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Do Portugal Profundo 1 de 2

Sábado, 19 de Abril de 2008


O Memorando e a Moção dos sindicatos de
professores
Amanhã é outro dia: tempo de combate e esperança. Tempo moral.

Um comentário sobre a consulta aos professores relativamente ao acordo entre os


sindicatos de professores e o Governo de 11-4-2008. Mais tarde, farei aqui uma
análise e síntese do contexto político do acordo.

O acordo entre sindicatos de professores e Governo de 11-4-2008 - "Memorando de


Entendimento entre a Plataforma Sindical de Professores e o Ministério da Educação"
(não-datado) - envolveu ainda, em anexo, uma Declaração da Plataforma Sindical e uma
Declaração da Ministra da Educação que têm o objectivo de limpar a face de cada um,
tentando cada um demonstrar que não cedeu e que ganhou.

Como tenho repetido, os 100 mil professores não participaram na manifestação por
causa do aburdo do método e da substância da avaliação dos docentes, mas por causa da
regressão do ensino, no meio do delírio pedagógico e didáctico do Ministério da
Educação, e da degradação da função do professor. Ora, o acordo não resolve, nem
estabelece um método para resolver, as queixas maiores e, portanto, despreza-as,
reduzindo o capital de descontentamento à fatídica avaliação.

Mais ainda, o Memorando de Entendimento contém, no seu ponto 9, um


saco-de-trinta-dinheiros de um novo escalão remuneratório no topo da carreira, o que
não vi ninguém na Marcha pedir e envergonha o sentido missionário da indignação. A
reivindicação de mais dinheiro acaba por ser sempre a prova-do-algodão das lutas dos
sindicatos politicamente alinhados. Mesmo quando a questão não é dinheiro - e na luta
dos professores não é! -, a tentação do capital (o vil metal) bate mais forte,
principalmente nos sindicatos comunistas. Enlameia-se a indignação funda dos
professores quando na luta os sindicatos misturam o dinheiro - qualquer que seja o
eufemismo usado para o designar (carreiras, escalões e outros palavras do jargão
esotérico) - e o quadro (que não o da aula).

Por isso, considerei que o acordo significa a venda dos professores ao Governo pelos
sindicatos politicamente controlados pelo PC e PS. Os 100 mil professores que se
manifestaram não são todos comunistas: na manifestação existiria uma representação
mais ou menor proporcional da preferência partidária dos eleitores, corrigida, admita-se,
pela não participação de professores que tenham considerado que participar na
manifestação constituiria uma forma de ataque ao Governo que apoiam politicamente.
Foi com desconforto que os professores assistiram no Terreiro do Paço em 8 de Março
de 2008, no final da Marcha, o discurso de... Manuel Carvalho da Silva, que pareceu
uma tentativa de instrumentalizar professores para objectivos que a larga maioria não
partilhava; enquanto não foi consentida a intervenção de nenhum líder independente de
uma luta que começou inorgânica até ser montada pelos sindicatos.

A motivação dos sindicatos politicamente controlados parece ter sido conseguir um


acordo a qualquer preço, adoçado pela oferta do bombom amargo do novo escalão, para
partir os dentes ao sindicalismo independente que se divisava, mantendo a função de
intermediário exclusivo da classe e... do Governo.

Como temiam os sindicatos políticos, que, numa admissão da sua perda de


representatividade, afirmaram ir proceder a uma espécie de ratificação do acordo
celebrado pelas cúpulas em plenários nas escolas, a primeira reacção pública dos
professores ao acordo foi negativa, conforme se pôde ver pelos blogues, caixas de
comentários e fórum livres do controlo, directo e indirecto, governamental dos media.

Avisado por uma leitora, li a revelação do prof. Mário Lopes no blog Movimento
Cívico em Defesa da Escola Pública e da Dignidade da Docência de que na prometida
consulta aos professores após acordo com o Ministério as cúpulas sindicais, numa
evidência de deslealdade política, não terem submetido o texto do próprio Memorando
de Entendimento aos professores nos plenários - organizados e preparados pelos
sindicatos -, mas uma Moção em que o acordo é referido de passagem. Fui confirmar e
verifiquei que é verdade a tese do "Gato por lebre". O que foi dado a votar aos
professores, nas escolas onde os sindicatos organizaram reuniões, foi uma moção
reivindicativa face ao Governo, cujos resultados (até 17/04/2008, com 766 escolas:
669 - 87,3% - aprovaram a moção; e 97 - 12,7% rejeitaram a moção) são,
paradoxalmente, usados para demonstrar adesão ao acordo dos sindicatos com o
Ministério!...

http://doportugalprofundo.blogspot.com/
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Ministério!...

A luta dos professores foi instrumentalizada pelos sindicatos controlados para


propósitos políticos que desonram as suas justas razões.

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