutuantes próprios

(o falo, o mana, etc.), mas todas atuam como infra-estruturas com regras de

funcionamento próprias. Com isso, não é possível estabelecer uma

causalidade linear de uma estrutura para outra, e nem estabelecer uma

estrutura que, em última instância, determinaria todas as demais. “Assim, o

objeto = x é, para cada ordem de estrutura, o lugar vazio ou perfurado que

permite a esta ordem articular-se com outras, num espaço que comporta

tantas direções quantas ordens. As ordens de estrutura não comungam num

mesmo lugar, mas todas comunicam por seu lugar vazio ou objeto = x
21
respectivo

Por conta disso, Derrida pode afirmar que “a superabundância de significante, o

seu caráter suplementar, resulta portanto de uma finitude, isto é, de uma falta que deve

ser suprida” 22 . O jogo estruturalista, apegado a esta falta originária, que demanda um

constante suprir, um ratio adicional de sentido, continua marcado pelo par

presença/ausência, atentando sempre para a recuperação de uma presença perdida, para

o centro perdido. O que o filósofo propõe é uma radicalização desse descentramento, ou

o reverso desse jogo estruturalista, baseado na “afirmação nietzchiana, a afirmação

alegre do jogo do mundo e da inocência do devir, a afirmação de um mundo de signos

sem erro, sem verdade, sem origem, oferecido a uma interpretação ativa. Esta afirmação

determina então o não-centro sem ser como perda de centro. E joga sem segurança.
20
Gilles Deleuze, Em que se pode reconhecer o estruturalismo, p. 295.
21
Ibidem., p. 297.
22
ESJ, p. 246.
10

Pois há um jogo seguro: o que se limita à substituição de peças dadas e existentes

presentes. No caso absoluto, a afirmação entrega-se também à indeterminação genética,

à aventura seminal do traço” 23 .

A leitura derridiana acaba levando ao extremo a proposta do jogo estruturalista,

radicalizando e subvertendo algumas das propostas centrais deste pensamento 24 . Como

explica, François Dosse:

Os diversos pares binários – significante/significado, natureza/cultura,

voz/escritura, sensível/inteligível – que constituíram o próprio instrumento de

análise do estruturalismo são, um por um, rediscutidos, pluralizados,

disseminados num jogo indefinido que desdobra, decompõe, disseca o

sentido das palavras, e persegue toda palavra-mestra, toda transcendência.

Assim, a linguagem derridiana desestabiliza as oposições tradicionais ao

fazer jogar os indecidíveis, verdadeiras unidades de simulacro, organizadores


25
de uma nova ordem, carnavalesca, da razão

23
ESJ, p. 248. É interessante observar que Deleuze, quando trata do estruturalismo, utiliza a metáfora do
jogo de xadrez para explicar o pensamento estruturalista. Nada mais sintomático das duas interpretações
antagônicas de jogo, pois o xadrez é o jogo por excelência das “peças dadas e existentes, presentes”. A
torção proposta por Derrida obrigaria a pensar um xadrez sem peças preexistentes, sem nenhum horizonte
que possa trazer uma previsível segurança na jogada a ser realizada. Ver, Em que se pode reconhecer o
estruturalismo, p. 278.
24
Derrida, em um texto muito elucidativo, explica um pouco no que consiste a sua estratégia de leitura
desconstrutora. Segundo ele, há dois momentos importantes nessa leitura: primeiro uma inversão dos
pares de oposição, como por exemplo aquele que ele realiza quando trata do privilégio da fala sobre a
escritura; um segundo momento, mas que se realiza em concomitância com o primeiro, é o deslocamento
do sentido original, afinal não basta inverter a ordem dos pares de oposição, o que iria manter o
pensamento na mesma clausura. Creio que isso elucide muito bem a maneira como Derrida crítica e
ultrapassa os termos conceituais do estruturalismo, ele não apenas denuncia a subordinação da escritura à
fala, como torna propriamente impossível continuar pensando a questão nos termos binários. Sobre a
questão, ver Positions, p. 56-60.
25
François Dosse, História do estruturalismo: o canto do cisne, p. 39-40.
11

A noção de indecidível, um “quase-conceito”, é fundamental na obra de Derrida.

Como explica Paulo Cesar Duque-Estrada, o indecidível é aquilo “que habita as

oposições conceituais como, no exemplo, que estamos tratando aqui, fala/escrita,

significante/significado, etc., tornando-as possível, sem, contudo, se deixar

compreender por elas ou, através delas, vir a constituir dialeticamente um terceiro

termo” 26 . Na obra do filósofo aparecem diversos elementos que assumem esta

característica, entre eles, a noção de escritura e a de différance 27 .

Antes de tudo, é importante mencionar que o sentido que Derrida atribui ao

termo não tem relação com a escritura num sentido estrito, ou seja, o registro da palavra

falada num texto. Isto fica mais claro quando observamos a seguinte frase do autor: “Il

s’agit de produire un nouveau concept d’écriture. On peut l’appeler gramme ou

différance. Le jeu des différences suppose en effet des synthèses et des renvois qui

interdisent qu’à aucun moment, en aucun sens, un élément simple soit présent en lui-

même et ne renvoie qu’à lui-même. (…) Cet enchaînement fait que chaque ‘element’ –

phonème ou graphème – se constitue à partir de la trace en lui des autres éléments de la

chaîne ou du système” 28 .

26
Paulo Cesar Duque-Estrada, Derrida e a escritura, p. 13.
27
Para Derrida, o movimento da différance “en tant qu’il produit les différents, en tant qu’il différencie,
est donc la racine commune de toues les oppositions de concepts qui scandent notre langage, telles que,
pour ne prendre que quelques exemples : sensible/intelligible, intuition/signification, nature/culture, etc.
En tant que racine commune, la différance est aussi l’élément du même dans lequel ces oppositions
s’annoncent. Troisièmement, la différance est aussi la production, si l’on peut encore dire, de ces
différences, de cette diacriticité dont la linguistique issue de Saussure et toutes les sciences structurales
qui l’ont prise pour modèle nous ont rappelé qu’elles étaient la condition de toute signification et de toute
structure. (…) De ce point de vue, le concept de différance n’est ni simplement structuraliste, ni
simplement génétiste, une telle alternative étant elle-même un ‘effet’ de différance. Je dirais même, mais
peut-être y viendrons-nous plus loin, que ce n’est pas simplement un concept”, em Positions, p. 17-18.
28
Positions, p. 37-38.
12

Para Derrida, é a noção de escritura que permite o “advento do jogo; o jogo

entrega-se hoje a si mesmo, apagando o limite a partir do qual se acreditou poder

regular a circulação dos signos, arrastando consigo todos os significados tranqüilizantes,

reduzindo todas as praças-fortes, todos os abrigos do fora-de-jogo que vigiavam o

campo da linguagem. Isto equivale, com todo o rigor, a destruir o conceito de ‘signo’ e

toda a sua lógica” 29 .

A escritura, portanto, não é um efeito da língua falada, da palavra viva, mas

aquilo mesmo que antecede qualquer linguagem possível, na medida em que é o jogo da

escritura que estabelece a cadeia de significantes, ou melhor, na linguagem derridiana, a

cadeia de rastros (trace), aquilo que possibilita a atribuição do sentido a qualquer

linguagem. Isto porque toda linguagem é imotivada, não há um significado

transcendental que lhe atribua sentido, mas apenas rastros de outros rastros que vão

tecendo toda uma cadeia de sentido 30 .

Como explica Ana Maria Amado Continentino:

por escritura, Derrida entende o encadeamento de rastros, de algo que não

tem como referência nem uma presença nem uma ausência (que não seria

senão uma outra forma de presença), mas um jogo de referencialização, que

dispensa qualquer possibilidade de organização, de orquestração, a partir de

uma origem, ela mesma excluída do jogo em questão. Derrida repudia a idéia

deste fora que ele denomina significado transcendental (o significado que

29
GR, p. 08.
30
“O rastro instituído é ‘imotivado’ mas não é caprichoso (...). Simplesmente não tem nenhuma ‘amarra
natural’ com o significado na realidade. (...) Não se pode pensar o rastro instituído sem pensar a retenção
da diferença numa estrutura de remessa onde a diferença aparece como tal e permite desta forma uma
certa liberdade de variação entre os termos plenos. (...) O rastro onde se imprime a relação ao outro,
articula sua possibilidade sobre todo o campo do ente, que a metafísica determinou como ente-presente a
partir do movimento escondido do rastro. É preciso pensar o rastro antes do ente. (...) O campo do ente,
antes de ser determinado como campo de presença, estrutura-se conforme as diversas possibilidades do
rastro”, em GR, p. 57.
13

existe independentemente de estar referido por uma linguagem ou por uma

estrutura de significação), na medida em que ele encerra a pretensão de

acolher, reunir, todas as significações, estancando a inquietude e a


31
perturbação característica da escritura, e, portanto, do pensamento.

Tendo em vista esta noção de escritura, é hora de retornar ao motivo inicial deste

trabalho. Derrida, em seu texto polêmico, lembra que existem duas interpretações do

jogo, de um lado aquela que “procura decifrar uma verdade ou uma origem que

escapam ao jogo e à ordem do signo”, do outro aquela que “não está voltada para a

origem, afirma o jogo e procura superar o homem e o humanismo”. No entanto, o

filósofo faz um alerta importante: “pelo que me diz respeito, não creio, muito embora

estas duas interpretações devam acusar a sua diferença e aguçar a sua irredutibilidade,

que hoje haja alguma coisa a escolher” entre uma ou outra interpretação32 .

Parece-me que a questão central não é tanto entre escolher uma ou outra, afinal

tudo aquilo que foi dito até agora está ancorado na perspectiva de que na leitura

derridiana não há lugar para oposições binárias, uma interpretação certa e outra errada.

Sua empreitada intelectual pensa a questão em outro termo: “é preciso tentar primeiro

pensar o solo comum, e a diferência (différance) desta diferença irredutível”. Isso

significa, acima de tudo, situar o problema a partir da perspectiva daquele jogo dos

indecidíveis, no registro da escritura. Pensar este solo comum, nesta perspectiva,

poderia abrir caminho para um pensamento no qual “não é mais possível pensar um

lugar ‘fora’ do jogo a partir do qual fosse possível um conhecimento do mesmo e,

portanto, controle da circulação dos signos, dos sistemas de referência, da proliferação,

31
Ana Maria Amado Continentino, A alteridade no pensamento de Jacques Derrida: escritura, meio-
luto, aporia, p. 27-28.
32
ESJ, p. 249.
14

de discursos, da diferencialidade de rastros, dos reenvios sem fim entre estruturas

significantes, enfim da virulência da escritura” 33 .

É nesta posição, nesta busca por um pensamento que consiga se situar além e

aquém do solo comum do estruturalismo, que lance seu olhar para o jogo da différance

e da escritura, que Derrida situa sua obra e sua leitura do momento estruturalista. Nesse

movimento, o autor consegue torcer as bases daquele pensamento, transpondo o limite

mais extremo dessa “aventura do olhar”, o que possibilitou a sua própria desmontagem.

Referência Bibliográfica

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________________. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 2004.

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33
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15

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