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Série Pensando o Direito Nº 15/2009 – versão integral Observatório do Judiciário Convocação 01/2007

Série Pensando o Direito

Nº 15/2009 – versão integral

Observatório do Judiciário Convocação 01/2007

Universidade de Brasília e Universidade Federal do Rio de Janeiro UnB/UFRJ

Coordenação Acadêmica José Geraldo de Sousa Junior Fábio de Sá e Silva Cristiano Paixão Adriana Andrade Miranda

Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça (SAL) Esplanada dos Ministérios, Bloco T, Edifício Sede – 4º andar, sala 434 CEP: 70064-900 – Brasília – DF www.mj.gov.br/sal e-mail: sal@mj.gov.br

T, Edifício Sede – 4º andar, sala 434 CEP: 70064-900 – Brasília – DF www.mj.gov.br/sal e-mail:
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CARTA DE APRESENTAÇÃO INSTITUCIONAL

A Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça (SAL) tem por objetivo institucional a preservação da ordem jurídica, dos direitos políticos e das garantias constitucionais. Anualmente são produzidos mais de 500 pareceres sobre os mais diversos temas jurídicos, que instruem a elaboração de novos textos normativos, a posição do governo no Congresso, bem como a sanção ou veto presidencial.

Em função da abrangência e complexidade dos temas analisados, a SAL formalizou, em maio de 2007, um acordo de colaboração técnico-internacional (BRA/07/004) com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que resultou na estruturação do Projeto Pensando o Direito.

Em princípio os objetivos do Projeto Pensando o Direito eram a qualificação técnico-jurídica do trabalho desenvolvido pela SAL na análise e elaboração de propostas legislativas e a aproximação e o fortalecimento do diálogo da Secretaria com a academia, mediante o estabelecimento de canais perenes de comunicação e colaboração mútua com inúmeras instituições de ensino públicas e privadas para a realização de pesquisas em diversas áreas temáticas.

Todavia, o que inicialmente representou um esforço institucional para qualificar

o trabalho da Secretaria, acabou se tornando um instrumento de modificação da visão sobre o papel da academia no processo democrático brasileiro.

Tradicionalmente, a pesquisa jurídica no Brasil dedica-se ao estudo do direito positivo, declinando da análise do processo legislativo. Os artigos, pesquisas e livros publicados na área do direito costumam olhar para a lei como algo pronto, dado, desconsiderando o seu processo de formação. Essa cultura demonstra uma falta de reconhecimento do Parlamento como instância legítima para o debate jurídico e transfere para o momento no qual a norma é analisada pelo Judiciário todo o debate público sobre a formação legislativa.

Desse modo, além de promover a execução de pesquisas nos mais variados temas, o principal papel hoje do Projeto Pensando o Direito é incentivar a academia a

olhar para o processo legislativo, considerá-lo um objeto de estudo importante, de modo

a produzir conhecimento que possa ser usado para influenciar as decisões do Congresso, democratizando por conseqüência o debate feito no parlamento brasileiro.

Este caderno integra o conjunto de publicações da Série Projeto Pensando o Direito e apresenta a versão na íntegra da pesquisa denominada Observatório do Judiciário, conduzida pela Universidade de Brasília e Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Dessa forma, a SAL cumpre seu dever de compartilhar com a sociedade brasileira os resultados das pesquisas produzidas pelas instituições parceiras do Projeto Pensando o Direito.

Pedro Vieira Abramovay Secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça

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CARTA DE APRESENTAÇÃO DA PESQUISA

O texto a seguir apresentado foi elaborado a partir do relatório final do Projeto Dossiê Justiça: uma proposta de Observação da relação entre Constituição e Democracia no Brasil, produzido no âmbito do programa Pensando o Direito, da Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Nos seus objetivos gerais, com a proposta que foi abraçada por grupos de pesquisadores vinculados às Faculdades de Direito da Universidade de Brasília e da Universidade Federal do Rio de Janeiro, todos nomeados nesta publicação, o que se pretendeu foi subsidiar a elaboração de um programa nacional de democratização do acesso à justiça e contribuir para a institucionalização de um Observatório da Justiça no Brasil, no âmbito do Ministério da Justiça.

A resposta oferecida à convocação do Ministério se deu de duas formas. Em primeiro lugar, identificando dimensões de análise e acompanhamento da Justiça com base na experiência de Observação da Justiça desenvolvida no âmbito deste projeto. Em segundo lugar, indicando arranjos para a institucionalização desta experiência e de suas lições aprendidas, caso o Ministério da Justiça ou outros setores do Poder Público venham mesmo a transformá-la numa atividade permanente. Em ambos os casos, como o leitor haverá de observar, o texto busca conduzir a um alargamento do sentido de Justiça e das formas possíveis de sua observação.

Os seus objetivos específicos, distribuídos nas atribuições dos cinco grupos que se organizaram para desenvolver os estudos descritos no relatório final, consistiram em 1. Elaborar diretrizes e indicadores para a institucionalização de um Observatório da Justiça no Brasil - suas relações, estrutura, composição e funcionamento; 2. Mapear estudos, pesquisas e projetos desenvolvidos por instituições de pesquisa sobre acesso à justiça e temas correlatos; 3. Estabelecer um diagnóstico da implementação das reformas - funcional e processual - e suas possibilidades e limites de satisfação de expectativas; 4. Realizar pesquisas exploratórias sobre as potencialidades do Observatório da Justiça sobre acesso à justiça e temas correlatos.

Como síntese de seus estudos o consórcio UnB/UFRJ apresentou uma estratégia para observar a Justiça com a sugestão de institucionalizar um Observatório Permanente

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da Justiça Brasileira (OJB). Este Observatório Permanente da Justiça Brasileira (OJB), inicialmente ligado à Secretaria de Reforma do Judiciário, buscaria produzir investigação empírica e crítica sobre os mecanismos de criação e distribuição do direito socialmente disponíveis, alimentando os Poderes Públicos e a sociedade brasileira com elementos de informação a partir dos quais podem ser desenvolvidas as estratégias e pactuações necessárias para a reforma e a modernização do sistema de Justiça. Além disso, o OJB auxiliaria no monitoramento das reformas já em andamento, permitindo o controle dos seus eventuais efeitos perversos e a proposição de cenários alternativos de futuro. Finalmente, as pesquisas do OJB auxiliariam na prospecção e avaliação de experiências que, embora existentes, podem restar ofuscadas pelo modelo central de Justiça. A partir desse trabalho verdadeiramente “cartográfico”, o Observatório poderia manter uma página na web contendo uma espécie de “Biblioteca de Alternativas”, como subsídio e estímulo para outras iniciativas de transformação.

O texto traz também o parecer inédito elaborado por equipe do CES – Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, dirigida pelo Professores Boaventura de Sousa Santos e Conceição Gomes, em trabalho de consultoria contratada com o objetivo de avaliar e de certificar a elaboração do projeto. Este trabalho se completou por meio de Painel realizado em Brasília em junho de 2009, conduzido pelo Professor Boaventura de Sousa Santos.

Brasília, novembro de 2009

José Geraldo de Sousa Junior Coordenador Acadêmico

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PROJETO PENSANDO O DIREITO

Universidade de Brasília e Universidade Federal do Rio de Janeiro UnB/UFRJ

Observar a Justiça: Pressupostos para a Criação de

um Observatório da Justiça Brasileira

José Geraldo de Sousa Junior, Fábio de Sá e Silva Cristiano Paixão, Adriana Andrade Miranda

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1. COORDENAÇÃO GERAL

Margarida Lacombe (UFRJ) Menelick de Carvalho Netto (UnB)

2. COORDENAÇÃO EXECUTIVA

Adriana Andrade Miranda

Soraia da Rosa Mendes

Milena Pinheiro Martins (estagiária) Fernanda Nathalí Carvalho Soares (estagiária) Diego Nepomuceno Nardi (estagiário) Thiago Gabriel dos Santos (estagiário)

3. OBJETIVO GERAL

Subsidiar a elaboração de um programa nacional de democratização do acesso à justiça e contribuir para a institucionalização de um Observatório da Justiça no Brasil, no âmbito do Ministério da Justiça.

4. OBJETIVOS ESPECÍFICOS

1. Elaborar diretrizes e indicadores para a institucionalização de um Observatório da

Justiça no Brasil - suas relações, estrutura, composição e funcionamento;

2. Mapear estudos, pesquisas e projetos desenvolvidos por instituições de pesquisa sobre

acesso à justiça e temas correlatos;

3. Estabelecer um diagnóstico da implementação das reformas - funcional e processual -

e suas possibilidades e limites de satisfação de expectativas;

4. Realizar pesquisas exploratórias sobre as potencialidades do Observatório da Justiça

sobre acesso à justiça e temas correlatos.

5. ATIVIDADES DESENVOLVIDAS

Elaboração de proposta preliminar de Observatório da Justiça Brasileira;

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Mapeamento preliminar dos estudos, pesquisas e projetos desenvolvidos por

instituições de pesquisa sobre acesso à justiça e temas correlatos;

Coleta de dados para possibilitar a análise da implementação das reformas -

funcional e processual - e suas possibilidades e limites de satisfação de expectativas;

Delimitação temática das pesquisas exploratórias sobre acesso à justiça e temas

correlatos;

Operacionalização dos conceitos, categorias e referenciais teóricos para

realização de pesquisa-piloto sobre acesso à justiça e temas correlatos – coleta de dados mediante entrevistas, revisão bibliográfica, análise de documentos.

7. SUBGRUPOS DE PESQUISA Para viabilizar a execução do objetivo específico cinco, o grupo de pesquisa, responsável pela execução do presente projeto, foi dividido em cinco subgrupos, sendo que cada subgrupo assumiu um eixo de observação. A seguir apresentamos a composição e objetivos específicos de cada subgrupo.

Grupo 01 Objetivos específicos: a) contribuir para um alargamento teórico e empírico da noção de acesso à justiça; b) identificar experiências não-convencionais de criação e distribuição do direito a partir do protagonismo dos movimentos sociais e c) analisar os sentidos emergentes dessas experiências, situando-os no macro-processo de consolidação da nossa democracia

Professor – Coordenador José Geraldo de Sousa Junior

Coordenadora Executiva Fabiana Gorenstein

Pesquisadores (as):

Adriana Andrade Miranda Bistra Stefanova Apostolova Carolina de Martins Pinheiro

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Carolina Pereira Tokarski Fabio Costa Morais de Sá e Silva Flavia Carlet João Paulo Santos Luciana Ramos Mariana Siqueira Carvalho Oliveira Mariana Veras Mauricio Azevedo de Araujo Pedro Teixeira Diamantino Rosane Freire Lacerda Sara da Nova Quadros Cortês Soraia da Rosa Mendes Raquel Negreiros Pedro Mahin Lívia Maier Saionara Reis Raissa Roussenq Alves Talitha Selvati Nobre Mendonça Gilsely Barbara Barreto Santana Diego Nepomuceno Nardi Bruno Borges

Grupo 02 Objetivos específicos: a) tratar as condições para que as demandas por reconhecimento possam ser encaradas como discursos legítimos de uma possível interpretação de direitos fundamentais; b) verificar em que sentido as identidades formadas pelos grupos que reivindicam determinados direitos formam uma demanda específica por reconhecimento e os motivos pelos quais essa demanda não é contemplada ou visualizada na esfera judicial; c) tematizar a crescente judicialização das políticas públicas; d) desenhar estratégias que permitam que essas questões relativas à efetivação de direitos sociais por meio da formulação de políticas públicas possam ser debatidas institucionalmente, sem um imediato recurso à tutela judicial; e) sugerir mecanismos de participação que permitam que o processo de decisão dos juízes seja aberto às interpretações compartilhadas pela sociedade acerca dos direitos fundamentais.

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Professor - coordenador Alexandre Bernardino Costa

Coordenador executivo Eduardo Gonçalves Rocha

Pesquisadores(as) Alexandre Melo Soares Beatriz Cruz Daniel augusto Vila-Nova Gomes Daniel Pitangueiras de Avelino Denise Gisele de Brito Damasco Hanna Xavier Jan Yuri Amorin Jorge Luiz Ribeiro de Medereiros Judithi Karine Cavalcanti Santos Renan Dutra Labrea Vitor Pinto Chaves

Grupo 03 Objetivos específicos: Exame dos riscos e possibilidades que as práticas institucionais contêm no que toca a compreensão do acesso à justiça, tomando-se em vista um acesso que afirme simultaneamente forma e conteúdo constitucionais, compreendendo tal conteúdo como intrinsecamente plural e emancipatório, tendo-se a constituição como estabelecedora de uma comunidade de princípios em torno das exigências simultâneas de liberdade e igualdade. E é precisamente o conteúdo constitucional, isto é, os direitos fundamentais e as garantias de sua observância na organização jurídico-política, característicos do direito e da política na modernidade, que tornam direito e política propensos a sofrerem um uso parasitário. Em toda modernidade nenhuma organização política pode se dar ao luxo de não se afirmar democrática ou pelo menos preparatória da democracia. Da mesma forma, o direito moderno sempre afirmará a realização da igualdade e da liberdade de todos, ainda que para, em sua práxis, negá-las radicalmente. O uso parasitário, seja do direito como instrumento de dominação, seja da ditadura como

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democracia, é sempre contrafático, isto é, precisa afirmar o contrário do que é feito. Visto da ótica dos movimentos sociais, da afirmação dos novos direitos, é o acervo constitucional que intrinsecamente se oferece para ser retrabalhado como garantia de permanente abertura à crescente complexidade sócia (CF, art. 5, par. segundo). E é no plano institucional que o uso parasitário ou mesmo pretensões abusivas têm lugar. O marco teórico adotado sabe que seria irracional a pretensão de que a possibilidade de uso abusivo do direito e da política pudesse ser eliminada. Portanto trabalha exatamente, no plano institucional, com a tentativa de controle dos riscos e o fomento das probabilidades de momentos emancipatórios. a) Analisar experiências paradigmáticas na práxis processual legislativa que contribuam para a compreensão das normas de

Processo Legislativo como garantias dadas à cidadania e não apenas como rol de procedimentos cuja aplicabilidade e normatividade permanecem à disposição da vontade pessoal dos legisladores; b) Identificar veículos institucionais que viabilizem tratamento interno das demandas vindas dos movimentos sociais na execução de políticas públicas, com ênfase ao direito constitucional de petição e às consultas públicas, pontuando êxitos

e fracassos na transformação de poder social comunicativo em poder administrativo; c)

Analisar a súmula vinculante e a repercussão geral como requisito de admissão dos recursos extraordinários, como instrumentos constitucionais postos à disposição do STF para solução de uma crise de acesso à justiça, entendida esta crise (sob o ponto de vista do STF) como essencialmente uma “crise numérica”, isto é, de acúmulo de recursos de natureza extraordinária, atentando para os riscos e possibilidades que tais instrumentos contêm; d) Analisar decisões do STF no que diz respeito a sua correção normativa, em

face de questões socialmente relevantes, nas quais a aplicação e interpretação dos princípios constitucionais confrontam-se com aspectos ético-políticos, para verificar se, ainda que implicitamente, prevalece a especificidade normativa dos direitos em face das políticas na prática do tribunal, e ainda explorar seu potencial (Dworkin); e) Identificar o entendimento de acesso à justiça utilizados nas linhas de pesquisa da pós-graduação em Direito e das práticas acadêmicas de extensão, indagando se elas incorporam uma leitura plural e democrática do acesso à justiça, aferindo a possibilidade e a necessidade de adoção de novas práticas jurídicas de formação, direcionadas para a efetivação do acesso

à justiça.

Professor-coordenador Menelick de Carvalho Netto

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Coordenador executivo Paulo Henrique Blair

Pesquisadores(as) Leonardo Barbosa Silvia Pontes Guilherme Scotti Vanessa Schinke

Grupo 04 Objetivo específico: Identificar estratégias de desconstitucionalização de direitos, desvelando as demandas por reformas no sistema de justiça que se encontram ocultas, latentes ou suprimidas.

Professor – coordenador Cristiano Paixão Coordenador executivo Leonardo Augusto Andrade Barbosa

Pesquisadores(as) Aline Lisboa Naves Guimarães Daniela Diniz Douglas Alencar Rodrigues Douglas Rocha Pinheiro Glaucia Falsarella Foley Guilherme Cintra Guimarães José Eduardo Elias Romão Letícia Leal Lengruber Marthius Sávio Cavalcante Lobato Paulo Henrique Blair de Oliveira Paulo Rená Santarém Paulo Sávio Peixoto Maia Renato Bigliazzi

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Ricardo Machado Lourenço Filho Tahinah Albuquerque Martins

Grupo 05 Objetivo específico: Busca-se, com base na análise dos fundamentos dos votos dos ministros contidos nas decisões do Supremo Tribunal Federal, em especial nos denominados casos difíceis, identificar a sua atuação como ator político. Deve se considerar, em particular, as mudanças institucionais operadas com a nova composição decorrente das vagas abertas após 2003, coincidindo com a maioria eleitoral expressa nas eleições presidenciais de 2002 e pela Reforma do Judiciário traduzida normativamente pela EC 45/04. Desta forma, fortalece-se ainda mais as atribuições constitucionais de nossa jurisdição constitucional, como é o caso dos institutos da súmula vinculante (Lei n° 11.417) e da repercussão geral (Lei n° 11.418). A partir da análise da prática desse tribunal, o grupo 05 do Projeto Dossiê Justiça pretende oferecer subsídios de caráter crítico e propositivo que impulsionem reformas para a democratização e a ampliação do acesso à justiça, que está longe de ser, por si só, sinônimo de acesso ao judiciário, mas que encontra neste uma de suas vertentes mais importantes. Destarte, debateremos em nossas análises, como se procede a relação entre o judiciário e a sociedade brasileira e, em especial, a relação do Supremo Tribunal Federal com o acesso à justiça e suas diferentes variáveis que podem ser observadas, contemporaneamente, em uma sociedade partida como a nossa. 8 Assim, não podemos desconhecer, no elenco de objetivos, que, além do contexto social indicado por nós, há outros parâmetros para compreender e efetivar o acesso à justiça tais como as teorias do direito e constitucional de nossos dias e as conseqüências de uma sociedade de risco.

Pesquisadores:

Prof. Alexandre Garrido da Silva Prof. Fernando Gama Miranda Netto

8 Vide Sujit Choudry – “Constitutionalism in divided societies” in International Journal of Constitucionalism Law vol 5, number 7, páginas 573 a 575. É importante este editorial e o próprio número da citada publicação porque aponta como o constitucionalismo de hoje está enfrentando sociedades fragmentadas como a nossa. Desse modo, serve como reflexão a respeito do papel do acesso à justiça diante desse quadro.

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Prof. José Ribas Vieira Profª. Juliana Neuenschwander Magalhães Profª. Margarida Maria Lacombe Camargo Prof. Marcus Firmino Santiago Prof. Noel Struchiner

Graduandos:

Liana Lyrio Vinicius Iglesias Vítor Miguel Naked de Araújo

Secretário do Grupo 5:

Daniel Bartha

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GRUPO 01 Coordenador: Professor José Geraldo de Sousa Júnior

INTRODUÇÃO, OBJETIVOS E JUSTIFICATIVA.

As tarefas distribuídas ao grupo de pesquisa coordenado pelo Professor José Geraldo de Sousa Jr. envolviam a) contribuir para um alargamento teórico e empírico da noção de acesso à justiça; b) identificar experiências não-convencionais de criação e distribuição do direito a partir do protagonismo dos movimentos sociais e c) analisar os sentidos emergentes dessas experiências, situando-os no macro-processo de consolidação da nossa democracia. Essas atividades tinham como pano de fundo a construção de uma proposta de Observatório da Justiça.

Essa proposta se insere num esforço para particularizar o sentido da Justiça e de suas reformas, a fim de colocá-las em relação mais orgânica com as lutas emancipatórias que vêm sendo forjadas no país, notadamente com o advento de sua nova ordem constitucional. Quer isto dizer que “reforma” e “modernização” da Justiça não são tomadas aqui como expressões de sentidos unívocos, mas, ao contrário, como objetos de uma permanente disputa. O neoliberalismo também se pretende “reformista” e “modernizador”, quando reivindica um sistema ágil e previsível (que ajude a difundir os negócios mercantis), mas também despolitizado (que obstaculize a formulação de demandas com conteúdo social, motivadas pela consciência da negação de direitos e da cidadania). Trilhando um outro caminho, o desafio deste projeto é estabelecer uma tensão entre essa agenda de reforma e modernização e o que poderíamos designar como uma política de direitos. Em outras palavras, trata-se de assegurar que as mudanças institucionais potencializem o atendimento de demandas populares.

Em um primeiro olhar poderia se entender que não existem experiências sociais a serem observadas e levadas em conta na formulação de novas políticas de acesso à justiça; para as quais bastariam alterações no processo ou melhorias na gestão dos tribunais e, portanto, intervenções de ordem “técnica”. Entende-se que esse argumento se aproxima muito do que Boaventura de Sousa Santos designa como a “produção ativa de ausências”, vale dizer, o privilégio de uma racionalidade (funcional) em relação a outras.

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Todavia, há muitas demandas por direitos para as quais esse modo de pensar é hostil ou, pelo menos, insuficiente. Examinar as ações organizadas em busca da satisfação dessas “demandas suprimidas” pode representar, assim, uma estratégia reveladora de novas direções para a reforma da justiça. Compelindo à adoção de outras formas organizativas, de outra cultura jurídica e judiciária, de outro perfil para a formação de bacharéis, de outras formas de conhecer e responder aos conflitos, a ação dos movimentos sociais se apresenta como um fator de mudança tanto dos mecanismos (formais) de acesso à justiça, quanto da própria justiça a que se tem acesso.

REFERENCIAL TEÓRICO Esta proposta de pesquisa vincula-se a uma tradição muito própria do pensamento jurídico e social da América Latina: trata-se de creditar ao protagonismo social a capacidade de instituir novos modos de vida e de juridicidade, não apenas do ponto de vista semântico (como fonte de argumentos que ajudam a criar novas interpretações para velhas categorias), mas também do ponto de vista pragmático (como fonte de práticas que inspiram novas formas de operabilidade do fenômeno jurídico). Nesse sentido, a abordagem não pode se prender apenas às normas de direito positivo e ao reduzido espaço no qual elas operam e mutuamente se conformam (os Tribunais): é preciso incorporar uma análise dos conflitos e das alternativas (plurais) de criação e distribuição do direito que aparecem em decorrência de seu enfrentamento. Se essa fundamentação parece bastante para sustentar um alargamento da noção de acesso à justiça como algo mais amplo que o acesso à jurisdição e ao processo, não menos relevantes serão as suas repercussões metodológicas. A elaboração de um programa para a democratização do acesso e a própria atividade de “observação” devem contemplar não só estudo dos Tribunais e de suas atividades, mas também o diálogo: a) com os atores empenhados na busca por uma “legítima organização social da liberdade”; e b) com as experiências (nem sempre convencionais) de que eles têm ajudado a forjar na luta pelo acesso material e simbólico ao sistema de direitos. A seção abaixo esclarece os mecanismos que serão utilizados para garantir essa atmosfera dialógica da pesquisa, sem prejuízo do alcance dos seus objetivos científicos. Há que se ressaltar que essa experiência de pesquisa é fruto da corrente teórica conhecida por “O Direito Achado na Rua”, que se define por compreender que o direito é fruto de um processo social dialógico, não se reduzindo ao direito positivo. Nesse sentido, o diálogo freqüente e constante com os movimentos sociais no pensar e repensar

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o Direito pode ser considerado a sua maior contribuição para o cumprimento dessa tarefa.

DO CONCEITO DE ACESSO À JUSTIÇA O ponto mais comum nas abordagens correntes sobre acesso à justiça é figurar a sua representação num movimento de busca de superação das dificuldades para penetrar nos canais formais de resolução dos conflitos 1 . Sob este ponto comum, as abordagens correntes, tendem por isso, a identificar neste tema o Judiciário em um papel central, ou ao menos a focalização de instâncias formais de garantia e de efetivação de direitos individuais e coletivos, como pretensão objetiva de distribuição de justiça 2 . Para Sadek, trata-se de identificar nessa institucionalização, “não uma justiça abstrata, mas de possuir a palavra final, quer sobre conflitos de natureza eminentemente política, quer sobre disputas privadas” 3 . A alusão ao formal é, ao fim e ao cabo, uma redução ao estatal e, ainda quando aluda a práticas desenvolvidas por instituições extrajudiciárias e não estatais 4 , é a sua institucionalidade que preside a localização das experiências considerada a peculiar organicidade de seus agentes promotores. Basta ver, em estudo incluído no livro organizado por Sadek 5 o que representa esse modelo de abordagem institucional de acesso à Justiça enquanto preocupação de relacionar o procedimento à orientação de construir cidadania. Embora partindo de referências muito bem designadas em Cappelletti 6 e em Boaventura de Sousa Santos 7 , Sanches Filho logra acentuar a condição de movimento que o deve caracterizar, para formular horizontes muito mais amplos que abram a possibilidade de releitura da questão do acesso à Justiça, de modo a concluir, sobretudo com base em Boaventura de Sousa Santos, “que o Estado contemporâneo não tem o monopólio da produção e

1 SADEK, Maria Tereza (org), Introdução. Experiências de Acesso à Justiça, Acesso à Justiça, Konrad- Adenauer-Stiftung, Pesquisas – nº 23, São Paulo, 2001

2 Idem, p. 7

3 Ibidem, p. 8

4 Ibidem, p. 8

5 SANCHES FILHO, Alvino Oliveira, Experiências institucionais de acesso à Justiça no estado da Bahia, in SADEK, Acesso à Justiça, op. cit

6 CAPPELLETTI, Mauro, Acesso à Justiça, Sergio Antonio Fabris Editor, Porto Alegre, 1988

7 SANTOS, Boaventura de Sousa. Introdução à Sociologia da Administração da Justiça, in SOUSA JUNIOR, José Geraldo de, Aguiar, Roberto A. R. de, Introdução Crítica ao Direito do Trabalho, Série O Direito Achado na Rua – vol. 2, Universidade de Brasília, CEAD/NEP, Brasília, 1993

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distribuição do direito” e que, “apesar do direito estatal ser dominante, ele coexiste na sociedade com outros modos de resolução de litígios” 8 . Assim, mesmo quando o foco da questão é o sistema judiciário formal, as conclusões dos principais estudos neste campo têm sinalizado para a necessidade de não perder-se de vista de que “o direito, o sistema jurídico e o sistema judicial encontram-se num processo acelerado de transformação, que varia em cada sociedade em função do seu desenvolvimento econômico e social, da cultura jurídica, das transformações políticas e do conseqüente padrão de litigação decorrente do tipo de utilizadores dos tribunais judiciais e da relação entre a procura potencial e efectiva da resolução de um litígio no sistema judicial” 9 . Pedroso, Trincão e Dias, que vêem o acesso ao direito e à justiça como um direito humano consagrado nas principais cartas internacionais dos direitos humanos, 10 logo na abertura das conclusões de seu consistente trabalho de pesquisa, salientam também que estes processos de transformação apontam, em simultâneo, por diversos caminhos. Por um lado, avança a ‘juridificação’ e a ‘judicialização’ da vida em sociedade, com a expansão do direito a outras áreas da sociedade e com a chegada a tribunal de ‘novos’ litígios oriundos da sociedade ou do mercado. Por outro lado, desenvolve-se uma tendência para a desjuridificação, para a informalização e para a desjudicialização da resolução de litígios. “ 11 Cabe por em relevo alguns pressupostos tanto teóricos quanto políticos que, na modernidade, contribuíram para facilitar o desenho desse monopólio. Com efeito, na discussão da questão da mediação popular de conflitos 12 , uma estratégia de problematização desse tema aparece ancorada em três pilares, todos decorrentes de limites das condições de compreensão da realidade no paradigma da modernidade. Trata-se aqui da modernidade em seu sentido de tempo histórico e de racionalidade. Os três aspectos colocados em relevo são os seguintes: a modernidade compreendida como racionalidade científica e positiva que passou a rejeitar outras formas de conhecimento e de explicação da realidade, tais como as mítico-religiosas e as de natureza metafísica; a modernidade, representada pela hegemonia da forma política do Estado, cuja expressão

8 SANCHES FILHO, op. cit. Págs.241-271 9 PEDROSO, João, TRINCÃO, Catarina, DIAS, João Paulo, Tribunais em Sociedade. Por caminhos da(s) reforma(s) da Justiça, Coimbra Editora, 2003, p. 415

10 Idem, E a justiça aqui tão perto? As transformações no acesso ao direito e à justiça, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 65, CES, Coimbra, maio de 2003, p. 85

11 Idem, pág.s 415-416

12 SOUSA JUNIOR, José Geraldo de, Mediação popular de conflitos, Revista do Sindjus, Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário e do Ministério Público da União no DF, ano XVI, nº 41, Brasília, p. 4

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institucional passou a subordinar as experiências múltiplas de outros modos de organização política no espaço da sociedade; a modernidade caracterizada pela supremacia do modo legislativo de realizar o Direito, isolando o jurídico na sua expressão formal (a codificação), por meio de uma colonização das práticas jurídicas plurais inscritas nas tradições corporativas e comunitárias. Todo este processo pode ser resumido em um modelo ideológico que passou a pensar o mundo pela sua exteriorização jurídica, numa visão normativista, substantivista, que faz da norma a unidade de análise da realidade, perdendo de vista a possibilidade de uma leitura processual, institucional do mundo, assentada na experiência, que toma o conflito como o seu elemento analítico 13 . Neste sentido o direito terá não a função de integração social ou de redução de complexidades, e nem mesmo precipuamente de mediar conflitos no sentido do apaziguamento, mas pelo contrário, o direito aparece neste contexto como um forte instrumento de emancipação individual e coletiva, que necessariamente irá acirrar os conflitos. Por outros termos quer-se dizer que “Os avanços democráticos foram sempre arrancados ao capital. A luta era por direitos econômicos e sociais, o que significava tirar dos ricos para dar aos pobres. Mas o capitalismo é totalmente hostil à redistribuição.”. 14 Esta é uma das dimensões do acesso à justiça e do direito como possibilidade de experimentação do conflito e tradução autônoma deste a partir dos cânones culturais dos mais fracos. O problema se coloca, como alerta Lyra Filho 15 quando o esquema se institucionaliza, a religião se transforma em igreja, a filosofia em ideologia ou sistema de crenças, o padrão associativo em sociedade in concreto, a opção ética em elenco de normas, o sentimento de justiça em direito legislado, tudo assentando no mecanismo básico de interesse e conflitos de interesses, necessidades e possibilidades de satisfazê- la. As teorias que se transmudam em crenças, apresentam-se numa espécie de oráculo. Há que se garantir que este acesso ao direito se baseie numa ação legitima garantindo todo projeto válido de ação; pois, e correspectivamente, é da ação que emergem os problemas, e dos problemas que nascem as idéias, conscientizando vivências, fundindo- se assim teoria e prática. Para mapear o contexto do acesso à justiça então é preciso

13 SANTOS, Boaventura de Sousa, op. cit. p. 104-105

14 SANTOS, Boaventura de Sousa. Democracia Convive com fascismo societal. Entrevista no Jornal do Brasil, Entrevista da 2º, em 16 de Julho de 2001. 15 LYRA FILHO, Roberto. A concepção do mundo na Obra de Castro Alves, p. 9.

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considerar que o produto autêntico do direito, como quer Sousa Júnior 16 ., que não se confunde com a lei, passa a ser, quando se traduzir em “transgressões concretas”, produto sempre de uma “negociação” e de “um juízo político” de sujeitos coletivos de direito.

O Estado, visto concretamente, se relaciona com os movimentos sociais de duas formas pelo menos: criando estratégias de criminalização ou aceitando a participação como parte do cenário democrático, ou seja aceitando as estratégias de politização do processo social, para constituição garantia e efetivação de direitos, isto é, percebendo-os como sujeitos coletivos de direito. No primeiro caso – tradicionalmente, os movimentos sociais têm utilizado o direito para se defender das estratégias de criminalização dos movimentos sociais, – especialmente os direitos humanos nas suas dimensões de direitos civis e políticos, protegendo os militantes destes grupos das elites violentas e do próprio Estado.

No segundo caso o direito surge qualificando as estratégias de politização das lutas sociais. Percebendo que o direito não é um instrumento de Estado, pois foram conquistados pelos movimentos há que se resgatar a credibilidade no direito e nas instituições, ou seja, a dignidade política do direito. O contexto pós-moderno, embora ultrapassando alguns dos limites de

compreensão da realidade construídos pela modernidade, coloca novos desafios políticos

e epistemológicos na concepção do direito. Os sociólogos descrevem a pós-modernidade

como uma modernidade sem ilusões, em constante processo de mutação, onde os fenômenos se encontram em estado de liquidez, incapazes de manter a sua forma. Instituições, empregos, relacionamentos e amor são temporários; costumes, estruturas e verdades percebidas até então como sólidas, perdem a sua durabilidade. A existência pessoal, social e profissional acontece nesse ambiente de riscos, incertezas, perda de raízes e desconfiança nos próprios sentidos e na realidade 17 . Diante desse tipo de sociedade, a compreensão da pós-modernidade não necessariamente precisa ser marcada

pela ideologia pós-modernista e, desse modo, compartilhar uma visão de mundo que leva a desnormatização da sociedade, ao enfraquecimento das regras e vínculos sociais e

à equivalência de todos os modos de vida. Essa tendência intelectual, com freqüência

16 SOUSA JÚNIOR, José Geraldo. Sociologia Jurídica: condições sociais e possibilidades teóricas, Sergio Antonio Fabris Editor, Porto Alegre, 2002, p.43. 17 Ver BAUMAN, Zigmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001; ver, também, BECK, Ulrich. The risk society: towards a new modernity. London:Sage, 2004.

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acompanhada por posturas de “relativismo duro” 18 que afirmam a igualdade entre todas as culturas, abdica do debate sobre o que é uma boa sociedade, alegando a falta de parâmetros para a discussão ou mais, a ausência mesmo da necessidade de discutir. A opção acadêmica que guia este estudo pressupõe a tarefa de pensar uma sociedade qualificada pela justiça que remete ao nível de vida dos seus membros mais fracos, não encoberto pelas estatísticas sobre a renda média da população. Entramos, portanto, no debate sobre o acesso ao direito e à justiça sem abandonar a capacidade de avaliar, assumindo a necessidade da existência de fundamentos éticos da juridicidade. É a partir de uma configuração crítica desses enviesamentos ideológicos legados pela modernidade e pela pós-modernidade que se torna possível pensar os processos sociais e operar soluções para os conflitos que dele emergem. Mediar conflitos, portanto, requer atuar em uma situação de alteridade sem hierarquias, sejam as que opõem as práticas do social às prescrições da autoridade localizada no Estado; do Direito adjudicado por um especialista (o juiz) a partir de uma pauta restrita (o código, a lei), em relação a sujeitos que não são reconhecidos em suas identidades (ainda não constituídos plenamente como seres humanos e cidadãos) e que buscam construir a sua cidadania por meio de um protagonismo que procura o direito no social, em um processo que antecede e sucede o procedimento legislativo e no qual, o Direito, que não se contêm apenas no espaço estatal e dos códigos é, efetivamente, achado na rua 19 . Pode residir aí a situação percebida pela juíza Gláucia Falsarelli Foley 20 quando se refere ao conjunto de movimentos necessários para impulsionar a universalização do acesso à Justiça, pleiteando, assim, por uma Justiça sem jurisdição porque efetivamente operada na comunidade, para a comunidade e, sobretudo, pela comunidade. Ou, como ela diz em outro lugar, aludindo aos limites de reformas em curso, não perder de vista o potencial emancipatório. Isso porque, ela completa, desde já se verifica certa resistência à proposta de se reconhecer, valorizar e estimular novos instrumentos para a democratização da própria realização da justiça, restituindo à comunidade e aos seus

18 As expressões “relativismo duro” e “relativismo suave” foram encontradas na entrevista de Peter Burke feita por PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia. As muitas faces da história. Nove entrevistas. São Paulo: UNESP, 2000, pg. 185- 231. 19 SILVA, Fábio Costa Morais de Sá e, Ensino Jurídico. A descoberta de novos saberes para a democratização do direito e da sociedade, Sergio Antonio Fabris Editor, Porto Alegre, 2007, págs. 17-23 20 Acesso universal à Justiça, Correio Braziliense, Brasília, 26/06/2007, pág. 19

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cidadãos o exercício da autonomia política, por meio da gestão dos próprios conflitos” 21 Tudo isso mostra, como o faz Boaventura de Sousa Santos, o quanto o “acesso à justiça é um fenômeno muito mais complexo do que à primeira vista pode parecer, já que para além das condicionantes econômicas, sempre mais óbvias, envolve condicionantes sociais e culturais resultantes de processos de socialização e de interiorização de valores dominantes muito difíceis de transformar” 22 . Se, ao limite, a partir de Boaventura de Sousa Santos, e com ele, pudermos alargar o conceito de acesso à Justiça, o plano mais amplo que poderíamos lograr concebê-lo, seria, talvez, pensá-lo como um procedimento de tradução, ou seja, como uma estratégia de mediação capaz de criar uma inteligibilidade mútua entre experiências possíveis e disponíveis para o reconhecimento de saberes, de culturas e de práticas sociais que formam as identidades dos sujeitos que buscam superar os seus conflitos 23 . Esta mediação leva, por meio do trabalho de tradução, a criar “condições para emancipações sociais concretas de grupos sociais concretos num presente cuja injustiça é legitimada com base num maciço desperdício de experiência”, mas que buscam criar sentidos e direções para práticas de transformação social e de realização de justiça 24 . Fora desse contexto emancipatório o que resta é a configuração do acesso à justiça como objeto delimitado 25 , mesmo considerados os dois níveis de acesso:

igualdade constitucional de acesso representado ao sistema judicial para resolver conflitos e garantia e efetividade dos direitos no plano amplo de todo o sistema jurídico 26 . Não por outra razão, Boaventura de Sousa Santos sugere que a estratégia mais promissora de reforma da justiça está na “procura dos cidadãos que têm consciência de seus direitos, mas que se sentem impotentes para os reivindicar quando violados. Intimidam-se ante as autoridades judiciais que os esmagam com a linguagem esotérica, o racismo e o sexismo mais ou menos explícitos, a presença arrogante, os edifícios esmagadores, as labirínticas secretarias”. Se essa procura for considerada, diz o

21 Idem, Entrevista: Condições Republicanas para a Democratização e Modernização do Judiciário, Constituição & Democracia, UnB/Sindjus/Faculdade de Direito, Brasília, nº 4, maio de 2006, p. 10

22 Op. Cit. p. 114

23 Para uma Sociologia das Ausências e uma Sociologia das Emergências, in SANTOS, Boaventura de Sousa (org), Conhecimento Prudente para uma Vida Decente. ‘Um discurso sobre as ciências’ revisitado, Cortez Editora, São Paulo. 2004, p.813, 814 e 815

24 SANTOS, Boaventura de Sousa, idem, p. 814

25 SANTOS, Boaventura de Sousa, MARQUES, Maria Manuel Leitão, PEDROSO, João e FERREIRA, Pedro Lopes, Os Tribunais nas Sociedades Contemporâneas. O Caso português. Centro de Estudos Sociais/Centro de Estudos Judiciários, Edições Afrontamento, Porto, 1986, p. 485 26 Idem, p. 485

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sociólogo português, o resultado inevitável será “uma grande transformação do judiciário” 27 . Considerado o nível mais restrito, o sistema judicial se consolida justamente em seu fechamento democrático, na medida em que o seu conceito de acesso mina possibilidades de participação popular na interpretação de direitos; esgota a porosidade entre ordenamentos jurídicos hegemônicos e contra-hegemônicos; constituídos e instituídos pela prática dos movimentos sociais. O nível restrito do acesso à justiça, portanto, se reafirma no sistema judicial. O nível mais amplo do mesmo conceito se fortalece em espaços de sociabilidades que se localizam fora ou na fronteira do sistema de justiça. Contudo, ambos os níveis se referem a uma mesma sociedade, na qual se pretende o exercício constante da democracia. Considerando os dois níveis, a pergunta a ser feita é a seguinte: é possível o exercício democrático com um judiciário conservador, incapaz, portanto, de assimilar formas participativas de mediação para os conflitos e para o reconhecimento de novos direitos instituídos permanentemente em uma sociedade plural? 28 Esta é sem dúvida a questão candente hoje, em nosso país, quando se coloca em causa o problema de sua democratização e se identifica no judiciário a recalcitrância que é social e teórica para a realização de mudanças sociais, conferindo à regulamentação jurídica das novas instituições o seu máximo potencial de realização das promessas constitucionais de reinvenção democrática. No Brasil, notadamente, a partir do importante debate que se instaurou no país na conjuntura aberta com o processo constituinte de 1985-1988, a reinvenção das instituições democráticas em geral e do judiciário em particular por causa de seu papel estratégico para a mediação de conflitos sociais ganhou grande relevância e foi esse o tema que designou o próprio processo, a ponto de a Constituição que é seu fruto, ser denominada “Constituição Cidadã”. Ainda que sejam muitas as críticas a esse processo e persista a recusa para o reconhecimento da qualificação democrática a ele atribuído, a experiência constituinte deu conta de demarcar a transição do autoritarismo militar pós-64 para um sistema civil

27 A Justiça em Debate. Folha de São Paulo: Opinião, Tendências/Debates, pág. A3, 17.09.2007 28 SOUSA JUNIOR, José Geraldo de, Que Judiciário na Democracia?, Revista do Sindjus. Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário e do Ministério Público da União no DF, ano XI, nº 8, outubro de 2001, págs. 12-15

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de governo, no qual, a possibilidade efetiva de participação popular na experiência de reconstrução das instituições é, de fato, uma marca. Basta ver que a própria noção de participação e participação direta, passa a designar, na concepção constitucional, o modelo de exercício de poder então constituído, com a criação formal de vários instrumentos de participação popular, com a legitimação do protagonismo social e suas estratégias de ação. Hoje, não há quem não reconheça e valorize formas regulamentadas de participação popular, legalizando, em todos os níveis formais de poder, no legislativo e no executivo, os processos, os mecanismos e as instituições que realizam o novo modelo de atuação cidadã, entendida aqui a cidadania em sentido ativo para incluir, tal como sugere Marilena Chauí, “a possibilidade de colocar no social novos sujeitos autônomos – auto nomos – que criam, que se dão a si próprios, novos direitos” 29 . Curioso na postura resistente do Poder Judiciário é a impermeabilidade a fatores de democratização que se inscrevem no próprio projeto jurídico-político do estado liberal em cujos pressupostos têm assento, inclusive, o princípio da participação popular na administração da justiça, hoje consignado nas constituições de Portugal, Espanha e Brasil, pós os anos 1970. Claro que, numa perspectiva de alargamento do acesso democrático à justiça, não basta institucionalizar os instrumentos decorrentes desse princípio, é preciso também reorientá-los para estratégias de superação desses mesmos pressupostos. Primeiro, criar condições, num movimento cognitivo da imaginação epistemológica, para inserir no modelo existente de administração da justiça, a idéia de participação popular que não está inscrita em sua estrutura; segundo, agora num movimento de tradução sob impulso da imaginação democrática de uma demanda de participação popular não estatizada e policêntrica, num sistema de justiça que pressupõe uma administração unificada e centralizada; terceiro, fazer operar um protagonismo não subordinado institucional e profissionalmente, num sistema de justiça que atua com a predominância de escalões hierárquicos profissionais; quarto, aproximar a participação popular do cerne mesmo da salvaguarda institucional e profissional do sistema que é a determinação da pena e o exercício da coerção; quinto, considerar a participação popular como um exercício de cidadania, para além do âmbito liberal individualizado, para alcançar formas de

29 CHAUI, Marilena, Sociedade, Estado, OAB, in XIII Conferência Nacional da OAB, Conselho Federal da OAB, Anais, Belo Horizonte, 1990, p. 117

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participação coletiva assentes na comunidade real de interesses determinados segundo critérios intra e trans-subjetivos 30 Por esta razão, neste campo, graças ao protagonismo de magistrados e operadores de direito, com repercussão em vários âmbitos, políticos, sociais, profissionais e de formação, vem se dando um dos mais fortes embates, verdadeiro combate de uma guerra ao mesmo tempo de movimento e de posição. Organizados em novas entidades (“Associação Juízes para a Democracia”, “Ministério Público Democrático”, “Juízes para um Direito Alternativo”, “Associação dos Advogados das Lutas Populares”), assumem a expressão de suas tensões presentes nas condições da cultura jurídica de formação desses operadores (crítica ao formalismo e ao modelo epistemológico conformista do ensino jurídico) e na exigência de redefinição de sua função social (operadores do direito para que e para quem). Em livro do qual se discutem condições éticas para orientar reformas judiciais 31 , cuidou-se de enfrentar, exatamente, essa questão, vale dizer, a de que o direito e o sistema judiciário têm também que se transformar no processo paradigmático que envolve as instituições sociais e os sistemas de poderes. Senão, como designar as contraposições entre o direito oficialmente instituído e formalmente vigente e a normatividade emergente das relações sociais; como distinguir entre a norma abstrata e fria das regras que regem comportamentos e a normatividade concreta aplicada pelos juízes; como recepcionar e compreender novas condições sociais, a emergência de novos sujeitos de direitos, valorizando o pluralismo jurídico efetivo que permeia essas relações? Bistra Apostolova situa este problema ao caracterizar a justiça no paradigma contemporâneo de direito, como um princípio de equilíbrio de interesses sociais impossíveis de serem reduzidos a uma medida universal e absoluta 32 . Tal caracterização remete à hipótese teórica do pluralismo jurídico, base epistemológica do acesso à justiça assim como formulado neste ensaio e que enseja a

30 SANTOS, Boaventura de Sousa, A Participação Popular na Administração da Justiça no Estado Capitalista, in Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, A Participação Popular na Administração da Justiça, Livros Horizonte, Lisboa, 1982, p. 84; idem, Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências, op. cit. p. 814

31 Ética, Justiça e Direito. Reflexões sobre a reforma do judiciário, Pe. José Ernanne Pinheiro, José Geraldo de Sousa Junior, Melillo Dinis e Plínio de Arruda Sampaio (orgs.), Editora Vozes/CNBB, Petrópolis, 2ª edição, 1996.

32 APOSTOLOVA, Bistra Stefanova, O Poder Judiciário Brasileiro na Passagem da Modernidade para a Contemporaneidade, in Ética Justiça e Direito. Reflexões sobre a reforma do judiciário, op. cit. p.137

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possibilidade de outros modos de determinação da norma do direito e da própria acessilidade à justiça 33 . O pluralismo jurídico é, aliás, uma das premissas para pensar reformas que permitam contemporizar a idéia restrita do primado do direito e a primazia do sistema

judicial como instrumentos ideais de uma concepção despolitizada da transformação social 34 . É o pluralismo jurídico que possibilita definições seletivas de competências que permitam encontrar formas de composição extralegal para determinados tipos de conflitos e fundamentar reformas, inclusive do sistema judicial e do sistema processual em condições de incluir, simultaneamente, a face técnico-profissional e a face informal e comunitária da administração da justiça 35 , articulando estratégias, como sugere Boaventura de Sousa Santos, próprias à democracia representativa, plano do constituído,

e próprias à democracia participativa, plano do instituinte 36 . A falta de compreensão dessas condições tem sido fator de incremento à crise no campo da justiça, a ponto de se configurar a situação dramática a que faz referência Boaventura de Sousa Santos, segundo o qual, sem abrir-se a esse franco questionamento, sem confrontar os pressupostos formalistas de sua cultura legalista e sem submeter a uma revisão os fundamentos políticos e democráticos de seu papel e de sua função social, “o Judiciário faz da lei uma promessa vazia”. Esta é uma condição para abrir o sistema de acesso à justiça, como lembra Carolina de Martins Pinheiro, não apenas por uma via de modernização tecnológica que foca o Judiciário num recorte funcional de prestador de serviços quantificáveis, segundo uma lógica maximizadora de esforços produtivos, mas que se fecha à possibilidade de

inclusão de visões de mundo diferenciadas, portanto, imune à riqueza de subjetividades interpelantes. É dessa carência que se ressentem as constantes reformas, organizacionais

e processuais, em geral oferecidas para a atualização do sistema de Justiça, todas elas

33 SOUSA JUNIOR, José Geraldo de, El derecho hallado em la calle: tierra, trabajo, justicia y paz, in RANGEL, Jesús Antonio de la Torre (coordinador), Pluralismo Jurídico. Teoria y Experiências, Cenejus – Centro de Estúdios Jurídicos y Sociales “Padre Enrique Gutiérrez”, San Luis Potosí, México, 2007, p.242

34 SANTOS, Boaventura de Sousa, TRINDADE, João Carlos (orgs), Conflito e Transformação Social:

uma paisagem das justiças em Moçambique, 2º volume, Edições Afrontamento, Porto, 1993, p. 526

35 Idem, op. cit. págs. 581 e 582

36 SANTOS, Boaventura de Sousa, Democratização do Acesso à Justiça, conferência proferida no MJ, em 06/06/2007, no Seminário promovido pela Secretaria de Reforma do Judiciário, do Ministério da Justiça, para lançar as bases do Observatório da Justiça Brasileira.

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ainda subordinadas à lógica de papelização do direito, com evidente perda de sua dimensão humana 37 . Presas a uma visão positivista, que jurisdiciza o mundo, estas reformas não carregam a percepção das condições de mudança da sociedade, seja em contexto teórico, seja em contexto social, e não se dão conta da emergência de novas subjetividades, de novos conflitos e de novos direitos, interpelando continuamente a cultura legalista que está na base da atuação dos agentes do sistema de justiça e que orienta o posicionamento funcional dos operadores de Direito 38 Essa interpelação está no fundo do grande debate que traz o ensino do Direito para seu centro, revelando o duplo equívoco a tradição retórica e positivista havia produzido: a inadequada percepção do objeto de conhecimento e os defeitos pedagógicos disso decorrentes, como apontou Roberto Lyra Filho 39 , quando simultaneamente formula uma concepção que o vê como modelo avançado de legítima organização social da liberdade. Desse modo, estudar Direito implica elaborar uma nova cultura para as Faculdades e cursos jurídicos e, um dos eixos fundamentais dessa reformulação cultural tem sido, à luz das diretrizes em curso, constituir-se a educação jurídica uma articulação epistemológica de teoria e prática para suportar um sistema permanente de ampliação do acesso à justiça 40 , abrindo-se a temas e problemas críticos da atualidade, dando-se conta ao mesmo tempo, das possibilidades de aperfeiçoamento de novos institutos jurídicos para indicar novas alternativas para sua utilização 41 . A nova cultura jurídica subjacente ao ensino do direito terá repercussões nas formas de recrutamento dos juízes redirecionando a seleção com base nas habilidades essenciais para a democratização profunda do acesso à justiça. Entre essas competências destacamos a abertura epistemológica para o pluralismo jurídico; o desenvolvimento de

37 PINHEIRO, Carolina de Martins, Escuta Criativa: sobre a Possibilidade de uma Justiça Moderna e Democrática, 1º lugar no 1º Prêmio Novas Idéias para a Justiça. Objetivos e Resultados, Sindjus- DF,Brasília, s/d, p. 68

38 SOUSA JUNIOR, José Geraldo de, Novas sociabilidades, novos conflitos, novos direitos, in Ética, Justiça e Direito. Reflexões sobre a reforma do judiciário, op. cit. p. 93

39 LYRA FILHO, Roberto, Para um direito sem dogmas, Sergio Antonio Fabris Editor, Porto Alegre, 1980, passim; O Direito que se ensina errado, Editora Obreira, Brasília, 1980, passim; O que é Direito, Editora Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, 1ª edição, 1982, passim

40 SOUSA JUNIOR, José Geraldo, COSTA, Alexandre Bernardino, Introdução, in MACHADO, Maria Salete Kern, SOUSA, Nair Heloisa Bicalho de, Ceilândia: mapa da cidadania. Em rede na defesa dos direitos humanos e na formação do novo profissional do direito, Brasília, Faculdade de Direito da UnB, Secretaria de Direitos Humanos/MJ, 1998

41 SOUSA JUNIOR, José Geraldo de, Ensino do Direito e Assessoria Jurídica, in Revista do SAJU. Serviço de Assessoria Jurídica Universitária, Edição Especial nº 5, UFRS, Porto Alegre, 2006, p. 31

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um perfil não apenas técnico, mas também humanista dos agentes jurídicos em condições de promover a reflexão sobre a condição humana que contextualize o direito no seu ambiente histórico, cultural, político, existencial e afetivo; aptidão para distinguir, entre as múltiplas demandas, aquelas que exigem a construção de um ambiente procedimental adequado para negociação de diferenças e diminuição de desigualdades sociais.

Realizar a promessa democrática da Constituição eis o desafio que se põe para o Judiciário e para responder a esse desafio precisa ele mesmo recriar-se na forma e no agir democrático. Mas o desafio maior que se põe para concretizar a promessa do acesso democrático à justiça e da efetivação de direitos é pensar as estratégias de alargamento das vias para esse acesso e isso implica encontrar no direito a mediação realizadora das experiências de ampliação da juridicidade. Com Boaventura de Sousa Santos podemos dizer que isso implica dispor de instrumentos de interpretação dos modos expansivos de iniciativas, de movimentos, de organizações que, resistentes aos processos de exclusão social, lhes contrapõem alternativas emancipatórias 42 . Um procedimento de pesquisa que intente operar a partir dessa visão de alargamento, pensando o tema do acesso democrático à justiça, não pode descuidar-se da designação cartográfica das experiências que se fazem emergentes. Sob tal perspectiva, diz Boaventura de Sousa Santos, “as características das lutas são ampliadas e desenvolvidas de maneira a tornar visível e credível o potencial implícito ou escondido por detrás das acções contra-hegemônicas concretas” 43 . Isso corresponde, completa Sousa Santos, a atuar “ao mesmo tempo sobre as possibilidades e sobre as capacidades; a identificar sinais, pistas, ou rastos de possibilidades futuras naquilo que existe” 44 .

A METODOLOGIA DA PESQUISA DE CAMPO A fim de realizar a cartografia das possibilidades de emergência de experiências de acesso à justiça e direitos humanos das quais seja possível extrair elementos para reflexão e assim dar conta das exigências da pesquisa em questão – cujos eixos envolvem a identificação de demandas que interpelem a própria noção de acesso à justiça e as experiências não-convencionais de satisfação das mesmas – foi adotado roteiro de entrevista, feito com o apoio inestimável e essencial da Profa. Nair Bicalho

42 SANTOS, Boaventura de Sousa, Poderá o direito ser emancipatório? Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 65, CES, Coimbra, maio de 2003, p.35

43 Idem, p. 35

44 Ibidem, p. 35

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(Doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo, Técnica de Planejamento e Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e Professor Adjunto do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília) e da pesquisadora Cíntia Engel, graduanda de Sociologia do 5º semestre, membro da diretoria de pesquisa da empresa júnior de Consultoria em Ciências Cociais – SOCIUS, pesquisadora financiada pelo FINEP na linha de envelhecimento de mulheres, práticas institucionais de violência e abandono. Os roteiros de entrevista foram construídos de forma coletiva, a partir de

reuniões semanais no Núcleo de Estudos para a Paz e os Direitos Humanos – NEP/UnB, e com aplicações paralelas de “entrevistas-testes” por parte de alguns pesquisadores que posteriormente apresentavam as suas impressões ao grupo. Os pesquisadores, com o auxílio da Profa. Nair Bicalho criaram as questões e se preparam para aplicá-las, num processo contínuo de aperfeiçoamento e aprendizagem. A aplicação das entrevistas teve como objetivo revelar quais as experiências de acesso à justiça potencializadoras de aprendizagem e como têm sido conquistadas tanto pela sociedade civil organizada como pelos movimentos sociais. O roteiro dividia-se em cinco partes:

I. Perfil do(a) Entrevistado(a)

II. Perfil da Organização, Rede ou Movimento

III. Percepções sobre Direito e Justiça

IV. Percepção sobre o Sistema Judicial

V. Formas Convencionais e Não-Convencionais de Acesso à Justiça

As entrevistas foram realizadas entre setembro e dezembro de 2007, seguindo três formas: presencial, por telefone e por e-mail. Os pesquisadores ficaram encarregados de entregar as versões finais dos roteiros à Coordenação do grupo 01 para numeração e posterior tabulação de dados. Para a tabulação quantitativa, foi utilizado o sistema SPSS. Após essa fase, o grupo dividiu-se para fazer a análise do discurso das questões abertas. A escolha dos movimentos, redes e organizações entrevistados partiu de uma amostragem delimitada pelos seguintes critérios: proximidade e identidade com a organização, possibilidade de coleta da informação no tempo adequado, pertinência do programa da organização ao tema da pesquisa e, por fim, a credibilidade e o reconhecimento das ações dessas organizações. Os entrevistados foram indicados pelas

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entidades escolhidas, preferencialmente pessoas em cargo de direção e coordenação, que estavam a mais de dois anos na entidade. Em nenhum momento o grupo 01 pretendeu esgotar o universo representativo dos movimentos sociais na sua escolha, pelo contrário, desde o início sabia-se que esse seria apenas o ponto de partida, a “experiência-piloto” de um mapeamento mais amplo a ser feito caso a pesquisa prosperasse e chegasse aos resultados esperados. Além disso, a pesquisa não visou meramente identificar as melhores ou bem- sucedidas experiências, mas ao contrário, buscou fazer emergir através da escuta dos movimentos sociais e respeito ao seu protagonismo, visões plurais de acesso à justiça. Entendendo que o desperdício da experiência deve ser evitado, eventualmente, pode-se aprender mais com experiências que à primeira vista não foram vitoriosas, mas cujo potencial pedagógico seja iluminador.

RESULTADOS E CONCLUSÕES DA PESQUISA

Os novos movimentos sociais 45 são a mola propulsora para o esperado alargamento da prática política. Críticos dos excessos de regulação da modernidade, esses movimentos lutam para além da concessão de direitos – exigem transformações e inserção institucional imediatas. Carregam como bandeira a idéia de participação e de solidariedade concretas, na busca de uma nova qualidade de vida pessoal e coletiva, pautada na ação comunicativa para cultivar cooperação, compartilhamento e solidariedade, com base na autonomia e no autogoverno, na descentralização e na democracia participativa, no cooperativismo e na produção do socialmente útil. Têm como objetivo a ampliação do político, a transformação de práticas dominantes, o aumento da cidadania e a inserção na política de atores sociais excluídos.

Dessa forma, os novos movimentos sociais acabaram por instaurar, efetivamente, “práticas políticas novas, em condições de abrir espaços sociais inéditos e de revelar novos atores na cena política capazes de criar direitos”. Fixaram suas ações na sociedade política, especialmente nas referentes à implementação de políticas públicas.

45 Falar-se-á de “novos movimentos sociais” para caracterizar aqueles movimentos surgidos entre

as décadas de 1960 e 1980, que tinham como fim “a luta pelo reconhecimento de direitos sociais e

não se tratava mais de lutas concentradas nos sindicatos ou nos partidos políticos”

(GOHN, 2005, p. 72). “Esses movimentos ajudaram a construir novos significados para a política, localizando-a no cotidiano” (GOHN, 2005, p. 74). Além disso, são identificados como “novos” pela recriação de espaços públicos, pela heterogeneidade de sujeitos, pela diversidade de manifestações etc. “Embora fragmentados, unificavam-se na luta pelos direitos sociais e pela democratização do Estado, exigindo a participação direta nas decisões que lhes afetavam” (SILVA, 2003, p. 30) (grifou-se).

culturais modernos. (

)

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A pesquisa de campo tinha por objetivo verificar se a descrição dos obstáculos

para a efetivação do direito à justiça e acesso à justiça, na forma que os autores que

compõem o marco teórico dessa pesquisa (Sousa Santos, Sousa Júnior e Lyra Filho), correspondiam às demandas formuladas pelos movimentos sociais. E, além disso, verificar em que medida as entrevistadas poderiam oferecer experiências capazes de reconfigurar a discussão sobre justiça e acesso à justiça, resgatando-a da agenda de regulação e a reconduzindo para a agenda da emancipação, através do estabelecimento de novas e criativas práticas sociais.

Nesse sentido, foram identificadas organizações, movimentos e redes com diferentes perfis organizacionais, tempo de existência, públicos, abrangência, além de outros critérios para verificar os encontros entre teoria e prática e as diferentes formas de intervir politicamente na realidade para a defesa de direitos.

A partir da coleta dos dados, foram realizadas duas análises. A primeira foi feita

a partir da Seção I do roteiro de entrevista, e fazia a identificação social do entrevistado.

Para fins de melhor visualização, as respostas estão organizadas em forma gráfica em um anexo a esse texto.

As respostas das perguntas fechadas permitiram o reconhecimento do universo trabalhado na pesquisa, com cruzamentos de raça, salário, escolaridade, tempo e posição na organização. A segunda análise permitiu recolher dois tipos de categorias, uma que identifica as estratégias não convencionais de acesso à justiça e outra que identifica demandas de democratização e refuncionalização do Sistema Judicial.

Em

relação

ao

universo

composto

pelas

vinte

e

duas

entrevistadas,

os

pesquisadores integrantes do grupo 01 retiraram as seguintes informações:

Em relação ao sexo dos entrevistados, 67% são do sexo feminino e 33% do masculino. Quanto à renda, observa-se alguma diversidade de faixas salariais, mas 39% dos entrevistados relataram receber mais de 6 até 9 salários mínimos, já 22% recebe até 6 salários mínimos e 39% recebem acima de 9 salários.

O grau de escolaridade da maior parte dos entrevistados é superior completo,

sendo que esses somam 36% e outros 32% têm pós-graduação. Por outro lado, 9% têm

escolaridade até o ensino médio ou fundamental.

Essas informações permitem concluir que o perfil dos entrevistados foi diversificado. Em sua maioria os entrevistados eram gestores e técnicos de organizações,

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movimentos e redes bem-estruturadas, com alto grau de escolaridade e renda superior a 9 salários mínimos. Por outro lado, as entrevistas também alcançaram representantes de movimentos sociais de base, com pouca educação formal e renda reduzida. O grupo 01 decidiu trabalhar com esse público variado, não reduzindo seu universo apenas a organizações de alto perfil, para recolher diferentes perspectivas sob o acesso à justiça.

Além disso, a consolidação dos dados permite verificar o cumprimento dos critérios de seleção para os entrevistados (exercício de cargo de direção e estar há mais de dois anos na organização, movimento ou rede). Observa-se, então, que 50% dos entrevistados estão em cargo de direção e outros 13% estão em função de assessoria. Isso pode ser explicado em parte porque os pesquisadores aproveitavam viagens de representantes dos movimentos, organizações ou redes para Brasília para realizar as entrevistas, sendo que nem sempre os profissionais que viajam são os membros da direção. Temos como exemplos, as entrevistas feitas no Seminário da ABEDI e a entrevista feita durante a Marcha das Margaridas.

O tempo na organização, rede ou movimento foi eleito um dos critérios para a seleção dos entrevistados porque se desejava resgatar elementos da memória institucional de médio e longo prazo. Assim, 96% dos entrevistados possuem mais de dois anos de instituição, sendo que 50% responderam ter mais de seis anos de trabalho.

Em relação à segunda análise, a leitura consolidada do conteúdo das entrevistas permitiu que se verificasse que as organizações, movimentos e redes conhecem e buscam a Justiça pelos meios tradicionais. No entanto, também permitem elaborar uma vasta categorização de estratégias não-convencionais de acesso à justiça, com grande potencial de aprendizagem coletiva para direitos e cidadania. Vê-se, então, nas experiências dos movimentos sociais uma demanda pela resignificação e alargamento das noções tradicionais de justiça e acesso à justiça, a partir do protagonismo dos movimentos sociais no marco do pluralismo jurídico.

Há que se mencionar que essa categorização foi feita por pesquisadores cuja afinidade teórica se dá no marco do projeto Direito Achado na Rua. Nesse sentido, as categorias que são abaixo mencionadas não foram criadas pelas organizações entrevistadas, mas pelo próprio grupo de pesquisa ao fazer a segunda análise do material coletado. Essa segunda análise, por questões objetivas, não teve como objetivo exaurir o material coletado. Ao contrário, pretende ser uma amostra preliminar da riqueza de

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experiências produzidas pelos movimentos sociais que por vezes é ativamente silenciada. O grupo de pesquisadores ligados ao Direito Achado na Rua se sente motivado a aprofundar a pesquisa, dialogar com outros grupos interessados no tema e no material coletado e incentivar estudantes de graduação e pós-graduação a continuar a análise do material coletado.

Entre as estratégias identificadas pelos pesquisadores estão:

1.“Respeito às temporalidades democráticas” parcela significativa dos entrevistados mencionou a necessidade de se respeitar o tempo para que os grupos sociais pudessem avaliar com profundidade suas demandas e tomar decisões. Muitas vezes esse tempo de maturação entra em choque com a temporalidade típica dos processos judiciais ou administrativos, que não levam em consideração os processos sociais, mas apenas resultados. Os entrevistados mencionaram freqüentemente como aprendizado dos seus anos de experiência que sem respeito ao protagonismo dos grupos e das comunidades com quem trabalham, aos seus ritos e ao tempo necessário para a produção do convencimento, sua atuação carece de legitimidade e não produz bons resultados.

2.“Fortalecimento Comunitário”- os entrevistados chamam atenção para que as demandas dos grupos sociais sejam identificadas como demandas coletivas, e não como pequenos problemas individuais. Algumas demandas são verdadeiros problemas sociais contemporâneos que o sistema de justiça pela sua configuração liberal não consegue captar com toda a complexidade. O fortalecimento das instâncias comunitárias e o seu reconhecimento como “sujeitos coletivos de direitos” é uma de grande importância para a garantia plural do acesso à justiça.

3.“Educação em Direitos Humanos”- essa estratégia afirma a importância da educação e informação sobre direitos para os grupos sociais em situação de vulnerabilidade, como forma de amplificar suas vozes e demandas. Educar em direitos humanos não se resume a transmissão dos conteúdos dos tratados internacionais e das normas brasileiras. Para além disso, é necessário informar sobre direitos com metodologias livres de discriminação e que não reproduzam velhos estigmas.

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

31

4.“Uso dos Meios de Comunicação” os entrevistados afirmaram usar os meios de comunicação para dar visibilidade a situações críticas de violação do direito à justiça e ao acesso à justiça, como também para amplificar experiências bem sucedidas ou boas práticas. Embora a imprensa seja muito citada como responsável por violar direitos, a utilização cidadã dos meios de comunicação é descrita como uma boa estratégia para alcançar a justiça.

5.“Conscientização e Sensibilização”- essas estratégias se referem ao uso da educação não formal como meio de educar em direitos para situações não percebidas como violações do direito à justiça e do acesso à justiça. A estratégia foi usada tanto com o objetivo de sensibilizar operadores do direito, quanto com grupos sociais para tratar de questões ainda emergentes.

6.“Reconhecimento e acreditamento do protagonismo das experiências de mediação social realizadas fora das instâncias estatais”- o que chama atenção nessa categoria é a demanda por reconhecimento das iniciativas de mediação comunitária por justiça e por acesso à justiça e a recusa de sua cooptação ou absorção de seus modelos e práticas pelo Estado. As experiências de mediação relatadas possuem forte base comunitária, sendo esse um diferencial a ser preservado.

Embora a pesquisa não tivesse como objetivo específico fazer uma avaliação da percepção de movimentos, organizações e redes acerca do Sistema Judiciário foi possível identificar nas entrevistas demandas por democratização e refuncionalização das instituições que o compõem, pois muitas vezes foram descritas como um obstáculo ao acesso à justiça. O Sistema Judiciário foi descrito pelas entidades como:

1.“Resistente a trabalhar com o direito da rua” as entrevistas dão a perceber uma recusa de compreender outras formas de regulação social que não a do direito positivo. Há uma demanda por reconhecimento de mecanismos jurídicos não positivados, mas de ampla aceitação por grupos sociais. A recusa do pluralismo faz com que práticas sociais que garantem justiça sejam mantidas invisíveis.

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

32

2.“Dotado de baixa sensibilidade para com as demandas da comunidade” os entrevistados reconhecem nos operadores do Sistema Judicial pouca disponibilidade para travar relações horizontais, reconhecendo e respeitando as demandas da comunidade e suas decisões. Há forte crítica ao não respeito do protagonismo dos interessados na composição de soluções para suas demandas.

3.“Possuidor de limites culturais para a percepção de sujeitos e demandas inscritas nos conflitos sociais” algumas entrevistas identificaram limites culturais dos membros do Sistema Judiciário que não são capazes de reconhecer algumas situações de conflitos sociais como demandas por acesso à justiça ou acesso à justiça. Sejam pelo seu conteúdo ainda não reconhecido como direito ou pela sua configuração coletiva.

4.“Composto por um corpo com formação técnica desvinculada das experiências do mundo da vida” as entrevistas mencionam as limitações da formação técnica oferecida ao profissional do direito, excessivamente livresca, que não o preparam para lidar com as complexidades do mudo da vida em permanente mutação. São freqüentemente oferecidas velhas soluções para novos problemas.

5.“Burocrático” as instituições do Sistema Judicial são percebidas como excessivamente burocráticas e apegadas aos seus procedimentos. Há dificuldade de se entender o emaranhado de regras processuais e o linguajar excessivamente técnico usado pelos profissionais do Direito, o que acaba por limitar e desencorajar grupos a exercer sua cidadania.

6.“Pouco permeável ao controle social” as entrevistas afirmam ser o Sistema Judicial pouco aberto ao monitoramento da sociedade civil. As organizações, movimentos e redes lamentam a pouca possibilidade de diálogo com os integrantes do Poder Judicial, e verem atendidas suas demandas de democratização e refuncionalização. Apesar de tradicionalmente se entender o Sistema Judicial como sendo o único canal de acesso à justiça, esse é percebido pelas organizações, movimentos e redes como um eventual obstáculo a ser superado para se alcançar a Justiça. Essa pesquisa demonstra que por vezes movimentos, redes e organizações adotam estratégias não convencionais para acessar a justiça que consideram mais capazes de produzir um resultado social de amplo aprendizado.

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

33

ANEXO 0 1- ENTREVISTAS REALIZADAS:

1. Ana Celina Bentes Hamoy, do Cedeca Emaús

2. Lúcia Helena Carvalho Pires; da Rede Nacional de Pessoas (RNP +) que vivem com HIV Aids

3. Regina Lúcia Pinto Cohen, da Associação Brasiliense de Combate à Aids – Grupo Arco-Íris

4. Carla Miranda, do NAJUP

5. Domingos – Tucano, da FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro)

6. Saulo Ferreira Feitosa; do CIMI (Conselho Indigenista Missionário);

7. Roberto Policarpo Fagundes, do Sindjus (Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário e do Ministério Público da União no DF);

8. Adriana de Carvalho Barbosa Ramos, do ISA (Instituto Sócio Ambiental

9. Isabella Pearce de Carvalho Monteiro, do Centro de Assessoria Jurídica Universitária Popular – Cajuína

10. Fábio Meirelles Hardman de Castro, da Escola da Gente – Comunicação em Inclusão

11. Karla Adriana Ribeiro de Araújo e Aline Tavares, do CENDHEC (Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social)

12. Clóvis Ramos Limas, do MOC (Movimento de Organização Comunitária)

13. Vera Cristina Leonelli, do JUSPOPULI- escritório de direitos humanos

14. Sofia Maria Leite Fernandes, do Fórum de Promotoras Legais Populares (Centro Dandara de Promotoras Legais Populares)

15. Membros do NAJUP, do Núcleo de Assessoria Jurídica Popular – NAJUP/PUCRS

16. Joelma Cesário, da Associação Lésbica Feminista de Brasília Coturno de Vênus

17. Raimunda Fernandes dos Reis, da Associação de Quebradeiras de Coco da Estrada do Arroz

18. Rosiana Queiroz, do Movimento Nacional de Direitos Humanos – MNDH

19. Marcia Hora Acioli, da CARITAS Brasil

20. Jacques Távora Alfonsin, da Acesso Cidadania e Direitos Humanos

21. Myllena Calasans de Matos, do Cfemea

22. Ney Strozake, da RENAP (Rede Nacional de Advogados Populares)

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

34

ANEXO 2: ROTEIRO DE ENTREVISTA

Formulário n º Nome do (a) entrevistador (a):

Nome do (a) entrevistado (a):

Data da entrevista:

Forma da entrevista:

Duração da entrevista: (a)início:

I. PERFIL DO (A) ENTREVISTADO (A)

(

) Presencial

( ) Telefone h

b) término:

(

) E-mail

h

1.

Posição na organização, movimento ou rede:

(

) Direção

(

) Assessoria

(

) Função técnica

(

) Outra. Qual?

2.

Tempo na organização, movimento ou rede:

(

) Até 2 anos

(

) Mais de 2 a 4 anos

(

) Mais de 4 a 6 anos

(

) Mais de 6 a 8 anos

(

) Mais de 8 anos

(

) Sem resposta / Não sabe

3.

Escolaridade

(

) Ensino fundamental (1º Grau)

(

) Ensino médio (2º Grau)

(

) Superior incompleto

(

) Superior completo

(

) Pós-graduação

(

) Sem resposta / Não sabe

4.

Renda

(

) Até 3 salários mínimos* (R$ 1140,00)

(

) Mais de 3 a 6 salários mínimos (R$ 2280,00)

(

) Mais de 6 a 9 salários mínimos (R$ 3420,00)

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

35

(

) Mais de 9 a 12 salários mínimos (R$ 4560,00)

(

) Mais de 12 a 15 salários mínimos (R$ 5700,00)

(

) Mais de 15 a 18 salários mínimos (R$ 6840,00)

(

) Mais de 18 a 21 salários mínimos (R$ 7980,00)

(

) Mais de 21 a 24 salários mínimos (R$ 9120, 00)

(

) Mais de 24 salários mínimos

(

) Sem resposta / Não sabe

*Valor do salário mínimo em outubro/ 2007: R$380,00 II. PERFIL DA ORGANIZAÇÃO, REDE OU MOVIMENTO

5. Nome:

6.Endereço da sede:

7. Telefone:

8. E-mail:

9. Site na Internet:

10. Data da fundação da organização, movimento ou rede:

11.Objetivos da organização

12. Áreas de atuação

(

) Moradia

(

) Terra

(

) Povos indígenas

(

) Mulheres

(

) Afro-descendentes

(

) Quilombolas

(

) Direitos humanos

(

) Crianças e adolescentes

(

) GLBTTT

(

) Saúde

(

) Advocacia popular e/ ou assessoria jurídica

(

) Assessoria institucional para órgãos governamentais e/ou empresas privadas

(

) Mídia

(

) Pessoas com deficiência

(

) Comunicação comunitária

(

) Ecologia /Ambiente

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

36

(

) Movimentos populares (trabalhadores desempregados; catadores de materiais reciclados, etc)

(

) Violência

(

) Educação

(

) Trabalho

(

) Outra(s).Qual(is)?

13. Abrangência de atuação:

(

) Local

(

) Estadual

(

) Nacional

(

) Internacional

14. Forma de constituição legal:

(

) Com personalidade jurídica

(

) Sem personalidade jurídica

15. Possui estatuto, programa ou carta de princípio?

(

16. Qual a forma de organização interna da sua organização?

) Sim

(

) Não

(

) Direção colegiada

(

) Presidencialismo

(

) Outra. Qual?

Existe uma diretoria?

(

Se sim:

A diretoria é:

) Sim

(

) Não

(

) Eleita

(

) Nomeada. Por quem?

18. Quais são os principais dirigentes ou representantes de sua organização, rede ou

movimento para ter contato?

1

2

3

19.

A sua organização, rede ou movimento recebe algum apoio institucional?

(

Se sim:

) Sim

(

)Não

(

) Não respondeu/ Não sabe.

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

37

Que tipo?

(

) Governamental

(

) Agências de cooperação internacional

(

) Não-governamental

(

) Outro(s). Qual(is)?

20. Sua organização rede ou movimento dispõe de algum tipo de assessoria jurídica?

( )Sim

Se sim:

Qual o papel dessa assessoria jurídica?

(

)Não

(

) Técnico

(

) Político

(

) Outro.

Qual?

( ) Sem resposta / Não sabe

III. PERCEPÇÕES SOBRE DIREITO E JUSTIÇA

21.

O

que

sua

organização,

rede

ou

movimento

entende

por

direito?

 

22.

O

que

sua

organização,

rede

ou

movimento

entende

por

justiça?

 

23.

O

que

significa

alcançar

a

justiça

para

sua

entidade?

 

24.

Que

demanda(s)

existe(m)

na

sua

organização,

rede

ou

movimento

por

direitos?

 

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

 

38

25.

Que

justiça?

demanda(s)

existe(m)

na

sua

organização,

rede

ou

movimento

por

26. Quais são os principais obstáculos que impedem a sua organização, rede ou

movimento de alcançar a justiça?

ou

27. Como

movimento?

esses

obstáculos

podem

ser

superados

por

sua

organização,

rede

* Esta pergunta não se aplica a organizações, movimentos ou redes de assessorias jurídicas.

IV. PERCEPÇÃO SOBRE O SISTEMA JUDICIAL 28. Com quais instituições do sistema judicial sua organização, rede ou movimento têm ou teve contato:

(

) Ministério Público

 

(

) Polícia

(

) Judiciário ( juízes e tribunais)

 

(

) Defensoria Pública

(

) Outra(s). Qual(is)?

 

(

) Nenhuma das alternativas.

 

29.

Em

que

circunstâncias

esses

contatos

ocorrem

ou

ocorreram?

30.

Qual a freqüência desses contatos?

 

(

) Muito freqüente (pelo menos uma vez por mês)

 

(

) Freqüente (trimestral ou semestral)

 

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

 

39

(

) Pouco freqüente (mais de um semestre)

31. Sua organização, rede ou movimento procurou alguma dessas instituições?

(

Por que?

) Sim

(

)Não

32.

Sua organização, rede ou movimento foi procurado por alguma dessas instituições?

(

)Sim

(

) Não

Por que?

33. Que resultados esses contatos tiveram em relação às demandas de sua organização,

rede ou movimento?:

34. Qual a opinião da sua organização, rede ou movimento a respeito da atuação dessas

instituições?

(

) Ministério Público

(

)

Polícia

(

) Defensoria Pública

(

)Judiciário

(

) Outra(s). Qual(is)?

35.

movimento?

Como

o

Judiciário

é

visto

por

sua

organização,

rede

ou

36. O sr. ou sra. considera o Judiciário aberto às demandas da sua organização, rede ou

movimento?

 

Sim (

)

(

)Não

Por que?

 

37.

Qual

a

utilidade

do

Judiciário

para

a

sua

organização,

rede ou

movimento?

38.

Judiciário?

Quais

as

críticas

da

sua

organização,

rede

ou

movimento

ao

39. O sr. ou sra. acha que os operadores de direito estão preparados para cumprir a

função de realizar a justiça?

( )Sim

( )Não. Por que?

5. FORMAS CONVENCIONAIS E NÃO-CONVENCIONAIS DE ACESSO À JUSTIÇA

40. Que meios são utilizados por sua organização, rede ou movimento para alcançar a

justiça?

41. Como sua organização, rede ou movimento encaminha as demandas para garantir a

justiça que a sua entidade recebe?

42. Que experiências para alcançar à justiça, além da assistência judiciária, foram

implementadas por sua organização, rede ou movimento?

(

) Educação formal. Quais?

(

)Campanhas. Quais?

(

) Educação não-formal. Que tipo?

(

)Mobilização. Que tipo?

(

) Outra(s). Qual(is)?

43. As ações ou experiências para alcançar a justiça resultaram em algum aprendizado

para sua organização, rede ou movimento?

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

41

(

Explique

)Sim

(

) Não

44. Como o Sistema Judicial (Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública ou

Polícia) responde diante das experiências de sua organização, rede ou movimento para

alcançar

a

justiça?

45. Quais instituições do Sistema Judicial respondem de modo mais satisfatório às demandas de sua organização, rede ou movimento?

(

) Ministério Público. Por que?

(

) Polícia. Por que?

(

) Defensoria Pública. Por que?

(

) Judiciário. Por que?

(

) Outra(s). Qual(is)?

Por

que?

 

46.

Quais instituições do Sistema Judicial respondem de modo menos satisfatório às

demandas de sua organização, rede ou movimento?

(

) Ministério

Público.

Por

que?

(

) Polícia. Por que?

 

(

) Defensoria Pública. Por que?

 

(

) Judiciário? Por que?

 

( ) Outra(s). Qual(is)? Por que?

47. Quais as sugestões do(a) sr.(a) para garantir e ampliar o acesso à Justiça no

Brasil?

48. Qual a melhor maneira para a solução de conflitos?

( ) Julgamento por um (a) juiz (a)

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

42

(

) Acordo com a parte contrária com ajuda de alguém da sua comunidade

(

) Acordo com a parte contrária com ajuda de um técnico

(

) Acordo com a parte contrária sem ajuda de terceiro

(

) Sem resposta/ não sabe.

49. O que o sr. (a) entende por mediação de conflito?

50. O que o sr. (a) entende por arbitragem ?

51. O que o sr. (a) entende por conciliação?

52. Que instituição(ções) a sua organização, rede ou movimento considera mais confiável(véis) para proteger um direito violado?

(

) Imprensa

(

) Polícia

(

) Judiciário

(

) Legislativo

(

) Executivo

(

) Nenhuma delas

(

) Outra(s).Qual(is)?

(

) Sem reposta/ Não sabe

53. O sr. ou sra. acha que os debates sobre a Constituição (aborto, reforma política, reforma agrária, segurança etc.) estão abertos à participação social?

(

Por que?

54. O sr. ou sra. conhece alguma das formas de atuação, abaixo mencionadas, para a

defesa da Constituição em ações perante a Corte Suprema?

) Sim

(

) Não

(

) Amicus Curiae

(

) Audiência Pública

(

) Outra (s). Qual (is)?

55.

O sr. ou sra. gostaria de falar mais alguma coisa sobre o assunto desta entrevista?

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

43

ANEXO 3: PESQUISADORES DO GRUPO 01

Professor – Coordenador José Geraldo de Sousa Junior Pesquisadores (as):

Adriana Andrade Miranda Bistra Stefanova Apostolova Carolina de Martins Pinheiro Carolina Pereira Tokarski Fabio Costa Morais de Sá e Silva Flavia Carlet Iuri Mattos de Carvalho João Paulo Santos Judith Karine Cavalcanti Luciana Ramos Mariana Siqueira Carvalho Oliveira Mariana Veras Mauricio Azevedo de Araujo Pedro Teixeira Diamantino Rosane Freire Lacerda Sara da Nova Quadros Cortês Soraia da Rosa Mendes Raquel Negreiros Pedro Mahin Lívia Maier Saionara Reis Raissa Roussenq Alves Talitha Selvati Nobre Mendonça Gilsely Barbara Barreto Santana

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

44

Diego Nepomuceno Nardi Bruno Borges

ANEXO 04 - PERFIL DOS ENTREVISTADOS

*O universo dos entrevistados e de 22 pessoas.

ENTREVISTADOS *O universo dos entrevistados e de 22 pessoas. Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus
ENTREVISTADOS *O universo dos entrevistados e de 22 pessoas. Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

45

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça 4
Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça 4

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

46

Questões 40, 42,43 e 47 Q.40 Quais os meios para alcançar a justiça   Organização

Questões 40, 42,43 e 47

Q.40 Quais os meios para alcançar a justiça

 

Organização da comunidade para uma atuação coletiva, formação

1

sobre direitos e instrumentos de exigibilidade

2

Tá repetido.

 

Acho que são os encaminhamentos quando surgem demandas que

são

a gente encaminha. Você não pode nem trabalhar internamente

porque não tem uma assistência jurídica. Nós encaminhamos pra ONGs que podem prestar esse serviço, a não ser quando é o caso de violência, que nós mandamos diretamente pra delegacia de mulheres,

3

ou de acordo com a ( )

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

47

 

Então seria organização social e em último caso a ida ao Judiciário]

A

impetração é a última alternativa, mas é sempre a coisa da

educação, a conscientização, a organização. Através disso, parece até que a gente usa muito isso, Cristovam Buarque já diria “Ah! Educação resolve tudo!”. Não é que educação não vamos ter conflitos, mas a partir disso as pessoas vão ter autonomia suficiente pra resolver seus conflitos sem chegar ao Judiciário, vão ter a organização suficiente, a autonomia pra resolver esses problemas sem a necessidade de chegar nisso. Agora, você colocou uma reflexão pessoal, não é NAJUP. Em função desse seminário aqui foi que eu tive contato com a mediação, que eu acho que a mediação talvez seja um excelente meio pra receber o acesso ao Judiciário. Até reflexão pessoal também, essa organização ela leva a que essas pessoas façam essa mediação. Boaventura mesmo, tem um livro que fala sobre Pasárgada, e nesse livro ele conta como é o procedimento

de

resolução de conflitos dentro dessa favela. E se você for analisar,

é mediação, mas quem faz essa mediação é o presidente da associação de bairro, então, por que o povo, se organizando, não poderia fazer isso? O sistema é o pluralismo, então essas pessoas se organizando autonomamente, elas podem perceber que elas podem resolver esses problemas. Tem lá o árbitro, o presidente da associação, ou sei lá quem que vai ser a referência, e elas mesmas conseguem resolver esses problemas. Com mediação mas sem

4

necessidade de um juiz.

 

Em São Gabriel, no momento, é difícil alcançar. Mas o que a gente tá tentando, pra alcançar a justiça, é através desse movimento que a

gente fez em maio de 2007. A gente conseguiu quase quatro mil assinaturas pra anexar a esse dossiê, pra pedir justiça, para que as

coisas

(

)

Tem vários depoimentos mostrando fatos reais. Então, a

gente tá aqui pra cobrar pro Ministro. Passou já uns 5 meses e não

5

aconteceu nada até agora.

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

48

   

Entendemos que a capacidade de organização, as mobilizações e as demais formas de lutasdos povos indígenas são o principal meio de alcançar justiça. Dentre elas destacamos as retomadas de seus territórios tradicionais, que lhes assegura de fato a conquista e posse da terra. O judiciário em geral atua como um “dificultador” da concretização desse direito assegurado pela CF. O Executivo, a quem cabe a obrigação de fazer a demarcação, na maioria das vezes só o

6

faz após a efetivação da posse pelos próprios índios.

 
   

No nosso caso aqui greve. Aí assim, faz mobilizações diversas, mas greve é uma delas debates, seminários, congressos, palestras, os

meios de comunicação também que faz parte revista.

nós temos nossa

-

Professor José Geraldo de Sousa Junior:”mas o dissídio também é

um

meio?”

- O dissídio nós não temos. Nós temos as ações judiciais e

administrativas. As vezes

a partir de uma decisão administrativa a

gente força o Tribunal a ter uma ação administrativa favorável.

Professor José Geraldo de Sousa Junior:”ah sim

poque o Tribunal

age administrativamente através do Tribunal, né?”

-

mas age como Tribunal. Eu lembro, por exemplo, nós tivemos em

2000 o Supremos ele decidiu um outro processo, mas o mesmo conteúdo e menos de dois meses mudar a posição. Professor José

Geraldo de Sousa Junior:”e isso

?”

por causa da pressão. A genta

tava num processo de mobilização na justiça eleitoral aí o Supremo

foi tentar resolver, resolveu em parte ela fazia uma

 

de

2000 até 96 e a gente

Terminamos o processo o TSE

foi e deferiu, , como três votos dos ministros

queria, contrariando o Supremo, mas que e depois das eleições o

Supremo por 6 favorável.

a

5

1(um) voto a nosso

favor

,

foi

7

-

Professor José Geraldo de Sousa Junior:”então é um espaço de

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

49

 

busca de concretização de justiça que dá a função administrativa um caráter misto de judicial e de político, né?”

 

É

informação, mobilização, ações judiciais e intervenção política. por meio da descriminação dos direitos que as pessoas têm, por

É

meio da conscientização dos seus próprio direitos. A disseminação das informações que subsidiem a defesa desses direitos. E a qualificação das informações que possibilitem, inclusive aos operadores do direito uma melhor compreensão da realidade como

8

um todo.

 
   

Bom

a justiça fora do judiciário porque a justiça

forma ampla

educação, nós fazemos educação em direitos humanos porque no

momento em que a gente traz a educação em direitos humanos a

gente procura a conscientização, a emancipação

e a pessoa busca o

direitos e deveres. A partir disso, surjam demandas

9

judiciário para que essas demandas sejam atendidas

 
 

a) formação, mobilização e capacitação (para públicos diversos, preferencialmente mídia, juventude, educadores e lideranças

empresariais e

de

projetos

sociais);

b) influência em políticas públicas (especialmente juventude);

10

c) comunicação pela não-discriminação/inclusiva;

 
 

Articulação com os movimentos, mídia, audiências públicas, formação e mobilização do público atendido para estarem buscando

11

conscientiza-los sobre os seus direitos e como assegura-los.

12

NS/NR

 

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

50

 

Para alcançar a justiça no sentido amplo, ao qual já nos referimos inicialmente, o meio que nós usamos é a orientação sobre direitos e a mediação de conflitos. Agora para alcançar a justiça, no sentido do poder judiciário, o meio que utilizamos é o encaminhamento das pessoas que precisam de alcançar o poder judiciário, através da

13

defensoria pública ou do ministério público, a depender do caso.

 
 

Duas PLPs falaram em um seminário (fato não pouco freqüente); As integrantes são procuradas individualmente pelas mulheres da

comunidade com

problemas (casos);

Palestras em escolas, nas ruas em que moram, no Batalhão de

14

Polícia.

 

Utilizamos a educação popular, como mecanismo de empoderamento da comunidade, possibilitando sua emancipação e o protagonismo na

15

luta pela justiça.

16

Informação.

17

É o sindicato mesmo. O sindicato é que tem todas as forças pra isso

 

Conscientização, organização e mobilização das pessoas mais pobres e excluídas, ocupando espaço em órgãos públicos para fazer controle

18

social, denunciando e propondo saídas.

 
 

Gilsely Bárbara Barreto Santana : Então Márcia, a gente finda essa

parte de forma do sistema judicial e a retoma a nossa

é

Nossa

discussão anterior que antes foi gravada, que sobre as formas

convencionais e não convencionais de acesso a justiça e ae a gente

falava desses

desses meios que vocês utilizam pra, pra alcançar a

justiça. Márcia Fiolli – Bem

é

Em

relação

a

escansão

formal

Gilsely Bárbara Barreto Santana : Não

os meios usados antes

os

meios que vocês utilizam pra alcançar a justiça

Márcia Fiolli – Ah ta

Aqui a gente trabalha fundamentalmente com

organização popular, com o fortalecimento das comunidades, com a

formação delas pra perceber que, que elas são, é

portadoras de

direito sujeitos né

Nós trabalhamos com a noção de

19

fortalecimento do protagonismo, de que eles são capaz, tem força e

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

51

da organização né? A organização mostrando que o conjunto de pessoas e o conjunto de comunidades, tem muito mais poder do que

uma pessoa isolada e

e agente também trabalha com a noção maior

de direitos coletivos, ou seja, a Caritas não ta preocupada com

pessoas isoladamente, mas com a comunidade, um grupo, com

populações. Então a gente trabalha nesse sentido é

para fazer

pressão política, pra incidir sobre as políticas publicas, pra

é

ir

reverter algumas situações de violências e de violação do direito.

Q.42.A Experiêcias: Educação formal

 

Ações coletivas – ação civil pública, mobilizações e denunicas nos

1

meios de comunicação.

2

NS/NR

3

NS/NR

4

NS/NR

 

Mobilizações, seminários tratando dessa questão do tema “direito indígena”. Esse Balcões da Cidadania entra aí. A gente trabalhou

5

com cinco balcões tratando da realidade de São Gabriel.

6

NS/NR

7

NS/NR

 

Eu acho que no âmbito da educação formal o ISA trabalha junto as comunidades indígenas com processo de formação de professores bilíngues; na perspectiva de que essa educação contribui para os

8

povos indígenas compreenderem e entenderem os seus direitos.

 

educação dentro da universidade também. A gente faz congressos

9

dentro da universidade

direitos humanos também.

10

NS/NR

11

NS/NR

12

NS/NR

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

52

13

NS/NR

14

NS/NR

15

NS/NR

 

Palestraas em universidades sobre diversidade sexual, lesbofobia e

16

homofobia.

17

NS/NR

18

Especialização em direitos humanos, mestrado, etc

 

Na verdade nós não realizamos educação formal. Educação formal

fica por conta do sistema de educação o que temos é algumas ações

que elas é

elas

tem um contato imediato com as escolas, ou seja, a

RESAB rede de educação semi-árido do brasileiro, ela forma

no

no

na metodologia

professores, ela trabalha na educação é da educação contextualizada pra que é

a

as escolas adotem uma

pedagogia que valorizem aquela comunidade dentro daquele bioma

que pratica determinada cultura, então é

isso pra gente tem um

uma vinculação direta com o direito porque o fortalecimento dessa

noção do sujeito é

é

que

pertence a um bioma, pertence a uma

comunidade e ele pode ser valorizado como tal. E outra ação que nós

concurso pras escolas publicas que trabalha o direito de participar na verdade é um concurso que desafia a educação, a educação publica a formar jovens adolescentes consciente da sua cidadania e seguros de que eles tem o direito efetivo de participar politicamente da comunidade. E em relação a campanhas, nós temos várias campanhas, inúmeras né? E as

temos de interessante nesse cartão formal é um

campanhas por exemplo

uma grande campanha que nós

desenvolvemos a pouco tempo foi de enfrentamento a violência e exploração fiscal de criança, de adolescentes onde a gente união

organizações governamentais e não governamentais, poder publico,

conselho tutelar, então, inúmeras é

entidades de sujeitos e muitas

universidades publicas para é

fazer uma grande formação, fazer a

mobilização e

é

e desenvolver ações locais que é

é

é

ações

locais pra inibir o

a violência e a exploração sexual de criança e de

19

trafico de criança, que também tem esse movimento de levar as

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

53

crianças pra fora do pais.

crianças pra fora do pais.

Q.42.B Experiências: Campanhas

 

1

Contra a exploração de meninas no Tra. Doméstico.

2

NS/NR

3

NS/NR

 

A gente já participou de uma campanha, junto com a Casa da

Juventude, que foi ajudando (

)

com direitos. Aí cada ano ela tem

uma abordagem específica, esse último período agora era contra a

redução da maioridade penal, mas dentro dessa campanha a gente fazia algumas oficinas, em várias comunidades, em bairros de

periferia, sobre direitos. Direito ao trabalho, foi a primeira que a

gente fez, direito á participação (

).

Ah! A campanha também da

Vale (?), que a gente não fez tão bem quanto queria, porque a gente

4

viajou, mas teve um pouco da discussão.

 

5

NS/NR

 

Costumamos promover campanhas específicas pela demarcação de determinadas terras indígenas. Dentre todas, destacamos como a maior e mais difícil a luta pela demarcação da terra indígenas Raposa Serra do Sol, em Roraima, onde todos os poderes daquela unidade da federação atuaram muito articulados contra os interesses indígenas. Depois de três décadas de luta a terra foi demarcada, mas a resistência dos poderes locais, em ampla articulação com o

6

latifúndio

ainda

permanece.

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

54

7

NS/NR

 

Campanhas de opinião pública, especialmente no que diz respeito a políticas em geral como por exemplo na campanha do código florestal, da campanha contra a proposta da emenda constitucional que queria limitar o reconhecimento de terras indígenas. Então o caso

8

de justiça nessa perspectiva.

 

porque o Cajuína faz parte da RENAJUR que esse ano tá com a

campanha pela não redução da menoridade penal

direito da criança

9

e do adolescente.

10

É Criminoso Discriminar

 

Trabalho Infantil, Violência Sexual, Estatuto da Cidade, Estatuto da Criança e do Adolescente e outras em articulação com os

11

movimentos que fazemos parte.

12

NS/NR

13

NS/NR

14

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15

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16

Vigília pelo fim da violência contra as mulheres

17

NS/NR

18

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19

NS/NR

Q.42.C Experiências: Educação não-formal

 

Estimulando a formação e organização da comunidade para auto

1

gestão de direitos.

2

NS/NR

3

NS/NR

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

55

 

Educação popular. A educação popular não é uma oposição à educação formal, a educação popular é uma metodologia, e a formal é uma educação da escola. Então a gente trabalha com educação popular com escolas dentro só da nossa universidade, o que não

deixa de ser

mas também com a mesma metodologia de educação

popular na informalidade (

)

Ao invés de tratar dos temas que são

tratados através de educação formal dentro da nossa própria faculdade, de nossos colegas que a gente “tá” querendo convidar pra participar do projeto, por exemplo, a gente se utiliza do que a educação formal põe como conteúdo, mas trabalhamos isso através

4

da educação popular, seria isso. Isso dentro da faculdade.

 

5

Balcão da Cidadania.

 
 

Realizamos muitos cursos e seminários de formação para índios e indigenistas. Os conteúdos são vários: política, história, antropologia,

6

direito,

 

teologia

 

etc.

 

É

a gente tá tentando fazer

é

a gente consegui agora

escolhendo nacional de qualificação do nosso sucesso e uma das coisas que eu tentei fazer foi a capacitação dos servidores. No próximo ano, talvez, trabalhar em uma Universidade cooperativa.

7

Vamos ver se a agente não faz uma parceria com a UnB.

 
 

É

a gente trabalha muito com a parte de educação não formal na

formação de agentes sócio ambientai. Então disseminar o conhecimento técnico e político

na perspectiva de enfim, de direitos pra

diferentes agentes e parceiros que possam disseminar essa

8

informação.

 
 

exato,

a

educação

em

direitos

humanos

que

a

gente

faz

na

9

comunidade.

 

10

NS/NR

 
 

Capacitações do público atendido sobre as temáticas que permeiam a

11

nossa atuação.

 

12

NS/NR

 

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

56

 

Sobre educação não formal, nós freqüentemente oferecemos cursos de direitos humanos e mediação, sempre associados, tratando-se da medição, associamos a mediação necessariamente aos direitos humanos. Mas algumas vezes, também fazemos cursos e outros eventos formativos em direitos humanos que não estão associados à mediação, porque a nossa organização atua também um pouco com direitos específicos da criança e do adolescente, somos parceiros do UNICEF em alguns trabalhos de estímulo à efetivação dos direitos das crianças e dos adolescentes. Então, fazemos muitos programas, muitas atividades relacionadas com educação não formal para

13

direitos da criança e do adolescente.

 

14

Palestras

 

Popular,

não

bancária,

que

trabalha

na

construção

coletiva

do

15

conhecimento.

 
 

oficinas e reuniões com a comunidade para informar direitos e

16

deveres que garantem uma boa qualidade de vida social.

 

17

NS/NR

18

Cursos de educação não formal

 
 

Educação não formal é nossa atividade cotidiana, acontece o tempo

todo, acontece é

no pais inteiro que é, exatamente pra fortalecer a

comunidade a gente trabalha com diversos temas, políticas publicas,

direito é

é questões ambientais e assim vai, Brasil a fora tem a

CODEPLAN no mundo inteiro

é

o nosso trabalho é

ele

é

muito assim

sem

as

mobilizações

que

são,

é

as grandes

manifestações de ter organização de

de entidade de

 

de

pessoas, manifestações publicas que tem a função de fazer pressão

19

política e também a função de é

 

Q.42.D Experiências: Mobilização

 

Caminhadas por defesa de direitos, mobilização nos meios de

1

comunicação, mobilização via internet, posicionamentos públicos

2

NS/NR

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

57

 

Eu acho que nós investimos mais em mobilização. Por exemplo, já

fizemos grupos de ajuda (

)

Aids. A gente mobiliza as pessoas pra

irem buscar seus direitos. De alguma forma, o Ministério Público é

3

acionado, e principalmente o Ministério Público.

 

A

gente já mobilizou os estudantes para participarem da parada

LGBT, grito dos excluídos, esse tipo de mobilização pras próprias

4

organizações que já acontecem.

 

5

NS/NR

 

6

Atos públicos, marchas, acampamentos etc.

7

NS/NR

 
 

É

mobilização mais na linha dessas campanhas, né. Campanhas de

opinião pública, usando muito a mídia pra fazer com que as pessoas

se

manifestem junto especialmente ao poder Executivo e Legislativo,

8

eventualmente até em ações judiciais, se for o caso, né.

 

- mobilização também, principalmente meio ambiente. Como a gente

9

trabalha com educação

a gente parte dela.

10

NS/NR

 
 

Articulação com Redes, Fóruns e Movimentos que discute os direitos

11

humanos e as temáticas específicas dos programas do Cendhec.

12

NS/NR

 
 

Mobilização também. Nós fazemos mobilização, por exemplo, na medida em que implantamos e mantemos um escritório de orientação sobre direitos e mediação no bairro. É preciso que você esteja

freqüentemente mobilizando a comunidade para a utilização desses serviços, através de campanhas, de rádios comunitárias, de panfletos,

13

de

conversas, de chamadas para discussões, para oficinas.

 

Participam do Dia Internacional da Mulher, doDia da Consciência Negra, dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as

14

Mulheres.

 

15

NS/NR

 

16

1°,2° e 3° Paradas Lésbica

 

17

NS/NR

 

18

Cartas, atos simbólicos, atividades em rede e denúncia internacional.

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

58

19

NS/NR

Q.43.A Ações ou experiências resultaram em algo. Explique

 
 

.Há um aprendizado sobre as demandas da comunidade e de respeito

aos tempos da cada uma e principalmente de como a organização social

e

o conteúdo cultural são componentes que influenciam direitamente na

1

possibilidade de alcançar a justiça.

 
 

A

essa altura a gente já percebeu que não dá pra fazer mais, é

marmelada, não funciona mais. Mídia tem repercussão, mas tem que

saber como chegar nessa mídia (

)

A gente teve reclamação de grupos,

de

um grupo aí que estava na mídia, mas não estava sabendo como falar

na

mídia. E essa questão da educação? Tem coisa que a gente já sabe

até de cor e salteado. (

)

Teve muita dor de cabeça

Eu não sei te

dizer se foi bom ou não. Às vezes a gente faz um trabalho desse aí, ele

2

tem um significado.

 
 

Eu

acho que sim, eu acho que a experiência que a gente tá tendo com

prestadores de penas alternativas tem sido uma aprendizagem grande. Não é fácil, porque é mais uma demanda que chega pra instituição, com

problemas diversos. Porque você tem que acompanhar (

)

A gente tem

o

compromisso de passar pra ele toda uma sensibilização da causa pra

que ele repense sua (

)

pena, o que ele fez. E quando a gente consegue

que as pessoas resolvam seus problemas (

)

você vê que a pessoa cria

3

uma certa confiança maior no Judiciário.

 

Sim, eu acho que é a gente ter descoberto duas coisas: a educação

popular, como fundamental pra execução de qualquer projeto, e a pesquisa dentro disso que essa história de ensino, pesquisa e extensão não é conversa, é necessidade. A gente começou a fazer pesquisa quando a gente sentiu, na extensão, que era impossível fazer extensão sem pesquisa. Aí a gente entendeu o que é o tripé ensino, pesquisa e extensão. Quando a gente tinha que fazer um trabalho de extensão e

“boiava” (

)

Ah, vamos ter que fazer “pesquisazinha superficial”, não,

4

vamos fazer pesquisa relacionada ao projeto que a gente desenvolve.

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

59

   

Tudo que a gente faz já é um aprendizado muito grande.

 

5

 

Não resultou, não, em aprendizado, porque a gente não vê resultado.

 
   

Aprendemos com o tempo que, dentro de uma sociedade em permanente luta de classe, para os setores populares só há possibilidade de alcançar a justiça através da conscientização/formação, organização, mobilização e implementação de estratégias de

6

enfrentamento do poder dominante.

 
   

Primeiro, há um grau de conscientização política maior na categoria, principalmente nas greves, além dos debates e tudo, mas nas greves o

resultado político é muito grande. E

 

a gente tem tido sorte porque em

todas as nossas greves têm algum resultado. Então, isso cada vez mais se reveste em uma participação muito grande; conscientização da importância do sindicato; a 8 anos atás tinhas 3000 e poucos filiados hoje tem quase 10000 filiados. A importância da participação numa

7

entidade de de organização; espera que seja fundamental, né?

 
   

Claro. Sim. Constante. Na verdade o trabalho da gente é esse e a gente aprende com ele o tempo todo. Vou dar um exemplo específico acho

que cada uma dessas iniciativas gerou aprendizado pra a gente aprimorar as estratégias, pra a gente tentar melhorar na defesa desses direitos. É uma instituição com mais de 10 (dez) anos, com tantas

coisas que já fez que é até dificil

Talitha Selvati Nobre Mendonça:

8

“numerar” numerar.

 
 

-

para o Cajuína? Claro! Todo aprendizado do mundo. Hoje

 

estudantes de direito com uma visão holística. Então, o enriquecimento pessoal é enorme; o que a gente aprende, as pessoas que a gente

9

conhece, os contatos que a gente faz importância inigualável.

 

1

 

Nem sempre os públicos para os quais atuamos na defesa de direitos se

0

entendem como sujeitos de direitos.

 

1

 

Que

para

se

alcançar

a

Justiça

é

necessário

um

processo

de

1

sensibilização

da

sociedade

e

de

construção

coletiva

sobre

a

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

 

60

 

importância de se defender os direitos humanos como forma de se fazer um enfrentamento real dos fatores que vem ocasionando a violência em nosso país.

1

 

2

 

NS/NR

 

Claro. Nós estamos aprendendo diariamente com o que fazemos. Aprendemos com as pessoas que nos procuram, com as demandas, com

os

mediadores que são lideranças comunitárias que atuam nos projetos,

aprendemos todos entre nós, com os estagiários, com as visitas, com os

1

interessados, com os financiadores, com nossos colaboradores, com

3

todo mundo. O aprendizado é permanente.

1

 

4

 

NS/NR

 

A

construção de uma outra prática de ensino-aprendizagem em que os

1

conteúdos jurídicos estão fortemente ligados à realidade social, bem

5

como, a aquisição de uma postura crítica diante da prática judiciária.

 

É

sempre uma possibilidade de compreender como as engrenagens do

1

sistema se movimentam e como podemos usar estes movimentos em

6

favor de quem esta a mercê de soluções.

1

 

7

 

NS/NR

1

 

8

garantir direitos e conquistar direitos só vai com organização e luta.

1

9

NS/NR

Q.47 Quais as sugestões para garantir e ampliar o acesso à Justiça

 

Implantar um grande programa de informação da comunidade sobre seus direitos, aparelhar o sistema de justiça para estar próximo da comunidade e implementar o sistema de justiça gratuita mais próxima

1

de todos os que realmente necessitam.

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

61

 

O

que que seria melhor? Mais informação (

)

Muita gente não sabe

dos seus direitos (

)

“Eu não sabia que eu tinha direito”. (

)

E a

credibilidade, que tá faltando. Tem gente que diz: “Ah, não, é perda de tempo. Não vou me estressar.” É a credibilidade que tá faltando. ( )

2

Acreditar

 
 

Eu acho que ela deveria ser mais prática, mais acessível. Porque tem uma burocracia muito grande, que atrapalha a urgência. Quando você chega a demandar a justiça, ela tende a ser demorada. Eu acho que

deve agilizar. Precisaria de mais advogados, defensores públicos, mais juízes, talvez seja até esse o problema nacional. Os processos ficam durante muito tempo. E isso vale de um modo geral pra sociedade.

Tem pessoas que estão presas e não foram julgadas. (

)

Casos que

rolam por muito tempo sem ser resolvidos e depois perdem a sua validade. Então, eu acho que deveria haver uma agilidade e menos burocracia. E a credibilidade. Eu acho que existe um risco público de também o Judiciário perder a credibilidade. Eu acho que isso vai ser

3

um golpe na esperança, na expectativa das pessoas.

 
 

A

gente já falou isso, não? (

)

eu acho que o acesso à justiça tá muito

ligado com essa questão do conhecimento, da questão da informação,

as

pessoas terem ciência dos seus direitos. Eu acho que o acesso à

justiça já é a própria justiça. É porque o Campilongo fala assim, que o direito mais básico é o acesso à justiça, se ele não for garantido os outros não serão, e eu li aquilo dali, durante muito tempo eu falava:

Gente, mas por quê? Entendendo justiça não como Judiciário, mas como a garantia mesmo desses direitos, buscar uma via. Então eu acho que garantindo o acesso das pessoas a esses direitos já é a própria garantia da justiça. Mas se for pra gente falar assim de forma a afetar o Judiciário, aí, vamos falar um pouco do que a gente já falou, garantindo a formação de profissionais do direito que respondam aos interesses dos grupos sociais, garantindo também que essas pessoas saibam dos seus direitos, pra que busquem os seus direitos, tendo, por exemplo, dentro da universidade, extensão como política de Estado,

4

pra garantir que esses profissionais sejam bem formados.

 

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

62

 

Que esse sistema, começando por instâncias maiores, funcione. De instância a instância. Por exemplo, é chefe de polícia, é chefe de delegado, é chefe de não sei quem, é chefe de juiz, chefe acima de não sei de que, começando do primeiro homem pra fazer seu papel de cumprir a justiça, fazer o direito acontecer, que cumpra. A nossa sugestão é isso. Que toda essa escala de hierarquia até chegar na ponta, é que cada um fazendo sua parte, cada um cumprindo direito sua função, executando o projeto, aquilo que ele tem como função pra executar. Se todos cumprirem, creio que a justiça, que cada papel, que

5

cada instituição funciona.

 

Reforma do poder judiciário, mais informação, participação e controle

6

da sociedade.

 

A gente já chegou a discutir; esse, eu achoque, é o principal ponto,

porque as pessoas apontam muitas saídas e muitas vezes, né

mas é

que o principal ponto é a democratização do

acho que tem que

apostar também na própria formação dos magistrados porque sem essa

formação acho que

;

não sei qual formação , não tenho uma coisa

pronta. E um outro aspecto, isso pode gerar mais demanda, mas é

fundamental é

primeiro a gente tem discutido muito

não sabe

também como

mas é melhorar as informação da sociedade relativos a

seus direitos. Acho que quanto mais a sociedade em geral tiver consciência dos seus direitos, mais ela pode ter uma cobrança maior,

ela pode

isso só vai aumentar mais a demanda, mas esse

quanto

mais ela tiver cobrando mais ela vai ter, queira ou não, vai ter mais

7

acesso não só

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

63

 

Eu acho que precisa simplificar o acesso a justiça. Ah! trazer a justiça

mais pra perto da sociedade. Eu acho

outro dia eu tava achando

interessante a história da abertura desses juizados especiais de pequenas causas nos aeroportos em função do caos e tinha alguma

coisa no jornal que questionava assim 'poque é que não tem um juizado como esse, por exemplo, dos lados dos postos de saúde, dos postos do INSS, em lugares e regiões onde o mesmo tipo de conflito de falta de atendimento, de falta de reconhecimento e de respeito de direito

acontece com a população mais pobre'

eu acho ótimo que abriu no

aeroporto que embora você possa ter enormes problemas você está atendendo a uma parcela, sei lá, de 10% da população brasileira que viaja de avião. Então, acho que falta a justiça se colocar mais próxima

dos problemas do dia-a-dia do cidadão. Ser uma aliada do cidadão no dia-a-dia, tá mais aberta pra isso. Hoje em dia, no geral pra você ter , conseguir ter acesso ao sistema judiciário para garantir os seus direitos você precisa ter minimamente um advogado; o acesso a esse procedimento é um acesso muito distante da maior parte da população. Então eu acho que a justiça tem que chegar mais perto dessa população

ela tem quer ir se atualizando no sentido de incorporar esses novos direitos de uma forma mais clara, mais imediata; que muitas vezes

e

também você tem direitos que são reconhecidos por novas legislações, mas que levam muitos anos pra começar a valer, fundamentalmente,

em função de uma certa

você não tem se quer o posicionamento

daquilo judicialmente pra fazer aquilo funcionar. Tem que ter mais

8

proximidade e agilidade.'

 

É

um trabalho de conscientização nacional

e educação primária, e de

ensino médio

nas escolas, temas como direitos humanos. Eu acho um

absurdo você passar vários anos estudando tão profundamente, tão

especificamente várias matérias aprendendo cálculo e não saber

seus

direitos

o modelo que está aí hoje é um modelo proveniente da

ditadura aprendia física, química, matemática, mas não tinha um

pensamento crítico sobre a sociedade

pra que procure essa criticidade

9

sobre o mundo

ensino superior menos técnico, mais holístico e

a

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

64

 

mídia; acho que a mídia hoje é muito responsável

ela não procura seu

papel de ouvir a sociedade; ela está muito voltada para os interesses

econômicos, da elite, por exemplo a mídia nacional é formada por 5, 6 ou 7 famílias. É um absurdo você pensar que tudo que você ouve

 

Maior acessibilidade aos objetivos, funções e práticas do Sistema Judicial brasileiro para aproximá-lo dos cidadãos organizados ou não

10

em movimentos, redes e/ou associações.

 

Reforma do Judiciário, principalmente dos organismos de controle. Dando maior transparência aos processos de apreciação da atuação dos representantes dos poderes que atuam no sistema de segurança e

11

justiça.

12

NS/NR

 

Desde a formação dos operadores do direito nas faculdades, ter linhas de formação que incluam ética, que incluam direitos humanos, isto é, formas de comprometimento maior com as questões sociais. Acho que os concursos para as instituições públicas devem ser também menos livrescos e considerarem mais os perfis e as compatibilidades das pessoas com as funções que vão exercer. Acho que, culturalmente, é necessário que essas instituições se revejam também, revejam suas posições de poder, revejam suas linguagens, revejam seus espaços

13

físicos, e que estejam mais a serviço da sociedade, do povo.

 

Liberdade de expressão, participação da sociedade junto às questões

14

judiciárias.

 

A ampliação dar-se-ia a partir de uma visão ampliada do acesso á justiça, desvinculando-o exclusivamente como acesso ao Judiciário. A garantia, por outro lado, dar-se-ia mediante a criação de espaços de reconhecimento de demandas a partir da politização dos conflitos, permitindo que os atores assumam a condição de agentes

15

transformado(re)s da realidade social.

 

Em primeiro lugar considero de extrema importância a informação, as pessoas/sociedade devem saber como funciona a lei e quais os

16

benefícios podem ser alcançados por meio disto e em segundo lugar

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

65

 

aplicação da lei com ética e coerência

 

Eu acho que sim, porque se a justiça fosse melhor muita coisa não aconteceria, né. Se eles tivessem um bom salário, fossem umas pessoas que pudessem acudir as coisas que acontecem no mundo, porque em uma briga bem aqui e não tem nenhum policial pra resolver, né ( )

[cem relação] A nós? nós lá não tem negócio disso

(

)

Até que se

tivesse era bom, se nós tivéssemos apoio disso aí, era bom, porque a

gente podia contar com o apoio de algum órgão de comunicação, mas só que isso ta fora do nível das quebradeiras de coco lá do meu

17

povoado

 

Fazer um mutirão e construir ações para observar e controlar o

18

judiciário.

19

NS/NR

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

66

GRUPO 02 Coordenador: Prof. Alexandre Bernardino Costa

INTRUDOÇÃO

O projeto “Dossiê Justiça – uma proposta de observação da relação entre

Constituição e Democracia no Brasil” teve como objetivo geral “Subsidiar a elaboração de um programa nacional de democratização do acesso à justiça e contribuir para a

institucionalização de um Observatório da Justiça no Brasil, no âmbito do Ministério da Justiça”. Como parte desse projeto, o Grupo 2 procurou “identificar as lutas sociais e seus discursos organizativos por posições interpretativas de realização da Constituição Brasileira”.

As investigações foram dividas em duas frentes: A primeira centrou sua atenção

para os limites e possibilidades de acesso à justiça das demandas sociais por políticas públicas voltadas à efetivação de direitos sociais. Já a segunda esteve voltada para análise em torno das garantias constitucionais dos direitos fundamentais de grupos excluídos. Assim, foi fundamental para o grupo demonstrar como as disputas interpretativas e os discursos organizativos dos movimentos sociais inserem-se no objetivo maior do projeto, ou seja, a elaboração de um programa nacional de democratização do acesso à justiça. Como passo para se obter a resposta, foi estudado inicialmente o que significa o acesso à justiça. Em um segundo momento, foi exposta a importância da disputa interpretativa para a efetivação e demanda por direitos fundamentais. Por fim, foram expostas como a luta protagonizada pelos movimentos sociais é indispensável para se pensar o direito e o acesso à justiça. Para que se pudesse compreender o que é o acesso à justiça, foi necessário refletir sobre o que se entendia por justiça. Constatou-se que em uma sociedade moderna, como a brasileira, conceitos transcendentais de justiça não são admissíveis. Ao se pensar sobre o que é justo deve-se partir da sociedade que temos, vislumbrando a sociedade que queremos. Nessa busca o direito adquire centralidade, afinal, em uma sociedade em que nada mais se tem por natural, são os princípios de liberdade e igualdade de cada cidadão que proporcionarão parâmetros para se responder o que é socialmente justo. Práticas que ferem o princípio da igualdade serão injustas. Para que

Esta pesquisa reflete as opiniões dos seus autores e não do Ministério da Justiça

67

uma compreensão de justiça possa ser minimamente compartilhada em nossas sociedades contemporâneas, o aspecto democrático é fundamental 46 . Dessa forma, a justiça é a busca contínua de cada sociedade sobre quais direitos devem ser afirmados e quais práticas devem ser negadas para que cada cidadão tenha o seu direito à igualdade preservado. Essa busca não é simples, envolve uma permanente reflexão sobre o que é ser tratado com igual respeito, quais práticas violam esse ideal e como se deve administrar os conflitos decorrentes disso. Assim, acesso à justiça foi compreendido como a possibilidade de a sociedade administrar seus conflitos tendo por base os princípios de liberdade e igualdade que cada cidadão é merecedor. Por meio dessas conclusões, o objetivo levantado pelo Grupo 2 demonstrou-se essencial para responder ao objetivo geral do projeto. Afinal, a democratização do acesso à justiça está associada a como a sociedade compreende a justiça. Isso se dá por meio de disputas interpretativas conduzidas por diversos grupos sociais, sobre o que é justo e o que é injusto. Os movimentos sociais adquirem um destacado papel no acesso à justiça. Parte- se da pressuposição que em uma sociedade em que todos são considerados iguais, exclusões e violações a esse direito são sentidas inicialmente pelo cidadão. O sujeito sofre por ter seu direito ao igual tratamento desrespeitado. Esse sofrimento individual pode transformar-se em uma demanda coletiva, caso sujeitos que compartilham do mesmo sentimento de exclusão organizem-se e lutem por reconhecimento 47 . As demandas dos movimentos sociais contribuirão para que a sociedade repense quais práticas estão desrespeitando direitos e gerando exclusões. As lutas protagonizadas pelos movimentos sociais contribuirão para o projeto reflexivo sobre quais práticas devem ser revistas por serem consideradas injustas. Dessa forma, a democratização do acesso à justiça está diretamente associada a maior possibilidade de repercussão de demandas por reconhecimento e implementação de direitos. Como foi demonstrado pelo Grupo 2, os cidadãos são os responsáveis em dizer quais lesões a direitos estão sofrendo, bem como participar da implementação de políticas públicas para que essas violações sejam corrigidas. Nesse sentido, o Estado não pode desrespeitar a autonomia pública e privada dos cidadãos. Poder Executivo,

46 Para mais, veja texto sobre “Acesso à Justiça” produzido pelo Grupo 2. 47 Para mais, ver texto “Políticas Públicas para a concretização da justiça social: uma nova face para a democratização do acesso e da justiça” produzido pelo Grupo 2.

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Legislativo e Judiciário devem proteger direitos fundamentais, sem, no entanto, desconsiderar o direito à participação. As disputas interpretativas são intrínsecas à participação. Os direitos estão associados ao projeto reflexivo da sociedade, quais princípios devem ser auto-impostos para uma maior justiça social. Essa reflexão envolve disputas, servindo os princípios de liberdade e igualdade como parâmetros para definir quais as demandas são legítimas. Algumas dessas disputas foram localizadas e estudadas. Em relação ao direito de família o próprio conceito de família está em disputa. Conceitos fechados excluem diversas relações parentais que não se enquadram no modelo tradicional, pai, mãe e filhos. Com base nos princípios de liberdade e igualdade exige-se que outras formas de interação familiar sejam reconhecidas, como as uniões entre sujeitos do mesmo sexo 48 . As disputas interpretativas também ganham destaque no tocante ao direito tributário. Os movimentos sociais podem utilizar-se da linguagem do direito para exigir interpretações constitucionais tributárias corretas e diferentes das hoje utilizadas. O direito tributário deve atender critérios de justiça social, servindo de critério distributivo para o que é melhor para todos. Será por meio do intenso debate público que se poderá denunciar violações a direitos protagonizadas por meio do direito tributário 49 . No tocante à mediação de conflitos, há grande disputa sobre o que se compreende como a efetividade e legitimidade da pena. O que se coloca em xeque é lógica baseada no binômio vencedor e vencido, que norteia o Poder Judiciário. Essa lógica pode agravar os conflitos. Uma justiça que pretenda administrar pretensões colidentes e restabelecer a paz social deverá priorizar a restauração dos laços sociais desfeitos com o conflito 50 . Em relação ao racismo foi levantado que o exercício da igualdade realiza-se por meio do reconhecimento das diferenças. É necessário enfrentar o mito da democracia racial brasileiro que dificulta o debate público sobre o tema. Nesse sentido, reflexos do racismo podem ser encontrados mesmo no Poder Judiciário. São poucos os crimes de racismo denunciados, e quando isso ocorre, não são raras as sentenças que retomam o mito da democracia racial, diante do qual, atitudes racistas seriam inconcebíveis, não

48 Para mais, ver texto “Direitos Fundamentais” produzido pelo Grupo 2. 49 Para mais, ver texto “Direitos Fundamentais” produzido pelo Grupo 2. 50 Para mais, ver texto “Justiça Restaurativa e Direitos Humanos: Dos Conflitos armados aos conflitos interpessoais” produzido pelo Grupo 2.

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ultrapassando o intuito da brincadeira, fruto da nossa cultura ‘extrovertida’ e ‘espontânea’ 51 . Assim, as disputas interpretativas protagonizadas, neste caso em especial, pelo movimento negro irão afirmar que o enfrentamento do mito da democracia racial e o reconhecimento de diferenças raciais são essenciais para o exercício de direitos fundamentais consagrados na Constituição.

Em relação ao direito à saúde, foi levantado que diante da complexidade da sociedade moderna, não lhe é possível atribuir um conceito irrefutável e permanente, uma vez que é construído e reconstruído a cada dia conforme as necessidades e as demandas da população. E daí a importância da participação da sociedade nesse contínuo processo de atribuição de sentido à expressão “direito à saúde”, que, sem dúvida, interfere na formulação das políticas públicas sanitárias 52 .

O direito à alimentação também se insere nessas disputas interpretativas. Por um

lado há os movimentos sociais de segurança alimentar que compreendem a alimentação associada à diversidade cultural, ao prazer, ao lazer, ao respeito ao meio ambiente. Por outro lado, há aqueles setores da sociedade que têm uma visão minimalista sobre o tema, entendendo-o como a quantidade energética e nutricional mínima diária, ou ainda, não como um problema jurídico, mas um problema que o mercado deve resolver, por meio da oferta de alimentos 53 . A legitimidade de uma ordem constitucional é observada pela garantia das complementares autonomias pública e privada de indivíduos que se reconhecem como concidadãos livres e iguais e que se enxergam, reciprocamente, como destinatário e co-

autores do direito estabelecido. O constitucionalismo é um processo de reconhecimento das lutas sociais e seus discursos organizativos por posições interpretativas com o intuito de construir uma Constituição.

A disputa interpretativa não se resume à mera discussão de diferentes posições

teóricas ou concepções de direito e justiça, ela se afirma por meio das disputas e práticas

constitucionais vividas na sociedade, seja por meio do confrontamento entre diferentes grupos e setores da sociedade, seja pela afirmação e reconhecimento dos movimentos sociais e suas pretensões. Assim, a Constituição se revela democrática na legitimidade de sua prática.

51 Para mais, ver texto “Racismo institucional e acesso à justiça” produzido pelo Grupo 2.

52 Para mais, ver “O direito à saúde numa perspectiva democrática” produzido pelo Grupo 2.

53 Para mais, ver “Direito à alimentação: disputas interpretativas, alimentação adequada, lutas sociais e afirmação de Direitos” produzido pelo Grupo 2.

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A relação existente entre os cidadãos e o ato constitucional fundador atualizado é que garante a dimensão cotidiana da Constituição e de seu poder constituinte. Uma prática constitucional duradoura e contínua não está associada à idéia de poder constituinte permanente. A potência desse poder está na prática popular, a quem cumpre, de forma plural, o seu exercício. Evidentemente, a prática do poder constituinte não se constrói apenas de forma idealizada. Ela decorre do confronto entre a faticidade do direito e dos riscos inerentes às tomadas de decisões pelo povo, que é o autor e o destinatário do direito. A complexidade e pluralidade da sociedade contemporânea exigem a constante tomada de decisões em relação aos direitos constitucionais pelo povo, considerando os riscos a que está submetido em cada uma delas. Nesse contexto é que se localizam as lutas sociais e as disputas por posições interpretativas de realização da Constituição brasileira.

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DIREITO À ALIMENTAÇÃO: DISPUTAS INTERPRETATIVAS, ALIMENTAÇÃO ADEQUADA, LUTAS SOCIAIS E AFIRMAÇÃO DE DIREITOS