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Loucuras de um escritor

U.m.a s.a.l.a.da d.e c.on.to.s p.o.e.m.a.s r.e.p.o.r.t.a.g.e.n.s a.r.t.i.g.o.s

Rodrigo Capella

Loucura, loucura!

Publiquei o meu primeiro livro com apenas 16 anos, o romance policial “Enigmas e Passaportes”. De lá pra cá, foram várias loucuras, lancei diversas obras, dos mais variados gêneros, com destaque para “Transroca, o navio proibido”, que está sendo adaptado para o cinema pelo diretor Ricardo Zimmer.

Sempre gostei, portanto, de escrever histórias. Mas, aos poucos, um outro sentimento me despertou: o de escrever artigos, poemas, contos e reportagens para a imprensa. Ao todo, confeccionei mais de 500 textos para jornais e revistas de todos os Estados brasileiros.

Textos de temas diversos: cachorros, viagens, mistérios e amor. Prepare-se, então, para nas próximas páginas descobrir um pouco mais sobre a minha literatura e constatar que ela é louca e não tem limites.

Rodrigo Capella

ARTIGOS

Chicotada nos jornalistas, já!

Antes mesmo de assistirem a “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, os críticos, muitos

deles jornalistas, já teciam comentários favoráveis

à nova película, protagonizada por Harrison Ford.

Houve quem comentasse, inclusive, que esse filme

é tão importante para 2008 quanto “2001: Uma Odisséia no Espaço” marcou o lendário 1968.

Como se não bastasse essa bobagem, li também que a atuação de Ford é tão intensa que nos remete

a

“Indiana Jones

a marcas de carro e perfume,

uma reflexão racial e social. E mais: compararam ”

como se o cinema, mesmo de estrelas, fosse tão desejado quanto um CK One ou um Paco Rabane.

Tais comentários assustadores e lamentáveis foram escritos, em jornais de circulação nacional, antes da realização da tradicional cabine de imprensa de ”

“Indiana Jones

– na qual profissionais de

imprensa assistem ao filme antes do grande público. Ou seja, o jornalista-crítico deixou-se levar pelos bons filmes da série e, em muitos casos, apontou essa como a melhor história de Indiana.

Puro erro! O longa diverte o público, tem bons momentos de aventura, mas não pode ser considerado uma película exemplar. O roteiro é o mais fraco dos Indianas e, acredite se puder, tem falhas de sincronismo. Longe, portanto, de ser ”

e aos perfumes

comparado ao clássico “2001

CK One e Paco Rabane, que mantém a mesma essência do começo ao fim do frasco.

A melhor leitura que pode ser feita dessa aventura é um pouco árdua para a mídia, talvez por isso ainda não tenha sido publicada. O personagem, na verdade, representa a “ética” e com sua arma, o chicote envenenado de raiva, tenta a todo custo combater os desvios e interpretações equivocadas da imprensa. Os inimigos que Indiana enfrenta são os “rusos” porque essa foi, aparentemente, a forma encontrada para mostrar que os jornalistas, ao errarem, contrariam a lei da moral e dos bons costumes, prejudicando toda uma sociedade.

Quem não se lembra, por exemplo, do Caso Escola de Base, na qual educadores foram erroneamente acusados de assediar crianças? Resultado: a escola foi depredada, os educadores quase foram presos e a mídia recebeu apenas alguns processos isolados. Casos como esse, infelizmente, são comuns e enquanto eu estava escrevendo esse artigo, mais um ocorreu: a mídia divulgou que um avião da empresa Pantanal havia caído em São Paulo. Mentira! Na verdade, uma loja que vende colchão havia explodido.

Percebeu a disparidade? Pois é, a empresa aérea foi prejudicada sem ter qualquer culpa e a sociedade entrou em estado de alerta, sem ter necessidade. Só quem, realmente, estava em São Paulo soube o que ocorreu: desespero, tumulto e muita gente ansiosa,

buscando

acidente mentiroso.

informações

sobre

os

passageiros

do

Uma barriga (notícia mentirosa) como essa teria sido, facilmente, combatida com o chicote de Indiana, ferramenta necessária contra o lead (primeiro parágrafo de um texto) mentiroso. Necessária também para evitar que, na redação, a emoção supere a razão e para não permitir que filmes medianos sejam transformados em verdadeiros clássicos, antes mesmo de serem vistos. Chicotadas nos jornalistas, já!

Avante: cuidado com os cavalos

Eu, sinceramente, pensei em parar de escrever. Afinal, quem estaria interessado em ler as minhas aventuras européias? Pensei errado! Recebi, durante a semana, vários e-mails elogiando o meu artigo sobre a macieira do Newton, publicado aqui no Diário. É lógico que fiquei contente, pois não esperava que um artigo polêmico fosse tão bem aceito. Redobrei, então, as minhas energias para escrever as linhas desse domingo.

E lá fui eu, rumo a York

para qualquer outra cidade do interior da Inglaterra. Aliás, é como ir para qualquer cidade do interior de qualquer país. Vou citar uma: Ardmore, uma

cidade americana, escondida no Estado de Oklahoma, onde morei por seis meses. Foram os mais longos da minha vida: na cidade não acontecia nada, ninguém morria, ninguém nascia. Era uma cidade parada no meio de um país de atmosfera agitada.

Ir para York é como ir

Quando estive em Ardmore, vivenciei casos hilários. Era muito comum eu ir ao supermercado e alguém gritar: “olha o brasileiro, é o Rodrigo lá’. Caramba, eu me sentia uma verdadeira celebridade. Cheguei até a dar alguns autógrafos. O xerife vinha falar comigo, perguntava coisas sobre o Brasil e dizia: “Como vai o Rio de Janeiro, a capital do seu País?”. Eu achava graça.

Bom, voltando a cidade de York, posso dizer que ela é muito melhor do que Ardmore. Em York, por exemplo, há pontos turísticos; em Ardmore havia apenas um campo de futebol americano. Fundada pelos romanos, a cidade de York preserva muito de seu passado e dos povos que por ela passaram. Eram, principalmente, Anglo-saxões e Vikings. É por isso que, na cidade, há muralhas, lembranças “vivas” da antiguidade. Mesmo de longe, pode-se ver torres e o portão Micklegate, a principal porta de entrada da cidade no período Romano e passagem obrigatória para quem vinha de Londres. Estudiosos dizem que nesse portão eram exibidas as cabeças dos traidores e que o rei Henrique VIII, certa vez, se recusou a passar pelo Micklegate, optando por um outro portão.

Em York, há também o rio Ouse, que banha a cidade e que abrigou, durante muitos séculos, um dos portos mais movimentados de toda a Inglaterra. Na Idade Média, passavam por aí as principais riquezas do país. Hoje, o local encanta os turistas. Se você adora água, pode-se fazer um passeio pelo rio e conhecer algumas partes obscuras e pouco comentadas pelo guias turísticos. Ou pode-se também andar a pé pela cidade e visitar, por exemplo, o Yorkshire Museum, que oferece ao visitante a chance de viver na época romana e medieval. Ou pode-se ainda percorrer pelas ruas medievais e estreitas, chamadas pelo povo local de shambles. Quem caminhar por elas pode comprar

produtos bem interessantes e saborear a comida local.

Quando eu viajo, gosto sempre de andar a pé pela

cidade, sem pressa e com um olhar bem atento. Essa é a melhor forma de se conhecer os hábitos e

os costumes locais. Em York, não foi diferente. Eu, felizmente, dei uma bela volta pela cidade e

registrei tudo em um caderninho para poder contar

a você, caro leitor. Registrei principalmente o

ponto turístico mais importante: a York Minster, considerada a maior e uma das mais importantes catedrais da Inglaterra. Ela teve várias construções e hoje está localizada, talvez por acaso, no local mais brilhante e tranquilo da cidade. A construção lembra um verdadeiro castelo de areia, com pingos nas extremidades dando um realce na estrutura rígida.

Os vitrais são belíssimos e transmitem harmonia e história, tudo ao mesmo tempo, no mesmo ritmo de

um coral bem treinado. Reis, rainhas, cavaleiros. Quando se caminha pela York Minster, é possível

se sentir na época medieval e transitar pelo passado

em um passe de mágica. Só tome cuidado com os cavalos: eles estão em toda parte, dos mais variados tamanhos e portes.

À procura de algo tão medieval quanto York, optei,

então, por ir a Escócia, deixando Liverpool e Londres para o caminho de volta. Na Escócia, eu poderia tomar um bom uísque, conhecer mais

alguns castelos e ver hábitos estranhos. Se eu vou usar saia? Não sei!

Fumei um cachimbo com Sherlock Holmes

E fui sorrindo, andando e sorrindo

aventuras em Londres estavam apenas começando. Depois de passar a mão na bunda da Jennifer Lopez, eu queria conhecer o famoso detetive. Não, não ia passar a mão na bunda dele. Eu só queria fumar um cachimbo e ouvir boas histórias de crimes e assassinatos.

Minhas

Todos os habitantes daquela cidade sabiam onde ficava a 221B Baker Street e, portanto, não foi difícil encontrar a pequena casa de Holmes. Lembro-me muito bem de “Um Estudo em Vermelho”, que foi o seu primeiro desafio como detetive profissional. Depois, vieram também “O Signo dos Quatro” e “O Cão dos Baskervilles”, considerado por muitos especialistas como o melhor caso de Holmes ao narrar a morte de Hugo Baskerville por um suposto cão diabólico.

Mal encostei a mão na maçaneta da porta e ela se abriu. Do outro lado, havia um mordomo que apontou para o andar de cima. Tirei o meu chapéu e o casado e pendurei atrás da porto. Subi pela escada estreita e encontrei um quarto bem apertado e uma larga sala de jantar, com móveis antigos e lareira. Entrei na sala e encontrei uma carta em cima da mesa principal:

“Querido Rodrigo, tive que fazer uma viagem de última hora para solucionar mais um mistério, que precisa de minha ajuda e considerações. Amanhã, pela manhã, pegarei o trem de volta para Londres a fim de colocarmos o papo em dia. Permita-me oferecer os meus aposentos para que você descanse até nos encontrarmos. Se precisar de algo peça ao João, o meu mordomo. Abraços cordiais, Sherlock Holmes”.

Essa carta era muito estranha! Afinal, eu não conhecia Sherlock e ele aparentemente não me conhecia. Por que ele teria escrito uma carta para mim? Qual mistério ele estaria desvendando? E porque ele queria que eu dormisse na casa dele? Sem resposta para qualquer uma dessas perguntas, resolvi aceitar a oferta de Holmes e passei a noite por lá.

“João, venha aqui, por favor,”, disse, de forma involuntária. “Pois, não, o que o senhor deseja”. “Eu estou curioso com toda essa história. Você sabe por que o senhor Holmes me escreveu essa carta?”. “Sinceramente, não sei. Só vi que o Sr. Holmes recebeu a visita de uma senhora, de meia idade, e decidiu sair rapidamente de casa. Ele foi viajar com essa senhora e com o Watson. Mas, não me disse para onde ia. Aliás, ele nunca fala”.

Agradeci a informação e continuei intrigado. Afinal, o que estava acontecendo? Por que tanto mistério? Holmes havia viajado e eu ia dormir

numa casa estranha, numa cama estranha, sem entender nada. Dormir profundamente, apesar da curiosidade. Quando acordei, vi Holmes Watson e uma senhora. Os três estavam me olhando e o famoso detetive pronunciou: “dormiu bem?”. “Sim, por quê? O que está acontecendo? Por que você pediu para eu dormir aqui?”. Holmes deu risada e disse: “Calma, meu rapaz. Não fique curioso. Você logo saberá de toda a história”. “Estou curioso, afinal, o que aconteceu?”. Holmes riu e disparou:

“está vendo essa senhora? Ela me contratou para solucionar mais um mistério, simples, mas que requer cuidados. Meu jovem, vou lhe fazer uma pergunta. Quero que responda com sinceridade”. “Tá, pode fazer”. “Quantas caipirinhas um homem consegue beber sem ficar bêbado?” “Quatro, no máximo cinco”, disse, sem entender mais nada.

“Pronto, solucionei o mistério. Agora, vou contar o que houve, desde o início: eu estava na sala com o meu amigo Watson, quando essa senhora trouxe- nos um mistério: seu marido havia desaparecido após um churrasco e até agora não havia retornado. Logicamente, suspeitamos que ele havia sido raptado. Mas, essa senhora disse que ele bebeu seis caipirinhas. Como você, Rodrigo, é brasileiro e essa bebida é uma tradição em sua terra, eu lhe perguntei com quantas caipirinhas um homem fica bêbado. Você disse cinco no máximo. Portanto, eu concluo que o marido dessa senhora bebeu demais, desapareceu e, em cinco minutos, vai aparecer aqui nessa casa para levar a senhora para casa”.

Holmes, Watson e eu acendemos um cachimbo, colocamos a conversa em dia, apesar de nunca termos nos vistos, e a campainha tocou. “Holmes, você me conhece?”, eu disse. “Claro, mais do que você sabe, um dia você saberá. Mas, pode tentar descobrir se quiser”.

Fiz uma loucura: mijei na macieira do Newton

O frio na cidade parisiense era realmente intenso. O

relógio batia sete da noite e eu não aguentava mais

usar luvas, cachecol, blusa de lã. Eu sabia que em Paris se fazia frio, mas não esperava tanto. Comportei-me, sem ter escolha, como um Homem de Aço para andar tranquilamente. Quem olhava pra mim, achava que eu era um maluco: estava morrendo de frio, mas sorria e meus dentes brilhavam.

Diferente do Brasil, na França os estabelecimentos fecham cedo. Então, não hesitei em jantar. Pedi um croque madame, uma espécie de misto quente com fritas, salada e um ovo partido em cima do pão. Uma delícia! Para beber, pedi uma orangina, uma Fanta local. Muito saborosa. E depois dizem que os franceses comem e bebem mal. Isso é lenda. Em Paris, pelo menos, se alimenta muito bem. Eles têm

o costume de pedir o menu, que vem uma entrada,

um prato principal e uma sobremesa, ao custo de 10 euros, o equivalente a atuais 27 reais.

Depois, caminhei pelas ruas a fim de identificar personagens e possíveis cenários de minhas futuras obras. Uma de minhas principais missões como escritor é a de captar novas atmosferas e na cidade da Torre Eifell eu faria muito isso. Afinal, Paris é um luxo e eu estava vendo isso de perto.

Mas, os pontos turísticos, como o Arco do Triunfo, o Museu Louvre e a famosa Torre ficariam para depois, para o final da minha excursão européia. Agora, quer dizer, amanhã de manhã, eu iria para Cambridge, uma famosa cidade inglesa.

Quando o relógio me acordou eram oito da manhã. Entrei em um carro francês alugado, um Citroen azul – a minha cor preferida -, e fui em direção a Calil, a cidade francesa por onde passa o Canal da Mancha, que liga a França a Inglaterra. Do outro lado do Canal, está Dover. Alguns quilômetros de boa estrada, chega-se a Cambridge, que estava na minha mira.

A travessia, que levou quase duas horas, foi feita em um grande ferry boat, uma espécie de navio que armazena carros na parte de baixo e tem cassino, restaurante, sofás e até uma loja chique para vender lembrancinhas. Não resisti e comprei algumas! Ao sair do ferry boat, já estranhei: os ingleses dirigem no banco direito do carro e na pista contrária a nossa. É um horror! E mais: a pista rápida é a da direita, ao contrário do que ocorre no Brasil. Pirei!

Já em Cambridge, que tem pouco mais de cem mil habitantes, várias pessoas olhavam para um pequeno rio. Pela quantidade de gente que se debruçava na grade, achei que tinha um cadáver lá dentro ou algo mórbido a la sexta-feira 13 e Zé do Caixão. Aproximei-me e quase não acreditei: as

pessoas estavam olhando para o pato! Não, não era o jogador do Milan. Era um pato nadando no rio. É, isso é fácil de explicar. Como eu disse, a cidade tem poucos habitantes e se configura como uma cidade de interior. A aparição de um pato é, portanto, notícia para ser contada por várias gerações. É compreensível!

Cambridge, situada a 80 quilômetros de Londres, é uma cidade universitária com alguns atrativos

turísticos, principalmente, a macieira do Newton e

a Universidade, que leva o nome da cidade. Ao

som de Beatles, a melhor banda de todos os tempos, e com o termômetro marcando cinco graus nas ruas, percorri lugares interessantes e conheci a

história da cidade, que se enriqueceu no século XIII graças á exportação de tecidos e produtos agrícolas

e, mais tarde, tornou-se centro universitário.

A primeira faculdade, chamda Peterhouse, foi

fundada em 1284. Mas, aos poucos, a cidade foi ganhando outras, totalizando 19 faculdades para homens e duas para mulheres. Deles, destacam-se o Trinity College, onde estudaram Francis Bacon e o Newton.

Depois de percorrer quase todas as faculdades, fiz um passeio de canoa, em grande estilo – como se

faz em Veneza -, e conheci a Mathematical Bridge,

construída inicialmente sem um único parafuso. Diz a lenda que um estudante se encantou com a ponte e resolveu desmontá-la com o intuido de

examinar as peças e montá-as novamente. Mas, lógico que não conseguiu e a ponte teve que ser parafusada.

Conheci também a ponte do suspiro, inspirada em Veneza. Na cidade italiana, ela tem esse nome porque os prisioneiros ficavam pressos de um lado da ponte e eram executados do outro lado. Na ponte, davam o último suspiro de vida. Já a ponte de Cambridge liga o local onde os estudantes estudam ao local onde fazem as provas. Na ponte, alguns dão o último suspiro antes de serem reprovados.

Ao final do passeio, parei em um tradicional pub inglês e experimentei cinco tipos de cerveja. Por motivos óbvios, não consigo me recordar os nomes. Apertado e quase mijando nas calças, andei pelas rua de Cambridge e avistei a macieira do Newton – aquela em que o físico descobriu a famosa Lei da Gravidade. Despejei tudo: eu mijei, com prazer, na macieira do Newton! E o melhor: ninguém me atrapalhou, nem mesmo o guarda, que estava lá perto. Ah! Que alívio!

Depois disso, entrei no carro e segui par aYork, uma outra cidade inglesa. Mas, antes de cair na estrada, parei para abastecer. Na Inglaterra, assim como nos Estados Unidos, não há frentista. É você quem tem que colocar o combustível no carro. Fiz essa tarefa sem problemas. Pronto: já tinha uma nova profissão! E fui seguindo, rumo a York

O submundo da Escócia: uísque e saia

E lá fui eu, rumo a Edimburgo, cidade mais

importante da Escócia. Essa cidade, aparentemente estranha, me proporcionou várias aventuras. Mas, antes de contá-las, vou lhe apresentar o território escocês: localizado no noroeste da Europa, ele tem mais de 700 ilhas e foi fundado, segundo os historiadores, em 843 quando Kenneth I se tornou rei. Trata-se, portanto, de uma civilização bem antiga, com costumes e hábitos bem diferentes do Brasil.

A começar pelo kilt, uma saia estranha, usada pelos homens. Ela tem uma estampa cheia de quadrados,

de cores variadas, dependendo da família. Não foi

difícil encontrar um rapaz, vestindo kilt e tocando

gaita. Aliás, esse era o meu primeiro objetivo. Não se pode ir a Salvador, no Brasil, sem encontrar uma baiana fazendo acarajé; e também não se pode ir a

Escócia sem

Bom, você agora já sabe.

Em Edimburgo, o que mais me chamou atenção, foi

o Castelo. Construído sob rocha de origem

vulcânica, ele é encantador e, realmente, inspira. Logo quando entrei, imaginei-me na Idade Média, lutando contra cavaleiros, montando em cavalo, disparando tiros de canhão, gritando alto.

Lá dentro é possível ver as jóias da Coroa Escocesa, a quase singela Capela de Santa Margareth, um antigo canhão e, principalmente, a prisão de guerra, que chegou a me dar medo. Nesse local, estiveram detidos marinheiros de várias nações, inclusive dos Estados Unidos. Antes de entrar na prisão, é possível ver uma porta, toda

desenhada pelos prisioneiros. É possível ver barcos

e navios, de vários tipos e tamanhos. Ou os

prisioneiros estavam lembrando-se de suas embarcações; ou estavam construindo uma outra para fugirem da Escócia.

O quarto, apertado e mal iluminado, dá arrepios e

nos remete à Antiguidade. É como se sentir um prisioneiro, dormir na rede, rabiscar na porta. Sensação como essa eu só tive em San Francisco, nos Estados Unidos, quando visitei a famosa Alcatraz. Lá, eu realmente pirei e achei que não ia sobreviver. Celas automáticas, ar sombrio e atmosfera triste. Na Escócia, como nos Estados Unidos, eu fiquei deprimido e jurei que nunca mais iria visitar uma prisão.

Essa loucura toda, me deu vontade de tomar uma típica cerveja escocesa. Pensei logo na Dragonhead Stout, muito apreciada por lá e também pelos brasileiros que lá visitam. A caminho do pub encontrei um tour do uisque. Isso mesmo: lá, era possível conhecer, passo-a-passo, como essa fabulosa bebida foi desenvolvida e como ela é fabricada. Não hesitei e entrei no tour. Logo de

cara, foi servida uma tose de uisque, quase morri de tosse.

Depois, fomos conduzidos a uma outra sala, na qual foi passado um vídeo. Soube que o uisque teria sido criado em 1494, por um tal frei John. Teria uma semelhança com o nome John Walker? Ou o John Walker seria uma homenagem para o

John?

Fiquei sabendo também, pela primeira vez, que

existem vários tipos de uísque, como, por exemplo,

o puro malte, com 100% com cereais maltados; e o

Blended, que é uma verdadeira mistura de destilações. Saí do tour do uisque quase bêbado,

mas com diversos conhecimentos sobre a bebida.

Caminhando pelas ruas, não encontrei mais homens de saia. Ou eles tinham desaparecido ou eu estava tão bêbado que não fui capaz de reconhecê-los. Retornei, sem pensar duas vezes, ao hotel para tomar um banho, dar uma descansada e sair, rumo a uma típica festa escocesa. Reparei em lindas garotas, aparentemente prostituas, entrando em um beco e depois em uma casa, com um som alto. Fui

atrás e, em me dar conta, já estava dentro da casa. O som alto, mesas de sinuca espalhadas, sofás diversos e vários ambientes. Mas, algo me incomodava: a maioria das pessoas era homem e isso me dava alergia. Rapidamente, saí de lá, rumo

a outro bar ou outra festa.

Entrei em outro bar e também: lá a maioria era homem; fui em outro e: a mesma coisa. Voltei para o hotel com saudades do Brasil e com tristeza:

faltam mulheres na Escócia. Será que é por isso que os homens usam saias?

Passei a mão na bunda

Fiquei pouco tempo em Liverpool. A cidade é pequena, os bares fecham cedo e as mulheres não caíram na minha conversa. Sem atrativo algum, me mandei para a capital inglesa. Londres, em alguns aspectos, me lembrou as grandes cidades brasileiras: trânsito, mendigos, fumaça pra todo lado e muitos imigrantes. É lógico que não foi difícil encontrar brasileiros. E das maneiras mais engraçadas.

Caminhando pelas calçadas de mapa na mão, observava as construções típicas e antes que eu chegasse ao grande Big Ben, um sujeito disse assim mesmo, em português: “precisa de ajuda?”. “Não, obrigado. Como você sabe que eu sou brasileiro?”. Ele respondeu: “pela sua roupa, aqui nem está tão frio e você está com três casados”. Aproveitei: “o que tem de bom pra fazer aqui?”. “Há, tem a Jennifer Lopez”. “Onde?”. “No Madame Tussauds”, respondeu o brasileiro, que rapidamente sumiu, como se tivesse entrado no bueiro do Mestre Splinter.

Levei um susto, é claro, embora os meus amigos tivessem me alertado sobre Londres. Falaram que eu ia encontrar de tudo: loucos, estátuas, pilantras, viajantes e ladrões. Passei a mão na calça. Ufa! A carteira estava lá. Prossegui rumo ao Big Ben e me decepcionei. O nome do grande e famoso relógio

inglês, que pesa 13 toneladas e foi instalado no Palácio de Westminster, chama-se Tower Clock. Durante 27 anos, achei que seu nome era Big Ben e, durante poucos segundos, percebi que estava errado. Mas, não só eu: 90% dos turistas de Londres estavam enganados também. Alívio!

Continuei a minha caminhada. Queria a todo custo conhecer Jennifer Lopez e de quebra passar a mão

na bunda dela. Sonhava com isso há 20 anos e

parecia ter chegado a hora. Atriz, cantora, dançarina, compositora, linda e sensual. Essa é Jennifer, que, ao lado de Julia Roberts, é uma das atrizes mais bem pagas de Hollywood. Sua fortuna? Algo em torno de $ 100 milhões.

Corri até o Madame Tussauds e encontrei uma

longa fila. Se eu não tivesse pré-determinado a ver

a minha querida Jennifer, certamente teria

desistido. Entre uma conversa e outra, a fila andou

e soube que outras celebridades também estavam lá: Johnny Depp, George Bush, Pelé, Michael Schumacher e Paul McCartney.

Avistei Johnny Depp e fui falar com ele em inglês:

“oi, sou brasileiro, gostei muito do Piratas do Caribe. Sua atuação foi muito divertida, dei várias risadas. Johnny, quando vai ser seu próximo filme, você já sabe?”. Johnny não respondeu. Tentei novamente: “Vi o seu primeiro filmes, chamado A Hora do Pesadelo. Foi meio assustador, é verdade,

mas

respondeu.

gostei.

Você

estava

bem”.

Ele

não

me

Caminhei pelo Madame Tussauds em busca de outra celebridade. Pessoas, de várias partes do mundo, tiravam fotos com atores e atrizes, os mais famosos do mundo. Fiquei, por um instante, cara a cara com o George Bush. Não hesitei: “e ai, Bush, tudo bem? Como andam as eleições americanas?”. Ele não respondeu! Que gringo mal educado. Eu odeio o Johnny Depp e o Bush.

Estava chateado, mas não desisti. Olhei para o lado e vi Pelé. “Ah! Esse é brasileiro e vai falar comigo”, pensei. Mas, estava enganado. Falei com ele sobre a Copa do Mundo de 1958 e o astro me ignorou. Conservei sobre Ronaldo, Ronaldinho e Alexandre Pato. Mas, Pelé não me respondeu e nem comentou. Caramba, por que estavam todos me ignorando? O que estava acontecendo?

Caminhei, isolado e triste, por alguns minutos, quando me deparei com a minha Jennifer. Sem dificuldades, fui atrás dela, levantei sua saia e passei levemente a mão na bunda dela. Ah! Foi maravilhoso. Jennifer deu um sorrisinho como se estivesse gostando e quase chamei ela para danças, mas havia muita gente querendo conversar com a atriz.

Todo sorridente, andei até encontrar uma sala, repleta de rostos inacabados e com uma grande

placa sobre Madame Tussauds. Descobri, então, que se tratava de um museu de cera e que todas as celebridades que estavam lá não eram reais, e sim bonecos. Foi por isso que Johnny Depp, Pelé e Bush me ignoraram. Foi por isso que eu passei tranquilamente a mão na bunda da minha querida.

Triste e ao mesmo tempo feliz, caminhei pelo Museu, vi outras celebridades, tirei algumas fotos e abracei algumas modelos. Ah! Isso foi realmente bom. E já estava quase me esquecendo do verdadeiro motivo que me levou a visitar Londres:

Sherlock Holmes. Ele morava nessa cidade e eu estava disposto a conhecê-lo o mais rápido possível. Quer saber como termina essa história? Então, não perca o texto do próximo domingo. Elementar, meu caro

Pelo fim das Olimpíadas, já!

Nem começou direito e eu não agüento mais. É Ronaldo pra cá, Dunga pra lá e o Galvão falando “bem amigos da Rede Globo”. Como se não bastasse ainda tem: trânsito nas avenidas, ambulantes chatos vendendo camisetas “meia boca” da seleção brasileira e vinte e dois homens pisando em cima de uma grama até então bem conservada.

O circo da Olimpíada é entediante e me incomoda mais do que três elefantes gordos e barulhentos. A única coisa que presta, nessa época de jogos, são os livros que tocam, levemente ou profundamente, em alguma linha das Olimpíadas. Conteúdo interessante, bem escrito e até certo ponto envolvente.

Não que esse tipo de assunto me agrade, mas irrita

menos do que assistir a um jogo de futebol,

basquete etc, por melhor que ele seja.

Acho que peguei o vírus anti-futebol, anti- Olimpíada, anti-jogos que escondem as desigualdades sociais. Gostaria que essa maldita competição tivesse um fim imediato. Justificando:

a Olimpíada não vai mudar o país, não vai melhorar

a

nossa

qualidade

de

vida.

Ah! Que vida. Que tédio. Vou fechar as janelas,

desligar a TV, ler um livro. Página a página, descubro-me um E.T, isolado num mundo que poucos conhecem: o da leitura.

Digo e repito: precisamos mudar essa realidade. E isso só vai ocorrer com um programa baseado no conceito de letramento. Justificando: a pessoa toma gosto pela leitura somente quando entende o que está lendo e constrói mentalmente os cenários descritos, envolvendo-se com cada uma das páginas, letra a letra.

Esse contexto, embora óbvio e essencial, está presente em menos de 10% das escolas e universidades brasileiras, segundo dados que obtive junto a profissionais dessa área. A explicação: na maioria das instituições, crianças e adolescentes são submetidos a tarefas desgastantes, principalmente a de ler livros difíceis e, posteriormente, realizar uma prova sobre a história, conflitos e personagens apresentados.

Atividades como essa contribuem e muito para que, infelizmente, leitores traumatizados e angustiados se afastem definitivamente dos livros, por melhor que esses sejam. Fica claro, então, que a leitura, seja ela em âmbito escolar ou familiar, não deve ser obrigatória, e sim estimulada a todo instante.

Uma alternativa é deixarmos de lado as normas existentes e desenvolvermos atividades associadas ao letramento, apresentado anteriormente. O

método: professores e pais criam tarefas educacionais, como por exemplo, a encenação de um trecho do livro, e mostram, para as crianças e adolescentes, que a leitura é importante para despertar a criatividade, enriquecer o vocabulário, se escrever corretamente e até mesmo construir novas amizades.

Com essa postura, formamos leitores interessados em ultrapassar as fronteiras do conhecimento, em traçar metas ousadas e em devorar Machado de Assis, Sir. Athur Conan Doyle e as mais complicadas obras de Gabriel García Márquez. E o melhor: quem se apega aos livros, dificilmente consegue viver sem eles.

Boa Olimpíada a todos.

Sobra sexo no teatro

Sempre me perguntei sobre a relação entre teatro e cinema. Recentemente, descobri que ela está no sexo. Tanto o filme quanto as peças apoiam-se em

fantasias. O filme francês Ils (“Eles”), por exemplo,

é assustador e delirante. Uma verdadeira pancada

no cérebro e mensagens subliminares percorrendo todas as cenas como se o prazer de assistir fosse o prazer sexual. Uma história despretensiosa que tira

qualquer um do sério e faz qualquer um ficar sério.

Na mesma linha de temática e proposta, com uma dose extra de sexo, é claro, a peça “Herótica - Cartilha Feminina para Homens Machos” enlouquece e nos faz refletir minuto a minuto sobre

as mulheres. Afinal, quem elas realmente são? Pra que elas servem? O que elas querem?

Esse mundo feminino, obscuro, árido e conflitante,

é cena a cena esclarecido, como se o público lesse

um verdadeiro manual a la Kama Sutra. O melhor é que as atrizes se interagem com o público e todos parecem participar de uma verdadeira orgia teatral.

A peça, em cartaz na cidade de São Paulo, é bem

conduzida por Darson Ribeiro, embora ele ás vezes exagere na marcação de cena. Uma maior fluidez dos atores renderia certamente cenas mais engraçadas e dinâmicas, provocando mais risadas

da platéia.

Indicada para jovens, adultos e idosos,

com Darson Ribeiro, Márcia

Manfredini e minha amiga Karina Barum no palco do Teatro Augusta, é um bom programa para o seu próximo final de semana. Não perca e tente decifre as mulheres! Embora, eu ache que elas são cada

vez mais complicadas.

“Herótica

”,

Tomando todas em Paris

Minha ida a Paris sempre foi planejada e em grande estilo: Torre Eiffel, Louvre e Galeria Lafayete. Estava ansioso, mas me continha. Afinal, tinha deixada a melhor parte da viagem para o final. O motivo: lá, eu poderia gastar todos os euros que haviam sobrado e poderia também conhecer a noite parisiense.

É, e eu estava precisando. Depois de uma viagem totalmente cultural pela Europa, vendo castelos, igrejas e museus, estava na hora de beber até cair. E fui rumo a essa missão, andando por ruas famosas e passando pelo Arco do Triunfo. Parei em um restaurante e solicitei uma cerveja, a minha primeira em Paris. Tomei rapidamente, saboreando cada gole e recusando os petiscos oferecidos. Eu queria encher a cara e nada me fazia mudar de idéia.

Solicitei mais uma cerveja e fui ao banheiro. Pronto: eu estava preparado para ir a uma balada parisiense. Mas pra onde? Andando sem destino e quase cansado, encostei-me em um ponto de ônibus. Observei que um rapaz, mais jovem do que eu, estava cambaleando, com um bafo de vodka. Rapidamente, pensei: “esse é o cara. Ele vai me ajudar. Os bêbados conhecem as melhores baladas”.

Logo me aproximei dele e perguntei, em inglês, é claro: “amigo, tem alguma balada boa em Paris?”. Ele respondeu prontamente: “Paris, é uma merda! Mas, as baladas são muito boas. Siga reto, nessa

direção. Você não vai se arrepender. Mas, me diga, da onde você é?”. “Brasil, sou brasileiro”. “Ah!

Ronaldo, Pelé, Zico, Garrincha

futebol brasileiro, sempre vejo na TV”.

Eu adoro o

Nessa hora, ele foi interrompido por um homem que segurava um grande cartaz. Esse homem, sem disser nem boa noite, afastou o rapaz com quem eu estava conversando e substituiu a propaganda de um relógio fixada no ponto de ônibus por uma propaganda de um filme da Jennifer Lopez. O rapaz ficou louco e começou a berrar: “eu amo a Jennifer, eu a amo”. Dei muita risada e quase contei a ele que havia passado a mão na bunda da Jennifer, mas mudei de idéia.

Agradeci a informação do rapaz e quando me virei ele disse: “calma, não vai beijar a Jennifer?”. “Como?”. “Olhe! E aprenda”. Ele rapidamente deu um beijo de língua na propaganda e eu saí correndo. Segui a direção que ele havia apontado e caminhei bastante até avistar uma muvuca de lindas e estranhas francesas, que estavam conversando em frente a uma estação de metrô, onde outras pessoas haviam entrado.

Fiquei curioso e optei por entrar. No Brasil, não há baladas no Metrô. Então, eu iria a uma festa

totalmente diferente. E, lá fui eu. O ambiente, logo de cara, se mostrou sensacional e fascinante. Duas pistas, tocando som diferente, bebidas caras, mas deliciosas, e francesas, doidas por sexo e orgia.

Nessa balada, não deixei, é claro, de conversar com as garotas francesas, mesmo não falando francês. Tentava manter um diálogo, mas não conseguia. Decidi então me aproximar das mulheres só para olhar os seios, pequenas peras, perto dos mamões brasileiros. Mas, de belos sorrisos, frente a algumas desdentadas brasileiras. Entre uma bebida e outra, observava e fazia comparações: as francesas são frias; as brasileiras quentes.

Bebi sem parar: vodka, cerveja, conhaque e uísque. Misturei tudo e quase tombei. Pra quê? Tentar falar francês e me dar bem. Eta! Que língua difícil. Nem bêbado eu conquistei uma mulher francesa. Mercy Bocu!

Tomei chá com a rainha e virei Sir.

Depois de encontrar Sherlock Holmes e Jennifer Lopez, segui minha trajetória londrina rumo ao Palácio de Buckingham para tomar um chá com a rainha Elizabeth 2ª. Tinha agendado horário com ela em uma conversa que tivemos pelo MSN e, portanto, estava calmo e tranquilo. Em minha mochila, levei um chá que eu adorava: o de camomila. Não sei se havia em Londres, mas eu não podia chegar ao Palácio de mão vazia.

Construído em 1703, pelo Duque de Buckingham,

o Palácio virou casa oficial dos reis em 1837, com

a ascensão da Rainha Vitória ao poder. Nele, já haviam morado Eduardo VII, Jorge IV, Isabel II e muitos outros. O Palácio escapou ileso aos bombardeios da Primeira Guerra Mundial, mas não teve a mesma sorte na Segunda, quando foi bombardeado sete vezes pelos alemães.

Logo que cheguei ao Palácio, um soldado usando trage estranho, roupa vermelha e de arma em punho se dirigiu a mim e perguntou: “Sir. Rodrigo Capella?”. “Sim, sou eu”. “Por favor, me acompanhe, a rainha está lhe esperando”. Nossa, eu mal tinha chegado ao Castelo e tinha recebido o título de Sir. Somente pessoas ilustres, como Paul McCartney, Tom Jones e Mick Jagger, mereceram tal honraria. Tudo bem, eu já havia escrito alguns livros e um deles está sendo adaptado para o

cinema, mas, mesmo assim, eu achei que não merecia ser chamado de Sir. Quase retruquei, mas, por educação, preferi ficar calado.

Caminhei pelo Palácio, passando por salas, quartos

e cozinhas. Os jardins eram imensos e lembravam-

me os grandes parques brasileiros. Por um instante,

o guarda parou e disse: “espere aqui, a rainha logo

virá”. Aguardei com ansiedade, sentando no sofá e olhando as minhas anotações. Tinha muito a

conversar com ela, colocar a conversa em dia e refleti sobre os problemas mundiais.

Ouvi passos lentos, mas precisos. Era ela: Elizabeth 2ª. A rainha havia tomado posse há muito tempo, mas estava mais jovial do que nunca. Simpática e alegre, ela logo lançou uma pergunta: “Como está Pelé?”. “Está bem, ele é um atacante de primeira”. “Continha marcando muitos gols?”. “Não, ele parou há muito tempo, mas ás vezes participa de uns jogos beneficentes”. “E você, Rodrigo, alguma novidade?”. “Muitas, estou realizando muitos trabalhos artísticos. Depois, gostaria que a senhora lesse”. “Claro, farei com prazer”.

Contei sobre as minhas novidades, falamos sobre o Brasil, o sapo barbudo que comanda a nação tupiniquim, a Inglaterra e o Palácio de Buckingham. Em certo momento, a rainha pediu licença e se levantou. Recostei no sofá e, por longos minutos cai no sono. Fui acordado por meu amigo Sherlock Holmes e seu fiel seguidor

Watson: “Rodrigo, acorda, acorda, a rainha sumiu”. “Como? Ela estava logo aqui. Apenas, deu uma saída, ela ia voltar logo”. “Mas, não voltou, os guardas estão caídos no chão, alguém entrou aqui e levou a nossa rainha”. “Não acredito!”.

É verdade, a rainha havia sumido. E todos estavam

loucos. Afinal como uma das autoridades mais poderosas da Inglaterra poderia sumir de uma hora para a outra? Que mistério! E eu era um dos protagonistas. Afinal, conversei com a rainha no dia em que ela desapareceu. Contei a Holmes a conversa que havia tido com a rainha, disse a ela tudo nos mínimos detalhes. Meu amigo suspirou,

que interessante. Ela já nos

todo sorridente: “Hum

deu uma pista. Só não consigo entender porque os guardas estão caídos no chão. Hum

Iniciamos a busca pelo Palácio e nenhum sinal da rainha. Afinal, onde ela estava? Procuramos pelo entorno e também nada. Andamos bastante até que

Holmes esclamou: “Calma, não vamos nos desesperar. Já sei o que aconteceu. A rainha nunca saiu do Palácio. Ela esteve lá o tempo todo”. “Mas,

e os guardas? Por que eles estavam caídos, o que

ocorreu com eles”. “A rainha mandou eles cairem no chão. Tudo não passou de uma brincadeira. Rodrigo, ela quiz bricar com você e conseguiu. Você caiu direitinho”. Holmes, deu risada. Watson também.

Quando voltamos ao Palácio, a rainha estava lá, tomando chá de camomila. Aproximamos e ela nos ofereceu a bebida. “Rodrigo, espero que não fique chatiado”. “Não, sem problemas. Mas, por que a senhora fez isso? Ficamos preocupados!”. “Eu quis brincar, a vida nesse Palácio, ás vezes é meio chata”.

Demos risadas. Se a vida no Palácio era chata, imagina a vida dos mendigos na rua. Imagina a vida de quem precisa lutar por comida e que sonha com dias melhores. Imagina a vida de quem sonha em ser rainha, então?

Para quem (realmente) gosta de Beatles

A minha ida a Liverpool não estava prevista, mas, quando soube que essa cidade é um verdadeiro santuário dos Beatles, não pensei duas vezes e mudei minha trajetória. Afinal, como qualquer beatlemaniaco que se preze, eu precisava conhecer Strawberry Field, The Cavern Club, Mathew Street, Beatles Story, Abbey Road e a casa de Paul, Ringo, John e George.

À primeira vista, Liverpool é apenas mais uma pequena cidade do interior da Inglaterra, com muitos pubs, cerveja e repleta de pessoas com mais de cinquenta anos. Pode-se concluir, então, que ela nada tem de diferente de York, onde visitei há poucos dias. Errado! Liverpool é uma cidade mágica, vibrante e repleta de melodia.

Meu senso de direção é horrível, por isso paguei o que foi necessário para pegar o primeiro Beatles tour e conhecer histórias hilariantes sobre o verdadeiro quarteto fantástico. A primeira diz respeito ao Paul. Habitando uma pequena casa de um bairro afastado de Liverpool, o músico se deparou com um rapaz que disse: “ei, eu te levo até a casa do Paul, são apenas 10 libras”. Paul caiu em gargalhada e percebeu, nesse momento, que os Beatles estavam populares e que até os

adolescentes estavam ganhando dinheiro com a banda.

A origem dos Beatles se deu com a dupla Lennon MacCartney. Paul e John se conheceram quando tinham 15 anos. Nessa época, Lennon tinha uma banda chamada Quarry Men e Paul pediu para fazer uma apresentação de guitarra ao jovem amigo. John adorou a apresentação e convidou Paul para fazer parte da banda. Depois, Paul trouxe George, um então garoto de apenas 14 anos, e o pintor Stuart Sutcliffe, que tocaria baixo.

A banda iniciou uma série de shows na Escócia, graças ao empresário Andy Williams, que conseguiu também levar os jovens até a Alemanha, onde fizeram uma séria de apresentações no clube Kaiserkeller. Stuart se apaixonou por uma garota da Alemanha e saiu dos Beatles. Provavelmente, se arrependeu bastante!

Anos depois, os Beatles trocaram de empresários e o quarteto passou a ser dirigido por Brian Epstein, que era gerente da famosa loja de discos North End Music Stores. Pete foi, então, despedido e os Beatles trouxeram Ringo Star, alterando pela última vez a formação da banda. Um ano depois, os Beatles lançaram seu primeiro disco, chamado Love Me Do, que foi um tremendo sucesso e vendeu mais de cem mil exemplares. Depois, gravaram Please Please Me, que superou o primeiro disco e atingiu a marca de mais de

quinhentos

mil

exemplares

vendidos.

Algo

sensacional!

Pouco tempo depois, os Beatles embarcaram em turnê, marcaram épocas e deu-se início a Beatlhemania, que existe até hoje. Essa é apenas uma pequena sinopse da história da banda. Mas, o tour me traria também outras curiosidades para entender, principalmente, o processo de criação dos Beatles. Strawberry Fields (Let me take you down / ´Cause I´m going to Strawberry Fields/ Nothing is real / And nothing to get hung about / Strawberry Fields forever) foi composta em homenagem a um jardim Escondido, trancado por portões, repleto de mato, onde John e Paul subiam as árvores para se divertir, compor e viajar mundo a fora. É lógico, tirei foto na porta do portão.

O tour, ao som de Beatles, é claro, terminou no The Cavern Club, localizado na Mathew Street. Lá, o quarteto iniciou oficialmente a sua carreira e fez quase 300 apresentações, entre 1961 e 1963. A última, ocorrida em 03 de agosto, foi emocionante. No Beatles Story, museu da banda, ouvi depoimentos e sentei em uma das cadeiras do antigo The Cavern Club. Foi como se eu tivesse participado da história dos Beatles. No Beatles Story, há também um submarino gigante, em homenagem à canção Yellow Submarine, non sense, mas repleta de harmonia e alegria: In the town where I was born / Lived a man who sailed to

sea /

submarines.

And he told us of

his

life /

In the land of

Ao conhecer todas essas histórias e vivenciar esses momentos, eu estava contente e queria, para completar essa alegria, conhecer apenas a Abbey Road, rua que ficou famosa após os Beatles tirarem uma foto na faixa de pedestre. Eu queria fazer o mesmo, então fui á procura da Abbey Road. Mas, para minha tristeza, descobri que a rua ficava em Londres e não em Liverpool, onde eu estava. Ops! É por isso que sempre falam: quanto mais conhecemos algo, mais descobrimos que sabemos pouco sobre esse algo.

Jornalistas no cinema: ação!

“Onde Andará Dulce Veiga?” é o novo filme do cineasta Guilherme de Almeida Prado, e também o melhor deles. O longa, focado a princípio na tara sexual, nos remete aos antecessores “A Dama do Cine Shangai” e “Flor do Desejo”, mas, no decorrer das cenas, o trabalho ganha em qualidade por se mostrar mais ousado e conflitante.

O diretor, que teve forte atuação no período da

Retomada, rejeita o estereotipo de jornalista que

toma café a cada cinco minutos e traz um profissional de comunicação que aprecia pó e maconha. E mais: é tímido, não gosta de se expressar, tem conflitos internos e anda como se fosse um rato atrás do queijo humano.

É possível, claro, encontrar semelhanças como

outros filmes, o que poderia diminuir de primeiro

impacto a grandiosidade da película. Entretanto, ocorre o inverso. Guilherme soube, meio que

inconsciente, buscar elementos ocultos em obras- primas, como “A montanha dos sete abutres”, filme também protagonizado por um jornalista. Desempregado devido a sua conduta questionável, o personagem vai ao estado do Novo México atrás

de uma grande matéria. Em “Onde Andará Dulce

Veiga”, o jornalista Caio também está a procura,

mas de alguém e não de algo. Afinal, a musa que

dá nome ao filme está desaparecida há vinte anos.

Se

encontrar Dulce Veiga, o jornalista terá um furo

de

reportagem, o maior de sua carreira.

O

furo de reportagem é, aliás, o que motiva o

jornalista. Sem novidades, o profissional se acomoda e não aprecia o próprio trabalho. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Locke, o protagonista do filme ítalo-francês “Profissão:

Repórter”. A história narra a rotina de um homem aventureiro, mas angustiado; cansado por registrar as mesmas coisas e sem perceptivas de mudanças.

Quando Caio completa a sua grande façanha – encontrar Dulce-, ele fica frente a frente com a Diva sem saber o que fazer – praticamente imóvel e angustiado. E quando pronuncia algo, já é tarde:

Dulce não quer dar respostas, ela quer apenas fazer perguntas.

O cavalo de Agatha Christie

A morte de um sacerdote poderia ser um crime comum, mas nas mãos de Agatha Christie esse episódio se transforma no alicerce necessário para fazer de “O cavalo amarelo” um ótimo suspense. Atualmente, leio esse livro sempre acompanhado de um bloco de anotações para não perder os detalhes e as muitas referências feitas a Shakespeare.

Três mulheres estranhas, que se julgam a reencarnação das bruxas de Macbeth, um papel escondido no sapato do morto e pessoas que desaparecem por telepatia. Esses são alguns dos elementos oferecidos pela Rainha do Crime ao longo desse saboroso romance.

Para tristeza dos fãs de Hercule Poirot, Agatha Christie recorre ao inspetor Lejeune para solucionar tal mistério. E acerta na escolha. Lejeune é o personagem ideal para procurar pistas em um cenário composto por métodos particulares, magia negra e tortura psicológica. Tudo isso é bem distribuído pela autora, sem deixar com que a obra tenha um caráter sobrenatural.

CONTOS

Loucuras de um escritor

Entre um cachimbo e outro, Jonas escrevia pequenas frases em seu diário úmido e manchado por patas de cachorro. Desiludido com o mundo da literatura e com as mãos fixas na caneta, o autor, que chegou a estar na lista dos mais vendidos, procurava se ocupar com pequenas histórias, umas mais absurdas do que as outras. Faltava-lhe imaginação, faltava-lhe elementos para se construir uma boa narração.

Largava o diário, caminhava pelo pequeno corredor, voltava a apanhar o caderno, largava-o poucos minutos depois. Jonas realmente estava deprimido e, em um ato fora do comum, abriu a porta e ganhou a rua, talvez em busca de curiosidades, talvez atrás se sonhos antigos ou simplesmente para respirar um pouco.

Já era tarde. O relógio, apertando o pulso esquerdo e deixando marcas, sinalizava onze e meia da noite. Jonas caminhava freneticamente. Passava por parques, ruas pequenas, campos de futebol. O autor ia em direção á ponte, só podia estar indo naquela direção. O vento forte e o chuvisco atrapalhavam a caminhada, mas Jonas enfrentava os obstáculos e os superava.

Cansado e tremulo, Jonas chegou ao destino, debruçou-se na ponte iluminada e antiga, ganhou

força extra e saiu correndo até a outra extremidade da construção. Fez isso durante alguns minutos e horas, circulando por quase toda a pequena e singular cidade. Voltou pra casa, tomou um suco de acerola com menta, deitou-se na poltrona rasgada e lá dormiu desconfortavelmente durante horas, chegou até a sonhar com os tempos de sucesso literário.

Acordou com uma pomba debatendo-se na janela, como se quisesse entrar na casa do autor. Jonas pensou e acabou cedendo. A pomba branca e extremamente agitada sentiu-se á vontade, como se tivesse a companhia de outras. Pegava o diário do autor, percorrida os corredores e rapidamente largava o caderno. Jonas, em mais um ato fora do comum, abriu uma gaveta, pegou sua 38 e disparou um tiro contra a pobre pomba.

Paredes manchadas, animal morto pelo chão e cheiro impregnando a casa. Jonas observou tudo isso e refletiu por alguns segundos. Pegou a arma e a segurou com uma firmeza singular. Mirou em direção a sua cabeça e sentou na cadeira. Lá, dormiu durante horas, dias e anos.

Cupim de Natal

A árvore piscava com tal fervura, bolas brancas e

vermelhas davam o realce, enfeites de laços e cavalos carregavam ternura, no olhar da criança.

Piscava num ritmo prolixo, fixamente olhava o enfeite mais alto, era um Papai Noel no topo da árvore, despertando nuança no olhar meigo.

A criança, enfeitiçada estava, a admirar o falso real,

a crer que Papai Noel iria, descer da árvore e dá-

lhe, um beijo no rosto.

Observava a árvore diariamente, como se buscasse um algo mais, percorria ao redor dos galhos, sentia

o perfume vago.

Fixava os olhos atrás da árvore, abria e fechava a porta do armário, passava a mão num furo, feito por cupim.

Observava a árvore, canto por canto, estava quase aos prantos, queria ver se o furo, ia contaminar os enfeites, derrubar os galhos, estragar Papai Noel e paralisar os cavalos.

Deus, obrigado por ter criado as mulheres

Corria pelas estreitas calçadas de São Paulo rumo ao Parque do Ibirapuera. O calor era intenso e a camiseta vermelha fazia-me transpirar mais ainda, como se eu estivesse dentro de um caldeirão. Opa! Bem que podiam cozinhar uma loira junto comigo, de preferência sorridente, gostosa e acompanhada por uma latinha de cerveja.

Exibia o meu corpo atlético, conquistado após quinze anos de terapia ocupacional e seis meses de academia. Pela primeira vez, sentia-me confiante, um verdadeiro Deus Grego. Mulheres de vários tipos olhavam pra mim, porém só as feias, que pareciam ter saído do Largo da Batata, é que mexiam comigo. Que maldição! Não devia ter malhado tanto.

- Nossa, que lindo - dizia uma delas.

- Queria um desse lá em casa - disparava a outra.

Ajeitava o cabelo, tirava o suor da testa e dava um sorriso. Que raiva, eu estava gostando daquele chamego. Mas, um solteiro como eu precisava de um bom partido. Continuei correndo! Pensava em muitas coisas: o pneu do carro furado, minha mãe rolando pelas escadas de incêndio, meu irmão passando mal após comer uma coxinha de

Pensava em tudo, queria distância

calabresa

daquelas feiosas. “Saiam, saiam, antes que eu chame a carrocinha”, disse alto, como se tivesse um megafone nas mãos.

Por falar em cachorro, não poderia esquecer-me de Brutus. Orelhudo e pulguento, o miserável miava em vez de latir. Miauuu-AU!! Ele chegou em casa com dois meses. Não, Brutus não veio sozinho, tive que buscá-lo no pet shop. Aos poucos, o pequeno animal foi adquirindo outras formas. Pica-pau roedor de móveis, rato comedor de queijo, lesma preguiçosa

Um cão com crise de identidade? Era só o que faltava. Já bastava o dono. Tomei uma decisão drástica, uma das mais difíceis de minha vida. Por que não mimar o meu cachorro? Minha mãe fez isso comigo, por que não ia funcionar com o Brutus?

A primeira ação foi a de criar um site para ele. Optei pelo www.cachorrorebelde.au Afinal, ele precisava se acalmar um pouco e eu tinha que me ocupar. Qual o solteiro que não gosta de passar horas e horas na frente de um computador?

Aos poucos, Brutus se transformou. Os pêlos ficaram mais brilhantes, parecendo a peruca da Elke Maravilha. Seu rabo ganhou vida própria, achando que era um helicóptero. Brutus mostrou-se mais calmo, sorria várias vezes ao dia e até dava

cambalhotas. Nossa, eu estava conseguindo mimar

o cachorro.

Ainda rumo ao Parque Ibirapuera, eu corria, corria

e as vozes das feiosas continuavam a me perseguir, aterrorizando os meus pensamentos:

- Nossa, que lindo - dizia uma delas.

- Queria um desse lá em casa - disparava a outra.

Fingia que não era comigo e continuava correndo, sonhando, lembrando de quando mimava o Brutus. Depois de criar o site, comecei a assistir televisão com ele, mas Brutus não gostava de novelas brasileiras. Mudamos de canal, ele detestou as mexicanas e preferimos alugar alguns filmes. Depois de ver Os 101 Dálmatas, Brutus latia sem parar, levantava as patinhas e se mexia de um lado para o outro, mostrando-se um verdadeiro ator. Ele queria estar em Hollywood.

Mas, o danado continuava a comer o meu chinelo e achei que ele precisava de um pouco de música, talvez clássica. Optei pela quinta sinfonia de Beethoven. O cachorro se acalmava por alguns minutos, mas logo começava a roer tudo novamente. Eu devia ter dado a maçã da Branca de Neve pra ele.

- Nossa, que lindo - dizia uma das feiosas.

- Queria um desse lá em casa - disparava a outra.

Olhei para o lado e as mulheres estavam me seguindo. Nossa, que coisa maluca! Olhei para o chão e vi o Brutus. As feiosas estavam apontando para ele. Ufa! Fiquei bastante contente. Aqueles elogios eram para o Brutus e não pra mim. Deus, obrigado por ter criado os cachorros.

Fastio e pejo de escriba

É bem provável que você esteja lendo meus últimos respiros literários. Não que eu queira rumar uma vida melhor – acho que aqui não se cabe tal capricho. O que almejo é vida sem fastio, sem pejo. E, portanto, sem registro. Malditas anotações atemporais de tirar o sono, dar insônia e excesso de saliva na boca.

Dizem – os mais afortunados – que escrever é uma dádiva. Se tal façanha for concreta, deixei de reinar quando os abandonei – lápis e borracha. O barulho das teclas nunca me fascinou. Aliás, acho eu, que essa tecnologia atrasa as palavras. Era, portanto, no toque do papel que criava personagens – uns príncipes; outros candangos. Quando transformei todos em seres simples, veio-me o fastio. Personagem tem áurea magnânima, mas os meus já não a despertavam há anos (era como se todos tivessem a mesma alma, ao mesmo instante. Um tédio!). O pejo veio na sequência: sem bons personagens não se tem ritmo. Comenta – o estudioso mais crítico – que o leitor precisa se sentir só para degustar. E que o caviar só é ingerido com um certo toque de sabor. Sem sabor e caviar, perde-se o ritmo, encontra-se o pejo.

Em busca de cenários autênticos, já percorri o Brasil todo. Não encontrei atração literária, apenas novo lar: mais calmo, nem por isso com mais

elementos. Florianópolis é onde, portanto, o melhor da narrativa começa. E – contrariando a meteorologia daquele dia – o sol não veio de manhã. Foi substituído por um ruído e um pacote. O ruído eu ouvi as sete da manhã, junto ao cantar do agitado curió a fazer ninho. A escada do hotel rangia e em passos simétricos alguém – ligeiramente apressado – depositou algo em frente ao quarto 314. Quando abri a porta, o mancar levou-me a um embrulho pardo e úmido e preso a cordões e apertado e curioso.

Relutei – como faço sempre – em desenrolar os cordões. Poderia eu encontrar algo diferente desses meus trinta anos de poesia? Pronunciei o “algo”, com intensidade, como fiz nos dias anteriores. A tesoura guiou minha mão esquerda aos cordões e um corte certeiro desfez o que poderia ser considerado uma arte de empacotar. Juntei esse quarto embrulho aos demais: o primeiro intocado; o seguinte com um leve rasgo; o terceiro com um furo e um cordão cortado. E este com um buraco e sem dois cordões paralelos. A curiosidade – é lógico – aumentava dia-a-dia. O primeiro ignorei; o segundo quase abri; o terceiro contive-me; o quarto

Eu queria conhecer o conteúdo deste

e dos demais. Sabia, entretanto, que não poderia.

aos prantos

Os fãs nos enviam itens com a boa intenção que destrói casamentos. E depois questionam: você

deixou de ser escriba? É a demagogia que se funde

à ironia e irrita meus ouvidos. Palavras tornam-se

obsoletas e bilhetes e pacotes e mensagens sem remetente viram – ou pelo menos deveriam – invisíveis.

Alívio se faz quando se recebe algo esperado, com conteúdo e formas previamente calculados. No mundo virtual, ter contato com algo presente, sem conhecê-lo é quase um atentado mental. Imagina-se de tudo, se programa uma resposta, fica confuso, como se enforcasse nos cordões dos embrulhos.

Poderiam eles não terem sido enviados por fãs?

Embrulhos caprichosos, da irritação no ouvido,

demagogia de interesses, alegoria profana

ou o quê poderia sucumbir-me tal irritação? Se bomba fosse, já – e até faço gosto – assistiria desgraças ao lado de Demo. Se vírus fosse, derreteria minha escrita sem direito a testemunho posterior. Se comida fosse, o cheiro a denunciaria. Se macumba fosse,

Quem

Se, Se, Se. A dúvida castiga, corrói e pergunta sorrindo: por que você não me guia? Ela quer paz, mas provoca. Parece muito com as mulheres: não sabem a hora de nos deixar a pensar sobre elas, sobre mundo, overmundo! E elas permanecem tímidas, mas sempre aí. Então, quem os poderia ter enviado? Antiga namorada? Duvido, não teria tal capricho. Um familiar? Muito menos. Só lembram- se de mim em datas festivas ou quando preciso comprar presentes. Então, quem? O que? Putz. Pausa. A matemática precisa, nessas horas, é amiga

de se descobrir. Talvez pontuar o que e como as coisas nos norteiam de modo a complicar as ações

e contribuir para a dúvida.

Ah! Nunca fui um esperto em antecipação. No entanto, gosto de fazê-la, aos poucos, preferencialmente no ranger noturno dos dentes.

Cochilei no sofá, abraçado a Tico – urso barrigudo de minha filha. Olhos de chamego, pêlos pardos,

Despertei depois de horas, com o

curió do ninho. Guiou-me ao quinto, colocado debaixo da porta do 314. Olhei aos demais e o mancar fez-me apanhar o novo. Coloquei-o na mesa, bem próximo aos outros. A tesoura já estava próxima, ao lado do quarto. Libertei-o dos cordões, fiz um furo maior e identifiquei. Remetente era “D.J”. Recorri – obviamente – à agenda. De nada acrescentou: lá não havia sobrenome, apenas apelido e pronome. Nunca encontrei motivos – agora os tenho – de preenchê-la corretamente.

mãos na cintura

Caminhei pelos corredores apertados, quase me debruçando nas paredes. A resposta estava sempre

à frente. Parecia ter se preparado anos antes. Como alcançá-la sem ter a fórmula correta da

perseguição? Sempre assisti a filmes, li muito livros – todos de mistério e pistas. Mas, quando se

é personagem, a complicação alia-se ao desespero

aparente. Há alguma saída ou a mais fácil terei que usar?

Relutei, busquei ar puro na varanda, com binóculo. Precisava encontrar algo longe, nem que fosse por um instante. Um algo perdido atrás do monte, que se fizesse importante e momentos de dúvidas.

Cochilei, à tarde, no sofá, e, sem curió, manquei até

a porta para encontrar o segundo embrulho do dia.

A frequência parecia aumentar demasiadamente,

sem necessidade aparente. O dente rangia e a cada

quarto de hora novo embrulho eu recebia. O fastio

e o pejo pintavam gravura, a qualquer hora do dia.

Pudera eu descobrir o remetente sem desembrulhá- los? Quisera o remetente tocar a campainha para

encontrá-lo?

Mais um quarto, um outro embrulho. E assim se foi ao longo do dia. Totalizaram-se várias dezenas deles. Mesma cor e papel e cordões e cheiro. Mesmo tudo! Cheiro azedo, de quase desmaiar, pronunciar palavras esquisitas. Cheiro de dormir, durante horas, acordar ao som dos curiós para o mancar nada encontrar debaixo da porta do 314. Os embrulhos haviam parado e a curiosidade aumentava.

O que que havia dentro dos embrulhos? O que que

eu

poderia encontrar diferente dos meus trinta anos

de

poesia? Cortei e rasguei um a um. Libertei-os

dos cordões e papéis pardos, como se abrisse a gaiola das loucas. Deparei-me com caixas azuis – lindas caixas azuis com desenhos gregos e mensagens positivas: “cubra-me de beijos, rápido”; “você eu quero”; “cubra-me”.

Caixa esquisita e picante, mas conteúdo similar à

maioria das caixas: cartas, cartas amassadas, cartas amassadas e sujas. Manuscritas em letras redondas

e legíveis à primeira passada de olhos. Alguns

recortes de jornais – fotos e gravuras – colados entre cada linha do texto, como se fizessem parte

de toda história. Cartas que lembram o passado e

despertam lágrimas: “na juventude, o simples sinal

de brincar provoca desejos”; que desafiam o futuro:

“nada que fosse, justificava tal postura. O além a ninguém se pertence. O depois, nunca visto aquém”; e o hoje: “mudar o que de vitória seguida, ainda que você me alia”.

Mensagens que denotam certo sacrifício de escrita. É, por isso, que as cartas são símbolos fortes que atravessam gerações, buscam companhia em garrafas, gavetas e embrulhos pardos. Cheiro azedo, de quase desmaiar, pronunciar palavras esquisitas. Cheiro de dormir, acordar e ficar a pensar. Quando a pergunta é solucionada, domina- se o medo e vem outra. O que que essas caixas estavam fazendo debaixo de minha porta? E mais uma: por que que nunca as joguei fora?

Talvez, porque, cartas de ler a tarde toda, sem problema de ritmo ou tempo. Para se deliciar com um café e mancar confuso pelos corredores em busca dela, sem ter norte ou aptidão para desenhar. Cartas podem voar em direção oposta ao dom para se contestar que atrelado a isso se tem a vivência.

Cartas! E principalmente cartas endereçadas a alguém – o vizinho do 315.

Meu cachorro é tarado por petisco

Uísque seria um cãozinho normal, se não fosse o seu incrível desejo de experimentar novos petiscos. Queijo, presunto, salame, mortadela. Não importa o sabor. Uísque é tarado por salgados e fica bravo quando Juliana, sua dona, passa muitos dias sem oferecer esses alimentos deliciosos.

O vício é tanto que o cãozinho não economiza seus truques a la Harry Potter para chamar a atenção de Juliana e ganhar o grande prêmio, um petisco. Ele faz de tudo. Destrói as meias, lambe o sofá e, de quebra, morde a bunda do carteiro, deixando marcas. Juliana fica envergonhada, pede desculpas, mas o carteiro não responde; sabe que isso ainda

vai

acontecer muitas vezes.

No

fim do dia, um pouco antes do jantar, a pequena

menina sempre acaba perdoando o cachorro e leva

o pulguento para passear numa praça bem

arborizada. Lá, observa um rapaz, atlético e sem camisa, que acena com uma das mãos. É Marcelo, um antigo namorado de Juliana. Terminaram há dois meses e a atração entre eles é muito grande.

O motivo da separação é, aparentemente, banal,

mas pode ser facilmente compreendido. Após ir ao cinema e assistir o Código Da Vinci, a pequena menina convidou o namoradinho para entrar em casa e, quando abriu a porta, encontrou tudo destruído. Uma onda gigante parecia ter entrado na

casa. Juliana olhou para Uísque, que estava escondido atrás da porta, louco por um petisco. Marcelo, que não arruma nem o quarto dele, saiu correndo, sem rumo, sem direção. Depois desse episódio, eles nunca mais se viram.

Juliana e Uísque continuaram a andar pela praça. Mendigos pediam dinheiro, pessoas andavam de bicicleta e um rapaz vendia bolinho de queijo. O cheiro rapidamente entrou nas narinas de Uísque. O cãozinho soltou-se da coleira e correu em direção ao carrinho, como se estivesse no cio atrás de uma cadelinha. O que se viu a partir daí foi um verdadeiro show de horror. Uísque lambeu o vendedor, derrubou o carrinho e comeu quase toda mercadoria. Juliana não tinha dinheiro para pagar o prejuízo e teve que chamar os pais. A pequena menina e o cãozinho acabaram trancados num canil e, se não fosse a mãe dela ter remorso, dormiriam a noite lá, ao relento, passando frio e fome.

Mas, essa não foi a situação mais absurda que Juliana viveu. Ela se lembra de outras. Uísque, num belo dia, decretou greve de fome. O motivo dessa travessura: ele não recebeu petiscos durante quase uma semana. Juliana indignou-se e não teve dúvida: ignorou o cãozinho, que acabou triste e doente. A menininha mostrou-se arrependida e abraçou Uísque, como se ele fosse um ursinho de pelúcia bem peludo. No dia seguinte, o cachorrinho ganhou uma grande caixa de petiscos e abanou o rabo durante três horas.

Juliana lembra-se de muitas histórias protagonizadas por Uísques, algumas até estão anotadas no diário da menininha, que dá muitas risadas quando se lembra dos fatos. No último Carnaval, a dupla dinâmica viajou para Florianópolis, onde a tia de Juliana tem uma casa enorme, com piscina, piano e bananeira.

Quando chegou ao jardim, Uísque, não titubeou, e rapidamente comeu as rosas vermelhas, que estavam lindas e cheirosas. A tia de Juliana berrou longamente e Uísque correu para se esconder debaixo da mesa. O motivo dessa travessura: ele não recebeu petiscos durante quase uma semana.

Depois de todas essas esquisitices, Juliana aprendeu a lição: o Uísque deve comer petisco todos os dias, senão ele fica louco e comete maluquices, inexplicáveis até mesmo para a ciência canina. A pequena menina sabe também que todos os cães, assim como os homens, têm defeitos e que esses devem ser respeitados para que a convivência fique cada vez mais harmoniosas e saborosas, assim como os petiscos. Hum

REPORTAGENS

Como tirar foto de seu cachorro

Rabinho pra cá, orelha pra lá. Tirar foto do cachorro não é nada fácil. Exige agilidade, paciência e, principalmente, muita tranqüilidade. Para ajudar você na hora do click, conversamos com fotógrafos especializados em registrar animais de quatro patas. Pegue a máquina fotográfica, coloque um filme e prepare-se para as dicas de Lionel Falcon e João Carlos Duarte, o Johnny.

Sem Stress Crie um clima de harmonia entre você e o cachorro, utilizando uma música bem suave ou optando apenas pelo silêncio. Seu companheiro canino vai ficar relaxado, comportando-se muito bem na hora das fotos.

Dentro de casa Fotografar o cachorro dentro de casa pode ser uma opção, mas você precisa de um ambiente muito bem iluminado e de uma câmera digital que permita elevar o ISO para pelo menos 800. Mesmo assim, corre-se o risco da foto ficar granulada.

Janelas Procure não colocar o animal na frente de janelas e vitrôs. A câmera pode fazer uma leitura errada da luz, danificando as fotos. Nesses casos, o uso do flash não é recomendável, pois contribui para a perda de profundidade.

Luz Ideal Fotografar no sol é um pouco complicado, pois ele é muito agressivo e atrapalha o processo. O ideal é tirar fotos durante o amanhecer ou ao entardecer. São os horários em que temos uma melhor temperatura. Tente um dia nublado, que proporciona naturalmente um equilíbrio de luz natural.

Sol e Sombra Se você está em busca de fotos mais bonitas, escolha um lugar onde se possa mesclar sol e sombra. Com esses dois extremos, a fotografia ganha mais vida e o resultado será inesquecível.

Imite Sente-se, ajoelhe-se, não importa. Fotografe seu amiguinho como se ele fosse do seu tamanho. Viva um dia de cão e você não vai se arrepender.

Convivência Conviva com seu cão, teste ele em algumas situações. Avalie as reações do animal e quando você estiver entendendo como ele pensa é hora de tentar fotografá-lo. Tente novos ângulos, procure expressões inusitadas e fixe os olhos no seu animal de estimação.

Dicas para você cuidar melhor de seu cão

Não é preciso analisar pesquisas científicas para saber que o homem recorre, cada vez mais, aos animais de estimação, principalmente os cães, para suprir a carência afetiva. Tal fato não se restringe apenas aos solteiros. Homens casados, noivos e namorando não desgrudam do seu cachorro. As evidências estão dentro das casas, nas portas dos pet shops e, é claro, nas áreas verdes.

O cozinheiro Gabriel Zuniga, por exemplo, sempre leva Dunga, seu fiel companheiro canino, para dar uma volta no parque do Ibirapuera, em São Paulo. Foi lá que eu conversei um pouco com ele. “Ás vezes, estou chateado, preocupado com alguma coisa, e o Dunga me distrai, querendo brincar com suas bolas de plástico ou mostrando-se um atleta nato, ao correr pela casa. Para retribuir essa atenção, eu dou um grande abraço”, dispara Gabriel, acariciando a cabeça do seu cachorro.

Para o veterinário Carlos Éverton Curti, do Hospital SOS Animal, esse tipo de companheirismo descrito acima é muito importante tanto para o cão quanto para o homem, mas o doutor alerta que é necessário certos cuidados. “Na relação homem-cão, vale abraçar, passear e segurar

o cachorro no colo, mas nada de dar beijo na boca

ou

de morder o animal”, orienta o veterinário.

O

que mais podemos fazer pelos nossos cachorros?

Será que vale a pena bater um papo com nosso companheiro peludo? O doutor Carlos acredita que sim. “É perfeitamente normal as pessoas conversarem com os cães, tem gente até que fala com plantas, estátuas e diários”, exemplifica. Mas, sobre quais assuntos devemos conversar com nossos companheiros? No meu livro Como mimar seu cão, lançado recentemente pela Editora Zouk, eu recomendo que os diálogos durem no mínimo duas horas por dia e abordem temas variados, desde política, economia, mas passando pelos lançamentos caninos, é claro.

O cão, digamos assim, consegue entender tudo o

que nós falamos durante uma conversa? De acordo com o veterinário Fabiano Braz, da Pet Center Marginal, eles não têm essa capacidade, mas sabem diferenciar um elogio de uma bronca, por meio tom, volume e intensidade da voz dos donos.

Será que um bate-papo é suficiente? Talvez, mas há quem prefira ir além e até cantar uma música para seu cão. É o caso de Homero Baroni, ex- participante do programa Fama, da TV Globo. “O Toby deita no chão, encosta a cabeça no tapete e espera eu pronunciar as primeiras palavras. Ele fica atento, olhando pra mim, como se estivesse assistindo a um bom show. Quando a música

termina, meu amigo se levanta e sai circulando pela casa, como se estivesse procurando algo. O Toby é muito engraçado, divertido e inteligente”, alegra-se Homero, que pensa em gravar uma música para seu cão.

Cantorias a parte, uma outra preocupação que devemos ter com nossos companheiros caninos é a

de escolher um bom alimento pra ele comer. Uma

rápida visita a um pet-shop encontramos estantes cheias de rações, oferecendo alimentos com os diversos tipos de nutrientes. Mas, como comprar a ração mais apropriada?

De acordo com a veterinária Renata Vanzo Carron, da Central de Distribuição Royal Canin, o dono deve escolher o alimento em decorrência do porte, idade, estado fisiológico, atividade e raça do cachorro. “Os alimentos Super Premium são os mais indicados, por serem perfeitamente balanceados e terem uma ótima combinação de nutrientes”, recomenda

Vamos a outra dica. Essa informação vai para os donos fumantes: a Universidade de Brasília (Unb) concluiu recentemente um estudo e observou que

os

animais de quatro patas podem apresentar tosse

e

bronquite se os donos fumam diariamente.

Portanto, anote um recado: quando você colocar um cigarro na boca, tranque-se no quarto e contrate

um profissional para tomar conta do cão. Afinal, o melhor amigo do homem também precisa se

divertir, correr atrás de bolinhas e morder o tornozelo da vizinha.

Vale uma última recomendação: se você seguir todas essas dicas e se apegar demais ao seu companheiro canino, não fique preocupado. A relação entre homens e cães normalmente só traz benefícios, defende o veterinário Fabiano Braz, da Pet Center Marginal. “É impossível encontrarmos uma amizade tão sincera e fiel quanto à existente entre o homem e o cachorro”.

Proteja seu cão, antes que seja tarde

Quando você for ao trabalho, não se esqueça de fechar as janelas e trancar todas as portas. É nesse momento, longe do dono, que o cão procura novas aventuras. Basta alguns passos e uma pequena força para ele se arremessar como se fosse um pássaro bêbado. O resultado?

Guilherme Angelo não consegue esquecer-se do dia em que Scobby, um beagle ciumento, se atirou da varanda. “Ele caiu no concreto. Corri pela escada e fui ao encontro de meu companheiro, mas ele estava todo ensangüentado. Rapidamente, levei Scobby ao Hospital Veterinário e vi, com tristeza, ele passar vários dias internado. Foi um dos piores momentos da minha vida”, relata o empresário, segurando uma foto de seu amigo canino.

Hoje, o cachorro está bem. Mas, Guilherme sente- se culpado e pede conselhos para evitar uma nova queda de Scobby. A veterinária Angelina Rodrigues, do Pet Shop AuAu Mania, orienta: “não adianta trancar o animal num único lugar, pois ele pode enfrentar sol ou frio. O ideal é colocar tela em todo apartamento, inclusive nas varandas. Isso vai resolver o problema”.

Assim como Scobby, o norwicht terrier Lelus, de seis anos, já viveu algumas aventuras, longe e perto de seu dono. “Ele é um cão muito assustado. Se o

vizinho usa a furadeira, o Lelus foge para debaixo da cama. Agora, se eu ligo o rádio ou o secador que ele abaixa a orelha, o cachorro encolhe o rabo e foge para a cozinha, como se tivesse levado uma bronca. É incrível. Lelus já é um adulto e se comporta como se fosse uma criança”, desabafa o auditor Ricardo Silva, que já teve mais de seis cães, todos da raça norwicht terrier.

Angelina explica que esse tipo de atitude pode estar relacionada aos primeiros contatos do cão com a água e sugere: “se o dono quiser, por exemplo, ver o primeiro banho do animal, ele deve ficar fora da sala, olhando pelo vidro ou assistindo pela televisão. Os cães não gostam de barulho e se sentem incomodados. Felizmente, na relação homem-cão, pode-se curar os traumas com bastante carinho e uma certa dose de cuidado”.

No decorrer dos anos, alguns cães chegam até a se acostumar com os ruídos. É o caso do labrador Ingale, de seis anos, que sai correndo em direção á porta toda vez que escuta a campainha tocar. “Ele não leva sustos, espera eu abrir a porta e recepciona a visita”, diz o radialista Benjamin Back, o Benja, do programa Estádio 97, acrescentando que, ao contrário de muitos cães, Ingale não sente medo quando ouve o barulho de um secador ligado.

Se o seu cachorro se comporta como o animal de estimação do Benja, você já tem um problema a menos para se preocupar. Mas, não dê um sorriso

agora e preocupe-se em olhar todas as tomadas de sua casa, aconselha o veterinário Leandro Murakami. “Elas precisam de protetores, dessa forma o cachorro não toma choque. Vá a uma loja de artigos de R$ 1,99. Lá, você vai encontrá-los.

A veterinária Angelina, do Pet Shop AuAu Mania, vai além e alerta que o cão pode ter queimaduras graves ao morder um fio que transporta energia elétrica. Portanto, vale uma dica: chame o eletricista e faça uma check-up no seu apartamento. Tenha certeza que todos os fios estão presos e longe do focinho canino.

Pronto, agora você já está preparado para ir ao trabalho e até mesmo tirar as férias, vencidas há pelo menos dois anos. Só não se esqueça de trocar a água do cachorro e de colocar mais ração no pote. Ah! E se possível, peça para o vizinho não ligar a furadeira. Veterinários alertam que o cachorro pode se assustar e entrar numa profunda depressão.

Tire o seu cão de casa e leve

Já se passou o tempo em que o cachorro passeava

somente no parque ou dentro de carroça, agora o peludo pode circular em padaria, restaurante, shopping e até mesmo em áreas verdes construídas para atender aos desejos dos cães. Dá pra acreditar?

O

dócil golden retriver Argos, por exemplo, gosta

de

passar o fim-de-semana num sítio, uma espécie

de hotel fazenda para cachorros que oferece estrutura de hotel cinco estrelas, com moradias individuais e alimentação balanceada. “Lá, ele se diverte o tempo todo, aprende brincadeiras diferentes e faz novos amigos. Sinto saudades, mas sei que Argos é bem tratado e gosta de ir ao sítio”, justifica Marcos Nogueira, que convive com o peludo há mais de seis anos.

Esse mercado está super aquecido! Cada vez mais,

os donos vêm procurando os hotéis fazendas para o

cão se distrair e relaxar. Apostando na segmentação

desse nicho, o veterinário Aldo Macellaro Junior fez inovações no seu Clube de Cãompo, implantando atendimento diferenciado para cães de pequeno porte, que contam com veterinários e podem circular livremente pelos 60.000 metros quadrados do hotel. “Além do carinho do dono, o cão precisa de atividades físicas, uma boa ração, água fresca e cuidados veterinários, incluindo

vacinas e vermífugos”, esclarece Aldo, que inaugurou o Clube de Cãompo em 1996.

Rafael Pattoli já pensou em levar o yorkshire Brutus a um hotel fazenda, mas mudou rapidamente de idéia. “Eu quero ficar sempre ao lado dele, dando amor e carinho. Mas, sei que meu companheiro gosta de conhecer lugares inusitados e, ás vezes, levo-o para almoçar num lugar diferente e aconchegante”, diz Rafael, referindo-se ao Via Café, um restaurante que está sempre cheio de cães, das mais variadas raças, tamanhos e cores. “Uma vez, Brutus fugiu da coleira e foi em direção à mesa do lado, onde havia um chow-chow aparentemente feroz. Os dois, um cão pequeno e o outro grande, latiram durante alguns minutos. Foi engraçado. O Brutus estava muito á vontade, agia como se estivesse em casa. Acho que ele está preparado para freqüentar qualquer tipo de lugar”.

Pode ser, Rafael, mas a veterinária Fernanda Cioffetti, da Pet Society, alerta que alguns cães estranham os locais desconhecidos. “Podemos evitar tais transtornos condicionando e treinando estes animais desde pequenos a freqüentarem ambientes diferentes e também a conviverem como outras pessoas e animais”, explica Fernanda, lembrando que os cachorros devem usar sempre a placa de identificação com o número do registro animal. “Se o cão for bravo ou apresentar um comportamento hostil, recomendo ainda a instalação da focinheira. Este procedimento deve

ser considerado ato de amor, pois preserva a saúde e segurança dos nossos melhores amigos”.

Se não quiser levar o cão a restaurante e clube de campo, o dono tem a opção de passear com ele em shoppings, tais como o Frei Caneca, localizado na cidade de São Paulo. Pode-se passear por todas as dependências, exceto a praça de alimentação e áreas fechadas, como cinema e teatro.

Mas, tantas novidades assim não parecem empolgar alguns donos de cães. O professor de dança David Gomes, por exemplo, mostra-se perdido e ainda pensa na possibilidade de levar o peludo a um lugar diferente. “Quando vamos ao pet shop comprar ração e um brinquedo novo, a Thita vai junto. Mas, ela não freqüenta restaurantes e shopping. Se algum dia ela pedir, nós vamos conversar e tomar uma decisão em família, como sempre fizemos”.

David, é bom você se apressar. Os empresários do segmento canino não param de ousar. Recentemente, eles inauguraram um motel especializado para cães, o Pet Love Motel, que surpreendeu conceituados veterinários e agradou os cachorros que sonhavam com uma noite de núpcias mais confortável.

Agora, é só esperar. Logo, logo teremos um planeta canino, uma piscina especialmente construída para os peludo e, é claro, uma casa na árvore para eles brincarem nas horas vagas. Quer apostar?

Já existe

uma rádio online que conversa com o público

canino.

Anote

o

endereço:

aparelho dentário para os peludos terem um sorriso perfeito e uma mordida pronta para devorar os ossinhos;

uma profissional, especializada em tomar conta dos cães. O nome dela? Baby Dog. Não deixe de consultar os anúncios;

táxi adaptado para transportar os orelhudos. Preço:

aproximadamente R$ 1,50 por quilometro rodado.

mais pet shop do que farmácias, na cidade de São Paulo. Agora, você vai encontrar um veterinário perto de sua casa.

Transforme seu animal de estimação em um manequim

Calma, leitor, não se espante com o título desta matéria. Uma nova moda vem, aos poucos, ganhando força nas vitrines dos pet shops de todo Brasil. É a utilização de manequins que seguem fielmente as características caninas e deixam os donos de cães realmente curiosos. Não é pra menos. Focinho, rabo, orelha, olhos e patas. Tudo em tamanho e expressões originais. O cachorro só falta latir!

Conversamos com Fábio Gubeissi, proprietário da Dog Models, empresa que vem investindo nesse mercado. O empresário revelou os segredos que são utilizados durante a fabricação dos tais manequins e, a partir de agora, você vai poder eternizar o seu companheiro de estimação.

Primeiro, faça uma escultura, utilizando uma massa italiana e um esqueleto metálico. Depois, para dar mais riqueza aos detalhes, confeccione um molde em fibra de vidro e silicone. Desse molde, tire as cópias em fibra de vidro. Num último passo, pinte o manequim com um revólver de tinta e o maquiei com aerógrafos. Se você não conseguir fazer em casa, não se desespere. A Dog Models confecciona manequim de labrador, pit bull, poodle e dauchshound, que

custam de R$ 400 a R$ 660, com pronta entrega. Ainda há a opção de se fazer, digamos assim, encomendas especiais. Nesse caso, o valor do investimento canino chega a respeitáveis R$ 5.000.

Gostou da sugestão? Então, vá em frente. Fábio Gubeissi explica que todas as raças podem virar manequins, independente do tamanho e da quantidade de pêlo do cachorro. Essa idéia deu tão certo que o empresário estendeu o procedimento a outras espécies. É o caso de gatos e pássaros, que também podem ser eternizados. Mas, a lista não pára por ai. Gubeissi confessa que já recebeu alguns pedidos inusitados. “Certa vez, um cliente quis fazer um manequim de um preá, mais conhecido como porquinho da índia”.

Achou essa idéia um pouco estranha? Aqui vai mais uma sugestão: que tal o seu pet seguir a carreira de modelo? Isso mesmo, o cachorro vai brilhar nas passarelas e conquistar o mundo da fama. A Pet Center Marginal, por exemplo, realiza desfiles com os mais diversos tipos de raças. Em um primeiro passo, os cães são inscritos pela Internet e participam de uma prova de roupa, na qual os pets são escolhidos. “No dia do evento, cada participante deve chegar com aproximadamente 30 minutos de antecedência para trocar seu animal e se preparar para entrar na passarela, de acordo com a ordem definida no roteiro”, detalha Eugênia Fonseca, gerente de marketing da loja.

Mas, há uma técnica especifica para se desfilar? Eugênia garante que não. “O ideal é que o animal fique em cima da passarela e o dono no chão apenas conduzindo o pet”, aconselha. Os desfiles caninos são realizados, normalmente, quando ocorrem as trocas de coleção de roupas, na passagem da primavera para o verão e do outono para o inverno. Então, anote na agenda e prepare- se. Seu cão ainda vai virar uma celebridade!

Você consegue entender o seu cão?

O cachorro não late apenas para espantar baratas ou

para intimidar um outro companheiro peludo. O som de um animal de quatro patas pode dizer

muitas coisas, surpreendendo até mesmo os especialistas no assunto. Calma! Não fique nervoso

e deixe a carteira em cima da mesa. O pulguento

não está interessado em dinheiro, mas sim em comida, brincadeiras e, é claro, muitos abraços.

As irmãs Debby e Diana, muito bem cuidadas por Thomas Büttcher, deitam-se no chão, esticam as patas dianteiras e disparam um forte latido sempre que o guitarrista da banda Bastardz faz alguma apresentação barulhenta em seu quarto. “Olho para elas e tenho a sensação de que não estão gostando do som. É uma pena, pois eu as adoro muito, trato como se fossem minhas filhas”.

Calma, Thomas, não é bem assim. Debby e Diana podem estar pedindo um pouco mais de carinho, esclarece a veterinária Carolina Dias Gimenez, da Pet Center Marginal. "O cão é capaz de chamar a atenção do dono sempre que necessário. Mas somente tendo uma boa convivência com o cachorro, é que o proprietário aprende a linguagem de seu animal de estimação e a comunicação flui naturalmente”.

Mas, vamos adiante. Afinal, a comunicação canina não fica apenas nos ruídos, garantem os estudiosos. É bastante comum os quadrúpedes usarem uma parte do corpo, por menor que ela seja, para pedir algo. A bichon bolonhês Brida, por exemplo, encosta o focinho na perna do cineasta Carlos Reichenbach para dizer que está com vontade de passear. “Se eu não atendo aos cutucões de minha pequena e inteligente amiga, ela chora desesperadamente. Meus três filhos já passaram dos vinte e cinco anos e ela com certeza se tornou a criança da casa”, relata o diretor, que se mostra um grande defensor da raça canina. A prova disso são os números: ele já dividiu o lar com mais de trinta cães, das diversas raças e tamanhos.

Já a maltês Preta, de três anos, usa os dentes afiados e lasca uma mordida no ator Marcelo Médici na tentativa de impedir a ida dele ao trabalho. “Ela segura o meu calcanhar com força, mostrando a sua insatisfação. É uma verdadeira guerra que enfrento dia-a-dia. Mas, quando percebe que vai junto, Preta se transforma e abana o rabinho para dizer que está feliz”, dispara o ator, um dos destaques da novela Belíssima, da TV Globo.

Marco Antonio Gioso, professor de veterinária da Universidade de São Paulo (USP), observa que há exceções. “Alguns animais abanam o rabo também quando estão estressados ou para revelar uma irritação. Não há uma regra para esse tipo de

comportamento canino. É preciso estudar caso a caso”.

Tentar identificar o que o pulguento quer dizer ao abanar o rabo é tão difícil para o dono de cachorro quanto acertar a mensagem que o peludo passa ao mexer as orelhas. Tal complexidade motivou o desenvolvimento de estudos e mais: vem encucando veterinários, que buscam explicar a comunicação canina. “Cães não são gente, por isso se comunicam também com as orelhas, levantando- as para prestar atenção em alguma conversa e abaixando-as para mostrar submissão ao dono ou a outro cachorro”, exemplifica Marco, destacando que os quadrúpedes também se comunicam através dos olhos.

O guitarrista Thomas e o ator Marcelo sabem muito bem disso. “Debby e Diana lançam olhar de tristeza quando querem um abraço. Elas são corajosas, pacientes, observadoras, amorosas e mansas, apesar de pertencerem á raça pastor alemão. Com grande freqüência, eu faço uns agrados para retribuir a dedicação de minhas companheiras”, diz o integrante dos Bastardz.

Marcelo também cede aos encantos de Preta. “Quando eu chego das gravações da novela, os olhos de jabuticaba de minha amiga mostram que ela quer brincar. Preta vai até a caixa de brinquedos, escolhe uma bolinha e vem correndo em minha direção. Tiro o objeto da boca dela e

arremesso longe. Preta trás a bolinha de volta e a brincadeira recomeça. Ela é um ótimo cão de companhia, mostrando-se, na maioria das vezes, muito dócil e carinhosa”, elogia o ator, que é membro da Suipa, uma entidade que protege os peludos.

Depois de saber que os cães se comunicam pelo latido, mordida, orelha e rabo, você deve estar se perguntado: os cães não dão risadas? Os veterinários consultados foram unânimes: não, os peludos não exibem um sorriso, apesar de abrirem a boca e de colocarem a língua para fora.

Bom, deixamos os sorrisos de lado e, agora que você aprendeu mais sobre a linguagem canina, não descuide: o seu companheiro pode reservar algumas surpresas não muito agradáveis, alerta o veterinário Marco Antonio Gioso. “Se não forem compreendidos, os cães podem rasgar todo o papel higiênico do banheiro, destruir o portão da casa, fazer as necessidades em local não habitual e quebrar algumas coisas”.

Cães ajudam bombeiros

Na animação “As Bicicletas de Belleville”, Bruno

ajuda Madame Souza a encontrar um garoto que desapareceu durante a Volta da França, uma importante competição ciclística. Se fosse um dos cachorros da Unidade de Cães do Primeiro Grupamento de Bombeiros de São Paulo, Bruno teria que fazer muito mais. A começar pela participação num rigoroso treinamento.

O pastor belga Thor e os labradores Agatha,

Samantha e Thabata receberam instruções durante dois anos e só depois participaram da primeira busca. “Inicialmente, ensinamos o cão a gostar de um determinado brinquedo. Mais tarde, aplicamos uma dose de odor no objeto e o escondemos no meio de escombros ou debaixo da terra. O cachorro, então, sente o cheiro, que pode ser composto por sangue, adrenalina, decomposição ou suor, e vai farejando até encontrar o que foi escondido. Fazemos isso várias vezes, até o cão se acostumar”, explica o sargento Marcelo Garcia Dias, informando que, em breve, a Unidade vai utilizar um produto importado dos Estados Unidos. Trata-se de um odor sintético e específico para o treinamento de cachorros.

A idéia de se ter uma Unidade de Cães para o

Corpo de Bombeiro surgiu em 1996, após um vazamento de gás explodir o Osasco Plaza

Shopping, matando mais de quarenta pessoas e ferindo outras quatrocentas. Mas, somente em 1998, é que ela foi criada e o Brasil seguiu os exemplos de outros países, como França, Bélgica e Egito. A regularização oficial veio em 2001, conferindo á Unidade o título de ser a primeira a treinar cães no Brasil para buscas e salvamento. Em Alagoas, o Corpo de Bombeiros já utilizava cachorros adestrados, mas eles eram comprados na França. No início, a Unidade contava com uma viatura e mais quatro cães; hoje são nove. Desses, pelo menos quatro são acondicionados em caixas especiais e colocados dentro do veículo toda vez que o alarme do canil toca e a equipe do Corpo de Bombeiros é chamada para uma nova busca. “Chegando ao local, liberamos o teatro, afastando os curiosos e o cão entra em ação, farejando tudo e delimitando a área de busca. Ele nos diz onde está sentindo odor, evitando que a equipe perca tempo e aumentando as chances de um possível salvamento. Nós retiramos esse cachorro e executamos esse trabalho com um outro cão. Se ele apontar o mesmo local, fazemos a marcação com uma bandeirinha e a equipe de trabalho executa exploração, retirando o escombro, cavando e localizando a vítima”, relata Dias.

A eficácia do cão é muito grande. São raros os casos em que ele não sinaliza exatamente onde a vítima está escondida. O sargento se lembra de um episódio: “a vítima estava num local oposto ao que

o cão indicava. Motivo: o cheiro do corpo entrava num cano e saia pela outra extremidade. Mas, o cachorro estava certo, ele mostrou onde havia a maior incidência de odor. O cachorro é uma ferramenta essencial para se delimitar áreas”.

As buscas, normalmente, são muito rápidas. Enquanto uma equipe pode levar dias procurando algum vestígio, os cães gastam poucos minutos para descobrir corpos. Dara, uma mestiça de lavrador e golden, levou três horas para ajudar o Corpo de Bombeiros a encontrar nada menos do que doze pessoas enterradas. A bravura rendeu á cadela o título de “Cão Herói 2005”, um importante prêmio disputado anualmente por cachorros que se destacaram em suas atividades.

Até o momento, a unidade de cães do Corpo de Bombeiro já participou de dezessete ocorrências em diversas cidades, tais como São Paulo, Rio Claro, Iguapé e Santos. No total, foram localizadas vinte e três vitimas. Mas, tudo indica que esse número vai aumentar em breve. Além de utilizar cães para encontrar corpos enterrados ou presos em escombros, a unidade quer contar com a ajuda dos cachorros para salvar pessoas perdidas na mata ou prestes a se afogar em rios. “Os treinamentos já começaram, mas ainda não sabemos quando os cães estarão prontos para executar nesse novo tipo de trabalho. Talvez daqui a dois anos”, diz o sargento Marcelo Garcia Dias, que aguarda ansioso pela novidade e segue uma filosofia, estampada nas

paredes do Corpo de Bombeiros: “quem não vive para servir, não serve para viver”.

“Infelizmente, as vítimas estavam mortas”

O cabo Sidnei Sampaio, membro da Unidade de

Cães do Primeiro Grupamento de Bombeiros de São Paulo, parece ter se acostumado com a morte. As mãos em movimento e os olhos tranqüilos demonstram que ele tem muitas histórias para contar, histórias sem final feliz. Uma coçada no queixo, o gravador do repórter sendo desligado e uma longa pausa para relembrar dois

acontecimentos.

O primeiro ocorreu no início de 2005, na avenida

Washington Luiz, perto do Aeroporto de

Congonhas, em São Paulo. “Três operários estavam trabalhando e um muro caiu, soterrando um deles.

A viatura chegou, e, em menos de um minuto, o

cachorro localizou o trabalhador, que infelizmente já estava morto”.

O segundo caso foi um deslizamento de terra na

Vila Alpina, em São Paulo. “Uma pessoa caiu e ficou soterrada até a cintura. Logo depois, houve mais deslizamento e a vítima desapareceu. O local era de difícil acesso, abrigando-nos a descer uma escada com os cães no colo. A cadela Dara procurou a vítima e rapidamente indicou o local onde ela estava. Infelizmente, não podíamos usar escavadeira para agilizar o trabalho e a pessoa acabou falecendo”.

“Os cães estão apenas brincando”

O adestrador Alexandre Rossi, especialista em

comportamento canino e consultado diversas vezes pelas polícias inglesa e irlandesa, contou, em entrevista exclusiva, quais os tipos de cães que podem ser utilizados para encontrar cadáveres e revelou ainda detalhes sobre os treinamentos que

são realizados. Acompanhe os principais trechos:

A polícia sempre utiliza cães para vasculhar

escombros e encontrar pessoas mortas ou desaparecidas. Há algum motivo específico?

O bulbo olfativo dos cães, parte do cérebro

dedicada à interpretação dos odores, é muito maior

do que o dos seres humanos, propiciando assim

habilidades incríveis para procurar pessoas e objetos. Além disso, o focinho de um cachorro é composto por células especializadas em determinadas moléculas. A combinação delas dá origem ao olfato e ativa uma rede neuronal para processar uma informação no centro emocional. Dessa forma, o cachorro sente primeiro a emoção e só depois age, tirando alguém dos escombros ou da água. Ele sabe que encontrou algo e que cumpriu o que foi solicitado, mas não tem a noção de que está salvando uma pessoa.

Há raças que podem ser utilizadas para esse tipo

de trabalho como as de focinho comprido?

O focinho comprido tem mais células em contato com o ar e com as moléculas que serão analisadas. Por isso, as raças que têm essa característica são normalmente utilizadas, tais como o Pastor, Labrador, Cocker e Beagle. Pode-se usar macho e fêmea. É comum se castrar, mas não é necessário. Vale frisar que a raça não é o mais importante. O que conta bastante na hora de se selecionar os animais é a anatomia do nariz e o temperamento do cão.

Você

pode

definir

temperamento?

melhor

essa

questão

de

O cachorro tímido e calmo, como o Bloodhound, não é recomendável, pois os corpos precisam ser encontrados com rapidez e o cão não pode demonstrar insegurança. O ideal é utilizar um animal autoconfiante e não-dominante para vasculhar lugares perigosos e acatar ordens, examinando o local indicado pelos policiais. Ah! E esses cães não podem ser agressivos, pois, normalmente, são tratados como heróis e convivem até mesmo com crianças. Outro elemento importante: o cachorro precisa também ser um persistente nato, alucinado por encontrar coisas e não desistindo em hipótese alguma. É claro que tem limites: se o policial percebe que não há pessoas desaparecidas no meio do escombro, deve imediatamente pedir a alguém para se esconder. Caso contrário, se não encontrar uma pessoa, o cão

pode ficar frustrado e perder a motivação para brincar. Tudo isso não passa de uma grande e divertida brincadeira. O cachorro adora vasculhar escombros e encontrar gente.

Como os cães são treinados? Existe uma técnica determinada?

No caso de treinar um cão para encontrar cadáveres, as lições são executadas com partes de um corpo, que são muito bem escondidas. Pode-se colocar um dedo dentro de uma bolinha, esconder e orientar o cachorro a fazer uma busca. Depois, tira- se a bolinha e esconde apenas o dedo. Se o cachorro encontrar, ele ganha a bolinha. Já se o objetivo é preparar o cão para salvar uma pessoa viva, normalmente, escondemos um objeto com cheiro de alguém. O cachorro encontra e, mais tarde, esse objeto é substituído pela própria pessoa, que se esconde até ser encontrada pelo cão. É muito comum fazermos treinamento discriminativo:

colocamos uma pessoa viva e um corpo, lado a lado. Se o cachorro recebe orientações para achar um cadáver e vai ao encontro de uma pessoa viva, ele não ganha a recompensa. Agora se cumpre a missão, normalmente damos um brinquedo para mostrar que o cachorro fez tudo direitinho.

Pode-se dizer então que esse tipo de treinamento é baseado no conceito de Adestramento inteligente?

Com certeza, esse conceito é bastante utilizado no decorrer dos trabalhos. O cachorro está brincando e aprende as coisas quando recebe um presente ou quando deixa de ganhá-lo. Ele aprende por conta própria e, em nenhum momento, é forçado a memorizar alguma coisa. Trata-se de uma completa diversão.

Certo, mas o cachorro pode ter traumas após

e

realizar

vezes procurar pessoas?

várias

o

trabalho

de

farejar

Enquanto está trabalhando, ele é o cão mais feliz do mundo. É claro que pode se machucar ao entrar em buracos, mas o dano maior é deixar os cães em canis pequenos ou guardados em ambientes isolados. Os cachorros precisam da companhia de outros cães e também de treinos constantes para evitar desmotivação.

POEMAS

Melhor pra nós

É, se cantasse o hino, Sob o sol a pino, Anuncia camarada

A busca da namorada.

É, se vivesse sonhos Sonhos de seu hino, Hino de verão!

Verão escala serra, Sobe curva, Passa marcha, Come terra.

Verão que evoca o grito. Olha o grito do verão. Cuidado, Camarada,

Já é sua namorada.

Verão que evoca o grito. Olha o grito do verão. Cuidado, Camarada,

Já é sua namorada.

Depois, vem o outono, Da folha amarela, Esse é nosso beijo Que nunca esfarela.

Depois, vem o outono, Da folha amarela, Esse é nosso beijo Que nunca esfarela.

Chega o inverno,

E vem frente fria,

Seus braços me livram De uma certa agonia.

Chega o inverno,

E vem frente fria,

Seus braços me livram De uma certa agonia.

É, se cantasse o hino, Sob o sol a pino, Anuncia camarada

A busca da namorada.

É, se vivesse sonhos Sonhos de seu hino, Hino de verão!

Amor de última cifra, Quero desligar,

Abrir os livros, simplesmente recitar.

Vou deixar assim, Só na poesia. Cheia de pronomes

É Mágica,

palavra,

abra-cadabra.

Vou deixar assim. Só na poesia!

É o melhor,

pra tu, Melhor pra nós,

Melhor pra mim.

Vou deixar assim, Só na poesia.

É o melhor,

pra tu, Melhor pra nós, Melhor pra mim.

Pecado

Se você tivesse um pecado

Oh! Que lindo, mais belo, pecado

O pecado que me faz sonhar

Sonhar com o mais lindo e belo pecado.

Se você tivesse inveja

Oh! Que mágica, mais linda inveja

A inveja que me faz desejar

Desejar a linda, mais mágica inveja.

Se você tivesse ódio,

Oh! Que preciso, mais seleto ódio.

O ódio que me faz amar,

Amar o seleto, mais preciso ódio.

Se você tivesse um vício,

Oh! Que puro, mais raro indício,

O vício que me faz apaixonar,

Apaixonar o raro, mais puro indício.

Se você pedisse perdão, Da minha parte, teria não, Viver como alguém assim,

É necessário completar o gim.

Se você pedisse perdão, Da minha parte, teria não, Viver como alguém assim,

É necessário completar o gim.

O Sonhador

Da calçada,

Acenaram,

era um cálice de vinho,

sorriso nas hastes, pedia amor.

Sonhador, como sou Logo imaginei Beijos no rosto, abraços Me entreguei.

A bela imagem,

rápido, criou. Pra deletei do poeta, que nunca se apaixonou.

A bela imagem,

rápido, criou. Pra deletei do poeta, que nunca se apaixonou.

Aos lados, apertou Com todo pudor. Ah! Ele queria Fugir da dor.

Aos lados, apertou Com todo pudor. Ah! Ele queria Fugir da dor.

Queria ser mais feliz, Olhar o horizonte, Inquieto, mais completo.

Queria ser mais feliz, Olhar o horizonte, Inquieto, mais completo.

Sem perder a esperança, acena para o cálice, e ele se vai.

Admira-o com um simples olhar, acho que o poeta, acaba de se apaixonar.

Sou Louco

Ah! De apagar, o contorno dos lábios, entorno da luz.

Ah! Decifrar, Uma história tão bela, Singela, Me faz namorar.

Ah! Devorar, Cada canto, Sou louco, Meu bem, vem pra cá.

Ah! Vou beijar, Sou louco, Meu bem, vem pra cá.

Ah! Vou beijar, Sou louco, Meu bem, vem pra cá.

Momentos como esse

Luzes de Lindos Lábios, Raios Tênues e Cristais, Momentos de Desejada Dor, Fantasias e Mágicos Sonhos.

És tão bela e insensata, Carícias sem abraços, Dores de belas canções, Beijo, sensações.

Venero-a como uma flor, Puras luzes obscuras, Tua rara beleza.

Desejos como esse, jamais terei. Pensar em você, não morro por quê?

Retoque

Poema em branco, garrancho, ai, que me perdoar.

Sonhos, repletos, vozes você, calado, e os gestos?