Sie sind auf Seite 1von 8

BLOGS DE MODA: REFLEXÕES PARA UMA ANÁLISE SOBRE A CONSTITUIÇÃO E AUTONOMIA DO SUJEITO

Wladimir Silva Machado 1

Resumo: O artigo apresenta fragmentos da investigação sobre a constituição de sujeitos nos blogs de moda e

as formas de autonomia da subjetividade. Percorre posicionamentos teóricos relativos à moda e aos blogs e

ressalta a pertinência do objeto de pesquisa junto aos estudos de cultura visual. Aborda a concepção foucaultiana de sujeito e poder. Pautando-se por formas híbridas de produção de conhecimento, propõe, por fim, o uso de tópicos específicos da análise de discurso no desenvolvimento da pesquisa.

palavras-chave: moda, blogs, imagem, subjetividade

Abstract: The paper presents fragments of research on the development of subjects in the fashion blogs and the forms of autonomous subjectivity. Scrolls theorethical positions on fashion and blogs. Underscores the relevance of the research object from studies of visual culture. Foucault addresses the concept of subject and power. Guided by hybrid forms of knowledge production, it proposes, finally, the use of specific topics of discourse analysis in the research. keywords: fashion, blogs, image, subjectivity

1.

Introdução

O

deslocamento da ênfase do sistema capitalista da produção para o consumo fez emergir fenômenos de

estetização do cotidiano e potencializou a relevância sociocultural da moda. Das atuais condições de produção

e recepção da imagem digital surgiram novos suportes para as visualidades fashion. Tais alterações tornaram mais latentes os aspectos imateriais, simbólicos e subjetivos do consumo de moda.

Deste panorama investigaremos nos blogs de moda o imiscuir entre imagens e subjetividades. Em decorrência da circulação digital de informações, incidem sobre tais instâncias atravessamentos de ordem econômica, social e cultural que põem em jogo a produção de visualidades e sentidos. Neste contexto, os blogs despertaram nosso interesse sobre a constituição do sujeito através da moda.

Neste objeto de pesquisa atuam estratégias de consumo e relações de poder que recaem sobre os elementos subjetivos. Por isso, aprofundar a compreensão sobre os sentidos das imagens nos blogs é parte essencial desta investigação. Para o exame de tais temas, propomos neste artigo uma perspectiva de análise que alcance debates sobre as relações entre moda, imagem e subjetividade. Por isso, refletir sobre as formas metodológicas de abordagem é uma etapa deste processo.

Inicialmente, percorreremos conceitos relativos à moda e ao consumo. Depois explicitaremos características relevantes dos blogs. Em seguida, refletiremos sobre o pertencimento da pesquisa aos estudos de cultura visual. Mais adiante, a atenção volta-se para o sujeito, com a ressalva de que nosso posicionamento resta inacabado. Feito isso, sugerimos uma abordagem metodológica não definitiva, mas que integra parte de nosso caminho investigativo.

2. Moda, blogs e cultura visual

2.1. A moda

Na obra ‘O Império do Efêmero’, Gilles Lipovetsky (2008) afirma que a moda surge em fins do século XIX e início do século XX. Antes desse período, vestir-se era uma forma de cobrir o corpo segundo as necessidades cotidianas. Era ainda um meio de se promover distinções entre classes sociais hierarquizadas. O aparecimento

1 Graduado em História pela FACER. Mestrando do Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás. Email: wladsm@gmail.com

da indústria serial passou a disseminar modelos que são consumidos em todo o globo. A partir daí, a moda assume um caráter democrático e a roupa já não informa exatamente uma posição de classe. Porém, o autor ressalta que a democratização não implicou em libertação do vestir da incidência de forças sociais, especialmente pela ação da publicidade e da indústria cultural.

Destas transformações emerge um paradoxo: a moda possibilita a autoexpressão, mas não oferece neutralidade, pois é permeada por outros interesses. De acordo com Lipovetsky, tal condição resulta do parentesco entre moda e cultura de massa. Parafraseando Edgar Morin, o sociólogo afirma que a cultura industrial realiza a síntese do original e do padrão, do individual e do estereótipo, [pelo] sistema da moda enquanto lógica das pequenas diferenças” (2008, p. 209). Assim, as possibilidades de diferenciação ocorrem no diálogo entre o sujeito e os fluxos sociais.

Para Jean Baudrillard, a diferenciação é possibilitada por modelos já dados, mas de sentidos não fixados. A

moda é uma flutuação de signos, cujos significados são instáveis: “uma combinatória fluida e recorrente (

estado especulativo puro” (1996, p. 120). Por isso, seu funcionamento ambíguo demarca o espaço e as opções de atuação, mas, ao mesmo tempo, oferece a possibilidade da recombinação infinita.

o

),

O vestuário é a associação mais imediata quando tratamos de moda. Contudo, pontuamos que esta não se

resume ao vestir, pois está presente noutras práticas e comportamentos. Segundo Oliveira, a moda é um

sistema que “cria (

estilo de vida, conceito entendido por Giddens como as escolhas que “dão forma material a uma narrativa particular de autoidentidade” (2002, p. 79). Deste prisma, consumimos moda ao comprar roupas, mas também

ao frequentar certo local, viajar, visitar um site ou preferir tal músico ou estilo.

estilos, modos de sentir e de viver” (2002, p. 132). Portanto, é parte da formulação de um

)

Para além do conceito de Giddens, estilo de vidajá não é, necessariamente, uma narrativa material, pois inclui práticas imateriais, sentidos não literais e elementos subjetivos relacionados ao consumo. De acordo com

subjetiva, emocional” (p. 41).

Consumimos para reformular ou reforçar o que acreditamos ser. Porém, a vivência do estilo é perpassada por estratégias de convencimento. Lipovetsky verifica que as campanhas publicitárias já não vendem apenas “mais um produto, mas uma visão, um ‘conceito’, um estilo de vida associado à marca” (2007, p.47).

Lipovetsky (2007), hoje o consumo é orquestrado por uma “lógica (

)

enraizadas no self

(2006, p. 49), afirmação que se aproxima da opinião de Bauman, de que a moda permite experimentar a “fantasia interior” (2001, p. 98). Notamos, pelo exposto, que os elementos subjetivos irrompem como força motriz e alvo principal do consumo de moda. Passaremos agora à observação dos blogs, para evidenciarmos características que interessam ao andamento desta pesquisa.

Autores como Colin Campbell reportam-se a um consumo “legitimado por decisões (

)

2.2. Os blogs

Blogs são ferramentas digitais surgidas no final dos anos 1990 e imediatamente associados aos diários pessoais. Contudo, são formas de publicação que divergem do caráter íntimo daqueles (SCHITTINE, 2004). Desde então, assumiram inúmeros usos, mas ainda persistem as práticas de autoexpressão. (LEMOS, 2002; PRIMO, 2008).

Os blogs possuem algumas características comuns: conteúdos automaticamente arquivados, datados conforme cronologia linear, que privilegia a postagem mais recente. A atualização constante contribui para o estabelecimento de vínculos comunitários (RUNTE, 2008). Fazendo uma aproximação com a moda, neles ecoa

a tradição moderna do novo: ao expor opiniões e relatos, o usuário responde ao apelo da novidade, que mantém ativo o blog.

Nesses espaços é comum a publicação de autorretratos. Porém, as imagens que circulam na blogosfera incluem campanhas publicitárias, editoriais de revistas, trabalhos artísticos, fotografias de street style, dentre outras. Elementos gráficos (como gifs ou o plano de fundo) conferem aos blogs um aspecto personalizado. Além disso, dos textos surgem referências que complementam o entendimento do conteúdo das postagens.

O uso de tags e links vinculam as postagens a outros ambientes. A fluidez desta ferramenta deve-se a seu

caráter hipertextual. Segundo Pierre Lévy, o hipertexto é:

um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, páginas,

imagens, gráficos (

uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria deles, estende suas conexões

em estrela, de modo reticular.” (1993, p. 33)

sequências sonoras [que] não são ligados linearmente, como

),

Por isso, os sentidos assumidos pelas imagens não são estáticos. Os nós hipertextuais informam relações possíveis entre o sujeito que se apresenta e os conteúdos a que se refere. Portanto, sua exploração pode auxilia a compreensão do que é objetivamente expresso pelos usuários.

Nos blogs de moda são comuns os links para sites de vendas, clubes de compra coletiva, marcas famosas, revistas eletrônicas e outros blogs. Os textos, impregnados de fortes traços de oralidade, oferecem indícios de elementos subjetivos do consumo, tais como juízos de valor de ordem estética, econômica e afetiva. Retomando o conceito de estilo de vida, sugerimos que este tipo de blog opera um deslocamento das narrativas materiaispara o ambiente digital. Imagens e textos que relatam práticas e escolhas compõem narrativas visuais e hipertextuais. Podemos dizer que se trata de projeções de um cotidiano imaginado e que a prática de blogar aponta para conexões com a subjetividade. A partir de tais considerações, percebemos que as imagens nos blogs de moda estabelecem elos que tornam seus sentidos uma construção complexa. Portanto,

na seção seguinte exploraremos suas ligações com a cultura visual.

2.3. Imagens e cultura visual

A cultura visual é um campo transdisciplinar associado aos estudos culturais e de orientação pós-estruturalista.

Procura atuar a partir de perspectivas abertas e não excludentes para investigar o “uso social, afetivo e político

(

visuais que estão acontecendo hoje” (p. 2), o que inclui as reverberações das inovações tecnológicas na produção, circulação e recepção de imagens. Seus estudos contemplam “modos de ver, sentir e imaginar(p. 2), investigando processos de elaboração de sentidos e visualidades, além dos suportes de apropriação a partir dos quais estes ocorrem.

nas práticas culturais(TOURINHO, 2011, p. 2). Este território abrange os “fenômenos

)

das imagens (

)

Os blogs de moda são um desses tipos de suporte, cujos usos recorrem a repertórios de imagens e produções simbólicas. Na interposição entre sujeito e realidade, a imagens acolhem fluxos de sentido derivados de correlações com outras informações e que participam de práticas de estetização do cotidiano. Utilizando-se de metodologias híbridas, a cultura visual permite investigar as articulações entre subjetividades e estratégias de poder que se dão pelas imagens. Este domínio de pesquisa privilegia abordagens híbridas e criativas que atuem nas “fronteiras entre áreas de conhecimento anteriormente bem definidas” (p. 3).

No que concerne à complexidade social do capitalismo cultural eletrônico, o desafio da cultura visual encontra eco em pensamentos como o de Edgar Morin (2010). Este autor propõe uma forma dialógica de acessarmos a relação entre sociedade e indivíduo, “que aceita que duas instâncias não redutíveis uma à outra e contraditórias entre elas estejam ligadas intimamente” (p. 565). Tal postura pressupõe que “o microcosmo não

é o espelho do macrocosmo, por que o ser humano tem sua autonomia e suas liberdades próprias” (p. 567). Por ser de nosso interesse aprofundar o entendimento das formas desta autonomia, nos debruçaremos, portanto, diante do tema do sujeito.

3. O sujeito

Em sua ‘Arqueologia do saber’, Michel Foucault (1971) promove “a desconstituição da noção de sujeito como um dado preexistente, como uma essência perene e portadora de um sentido, presente indefinidamente na história” (FONSECA, 2003, p. 14). Logo, não se trata de uma instância transcendental e invulnerável. Pelo contrário, situa-se em espaço-tempo específico e constitui-se de acordo com as condições oferecidas por práticas e regras que formam discursos. Deste prisma, a noção de uma subjetividade soberana é desconstruída em favor de outra, descontínua e dispersa, na qual o indivíduo surge fragmentado em múltiplos sujeitos.

Para explorar a relação entre a subjetividade e as imagens nos blogs de moda, pontuaremos visões de Foucault

(1995) acerca do poder, pois, em sua obra, este é parte indissociável do estudo do sujeito. Para este pensador,

o poder não se limita aos aparelhos jurídico e estatal. Trata-se de “uma parte de nossa experiência” (p. 232)

que “aplica-se à vida cotidiana” (p. 235). O poder marca o sujeito em “sua própria individualidade, liga-o à sua

própria identidade, impõe-lhe uma lei de verdade (

)

por uma consciência e autoconhecimento” (p. 235).

Foucault atenta-nos a poderes que exercemos sobre as coisas ao “utilizá-las [ou] consumi-las” (p. 240). Podemos pensar aqui no exemplo do vestuário cotidiano e nos sentidos que atribuímos aos objetos. Além

disso, nas relações entre indivíduos ou grupos, há o poder “que ‘alguns’ exercem (

Por exemplo, a blogueira que se destaque entre os pares pelo domínio dos códigos de moda. Para discordar ou

debater um assunto nos comentários do blog é preciso algum conhecimento de moda. Do contrário, o que é afirmado na postagem pode adquirir um teor de verdade e resultar em sujeição.

sobre os outros” (p. 240).

)

Foucault distingue também as relações de poder das de comunicação. As últimas “transmitem uma informação

de um sistema de signos ou de qualquer outro meio simbólico” (p. 240). Os meios de comunicação

não são exatamente ferramentas para o exercício de poder, mas são “sempre uma certa forma de agir sobre o

outro ou os outros”, pois “a produção e a circulação de elementos significantes podem (

consequências efeitos de poder” (p. 240). Nesse sentido, a publicidade de moda exerce um poder de longo

alcance, que apela à subjetividade para estimular o consumo.

através (

)

)

ter

(

)

por

O material encontrado nos blogs permite a investigação das variações de poder exemplificadas, com a

vantagem de evidenciar cruzamentos que se deem no âmbito das imagens. Em depoimentos cotidianos é possível observar a significação dos objetos consumidos, sem descuidar que tal processo é atravessado por referências de fundo estético e/ou emocional, assim como por estratégias de consumo.

A partir das interações entre blogueiro e seguidores, podemos analisar que relações de poder se estabelecem

entre ambos. Este viés permite aprofundar imbricações entre saber e poder e explorar a construção de um conhecimento visual de moda pautado na experiência cotidiana. Ademais, o caráter rizomático dos blogs complexifica o sentido das imagens, o que permite questionar como operam os elementos subjetivos diante de tais condições de recepção. Nesse sentido, interessam-nos as posições de sujeitos, pois suas variações implicam em modos diferentes de absorção dos conteúdos visuais.

Da perspectiva foucaultiana, a atuação do poder ocorre por processos de objetivação somados a mecanismos

de subjetivação do indivíduo. No entendimento de Fonseca (2003), os primeiros tornam o indivíduo objeto

através do saber, ao passo que os outros o fazem sujeito. As práticas de subjetivação podem ser entendidas como recepção e apropriação daquilo que é dito. Ao se identificar e se reconhecer num discurso, o indivíduo é tornado sujeito em seus modos de pensar, agir e viver. Assim, da subjetivação de saberes a partir de imagens,

emergem sujeitos “presos a relações de (

)

significações *e+ relações complexas de poder” (p. 27).

Na análise de Foucault (1995), um dos pontos ressaltados é o papel desempenhado pelos sistemas de diferenciação, que “permitem agir sobre a ação dos outros” (p. 246). Este agir é possibilitado por diferenças de várias ordens: econômicas, linguísticas ou culturais, de posição ou de competência, que são, ao mesmo tempo, condições e efeitos das relações de poder. O autor refere-se ainda a formas de institucionalização que produzem sistemas complexos e inclui entre estas os “fenômenos de hábito ou de moda” (p. 246). Entendemos que tais fenômenos incluem os blogs de moda, por sua capacidade de explicitar processos de subjetivação que incidem sobre a estetização do cotidiano, variam conforme a posição do sujeito e criam formas de diferenciação e relações de poder.

A moda é um sistema de significação que age a partir das pequenas diferenças. É também um sistema de

poder, cujas tendências e oscilações influem na produção de visualidades. Isso reforça a ambiguidade das condições da subjetividade diante da moda: tal fenômeno pode regular condutas e assujeitar indivíduos, mas

possibilita um espaço imensurável de particularizações. Na visão de Foucault sobre o sujeito, a “liberdade aparecerá como condição de existência do poder” (1995, p. 244). Interessa-nos, portanto, verificar nos blogs como a lógica das pequenas diferenças cria formas de autonomia de subjetividades que, imersas em relações de poder variadas, procuram por singularização.

Ao voltarmos nosso olhar sobre o fenômeno dos blogs, compartilhamos da opinião de Sírio Possenti (2002) a respeito da autonomia do sujeito:

“qualquer evento, discursivo ou não, é complexo, embora o produto que dele resta

possa parecer banal. (

historicamente constituíram gêneros, o que implica algum tipo de assujeitamento;

mas também (

discurso se aproveita para acontecer. As manobras regradas do sujeito exercem um papel fundamental.” (p. 121)

não significa criar fora das regras que

)

Ser sujeito (

)

)

o sujeito não é apenas o ocupante eventual de um lugar de que o

A concepção foucaultiana é um dos pontos nodais desta investigação, pois acreditamos que os resultados serão

mais legítimos se não nos esquivarmos o olhar para forças que afetam a relação entre moda, imagem e sujeito.

Porém, nosso posicionamento resta inacabado pela necessidade de refinar a compreensão do termo subjetividade. Esta tarefa afigura-se indispensável por identificarmos que os atuais estudos sobre o consumo tendem à exploração das instâncias psicológicas envolvidas nesta prática. Revelar nos blogs as articulações de sentidos entre imagens e subjetividade conduziu-nos, portanto, a contemplar aspectos que envolvem o sujeito

e o poder. Acreditamos que a imbricação e reciprocidade entre tantos fatores justifiquem nossas opções teórico-metodológicas, sem eliminar outras contribuições.

Nosso intuito é procurar ângulos para visualizar a interação entre sujeitos e imagens de modo a focalizar, de modo simultâneo, as formas de sujeição e de autonomia, atentando para a lógica das pequenas diferenças. A busca de tal equilíbrio investigativo é sempre negociada ao transitarmos por diferentes saberes (MORIN, 2010), colhendo deles aquilo que nos possibilite avançar na percepção dos fenômenos estudados. Tendo em nosso horizonte tal posicionamento, apontaremos agora dispositivos da obra foucaultiana que comporão parte do fundo híbrido de nossas análises.

4. Considerações finais: esboços de uma metodologia

Para André Lemos, os blogs são “uma forma de escoamento de discursos pessoais” (2002, p. 4). A expressão ‘discursos pessoais’ parece-nos designar o movimento de tornar objetiva uma manifestação de fundo subjetivo ou ‘pessoal’, ou seja, expor um ponto de vista que parte de uma posição individual e específica. Isso não significa que o usuário de um blog detenha-se exclusivamente naquilo que diz respeito a si próprio. Contudo, ao tratar de um assunto qualquer, é a partir de si que o faz e os posicionamentos assumidos, assim como as maneiras encontradas para expressá-los, revelam algo sobre o mesmo.

Há autores que consideram os blogs um tipo de discurso digital (MARCUSHI, 2004; PRIMO, 2008). Diante disso,

é lícito afirmarmos que há nestes um sujeito que enuncia (KOMESU, 2005). De acordo com Foucault (1971), o enunciado pode ser definido como algo que é efetivamente dito. Porém, entendemos que este dizer não se limita aos atos de fala ou escrita e abrange as manifestações imagéticas.

Por lidarmos com um hipertexto, a abordagem que propomos considera os blogs de moda em sua inteireza e, ao mesmo tempo, nas partes que os constituem. A intenção é articular uma análise que não despreze que textos, imagens, ícones, links, comentários de seguidores, elementos gráficos e outros, atuem de modo conjunto para configurar um ambiente virtual particularizado pelo usuário. O intuito é usufruir do modo mais pleno possível o material de análise de que dispomos. Além disso, tais elementos ajudarão a operar distinções entre as posições de sujeito. Articulando geografias e contextos específicos, analisaremos, a partir de pontos

diferentes, as relações entre imagens, sujeito e poder. Com isso, a investigação enfoca a produção de um conhecimento visual de moda pautado pela subjetividade.

Nos estudos de Foucault (2003), identificamos práticas de si que possuem correspondência com os blogs de

moda, a exemplo dos diários. O nascimento deste gênero ocorre com a Reforma, resultado da explosão do discurso da confissão. A confissão é um ritual cristão que consiste em relatar as faltas, em fazer exames de consciência e almejar ao melhor conhecimento e domínio de si. É deste contexto que surge a escrita em primeira pessoa, “em que as pessoas tem seu diário, dizem o que fizeram, contam seu dia” (p. 237). Do momento em que escreve, Foucault atenta-nos que o mecanismo da confissão pode assumir formas variadas do indivíduo “trazer a público o que ele é” (p. 238-239). Os blogs de moda são parte de uma cultura da imagem

e do espetáculo na qual o sujeito confessaseus modos de ver e sentir. Estas associações enfatizam que, a

partir desta ferramenta, os usuários oferecem como espetáculo a confissão sobre as relações que estabelecem com as imagens, o consumo e a sociedade. Portanto, enquanto narrativas, prestam-se ao registro de técnicas de si, especialmente em blogs cujo tema esteja centrado na escolha do look do dia.

Além da confissão, encontramos similaridades entre blogs e as práticas de si do indivíduo antigo. Tomemos o exemplo de uma postagem que contenha imagens de um editorial de uma revista de moda como parte de uma narrativa ou de um discurso. Este tipo de material é familiar ao que Foucault (2006) nos apresenta, dentre as práticas dos antigos gregos, como hupomnêmata. Tal termo designa o recolhimento de coisas vistas ou escritas por outros, com a finalidade de orientar ou fundamentar a constituição de si, por um processo de subjetivação de discursos alheios. O autor ressalta que o recolhimento deste logos fragmentário contém uma dose de disparate, “que determina as escolhas e a apropriação de ela efetua” (p. 149). Em nossa interpretação, o disparate aponta para a atuação da subjetividade. No caso dos blogs, tal postagem pode ser tomada como um tipo de hupomnêmata pós-moderno (OLIVEIRA, 2004), um fragmento de informação que é subjetivado e passa

a ser parte da subjetividade e da visualidade do sujeito. Desta forma, podemos acessar os sentidos atribuídos à imagem, identificando formas de assujeitamento (ou não) a uma imagem que tenta convencer a respeito de um conceito, estética ou estilo.

Outra prática comum entre os antigos era a correspondência. Foucault descreve que através desta os gregos operavam técnicas de constituição de si ao “ligar-se àqueles que são capazes de ter sobre si um efeito benéfico” (2006, p. 154). Pela correspondência os antigos não apenas objetivavam seus trânsitos subjetivos, como os compartilhavam com seus destinatários, o que permitia a troca de experiências e o aprendizado colaborativo. A carta é “uma maneira de se apresentar a seu correspondente no desenrolar da vida cotidiana.

a qualidade de um modo de ser” (p. 159). Em relação aos blogs, os comentários

(

dos seguidores são respostas às postagens e corroboram ou não a opinião do sujeito. Trata-se de um compartilhamento de opiniões que gera conhecimento sobre si e sobre o outro, capaz de promover novas subjetivações e, logo, movimentar a subjetividade.

)

demonstrando assim (

)

Os dispositivos que descrevemos podem ser aplicados à nossa análise dos blogs de moda. Porém, é preciso fazer a ressalva de que, segundo Foucault (2006), os antigos gregos eram indivíduos num sentido mais pleno, não sendo correto nos referirmos a eles como sujeitos, pois eram instados a serem mestres de si mesmos. Desta perspectiva, ao cuidar de si, o grego automaticamente cuidava da relação com seu semelhante. O instante de nossa investigação não permite que apliquemos literalmente as palavras de Foucault sobre os antigos ao nosso objeto de pesquisa. O indivíduo moderno lida com forças sociais, de porte micro ou macro, que o tornam sujeito. Por isso, nos blogs de moda verificamos relações de poder e formas de assujeitamento. A partir deste objeto, interessa-nos aprofundar o conhecimento sobre as maneiras encontradas pela subjetividade para exercer sua autonomia através da moda.

Partindo do raciocínio de que a complexidade do mundo contemporâneo não pode ser compreendida sem recorrermos às contribuições de diferentes formas de saber, este artigo procurou harmonizar ideias de diferentes autores. Nosso intuito foi apresentar o germe de uma metodologia híbrida, que nos permita acessar as potencialidades do material encontrado nos blogs de moda. Com isso, pretendemos fundamentar uma perspectiva analítica que seja dinâmica e aberta. Por acreditarmos que, cada dia mais, as imagens e o ciberespaço sejam relevantes no entendimento de processos sociais e subjetivos, nossos caminhos de pesquisa tentam alinhavar conceitos e posturas que contribuam à compreensão das condições de experimentação da moda como vivência subjetiva de autoconhecimento.

4. Referências bibliográficas

BAUDRILLARD, Jean. A troca simbólica e a morte. São Paulo: Loyola, 1996. p. 111-130

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

CAMPBELL, Colin. Eu compro, logo sei que existo: as bases metafísicas do consumo moderno. In: BARBOSA, Lívia. CAMPBELL, Colin (org.). Cultura, consumo e identidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, p. 47-64.

FONSECA, Márcio Alves da. Michel Foucault e a constituição do sujeito. São Paulo, EDUC, 2003.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Petrópolis: Editora Vozes, 1971.

Estratégia, poder-saber. Coleção Ditos e Escritos, vol. IV. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.

Ética, sexualidade e política. Coleção Ditos e Escritos, vol. V. Rio de Janeiro: Forense Universitária,

2006.

O sujeito e o poder. In: DREYFUS, Hubert L. Michel Foucault, uma trajetória filosófica. Rio de Janeiro:

Forense Universitária, 1995. p. 231-249.

GIDDENS, Anthony. Modernidade e Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.

KOMESU, Fabiana Cristina. Entre o público e o privado: um jogo enunciativo na constituição do escrevente de

blogs na internet. Campinas, SP: [s.n.] 2005.

LEMOS, André. A arte da vida: diários pessoais e webcams na internet. In: XXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação Intercom 2002, Salvador. Anais, 2002. Disponível em:

10/08/2011.

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência. Rio de Janeiro: 34, 1993.

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 46-51.

MARCUSHI, Luiz

11/08/2011.

Antônio.

Gêneros

textuais

emergentes no

contexto

da

cultura

digital.

Disponível

doc

em:

Acesso em:

MORIN, Edgar. A religação dos saberes. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

OLIVEIRA, Ana Cláudia Mei Alves de. Por uma semiótica da moda. In: CASTILHO, Katia (Org.). A moda do corpo, o corpo da moda. São Paulo: Editora Esfera, 2002, p. 126-134.

OLIVEIRA, Maria Regina Momesso de. Weblogs: a exposição de subjetividades adolescentes. In: SARGENTINI, Vanice. (org) Foucault e os domínios da linguagem: discurso, poder, subjetividade. São Carlos: Claraluz, 2004.

POSSENTI, Sírio. Os limites do discurso. Curitiba: Edições Criar, 2002.

PRIMO, Alex. Blogs e seus gêneros: Avaliação estatística dos 50 blogs mais populares em língua portuguesa. In:

XXXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação - Intercom 2008, Natal. Anais, 2008. Disponível em:

http://www6.ufrgs.br/limc/PDFs/50_blogs.pdf Último acesso em: 11/08/2011.

RUNTE, Robert. Blogs. In: KNOWLES, J. Gay & COLE, Ardra L. Handbook of the arts in qualitative research. California: Sage Publications, 2008. p. 313-322.

SCHITTINE, Denise. Blogs: comunicação e escrita íntima na internet. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

TOURINHO, Irene. MARTINS, Raimundo. Circunstâncias e ingerências da cultura visual. In: MARTINS, Raimundo. TOURINHO, Irene. (org) Educação da cultura visual conceitos e contextos. Santa Maria: Editora UFSM, 2011. p. 1-12.