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Dinâmicas Migratórias em Portugal

Maria Baganha, CES/FEUC

Colóquio Globalização, Pobreza e Migrações


Ciclo “África Começou Mal, África Está Mal: A Tragédia Africana”
Faculdade de Economia
Universidade de Coimbra
9 de Março de 2007

1. Introdução

Nos primeiros anos deste século devem ter saído de Portugal, temporária ou
permanentemente, 80 a 100 mil emigrantes por ano e devem de ter entrado 20 a 40 mil
imigrantes por ano, sendo que a média de entradas legais se cifrou em 12 mil por ano. Ou
seja, o que melhor caracteriza os actuais processos migratórios em Portugal é a existência em
simultâneo de fluxos de entrada e de saída de migrantes com perfis económicos semelhantes,
que se vão incorporar economicamente em Portugal ou nos diversos países de destino
essencialmente nos mesmos segmentos do mercado de trabalho. Ora, como é sabido, a
ocorrência simultânea de fluxos migratórios de saída e de entrada similares na sua
composição, e inserção económica, de e para um mesmo país é uma anomalia teórica. São as
principais determinantes que estão na base desta anomalia que me proponho tratar
seguidamente, para na segunda, e última parte, sumariar alguns dos seus impactos quer para a
sociedade portuguesa quer para as populações migrantes neles envolvidas.

2. Fluxos migratórios de entrada

A investigação realizada em Portugal sobre imigração revela que o tipo de fluxos migratórios
que se têm vindo a registar, desde meados dos anos oitenta, é marcadamente bipolar e que a
população imigrante tende a concentrar-se numa área geográfica específica, a Área
Metropolitana de Lisboa (AML), que nas últimas décadas registou uma marcada

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desindustrialização em simultâneo com um acentuado crescimento do terciário (Baganha,
1996, 1998b).

Substanciemos um pouco mais estas características descrevendo muito sucintamente a


evolução da imigração em Portugal nos últimos anos. O stock da população estrangeira em
Portugal cresceu ininterruptamente desde 1980 até ao presente.

Mas não foi só o número de estrangeiros que cresceu substancialmente, as nacionalidades de


origem e os perfis sócio-demográficos dos imigrantes apresentam também alterações muito
significativas, que claramente indiciam uma complexificação progressiva na composição da
população estrangeira em Portugal. Esta complexificação está bem exemplificada no
crescente número de nacionais de países, com os quais Portugal nunca teve laços económicos
ou históricos privilegiados, que pediram a sua regularização durante os processos de
regularização extraordinária de estrangeiros de 1996 e de 2001.

Do ponto de vista sócio-demográfico, a população estrangeira com residência legal em


Portugal apresenta, a nível agregado, características que tipicamente são referenciados nos
fluxos internacionais de mão-de-obra pouco qualificada, a saber: elevada concentração
residencial na Área Metropolitana de Lisboa (AML); um rácio homem/mulher superior a um
(1,4 no período 1990-1995); peso desproporcionado do grupo etário 25-45 anos; e uma
inserção no mercado de trabalho dominada pelo grupo de ocupações socialmente pouco
valorizadas designadamente, na categoria trabalhadores da produção das indústrias extractiva
e transformadora e condutores de máquinas fixas e de transporte (Baganha, 1996, 1998b).

Contudo, quando estas características são desagregadas por nacionalidades, torna-se claro que
a população estrangeira em Portugal é composta por dois segmentos bem diferenciados, de
facto bipolares. O primeiro segmento é essencialmente composto por nacionais de países
europeus e do Brasil que evidenciam um padrão residencial muito mais disperso
relativamente à AML; elevada percentagem de trabalhadores por conta própria relativamente
à estrutura da própria população portuguesa face à situação na profissão, e uma estrutura
ocupacional em que o peso das profissões científicas e técnicas e de directores e quadros
superiores administrativos coloca decididamente este segmento de população estrangeira no
topo da estrutura sócio-profissional portuguesa. O segundo segmento da população
estrangeira é constituído fundamentalmente por nacionais dos PALOP e por um subconjunto
em crescimento, de nacionais vindos de países diversos como a Ucrânia, Moldávia, Rússia,
Zaire, Senegal, Nigéria e Paquistão. Este segmento determina, pelo seu peso numérico, as

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características referidas para o total da população estrangeira que, evidentemente, se
extremam quando o grupo é considerado isoladamente. Grupo que se situa claramente na base
da estrutura sócio-profissional portuguesa1 e que é prevalentemente incorporado no mercado
de trabalho informal. De facto, no ano de 1997 um inquérito à população imigrante activa
revelou que 47% dos homens e 21% das mulheres trabalhavam sem qualquer tipo de contrato.
Acresce que a maioria dos homens entrevistados eram provenientes dos PALOP e
trabalhavam na construção civil, 74% dos quais sem qualquer vínculo laborar (Baganha,
Ferrão e Malheiros, 1998).

A bipolaridade dos fluxos migratórios para Portugal não representa por si mesma nenhuma
singularidade específica do caso português. De facto, dispomos hoje de um conjunto
significativo de trabalhos sobre cidades como Nova Iorque, Tóquio, Londres, Singapura e
Hong-Kong (Sassen, 1991, 1994, 1996, Findlay et al., 1994 and 1996, Li et al., 1998) que
consistentemente têm demonstrado que as migrações para estas cidades são marcadas por
correntes migratórias bipolares. A primeira corrente é composta por mão de obra altamente
qualificada, ligada à gestão, às novas tecnologias e ao saber, atraída para estes nódulos
centrais do sistema económico por razões de estratégia económica e de investigação científica
e tecnológica. A segunda corrente é formada por mão de obra que independentemente da sua
qualificação é atraída para estas cidades pelas oportunidades económicas geradas
parcialmente pela primeira corrente, para actividades que essencialmente não requerem
qualquer tipo de qualificação específica, tais como ‘catering’, limpezas, serviços pessoais e
domésticos, e toda uma panóplia de pequenos negócios nomeadamente restaurantes étnicos,
reparações domésticas e actividades ligadas ao lazer. Ou seja, assiste-se a um recrudescimento
de actividades, ditas tradicionais, que apresentam como especificidade estarem a ser geradas
pelos sectores mais modernos da economia e no mesmo espaço urbano.

Os impactos dos processos de globalização na gestação de fluxos bipolares não têm sido
apenas documentados nas chamadas cidades globais como Nova Iorque ou Hong-Kong, mas
também num número crescente de cidades europeias tais como Amsterdão, Paris, Barcelona,
Milão e, como vimos anteriormente, Lisboa. Este último conjunto de cidades da UE,
evidencia características similares, ainda que mais mitigadas, às documentadas para as
cidades globais quer em termos do tipo de fluxos migratórios, quer do modo de inserção

1 É ainda possível documentar um terceiro segmento cuja expressão numérica é ainda muito
pequena mas que está associado a nacionalidades específicas e a formas de inserção económicas
particulares. Este segmento distingue-se dos anteriores essencialmente pela sua inserção económica
no sector do comércio e da restauração e aparece no primeiro caso ligado a nacionais de
Moçambique, Índia e Paquistão e, no segundo, a nacionais da China.

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económica dos imigrantes, pelo que para as distinguir das primeiras, seguindo a sugestão de
Body-Gendrot, as denominarei de “soft-global cities” (Body-Gendrot, 1996).

Em suma, à marcada bipolaridade das actuais correntes migratórias parece corresponder um


marcado agravamento do fosso, nomeadamente no que concerne níveis de remuneração,
estabilidade de emprego e condições de trabalho, entre o mercado de trabalho primário –
essencialmente aberto aos nacionais e aos imigrantes altamente qualificados – e o mercado
secundário em que a esmagadora maioria das oportunidades de trabalho abertas aos
imigrantes recém-chegados está a ser gerada. O crescimento deste segmento do mercado de
trabalho caracterizado pela sua precarização, flexibilidade e parcial submersão na economia
informal, tem sido frequentemente considerada como um dos impactos mais salientes da
globalização económica em curso.

Dentro desta linha de reflexão tenderia a explicar a actual imigração para Portugal da seguinte
forma: o fim do Império Colonial, a entrada de Portugal na CEE/UE e a reestruturação
subsequente da economia colocaram Portugal numa estrutura internacional que permite ao
país assumir um novo papel na Europa, tanto em relação aos seus parceiros europeus como
aos chamados países terceiros. Este reposicionamento permitiu a Lisboa (para onde
convergem a maior parte dos benefícios decorrentes desta nova posição) tornar-se um pólo de
atracção migratória, uma "soft-global city".

Esta hipótese explicativa levanta contudo um problema. De facto, se nos permite percepcionar
de uma forma elegante os movimentos de entrada em Portugal, ela é totalmente omissa no que
toca os movimentos de saída do país que, como afirmei anteriormente, são numericamente
significativos desde meados dos anos oitenta e o que é mais relevante são similares, quer em
termos de perfis económicos dos migrantes, quer em termos de inserção laboral nos países de
destino, aos verificados para Portugal.

As reflexões teóricas sobre migrações internacionais e impactos da globalização, de que


derivámos a anterior primeira hipótese explicativa, apresentam uma limitação importante
quando aplicadas ao caso português, uma vez que prestam pouca atenção ao papel
desempenhado pela estrutura institucional em que estes fluxos decorrem e são particularmente
omissas sobre o impacto que as decisões dos próprios migrantes podem ter nos actuais
processos migratórios.

Contudo, os trabalhos sobre migrações em Portugal indicam claramente que as dinâmicas


migratórias em Portugal são influenciadas pelos parâmetros institucionais em que ocorrem

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(UE/Portugal; Portugal/PALOP); pelas estratégias adoptadas pelos agentes (por exemplo, as
opções de mercado das firmas portuguesas no sector da construção civil) e pelos actores
envolvidos, que estão ligados por redes formais e informais de natureza local e transnacional.
Ou como afirmou um imigrante cabo-verdiano ilegal: "Quase se pode dizer que as pessoas,
em geral, imigraram com o sonho de Portugal como um destino inicial. Portugal como o
ponto de entrada para países melhores" (citação de entrevista in Baganha, 1998b).

Estes factores são contudo particularmente relevantes no presente contexto migratório,


nomeadamente, porque a actual estrutura legal relativa às migrações na UE tende a promover
fluxos migratórios internos dos países mais pobres para os mais ricos no interior deste espaço
(Portugal/Alemanha), e de África e do Leste para a Europa do Sul (Cabo Verde/Portugal).
Assim sendo, e dadas as actuais restrições impostas pelos países da UE à entrada de
trabalhadores de países terceiros, as necessidades temporárias dos segmentos mais baixos do
mercado de trabalho desta região, não podem ser formalmente preenchidos por nacionais de
países terceiros. Podem, no entanto, ser preenchidos por cidadãos dos países menos
desenvolvidos da UE. Esta situação parece ter sido particularmente favorável a empresários e
empresas vocacionadas para a angariação e colocação de mão de obra e de prestação de
serviços que se especializaram na subcontratação de mão-de-obra nas regiões em que os
custos do trabalho são menos elevados para as áreas da UE em que estes mesmos custos são
mais elevados. Aparentemente, este esquema funciona de forma eficiente, uma vez que é
economicamente favorável aos empresários dos vários países da UE envolvidos no processo
(Alemanha, França, Bélgica, Reino Unido, Portugal…), uns porque reduzem os seus custos de
trabalho outros porque reduzem os seus custos sociais, lembremos que a Segurança Social é
paga pelo subcontratador no país de origem. Resumindo, a actual estrutura institucional da
UE está a promover a transferência de responsabilidades dos agentes económicos dos
Estados-Providência mais desenvolvidos − em que a protecção legal e os benefícios sociais
são elevados − para os Estados-Providência menos desenvolvidos − em que a protecção e os
benefícios do trabalhador são baixos, contribuindo desta forma para a redistribuição do
trabalho dentro da UE.

Dito de outra forma, a existência de liberdade de circulação de capitais, serviços, bens e


pessoas sem uma harmonização dos sistemas fiscais nacionais, custos sociais do trabalho e
sistemas de segurança social está a determinar uma redistribuição significativa de mão de obra
no espaço da UE e simultaneamente a minar o denominado ‘modelo social europeu’.

Nesta nova perspectiva mais do que percepcionar Portugal como desempenhando uma

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posição intermediária do sistema global e Lisboa como uma “soft-global city” Portugal deverá
ser percepcionado como uma placa giratória que distribui (importa e exporta) mão de obra
consoante a estrutura institucional em que opera, e a Área Metropolitana de Lisboa como o
centro dessa placa. Esta metáfora é mais adequada porque permite explicar conceptualmente a
simultaneidade dos fluxos migratórios de entrada e de saída que como referi caracterizam as
actuais correntes migratórios em Portugal.

3. Fluxos migratórios de saída

Depois de um período de contracção das saídas e de uma marcada subida no número de


regressos, que levaram alguns autores a falar do fim do ciclo da emigração, eis que a
emigração portuguesa volta a crescer a partir de meados dos anos oitenta, impulsionada pela
“criação e estruturação de redes migratórias para novos destinos, como foi o caso da
emigração para a Suíça; revitalização de redes já existentes, como aconteceu com a emigração
para a Espanha, a Alemanha e os destinos transatlânticos; novas condições de mobilidade
internacional de trabalhadores criadas pela entrada de Portugal, em 1986, para a Comunidade
Europeia; e o enquadramento legal estabelecido a nível comunitário em relação à cedência de
serviços de mão-de-obra, como é o caso do ‘destacamento de trabalhadores’ na Alemanha”
(Baganha, Ferrão e Malheiros, 1998:49).

Como exemplo desta nova realidade emigratória, que tanto quanto a literatura da
especialidade permite avaliar parece ser uma singularidade portuguesa, caracterizemos
sucintamente a população portuguesa em três países europeus em 1996, realçando dois
aspectos: a sua relevância numérica e a inserção económica dos emigrantes portugueses nos
mercados de trabalho desses países.

Comecemos pela vizinha Espanha, onde em 1996, os Portugueses imigrados rondavam os 37


716, dos quais 58% eram analfabetos ou não possuíam qualquer grau de escolaridade e 36%
tinham apenas a escola primária. Na região de Madrid, na qual residia a esmagadora maioria
desta população, 79% exercia uma actividade económica ligada aos serviços domésticos,
restauração e hotelaria, e construção civil e obras públicas.

No mesmo ano, residiam na Suíça 137.081 imigrantes portugueses com títulos anuais ou
permanentes de residência dos quais 79.347 eram economicamente activos. Destes, 19%
trabalhava na construção e 21% em restauração e hotelaria. A média anual de entradas

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sazonais, entre 1991 e 1996 foi aproximadamente de 38 000 trabalhadores. As estimativas
para o número de imigrantes ilegais variam entre 20 e 50 mil. A incorporação económica quer
de ilegais quer de sazonais faz-se essencialmente nos dois sectores económicos acima
mencionados—restauração e hotelaria e construção civil e obras públicas.

Finalmente, na Alemanha viviam legalmente 130.842 Portugueses, em 1996 dos quais 27%
(35.327) chegara nos últimos quatro anos. A estes portugueses há que acrescentar todos
aqueles destacados temporariamente a trabalhar para empresas portuguesas do sector da
construção civil e obras públicas ou para empresas de trabalho temporário. O número de
trabalhadores portugueses registados no regime de contrato de prestação de serviços no
Instituto Federal do Trabalho era, no final de Novembro de 1997, de 21.481, representando
15% do total dos 145.000 trabalhadores registados neste regime. A hierarquia por
nacionalidade era a seguinte: Polaca, Portuguesa, Irlandesa, Britânica e outras nacionalidades.
No mesmo ano, a embaixada portuguesa e a Caritas estimavam que, pelo menos, mais de 15
mil Portugueses se encontrassem a trabalhar irregularmente para empregadores portugueses
neste sector da economia. Os sindicatos alemães estimam que o número de trabalhadores
portugueses na construção seja aproximadamente de 150 mil indivíduos o que nos levaria
para um total de mais de 100 mil trabalhadores ilegais.

Estes breves apontamentos sobre a emigração portuguesa na Europa mais do que reveladores
da magnitude dos volumes de saída de mão de obra, que obviamente têm vindo a ultrapassar
substancialmente as 100 mil saídas anuais, indicam o ressurgimento de uma corrente
emigratória tradicional, ou seja saídas individuais motivadas pela procura de melhores
condições económicas, tecnicamente referidas usualmente como migrações “ com objectivos
definidos e por tempo determinado” do tipo da emigração permanente que se verifica para a
Suiça, em simultâneo com fluxos de saída de um novo tipo de migrante, os chamados
trabalhadores destacados, induzidos por agentes económicos ligados ao sector da construção e
obras públicas ou de angariação de mão de obra, operando em outros países da UE,
nomeadamente na Alemanha.

Mas o que estes dados também indicam claramente é que a emigração portuguesa continua a
ser, como no passado, uma emigração económica essencialmente constituída por
trabalhadores manuais pouco qualificados que vão inserir-se, ainda que sob formas
institucionais novas, nos mercados de trabalho europeus, nas chamadas ocupações sujas ou
mal pagas, ou seja nas mesmas ocupações em que se inseriram os emigrantes portugueses dos
anos 60 e 70.

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A existência de oportunidades de trabalho no exterior alteraram substancialmente, quer as
opções dos trabalhadores, quer dos empregadores portugueses. De facto, os novos parâmetros
institucionais, nomeadamente no que concerne à liberdade de circulação de pessoas, bens e
serviços dentro do mercado europeu permitiram aos empregadores nacionais ligados
particularmente aos sectores da construção civil e obras públicas e das empresas de cedência
de mão-de-obra temporária, obter lucros consideráveis, colocando no exterior os seus
efectivos em mercados de outros países comunitários.

De entre os sectores da economia portuguesa, o sector da construção civil e obras públicas é


um dos sectores em que os impactos decorrentes dos actuais processos migratórios de e para
Portugal são particularmente salientes, nomeadamente no que concerne o recrutamento e
colocação da mão de obra que se tem vindo a fazer cada vez mais diferenciadamente
consoante se opera num espaço supranacional, ou seja a UE, ou no espaço nacional.

De facto, a entrada de Portugal para a Comunidade Europeia, em 1986, provocou dois


enormes impactos neste sector. Primeiro, porque permitiu ás firmas portuguesas sub-contratar
a sua força de trabalho no espaço da CE em concorrência com as suas congéneres.
Oportunidade que as empresas portuguesas aproveitaram, adaptando as suas estratégias
laborais à nova situação. Estratégias que particularmente depois da queda do Muro de Berlim
e sequente reunificação Alemã tem levado para aquele país e para trabalhar no sector em
causa, vários milhares de trabalhadores portugueses, reduzindo a mão de obra disponível no
país. Segundo, simultaneamente com o crescimento da procura no exterior de mão de obra
para a construção civil, a integração de Portugal na CE canalizou para o país um volume
substancial de fundos estruturais, do qual uma parte muito considerável tem sido aplicada em
infra-estruturas viárias e de comunicação, bem como na construção de edifícios públicos
aumentando temporariamente as necessidades nacionais de mão de obra neste sector.

A combinação desta duas situações abriu numerosas oportunidades às firmas portuguesas a


laborar neste sector, algumas das quais para aproveitar cabalmente do boom que entretanto se
verificava tanto no país como em outros países da União recorreram, em Portugal, a
contratações no mercado informal, quer directamente quer através de firmas de
sub-contratação, laborando no mercado informal, e enviando para as empreitadas nos países
da União Europeia a mão de obra dos seus próprios quadros ou formalmente contratada para o
efeito.

Esta situação criou numerosas oportunidades para os imigrantes radicados ou recentemente

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chegados a Portugal, sobretudo na área metropolitana de Lisboa aonde decorriam grandes
obras públicas e onde imigrantes, essencialmente dos PALOP, constituem uma parte
considerável da mão de obra empregada no sector, facilitando o funcionamento de redes de
angariação e colocação de mão de obra tanto para imigrantes já inseridos como e sobretudo
para os recém chegados.

Em relação aos emigrantes portugueses a trabalhar no sector da construção civil da UE,


ressalta das entrevistas que temos estado a conduzir com emigrantes nesta situação2 que as
motivações detectadas são as mesmas dos emigrantes dos anos sessenta que então partiam
sobretudo para França. Ou seja, quando se emigra, não se está a votar com os pés, mas a
aceitar-se que como o país não muda é necessário partir por uns tempos para se poder
continuar a viver em Portugal. O que é interessante verificar, nestas entrevistas, é que dentro
desta lógica tradicional, se estão a gerar estratégias adaptativas individuais inteiramente
novas, de que os próprios actores parecem não ter consciência. Refiro-me, particularmente, à
transnacionalidade que caracteriza a vida dos trabalhadores portuguesas da construção civil a
trabalhar no espaço da UE, e que é por eles usada como estratégia adaptativa às condições do
novo espaço em que se movem e trabalham.

Paralelamente a esta evolução, assistiu-se internamente, como se referiu anteriormente, a uma


crescente informalização laboral em sectores económicos que envolvem uma elevada
percentagem de actividades dependentes de mão-de-obra sem ou de fraca qualificação, e à
entrada crescente no mercado de trabalho nacional de trabalhadores estrangeiros
indiferenciados. Situação, que pelo menos em alguns sectores, como é o caso do sector da
construção civil e obras públicas foi facilitada pela progressiva substituição da mão-de-obra
nacional pela mão-de-obra imigrante, claramente evidenciada pela etnicização que tem vindo
a ocorrer neste sector.

4. Conclusão

Do que ficou dito resulta que as actuais dinâmicas migratórias em Portugal parecem estar a
ser essencialmente determinadas por quatro factores: 1. Os novos parâmetros institucionais
que regulam a circulação de pessoas, bens e serviços no espaço da UE. 2. A rede de

2 Realizaram-se 18 entrevistas a trabalhadores nacionais a trabalhar ou com experiência de trabalho


na Alemanha e no sector da construção civil. Estas entrevistas foram conduzidas pelo Luís
Cavalheiro no decurso do presente ano.

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informação e contactos que os imigrantes recém-chegados dos PALOP detém em sectores
económicos específicos que se caracterizam por índices elevados de informalidade,
flexibilização laboral e relações de trabalho precárias. 3. A transferência para outros países
europeus de uma parte substancial da força de trabalho doméstica e as vagas proporcionadas
por essa transferência. 4. O facto de a actual situação apresentar claros benefícios económicos
a curto prazo e custos diferidos e difusos, quer financeira, quer socialmente, não sendo, por
esse mesmo facto susceptível de desencadear pressões suficientes da sociedade civil para
forçar o Governo a alterar a situação existente.

Em termos de impactos sociais a situação migratória actual possui alguns aspectos


preocupantes, “nomeadamente os decorrentes do facto da substituição da mão-de-obra
nacional se estar a dar, num clima artificial de complementariedade, isto é de aparentemente
os trabalhadores imigrantes em Portugal estarem a preencher vagas não ocupadas ou
abandonadas pelos trabalhadores nacionais, quando, de facto, existe, desde meados dos anos
oitenta, um profundo desajustamento entre a emigração de Portugal e a imigração em
Portugal. Este desajustamento deve-se essencialmente ao carácter maioritariamente
temporário das saídas dos trabalhadores nacionais e ao carácter essencialmente permanente
das entradas de trabalhadores estrangeiros em Portugal. Como facilmente se depreende do que
ficou dito, os custos sociais a médio e longo prazo decorrentes desta situação podem vir a
revelar-se elevados, quer para a sociedade portuguesa, quer para os migrantes nela
envolvidos, enquanto que os custos económicos dependerão pelo menos parcialmente da
evolução que se venha a observar nos fluxos emigratórios (in, Baganha et al., 1998)”3

Os dados apresentados oferecem igualmente fundamentos razoáveis para prever o seguinte: a


curto prazo, não é previsível que a situação de placa giratória que o país detém neste momento
em termos de redistribuição de mão de obra no espaço europeu venha a ser significativamente
alterada, ou se quiserem que Portugal deixe de ser o Sul para a Europa e o Norte para a
África.

3 Sobre este tema ver, Baganha e Marques, 1996, Baganha 1996 e 1997, e Cristóvam et al., 1996.

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