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Coleção

Comitê Editorial:
Celso Lafer
Marcelo de Paiva Abreu
Gelson Fonseca Júnior
Carlos Henrique Cardim

A reflexão sobre a temática das relações internacionais está presente desde os pensadores
da antigüidade grega, como é o caso de Tucídides. igualmente, obras como a Utopia, de
Thomas More, e os escritos de Maquiavel, Hobbes e Montesquieu requerem, para sua
melhor compreensão, uma leitura sob a ótica mais ampla das relações entre estados e
povos. No mundo moderno, como é sabido, a disciplina Relações Internacionais surgiu
após a Primeira Guerra Mundial e, desde então, experimentou notável desenvolvimento,
transformando-se em matéria indispensável para o entendimento do cenário atual.
Assim sendo, as relações internacionais constituem área essencial do conhecimento que
é, ao mesmo tempo, antiga, moderna e contemporânea.

No Brasil, apesar do crescente interesse nos meios acadêmico, político, empresarial,


sindical e jornalístico pelos assuntos de relações exteriores e política internacional,
constata-se enorme carência bibliográfica nessa matéria. Nesse sentido, o Instituto de
Pesquisa de Relações Institucionais - IPRI, a Editora Universidade de Brasília e a
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo estabeleceram parceria para viabilizar a edição
sistemática, sob a forma de coleção, de obras básicas para o estudo das relações
internacionais. Algumas das obras incluídas na coleção nunca foram traduzidas para o
português, como O Direito da Paz e da Guerra de Hugo Grotius, enquanto outros
títulos, apesar de não serem inéditos em língua portuguesa, encontram-se esgotados,
sendo de difícil acesso. Desse modo, a coleção Clássicos IPRI tem por objetivo facilitar ao
público interessado o acesso a obras consideradas fundamentais para o estudo das
relações internacionais em seus aspectos histórico, conceitual e teórico.

Cada um dos livros da coleção contará com apresentação feita por um especialista que
situará a obra em seu tempo, discutindo também sua importância dentro do panorama
geral da reflexão sobre as relações entre povos e nações. Os Clássicos IPRI destinam-se
especialmente ao meio universitário brasileiro que tem registrado, nos últimos anos,
um expressivo aumento no número de cursos de graduação e pós-graduação na área de
relações internacionais.
Coleção Clássicos IPRI

TUCÍDlDES G. W. F. HEGEL
“História da Guerra do Peloponeso” “Textos Selecionados”
Prefácio: Hélio Jaguaribe Organização e prefácio: Franklin Trein

E. H. CARR JEAN-JACQUES ROUSSEAU


“Vinte Anos de Crise 1919-1939. “Textos Selecionados”
Uma Introdução ao Estudo das Relações Organização e prefácio: Gelson Fonseca Jr.
Internacionais”
Prefácio: Eiiti Sato NORMAN ANGELL
“ A Grande Ilusão”
J. M. KEYNES Prefácio: José Paradiso
As Conseqüências Econômicas da Paz”
Prefácio: Marcelo de Paiva Abreu THOMAS MORE
“Utopia”
RAYMOND ARON Prefácio: João Almino
“Paz e Guerra entre as Nações”
Prefácio: Antonio Paim “Conselhos Diplomáticos”
Vários autores
MAQUIAVEL Organização e prefácio: Luiz Felipe de
“Escritos Selecionados” Seixas Corrêa
Prefácio e organização: José Augusto
Guilhon Albuquerque EMERICH DE VATTEL
“O Direito das Gentes”
HUGO GROTIUS Tradução e prefácio: Vicente Marotta Range!
“O Direito da Guerra e da Paz”
Prefácio: Celso Lafer THOMAS HOBBES
“Textos Selecionados”
ALEXIS DE TOCQUEVILLE Organização e prefácio: Renato Janine
“Escritos Selecionados” Ribeiro
Organização e prefácio: Rodrigues Ricardo
Velez ABBÉ DE SAINT PIERRE
“Projeto para uma Paz Perpétua para a Europa”
HANS MORGENTHAU
“A Política entre as Nações” SAINT SIMON
Prefácio: Ronaldo M. Sardenberg “Reorganização da Sociedade Européia”
Organização e prefácio: Ricardo
IMMANUEL KANT Seitenfuss
“A Paz Perpétua e outros Escritos Políticos”
Prefácio: Carlos Henrique Cardim HEDLEY BULL
“A Sociedade Anárquica”
SAMUEL PUFENDORF Prefácio: Williams Gonçalves
“Do Direito Natural e das Gentes”
Prefácio: Tércio Sampaio Ferraz Júnior FRANCISCO DE VITORIA
“De Indis et De Jure Belli”
CARL VON CLAUSEWJTZ Prefácio: Fernando Augusto Albuquerque
“Da Guerra” Mourão
Prefácio: Domício Proença
MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES
Ministro de Estado: Professor CELSO LAFER
Secretário Geral: Embaixador OSMAR CHOHFI

FUNDAÇÃO ALEXANDRE DE GUSMÃO - FUNAG


Presidente: Embaixadora THEREZA MARIA MACHADO QUINTELLA

CENTRO DE HISTÓRIA E DOCUMENTAÇÃO DIPLOMÁTICA – CHDD


Diretor: Embaixador ALVARO DA COSTA FRANCO

INSTITUTO DE PESQUISA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS IPRI


Diretor: Conselheiro CARLOS HENRIQUE CARDIM

UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
Reitor: Professor LAURO MORHY
Diretor da Editora Universidade de Brasília: ALEXANDRE LIMA

Conselho Editorial
Elisabeth Cancelli (Presidente), Alexandre Lima, Estevão Chaves de Rezende Martins,
Henryk Siewierski, José Maria G. de Almeida Júnior, Moema Malheiros Pontes,
Reinhardt Adolfo Fuck, Sérgio Paulo Rouanet e Sylvia Ficher.

IMPRENSA OFICIAL DO ESTADO DE SÃO PAULO


Diretor Presidente: SÉRGIO KOBAYASHI
Diretor Vice-Presidente: LUIZ CARLOS FRIGÉRIO
Diretor Industrial: CARLOS NICOLAEWSKY
Diretor Financeiro e Administrativo: RICHARD V AINBERG
Coordenador Editorial: CARLOS TAUFIK HADDAD
TUCÍDIDES

HISTÓRIA DA GERRA DO
PELOPONESO

Tradução do Grego:
Mário da Gama Kury

Prefácio:
Helio Jaguaribe

Editora Universidade de Brasília


Edições Imprensa Oficial de São Paulo
Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais
Copyright© 1987 Universidade de Brasília

Copyright© 1982 Introdução e notas de Mário da Gama Kury

Direitos© desta edição:


Editora Universidade de Brasília
SCS Q. 02 bloco C nº 78, 2° Andar
70300-500 BrasíIia, DF

A presente edição foi feita em forma cooperativa pela Editora Universidade de Brasília com
o Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI/FUNAG) e a Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo.

Todos os direitos reservados conforme a lei. Nenhuma parte desta publicação poderá ser
armazenada ou reproduzida por qualquer meio sem autorização por escrito da Editora
Universidade de Brasília.

Equipe técnica:
EIITI SATO (planejamento editorial)
EUGÊNIA DÊ CARLI DE ALMEIDA (Edição gráfica)
ISABELA MEDElROS SOARES (Mapas e revisões)
RAINALDO AMANCIO E SILVA (programação visual)

TUCÍDIDES (c. 460 - c. 400 a.C)


T532h História da Guerra do Peloponeso/Tucídides; Prefácio de Helio
Jaguaribe; Trad. do grego de Mário da Gama Kury. – 4ª edição – Brasília:
Editora Universidade de Brasília, Instituto de Pesquisa de Relações
Internacionais; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2001
XLVII, 584 p., 23 cm - (Clássicos IPRI, 2)

ISBN: 85-230-0204-9

1 - Grécia; 2 - História Antiga; 3 - Guerra do Peloponeso;


4 - Pensamento Político Clássico; 5 - Relações Internacionais - História;
I. Título. II. Série.

CDU – 94(38)
SUMÁRIO
LISTA DOS MAPAS ...................................................................................... XXI

PREFÁCIO ..................................................................................................... XXIII

APRESENTAÇÃO DO TRADUTOR ...................................................... XLI

LIVRO PRIMEIRO

CAPÍTULOS 1 a 19: O autor passa em revista os tempos primitivos


da Hélade, para provar que a guerra do Peloponeso
ultrapassou todas as outras em importância ........................................ 1
CAPÍTULOS 20 a 23: Objetivo do autor na redação de sua obra;
métodos e meios adotados por ele para atingir o objetivo ........... 13
CAPÍTULOS 24 a 31: Acontecimentos causadores da guerra do
Peloponeso; incidente de Epídamnos; guerra entre Córcira e
Corinto; primeiro combate naval........................................................ 16
CAPÍTULOS 32 a 43: Os corcireus conseguem a aliança com Atenas;
discursos dos corcireus e dos coríntios.............................................. 21
CAPÍTULOS 44 a 55: Segundo combate naval entre os corcireus e
os coríntios; fim da guerra de Córcira ............................................... 28
CAPÍTULOS 56 a 66: Defecção de Potidéia; combate travado junto
às muralhas da cidade e cerco iniciado pelos atenienses
CAPÍTULOS 67 a 87: Os lacedemônios declaram rompido o tratado
existente com Atenas; discursos dos coríntios, dos atenienses,
de Arquídamos e de Stenelaídas .......................................................... 33
CAPÍTULOS 88 a 98: Digressão sobre o período decorrido entre
as guerras com os persas e a do Peloponeso; crescimento do
poderio ateniense; origem e condições de seu império .................. 37
8

CAPÍTULOS 99 a 125: Os lacedemônios convocam uma assembléia


geral de seus aliados e acertam com eles a declaração de guerra
aos atenienses; discurso dos coríntios ................................................. 50
CAPÍTULOS 126 e 127: Queixas e recriminações recíprocas dos
lacedemônios e dos atenienses; conjuração de Cílon; sacrilégio
a expiar ..................................................................................................... 58
CAPÍTULOS 128 a 134: Traição e morte de Pausânias .............................. 75
CAPÍTULOS 135 a 138: Exílio e fim de Temístocles ................................. 80
CAPÍTULO 139: Ultimatum dos lacedemônios........................................... 83
CAPÍTULOS 140 a 146: Os atenienses decidem ir à guerra; primeiro
discurso de Péricies ................................................................................ 83

LIVRO SEGUNDO

CAPÍTULOS 1 a 6: Início da guerra; trama dos tebanos contra Platéia .. 89


CAPÍTULOS 7 a 9: Preparativos e aliados dos dois lados ......................... 92
CAPÍTULO 10: Os peloponésios se reúnem no istmo ............................... 94
CAPÍTULO 11: Alocução de Arquídamos .................................................... 94
CAPÍTULO 12: Envio inútil de um emissário espartano a Atenas ........... 95
CAPÍTULO 13: Péricles expõe aos atenienses seus planos de guerra ....... 95
CAPÍTULOS 14 a 17: Retirada dos camponeses da Ática para a
cidade; digressão sobre as antigas condições da Ática .................... 97
CAPÍTULOS 18 a 25: Primeira invasão da Ática pelos peloponésios;
envio de uma frota ateniense para rondar o Peloponeso ............. 100
CAPÍTULO 26: Expedição naval dos atenienses contra a Lócrida ........ 104
CAPÍTULO 27: Expulsão dos eginetas ........................................................ 104
CAPÍTULO 28: Eclipse do sol....................................................................... 105
CAPÍTULO 29: Aliança dos atenienses com Sitalces, rei dos odrísios ... 105
9

CAPÍTULOS 30 a 32: Os atenienses tomam Sólion, Ástacos e


Cefalênia, invadem a Megárida e fortificam a ilha de Atalante ... 106
CAPÍTULO 33: Expedição dos coríntios contra Ástacos ........................ 107
CAPÍTULO 34: Funerais dos atenienses mortos em combate no
primeiro ano de guerra ....................................................................... 107
CAPÍTULOS 35 a 46: Oração fúnebre pronunciada por Péricles .......... 108
CAPÍTULOS 47 a 57: Segundo ano da guerra; segunda invasão da
Ática pelos peloponésios; peste em Atenas ..................................... 114
CAPÍTULO 58: Envio de reforços ao exército ateniense que sitiava
Potidéia ................................................................................................... 120
CAPÍTULO 59: Irritação dos atenienses contra Péricles ........................... 121
CAPÍTULOS 60 a 64: Discurso de Péricles ................................................. 121
CAPÍTULO 65: Morte de Péricles e apreciação de sua administração .. 125
CAPÍTULO 66: Expedição naval dos peloponésios contra Zácintos .... 125
CAPÍTULO 67: Detenção dos representantes dos lacedemônios
enviados ao rei da Pérsia..................................................................... 127
CAPÍTULO 68: Expedição dos ambraciotas contra Argos
Anfiloquiana .......................................................................................... 128
CAPÍTULO 69: Operações marítimas dos atenienses contra
o Peloponeso, a Cária e a Lícia .......................................................... 128
CAPÍTULO 70: Tomada de Potidéia ............................................................ 129
CAPÍTULOS 71 a 78: Terceiro ano da guerra; cerco de Platéia pelos
peloponésios ......................................................................................... 129
CAPÍTULO 79: Derrota dos atenienses em Spártolos .............................. 134
CAPÍTULOS 80 a 82: Derrota dos peloponésios em Stratos ................. 135
CAPÍTULOS 83 a 92: Batalhas navais no golfo de Corinto; exortações
de Brasidas e Fórmion ........................................................................ 137
CAPÍTULOS 93 e 94: Tentativa dos peloponésios contra o Pireu ......... 146
10

CAPÍTULOS 95 a 101: Expedição de Sitalces à Macedônia; digressão


sobre o reino dos odrísios ................................................................. 147
CAPÍTULOS 102 e 103: Expedição de Fórmion à Acarnânia ................ 152

LIVRO TERCEIRO

CAPÍTULO 1: Quarto ano da guerra; terceira invasão da Ática pelos


peloponésios ......................................................................................... 155
CAPÍTULOS 2 a 6: Lesbos, à exceção de Métimna, revolta-se contra
Atenas ..................................................................................................... 155
CAPÍTULO 7: Expedição marítima dos atenienses contra o
Peloponeso, Eníadas e Lêucade ........................................................ 157
CAPÍTULOS 8 a 15: Os peloponésios recebem os lésbios em sua
aliança; discurso dos representantes de Lesbos .............................. 158
CAPÍTULO 16: Envio de uma frota ateniense contra o Peloponeso .... 162
CAPÍTULO 17: Forças marítimas reunidas pelos atenienses .................... 162
CAPÍTULO 18: Os atenienses começam o cerco de Mitilene ................. 163
CAPÍTULO 19: Os atenienses impõem a primeira contribuição de
guerra e enviam Usides para recolher o tributo entre os aliados ...... 163
CAPÍTULOS 20 a 24: Fuga de parte dos plateus cercados ...................... 164
CAPÍTULO 25: Envio do lacedemônio Sáletos a Mitilene ...................... 167
CAPÍTULO 26: Quinto ano da guerra; quarta invasão da Ática pelos
peloponésios ......................................................................................... 167
CAPÍTULOS 27 e 28: Rendição de Mitilene ............................................... 168
CAPÍTULOS 29 a 32: Uma frota peloponésia aparece na Iônia ............ 168
CAPÍTULOS 33 e 34: O ateniense Paques a persegue............................... 170
CAPÍTULO 35: Paques envia para Atenas mil metímnos aprisionados .... 171
11

CAPÍTULO 36: Os atenienses condenam à morte todos os mitilênios;


nova assembléia a propósito da decisão ......................................... 171
CAPÍTULOS 37 a 40: Discurso de Clêon ................................................... 172
CAPÍTULOS 41 a 48: Discurso de Diôdotos ............................................ 176
CAPÍTULOS 49 e 50: Os atenienses se limitam a punir os culpados
e confiscar as terras de Lesbos .......................................................... 180
CAPÍTULO 51: Nícias se apodera de Minoa.............................................. 181
CAPÍTULO 52: Rendição de Platéia ............................................................. 181
CAPÍTULOS 53 a 59: Discurso dos plateus ............................................... 182
CAPÍTULOS 60 a 67: Réplica dos tebanos ................................................. 186
CAPÍTULO 68: Os pia teus são executados e sua cidade é arrasada ..... 191
CAPÍTULOS 69 a 81: Rebelião em Córcira ................................................ 192
CAPÍTULOS 82 a 85: Digressão sobre as perturbações políticas na
Hélade .................................................................................................... 197
CAPÍTULO 86: Envio de uma frota ateniense à Sicília ............................. 201
CAPÍTULO 87: Recrudesce a peste em Atenas no inverno ..................... 201
CAPÍTULO 88: Expedição dos atenienses à Sicília e dos régios contra
as ilhas de Éolos ................................................................................... 202
CAPÍTULO 89: Sexto ano da guerra; terremotos e inundações em
várias partes da Hélade ....................................................................... 202
CAPÍTULO 90: Os atenienses se apoderam de Messene.......................... 204
CAPÍTULO 91: Expedição marítima contra Melos .................................. 205
CAPÍTULOS 92 e 93: Fundação de Heracléia Traquínia .......................... 206
CAPÍTULOS 94 a 98: Expedição mal sucedida de Demóstenes à
Etólia ...................................................................................................... 208
CAPÍTULO 99: Expedição dos atenienses contra a Lócrida ................... 208
12

CAPÍTULOS 100 a 102: Tentativa fracassada dos lacedemônios e


dos etólios contra Náupactos ............................................................ 208
CAPÍTULO 103: Combates na Sicília ........................................................... 210
CAPÍTULO 104: Purificação de Delos ........................................................ 210
CAPÍTULOS 105 a 114: Guerra dos acarnânios e dos ambraciotas ...... 211
CAPÍTULO 115: A situação na Sicília ........................................................... 217
CAPÍTULO 116: Erupção do Etna .............................................................. 217

LIVRO QUARTO

CAPÍTULO 1: Sétimo ano da guerra; captura de Messene pelos


siracusanos ............................................................................................. 219
CAPÍTULOS 2 a 6: Quinta invasão da Ática pelos peloponésios;
Demóstenes fortifica Pilos ................................................................. 219
CAPÍTULO 7: Êion, na Calcídice, é capturada e perdida pelos
atenienses ................................................................................................ 222
CAPÍTULOS 8 e 9: Ataque dos lacedemônios a Pilos .............................. 222
CAPÍTULO 10: Exortação de Demóstenes a seus soldados ................... 224
CAPÍTULOS 11 a 14: Combate junto às muralhas de Pilos; bloqueio
de tropas lacedemônias na ilha de Sfactéria .................................... 225
CAPÍTULOS 15 e 16: Armistício .................................................................. 227
CAPÍTULOS 17 a 20: Discurso dos lacedemônios em Atenas ............... 228
CAPÍTULOS 21 a 23: Reinício das hostilidades ......................................... 230
CAPÍTULOS 24 e 25: Eventos militares na Sicília ...................................... 231
CAPÍTULOS 26 a 41: Clêon assume o comando dos atenienses em
Pilos e aprisiona os lacedemônios de Sfactéria ............................... 233
CAPÍTULOS 42 a 45: Expedição naval dos atenienses a Corinto .......... 243
13

CAPÍTULOS 46 a 48: Novas desordens em Córcira; massacre do


partido aristocrático ............................................................................. 245
CAPÍTULO 49: Captura de Anactórion pelos atenienses e acarnânios ..... 247
CAPÍTULO 50: Detenção de um embaixador do rei da Pérsia pelos
atenienses ................................................................................................ 247
CAPÍTULO 51: Demolição das muralhas de Quios ................................. 247
CAPÍTULO 52: Oitavo ano da guerra; os banidos de Mitilene
capturam Ântandros ............................................................................ 247
CAPÍTULOS 53 a 55: Os atenienses conquistam Citera ........................... 248
CAPÍTULO 56: Captura de Tiréia pelos atenienses ................................... 249
CAPÍTULOS 57 a 65: Os helenos da Sicília fazem a paz entre si;
discurso de Hermócrates .................................................................... 250
CAPÍTULOS 66 a 74: Os atenienses capturam Niséia e as longas
muralhas de Mégara ............................................................................ 255
CAPÍTULO 75: Os atenienses retomam Ântandros; revés de Lâmacos
no Pontos ............................................................................................... 261
CAPÍTULO 76: Trama dos atenienses contra a Beócia ............................. 261
CAPÍTULOS 77 a 82: Brasidas conduz um exército peloponésio até
a Trácia por terra .................................................................................. 262
CAPÍTULO 83: Expedição de Brasidas contra Arrábeos, rei dos
lincéstios ................................................................................................. 265
CAPÍTULOS 84 a 88: Brasidas captura Ácantos; seu discurso aos
acântios ................................................................................................... 266
CAPÍTULOS 89 a 91: Os atenienses fortificam Délion ............................ 269
CAPÍTULO 92: Exortação de Pagondas aos beócios............................... 270
CAPÍTULOS 93 e 94: Preparativos para o ataque ..................................... 271
CAPÍTULO 95: Exortação de Hipócrates aos atenienses ......................... 272
14

CAPÍTULOS 96 a 101: Batalha de Délion; derrota dos atenienses;


captura de Délion pelos beócios ....................................................... 272
CAPÍTULOS 102 a 108: Brasidas captura Anfípolis .................................. 276
CAPÍTULO 109: Avanço de Brasidas pela costa da Trácia ...................... 281
CAPÍTULOS 110 a 116: Brasidas captura Torone e Lécitos.................... 282
CAPÍTULOS 117 a 119: Nono ano da guerra; trégua entre Atenas e
a Lacedemônia ..................................................................................... 284
CAPÍTULOS 120 a 123: Defecção de Gone e Mende, apoiada por
Brasidas apesar da trégua .................................................................... 287
CAPÍTULOS 124 a 128: Segunda expedição de Brasidas e Perdicas
contra Arrábeos.................................................................................... 289
CAPÍTULOS 129 a 131: Os atenienses retomam Mende e sitiam
Gone ....................................................................................................... 293
CAPÍTULO 132: Perdicas se reconcilia com os atenienses ....................... 295
CAPÍTULO 133: Os tebanos destroem as muralhas de Téspis; incêndio
no templo de Hera em Argos ........................................................... 295
CAPÍTULO 134: Combates entre os mantineus e os tegeus .................... 296
CAPÍTULO 135: Tentativa de Brasidas contra Potidéia ............................ 296

LIVRO QUINTO

CAPÍTULO 1: Décimo ano da guerra; os atenienses expulsam os


délios da ilha de Delos ........................................................................ 297
CAPÍTULOS 2 e 3: Clêon retoma Torone .................................................. 297
CAPÍTULOS 4 e 5: Embaixada dos atenienses à Sicilia ............................ 299
CAPÍTULOS 6 a 8: Clêon marcha contra Anfípolis .................................. 300
CAPÍTULO 9: Exortação de Brasidas às suas tropas ................................ 302
CAPÍTULOS 10 e 11: Batalha de Anfípolis; morte de Clêon e Brasidas ..... 303
15

CAPÍTULOS 12 e 13: Ranfias parte da Lacedemônia com reforços


destinados ao exército na Trácia; notícias tranqüilizadoras o
levam a regressar .................................................................................. 305
CAPÍTULOS 14 a 17: Gestões preliminares para a paz ............................ 305
CAPÍTULOS 18 a 20: Tratado de paz entre os atenienses e
lacedemônios......................................................................................... 308
CAPÍTULO 21: Clearidas se recusa a entregar Anfípolis .......................... 310
CAPÍTULOS 22 a 24: Aliança entre Atenas e a Lacedemônia ................. 311
CAPÍTULOS 25 e 26: Décimo primeiro ano da guerra; observações
cronológicas sobre a duração da guerra do Peloponeso ............. 312
CAPÍTULOS 27 e 28: Os argivos chefiam uma aliança oposta aos
lacedemônios......................................................................................... 314
CAPÍTULO 29: Mantinéia adere à aliança de Argos .................................. 314
CAPÍTULO 30: Os lacedemônios tentam inutilmente engajar Corinto
e a Beócia no tratado de paz concluído por eles com Atenas ....... 315
CAPÍTULO 31: Os eleus e os coríntios aderem à liga de Argos ............ 316
CAPÍTULO 32: Os atenienses retomam Cione; os tegeatas e os
beócios se recusam a aderir à aliança de Argos ............................. 316
CAPÍTULO 33: Expedição da Lacedemônia contra os parrásios .......... 317
CAPÍTULO 34: Recompensas conferidas aos soldados de Brasidas;
degradação dos prisioneiros de Sfactéria ........................................ 318
CAPÍTULO 35: Captura de Tissos pelos dios ............................................ 318
CAPÍTULOS 36 a 38: Intrigas dos éforos para romper a paz ................ 319
CAPÍTULO 39: Os lacedemônios concluem uma aliança em separado
com os beócios .................................................................................... 321
CAPÍTULOS 40 e 41: Décimo segundo ano da guerra; entendimentos
entre Argos e a Lacedemônia ............................................................ 321
16

CAPÍTULOS 42 a 47: Os beócios arrasam Pânacton antes de entregá-la


aos atenienses; estes, irritados com os lacedemônios por isto,
concluem uma aliança com Argos, Mantinéia e Élis ..................... 322
CAPÍTULO 48: Corinto se reconcilia com os lacedemônios ................... 327
CAPÍTULOS 49 e 50: Desentendimento entre os eleus e os
lacedemônios a propósito de Leprêon............................................ 328
CAPÍTULO 51: Derrota dos heracleotas ................................................... 329
CAPÍTULO 52: Décimo terceiro ano da guerra; expedição de
Alcibíades contra o Peloponeso ........................................................ 330
CAPÍTULOS 53 a 55: Guerra entre Argos e Epídauros .......................... 330
CAPÍTULO 56: Os lacedemônios socorrem os epidáurios; por este
motivo os atenienses declaram o tratado rompido ....................... 331
CAPÍTULOS 57 a 60: Décimo quarto ano da guerra; expedição dos
lacedemônios contra Argos; trégua de quatro meses .................... 332
CAPÍTULOS 61 e 62: Reinício das hostilidades; os argivos capturam
Orcômenos e ameaçam Tegéia ......................................................... 334
CAPÍTULOS 63 e 64: Os lacedemônios socorrem os tegeatas ............... 335
CAPÍTULOS 65 a 74: Batalha de Mantinéia; vitória dos lacedemônios ...... 336
CAPÍTULO 75: Hostilidades entre Argos e Epídauros ............................ 341
CAPÍTULOS 76 a 79: Paz e aliança entre os lacedemônios e os argivos ..... 342
CAPÍTULOS 80 e 81: Dissolução da aliança de Argos ............................. 344
CAPÍTULO 82: Décimo quinto ano da guerra; revolução democrática
em Argos; aliança entre Argos e Atenas .......................................... 345
CAPÍTULO 83: Expedição dos lacedemônios contra Argos e dos
argivos contra a Fliásia ........................................................................ 346
CAPÍTULO 84: Décimo sexto ano da guerra; expedição dos
atenienses contra a ilha de Melos ....................................................... 346
CAPÍTULOS 85 a 113: Diálogo entre os atenienses e os mélios ............ 347
17

CAPÍTULO 114: Cerco de Melos ................................................................. 353


CAPÍTULO 115: Diversas atividades dos argivos, dos atenienses,
dos lacedemônios e dos coríntios ..................................................... 354
CAPÍTULO 116: Captura de Melos pelos atenienses; tratamento cruel
infligido a Melos ................................................................................... 354

LIVRO SEXTO

CAPÍTULOS 1 a 6: Os atenienses planejam a conquista da Sicília;


extensão, população e colonização da ilha ...................................... 355
CAPÍTULO 7: Expedições dos lacedemônios à Argólida e dos
atenienses à Macedônia ....................................................................... 359
CAPÍTULO 8: Décimo sétimo ano da guerra; os atenienses propõem
o envio de uma frota à Sicília para socorrer os egesteus e
restituir aos leontinos a sua cidade .................................................... 359
CAPÍTULOS 9 a 14: Nícias se opõe à expedição ...................................... 360
CAPÍTULOS 15 a 18: Alcibíades, ao contrário, a recomenda ................. 363
CAPÍTULO 19: Os atenienses votam favoravelmente à expedição à
Sicília ....................................................................................................... 367
CAPÍTULOS 20 a 23: Nícias tenta dissuadi-los alegando o vulto dos
prepativos .............................................................................................. 367
CAPÍTULOS 24 e 25: Seu discurso produz o efeito contrário ............... 369
CAPÍTULO 26: Começam os preparativos ................................................ 370
CAPÍTULOS 27 a 29: Mutilação das Hermas ............................................ 370
CAPÍTULOS 30 a 32: Partida da frota ateniense ........................................ 372
CAPÍTULOS 33 e 34: Em Siracusa Hermôcrates anuncia a
aproximação dos atenienses e propõe medidas de defesa .......... 374
CAPÍTULOS 35 a 40: Atenágoras tenta refutá-lo, exprimindo os
sentimentos da facção popular .......................................................... 377
18

CAPÍTULO 41: Um dos comandantes põe termo ao debate ................ 379


CAPÍTULOS 42 a 44: A viagem da frota ateniense ................................... 380
CAPÍTULO 45: Preparativos dos siracusanos ............................................. 381
CAPÍTULOS 46 a 49: Os comandantes atenienses se reúnem em
conselho de guerra ............................................................................... 381
CAPÍTULOS 50 a 52: Naxos e Catana se declaram a favor dos
atenienses ................................................................................................ 384
CAPÍTULO 53: Alcibíades é chamado de volta a Atenas ......................... 386
CAPÍTULOS 54 a 59: Digressão sobre os pisistrátidas e Harmôdios
e Aristógiton ......................................................................................... 386
CAPÍTULOS 60 e 61: Alcibíades foge e é condenado à revelia .............. 390
CAPÍTULO 62: Captura de Hícara ............................................................... 392
CAPÍTULOS 63 a 71: Os atenienses desembarcam perto de Siracusa,
derrotam os siracusanos e regressam a Catana .............................. 392
CAPÍTULOS 72 e 73: Os siracusanos pedem ajuda a Corinto e à
Lacedemônia ......................................................................................... 397
CAPÍTULO 74: Os atenienses passam o inverno em Naxos ................... 398
CAPÍTULO 75: Os siracusanos se fortificam.............................................. 399
CAPÍTULOS 76 a 87: Embaixadas dos dois lados em Camarina;
discursos de Hermôcrates e Êufemos ............................................. 399
CAPÍTULO 88: Corinto e a Lacedemônia decidem apoiar Siracusa ..... 406
CAPÍTULOS 89 a 92: Discurso de Alcibíades ............................................ 408
CAPÍTULO 93: Gílipos é indicado pelos lacedemônios para ir
comandar os siracusanos .................................................................... 411
CAPÍTULOS 94 e 95: Atividades parciais dos atenienses e dos
lacedemônios......................................................................................... 411
CAPÍTULOS 96 e 97: Os atenienses se instalam em Epípolas e
começam a sitiar Siracusa ................................................................... 412
19

CAPÍTULOS 98 a 103: Os atenienses iniciam o amuralhamento de


Siracusa; os siracusanos tentam sem sucesso opor-se a tal
iniciativa .................................................................................................. 413
CAPÍTULO 104: Gilipos chega à Itália com reforços............................... 417
CAPÍTULO 105: Os lacedemônios invadem a Argólida; os atenienses
devastam a costa da Lacônia; rompimento ostensivo da paz ........ 418

LIVRO SÉTIMO

CAPÍTULOS 1 a 3: Gílipos chega a Siracusa, passando por Himera ....... 419


CAPÍTULO 4: Os siracusanos constroem uma muralha cruzando
Epípolas; os atenienses fortificam Plemírion .................................. 421
CAPÍTULOS 5 e 6: Dois combates terrestres; no primeiro os
siracusanos são vencidos, no segundo são vencedores ................. 421
CAPÍTULO 7: Chegada da frota coríntia a Siracusa .................................. 423
CAPÍTULO 8: Nícias pede reforços a Atenas em carta ............................ 423
CAPÍTULO 9: Expedição dos atenienses contra Anfípolis ...................... 423
CAPÍTULOS 10 a 15: Chega a Atenas a carta de Nícias; seu conteúdo ...... 424
CAPÍTULOS 16 a 18: Eurímedon e Demóstenes são enviados à
Sicília com reforços ............................................................................. 426
CAPÍTULO 19: Décimo nono ano da guerra; os lacedemônios invade
a Atica e forticam Decêleia ................................................................ 428
CAPÍTULO 20: Envio de uma frota ateniense ao litoral do
Peloponeso ............................................................................................ 429
CAPÍTULO 21: Gílipos convence os siracusanos a tentarem uma
batalha naval .......................................................................................... 429
CAPÍTULOS 22 a 24: Ataque a Plemírion por terra e por mar; Gílipos
captura os fortes; a frota siracusana é repelida ............................... 430
CAPÍTULO 25: Os siracusanos enviam doze naus à Itália ....................... 432
20

CAPÍTULO 26: Os atenienses fortificam um promontório na


Lacôniem frente a Citera .................................................................... 433
CAPÍTULOS 27 a 30: Mercenários trácios saqueiam Micálessos ............ 433
CAPÍTULO 31: Demóstenes recebe mais tropas em Córcira ................. 436
CAPÍTULO 32: Os sícelos interceptam reforços destinados aos
siracusanos ............................................................................................. 437
CAPÍTULO 33: Toda a Sicília, exceto Acragás e os aliados de Atenas,
formam uma coalizão com Siracusa ................................................ 437
CAPÍTULO 34: Combate naval no golfo de Corinto............................... 438
CAPÍTULO 35: Demóstenes e Eurímedon na Itália ................................. 439
CAPÍTULOS 36 a 41: Duas batalhas navais no grande porto de
Siracusa; na segunda os atenienses levam a pior ............................. 440
CAPÍTULO 42: Demóstenes e Eurímedon chegam ao acampamento
dos atenienses ........................................................................................ 443
CAPÍTULOS 43 a 45: Ataque noturno a Epípolas; derrota dos
atenienses ................................................................................................ 444
CAPÍTULO 46: Os siracusanos pedem novos reforços ao resto da
Sicília ....................................................................................................... 447
CAPÍTULOS 47 a 49: Os comandantes atenienses se reúnem em
conselho de guerra ............................................................................... 447
CAPÍTULOS 50 e 51: Os atenienses, na iminência de retirar-se, adiam
a partida por causa de um eclipse da Lua ....................................... 449
CAPÍTULOS 52 a 54: Grande batalha em terra e no mar; derrotas
dos atenienses ........................................................................................ 451
CAPÍTULOS 55 e 56: Seu desalento; esperanças do inimigo ................... 452
CAPÍTULOS 57 e 58: Enumeração dos aliados dos dois lados ............. 453
CAPÍTULO 59: Fechamento do porto de Siracusa ................................... 455
CAPÍTULO 60: Os atenienses abandonam suas posições em terra e
se preparam para um combate naval ............................................... 456
21

CAPÍTULOS 61 a 64: Exortação de Nícias aos atenienses ...................... 457


CAPÍTULO 65: Preparativos dos siracusanos ............................................. 459
CAPÍTULOS 66 a 68: Exortação de Gílipos .............................................. 459
CAPÍTULO 69: Nova exortação de Nícias ................................................. 461
CAPÍTULOS 70 e 71: Último combate naval; derrota dos atenienses ...... 461
CAPÍTULOS 72 a 74: Os atenienses decidem retirar-se por terra;
ardil de Hermôcrates para retê-los ................................................... 464
CAPÍTULOS 75 e 76: Evacuação do acampamento pelos atenienses ... 466
CAPÍTULO 77: Exortação de Nícias ........................................................... 467
CAPÍTULOS 78 a 80: Retirada dos atenienses ............................................ 468
CAPÍTULOS 81 e 82: Capitulação de Demóstenes ................................... 470
CAPÍTULOS 83 a 85: Massacre da divisão de Nícias na travessia do
rio Assínaros; Nícias se entrega a Gílipos ........................................ 472
CAPÍTULOS 85 a 87: Morte de Nícias e de Demóstenes; destino
deplorável dos prisioneiros ................................................................ 473

LIVRO OITAVO

CAPÍTULO 1: Consternação em Atenas com a notícia do desastre


na Sicília .................................................................................................. 477
CAPÍTULO 2: Excitação geral dos helenos para participarem mais
ativamente da guerra ........................................................................... 477
CAPÍTULO 3: Expedição de Ágis contra os eteus .................................... 479
CAPÍTULO 4: Preparativos dos atenienses para a sua defesa ................. 479
CAPÍTULO 5: A Eubéia, Lesbos, Quios e Eritras manifestam
intenções de rebelar-se contra Atenas .............................................. 480
CAPÍTULO 6: Os lacedemônios decidem apoiar primeiro Quios ........ 481
22

CAPÍTULOS 7 a 11: Vigésimo ano da guerra; os lacedemônios


enviam uma frota a Quios; os atenienses bloqueiam essa frota
no porto de Píreon, em Corinto ....................................................... 482
CAPÍTULO 12: Alcibíades é mandado pelos lacedemônios à Iônia ...... 484
CAPÍTULO 13: Regresso da frota peloponésia da Sicília a Corinto ...... 484
CAPÍTULOS 14 a 17: Defecção de Quios, de Eritras, de Clazomene
e de Míletos ........................................................................................... 485
CAPÍTULO 18: Primeiro tratado de aliança dos lacedemônios com
o rei da Pérsia ....................................................................................... 487
CAPÍTULOS 19 e 20: Operações dos atenienses contra Quios .............. 487
CAPÍTULO 21: Insurreição democrática em Samos ................................. 488
CAPÍTULOS 22 e 23: Tentativa infrutífera dos peloponésios contra
Lesbos; os atenienses dominam Clazomene ................................... 488
CAPÍTULOS 24 a 27: Guerra em torno de Míletos
CAPÍTULO 28: Os peloponésios ajudam Tissafernes a tomar Íasos
e a prender Amorges .......................................................................... 490
CAPÍTULO 29: Tissafernes dirige-se a Míletos e entra em negociações
a respeito dos subsídios a fornecer aos lacedemônios .................. 492
CAPÍTULO 30: Parte da frota ateniense se desloca de Samos para
Quios ...................................................................................................... 493
CAPÍTULO 31: Os peloponésios atacam sem sucesso Ptelêon e
Clazomene ............................................................................................. 494
CAPÍTULO 32: Lesbos negocia sua defecção ............................................ 495
CAPÍTULOS 33 e 34: A frota ateniense que fora de Samos para
atacar Quios é dispersada por uma tempestade ............................ 496
CAPÍTULO 35: Os peloponésios fracassam no ataque a Quios ............. 496
CAPÍTULOS 36 e 37: Segundo tratado de aliança entre os
lacedemônios e o rei da Pérsia........................................................... 497
CAPÍTULO 38: Os atenienses chegam a Quios ......................................... 498
23

CAPÍTULO 39: Os peloponésios enviam uma frota a Farnábazos


CAPÍTULOS 40 a 42: Astíocos desbarata uma flotilha ateniense perto
de Cnidos .............................................................................................. 498
CAPÍTULO 43: Os conselheiros lacedemônios desaprovam o tratado
concluído com Tissafernes ................................................................. 500
CAPÍTULO 44: Defecção de Rodes............................................................. 501
CAPÍTULOS 45 e 46: Alcibíades, suspeito aos peloponésios, passa a
apoiar Tissafernes e o persuade a ficar eqüidistante entre os
dois lados ............................................................................................... 501
CAPÍTULO 47: Primeiras gestões de Alcibíades para conseguir
retornar a Atenas .................................................................................. 503
CAPÍTULOS 48 a 54: Conjuração em Samos a favor do retorno de
Alcibíades e da abolição da democracia em Atenas ...................... 503
CAPÍTULO 55: Os atenienses atacam Rodes e bloqueiam Quios .......... 508
CAPÍTULO 56: Gestão infrutífera de Písandros junto a Tissafernes
e Alcibíades ............................................................................................ 508
CAPÍTULOS 57 a 59: Tissafernes conclui o terceiro tratado com os
peloponésios ......................................................................................... 509
CAPÍTULO 60: Os beócios capturam Ôropos ......................................... 510
CAPÍTULO 61: Vigésimo primeiro ano da guerra; os quianos travam
uma batalha naval sem resultados decisivos com os atenienses ..... 511
CAPÍTULO 62: Defecção de Ábidos e de Lâmpsacos; os atenienses
retomam Lâmpsacos .......................................................................... 511
CAPÍTULOS 63 a 71: Písandros e os conjurados estabelecem a
oligarquia primeiro em Samos e depois em Atenas; governo
dos Quatrocentos ................................................................................ 511
CAPÍTULOS 72 a 77: A frota ateniense em Samos se declara a favor
da democracia ...................................................................................... 517
CAPÍTULOS 78 e 79: Descontentamento dos peloponésios com
Astíocos .................................................................................................. 521
24

CAPÍTULO 80: Defecção de Bizâncio ......................................................... 522


CAPÍTULOS 81 e 82: Alcibíades, chamado pelas tropas atenienses,
volta a Samos, onde é eleito comandante ....................................... 522
CAPÍTULOS 83 a 85: Oposição do exército peloponésio em Míletos
contra Astíocos; substituição de Astíocos por Míndaros ............. 524
CAPÍTULO 86: Emissários dos Quatrocentos chegam a Samos e
tentam, sem sucesso, induzir as tropas a aceitarem o
governooligárquico .............................................................................. 524
CAPÍTULOS 87 e 88: Tissafernes e Alcibíades vão a Áspendos buscar
a frota fenícia ........................................................................................ 527
CAPÍTULOS 89 a 93: Oposição em Atenas ao estabelecimento da
oligarquia ................................................................................................ 528
CAPÍTULOS 94 a 96: Uma flotilha peloponésia leva a Eubéia a
rebelar-se ................................................................................................ 533
CAPÍTULOS 97e 98: Os atenienses depõem os Quatrocentos e
constituem um governo composto de cinco mil cidadãos .......... 535
CAPÍTULOS 99 a 103: Os peloponésios se dirigem ao Heléspontos
a convite de Farnábazos ..................................................................... 536
CAPÍTULOS 104 a 106: Batalha naval de Cinossema, vencida pelos
atenienses ................................................................................................ 539
CAPÍTULO 107: Os atenienses recuperam Cízicos ................................... 540
CAPÍTULOS 108 e 109: Regresso de Alcibíades e de Tissafernes;
Tissafernes vai para o Heléspontos ................................................... 541

IÍNDICE ............................................................................................................. 543


25

LISTA DOS MAPAS

O MUNDO GREGO ......................................................................................... 2


GRÉCIA OCIDENTAL .................................................................................. 18
MAR EGEU ........................................................................................................ 51
PIREU E AS MURALHAS .............................................................................. 55
O PELOPONESO ............................................................................................. 71
ÁTICA E ARREDORES .................................................................................. 98
O GOLFO DE CORINTO .......................................................................... 141
SICÍLIA E SUL DA ITÁLIA ......................................................................... 203
PILOS E SFACTÉRIA ..................................................................................... 221
CALCÍDICE ...................................................................................................... 277
MACEDÓNIA E TRACIA ............................................................................ 298
SIRACUSA E SEU PORTO .......................................................................... 385
ÁSIA MENOR OCIDENTAL ..................................................................... 478
26

PREFÁCIO

Tucídides e a História da
Guerra do Peloponeso
Helio Jaguaribe

INTRODUÇÃO

ESTE PREFACIO à História da Guerra do Peloponeso 1, de


Tucídides, na terceira edição, pela Editora Universitária de Brasília,
agora associada ao IPRI e à Imprensa Oficial do Estado de São Paulo,
da excelente tradução do original grego de Mario da Gama Cury, visa a
proporcionar uma sucinta indicação sobre a obra e a vida do historiador,
situando-os no seu contexto histórico. Tem-se em vista, mais
particularmente, discutir, brevemente, os antecedentes remotos e
próximos daquele grande e longo conflito que, opondo letalmente as
duas principais cidades-estado da Hélade e seus respectivos aliados,
gerou as condições que conduziriam ao declínio da Grécia clássica, à
hegemonia macedônica e, a longo prazo, à final dominação da Grécia
por Roma. Arrasada pela guerra, Atenas jamais recuperou, depois de
404 a.c., sua precedente capacidade de liderança, não obstante um
momento de relativo ressurgimento, no século IV, com a denominada
Segunda Liga Ateniense.

1 No presente texto utilizar-se-á a letra “H” para designar a obra de Tucídides, números em
romano e em arábico para indicar, respectivamente, o Livro e o CAPÍTULO em referência.
27

Vencedora da guerra, com a relevante ajuda do “ouro persa”,


Esparta se revelou incapaz de liderar a Grécia. Não se resignando, de
conformidade com suas tradições e instituições, a refluir para sua
natural área de predomínio no Peloponeso, deixando as cidades gregas
se auto-regularem, Esparta, que contara com amplo apoio para sua
proclamada intenção de liberar a Hélade do imperialismo ateniense,
pretendeu, sem condições culturais para tal necessárias, se substituir a
Atenas na direção da Grécia. Em vez de uma liderança esclarecida,
exerceu uma hegemonia despótica, controlada por seus harmostes, que
provocou geral repulsa e a bem sucedida reação de Tebas, com
Epaminondas, a que se seguiu a Segunda Liga Ateniense e,
subseqüentemente, a emergência da hegemonia macedônica sob
Felipe II.

TUCÍDIDES

É extremamente escassa a informação que se dispõe sobre


Tucídides, toda procedente de indicações por ele mesmo dadas em sua
História. Induz-se que nasceu entre 460 e 455 a.c. Sabe-se que era
natural do deme de Halimunte, em Atenas, filho de Olorus. Este, por
linha materna, era descendente de uma família nobre da Trácia,
aparentada à de Címon e do estadista Tucídides, filho de Melesias. O
historiador pertencia à aristocracia de Atenas, tendo recebido
correspondente educação e valiosa herança de seu pai, dono de uma
mina de ouro na Trácia. Embora sua família fosse hostil a Péricles,
Tucídides dele se tornou um ardoroso partidário.
Discípulo de Anaxágoras, Tucídides foi amigo de Gorgias e
Protágoras, de Antífon, de Sófocles e de Eurípides. Por sua educação e
por suas ilustradas amizades adquiriu uma ampla cultura e desenvolveu
o excelente comando de sua língua que revelaria na História.
28

Tucídides contraiu a peste que assolou Atenas de 430 a 429,


vitimando Péricles em 429, mas dela se recuperou. Em 424 foi eleito
um dos dez estrategos, sendo-lhe confiada a defesa de Anfípolis, na
Calcídice. Foi surpreendido, entretanto, por um súbito ataque de
Brasidas, que conquistou a cidade. Destituído da função, foi exilado e
passou vinte anos no exílio, principalmente em sua propriedade na
Trácia. Regressou a Atenas com a anistia de 404, vindo a falecer pouco
depois, vítima de assaltantes de estrada, na própria Trácia.
Escreveu no exílio sua História da Guerra do Peloponeso, por entender
que “ela seria grande e mais importante que todas as anteriores “(H.I.1).
Opostamente a Alcibíades que, condenado in absentia pelos atenienses,
se bandeou para Esparta, revelando segredos da expedição à Sicília,
que precedentemente comandara, o que muito contribuiria para seu
malogro, Tucídides sempre se conservou (como Címon, no ostracismo)
fiel a Atenas. Seu patriotismo, todavia, não impediu o historiador de
ser extremamente objetivo e imparcial na narrativa da Guerra do
Peloponeso. Reconheceu, inclusive, o valor do general espartano que
o derrotou (H.II.25).

A OBRA

A guerra do Peloponeso durou vinte e sete anos (431-404 AC.).


Tucídides, que lhe iniciara o relato desde seus primórdios, foi impedido
pela morte de completar sua narrativa, interrompida no 21º ano do
conflito, em 410. Xenofonte, em suas Helênicas, continuaria a narração
a partir de quando Tucídides a interrompeu.
A obra consta de oito partes ou livros, cada qual contendo numerosos
pequenos CAPÍTULOS, 917 no total. Esses oito livros cobrem cinco temas
ou períodos. O livro I, com 146 CAPÍTULOS, contém uma Introdução,
na qual.o autor define seus objetivos, resume as etapas formativas da
29

Grécia, apresenta os antecedentes do conflito e narra as ocorrências que


antecederam à declaração de guerra pelos atenienses, transcrevendo, a seu
modo, o discurso de Péricles incitando à luta. O Livro 11, com 103
CAPÍTULOS, aborda o primeiro conflito, que durou dez nos. Os Livros
111 (116 CAPÍTULOS), IV, com 135 e os CAPÍTULOS 1 a 24 do Livro
V, tratam da precária trégua que se sucedeu à Paz de 30 Anos de 446-5.
Os CAPÍTULOS 25 a 116 do Livro V e os Livros VI, com 105
CAPÍTULOS e VII, com 87 CAPÍTULOS, descrevem e analisam a guerra
siciliana. O Livro VIII discute os eventos que se seguiram ao desastre de
Sicília até a batalha naval de Cinossema, vencida pelos atenienses. Aí, por
causa de sua morte, se interrompeu a História de Tucídides.
Tucídides foi o primeiro historiador moderno e o primeiro analista
crítico de relações internacionais. Como Ranke, pretendia relatar,
objetivamente, os fatos como haviam ocorrido. Como os sucessores
culturalistas deste, aspirava a interpretar as motivações e a explicar as
circunstâncias que condicionaram os eventos que narrava. Sua
preocupação com a motivação dos protagonistas o levou a expor os
discursos que teriam pronunciado para justificar seus atos ou incentivar
a prática dos que almejavam realizar. Quando, como usualmente
ocorria, não dispusesse de registro das palavras que haviam sido
pronunciadas, Tucídides leva seus personagens a dizer aquilo que, dadas
as circunstâncias, seriam supostos ter dito (H.I.22). A famosa oração
fúnebre de Péricles (H.lI.35-46) em que declara Atenas a escola da
Grécia, é um dos mais típicos exemplos de genial reconstrução de
discursos por Tucídides.

ANTECEDENTES REMOTOS

Tucídides acompanhou, diretamente ou de perto, grande parte


dos sucessos que narra, sempre particularmente cuidadoso no
30

levantamento dos dados. Sua competência em assuntos da guerra, por


outro lado, permitiram-lhe acurada descrição das operações militares.
A compreensão dos eventos que conduziram à guerra do
Peloponeso, como bem o compreendeu Tucídides, requer se leve em
conta seus antecedentes remotos (H.I.88-98), ademais dos próximos e
dos mais imediatos. Aqueles decorrem, mais particularmente, do modo
pelo qual foi conduzida a final expulsão dos persas, depois da vitória
de Leotiquidas em Micale, em 479 AC., mas se prendem,
originariamente, ao acordo ajustado pelos gregos em 481, no istmo do
Corinto, face à invasão persa.
Xerxes, sucedendo seu pai Dario em 486, exige dos gregos o ato
simbólico de submissão, oferecendo-lhe “terra e água”. Como a maioria
dos Estados se tenha recusado a fazê-lo, Xerxes decide enviar uma
poderosa expedição punitiva à Grécia, visando particularmente Atenas.
Em 484 inicia seus preparativos, mobilizando, segundo Heródoto2,
1.700.000 homens. Historiadores modernos reduzem esse contingente
a menos de dez por cento desse número3 mas aceitam como provável
o número de 1.2074 naves reunidas pelos persas, sendo construídas
em 480 duas pontes sobre barcos atravessando o Helésponto e aberto
um canal na península do Acte, na Calcídice.
Alarmados ante esses preparativos, os gregos convocam um
congresso pan-helênico que se reuniu em 481 no istmo de Corinto, a
que compareceram quase todas as cidades-estado. Os gregos que
decidiram resistir, uma trintena de cidades-estado, compreendendo,
notadamente, a Liga do Peloponeso, fundada no século VI e Atenas e
seus aliados iônios, formaram uma aliança e juraram mútua defesa e
comum ação contra os persas, com pronta suspensão de querelas

2 História, Livro 7 § 60.


3 Cf. Edouard Will, Le Monde Crer (el L’Orcident - Le Veme Siécle, Tomo 1), Paris, PUF, (1972), 1994, pg. 105.
4 Heródoto, História, Livro 7 § 8.
31

recíprocas, como a corrente guerra entre Atenas e Egina. Delegou-se a


Esparta o comando das operações. Decidiu-se, em seguida, escolher o
sítio mais adequado para posicionar a primeira linha de resistência da
Grécia. Os gregos setentrionais, mais imediatamente expostos à
agressão persa, requereram que essa linha se situasse ao norte da
Tessália. Constatou-se, entretanto, que essa posição era indefensável.
Decidiu-se, assim, defender a Grécia mais ao sul, numa linha que, para
a defesa terrestre, se situasse entre os desfiladeiros das Termópilas e o
promontório do Artemision, junto ao qual a marinha se posicionaria
no canal do Oreos. Essa decisão, todavia, alienou o apoio dos tessálios.
O acordo do istmo de Corinto foi, basicamente, uma aliança
entre Esparta e demais membros da Liga do Peloponeso e Atenas e
seus aliados iônios. Representou, implicitamente, uma adesão de Atenas
à Liga do Peloponeso. Essa aliança seria decisiva para permitir a
vitoriosa resistência grega ao assalto persa. Seria igualmente decisiva
para regular os assuntos internacionais e domésticos da Grécia no
período subsequente à derrota persa de Platéia (479).

ANTECEDENTES PRÓXIMOS

O período que se segue à vitória de Pausânias, em Platéia, é


marcado pela transferência da liderança grega a Atenas, sob a conduta
de Címon, filho de Milciades, o vencedor de Maratona. A transferência
da liderança de Esparta a Atenas se prende, por um lado, à conduta
despótica de Pausânias, depois de este haver reconquistado Bizâncio
em 479 e, subseqüentemente, à comprovação de suas intrigas com os
persas. Por outro lado, ao fato concomitante de Esparta não querer se
envolver nas distantes operações navais que se tornavam necessárias
para a final expulsão dos persas do Egeu.
32

A conduta despótica de Pausânias, como comandante das forças


gregas, depois da reconquista de Bizâncio, alienou o apoio dos iônios e
foi vista, pelos próprios espartanos, como inadmissível, valendo-lhe
uma primeira condenação e a implícita aceitação, por Esparta, da
transferência da liderança a Atenas para as subsequentes operações
contra os persas. O fato de se comprovar, posteriormente, que
Pausânias, movido pela ambição de se tornar efetivamente um déspota,
havia entrado em confabulações com o próprio Xerxes e seu sátrapa
Artabazus, levaram os éforos a uma segunda condenação. Fugindo da
sentença, Pausânias se refugiou numa dependência do santuário Atena
do Templo de Bronze 5 o que levou os éforos a determinar seu
emuralhamento, assim o deixando morrer de inanição.
No que se refere à guerra contra os persas, depois de vitória de
Leotiquidas de 479, em Micale, a tarefa que restava para sua final
expulsão requeria o emprego de uma importante frota, que teria de
operar longe da Grécia continental, particularmente, do Peloponeso.
Potência terrestre, que necessitava conservar importantes contingentes
no Peloponeso, para manter a subjugação dos hilotas, Esparta não se
dispôs a empreender as operações navais em questão e acedeu em que
Atenas, sua aliada, o fizesse.
Atenas, para esse efeito, organizou, sob a coordenação de
Aristides, o Justo, a Confederação de Delos (478-477), mobilizando
uma grande frota, que foi confiada ao comando de Címon. Este
conduziu brilhantemente os confederados. Iniciando com uma expedição
à Trácia e a conquista das fortalezas costeiras dos persas, concluiu sua
campanha com a grande vitória naval do rio Eurímedon, em 466, na
costa sul da Ásia Menor.

5 H. I. 134.
33

A confederação de Delos, tal como urdida por Aristides, se baseava


numa aliança das cidades-estado da Iônia com Atenas, para o fim de
ultimar a expulsão dos persas e proteger a Grécia de possíveis futuras
agressões. Cada membro contribuiu com um número de naves ou com
correspondente soma em dinheiro (phoros), calculada a contribuição
em função do tributo precedentemente cobrado pela Pérsia6. Com o
correr do tempo, entretanto, a Liga de Delos se foi convertendo num
império ateniense, de que os aliados eram compelidos a participar e
para a qual eram forçados a pagar a contribuição que fora fixada por
Aristides, convertendo-se esta, praticamente, num tributo.
A liderança de Címon em Atenas se caracterizou por seus esforços
no sentido de preservar a aliança com Esparta, apresentando a Liga
como uma continuação, sob a direção de Atenas, do acordo antipersa
do istmo de Corinto de 481, o que assim foi entendido por Esparta,
que não se opôs à gradual conversão da Liga em um império ateniense.
É de notar-se que a liderança de Esparta sobre as cidades do
Peloponeso, embora respeitando a autodeterminação destas, tinha,
também, um implícito caráter coercitivo.
Foi dentro desse espírito de preservação da aliança com Esparta
que Címon logrou, embora com dificuldade, o acordo da Assembléia
para atender ao apelo de ajuda de Esparta, na Terceira Guerra Messênia
(464-461), a ela enviando um contingente de quatro mil hoplitas.
Címon, ademais de admirar as qualidades espartanas e desejar
que fossem, de certo modo, incorporadas pelos atenienses, entendia,
com grande lucidez, que a aliança entre Atenas e Esparta era
fundamental para ambas e para a unidade grega7. Esparta, potência

6 A contribuição básica era de 460 talentos anuais de prata. O talento ático pesava 25,8kg. As
pequenas cidades tinham o direito de se reunirem para, coletivamente, pagar essa contribuição.
7 Essa tese, cerca de cem anos mais tarde, seria, de forma teoricamente correta mas praticamente

inviável, novamente sustentada por Isocrates, em seu Panegírieo de 380.


34

terrestre e agrícola, sem interesses externos ao Peloponeso e Atenas,


potência marítima, comercial e cultural, com grandes interesses
internacionais, não tinham motivos para se antagonizarem e se
fortaleciam reciprocamente - com sua aliança. Foi essa política de
Címon, enquanto perdurou sua liderança sobre Atenas, que levou
Esparta a não se sentir ameaçada pelo império ateniense, não obstante
certo ciúme dos espartanos como prestígio internacional daquela.
A situação política de Atenas, entretanto, se foi modificando em
conseqüência mesmo de seu fortalecimento naval. Enquanto o poder
da Atenas de Milciades repousava nos hoplitas que derrotaram os persas
em Maratona, o poder da Atenas de seu filho Címon se baseava na
frota, é dizer, nos thetes que compunham a tripulação de 174 remadores
de cada trirreme e que operavam os estaleiros navais. Foi assim que se
formou uma facção popular, sob a liderança de Efialdes, secundado
pelo então jovem Péricles, que veio a prevalecer sobre os segmentos
mais conservadores que apoiavam Címon.
O momento de inflexão na liderança deste se deu durante sua
expedição de apoio a Esparta, em 462. Durante sua ausência Efialdes
logrou a aprovação de importantes reformas, limitando substancialmente
o poder do Areópago, reduzido ao julgamento de homicídios e
transferindo, principalmente para a Assembléia, seu controle sobre a
magistratura, o que fortalecia, concomitantemente, o poder político
de Efialdes, às expensas de Címon. O fato de não ter sido bem sucedida
a expedição deste, a qual, embora solicitada pelos espartanos, terminou
não sendo por estes bem recebida, o privou definitivamente de apoio
popular, levando-o em 461 a ser ostracizado. Efialdes foi nesse mesmo
ano assassinado8, sendo sua liderança gradualmente substituída pela

8 O assassino, Aristodicus de Tânagra, era agente de uma das sociedades secretas a serviço dos
interesses da oligarquia ateniense.
35

de Péricles. Címon, cuja fidelidade a Atenas não foi afetada por seu
ostracismo, voltaria, dez anos mais tarde, a ser novamente convocado,
sendo-lhe conferida a tarefa de ajustar um armistício com Esparta, o
que brilhantemente logrou, com a Trégua de Cinco Anos, de 451.
Concomitantemente com o ostracismo de Címon procedeu-se à
ruptura da aliança com Esparta, substituída pela aliança com Argos,
hostil a Esparta e com os tessalianos. Seguiu-se-lhe a aliança com
Mégara, então em disputa territorial com Corinto, a mais importante
aliada de Esparta. Era a completa reversão da política de Címon,
orientação esta que caracterizaria a longa (461-430) liderança de
Péricles.
O período que se segue, de 460 a 446-5, será marcado por
iniciativas atenienses que alteraram, significativamente, o equilíbrio
de forças entre a Liga de Delos (império ateniense) e a Liga do
Peloponeso, sob a liderança de Esparta, conduzindo a hostilidades entre
aliado dos dois bandos que culminaram com a direta confrontação de
Esparta com Atenas.
Entre as ocorrências mais relevantes mencione-se a construção
por Atenas de longos muros (H.I., 103) ligando Mégara a seu porto de
Nisea9, em que se instala uma guarnição ateniense. Concomitantemente,
Egina, prejudicada em seu comércio com o oriente pela Liga de Delos,
adere à Liga do Peloponeso, reunindo uma grande frota no golfo
Sarônico. Atenas toma a iniciativa e ataca a frota de Egina, derrotando-
a e pondo, em seguida, cerco à cidade.
Nessa mesma oportunidade Inaros, chefe líbio que se aproveitara
da instabilidade que se sucedeu à morte de Xerxes, em 465, para
mobilizar uma grande revolta no Egito, proclamando-se o novo faraó,

9 Somente em 457 os atenienses construíram sua própria grande muralha, conectando Atenas com
o porto do Pireu.
36

solicitou o auxílio dos atenienses. Uma frota ateniense de 200 naves,


que se dirigia para Chipre, foi então deslocada para o Egito, subindo o
Nilo até Mênfis e conquistando a cidade, salvo a cidadela mantida
pelos persas. Um contingente ateniense permaneceria, estranhamente,
por seis anos no Egito para, afinal, ser completamente derrotado em
456 por um numeroso exército persa comandado por Megábisos.
Em 457 Egina foi forçada a se render e compelida a ingressar na
Liga de Delos, entregando sua frota a Atenas. Nessa ocasião Esparta
entra diretamente no conflito, enviando um exército através do Golfo
de Corinto que restaura a Liga Beócia, sob a hegemonia de Tebas. Os
atenienses são derrotados em Tânagra, mas os espartanos regressam a
suas bases, o que permitiu aos atenienses derrotar os beócios em
Oenophyta, reincorporando a Beócia, com exceção de Tebas, à Liga
de Delos.
Nos episódios que se seguem confirma-se a superioridade
espartana em combates terrestres e a ateniense em combates marítimos.
Nessas condições de empate Címon, convocado de volta, entabula
entendimentos com Esparta que conduziriam em 451 à Trégua de Cinco
Anos. Por outro lado, embora fracasse a expedição ateniense de
conquista de Chipre, ocasionando a morte de Címon, que a comandava,
a frota ateniense, em seu curso de retorno, logra uma grande vitória
naval sobre os persas nas proximidades da cidade cipriota de Salamis.
Geram-se, assim, condições que permitiriam a Callias negociar com a
Pérsia a paz que veio a ser conhecida como paz de Callias, de 450.
Novos eventos, após o término da Trégua de Cinco Anos,
levaram a uma revolta de Beócia em 447, que conduziu ao
restabelecimento da Liga Beócia e a uma revolta de Eubéia em 446,
cuja subjugação por Péricles teve de ser interrompida ante a rebelião
de Mégara, retornando à Liga do Peloponeso e a conjunta invasão da
Ática pelos espartanos, comandados pelo rei Plistoânax. Este, todavia
37

se deteve em Eleusis e, ao que consta, corrompido por Péricles,


regressou a Esparta. Péricles pôde então subjugar a revolta de Eubéia,
estabelecendo uma cleruquia ateniense no território de Histieaea.
Seguiram-se negociações com Esparta que conduziram, no inverno de
446-445, à Paz de Trinta Anos.
A primeira confrontação entre Atenas e Esparta, no período que
vai da aliança com Argos e a construção dos longos muros de Mégara,
em 462, à Paz dos Trinta Anos, de 446-5, foi inconclusiva. Mas fixou
posições de hostilidade entre os dois grandes blocos em que se dividiu
a Grécia, gerando as condições que conduziriam à Guerra do
Peloponeso, de 431 à final rendição de Atenas em 404.

A PAZ DE TRINTA ANOS

A situação da Grécia, subseqüentemente à Paz de Trintas Anos,


algo como a da Europa antes da guerra de 1914, se caracterizava por
um equilíbrio de forças em que nenhum dos dois blocos antagônicos
podia, sem graves riscos, permitir o unilateral fortalecimento do outro.
Também à semelhança da Europa de fins da primeira e princípios da
segunda década do século XX, a Grécia de após a Paz de Trinta Anos
consistia num sistema de alianças em que a potência hegemônica de
cada bloco não podia consentir que um de seus aliados viesse a ser
dominado por força do outro bloco ou simplesmente agredido pela
outra potência hegemônica.
Entre as diversas circunstâncias, depois da Paz de Trinta Anos,
que tornavam extremamente delicado o equilíbrio entre os dois blocos,
três merecem particular menção. Uma se refere à ampla margem de
conflito de interesses existentes entre Corinto, principal aliada de Esparta
e Atenas. A outra decorre do fato de a Paz de Trinta Anos ter permitido
alianças entre ou com cidades-estado neutras, como aconteceria em
38

433, no caso da aliança entre Córcira e Atenas. Embora permitidas


pela letra do tratado de paz, tais alianças poderiam, como no caso
precedentemente referido, alterar o equilíbrio de forças de forma
inaceitável para o outro bloco.
Uma terceira circunstância que contribuía significativamente para
a precariedade da Paz de Trinta Anos era a política interna de Atenas.
O ostracismo de Címon e a vitória da facção popular, que após o
assassinato de Efialdes viria a ser dirigida por Péricles, implicavam
uma endógena propensão ao expansionismo do império ateniense, não
tanto por razões de política externa ou como efeito de uma pura vontade
de poder, mas pelo imperativo político de satisfazer as necessidades
dos thetes, que constituíam o grosso do eleitorado de Péricles. Os thetes
necessitavam que se desse continuidade à política de “cleruchias”,
enquistadas em territórios de terceiros e se mantivesse a expansão naval
que lhes proporcionava emprego.
O caso de Corinto, que viria a ser o núcleo deflagrador da Guerra
Aquidimiana de 431 a 421, decorria do fato de aquela cidade-estado,
membro-chave da Liga do Peloponeso, ser também, como cidade
comercial e marítima, uma rival de Atenas, com interesses colidentes
tanto no ocidente grego, como no caso de Córcira, como em Potidéia,
na Calcídice, no extremo nordeste da Grécia.

ANTECEDENTES IMEDIATOS

Córcira, no extremo nordeste da Grécia, embora colônia de


Corinto, tinha com esta relações conflitantes, relacionadas com sua
conjunta colonização de Epidáurios. Em 455, revoltando-se contra
Corinto, Córcira derrotou uma frota desta última na batalha de
Leucimne. Corinto se preparou, no curso dos dois anos seguintes, para
uma decisiva expedição punitiva a Córcira a qual, aterrorizada, pediu
39

o apoio de Atenas e a aliança desta. Como cidade-estado neutra, tal


aliança não contrariaria o disposto no tratado da Paz de Trinta Anos,
mas constituiria uma grave ameaça a Corinto, aliada de Esparta.
Atenas, interessada em dispor de uma base no mar Iônio, no
extremo ocidental da Grécia, optou, depois de amplas discussões sobre
a questão, por uma solução astuta. Em lugar de uma aliança plena,
symmachia, que teria implicações ofensivas a Corinto, adotou uma aliança
meramente defensiva, ePimachia, como tal compatível com a Paz de
Trinta Anos.
Os corintos, não obstante, atacaram Córcira em Sybata, em 432,
mas vendo chegar as naves atenienses em defesa dos corcireus,
recuaram.
Entrementes, Atenas se deu conta de que sua aliada, Potidéia,
colônia conjunta de Córcira e Corinto, se preparava para rebelar-se,
apoiando Corinto. Exigiu, assim, preventivamente, que Potidéia
destruísse suas muralhas marítimas e expelisse os magistrados que
Corinto usualmente lhe mandava, negando-se a receber outros.
Potidéia, contando com o apoio dos peloponésios, se negou a aceitar
tal exigência. Atenas então ataca Potidéia e derrota sua frota em 432.
Data dessa ocasião a discutida decisão de Péricles de levar a
Assembléia ateniense a decretar a proibição de Mégara usar qualquer
porto de cidades vinculadas à Liga de Delos, o que significaria a ruína
econômica de Mégara. Esta última decisão tornou inevitável o
desencadeamento da guerra.
Por que a terá adotado Péricles? Alguns entendem que, consciente
da inevitabilidade da guerra, Péricles procurou, sem formalmente violar
o tratado de paz, conduzir a Liga do Peloponeso a arcar com a
responsabilidade de iniciar as hostilidades. Outros entendem que
Péricles quis, preventivamente, dar uma demonstração da força naval
ateniense, de sorte a incentivar os que em Esparta, como o rei
40

Arquídamos, não queriam a deflagração da guerral0. Tucídides não


esclarece a motivação de Péricles mas reconhece (H.I., 139 e 144) que
o bloqueio de Mégara foi a ocorrência mais intolerável para o bloco
espartano. Tanto que, nas negociações que imediatamente precederam
ao início das hostilidades, os enviados espartanos, em suas derradeiras
propostas, condicionaram a não declaração de guerra à revogação do
bloqueio de Mégara.
A despeito das recomendações cautelatórias do rei Arquídamos,
os espartanos se decidem pela guerra e para tal recebem o apoio dos
demais membros da Liga do Peloponeso. A deliberação de Corinto de
entrar em guerra com Atenas, ainda que Esparta não o fizesse, foi o
que motivou Esparta a optar pelo conflito, porque, no caso contrário,
passaria para Corinto a liderança do Peloponeso.
Para enfrentar Atenas e seus aliados a Liga do Peloponeso
dispunha de um contingente de 40.000 hoplitas, que constituíam a
melhor infantaria da época. A aliada Beócia tinha uma excelente
cavalaria.- Corinto, além de sua pequena, frota, alegava poder mobilizar
uma grande armada com os recursos de Delfos e Olímpia (H.1.121).
Ante esse poderoso inimigo Péricles traçou uma estratégia
consistente em evitar batalhas campais. Atenas não dispunha de mais
do que 13.000 hoplitas e de 1.200 cavaleiros, ademais de forças
auxiliares para guarnecer as muralhas, cuja inferioridade numérica era
agravada por seu menor treino. Em compensação, porém, Atenas
poderia, protegida por suas muralhas, defender-se de qualquer ataque
terrestre, enquanto sua marinha, forte de 300 trirremes, superiormente
tripuladas, garantiria os suprimentos da cidade e fustigaria as costas

10 Sobre a motivação de Péricles na decretação do bloqueio de Mégara vejam-se EE. Adock, pg.
187 e segts. in ).B.Bury, S.A. Cock e EE.Adock, edits., Alhens, vol. V de The Cambridge Andenl Hislory,
Cambridge, Uno Press, 1966 e Edouard Will, Le Monde Grec el L’Orienl, pg. 298 e segts., Tomo I.
Peuples el Civilisalions Paris, PUF, (1972), 1994.
41

do inimigo, além de estar capacitada a derrotar qualquer frota que a


Liga do Peloponeso pudesse armar (H.II.13).
Duas outras importantes considerações eram levadas em conta
por Péricles. Uma, de caráter econômico, consistia no fato de que Esparta
era uma potência agrícola, sem recursos financeiros, enquanto Atenas
ingressava na guerra com reservas de mais de 6.000 talentos. Sem
recursos financeiros11, Esparta, ao contrário de Atenas, não poderia
sustentar uma guerra que não tivesse pronto êxito. Por outro lado, a
outra consideração em que se baseava Péricles era o fato de que as
forças espartanas não podiam se afastar demasiado e por mais longo
tempo de suas bases, porque dependiam de sua própria agricultura e
necessitavam manter-se em contínua vigilância local, para evitar
revoltas dos hilotas. Diversamente, os atenienses, refugiando-se atrás
de seus muros, receberiam pelo mar os fornecimentos de que
necessitassem e poderiam sustentar a guerra por longo prazo.
A guerra Aquidimiana, prolongando-se de 431 a 421, com a Paz
de Nícias, se conformou, nos seus aspectos militares, com as previsões
de Péricles. Não dispondo de capacidade para romper as muralhas de
Atenas, os lacedemônios não puderam tirar o proveito que desejavam
de sua superioridade terrestre. Assolaram as terras da Ática mas não
puderam impedir a continuidade de seu abastecimento por via marítima.
Enquanto isso, a frota ateniense fustigou as costas da Lacedemônia,
destruindo seus estaleiros e sua modesta marinha. Como havia suposto
Péricles, as expectativas de Corinto de poder armar uma grande frota,
com recursos de Delfos e de Olímpia, não se realizaram.
Um ano depois de iniciado o conflito procedeu-se em Atenas à
cerimônia fúnebre dos primeiros mortos da guerra. Convidado para
usar da palavra Péricles proferiu aquele extraordinário discurso que

11 Péricles não supunha que Esparta viesse a contar com financiamento persa.
42

Tucídides reconstituiu (H.II., 35 a 46), onde proclama a excelência


das instituições e dos costumes atenienses e sua superioridade sobre
os demais helenos e concluindo, declara: “Em suma, digo que nossa
cidade, em seu conjunto, é a escola de toda a Hélade”.
Hoje, transcorridos cerca de dois mil e quinhentos anos desde
aquela oração fúnebre, seria de justiça, complementando Péricles,
reconhecer que Atenas foi a Escola, não apenas da Grécia, mas de
todo o Ocidente.
Algo de imprevisto mas terrível, entretanto, ocorreu em Atenas:
a peste de 430 a 429. A estratégia de proteger a população e seus
pertences móveis12 atrás das grandes muralhas, embora se tenha revelado
militarmente eficaz, a concentrou toda num pequeno espaço urbano,
sem condições higiênicas minimamente satisfatórias, o que provocou
uma grande epidemia. A peste dizimou um quarto da população
ateniense, dela sendo vítima o próprio Péricles, em 429.
A despeito de seus terríveis estragos, a peste não alterou,
decisivamente, o curso da guerra. Dez anos de conflito comprovaram,
como no conflito precedente, que nenhum dos blocos poderia vencer
o outro, embora ambos sofressem graves danos humanos e materiais.
Em 422 ocorreu, na batalha de Anfípolis, a morte de Clêon, que
substituíra Péricles na liderança política de Atenas, mas não em qualquer
outro aspecto, e com ele desapareceu o mais beligerante dos líderes da
Ática. Também morreu em combate Brasidas, o grande general
espartano, que era também o mais intransigente beligerante no campo
lacedemônio. O prolongado impasse e os desgastes da guerra, mortos
seus principais partidários, abriram espaço para políticos moderados,
em ambos os blocos. Nícias, que assumiu a liderança de Atenas, negocia

12 Gado e ovelhas foram transportados para locais seguros na Eubéia e ilhas adjacentes.
43

com êxito a paz de cinqüenta anos, que veio a ser designada por seu
nome, celebrada em 421.

A PAZ DE NÍCIAS
(H. V, 18-19)

A paz negociada por Nícias em 421, que levou seu nome, foi
proposta por cinqüenta anos e consistia, basicamente, no reconhecimento
do Império Ateniense na área iônia, conservando Niséia até que os
beócios devolvessem Platéia. As cidades da Calcídice seriam
autônomas, mas tributárias de Atenas. Anfípolis devolvida a Atenas.
Os membros da Liga de Delos ficaram proibidos do uso de armas,
enquanto pagassem tributo, contra Argilos, Stágiros, Ácantos, Stolos,
Olintos e Spártolos. Os lacedemônios e seus aliados restituiriam
Pânacton aos atenienses. Os atenienses restituiriam Corifásion, Citera,
Mêtana, Ptêleon e Atalantes. Os prisioneiros de ambos os lados seriam
devolvidos.
A resistência de assinar, o tratado, entre membros da Liga de
Peloponeso por parte de Corinto, Mégara, Élis e Beócia e as disposições
hostis de Argos levaram os espartanos, numa política de defesa
preventiva, a firmar com Atenas um tratado de aliança também por
cinqüenta anos (H.V, 22 a 24).
A paz de Nícias, entretanto, se ressentiu desde o início da não
participação das cidades precedentemente mencionadas, e logo em
seguida, de algumas violações. O sucessor de Brasidas, Clearidas, se
recusou a devolver Anfípolis, que seu predecessor havia conquistado
do próprio historiador. Os Beócios, no ano seguinte, obrigados a
devolver Platéia aos atenienses, antes de fazê-Io destruíram a cidade.
Ante tal fato e nesse mesmo ano de 420 Corinto decidiu retirar-
se da Liga Argiva. Atenas formou então, por cem anos, a Quádrupla
44

Aliança, com Argos (tradicionalmente hostil à Esparta), Mantinéia e


Élis, estas últimas então em guerra com Esparta.
As condições que caracterizavam a Grécia por ocasião da Paz
de Nícias e anos subsequentes eram indicativas da precariedade da
paz. Entre as muitas condições e fatores que tornavam difícil sua
preservação - firmada, ademais por um prazo demasiado longo para
vigorar numa Grécia tão instável - três merecem particular atenção: as
condições particulares de Argos, Corinto e Mégara, a modificação do
estado de espírito da Assembléia ateniense, ante a nova mentalidade
da juventude e a funesta capacidade de sedução de um genial mas
irresponsável e inescrupuloso aventureiro, Alcibíades.
Argos e Mégara, situadas nas áreas de predomínio, respectivamente,
de Esparta e de Atenas, tinham interesses conflitantes com suas
respectivas cidades hegemônicas e tendiam, por isso, a se aliar ao bloco
oposto, criando situações inaceitáveis para o bloco de sua própria área
territorial. Por outro lado Corinto mantinha com Atenas, com a qual
apresentava semelhanças comerciais, uma rivalidade superior a sua
lealdade com Esparta. Isso levava Corinto a colocar Esparta,
continuamente, ante a alternativa de hostilizar Atenas, ou perder para
aquela a liderança do Peloponeso.
Particularmente decisiva, entretanto, com relação às ocorrências
que se seguiram à Paz de Nícias, foi a extraordinária influência que
Alcibíades pôde exercer na Grécia, no período que vai até sua
irreversível desmoralização em 406, depois de sua derrota por Lizandro,
perto de Nôtion.
Homem dotado de extraordinária beleza física, excepcional
inteligência, adestrada pelo convívio com os sofistas e possuidor de
grande talento político e militar, mas destituído de quaisquer escrúpulos
e levado, por sua ambição e audácia, a decisões temerárias, Alcibíades
exerceu a mais negativa influência sobre os atenienses, arrebatando,
45

particularmente, a nova geração que aspirava a grandes aventuras e


não se conformava com a medíocre tranqüilidade da Paz de Nícias. A
Paz de Nícias, com efeito, situava Atenas na confortável, mas não
excitante posição, de administrar com tranqüilidade seu império
marítimo e comercial. Tal situação, entretanto, não era isenta de
dificuldades. A Paz com a Pérsia e com Esparta, privando a Liga de
Delos de inimigos comuns, tornava menos aceitável a hegemonia
ateniense sobre as cidades iônias. Isto exigia ou bem uma política de
entendimento com os aliados e co-participação dos mesmos nos
benefícios do comércio promovido por Atenas, como sabiamente
preconizava Nícias, ou uma política de mobilização para novas e
supostamente rendosas aventuras, como sedutora, mas pouco
responsavelmente, propunha Alcibíades.
A aliança de Atenas com Argos, inaceitável para Esparta,
conduziu esta a uma primeira violação da paz. Invadindo a Agis, sob a
alegação de socorrer os epidáurios de prévia agressão de Argos, forçou
os membros da Quádrupla Aliança a se desmoralizarem ou a honrá-Ia.
Élis tendo se recusado a participar, os três outros aliados formaram
um contingente que se opôs aos espartanos, mas por eles foram
derrotados em Mantinéia, em 418.
Atenas, como demonstração de força, retaliou tomando de
assalto em 416 a ilha de Melos, de colonização dórica, que se recusava
aderir ao império e, com a maior selvageria, massacrou os homens em
idade militar e escravizou os demais habitantes, nela instalando uma
“clerúchia”.
Estava definitivamente violada a Paz de Nícias. Foi nessas
circunstâncias que Alcibíades, contrariando as sábias e consistentes
considerações de Nícias, persuadiu os atenienses a atender a um apelo
de Segesta, na Sicília, atacada por Selinus. Nícias, em seu
pronunciamento contra a expedição (H.V; 9-14) mostra, com impecável
46

coerência e pertinência, que Atenas, se vitoriosa, nada teria a ganhar


e, se derrotada, teria se exposto em vão a tudo perder. Mas Alcibíades,
(H.V., 16-18), mobilizando o entusiasmo da juventude, logrou persuadir
a Assembléia de que a expedição à Sicília se defrontaria com massas
heterogêneas, em que “ninguém tem o sentimento de estar em sua
verdadeira pátria” e traria grandes vantagens para Atenas, com mínimos
riscos.
A expedição à Sicília mobilizou 134 trirremes, conduzindo 4.000
hoplitas, sob o comando conjunto de Nícias, Alcibíades e Lâmacos,
zarpando no ano de 413. Tendo começado mal, veio a ter o mais
catastrófico desfecho.
O mal começo se deveu ao fato de que, pouco antes da data
fixada para a partida da frota, constatou-se que os Hermes de Atenas
haviam sido mutilados, fato esse que se atribuiu a Alcibíades, assim
como a prática de profanação dos mistérios de Eleusis. Alcibíades,
protestando inocência, solicitou que se procedesse prontamente ao
julgamento do caso. Seus adversários, porém, habilidosamente, lograram
procrastinar a data do julgamento, de sorte a que ou bem Alcibíades,
para defender-se, renunciasse a participar do comando da expedição
ou bem, como ocorreu, seguisse com a frota abandonando sua defesa
preventiva. Marcada a data do julgamento, já na ausência de Alcibíades,
emissários especiais foram enviados à frota, aguardando sua passagem
por Cataria e, quando esta lá chegou, intimaram Alcibíades a regressar,
para submeter-se a julgamento. Este se realizaria quando os
sustentadores de Alcibíades se encontravam, em sua maioria, engajados
na frota. Isto o levou à convicção de que sua condenação já estava
previamente decidida e assim decidiu fugir para Esparta. Lá revelou
os planos da frota, o que muito contribuiu para o futuro malogro da
expedição.
47

Não obstante esse episódio, os atenienses quase lograram a


circunvalação de Siracusa, mas, com a chegada a esta do general
Gílipos, enviado por Esparta, com um pequeno contingente, este
imprimiu melhor orientação à defesa da cidade, invertendo contra os
atenienses o curso das operações.
A despeito de reforços que chegaram sob o comando de
Demóstenes, os atenienses foram completamente derrotados, Lâmacos
perecendo em combate e Nícias sendo aprisionado e depois executado.
Os eventos subsequentes à catástrofe da expedição à Sicília se
alternaram, a despeito da mesma, entre sucessos atenienses e
espartanos. Estes, alimentados pelo “ouro persa”, dispuseram de uma
capacidade de sustentação da guerra contrária às antigas previsões de
Péricles. Os atenienses, embora severamente desfalcados pelo desastre
da Sicília, foram induzidos a perdoar Alcibíades e lhe conferir, o
comando da guerra. Alcibíades logra, em 410, uma excepcional vitória
aniquilando, na batalha de Cízicos, a frota espartana. Esparta se propõe
a fazer as pazes mas Atenas, sob a liderança de Cleophon, insensatamente
recusa a oferta. O sátrapa persa Farnábazos financia a construção de
nova frota espartana. Alcibíades, derrotado cerca de Nôtion, em 406,
perde definitivamente sua credibilidade e foge para o Heléspontos.
Tiveram ainda os atenienses, entretanto, outra espetacular vitória, em
406, na batalha de Aginusae, sob o competente comando de Conon.
Nova oferta de paz por Esparta, mais uma vez e ainda mais
insensatamente, é repelida por Atenas. A subsequente catastrófica perda
da frota ateniense, em 405, em Aegospotami, por incúria dos
comandantes, quando completamente esgotados os recursos da cidade,
liquida definitivamente com seu poder. Theramenes negociará, em 404,
a rendição de Atenas. O relato de Tucídides, entretanto, se interrompe,
por causa de sua morte, antes desses últimos eventos, logo após os
episódios do ano de 410.
48

A Guerra do Peloponeso gerou as condições que conduziriam


ao declínio da Grécia, apesar de um relativo e curto ressurgimento de
Atenas, com sua segunda liga contra Esparta, de 377.
Em Atenas, os insucessos da Guerra Deceleana desmoralizaram
o partido popular e restabeleceram o poder dos oligarcas. Estes, ante o
esgotamento do tesouro público, dispunham de recursos próprios para
sustentar a continuação da guerra, mas exigiam, para tal, que lhes fosse
transferido o poder. Acrescente-se que Alcibíades logrou persuadir os
atenienses que havia conquistado a adesão do sátrapa Tissafernes, que
vinha financiando os espartanos e, supostamente, passaria a financiar
os atenienses. Nessas circunstâncias e com tais maquinações, decidiu-
se em 411 limitar a cidadania a 5.000 cidadãos ricos e se instituiu, para
os selecionar, um comitê de 400 (H., VIII, 63-71), comitê esse, todavia,
que assumiu diretamente o poder. Ante a revolta da frota baseada em
Samos, foi curta a duração do governo dos 400, mas a facção
oligárquica, continuando predominante, lograria mais tarde, com a
rendição de Atenas, retomar o poder com a ditadura dos Trinta, em
404. Estes últimos eventos, todavia, não foram mais descritos por
Tucídides, cuja morte o forçou a interromper sua narrativa no ano 410.
Para a Grécia, em geral, a derrota de Atenas deixou Esparta como
única potência hegemônica. Por suas instituições, tradições e
compromissos - livrar a Hélade do imperialismo ateniense - Esparta,
vitoriosa, deveria retomar a suas bases no Peloponeso e deixar as
cidades-estado gregas se dirigirem a si mesmas. Esparta, todavia,
preferiu instituir sua ditadura sobre a Grécia, colocando nas cidades
subjugadas um representante de seu domínio, harmost, apoiado por uma
guarnição. Com isto, a liderança grega passou das mãos dos atenienses,
que a sabiam exercer de forma esclarecida, para espartanos que se
impunham despoticamente.
A incapacidade de Esparta de exercer uma liderança esclarecida
49

na Grécia, bem como a própria estrutura sócio-política de Esparta,


domesticamente baseada na dominação de uma reduzida classe de
“iguais” (homonoi), limitaram a hegemonia espartana a cerca de 25 anos.
Com Pelopidas e Epaminondas surge uma poderosa democracia tebana,
que se opõe vitoriosamente a Esparta, a que se segue a Segunda Liga
Ateniense (377 a 370). Com Felipe lI, regente de Macedônia em 359 e
rei desde 356, se abriria um novo período na história da Grécia, em
que o estado-cidade seria substituído por estruturas imperiais: o império
macedônio, até morte de Alexandre em 323 e, subseqüentemente, os
reinos helenísticos e a posterior dominação romana, com a final
destruição da Macedônia em 148.
A cultura grega, entretanto, tão bem retratada por Tucídides e
de que Péricles, não obstante seus equivocar em relação à Guerra do
Peloponeso, foi ao mesmo tempo o grande propulsor e um de seus
altos representantes, fecundou decisivamente Roma. O Império
Romano - a mais extraordinária construção política da história - não
teria sido possível se o gênio militar e administrativo de Roma não
tivesse intimamente incorporado a cultura grega. Uma incorporação
que perpetuou essa cultura e dela fez, para toda a posteridade, o
fundamento da visão racional do mundo.

Rio de Janeiro/ Julho/ 2001


50

APRESENTAÇÃO
DO TRADUTOR
Mário da Gama Kury

1. O AUTOR

TUCÍDIDES nasceu provavelmente entre 460 e 455 a.c., no


distrito (demos)1 de Halimunte, em Atenas. Foi atingido pela grave
epidemia que assolou a cidade entre 430 e 427 a.c. (ver o livro II,
capítulo 48), mas se recuperou e em 424 a.c., era comandante das
tropas atenienses na Trácia (livros IV, capítulo 104 e V, capítulo 26);
no exercício de seu cargo não conseguiu evitar que o comandante
lacedemônio Brasidas ocupasse Anfípolis, localidade Trácia de grande
importância no tráfego marítimo de cereais daquela região para Atenas,
e por isto foi exilado, ainda em 424 a.c.; somente após vinte anos de
degredo retornou a Atenas, e morreu poucos anos depois (por volta de
400 a.c.), sem ter podido terminar a sua única obra, a História da Guerra
do Peloponeso.
Tucídides pertencia à aristocracia ateniense e foi educado de
maneira condizente com sua condição social privilegiada. Foi
profundamente influenciado pelas figuras mais brilhantes de sua época
em Atenas, então em seu apogeu: Péricles, a quem não poupa elogios;
o filósofo Anaxágoras, os sofistas (principalmente Górgias, que viera
da Sicília como embaixador pedir a ajuda dos atenienses para a sua
cidade natal - Leontinos - e se radicara em Atenas); Antífon, político e
orador a quem Tucídides se refere com admiração no livro VIII, capítulo
1 Para facilitar a composição tipográfica, as palavras gregas são transliteradas em caracteres latinos.
51

68. Sófocles e Eurípides, dois grandes poetas trágicos, também foram


seus contemporâneos (o primeiro também participou da vida pública
ateniense e o segundo freqüentou os mesmos círculos intelectuais aos
quais Tucídides estava ligado). Há referências em autores posteriores
(entre outros Marcelino, que viveu na época do imperador Justiniano e
escreveu uma Vida de Tucídides), a um encontro de Heródoto, historiador
da guerra entre os persas e os gregos já famoso na época, com o nosso
autor, um pouco mais novo que ele e então adolescente; ouvindo
Heródoto ler um trecho de suas Histórias durante as exibições literárias
que se realizavam simultaneamente com os jogos Olímpicos, Tucídides
ter-se-ia emocionado até as lágrimas, revelando a sua vocação de
historiador. O episódio pode ser imaginário, mas embora sem mencioná-
la especificamente Tucídides parece haver conhecido a obra de seu
famoso predecessor (veja-se, por exemplo, o livro I, início do capítulo
21 e parte final do capítulo 22).
De certo modo Tucídides inovou substancialmente o método
histórico, influenciado pelo racionalismo de Anaxágoras e pelo espírito
crítico e iconoclasta dos sofistas (principalmente Protágoras, Pródicos
e Antífon) sofista homônimo do orador e político muito elogiado por
Tucídides2. Ao longo da obra de Tucídides pode-se observar a cada
passo a sua objetividade e o cuidado na aferição da realidade, afastando-
se assim do gosto dominante entre os historiadores de então pelo
fabuloso e exótico3. A preocupação de Tucídides era mostrar a essência
dos fatos e os sentimentos de seus personagens, penetrando no seu íntimo
e expondo as verdadeiras razões de sua conduta com uma franqueza às
vezes chocante, mesmo aos sentimentos dos leitores de hoje4.

2 Alguns estudiosos sustentam a tese de que se trataria da mesma pessoa.


3 Veja-se, por exemplo, o livro I, capítulos 21 e 22.
4 Vejam-se, por exemplo, os livros V, capítulos 85 e seguintes - o Diálogo Mélio, e I, capítulo 20

juntamente com VI, capítulo 54 - a motivação real da ação dos tiranicidas Harmôdios e Aristógiton,
reverenciados como heróis.
52

Da mesma forma que não teve predecessores em seu método


histórico, Tucídides também não teve seguidores com suas qualidades,
seja na Grécia, seja no mundo antigo em geral5. Mesmo nos tempos
modernos, talvez apenas Maquiavel possa comparar-se a Tucídides na
profundidade do conhecimento e na exposição realista do
comportamento dos homens em geral e dos políticos em particular.
Não há certeza quanto a uma eventual influência da obra de Tucídides
em Maquiavel; a tradução latina6 de Lorenzo Valla foi publicada antes
da primeira edição de O Príncipe e do Discurso sobre a Primeira Década de
Tifo Lívio, mas embora muito se tenha escrito sobre essa possível e
provável influência, nada há de concreto quanto à mesma. Seja como
for, é patente a afinidade entre os dois autores, e como há também
pontos de contato entre as situações em que ambos viveram (as lutas
incessantes entre as cidades-estados da Grécia de Tucídides, à
semelhança do que acontecia entre as da Itália de Maquiavel, o apelo
a reis alienígenas para intervirem nas intermináveis e ferozes disputas
entre as facções políticas locais, etc.), confirma-se a afirmação de
Tucídides na parte final do capítulo 22 do livro I: “... quem quer que
deseje ter uma idéia clara tanto dos eventos ocorridos quanto daqueles
que algum dia voltarão a ocorrerem circunstâncias idênticas ou semelhantes em
conseqüência de seu conteúdo humano, julgará a minha História útil...”7.

5 Xenofonte, que viveu entre 428/ 427 a.c. e 354 a.c., relatou nos livros I e 11 de suas Helênicos a
continuação da guerra do Peloponeso a partir de 411 a.c., onde é interrompida a história de
Tucídides, até 403 a.c.; Xenofonte leva a sua história dos acontecimentos na Hélade até 362 a.c.,
com uma lacuna correspondente aos anos 403-401 a.c., complementada por parte de sua Anábose
quanto às atividades dos helenos na Ásia.
6 É certo que Maquiavel não conhecia o grego.
7 Um erudito tradutor e comentador italiano da obra de Tucídides, Amedeo Peyron, estabelece

um certo paralelo entre o nosso autor e Maquiavel (páginas 39 e 40 do primeiro volume de sua
tradução, Turim, 1861).
53

2. A OBRA

A guerra do Peloponeso, cuja história Tucídides escreveu, durou


vinte e sete anos (431 a 404 a.c.), e envolveu praticamente todo o
mundo helênico e outras regiões mais remotas com as quais a Hélade
mantinha relações. A morte impediu o autor de terminar a obra,
interrompida no relato do vigésimo primeiro ano da conflagração (411/
410 a.c.).
A História se compõe em grandes linhas de cinco partes. A primeira
(Livro I) é uma alentada introdução, subdividida em um prefácio
(capítulos 1 a 23) ilustrativo da importância da guerra do Peloponeso
em comparação com as anteriores - a chamada “arqueologia” - e numa
exposição do método histórico do autor, além de especulações sobre
as causas da guerra com a menção das manobras políticas de ambos os
lados, e de algumas digressões destinadas a reforçar a presunção de
que o conflito era o resultado inevitável do aumento do poder de Atenas,
visto com receios pelos peloponésios em geral e pelos lacedemônios
em particular; a segunda (livros II, IV, IV e os capítulos 1 a 24 do
livro V) corresponde ao segmento da conflagração chamado de “Guerra
dos Dez Anos”; a terceira (livro V, do capítulo 25 até o fim) cobre o
período da paz precária entre os atenienses e lacedemônios e respectivos
aliados; a quarta (livros VI e VII) descreve a guerra na Sicília; finalmente
a quinta (livro VIII) cobre parte da chamada “guerra da Decêleia” e o
deslocamento das operações para a Ásia Menor.
A intenção de Tucídides, ao escrever a sua História, era deixar
para a posteridade um “patrimônio sempre útil”, não no sentido de
jactância pela qualidade da obra, mas como o próprio autor diz na
parte inicial do capítulo 22 do livro I, porque, sendo a natureza humana
imutável, se determinadas circunstâncias se reproduzirem em épocas
diferentes, os fatos se repetirão de maneira idêntica ou semelhante.
54

Daí o empenho do autor em relatá-los tão detalhada e precisamente


quanto possível. Inicialmente, portanto, Tucídides planejou sua obra
com fins didáticos, como um manual de estratégia e política. O gênio
do autor, todavia, transformou a obra didática em obra de arte.
Tratando-se da história de uma guerra, é natural que o autor tenha
dado atenção especial às operações militares; de fato, cerca de metade
da obra se compõe de descrições de batalhas navais e terrestres e seus
preparativos. Embora as descrições em si mesmas tenham grandes
méritos, esta circunstância conduziria inevitavelmente à monotonia
se Tucídides, levado por sua inteligência superior e por um sentimento
estético invulgar, não houvesse intercalado entre elas numerosos
discursos e exortações (quarenta ao todo), além de resumos também
numerosos em forma de narrativa, e do extraordinário Diálogo Mélio
(livro V, capítulos 85 a 113). O próprio autor8 se refere ao seu empenho
em dar a esta parte de sua obra a maior autenticidade possível, tentando
reproduzir com a máxima fidelidade o que teria sido dito pelos políticos
e chefes militares em suas manifestações. A importância dos discursos,
do Diálogo Mélio e das exortações militares é tanta que por si mesmos
eles constituem um dos principais atrativos da História. Suas qualidades,
principalmente sua força persuasiva, fizeram com que um dos principais
estudiosos da eloqüência ática - Friedrich Blass - incluísse Tucídides
entre os oradores que estuda em sua obra clássica Die Attische
Beredsamkeit (páginas 203 a 244 do primeiro volume, segunda edição,
Leipzig, 1887), submetendo as várias orações a uma análise modelar.
Talvez com a mesma intenção de quebrar a eventual monotonia
da parte narrativa, Tucídides introduziu em sua obra o texto de vários
tratados concluídos entre as partes envolvidas ao longo da guerra; outra
intenção do autor pode ter sido demonstrar a inutilidade, ou pouca

8 Ver o início do capítulo 22 do livro 1.


55

utilidade, dos mesmos, pois apesar deles a guerra se estendeu por vinte
e sete anos. Um indício ponderável do uso dessas transcrições (da
mesma forma. que dos discursos, do diálogo e das exortações) como
recurso contra a monotonia das narrações de batalhas e de seus
preparativos, é o fato de as mesmas, de um modo geral, só ocorrerem
nos livros onde não há discursos.
Apesar de certas peculiaridades que às vezes tornam necessária
redobrada atenção na leitura de sua obra, como por exemplo o acúmulo
de orações subordinadas em longos parágrafos9, o estilo de Tucídides é
perfeitamente adequado às manifestações de seu espírito objetivo e
analítico, e ao mesmo tempo às suas preocupações estéticas; a harmonia
é completa entre a forma e o fundo; sua arte, como seu pensamento, é
austera e vigorosal0. O agradável que não instrui não o atrai, ao contrário
do que ocorria com seus predecessores e continuou a ser praticado por
seus sucessores11. Sua imaginação, embora altamente desenvolvida, é
rigorosamente governada pela razão, pela busca do útil e do verdadeiro.
Apesar disto, Tucídides possui e, quando as situações justificam, revela
repetida e magistralmente o dom do patético em seu mais alto grau
(por exemplo, no relato da peste em Atenas, no livro I, e na tragicidade

9 O historiador e crítico literário Dionísio de Halicamassos, que ensinou em Roma a partir de 30


a.c., dedicou duas monografias à obra de Tucídides (Sobre Tucídides e Carta a Ameus), criticando-o às
vezes como historiador, mas de um modo geral elogiando-o entusiasticamente como estilista. Na
obra Sobre Tucídides Dionísio alude aos freqüentes parênteses de nosso autor, que retardam as
conclusões por longo tempo. O mesmo crítico resume com muita propriedade as qualidades
mais marcantes do estilo de Tucídides: concisão monolítica, pungência austera, veemência,
capacidade de inquietar e comover, e sobretudo um profundo comando do patético (§ 24, página
362 do primeiro volume da edição de Usener-Radermacher, Leipzig, 1899).
10 O mesmo Dionísio enumera os quatro “instrumentos” usados mais freqüentemente por nosso

autor para dar a seu estilo a excelência sempre louvada: 1) vocabulário invulgar; 2) grande variedade
de figuras; 3) austeridade da harmonia das frases; 4) velocidade do pensamento (§ 24 da mesma
obra, página 363 da edição citada).
11 Alfred Croiset, na introdução à sua edição comentada do texto dos dois primeiros livros da
História, lembra que os gramáticos antigos diziam de Tucídides que “o leão raramente consentia
em sorrir” (página 92 da primeira edição, Paris, 1886).
56

da narração da campanha dos atenienses na Sicília, que Macaulay


considera uma obra-prima superior a tudo que a prosa produziu de
mais perfeito em qualquer língua12. O cuidado estilístico de Tucídides,
todavia, não o impede de ir até a incorreção gramatical quando se trata
de ser expressivo e preciso.
Há certas facetas do estilo de nosso autor que procuramos
conservar na tradução: uma é a repetição a intervalos curtos da mesma
palavra, quando ele quer dar ênfase a uma idéia ou procura evitar
ambigüidades; outra é o uso reiterado de afirmações sob a forma
negativa (por exemplo, em vez de dizer que algo é grande, usa a
expressão “nada tinha de pequeno”, ou “não era pequeno’’), e assim
por diante; finalmente, o uso, e às vezes até o abuso, de antíteses, de
assonâncias e de outros recursos estilísticos muito ao gosto dos sofistas
de sua época, sobretudo de Górgias.

3. A TRADUÇAO

Serviu de base à nossa tradução o texto da edição de C. Hude,


editiominor em dois volumes, Leipzig, 1905. Recorremos também com
freqüência às edições de H. S. Jones (dois volumes, Oxford, 1942),
além da preciosa edição comentada dos livros I e 11 por Alfred Croiset
(Paris, 1886). Consultamos também, nas passagens mais obscuras do
texto, as traduções de E. A. Bétant (quinta edição, Paris, 1886), de
Jacquel ne de Romilly Raymond Weil e Louis Bodin (Paris, 1963-1972,
seis volumes), de Amedeo Peyron (Turim, 1861), de C. F. Smith
(Londres, 1928, quatro volumes) e de Richard Crawley (Londres, 1886).
Para os topônimos e detalhes geográficos em geral, deverá ser

12 Ufe of Lord Macaulqy, volume 1, página 499. O mesmo Macaulay diz de Tucídides: “He is the
greatest historian that ever lived” (citado por C. F. Smith na introdução à sua edição da História,
página XVI).
57

consultado o índice, que procuramos tornar o mais completo possível,


inclusive com a inclusão dos antropônimos.
Somente uma profunda admiração pela obra de Tucídides nos
levaria a tentar traduzi-la. As dificuldades decorrentes do empenho
em conciliar a máxima fidelidade ao original com um mínimo de clareza,
foram realmente consideráveis. Poderíamos dizer como o filósofo inglês
Thomas Hobbes, um dos mais insignes tradutores e grande admirador
de Tucídides, que o esforço foi bem maior que o resultado, pois nos
pareceu mais importante ser fiel que agradável, seguindo os próprios
princípios do autor. A História de Tucídides não é uma obra fácil13;
deve ser não somente lida mas também meditada para uma fruição
completa, em sintonia com o espírito e a intenção do autor. A
recompensa do leitor será a realização do desejo de Tucídides, de que
sua obra constitua um patrimônio sempre útil nas mãos e na mente de
quem souber usá-la.

M. G.K. Rio de Janeiro, julho de 1981.

13 K.O. Müller, autor de uma das mais conhecidas histórias da literatura grega (citado por Alfred
Croiset na página 122 da obra já mencionada), diz do original que às vezes as longas frases de
Tucídides são obscuras, e para bem apreender o seu conteúdo em todos os detalhes, para
discernir a conexão de todas as idéias, deve-se lê-las duas vezes. Se esta observação judiciosa se
aplica ao original, com dupla razão é pertinente quanto à tradução.