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As tecnologias nas aulas de Educação Física Escolar: um olhar dos

professores

Flórence Rosana Faganello Gemente¹’², Sara Quenzer Matthiesen³
florencefaganello@gmail.com, saraqm@rc.unesp.br

¹ Docente da Faculdade de Educação Física da UFG – Goiânia/Goiás – Brasil.
² Doutoranda do Programa de Desenvolvimento Humano e Tecnologias UNESP –
Rio Claro/ São Paulo – Brasil.
³ Docente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Humano e
Tecnologias UNESP – Rio Claro/ São Paulo – Brasil.

Financiamento:
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás – FAPEG.
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES.

Tema: Tecnologias na Educação
Eixo Temático: Experiências na Formação de Professores
Categoria: Comunicação Oral

Resumo
Os recursos tecnológicos disponibilizam diferentes ferramentas que podem
contribuir para a inovação das práticas pedagógicas. No entanto, as tecnologias
são inseridas nas escolas sem que ocorram modificações nas velhas práticas
pedagógicas. Na Educação Física Escolar, a utilização das tecnologias também é
dificultada pelo entendimento que as aulas práticas serão transformadas em aulas
teóricas. Cientes da importância de inserir as tecnologias de forma crítica e
criativa nas aulas de Educação Física Escolar, este trabalho teve como objetivo
verificar a utilização das tecnologias pelos professores participantes do projeto
PRORROGAÇÃO. Para tanto, aplicamos um questionário e realizamos uma roda
de conversa sobre a utilização da sala de informática e das tecnologias. Os
resultados do estudo demonstram que os professores utilizam as tecnologias,
porém, a utilização ainda está restrita à exposição dos conteúdos. Além disso,
apontam as dificuldades encontradas pelos professores para a utilização da sala
de informática e para a realização de novas práticas pedagógicas. Assim, para
que a inserção das tecnologias possibilitem novas práticas são necessárias
transformações na Educação que perpassam por questões estruturais das
escolas, modificações no sistema de ensino, formação e condições de trabalho
dos professores.

Palavras-chave: Tecnologia, Educação Física, Formação de Professores.


Introdução

Na sociedade atual, nossas atividades estão cada vez mais acompanhadas
pelas inovações tecnológicas. Diariamente utilizamos diferentes meios de
transportes que nos levam a todos os lugares. Em nossas casas possuímos
diferentes eletrodomésticos que contribuem para o nosso conforto e, muitos
deles, há algum tempo, já fazem parte do nosso lazer como o rádio, televisão,
computador, videogames. No trabalho, estão os equipamentos que dão agilidade
na realização dos nossos afazeres. Na área da saúde, as vacinas, os
medicamentos e equipamentos hospitalares contribuem para uma melhor
qualidade de vida da população.
Com esses exemplos não há como negar que a tecnologia está inserida
em todas as esferas da vida do homem. O desenvolvimento tecnológico é um
caminho sem volta, sendo que negar a sua interferência na vida da humanidade é
negar a própria evolução humana. Como ressalta Sancho (1998), a tecnologia, na
nossa sociedade, é sinônimo de progresso e, de forma implícita ou explícita,
optamos pela comodidade que ela nos oferece, assim não temos a escolha de
não segui-la.
Para acompanhar o desenvolvimento tecnológico e visando melhorar a
qualidade do ensino e aprendizagem, verificamos que, por meio de políticas de
governo, as escolas públicas brasileiras estão sendo equipadas com sala de
informática. No entanto, o fato da escola possuir uma sala de informática não
garante que ela seja utilizada pelos professores, como também não garante a
melhora das práticas pedagógicas. Como destaca MARTÍN-BARBERO, (2000, p.
52) é um equivoco pensar que os problemas escolares serão solucionados
apenas com a modernização tecnológica, sem modificar seu modelo
“comunicativo-pedagógico”. Ou seja, não basta a escola se equipar com os
diversos recursos tecnológicos se não ocorrer transformações no sistema escolar
que possibilitem novas práticas pedagógicas, que justifiquem o uso das
tecnologias. Como afirma Teixeira e Brandão (2003), a utilização do computador
na Educação só faz sentido se os professores o entenderem como um
instrumento de auxílio nas atividades didático-pedagógicas, podendo tornar o
processo de ensino e aprendizagem dinâmico, inovador, participativo e atrativo.
Diante desse cenário, buscamos verificar a utilização das tecnologias nas
aulas de Educação Física Escolar, pelos professores participantes do curso
PRORROGAÇÃO, projeto de extensão oferecido pela Faculdade de Educação
Física da Universidade Federal de Goiás aos professores de Educação Física da
Rede Municipal de Goiânia.

Referencial Teórico

As Tecnologias de Informação e Comunicação e a Escola

Na atualidade, as tecnologias sofrem constantes transformações, sendo
que muito rapidamente novos produtos são lançados no mercado, influenciando
nossa maneira de viver. Especificamente, as Tecnologias de Informação e
Comunicação “são o resultado da fusão de três grandes vertentes técnicas: a
informática, as telecomunicações e as mídias eletrônicas” (BELLONI 2009, p.21).
Essas tecnologias possuem diferentes recursos, como: a possibilidade de
receber, gerar e armazenar dados em diferentes formatos como texto, imagens,
vídeos e áudio.
Com as Tecnologias de Informação e Comunicação as barreiras
geográficas foram superadas, as informações e o conhecimento foram
descentralizados. Hoje, qualquer pessoa pode receber e produzir informações.
Não estamos mais sujeitos às informações transmitidas por algumas emissoras
de rádio e televisão, como estávamos há alguns anos atrás. Além disso, como
afirmam Martín-Barbero (2000) e Orozco (1997), com o acesso às informações,
os novos conhecimentos ocorrem em diferentes contextos da vida. A escola
deixou de ser o único local de legitimação do saber. Na era tecnológica, a
diversificação e difusão das informações e do conhecimento são hoje importantes
desafios que a escola precisa assumir.
A presença das tecnologias na escola, no processo de ensino e
aprendizagem não é recente. Mas, infelizmente, segundo Fonseca e Ferreira
(2006) o que vem acontecendo é o emprego de novas tecnologias, sem se
modificar o modelo educacional centrado no professor e na transmissão de
saberes, ou seja, novos recursos tecnológicos são utilizados em velhas práticas
pedagógicas. Ou seja, a escola ainda não tem levado em consideração as
transformações relacionadas ao acesso às informações ocasionadas pelas
tecnologias.
Para que possamos usufruir de toda a eficácia pedagógica das Tecnologias
de Informação e Comunicação, são necessárias grandes mudanças no currículo e
na metodologia de ensino. Como afirma Marinho (2006, p.3), muitas escolas
brasileiras já estão equipadas com salas de informáticas, o que “[...] faz parecer
que a escola está efetivamente na pós-modernidade”, porém, o currículo e a
escola parecem que estão cristalizadas, lembrando a “escola da Idade Média”.
As práticas pedagógicas inovadoras não acontecerão apenas com a
utilização de diferentes recursos. Mas sim com a transformação da estrutura
rígida, que enfatiza o ensino e desconsidera os conhecimentos dos alunos.
Segundo Teixeira e Brandão (2003), a utilização do computador na Educação só
faz sentido se contribuir para a realização de práticas pedagógicas dinâmicas,
inovadoras, com a participação efetiva dos alunos.
Para não reduzir o potencial interativo e inovador das Tecnologias de
Informação e Comunicação, é preciso que a escola se organize e reestruture seu
currículo, que a formação profissional seja adequada e novas práticas sejam
elaboradas para favorecer a construção coletiva de conhecimento entre
professores e alunos. Segundo Belloni (2009), é necessário que as práticas
pedagógicas proporcionem a apropriação do uso crítico, reflexivo e criativo das
TICs. Ademais, Marinho (2006) ressalta que sem uma ressignificação, as
tecnologias, por si só, não serão motivos de mudanças nas escolas. Tampouco,
seu uso será justificado se o objetivo de facilitar a aprendizagem, não seja
determinado e alcançado (MASETTO, 2010).
Corroborando com essas afirmações, Bianchi, Pires e Vanzin (2008)
ressaltam que não basta equipar a escola com diferentes tecnologias, é preciso
que haja a construção de uma proposta pedagógica e o oferecimento de uma
formação continuada para os professores, que envolva o planejamento
metodológico com a utilização das novas tecnologias.
Além de possibilitar o acesso ao conhecimento e às informações de
diferentes formas, o desenvolvimento tecnológico proporciona às mídias, a
utilização de diversos recursos e linguagens que causam fascínio aos receptores.
Segundo Orozco (1997), o tempo gasto em frente à televisão ou navegando na
internet é cada vez maior. Em contrapartida, a dedicação para a realização das
atividades da escola é cada vez menor, considerada mais chata e
descontextualizada com o cotidiano dos alunos. As crianças aprendem mais e
com mais facilidade com os meios do que com o professor (OROZCO, 1997).
Além disso, de acordo com o autor, independente de julgarmos como bom ou
ruim as, mídias estão oferecendo um conjunto de conhecimento mais valioso e
significativo para que os jovens localizem-se e movam-se no cotidiano.
Enquanto na escola queremos produzir uma situação propícia para o
ensino-aprendizagem, os meios de comunicação estão reproduzindo
situações reais, que se não têm muito que ver com o ensino, têm a ver e
muito mais com a facilitação da aprendizagem (OROZCO,1997, p.60).

De acordo como autor, enquanto as mensagens transmitidas pelas mídias
estão cada vez mais atraentes, a escola continua ensinando as mesmas coisas,
só que agora com a utilização de um equipamento tecnológico, mas sem
modificar as práticas expositivas e instrumentais. Segundo Martin-Barbero (2000),
se as práticas pedagógicas não forem modificadas, os professores continuarão
vendo nas TICs apenas como possibilidades de ilustrar aquilo que dizem. Ou,
como afirma Cysneiros (2003), de ampliar a capacidade expositiva dos
professores e reduzir a interação entre professores e alunos, como vem
acontecendo historicamente com as tecnologias como rádio, televisão, vídeo,
retroprojetor.
Entretanto, nas mãos de professores que conhecem e dominam as
tecnologias e que buscam diferentes formas de trabalhar os conteúdos, as
ferramentas da informática podem ocasionar ricas experiências pedagógicas.
Nesse sentido, de acordo com Cysneiros (2003), são inúmeros os recursos
tecnológicos, que vão desde o giz ao computador conectado a internet e, também
as possibilidades pedagógicas que perpassam por aulas expositivas, trabalhos
em grupos e pedagogia de projetos. Assim, o professor tem a responsabilidade de
escolher a melhor tecnologia para cada situação de ensino, com o que deseja que
os alunos aprendam.
Não há dúvidas, que os computadores e os softwares possibilitam a
utilização de inúmeros recursos, tais como: elaboração de textos, pesquisas,
simulação de situações, jogos em rede, criação de páginas pessoais e para as
disciplinas, comunicação à distância em tempo real, programação, dentre outros.
Esses recursos, certamente, podem ser utilizados de diferentes maneiras,
favorecendo a elaboração de situações pedagógicas mais flexíveis e integradas
que contribuam para a construção do conhecimento e não apenas para a
reprodução de informações. Ou seja, as possibilidades são inúmeras, contudo
como afirma Moran (2010), é importante que o ensino esteja conectado com a
vida do aluno e que ele seja o centro do processo.

A Educação Física e as Tecnologias de Informação e Comunicação.

Atualmente, devido as diferentes possibilidades proporcionadas pelas
Tecnologias de Informação e Comunicação, é crescente o número de pessoas
que têm contato com os conteúdos da cultura corporal por meio da televisão, das
revistas, dos jornais, da internet, do rádio, dos jogos de computador, videogames
e exergames, dentre outros. A velocidade com que as tecnologias são criadas e
transformam o modo de se relacionar e de “se estar no mundo” é impressionante
(RIBEIRO 2010, p. 101). Da mesma forma, nos impressionam, as novas formas
de conhecer e vivenciar as diferentes práticas corporais proporcionadas pelos
diferentes recursos tecnológicos.
De acordo com Betti (2001), na Era das Tecnologias de Informação e
Comunicação, é fundamental, portanto, que a escola estabeleça conexões,
reagrupe, contextualize e proporcione a reflexão crítica sobre essas informações,
pois a “relação mídias-cultura corporal é um problema pedagógico para a
Educação Física.” (p.125).
Ao defender o uso de diferentes recursos tecnológicos nas aulas de
Educação Física, Melo e Branco (2011) destacam que as diferentes linguagens
proporcionadas pelas TICs se conectam as linguagens dos alunos, os quais têm
interesse e curiosidades em conteúdos veiculados pela mídia. Desse modo, além
de despertar o interesse dos alunos, devido à linguagem que é próxima a dos
jovens, as TICs favorecem a realização de trabalhos interdisciplinares. Assim, ao
trabalhar os conteúdos da Educação Física utilizando as TICs, todo o contexto
escolar pode ser beneficiado, pois professores de diversas áreas poderão
trabalhar em parceria, explorando as possibilidades proporcionadas pelos
recursos tecnológicos (MELO e BRANCO, 2011).
Contudo, como destaca Betti (2001), apenas conseguirá relacionar-se de
forma crítica com as tecnologias, a Educação Física Escolar que for “concebida
como articulação pedagógica entre vivência corporal/conhecimentos/reflexão,
referenciando-se à cultura corporal de movimento” (p.127). Além disso, Betti
(2001) ressalta que ao fazer uso das TICs, os professores não pretendem
transformar a Educação Física em aulas teóricas sobre os conteúdos da cultura
corporal, mas sim em uma “ação pedagógica” que estará carregada do “sentir”, do
“relacionar-se com o outro” e tendo “como base nesse substrato corporal”, a
“dimensão cognitiva (crítico-reflexiva)” (p.127). Logo, os recursos tecnológicos
utilizados de forma crítica, podem contribuir para o desenvolvimento de aulas de
Educação Física Escolar, sem que se perca a característica do movimento
humano. Ou seja, com o auxílio das tecnologias, o professor poderá desenvolver
aulas que proporcionam a interação entre a vivência corporal e a reflexão dessa
vivência e, assim, novos conhecimentos poderão ser construídos, por meio de
novos processos e, de forma colaborativa entre professores e alunos.

Objetivos

Objetivo Geral
Este trabalho teve como objetivo geral investigar a utilização das
tecnologias nas aulas de Educação Física Escolar, pelos professores
participantes do projeto PRORROGAÇÃO.

Objetivos Específicos
 Verificar se os professores utilizam as tecnologias para o planejamento e
realização das aulas de Educação Física Escolar.
 Verificar quais e como os recursos tecnológicos são utilizados pelos
professores de Educação Física.
 Investigar a utilização da sala de informática da escola pelos professores
de Educação Física.

Metodologia

A Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Goiás –
UFG/Goiânia e a Secretaria Municipal de Educação de Goiânia – SME,
estabeleceram uma parceira e, esta pareceria possibilitou a realização do projeto
de Extensão denominado “Prorrogação”, que tem como objetivo promover aos
professores de Educação Física da Rede Municipal, a formação continuada no
campo do esporte escolar.
No ano de 2013 estamos oferecendo, dentro deste projeto o curso
“Pedagogia do Atletismo”, o qual consiste em duas etapas:
I – Formação continuada dos professores direcionada ao ensino do
atletismo e aproximações com os recursos tecnológicos nas aulas de Educação
Física.
II – Formação continuada dos professores direcionada ao estudo das
tecnologias nas aulas de Educação Física Escolar e, o conhecimento, a utilização
e a avaliação do software denominado “ATLETIC”
1
. Esta etapa será realizada
entre os meses de agosto a dezembro de 2013.
A etapa I aconteceu entre os meses de fevereiro a julho de 2013. Os
encontros aconteciam quinzenalmente às terças-feiras no período matutino e
contou com a participação de 20 professores.
Além de estudarmos sobre as provas do atletismo, nesta etapa, também
verificamos as possibilidades de inserir as tecnologias nas aulas de Educação
Física pelos professores participantes e colhemos sugestões para a elaboração
do software “ATLETIC”.
Para a verificação do uso das tecnologias pelos professores aplicamos um
questionário com perguntas referentes à existência e ao uso da sala de
informática da escola, a utilização de recursos tecnológicos para o planejamento e
desenvolvimento das aulas e as possíveis contribuições da tecnologia para as
aulas de Educação Física. Após a aplicação do questionário realizamos uma roda
de conversa, visando maior aprofundamento sobre tema.


1
Software livre que está sendo desenvolvido com o objetivo de contribuir com a realização de novas
práticas pedagógicas direcionadas ao ensino do atletismo.
Resultados

A análise dos questionários mostra-nos que dos 20 professores
participantes da pesquisa, 13 afirmaram que utilizam ou já utilizaram a sala de
informática da escola, 5 responderam que nunca utilizaram e 2 professores
responderam que a escola ainda não possui sala de informática.
Dos professores que não fazem uso da sala de informática 3 justificaram o
fato de não utilizarem a sala de informática devido aos problemas existentes na
sala e a falta de funcionário responsável, o que impossibilita o uso.
Durante a roda de conversa, quando questionados sobre o uso da sala de
informática durante as aulas de Educação Física, todos os professores afirmaram
que é importante. Porém, foi possível verificar que ainda existe uma grande
preocupação em desenvolver a dimensão procedimental dos conteúdos da
Educação Física. Como podemos observar nas falas dos professores:
Eu acho que se colocar eles dentro da sala de informática para realizar
atividades no computador, acho que estou tirando deles o espaço para
fazer atividade prática com orientação do professor. Acho interessante,
mas devo trabalhar a prática. (P1).

Gosto mais da questão da vivência mesmo. Como só tenho dois
momentos com eles por semana, procuro valorizar o espaço de prática,
vivência corporal. (P20).

Essas respostas apontam para um dos desafios que precisa ser superado
na área, o confronto entre aulas teóricas e aulas práticas. Como apontam Bianchi,
Pires e Vanzin (2008), muitos professores ainda não conseguem utilizar as
Tecnologias de Informação e Comunicação pelo fato de predominar o
entendimento que o lugar das aulas de Educação Física é na quadra e, que os
seus conteúdos são desenvolvidos apenas por atividades práticas.
No entanto, os professores apontam a dificuldade da organização escolar,
ou seja, eles alegam que a Educação Física é a única disciplina que realiza
trabalhos fora da sala de aula. Fato que acaba criando certa resistência dos
alunos em irem para a sala de informática nas aulas de Educação Física. Como
podemos verificar na fala a seguir:
As outras disciplinas não tem o hábito de trabalhar em grupo, de sair da
sala para ler um livro no pé de uma árvore, sair da sala pra fazer alguma
brincadeira [...] as crianças ficam quatro horas e vinte dentro da sala de
aula e quando eles veem a gente eles não querem (risos) eles querem
correr. (P13).
Esse relato comprova que enquanto não ocorrer modificações na estrutura
curricular e a realização de trabalhos interdisciplinares, os professores
encontrarão dificuldades para utilizar todo o potencial dos recursos tecnológicos e
os professores de Educação Física continuarão sendo vistos por muitos como os
responsáveis em tirar os alunos da sala de aula.
Outras dificuldades apontadas pelos professores para a utilização da sala
de informática foram referentes aos problemas estruturais da sala de informática,
a falta de funcionários e o sistema operacional dos computadores. Eles afirmam
que, na maioria das escolas, poucos computadores funcionam, sendo necessário
que muitos alunos compartilhem o mesmo computador ou esperem muito tempo
para poder utilizar. Além disso, devido à falta de funcionários responsável pela
sala, em algumas escolas, os professores são impedidos de utilizar a sala de
informática. Como podemos observar nas falas:
O laboratório é lindo, mas ninguém pode entrar porque não tem
funcionário [...] o professor que quer usar precisa brigar, falar que sabe
mexer. (P10).

No contexto geral o que eu ouço dos colegas é que o uso na escola,
essas aulas de tecnologia é um entrave. Limita porque a condição de
acesso é difícil, a condição de operação também é difícil, às vezes
funciona, às vezes não funciona trava, às vezes não tem ninguém. (P1)

Eu acho que a rede como um todo, tanto municipal e estadual dizem
assim: nós temos este aparelho e pronto. Eles estão cumprindo com o
papel de ter, se funciona ou não, não interessa. Não funciona, você pode
contar no dedo. (P17).

Laboratório sem funcionário é complicado, ainda mais que é Linux. Para
nós que mexemos no Windows é difícil porque lá na escola o sistema é
Linux. Nem tudo que acho em casa funciona no Linux. (P13).

As falas dos professores comprovam a imposição acelerada das
tecnologias, apresentada por Martín-Barbero (2004). Devido às decisões das
políticas de governo, as escolas recebem computadores sem que tenham salas
estruturadas para recebê-los. Como consequência, são laboratórios de
informática precários, que ficam com as portas trancadas, que apresentam
inúmeros problemas técnicos, dificultando a utilização pelos professores.
Em relação à utilização dos recursos tecnológicos para o planejamento e
desenvolvimento das aulas todos os professores afirmaram que fazem uso de
recursos como a televisão, o datashow e o computador.
Sobre a forma de utilização e possíveis contribuições desses recursos os
professores afirmaram que eles contribuem para a organização das aulas, para
realização de pesquisas na internet, possibilitam a exposição dos conceitos e
visualização de imagens e vídeos, além de tornar as aulas mais significativas e
facilitar a compreensão do aluno.
Embora os resultados nos mostrem que os professores estão inserindo as
tecnologias em suas atividades de planejamento e desenvolvimento das aulas, a
forma de utilização e as contribuições apresentadas pelos professores evidenciam
que as práticas pedagógicas continuam as mesmas. Ou seja, a ênfase é no
ensino, ao invés da aprendizagem e a figura central é o professor que possui o
conhecimento e transmite para os alunos. Como afirma Orozco (1999), as
tecnologias estão sendo incorporadas ao que já está estabelecido sem qualquer
tipo de modificação. Assim, os resultados deste estudo evidenciam o que
apontam Martín-Barbero (2000) e Cysneiros (2003), a utilização das tecnologias
como possibilidade de ilustrar o que os professores dizem e ampliar a capacidade
expositiva dos professores.
No entanto, ao analisar as falas dos professores, é possível verificar que as
tecnologias não são trabalhadas de outras formas devido ao pouco conhecimento
e a falta de tempo para pesquisar, ocasionada pela extensa carga horária de
aulas dos professores. Como pode observar nas falas abaixo:
Eu diria que a gente precisa conhecer. Se conhecer e tiver a
possibilidade de trabalhar pedagogicamente ótimo. Agora como nós
vamos conhecer? Como nós vamos ter tempo para conhecer? Nós não
temos tempo. Nós só somos pagos para dar aula e não para pesquisar,
para trabalhar com isso aqui. É média de 60 aulas semanais [...] não
tenho tempo para pesquisar e para conhecer. (P1).

Na verdade, eu particularmente, eles sabem mexer com essas coisas de
jogos mais do que eu, no computador [...]. Eu tenho uma falha de, por
exemplo, eu não tenho tempo na própria escola de chegar dentro da sala
de informática, de pesquisar um jogo e deixar tudo organizado [...].
Minha dificuldade é de eu estar pesquisando para poder ampliar isso. Eu
não tenho tempo. (P3)

Essas afirmações reforçam a necessidade de programas de formação
continuada de professores que proporcionem a apropriação do uso reflexivo e
criativo das Tecnologias de Informação e Comunicação, como apresentam
Bianchi, Pires e Vanzin (2008), Belloni (2009), Bianchi (2009), Rodrigues (2010),
Melo e Branco (2011). Os resultados evidenciam que não basta às escolas serem
equipadas com computadores, sem antes proporcionar aos professores os
conhecimentos necessários para que se sintam seguros em trabalhar com as
tecnologias e desenvolver práticas pedagógicas criativas.
Contudo, é importante destacar a excessiva quantidade de aulas semanais
ministrada pelos professores, que precisam trabalhar em diferentes escolas para
compor a renda mensal, fato que dificulta a possibilidade de realização de cursos
de formação continuada e disponibilização de tempo para a preparação das
aulas. Vale lembrar que a participação desses professores no projeto
PRORROGAÇÃO só foi possível devido à parceria com a Secretaria Municipal de
Educação de Goiânia, que autorizou a realização do curso no horário de trabalho
dos professores.

Considerações Finais

A partir da análise dos resultados podemos verificar que a maioria das
escolas da Rede Municipal de Goiânia, onde lecionam os professores de
Educação Física participantes do curso PRORROGAÇÃO, possuem salas de
informática, as quais já foram utilizadas pela maioria dos professores. No entanto
embora os professores considerem o uso da sala de informática importante, é
possível verificar que ainda existe o receio de substituir as aulas práticas por
aulas teóricas. Além disso, a utilização da sala é dificultada por problemas nos
computadores, pela falta de funcionários especializados e, até mesmo, devido à
proibição do uso da sala pela coordenação da escola.
Os resultados também apontam que embora todos os professores
participantes da pesquisa utilizem diferentes recursos tecnológicos para o
planejamento e realização das aulas, o uso ainda está restrito à exposição de
imagens, vídeos, fato que comprova que as tecnologias estão sendo inseridas
nas velhas práticas pedagógicas. Porém, os professores alegam que a falta de
conhecimento e tempo para dedicação aos estudos dificultam a utilização das
tecnologias de forma inovadora.
Os resultados evidenciam que, para que a inserção das tecnologias
possibilite transformações nas práticas pedagógicas, são necessárias
transformações na Educação que perpassam questões estruturais das escolas,
modificações no sistema de ensino, formação e condições de trabalho dos
professores.
Buscando superar algumas das dificuldades apresentadas pelos
professores, a segunda etapa do curso Prorrogação será direcionada ao estudo
das tecnologias na Educação Física escolar, a elaboração e desenvolvimento de
um plano de trabalho com a utilização do software “ATLETIC”. Assim, esperamos
contribuir para a construção de novos conhecimentos, de forma que os
professores se sintam capazes e seguros em trabalhar com as tecnologias de
forma efetiva em suas aulas.

Referências

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