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19/09/13

Durkheim: Arquiteto e Herói Fundador

Durkheim:

Fundador

Renato Ortiz (*)

Arquiteto

e

Herói

"Le période qu'a décrite Durkheim et où il a joué un si grand rôle peut être appelé celle des fondateurs. La sociologie s'y constitue comme science. Elle s'émancipe de la morale, de la politique, des recherches normatives et, d'autre part, elle rompt avec la philosophie et, encore plus, avec la littérature et la critique." (Marcel Mauss, 196.9)

Desde seu retorno da visita à Alemanha, em 1886, Durkheim possuía um "projeto" no sentido sartriano: a fundação de um novo campo científico. Não é fácil avaliar até que ponto a estadia no exterior o influenciou nesta direção. Bernard Lacroix (1984) tem razão quando diz que, muitas vezes, esta viagem tem sido subestimada ou sobrevalorizada pelos críticos e comentaristas da obra durkheimiana (1). Um autor como Terry Clark (1968b ) considera que L'Année Sociologique toma como modelo de pesquisa coletiva os institutos alemães, em particular o laboratório de psicologia de Wundt (2). Outros foram mais longe, ao dizer que a sociologia era uma ciência totalmente "importada" da Alemanha (3). Algumas vezes, é o próprio Durkheim que induz o leitor a desconsiderar a influência alemã; em textos posteriores ele tende a apresentar a sociologia como uma "ciência essencialmente francesa" (4).

Na verdade, apesar de um passado promissor (Saint-Simon, Proudhon, Comte) , as ciências sociais desenvolveram-se tardiamente na França. Durkheim tem consciência disso quando afirma que, no início de seus estudos, era da Alemanha que ele "esperava as luzes" (5). Procurando refletir sobre o assunto, ele chega inclusive a vincular as causas desse atraso às condições políticas da época. Sua interpretação não deixa de ser sedutora. Durkheim argumenta que a emergência da reflexão sociológica se dá com o desmoronamento do Antigo Regime. A Revolução Francesa desempenha, portanto, um papel fundamental, na medida em que desorganiza todo um quadro de referência intelectual e abre espaço para uma nova ordem de idéias. "Durante os primeiros anos da Restauração verificou-se um verdadeiro ímpeto de entusiasmo racionalista. Era só da razão, isto é, da ciência que se esperava os meios de refazer a organização moral do país. Foi desta efervescência intelectualista que resultaram, simultaneamente, o saint-simonismo, o fourierismo, o comtismo e a sociologia" (Durkheim, 1975a, p. 111). No entanto, com o quadro político que se instaura em 1848, há um "recuo", pois as "causas profundas que tinham dado origem à sociologia, e que só elas podiam manter viva, tinham acabado por perder sua força" (idem) . A sociologia se eclipsa para ressurgir somente após a guerra de 1870, momento que coincide com o fim do regime imperial e a ascensão da Terceira República.

Diante desta ausência, Durkheim encontra uma referência sólida nos trabalhos que estão sendo produzidos na Alemanha, mas também na Bélgica e na Inglaterra. Se tomarmos como ponto de partida sua aula inaugural, "Curso de Ciência Social" (Bordeaux-1888), pode-se dizer que o projeto se cristaliza entre 1885-1888. Seus primeiros escritos, que são mais resenhas críticas de livros diversos, em grande medida

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versam sobre o tema da existência e das divisões da sociologia. Veja-se, por exemplo, os comentários sobre as obras de Glumplowicz, Schaeffle, Spencer e De Greef (6). Seria, no entanto, prematuro imaginar que suas idéias se apresentassem nesta fase já plenamente elaboradas. É possível discernir várias lacunas, expressão das contradições e dificuldades que enfrenta. Comentando Spencer, por exemplo, Durkheim acredita que a sociologia deve permanecer uma disciplina distinta da história das religiões, o que significa que o interesse pelos fenômenos religiosos se limitaria ao estudo de suas funções (7). A crença em Deus seria, assim, um "fenômeno psicológico", de foro íntimo, e conseqüentemente não caberia à sociologia dela se ocupar. Não deixa de ser interessante sublinhar que os escritos desta época versam, sobretudo, sobre a possibilidade de existência de uma ciência social (Durkheim, 1975b, p. 37). Em determinado momento de sua trajetória, Durkheim chega inclusive a esboçar uma resposta a esta inquietação:

"discutir para saber se uma ciência é possível e é viável é sempre uma perda de tempo. No que se refere à sociologia a questão não só é desnecessária; ela está prejudicada. A sociologia existe; vive e progride; temum objeto e um método; encerra uma variedade suficientemente grande de problemas para justificar desde já uma divisão de trabalhos; suscitou trabalhos notáveis na França como no estrangeiro, sobretudo no estrangeiro" (Durkheim, 1975a, p. 189).

Palavras apressadas, que contrastam com a prudência que exibe na lição de abertura em Bourdeaux:

"Encarregado de ensinar uma ciência nova e que só conta comum pequeno número de princípios definitivamente estabelecidos, seria uma temeridade da minha parte não sentir receio pelas dificuldades da minha tarefa. Aliás, faço esta confissão semdificuldade e timidez. Creio, comefeito, que nossas universidades, ao lado destas cátedras, do alto das quais se ensina a ciência feita e as verdades adquiridas, há lugar para outros cursos em que o professor vai fazendo a ciência à medida que a ensina; onde encontra ouvintes que são não só alunos como também colaboradores, comos quais investiga, tateia e por vezes também se engana. Não venho, portanto, revelar uma doutrina da qual uma pequena escola de sociologistas teria o segredo e o privilégio, nem sobretudo propor panacéias para curar nossas sociedades modernas dos males de que podem sofrer. A ciência vai mais devagar; precisa de tempo, muito tempo, sobretudo para se tornar praticamente utilizável" (idem, p. 75) .

Explicita-se, a partir deste momento, o projeto. Os cursos em Bordeaux antecipam os escritos que virão e funcionam como ensaios para as idéias que desenvolverá (8). Há uma lógica seqüencial nas primeiras publicações: A Divisão do Trabalho Social (1893) estabelece o objeto da sociologia As Regras do Método Sociológico (1895) lança as bases de uma metodologia específica da nova ciência; O Suicídio (1895) aplica o método a um terreno considerado até então como pertencente à psicologia. Quando L'Année Sociologique é criada, em 1898, o pensamento durkeimiano encontra-se definido; trata-se agora de consolidar e expandir um conhecimento através de uma equipe de pesquisadores especializados no estudo de diferentes ramos da sociedade.

Mas o que é um fundador, senão um arquiteto que, ao reconhecer o terreno existente, derruba antigos muros para construção de novas fronteiras? Vários autores têm enfatizado o fato de que a sociólogia surgiu com a expansão da racionalidade burguesa (Nisbet, 1969). Neste sentido, as ciências sociais emergem como instrumento de "reformas" políticas. Mas podemos utilizar a imagem de "reforma" também no sentido arquitetônico: as transformações do espaço urbano, que marcam as grandes cidades européias na segunda metade do século XIX, denotam um espírito de modernidade que se inscreve na materialidade das ruas, praças, edifícios. Os trabalhos de Haussman em Paris, ou os projetos arquitetônicos da Ringstrasse de Viena, traduzem a consolidação e a legitimidade de um gosto e de um imaginário das classes dirigentes. No caso francês, essas mudanças não se restringem simplesmente à remodelação dos grandes bulevares: elas atingem estabelecimentos específicos, como as universidades. A velha Sorbonne, fundada em 1303 por Robert de Sorbon, remodelada em 1627, é completamente reconstruída. Dirá Durkheim, a respeito de suas funções recentes: "para colocá-la à altura de sua nova missão, teve-se que transformá-la. Todos os antigos prédios foram demolidos, com exceção da igreja construída por Richelieu, onde se encontra seu túmulo. Simultaneamente, a Sorbonne foi aumentada em todos os lados; ela forma um vasto retângulo de 21 mil m2, o triplo da superfície que ocupava a Sorbonne de Richelieu." (Durkheim, 1975b, p. 468 ). Uma universidade

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mais bem equipada, agora dotada de gabinete para reitor, salões, sala de conselho e comissões, auditórios para os estudantes.

Essa realocação do espaço traduz uma política mais ampla e insere-se no interior de uma perspectiva que percebe a educação como elemento ideológico de coesão social. Durante a Terceira República é implementada toda uma reestruturação do ensino primário e secundário, cuja finalidade é integrar as diversas partes do país. Pode-se ter um quadro da época quando se sabe que, até 1870, a maioria das pessoas habitava a zona rural e encontrava-se afastada dos destinos nacionais; em 1863, um quarto da população não falava sequer o francês, vivendo em comunidades que possuíam idiomas próprios (9). Era comum, pois, falar na existência de "duas Franças". Uma civilizada, culta, herdeira da Revolução e do espírito iluminista; outra selvagem, rude, infensa às transformações, conservadora de um modo de ser característico do Ancien Régime. Neste contexto, o ensino adquire o papel de cimento que solda a diversidade das partes e até mesmo elimina os conflitos sociais. A função do professor, principalmente o das escolas primárias e secundárias, reveste-se assim de um caráter marcadamente ideológico. Ele é o portador de uma cultura "civilizada e moderna" que deve ser estendida aos confins do país. A palavra missão adquire portanto um valor sagrado, e ressurge em vários momentos nos escritos de Durkheim sobre a pedagogia. Como, por exemplo, quando ele se refere ao poder de convicção do professor, o porta-voz dos valores que o Estado leigo encarna:

"o que reveste a autoridade da palavra do sacerdote é a alta idéia que ele possui de sua missão; pois ele fala em nome de umdeus no qual ele crê, em relação ao qual ele se sente mais próximo do que a multidão dos profanos. O mestre leigo pode e deve ter alguma coisa deste sentimento. Da mesma forma que o sacerdote é o intérprete do seu deus, ele é o intérprete das grandes idéias morais de seu tempo e de seu país" (Durkheim, 1977, p. 68).

Essa ideologia moralizadora e civilizatória tem reflexos importantes para a universidade. Primeiro, porque esta é vista como o local por excelência da formação de quadros para a vida social e política. Mas existe também uma outra dimensão que justifica o empreendimento republicano junto ao ensino superior. Jules Ferry pensava que o espírito científico iria descer da esfera superior para os níveis inferiores (primário e secundário), penetrando desta forma toda a sociedade ( Weiz, 1979 ). O termo "missão" recebe agora uma outra conotação, distinta da anterior, pois no bojo da proposta ideológica repousava um programa de estímulo à produção científica. Como observa Victor Karady (1976, p. 280), "a sociologia universitária está vinculada a uma inovação institucional que se deu inteiramente sob a responsabilidade da autoridade administrativa, assim como uma série de inovações paralelas no tempo; todas essas inovações respondem a preocupações ideológicas e a um projeto de renovação científica das universidades". Ao lado das necessidades políticas, alinham-se, portanto, interesses de ordem acadêmica. Essa valorização da universidade, como foyer de vie scientifique, é vital para o florescimento da sociologia na França. Não é por acaso que Durkheim, ao fazer o balanço das diferentes correntes sociológicas no final do século, define- se como participante do "grupo universitário", espaço concreto no qual se insere e que lhe propicia as condições objetivas para a realização de um projeto pessoal (10).

George Weiz (1983) sugestivamente descreve o período da Terceira República como da emergência da moderna universidade francesa. De fato, o sistema universitário republicano inaugura uma ruptura com o passado. São várias as transformações realizadas: implantação de uma rede de ensino nacional, descentralizando o monopólio que Paris exercia em relação à província (o monopólio passa a ser hegemonia); expansão do número de postos de professores; construção de uma infra-estrutura material (edifícios, laboratórios, bibliotecas); criação de uma carreira universitária (chargé de cours - mestre de conferências - professor adjunto - professor titular); incentivo à pesquisa; introdução de um sistema de bolsas de estudo para os estudantes. Essas mudanças, que expandem quantitativamente o ensino superior e o consolidam qualitativamente, reforçam o processo de especialização das disciplinas. Por exemplo, as antigas universidades da província não possuíam sequer um público profissional; porém, na medida em que o ensino

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é reformulado, há necessidade de que a docência e a pesquisa se voltem para uma audiência qualificada. As

cátedras se especializam (são progressivamente eliminadas cadeiras como Literatura Estrangeira, Literatura Antiga, História, Filosofia, em detrimento de uma setorialização mais acentuada como Literatura Grega, Literatura Latina, épocas históricas, períodos de história literária etc.) e outras disciplinas são introduzidas:

Geografia, Pedagogia, Sociologia, Psicologia (11). Quando Durkheim afirma que a Sociologia vive uma "era da especialidade", no fundo ele está refletindo um movimento mais amplo que se realiza nos diferentes campos intelectuais.

No entanto, muitas vezes este processo tem sido descrito quase que unicamente em termos de

institucionalização e de expansão de um mercado universitário. Não tenho dúvida de que, em parte, este tipo de interpretação é verdadeira. Jean Louis Fabiani, por exemplo, descreve de maneira convincente a emergência de um mercado de bens filosóficos que se consolida com as reformas universitárias (12). Mas não se pode perder de vista que o movimento de especialização significa também, para alguma disciplinas, e este é o caso da Sociologia, a conquista de uma autonomia epistemológica. Ocorre no campo das ciências sociais o que havia se passado com a literatura em meados do século. Ao recusar o determinante ideológico,

o universo literário passa a ser concebido segundo regras estéticas estritas. Como analisa Sartre (1973, p.

99), a partir de um determinado momento (ele considera Flaubert como um marco) "o artista somente aceita ser lido por outros artistas". Dito de outra forma, o princípio de legitimidade do campo literário deve ser definido pelos pares. A profissionalização das ciências humanas implica também públicos específicos, isto é, um padrão de legitimidade interno à ordem de cada disciplina. Durante o período republicano surgem várias revistas que se esforçam por encontrar este público, lutando por uma delimitação mais precisa de suas áreas:

no campo da Filosofia, Revue Philosophique (1876) e Revue de Métaphysique e de Morale (1893); no da Psicologia, L'Année Psychologique (1895); e, em Sociologia, La Reforme Sociale (1881), La Science Sociale (1886), Revue Internationale de Sociologia (1893) e L'Année Sociologique (1898). Muitas dessas publicações carregam ainda a herança de um certo ecletismo, mas sem dúvida apontam para um movimento de autonomização e de profissionalização dos diferentes ramos das "humanidades".

Limites e Fronteiras

"Para que uma verdadeira sociologia possa existir, é necessário que se produzam, em cada sociedade, fenômenos dos quais esta sociedade seja a causa específica, e que não existiriam se ela não existisse, que são o que são porque ela se constituiu enquanto tal. Uma ciência só pode ser fundada se possuir por matéria fatos sui generis, distintos daqueles que constituem o objeto de estudo das outras ciências" (Durkheim, 1975b, p. 23) . Há um termo que reaparece insistentemente na escrita durkheimiana:

sui generis. A recorrência com que Durkheim o utiliza manifesta a tenacidade com que persegue seu objetivo. Bachelard dizia que a física se erigiu como ciência somente no momento em que rompeu com a alquimia e a explicação religiosa do mundo. Isto é, quando se constituiu em corpus teórico autônomo. A inteligibilidade dos fenômenos naturais se dá, portanto, no interior de um quadro que a própria disciplina delimita, independentemente das demandas e das especulações de ordem externa. Durkheim aspira ao mesmo: explicar o social pelo social. O que ele admira em Condorcet, Saint-Simon, Spencer, Comte, é justamente o fato de terem percebido esta especificidade. Sobre os economistas clássicos ele dirá que

"foram os primeiros a proclamar que as leis sociais são necessárias como as leis físicas e a fazer deste axioma

a base de uma ciência" (Durkheim, 1975a, p. 78). Sua análise de autores do século XVIII realça a mesma

problemática. Inclusive em Rousseau, cuja doutrina do contrato social privilegia um entendimento racional entre indivíduos, sua leitura revela que a "sociedade não é natural, mas é artificial em segundo grau" (Durkheim, 1966, p. 135). Ela formaria um reino à parte do "estado de natureza" em que se encontrava mergulhada a individualidade a-social das pessoas. Se Durkheim valoriza Saint-Simon e Comte como precursores da sociologia, é pela mesma razão: a de terem explicitado o que há de particular na sociedade, ambos, abrindo o caminho para uma nova esfera do conhecimento (fisiologia social e sociologia).

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Um texto que trabalha de maneira interessante a especificidade do social é a tese latina, escrita em 1892 (13). Durkheim parte do princípio de que toda disciplina científica deve possuir um objeto próprio. A avaliação da obra de Montesquieu é feita sob essa ótica: em que medida ela preencheria os critérios para a emergência de uma ciência do social? Uma primeira condição estaria realizada através da oposição entre indivíduo e sociedade. Para Durkheim, n'O Espírito das Leis, Montesquieu não pretende estudar os homens que governam, mas sociedades concretas. Por isso ele constrói uma tipologia classificando as diversas formas de governo que as constituiriam: República (democracia e aristocracia), Monarquia, Governo Despótico. Porém, não é a forma de governo que determinaria a sociedade, mas o inverso. A República floresce nas cidades pequenas (Grécia antiga) e seus limites são estreitos; o volume da população é reduzido e favorece uma maior coesão social. A divisão do trabalho sendo pequena, há um controle da desigualdade entre as riquezas; esta situação se caracterizaria pelo fato de a vida social formar "um bloco de elementos da mesma natureza, justapostos uns aos outros" (Durkheim, 1966, p. 59). Com a Monarquia temos um quadro diferente. As funções sociais estão distribuídas em várias classes ( agricultura, comércio, arte etc.); o volume médio da população é superior ao das cidades republicanas; a divisão do trabalho tende a aumentar, e um poder centralizador faz-se necessário. No entanto, a concorrência entre as partes (que são mais independentes do que no estado anterior) limitaria o poder do monarca, fazendo com que todas elas concorressem para a harmonia do todo. Por fim, o Governo Despótico vincula-se a um tipo de sociedade que, tendo crescido além dos limites da possibilidade de controle, por causa de seu volume, sua extensão e o grande número de súditos, requer o uso da força como único elemento de coesão social.

Pode-se perceber como Durkheim avança uma série de argumentos que serão elaborados melhor n'A Divisão do Trabalho Social. O traço definidor da República é a solidariedade mecânica, os governados participando imediatamente de uma consciência coletiva que os envolve; já a solidariedade orgânica seria fruto de um estágio de desenvolvimento no qual as partes da sociedade se especializariam, constituindo o alicerce para a existência do governo monárquico. A análise da obra de Montesquieu revela ainda outros elementos, como o de que o clima e o solo são causas secundárias na formação das sociedades. A extensão das planícies favoreceria o despotismo; as montanhas e as ilhas circunscreveriam a autoridade do chefe; a terra pouco fecunda estimularia a frugalidade da República. Da leitura d'O Espírito das Leis Durkheim conclui: "do tamanho de um povo, da configuração do solo que ele ocupa, da natureza e do clima, pode-se deduzir a que gênero de sociedade ele pertence e quais são suas leis e suas instituições" (idem, p. 81). O social é, portanto, passível de uma leitura que possa dele retirar determinadas regularidades (leis) a serem estudadas por uma ciência particular.

Mas não é suficiente para a nova disciplina estabelecer seu objeto. A Sociologia deve ainda resolver uma crise de identidade, pois partilha de uma herança intelectual que a predetermina. Eu diria que o problema que ela enfrenta não é tão diferente daqueles com os quais os movimentos étnicos se confrontam. Quando os movimentos negro e feminista percebem a posição que ocupam na hierarquia social, a primeira coisa que seus intelectuais fazem é reescrever a história. A partícula "a partir de" materializa uma visão que se insurge contra a versão oficial dos acontecimentos. Ora, o pensamento sociológico possuía várias versões; Durkheim teve de enfrentá-las, criticando-as, marcando uma ruptura entre o passado eclético e o presente "científico". Como ele afirma,

"no início todas as ciências atravessaram uma fase que, poderíamos chamar de ideológica. Este é o exemplo da física, que, no início, tentava conhecer as noções correntes de calor e de frio, de peso, de líquido e de sólido, decompondo- as e comparando-as, muito mais do que procurando relações segundo as quais suas objetivações se vinculavam aos fatos, dos quais essas representações informes derivavam" ( Durkheim, 1975b, p. 94 ) .

O mesmo se passa com a sociologia. Impõe-se um rompimento com as "antigas" formas de conhecimento, o que significa um distanciamento da filosofia, que até então detinha um certo monopólio da reflexão sobre a sociedade. A distinção que Durkheim estabelece entre métodos dedutivo e indutivo é

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fundamental para isso. Ao propor que os fatos sociais se apresentam como "coisas" para a observação, ele inverte a perspectiva anterior que tomava como premissa o que eles "deveriam ser". Fundar uma ciência "positiva" implicava partir da realidade, "afastar as pre-noções", o que impunha uma abordagem indutiva que a diferenciava do discurso filosófico. Neste sentido, mesmo Comte e Spencer, por quem Durkheim nutre uma admiração profunda, não serão poupados. Refletindo sobre o momento pelo qual passavam as ciências sociais, Durkheim nos diz:

"Foi em vão que Comte e Spencer proclamaram que os fatos sociais são fatos da natureza, que as ciências sociais são ciências da natureza. Quando, saindo dessas generalidades, eles aplicaram seus princípios, retornaram à concepção e ao método antigo. Para Comte, a evolução social consiste na realização da idéia de humanidade; Para Spencer, a sociedade nada mais é do que a realização da idéia de cooperação" (idem, p. 95 ) .

No caso do positivismo, existia ainda um agravante: suas premissas evoluíram para uma religião da humanidade que as afastavam do ideal traçado nos cursos de Filosofia Positiva (14). Por isso, tanto Comte como Spencer serão considerados mais como filósofos do que propriamente como sociólogos (Durkheim, 1975a, p. 89). Esta interpretação, que já se encontra na lição de abertura de Bordeaux, tem, a meu ver, um valor estratégico. Ela permite que o presente possa ser orientado "a partir de" um "corte epistemológico" introduzido pela escola durkheimiana. A história da sociologia adquire, assim, um centro que ritualmente separa os precursores dos "autênticos" profissionais. Como em todo mito de fundação, pode-se discernir agora entre um "antes" e um "depois", restando a Durkheim o papel de herói fundador da nova centralidade científica.

Penso que a discussão sobre o indivíduo e o individualismo na obra durkheimiana ganha uma outra dimensão quando a introduzimos dentro da problemática dos contornos de uma nova disciplina científica. Não tenho dúvidas de que várias das inúmeras críticas que se fizeram a Durkheim sobre este ponto são procedentes. Para citar somente uma, retomo a perspectiva de Nisbet, quando ele observa que o texto durkheimiano rompe com o Iluminismo (15). Sob esta ótica, o indivíduo não mais seria considerado como a "raiz do homem", princípio que orientou a interpretação enciclopedista, hegeliana e marxista da história. A insistência de Durkheim em valorizar a coesão e a solidariedade afasta-o de uma herança intelectual que tomava o indivíduo como fundamento de sua própria compreensão filosófica do mundo.

Porém, é necessário entender que a oposição entre indivíduo e sociedade não remete exclusivamente para uma questão de natureza política; ela deita raízes numa tática que pretende delimitar de maneira inequívoca o domínio da sociologia. É certo que Durkheim reconhece a importância dos economistas clássicos como precursores das ciências sociais, mas ele não deixará de criticá-los quando vinculam a nova disciplina à existência do indivíduo racional. Se a economia política avança ao dizer que existe uma especificidade do social, ela perde em seguida "todas as vantagens do início. Permanece uma ciência abstrata dedutiva, ocupada não em observar a realidade, mas em construir um ideal mais ou menos desejável; porque este homem em geral, este egoísta sistemático de que ela nos fala não é mais do que um ser de razão" (Dur kheim, 1975a, p. 81). Isto é, os economistas estão presos à ideologia liberal, o que lhes impossibilita perceber que a ação é mediatizada pelas forças sociais. O tema do individualismo chega inclusive a aproximar a perspectiva durkheimiana à de Marx. Num dos raros textos que Durkheim escreve sobre o materialismo histórico, comentando um livro de Labriola, ele dirá: "consideramos fecunda esta idéia de que a vida social se deve explicar, não através da concepção que fazem aqueles que nela participam, mas pelas causas profundas que escapam à consciência" (idem, p. 21) . Ou seja, os homens fazem história sem terem consciência disso. Não estou sugerindo que a análise durkheimiana se identifique com a marxista; o que interessa sublinhar é que a oposição entre indivíduo e sociedade adquire um valor epistemológico tal que, através dela, o próprio autor estabelece conexões com teorias fundamentalmente diferentes da sua.

Eu diria que, num primeiro momento, individual significa contingência. Quando Durkheim polemiza

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com os historiadores tradicionais, é justamente este o ponto que levanta. Seignobos, por exemplo, defendia a tese de que a história deveria limitar-se a descrever os "acontecimentos", confinando-se, assim, à análise dos documentos escritos e dos testemunhos deixados conscientemente pelos agentes sociais. Durkheim contrapõe-se a esta concepção na medida em que, para ele, "as causas, indicadas pelos agentes, longe de possuírem uma importância qualquer, deveriam ser genericamente consideradas como hipóteses suspeitas. Como explicar os fatos senão por uma metodologia experimental operando lenta e objetivamente? O que é que a consciência individual pode saber das causas desses fatos tão consideráveis e tão complexos?" (Durkheim, 1975b, p. 201) . Na verdade, o debate com os historiadores coloca de maneira clara a pergunta:

como transformar a história numa disciplina científica? Sua resposta é direta: "a história só pode ser uma ciência à condição de se elevar acima do individual" ( idem, p. 196 ) . Ela deve abandonar a descrição dos "sintomas", que são contingentes, e deslocar sua explicação para um nível mais profundo, não visível, captando desta forma a estrutura e as causas dos acontecimentos (16).

O texto sobre Montesquieu retoma esta temática de maneira exemplar. A leitura durkheimiana d'O Espírito das Leis evidentemente privilegia o peso das sociedades sobre os indivíduos, pois tem por objetivo descobrir em que medida. Montesquieu pode ser tomado como um precursor das ciências sociais. No entanto, o próprio texto original oferece algumas resistências para que esta interpretação se imponha. Não se pode perder de vista que Montesquieu era considerado por muitos como um defensor do livre-arbítrio. Em várias passagens ele sugere um certa independência do legislador em relação à "coerção" social que Durkheim enfatiza. Por exemplo, nos países quentes, que convidam os habitantes à preguiça, Montesquieu prescreve ao legislador agir com firmeza; entre os povos que possuem um caráter orgulhoso e intrépido, é necessário instituir castigos terríveis que consigam conter essa exuberância. Fica neste caso uma dúvida: em que medida o legislador, enquanto indivíduo, age autonomamente? Seria ele o criador das leis?

Para Durkheim esta é uma questão crucial, pois dela depende o alicerce da ciência que pretende construir; afinal, uma "má" compreensão do raciocínio de Montesquieu abre a possibilidade de se introduzir um elemento de contingência que "pode destruir o fundamento das ciências sociais" (Durkheim, 1966, p. 87). Sua resposta é simples. Em geral, o legislador seria o instrumento através do qual se realizaria o sentido da sociedade. A expressão jurídica de um povo exprimiria, assim, a "natureza" de sua organização social: as leis nada mais seriam do que costumes codificados. Segundo a interpretação durkheimiana, retomando-se um dos exemplos apresentados, teríamos: nos países quentes, a firmeza do legislador não seria arbitrária, pois decorreria de uma exigência que corresponde à propensão à preguiça de determinados povos. Durkheim concede, porém, que existiriam casos em que a forma jurídica estaria em descompasso com a "essência" da sociedade. Da mesma forma que na vida individual existem imperfeições, na vida social ocorreriam desvios, como as leis injustas (é claro, entendidas segundo o padrão de justiça relativo ao nível a que se referem) ou as instituições defeituosas. Evidentemente esses fatos podem ser compreendidos, mas eles são determinados por causas fortuitas, acidentais, que Durkheim irá associar à idéia de doença, de anormalidade. Como a ciência se funda sobre a regra, o estado doentio é vasto como exceção. Este artifício lhe permite superar a contradição que havia levantado e afirmar que, para "Montesquieu, em todos os lugares onde as coisas são normais, elas se fazem segundo leis necessárias, e esta necessidade se interrompe somente quando elas se afastam do estado normal. Por isso esta contingência não destrói a ciência social, mas limita seu alcance. Pois ela somente possui como objeto as formas normais da vida em sociedade, enquanto que as doenças, segundo a opinião de nosso autor, estão quase fora da ciência" (idem, p. 91) . Ora, Durkheim afirma nas Regras (1973a, p. 74) que, para a sociologia transformar-se "verdadeiramente em uma ciência das coisas, é preciso que a generalidade dos fenômenos seja tomada como critério de sua normalidade" (17). Por isso o capítulo que diferencia o normal do patológico adquire um papel de divisor de águas. Na medida em que a anormalidade é vista como acidental, ela participa, com o indivíduo, do nível da contingência e se encontra fora do campo recoberto pela sociologia.

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Não é difícil tecer uma série de críticas à maneira como Durkheim constrói seu objeto. O leitor que se depara com A Divisão do Trabalho Social percebe como as premissas anteriores conformam seu campo de estudo. Todo o livro se estrutura a partir de uma referência ao Direito, procurando-se mostrar que o avanço da solidariedade orgânica corresponde a uma preponderância do direito restitutivo em relação ao direito coercitivo. No entanto, se as ciências jurídicas permitem esta comparação, fica claro que um aspecto essencial do Direito escapa a Durkheim. Como pensar o universo que os juristas denominam de direito real, que arbitra a relação entre os indivíduos e as coisas? Novamente Durkheim crê resolver o problema retomando a oposição entre indivíduo e sociedade. Segundo ele, "pode-se exercer um direito real acreditando-se sozinho no mundo, fazendo abstração dos outros homens. Em conseqüência, como é somente por intermédio das pessoas que as coisas são integradas na sociedade, a solidariedade que resulta desta integração é negativa. Ela não faz com que as vontades se movam na direção de fins comuns, mas somente que as coisas gravitem em torno da ordem das vontades" (Durkheim, 1973b, p. 85). O direito real é, portanto, visto como da ordem da individualidade, o que significa que ele escapa aos interesses da análise sociológica. Contrariamente ao marxismo, que entende a organização da sociedade a partir do processo de alienação (o direito à propriedade, que é privado), o mesmo tema é visto como "negativo", isto é, individual pelo pensamento durkheimiano. Entendendo a divisão do trabalho como geradora de solidariedade, a tese proposta não contemplará esta relação negativa que separa os homens ao invés de uni-los.

Mas, não se pode perder de vista que a artimanha durkheimiana traz também dividendos: traçam-se, de maneira inequívoca, as fronteiras de um universo científico. Mais ainda, é possível diferenciá-lo de outras disciplinas nascentes, como a Psicologia. A polêmica com Gabriel Tarde é neste sentido reveladora, mas, para considerá-la com propriedade, seria talvez interessante retomar alguns pontos levantados quando me referia à constituição do campo universitário na França.

Terry Clark (1968a) mostra que, entre 1870-1914, realizava-se na França uma gama de pesquisas sociológicas; no entanto, somente a versão durkheimiana conseguiu consolidar-se. Como entender o que aconteceu? A linha de pesquisa que ele inaugura, e que outros virão a seguir, encontra a resposta no processo de institucionalização. Em princípio, L'Année Sociologique teria formado, no interior do sistema universitário, um laboratório competente e articulado, capaz de reunir um grupo coeso em torno da liderança de Durkheim. Quando se lê Prophets and Patrons, tem-se, às vezes, a impressão de que nos deparamos com uma visão um tanto esquematizada das coisas. Clark, com uma certa obviedade, chega à seguinte conclusão: "para a maioria dos novos campos [científicos] três elementos são essenciais: boas idéias, indivíduos talentosos, e um suporte institucional adequado" (Clark, 1973, p. 8). Mas seu estudo tem o mérito de chamar a atenção para uma dimensão esquecida. Como diria Bourdieu, as disputas no interior do campo científico não são meramente de natureza teórica; elas também remetem a uma estratégia envolvendo as posições dos agentes que constituem esse campo. No caso francês, de fato existiam várias correntes, antagônicas entre si, que praticavam a sociologia fora dos muros da universidade - os continuadores de Le Play, o grupo de Renê Worms, que se reunia em torno da Revue Internationale de Sociologie, ou um autor de renome como Tarde. A questão que se coloca é como relacionar a fragilidade desses projetos à posição que seus portadores ocupavam no interior do sistema intelectual francês.

Após a morte de Le Play (1882) há uma cisão, e os representantes da "Reforma Social" formam duas tendências: "Science Sociale" e "Société d'Economie Sociále". A primeira, comandada por Tourville, desenvolve uma série de pesquisas sobre a família, na França e no exterior, mas, coerente com sua opção política conservadora, vincula-se ao catolicismo social no momento em que a França sofria transformações profundas sob o governo republicano. A disputa entre o ensino leigo e o ensino religioso marcava a sociedade francesa, o movimento católico perdendo o controle sobre uma série de organismos que lhe garantiam um certo monopólio da educação moral e política. Não se pode esquecer que um dos motivos da reforma universitária era barrar a expansão da ideologia católica, que havia conquistado inclusive algumas

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instituições de nível superior. Dentro deste contexto, como observa Antoine Savoye (1983, p. 327), "para os leplaysistas, à perda do monopólio acrescenta-se a perda da hegemonia. Os tempos não eram mais aqueles em que Le Play era solicitado pela classe dirigente, ávida para compreender uma realidade que ela não conseguia compreender. A Science Sociale não podia pretender desempenhar esta função de aconselhar o príncipe que era seu adversário político". A influência de Tourville e Demolins irá se enfraquecer cada vez mais. A tendência "Société d'Economie Sociale" terá um futuro mais promissor, embora atrelado ao Estado. Pioneiros da técnica estatística, aos poucos seus membros se aproximam-se do Office du Travail, órgão do Ministério do Comércio, da Indústria e das Colônias, cuja função era coletar informações sobre o mundo operário: desenvolvimento da produção, organização do trabalho, condições de vida, relações com o capital etc. A sociologia que se pratica segue os moldes do que mais tarde Lazarsfeld chamaria de "pesquisa administrativa".

O destino de René Worms é semelhante ao dos anteriores: Ao lado da Revue Internationale de Sociologie, ele funda a Biblioteca Internacional de Sociologia e a Société de Sociologie de Paris (1895). No entanto, todas essas instituições são marcadas pelo signo de uma fraca atividade científica. Contrariamente ao L'Annéé Sociologique, que desde o início procura demarcar o campo da sociologia, na Revue Internationale de Sociologie, mais eclética, em dez anos de atividade, somente um terço dos textos publicados referem-se diretamente à nova disciplina. A escolha da internacionalidade proposta por Worms não foi, talvez, das mais felizes. Os colaboradores estrangeiros eram, em sua maior parte, russos (entre eles Kovalewsky); seguidos de espanhóis e italianos. Como observa Roger Geiger,

"esta orientação ajudou pouco a Revue a favorecer o progresso da Sociologia. Os participantes europeus vinham sobretudo de países europeus menos desenvolvidos. Todos esses colaboradores tinham uma abordagem pouco sofisticada da Sociologia e nutriam uma predileção pelos filósofos científicos. Seus escritos tratavam de seus próprios sistemas filosóficos, e algumas vezes sobre problemas específicos de suas sociedades de origem. Chama a atenção a ausência da Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, países onde se desenvolvem tradições sociológicas paralelas à formação das sociedades industriais modernas" ( Geiger, 1981,p.351). (18)

A Société de Sociologie de Paris não teve melhor sorte. Na verdade, ela não era nada mais do que uma entre as diversas "associações ìntelectuais" que existiam na época (19). Sua função era congregar pessoas de diferentes horizontes para debaterem problemas sócio-políticos do momento. Como instituição, ela foi talvez um elemento importante,

"na popularização crescente da sociologia, mas é improvável que tenha contribuído emo que quer que seja para o desenvolvimento intelectual da disciplina. Os assuntos discutidos nas reuniões mensais eram temas altamente teóricos (as causas do progresso etc.) e questões da atvalidade (Exposição Universal, relatórios de viagem). No entanto, o discurso, longe de ultrapassar o nível da Revue, traía, na maioria das vezes, o amadorismo de seus membros" (idem, p.355).

Ecletismo. A palavra surge reiteradamente na pena de Durkheim para desqualificar seus concorrentes. Mas, tratar-se-ia exclusivamente de desqualificação? Creio que não. Certamente o grupo durkheimiano fortaleceu-se às custas do declínio de seus adversários. No entanto, as análises de vários especialistas convergem todas para este ponto. A idéia de ecletismo implica uma certa arbitrariedade, uma confusão de fronteiras e de atividades. Em si, eu diria que, durante séculos, foi esta a característica que marcou a reflexão sobre a sociedade. Porém, quando a associamos ao processo de autonomização das ciências, o quadro muda de figura. Não podemos esquecer que, com a reforma do sistema universitário, pela primeira vez a legitimidade científica torna-se um fator de promoção institucional.

Victor Karady (1979) mostra que, no final do século, coabitavam ainda dois tipos de legitimidade:

uma, herdada do passado, que se fundamentava na erudição; outra, emergente, que privilegiava o trabalho científico. As correntes sociológicas extra-universitárias vinham marcadas sobretudo pelo primeiro tipo. Pode-se perceber este traço na origem mesma dos integrantes dos vários grupos. Enquanto os durkheimianos eram na sua maioria agregées de Filosofia, ou egressos da Ecole Normale, e se dedicavam

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inteiramente à pesquisa científica, os leplaysistas trabalhavam em "tempo parcial", eram banqueiros, homens de negócio, ou originários de profissões liberais. Esta indefinição no recrutamento reproduz-se nas discussões intelectuais, e reflete-se diretamente nos trabalhos produzidos. Os continuadores de Le Play misturam freqüentemente a difusão de um credo político com as análises sociológicas e seguem com aplicação os Princípios do mestre, que concebia o conhecimento sociológico como uma forma direta de ação reformista ( Kalaora e Savoye, 1985). Não é por acaso que os leplaysistas escolhem preferencialmente como objeto de estudo a família e a vida rural. Trata-se, na realidade, de dois temas-chave para uma ideologia que pretende organizar a sociedade a partir da família e do mundo agrícola. Isto não os impede de terem dado uma contribuição importante para a metodologia de observação da sociedade. Seus estudos estatísticos e monografias antecipam uma sociologia que será posteriormente empreendida pela escola de Chicago; mas, como pondéra Antoine Savoye (1981, p. 329), "quanto ao objeto desta ciência, seu campo de aplicação, ele é visto como secundário". Isto permite uma margem de inconsistência bastante grande. O mesmo pode ser dito em relação a René Worms. Apesar de sua teoria organicista, que se encontra em declínio no final do século, "falta à sua sociologia um verdadeiro paradigma. Por isso as outras produzidas não são cumulativas. Cada autor [de seu grupo] se coloca como sociólogo, mas no isolamento, fazendo com que as questões fundamentais da disciplina retomem sempre a empresa de Comte no seu ponto de partida" (Geiger, 1981, p. 346 ).

Gabriel Tarde ocupa também uma posição marginal em relação ao sistema universitário, apesar de entrar para o Collège de France (1900) como titular da cadeira de Filosofia Moderna. Seu trabalho será no entanto solitário; ele praticamente não possui alunos, nem continuadores. Como afirma Ian Lubek (1981, p. 376), "ensinando fora dos quadros universitários clássicos, Tarde permanece um one man show sem paradigma/comunidade para prolongar seu pensamento". Pierre Favre o descreve de maneira concisa e consistente:

"Tarde não era um universitário: sua formação se interrompe logo, ele nunca será doutor "des lettres", e ensina pela primeira vez com 53 anos de idade. Tarde é, na verdade, parcialmente autodidata. Ele é também um provinciano: vive num minúsculo vilarejo da Dordogne onde a solidão intelectual o confina à sua biblioteca. Seu êxito, sua celebridade ele deve a seus escritos, somente a seus escritos. Ele não teme escrever sobre os domínios os mais diversos: criminologia (terreno mais próximo à sua profissão de advogado), filosofia (sua vocação mais antiga, com a poesia), psicologia, economia política, estatística, sociologia, ciência política, estética" (Favre, 1983, p. 6 ) .

A esta série de interesses poderíamos acrescentar os livros sobre futurologia, como Fragments d'Histoire Future, que se passa no terceiro milênio de nossa era.

Mas em que medida esse ecletismo da formação e da escolha dos temas se manifesta na sua própria concepção sociológica? Reler, hoje, As Leis da Imitação é de certa forma um exercício de paciência, pois o livro não possui a mesma atualidade de outros clássicos do século XIX. Não obstante, é impossível não deixar de notar que os problemas que Tarde enfrenta são relevantes. O primeiro parágrafo do capítulo "A Repetição Universal" inicia com a seguinte questão: "existiria uma ciência, ou somente uma história, e no melhor dos casos uma filosofia dos fatos sociais?" (Tarde, 1895, p. 1). Ela segue, portanto, a trilha das preocupações de Durkheim; Tarde também anda em busca de uma base científica para a sociologia nascente. Mas qual é seu conceito de sociedade? Ele esclarece: "uma coleção de seres que existem quando se imitam entre si, ou, quando não estão se imitando, se assemelham, e seus traços comuns são cópias antigas de um mesmo modelo" ( idem, p. 73).

A teoria tardiana percebe as relações sociais como derivadas de um processo de imitação, cujo foco de irradiação seriam as inovações. Haveria, assim, um momento inicial, marcado pela invenção humana, a partir do qual uma série imitativa é inaugurada: por exemplo, a invenção da pólvora, do moinho de vento, do telégrafo. Nesta fase, o fenômeno imitativo generaliza-se para toda a sociedade. Tarde tem consciência de que uma ciência só pode existir quando construída sobre a regularidade dos fatos. Como existe uma ruptura

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entre o fato inicial (a invenção), que é contingente, e o processo de imitação que dele decorre, Tarde propõe limitar o alcance da sociologia ao estudo das regularidades imitativas. Não é difícil perceber a fragilidade desta argumentação. Como observa Durkheim,

"Tarde não chega a sustentar que não existiria nenhuma ordem na série de fatos históricos, o que equivaleria a negar a possibilidade do estudo científico das sociedades. Todos os fatos sociais seriam, com efeito, derivados de imitações individuais e generalizados pela via da imitação. Ora, a invenção é um produto do gênio, e o gênio é o ‘acidental supremo’, refratário a qualquer previsão assimcomo a qualquer explicação científica. Ele nasce, aqui ou acolá, do acaso. O acaso se encontra assimno fundamento mesmo da vida social" (Durkheim, 1975b, p. 115 ) (20).

A perspectiva tardiana enfraquece, nesse sentido, o próprio solo epistemológico para a construção de uma disciplina científica. Fundamentando-se no indivíduo e no acaso, ela perde a riqueza da especificidade do social que o próprio autor procurava captar.

Mas existem outras implicações. Na medida em que Tarde fundamenta a existência da sociedade nas manifestações individuais, ele não consegue diferenciar sua disciplina de outras, como a Psicologia. Ora, esta nova área de conhecimento surge na França no mesmo momento em que as ciências sociais (Apfelbaum, 1981) . L'Année Psychologique é de 1895 e marca a integração desta disciplina no currículo das universidades. Porém, o tipo de trabalho desenvolvido e legitimado pelos psicólogos limita-se exclusivamente à Psicologia experimental. Tem-se a impressão de que os dois campos de estudo, Sociologia e Psicologia, taticamente dividem seus objetos, a sociedade e o indivíduo, e podem deles se ocupar ignorando uns aos outros. Durkheim acreditava que a natureza humana era regida por uma lógica dual e podia ser compreendida através de oposições como corpo/alma, sociedade/indivíduo, sagrado/profano, moral/foro íntimo (Durkheim, 1975c). Não há dúvidas de que esta maneira de conceber a realidade a empobrece, mas ela é altamente conveniente para duas disciplinas que ainda se encontram em fase de formação. De uma maneira um tanto rude que lembra os pioneiros, elas podem repartir os terrenos e fincar limites claramente reconhecíveis.

Tarde encontra-se comprimido entre essas fronteiras. Sua indefinição epistemológica revela que ele, ora tende para uma psicologia social, ora para uma sociologia que não consegue definir muito bem. A essas dificuldades se agregam outras. "Enquanto que a Sociologia e a Psicologia lutam para adquirir legitimidade e reconhecimento no seio do sistema universitário francês, a Psicologia Social fica contida a instituições não- universitárias, pouco propícias para a sua difusão" ( Lubek, 1981, p. 377). Seu destino é exemplar. Marginalizado pelas duas disciplinas, Tarde encontra-se diante de um terreno ambíguo e não consegue estabelecer com clareza um paradigma que apreenda as relações entre indivíduo e sociedade. Roger Bastide (1967) observa que, "na França, é Marcel Mauss que conclui, [somente] em 1924, depois de um período de luta entre imperialismos rivais, um tratado de paz que permitiu a colaboração entre psicólogos e sociólogos". Eu diria que, neste momento, as duas áreas de conhecimento se encontravam amadurecidas, possuíam identidades próprias, tornando possível um real intercâmbio entre elas.

Talvez uma última referência de ordem topográfica devesse ser feita em relação a uma ciência que exerceu grande fascínio nos pensadores do século XIX: a biologia. Comte, em seu sistema de classificação, não hesita em catalogar a sociologia como parte daquela ciência. Para ele, a "Física Social, isto é, o estudo do desenvolvimento coletivo da espécie humana, é, sem dúvida, um ramo da Fisiologia, isto é, o estudo do homem, concebido em toda a sua extensão. Em outros termos, a história da civilização nada mais é do que a continuação e o complemento indispensável da história natural do homem" (apud Moraes Filho, 1978, p. 67). Spencer (1880, p. 348) reforça esta dependência das ciências sociais em relação ao mundo fisiológico e chega a prescrever a "necessidade de se estudar a ciência biológica como preparação para o estudo da ciência da sociedade". Steven Lukes observa que uma das dificuldades de Durkheim era a de se livrar de um estilo metafórico que muitas vezes buscava descrever os fenômenos sociais abusando, sobretudo, das

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analogias orgânicas. Em A Divisão do Trabalho Social, são inúmeras as passagens que comparam a sociedade a um organismo, a vida social à saúde do corpo humano, o desenvolvimento da sociedade à evolução das espécies. Durkheim valoriza em Spencer justamente este aspecto. Segundo ele, este autor não teria se "contentado em assinalar analogias aparentemente verdadeiras entre as sociedades e os seres vivos:

ele declara categoricamente que a sociedade é uma espécie de organismo" (Durkheim, 1975a, p. 87).

Mas creio que Lukes tem razão quando afirma que, em grande parte, este exagero de linguagem deveu-se a "um desejo combativo de Durkheim de apoiar as pretensões da Sociologia como ciência cujo objeto de estudo é uma área de conhecimento da realidade" (Lukes, 1984, p. 35) . Neste sentido, a ruptura com os antecessores é marcante. Certamente Durkheim encontra na biologia um modelo de ciência que lhe possibilita pensar a sociedade; mas, como ele mesmo pondera,

"a analogia é uma forma legítima de comparação, e a comparação é o único meio de que dispomos para tornar as coisas inteligíveis. O erro dos sociólogos biologistas não foi o de a teremusado, mas de a terem usado mal. Eles quiseram, não controlar as leis da sociologia através da biologia, mas induzir as primeiras a partir das segundas. Essas inferências não têm valor, pois se as leis da vida se encontram na sociedade, é sob uma forma nova e com caracteres específicos que a analogia não permite conjeturar, e que podemos atingir somente pela observação direta" (Durkheim, 1951, p. 1).

Portanto, não é possível confundir os níveis. Pensar a sociedade como sui generis é introduzir uma ruptura entre natureza e cultura, o que nos impede de derivar o social do biológico. Os estudos sobre as "representações", realizados pelo grupo durkheimiano, repousam todos sobre esta premissa; como por exemplo o trabalho de Robert Hertz (1970) sobre a polaridade religiosa. Ele reedita a polêmica com os sociólogos biologistas, uma vez que se recusa a encontrar as razões desta assimetria em argumentos de ordem puramente orgânica. Como observa Hertz, se o desequilíbrio entre direita e esquerda (que corresponde a luz/trevas, bem/ mal, alto/baixo) não existisse organicamente, ele teria de ser inventado. Na verdade, seria inconcebível que Durkheim retornasse às propostas de Comte e de Spencer; isto comprometeria inteiramente seu projeto. Por isso ele se afasta dos estudos raciológicos que caracterizavam a escola de Lombroso na Itália ou de Lacassagne na França. Para ele, este tipo de trabalho, que procurava descobrir as causas do comportamento criminológico nas raças humanas, consistia num ecletismo que misturava concepções antropológicas com necessidades fisiológicas (21) . A separação entre sociologia e biologia pode, desta forma, ser estabelecida com segurança.

Ciência - Sociedade - Ideologias

Na epígrafe que escolhi, Marcel Mauss dizia que a sociologia, no final do século, "se emancipou da moral, da política e das pesquisas normativas". A citação sugere alguns parâmetros adicionais para nossa discussão: em que medida ciência e ideologia se cotejam e se interpenetram? Para tratar deste tema, gostaria de retomar a observação de Raymond Aron (1967) de que a maioria dos sociólogos partiu da interpretação da época a que pertenceram.

Durkheim viveu durante um período conturbado, quando, paralelamente à ascensão da burguesia ao poder, pontilhavam os conflitos trabalhistas. Em 1870 a França foi derrotada na guerra contra a Alemanha, e em 1871 o episódio da Comuna de Paris revelou a luta de classes na sua nudez. A República surge como um governo de reconstrução nacional que busca rearticular o consenso na sociedade francesa. A geração de Durkheim é, portanto, educada num contexto no qual a política se colocava na ordem do dia. O testemunho de R. Lenoir é sugestivo: ele nos diz que naquela época, "ninguém, com dezoito anos de idade, poderia ser dotado de uma nova constituição sem uma certa inquietude pela coisa pública. Como seus contemporâneos, Durkheim tem a impressão de que algo não anda bem" (apud Lacroix, 1984 , p. 35). Sua concepção das ciências sociais impregna-se, assim, desde seus estudos na Ecole Normale Supérieure, de uma perspectiva política. Georges David relembra que para ele era inconcebível "pensar uma filosofia que não desembocasse numa aplicação política e social, e inversamente, uma política que não estivesse fundamentada numa

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filosofia". Dentro deste quadro, "a Sociologia seria esta filosofia que contribuiria para assentar definitivamente

a República e inspirar suas reformas racionais, ao mesmo tempo dando à nação um princípio de ordem e de

doutrina moral" (David, 1949, p. 188). Teria Georges David razão? Creio que somente em parte, mas para

nos convencermos disso devemos rever os textos.

Gurvitch dizia que Durkheim, como Cristovão Colombo, procurava o caminho das Índias e acabou encontrando a América. A boutade encerra muito de verdade. As Índias correspondem, para o pensamento durkheimiano, a uma visão moralista (de ideólogo) da sociedade, que permanece constante ao longo de toda sua obra. Não é por acaso que o primeiro texto que escreve, quando retorna de sua estadia nas universidades alemãs, versa sobre "a ciência positiva da moral na Alemanha" (1887). A primeira edição de A Divisão do Trabalho Social vem também marcada pela mesma preocupação: uma longa digressão sobre a "definição do fato moral" introduz o leitor ao plano geral do livro. Ainda no final de sua vida, Durkheim faz planos para retrabalhar a problemática da moral (22). Herdeiro de uma tradição positivista, ele procura nas ciências uma base filosófica para o equacionamento dos problemas sociais. Mas que filosofia seria esta, capaz de orientar a ação dos homens?

Em primeiro lugar, ela não deve ser "deduzida" de um a priori, como normalmente fazia o

pensamento filosófico, mas "induzida" de um estudo concreto das regras de conduta. Com este artifício, que

é semelhante ao que se aplica ao discurso sociológico, quando se critica as idéias preconcebidas, Durkheim

acredita estar fundamentando seu projeto dentro dos parâmetros de uma verdadeira filosofia "positiva". Como Lévy-Bruhl (1971), ele pensa ser possível construir uma "moral teórica" a partir do conhecimento das sociedades e do comportamento dos homens. As ciências, em particular as sociais, seriam, por conseguinte, uma fonte obrigatória de referência na construção deste empreendimento ideológico. Mas é importante

termos em mente que, para Durkheim, a moral não deriva da ciência; o que ele pretende é construir uma "ciência da moral". Esta inversão não é meramente retórica; ela o afasta das premissas de Auguste Comte, que imaginava a possibilidade de se deduzir as regras da ação a partir das ciências positivas. Já observamos que Durkheim sempre teve um distanciamento em relação à perspectiva iluminista. Ciência e progresso não são necessariamente pensados como elementos de libertação da humanidade. Durkheim duvida da existência

de um progresso moral das sociedades; a rigor, a evolução dos valores é algo sem sentido; cada sociedade

possuiria seu código social, o que tornaria irrelevante a comparação entre povos primitivos e povos civilizados (23). Por outro lado, a ciência não é percebida como substituto das outras forças de coesão social, em particular a religião. Não deixa de ser interessante observar que Durkheim se afasta de uma discussão típica do século XIX: o fim das religiões. Como ele se recusa a entender o progresso como uma evolução cumulativa de valores, o universo científico não pode se constituir em sucedâneo do religioso. Pelo contrário, o mundo da religião lhe serve como inspiração para dar conta dos problemas das sociedades complexas. De alguma maneira, As Formas Elementares da Vida Religiosa reflete sua insistência em trabalhar o tema da solidariedade; Durkheim interessa-se pelas sociedades primitivas na medida em que elas

podem lhe esclarecer melhor a crise moral por que passam as sociedades modernas. Neste sentido, a religião é vista como elemento de coesão social, não como alienação ou falsa consciência. Evidentemente, ele acredita que a moral leiga e racional é superior à religiosa (24); como Gramsci, ele sabe que a religião perdeu

a força de organizar a sociedade como um todo. No entanto, em nenhum momento se concebe a moral como subproduto do pensamento científico.

Qual seria, portanto, a relação entre ideologia e ciência? A resposta é sugestiva: "a especulação moral, que nos parece ter um caráter científico, visa ao mesmo tempo a fins práticos. Ela é obra de reflexão e

de pensamento, mas ela é também um elemento da vida. Por isso diz-se que ela é arte e ciência" (Durkheim,

1975c, p. 317). Arte, não enquanto concepção estética, mas como ofício. Durkheim retoma do pensamento medieval o conceito de artesanato, isto é, um conjunto de práticas tradicionais ajustadas a determinados fins.

A arte seria tudo aquilo que "é prática pura sem teoria". A "moral teórica" seria um tipo de conhecimento

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intermediário entre a prática e a teoria. Enquanto parte da ciência, ela conserva um elemento de reflexão sem cair, no entanto, na necessidade de se autonomizar. Afinal, como Durkheim (s./d., p. 7) mesmo pondera, "a ciência tem a obrigação de investigar com a maior prudência, sem estar obrigada a dar soluções a prazo fixo". Enquanto sistema de "julgamentos de realidade", ela não produz valores, é uma "moral sem ética". Se lembrarmos que a idéia de ética se articula à de solidariedade, que ela rege a interação entre os homens, temos que o discurso científico, encerrado nele mesmo, é incapaz de soldar os indivíduos de uma sociedade em torno de interesses comuns. A finalidade da ideologia é outra. Trata-se de "idéias que têm por objetivo não exprimir a natureza das coisas, mas dirigir a ação" (Durkheim, 1977, p. 79). Por isso Durkheim distingue entre Sociologia (ciência da educação) e Pedagogia. Esta última é uma "atitude mental intermediária" entre a arte e a ciência, "uma teoria prática que não estuda cientificamente os sistemas de educação, mas reflete sobre eles com o objetivo de fornecer à atividade do educador idéias que o orientem" (idem) . Se o papel do sociólogo é o de compreender a realidade, o do moralista (hoje diríamos, ideólogo) é de atuar sobre ela. Amparado por um sistema teórico, ele é um homem de ação, capaz de olhar para o futuro e orientar as decisões e os comportamentos. A concepção durkheimiana da práxis aproxima-se do conceito de organicidade de Gramsci. Os intelectuais são aqueles que se ocupam dos universos teóricos "intermediários", de concepções de mundo que lhes permitem concretizar uma determinada prática política. Neste sentido, Durkheim pode ser caracterizado como um "intelectual orgânico" da Terceira República. Seus cursos e sua produção na área da Pedagogia têm como meta inculcar uma "filosofia" junto àqueles que serão os agentes sociais (professores das escolas primárias e secundárias) da nova ordem. É dentro desta perspectiva que se justifica o ensino da História e da Filosofia na rede de ensino secundário e universitário. São disciplinas que devem ser ministradas com a finalidade de formar uma ideologia consensual em relação aos grandes temas da sociedades (25).

No entanto, "se os sociólogos nascem como intelectuais orgânicos da ordem", como afirma Florestan Fernandes (1980, p. 26), ou, se preferirmos a observação de Aron, se eles dialogam com o seu tempo, a atividade ideológica não coincide com a acadêmica. Há fronteiras, embora nem sempre claras, que delimitam territórios. O caminho das índias pressupõe a América, ou seja, continentes distintos. Em Durkheim vamos encontrar uma dupla estratégia: enquanto cientista ele se volta para a construção de um conhecimento específico, mas como sociólogo-pedagogo seus interesses possuem um cunho nitidamente ideológico. Há um distanciamento entre As Regras do Método Sociológico e "Introdução à Moral". Basta lembrarmos que as Regras terminam com a seguinte observação: "nós acreditamos que é chegado o momento de a sociologia renunciar ao sucesso mundano, ela deve assumir o caráter esotérico que convém a toda ciência. Ela ganhará, assim, em dignidade e autoridade o que perderá certamente em popularidade" (Durkheim, 1973a, p. 144) . Enquanto conhecimento autônomo, a sociologia deve voltar-se para um público restrito. L'Année Sociologique é o exemplo típico desta démarche. Afastando-se das demandas da sociedade, ela se implanta como uma empresa acadêmica. Tem-se a impressão de que Durkheim reserva seus estudos propriamente sociológicos para esta revista, e lança mão da Revue de Méthaphysique et de Morale, especializada em filosofia, para defender suas posições "moralistas" (26). Uma divisão de trabalho e de competência se instaura.

Não se pode esquecer ainda que, apesar do ambiente republicano favorecer as soluções ideológicas, a Sociologia é uma disciplina considerada como periférica. Se a compararmos com a Geografia e a Pedagogia, introduzidas já na década de 80, veremos que sua assimilação pelo sistema universitário não se faz sem dificuldades. Talvez porque essas duas áreas de conhecimento se vinculassem diretamente a preocupações de ordem prático-ideológicas. A Geografia, depois da guerra contra a Alemanha, tem um crescimento acelerado, na medida em que se torna necessário conhecer melhor os terrenos europeus. Ao lado disso, os geógrafos defendem os interesses comerciais e coloniais da França:

"Durante os anos de 1870, são fundadas nas principais cidades comerciais, sociedades de geografia que reuniam regularmente eruditos e homens de negócios. Essas sociedades financiavam expedições para descobrir fontes de matéria-

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prima e novos mercados. Elas procuram vulgarizar o conhecimento geográfico, ao mesmo tempo que defendem a missão colonial da França: Assim, em torno de 1880, existe toda uma rede institucional de sociedades, de revistas, de congressos nacionais e internacionais que fazempressão para que a geografia seja introduzida nas faculdades" ( Weiz, 1979, p. 85 ).

O desenvolvimento da Pedagogia encontra-se intimamente ligado ao projeto de ensino da Terceira República. Em 1882 é criada em Bordeaux uma cadeira de Ciência Social e da Educação, e no ano seguinte a cátedra Ciência da Educação, na Sorbonne. (Durkheim irá ocupar esses dois postos). Eu diria que, apesar do conservadorismo de Durkheim, de sua adesão explícita à política republicana, a Sociologia não é inicialmente percebida como uma ciência capaz de prestar de imediato um "serviço ideológico". Pelo contrário, a opinião corrente é a de que, de alguma maneira, ela se associa ao socialismo. Quando se cogita, por exemplo, implantar esta disciplina nas faculdades de Direito, Hauriou reage de maneira violenta mas significativa: "Entre todas as ciências, a sociologia é certamente a mais perigosa porque estuda a sociedade. [Portanto] como conseqüência [que dela decorre] temos as reformas sociais, se não forem as insurreições ou os atentados. Ora, é esta ciência mortal que querem ensinar nos grandes auditórios, inscrever nos programas curriculares" (apud idem, p. 91) .

Penso que esta posição marginal na ordem dos interesses ideológicos reproduz-se junto às universidades. A Sociologia é um produto da província, floresce em Lyon, Montpellier, Bordeaux, o que é um indicador da distância que a separa das prioridades centrais. Durkheim inicia sua carreira como "auxiliar de ensino" na Faculdade de Letras de Bordeux, não na Sorbonne. Certamente a nova disciplina conquista um espaço aberto a inovações, mas ele é subalterno dentro do sistema hierárquico intelectual. As ciências sociais sofrem uma crítica pesada do establishment filosófico, que se recusa a aceitá-las como uma área propriamente científica. As contestações incidem sobretudo em relação à sua pretensão de se constituir em um domínio sui generis do conhecimento.

Creio que existe ainda mais um elemento que recoloca a questão ideológica. Os primeiros cursos de Sociologia, impossibilitados de existir autonomamente, vêm mesclados com preocupações de natureza pedagógica. O projeto durkheimiano encontra-se, assim, num impasse. A proposta do L'Année Sociologique é justamente escapar das pressões políticas imediatas; o que interessa a seus membros é desenvolver um campo científico específico. Mas os estudos sobre moral novamente remetem esta Sociologia nascente de encontro às necessidades pedagógicas. A atitude de Durkheim é extremamente ambígua. Ao mesmo tempo em que busca legitimá-la cientificamente, tenta em vão institucionalizá-la com base na argumentação ideológica. Como a História e a Filosofia, a Sociologia deveria ser ensinada nas universidades como fundamento para a coesão social. No entanto, suas palavras não deixam de expressar uma certa frustração:

"o ensino sociológico deveria ter um lugar em todas as universidades, um lugar importante; ora, de fato, ele praticamente não é representado. Existe atualmente somente uma cadeira de Sociologia; ela foi criada em 1896 na Faculdade de Letras de Bordeaux. EmLyon, existe um curso municipal, e em Montpellier, um curso complementar. É verdade que no Collège de France, desde 1897 foi criada uma cadeira de Filosofia Social, que sob um nome diferente, poderia servir para o mesmo propósito; mas o Collège de France é umestabelecimento científico e não pedagógico" (Durkheim, 1976, pp. 183-4).

Escrito no condicional, o testemunho revela a incapacidade das ciências sociais de se imporem como institucionalmente legítimas. Por isso Victor Karady dirá que a estratégia durkheimiana sofre um semifracasso. Por um lado ela visava ao reconhecimento científico; por outro, buscava sua institucionalização dentro do sistema universitário francês. Somente o primeiro objetivo foi conseguido. Mal recebida pelos filósofos espiritualistas que dominavam a Sorbonne, questionada pelos professores de Direito que a consideravam "subversiva", algumas vezes confundida com a idéia de socialismo, suplantada pela Pedagogia na sua eficácia em preparar novos ideólogos, ela teve de se contentar com o estatuto acadêmico, seu público "esotérico" e uma pequena penetração no universo da legitimidade institucional. Mas foi talvez esta derrota que permitiu que suas fronteiras epistemológicas fossem estabelecidas melhor, assegurando-lhe uma

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continuidade posterior (27).

Notas

(*) Renato Ortiz - Professor da Universidade Estadual de Campinas ( Unicamp ) .

1 - Ver tambémLukes (1984 ) .

2 - Uma interpretação diferente pode ser encontrada emBesnard (1979 ) .

3 - Durkheim foi duramente atacado pelo católico Simon Déploige, o qual, a partir de uma visão xenofóbica, percebia a sociologia como uma importação germânica. Ver Durkheim (1975b ): "Deux Lettres sur l'Influence Allemande dans la Sociologie Française - Réponse a Simon Déploige" e "Controverse sur l'Influence Allernande et la Théorie Morale".

4 - Ver Durkheim(1975a) : "A Sociologia emFrança no Século XIX".

5 - Cf . Durkheim(1975b, p. 400 ) : "Note sur 1'Influence Allemande dans la Sociologie Française". A influência alemã junto

aos membros da equipe durkheimiana é grande (Simiand, Bouglé, Mauss). Halbwachs foi talvez um dos primeiros sociólogos franceses a "descobrir" Max Weber. Pode-se ter uma idéia desta presença alemã considerando-se o número de resenhas de livros feitas por L'Année Sociologique. Os autores alemães comparecem com38% de 1896-1900, 39% de 1901- 1909 e 46% de 1909 até o final da primeira série da revista. No mesmo período, temos, respectivamente, para autores anglo- saxônicos, 17, 20 e 22%; para franceses, 28, 29 e 27%; para outras nacionalidades, 18, 12 e 5%. Cf. Victor Karady (1979, p.

72).

6 - Durkheim(1975b ) : "La Sociologie selon Glumplowicz" (1885 ) e "Organisation et Vie du Corps Social selon Schaeffle" (1885 ) .

7 - Durkheim(1975a) : "Os Estudos de Ciência Social" (1886).

8 - Cours Public de Science Sociale: La Solidarité Sociale (1887-88 ) ; Cours Public de Sociologie: La Famille, Origines; Types Principaux(1888-89) ; Cours Public de Sociologie: Le Suicide (1889-90 ) ; Cours Public de Sociologie: Physiologie du Droit et des Moeurs (1890-91) ; Cours Public de Sociologie: La Famille (1891-92 ) ; Cours Public de Sociologie: La Sociologie Criminelle (1892-93).

9 - Sobre este tema, ver Eugen Weber (1976 ). Umlivro interessante que mostra a penetração dos valores republicanos na província francesa é o de Maurice Agulhon (1970).

10 - Ver Durkheim(1975b ) : "L'Etat Actuel des Etudes Sociologiques en France".

11 - Ainda sobre as reformas, ver Victor Karady (1983).

12 - Fabiani (1988) mostra como se dá o aumento de postos de professor de Filosofia, principalmente no secundário, assim

como a produção de livros de caráter filosófico.

13 - Durkheim (1966 ) : "Quid Secundatus Politicae Scientiae Institutandae Contulerit" (Contribution de Montesquieu à la

Constitution de la Science Sociale).

14 - Durkheim (1975b, p. 127) afirma que o exemplo de Comte "pode servir, em razão de seu caráter filosófico, embora a

filosofia que ele edificou não é em momento algum satisfeita pelas condições que ele mesmo exigia de toda ciência positiva".

15 - Ver Nisbet (1965 e 1969). Sobre o individualismo, ver ainda Filloux(1975 ) .

16 - Um texto interessante que mostra a importância da discussão de Durkheim com os historiadores, inclusive como

referência para a fundação da escola dos Annales é o de Marc Ferro (1987).

17 - Na própria definição de fato social esta condição encontra-se contemplada: "é fato social toda maneira de fazer, fixada

ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma imposição exterior; ou ainda, que é geral na extensão de uma sóciedade dada, tendo ainda uma existência própria, independente de suas manifestações individuais". Cf. Durkheim(1973a, p. 14). A idéia da generalidade, que se contrapõe à de acaso, é fundamental para a definição do "tipo médio" que configura a normalidade dos fenômenos sociais:

18 - Ver ainda Clark (1967 ) .

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19 - Victor Karady (1979, p. 65 ) afirma que entre 1830-1870 o número de "sociétés savantes" pode ser estimado em 120;

entre 1870-1914, ele cresce para 300.

20 - Ver, ainda, Durkheim(1975b): "La Sociologie et les Sciences Sociales: Confrontation avec Tarde".

21 - Ver a caracterização que o autor faz do grupo criminologista em Durkheim (1975b ) : "L'Etat Actuel des Etudes

Sociologiques en France".

22 - Ver Durkheim (1975b): "La Science Positive de la Morale en Allemagne" (1887); a primeira introdução do livro De la

Division du Travail Social, "Définition du Fait Moral" (1893 ), e Durkheim(1975c ) : "Introduction à la Morale" (1917).

23 - Ver Durkheim (1975c ) : "Débat sur les Rapports entre les Idées Egalitaires et la Rationalité de la Morale". Sobre a

negação da idéia de umprogresso moral, ver Durkheim (1975b ) : "Une Confrontation entre Bergsonisme e Sociologisme: Le Progrès Moral et la Dynamique Sociale".

24 - Ver Durkheim(1975c): "Débat sur le Fondement Religieuxou Laïque à Donner à la Morale".

25 - Ver Durkheim(s./d. e 19754: "L'Enseignement Philosophique et l'Agrégation de Philosophie".

26 - E importante ter claro que, nesta época, a filosofia é menos uma atitude reflexiva (Bergson é uma exceção) do que um

aparato da Terceira República. Dela Paul Nizan (1976, p. 90) dirá: "A Filosofia francesa, tirando alguns franco-atiradores, é uma instituição pública. As idéias filosóficas estão numa situação privilegiada. Elas possuem, para se exprimir e se difundir, um verdadeiro aparelho de Estado. Como a justiça. Como a polícia. Como o Exército. Elas são uma produção da universidade, se bemque tudo se passa como se a filosofia inteira fosse nada reais do que uma filosofia do Estado".

27 - A partir da década de 20, o destino da Sociologia se transforma. Uma clara divisão instaura-se dentro do antigo grupo

do L'Année Sociologique. Uma vertente, mais acadêmica, composta por Mauss, Simiand, Granet e Halbwachs, trabalha com pequenos grupos de estudantes na Ecole Pratique des Hautes Etudes e no Instituto de Etnologia. A outra, da qual fazem parte Georges David, Fauconnet, Bouglé e Parodi, procura difundir a Sociologia como doutrina filosófica a ser ensinada nas escolas. Esses últimos são os responsáveis pélas cartilhas sociológicas e pelo ensino rotinizado das ciências sociais, cujo objetivo primeiro seria legitimar a ordem intelectual e social. Significativamente, Paul Nizan irá chamá-los de "chiens de Barde" do aparelho de Estado. Ver o intéressante artigo de Johan Heilbron (1985 ) .

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