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História & Luta de Classes, Nº 14 - Setembro de 2012 (11-17) - 11

História, atualização do passado e estilhaços messiânicos de uma revolta popular no III Milênio a. C.

Fábio Frizzo*

A inda que não tivesse tido, em toda minha vida,

mais do que um único momento de esperança, teria travado este combate. Inclusive, se hei de perdê-lo, outros o ganharão. Todos os outros. Paul Eluard

Não deve ser novidade para nenhum dos leitores desta revista que o capitalismo não levou a humanidade a um caminho diferente daquele dominado pela barbárie. Apesar de extremamente desvalorizados em meio à selvageria – talvez, justamente pelo perigo apresentado por sua função – historiadores das mais diversas correntes teóricas têm trabalhado, conscientemente ou não, para a construção deste “admirável mundo novo”. O historiador catalão Josep Fontana afirma com razão a semelhança funcional entre a história de um grupo e a memória de um indivíduo, ambas dando aos seus donos um sentido de identidade e orientando suas ações. Como memória coletiva, a história hegemonicamente legitima a ordem político-social vigente, agindo em conjunto com uma racionalização das desigualdades do mundo presente, que aparece como uma sequência lógica da trajetória decorrida, e cuja culminância se dá com um projeto político de futuro . A racionalização é a atividade humana por natureza e ela age no pensamento histórico sempre a posteriori, dando a Clio o título de dama do retrospecto. Desta maneira, a história pode ser representada como uma linha direta ligando todos os acontecimentos como necessários, naturalmente desembocando no mundo atual.

Clio, todavia, não é senhora de um homem só. A história se acosta com todos os que por ela nutrem algum tipo de interesse e aqueles que a manipulam não obedecem apenas a anseios individuais, já que:

o ponto de partida é, naturalmente, a produção dos indivíduos socialmente determinada. ( )

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) da antecipação

da “sociedade burguesa”, que se preparou desde o século XVI e que, no século XVIII, deu largos passos para sua maturidade. Nessa sociedade da livre concorrência, o indivíduo aparece desprendido dos laços naturais etc. que, em épocas históricas anteriores, o faziam um

[Partir do indivíduo] trata-se (

acessório de um conglomerado humano determinado e limitado. [O indivíduo é visto] não como um resultado histórico, mas como

* DoutorandoemHistórianoPPGH-UFFeProfessordeHistóriaAntigae MedievaldasUniversidadesCândidoMendeseEstáciodeSá. 1 FONTANA, Josep. História. Análise do Passado e Projeto Social. Bauru: EDUSC, 1998. p. 9-13.

Quanto mais

fundo voltamos na história, mais o indivíduo, e por isso também o indivíduo que produz,

aparece como dependente, como membro de um todo maior.

ponto de partida da história. (

)

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O mundo atual é justificado por uma linha de

progresso criada pela burguesia durante o processo de afirmação da sua ideologia como dominante, naturalizando o capitalismo como apoteose humana. Até o século XVIII, a ideia de progresso mantinha um caráter crítico em oposição à visão de mundo feudal. Entretanto,

como apontou Walter Benjamin, no decorrer do século XIX, com a consolidação da hegemonia burguesa, o progresso perdeu suas funções críticas . Partindo do pensamento de Benjamin, Fontana afirma que há uma “discordância entre um projeto de futuro socialista e sua fundamentação numa história – o que equivale a uma concepção de progresso – que corresponde em boa medida ao capitalismo” . Ou seja, uma concepção de progresso, influenciada pela teoria evolutiva da seleção natural, que a estendeu a todos os domínios da atividade humana na forma de um desenvolvimento automático . Soma-se a isto uma

generalização das condições da revolução industrial, que identifica o progresso aos avanços técnicos e tecnológicos.

A vontade burguesa iluminista de ver a história

como guiada por leis universais e imutáveis, que levaram

inevitavelmente ao capitalismo moderno, fez com que todo o retrospecto civilizacional humano fosse marcado pela existência transistórica do mercado. O conceito burguês de progresso foi interiorizado de tal forma que mesmo o marxismo a incorporou. Embora a obra de Marx seja marcada por conceitos fluídos, há muito se sabe que inúmeras correntes do marxismo – algumas extremamente poderosas – trataram de petrificar, entre outras, a concepção marxiana de história. Partindo do famoso prefácio de 1859 em que Marx ofereceu “o resultado geral que se lhe apresentou como fio condutor de sua

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5

2 MARX, Karl. Grundrisse. Manuscritos Econômicos de 1857-1858. Esboços da Crítica da Economia Política. São Paulo: Boitempo, 2011.

p. 39-40.

3 BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: EDUFMG, 2007.

p. 518-519.

4 FONTANA, op. cit., p. 251. 5 No marxismo um dos mais importantes pensadores a trabalharem sob a influência da teoria da evolução no desenvolvimento social foi o arqueólogo australiano Vere Gordon Childe, imortalizado naquela que talvez tenha sido sua obra mais célebre A Evolução Cultural do Homem. Rio de Janeiro: Zahar. 1986.

12 - História, atualização do passado e estilhaços messiânicos de uma revolta popular no III° Milênio a.C.

messiânicos de uma revolta popular no III° Milênio a.C. obra”, entendeu-se que mais do que a

obra”, entendeu-se que mais do que a luta de classes, o motor da história era o desenvolvimento das forças produtivas, que levaria a contradições com as relações de produção, criando o cenário revolucionário para a superação da estrutura econômica dada. Não foram poucos os debates historiográficos afetados por concepções mecanicistas como esta, defendida pela ortodoxia da Segunda Internacional, que desembocou no stalinismo. Um dos casos mais prolíferos é aquele da transição do feudalismo para o capitalismo. Segundo Ellen Wood, quase todas as explicações para a origem do capitalismo têm sido fundamentalmente circulares, assumindo sua pré-existência para explicar seu surgimento. Para elucidar a busca por lucro ligada à racionalidade capitalista, projeta-se ela no passado, como é feito, outrossim, com o impulso ao desenvolvimento dos meiostécnicos,transformado,comovisto,emleinatural. Com efeito, não são poucos os pesquisadores que assumem posições similares, caracterizando uma corrente conhecida como circulacionista, propondo que a transição se deu por meio do incremento do comércio. Tal concepção dá ao capitalismo o título de estágio mais complexo e maduro das formas de troca, agora livres dos entraves políticos e culturais que impediam seu desenvolvimento. Em outras palavras, o espírito capitalista da troca de mercadorias guiada pela racionalidade econômica da maximização de benefícios é aistoricizado. Além de implicar uma concepção burguesa de progresso, a corrente circulacionista de explicação da transição também contém um gérmen da visão tradicional – herdeira do Renascimento e reforçada com o Iluminismo – e preconceituosa em relação à Idade Média, vista como um período de trevas, ou seja, uma interrupção na linha de desenvolvimento seja das trocas ou do das forças produtivas que culmina no capitalismo. Seguindo esta linha, a Roma Antiga e seu mercado imperial que cruzava o Mare Nostrum tiveram sua transição para o capitalismo interrompida pela barbárie dos povos germânicos, incivilizados dentro da sua “economia natural”, levando o Ocidente a cerca de um milênio de atraso em sua evolução. Mesmo um brilhante historiador marxista da economia romana, como Aldo Schiavone, acaba resvalando em sua interpretação em pressupostos semelhantes aos dos circulacionistas, deixando abertura para uma interpretação criticável. Segundo Schiavone, as relações econômicas na antiguidade latina estavam inseridas numa malha de fatos e relações de outros tipos,

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ou seja, a economia romana em nenhum momento de sua história conseguiu manter-se com seus próprios pés, desencadeando aquele processo de instável autossustentação financeira e tecnológica que, no mundo moderno, “liberou Prometeu” sob a forma da revolução industrial e do capitalismo.

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6 MARX, Karl. “Prefácio à 'Contribuição à Crítica da Economia Política'”. In: MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Textos. Vol. III. São Paulo: Edições Sociais, 1977. p. 300-303. 7 WOOD, Ellen. The Origin of Capitalism. Londres: Monthly Review Press, 1999. p. 8

Apesar de formalmente correta, uma afirmação como esta dá margem a um entendimento de que o capitalismo surgiria em Roma assim que os entraves políticos e culturais fossem removidos. Criticando esta

posição no debate de transição do feudalismo para o capitalismo, Wood afirma que para os circulacionistas:

A mudança é mais no que acontece com as forças e instituições – políticas, legais, culturais e ideológicas, bem como tecnológicas – que impediam a evolução natural da troca e a maturidade dos mercados”. Desta maneira, o capitalismo não é visto como o momento em que o mercado se tornou algo compulsório, através da instituição da lei do valor e da transformação nas relações de trabalho, mas sim – conforme a ideologia burguesa – aquele em que se tornou livre. Logo, a transição é vista como um processo quantitativo de

acúmulo – ou desaparecimento – de condições e não como uma modificação qualitativa radical, que inaugura uma forma de dominação inédita na trajetória humana. A naturalização das estruturas capitalistas na história gerou, desde o século XIX, um conhecido debate entre antiquistas e antropólogos, conhecido como contenda Bücher-Meyer. A primeira corrente, iniciada com os trabalhos de Karl Bücher, foi nomeada como primitivista por entender as estruturas econômicas da Antiguidade – grega, no caso específico – como diferentes das capitalistas e rudimentares em comparação a esta. Por outro lado, os modernistas creem, desde o trabalho de Eduard Meyer, que guardadas as devidas proporções quantitativas, a economia pré-capitalista obedece à mesma dinâmica de funcionamento daquela que a sucedeu. Durante o século XX, a discussão tomou novos contornos a partir da Antropologia Econômica e da crítica feita por Karl Polanyi, que acusava os “modernistas” de formalismo, ou seja, identificar a racionalidade de maximização de benefícios como algo aistórico. Em oposição, Polanyi indicava o caminho do substantivismo, no qual as estruturas econômicas pré-capitalistas estavam encrustadas (embedded) em outras esferas da vida social, como a política ou a religião, determinando outros tipos de racionalidade. Desta maneira, os substantivistas só acreditam na centralidade da mercadoria e do lucro dentro da sociedade capitalista, legando às sociedades anteriores outras formas de circulação, como a redistribuição e reciprocidade. No caso que nos interessa em particular, o da egiptologia, as discussões seguem o mesmo caminho, ainda que a economia faraônica, ao contrário da grega, não fosse monetarizada. Jogando pela equipe dos modernistas/ formalistas, entram em campo o Barry Kemp e Christopher Eyre. O primeiro foi responsável por um famoso capítulo, intitulado “O Nascimento do Homem

Econômico”, no qual critica a economia redistributiva que Polanyi encontra no Egito Antigo, identificando-a com a URSS e afirmando que estava influenciada pela

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8 SCHIAVONE, Aldo. Uma História Rompida. São Paulo: EDUSP, 2005. p. 70. 9 WOOD, op. cit., p. 15-18.

visão de uma divisão igualitária da produção através da imbricação das relações econômicas em uma ideologia política. Kemp, contudo, afirma que a impossibilidade do Estado – moderno ou antigo – de atender todas as demandas individuais a contento geraria o mercado como uma “reação natural” . A palavra “natural” não é um simples descuido conceitual, ela representa mesmo uma ação inerente ao gênero humano, como se pode notar na seguinte citação:

O conceito abstrato de obter um benefício com uma venda é uma racionalização do que se consegue ao fazer uma transação proveitosa, de conseguir um bom preço. O último pertence ao reino das estratégias intuitivas de sobrevivência que formam parte do ser humano.

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Eyre enverga o mesmo uniforme do time de Kemp, partindo também da crítica político-ideológica ao socialismo soviético. Em seu artigo sobre arrendamento de terras no Egito Faraônico, o egiptólogo formalista associa, outrossim, o modelo redistributivo do substantivismo a uma nefasta influência da estrutura econômica centralizada da URSS. Restaria, portanto, utilizar o paradigma da ação empreendedora privada, como se pode notar:

elas [as fontes documentais] falam pela superioridade, também no período faraônico, de um modelo econômico dependente da empresa

quase-comercial de trabalhadores camponeses individuais e intermediários rurais e não de uma

burocracia quase socialista. (

avaliação do equilíbrio entre vantagem ou desvantagem, e a noção de lucro não eram desconhecidas no Egito Antigo, ainda que não fossem expressas em termos contábeis

modernos.

) A empresa, uma

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Do outro lado da cancha no certame da economia faraônica, há a equipe de substantivistas encabeçada por J.J. Janssen e sua defesa do modelo redistributivo para o Antigo Egito. Ao seu lado, encontra-se atualmente o estadunidense Edward Bleiberg, que defende que não existia busca pelo lucro no escambo egípcio. Os bens eram adquiridos por seu valor de uso, não havendo, desta maneira, formação de capital. Ao desnaturalizar o lucro como motivador das trocas, Bleiberg pensa uma economia incrustada em outras estruturas, identificando a busca de prestígio como a principal motivação para o comércio, já que a vantagem pessoal passava por instituições reais e divinas. Por fim, fora das duas equipes, há aqueles que pretendem ostentar uma posição imparcial, ou seja,

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10 KEMP, Barry. El Antiguo Egipto. Anatomía de una Civilización. Barcelona: Crítica, 2003. p. 295 11 Idem, p. 320. 12 EYRE, Christopher. “Peasants and “Modern” Leasing Strategies in Ancient Egypt.” Journal of the Economic and Social History of the Orient. Vol. 40, No. 4. Leiden: BRILL, 1997 p. 386. Destaque meu. 13 JANSSEN, J. J. “Prolegomena to the Study of Egypt's Economic History During the New Kingdom.” Studien zur Altägyptischen Kultur, Bd. 3. Helmut Buske Verlag GmbH, 1975. p. 127-185 14 BLEIBERG, Edward. The Official Gift in Ancient Egypt. Oklahoma:

The University of Oklahoma Press, 1996. p. 11-27.

Oklahoma: The University of Oklahoma Press, 1996. p. 11-27. História & Luta de Classes, Nº 14

História & Luta de Classes, Nº 14 - Setembro de 2012 (11-17) - 13

aqueles que acreditam que o debate entre formalistas e substantivistas já foi superado a partir de visões que mostram que nenhum dos dois lados está completamente certo ou errado. Um desses nomes na egiptologia é o de Stuart Smith. Todavia, o que ele acaba fazendo – como outros deste grupo – é fingir imparcialidade deixando transparecer, sem perceber, seu uniforme formalista, como fica claro nesta citação de Smith:

Já estes indivíduos [artesãos especializados]

estavam claramente usando seu treinamento como especialistas funerários para maximizar suas rendas e acumular riqueza, tirando vantagem da demanda por bens de alta qualidade para tumbas estimulada por demonstrações mais

ostentatórias ou modestas de riqueza nos

funerais.

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Isto nada mais é do que a naturalização da busca marginal pela maximização de benefícios em um mundo de recursos escassos. O que parece mais incrível é que mesmo extrapolando a realidade capitalista para todas as sociedades humanas e, desta maneira, projetando uma linha de progresso que desemboca no apogeu burguês do presente, os formalistas – declarados ou não – ainda assim criticam a ideia de evolução que leva à sociedade a qual defendem – consciente ou inconscientemente – como culminância humana. Não satisfeitos, usam o conceito de evolução e linearidade para criticar todos aqueles que pensam nas especificidades das relações pré- capitalistas. Vejamos dois rápidos exemplos.

O debate da economia antiga x economia

moderna continua a valorizar a noção fora de moda de estágios históricos caracterizados por tipos sócio/econômico/políticos que sucedem

um ao outro de forma linear.

A divisão tudo-ou-nada primitivista/modernista, substantivista/formalista obscurece a real complexidade das economias antigas forçando-

as em um quadro evolucionário artificial,

privilegiando a emergência do capitalismo

ocidental e o moderno sistema mundial.

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17

O fundamental para uma crítica marxista da economia pré-capitalista é que ambos os lados do debate criado no século XIX mantém-se discutindo apenas a circulação, abandonando a esfera da produção e as relações conflituosas entre as classes nela envolvidas. Este é um erro similar àquele apontado em relação à vertente circulacionista – marxista ou não – da transição

para o capitalismo. O que aponta Ellen Wood para a gênese do modo de produção capitalista e que pode ser extrapolado como método para outros momentos históricos é o enfoque nas formas históricas de exploração e resistência entre elites e classes subalternas.

18

15 SMITH, Stuart. Wretched Kush. Ethnic identities and boundaries in egypt's nubian empire. London e New York: Routhledge, 2003. p. 68.

16 LAMBERG-KARLOVSKY, C. C. In: FRANK, André Gunder et alii. “Bronze Age World System Cycles [and Comments and Reply]. In: Current Anthropology. Vol. 34. No. 4. Chicago: The University of Chicago Press,Ago-Out 1993. p. 383-429. Acitação é da p. 416.

17 SMITH, op. cit., p. 67.

18 WOOD, op. cit.

14 - História, atualização do passado e estilhaços messiânicos de uma revolta popular no III° Milênio a.C.

messiânicos de uma revolta popular no III° Milênio a.C. Sem o foco na historicidade das lutas,

Sem o foco na historicidade das lutas, resta apenas a visão de uma evolução automática de progresso, seja aquela burguesa do desenvolvimento e liberalização das leis universais do mercado, ou aquelas marxista que escondem a ação humana sob as estruturas do desenvolvimento das forças produtivas ou mesmo da reprodução do capital. Contra esta visão de progresso, que torna a história uma apologia do presente baseada na continuidade, Walter Benjamin aprendeu a ver no tempo algo diferente de uma linha reta a qual o historicista preenche com uma massa de fatos. Para ele, o continuum temporal era pulsante e estava disponível ao materialista histórico para ser utilizado como uma citation à l'ordre du jour, conforme fica claro em sua sexta tese sobre o conceito de História:

Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha

19

Em cada época é preciso

arrancar a tradição ao conformismo, que quer

O dom de despertar no

passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado

apoderar-se dela. (

consciência disso. (

)

)

de vencer. (Tese 6)

20

Benjamin não se iludia com a existência de uma pretensa História atemporal, uma verdade estabelecida e acessível, como as vozes ouvidas por Michelet nos arquivos, esperando pelo resgate do historiador. O crítico alemão sabia que a História é refeita a cada presente e que cada tempo apropria-se dela como bem entende. Desta maneira, ele dizia que era preciso fazer “saltar pelos ares o continuum da história” e construiu um conceito de tempo no qual o passado não existiu, mas, sim, existe! Ou, em suas palavras, que “a verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é conhecido” (Tese 5). Desta maneira,

funda um conceito de presente como um

“agora” no qual se infiltraram estilhaços do messiânico” (Apêndice 1). O materialista histórico

21

Benjamin “(

)

22

) (

messiânica dos acontecimentos, ou, dito de

outro modo, de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado

reconhece o sinal de uma imobilização

19 Penso especialmente na teoria stalinista da evolução linear dos modos de produção ou, por outro lado, no trabalho de autores como Moishe Postone que afirmam que o pensamento marxiano não identificava o sujeito com o proletariado ou a humanidade, mas sim

com o capital, esterilizando o poder revolucionário de um pensamento voltado para a ação. Ver POSTONE, Moishe. Rethinking Marx's

et Alii. History and Heteronomy. Critical

Essays. Tóquio:UTCP, 2009. p. 31-48.

Critical Theory In:

20 BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994. p. 224-225.

21

22

Idem, p. 224. Idem, p. 232.

oprimido. Ele aproveita a oportunidade para extrair uma época determinada do curso

homogêneo da história (

). O fruto nutritivo do

que é compreendido historicamente contém em seu interior o tempo, como sementes preciosas,

mas insípidas. (Tese 17).

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No que nos parece o ápice de sua percepção temporal, Walter Benjamin produz um encontro histórico entre gerações e gerações de oprimidos que se unem na luta pela redenção:

O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro

secreto, marcado entre as gerações precedentes e

a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos

concedida uma frágil força messiânica para qual

passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente. O materialista histórico sabe disso. (Teses 2)

o

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Toda esta introdução acerca do caráter do conhecimento histórico me foi imposta pela necessária reflexão sobre os acontecimentos ocorridos durante o início do ano de 2011, no que se convencionou chamar de

“Primavera Árabe”, que teve o Egito como centro gravitacional. Para as camadas populares egípcias, a Praça Tahir se tornou local do “encontro secreto marcado entre as gerações precedentes e a nossa”. Como egiptólogo esforçado e pretenso materialista histórico, foi impossível não buscar nos “estilhaços messiânicos” a fixação da imagem de um “sopro de ar que foi respirado” há mais de 4000 anos, na única revolta popular bem documentada do período faraônico. A principal fonte para o estudo dos movimentos populares no Egito Antigo foi publicada, em 1909, por Alan Gardiner, sob o título de As Admoestações de um Sábio Egípcio, proveniente do texto do recto do Papiro

Leiden 344, encontrado na região de Mênfis e datado do final do primeiro milênio a.C. Logo de início, entendeu- se, a partir das suas características gramaticais, tratar-se

de uma cópia tardia de um texto anterior, que a maioria dos egiptólogos atualmente localiza no espaço de tempo conhecido como Primeiro Período Intermediário, no final do III° Milênio a.C O Primeiro Período Intermediário (2181-2055 a.C.) foi marcado pelo enfraquecimento da monarquia faraônica e a descentralização do governo egípcio como havia existido no Reino Antigo. Tais mudanças parecem ter sido causadas por uma revolta popular acompanhada da invasão de asiáticos no Delta, conforme referência do próprio Papiro Leiden 344. Para o egiptólogo Moreno Garcia: “O papel dos “períodos intermediários” para o historiador é o de lentes que ampliam e põem em

23 Idem, p. 231. 24 Idem, p. 223.

evidência os elementos subjacentes de fratura, de crise, de transformação, presentes na sociedade, mas que aparecem citados raramente nas fontes oficiais”. Dez anos após sua primeira publicação, as

já começaram a passar por um

processo de revisionismo que afirmava o caráter não- histórico do texto. Até o final do século passado, alguns egiptólogos, como Miriam Lichtheim, sustentavam que a obra era apenas um exercício puramente literário que refletia o par ordem/caos, central na concepção de mundo

Admoestações

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egípcia. Tudo isto por tratar-se de um discurso de inversão social, incomum em uma sociedade em que uma classe dominante constituída por no máximo 1% da população produzia fontes escritas.

É importante fazer esta discussão, porque a

gigantesca maioria dos documentos egípcios retrata um estado de ordem social a partir de uma perspectiva idealizada de continuidade ordeira, o que é explicado não somente por uma visão ideológica de classe, mas também por um fator conjunto: o fato de que as escrituras tinham caráter mágico. Para os egípcios escrever sobre a ordem era, também, uma forma de manter Maat, a deusa-conceito

de ordem, justiça, verdade e medida, responsável pela continuidadedouniversotalcomoexistia.

O supramencionado processo de revisionismo

historiográfico pelo qual passaram “As Admoestações ” nada mais é, portanto, do que algo corriqueiro no campo

de História Antiga e Medieval, a saber, a confusão entre a

escassez de fontes provenientes das camadas populares e

a inexistência de qualquer manifestação destas. Nas

palavras de Walter Benjamin, este tipo de pensamento cria uma imagem de passado apropriada pelo conformismo, vazia e homogênea (Tese 14). Um materialista histórico interessado em “escovar a história a contrapelo” (Tese 7) não pode aceitar a inexistência de conflitos sociais em uma civilização que durou cerca de 3000 anos, por mais forte que seja o poder do consenso criado pela ideologia religiosa. Tampouco é aceitável responsabilizar apenas agentes exógenos, como invasões estrangeiras, pelos períodos de intensa modificação social. Ademais, há argumentos suficientes para crer na veracidade dos eventos descritos no texto do Papiro Leiden 344, conforme foi demonstrado por Ciro Cardoso. Não é novidade que, a exemplo de qualquer outra sociedade pré-capitalista, o Antigo Egito era

eminentemente agrário. Com um meio ambiente altamente propício para o cultivo, a produção egípcia era marcada por um baixo nível de desenvolvimento técnico

e tecnológico das forças produtivas, compensado pela

abundância e intenso controle da força de trabalho.

Já há muito tempo, criticou-se devidamente o

conceito de Modo de Produção Asiático conforme

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28

29

25 MORENO GARCIA, Juan Carlos. El Egipto en el Imperio Antiguo. Barcelona: Edicions Bellaterra, 2004. p. 12. 26 LICHTHEIM, Miriam. Ancient Egyptian Literature. Vol. 1. Berkley:

University of California Press, 1975. p. 149-150. 27 BENJAMIN, op. cit., p. 14. 28 Idem, p. 225. 29 CARDOSO, Ciro. Violência e Política no Antigo Egito. Conferência apresentada no Ciclo de Debates do Laboratório de História Antiga da UFRJ. Rio de Janeiro: 2010.

de História Antiga da UFRJ. Rio de Janeiro: 2010. História & Luta de Classes, Nº 14

História & Luta de Classes, Nº 14 - Setembro de 2012 (11-17) - 15

elaborado por Marx e Engels. A atividade estatal concentrava-se nos censos de terras e trabalhadores, bem

como na tributação tanto do excedente de produção quanto de trabalho, que era feita de forma extremamente violenta e penosa para os camponeses. São comuns nas cenas de tumbas imagens de lavradores diante de escribas recebendo castigos físicos em caso de insuficiência no pagamento de cereais. Geralmente, as agressões consistiam em espancamento com bastões de madeira nas plantas dos pés ou nas costas. Toda essa repressão terminou em rebelião popular no final do Reino Antigo. O texto das

foi atribuído a um sábio egípcio

conhecido como Ipu-Ur, que detinha o cargo de “chefe dos cantores”, a julgar por outro documento da mesma época, conhecido como “fragmento Daressy”. As circunstâncias iniciais da revolta popular descrita no Papiro Leiden 344 não são relatadas. O egiptólogo José Carlos Reyes afirma que a perda de força do Estado perante os nobres locais, que abusavam dos privilégios sobre a população, teria levado, em conjunto

com a crise econômica conjuntural, à rebelião.

é composto por

trechos em prosa e outros em verso e se concentra em alguns eixos temáticos como, por exemplo: a oposição entre um passado glorioso e um presente em desordem; a questão da traição das forças mercenárias estrangeiras e a invasão da região do Delta; a inversão social entre ricos e pobres; o ataque às instituições; o vandalismo e a

pilhagem. O estado de violência e desordem fica bem expresso no trecho seguinte:

30

“Admoestações

31

O texto das “Admoestações

32

o país está cheio de bandos (revoltosos), e para lavrar um homem leva o seu escudo.

(

)

(

)

Em verdade (

)

o

crime alastrou-se e não há homens como

antigamente. Em verdade os ladrões [estão] por toda parte,

os criados levam o que encontram.

Em verdade o Nilo inunda (mas) ninguém lavra para si (pois) todos dizem “Não sabemos o que sucederá

ao país”.

33

No caso do eixo de inversão social, que é mais importante para o propósito desta comunicação, há uma exaltação dos pobres em contraposição à humilhação dos ricos e à tomada de bens dos segundos pelos primeiros.

Em verdade os pobres passaram a exibir luxo, e o que não podia ter sandálias possui riqueza. Em verdade os criados estão vorazes

30 Um dos exemplos publicados em português é CARDOSO, Ciro, BOUZON, Emanuel & TUNES, Cássio. Modo de Produção Asiático. Nova Visita a um Velho Conceito. Rio de Janeiro: Campus, 1990.

31 REYES, José Carlos Castañeda. Sociedad Antigua y Respuesta Popular. Movimentos Sociales en EgiptoAntiguo. Cidade do México:

UniversidadAutónoma Metropolitana, 2003. p. 128-129.

32 Alguns destes eixos temáticos foram estudados, em seus aspectos literários, em JOÃO, Maria Thereza. “As Admoestações de Ipu-Ur:

Reflexões sobre a Sociedade Egípcia do Primeiro Período Intermediário.”. NEARCO. N. 1.Ano II. Rio de Janeiro, 2009.

33 ARAÚJO, Emanuel (Org. e Trad). Escritos para a Eternidade. Brasília: Editora da UNB, 2000. p. 178-179.

16 - História, atualização do passado e estilhaços messiânicos de uma revolta popular no III° Milênio a.C.

messiânicos de uma revolta popular no III° Milênio a.C. e o poderoso não compartilha [de alegria]

e o poderoso não compartilha [de alegria] com sua gente. (…) Em verdade os ricos deploram e os pobres

exultam;

Cada cidade diz: “Expulsemos os poderosos!” (…) Não há remédio para isso,

As senhoras sofrem como criadas, (…)

Eis que as senhoras dormem em tábuas

E os notáveis no celeiro,

[mas] o homem que nem dormia em cubículo possui uma cama. Eis que o rico se deita com sede,

o que esmolava sobras tem bilhas que transbordam de cerveja.

e

34

Ainda que o texto se refira em alguns momentos aos artesãos, aparentemente, os protagonistas do movimento popular foram os camponeses. Há menções à conquista de terras, à tomada de grãos e ao não pagamento de tributos.

Em verdade [desde] Elefantina [até] Tis [ ] não

se

paga imposto por causa do tumulto. Há falta

de

grãos, carvão e madeiras (

Em verdade acabou o grão em toda parte, ( )

Em verdade os escribas de esteira Têm seus escritos destruídos

O grão do Egito é [agora] de quem diz: “Chego e

pego”. ( ) Eis que o pobre em terra ficou rico

e o que tinha propriedades nada tem ( )

Eis que aquele que não tinha pão possui celeiro

e sua despensa está cheia de coisas dos outros.

) ( Eis que aquele que não tinha grãos possui

celeiros

e o que pedia grão emprestado [agora empresta]

) ( [Eis que aquele que computava] a colheita nada

sabe sobre ela, (

35

).

36

Como último eixo abordado neste artigo, cabem as menções aos ataques a instituições estatais, expressos no trecho abaixo:

Falta ouro, esgotaram-se as matérias-primas de todos os ofícios. O que pertencia ao Palácio foi saqueado. ( ) Diz-se: “Maldito o Lugar dos Segredos!” [pois agora] pertence [tanto] aos que não o conheciam [quanto] aos que o conhecem ( ) Em verdade os documentos do Grande Baluarte foram roubados, seus segredos revelados. Em verdade as fórmulas mágicas foram

divulgadas,

tornaram-se ineficazes porque são repetidas por todo mundo. Em verdade as repartições [públicas] foram

37

abertas

e levados seus arquivos (

)

34 Idem, p. 177-191.

35 Funcionários responsáveis pelo cadastro das colheitas.

36 ARAÚJO, op. cit,

37 Ao que tudo indica tratava-se de um tribunal (talvez uma prisão também) destinado a casos ligados aos camponeses e escravos.

Em verdade as leis do Grande Baluarte são jogadas fora, As pessoas pisam-nas pelos lugares públicos e os mendigos rasgam-nas nas ruas. ( ) Em verdade invade-se o Grande Baluarte, os mendigos entram e saem [à vontade] nas grandes casas [de Justiça]. ( ) Eis agora que aconteceu algo jamais ocorrido:

O rei foi pilhado por mendigos. ( ) Eis que se chegou a privar o país da realeza por alguns aventureiros desvairados ( ) Eis que o segredo do país , cujos limites eram desconhecidos, se tornou público e a Residência [pode] ser arrasada num instante. ( ) Eis que a Residência tem medo da penúria, Os homens levantam-se em agitações e não há resistência.

38

39

A partir de alguns fragmentos supracitados, José Carlos Reyes vê como indubitável a existência de uma tomada popular do governo. Tal grupo popular parece ter se tornado dirigente de pelo menos uma parte do Egito, ainda que tenha entrado em crise logo em seguida, em

decorrência da impossibilidade de resistir aos ataques dos

nobres e funcionários provinciais do restante do país. A primeira medida dos dirigentes do governo popular teria sido a divulgação dos “segredos do país”, ou seja, os mecanismos de administração pública e seus registros oficiais. Para isto, é possível que se tenha contado com a ajuda de funcionários menores, incorporados ao movimento. A crise, todavia, não foi contida pelo governo popular, incapaz de resolver o problema da fome e da insegurança derivada dos conflitos internos e ataques estrangeiros. Estima-se, pelo contrário, que tenha produzido, aos poucos, a deserção de alguns grupos que

apoiavam a insurreição, como artesãos, que viram piorar a sua situação com a escassez de matérias-primas e sem um governo investindo em grandes obras. Ainda que seja muito difícil precisar o intervalo temporalocupadoporestegovernopopular,éprovávelque tenha durado entre 70 e 75 dias. Em seguida, sofreu com a repressãocoordenadapelosnormarcasegrandesnobres. Como tentei demonstrar, a concepção de progresso tem levado os historiadores a uma defesa – consciente ou não – de uma ideologia burguesa. Atuando em conjunto, história, racionalização e justificativa do presente e projeto de futuro criam o mundo atual como apoteose do “fim da história”, naturalizando uma continuidade artificial que mostra todos os momentos de ruptura como barreiras superadas. Como bem apontou Benjamin, o materialismo histórico deve demonstrar que não escolhe aleatoriamente seus objetos e abandonar o conceito de progresso em troca da idéia de uma “atualização”, explodindo a continuidade histórica reificada impregnando-a com o presente.

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41

38 Os mistérios da realeza, só conhecidos pelo faraó. 39 ARAÚJO, Emanuel. Op. Cit.

40

Sobreateoriadeumgovernopopular,verREYES,op.cit.,p.139-145.

41 BENJAMIN, Passagens, op. cit. Ver especialmente as passagens N2,2; N9a,5; N9a, 6; N10a,1; N11a,1. p. 436-519.

Durante as mobilizações populares na Praça Tahir e por todo o Egito, egiptólogos do mundo, cobertos pela mídia internacional, demonstraram acima de tudo suas preocupações com as “relíquias sagradas” do país, ou seja, os documentos arqueológicos da vasta cultura material faraônica. Condenou-se a invasão de museus e templos por desordeiros interessados em saquear o patrimônio histórico da humanidade. Foi com isso que os historicistas se preocuparam! Enquanto isto, os materialistas históricos observavam com admiração o levantar de um povo oprimido. Não é uma questão de desprezo pelo patrimônio material, mas, sim, de uma valorização do patrimônio imaterial do qual aquela população se apoderava, sua verdadeira “relíquia sagrada”. Mais do que cacos de cerâmica milenares, tão valorizados pelos arqueólogos, as camadas populares demonstravam interesse nos “estilhaços messiânicos” descritos por Benjamin. Estes estão ao alcance de qualquer um, cabe a nós o trabalho cuidadoso de reuni-los na luta pela redenção daqueles homens e mulheres que derramaram sangue na mesma areia egípcia há mais de 4000 anos atrás.

Artigo recebido em 17.2.2012 Aprovado em 30.5.2012

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História & Luta de Classes, Nº 14 - Setembro de 2012 (11-17) - 17