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Um inglês morre em Portugal. Tem bens em Portugal, França e Inglaterra. Não fez testamento nem tem sucessíveis. Em França existe um Direito Real de aquisição por parte do Estado enquanto que em Inglaterra existe algo semelhante à nossa expropriação no âmbito do Direito Administrativo a favor da Coroa.

Em primeiro lugar cabe-nos aferir no presente caso prático da relação jurídica existente. Assim, estamos perante uma relação jurídica privada relativamente internacional. Internacional por possuir os seus elementos dispersos por mais que um ordenamento, ou, como diz a Professora Magalhães Collaço, por ser uma relação jurídica atravessada por fronteiras mas relativamente por um desses ordenamentos ser o nosso, o português. Em segundo plano, importa indicar as ordens jurídicas em contacto com a dita relação, são

elas: a portuguesa, a francesa e a inglesa. No entanto, cabe-nos a obrigação de referir os elementos de conexão que designaram estes ordenamentos, elementos de conexão esses que encontraremos no nosso Código Civil (CC) do seu art. 25º ao 65º. Posto isto, verificamos um elemento de conexão “comum” aos três ordenamentos, elemento esse cristalizado no art. 46º/1 CC, ou seja, o lugar da situação dos bens (conexão simples e elemento de conexão real). Não esquecendo porém, que a ordem jurídica inglesa é também chamada pelo elemento de conexão disposto no art. 62º CC, a nacionalidade (art. 31º/1 CC) ao tempo do falecimento (elemento de conexão de estatuto suspenso, o elemento de conexão é imóvel mas em termos tais que o seu conteúdo se apresenta temporariamente indeterminado). O passo seguinte é a interpretação do nosso conceito quadro. No art. 46º CC (norma que indica à colação os três ordenamentos) encontramos o regime da posse, propriedade e demais direitos reais, ou seja, estamos no âmbito dos Direitos Reais. Já no art. 62º CC (norma que chama à nossa resolução a ordem jurídica inglesa) deparamo-nos com a determinação da lei aplicável às sucessões por morte, estamos por isso, sob o domínio do ramo das Sucessões. É imperativo que façamos um recorte normativo nos ordenamentos designados procedendo à qualificação factual, qualificação essa que já sabemos de antemão que não é própria do Direito Internacional Privado mas que este não vive sem aquela. Torna-se de extrema importância sabermos como fazer esse recorte normativo, para isso, teremos de nos socorrer do nosso conceito quadro despido da sua veste, usando-o apenas como critério orientador, para não darmos aquilo a que Baptista Machado chama o “salto no escuro”. Assim, no ordenamento jurídico francês, operamos um recorte normativo no âmbito dos Direitos Reais, pois, é a esse ramo que se reporta a norma de conflitos onde estava contido o elemento de conexão que nos designou esta ordem jurídica. Aqui chegados, procedemos à qualificação factual, ou seja, subsumimos os factos numa norma jurídica materialmente aplicável interpretando esse direito material de acordo com o preceituado no art. 23º/1 CC. Desta forma, e segundo a teoria teleológica de Ferrer Correia que nos chama a atenção para

a necessidade de interpretar o conceito quadro de forma autónoma devido não só à relatividade dos conceitos mas também ao princípio da especificidade dos mesmos, damos-nos conta de que a norma encontrada protege os mesmos fins e interesses subjacentes ao conceito quadro da norma de conflitos, procedendo-se assim à integração segundo o art. 15º CC. Concluimos por isso que o Estado francês ficará com os bens sitos em França. Temos ainda de resolver o problema afecto aos bens sitos em Portugal e em Inglaterra. Desta forma, no que respeita a Portugal, operamos um recorte normativo no âmbito dos Direitos Reais, pois, é a esse ramo do Direito que se dedica a norma de conflitos onde estava contido o elemento de conexão que nos designou a nossa ordem jurídica. Aqui chegados, não encontramos nenhuma norma onde possamos fazer a qualificação factual, e não a encontramos porque o nosso ordenamento trata destas situações em sede de Direito das Sucessões, mais propriamente no art. 2133º/1/e) CC. Ora, à contrário senso do art. 23º/1 CC, a lei portuguesa é interpretada segundo o nosso sistema jurídico e por isso, socorremo-nos do art. 9º CC para o fazer. Mais uma vez, segundo

a teoria teleológica de Ferrer Correia, damo-nos conta de que o direito português concretamente

aplicável, que designa o Estado como último sucessível (a que nós chamamos sucessão forçada), não integra o conceito quadro que o designou, ou seja, o art. 46º CC. Não existe similitude entre os interesses e fins de uma norma de Direitos Reais e uma norma de Direito das Sucessões, logo, a lei portuguesa não pode ser aplicada. Resta-nos a análise do ordenamento jurídico inglês. Já sabemos que este ordenamento é trazido à colação através dos elementos de conexão contidos nos arts. 46º/1 CC e 62º CC. Importa por isso, operar um recorte normativo em sede de Direitos Reais e Direito das Sucessões, somente para não darmos o já referido “salto no escuro”, pois já sabemos que nesta fase o conceito quadro não tem essa veste. Já dentro dos ramos de Direito referidos, não encontramos nenhuma norma onde subsumir os nossos factos, pela razão de que a Inglaterra trata destas questões em sede de expropriação, algo próximo do nosso Direito Administrativo, a favor da Coroa até porque não fazem a distinção entre Direito Público e Direito Privado. Mais uma vez, não existe similitude entre os interesses e os fins do Direito inglês concretamente aplicável e os conceitos quadro que o designaram, de acordo com a teoria teleológica de Ferrer Correia. Estamos assim, perante um conflito negativo de qualificações ou um vácuo jurídico quanto aos imóveis em Portugal e Inglaterra, ou seja, normas materiais concretamente aplicáveis de dois ordenamentos jurídicos não se subsumiram nos respectivos conceitos quadro das normas de conflito que as designaram. Não estamos perante uma lacuna, estamos antes diante de um problema de não integração para a qual teremos de criar uma norma “ad hoc”.