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OPROJETOTEÓRICODA"ESCOLADA

1. Introdução

REGULAÇÃO"

ALGUNSCOMENTÁRIOS

Mario Luiz Possas

Este artigo é parte de um trabalho desenvolvido junto ao NPCT/IG/UNI- CAMP com apoio do CNPq.

Dentre as abordagens contemporâneas não ortodoxas (neoclássicas) à teoria econômica, em particular focalizando a mudança estrutural — in- clusive tecnológica — e a crise, tem despertado crescente interesse a da chamada "Escola (Francesa) da Regulação". Ela se propõe a tratar com abran- gência e profundidade teórica os processos de transformação da econo- mia sob a ótica da acumulação de capital, empregando categorias e con- ceitos que transcendem o aparato habitual da análise econômica, em dire- ção aos elementos que conferem coesão social, em particular ao papel do Estado. Seu autor básico de referência, embora não exclusivo, é Marx — com algum apoio localizado em elementos keynesianos. As seções seguintes tratarão de expor os conceitos básicos com que trabalha essa corrente, para em seguida passar à sua crítica.

2. A "Escola da Regulação"

A maioria dos componentes desse grupo se auto-identifica como membro da "Escola da Regulação" (E.R.), o que até certo ponto facilita sua caracterização. No entanto, em vista da relativa diversidade dos temas abor- dados por seus partícipes, será necessário, a bem da concisão, centrar no KSNDVD

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O PROJETO TEÓRICO DA "ESCOLA DA REGULAÇÃO"

autor ou autores que melhor expressam o núcleo teórico da E.R. Para tan- to serão consideradas essencialmente algumas obras de A. Lipietz, com- plementadas por referências específicas a M. Aglietta, deixando de lado as contribuições de R. Boyer, B. Coriat, J. Mistral e outros expoentes da E.R. As obras não serão empregadas necessariamente, portanto, em fun- ção de sua importância, originalidade ou grau de divulgação, mas estrita- mente da clareza e sistematicidade com que enunciam elementos centrais do pensamento da escola. Serão citadas à medida que subsidiem os temas focalizados, sem qualquer preocupação de oferecer referências exaustivas.

2.1. Os conceitos básicos

O conceito-chave, como seria de se esperar, é o de regulação. É pre- ciso, antes de mais nada, prevenir o equívoco de confundi-lo precipitada- mente com a idéia difusa de regulação estatal sob o capitalismo. A noção de regulação aqui tratada é mais abstrata, e pertence grosso modo ao mes- mo campo de definição da noção de reprodução. Nesse sentido, implica desde sua concepção uma abrangência considerável, extrapolando larga- mente o âmbito econômico e abarcando plenamente o social, além do político. Uma definição concisa é a seguinte: "Regulação de uma relação so- cial é a maneira pela qual essa relação se reproduz, apesar de seu caráter conflitual, contraditório" 1 . Ou ainda, em forma mais extensa: "Modo de regulação é o conjunto das formas institucionais, redes e normas explíci- tas ou implícitas que asseguram a compatibilidade de comportamentos no quadro de um regime de acumulação, em conformidade ao estado das re- lações sociais, apesar das contradições e do caráter conflitual das relações entre os agentes e os grupos sociais" 2 . Em ambas as conceituações ganha destaque a idéia de reprodução de relações sociais, em sentido amplo. Es- pecificamente, a segunda definição refere-se a uma compatibilidade de com- portamentos dos agentes no quadro de um regime de acumulação. Não é ainda o momento de tentarmos aprofundar o significado da relação — ambígua, nessas definições — e possíveis diferenças entre regu- lação e reprodução, o que deverá aguardar uma exposição mais completa dos conceitos da E.R. Basta por ora observar que, em princípio, regulação envolve mais do que a noção de reprodução econômica, embora também inclua necessariamente essa última. Deve tratar-se, portanto, de uma no- ção extremamente abrangente e complexa, abarcando por assim dizer as condições, ao longo do tempo (histórico), de "estabilidade sistêmica" de determinadas fases — os "regimes de acumulação" — do capitalismo visto como um ente sócio-econômico global. Pela própria definição, segue-se que compreender a regulação su- põe fazê-lo no interior da constelação: relação social-reprodução- kamknviud

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(1) Lipietz, A. (1984 a). "Position des Problèmes et Propositions Théori- ques". Paris, CEPREMAP,

mimeo,p.12.

(2) Lipietz, A. (1984 b). "La Mondialization de la Crise Générale du Fordis- me: 1967-1984".Paris, CE- PREMAP, nº 8413, p. 6. Alguns dos conceitos aqui referidos — especialmen- te o de "regime de acu- mulação" — serão discu- tidosadiante.

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contradição-crise. A crise, dessa forma, não é vista como antítese da regu- lação, mas como um de seus possíveis momentos, contraditório e extre- mo. O conceito básico, porém, é o de relação social. A própria noção de uma relação social já pressupõe, na verdade, alguma regularidade; contu- do, o ponto central é que essa não surge "acabada", mas decorre sempre de um processo histórico de afirmação e generalização 3 .

Tomando por objeto o capitalismo e por referência essencial, mas livre, a obra de Marx, a E.R. considera como relações sociais básicas a rela- ção de troca, ou mercantil, e a salarial 4 . A primeira se refere ao caráter es- pecificamente mercantil do capitalismo, pelo qual os possuidores de mer- cadorias ao se defrontarem no mercado estabelecem relações regulares, mais ou menos estáveis, que se convertem em relação monetárias. Os pro- dutores independentes, ao entrarem em relação reiterada no mercado, con- vertem o produto dos trabalhos independentes em mercadoria e em va- lor. A relação salarial constitui a relação de produção básica, especifica- mente capitalista, pela qual a força de trabalho, ao transformar-se em mer- cadoria, destaca-se das demais mercadorias por ser a única capaz de pro- duzir mais valor do que aquele pelo qual é adquirida: a mais-valia. Tais relações básicas da sociedade devem reproduzir-se, para que essa também o faça. Entretanto, sua reprodução pressupõe algum nível de reconhecimento social — ainda que, obviamente, de forma em geral dis- tinta daquela em que se dá o seu reconhecimento teórico. O reconheci- mento social deve verificar-se apesar de que tais relações são maleáveis, podendo assumir distintas formas historicamente e em diferentes lugares. As formas dessas relações, embora mutáveis, devem de algum modo "rotinizar-se" a fim de parecerem "normais".

A reprodução das relações sociais básicas supõe a aceitação, ainda

que conflitiva, por parte dos agentes e grupos sociais envolvidos, de re- gras básicas de ação. Em particular, a capacidade de um grupo social em impor (mais ou menos pacificamente) as suas próprias regras constitui he- gemonia, que não suprime a divergência e o conflito mas canaliza-os, atra- vés de eventuais mudanças de forma das regras sem alterar a essência das relações sociais, reproduzindo-as portanto. As referidas regras concernem especificamente, do ponto de vista econômico, às normas de produção e de consumo, caracterizadas por um conjunto de elementos técnicos, ma-

teriais e históricos 5 .

Os procedimentos sociais e as instâncias que asseguram a modifica- ção conjunta dessas normas constituem formas de regulação, que condu- zem a um determinado modo de regulação.

A instância primordial dessas formas de regulação é a soberania, que

na época moderna assume a forma de Estado. Seu papel, no que se refere à regulação das relações capitalistas atuais, consiste basicamente em insti- tuir o mercado e o dinheiro, bem como codificar e arbitrar a relação salarial 6 .

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(3) Lipietz, A. (1984 a), p.

13.

(4) Ibidem; ou também Li- pietz (1984 b), pp. 2-3. Veja-se também, no que diz respeito à relação sa- larial, Aglietta, M. (1986). Régulation et Crises du Capitalisme. Paris, Calmann-Lévy; introdu- ção e cap. 2.

(5) Lipietz, (1984 a),p.16.

(6) Ibidem, pp. 17-18. Es- sa instância, evidentemen- te, não exprime harmo- nia, mas dominação e em última análise violência, de cujo uso legítimo de- tém o monopólio.

O PROJETO TEÓRICO DA "ESCOLA DA REGULAÇÃO"

Os agentes entram em relação através das formas institucionais, for- mas exteriores codificadas e cristalizadas por convenção e hábito, como resultado de um compromisso institucionalizado que lhes confere legiti- midade; por exemplo, não se costuma questionar a aceitação de um paga-

mento de salário, antes mesmo de discutir a sua magnitude 7 . Tais formas institucionais, ao pôr em ação mediações, requerem organização material

e institucional, em geral na forma de "redes". Por exemplo, "o mercado"

é uma forma institucional, ao passo que os "mercados", feiras etc. são "redes".

Já dispomos agora, nesse nível elevado de abstração, de elementos

que permitem caracterizar mais precisamente o conceito de regulação das

relações sociais. Para Lipietz, o tratamento desta questão envolve três as- pectos básicos: 8

(7) Ibidem, p. 19.

(8) Ibidem, p. 20.

1. a análise teórica de suas leis ou tendências imanentes;

2. os processos sociais que constrangem indivíduos e grupos às re-

lações existentes, como forças ou leis coercitivas;

3. a interiorização de normas e motivos, através de um espaço de

representação, pelos indivíduos ou grupos, compatíveis com a reprodu- ção do conjunto.

A articulação desses elementos, díspares e em parte contraditórios,

permitiria em princípio dar conta da relativa estabilidade estrutural da so- ciedade. Contudo, o caráter conflitual e contraditório desses elementos po- de dar lugar à descontinuidade da reprodução: as crises. Pode-se aqui distinguir entre "pequenas" crises, ou crises "na" re- gulação, e crises no interior mesmo de um modo de regulação, por inade- quação entre os comportamentos por ele induzidos e as exigências da re- produção da sociedade, caso em que se estará diante de uma "grande" cri- se, ou uma crise "da" regulação. Em ambos os casos, a crise não é senão a outra face da regulação, quando a estabilidade estrutural da sociedade não pode ser mantida.

É importante observar o caráter não teleológico, segundo Lipietz,

da noção de "modo de regulação", que não teria por meta ("funcional")

a reprodução das relações; ele não é ditado para tal pelo modo de produ-

ção, e sua capacidade reprodutiva não é a razão de ser de sua existência 9 . Para o autor, é importante também rejeitar o determinismo, incapaz de ex- plicar tanto a variedade como a variabilidade das configurações das rela-

ções sociais e das formas de regulação. A racionalização ex post das for- mas existentes como regularidades predeterminadas constituiria uma "ilu- são retrospectiva" 10 . Em suma, o referencial teórico da regulação foi concebido com o objetivo de estudar as formas de resolução (ou não) das contradições do capitalismo contemporâneo. Na concepção da E.R., o principal passo para tanto é identificar os modos de regulação, cuja identificação deve ser pre- cedida de um aprofundamento da análise da natureza e das formas institu- kkkkookokokok

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(9) Ibidem, p. 21. A ressal- va, nesse ponto, não é muito clara. Ainda que não-teleológica, e portan- to não necessariamente capaz de reprodução ad infinitum, o "modo de re- gulação" é intrinsecamen- te reprodutivo, e como tal desenvolve-separipassuà reprodução da sociedade.

(10) Ibidem, p. 23.

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cionais das relações sociais básicas — a mercantil e a salarial — no contex-

to de uma apresentação do importante conceito de regime de acumulação.

2.2. Regimes de acumulação e modos de regulação

Examinemos mais detidamente o conteúdo das relações sociais bá- sicas já referidas e as formas de regulação delas resultantes. a) Consideremos, em primeiro lugar, a relação mercantil. Sua im- portância deriva não apenas do lugar central que ocupa como elemento constitutivo do modo de produção capitalista, mas ainda por dar ensejo

ao surgimento e consolidação da relação monetária, cujo papel na regula- ção capitalista é crucial para a visão teórica da E.R.

A relação mercantil apresenta-se sob duplo aspecto:

1º) Cada mercadoria trocada é validada socialmente pelo trabalho envol- vido em sua produção; e 2º) O proprietário da unidade produtora tem direito a uma parte equiva- lente do trabalho social.

Os dois aspectos mercantis encontram-se unificados na forma capi- talista, porém de modo problemático, eventualmente contraditório, por serem distintos e inconciliáveis na forma capitalista 11 . Com efeito, o pri- meiro diz respeito à socialização, pela troca, do trabalho individual con- creto, o que redunda na distribuição social do trabalho, ao passo que o segundo se refere à apropriação privada do trabalho social. Como se sabe, ambos os aspectos se cindem na vigência das relações capitalistas de produção.

O reconhecimento do valor social do trabalho implica neste caso

o direito à apropriação do trabalho alheio, como uma "instituição social".

A troca compulsória contra dinheiro, nesse quadro, configura uma "restri- ção monetária", que é a instituição que representa o papel de equivalente

geral 12 . O produto mercantil — a mercadoria — assume assim a forma valor.

Quanto ao trabalho como substância de valor, Lipietz lança a ob- servação insólita de que, dessa conexão, não se seguiria a relação "microe- conômica" (sic) entre valor e quantidade de trabalho 13 . Tal ligação, segun- do o autor, só se verificaria "à escala global", apenas exercendo "influên-

cia indireta e parcial os preços relativos das mercadorias particulares". Es- sa distinção funda-se na interferência do processo distributivo sobre os preços, decorrente de "direitos resultantes de outras relações sociais". Segue- se, por fim, a lei do valor como forma geral de regulação da produção mercantil 14 .

Já as "conexões de superfície" (formação de preços e rendimentos

monetários) "dependem crucialmente do conjunto das formas de regula- ção em vigor", como forma das leis coercitivas que manifestam aos agen- kkkkkkkkk

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(11) lbidem, p. 26; o que não é percebido sob o "mito (neo) clássico do escambo".

(12) lbidem, p. 27: "con-

trainte monétaire" no ori-

ginal. É uma fórmula lar- gamente empregada por
Áglietta(1976),op.cit.,es-

pecialmente seção 6.I.2, de significado não muito claro. Refere-se basica- mente à necessidade efe- tiva de dinheiro, na fun- ção de "equivalente geral" (Marx), para sancionar a circulação mercantil capi- talista. Esse ponto será re- tomado no item de co- mentários críticos.

(13) lbidem, pp. 27-28; em contraste, é claro, com o propósito de Marx, e se- guindo mais uma vez, nesse particular, Aglietta (1976), cf. Introdução e

cap.I,seção1.

(14) lbidem, p. 28. Volta- remos a esse ponto nos comentários críticos.

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tes sua pertinência à sociedade. Neste "espaço de representação" (preços e dinheiro) é que se desenvolve o papel do dinheiro. Como se sabe, suas funções, segundo Marx, são: a de padrão e medida de valor; a de interme- diário das trocas (meio de circulação); e a de reserva mobilizável de valor, quer como meio de entesouramento quer como meio de pagamento. Im- porta, em geral, que deve ser reconhecido socialmente de forma incondi- cional como representante de valor e meio de troca. O dinheiro de curso forçado, legitimado pelo Banco Central, é um exemplo por excelência da validação centralizada. Entretanto, mesmo aí a aceitação "incondicional" tem limites. Em regra geral, o sistema monetário é hierarquizado: distintas com- binações de moeda mercadoria versus crédito e de sistema fracionado ver- sus centralizado são possíveis. A referida "restrição monetária" poderá tornar-se efetiva na dependência do grau de conversibilidade da moeda, que pode tornar-se mais ou menos flexível. A validação do meio circulan- te pelo Banco Central implica efeitos de "pseudovalidação" de uma massa monetária cuja aceitação e credibilidade é variável com a quantidade em circulação — daí o possível efeito "inflacionista" 15 . Assim, a circulação monetária de curso forçado pelo Estado não é autônoma, e o dinheiro do crédito só se sustenta como "forma institucional" de regulação quando "antecipa corretamente a coerência dos fluxos de valores em processo" 16 . b) Vejamos a seguir a relação salarial com maior cuidado. Consiste, antes de mais nada, na separação entre produtores e meios de produção vigente no capitalismo, que se desdobra em duas dimensões: a da proprie- dade, e seus efeitos econômicos; e a da posse ou apropriação real, e suas implicações sobre a organização da produção. No primeiro caso, estabelece-se o contrato salarial, com suas con- venções jurídicas. Ele representa uma dupla troca: em termos de valor, de onde resulta a mais-valia, através de uma dada "norma de consumo"; e em termos de controle do produto pelo capital, que assume os riscos de sua validação mercantil frente à sociedade. Coloca-se aí o problema da distri- buição, cuja taxa exprimiria uma contradição: "muito salário e pouca acu- mulação, ou muito lucro e pouca demanda" 17 . No segundo caso, o capital tende a organizar um "trabalhador cole- tivo", buscando separar na atividade produtiva a "concepção intelectual" da "execução rotineira". Trata-se aí da apropriação de um saber coletivo, com a qual passa-se a controlar o uso e a intensidade do processo de tra- balho e seu tempo: é a submissão real, que se materializa nas formas de mecanização, pela qual o operário tende a tornar-se um "servo da máqui- na". Nesse passo se coloca, como importante conseqüência, a tendência afirmada por Marx à elevação da composição orgânica do capital, embora sujeita a contra-influências 18 . Entretanto, o processo de crescente submis- são real do trabalho ao capital através da mecanização não se dá sem con- flitos: manifesta-se a contradição entre o "controle direto" e a "autonomia responsável" da força de trabalho, cuja regulação se traduz na institucio- kkkkkkkkkkkkkkkkk

200

(15) Ibidem, pp. 31-32. A posição é desenvolvida,

modo semelhante, em

Aglietta (1976), cap. 6, es-

pecialmente seção II.2.

(16) Lipietz (1984 a), p. 33.

ponto é importante e

delicado, a semelhança dessa formulação com proposições tipicamente quantativistas, que ser- vem de base teórica às po- líticas de corte monetaris- ta. Por isso, será retomado no item de comentários dessa seção.

de

O

(17) Ibidem, p. 35.

(18) Ibidem, p.36;oautor, contudo, não desenvolve esse ponto.

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nalização de uma estrutura de qualificações e em diversas normas de "dis- ciplina de empresa" 19 . Podemos agora passar à conceituação de um regime de acumula- ção. O primeiro requisito é analisar brevemente a natureza do processo de acumulação. Este tem por finalidade a valorização do capital, cuja rapi- dez é indicada pela taxa de lucro. Supõe a continuidade da aplicação ren- tável do capital novo ("liberado"), o que envolve escolha sujeita a uma in- certeza radical frente ao futuro dos mercados. "O capitão de indústria é um jogador" funciona como epígrafe. Que esse processo de validação so- cial (ou invalidação, implicando desvalorização) se dê via preços ou via quantidades, depende basicamente do modo de regulação vigente. De on- de vem a coerência desse processo, aparentemente incoerente? Basicamente da experiência: convenções, usos. Em particular, da renovação continua- da das principais relações sociais (econômicas, no caso) envolvidas: a sala- rial e as mercantis.

É da reiteração dos contratos e dos comportamentos mercantis, que dominam a atividade privada, que se lançam as bases de um "molde so- cial", que a E.R. denomina regime de acumulação; define-se como o mo- do de repartição/realocação sistemática do produto social que ajusta a longo prazo a transformação das condições de produção e de consumo final, tornando-as reciprocamente adequadas 20 .

No caso da reprodução simples, tal adequação para o autor não co- loca grandes problemas e se exprime no chamado "esquema de reprodu- ção simples" (Marx). Entretanto, a acumulação pode ainda ser extensiva ou intensiva 21 , como diferentes caracterizações da reprodução ampliada, que é a forma relevante de reprodução econômica capitalista. As diversas formas ("combinações") possíveis de regimes de acumulação podem re- sultar não só da dicotomia entre DI (departamento produtor de meios de produção, na terminologia de Marx) e DII (departamento produtor de bens de consumo), entre acumulação extensiva e intensiva, mas também de di-

ferentes níveis de agregação da análise. Em particular, as relações "exter- nas" são cruciais para caracterizar o regime de acumulação, nos seguintes sentidos:

• as relações "não-capitalistas" no próprio contexto nacional, o que afeta eventualmente os meios de reprodução da força de trabalho: trata-se, aí também, de um espaço para a expansão do regime de acumulação capitalista;

• os vários "modos de produção" que eventualmente se articulam (sic) nu-

ma formação social concreta; e

• as relações internacionais regidas pelo capitalismo ao nível dos Estados

nacionais. Sob o comando destes, têm-se instituído a generalização das re- lações mercantis capitalistas, a criação do mercado interno e a dominação de um dado regime de acumulação, mesmo (possivelmente) à escala mundial 22 .

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(19) Ibidem, p. 38. Um exame mais detalhado dessas duas relações, mer-

cantil e salarial, encontra- se em Lipietz (1983). Le Monde Enchanté: de la Valeur à l'Envol Inflation- niste. Paris, La Découver- te/Maspero; seções 2.1 e
2.2.

(20) Ibidem, p. 40. Em ter- mos quase idênticos, veja- se Lipietz (1984 b), p. 4.

(21) A primeira refere-se ao crescimento propor- cional dos dois departa- mentos, sem mudança técnica, ao contrário da segunda, que supõe mu- dança técnica e em geral crescimento mais que proporcional do DI devi- do à intensificação de capital.

(22)Lipietz(1984a),p.42.

O PROJETO TEÓRICO DA "ESCOLA DA REGULAÇÃO"

Finalmente, um regime de acumulação capitalista pressupõe a atua-

ção de formas de regulação, agindo notadamente:

• na regulação da relação salarial (normas de tempo, intensidade, valor, con- sumo, qualificação, hierarquia salarial, segmentação etc.);

• na regulação da realização do capital dinheiro liberado pela realização da produção no mercado;

• na reprodução da gestão monetária (sua emissão, circulação, aplicação

produtiva etc.);

• nas formas de intervenção do Estado 23 . Apesar da variedade dessas formas, é útil polarizá-las dentro de dois modos de regulação estilizados. O primeiro corresponde a uma regulação concorrencial, e o segundo a uma regulação monopolista. Este último é,

na verdade, distinguido pela constante convencionalização da antecipação habitual do que o mercado indicará ex post, reduzindo seu impacto alea- tório e potencialmente turbulento , regularizando os comportamentos e

as instituições segundo normas não-liberais, vale dizer, instituindo gene-

ralizadamente o princípio da arbitragem. Em conclusão, desses dois "modos de regulação" — embora estili- zados — emergem visões distintas não só da criação e incorporação de instituições capitalistas, mas mesmo a explicação da crise de um regime de acumulação pela persistência de formas anteriores de regulação, a ele pertinentes 24 .

2.3. Implicações para a análise da crise atual

(23) Ibidem, p. 43; tam- bém Lipietz (1984 b), p. 6.

(24)Lipietz(1984a),p.45

e (1984 b), p. 7.

Não cabe aqui aprofundar a visão comparativa da E.R. sobre os dois grandes modos de regulação em sua natureza, marcas históricas e crises.

Tampouco cabe reproduzir o perfil descritivo da crise atual, realizado no- tadamente por A. Lipietz e R. Boyer. Interessa apenas, a partir de uma ca- racterização esquemática dos modos de regulação, mostrar os limites do atual modo de regulação centrado no regime de acumulação posterior à

II Guerra, apoiado no que Coriat e Lipietz denominam o "Fordismo". Co-

mo antes, serão enfatizados nesta revisão os aspectos teóricos da análise,

para apreciação posterior. a) Iniciemos pela regulação concorrencial. Esquematicamente, ela apresenta os seguintes traços principais. Suas formas institucionais típicas foram:

• o ajustamento salarial pelo mercado de trabalho, com estrutura estável de qualificações;

• transferências de capital inter-ramos da produção principalmente atra- vés do mercado de capitais;

• a adoção do padrão-ouro monetário;

• a permanência do Estado como "exterior" ao processo econômico, cuja

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NOVOSESTUDOSNº 21 - JULHODE 1988

intervenção se dava unicamente para preservar a ordem e a propriedade privada. Esse modo de regulação atravessou duas grandes crises econômi- cas (e, por extensão, crises na regulação). A primeira, de fins do século XIX, teria sido uma crise de acumulação "extensiva", envolvendo queda no rit- mo de crescimento da produtividade e na ampliação dos mercados, dan- do lugar à estagnação dos anos 90 e à disseminação das práticas imperia- listas. A resposta à crise e à estagnação, do ponto de vista da organização da produção e do processo de trabalho, foi o surgimento do "taylorismo" e, mais tarde (anos 20), do "fordismo"; tratava-se de promover a incorpo- ração do saber operário, expropriado, no sistema automático de máquinas 25 .

A segunda grande crise, de 1929/30, representou a primeira crise

de acumulação "intensiva" e a última crise na regulação concorrencial 26 , abrindo caminho para a consolidação da regulação monopolista. Na visão da E.R., que caracteriza essa crise como uma crise do regime de acumula- ção tanto quanto do modo de regulação concorrencial, o principal fator determinante foi a grande elevação da produtividade do trabalho, espe- cialmente nos anos 20, sem contrapartida adequada no crescimento dos salários reais, dando lugar a uma crise de superacumulação 27 . b) em condições de regulação monopolista, cuja vigência poderia ser datada dos anos 30, pode-se conceber um regime "ideal" da acumula- ção, marcado pelos seguintes dois traços fundamentais:

• crescimentos equivalentes da composição técnica do capital e da produ- tividade em DI (de maneira a manter inalterada a relação física capital/produto);

• crescimentos equivalentes do consumo assalariado e da produtividade

em DII (de maneira a manter equilibradas oferta e demanda de consumo

a longo prazo) 28 .

O resultado é, de um lado, inibir a tendência à queda da taxa de

lucro pela elevação da composição orgânica (em valor) do capital e, de ou- tro, impedir pelo aumento do poder de compra e do consumo dos assala- riados o risco de "subconsumo", isto é, de superprodução em DII como reflexo de elevação excessiva da taxa de mais-valia decorrente do aumento de produtividade. Segundo o autor, tais resultados teriam sido em boa me- dida alcançados no segundo pós-guerra — a segunda condição, preserva- da pela "regulação salarial" monopolista, que constituiria a plena realiza- ção das aspirações do "fordismo" 29 , e a primeira condição por casualidade.

Quais as características do modo de regulação monopolista, e em que medida se ajustaram ao regime de acumulação do pós-guerra?

Por comparação com a regulação concorrencial, a regulação mo- nopolista apresenta as seguintes formas institucionais básicas de regulação:

• relação salarial por contratos de salário direto de prazo médio, acrescido kkkjkjijiji

203

(25) Lipietz (1984 b) p. 7; uma descrição mais minu- ciosa dos modos de regu- lação encontra-se em Li- pietz (1984 c). "Accumula- tion, Crises et Sorties de Crise: Quelques Réfle- xions Méthodologiques Autour de la Notion de Régulation". Paris, CEPRE- MAP, nº 8409; pp. 22 ss.

(26)Lipietz(1984 c), p. 24

e (1984 b), p. 8.

(27) Ibidem.

(28) Ibidem, pp. 25 e 8, respectivamente. O autor denomina tais condições de "Idade de Ouro" do "fordismo".

(29) O termo, usado pela primeira vez ao que pare- ce por Gramsci, transpõe para o regime de acumu-

lação o desígnio atribuído

a H. Ford de tornar seus

operários consumidores de seus produtos; ma- croeconomicamente, na forma empregada por Li- pietz, significa viabilizar a reprodução ampliada pe- la redistribuição para os salários de parte adequa- da dos ganhos de produ- tividade, dificultando pos- síveis crises de realização.

OPROJETOTEÓRICODA"ESCOLADAREGULAÇÃO"

de salário indireto, além de indexação nominal aos preços e, mais recente- mente, à produtividade;

• centralização do capital em grupos industriais e financeiros, com coman- do sobre preços via mark up rígido em face das flutuações conjunturais;

• extensão do dinheiro de crédito para atender às necessidades nominais

de circulação monetária em geral;

• reforço considerável do papel do Estado, não tanto (e.g., Keynes) pelas

despesas governamentais, mas principalmente pela gestão das relações sa- lariais e monetárias 30 . Embora de modo geral adequadas ao novo regime de acumulação,

o "fordismo" do pós-guerra, essas formas institucionais monopolistas apre- sentam alguns problemas de compatibilização. Um deles, apontado por Li-

pietz, é que a desvalorização do capital pode ser postergada pela capaci- dade das empresas de repassar aos preços os custos crescentes de depre- ciação de capital, gerando pressões inflacionárias. Entretanto, as principais inadequações vieram à tona com a "crise do fordismo", entre fins dos anos 60 e início dos 70. Interessa-nos aqui recuperar para discussão unicamente os fatores fundamentais relacionados

à "crise geral do fordismo" como tal, deixando de lado a questão dos en-

cadeamentos amplificadores da crise relacionados às conexões internacio- nais, bem como, naturalmente, fenômenos nacionais específicos ocasio- nalmente tratados pela E.R. no contexto da crise atual, e a própria descri- ção conjuntural exaustiva das etapas da crise pari passu à política econô- mica dos países centrais, notadamente dos EUA 31 .

O cerne da explicação da crise do regime de acumulação do "for-

dismo" se encontra na combinação de diferentes elementos 32 . Em primei- ro lugar, é apresentada como "sintoma", mas não propriamente como cau-

sa, a tendência geral à redução no ritmo de crescimento da produtividade, especialmente dos setores dinâmicos deste regime de acumulação, como

a indústria automobilística e atividades relacionadas. Como causas últimas são apresentadas duas:

• o chamado "esmagamento dos lucros" ("profit squeeze"), devido prin-

cipalmente à elevação dos custos salariais, por aumentos reais de salários

não totalmente compensados por elevação da produtividade; e

• o crescimento da composição orgânica do capital, com reflexo negativo na taxa de lucro.

O aumento da parcela correspondente à depreciação do capital fi-

xo reforça o impacto da elevação da composição orgânica do capital so- bre a taxa de lucro das empresas, agravando suas condições de endivida- mento e acarretando perda de capacidade de investir. De outro lado, a pres- são de custos impede aumento compensatório na margem de lucro, levan- do assim à queda da taxa de lucro. Trata-se, portanto, de uma crise de ren- tabilidade, ao contrário da de 1930, explicada como crise de superprodu- ção. Segue-se daí uma "espiral depressiva", pela qual a crise assume a for- ma de estagnação.

204

(30) Em Lipietz (1984 b), p. 9, é feita ainda referên- cia à proliferação do ter- ciário, como expressão de generalização das relações mercantis e salariais.

(31) Ver a respeito Lipietz (1984 b), pp. 19 ss. e Li- pietz (1984 c), pp. 30 ss.

(32) Ibidem, pp. 15-18 e pp. 28-30, respectivamen- te.

NOVOS ESTUDOS Nº 21 - JULHO DE 1988

Como possível saída da crise, a E.R., embora reconhecendo a im- portância e o potencial de difusão das novas tecnologias de base microele- trônica, não confere à mudança tecnológica um papel necessariamente proeminente, ao contrário dos autores neoschumpeterianos, especialmente os vinculados à perspectiva das "ondas longas" capitalistas. De início, é admitida a potencialidade das novas tecnologias da área de informática e de base microeletrônica, devido à possibilidade de rebai- xar custos fixos, facilitando o autofinanciamento dos investimentos neces- sários; o aumento conseqüente de produtividade; e a velocidade de cria- ção de novos produtos e mercados. Entretanto, é rejeitada uma ligação "sim- plista" entre mudança tecnológica e modelo de desenvolvimento, que abs- traia um elemento essencial: as relações sociais, que nesse caso abarcam especialmente tanto as relações imediatas de produção (organização do tra- balho) como o conjunto das relações sócio-econômicas (relações macroe- conômicas: distribuição, consumo e investimento) 33 . Em síntese, trata-se de formular a questão geral sobre a natureza pos- sível de um novo regime de acumulação e seu modo de regulação — em particular, quanto à relação salarial — e sobre o modo pelo qual poderá ser feita essa reestruturação, sem o que a conexão da crise com a dimen- são tecnológica careceria de mediações. Especificamente, as novas tecnologias, assim como um possível no- vo regime de acumulação que possa emergir da atual crise, remetem para as formas de regulação que venham a assumir as seguintes questões:

a) As novas relações de trabalho, sob a presença generalizada da in- formática na indústria. A gestão automática da fábrica amplia em muito

a fluidez do processo produtivo, mediante a utilização ininterrupta e flexí- vel das máquinas, permitindo enorme crescimento da produtividade. Se

é verdade que os investimentos iniciais são custosos, é possível que a fle- xibilidade favorecida pela robotização e informatização do processo pro- dutivo compense tais custos, pela maior possibilidade de reprogramação

e adaptação do capital fixo às flutuações da demanda. Contudo, dificulda-

des podem surgir quanto à mobilização e recomposição do conhecimen- to operacional, porquanto o "trabalhador coletivo" qualificado continua indispensável. Ademais, as transformações produtivas e organizacionais — inclusive sindicais — que se processam em face da robotização e da infor- matização colocam interrogantes difíceis para o encaminhamento das lu- tas sociais³ 4 . b)A repartição dos ganhos de produtividade decorrentes da gene- ralização do controle informático da produção coloca-se de forma distin- ta relativamente ao "fordismo", uma vez que não mais se impõe ao regime de acumulação como um todo a produção e o consumo de massa (ainda que persistindo em determinados setores), permitindo pensar a existência de "empresas prósperas num mundo estagnado" 35 . No entanto, apesar de

que o regime de acumulação eventualmente compatível com a produção informatizada não exija consumo de massa, a luta social poderá fazê-lo.

205

(33) Lipietz (1984 c), pp.

36-37.

(34) Ibidem, pp. 37-39.

(35) Coriat, B., citado por Lipietz, ibidem, p. 40.

O PROJETO TEÓRICO DA "ESCOLA DA REGULAÇÃO"

Poderia assim o novo regime de acumulação atender a essa exigência que

o "fordismo" não conseguiu atender satisfatoriamente 36 . Como quer que venha a ser a resposta a essa questão, a repartição social dos ganhos de produtividade permanece em aberto e exigirá for- mas específicas de regulação. Embora a produtividade tenha aumentado

com a robotização, não se segue necessariamente que os custos (de robôs

e assalariados) unitários devam também cair significativamente — a não

ser promovendo desemprego massivo. Além disso, a luta social desenca- deada pela robotização, que apenas se esboça, é tão importante quanto a questão da maior rentabilidade que ela poderia engendrar.

É possível, em conclusão, que a atual "revolução tecnológica" ve-

nha a deixar os países capitalistas exatamente na situação em que se en- contram hoje sob o "fordismo em crise"; baixo ritmo de crescimento (ape- sar da produtividade em alta) e lento acréscimo do poder de compra assa- lariado e do consumo; em poucas palavras: estagnação econômica, ainda que num ambiente de progresso tecnológico.

2.4. Uma breve avaliação crítica

(36) Ibidem.

A E.R. se inscreve numa tendência recente, não apenas de crítica

da teoria e da análise econômica convencional, mas especificamente da fusão Marx-Keynes, sob o predomínio maciço da visão daquele. Em ou- tras palavras, pode ser vista como uma específica "atualização" do pensa- mento econômico de Marx, recuperando sua dimensão original "sócio- econômica" e distanciando-se dessa forma do economicismo das versões oficiais e ortodoxas do marxismo. Entretanto, e para ir direto ao ponto da controvérsia, o esforço não

é inteiramente bem-sucedido. Se é, mais que louvável, indispensável um

tal empenho de repensar, criticamente e com aportes teóricos atuais, o mo- do de funcionamento sócio-econômico do capitalismo contemporâneo ten- do por fundamento a obra de Marx, não é menos necessária a incorpora- ção de todo um acervo de contribuições críticas, não conservadoras e con- vencionais, ao pensamento econômico deste século, que a E.R. virtualmente negligencia. Neste sentido, seu esforço neomarxista de teorização do capi- talismo padece, ainda que de forma mais branda, do mesmo mal que aco- meteu seus antecessores marxistas mais dogmáticos: a falta de mediações. Uma "atualização" teoricamente conseqüente da economia marxis- ta não pode ignorar as mudanças por que passou o capitalismo, nem as contribuições relevantes de autores não-marxistas; se a E.R. está atenta ao primeiro aspecto, não parece ter feito um esforço sistemático quanto ao segundo. Mesmo Keynes, seu principal interlocutor teórico além de Marx, não chegou a receber um tratamento aprofundado com vistas à sua

integração 37 . Ao que parece, os principais representantes da E.R. sentem- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

206

(37) A preocupação com Keynes é flagrante em Aglietta (1976), entre ou- tras obras, mas não chega

a constituir uma incorpo-

ração satisfatória do pen- samento daquele autor, suficientemente comple- xo e controvertido, para ter merecido uma recons- tituição e interpretação específica; em todo caso, não é possível aqui uma apreciação exaustiva da obra de Aglietta. Dentre os demais autores repre- sentativos da E.R., apenas em Lipietz encontram-se

ecos de idéias keynesianas (e.g. a importância da in- certeza e a instabilidade dos circuitos monetários

e financeiros), mas nunca

elaborados sistematica- mente. A referência mais freqüente é mesmo a con- vencional, que focaliza não a visão teórica, mas as políticas keynesianas.

NOVOS ESTUDOS Nº 21 - JULHO DE 1988

se premidos por uma certa urgência em chegar a formular propostas con- cretas de política econômica, com o que atravessam com excessiva rapi- dez o espaço teórico extremamente difícil — porque repleto de questões pendentes, proposições inconclusivas e abordagens contraditórias — en- tre o alto nível de abstração em que se movem conceitualmente no âmbi- to da reprodução/regulação, e os movimentos de conjuntura da crise, da política econômica e das lutas sociais 38 . Ora, é justamente esse espaço — em poucas palavras, o da compreensão da dinâmica da economia capita- lista — que constitui a mediação fundamental, de natureza teórica, a ser percorrida a partir de Marx, antes das circunstâncias histórico-concretas, das especificidades nacionais e dos elementos institucionais. E é sobre es- se mesmo espaço das mediações teóricas do funcionamento dinâmico da economia capitalista que se têm debruçado os principais economistas teó- ricos não-ortodoxos do século, de Schumpeter a Keynes e Kalecki. A falta de uma discussão mais detida das questões da dinâmica eco-

nômica capitalista constitui, a nosso ver, a principal lacuna da E.R. ao ní- vel dos seus fundamentos, e que se manifesta em vários dos problemas ou insuficiências específicas de sua contribuição, como se verá a seguir. É verdade que, à primeira vista, a opção da E.R. pelo tema da regulação

a filia à problemática da reprodução, que na tradição da análise econômi-

ca não se coaduna diretamente à da dinâmica. Contudo, vale lembrar que sua vinculação a Marx impõe uma percepção não-estática da reprodução, que no capitalismo é necessariamente reprodução ampliada, acumulação

e crise, em suma — que, com razão, seus adeptos enfatizam ao formular

e destacar a noção de regime de acumulação. Assim, a filiação marxista dos autores, ainda mais sob um enfoque não-ortodoxo, não os prende inexoravelmente dentro dos limites da análi- se do "capital em geral", a que Marx basicamente se circunscreveu em O Capital e em que formulou suas leis de movimento da economia capitalis- ta. A análise teórica dos "vários capitais", no âmbito da concorrência capi- talista e da dinâmica — ciclo econômico, crescimento a longo prazo, mo- vimento internacional de capitais —, é a nosso ver pressuposto fundamental para que se possa captar o movimento concreto, de posse de instrumen- tos de análise efetivos, formulados em nível adequado (menor) de abstração 39 . Sendo este o ponto crítico essencial, tomemos a seguir exemplos das formas mais marcantes em que ele surge nos autores comentados. Em primeiro lugar, consideremos a própria noção de regulação. Pensada no contexto da reprodução, ela entretanto não é claramente diferenciada des- ta última — que, por sua vez, já apresenta suficientes problemas de inter- pretação a partir de Marx. Em poucas palavras: se a reprodução é pensada, em Marx como na tradição marxista, num plano mais abrangente relativo ao modo de produção em seu conjunto, foi entretanto objeto de análise por Marx no âmbito estritamente econômico, de revelar a viabilidade e as formas gerais de reprodutibilidade do capitalismo como um sistema eco- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

207

(38) Essa constatação é particularmente aplicável aos trabalhos de A. Li-

pietz. Veja-se, como exemplo, os caps. 7 ("A Moeda de Crédito e a Res- trição Real") e 8 ("A Infla- ção na Regulação Mono- polista") de seu op. cit. (1983), que percorrem —

e, às vezes, oscilam —

desde a abstração da for- ma valor e a moeda-

mercadoria até a política monetária da FED (EUA) e

o

choque do petróleo.

Sem entrar no mérito do seu conteúdo, que possui

vários insights importan-

tes,

do

o ponto é que o mo- de exposição não con-

tribui em nada para escla- recer as mediações teóri-

percorridas. Aliás, é tí- pico do autor que vários

seus livros e artigos

cas

de

contenham, não aprofun- damentos sucessivos de temas correlatos, mas quase repetições compac- tas das mesmas noções gerais sobre os pressupos-

teóricos da E.R., segui-

tos

das de análises igualmen-

semelhantes de vários

aspectos dacriseatual.

te

(39) Sobre esse ponto veja-se Possas, M. (1984). "Marx e os Fundamentos

da Dinâmica Econômica

Capitalista". Revista de

Economia Política, 4(3),

nº 15.

OPROJETOTEÓRICODA"ESCOLADAREGULAÇÃO"

nômico. Nesse último contexto não cabe, em termos teóricos rigorosos, uma análise da dinâmica capitalista, mesmo porque o conceito de repro-

dução ampliada contempla unicamente (o que não é pouco) as condições formais e gerais de reprodutividade econômica capitalista, isto é, com acu- mulação de capital 40 . Ora, se o próprio conceito marxista de reprodução é ambíguo, e se sua dimensão analiticamente mais precisa é a econômica, que ainda as- sim não chega a se pronunciar sobre as determinações da dinâmica, o que se pode esperar da noção de regulação em termos de rigor analítico, quando seu próprio status teórico permanece insuficientemente esclarecido vis-à- vis o de reprodução, além de assumir expressamente dimensões

extra-econômicas?

Admitamos, entretanto, que a idéia de regulação é em si sugestiva

e promissora, merecendo um esforço considerável de elaboração; não se

trata aqui, portanto, de rejeitá-la liminarmente, mas de chamar a atenção para o fato de que seu conteúdo permance de tal forma ambíguo que po- de chegar a afetar irremediavelmente as demais proposições específicas da construção teórica que serve de base às análises da E.R. Em particular, me- rece destaque a ênfase posta na necessidade de mecanismos institucionais — não necessariamente organizações fisicamente existentes — que viabi- lizem a interiorização sistemática de normas e motivos econômicos entre

os atores sociais permitindo, mediante uma relativa estabilidade estrutural da sociedade em determinadas etapas históricas — apesar das suas contra- dições ineliminávies —, a reprodução sócio-econômica do conjunto. O pro- blema é que, sem as mediações que só uma teoria dinâmica pode forne- cer, a própria periodização dessas etapas, que depende das condições es- truturais sócio-econômicas que ela impõe à regulação e de seus desdobra- mentos ao longo do tempo, permanecerá mal explicada.

O tratamento da crise — que é o único aspecto da dinâmica capita-

lista referido expressamente — exemplifica as dificuldades decorrentes da ausência de mediações adequadas. Ela é "explicada", dentro de uma tradi- ção que se pretende marxista ortodoxa mas que nunca deu bons frutos, por determinações inteiramente gerais — relacionadas com a suposta ten- dência decrescente da taxa de lucro e com uma possível tendência à supe- racumulação decorrente de insuficiência do consumo dos assalariados (o chamado "subconsumo") —, aliadas a fatores ad hoc, como por exemplo

a hipótese de profit squeeze referente à crise atual 41 . Como os fatores teó- ricos gerais determinantes da crise são eles próprios pouco esclarecidos em sua gênese, a articulação com o regime de acumulação vigente perma- nece algo superficial, com o que a distinção entre crise "na" regulação e "da" regulação, em nível mais abstrato, pouco acrescenta à compreensão quer da regulação, quer de sua crise, mantendo-se apenas como referência definicional.

A escolha das relações mercantil e salarial como relações sociais bá-

sicas se afigura essencialmente correta e de acordo com Marx. O detalha- kkkkk

208

(40) De passagem, observa-se que há razoá- vel consenso entre eco- nomistas marxistas con- temporâneos quanto a ter sido a precariedade e ina- dequação do uso dos "es- quemas de reprodução" de Marx para o contexto (distinto) da dinâmica e da crise um dos fatores que mais prejudicaram a clare- za e a pertinência analíti- ca do debate marxista do início do século.

(41) A crítica destes ele- mentos explicativos da crise será retomada no fi- nal destes comentários.

NOVOS ESTUDOS Nº 21 - JULHO DE 1988

damento da concepção de valor e de dinheiro subjacentes à relação mer- cantil, de um lado, e do significado da relação salarial, de outro, parecem- nos menos adequados. Como foi visto, a idéia de que o trabalho como substância de valor não implique uma relação "microeconômica" (sic) entre valor e quantida-

de de trabalho 42 , não só não é compatível com Marx, como é logicamente

insustentável. É bastante claro para os participantes não-dogmáticos do de- bate sobre a teoria marxista do valor que este só pode se fundar no traba- lho abstrato enquanto substância se tiver neste, ao mesmo tempo, sua me- dida, portanto expressão quantitativa de cada relação individual de troca (não empírica, mas teoricamente concebida) 43 . Quanto ao conceito de dinheiro, temos aí um problema possível- mente mais sério em suas conseqüências. Não é possível desenvolver aqui. uma discussão crítica minuciosa das posições da E.R. e das alternativas re- levantes. Basta observar, em primeiro lugar, que os aportes altamente rele- vantes de Keynes e alguns de seus seguidores em teoria monetária são in- corporados, quando muito, de forma superficial, não raro apenas na for- ma de citação en passant. Além disso, e completamentariamente, os auto- res da E.R., neste como em outros pontos, seguem, talvez involuntariamen-

te, uma tradição marxista de corte neo-ricardiano, "estático-reprodutivo",

quando enfatizam em seu enfoque monetário a conexão entre processo

inflacionário e restrição monetária, indiretamente relacionada à oferta de moeda estabelecida em última instância pela política monetária do Esta- do. Tanto a noção de restrição monetária quando a de oferta monetária

— bem como sua suposta relação com a inflação — constituem um retro-

cesso estático e potencialmente conservador em relação a Keynes, e à no- ção hoje generalizada entre os melhores depositários da herança de Key- nes, quanto à natureza essencialmente endógena e não intrinsecamente in- flacionária da oferta da moeda — além de não encontrarem precedentes

ou respaldo em Marx 44 . Vê-se, portanto, que um aspecto marcante, e talvez mesmo a tônica, da concepção da E.R. quanto à relação mercantil no capitalismo, e por ex-

tensão às exigências de sua regulação está no enfoque reprodutivo, de ca ráter essencialmente (e perigosamente, para os resultados políticos da aná- lise) estático. No que diz respeito à relação salarial, a ênfase reprodutiva é menor.

O problema, neste caso, recai sobre a posição excessivamente destacada,

a meu ver, que a E.R. confere à relação salarial no âmbito da dinâmica da

acumulação capitalista. É bastante claro, de um ponto de vista marxista,

o lugar constitutivo essencial que a relação assalariada ocupa enquanto re- lação de produção. Não é tão claro, por outro lado, que o papel desta en-

quanto relação de troca mercantil deva merecer um status equivalente, co- mo parece propor a E.R., ao menos no elevado nível da abstração em que

se move. As dificuldades teóricas mais prementes, ao lidar com a proble-

mática salarial no capitalismo contemporâneo, não estão propriamente no kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

209

OPROJETOTEÓRICODA"ESCOLADAREGULAÇÃO"

âmbito das normas de regulação salarial — o que traduziria mais uma vez a ênfase reprodutiva da abordagem —, mas nas complexas inter-relações dinâmicas entre a determinação dos salários e dos preços, no plano "mi- croeconômico", a apropriação de rendimentos pessoais daí resultantes e os padrões de gasto conseqüentes em consumo de bens e serviços, com respectivas implicações "macroeconômicas", setoriais e globais. A noção de "regime de acumulação" é sem dúvida um passo importante na direção correta, mas não é suficiente. Aqui, como antes, ressalta a necessidade de suprir as mediações teóricas relevantes, de forma a permitir captar, e expli- citar analiticamente, as determinações mais concretas 45 . Em suma, a relação salarial não contém, pela análise de suas formas de reprodução e regulação, suficiente densidade para expressar determi- nações básicas da acumulação capitalista em seu movimento global, não fazendo jus, portanto, ao status fundamental que lhe concede a E.R. — ainda que represente, indiscutivelmente, uma relação constitutiva capitalista. A insuficiência de mediações, observada até aqui ao nível das refe- rências mais básicas dessa corrente de pensamento, manifesta-se mais agu- da quando se passa aos determinantes da crise. Embora incorporando quase sempre elementos relevantes da realidade, e não raro apontando em direção fértil, o tratamento da crise carece de profundidade analítica. Os instrumentos são pouco elaborados e o referencial teórico muito genéri- co, do que resultam quase sempre proposições pouco esclarecedoras e em boa média inconclusivas. Nesse sentido, são traços característicos de seu enfoque da crise capitalista:

a) o uso recorrente de determinações gerais derivadas das leis de

movimento capitalistas formuladas por Marx — tal como, em especial, a lei de tendência à queda da taxa de lucro, do que resulta privilegiar o con-

fronto entre crescimento tendencial da composição orgânica do capital e da taxa de mais-valia na explicação das crises, sem maiores mediações teó- ricas — quando muito, desagregando a economia em dois setores (como Marx em seus esquemas de reprodução — aqui, mais uma expressão da ênfase reprodutiva da escola);

b) a referência freqüente a fórmulas vagas e analiticamente insatis-

fatórias como "crise de superacumulação", "crise de subconsumo", "pro- blemas de realização" etc. — que, sem avançar muito em relação ao acervo

rudimentar do marxismo do início do século, ignora as contribuições mais recentes à macrodinâmica capitalista de autores do peso de Kalecki e de não-marxistas do calibre de Keynes e Schumpeter, entre outros;

c) a falta de sistematicidade da análise, que por isso mesmo pode

comportar elementos ad hoc, justapostos como diferentes fatores explica-

tivos sem maior conexão e mesmo sem fundamentação teórica (como, por exemplo, as hipóteses de "profit squeeze");

d) a decorrente dificuldade, pela carência de mediações e de maior

elaboração teórica, em formular tendências ou, ao menos, hipóteses alter-

nativas plausíveis de desdobramento a partir das condições vigentes.

210

(45) Permitindo também evitar, em conseqüência, equívocos teóricos graves como a aceitação ad hoc da hipótese do "profit squeeze" a partir dos cus- tos salariais na explicação da crise capitalista. A res- peito, cf. Possas, M. (1987). A Dinâmica da Economia Capitalista:

uma Abordagem Teórica. S. Paulo, Brasiliense; pp.

107-111.

NOVOS ESTUDOS Nº 21 - JULHO DE 1988

Nesse quadro, a problemática da mudança tecnológica não é exce- ção, sofrendo limitações semelhantes, que resultam de:

a) uma já referida ênfase excessiva, do ponto de vista econômico,

na relação salarial, com o que as características do processo de trabalho,

e das relações sociais aí expressas, tanto de produção como salariais, são focalizadas quase exclusivamente, restando pouco ou nenhum espaço às questões decisivas da gênese microdinâmica e difusão das inovações, de um lado, e dos impactos macrodinâmicos das inovações de grande porte

e seu potencial de difusão, de que se têm exemplos contemporâneos tão marcantes, de outro lado;

b) uma escassez de instrumental analítico suficientemente refinado

para estabelecer conexões entre a dinâmica econômica — e a crise, em particular — e distintos cenários de geração e difusão de inovações

tecnológicas;

c) idem, no que se refere à análise de impactos micro e macroeco-

nômicos e sociais. Finalizando esta seção, vale ressaltar que não se está propondo uma

rejeição global da E.R. ou lhe negando um aporte significativo de elemen- tos teóricos básicos, notadamente no campo não-ortodoxo, para uma re- flexão sobre as relações entre a crise atual e o processo em curso de mu- dança estrutural. A crítica se centra no que provavelmente se constitui nu- ma divergência de estratégia: acreditamos que a partir de fundamentos só- lidos não é óbvio que se alcancem resultados analíticos potencialmente férteis. Requer-se um esforço sistemático de construir mediações — inclu- sive, e talvez principalmente, as teóricas — que, embora muitas vezes sem produzir conclusões rapidamente, poderão mostrar-se mais consistentes

e eficazes a um prazo mais longo, evitando assim a esterilização precoce

do enorme potencial do qual se está partindo. Este esforço envolve, a nos- so ver, a incorporação, sistemática, não-eclética, de elementos extraídos de contribuições como as dos autores mencionados, à teoria da dinâmica capitalista. Os resultados, naturalmente, devem esperar o esforço necessá- rio; apressá-los não é queimar etapas, mas a própria munição teórica de que se dispõe para tratar o tema.

3. Comentário final

Em síntese, a E.R. representa um importante e ambicioso projeto de reconstituição de certas dimensões da reprodução sócio-econômica do capitalismo, que têm sido negligenciadas com freqüência entre economis- tas, mesmo os de formação marxista, como é o caso desses autores. Foram discutidas também, com algum detalhe, as limitações que essa escola apre- senta em seu projeto, notadamente pela insuficiência das mediações em face da extrema abrangência histórico-teórica de suas preocupações e da kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

211

OPROJETOTEÓRICODA"ESCOLADAREGULAÇÃO"

relativa "urgência" que denota na passagem ao movimento concreto e à crise atual. A inefável passagem "do abstrato ao concreto" mostrou-se mais uma vez um desafio, pelo menos até o presente, acima do fôlego dos que têm procurado reconstruí-la quase por inteiro, desde os píncaros mais eleva- dos do pensamento (econômico) de Marx, atravessando em irrefreada im- pulsão as importantes mediações que a teoria econômica não-convencional tem procurado construir neste século para explicar a dinâmica da econo- mia capitalista e seus caracteres históricos atuais. A amplitude do projeto intelectual, aliada à relativa precariedade dos meios mobilizados para enfrentá-lo, denota a rigor uma certa ingenuidade, e a precipitação de uma estratégia teórica que, por fazer tabula rasa de quase tudo o que a teoria econômica propôs desde Marx — por muitos defeitos que ela obviamente possua — arrisca-se a ter que refazê-la; ou, o que é pior, acreditar que não é necessário, e por isso contar apenas com os instrumentos de análise eco- nômica rudimentares que o marxismo vulgar vem empregando desde o início do século.

212

Mario Luiz Possas é pro- fessor do Instituto de Economia da Unicamp.

Novos Estudos

CEBRAP

Nº21,julhode1988

pp.195-212