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PARTÍCULAS FANTASMAS

04-11-2007

FÍSICA - ASTROFÍSICA

+ Marcelo Gleiser

Partículas-fantasmas

MARCELO GLEISER,
é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover
(EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

Seu corpo é atravessado por trilhões deles por segundo sem


que você se dê conta

Todo fantasma que se preze é capaz de atravessar paredes.


Provavelmente, isso significa que ele é feito de algum material que
não interage com a matéria comum, feita de prótons, nêutrons e
elétrons. O estranho é que, mesmo assim, fantasmas podem
deslocar móveis, fazer barulho e outros efeitos que dependem de
sua interação com a matéria. Bem, talvez seja por isso que sejam
entidades "sobrenaturais"; de naturais realmente elas não têm
nada.

Existem, no entanto, objetos perfeitamente naturais que também


podem atravessar paredes. São os neutrinos, as partículas mais
exóticas da natureza, pelo menos das que conhecemos até agora.
Sua história, desde que foram propostas até sua descoberta em
experimentos, e as últimas surpresas que andam pregando nos
físicos (que veremos numa outra semana), ilustra bem algo de que
é sempre bom lembrar: a ciência é uma narrativa em andamento,
que vai se aprimorando aos poucos, à medida que aprendemos
mais sobre o mundo.

Durante as primeiras duas décadas do século passado, várias


descobertas sobre o núcleo atômico revelaram que os átomos
podem se transmutar uns nos outros, realizando espontaneamente
o sonho dos alquimistas. Infelizmente, não era o chumbo que se
transmutava em ouro, mas átomos mais pesados, como o urânio,
ditos radioativos por emitirem radiação.

Dos três tipos de radiação emitidos pelos núcleos de átomos


radioativos, um deles, chamado de radiação beta, era
particularmente misterioso. Sabia-se que a radiação beta tinha
carga elétrica negativa; logo ficou claro que os raios beta eram
elétrons sendo ejetados pelo núcleo. Todavia, sabia-se que o núcleo
era eletricamente positivo. De onde vinham esses elétrons com
carga negativa? E sua energia?

A situação era exasperadora. Alguns físicos, como o grande Niels


Bohr, chegaram até a sugerir que a lei de conservação de energia
fosse abandonada. A solução foi oferecida por Wolgang Pauli em
1930: "Tenho uma solução desesperada, a possibilidade de que
exista no núcleo uma partícula sem carga elétrica que é ejetada
com o elétron". A partícula ficou conhecida como "neutrino", ou seja,
um nêutron (o companheiro do próton no núcleo, descoberto em
1932) pequenino.

Ficou claro que o decaimento beta é, na verdade, a desintegração


de um nêutron num próton, num elétron e num neutrino (mais
precisamente um "antineutrino", mas vamos deixar isso de lado).
Note que a carga elétrica é a mesma antes e depois da reação
[zero = (+) + (-) + zero]. O neutrino garante, também, a conservação
de energia.

Apenas em 1956 o neutrino foi descoberto. A demora se deveu às


estranhas propriedades dessa partícula. Para ser detectada, uma
partícula precisa interagir com um detector. Por exemplo, você só
enxerga porque seus olhos podem detectar os fótons, as partículas
da luz. No caso dos neutrinos, sua interação com partículas de
matéria como elétrons é tão fraca que eles são capazes de
atravessar paredes, pessoas e até mesmo planetas inteiros sem
uma única interação.

Seu corpo é atravessado por trilhões deles por segundo sem que
você se dê conta!

Por isso, os neutrinos são chamados de partículas-fantasmas.

De onde vêm esses neutrinos todos?


A maioria vem do centro do Sol, onde temperaturas de 15 milhões
de graus Celsius são capazes de fundir hidrogênio em hélio,
produzindo também neutrinos em abundância: ao menos na física,
os fantasmas vêm da luz e não das trevas.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth
College, em Hanover (EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0411200702.htm