You are on page 1of 137

OS SETE PECADOS CAPITAIS

Alfeu Trancoso Audemaro Taranto Goulart Eneida Maria de Souza João Carlos Lino Gomes Márcia Marques de Morais Melânia Silva de Aguiar Tânia Maria Ferreira de Souza

OS SETE PECADOS CAPITAIS

Alfeu Trancoso Audemaro Taranto Goulart Eneida Maria de Souza João Carlos Lino Gomes Márcia Marques de
Alfeu Trancoso Audemaro Taranto Goulart Eneida Maria de Souza João Carlos Lino Gomes Márcia Marques de

Belo Horizonte

2001

Copyright © 2001 by Os autores

Coordenação da Coleção

Haroldo Marques e-mail: extcult@pucminas.br

Coordenação Editorial Cláudia Teles e-mail: teles@pucminas.br

Capa

Jairo Alvarenga Fonseca

Editoração eletrônica

Waldênia Alvarenga Santos Ataide

Revisão de textos

Olga Maria Alves de Sousa

S495

Os sete pecados capitais / Alfeu Trancoso Horizonte: Autêntica : PUC Minas, 2001. 136p. (Coleção Convite ao pensar, 1)

...

[et al.]. — Belo

ISBN 85-86583- 92-8

1. Pecados capitais. 2. Pecado - Aspectos morais e éticos. 3. Virtudes. I. Trancoso, Alfeu. II. Pontifícia Uni- versidade Católica de Minas Gerais. III. Título. IV. Série.

CDU 241.44

2001

Direitos adquiridos para a língua portuguesa pela PUC Minas

PUC Minas

Av. Dom José Gaspar, 500 - Coração Eucarístico 30535-610 – Belo Horizonte – MG Fone: (31) 3319-4271 – Fax: (31) 3319-4129 e-mail : proex@pucminas.br

Autêntica Editora

Rua Januária, 437 - Floresta 31110-060 – Belo Horizonte – MG PABX: (55 31) 3423 3022 www.autenticaeditora.com.br e-mail : autentica@autenticaeditora.com.br

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

Haroldo Marques

7

SOBERBA, O PECADO DO CAPITAL?

Tânia Maria Ferreira de Souza

11

A AVAREZA NA LITERATURA:

A PAIXÃO DE TERATRAVÉS DOS TEMPOS

Melânia Silva de Aguiar

27

A LUXÚRIA

Alfeu Trancoso

53

A IRA

Audemaro Taranto Goulart

61

A GULA: PECADO CAPITAL OU PECADO SOCIAL?

Márcia Marques de Morais

89

A INVEJA

João Carlos Lino Gomes

109

AI! QUE PREGUIÇA!

Eneida Maria de Souza

119

SOBRE OS AUTORES

135

Coleção Convite ao pensar

66666

APRESENTAÇÃO

Haroldo Marques

Toda religião oferece explicações sobre a ori- gem, por que os homens são mortais e o apareci- mento do mal. A mitologia grega visualizava para o imaginário dos homens o Khaos produtor do universo e do tempo, a genealogia dos deuses, e o nascimento dos mortais. Os homens tinham bem claro as regras de sua religião que se confundiam com a vida em sociedade e mantinham os laços políticos. Assim, a falta de um indivíduo reper- cutia sobre toda a comunidade. Sua punição era um alívio para o corpo coletivo. Essas faltas eram atos visíveis, isto é, ao alcance de todos, e perce- bidas como ir reverência aos deuses. O faltoso sentia vergonha de seu ato e era considerado um impuro pelos outros. Havia a necessidade de pu- rificação, com cerimônias religiosas para apla- car a ira dos deuses.

No mundo cristão, a falta ou crime é uma trans- gressão. Mas a nova religião introduz o conceito de liberdade individual. A vontade do homem é a instância máxima que decide pelos seus atos. De- samparado, impedido de alegar a força do desti- no, o homem é forçado a assumir os seus atos e se responsabilizar por eles. A maior mudança, porém, é o sentimento de culpa, resultado de uma punição

77777

Coleção Convite ao pensar

que agora se dá no interior do próprio homem. A lei está definitivamente internalizada, inscrita no coração do indivíduo.

Quando o projeto “Convite ao pensar”, da PUC Minas, organizou as conferências sobre os “Sete Pecados Capitais”, matéria deste livro, tinha como objetivo o estudo e a discussão de temas que fa- ziam parte de nossa cultura ocidental, marcada- mente cristã, e que fundamentavam as ações e pensamentos dos dias atuais. Longe de serem con- siderados assuntos puramente religiosos, os pe- cados estão mais integrados do que nunca ao nosso cotidiano. Eles agora fogem do domínio re- ligioso para serem louvados ou vituperados pelo homem moderno. Modernidade que se traduz pela inscrição da pessoa em novo tecido – o mer- cado econômico e as novas relações que remode- larão a idéia que tínhamos dos pecados.

Tanto a antiga definição cristã como a per- cepção moderna de pecado nos mostram que to-

dos eles se referem diretamente ao corpo do indivíduo. O corpo é o local onde o pecado se ins- tala e está ali como doença que o corrói. Senão vejamos a ordem pela qual eles se hierarquizam:

  • 1. Soberba; 2. Avareza; 3. Luxúria; 4. Ira; 5. Gula;

  • 6. Inveja; 7. Preguiça. Mesmo a inveja, que é defi-

nida como a vontade ou o desejo de que o corpo do outro seja ferido ou prejudicado, não se refe- re diretamente ao corpo do pecador. Mas se ob- servarmos atentamente veremos que o invejoso, que atua sobretudo no pensamento, volta-se con- tra si, dilacerando seu próprio corpo, corrompen- do-se pela inveja.

As abordagens aqui apresentadas se permiti- ram ampla liberdade de interpretação, mesmo por- que o que consideravam vícios ou pecados podem

88888

Apresentação

assumir os encantos das virtudes, sem negar-lhes o valor mas sem desconhecermos os atrativos do proibido. O esforço pedagógico, levado pelos mis- sionários e pregadores para a divulgação do cris- tianismo e o controle das almas, empresta aos pecados uma dimensão de grandiosidade e oni- potência. Frutos do mal que se fixavam nos olhos dos homens pela presença, do diabo na arte, na literatura, na música, nas cerimônias etc. O horror ao diabo que dominava as consciências piedosas trouxe consigo o aparecimento do prazer estético com o mal. Para muitos, os pecados, por estarem tão próximos ao corpo, são ocasião de novas e ini- magináveis experiências. O tempo, este sábio mes- tre, nos ensina que os vícios podem hoje ser uma forma de virtude. Vícios privados se transformam em instrumentos de benefícios públicos.

99999

Coleção Convite ao pensar

1010101010

SOBERBA, O PECADO DO CAPITAL?

Tânia Maria Ferreira de Souza

Como recurso metodológico buscou-se uma

estrutura de análise que privilegiasse três aborda-

gens, consideradas fundamentais:

1 a ) Conceitual:

Conceitual: O que é soberba? O que é pe-

Conceitual:

Conceitual:

Conceitual:

cado? O que é capital?

2 a ) Filosófica

Filosófica eeeee Conceitual

Filosófica Filosófica Filosófica

Conceitual:

Conceitual

Conceitual

Conceitual Qual a relação his-

toricamente determinada entre o vocábulo soberba

e o significado do capital? No contexto da História

das Idéias, buscar entender como a revolução de

valores, ocorrida no Ocidente cristão, no alvorecer

da era moderna, impactou o significado de ambos

vocábulos.

3 a ) Socioeconômica

Socioeconômica

Socioeconômica

Socioeconômica:

Socioeconômica

No âmbito das aborda-

gens filosófica e conceitual, tentar vislumbrar os

efeitos do vocábulo soberba nas relações entre éti-

ca e economia.

CCCCCONCEITU ONCEITU ONCEITU ONCEITU AL

ONCEITUAL

AL

AL

AL

a) Soberba: Abbangnano (1982) nos brinda com

esta definição de soberba: o vício corresponde à

virtude da magnanimidade, uma “ virtude” que,

segundo Aristóteles, consiste em desejar grandes

honras e em ser digno delas. Diz Aristóteles, se-

gundo a referida fonte: “Os soberbos são insensatos

1111111111

Coleção Convite ao pensar

porque se enganam sobre si mesmos: empreendem

tarefas honradas e acreditam que são dignos delas,

mas fazem assim resultar só a própria insuficiência”. 1

Note-se aqui, no campo conceitual, a proposi-

tura de um dilema: Vício x Virtude, cuja manifes-

tação remete ao recurso da contraposição com sua

antítese ou seja a humildade. Para tal, as questões

162 e 163 da Suma Teológica de Santo Tomás de

Aquino, que tratam da soberba e de seu caráter de

pecado ou não, são esclarecedoras: Segundo ele,

a soberba é a própria excelência, que se aparentemen- te é a aspiração a imitar a grandeza de Deus, real- mente é a transgressão da medida em que devemos desenvolver nossa elevação. A soberba é um afã de glória com desprezo da grandeza e glória de Deus, a quem se nega a servir. Nos encontramos ante um pecado bem concreto e determinado, capaz de criar um vício especialíssimo. 2

Segundo a visão tomista, o caráter único da

soberba é o modo formal de buscá-la, daí a distin-

ção entre ela e os vícios da presunção, da ambição

e do afã de glória. Todos consistem em aspirar gran-

deza, mas, enquanto os outros vícios podem exis-

tir em menor escala, a soberba é o desejo de excelência

pessoal, não somente de excelência em dignidade,

fama e riquezas. Como diz Santo Tomás de Aquino

“Se a humildade é, em certo sentido, fundamento

de todo o edifício espiritual, a soberba é o verme

que o destrói”. 3

Nesse âmbito e buscando entender a contra-

posição supramencionada, ressalta-se no texto em

questão a importância de se discutir o caráter da

soberba; uma vez tratada como pecado, qual o seu

grau de gravidade? Santo Tomás de Aquino, ao

questionar se ela constitui o maior dos pecados,

busca uma visão absoluta e outra relativa:

1212121212

Soberba, o pecado do capital? – Tânia Maria Ferreira de Souza

Em conclusão, convém fazer uma distinção em tor- no da soberba: de si mesmo, constitui pecado gra- ve; e se considerado seu aspecto de aversão, é ela o mais grave de todos eles; mas, do ponto de vista da conversão, não o é, porque há outros, como ódio a Deus, que especificamente são mais graves. A pro- eminência da soberba sobre todos os vícios é, pois, de ordem acidental, a proeminência do ódio a Deus e demais pecados teológicos é de ordem específica e essencial. 4

Nesta passagem, entende-se que a soberba, se

considerada enquanto conversão choca-se com sua

própria essência, seu objeto de desejo – a própria

excelência – por desejar se assemelhar ao AMOR;

na aversão, está a fuga de Deus, de sua perfeição e

de suas leis. Daí ser considerada um vício que pode

corromper os atos aparentemente bons, destruin-

do seus méritos e alimentando a vida espiritual de

uma dieta perversa, ao afastar o homem de Deus,

por impedi-lo de submeter-se ao seu ditame: “Atri-

buir a si mesmo os bens que possui, crer que os

tenha recebido pelo próprio mérito, gabar-se de

bens que não possui e desejar aparecer como úni-

co possuidor dos mesmos”. 5

Essa citação enseja o aspecto central da sober-

ba, muito explorado na Bíblia, quando se opõe ri-

queza e pobreza. Na ótica da soberba dos ímpios,

opressores dos pobres, Lacan (1984) cita algumas

passagens curiosas:

Mesmo em Israel, pode a soberba produzir frutos de opressão e impiedade. A Lei prescrevia a bonda- de para com os fracos (Ex 22, 21-27) e instava o rei a não se ensoberbecer, quer acumulando demais pra- ta e ouro, quer se elevando acima de seus irmãos (Dt 17, 17-20). Para enriquecer, o soberbo não hesita em esmagar o pobre cujo sangue paga o luxo do rico (Am 8, 4-8; Jr 22, 13ss). Aos fariseus, que têm no cora- ção a soberba e o amor do dinheiro, lembra Jesus que

1313131313

Coleção Convite ao pensar

não se pode servir a dois senhores: quem se apega à riqueza só pode desprezar a Deus. 6 (Lc 16, 13ss)

Um sentido forte da noção de “pecado” ema-

na de forma cristalina dessas citações bíblicas – o

desprezo do pobre constitui o desprezo de Deus e

de sua justiça. Nesse contexto, onde está a media-

ção entre o divino e o humano? Para tal, passemos

à segunda etapa deste desafio – definir o pecado.

b) Pecado: Segundo Abbangnano (1982), peca-

do é “a transgressão intencional de um mandamento

divino. O termo tem uma conotação prevalentemen-

te religiosa: pecado não é a transgressão de uma

norma moral ou jurídica e sim a transgressão de

uma norma que se julga imposta ou estabelecida

pela divindade”. 7

O conceito foi elaborado pela teologia cristã,

segundo a mesma fonte, nesses termos, e definido

por Santo Agostinho como “o que é dito ou feito

ou desejado contra a lei eterna, entendendo como

lei eterna a vontade divina que é dirigida para a

conservação da ordem no mundo e para fazer de

forma que o homem deseje mais o bem maior e

menos o bem menor”. 8 (Contra Faustum, XXII, 27)

No âmbito estritamente religioso, a soberba

constitui um pecado no sentido em que cultivá-la

significa inevitavelmente a fuga dos preceitos di-

vinos, a nítida transgressão das leis de Deus; a

citação bíblica transcrita acima é clara: Não se

pode servir a dois senhores, pois a soberba e o

amor ao dinheiro no coração afastam o homem

de Deus: “Quem se apega à riqueza só pode des-

prezar a Deus.”

Insistindo na mediação entre o humano e o

divino, deparamos novamente com o conceito de

riqueza. O que é riqueza? O que é capital? Eis a

terceira etapa de nosso desafio.

1414141414

Soberba, o pecado do capital? – Tânia Maria Ferreira de Souza

c) Capital: Segundo Sandroni (1985), “é um

dos fatores de produção formado pela riqueza (gri-

fo nosso) e que gera renda. É representado em di-

nheiro. O capital também pode ser definido como

todos os meios de produção que foram criados

pelo trabalho e que são utilizados para a produ-

ção de outros bens”. 9

A partir da definição de Sandroni (1985) e con-

siderando uma visão clássica da História das Idéias

Econômicas, pode-se construir a seguinte evolução

do conceito de capital:

1) Período do Desenvolvimento Comercial da

Idade Média: designava-se capital a quan-

tia de dinheiro com que se iniciava qualquer

atividade comercial (as feiras favoreceram

a criação de novas formas de escrituração

mercantil para o controle de negócios);

2) Após os grandes descobrimentos: o uso do

capital foi se consolidando e seu significado

sendo ampliado: podia representar o acervo

das companhias comerciais ou as parcelas de

dinheiro com que os associados contribuíam

para a formação de uma companhia (ressal-

te-se, nesta fase, que a noção de riqueza para

os teóricos do mercantilismo era ainda está-

tica, em termos genéricos, baseada numa vi-

são metalista, sustentada pela tese da balança

comercial favorável);

3) A escola fisiocrática, na França de meados

do século XVIII, restringe a sua visão de ri-

queza apenas à agricultura, visão esta sus-

tentada pela tese peculiar da exclusiva

produtividade do trabalho agrícola; a noção

de capital é incorporada à teoria, através da

definição, por seu mais ilustre representante

1515151515

Coleção Convite ao pensar

François Quesnay, dos chamados avanços

primitivos (ou adiantamentos primitivos)

e avanços anuais (ou adiantamentos anuais),

respectivamente algo próximo de capital

fixo e circulante, que constituíam em seu

Tableau Economique a parcela de gastos do

arrendatário capitalista para mover a má-

quina econômica;

4) Adam Smith apontou diferenças entre o ca-

pital social e o capital individual; da totali-

dade das riquezas humanas, uma parte é

utilizada para suprir suas necessidades in-

dividuais; outra pode ser utilizada para se

obter renda ou lucro. A parcela destinada à

obtenção de renda constitui capital;

5) Outro autor da chamada Economia Clássica

introduziu mudanças nesse conceito: para

Stuart Mill, capital é a provisão acumulada

do produto do trabalho que fornece abrigo,

proteção, ferramentas e materiais para a rea-

lização do processo produtivo, além de sub-

sistência aos trabalhadores envolvidos;

6) Na teoria marxista, capital é o resultado da

acumulação de mais-valia, obtida pelos em-

presários pela exploração do trabalho de

seus operários ou empregados;

7) Para a corrente marginalista, capital é o con-

junto de bens destinados a servir para a pos-

terior produção, podendo ser considerado

como o conjunto dos bens intermediários.

Como relacionar, então, soberba e capital?

Uma vez que a noção de capital não só inte-

gra a noção de riqueza mas permite gerar mais

riqueza ou seja sua acumulação, entende-se que

a cobiça, enquanto ambição desmedida de

bens materiais, alimenta a soberba em seu afã

1616161616

Soberba, o pecado do capital? – Tânia Maria Ferreira de Souza

de glória e grandeza. Nesse âmbito, portan-

to, a cobiça permite a mediação com o capi-

tal, corroborada na análise conceitual da

soberba pela seguinte citação bíblica: “A lei

prescrevia a bondade para com os fracos e

instava o rei a não se ensoberbecer, quer acu-

mulando demais prata e ouro, quer se elevando acima de seus irmãos”. 10 (grifo nosso)

ILOSÓFICA EEEEE CCCCCONCEITU ONCEITU ONCEITU ONCEITU AL

FFFFFILOSÓFICA

ILOSÓFICA

ILOSÓFICA

ILOSÓFICA

ONCEITUAL

AL

AL

AL

A Idade Média pouco produziu sobre as ques-

tões estritamente de economia e finanças e seus

registros restringiram-se a alguns comentários de

teologia moral e a alguns escritos anônimos sobre

as moedas.

Os doutores da Igreja decerto comentaram abundan- temente as passagens da Suma Teológica, onde Santo Tomás trata do roubo, da fraude comercial e do empréstimo a juros, mas sem nada acrescentar real- mente. Os conselheiros dos príncipes discutiram moedas e mutações, mas sem nada explicar dos mecanismos dos câmbios e dos preços. 11

Segundo Deyon (1973), somente com as trans-

formações socioeconômicas do século XVI é que

nasce uma reflexão fecunda. Tais transformações,

que abrangeram desde a expansão do comércio,

os grandes descobrimentos, o renascimento, o ad-

vento da reforma protestante, até a transição da

sociedade tradicional para a sociedade moderna –

leia-se do feudalismo para o capitalismo –, culmi-

naram no surgimento de uma nova dimensão de

relações sociais: as relações entre homens e coisas

tornam-se mais importantes que as relações entre

os próprios homens. Numa nova perspectiva

social, a riqueza móvel assume um caráter autôno-

mo e, com ela, o domínio que o indivíduo mostrasse

1717171717

Coleção Convite ao pensar

capaz de exercer sobre as coisas. 12 Através dessa in-

versão, Bianchi (1988) ressalta a aquisição de pri-

mazia do econômico sobre o político, possibilitando

o surgimento de uma ciência voltada para a in-

vestigação do fenômeno econômico. Nesse âmbito,

a revolução de valores em curso permite uma “sur-

preendente transformação da cena ideológica e

moral” (HIRSCHMAN citado por BIANCHI, 1988), de-

senhando um cenário onde o interesse, o amor ao

ganho, o desejo de obter vantagens econômicas pas-

saram a figurar como paixões “razoáveis” – “pai-

xões consideradas menos pecaminosas, ou

moralmente mais toleráveis, seriam usadas para

fazer frente a paixões mais avassaladoras em seus

efeitos”. 13 Tais paixões, submetidas agora ao crivo

da razão, estabelecem com o interesse econômico

uma relação de adequação, por reforçarem as van-

tagens de um mundo governado pelo interesse –

constância e previsibilidade permitem uma situa-

ção de relativo equilíbrio e estabilidade (HIRSCHMAN

citado por BIANCHI, 1988). “Por esse caminho, a socie-

dade ocidental passou a admitir que a persistência

e constância eram qualidades inerentes à paixão pelo

dinheiro. 14 (grifo

nosso)

O protestantismo reforça este processo de de-

sencantamento do mundo, onde o homem se liber-

ta do caráter destrutivo de paixões inerentes à sua

natureza, que o fragilizavam diante da eterna pos-

sibilidade da ameaça de danação eterna. A aceita-

ção do interesse como motor de suas ações confere

legitimidade à sua relação com a riqueza, e a mu-

dança de atitude em relação à atividade comercial e

à própria atividade de ganhar dinheiro são inevitá-

veis. Emerge o homo economicus e com ele a inofen-

sividade da busca do interesse, galgada, a partir de

então, num comportamento individualista, maximi-

zador e utilitarista que conduz inevitavelmente ao

1818181818

Soberba, o pecado do capital? – Tânia Maria Ferreira de Souza

desejo de satisfação e riqueza. Nesse contexto, en-

tende-se que o caráter pecaminoso do vocábulo so-

berba sofre seu primeiro golpe, enquanto relação

antitética com a busca de riqueza.

Um segundo momento dessa revolução de va-

lores pode ser buscada na influência de uma cor-

rente de filósofos do século XVIII, agrupados sob

o rótulo de “filósofos moralistas” ou “filósofos éti-

cos”, cuja produção intelectual, voltada para o es-

tudo dos componentes éticos e normativos do

comportamento humano, viabilizou a reconcilia-

ção entre egoísmo e altruísmo. A contribuição mais

relevante dessa corrente está num ponto em comum:

“A admissão de que a auto-estima (o interesse, ou

outros vocábulos que designam a preocupação do

indivíduo com o próprio bem-estar) não é, em prin-

cípio, incompatível com a benevolência ou com con-

dutas pautadas pelo desejo de favorecer outras

pessoas”. 15 Dado o caráter desta palestra e o tem-

po exíguo para incursões teóricas mais profundas,

serão objeto de rápida análise dois desses filóso-

fos, cujas idéias conferiram ao vocábulo interesse

um novo status moral.

Mandeville (1670-1733), em sua famosa Fábula

das abelhas, 16 revela seu ponto de vista no próprio

subtítulo da obra: vícios privados, benefícios pú-

blicos. Sua análise polêmica confere à luxúria e por-

tanto, ao consumo, a condição de mola propulsora

do comportamento humano e da vida econômica

em geral. Para ele, segundo Bianchi (1988), a luxú-

ria apresenta-se na espécie humana, como quali-

dade inerente e extremamente útil, na medida em

que, ao lado da vaidade e da inveja, encoraja a pro-

dução de bens e dá emprego à massa trabalhadora.

A primazia do econômico é perceptível e ratifica a

inversão de valores já discutida anteriormente.

1919191919

Coleção Convite ao pensar

O outro filósofo em questão seria Adam Smith

(1723-1790), cuja Teoria dos sentimentos morais, pu-

blicada em 1759, reconstrói os fundamentos da na-

tureza humana, principalmente sua capacidade de

formular juízos morais sobre o comportamento. O

interesse também é o fundamento de sua constru-

ção mental e ele não discorda de Mandeville quan-

to à importância do interesse como motivação da

conduta. Antes mesmo, segundo Bianchi (1988),

questiona a possibilidade do interesse dar origem a

uma conduta condenável ou a sentimentos de “amor

à verdadeira glória e à demanda de bens de luxo” –

leia-se SOBERBA. Se emergentes no ser humano

numa intensidade superior à recomendada, seriam

viciosos; se guiados pela razão, poderiam levar a

condutas razoáveis. Para Smith, tais paixões, a prin-

cípio vícios para Mandeville, seriam expressões le-

gítimas de propensões naturais humanas. Sobre tal

questão, Bianchi resgata dois momentos fundamen-

tais da obra de Smith, ao referir-se às relações do

homem com a riqueza:

Ora, a vaidade baseia-se no desejo de chamar a atenção alheia e merecer sua aprovação e simpa- tia. O homem rico orgulha-se de sua riqueza, pelas vantagens que ela lhe proporciona do ponto de vis- ta de atrair os olhares de todos. 17

Faz parte dos sentimentos do homem, diz Smith, buscar o enriquecimento. Mas, qual é o objetivo da avareza, da ambição, da procura de riqueza e pres- tígio, em suma? Será atender às necessidades na- turais? Ora, responde, o salário do trabalhador mais modesto pode atender a tais necessidades, forne- cendo-lhe alimento e vestuário, além do conforto de uma casa e de uma família. Mas o homem po- bre envergonha-se de sua condição. Não só por- que ela não o distingue entre os seus seme lhantes, como também porque não desperta simpatia ou comiseração. 18

2020202020

Soberba, o pecado do capital? – Tânia Maria Ferreira de Souza

A despeito de sua ótica classista, revelada em

sua adesão aos princípios burgueses, Smith deu ao

interesse e ao egoísmo uma dimensão socialmente

positiva, conseguindo atribuir a tais sentimentos a

condição de parte integrante da natureza huma-

na. Estariam tão arraigados na natureza humana

como o desejo de glória e de riqueza. Em sua obra

magna de 1776, A Riqueza da Nações, ele retoma sua

perspectiva da Teoria, reforçando o caráter dessas

paixões como inerentes, ou originais, ao homem:

Não é da benevolência do açougueiro, do cervejei- ro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio in- teresse. Dirigimo-nos não à sua humanidade, mas à sua auto-estima, e nunca lhes falamos das pró- prias necessidades, mas das vantagens que advi- rão para eles. Ninguém, a não ser o mendigo, sujeita-se a depender sobretudo da benevolência dos semelhantes. 19

Mas o desejo que propende à poupança é o desejo de melhorar nossa condição, um desejo que, embo- ra em geral calmo e apaixonado, vem conosco des- de o ventre materno e não nos deixa senão no túmulo. Em todo o intervalo de tempo que separa estes dois momentos, há talvez poucos instantes em que o homem se sente tão perfeita e completamente satisfeito com sua situação que não queira alteração ou melhoria de qualquer sorte. Um aumento de for- tuna é o meio pelo qual a maior parte dos homens propõe e deseja a melhoria de sua condição. 20

Posto isto, entende-se que o desejo de glória e

riqueza e portanto a soberba, objeto da presente

análise, pode estar presente em todas as socieda-

des humanas e permear as relações humanas, dado

o fascínio original do homem pelo prestígio e pela

fortuna. Como diz Giannetti da Fonseca (1993), de

forma extremamente oportuna: “A pregação dos

moralistas antigos e medievais, por sua vez, mos-

trou-se impotente para alterar a escala de valores

2121212121

Coleção Convite ao pensar

dos indivíduos ou refrear o desejo da maioria dos

jogadores de melhorar de vida”. 21 Assim sendo, e

dado o caráter controverso da relação causal entre

religião e prática econômica, busca-se – mesmo que

por tentativa – a mediação ética entre a ambição ma-

terial, enquanto conduta inerente ao ser humano, e

seu resultado prático no campo da conduta indivi-

dual. Passemos, então, à última etapa deste desafio.

SSSSSOCIOECONÔMICA

OCIOECONÔMICA

OCIOECONÔMICA

OCIOECONÔMICA

OCIOECONÔMICA

As reflexões aqui não são originais, no sentido

que serão feitas à luz da visão de Giannetti da Fon-

seca (1993), cuja lucidez e consistência demonstra-

da ao escrever sobre a ética na riqueza das nações

fazem-no o melhor guia. Um ponto de partida ade-

quado é a admissão de que a existência simultânea

da escassez e da escolha constitui-se um fato da con-

dição humana. “Qualquer sistema econômico re-

presenta uma resposta aos desafios da escassez e da

escolha. Os indivíduos possuem necessidades e de-

sejos de consumo, mas não existem recursos para

satisfazê-los integralmente.” 22 Isto significa que os

seres humanos se deparam, na maior parte das ve-

zes, com escolhas difíceis porque não habitam o pa-

raíso. Como diz Buchholz (1989):

O mundo não flui com leite e mel. Nós temos de escolher entre um ar mais puro e carros mais rápi- dos, entre casas maiores e parques maiores, mais trabalho e mais lazer. Os economistas não nos fa- lam que qualquer uma destas escolhas é ruim. Eles somente nos dizem que nós não podemos necessa- riamente ter todas elas – pelo menos todas de uma só vez. Economia é a ciência da escolha. Ela não nos fala o que escolher. Ela somente nos ajuda a enten- der as conseqüências de nossas escolhas. 23

Tal questão foi levantada pelo fato de que, não

sendo auto-suficientes em termos da produção dos

2222222222

Soberba, o pecado do capital? – Tânia Maria Ferreira de Souza

bens ou víveres necessários à sobrevivência e sen-

do tais bens escassos, surge o que Giannetti da

Fonseca (1993) chamou do problema da coordena-

ção ou seja a busca de mecanismos de ajuste dos

diferenciados interesses da sociedade, que se cons-

telam no espaço eleito da sociabilidade mercantil

– o mercado. Neste âmbito, faz-se mister invocar

novamente o filósofo, cuja teoria econômica cons-

tituiu o berço da formulação e do tratamento mo-

derno deste problema da coordenação. Em sua obra

A riqueza da nações, de 1776, ele transforma o inte-

resse individual – o desejo de cada um obter mais

pelo que faz e melhorar de vida – no principal agen-

te que conduz da escassez à opulência universal.

Como já mencionado anteriormente, não há nesse

desejo nenhuma contradição em si, para o filóso-

fo, uma vez que nos acompanha desde o útero até

o túmulo, sendo portanto inerente à nossa condi-

ção de humanos. O auto-interesse econômico se-

ria então, como diz Giannnetti da Fonseca (1993), o

combustível da mão invisível e o motor do crescimen-

to. De fato, o livre-mercado e o desejo da maioria de

melhorar de vida são as duas variáveis responsá-

veis pelo desempenho econômico das nações, sendo

decisivos para o resultado da partida, o auto-interes-

se e o empenho dos jogadores; num grau até mais

elevado, se admite, que as regras do jogo. Qual seria

esse grau, pergunta-se? Qual o papel das regras

do jogo? “Para Smith, é certo, não há nada errado

em ganhar dinheiro ou esticar cada músculo na cor-

rida por mais dinheiro. Isto é o desejado. Mas fazer

o bem é outra coisa.” 24 O que se propõe discutir, uma

vez aceita a legitimidade da conduta humana em

desejar a riqueza, são quais as condições comporta-

mentais dessa busca. Isso implica necessariamente

considerar a qualidade dos envolvidos no processo

2323232323

Coleção Convite ao pensar

de busca da riqueza ou seja, “as regras do jogo eco-

nômico – sejam elas quais forem e por mais brilhan-

tes que sejam – não são capazes de produzir

resultados satisfatórios caso os jogadores não pos-

suam os atributos cognitivos e morais necessários

para tirar delas proveitos”. 25 Dessa forma, a ética

pode se aproximar da teoria econômica e mostrar

que a presença de valores morais e a adesão a nor-

mas de conduta podem ser requisitos indispensá-

veis para que o mercado se firme como regra de

convivência civilizada. Na mesma trilha, exigem-

se também regras que estabeleçam uma fronteira

entre o que é lícito e o que é ilícito na atividade eco-

nômica. Isso significa que “o mínimo legal da or-

dem do mercado – direitos de propriedade bem

definidos, liberdade e garantia de execução de con-

tratos e prevenção de práticas anticompetitivas – tem

como objetivo básico barrar as tentativas dos agen-

tes econômicos de viver às custas dos demais, co-

lhendo o que não plantaram”. 26 Portanto, neste

grande “tabuleiro de xadrez” que é a sociedade hu-

mana, as regras do jogo são importantes mas não

suficientes. Isto porque o grau de adesão e respeito

a essas regras vai depender dos atributos morais dos

envolvidos. Assim sendo, buscar a riqueza e saber

distribuí-la vai continuar sendo o desafio das socie-

dades humanas, inclusive sob a égide do capitalis-

mo moderno. E a soberba ou mesmo a cobiça vão

continuar integrando esse processo como traços pe-

renes e universais da raça humana, desde médicos,

engenheiros, garçons, soldados, funcionários deso-

nestos, artistas, mendigos, prostitutas, apostadores,

nobres, enfim uma legião de homens dotados de

um impulso natural ao ganho, ao desejo de glória, à

sede de ganhar dinheiro. 27 E nem por isso conside-

rados criaturas tão distantes de Deus!

2424242424

Soberba, o pecado do capital? – Tânia Maria Ferreira de Souza

NOTAS

  • 1 ABBANGNANO. Dicionário de filosofia, p.878.

  • 2 AQUINO. Suma teológica, p.338-339.

  • 3 Ibidem. p.339.

  • 4 Ibidem. p. 340. No texto original, conversão das criaturas – vista como objetivo de identificação com as coisas – e aversão a Deus – como afastamento e fuga – constituem modalidades integran- tes do pecado.

  • 5 Ibidem. p.341.

  • 6 LACAN. Soberba.

  • 7 ABBANGNANO. Dicionário de filosofia, p.716.

  • 8 Ibidem. p.716.

  • 9 SANDRONI. Dicionário de economia, p.46.

    • 10 LACAN. Soberba, p.982.

    • 11 DEYON. O mercantilismo, p.47.

    • 12 BIANCHI. A pré-história da Economia de Maquiavel a Adam Smith,

p.26.

  • 13 Ibidem. p.33.

  • 14 Idem.

  • 15 Ibidem. p.90.

  • 16 Ibidem. p.92. “Uma colmeia, que simboliza a sociedade hu- mana, vivia um clima de grande prosperidade, a cultivar aber- tamente três vícios: a fraude, a luxúria e o orgulho. Um belo dia, picadas pela culpa, as abelhas oram a Deus, pedindo-lhe que as ajude a reencontrar a trilha do bem. Sua reza é pronta- mente atendida: vão-se os vícios, mas em compensação, a pros- peridade da colmeia eclipsa-se, o tédio, a preguiça e a pobreza sobrevêem.”

  • 17 Ibidem. p.120.

  • 18 Ibidem. p.117.

  • 19 SMITH. A riqueza das nações ----- investigação sobre sua natureza e suas causas, p.50. Nesta citação, “self-love” como auto-estima merece melhor tradução como “amor-próprio”, para diferenciar o amor que tenho por mim mesma do amor que sinto pelos outros.

  • 20 Smith citado por BIANCHI. A pré-história da Economia - de Ma- quiavel a Adam Smith, p. 125.

  • 21 GIANNETTI DA FONSECA. Vícios privados, benefícios públicos? A ética na riqueza das nações, p. 127.

  • 22 Ibidem. p. 104.

  • 23 BUCHHOLZ. New ideas from dead economists ----- an introduction to modern economic thought, p. 3.

  • 24 GIANNETTI DA FONSECA. Vícios privados, benefícios públicos? A ética na riqueza das nações, p.152.

2525252525

Coleção Convite ao pensar

25 Ibidem. p.153.

26 Sobre a questão da importância do arcabouço institucional para a manutenção de regras estáveis no mercado, ver a abordagem da “Nova Economia Institucional”; seus fundamentos teóricos podem ser encontrados em: NORTH. Prologue.

27 GIANNETTI DA FONSECA. As partes & o todo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABBANGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 2.ed. São Paulo:

Mestre Jou, 1982.

AQUINO, Santo Tomás de. Suma teológica. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, MCMLV.

BIANCHI, Ana Maria. A pré-história da Economia de Maquia- vel a Adam Smith. São Paulo: Hucitec, 1988.

BUCHHOLZ, Todd G. New ideas from dead economists an in- troduction to modern economic thought. New York: Pen- guin Books, 1989.

DEYON, Pierre. O mercantilismo. São Paulo: Perspectiva, 1973. GIANNETTI DA FONSECA, Eduardo. Vícios privados, benefí- cios públicos? A ética na riqueza das nações. São Paulo: Com- panhia das Letras, 1993.

____.

As partes & o todo. São Paulo: Siciliano, 1995.

LACAN, Marc-François. Soberba. In: LÉON-DUFOUR S.J., Xavier (Dir.). Vocabulário de teologia bíblica. Trad. Fr. Simão Voight. Petrópolis: Vozes, 1984.

NORTH, Douglas C. Prologue. In: DROBAK, J.N. & NYE, J.V.C. The frontiers of the new institutional economics. New York: Academic Press, 1997.

SANDRONI, Paulo (Cons.). Dicionário de Economia. São Pau- lo: Abril Cultural, 1985.

SMITH, Adam. A riqueza das nações ----- investigação sobre sua natureza e suas causas. São Paulo: Abril Cultural, 1985.

2626262626

A AVAREZA NA LITERATURA:

A PAIXÃO DE TERATRAVÉS DOS TEMPOS

Melânia Silva de Aguiar

Para Nancy, Marta e Gislaine

O tema da avareza tem sido largamente utili-

zado na literatura de todos os tempos. Dos sete

pecados capitais, este é um dos assuntos mais ex-

plorados, seja em filmes e novelas, seja em comé-

dias e tragicomédias, seja em romances de fundo

dramático. Na verdade, a figura do “avarento” tem

qualquer coisa de cômico e de dramático ao mes-

mo tempo, despertando no espectador ou no lei-

tor sentimentos de pena e de desprezo, além do

senso de ridículo. É que o apego extremado ao di-

nheiro, à riqueza material, traz ao avarento sobres-

saltos constantes: o temor de ser roubado, uma

permanente inquietação quanto à segurança de seu

tesouro, a preocupação em ocultar aos olhos dos

outros sua condição de homem rico, a dificuldade

em se afastar de sua riqueza. Esta vigilância exa-

gerada, sem trégua, se é cômica pelo descabido das

situações em que se apresenta, é às vezes como-

vente, pela carga de sofrimento que traz ao ava-

rento, ficando assim esta figura no limiar daqueles

pecados que, se causam irritação, são também olha-

dos com alguma dose de tolerância superior. Não é

à toa que as diversas línguas reservam um estoque

infindável de vocábulos, quase sempre gaiatos, para

referir-se ao avarento: pão-duro, unha-de-fome,

2727272727

Coleção Convite ao pensar

mão-de-finado, munheca-de-samambaia etc. Os

Dicionários de Língua Portuguesa são pródigos

em sinônimos: agarrado, arrepanhado, cainho, can-

guinho, canhengue, casca, cauíla, cauíra, escasso,

esganado, fominha, manicurto, mesquinho, miga-

lheiro, miserável, mitra, miúdo, morrinha, pelin-

tra, pica-fumo, piroca, resmelengo, rezina, ridico,

ridículo, seguro, socancra, somítico, sórdido, sor-

relfa, sovina, tacanho, tenaz, tranca, usurário, usu-

reiro, vilão, zura, zuraco. E ainda: cajueiro, catinga,

chifre-de-cabra, foca, fomenica, fona, forra-gaitas,

forreta, fuinha, futre, gaveteiro, ginja, harpagão,

mão-de-leitão, mãos-atadas, mingolas, mirra, mor-

to-a-fome, muquira, muquirana, pirão-na-unha,

tamanduá, unhaca, vinagre. 1

A palavra “avarento”, de “avaro”, tem sua ori-

gem no latim “avarus”, originado por sua vez da raiz

de “habere”, haver, ter. O “avaro” ou “avarento” é o

que tem a paixão de “ter”, de acumular dinheiro ou

riquezas, e a “avareza”, do latim “avaritia”, o nome

desta qualidade ou traço de caráter.

Nossa intenção é repassar aqui algumas das

obras mais famosas da literatura ocidental que

trataram em primeiro plano do tema da avareza

(a avareza aparece também em muitas obras em

planos secundários) e verificar, mesmo tendo

presente o não compromisso obrigatório da lite-

ratura com a verdade, até que ponto as seme-

lhanças e/ou diferenças porventura existentes no

comportamento das personagens avarentas es-

tudadas podem oferecer alguma luz para a com-

preensão desse traço conforme o descreve a

psicanálise. A opção por estudar um leque mais

amplo de obras deve-se a este interesse.

***

***

***

***

***

2828282828

A avareza na literatura: a paixão de “ter” através dos tempos – Melânia Silva de Aguiar

Já na Antigüidade latina, vamos encontrar o

tema da avareza tratado com especial atenção

numa comédia de Plauto intitulada Aululária ou

Comédia da panela. Tendo vivido no século III a.C.,

natural da Úmbria, Plauto veio para Roma e co-

meçou a escrever suas comédias ainda muito jo-

vem e elas foram inúmeras. Entretanto, só nos

chegaram, com segurança de sua autoria, 20 pe-

ças, entre elas a Comédia da panela. Devido a mui-

tas dívidas contraídas, apesar do sucesso de suas

peças, Plauto foi feito escravo, o que lhe deu a

possibilidade de convívio com uma grande varie-

dade de tipos. Continuou assim fazendo suas

comédias, onde não perdia ocasião de criticar os

costumes de seu tempo.

No século XVI, em uma de suas famosas pe-

ças, outro grande homem de teatro, Shakespeare,

vai-se ocupar do tema da avareza e a ele se deve a

criação de uma personagem notável – Shylock –

judeu avaro que “rouba a cena” à personagem que

encabeça o título da peça e que é Antônio ou O

mercador de Veneza.

A França do século XVII, por sua vez, assistiu

ao nascimento de uma das mais famosas e bem

sucedidas personagens de seu teatro, com a clássi-

ca comédia, O avarento,,,,, de Molière, de sucesso sem-

pre garantido, e tendo como protagonista a figura

do egoísta e irascível avarento, Harpagão.

Na Inglaterra do século XIX, a figura de

Scrooge, personagem de Conto de natal, de Char-

les Dickens, encarnaria o comerciante avarento

e insociável, pressionado por forças sobrenatu-

rais a modificar seu comportamento egoísta e au-

tocentrado.

Finalmente, também no século XIX, na extensa

galeria de tipos que criou, Balzac reservou um lugar

2929292929

Coleção Convite ao pensar

especial para o avarento, num de seus mais famosos

romances, Eugénie Grandet, de grandiosas passagens.

IIIII

CCCCCOMECEMOS OMECEMOS OMECEMOS OMECEMOS PELAAAAA AAAAAUL OMECEMOS PEL PEL PEL PEL UL UL UL ULULÁRIA ULÁRIA
CCCCCOMECEMOS
OMECEMOS
OMECEMOS
OMECEMOS PELAAAAA AAAAAUL
OMECEMOS PEL
PEL
PEL
PEL
UL
UL
UL
ULULÁRIA
ULÁRIA
ULÁRIA
ULÁRIA
ULÁRIA
OUOUOUOUOU CCCCCOMÉDIA
OMÉDIA OMÉDIA OMÉDIA
OMÉDIA DDDDDAAAAA PPPPPANEL
ANEL
ANEL
ANEL
ANELAAAAA

Conta-nos esta peça a história de Euclião, ve-

lho avarento e intratável, possuidor de uma pane-

la cheia de ouro, deixada por seus antepassados,

também avarentos e intratáveis. Euclião é pai de

Fedra, jovem ingênua e protegida do deus Lar. Este

deus, que, como se sabe pela mitologia, habita a

lareira das casas e acompanha para sempre uma

determinada família, agradecido pelas oferendas

de Fedra, resolve fazer a felicidade da moça, de tal

maneira que ela possa se casar com Licônidas, jo-

vem que se havia aproveitado de sua ingenuidade

numa festa com muito vinho, e a havia engravida-

do. Quando a peça começa, Fedra está prestes a

dar à luz sem mesmo saber quem a engravidara e

sem que seu pai Euclião saiba de nada. É ajudada

por uma antiga escrava da família, Estáfila. Licô-

nidas é sobrinho do rico e velho Megadoro e mora

na casa vizinha com o tio e sua mãe. Megadoro,

sem saber das aventuras amorosas do sobrinho,

apesar da diferença de idade, põe na cabeça a idéia

de se casar com Fedra, a jovem e aparentemente

pobre filha de Euclião. Na verdade Euclião se faz

passar por pobre o tempo todo; sua casa é despro-

vida de qualquer adorno ou conforto e ele alardeia

sem parar sua enorme pobreza. A panela de ouro

que possui não é do conhecimento de ninguém, a

não ser do deus Lar (a panela fora colocada na la-

reira pelo avô de Euclião), e dele próprio, Euclião,

que a esconde ciosamente dos olhos de todos.

Quando Megadoro propõe a Euclião casar-se com

sua filha, este fica convencido de que o vizinho

3030303030

A avareza na literatura: a paixão de “ter” através dos tempos – Melânia Silva de Aguiar

descobrira sua riqueza, estava zombando dele e

que só por interesse quer a mão de Fedra. É suges-

tiva a cena:

Megadoro: Sabes a minha idade?

Euclião: Sei que é bastante grande, exatamente como a fortuna.

Megadoro: Pois eu realmente, por Pólux, sempre achei e ainda acho que tu és um cidadão sem malícia nenhuma.

Euclião (à parte): Já cheirou o dinheiro. (Alto.) Que me queres tu agora?

Megadoro: Como tu me conheces bem a mim e eu te conheço bem a ti, peço-te que faças a minha felicidade, a tua e a de tua filha, dando-nos em casamento. Promete que o farás.

Euclião: Ó Megadoro! Isso é uma má ação e indigna do teu procedimento; vens agora troçar dum homem sem recursos e inocente, de um homem que nunca fez mal nem a ti, nem aos teus. Não houve nada, em pala- vras, que merecesse da tua parte o que tu fazes agora. (PLAUTO, [s.d.], p.136-137)

Com muito custo, Euclião aceita a proposta

de Megadoro, desde que não tenha de dar ne-

nhum dote pelo casamento, pois é um homem

muito pobre, segundo afirma. Megadoro, que é

rico e nada ambicioso, aceita e vai cuidar dos pre-

parativos da ceia do casamento que deve reali-

zar-se no mesmo dia. Desconfiado dos cozinheiros

que lhe invadem a casa a mando de Megadoro,

para os preparativos da ceia, Euclião, temendo ser

roubado em sua panela de ouro, resolve escondê-

la em outro lugar e, depois de mudar duas vezes

de esconderijo, acaba sendo visto por Estrobilo,

escravo de Licônidas. Estrobilo rouba então a pa-

nela com o ouro e vai escondê-la em sua casa. En-

quanto isto, Licônidas, que deseja reparar o mal

3131313131

Coleção Convite ao pensar

que fez a Fedra, depois de contar tudo à mãe e ao

tio Megadoro, procura Euclião e confessa-lhe seu

crime. Cria-se então um enorme qüiproquó, um

mal-entendido infernal, pois, no diálogo entre

Licônidas e Euclião, o jovem se refere ao crime de

haver seduzido Fedra, querendo reparar agora sua

falta, casando-se com ela. Euclião, que já havia

dado pela falta do ouro, acredita que o crime de

que o jovem está falando é o do roubo da panela.

A situação é cômica e cheia de segundos senti-

dos, já que ela, Fedra, como Licônidas se refere à

moça, é entendida por Euclião como sendo a pa-

nela com o ouro. Observe-se que a filha e o ouro

são postos no mesmo plano, gerando toda esta

confusão. Veja-se o diálogo:

Licônidas: Eu sou um infeliz.

Euclião: Eu é que sou um infeliz, um homem perdi- do de desgraças, tão grandes são os males e tão grande a tristeza que veio sobre mim.

Licônidas: Deixa-te estar sossegado.

Euclião: Mas de que maneira é que eu posso estar sossegado?

Licônidas: É que eu tenho a confessar que esse cri- me que te atormenta o espírito fui eu quem o cometeu.

Euclião: Que é que tu estás a dizer? Licônidas: O que é verdade.

Euclião: Mas ouve, moço, que mal te fiz eu para pro- cederes assim e me perderes a mim e aos meus filhos?

Licônidas: Foi um deus que me impeliu, foi ele que me atraiu a ela.

Euclião: De que maneira?

Licônidas: Confesso que errei, e sei que mereço cas- tigo, mas venho pedir-te que tenhas a bondade de me perdoar.

Euclião: Mas como é que ousaste fazer isto? Tocar no que não te pertence?

3232323232

A avareza na literatura: a paixão de “ter” através dos tempos – Melânia Silva de Aguiar

Licônidas: Que queres tu? Aconteceu. Não se pode negar o que é um fato. Eu acho que os deuses o quiseram. Sei bem que, se não quisessem, nada teria havido.

Euclião: O que os deuses quiseram foi, sem dúvida, que eu te mandasse enforcar em minha casa.

Licônidas: Não diga isso.

Euclião: Por que é que tu sem eu o permitir foste tocar na minha ...

Licônidas: Eu fiz isso por causa do vinho e do amor. Euclião: Ó homem sem vergonha nenhuma! Como é que ousas vir ter comigo com esse dis- curso, meu descarado? Se isso agora é di- reito, então já nos podemos desculpar de roubarmos à luz do dia o ouro das senho- ras; se nos apanharem, desculpar-nos-emos dizendo que o fizemos porque estávamos

embriagados e porque o amor

Coisa vil,

... bem vil, o vinho e o amor. Se é ilícito, a

quem se embriagou e a quem ama, fazer o que lhe apetece. (PLAUTO, [s.d.], p.165-167)

Finalmente, esclarecidos todos os enganos, ao

saber do roubo do escravo Estrobilo, Licônidas o

obriga a devolver a panela a Euclião, dá em troca a

liberdade ao escravo e obtém de Euclião a aprova-

ção para seu casamento com Fedra. Numa atitude

absolutamente inesperada, repentinamente, Euclião

presenteia o futuro genro com a panela de ouro,

passando de avarento a generoso, e tudo acaba bem.

IIIIIIIIII

Shakespeare, em 1596 ou 1597, escreve O mer-

cador de Veneza, com intenção de fazer uma comé-

dia, transformando-se o seu texto, no entanto,

numa tragicomédia, tais os elementos dramáticos

aí presentes. Apesar do título, Antônio, o merca-

dor de Veneza, não ocupa o papel de destaque na

peça. Este ou estes papéis cabem a Shylock, um

3333333333

Coleção Convite ao pensar

rico judeu usurário, e a Pórcia, uma bela e rica her-

deira, que vive em outra cidade, Belmonte. Shylock,

o judeu, empresta dinheiro a altas taxas, tem um

enorme apego à sua fortuna e detesta o mercador,

exatamente pelas qualidades que ele não tem: An-

tônio, que é cristão, empresta dinheiro sem cobrar

juros, censura os que praticam a usura, é pródigo e

confiante nos amigos, é uma figura elogiada e

querida por todos. Bassânio, amigo de Antônio, ne-

cessita de uma certa importância (três mil duca-

dos) para tentar a sorte em Belmonte, junto a Pórcia,

a quem ele ama e que também demonstrou há tem-

pos corresponder a esse amor. Deverá Bassânio,

para obter Pórcia, submeter-se a uma prova intri-

gante: deverá escolher entre três cofres, um de ouro,

outro de prata, outro de chumbo e, dependendo

da escolha, terá ou não direito ao casamento. 2 Essa

foi a prova deixada pelo pai de Pórcia aos preten-

dentes da filha, havendo já um grande número de

candidatos eliminados pela escolha errada do cofre.

Antônio é muito amigo de Bassânio, tem uma gran-

de riqueza em navios, quer ajudá-lo a se encontrar

com Pórcia na cidade de Belmonte, mas, naquele

momento, não dispõe de dinheiro em espécie;

aconselha então o amigo a fazer um empréstimo,

ficando ele como fiador. Shylock, o judeu, empres-

ta o dinheiro a Bassânio, mas com a condição de

que, não sendo a dívida paga no dia certo, daí a

três meses, exigirá como multa uma libra da carne

de Antônio, no peito, bem junto do coração. O acor-

do é feito e o documento assinado. O avaro Shylock,

como na peça de Plauto, tem também uma filha

única, Jéssica; esta está enamorada de um cristão

amigo de Antônio, Lourenço, com quem planeja

uma fuga da casa do pai, levando consigo uma

parte da fortuna paterna e tomando o navio com o

grupo que deve acompanhar Bassânio à cidade de

3434343434

A avareza na literatura: a paixão de “ter” através dos tempos – Melânia Silva de Aguiar

Pórcia. O judeu, quando percebe o roubo e a fuga

da filha põe-se a clamar, desesperado, como conta

um dos amigos de Antônio:

Salânio: Jamais ouvi falar de tão confusa/ paixão, tão singular, selvagem, vária,/ como a que revelava pelas ruas/ aquele cão judeu. “Oh! minha filha!/ Meus ducados! Fugir com um cristão!/ Meus ducados cristãos! Lei e justiça!/ Minha filha! Meu saco de duca- dos!/ Não, dois sacos selados de ducados!/ Ducados duplos, que roubados foram/ por

minha filha

E jóias! Duas pedras/ ricas,

... preciosas, que roubadas foram/ por minha própria filha. Lei e Justiça!/ Ide atrás dela! Tem consigo as pedras,/ meus ducados e as pedras!

Salarino: Isso mesmo;/atrás dele corria a garotada/ de Veneza, a gritar por suas pedras,/os ducados e a filha. (S HAKESPEARE , [s.d.],

p.107)

É uma cena patética, pois não se sabe o que ele

lamenta mais: se a perda da filha ou da riqueza ...

certamente da riqueza, que acaba absorvendo todo

o seu interesse. Em Belmonte, Bassânio, finalmen-

te, é submetido à prova, em meio à expectativa

ansiosa de Pórcia e de sua fiel escrava Nerissa, e

sai vencedor ao escolher o cofre de chumbo. Extre-

mamente felizes, os dois enamorados casam-se

imediatamente. No entanto, a notícia de que An-

tônio havia perdido seus navios e fortuna em nau-

frágios e pirataria, e, conseqüentemente, não

poderia pagar a letra ao judeu, faz com que Bassâ-

nio e seu servo Graciano (que a esta altura já se

casou com Nerissa, serva de Pórcia) voltem às pres-

sas para Veneza. Com a letra vencida, o vingativo

judeu não aceita nenhuma proposta para quitar a

dívida, a não ser, a libra de carne de Antônio, que,

fatalmente, morrerá em conseqüência. Cria-se um

3535353535

Coleção Convite ao pensar

impasse e o que vai salvar a situação é a chegada

de Pórcia, disfarçada em um doutor em leis, erudi-

to e respeitado, acompanhada de Nerissa, a cria-

da, disfarçada em escrivão. Os dois (ou as duas,

disfarçadas de homem, procedimento bem comum

em Shakespeare) livram Antônio da dívida, pro-

vando que era impossível tirar-lhe a carne sem ti-

rar-lhe o sangue e sem acabar com sua vida.

Baseando-se nas leis de Veneza, que condenava

todo aquele que tirasse sangue a um cristão ou que

atentasse contra sua vida, Pórcia (ou o doutor em

leis) liberta Antônio do compromisso e obriga o

judeu a pagar uma alta multa ao Estado e a dar a

Antônio a metade de seus bens, além de fazer-se

cristão. Shylock se torna, de repente, como na peça

anterior, humilde e submisso, concordando com

todas as exigências. Desta forma, também aqui

tudo acaba bem e Jéssica, a filha do judeu, sai pre-

miada, juntamente com Lourenço, pois Antônio se

compromete a dar-lhe a herança; por outro lado, a

inteligente Pórcia vai viver feliz com seu marido

Bassânio, e Nerissa com Graciano.

III

III

III

III

III

A literatura inglesa tem ainda um outro exem-

plo clássico do tema da avareza. Trata-se, como já

se disse, da obra de Charles Dickens, de 1843, Con-

to de natal. Nessa pequena novela, Dickens nos

conta a história de um avarento e mal-humorado

comerciante, de nome Scrooge, que numa noite

de Natal é visitado pelo espírito de um ex-sócio,

morto há sete anos. Essa visita tem um sentido

pedagógico, corretivo, já que o morto tenta livrar

o ex-sócio das penas que ele próprio está sofren-

do no outro mundo, devido ao seu enorme apego

3636363636

A avareza na literatura: a paixão de “ter” através dos tempos – Melânia Silva de Aguiar

ao dinheiro, e à sua extrema ambição. Depois de

ser levado pelos espíritos do Natal ao passado,

ao presente e ao futuro, primeiro a seu passado,

quando ainda era alegre e generoso; depois à vi-

são clara do presente e sua relação intratável com

as pessoas, inclusive o sobrinho, único remanes-

cente de sua família; e, finalmente, a seu futuro,

quando se vê numa sepultura, no cemitério da lo-

calidade, Scrooge, horrorizado consigo próprio,

muda de comportamento, tornando-se generoso

para com seu empregado, amigo e cordial com o

sobrinho e sua família, alegre e simpático com to-

dos, modificando assim o seu presente e o futuro.

Conforme narra Dickens:

Tornou-se o melhor amigo, o melhor patrão, o me- lhor homem que jamais se encontrou naquela an- tiga cidade, ou em qualquer outra cidade deste mundo. Muita gente zombava da mudança que se operara nele, mas ele deixava-os rir e pouco se im- portava. (DICKENS, [s.d.], p.121-122)

Como se pode ver, nos três exemplos dados, a

comédia de Plauto, a tragicomédia de Shakespeare

e o romance de Dickens, ocorrem muitas semelhan-

ças: o caráter irascível, mesquinho, intratável repe-

te-se nos três avarentos que, na defensiva contra seus

semelhantes, não conseguem abrir-se, confiar sua

intimidade, mostrar seus melhores sentimentos ou

alguma generosidade. Nos três, a família ocupa um

lugar secundário perto da riqueza, já que esta, na

mente do avarento, existe, não para proporcionar

bens ou conforto a si ou à família, mas é um valor

em si, um bem insubstituível e individual. Por ou-

tro lado, pode-se ver também uma mudança de

atitude no final, quando as personagens avaras

desprendem-se de seus bens, à força ou não, e se

redimem de alguma forma.

3737373737

Coleção Convite ao pensar

IVIVIVIVIV

A literatura francesa do século XVII, com Molière,

também não ficou alheia ao tema da avareza. A fa-

mosa peça L’Avare, de 1682, é semelhante em mui-

tos aspectos à peça de Plauto, a Comédia da panela,

que, segundo os críticos, serviu de modelo ao co-

mediógrafo francês. Essa comédia conta a histó-

ria de Harpagão, um velho avarento que tem dois

filhos, Cléante e Elisa, e assim é descrito por uma

das personagens:

La Flèche: O Senhor Harpagão é de todos os huma-

nos, o humano menos humano, o mortal

de todos os mortais o mais duro e o mais

fechado. Não há nada que mereça dele

um reconhecimento que o faça abrir as

mãos ]

[ e dar é uma palavra pela qual

tem tanta aversão que ele não diz nunca:

eu lhe dou, mas: eu lhe empresto a juros.

(MOLIÈRE, 1951, p.70)

Harpagão resolve casar-se com uma moça das

redondezas, Mariana, pobre, mas muito bonita e

recatada. Acontece que seu filho, Cléante, está apai-

xonado pela moça e também deseja casar-se com

ela, o que desencadeia um tremendo problema.

Elisa, filha de Harpagão, por sua vez, está também

enamorada de um criado da casa, Valério, que na

verdade é irmão de Mariana (mas não sabe), e se

faz passar por criado para estar perto de Elisa. Tanto

Mariana quanto Valério são filhos de um rico no-

bre de Nápoles, Anselmo, que se supõe morto num

naufrágio. A mãe e a filha se salvaram, bem como

o filho, só que o filho se salvou separadamente da

família, não sabendo do paradeiro da mãe e da

irmã, que vivem em extrema necessidade. Tam-

bém depois de muitos desencontros e mal-enten-

didos, descobre-se que o pai de Mariana e Valério

3838383838

A avareza na literatura: a paixão de “ter” através dos tempos – Melânia Silva de Aguiar

é Anselmo – o pretendente à mão de Elisa – que

reencontra a família; os parentescos se esclarecem,

os apaixonados se revelam e tudo acaba bem. Har-

pagão, que havia no princípio destinado o filho

Cléante a uma viúva e a filha Elisa ao rico Ansel-

mo (que dispensou, como fez o seu antecessor lite-

rário latino o dote da noiva, o que fez o avarento

exultar), acaba aceitando a nova situação e concor-

dando com a escolha dos filhos, desde que tenha

de volta seu cofre recentemente roubado. É inte-

ressante notar que, como na comédia de Plauto,

também a personagem avarenta, o velho Harpa-

gão, esconde seu tesouro cuidadosamente e está

sempre ansioso, achando que o cofre do tesouro

vai ser roubado. Traz ainda sua casa na maior par-

cimônia e, como seus antecessores literários, está

sempre ansioso, desconfiado de que todos, inclu-

sive os filhos, querem roubar seus 10.000 escudos

de ouro, enterrados no jardim, o que acaba aconte-

cendo. Chega a afirmar que “feliz é quem tem sua

fortuna guardada e só conserva o necessário para

as despesas” (p.40), irritando-se profundamente e

considerando inimigo todo aquele que afirma que

ele possui bens. Sente-se com isso profundamen-

te insultado. Os mesmos mal-entendidos da peça

de Plauto, isto é, a confusão feita por Harpagão e

Valério a respeito do ouro a que se referem (quer di-

zer, um referindo-se ao ouro da panela e o outro ao

ouro como à honra de Elisa) estabelece-se no cômico

diálogo entre os dois. A simetria dos casais se faz aqui

duplamente, não só, como na comédia de Plauto,

entre o tio (Megadoro) e o sobrinho (Licônidas), que

desejam a mesma moça (Fedra), filha do avarento,

mas entre o pai (Anselmo) e o filho (Valério), que

desejam Elisa, filha do avarento, e ainda, Harpagão e

Cléante, desejando Mariana, a moça pobre da vizi-

nhança. Apesar dessas diferenças, as semelhanças

3939393939

Coleção Convite ao pensar

são muitas, não só do ponto de vista das situações

que se apresentam, mas do ponto de vista do cará-

ter ou do temperamento dos dois avarentos. Am-

bos são desconfiados, intratáveis, egoístas e

extremamente preocupados em passar a idéia de

pobreza, o que os faz viver em condições muito

modestas, e ambos acabam sendo roubados, seu

temor maior. Veja-se a cena em que Harpagão des-

cobre ter sido roubado pelo criado e o filho, refe-

rindo-se ao dinheiro como a uma pessoa amada:

Harpagão: Ao ladrão! Ao ladrão! Ao assassino! Jus-

tiça, justo céu! Eu estou perdido! Eu es-

tou assassinado! Cortaram-me a

garganta, roubaram o meu dinheiro!

Quem pode ser? Onde está ele? Onde

se escondeu? Que farei para encontrá-

lo? Onde correr? Onde não correr? Não

está ali? Não está aqui? Quem é? Pare!

Devolva meu dinheiro, patife! (

...

)

Que

tristeza! Meu pobre dinheiro, meu po-

bre dinheiro e meu caro amigo, priva-

ram-me de ti! Perdi meu amparo, minha

consolação, minha alegria; tudo acabou

para mim, e não tenho nada mais a fa-

zer no mundo! Sem ti é-me impossível

viver! (MOLIÈRE, 1951, p.138)

Repete-se a mesma cena patética de O Merca-

dor de Veneza, quando Shylock descobre que fora

roubado pela filha e lamenta a perda do tesouro.

VVVVV

Famoso também na literatura francesa, dentro

do tema da avareza, é o romance Eugénie Grandet,

de Balzac, publicado em 1833, que se passa na pro-

víncia francesa, mais exatamente em Saumur, oeste

da França, região de vinhedos. O tema do dinhei-

ro, das dívidas desonrosas, da ascensão social via

poder econômico é, como se sabe, uma constante

4040404040

A avareza na literatura: a paixão de “ter” através dos tempos – Melânia Silva de Aguiar

em Balzac. Sob esse aspecto, O Pai Goriot (Le père

Goriot), ocupa na obra de Balzac um lugar de des-

taque, mas exatamente pelo traço de caráter opos-

to: o pai Goriot é pródigo, generoso em relação às

duas filhas que o exploram até o último centavo,

acabando por deixá-lo na miséria e no mais com-

pleto abandono. No caso de Eugénie Grandet, o que

vamos ver é o que já aparece nas peças anteriores

(Comédia da panela, O mercador de Veneza, O avaren-

to). Os pais demonstram um amor mais arraigado

ao dinheiro do que à família e aos próprios filhos.

Monsieur Grandet, pai de Eugênia, muito rico e

esperto para negócios, com artimanhas, leva a fi-

lha a renunciar à herança advinda da mãe, para

aumentar ainda mais seus bens. O prazer em acu-

mular riquezas, principalmente moedas de ouro,

como nas peças anteriores, é freqüentemente lem-

brado. Aliás a referência ao ouro, seja em moedas,

seja como adorno em objetos, é uma constante nas

obras. Entretanto, diferentemente dos avarentos

das obras citadas, na personalidade somítica de

Grandet, que não permite que se acenda mais de

dois lumes em casa, para não gastar muito, cuja

lareira vive sempre apagada ou parcamente abas-

tecida, nessa personalidade há alguma coisa a mais

de cálculo, de hipocrisia, de atitudes friamente pla-

nejadas para enganar a mulher e a filha, de tirania,

que o torna uma personagem ainda menos sim-

pática e faz do romance algo bem distante da comé-

dia. Na verdade é um drama o que vamos presenciar

nas páginas do romance de Balzac, onde as mulhe-

res aparecem como as grandes vítimas da falsidade

e da ambição dos homens, no caso, particularmen-

te, do velho Grandet e seu sobrinho Charles, ou

Carlos. Este último não hesita em fugir às promes-

sas feitas a Eugênia, quando ainda bem jovens.

Ele parte para as Índias, para refazer sua riqueza,

4141414141

Coleção Convite ao pensar

levando as economias de Eugênia em moedas de

ouro, deixando-lhe em garantia uma caixa com

placas de ouro, objeto da família, e prometendo

voltar para se casarem. Esta o espera durante nove

anos. Passado esse tempo, Carlos, sem saber que

Eugênia, com a morte da mãe e do pai, era agora

uma rica herdeira, escreve-lhe uma carta, dizendo

que mudou muito, amadureceu e prefere casar-se

com uma jovem de Paris, que lhe traria muitas

vantagens financeiras, além da ascensão social. A

moça tem uma enorme desilusão e acaba por acei-

tar o pedido de casamento de um conterrâneo, de

Bonfons, que claramente está interessado no seu

dinheiro, mas promete ser bondoso e zelar por ela.

Mas antes, numa atitude que é um misto de orgu-

lho, amor-próprio ferido, vingança sutil, ela paga

as dívidas deixadas pelo tio, pai de Carlos, já mor-

to, dívidas que Carlos não assumira, tornando as-

sim possível o casamento dele com a rica herdeira

parisiense. A família Aubrion, de Paris, não aceita-

ria o casamento da filha com o filho de um falido,

que não teve suas dívidas honradas. Por outro lado,

em tempos anteriores, a crueldade e a tirania de

Grandet se manifestam com intensidade quando

toma conhecimento de que a filha havia repassa-

do a Carlos as moedas de ouro que ele lhe havia

dado em datas festivas e que, no seu modo de en-

tender, continuavam sendo um direito seu. Traz a

filha prisioneira em seu quarto, a pão e água, afas-

ta-a do convívio com a mãe doente, que acaba

morrendo de desgosto, não se comove com as sú-

plicas da mulher e o sofrimento da filha. Entretan-

to, muda de repente sua atitude quando um amigo

o adverte para o perigo de que Eugênia, com a

morte da mãe, poderá recusar-se a lhe dar o domí-

nio da herança materna. Por cálculo e interesse,

Grandet perdoa a filha, derrete-se com a mulher já

4242424242

A avareza na literatura: a paixão de “ter” através dos tempos – Melânia Silva de Aguiar

então moribunda, enche a filha de palavras mimo-

sas (“ma fifille”, meu bebê) e consegue, no tempo

certo, que a filha abra mão de sua herança a seu

favor. Como se vê, o narrador de Balzac toma cla-

ramente o partido das mulheres e da vida simples

da província, ainda que Monsieur Grandet, pro-

vinciano, se mostre no decorrer da história mais

vivo e esperto do que os próprios parisienses. A

irritabilidade de Grandet, quando se sente contra-

riado, traço repetitivo, manifesta-se num “ta, ta,

ta

...

ou em resmungos impacientes, já conhecidos

de todos os que o cercam. Assim o descreve Balzac:

Esta figura anunciava uma delicadeza perigosa,

uma probidade sem calor, o egoísmo de um ho-

mem habituado a concentrar seus sentimentos no

gozo da avareza e sobre o único ser que lhe foi de

algum valor, sua filha Eugênia, sua única herdeira.

(BALZAC, 1989, p.25)

Entretanto, a relação de Grandet com a filha é

das mais doentias e autocentradas. É como se a fi-

lha fosse uma extensão dele próprio, propriedade

sua tanto quanto os cofres ou os sacos de dinheiro

de que tanto gosta e que se regozija em contem-

plar sozinho de tempos em tempos. Quando está

brigado com a filha, por causa do empréstimo fei-

to a Carlos pela moça, gosta também de ficar es-

condido no jardim, contemplando-a de longe, sem

que ela o perceba. Mas não se comove com o sofri-

mento a que a submeteu por tê-lo contrariado. Ele

a vê como uma extensão sua, sem identidade pró-

pria e sem direito a qualquer propriedade. A pai-

xão de ter impede-o de dividir seus tesouros. 3

***

***

***

***

***

Tendo, pois, passado os olhos nestas obras que

acabamos de mencionar, estamos agora em condições

4343434343

Coleção Convite ao pensar

de depreender alguns dos elementos que elas em

comum oferecem com relação ao tema proposto,

o traço da avareza. Centrando nossa atenção na

personagem do avarento, podem ser nela desta-

cados alguns atributos repetidos de umas para ou-

tras obras:

1- as personagens avarentas de que tratamos são

todas idosas e, se o traço da avareza já existe há

mais tempo, ele não é particularmente enfatiza-

do na juventude – cria-se assim em relação à pai-

xão da posse uma diferença acentuada entre o

procedimento dos pais e dos filhos;

2- a interferência de um elemento inesperado, seja de

natureza sobrenatural ou não, provoca nos ava-

rentos uma mudança radical em suas atitudes, tor-

nando-os acessíveis e generosos (no caso de

Grandet, uma mudança fingida, é bem verdade;

em Shylock, uma curiosa e passiva resignação);

3- a parcimônia com que se vestem, moram, co-

mem, estende-se aos que os cercam, sendo exi-

gido de todos um rigor e uma extrema modéstia

de hábitos;

4- o egoísmo dos avarentos revela-se de forma acen-

tuada quando se trata de medir interesses, levan-

do-os a sobreporem os seus acima mesmo do

interesse dos próprios filhos;

5- a intratabilidade social e familiar, com uso de pa-

lavras ríspidas e grosseiras, manifesta-se com fre-

qüência, principalmente quando contrariados ou

quando se lhes pede alguma coisa;

6- a ansiedade e a desconfiança permanentes con-

centram-se sobretudo no temor de que tenham

seu tesouro roubado, incluindo nesta descon-

fiança os entes mais chegados;

7- a obsessão por juntar sempre mais e mais, obten-

do lucros nem sempre lícitos, acompanha perma-

nentemente os seus gestos, sendo fonte de prazer

incalculável, o que não exclui a tortura derivada

do terror de se verem privados disto;

8- o amor exagerado à riqueza em si, principalmente

se vazada em ouro, manifesta-se agudamente no

4444444444

A avareza na literatura: a paixão de “ter” através dos tempos – Melânia Silva de Aguiar

prazer extremo com que às escondidas observam

e manuseiam seu tesouro, empilhado em moe-

das, cédulas ou pedras.

Observando todos estes traços doentios e re-

petitivos nas obras em que é central o tema da ava-

reza, coloca-se fatalmente a pergunta: Por que a

personagem avarenta apresenta em autores de tão

diversas épocas e culturas traços tão característi-

cos, próximos e singulares? Claro está que, tiran-

do os casos em que houve uma transposição

literária de temas de uma obra para outra (e este é

o caso de O avarento, de Molière, espelhada na

Aululária ou Comédia da panela, de Plauto), outros

fatores poderão explicar a reprodução de traços

psicológicos constantes na personagem avarenta.

Somente pela observação da realidade e de si pró-

prio, do comportamento e das reações verificadas

em pessoas de carne e osso seria possível a esses

escritores chegar a resultados tão parecidos no que

se refere ao perfil psicológico de suas personagens.

Propositalmente nos ativemos a obras literárias que

precederam o advento da psicanálise, e que, por

isto mesmo não poderiam sofrer sua influência.

Entretanto, é impossível não atentar para a seme-

lhança de traços de comportamento verificados

nessas personagens e nos portadores da chamada

neurose obsessiva. Sem ter a menor pretensão de

submeter ao divã freudiano essas personagens,

mas naturalmente instigada pelas coincidências ve-

rificadas, lembro aqui os significativos trabalhos

de Freud sobre a libido e a importância de seu co-

nhecimento para o tratamento da neurose. Como

se sabe, em sua teoria sobre a sexualidade, Freud

destaca três fases da libido: a fase oral, a fase anal

e a fase genital. Mesmo sabendo que em estudos

posteriores Freud e seus discípulos encontraram,

4545454545

Coleção Convite ao pensar

dentro dessas fases, outras divisões, isto não vai

merecer aqui uma atenção mais detalhada, por não

ser objetivo deste trabalho o esmiuçar da persona-

lidade neurótica do avarento em suas variações,

mas, sim, verificar até que ponto os traços gerais

dessa personalidade, observados nas obras literá-

rias, atingem o estatuto de verossimilhança que

lhes conferem os estudos psicanalíticos; e, ainda,

em que pontos da linguagem, ou do significante/

significado, propriamente, podem ser reconfirma-

dos esses traços.

Em seus primeiros estudos sobre o caráter anal,

Freud chama a atenção para três traços particular-

mente significativos apresentados pelos neuróti-

cos: “um amor à ordem que muitas vezes se

transforma em formalismo, uma parcimônia que

facilmente se transforma em avareza e uma obsti-

nação que pode tornar-se uma irada rebeldia”. Em

uma conferência intitulada “Ansiedade e Vida Ins-

tintual”, Freud desenvolve um interessante estu-

do sobre a fase anal, mostrando como nesta fase a

criança começa a perceber as fezes como algo mui-

to valioso, como a primeira produção e extensão

de seu próprio corpo e como a primeira dádiva, ou

presente, oferecido a alguém, mais provavelmen-

te sua mãe. Diz Freud:

Temos constatado, ainda, que, depois que as fezes,

os excrementos de uma pessoa, perderam seu valor

para essa pessoa, esse interesse intestinal, derivado

da origem anal, transfere-se para objetos que podem

ser dados como dádivas. E isto é exatamente assim,

pois as fezes foram a primeira dádiva que uma crian-

ça pôde dar, algo que ela pôde entregar por amor a

quem estivesse cuidando dela. Depois disso, corres-

pondendo exatamente a mudanças análogas de sig-

nificado que ocorrem na evolução lingüística, esse

antigo interesse pelas fezes transforma-se no grande

4646464646

A avareza na literatura: a paixão de “ter” através dos tempos – Melânia Silva de Aguiar

valor concedido ao ouro e ao dinheiro, mas também

contribui para a catexia afetiva de bebê e de pênis. En-

tre as crianças, as quais por longo tempo conservam a

teoria da cloaca, constitui convicção universal que

os bebês nascem do intestino como o excremento: a

defecação é o modelo do ato do nascimento. (FREUD,

1976, p.125-126)

É Karl Abraham, discípulo de Freud, quem

afirma:

A entrega de excremento é a forma mais primitiva

pela qual uma criança “dá” ou “presenteia” algu-

ma coisa e o neurótico apresenta muitas vezes a

determinação que descrevemos na questão de dar.

(ABRAHAM, 1970, p.181)

Abraham se refere aqui ao fato de os neuróti-

cos obsessivos oscilarem seu comportamento en-

tre uma extrema avareza, comparada à retenção das

fezes, e ao prazer de dar alguma coisa, quando bem

entendem, 4 ato comparado à liberação repentina

dos intestinos. Poderá, assim, recusar um pedido,

mas, por deliberação própria, dará a alguém um

belo presente. Para ele, o importante é preservar

seu direito de decisão. ( ) Esses homens deleitam-

se em manter suas esposas em permanente depen-

dência financeira deles. Distribuir dinheiro em

quantias que eles próprios determinam lhes é uma

fonte de prazer. (ABRAHAM, 1970, p.181)

As pessoas de caráter anal pronunciado, veri-

ficado nos neuróticos obsessivos, seriam então

exemplos de regressão a um estágio da libido em

que a deliberação de abrir ou não os intestinos (ou

a bolsa) passa por uma auto-afirmação narcísica.

Inegavelmente vários fatores contribuiriam para o

aparecimento desse traço na velhice, como a busca

de segurança ou a compensação por privações vi-

vidas anteriormente. Certo é que a extrema avare-

za tem sido mais patente em pessoas idosas,

4747474747

Coleção Convite ao pensar

freqüentemente desconfiadas de que estão a serem

roubadas. E certo é também que a mudança de

comportamento do avarento, verificada nas obras

estudadas e na observação psicanalítica, passando

de mesquinho a mão-aberta, explica-se do ponto

de vista da teoria apresentada.

É ainda Abraham que observa:

Há casos em que a relação entre a retenção intencio-

nal das fezes e a parcimônia sistemática é perfeita-

mente clara. Posso mencionar o exemplo de um rico

banqueiro que repetidamente fazia ver a seus filhos

que deveriam reter o conteúdo dos intestinos tanto

quanto possível, a fim de haurir os benefícios de

todos os pedaços dos alimentos caros que comiam.

(ABRAHAM, 1970, p.186)

Essa parcimônia estendida à família, de cujos

exemplos são pródigas as obras literárias estudadas,

transfere-se ainda para outras áreas. Menciona

Abraham o caso de um “avarento excêntrico que cos-

tumava andar pela casa com a frente das calças dasa-

botoadas, a fim de que as casas dos botões não se

gastassem muito depressa”. (ABRAHAM, 1970, p.187)

E continua:

O deslocamento da avareza, do dinheiro ou do va-

lor do dinheiro para o tempo, pode ser observado

com muita freqüência. Repetidas vezes encontrei

pessoas que, a fim de poupar tempo, costumavam

colocar ou tirar seu paletó e colete juntos ou, ao irem

para a cama, deixavam as cuecas dentro das calças,

a fim de enfiar as duas peças num só movimento,

pela manhã. (ABRAHAM, 1970, p.187-188)

Sendo variações ou traços concomitantes de

um mesmo comportamento, as manifestações de

avareza, levadas a um grau acentuado, geram uma

retração no trato social e familiar, e a uma concen-

tração de afeto no dinheiro em si. Cita Abraham o

4848484848

A avareza na literatura: a paixão de “ter” através dos tempos – Melânia Silva de Aguiar

caso de um paciente para quem o dinheiro substi-

tuía inteiramente os seres humanos e que “quando

veio a mim em busca de tratamento, não tinha mais

interesse pessoal em outros indivíduos, quaisquer

que fossem; apenas a posse do dinheiro e de valo-

res monetários o atraía”. (ABRAHAM, 1970, p.191)

Deslocada a libido para a riqueza em si, natural

será o prazer encontrado no toque, na visão, no ol-

fato desse objeto de amor. Sintomáticas são estas

palavras:

A criança só começa a dar sinais de desconforto

quando os produtos excretados começam a esfriar

sobre o seu corpo. Trata-se do mesmo prazer que a

criança busca quando manipula suas fezes, num

período posterior desta tendência infantil. Não se

deve esquecer, além disso, que o prazer na visão e

no cheiro das fezes está associado com essas sensa-

ções. (A BRAHAM, 1970, p.176)

E adiante:

As pessoas que se acham privadas de uma satisfa-

ção genital normal tendem em regra à intratabilida-

de. Este tipo de indivíduo dá a impressão de que

está constantemente cheirando algo. Provavelmen-

te, este aspecto pode ter a origem remontada ao seu

prazer coprofílico em cheirar. (ABRAHAM, 1970, p.194)

Lembrem-se aqui as passagens das obras vis-

tas, em que o ouro pode-se denunciar pelo cheiro

(Comédia da panela); em que o tato e a visão do ouro

(Eugénie Grandet) são fontes indescritíveis de pra-

zer; 5 em que o ouro das senhoras (Comédia da panela)

é associado à virgindade, à honra, conceitos liga-

dos ao campo semântico da sexualidade; em que

cofres, caixas, sacos, panelas são os recipientes de-

positários do ouro, da honra, lembrando outras

caixas (como a de Pandora) e objetos ligados à se-

xualidade e aos excrementos (vagina, 6 saco, urinol

4949494949

Coleção Convite ao pensar

etc.); em que a figura da filha, presença obrigatória

em quatro das cinco obras vistas, está sempre as-

sociada a dote, a ganho ou à perda de ouro e de

riquezas, a “meu bebê” (Eugénie Grandet), a meu

tesouro etc., e ver-se-á que a equação de Freud “fe-

zes = dádiva = ouro/dinheiro = bebê = pênis”, é

plenamente confirmada nas obras aqui citadas. Por

outro lado, sabe-se como a mitologia e a literatura

forneceram a Freud elementos importantes para

suas investigações sobre o inconsciente e para suas

descobertas sobre a neurose, no trato direto com

seus pacientes. No caso da avareza, nossos anti-

gos escritores, sem conhecer a psicanálise, deram-

nos um perfil perfeito e acabado destes indivíduos

intratáveis, enfezados ou, como nos aponta a eti-

mologia, “cheios de fezes”, confirmando assim o

que comumente se diz do artista: sensibilidade

privilegiada, capaz de ler nas pregas da realidade

as verdades eternas do homem, seus vícios e vir-

tudes, seus pecados capitais, isto é, aqueles que,

intimamente enraizados na natureza do homem,

em seus instintos primitivos, permanecem e se re-

petem através dos tempos.

NOTAS

  • 1 Vocábulos registrados no Novo dicionário da língua portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda.

  • 2 Freud, em um de seus ensaios, refere-se a este episódio dos cofres.

  • 3 Já no fim da vida, pressentindo a morte, Grandet faz a filha prometer que cuidará bem da fortuna e que lhe prestará contas no outro mundo.

  • 4 Lembre-se aqui de Grandet, presenteando a filha em datas festi- vas com luíses de ouro; de Euclião, no final da peça, dando es- pontaneamente sua panela de ouro ao futuro genro; de Scrooge, presenteando o empregado e o sobrinho; de Shylock, entregan- do, sem protestos, sua fortuna.

  • 5 Veja-se em Balzac as passagens: “Não havia em Saumur nin- guém que não estivesse convencido que Monsieur Grandet não

5050505050

A avareza na literatura: a paixão de “ter” através dos tempos – Melânia Silva de Aguiar

tivesse um tesouro particular, um cofre cheio de luíses, e não se desse toda noite os inefáveis prazeres que proporciona a vista de uma grande massa de ouro.” (p.17) E ainda: “Eugênia lhe estendia os luíses sobre uma mesa, e ele permanecia horas in- teiras com os olhos presos nos luíses, como uma criança que, no momento em que começa a ver, contempla estupidamente o mesmo objeto; e, como a uma criança, escapava-lhe um sorriso penoso. – Isto me reaquece! dizia algumas vezes, deixando apa- recer no rosto uma expressão de beatitude.” (p.300)

6 Observe-se que “vagina” é “bainha”, “invólucro” e, segundo Lei- te de Vasconcelos, teria dado origem, por regressão, a “vage’, “vagem”, invólucro de certas plantas onde se encontram os grãos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAHAM, Karl. “Contribuições à teoria do caráter anal”. In: Teoria psicanalítica da libido. Rio de Janeiro: Imago, 1970.

BALZAC, Honoré de. Eugénie Grandet. Paris: Éditions Jean- Claude Lattès, 1989.

DICKENS, Charles. Conto de natal. Rio de Janeiro: Edições de Ouro/Tecnoprint, 1970.

FREUD, Sigmund. “Ansiedade e vida instintual”. In: Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. Rio de Janeiro:

Imago, 1976.

MOLIÈRE. L’avare. Paris: Éditions du Seuil, 1946.

SHAKESPEARE, William. O mercador de Veneza. Rio de Janei- ro: Edições de Ouro/Tecnoprint, [s.d.].

PLAUTO. Aululária (Comédia da panela). Rio de Janeiro: Edi- ções de Ouro/Tecnoprint, [s.d.].

5151515151

Coleção Convite ao pensar

5252525252

A LUXÚRIA

Alfeu Trancoso

Para um homem servir a si mesmo, são necessárias três cousas: olhos, espelhos e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelhos e olhos, há mister espelho, há mister luz. Que cousa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro de si e ver a si mesmo?

(VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima)

Luxúria vem de luxo, excesso, descomedimen-

to, desvirtuamento da sensualidade. Pecado pela

desmedida, pelo excesso de males advindos da

sexualidade. A floresta é luxuriante porque tem

excesso de viço e de crescimento. Santo Agostinho

já dizia que o mal consiste em abusar do bem. A

luxúria é um dos sete pecados capitais, isto é, uma

das sete forças que conspiram contra o livre de-

senvolvimento do homem. Estas forças destruti-

vas fazem parte de todos nós, pois estão em nós e

são em nós. Elas nos tentam a todo instante e gas-

tamos uma grande parte das nossas energias bus-

cando bloquear os seus efeitos maléficos.

Elas exercem uma grande atração em todos e

não existe ser humano que não seja freqüentemen-

te atraído pelo canto destas sereias. Todas estas sete

forças têm uma relação de reciprocidade. O erótico

da luxúria subsiste na avareza, nessa voracidade e

5353535353

Coleção Convite ao pensar

desejo pelo ter. Para o avaro o dinheiro é o grande

afrodisíaco. Na luxúria a sexualidade se torna de

uma avidez incontida, se transforma em gula pois

ela busca a magnificência de todos os sentidos, a

satisfação plena.

A luxúria tem o poder de transformar o sexo

em algo comestível, tornando-o assim uma antro-

pofagia ou uma potencialização máxima da gula.

Felizmente preparamos nossas defesas contra os

males da tentação: são as virtudes que se oporão

ao seu poder destruidor.

A luxúria é um ato que produz excessos; é um

desejo desmedido. O seu brilho encanta e seduz.

Suas visões são espetaculares, luzes e sonhos se

confundem. O seu luxo é esplendoroso. A porta de

entrada é extremamente atraente, tudo lembra re-

finamento, sensualidade e gozo. A luxúria quer ser

todo desejo, usar desmedidamente toda a liberda-

de, transformar toda sexualidade em fome de car-

ne. A luxúria é uma perversão de EROS, tornando-o

ANTEROS. Ela quer viver EROS ilimitadamente

sem preço. Alceu Amoroso Lima afirma que a lu-

xúria é uma “virtude enlouquecida, um amor que

se tornou pecado, uma qualidade que se tornou

uma fonte de males e de violência”. Ela é a defor-

mação barata do mais sublime sentimento huma-

no que é o amor. A luxúria quer justamente exceder

os limites desse amor. E como sabemos, EROS não

consegue viver sem limites, pois o amor é uma es-

colha e por isto necessariamente renúncia, limita-

ção. Escolher no amor é renunciar a todas as outras

escolhas e ainda ser fiel àquela única. Estimulada

pelo desejo, a luxúria detesta renúncia ou restrição,

pois ela quer todo o prazer, sendo assim um hedo-

nismo e um narcisismo. O harém representou a

forma extrema do objeto de desejo da luxúria como

5454545454

A luxúria – Alfeu Trancoso

hoje a prostituição tende a representar e substituir

essa antiga instituição.

Na luxúria o corpo se faz somente carne e a

erotização atual do nosso cotidiano atesta essa ten-

dência incontestável. Narciso superou Édipo e o

desejo é a força fundamental do momento. O su-

jeito se tornou uma criança insaciável.

A luxúria não é capaz de ver a pessoa como

encontro, gratidão e escolha, a vê somente como

falta, carência, um sujeito constantemente em busca

de um objeto. A força propulsora da luxúria é o

desejo e a sedução o seu mecanismo mais eficiente

de convencimento.

Infelizmente, uma grande parte da mídia está a

serviço desse projeto. A sedução é a arma principal

para nos convencer da verdade do objeto. A luxúria

faz parte hoje de um grande espetáculo. Soma-se

imaginação mais visual. Tudo é um grande show,

um grande palco onde todos nós somos os figuran-

tes. A luxúria passa a ser a cena que se incorpora

indelevelmente ao nosso pensamento numa dimen-

são muito ampliada e assim bem mais tentadora.

Estamos todos fascinados, pois a luxúria, ao

produzir excessos, nos acena para um desejo in-

contido. Estamos hipnotizados pela imagem, a lu-

xúria cria uma simulação do real através do e pelo

espetáculo. A imagem consome os últimos vestí-

gios do objeto e a fantasia abocanha as últimas

fatias da realidade. A sado-modelo, tão em voga

em nosso tempo, realça toda mediocridade a que

foi convertido EROS: torná-lo chicote e máscara, fi-

éis escudeiros da morte que o espetáculo recepcio-

na. De costas para todos ela é a expressão mais

deprimente de um EROS maquiado (ANTEROS). É

neste sentido que o amor barra o desejo, controlando

5555555555

Coleção Convite ao pensar

sua euforia, fazendo do encontro uma gratidão, da

escolha um ato de liberdade e de espiritualidade.

O frenesi especulativo atual é o exemplo fatídico

desta inconseqüente perversão: o virtual devora o

real, a imagem busca alucinadamente substituir o

objeto. Os fantasmas existem e desfilam mascara-

dos, sendo que a realidade mesmo se tornou um

fardo insuportável. Como perversão, a luxúria quer

transformar o amor numa experiência transitória

e o sexo se exprimir somente pelo instinto.

A luxúria detesta uma coisa que o amor exige:

a responsabilidade da escolha. Como desejo, ela

não suporta escolher, porque sabe que isto signifi-

ca limitar, continuar e se prolongar no outro. Ela

não conhece a necessidade de experiência com este

outro, pois é narcísica em essência e detesta toda

dependência. O amor é uma exigência porque é

uma responsabilidade que se afirma no fundamen-

to da escolha que é essa capacidade que temos de

decidir e ao mesmo tempo renunciar.

A luxúria desconhece a experiência da identi-

dade; ela quer satisfação e não reconhecimento, por

isso ela adora máscaras e anonimatos. Já o amor

exige reconhecimento, certeza e identidade. A pros-

tituição é hoje a face aparentemente escondida da

luxúria porque, como esta, aquela também detesta

se identificar. Na sociedade pós-moderna de con-

sumo o projeto de EROS se desvanece porque o de-

sejo busca criar um sujeito sempre insatisfeito, sem

apego a nenhum objeto, pois está disposto a trocá-

lo a todo momento. O projeto atual da sociedade de

consumo é fazer de cada sujeito uma carência abso-

luta. Como o apego é a essência da experiência amo-

rosa, a luxúria detesta repetir já que para ela a

experiência do gozo é sempre algo por vir. Nela o

prazer não acontece porque está sempre em busca

5656565656

A luxúria – Alfeu Trancoso

do refinamento, do mais e do melhor. Contra todas

as evidências, a luxúria falha. A orgia para ela é um

desastre, pois acaba sendo vítima do próprio desejo

que não quer e não pode se satisfazer nunca. Por

isto, a luxúria é uma força demoníaca que só des-

trói e nunca consegue construir positividades.

Quando nossos olhos se dirigem para os espe-

táculos televisivos, em nossa mente pululam todos

os desejos. Algo que nos incita ao insaciável que

sabemos não faz parte do amor, mas que é extrema-

mente atraente. É o sabor de uma busca que nunca

termina. A luxúria nunca quer chegar somente par-

tir, ela não conhece o prazer de encontrar; de estar

junto. A luxúria ignora a força do consentimento.

Ela não sabe o poder que reside no caminho de uma

decisão, pois seu EROS é esfacelado, caminha ape-

nas na via da carência. Por desconhecer a impor-

tância das alianças, a luxúria não compreende o

prazer da amizade, pois para ela tudo é um jogo de

sedução, por isso ela não vive a experiência de con-

fiar. Não conhece o prazer da satisfação por alguma

coisa, ela é uma fome que não sabe com que objeto

saciar. A luxúria adora o anonimato, mas não co-

nhece a beleza do íntimo, desconhece o prazer ritua-

lístico do encontro. Mas por que somos fascinados,

atraídos por tão enganosa promessa? Porque a lu-

xúria se apresenta sempre como espetáculo, isto é,

como possibilidade de satisfação de todos os nos-

sos desejos. Esta possibilidade como vontade existe

em todos nós. O chamamento, o apelo, é tentador,

mas as forças que buscam se opor a isto são tam-

bém bastante poderosas.

A educação trava uma luta constante contra es-

sas forças que sempre ameaçaram o poder civiliza-

tório reforçando nossas virtudes e aumentando

nossos exemplos. Há sempre algo de destrutivo em

todo o sistema organizado, mesmo no sistema físico.

5757575757

Coleção Convite ao pensar

A entropia – tendência para a desordem em um sis-

tema – aumenta com o tempo e a anatropia é a força

que mantém o sistema homeostático. O equilíbrio é

sempre um jogo de polaridades. É neste sentido que

a luxúria é um pecado: ela não apresenta um projeto

de esperança. A sua arma é o controle e o domínio da

fantasia. Os espetáculos coloridos televisivos são in-

finitamente mais caros que qualquer concerto musi-

cal. Um cantor qualquer ganha mil vezes mais que

um professor. Um jogador tem uma fama que jamais

sonharia um educador. A luxúria assim como as ou-

tras seis forças do negativo invadiram a nossa teli-

nha. Ligue-se em um noticiário e verá que somente o

mal acontece, somente a má notícia é uma boa notí-

cia e o mundo se transformou num quadro profun-

damente melancólico. A melancolia é a doença, a

fraqueza da luxúria: na essência mesma dela está a

tendência poderosa de negar a possibilidade do ser.

Para a luxúria, encontrar é apenas um modo atenua-

do de morrer. A tendência para não dar certo, torcer

para errar é um comportamento já cristalizado mas

muito perigoso no homem atual. Esta tendência de

valorizar o infortúnio faz parte do terreno fértil em

que a luxúria, a gula, a avareza e os outros pecados

presentes como um todo se proliferam.

 

POROS

PHILIA CARITAS
PHILIA
CARITAS

AGAPÉ

Diligência

EROS

EROS

encontro

PENIA

 

falta

Diligência

amar aqueles

divino

carência

encontro

que não se

perdoar e

desejo

conhece

amar aos

 

amar sem saber a quem encontro

inimigos

5858585858

A luxúria – Alfeu Trancoso

Se a sexualização de EROS o torna impuro, a

luxúria é o pecado da impureza, pois liga o prazer

somente às sensações do corpo. Ela dilapida e per-

verte a intenção verdadeira de EROS. A luxúria só

deseja o lado carente do AMOR, não consegue ver

nem saber do caminho que leva ao desenvolvimen-

to espiritual de EROS como PHILIA, como CARI-

TAS e como AGAPÉ. São essas forças que exprimem

o ser espiritual do homem. Em nossa época, em que

a banalização do negativo chega a extremos, o amor

pleno perde valor. Ele começa justamente quan-

do termina a história. Só o amor trágico atrai, dan-

do vazão a esta tendência demolidora que habita

em nós. O mal reside no homem e é o homem. O

seu enfrentamento é um desafio e ao mesmo tem-

po um dever. Mas, felizmente, é a experiência do

bem que mantém a humanidade em seu caminho.

É o amor que legitima e fundamenta a solidarie-

dade e a comunhão. A despeito de todos os pessi-

mismos, de todos os horrores, a esperança continua

a iluminar o caminho dos homens. São estas for-

ças que nos mantêm vivos e unidos em torno de

um ideal mais nobre.

A uma erotização cada vez mais intensa do co-

tidiano soma-se uma atitude negativista da vida. É

a consciência melancólica. Com suas honrosas ex-

ceções, os meios de comunicação de massa são hoje

os grandes divulgadores e, portanto, banalizadores

destas tendências autodestrutivas do homem.

Hoje, o inusitado – a menina dos olhos da infor-

mação – passa a ser o bem, o amor, a solidariedade e

a paz, já que a violência, o sexo pelo sexo e o conflito

se tornaram lugares-comuns em nossa sociedade.

Diante de tais desafios, a responsabilidade do

educador é infinita, pois se torna uma tarefa árdua

mostrar aos jovens outro caminho que não os da

5959595959

Coleção Convite ao pensar

sedução, do fascínio, do consumo fácil e da sexuali-

dade fantasiosa e enganadora. O educador precisa

oferecer-lhes alternativas para suas carências trans-

cendentais, sensibilizá-los para o mistério de ser e

demonstrar-lhes com humildade que nossa verda-

deira fome não se satisfaz apenas com objetos.

Nunca na história humana o trio sexo, violên-

cia e morte – em suas formas mais bizarras e de-

gradantes – foi tão divulgado, evidenciado e

promovido como no entardecer deste século. Os

desafios são imensos e somados à pretensa globa-

lização da economia e da informação apontam para

o risco de se mundializar o mal.

Finalizando o texto, cito um pequeno verso de

um grande poeta mato-grossense, Manoel de Bar-

ros, exímio falador desses assuntos: “Entra um cha-

mamento de luxúria em mim: Ela há de deitar sobre

o meu corpo em toda a espessura da sua boca! Ago-

ra estou varado de entremências. (Sou pervertido

pelas castidades? Santificado pelas imundícies?)”

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGOSTINHO, Santo. Confissões. [s.l.]: Ed. Abril, 1973. (Cole- ção Os Pensadores). BARROS, Manoel de. O livro das ignorãças. [s.l.]: Ed. Civiliza- ção Brasileira, 1994. p.25. AMOROSO LIMA, Alceu. Tudo é mistério. [s.l.]: Ed. Vozes, 1984. VIEIRA, Padre Antônio. Sermões. Rio de Janeiro: Ed. Livraria Agir, 1966.

6060606060

A IRA

Audemaro Taranto Goulart

A zelos me provocaram com aquilo que não é Deus, com as suas vaidades me provocaram à ira;

(Deuteronômio, 32, 21)

Já se disse que, entre os pecados capitais, a ira

é o mais importante porque é o único pecado que

Deus teria cometido. Descontada a retórica dessa

afirmação, não custa repassar algumas passagens

bíblicas que são bastante interessantes. No Gênesis,

Deus sente pesar-lhe o coração ao ver a maldade

do homem multiplicar-se espantosamente o que o

leva à ira e à determinação de destruir de sobre a

face da terra o homem que criara.

  • 1. E aconteceu que, como os homens se começaram

a multiplicar sobre a face da terra e lhes nasce-

ram filhas.

  • 2. Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens

eram formosas, e tomaram para si mulheres de

todas as que escolheram.

  • 3. Então disse o Senhor: Não contenderá o meu Es-

pírito para sempre com o homem; porque ele tam-

bém é carne; porém os seus dias serão cento e

vinte anos.

  • 4. Havia naqueles dias gigantes na terra, e também

depois, quando os filhos de Deus entraram às

filhas dos homens, e delas geraram filhos; estes

eram os valentes que houve na antigüidade, os

varões de fama.

6161616161

Coleção Convite ao pensar

  • 5. E viu o Senhor que a maldade do homem se mul-

tiplicara sobre a terra, e que toda a imaginação

dos pensamentos de seu coração era só má conti-

nuamente.

  • 6. Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o ho-

mem sobre a terra, e pesou-lhe em seu coração.

  • 7. E disse o Senhor: Destruirei, de sobre a face da terra, o homem que criei, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito.

(Gênesis, 6, 1-7)

Da mesma forma, no Deuteronômio, vê-se a ingra-

tidão dos israelitas quando oferecem sacrifícios “aos

deuses que não conheceram, novos deuses que vie-

ram há pouco”, o que também desperta a ira divina.

A zelos me provocaram com aquilo que não é

Deus, com as suas vaidades me provocaram à ira;

portanto eu os provocarei a zelos com os que não

são povo, com nação louca os despertarei à ira.

(Deuteronômio, 32, 21)

É também exemplar o castigo que o Senhor apli-

ca a Baasa, terceiro rei de Israel, que reinou por vin-

te e quatro anos. Mais uma vez repete-se o pecado

da idolatria o que provoca a ira e o castigo divino.

  • 2. Porquanto te levantei do pó, e te pus por chefe sobre o meu povo Israel, e tu andaste no cami- nho de Jeroboão, e fizeste pecar a meu povo Is- rael, irritando-me com os seus pecados,

[

...

]

  • 4. Quem morrer a Baasa na cidade, os cães o comerão;

e o que dele morrer no campo, as aves o comerão.

(I REIS, 16, 2-4)

O exemplo mais conhecido da ira divina é,

sem dúvida, o episódio do bezerro de ouro, como

se vê no Êxodo.

  • 6. E no dia seguinte madrugaram, e ofereceram ho-

locaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo

6262626262

A ira – Audemaro Taranto Goulart

assentou-se a comer e a beber; depois levanta-

ram-se a folgar.

  • 7. Então disse o Senhor a Moisés: Vai, desce; porque

o teu povo, que fizeste subir do Egito, se tem

corrompido.

  • 8. E depressa se tem desviado do caminho que eu

lhes tinha ordenado; fizeram para si um bezerro

de fundição, e perante ele se inclinaram, e sacri-

ficaram-lhe, e disseram: Estes são os teus deuses,

ó Israel, que te tiraram da terra do Egito.

  • 9. Disse mais o Senhor a Moisés: Tenho visto a este

povo, e eis que é povo obstinado.

  • 10. Agora pois deixa-me, que o meu furor se acenda contra eles, e os consuma; e eu farei de ti uma grande nação.

  • 11. Porém Moisés suplicou ao Senhor seu Deus, e

disse: Ó Senhor, por que o teu furor contra o teu

povo, que tu tiraste da terra do Egito com gran-

de força e com forte mão?

  • 12. Por que hão de falar os egípcios, dizendo: Para

mal os tirou, para matá-los nos montes, e para des-

truí-los da face da terra? Torna-te da ira do teu

furor, e arrepende-te deste mal contra o teu povo.

(Êxodo, 4, 6-12)

Essas ilustrações têm um valor específico que

é mostrar a dimensão do sentimento da ira. O sim-

ples fato de o discurso bíblico contemplar a mani-

festação do espírito divino irado funciona como um

princípio projetivo e especular, indicando que a ira

é uma característica indesviável do ser humano.

Jacques Maritain, por exemplo, entende que a de-

terminação da subjetividade do homem tem mui-

to a ver com as formulações teológicas – como a

divina Trindade e a Encarnação do Verbo – mas,

sobretudo, com a nova idéia de homem que foi

revelada pelos Evangelhos. Desse modo, pode-se

concluir que os textos sagrados têm uma função

primordial de mostrar ao homem o que ele é, o

que leva à dedução de que o homem, ainda que

6363636363

Coleção Convite ao pensar

por razões diferentes daquelas que indiciam a pre-

sença da ira em Deus, é um ser envolvido por senti-

mentos destrutivos e, por isso mesmo, votado ao

confronto com o seu semelhante, confronto que,

muitas vezes, tem resultados desastrosos. Basta en-

trar em contato com o noticiário diário da imprensa

para observar-se que a maioria das informações nele

contida diz respeito a uma forma agressiva de rela-

cionamento entre as pessoas, em todos os quadran-

tes do globo, numa cruenta relação de agressões.

Feita essa constatação, cabe indagar: afinal, o

que motiva, no ser humano, o sentimento agressi-

vo? O que é, realmente, a ira?

Se se buscar o dicionário para responder à in-

dagação, ver-se-á que o verbete ira diz muito pou-

co ao leitor. Ali, fica-se sabendo que ira (do latim

ira) significa cólera, raiva, indignação ou, de um modo

mais explícito, indica-se a ira como um desejo de

vingança. Como se vê, quase nada se tem em ter-

mos de tipificar esse sentimento de um modo mais

objetivo, um modo que possa mostrar as razões

pelas quais a ira envolve, inevitavelmente, o ser

humano. Para fazer isso, é preciso buscar as razões

que indiquem como o ser passou da condição de

animal à condição de homem. Talvez aí, nesse viés

antropológico, possa brilhar uma luz maior.

AAAAASSSSS RRRRRAZÕES AZÕES AZÕES AZÕES ANTROPOLÓGICAS

AZÕES ANTROPOLÓGICAS

ANTROPOLÓGICAS

ANTROPOLÓGICAS

ANTROPOLÓGICAS

Georges Bataille: a passagem da natureza para a cultura

Os estudos antropológicos mostram com uma

considerável riqueza os mecanismos através dos

quais se deu a passagem do animal ao homem. Entre

esses estudos, é apreciável o que o etnólogo e filósofo

Georges Bataille desenvolve, mostrando como se deu

essa transição.

6464646464

A ira – Audemaro Taranto Goulart

Segundo Bataille, a passagem do animal ao ho-

mem pode ser comprovada por meio de dois as-

pectos: o trabalho e os interditos operados nas

atitudes para com os mortos e na questão do con-

trole da sexualidade. Na medida em que trabalhou

– o que está demonstrado nos instrumentos que

criou para prover a sua subsistência – o homem

distinguiu-se do animal. Da mesma forma, ao sub-

meter-se aos interditos, o ser humano distanciou-

se da animalidade. No que se refere à posição

diante dos mortos, percebe-se que o homem assu-

miu uma postura de franca reverência, como reve-

lam as descobertas arqueológicas em que a

preocupação com o sepultamento e com a reunião

dos ossos denota um sagrado zelo. Nesse sentido,

Bataille lembra que o homem de Neandertal, “que

não era inteiramente um homem, que não tinha

ainda atingido rigorosamente a posição ereta, e cujo

crânio não diferia tanto quanto o nosso dos antro-

póides, enterrou muitas vezes seus mortos”. 1

Quanto à questão dos interditos sexuais, Bataille

chama a atenção para o fato de que não se encon-