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PESQUISA SOLICITADA Partindo do questionamento acerca da possibilidade de um decreto criar ou restringir direitos entende-se que há uma antinomia aparente. Isto porque a Lei Máxima, doutrina e a jurisprudência postulam a superioridade da Lei face ao decreto – conforme artigos 59 a 69 da Constituição Federal. José Afonso da Silva enfatiza (p.509): “A função legislativa de competência da União é exercida pelo Congresso Nacional, que se compõe da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, integrados respectivamente por Deputados e Senadores”. Posteriormente, o mesmo diz (p.524): “Por processo legislativo entende-se o conjunto de atos (iniciativa, emenda, votação, sanção, veto) realizados pelos órgãos legislativos visando a formação das leis constitucionais, complementares e ordinárias, resoluções e decretos legislativos. Tem, pois, por objeto, nos termos do art. 59, a elaboração de emendas à Constituição, leis, complementares, leis ordinárias, leis delgadas, medidas provisórias decretos legislativos e resoluções.” O autor esclarece (p.65): “No fundo, o agente, o sujeito da reforma é o poder constituinte originário, que, por esse método, atua em segundo grau, de modo indireto, pela outorga de competência a um órgão constituído para, em seu lugar, proceder às modificações na Constituição, que a realidade exige. Nesse sentido, cumpre lembrar, com o Prof. Manoel Gonçalves Ferreira Filho, que poder de reforma constitucional ou, na sua terminologia, poder constituinte de revisão „é aquele poder, inerente à Constituição rígida que se destina a modificar essa Constituição segundo o que a mesma estabelece. Na verdade, o Poder Constituinte de revisão visa, em última análise, permitir a mudança da Constituição, adaptação da Constituição a novas necessidades, a novos impulsos, a novas forças, sem que para tanto seja preciso recorrer à revolução, sem que seja preciso recorrer ao Poder Constituinte originário.” Conforme os trechos do julgado abaixo, o Ministro Celso de Mello comunga em favor da eficácia, validade e constitucionalidade da lei em discussão em relação a qualquer ato regulamentar. Diz o supracitado Ministro (p.23) “LIMITAÇÃO DE DIREITOS E NECESSÁRIA OBSERVÂNCIA, PARA EFEITO DE SUA IMPOSIÇÃO, DA GARANTIA CONSTITUCIONAL DO DEVIDO PROCESSO LEGAL – A imposição estatal de restrições de ordem jurídica, quer se concretize na esfera judicial, quer se realize no âmbito estritamente administrativo (como sucede com a inclusão de supostos devedores em cadastros públicos de inadimplentes), supõe, para legitimar-se constitucionalmente, o efetivo respeito, pelo Poder Público, da garantia indisponível do „due processo of law’, assegurada, pela Constituição da República (art. 5º, LIV), à generalidade das pessoas, inclusive às próprias pessoas jurídicas de direito público, eis que o Estado, em tema de limitação ou supressão de direitos, não pode exercer a sua autoridade de maneira abusiva e arbitrária. Doutrina. Precedentes.” Após, continua o magistrado (p.23): “Nenhum ato regulamentar pode criar obrigações, sob pena de incidir em matéria constitucionalmente reservada ao domínio normativo da lei formal”. Celso de Mello sustenta (p.36): “É preciso pôr em relevo, neste ponto, ante a sua inquestionável atualidade, o magistério de José Antônio Pimenta Bueno, Marquês de São Vicente („Direito Público Brasileiro e Análise da Constituição do Império‟, p.232/234, itens ns. 324 a 327, 1858, reedição do Ministério da Justiça/ Serviço de Documentação, 1958), cuja advertência vale rememorar se especialmente estiver presente a censura que este eminente jurisconsulto do Império já fazia a propósito do abuso do poder regulamentar pelo executivo e de suas graves implicações no plano jurídico constitucional: „(...) Do que temos exposto, e do princípio também incontestável, que o Poder Executivo tem por atribuição executar, e não fazer a lei, nem de maneira alguma alterá-la, segue-se evidentemente que ele cometeria grave abuso em qualquer das hipóteses seguintes: em criar direitos, ou obrigações novas, não estabelecidas pela Lei, porquanto seria uma inovação exorbitante de suas atribuições, uma usurpação do poder legislativo, que só poderá ser tolerada por câmaras desmoralizadas (...). Toda e qualquer irrupção fora destes limites é fatal, tanto às liberdades públicas, como ao próprio poder. Desde que o regulamento não excede seus limites constitucionais, desde que ofende a Lei fica certamente sem autoridade, porquanto é ele mesmo quem estabelece o dilema ou de respeitar-se a autoridade legítima e soberana da lei, ou de violá-la para preferir o abuso do Poder Executivo.” Concluindo, a natureza jurídica da lei prevê a competência desta para criar ou restringir direitos. Posto isto, fica claro que o decreto que regulamenta uma lei não pode criar ou restringir direitos previstos na referida lei. Fontes e Referências - Acórdão STF. Relator Ministro Celso de Mello. Ementário nº2237-1. 25/05/2006. Quest. Ord. Em Ag. Reg. Na ação cautelar 1.033-1. Distrito Federal. SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 32ª edição. Malheiros Editores. São Paulo: 2009.