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Expediente

EDITORIAL 1

A Revista Inclusão, nesta edição,


apresenta a Política Nacional
de Educação Especial na Pers-
pectiva da Educação Inclusiva, resul-
tado do amplo processo de discussão
to Benjamin Constant – IBC, da Confe-
deração Nacional de Trabalhadores de
Educação – CNTE, do Conselho Nacio-
nal de Educação dos Estados – CON-
SED, da União Nacional de Dirigentes
educação, apresenta diretrizes que
contemplam o fortalecimento da in-
clusão educacional.
Nesta Revista, o Ministro da Edu-
cação Fernando Haddad, fala da arti-
promovido pelo Grupo de Trabalho - Municipais de Educação – UNDIME, do culação em torno da educação, pau-
Portaria Ministerial Nº 555/2007, cons- Ministério Público e dos Ministérios da tada pela construção da autonomia,
tituído por professores pesquisadores Saúde e do Desenvolvimento Social e inclusão e diversidade; os integrantes
da área da educação especial, sob a Combate a Fome. do Grupo de Trabalho participam do
coordenação da Secretaria de Educa- Sob a égide dos princípios da in- colóquio abordando o desenvolvi-
ção Especial – SEESP/MEC. A elabora- clusão, de reconhecimento e valori- mento conceitual da educação espe-
ção desta Política no Brasil, publicada zação da diversidade como caracte- cial, os marcos históricos e legais e as
em janeiro de 2008, insere-se no con- rística inerente à constituição de uma experiências educacionais. O profes-
texto histórico onde, passado mais de sociedade democrática e, tendo como sor David Rodrigues, da Universidade
dez anos da Declaração de Salaman- horizonte o cenário ético dos Direi- Técnica de Lisboa, em seu artigo tece
ca, grande parte dos países dedica-se tos Humanos, a Política Nacional de considerações sobre a implementa-
a avaliar os avanços produzidos e os Educação Especial na Perspectiva da ção de uma política de educação in-
desafios na implementação de polí- Educação Inclusiva, afirma como dire- clusiva, entendida como uma reforma
ticas públicas, definindo caminhos a trizes para a construção dos sistemas educacional que implica alterar a es-
serem percorridos pela educação es- educacionais inclusivos, a garantia do trutura dos sistemas de ensino; Patrí-
pecial em sintonia com os princípios direito de todos à educação, o aces- cia Albino Galvão Pontes, Promotora
educacionais inclusivos. so e as condições de permanência e de Justiça do Estado do Rio Grande
A pauta impulsionada pela agen- continuidade de estudos no ensino do Norte, discorre sobre o direito à
da da inclusão educacional norteou regular. Contribuindo para romper escolarização de todos os alunos no
os seminários do Programa Educação com uma dinâmica social mais ampla sistema de ensino regular; e os demais
Inclusiva: direito à diversidade reali- de exclusão que historicamente tem convidados, na seção Opinião, desta-
zados em todo país, envolvendo os condicionado as ações na área. O do- cam a atualidade deste Documento
municípios-pólo e as secretarias esta- cumento contempla a necessidade de frente à perspectiva mundial da inclu-
duais de educação, além das reuniões reorientação da educação especial e são.
com as instituições de educação supe- a articulação dos sistemas de ensino, Com esta publicação, esperamos
rior que aprofundaram a temática da dando visibilidade às dimensões con- contribuir com os sistemas de ensi-
formação inicial e continuada de pro- servadoras que perpassam o campo no e fortalecer as diretrizes e políti-
fessores. O diálogo com os diferentes da educação e dificultam uma real cas educacionais que atendam aos
setores da sociedade se ampliou nos transformação da escola. princípios do direito à diferença, da
fóruns com representantes do Conse- O acesso de alunos com deficiên- acessibilidade, da não discriminação e
lho Nacional de Defesa dos Direitos cia, transtornos globais de desenvolvi- efetiva participação, possibilitando o
das Pessoas Portadoras de Deficiência mento e altas habilidades/superdota- desenvolvimento das capacidades de
– CONADE, da Coordenadoria Nacio- ção já é uma realidade em nosso país todos os alunos e a sua inclusão social.
nal de Integração da Pessoa Portadora e a sua participação e aprendizagem, Compartilhamos com os leitores e co-
de Deficiência – CORDE, da Federação confronta com as formas tradicionais laboradores que a Revista Inclusão, a
Nacional de Síndrome de Down, da de organização dos sistemas de ensi- partir deste número, passa a ter Inde-
Federação Nacional de Educação de no, deslocando o foco da “deficiência” xação Latindex, constituindo a Biblio-
Surdos – FENEIS, da Federação Nacio- para a eliminação das barreiras que se teca Virtual Internacional da rede de
nal das APAEs – FENAPAE, da Federa- interpõe nos processos educacionais. revistas científicas na área de ciências
ção Nacional das Pestalozzi – FENASP, Destaca-se a sintonia desta Política humanas da América Latina, Caribe,
da União Brasileira de Cegos – UBC, com o Plano de Desenvolvimento da Espanha e Portugal.
do Fórum Permanente de Educação Educação – PDE que, a partir de uma
Inclusiva, do Instituto Nacional de mudança de paradigmas visando su- Claudia Pereira Dutra
Educação de Surdos – INES, do Institu- perar a lógica da fragmentação da Secretária de Educação Especial/MEC

ISSN 1808-8899
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 1-61, jan./jun. 2008 
SUMÁRIO

1 4 7
Editorial Entrevista Destaque
Claudia Pereira Dutra Fernando Haddad Política Nacional de Educação
Secretária de Educação Especial/MEC Ministro da Educação Especial na Perspectiva da
Educação Inclusiva
18 33 49 51
Colóquio Enfoque Informes Opinião
Política Nacional de Educação Questões preliminares Conferência Nacional da A Política Nacional de Educação
Especial na Perspectiva da sobre o desenvolvimento Educação Básica Especial na Perspectiva da Educação
Educação Inclusiva de políticas de Educação Inclusiva
Claudio Roberto Baptista Inclusiva BPC na Escola Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva
Maria Teresa Eglér Mantoan David Rodrigues Ela Wiecko Volkmer de Castilho
Maria Amélia Almeida Alexandre Carvalho Baroni
Rita Vieira de Figueiredo Criança e adolescente com Izabel Maria Madeira de Loureiro Maior
Ronice Müller de Quadros deficiência: impossibilidade José Rafael Miranda
Soraia Napoleão Freitas de opção pela sua educação Eduardo Barbosa
Claudia Pereira Dutra exclusivamente no Cláudia Maffini Griboski
Antônio Carlos do Nascimento Osório atendimento educacional Clélia Brandão Alvarenga Craveiro
Eduardo José Manzini especializado
Denise de Souza Fleith Patrícia Albino Galvão Pontes
4 ENTREVISTA
Fernando Haddad Ministro da Educação

À
frente do Ministério da Edu- de Desenvolvimento da Educação lidades educacionais e potencializa
cação, o ministro Fernando – PDE, e das políticas públicas para políticas que reforçam a sua inter-
Haddad tem uma gestão a educação inclusiva. dependência. Um exemplo claro é
marcada pela consistência das po- a articulação entre a educação bá-
líticas educacionais e intenso diá- 1. Revista Inclusão: Ao abordar sica e a superior, em regime de co-
logo com os diferentes setores so- os enlaces conceituais que envol- laboração, na UAB as universidades
ciais. Entre políticas importantes de vem a execução do PDE, o senhor públicas ofertam formação para os
sua Pasta, destacam-se o Programa afirma a necessidade de superar a professores, os estados e municí-
Universidade para Todos – ProUni, visão fragmentada da educação. pios mantêm os pólos presenciais e
a Universidade Aberta do Brasil Como o PDE se traduz em propos- a União efetiva o fomento. Visando
– UAB, e o Fundo de Manutenção e tas concretas? dar conseqüência às normas gerais
Desenvolvimento da Educação Bá- e às diretrizes estabelecidas para a
sica e Valorização dos Trabalhado- Fernando Haddad: A partir da educação, o PDE torna-se estraté-
res da Educação – FUNDEB. Nesta concepção sistêmica de educação, gico para assegurar a educação in-
entrevista, o ministro fala dos fun- o PDE ultrapassa as falsas oposi- fantil, a aprendizagem, a alfabetiza-
damentos que embasam o Plano ções entre os níveis, etapas e moda- ção, a permanência, a valorização

 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 4-6, jan./jun. 2008


profissional, a formação docente, a em algumas divergências no seu 4. Revista Inclusão: Como o MEC
gestão participativa, entre outras, processo. É possível alcançar um está impulsionando esse proces-
que estabelecem os pilares para sistema educacional inclusivo? so? Há resultados que indiquem
a inclusão educacional, em uma mudanças nos sistemas de ensino
escola de qualidade para todos os na perspectiva das políticas de in-
alunos. clusão?

2. Revista Inclusão: Quais as pro- Fernando Haddad: A educação


postas do PDE para alcançar a especial vem ocupando cada vez
transversalidade da educação es- ”... o benefício da mais espaço na agenda do MEC, so-
pecial superando a lógica da frag- inclusão não é bretudo nos últimos anos, e o papel
mentação? da Secretaria de Educação Especial
apenas para crianças junto às demais secretarias se am-
Fernando Haddad: É preciso re- com deficiência, é plia na perspectiva da inclusão.
conhecer que a organização e as efetivamente para toda Os resultados estão aparecendo, é
práticas educacionais forjaram, his- importante registrar que o avanço
toricamente, uma cultura escolar a comunidade, porque da matrícula é notável nas escolas
excludente e que há uma dívida o ambiente escolar comuns da rede pública e o retor-
social a ser resgatada. Este contex- sofre um impacto no no que temos dessas experiências
to intensificou a oposição entre a comprova a viabilidade e a eficácia
educação comum e a educação es- sentido da cidadania, de um sistema educacional que in-
pecial nos sistemas de ensino, con- da diversidade e do clui a todos. Os estudos estatísticos
trariando o princípio da transver- aprendizado.” já revelam essa face do processo de
salidade da educação especial em ensino e aprendizagem que a inclu-
todos os níveis, etapas e modalida- são estimula, enseja e provoca, re-
des. Portanto, as políticas públicas forçando a tese de que o benefício
devem potencializar a relação entre da inclusão não é apenas para crian-
educação especial e comum com ças com deficiência, é efetivamente
vistas a estruturar o acesso ao ensi- para toda a comunidade, porque o
no regular e a disponibilização dos Fernando Haddad: O debate evi- ambiente escolar sofre um impacto
apoios especializados para aten- denciou concepções diferenciadas no sentido da cidadania, da diversi-
der as necessidades educacionais acerca da educação especial, o que dade e do aprendizado.
especiais. O PDE define a inclusão qualifica o processo, levando toda
educacional como uma de suas di- a sociedade a refletir sobre a pers- 5. Revista Inclusão: Frente aos
retrizes e propõe políticas públicas pectiva da educação inclusiva. O avanços na pauta dos Direitos Hu-
voltadas à acessibilidade e ao de- movimento pela inclusão repercu- manos em torno dos princípios
senvolvimento profissional, onde te e os grupos sociais avançam e se da inclusão que impulsionam a
se destacam os programas: Forma- apropriam dos conceitos que estão transformação da escola, ainda é
ção Continuada de Professores na se consolidando. A inclusão educa- possível falar em retrocesso?
Educação Especial, Implantação de cional é, hoje, uma realidade baliza-
Salas de Recursos Multifuncionais, da pela evolução dos marcos legais Fernando Haddad: Não vejo razão
Escola Acessível e o Monitoramento e declarações internacionais, onde para temores de retrocesso, muito
dos Beneficiários do BPC no Acesso o papel do MEC é definir uma polí- pelo contrário, entendo que é um
à Escola. tica que estabeleça o diálogo com momento auspicioso da educação
todos os segmentos da sociedade. inclusiva e da equalização das
3. Revista Inclusão: A elabora- Não se trata de votar uma política, oportunidades. É isso que está
ção da nova Política Nacional de mas de estabelecer um consenso acontecendo neste momento. Nós
Educação Especial foi um esforço em torno do que dever ser feito, do temos que ter uma estratégia de
conjugado para a superação da que pode ser feito e do que é direi- construção de um novo paradig-
exclusão educacional que refletiu to da criança que se faça. ma na educação, ainda mais sóli-

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 4-6, jan./jun. 2008 


do, ainda mais consistente, ainda está muito bem construído, mas,
mais visível. A Convenção sobre tão importante quanto o conteú-
os Direitos das Pessoas com De- do desta política é trabalhar para
ficiência, recentemente aprovada que ela aconteça. Torna-se um
pela ONU, demonstra o caráter desafio diminuir os temores que
irreversível desta proposta, que ainda possam existir nos sistemas
estabelece o compromisso dos de ensino, algumas preocupa-
países para assegurar um sistema ções precisam ser superadas e, de
de educação inclusiva em todos fato, a experiência das escolas vai
os níveis de ensino e adotar me- transformar essa realidade.
didas para que as pessoas com
deficiência não sejam excluídas 7. Revista Inclusão: Quais os des-
do sistema educacional. dobramentos a partir da nova
Política de Educação Especial na
6. Revista Inclusão: Os movi- Perspectiva da Educação Inclu-
mentos sociais de defesa da ci- siva?
dadania apontam a ausência de
uma política de Estado para su- Fernando Haddad: Essa políti-
perar uma realidade de exclusão ca apresenta uma visão que está
que perdurou por muito tempo. se firmando em diversos países
Como o senhor avalia esta ques- que deram início a um processo
tão? de reorientação das suas estru-
turas de ensino para o acesso e
Fernando Haddad: Essa reali- ”A política está definida, sucesso de todos os alunos, con-
dade que está vindo à tona re- solidando princípios que estavam
vela uma face da exclusão so- na minha opinião o em pauta desde os anos 1980. No
cial. As famílias no passado, até conteúdo está muito Brasil, muitos sistemas de ensino
por ausência do poder público, já desenvolvem sólidas experiên-
não encontraram segurança e
bem construído, mas, cias educacionais neste sentido e
informação necessárias para rei- tão importante quanto o outros estabeleceram metas para
vindicar o direito dos seus filhos conteúdo desta política promover a inclusão de todos os
à educação e aqueles que o fize- alunos, e a nova Política subsidia
ram foram considerados ousados é trabalhar para que a elaboração de normativas. No
demais. A orientação da nova po- ela aconteça. Torna-se âmbito do MEC, a fim de dar con-
lítica educacional, sem dúvida, é um desafio diminuir sequência à Política, estaremos
fundamental para transformar consolidando um conjunto de
a gestão e as práticas de ensino, os temores que ainda ações de apoio à implementação
porém, outros fatores que dizem possam existir nos da educação inclusiva, destacan-
respeito a uma nova cultura esco- do-se a proposta de financiamen-
lar devem ser considerados. São
sistemas de ensino, to para ampliação da oferta do
muito sólidas as justificativas do algumas preocupações atendimento educacional espe-
movimento pela inclusão, des- precisam ser superadas e, cializadocomplementar ao ensi-
sa perspectiva que se coloca de no regular. Na medida em que es-
maneira irrefreável e vem con- de fato, a experiência das tas ações forem implementadas
quistando adeptos, sobretudo às escolas vai transformar teremos constituído uma política
famílias que vêm reforçando essa que promove o desenvolvimento
visão e que só traz ganhos para a
essa realidade.” da escola para efetivar o direito
sociedade. A política está defini- de acesso e a qualidade da edu-
da, na minha opinião o conteúdo cação.

 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 4-6, jan./jun. 2008


DESTAQUE 7

Política Nacional de Educação Especial na


Perspectiva da Educação Inclusiva
Documento elaborado pelo Grupo de Trabalho nomeado pela Portaria Ministerial nº 555,
de 5 de junho de 2007, prorrogada pela Portaria nº 948, de 09 de outubro de 2007.

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 7-17, jan./jun. 2008 


Componentes do Grupo de Denise de Souza Fleith sidade Estadual de Campinas.
Trabalho Professora da Universidade de Coordenadora do Laboratório de
Brasília – UnB. Doutora em Psicolo- Estudos e Pesquisas em Ensino e
Claudia Pereira Dutra – MEC/ gia Educacional pela University Of Diversidade – LEPED. Atua prin-
SEESP Connecticut (1999), EUA. Pós-dou- cipalmente nos seguintes temas:
Secretária de Educação Especial tora pela National Academy for direito incondicional de todos os
Gifted and Talented Youth (Univer- alunos à educação, atendimento
Cláudia Maffini Griboski – MEC/ sity of Warwick) (2005), Inglaterra. educacional especializado e defici-
SEESP Atua principalmente nos seguintes ência mental.
Diretora de Políticas de Educação temas: criatividade no contexto
Especial escolar, processos de ensino- Rita Vieira de Figueiredo
aprendizagem, desenvolvimento Professora da Universidade Fede-
Denise de Oliveira Alves – MEC/ de talentos e superdotação. ral do Ceará – UFC. Doutora (PhD)
SEESP em Psicopedagogia pela Univer-
Coordenadora Geral de Articu- Eduardo José Manzini sité Laval (1995), Canadá. Pós-
lação da Política de Inclusão nos Professor da Universidade Estadual doutora em linguagem escrita e
Sistemas de Ensino Paulista Júlio de Mesquita Filho deficiência mental na Universida-
– UNESP, de Marília-SP. Doutor em de de Barcelona (2005), Espanha.
Kátia Aparecida Marangon Bar- Psicologia pela Universidade de Atua principalmente nos seguintes
bosa – MEC/SEESP São Paulo – USP (1995). Presidente temas: educação especial, defici-
Coordenadora Geral da Política da Associação Brasileira de Pes- ência mental, linguagem escrita e
Pedagógica da Educação Especial quisadores em Educação Especial. inclusão escolar.
Editor da Revista Brasileira de Edu-
cação Especial. Atua principalmen- Ronice Müller de Quadros
te nos seguintes temas: inclusão da Professora da Universidade Fede-
Antônio Carlos do Nascimento pessoa com deficiência, deficiência ral de Santa Catarina – UFSC. Dou-
Osório física, ajudas técnicas e tecnologia tora em Lingüística e Letras pela
Professor da Universidade Federal assistiva em comunicação alterna- Pontifícia Universidade Católica do
do Mato Grosso do Sul – UFMS. tiva e acessibilidade física. Rio Grande do Sul – PUC/RS, com
Doutor em Educação pela Ponti- estágio na University of Connec-
fícia Universidade Católica de São Maria Amélia Almeida ticut (1997-1998), EUA. Coordena-
Paulo – PUC/SP (1996). Atua prin- Professora da Universidade Federal dora do Curso de Letras/Língua
cipalmente nos seguintes temas: de São Carlos – UFSCAR. Doutora Brasileira de Sinais. Membro do
políticas educacionais, minorias em Educação Especial pelo Progra- editorial das publicações Espaço
sociais, educação especial e direito ma de PhD da Vanderbilt University – INES, Ponto de Vista-UFSC e Sign
à educação. (1987), EUA. Vice-presidente da As- Language & Linguistics.
sociação Brasileira de Pesquisadores
Claudio Roberto Baptista em Educação Especial. Membro do Soraia Napoleão Freitas
Professor da Universidade Federal editorial das publicações Journal Professora da Universidade Fede-
do Rio Grande do Sul – UFRGS. of International Special Education ral de Santa Maria – UFSM. Douto-
Doutor em Educação pela Univer- e da Revista Brasileira de Educação ra em Educação pela Universidade
sitá degli Studi di Bologna (1996), Especial. Atua principalmente nos Federal de Santa Maria – UFSM
Itália. Coordenador do Núcleo de seguintes temas: deficiência mental, (1998). Coordenadora do grupo de
Estudos em Políticas de Inclusão inclusão, profissionalização e Sín- pesquisa do CNPq – Educação Es-
Escolar – NEPIE/UFRGS. Atua prin- drome de Down. pecial: Interação e Inclusão Social.
cipalmente nos seguintes temas: Atua principalmente nos seguintes
educação especial, políticas de in- Maria Teresa Eglér Mantoan temas: formação de professores,
clusão, relações entre pensamento Professora da Universidade Es- currículo, classe hospitalar, altas
sistêmico e educação e transtor- tadual de Campinas – UNICAMP. habilidades/superdotação, ensino
nos globais do desenvolvimento. Doutora em Educação pela Univer- superior e educação especial.

 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 7-17, jan./jun. 2008


Política Nacional de Educação Especial na
Perspectiva da Educação Inclusiva

I – Introdução
O movimento mundial pela cas da produção da exclusão den- classes especiais passa a ser repen-
educação inclusiva é uma ação po- tro e fora da escola. sada, implicando uma mudança
lítica, cultural, social e pedagógica, Ao reconhecer que as dificulda- estrutural e cultural da escola para
desencadeada em defesa do direi- des enfrentadas nos sistemas de que todos os alunos tenham suas
to de todos os alunos de estarem ensino evidenciam a necessidade especificidades atendidas.
juntos, aprendendo e participando, de confrontar as práticas discrimi- Nesta perspectiva, o Ministério
sem nenhum tipo de discrimina- natórias e criar alternativas para da Educação/Secretaria de Educa-
ção. A educação inclusiva constitui superá-las, a educação inclusiva ção Especial apresenta a Política
um paradigma educacional funda- assume espaço central no debate Nacional de Educação Especial na
mentado na concepção de direitos acerca da sociedade contemporâ- Perspectiva da Educação Inclusiva,
humanos, que conjuga igualdade nea e do papel da escola na supera- que acompanha os avanços do co-
e diferença como valores indisso- ção da lógica da exclusão. A partir nhecimento e das lutas sociais, vi-
ciáveis, e que avança em relação à dos referenciais para a construção sando constituir políticas públicas
idéia de eqüidade formal ao con- de sistemas educacionais inclu- promotoras de uma educação de
textualizar as circunstâncias históri- sivos, a organização de escolas e qualidade para todos os alunos.

II – Marcos históricos e normativos

A escola historicamente se ca- exclusão tem apresentado carac- distinção dos alunos em razão de
racterizou pela visão da educação terísticas comuns nos processos de características intelectuais, físicas,
que delimita a escolarização como segregação e integração, que pres- culturais, sociais e lingüísticas, en-
privilégio de um grupo, uma exclu- supõem a seleção, naturalizando o tre outras, estruturantes do modelo
são que foi legitimada nas políticas fracasso escolar. tradicional de educação escolar.
e práticas educacionais reproduto- A partir da visão dos direitos hu- A educação especial se organi-
ras da ordem social. A partir do pro- manos e do conceito de cidadania zou tradicionalmente como aten-
cesso de democratização da escola, fundamentado no reconhecimen- dimento educacional especializado
evidencia-se o paradoxo inclusão/ to das diferenças e na participação substitutivo ao ensino comum, evi-
exclusão quando os sistemas de dos sujeitos, decorre uma identifi- denciando diferentes compreen-
ensino universalizam o acesso, mas cação dos mecanismos e processos sões, terminologias e modalidades
continuam excluindo indivíduos e de hierarquização que operam na que levaram à criação de institui-
grupos considerados fora dos pa- regulação e produção das desigual- ções especializadas, escolas espe-
drões homogeneizadores da es- dades. Essa problematização expli- ciais e classes especiais. Essa organi-
cola. Assim, sob formas distintas, a cita os processos normativos de zação, fundamentada no conceito

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 7-17, jan./jun. 2008 


de normalidade/anormalidade, as classes e escolas especiais. ou pupilos na rede regular de ensi-
determina formas de atendimen- Em 1973, o MEC cria o Centro no”. Também nessa década, docu-
to clínico-terapêuticos fortemente Nacional de Educação Especial mentos como a Declaração Mun-
ancorados nos testes psicométri- – CENESP, responsável pela gerên- dial de Educação para Todos (1990)
cos que, por meio de diagnósticos, cia da educação especial no Brasil, e a Declaração de Salamanca (1994)
definem as práticas escolares para que, sob a égide integracionista, passam a influenciar a formulação
os alunos com deficiência. impulsionou ações educacionais das políticas públicas da educação
No Brasil, o atendimento às pes- voltadas às pessoas com deficiên- inclusiva.
soas com deficiência teve início na cia e às pessoas com superdotação, Em 1994, é publicada a Políti-
época do Império, com a criação de mas ainda configuradas por cam- ca Nacional de Educação Especial,
duas instituições: o Imperial Insti- panhas assistenciais e iniciativas orientando o processo de “integra-
tuto dos Meninos Cegos, em 1854, isoladas do Estado. ção instrucional” que condiciona o
atual Instituto Benjamin Constant Nesse período, não se efetiva acesso às classes comuns do ensino
– IBC, e o Instituto dos Surdos Mu- uma política pública de acesso regular àqueles que “(...) possuem
dos, em 1857, hoje denominado universal à educação, permane- condições de acompanhar e de-
Instituto Nacional da Educação cendo a concepção de “políticas senvolver as atividades curriculares
dos Surdos – INES, ambos no Rio especiais” para tratar da educação programadas do ensino comum,
de Janeiro. No início do século XX de alunos com deficiência. No que no mesmo ritmo que os alunos di-
é fundado o Instituto Pestalozzi se refere aos alunos com superdo- tos normais” (p.19). Ao reafirmar os
(1926), instituição especializada no tação, apesar do acesso ao ensino pressupostos construídos a partir
atendimento às pessoas com defi- regular, não é organizado um aten- de padrões homogêneos de parti-
ciência mental; em 1954, é funda- dimento especializado que con- cipação e aprendizagem, a Política
da a primeira Associação de Pais e sidere as suas singularidades de não provoca uma reformulação das
Amigos dos Excepcionais – APAE; e, aprendizagem. práticas educacionais de maneira
em 1945, é criado o primeiro aten- A Constituição Federal de 1988 que sejam valorizados os diferen-
dimento educacional especializa- traz como um dos seus objetivos tes potenciais de aprendizagem
do às pessoas com superdotação fundamentais “promover o bem no ensino comum, mas mantendo
na Sociedade Pestalozzi, por Hele- de todos, sem preconceitos de ori- a responsabilidade da educação
na Antipoff. gem, raça, sexo, cor, idade e quais- desses alunos exclusivamente no
Em 1961, o atendimento educa- quer outras formas de discrimina- âmbito da educação especial.
cional às pessoas com deficiência ção” (art.3º, inciso IV). Define, no A atual Lei de Diretrizes e Ba-
passa a ser fundamentado pelas artigo 205, a educação como um ses da Educação Nacional, Lei nº
disposições da Lei de Diretrizes e direito de todos, garantindo o ple- 9.394/96, no artigo 59, preconiza
Bases da Educação Nacional – LD- no desenvolvimento da pessoa, o que os sistemas de ensino devem
BEN, Lei nº 4.024/61, que aponta o exercício da cidadania e a qualifica- assegurar aos alunos currículo,
direito dos “excepcionais” à educa- ção para o trabalho. No seu artigo métodos, recursos e organização
ção, preferencialmente dentro do 206, inciso I, estabelece a “igualda- específicos para atender às suas
sistema geral de ensino. de de condições de acesso e per- necessidades; assegura a termina-
A Lei nº 5.692/71, que altera a manência na escola” como um dos lidade específica àqueles que não
LDBEN de 1961, ao definir “trata- princípios para o ensino e garante, atingiram o nível exigido para a
mento especial” para os alunos como dever do Estado, a oferta do conclusão do ensino fundamental,
com “deficiências físicas, mentais, atendimento educacional especia- em virtude de suas deficiências; e
os que se encontram em atraso lizado, preferencialmente na rede assegura a aceleração de estudos
considerável quanto à idade regu- regular de ensino (art. 208). aos superdotados para conclusão
lar de matrícula e os superdota- O Estatuto da Criança e do Ado- do programa escolar. Também
dos”, não promove a organização lescente – ECA, Lei nº 8.069/90, no define, dentre as normas para a
de um sistema de ensino capaz de artigo 55, reforça os dispositivos organização da educação básica,
atender às necessidades educacio- legais supracitados ao determinar a “possibilidade de avanço nos cur-
nais especiais e acaba reforçando o que “os pais ou responsáveis têm a sos e nas séries mediante verifica-
encaminhamento dos alunos para obrigação de matricular seus filhos ção do aprendizado” (art. 24, inciso

10 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 7-17, jan./jun. 2008


V) e “[...] oportunidades educacio- para que os sistemas de ensino difusão, bem como a inclusão da
nais apropriadas, consideradas as favoreçam o atendimento às ne- disciplina de Libras como parte
características do alunado, seus cessidades educacionais especiais integrante do currículo nos cursos
interesses, condições de vida e de dos alunos, aponta um déficit re- de formação de professores e de
trabalho, mediante cursos e exa- ferente à oferta de matrículas para fonoaudiologia.
mes” (art. 37). alunos com deficiência nas classes A Portaria nº 2.678/02 do MEC
Em 1999, o Decreto nº 3.298, comuns do ensino regular, à for- aprova diretrizes e normas para o
que regulamenta a Lei nº 7.853/89, mação docente, à acessibilidade fí- uso, o ensino, a produção e a difu-
ao dispor sobre a Política Nacional sica e ao atendimento educacional são do sistema Braille em todas as
para a Integração da Pessoa Porta- especializado. modalidades de ensino, compre-
dora de Deficiência, define a edu- A Convenção da Guatemala endendo o projeto da Grafia Braille
cação especial como uma modali- (1999), promulgada no Brasil pelo para a Língua Portuguesa e a reco-
dade transversal a todos os níveis Decreto nº 3.956/2001, afirma que mendação para o seu uso em todo
e modalidades de ensino, enfati- as pessoas com deficiência têm o território nacional.
zando a atuação complementar da os mesmos direitos humanos e Em 2003, é implementado pelo
educação especial ao ensino regu- liberdades fundamentais que as MEC o Programa Educação Inclusi-
lar. demais pessoas, definindo como va: direito à diversidade, com vistas
Acompanhando o processo de discriminação com base na defici- a apoiar a transformação dos sis-
mudança, as Diretrizes Nacionais ência toda diferenciação ou exclu- temas de ensino em sistemas edu-
para a Educação Especial na Edu- são que possa impedir ou anular o cacionais inclusivos, promovendo
cação Básica, Resolução CNE/CEB exercício dos direitos humanos e um amplo processo de formação
nº 2/2001, no artigo 2º, determi- de suas liberdades fundamentais. de gestores e educadores nos mu-
nam que: Este Decreto tem importante re- nicípios brasileiros para a garantia
Os sistemas de ensino devem ma- percussão na educação, exigindo do direito de acesso de todos à
tricular todos os alunos, cabendo uma reinterpretação da educação escolarização, à oferta do atendi-
às escolas organizarem-se para o
especial, compreendida no con- mento educacional especializado e
atendimento aos educandos com
texto da diferenciação, adotado à garantia da acessibilidade.
necessidades educacionais espe-
ciais, assegurando as condições para promover a eliminação das Em 2004, o Ministério Público
necessárias para uma educação de barreiras que impedem o acesso à Federal publica o documento O
qualidade para todos. (MEC/SEESP, escolarização. Acesso de Alunos com Deficiência às
2001). Na perspectiva da educação Escolas e Classes Comuns da Rede
As Diretrizes ampliam o caráter inclusiva, a Resolução CNE/CP nº Regular, com o objetivo de dis-
da educação especial para realizar 1/2002, que estabelece as Diretri- seminar os conceitos e diretrizes
o atendimento educacional espe- zes Curriculares Nacionais para a mundiais para a inclusão, reafir-
cializado complementar ou suple- Formação de Professores da Edu- mando o direito e os benefícios da
mentar à escolarização, porém, ao cação Básica, define que as insti- escolarização de alunos com e sem
admitir a possibilidade de substi- tuições de ensino superior devem deficiência nas turmas comuns do
tuir o ensino regular, não poten- prever, em sua organização curri- ensino regular.
cializam a adoção de uma políti- cular, formação docente voltada Impulsionando a inclusão edu-
ca de educação inclusiva na rede para a atenção à diversidade e que cacional e social, o Decreto nº
pública de ensino, prevista no seu contemple conhecimentos sobre 5.296/04 regulamentou as Leis nº
artigo 2º. as especificidades dos alunos com 10.048/00 e nº 10.098/00, estabe-
O Plano Nacional de Educação necessidades educacionais espe- lecendo normas e critérios para
– PNE, Lei nº 10.172/2001, destaca ciais. a promoção da acessibilidade às
que “o grande avanço que a déca- A Lei nº 10.436/02 reconhece a pessoas com deficiência ou com
da da educação deveria produzir Língua Brasileira de Sinais – Libras mobilidade reduzida. Nesse con-
seria a construção de uma escola como meio legal de comunicação texto, o Programa Brasil Acessível,
inclusiva que garanta o atendi- e expressão, determinando que do Ministério das Cidades, é desen-
mento à diversidade humana”. sejam garantidas formas institu- volvido com o objetivo de promo-
Ao estabelecer objetivos e metas cionalizadas de apoiar seu uso e ver a acessibilidade urbana e apoiar

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 7-17, jan./jun. 2008 11


ações que garantam o acesso uni- co e social compatível com a meta ção especial, a implantação de
versal aos espaços públicos. da plena participação e inclusão, salas de recursos multifuncionais,
O Decreto nº 5.626/05, que re- adotando medidas para garantir a acessibilidade arquitetônica dos
gulamenta a Lei nº 10.436/2002, que: prédios escolares, acesso e a per-
visando ao acesso à escola dos a) As pessoas com deficiência manência das pessoas com defi-
alunos surdos, dispõe sobre a in- não sejam excluídas do sistema ciência na educação superior e o
clusão da Libras como disciplina educacional geral sob alegação de monitoramento do acesso à escola
curricular, a formação e a certifica- deficiência e que as crianças com dos favorecidos pelo Beneficio de
ção de professor, instrutor e tradu- deficiência não sejam excluídas Prestação Continuada – BPC.
tor/intérprete de Libras, o ensino do ensino fundamental gratuito e No documento do MEC, Plano
da Língua Portuguesa como se- compulsório, sob alegação de de- de Desenvolvimento da Educação:
gunda língua para alunos surdos ficiência; razões, princípios e programas é
e a organização da educação bilín- b) As pessoas com deficiência reafirmada a visão que busca su-
güe no ensino regular. possam ter acesso ao ensino fun- perar a oposição entre educação
Em 2005, com a implantação damental inclusivo, de qualidade regular e educação especial.
dos Núcleos de Atividades de Al- e gratuito, em igualdade de condi- Contrariando a concepção sis-
tas Habilidades/Superdotação – ções com as demais pessoas na co- têmica da transversalidade da
NAAH/S em todos os estados e no munidade em que vivem (Art.24). educação especial nos diferentes
Distrito Federal, são organizados Neste mesmo ano, a Secretaria níveis, etapas e modalidades de
ensino, a educação não se estru-
centros de referência na área das Especial dos Direitos Humanos,
turou na perspectiva da inclusão
altas habilidades/superdotação os Ministérios da Educação e da
e do atendimento às necessidades
para o atendimento educacional Justiça, juntamente com a Orga- educacionais especiais, limitando,
especializado, para a orientação às nização das Nações Unidas para a o cumprimento do princípio cons-
famílias e a formação continuada Educação, a Ciência e a Cultura – titucional que prevê a igualdade
dos professores, constituindo a or- UNESCO, lançam o Plano Nacional de condições para o acesso e per-
ganização da política de educação de Educação em Direitos Huma- manência na escola e a continui-
inclusiva de forma a garantir esse nos, que objetiva, dentre as suas dade nos níveis mais elevados de
atendimento aos alunos da rede ações, contemplar, no currículo da ensino (2007, p. 09).
pública de ensino. educação básica, temáticas relati- Para a implementação do
A Convenção sobre os Direitos vas às pessoas com deficiência e PDE é publicado o Decreto nº
das Pessoas com Deficiência, apro- desenvolver ações afirmativas que 6.094/2007, que estabelece nas
vada pela ONU em 2006 e da qual possibilitem acesso e permanên- diretrizes do Compromisso Todos
o Brasil é signatário, estabelece cia na educação superior. pela Educação, a garantia do aces-
que os Estados-Partes devem as- Em 2007, é lançado o Plano de so e permanência no ensino re-
segurar um sistema de educação Desenvolvimento da Educação gular e o atendimento às necessi-
inclusiva em todos os níveis de en- – PDE, reafirmado pela Agenda dades educacionais especiais dos
sino, em ambientes que maximi- Social, tendo como eixos a forma- alunos, fortalecendo seu ingresso
zem o desenvolvimento acadêmi- ção de professores para a educa- nas escolas públicas.

III – Diagnóstico da Educação Especial

O Censo Escolar/MEC/INEP, reali- especializado, acessibilidade nos Para compor esses indicadores
zado anualmente em todas as esco- prédios escolares, municípios com no âmbito da educação especial,
las de educação básica, possibilita o matrícula de alunos com necessida- o Censo Escolar/MEC/INEP coleta
acompanhamento dos indicadores des educacionais especiais, escolas dados referentes ao número geral
da educação especial: acesso à edu- com acesso ao ensino regular e for- de matrículas; à oferta da matrícula
cação básica, matrícula na rede pú- mação docente para o atendimen- nas escolas públicas, escolas priva-
blica, ingresso nas classes comuns, to às necessidades educacionais das e privadas sem fins lucrativos;
oferta do atendimento educacional especiais dos alunos. às matrículas em classes especiais,

12 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 7-17, jan./jun. 2008


escola especial e classes comuns de pesquisa do Censo, que passa a re- social. Também são realizadas alte-
ensino regular; ao número de alu- gistrar a série ou ciclo escolar dos rações que ampliam o universo da
nos do ensino regular com atendi- alunos identificados no campo da pesquisa, agregando informações
mento educacional especializado; educação especial, possibilitando individualizadas dos alunos, das tur-
às matrículas, conforme tipos de monitorar o percurso escolar. Em mas, dos professores e da escola.
deficiência, transtornos do desen- 2007, o formulário impresso do Cen- Com relação aos dados da edu-
volvimento e altas habilidades/su- so Escolar foi transformado em um cação especial, o Censo Escolar re-
perdotação; à infra-estrutura das sistema de informações on-line, o gistra uma evolução nas matrículas,
escolas quanto à acessibilidade ar- Censo Web, que qualifica o proces- de 337.326 em 1998 para 700.624 em
quitetônica, à sala de recursos ou so de manipulação e tratamento 2006, expressando um crescimento
aos equipamentos específicos; e à das informações, permite atualiza- de 107%. No que se refere ao ingres-
formação dos professores que atu- ção dos dados dentro do mesmo so em classes comuns do ensino re-
am no atendimento educacional ano escolar, bem como possibilita gular, verifica-se um crescimento de
especializado. o cruzamento com outros bancos 640%, passando de 43.923 alunos
A partir de 2004, são efetiva- de dados, tais como os das áreas em 1998 para 325.316 em 2006, con-
das mudanças no instrumento de de saúde, assistência e previdência forme demonstra o gráfico a seguir:

Quanto à distribuição dessas das, principalmente em institui- crescimento de 146% das matrí-
matrículas nas esferas pública e pri- ções especializadas filantrópicas. culas nas escolas públicas, que
vada, em 1998 registra-se 179.364 Com o desenvolvimento das ações alcançaram 441.155 (63%) alunos
(53,2%) alunos na rede pública e e políticas de educação inclusiva em 2006, conforme demonstra o
157.962 (46,8%) nas escolas priva- nesse período, evidencia-se um gráfico:

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 7-17, jan./jun. 2008 13


Com relação à distribuição das 81% do número de municípios com com matrículas de alunos atendi-
matrículas por etapa de ensino em matrículas, que em 1998 registra dos pela educação especial, 23,3%
2006: 112.988 (16%) estão na edu- 2.738 municípios (49,7%) e, em 2006 possuíam sanitários com acessi-
cação infantil, 466.155 (66,5%) no alcança 4.953 municípios (89%). bilidade e 16,3% registraram ter
ensino fundamental, 14.150 (2%) Aponta também o aumento do dependências e vias adequadas
no ensino médio, 58.420 (8,3%) número de escolas com matrícula, (dado não coletado em 1998). No
na educação de jovens e adultos, que em 1998 registra apenas 6.557 âmbito geral das escolas de edu-
e 48.911 (6,3%) na educação pro- escolas e, em 2006 passa a registrar cação básica, o índice de acessibi-
fissional. No âmbito da educação 54.412, representando um cresci- lidade dos prédios, em 2006, é de
infantil, há uma concentração de mento de 730%. Das escolas com apenas 12%.
matrículas nas escolas e classes es- matrícula em 2006, 2.724 são esco- Com relação à formação inicial
peciais, com o registro de 89.083 las especiais, 4.325 são escolas co- dos professores que atuam na edu-
alunos, enquanto apenas 24.005 muns com classe especial e 50.259 cação especial, o Censo de 1998,
estão matriculados em turmas co- são escolas de ensino regular com indica que 3,2% possui ensino
muns. O Censo da Educação Espe- matrículas nas turmas comuns. fundamental, 51% ensino médio
cial na educação superior registra O indicador de acessibilidade e 45,7% ensino superior. Em 2006,
que, entre 2003 e 2005, o número arquitetônica em prédios escola- dos 54.625 professores nessa fun-
de alunos passou de 5.078 para res, em 1998, aponta que 14% dos ção, 0,62% registram ensino funda-
11.999 alunos, representando um 6.557 estabelecimentos de ensino mental, 24% ensino médio e 75,2%
crescimento de 136%. com matrícula de alunos com ne- ensino superior. Nesse mesmo ano,
A evolução das ações referentes cessidades educacionais especiais 77,8% desses professores, declara-
à educação especial nos últimos possuíam sanitários com acessibili- ram ter curso específico nessa área
anos é expressa no crescimento de dade. Em 2006, das 54.412 escolas de conhecimento.

IV – Objetivo da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da


Educação Inclusiva
A Política Nacional de Educa- ciais, garantindo: cializado e demais profissionais
ção Especial na Perspectiva da • Transversalidade da educação es- da educação para a inclusão es-
Educação Inclusiva tem como ob- pecial desde a educação infantil colar;
jetivo o acesso, a participação e até a educação superior; • Participação da família e da co-
a aprendizagem dos alunos com • Atendimento educacional espe- munidade;
deficiência, transtornos globais do cializado; • Acessibilidade urbanística, arqui-
desenvolvimento e altas habilida- • Continuidade da escolarização tetônica, nos mobiliários e equi-
des/superdotação nas escolas re- nos níveis mais elevados do en- pamentos, nos transportes, na
gulares, orientando os sistemas de sino; comunicação e informação; e
ensino para promover respostas às • Formação de professores para o • Articulação intersetorial na imple-
necessidades educacionais espe- atendimento educacional espe- mentação das políticas públicas.

V – Alunos atendidos pela Educação Especial


Por muito tempo perdurou o adequassem à estrutura rígida dos dimensão pedagógica.
entendimento de que a educação sistemas de ensino. Essa concep- O desenvolvimento de estudos
especial, organizada de forma pa- ção exerceu impacto duradouro no campo da educação e dos direi-
ralela à educação comum, seria a na história da educação especial, tos humanos vêm modificando os
forma mais apropriada para o aten- resultando em práticas que enfati- conceitos, as legislações, as práticas
dimento de alunos que apresen- zavam os aspectos relacionados à educacionais e de gestão, indican-
tavam deficiência ou que não se deficiência, em contraposição à sua do a necessidade de se promover

14 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 7-17, jan./jun. 2008


uma reestruturação das escolas de da escola regular, promovendo dinamismo exige uma atuação
ensino regular e da educação es- o atendimento às necessidades pedagógica voltada para alterar a
pecial. Em 1994, a Declaração de educacionais especiais de alunos situação de exclusão, reforçando
Salamanca proclama que as escolas com deficiência, transtornos glo- a importância dos ambientes he-
regulares com orientação inclusiva bais de desenvolvimento e altas terogêneos para a promoção da
constituem os meios mais eficazes habilidades/superdotação. Nestes aprendizagem de todos os alunos.
de combater atitudes discrimina- casos e outros, que implicam em A partir dessa conceituação,
tórias e que alunos com necessida- transtornos funcionais específicos, considera-se pessoa com deficiên-
des educacionais especiais devem a educação especial atua de forma cia aquela que tem impedimentos
ter acesso à escola regular, tendo articulada com o ensino comum, de longo prazo, de natureza físi-
como princípio orientador que “as orientando para o atendimento às ca, mental ou sensorial que, em
escolas deveriam acomodar todas necessidades educacionais espe- interação com diversas barreiras,
as crianças independentemente de ciais desses alunos. podem ter restringida sua parti-
suas condições físicas, intelectuais, A educação especial direciona cipação plena e efetiva na escola
sociais, emocionais, lingüísticas ou suas ações para o atendimento às e na sociedade. Os alunos com
outras” (BRASIL, 2006, p.330). especificidades desses alunos no transtornos globais do desenvol-
O conceito de necessidades processo educacional e, no âmbi- vimento são aqueles que apre-
educacionais especiais, que passa to de uma atuação mais ampla na sentam alterações qualitativas das
a ser amplamente disseminado a escola, orienta a organização de interações sociais recíprocas e na
partir dessa Declaração, ressalta a redes de apoio, a formação conti- comunicação, um repertório de in-
interação das características indivi- nuada, a identificação de recursos, teresses e atividades restrito, este-
duais dos alunos com o ambiente serviços e o desenvolvimento de reotipado e repetitivo. Incluem-se
educacional e social. No entanto, práticas colaborativas. nesse grupo alunos com autismo,
mesmo com uma perspectiva con- Os estudos mais recentes no síndromes do espectro do autis-
ceitual que aponte para a organi- campo da educação especial en- mo e psicose infantil. Alunos com
zação de sistemas educacionais fatizam que as definições e uso altas habilidades/superdotação
inclusivos, que garanta o acesso de classificações devem ser con- demonstram potencial elevado
de todos os alunos e os apoios ne- textualizados, não se esgotando em qualquer uma das seguintes
cessários para sua participação e na mera especificação ou catego- áreas, isoladas ou combinadas:
aprendizagem, as políticas imple- rização atribuída a um quadro de intelectual, acadêmica, liderança,
mentadas pelos sistemas de ensi- deficiência, transtorno, distúrbio, psicomotricidade e artes, além de
no não alcançaram esse objetivo. síndrome ou aptidão. Considera- apresentar grande criatividade,
Na perspectiva da educação in- se que as pessoas se modificam envolvimento na aprendizagem e
clusiva, a educação especial passa continuamente, transformando o realização de tarefas em áreas de
a integrar a proposta pedagógica contexto no qual se inserem. Esse seu interesse.

VI– Diretrizes da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da


Educação Inclusiva

A educação especial é uma mo- O atendimento educacional es- especializado diferenciam-se da-
dalidade de ensino que perpassa to- pecializado tem como função iden- quelas realizadas na sala de aula
dos os níveis, etapas e modalidades, tificar, elaborar e organizar recursos comum, não sendo substitutivas
realiza o atendimento educacional pedagógicos e de acessibilidade à escolarização. Esse atendimento
especializado, disponibiliza os re- que eliminem as barreiras para a complementa e/ou suplementa a
cursos e serviços e orienta quanto a plena participação dos alunos, formação dos alunos com vistas à
sua utilização no processo de ensi- considerando suas necessidades autonomia e independência na es-
no e aprendizagem nas turmas co- específicas. As atividades desenvol- cola e fora dela.
muns do ensino regular. vidas no atendimento educacional Dentre as atividades de atendi-

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 7-17, jan./jun. 2008 15


mento educacional especializado de educação de jovens e adultos e O atendimento educacional es-
são disponibilizados programas de educação profissional, as ações da pecializado é realizado mediante
enriquecimento curricular, o ensino educação especial possibilitam a a atuação de profissionais com co-
de linguagens e códigos específi- ampliação de oportunidades de es- nhecimentos específicos no ensino
cos de comunicação e sinalização colarização, formação para ingres- da Língua Brasileira de Sinais, da
e tecnologia assistiva. Ao longo de so no mundo do trabalho e efetiva Língua Portuguesa na modalida-
todo o processo de escolarização participação social. de escrita como segunda língua,
esse atendimento deve estar arti- A interface da educação especial do sistema Braille, do Soroban, da
culado com a proposta pedagógica na educação indígena, do campo e orientação e mobilidade, das ati-
do ensino comum. O atendimento quilombola deve assegurar que os vidades de vida autônoma, da co-
educacional especializado é acom- recursos, serviços e atendimento municação alternativa, do desen-
panhado por meio de instrumentos educacional especializado estejam volvimento dos processos mentais
que possibilitem monitoramento e presentes nos projetos pedagógi- superiores, dos programas de enri-
avaliação da oferta realizada nas cos construídos com base nas di- quecimento curricular, da adequa-
escolas da rede pública e nos cen- ferenças socioculturais desses gru- ção e produção de materiais didáti-
tros de atendimento educacional pos. cos e pedagógicos, da utilização de
especializados públicos ou conve- Na educação superior, a educa- recursos ópticos e não ópticos, da
niados. ção especial se efetiva por meio de tecnologia assistiva e outros.
O acesso à educação tem início ações que promovam o acesso, a A avaliação pedagógica como
na educação infantil, na qual se permanência e a participação dos processo dinâmico considera tan-
desenvolvem as bases necessárias alunos. Estas ações envolvem o pla- to o conhecimento prévio e o nível
para a construção do conhecimen- nejamento e a organização de re- atual de desenvolvimento do aluno
to e desenvolvimento global do cursos e serviços para a promoção quanto às possibilidades de apren-
aluno. Nessa etapa, o lúdico, o aces- da acessibilidade arquitetônica, nas dizagem futura, configurando uma
so às formas diferenciadas de co- comunicações, nos sistemas de in- ação pedagógica processual e for-
municação, a riqueza de estímulos formação, nos materiais didáticos e mativa que analisa o desempenho
nos aspectos físicos, emocionais, pedagógicos, que devem ser dispo- do aluno em relação ao seu pro-
cognitivos, psicomotores e sociais e nibilizados nos processos seletivos gresso individual, prevalecendo na
a convivência com as diferenças fa- e no desenvolvimento de todas as avaliação os aspectos qualitativos
vorecem as relações interpessoais, atividades que envolvam o ensino, que indiquem as intervenções pe-
o respeito e a valorização da crian- a pesquisa e a extensão. dagógicas do professor. No proces-
ça. Do nascimento aos três anos, o Para o ingresso dos alunos sur- so de avaliação, o professor deve
atendimento educacional especia- dos nas escolas comuns, a educa- criar estratégias considerando que
lizado se expressa por meio de ser- ção bilíngüe – Língua Portuguesa/ alguns alunos podem demandar
viços de estimulação precoce, que Libras desenvolve o ensino escolar ampliação do tempo para a realiza-
objetivam otimizar o processo de na Língua Portuguesa e na língua ção dos trabalhos e o uso da língua
desenvolvimento e aprendizagem de sinais, o ensino da Língua Portu- de sinais, de textos em Braille, de
em interface com os serviços de guesa como segunda língua na mo- informática ou de tecnologia assis-
saúde e assistência social. dalidade escrita para alunos surdos, tiva como uma prática cotidiana.
Em todas as etapas e modalida- os serviços de tradutor/intérprete Cabe aos sistemas de ensino, ao
des da educação básica, o atendi- de Libras e Língua Portuguesa e organizar a educação especial na
mento educacional especializado é o ensino da Libras para os demais perspectiva da educação inclusiva,
organizado para apoiar o desenvol- alunos da escola. O atendimento disponibilizar as funções de instru-
vimento dos alunos, constituindo educacional especializado para es- tor, tradutor/intérprete de Libras e
oferta obrigatória dos sistemas de ses alunos é ofertado tanto na mo- guia-intérprete, bem como de mo-
ensino. Deve ser realizado no turno dalidade oral e escrita quanto na nitor ou cuidador dos alunos com
inverso ao da classe comum, na pró- língua de sinais. Devido à diferença necessidade de apoio nas ativida-
pria escola ou centro especializado lingüística, orienta-se que o aluno des de higiene, alimentação, loco-
que realize esse serviço educacio- surdo esteja com outros surdos em moção, entre outras, que exijam au-
nal. Desse modo, na modalidade turmas comuns na escola regular. xílio constante no cotidiano escolar.

16 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 7-17, jan./jun. 2008


Para atuar na educação especial, nas classes hospitalares e nos am- Os sistemas de ensino devem or-
o professor deve ter como base da bientes domiciliares, para a oferta ganizar as condições de acesso aos
sua formação, inicial e continuada, dos serviços e recursos de educação espaços, aos recursos pedagógicos
conhecimentos gerais para o exer- especial. e à comunicação que favoreçam a
cício da docência e conhecimentos Para assegurar a intersetorialida- promoção da aprendizagem e a va-
específicos da área. Essa formação de na implementação das políticas lorização das diferenças, de forma a
possibilita a sua atuação no atendi- públicas a formação deve contem- atender as necessidades educacio-
mento educacional especializado, plar conhecimentos de gestão de nais de todos os alunos. A acessibili-
aprofunda o caráter interativo e in- sistema educacional inclusivo, ten- dade deve ser assegurada mediante
terdisciplinar da atuação nas salas do em vista o desenvolvimento de a eliminação de barreiras arquite-
comuns do ensino regular, nas salas projetos em parceria com outras tônicas, urbanísticas, na edificação
de recursos, nos centros de atendi- áreas, visando à acessibilidade ar- – incluindo instalações, equipamen-
mento educacional especializado, quitetônica, aos atendimentos de tos e mobiliários – e nos transportes
nos núcleos de acessibilidade das saúde, à promoção de ações de as- escolares, bem como as barreiras
instituições de educação superior, sistência social, trabalho e justiça. nas comunicações e informações.

VII – Referências
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de Educação Especial. Decreto nº 3.298, de e Silva( Orgs). 2ª ed. ver. e atualiz. Brasília: com Deficiência, 2006.

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 7-17, jan./jun. 2008 17


18 COLÓQUIO

Política Nacional de Educação Especial


na Perspectiva da Educação Inclusiva

A
proposição da nova Políti- nização de um sistema educacio- 1. O documento “Política Nacio-
ca Nacional de Educação nal inclusivo. nal de Educação Especial na Pers-
Especial na Perspectiva da Neste colóquio dialogam os pectiva da Educação Inclusiva”
Educação Inclusiva/2008 reflete a professores pesquisadores da área contextualiza a inclusão como
ampla discussão realizada nos di- de educação especial, que inte- um movimento mundial que se
versos fóruns educacionais sobre graram o Grupo de Trabalho no- intensifica a partir da Conferên-
inclusão no País, as conquistas do meado pela Portaria Ministerial nº cia Mundial de Educação para
movimento das pessoas com defi- 555/2007, que teve a incumbência Todos – 1990, da Declaração de
ciência, bem como os avanços dos de elaborar a nova Política. A fim de Salamanca – 1994 e da Conven-
marcos legais e educacionais. O dar conseqüência a esta elabora- ção da Guatemala – 1999, con-
Documento configura a educação ção, esses professores, juntamente figurando um novo paradigma
inclusiva como uma ação política, com a equipe gestora da Secretaria educacional. Como os demais
cultural, social e pedagógica em de Educação Especial, desencadea- países estão redimensionando
defesa do direito de todos a uma ram um amplo debate sobre a edu- a educação especial nesta pers-
educação de qualidade e da orga- cação especial em nosso País. pectiva?

18 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 18-32, jan./jun. 2008


Claudio Baptista: É de conhe- lorizando o debate feito com a e acolham a todos os alunos. A
cimento de todos que se inte- escola acerca de questões peda- tendência na maior parte desses
ressam pela área da educação gógicas e do acompanhamento países, contudo, é manter a edu-
especial a existência de uma ten- de projetos específicos que se re- cação especial como substitutiva
dência internacional no sentido ferem aos alunos que demandam do ensino comum e os alunos,
de valorizar as políticas inclusi- ações diferenciadas por parte da pais ou responsáveis poderem
vas quando se discute a oferta de escola. Evidentemente, o desenho optar pela escola especial ou co-
escolarização para crianças com institucional desses “centros” está mum. O Brasil, nesta última dé-
deficiência ou com necessidades diretamente relacionado à con- cada, destacou-se pela vanguar-
educativas especiais. As experi- cepção que temos de educador da de seus projetos inclusivos. A
ências coincidem na redução de especial ou de práticas que sejam proposta brasileira de educação
matrículas no sistema de ensino características da área. No caso da especial, na perspectiva inclusiva,
especial e no aumento das ma- Itália, por exemplo, para falar de se diferencia das demais, porque
trículas desses alunos na rede de um contexto com o qual tenho garante a educação a todos os
ensino comum. No entanto, há intenso contato nos últimos 16 alunos, indistintamente, em es-
diferenças significativas quanto anos, a existência dos “centros”, colas comuns de ensino regular e
ao destino das escolas especiais e particularmente aqueles da Emí- a complementação do ensino es-
ao trabalho dos educadores com lia Romagna (Região de Bologna), pecial. Essa inovação, como está
formação específica na área. Te- tem pouca relação com o que nós claro na nova Política Nacional
mos, por exemplo, países que in- identificamos com uma escola de Educação Especial, não só re-
vestem em centros especializados especial. Há uma rede de centros dimensiona a educação especial
e que substituiriam as escolas es- que são chamados de “centros de como provoca a escola comum,
peciais e concentrariam os servi- documentação e recursos” e ten- para que dê conta das diferenças
ços especializados, para os quais dem a oferecer apoios muitos am- na sua concepção, organização e
são encaminhados os alunos que plos que podem ser de auxiliar as práticas pedagógicas. Temos de
exigem uma ação complementar escolas na elaboração de projeto aproveitar esses novos tempos
àquela oferecida pelo ensino co- específico, na formação em sinto- para romper com paradigmas que
mum. Nesse sentido, o que temos nia com as necessidades das esco- nos detém no avanço e melhoria
é também uma variação muito las de referência; na promoção de da educação brasileira.
grande sobre a configuração des- debates sobre temas associados
ses centros, pois é freqüente que à educação, inclusão e acessibili- Maria Amélia: Sem dúvida, a in-
se conceba que tais espaços de- dade; na interlocução das famílias clusão é um movimento mundial.
veriam estar pautados na qualifi- com profissionais do atendimen- Cada país teve a sua história em
cação clínica dos atendimentos, to; nas pesquisas sobre a escola- relação ao atendimento a pessoas
o que resultaria em equipes com rização de alunos com necessida- com deficiência, transtornos glo-
predominância da área de saúde des especiais; na relação entre os bais de desenvolvimento, super-
e no acompanhamento e suporte diferentes níveis da gestão da es- dotação/altas habilidades e, por
dirigido ao aluno e não aos con- cola e dos entes governamentais isso, cada um deles tem lançado
textos relacionais dos quais ele que as mantém. mão de diferentes formas de prá-
participa. Esse, segundo acredi- ticas inclusivas. Por exemplo, nos
to, é um divisor de águas quando Maria Teresa Mantoan: Tenho Estados Unidos que tem uma lon-
trabalhamos com uma lógica de acompanhado as iniciativas em fa- ga história de institucionalização
“apoio” que ganha uma configu- vor da inclusão escolar em alguns dessas pessoas, hoje há estados
ração institucional como aquela países europeus e da América do que fecharam todas as escolas
de um centro: para garantir que Norte desde o início dos anos 90 especiais mantidas pelo gover-
haja mudanças capazes de inci- e em todos eles predomina, até no e todas as crianças com defi-
dir na escola e nos seus integran- então, um grande empenho das ciências, transtornos globais de
tes, um centro de apoio deveria autoridades educacionais, pais desenvolvimento, superdotação/
ter como eixo o trabalho voltado e instituições para que as esco- altas habilidades são matricula-
para os contextos relacionais, va- las comuns se redimensionem das nas escolas da rede pública

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 18-32, jan./jun. 2008 19


de ensino de seu bairro. Outros de concretizar no cotidiano da es- ção da maior parte das províncias
mantiveram os vários serviços: sa- cola o que já temos garantido por canadenses não assegure a inclu-
las de recursos, classes especiais, lei. Nós sabemos que atualmente são dos alunos com deficiência
serviço itinerante e algumas es- no Brasil uma parte importante na classe regular, é nesse espaço
colas especiais. Penso que, de um de crianças com deficiência ainda educativo que a maioria delas
modo geral, a inclusão não terá não freqüentam o sistema públi- está inserida. Progressos enormes
retrocessos e eu gostaria de viver, co de ensino. No Canadá, ao con- a fim de favorecer a educação de
pelo menos, mais 30 anos para ver trário do Brasil, a grande maioria alunos com deficiência na classe
como ficará esse movimento. dos alunos que apresentam defi- regular foram alcançados naque-
ciência freqüenta a escola públi- le país nos últimos trinta anos. Na
Rita Vieira: A educação inclusiva ca. Deste modo, embora a legisla- província de Quebec, o Ministério
é objeto de interesse em muitos de Educação do Lazer e do Espor-
países. Não conheço a situação de te tomou diversas medidas neste
todos os países que fazem apelo sentido. Dentre elas, a garantia
a essa questão, mas conheço bem da presença na escola do profes-
a situação do Canadá, a província sor ortopedagogo (que pode ser
de Quebec, onde fiz meus estudos entendido como o nosso profes-
de doutorado. O Canadá, certa- No Brasil, os sistemas sor do atendimento educacional
mente, é um dos paises pioneiros especializado). O número de pro-
de ensino ainda têm um
no desenvolvimento do conceito fessor ortopedagogo por escola é
de educação inclusiva. A julgar caminho a percorrer proporcional ao número de alu-
pelo número de alunos com de- para assegurar uma boa nos de cada escola, independente
ficiência que freqüentam as salas do número de crianças com de-
regulares das escolas canadenses educação a TODOS. É ficiência nela matriculadas. Este
se poderia supor que a legislação importante compreender professor poderá atender mais de
das províncias daquele país, no que a inclusão não é uma escola. Ele trabalha com o
que diz respeito à educação in- aluno com deficiência e faz a in-
clusiva, determina que TODOS os tarefa da educação terlocução com o professor do en-
alunos sejam integrados na classe especial, mas das redes sino comum no sentido de apoiar
regular. Entretanto, esta não é a as ações dele e da escola em favor
realidade. Apenas duas das dez
públicas de ensino. de uma melhor integração desse
províncias canadenses, Colombie aluno na sala regular. Em síntese,
Britannique e Nouveau-Brunswi- a escola pública daquele país se
ck, asseguram por lei que TODOS organizou criando as condições
R I TA V IEIR A

os alunos que apresentam defi- para receber e favorecer a apren-


ciência sejam incluídos na classe dizagem da grande maioria dos
regular de ensino. As oito demais alunos com deficiência no ensino
províncias prevêem por lei um comum. No Brasil, os sistemas de
só sistema de ensino nomeado ensino ainda têm um caminho a
mainstreaming, que não assegura percorrer para assegurar uma boa
o acesso de TODAS as crianças na educação a TODOS. É importante
classe regular. De fato, ele prevê compreender que a inclusão não é
diversas modalidades de servi- tarefa da educação especial, mas
ços partindo dos mais integrados das redes públicas de ensino.
(classe regular) para os menos in-
tegrados. Do ponto de vista legal, Ronice Quadros: Cada cultura
o Brasil está na vanguarda em re- tem a sua forma de construir e
lação ao Canadá no que consiste pensar a diferença. Não pode-
a educação inclusiva. Entretanto, mos pensar em paradigmas ho-
uma nova luta começa no sentido mogeinizadores e conceber a

20 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 18-32, jan./jun. 2008


inclusão sem pensar nos proces-
sos lingüísticos, sociais, culturais,
epistemológicos para acessar o
conhecimento. Uma das ques- ... a Educação Especial,

RO NI CE QUAD ROS
tões fundamentais é visibilizar e quando se aproxima
assumir as diferenças dentro dos
espaços educacionais partindo das necessidades
do pressuposto que não basta lingüísticas,
estar junto para haver inclusão,
mas importa o que fazem esses
culturais, sociais das
educandos dentro desses espa- pessoas revisando
ços para que sejam significativas permanentemente
as aprendizagens. As diferenças
fazem parte dos grupos sociais o seu papel e sua
e são determinadas a partir da responsabilidade com
perspectiva do outro. Em relação
à diferença surda, o reconheci-
a inclusão, dá um passo
mento da Libras e do Português positivo na tarefa
como segunda língua no Decreto imensa de reverter os
5626, foi um avanço em termos
de Brasil. Isso é um redimensiona- quadros dramáticos de
mento em termos de perspectiva exclusão social.
inclusiva porque a língua consti-
tutiva dos sujeitos passa a assu-
mir uma representação política
fundamental. No entanto, ainda
são incipientes as abordagens
no campo pedagógico com co-
nhecimento de causa propiciado ticas, culturais, sociais das pessoas te”, na rede regular de ensino. A
no contato com as comunidades revisando permanentemente o Lei 4.024, de 1961, também afir-
surdas. O ponto referencial modi- seu papel e sua responsabilidade mava que “no que for possível”
fica de acordo com os olhares dos com a inclusão, dá um passo posi- as crianças com necessidades es-
sujeitos implicados, ser “surdo”, tivo na tarefa imensa de reverter peciais deveriam ser atendidas na
ser “cego” etc. tem múltiplos sig- os quadros dramáticos de exclu- rede regular de ensino. E assim,
nificados na suas relações com o são social. tantas outras leis... Se analisarmos
outro dentro dos espaços sociais, que em 1961 o Brasil já dispunha
dentre eles, o espaço escolar. É 2. Tendo em vista que no Brasil, de uma lei que garantia o aten-
importante assinalar que a Decla- desde a promulgação da Consti- dimento dessas crianças na rede
ração de Salamanca provocou a tuição Federal de 1988, os precei- regular de ensino, enquanto que,
visibilização das diferenças. Este tos legais já definem a educação nessa mesma época, na Escandi-
é o tipo de movimento que está como um direito de todos com návia se falava no “Princípio de
sendo desencadeado a partir do igualdade de oportunidades, o Normalização” ou seja, “deixar
que vem sendo referido como que justifica, hoje, a elaboração que as pessoas com deficiência
educação inclusiva no mundo. Os deste Documento? mental tivessem uma convivência
tempos, os espaços e as formas o mais próximo possível do nor-
de ensinar e aprender passam a Maria Amélia: Eu iria um pouco mal”, o Brasil saiu na vanguarda
ser ressignificados a partir das di- antes da Constituição de 1988, em termos de inclusão. No en-
ferenças. Sob essas perspectivas, que definiu que os alunos com tanto, termos como: “no que for
a Educação Especial, quando se necessidades especiais deveriam possível”, “preferencialmente” im-
aproxima das necessidades lingüís- ser atendidos, “preferencialmen- pediram que o processo inclusivo

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 18-32, jan./jun. 2008 21


que se efetive o direito à educação
a todos os alunos, indistintamen-
te. Desse modo, no que tange à
... termos como: “no educação especial, grande parte
dos sistemas não aprofundou com
MAR IA AMÉLIA

que for possível”, radicalidade o sentido da educa-


“preferencialmente” ção inclusiva, de modo a alterar
a atuação da educação especial
impediram que o
dissociada do contexto das esco-
processo inclusivo no las regulares, passando a apoiar o
Brasil se iniciasse há desenvolvimento das escolas para
uma perspectiva pedagógica que
mais de 40 anos atrás! respeite as diferenças e atenda as
Portanto, a elaboração necessidades específicas dos seus
de uma política de alunos no processo educacional. É
preciso construir condições favorá-
inclusão em nosso País, veis para a inclusão e essa materia-
neste momento, é mais lidade só acontece a partir de uma
sólida definição por um sistema
do que necessária! educacional inclusivo. Portanto,
esta é a justificativa para a elabora-
ção de uma nova Política, ou seja,
a definição conceitual e a orienta-
no Brasil se iniciasse há mais de 40 essa Política tem seu suporte e sua ção para as mudanças no contexto
anos atrás! Portanto, a elaboração justificativa. educacional voltadas para garantir
de uma política de inclusão em as condições de acessibilidade, a
nosso País, neste momento, é mais Claudia Dutra: A educação como formação dos educadores, à ofer-
do que necessária! um direito de todos é o princípio ta do atendimento educacional
constitucional que fundamenta a especializado e a organização da
Soraia Napoleão Freitas: Na mi- organização da educação especial educação especial como parte do
nha opinião, a Política Nacional na perspectiva da educação inclu- projeto pedagógico da escola, en-
de Educação Especial na Perspec- siva e a implantação de políticas tre outras, inerentes ao processo
tiva da Educação Inclusiva tem a públicas que conduzam à supera- de inclusão e aprendizagem. Este é
função de reforçar esses direitos ção dos valores educacionais sub- o sentido do redimensionamento
já previstos, que até então não fo- jacentes à estrutura excludente das políticas de educação e os do-
ram plenamente assumidos pela da escola tradicional, constituindo cumentos mais atuais que refletem
educação brasileira. A justificativa ações direcionadas às condições uma avaliação da organização dos
dessa proposição político-educa- de acesso, participação e apren- sistemas de ensino indicam uma
cional centra-se na necessidade de dizagem de todos os alunos nas transição do conceito de integra-
transformar os sistemas de ensino, escolas de ensino regular. Muitos ção para o de inclusão, bem como o
a partir de uma concepção de en- sistemas de ensino já percorrem desenvolvimento para a reformula-
sino e aprendizagem que efetiva- um caminho que busca concre- ção das práticas pedagógicas. Este
mente respeite as diferenças dos tizar este objetivo, cumprindo movimento que ocorre em grande
alunos. Não se trata de pensar tão os preceitos constitucionais que parte dos países, está expresso na
somente a educação para o defi- garantem a plena participação e Convenção dos Direitos das Pesso-
ciente, mas, sobretudo, de basilar inclusão. Entretanto, este desafio as com Deficiência aprovada pela
a prática educativa e a organiza- colocado para os gestores e edu- ONU, em 2006, onde foi assumido
ção da escola no respeito à dife- cadores, e toda a sociedade, desde o compromisso de assegurar um
rença do outro. E é nesse princípio, 1988, não alcançou, ainda, o con- sistema educacional inclusivo em
de defesa da escolarização, que junto dos sistemas de ensino para todos os níveis de ensino.

22 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 18-32, jan./jun. 2008


Claudio Baptista: A elaboração de acirrados, a respeito dos temas que diências públicas promovidas por
uma nova Política é justificada pela dizem respeito à inclusão. A política redes de ensino que questionam as
necessidade de atualização de um ganha corpo e nome ao entender- diretrizes anunciadas, ao convidar-
dispositivo. A Política Nacional de mos que os gestores não têm ape- mos especialistas para serem ouvi-
Educação Especial sustenta uma nas direito, mas têm obrigação de dos sobre temas como a formação
perspectiva que é aquela resultante serem propositivos no que concer- de professores em educação es-
de um conjunto de forças e percep- ne à gestão das diferentes instân- pecial, ao intensificarmos em cada
ções que, em um dado momento cias do sistema educacional. A polí- espaço a discussão sobre as novas
histórico, é considerado o mais qua- tica se consolida, como ocorreu no perspectivas propostas pela “Nova
lificado como orientação para os segundo semestre de 2007, ao reu- Política”.
sistemas de ensino. Nesse sentido, nirmos profissionais com responsa-
a elaboração de um texto orientador bilidade de discutir as direções das 3. A nova Política orienta a imple-
torna-se pertinente quando há mu- “palavras” que compõem um texto mentação da educação especial
danças históricas que justificam no- orientador, ao participarmos de au- a partir de uma articulação com
vas proposições. Apesar de termos o ensino regular. De acordo com
marcos legais que ainda admitem esta proposição, o que muda
que a escolarização em espaços es- para os sistemas de ensino?
pecíficos da educação especial seria
recomendável para alguns sujeitos, Claudia Dutra: O que muda a partir
A política ganha corpo e
como é o caso da Resolução n0 02, desta Política é a ênfase no desen-
de 2001, do CNE, houve grandes nome ao entendermos volvimento dos sistemas educacio-
alterações no plano legal quanto às que os gestores não nais inclusivos, onde a educação
possibilidades de inclusão escolar. especial deve integrar a proposta
Tais mudanças são perceptíveis, na têm apenas direito, mas pedagógica da escola, não mais or-
maioria das vezes, no teor propo- têm obrigação de serem ganizada como modalidade subs-
sitivo dos documentos aprovados propositivos no que titutiva à escolarização. A definição
pelos Conselhos – Nacional ou Es- da educação especial como moda-
taduais, no sentido de redução das concerne à gestão das lidade complementar e transversal
restrições que estariam associadas diferentes instâncias do às etapas, níveis e modalidades de
aos alunos que “poderiam” estar no ensino, que disponibiliza recursos
ensino comum. No que se refere ao
sistema educacional. e serviços, realiza o atendimento
plano das proposições pedagógi- educacional especializado e orienta
cas, temos atualmente um contex- alunos e professores na sua utiliza-
CL AUD I O BAP T IS TA

to muito diferente daquele de 1994, ção, pressupõe uma reorganização


quando houve a aprovação da an- de recursos materiais e profissio-
terior Política Nacional de Educa- nais especializados para apoiar as
ção Especial. Ao longo desses anos, escolas nas alterações necessárias,
houve uma profusão de iniciativas no âmbito das práticas pedagó-
que, com diferentes motivações, gicas e da oferta do atendimento
têm proposto a reconfiguração de educacional especializado. O gran-
sistemas de ensino, especialmen- de desafio colocado em nosso País
te aqueles municipais, diante da é de alcançar uma educação de
tendência à municipalização do qualidade para todos, um objetivo
ensino fundamental e ampliação que será construído em sintonia
das responsabilidades dos muni- com a perspectiva da educação in-
cípios acerca da educação infantil. clusiva, considerando que não há
A política pode ser considerada o qualidade sem atenção à diversida-
movimento que, em 2007, se inten- de. Neste contexto, a implantação
sificou e continua nos mobilizando do Plano de Desenvolvimento da
em debates públicos, muitas vezes Educação-PDE se caracteriza pelo

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 18-32, jan./jun. 2008 23


esforço conjunto em torno da quali- somente o acesso e a permanência
dade da educação, pelo avanço nas na escola, mas também os serviços
medidas direcionadas à inclusão e educacionais que forem necessá-

SO R AIA FR EI TA S
pelo propósito de realizar um gran- rios para garantir a aprendizagem
de investimento nas escolas para escolar. A articulação entre o ensi-
acolher a todos os alunos, criando no comum e a educação especial,
melhores condições de infra-estru- sobretudo através do atendimento
tura e formação profissional que educacional especializado, deve
contemplem a promoção do ensi- visar sempre a aprendizagem dos
no e da aprendizagem e a avaliação alunos que se beneficiam desse
do processo educacional. Neste serviço. Na verdade, o que deve
sentido, as mudanças devem acon- mudar nos sistemas de ensino é a
tecer no âmbito geral dos sistemas oferta do atendimento educacio-
de ensino e a implementação da nal especializado para os alunos
Política Nacional de Educação Es- que dele necessitam e o que já se
pecial na Perspectiva da Educação vem reivindicando há muitas dé-
Inclusiva exigirá que cada sistema cadas: a transformação da escola
reestruture a sua rede de ensino pública brasileira, especialmente
para assegurar a atuação da educa- no que consiste a gestão da escola
ção especial nas escolas regulares ... há a necessidade e a gestão da classe. Transformar a
com propostas pedagógicas, recur- de repensar a gestão da classe significa transfor-
sos pedagógicos e de acessibilida- mar as práticas que temos hoje (em
de para a plena participação dos organização escolar sua maioria pautadas no conceito
alunos com deficiência, transtornos nos níveis macro e de homogeneidade) em práticas
globais de desenvolvimento e altas que atendam a diversidade da sala
micro estruturais,
habilidades /superdotação. de aula (pautadas no principio da
contemplando desde a heterogeneidade). Essa transfor-
Soraia Napoleão Freitas: Penso gestão no sentido mais mação da escola não é requerida
que esta Política, ao propor a articu- em decorrência da demanda de
lação entre o ensino regular e a edu- amplo do “sistema de inclusão escolar, visto que não são
cação especial, lança a possibilidade ensino” e da escola, apenas as crianças com deficiência
da escola repensar a totalidade da até a organização da que apresentam dificuldades para
sua organização, historicamente se- se apropriarem dos conteúdos es-
dimentada. Ou seja, a educação es- prática educacional em colares, mas também uma grande
pecial, que na organização dos “sis- sala de aula. parte daquelas consideradas nor-
temas de ensino” configurava um mais.
“sistema paralelo”, passa a constituir
parte integrante desses “sistemas”. Antônio Osório: A reconstrução
Logo, há a necessidade de repen- Rita Vieira: A primeira mudança das práticas pedagógicas e de suas
sar a organização escolar nos níveis é uma mudança de perspectiva: a respectivas orientações configura-
macro e micro estruturais, contem- escola é compreendida como um das por diferentes grupos (gesto-
plando desde a gestão no sentido espaço de direito, um bem social res, educadores e demais segmen-
mais amplo do “sistema de ensino” que deve ser assegurado a TODAS tos) envolve discussões a respeito
e da escola, até a organização da as crianças, indistintamente. Neste da complexidade que permeia a
prática educacional em sala de aula. novo documento fica claro o que é tentativa de definirmos um siste-
É um entendimento diferenciado de competência da escola comum ma de ensino no nível nacional ou
de ensinar e aprender que precisa e o que é de competência da edu- local. Essas práticas, analisadas iso-
perpassar as organizações escolares cação especial, devendo os siste- ladamente, desenham um mosaico
e que modifica o entendimento de mas de ensino se organizarem para em que cada pedaço tem funções
gestão até então conhecido. oferecer a TODAS as crianças não pré-estabelecidas dentro de uma

24 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 18-32, jan./jun. 2008


estrutura organizativa mais ampla, Denise Fleith: Já era tempo de ha- dida pelos recursos humanos e
obstruindo sua própria razão de ver uma comunicação mais efetiva financeiros da Educação Especial:
existir, mas tendo sua configuração entre ensino regular e educação es- alunos com deficiências, transtor-
estabelecida pela própria regula- pecial. A partir da nova Política será nos globais do desenvolvimento
mentação do Estado, reduzida a necessário um diálogo constante e altas habilidades/superdotação.
questões de financiamento e res- no interior dos sistemas de ensino. Essa definição não é só no sentido
ponsabilidades. Parte-se do prin- O foco deve ser o aluno com suas terminológico, mas deixa claro que
cípio que não existe um sistema necessidades de aprendizagem atenderá as necessidades educa-
de ensino, mas uma organização cognitivas, afetivas e físicas. Isto im- cionais especiais dessa população.
estrutural que recebe essa deno- plicará planejamentos em conjun- Dessa forma, nem todos os alunos
minação. Clareado este aspecto, o to, investimento na formação inicial “com necessidades educacionais
lócus é marcado como um espa- e continuada de pessoal, equipes especiais” serão alunos atendidos
ço, em que as regras são sujeições, de trabalho que incluam profissio- pela Educação Especial. Isto deve,
submissões e opressões em cir- nais com formações distintas e a então, conferir à Educação o papel
cunstâncias diversas, uns, autoritá- reorganização da arquitetura da es- de atender a todos os alunos com
rios e vigorosos, e outros, em que cola, entre outras ações. Ademais, deficiência ou não, mas deixando
as partes podem alternar-se sob re- é importante que o profissional da claro o que deve mudar em termos
gras que se igualam ou se repelem educação tenha conhecimentos de apoio da Educação Especial. O
sobre as medidas adotadas. Essa é a mais amplos na área da Educação. segundo ponto é o papel de trans-
prática daquilo que os educadores Assim, por exemplo, um professor versalidade da Educação Especial,
denominam de sistema. A meu ver, de matemática deverá ter na sua que deverá auxiliar a todos os níveis
o sistema de ensino que está pos- formação acesso ao conteúdo so- de ensino. Em particular, o docu-
to culturalmente deveria ser todo bre Educação Especial e não ape- mento pontua o acesso das pesso-
repensado a partir do aluno real nas sobre Matemática. as com deficiência na universidade,
– Ora, como essa estrutura deveria assumindo, então, o papel de atuar
mudar para lidar com a diferença? Eduardo Manzini: Vários podem dentro do Sistema de Ensino Su-
Primeiro, encarar suas dinâmicas ser os pontos abordados aqui. Um perior, fato inédito. Essa parece ser
de punição e seleção, de forma deles é que o documento declara uma reivindicação justa e antiga
transparente, sem corporativismos. quem será a população a ser aten- dos alunos universitários com de-
Entender, que a escola é indiscuti-
velmente uma instituição social, e
como tal deve satisfação de suas
práticas pedagógicas à comunida-
de escolar. Segundo, o aluno deve Em particular,
ser visto como um ser que aprende. o documento
Portanto, é necessário repensar a
uniformidade de conteúdos, ativi- pontua o acesso
dades e avaliação. Ao aluno deve das pessoas com
ser dada efetivamente a condição
de ser o centro do processo ensino-
deficiência na
EDUAR D O MANZINI

aprendizagem e não a condição de universidade,


coadjuvante desse processo. Ago- assumindo, então,
ra, em termos de macro-estrutura,
há sem sombra de dúvidas, neces- o papel de atuar
sidade de democratização dos pro- dentro do Sistema
cessos de decisões de forma que de Ensino Superior,
aquilo que denominamos de siste-
ma de ensino rompa com a idéia de fato inédito.
centralidade e controle, passando a
se pensar na educação.

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 18-32, jan./jun. 2008 25


ficiência, principalmente, no que pecial são os únicos excluídos de al das escolas comuns de instalar
se refere às condições de acessibi- suas turmas! O tempo e a defesa seus serviços de atendimento edu-
lidade e de autonomia, como, por de uma posição firme e clara sobre cacional especializado.
exemplo, equipamentos para alu- o que representa a educação espe-
nos com baixa visão, tais como am- cial, em uma dimensão inclusiva, Denise Fleith: No caso dos alunos
pliação de telas, impressora Braille, pode ser (e será!) uma força para com altas habilidades/superdota-
notebook com sintetizador de voz, a transformação da realidade atual ção, apesar dos avanços na área,
e mesmo em termos de estrutura de nossas escolas ao abraçarem a observamos um desconhecimento
física, como remoção de barreiras inclusão. Este é um trabalho que por parte da sociedade acerca de
arquitetônicas. Um terceiro ponto, exige perseverança e muito empe- quem é este indivíduo. Muitos mi-
que pode ser o mais polêmico, re- nho do ensino comum articulado tos sobre o superdotado ainda po-
fere-se a conferir ao atendimento ao especial e de todos os que com- voam a mente de professores, pais,
especial uma abordagem inclusi- põem as equipes de nossas esco- gestores e outros. Os educadores e
va, como sendo complementar e las. Do lado da educação especial os leigos em geral, acreditam que a
não substituta à Educação. também há muito a ser feito. Para superdotação é uma característica
a transformação de seus serviços, exclusivamente inata e, por isso, o
4. Muitas escolas já vivenciam de modo a atender ao caráter superdotado teria recursos para
as mudanças impulsionadas complementar que lhes é atribuí- desenvolver por si só suas habilida-
pela educação inclusiva, garan- do, a formação de professores es- des, sem necessidade de estimula-
tindo o acesso e o atendimento pecializados em atendimento edu- ção ou de um ambiente promotor
às necessidades educacionais cacional especializado e de outros de seu potencial. Acredita-se que
especiais dos alunos. Como se profissionais da Educação Especial o aluno com altas habilidades vai
configura a realidade atual dos vai exigir tempo, e é imprescindí- se sair bem independentemente
sistemas de ensino, e quais os vel que se dê prosseguimento aos do contexto educacional em que
desafios a serem superados? cursos que a SEESP está promo- esteja inserido. Assim, muitos pas-
vendo, no momento, para formar sam despercebidos por seus pro-
Maria Teresa Mantoan: Ainda há professores em serviço em todo o fessores. O aluno com altas habili-
muitas barreiras a serem ultrapas- Brasil, atendendo à demanda atu- dades/superdotação é ainda muito
sadas para que a educação inclu-
siva seja, de fato e de direito, uma
conquista da educação brasileira.
Embora esteja crescendo o nú-
mero de matrículas desses alunos O tempo e a defesa
MAR IA T ER E SA MAN TOAN

nas escolas comuns, estas preci- de uma posição


sam se mobilizar mais no sentido
de compatibilizar suas intenções firme e clara sobre
inclusivas com suas propostas de o que representa a
trabalho pedagógico e com o apri-
educação especial,
moramento do processo educati-
vo de todos os alunos. Mudanças em uma dimensão
substanciais na organização peda- inclusiva, pode ser
gógica do ensino comum consti-
tuem um grande desafio, que não (e será!) uma força
está sendo suficientemente perce- para a transformação
bido pelos sistemas de ensino. Ain- da realidade atual
da se atribui à educação especial a
condução do projeto inclusivo em de nossas escolas ao
nossas escolas e persiste a idéia abraçarem a inclusão.
de que os alunos com deficiência
e demais alunos da educação es-

26 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 18-32, jan./jun. 2008


negligenciado em sala de aula. ativos dos diferentes significados
Este aluno já está matriculado no culturais e sociais, valorizando os
ensino regular, mas suas necessi- aspectos multiculturais, como as Acredita-se que o aluno
dades nem sempre são atendidas, questões relacionadas à raça, ao com altas habilidades
o que pode provocar desinteresse gênero, às diferenças individuais,
e baixa motivação pelas atividades à justiça social, às minorias sociais. vai se sair bem
escolares, além de um desempe- Porém, a cultura pedagógica não independentemente do
nho aquém do seu potencial. Nes- mudou, continuou dominante nas
te sentido, foi muito importante a escolas o caráter tecnicista, centra-
contexto educacional
criação dos Núcleos de Atividades do na aprendizagem dos alunos e em que esteja inserido.
de Altas Habilidades/Superdotação na mudança de comportamento, Assim, muitos passam
(NAAHS) implantados pela SEESP/ de forma passiva e reprodutora, em
MEC, a partir de 2005, em todos técnicas mecânicas e repetitivas despercebidos por seus
os estados brasileiros e no Distrito controladas pelos diferentes instru- professores. O aluno
Federal, pois passou a dar maior vi- mentos avaliativos. Por conta disso, com altas habilidades/
sibilidade a esses alunos. Também falar de inclusão no campo escolar
relevante foi a publicação, em 2007, implica, no primeiro momento, ter superdotação é ainda
da coletânea de quatro volumes, clareza de que ela não se destina muito negligenciado em
intitulada “A Construção de Práti- exclusivamente a um determinado
cas Educacionais para Alunos com grupo de alunos. Ainda é necessá-
sala de aula.
Altas Habilidades/Superdotação”, rio pensar numa outra escola, sem
da Secretaria de Educação Especial, discriminação e que não reforce os

DENISE FLEITH
disponível no portal do Ministério diferentes conflitos históricos da
da Educação. sociedade, que não personifique
o aluno como marca ou estigma,
Antônio Osório: O principal de- diferenciando ou categorizando,
safio são as práticas pedagógicas como se fosse recuperável ou não,
exercidas até então. O exemplo normal ou “anormal”, mas como su-
disso é o currículo adequado à es- jeito de suas próprias construções
trutura do sistema e das escolas de históricas a partir de suas condi-
forma limitada. Os anos 80 sinali- ções pessoais.
zaram uma nova possibilidade de
organização curricular, numa pers- Soraia Napoleão Freitas: As mu-
pectiva progressista, dando ênfase danças impulsionadas pela edu-
às experiências culturais trazidas cação inclusiva estão aparecendo
pelo aluno para resolver os pro- cada vez mais no cenário educa-
blemas enfrentados no cotidiano, cional brasileiro. Vale destacar que
promovendo, segundo Freire, o a concepção do professor é que
pensamento crítico e privilegiando define a implementação das ações
a justiça social e à equidade. Neste pedagógicas, tendo em vista a in- jamento e a avaliação sob a ótica
momento, a valorização por parte clusão. Nesse sentido, a formação da valorização da diversidade e do
das escolas passou a ser os méto- do professor é um desafio cons- respeito à diferença.
dos de ensino, desprovidos, muitas tante. Não se trata do professor ter
vezes, de conteúdos, mas manten- conhecimento das especificidades Rita Vieira: Na minha opinião o
do os mesmos mecanismos de con- e características das deficiências ou principal desafio da escola brasileira
trole e as formas mais tradicionais dos indicadores de altas habilida- é assegurar a escola de tempo inte-
de avaliação de desempenho dos des/superdotação dos alunos, mas, gral. O tempo escolar que temos em
alunos. Nos anos 90, o currículo foi sobretudo, do professor ressignifi- nosso País, atualmente (meio tur-
defendido a partir dos discursos de car a base da sua prática educativa, no), é insuficiente para a formação
uma perspectiva crítica, reflexos ou seja, pensar o currículo, o plane- (acadêmica, intelectual, moral, ética

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 18-32, jan./jun. 2008 27


e estética) dos nossos jovens e das de aula, mas porque compreendeu o modelo de exclusão, enquanto
nossas crianças. A escola brasileira que não pode ignorar a diversidade afastamento pelo desconhecido,
já avançou muito no entendimento de seus alunos. a inclusão é o exame das possibi-
referente à acessibilidade das crian- lidades. É necessário incluir para
ças. No entanto, a concretização da Ronice Quadros: No caso dos sur- conhecer. Isso leva a conceber,
inclusão se dará quando os siste- dos, o maior desafio é promover então, que a educação especial é
mas de ensino garantirem a TODAS uma organização escolar em que fruto de uma rede de formações
as crianças, indistintamente, uma a língua de instrução seja a língua discursivas utilizadas em direções
educação de qualidade. Para que a de sinais e a perspectiva de organi- diferenciadas, descrevendo-as em
nossa política de inclusão se tradu- zação dos conhecimentos partam um outro feixe de relações que não
za em ações concretas no curso dos de uma construção visual, o que se detêm ao universo pedagógico
próximos anos se faz necessário que demanda um outro desafio: inves- e aos momentos atuais. A educa-
o Brasil, a exemplo de outros paises, tir em cursos de graduação para a ção especial, compreendida como
adote um conjunto de ações que formação de professores surdos, um fenômeno social, se insere nas
fortaleçam a escola pública e con- educadores bilíngües (libras e por- dinâmicas de poder e torna-se, as-
seqüentemente a ação pedagógi- tuguês) e de intérpretes de língua sim como a educação, uma ameaça
ca dos professores. A educação de de sinais. à ordem instituída e palco de con-
qualidade começa pela otimização flitos e contradições de interesses
do tempo escolar que precisa ser 5. De acordo com a nova Políti- das mais diferentes ordens e obje-
ampliado, passa pela organização ca, o atendimento educacional tivos, que não se limitam à própria
dos espaços escolares e da gestão especializado é promotor do deficiência ou altas habilidades,
da escola e da sala de aula. A demo- acesso ao currículo, tendo fun- mas à rede de relações construídas
cratização da educação garantiu o ção complementar e/ou suple- e interesses outros, dos quais de-
acesso das crianças à escola, mas te- mentar. Nesse contexto, qual o vem ser preservados ou rompidos,
mos um desafio enorme em nosso papel das escolas e instituições como é o caso do próprio finan-
País, que é promover as condições especializadas e qual o impacto ciamento da educação especial.
reais para o ensino, a aprendizagem desta proposta para a educação Isso nos remete então a entender,
e a educação dos nossos alunos. A no Brasil? na medida do possível, os discur-
escola cumpre seu papel de agên- sos pelos quais as pessoas com
cia de formação, quando é capaz Antônio Osório: É importante en- deficiência instigam perguntas e
de educar TODOS os alunos e não fatizar que em sua especificidade, as pessoas “ditas” normais, res-
apenas parte deles. Entristece-me a educação especial tem suas ori- pondem umas às outras, mas não
muito falar de inclusão porque isto gens em modelos não tradicionais informam ao deficiente o que pen-
significa que ainda temos que brigar de sistema escolar, fora de estrutu- sam, apenas o “usam” e definem
para que crianças não fiquem fora ra de escolarização, e sim do aten- o que fazer. Com isso, diferente-
da escola. Por outro lado, alegro-me dimento. Ela foi proposta dentro de mente dos discursos reguladores
que o direito de TODAS as crianças um modelo de saúde referendado da educação especial (assistência,
brasileiras de se beneficiarem da es- por discursos carregados por ele- atendimento) o centro da reflexão
cola esteja explicitado no texto da mentos de práticas pedagógicas, tem que ser a garantia da escolari-
Política Nacional de Educação Espe- mas, em seus exercícios, se expli- zação. O atendimento educacional
cial. No Brasil já sentimos a concreti- citam uma prática cultural em re- especializado, indiscutivelmente,
zação da política de inclusão, quan- lação à deficiência ou a altas habi- tem que ter a função complemen-
do as redes de ensino começam a se lidades. Esses espaços, aos poucos, tar ou suplementar, assim como
organizar para acolher e oferecer as foram se institucionalizando por as instituições especializadas ou
condições de aprendizagem a todo necessidades de segurança cole- as escolas especiais. Esse é o im-
seu alunado. A escola, que entendeu tiva, como foi no caso do asilo, da pacto da educação especial para o
o principio da inclusão, sabe que casa psiquiátrica, da penitenciária, Brasil sair da assistência e ter como
precisa rever práticas pedagógicas, da casa de correção, do estabele- paradigma a escolarização, e com
não porque agora tem a presença cimento de técnicas de educação isto flexibilidade curricular, proce-
de um aluno com deficiência na sala vigiada. Mesmo considerando que dimentos e recursos pedagógicos

28 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 18-32, jan./jun. 2008


de trabalho avançou na explicita-
ção do lugar da educação especial
O atendimento no contexto de um sistema edu-

ANTÔNIO OSÓRIO
educacional cacional inclusivo? Para discutir o
atendimento educacional especia-
especializado, lizado, gostaria de iniciar dizendo
indiscutivelmente, que devemos acolher com cautela
a afirmação “o atendimento educa-
tem que ter a função cional especializado é promotor do
complementar ou acesso ao currículo comum” contida
suplementar, assim na questão proposta aos debatedo-
res. Considero que seria temeroso
como as instituições se a Política Nacional de Educação
especializadas ou as Especial restringisse a grande tarefa
de “garantia de acesso ao currículo”
escolas especiais. ao atendimento educacional espe-
cializado. Essa garantia é algo mui-
to mais amplo e depende de nossa
visando à apredizagem dos edu- mos podem levar essas escolas a se capacidade de reinventar a escola,
candos, avaliações e terminalidade, transformarem em centros de aten- aprendendo com a tradição peda-
a partir das condições cognitivas de dimento educacional especializado gógica de muitos, como Paulo Frei-
cada educando. – AEE. Essa transformação, no en- re, que nos ensinam a valorizar per-
tanto, terá caráter temporário, pro- cursos singulares de aprendizagem,
Maria Teresa Mantoan: A grande visório, porque a tendência é alocar, a conceber a aprendizagem e o en-
novidade da Política Nacional de gradativamente, o AEE nas escolas sino como parte de um binômio in-
Educação Especial é marcar a esco- comuns, como é prescrito nos tex- dissociável, a reconhecer que aquilo
la comum como lugar preferencial tos legais referentes à educação em que habitualmente chamamos de
do atendimento educacional espe- geral e à educação especial. Quanto “currículo” precisa se alimentar de
cializado, segundo o que prescreve ao impacto na educação brasileira, vida para que haja maior possibili-
a Constituição/88. A partir do que espera-se que a Política seja o mar- dade de que cada aluno encontre
nos propõe a Política podemos in- co de que necessitamos para uma sentido naquilo que deve aprender.
ferir que o papel das instituições es- tão esperada e necessária reviravol- Assim, essa não pode ser concebida
pecializadas passará a ser mais forte ta educacional, que nos conduza à como uma tarefa nem da educação
e incisivo no sentido de garantir às inclusão plena em todos os níveis e especial apenas, e muito menos de
pessoas com deficiência e a outros modalidades de ensino e à melho- um serviço da educação especial.
públicos da educação especial o ria da qualidade dos processos de Reconheço que o atendimento
que lhes é de direito, ou seja, a in- ensino e de aprendizagem. educacional especializado pode ser
serção total e incondicional no meio um recurso extremamente valioso
escolar, social, laboral, no lazer, nos Claudio Baptista: Ao abordar o para os sujeitos que são identifica-
esportes, na vida cidadã. As insti- atendimento educacional especia- dos como alunos com deficiência,
tuições especializadas avançarão, lizado, gostaria de discutir alguns com transtornos globais do desen-
portanto, no cumprimento de seus pontos que emergem como cen- volvimento e com altas habilidades.
ideais maiores, ao assumirem esse trais em outras questões propos- Esse serviço, quando em sintonia
papel. As escolas especiais terão de tas neste debate. Como ocorre, ou com o projeto político pedagógico
buscar novos rumos, porque o ensi- deveria ocorrer, a articulação entre da escola, quando articulado às de-
no especial não é mais substitutivo o ensino regular e a educação es- mais práticas docentes, quando não
do ensino regular e todos os alunos pecial? Como se configura a rea- restrito à dimensão clínica do aten-
devem estar juntos, aprendendo, lidade atual com relação à educa- dimento, quando não entendido
segundo a capacidade de cada ção inclusiva e quais os desafios a apenas como um espaço físico di-
um, nas escolas comuns. Esses ru- serem superados? Como o grupo ferenciado, poderá contribuir para

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 18-32, jan./jun. 2008 29


deficiência nas instituições. Um
exemplo disso se refere ao ensino
O grande mérito desta do aluno cego e com baixa visão.
CL AUD IA DU T R A

Política, agora consolidada No estado de São Paulo, no passa-


do, existiam várias instituições e la-
no Brasil, é afirmar res-residência para o ensino desses
o direito de todos à alunos. Com o decorrer do tempo e
educação, invertendo o com as legislações sobre os serviços
foco da “deficiência” para de educação especial, o aluno cego
ou com baixa visão passou a ser
a eliminação das barreiras aluno da classe comum, receben-
físicas, pedagógicas, de do atendimento especializado, em
informação e comunicação, outro horário, nas salas de recursos,
entre outras que se assim denominadas pela legislação.
Essa ainda não é uma realidade bra-
interpõem no processo sileira, sabe-se que, em alguns esta-
educacional e delimitam dos da Federação, o aluno cego ou
fronteiras entre alunos com baixa visão recebe atendimen-
denominados “normais” e to especializado somente em insti-
tuições especializadas para cegos,
“especiais”. não chegando a freqüentar classes
comuns. O redimensionamento do
papel das instituições não ocorrerá
que o aluno continue na escola e O impacto desta proposição é que apenas com o documento da nova
avance no seu aprendizado. A ofer- o atendimento assume a função de política. Sabemos que as mudanças
ta de atendimento complementar complementar ou suplementar à serão decorrentes de fatores atre-
ou suplementar, por profissional escolarização e não mais substituin- lados ao investimento (ou não) fi-
com formação em educação espe- do esta. Sendo assim, o alunado da nanceiro a essas instituições, pois a
cial, deve fazer parte de um conti- educação especial terá garantido Federação, os estados e municípios
nuum de propostas que articulam a seu direito à escolarização e à convi- é que financiam essas instituições,
sala de aula do ensino regular e ou- vência e aprendizagem em ambien- uma vez que o Estado, no passado,
tros espaços educativos, sem preju- tes heterogêneos e em contraturno, não assumiu, totalmente, a educa-
ízo do acesso do aluno à sua classe quando necessário, podem lançar ção de alunos com deficiência, mas
de referência. Esse é um dos nossos mão dos recursos e serviços espe- delegou às instituições. Na realida-
grandes desafios: reconhecer que cializados que, dinamizados por de, isto parece ser contraditório, po-
o atual momento histórico exige professor especializado, potencia- rém, faz parte das contradições do
que discutamos as novas diretrizes lizam as condições do aluno acom- sistema. Por sua vez, o Estado, para
não apenas para a educação espe- panhar o currículo escolar. assumir a sua parte, deverá fazer in-
cial, mas para a educação como um vestimento nos sistemas educacio-
todo. Eduardo Manzini: Algumas insti- nais para torná-los inclusivos. Caso
tuições especializadas já estão re- isto não ocorra, o impacto será pe-
Soraia Napoleão Freitas: As insti- dimensionando os seus papéis, por queno.
tuições especializadas de educação exemplo, inserindo os seus profissio-
especial passam a apoiar o proces- nais para auxiliar diretamente pro- Claudia Dutra: A partir da defe-
so de inclusão escolar dos alunos fessores do ensino comum que têm sa de uma política de Estado para
com deficiência, transtornos glo- alunos com necessidades educacio- a inclusão, que ultrapassou o dis-
bais do desenvolvimento e altas nais especiais matriculados em suas curso da tolerância levando os
habilidades/superdotação, através salas de aula. Porém, também existe governos e as instituições sociais
da organização e oferta do atendi- grande diversidade de concepções a adotarem como princípio o di-
mento educacional especializado. sobre o atendimento do aluno com reito à igualdade e à diferença na

30 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 18-32, jan./jun. 2008


construção das políticas sociais, os tão e o desenvolvimento do projeto cício participativo de contribuição
movimentos pela emancipação e da escola que avalia e reestrutura o de vários segmentos sociais, numa
cidadania das pessoas com defici- processo educacional no contex- dinâmica democrática de respeitar
ência foram grandes protagonistas to do ensino regular e especial, e e preservar as expectativas e as ex-
dos avanços nas políticas de educa- no financiamento do atendimento periências dos educadores da edu-
ção especial nas últimas décadas. educacional especializado que se cação especial, das entidades repre-
O grande mérito desta Política, amplia para atender o conjunto do sentativas e comprometidas com
agora consolidada no Brasil, é afir- sistema público de ensino regular. a transformação do paradigma da
mar o direito de todos à educação, assistência para a inclusão escolar.
invertendo o foco da “deficiência” Ronice Quadros: No caso dos sur- Com isso, a educação especial de-
para a eliminação das barreiras fí- dos, atendida a Declaração de Sala- marca seu papel pedagógico num
sicas, pedagógicas, de informação manca, em seu artigo 19, e o Decre- movimento pela perspectiva da
e comunicação, entre outras que to nº 5626/2005, pressupostos da inclusão escolar da pessoa com de-
se interpõem no processo educa- formulação da atual política, será ficiência ou altas habilidades. Esse
cional e delimitam fronteiras entre garantida a educação bilíngüe. O movimento, enquanto política, fun-
alunos denominados “normais” e impacto de um trabalho lingüístico damenta-se em pressupostos que
“especiais”. Com relação às escolas eficiente na Libras e no Português, reconhecem e valorizam a diversi-
especiais, no contexto dos avanços como segunda língua, terá reper- dade como característica inerente
que viemos alcançando em nosso cussão para os milhões de surdos à constituição de qualquer socieda-
País na política desta área, fica claro que estão fora da escola se vier as- de, a partir de princípios éticos, no
que as instituições especializadas, sociado a uma revisão gradativa do cenário dos Direitos Humanos, sina-
que têm acúmulo e experiência no que se entende por educação de lizando a necessidade de se garantir
campo pedagógico e reconhecem surdos e uma dicotomia entre com- o acesso e a participação de todos,
o valor da inclusão para o desen- plementar e regular. Não se pode independente das suas peculiari-
volvimento dos alunos, serão gran- entender que competências, por dades. Coloca em pauta aspectos
des parceiras das escolas de ensino exemplo, necessárias para o acesso relacionados à cidadania que, no
regular para orientar no processo ao conhecimento de uma forma vi- primeiro momento, deve ser com-
de formação dos alunos e professo- sual fiquem restritas a espaços su- preendido pelo fato de que não há
res. A nova Política tem ênfase no plementares, é preciso que tomem liberdade sem igualdade, nem tam-
fortalecimento da inclusão, onde forma na dinâmica regular de cons- pouco igualdade sem liberdade. Em
a escola especial oferece serviços, trução dos conteúdos. Isso implica função disso, todas as discussões
recursos e profissionais que a esco- o sistema educacional se rever in- foram marcadas pela expectativa
la regular não dispõe, atua direta- teiramente a partir das diferenças. de um movimento pela inclusão e
mente no atendimento educacio- suas prerrogativas foram marcadas
nal especializado quando couber, 6. Considerando o processo de por uma proteção geral e abstrata,
além da articulação efetiva com os formulação da Política, que bus- porém, voltado para contextos so-
professores nas salas de recursos, cou consolidar os direitos com ciais imaginariamente inclusivos,
no desenvolvimento de estudos, relação a uma educação de qua- mas, acima de tudo, democráticos.
no planejamento, avaliação e pro- lidade para todos, como o grupo Indiscutivelmente, a educação es-
dução de materiais específicos, en- de trabalho avançou na explici- pecial no contexto de um sistema
tre outros essenciais para o sucesso tação do lugar da educação es- educacional inclusivo, não pode ser
de uma proposta pedagógica. O pecial no contexto de um siste- entendida como uma especificida-
impacto da Política de Educação ma educacional inclusivo? de, mas, sim, como uma parte da
Especial na Perspectiva da Educa- totalidade da educação e da pró-
ção Inclusiva será para toda a esco- Antônio Osório: A formulação da pria sociedade brasileira. Torna-se
la: para os alunos que passam a ser Política não só garantiu a consoli- vital gerar mudanças no processo
atendidos nas suas especificidades, dação dos direitos constitucionais exercitado até então e, ao mesmo
para os professores que aprendem com relação a uma educação de tempo, garantir ações educativas
a trabalhar em equipe e fortalecem qualidade para todos. Possibilitou, que possibilitem o rompimento de
sua prática pedagógica, para a ges- durante mais de um ano, um exer- barreiras e de rótulos construídos

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 18-32, jan./jun. 2008 31


durante vários séculos pela própria atendimento educacional especiali- ensino educacional especializado,
sociedade sobre as pessoas com zado, disponibiliza os serviços e re- disponibilizar os serviços e recur-
deficiência, e que resultaram em cursos próprios desse atendimento sos próprios desse atendimento,
dificuldades e limitações para via- e orienta os alunos e seus professo- orientar alunos e professores. Isso
bilizar instrumentos coletivos de su- res quanto a sua utilização nas tur- “deve” ou “tem que” provocar uma
peração de barreiras impeditivas ao mas comuns do ensino regular”. Em mudança de mentalidade no âmbi-
exercício da cidadania. É necessário outras palavras, o ensino especial to educacional. Mas não vai ser fácil
romper preconceitos culturais. não deve ser considerado isolada- em um país em que o ensino espe-
mente do ensino regular ou visto cial foi sempre muito segregado.
Maria Teresa Mantoan: Nesse gru- de uma forma estanque, que leve à
po de trabalho buscamos sempre perpetuação de rótulos e estereóti- Rita Vieira: O trabalho desse gru-
esclarecer o lugar da educação es- pos. Ao contrário, este movimento po, de orientação democrática,
pecial, na atualidade, pontuando-o deve ser dinâmico, intercambiável e abriu espaço para a manifestação
sem meias palavras, sem fugir do renovador. Ou seja, como o ensino dos diferentes segmentos da socie-
que pretendíamos firmar como po- regular pode contribuir para o ensi- dade que participaram e contribuí-
sição coletiva diante do que essa no especial e vice-versa. Isto requer ram para o delineamento do texto
modalidade de ensino representa uma mudança de mentalidade e da Política. Diferentes concepções
na visão de uma escola para todos. uma nova maneira de se conceber a respeito de inclusão e de educa-
Discutimos, aparamos arestas de não só a Educação Especial, mas ção especial entraram em confron-
nossas idéias e na minha percepção também a Educação em geral. Esta to e foram se afirmando até chegar
conseguimos “dar o nosso recado”. é a proposta da nova Política. na construção do texto que ora se
O texto corresponde ao avanço que apresenta. No meu entendimento
tivemos no nosso entendimento Soraia Napoleão Freitas: Com a foi um processo com ampla par-
dos progressos da educação espe- implementação da Política Nacional ticipação social cuja vantagem se
cial. Somos todos profissionais com de Educação Especial na Perspectiva expressa por uma Política que re-
um passado nessa modalidade de da Educação Inclusiva, a educação presenta o conjunto dos diferentes
ensino, mas com um olhar para o especial passa a integrar o sistema segmentos a quem ela se aplica.
seu futuro. Essa situação peculiar de ensino, assumindo sua especifi-
levou-nos a precisar exaustivamen- cidade de forma articulada à educa- Eduardo Manzini: O grupo de tra-
te o texto da Política, para refletir ção comum. Essa proposição e este balho que fez parte da formulação
com exatidão o lugar da educação avanço de entendimento foi possível da Política, em minha opinião, refle-
especial nos sistemas educacionais devido à organização de um amplo tiu o que acontece na comunidade
inclusivos, como esperamos que se- processo de discussão, que buscou escolar. Muitas vezes, as opiniões
jam os nossos. O convívio e o com- contemplar os diferentes órgãos re- eram (e são) divergentes sobre pon-
partilhamento de idéias com outros presentativos da educação especial tos específicos. O avanço, do grupo
colegas do grupo revigoraram a mi- do País. Esse exercício, pautado nos em si, foi na direção de caminhar
nha convicção de que precisamos princípios da gestão democrática, para um objetivo comum: indicar
pensar e sonhar juntos para che- permitiu avançar a discussão, tendo diretrizes para orientar os sistemas
garmos mais depressa ao que tan- em vista a superação do paradigma de ensino num contexto inclusivo.
to almejamos. Foi uma experiência integracionista e do entendimento O grupo assumiu a proposta de ela-
educacional que me fez, mais uma assistencialista que permeou histo- borar o documento e, uma vez apro-
vez, reconhecer, valorizar e proble- ricamente as práticas em educação vados os pontos principais, as dife-
matizar as diferenças! especial. renças deveriam ser superadas pelo
coletivo. O avanço do documento
Denise Fleith: Podemos encontrar Maria Amélia: A nova política dei- foi delimitar, de forma mais clara,
a resposta na nova Política Nacional xa claro que a Educação Especial a população a ser atendida pela
de Educação Especial: “A educação é uma modalidade que perpassa educação especial e no que deverá
especial é uma modalidade de en- todos os níveis, etapas e modalida- consistir o atendimento educacio-
sino que perpassa todos os níveis, des de ensino, que complementa nal especializado. Esses dois pontos
etapas e modalidades, realiza o e suplementa e que deve prover o deverão delinear as ações futuras.

32 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 18-32, jan./jun. 2008


ENFOQUE 33

Questões preliminares sobre o desenvolvimento


de políticas de Educação Inclusiva David Rodrigues*
Universidade Técnica de Lisboa
Fórum de Estudos de Educação Inclusiva
drodrigues@fmh.utl.pt
Resumo
Um grande número de países inscreveram nos seus nos das reformas que a EI implicam. As questões que
objetivos a nível da educação a promoção da Inclusão. nos parecem mais importantes são: qual é a popula-
Organismos internacionais nomeadamente as Nações ção-alvo da EI, que modelos de apoio existem, quais
Unidas e a UNESCO, têm produzido declarações que são as alterações que uma política de EI implica na es-
indicam que a Educação Inclsuiva (EI) é não só uma cola regular, que recursos são essenciais e finalmente,
possibilidade, mas um direito dos alunos. Entretanto, quais as relações das escolas regulares com as escolas
coexistem múltiplos modelos de política educativa especiais.
que, tendo opções muito distintas, se reclamam da EI.
Neste artigo procuramos, a partir de uma clarificação Palavras-chave: Política educativa, educação inclusi-
do conceito de EI, discutir algumas das opções de po- va, necessidades educativas especiais, educação es-
lítica educativa que podem aproximar-se mais ou me- pecial.

* Doutor em Ciências da Motricidade Humana na área de Educação Especial e Reabilitação (UTL/FMH), professor da Universidade Técnica de Lisboa, e
coordendor do Fórum de Estudos de Educação Inclusiva (www.fmh.url.pt/feei)

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 33-40, jan./jun. 2008 33


Abstract

A great number of countries have subscribed the need a real IE. The questions that seem more important
of an educational policy aiming Inclusive Education. and are discussed in this paper, are: what is the tar-
International organizations, namely United Nations get-population of IE, which are the available models
and UNESCO, have been producing documents where of support, which are the changes that regular schools
Inclusive Education (IE) is regarded not anymore as an must undergo, the need of resources and the relation-
option but as a right of each student. Meanwhile, dif- ship between regular schools and special schools.
ferent models of educational policies co-exist, all of
them aiming IE. This paper clarifies, as a starting point, Key words: educational policy, inclusive education,
the concept of IE and then discuss which options of special educational needs, special
educational policy can be more adequate to promote education.

Era Inverno. Numa escola do Nor-


te da Europa, cedo, numa manhã ain-
da turva pela luz coada pelas grossas
nuvens e o chão coberto por uma
O conceito de Educação Inclu-
siva é referido e aceito por
quase todos os países do
mundo e não só pelos subscritores
uma reforma educativa. É uma
reforma que pretende inovar prá-
ticas e modificar valores inerentes
à escola pública tradicional. Esta
espessa camada de neve, os alunos da declaração da UNESCO feita em modificação vai no sentido de de-
começam a chegar à escola. O aces- Salamanca, em 1994. Recentemen- senvolver valores educacionais e
so fazia-se através de 15 degraus de te, a Convenção sobre os Direitos metodologias de ensino que per-
uma escadaria. Mas não era só pelas das Pessoas com Deficiência, es- mitam a alunos com diferentes ca-
escadas: também por uma rampa. tabelecida no âmbito das Nações pacidades aprender em conjunto,
Esta rampa era um orgulho desta es- Unidas, proclamava que “[...] os isto é, sem serem separados por
cola que, depois de a ter construído, Estados reconhecerão o direito de sexo, nível sócio-econômico, de-
intitulou-se “escola acessível”, e pode, todas as pessoas com deficiência à ficiência, etnia etc. Poderíamos
enfim, receber alunos em cadeira de educação. Com vista à efetivação definir EI como uma “[...] reforma
rodas. desse direito sem discriminação e educacional que promove a edu-
Os alunos que iam chegando, com oportunidades iguais, os Es- cação conjunta de todos os alunos,
começaram afanosamente a limpar tados membros assegurarão um independentemente das suas ca-
a neve que cobria as escadas, para sistema de educação inclusiva em racterísticas individuais ou estatuto
poderem chegar à porta. Não era ta- todos os níveis, e de aprendizagem sócio-econômico, removendo bar-
refa fácil porque a neve era muita e ao longo da vida [...]”, (art. 24ª nº1) reiras à aprendizagem e valorizan-
as pequenas pás e mãos enluvadas (NAÇÕES UNIDAS, 2006). do as suas diferenças para promo-
demoravam a completar o trabalho, O Brasil e Portugal optaram por ver uma melhor aprendizagem de
degrau a degrau. políticas educacionais inclusivas: todos.” (RODRIGUES, 2007)
Entretanto, chegou um dos alu- no Brasil (ref: documento “Política Podemos, assim, considerar que
nos em cadeira de rodas. Veio para Nacional de Educação Especial na a EI abrange todos os alunos que
junto dos colegas e pôs-se a observar, Perspectiva da Educação Inclusiva” frequentam a escola, de forma a
durante algum tempo, o árduo tra- – Janeiro de 2008) e em Portugal, permitir que a escola seja “para
balho de limpeza que eles estavam com a recente lei 3/2008 de 7 de cada um” (no sentido de respon-
a fazer. Depois, chamou em bem Janeiro, que consagra no seu pre- der capazmente às necessidades
alto: “Amigos! Eh! Eh!!! Prestem aten- âmbulo que a “educação inclusiva de cada aluno) mas também “para
ção!”. Todos pararam e olharam para visa a equidade educativa, sendo todos” (no sentido de não rejeitar o
ele: “Desculpem – disse ele, excitado que por esta se entende a garantia acolhimento a qualquer aluno).
– mas tenho uma ideia: e se nós lim- de igualdade, quer no acesso, quer Esta reforma educacional tem
pássemos a neve da rampa? Era mais nos resultados”. contornos de uma grande radi-
fácil e podíamos entrar todos na es- Antes de mais, a Educação Inclu- calidade. Mantoan afirma que “O
cola!” siva (EI) deve ser entendida como direito à diferença nas escolas des-

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constrói, portanto, o sistema atual xos aspectos implicados no desen- permitam uma resposta educacio-
de significação escolar excluden- volvimento de políticas inclusivas. nal competente a uma necessidade
te, normativo, elitista com as suas Vamos organizar o texto à volta de específica. Entretanto, a verdade
medidas e mecanismos de produ- cinco perguntas que nos parecem é que, por trás deste pensamento
ção da identidade e da diferença” resumir os problemas mais pun- sobre a colocação de recursos, vêm
(2006, p. 192). A escola tradicional gentes da delineação de políticas outras ideias que não são assim tão
desenvolveu-se de forma a se tor- inclusivas. benignas. Por exemplo, devemos
nar selectiva e a encarar a diferen- saber que existe uma diferença
ça como uma anormalidade a ser 1. A quem se destina a fundamental entre um aluno ter
afastada; acalentou, ainda, o mito uma condição de deficiência ou
da homogeneidade dos alunos, Educação Inclusiva? ter necessidades educacionais es-
organizando-se para responder ao peciais. Pessoas com uma mesma
“aluno médio” e rejeitando (pela Em alguns países, a EI é concebi-
reprovação ou pelo abandono) os da como um sistema que se destina
alunos que, por razões variadas, a apoiar os alunos com deficiência
afastavam-se deste padrão médio. no sistema geral de ensino. Interna-
Esta procura de homogeneidade cionalmente, no entanto, é cada vez É claro que devemos
é perseguida também nas “escolas mais encarada de uma forma mais dedicar uma atenção
especiais”, certamente com a con- lata, isto é, como uma reforma que
vicção de que alunos com dificulda- especial àqueles que
acolhe e apoia a diversidade de to-
des semelhantes (!) têm vantagem dos os alunos (AINSCOW & SANDILL, são mais vulneráveis à
em ser educados em conjunto (!) 2007, UNESCO, 2001). Esta perspec- exclusão. Entretanto, esta
dado que se pressupõe, à partida, tiva é muito claramente apresenta-
que as formas de os ensinar serão da na declaração da UNESCO, feita
atenção tem que ser dada
estandardizadas. em Salamanca, em 1994, ao afirmar dentro de uma perspectiva
A ambição da reforma da EI é, que as escolas regulares com uma
pois, mudar os conceitos e as prá-
inclusiva: proporcionar
orientação inclusiva “constituem os
ticas de ensino e de aprendizagem meios mais efetivos de combater apoio sem segregar, não
de modo a promover o sucesso de atitudes discriminatórias, de cons- criando “guetos” nem
todos os alunos, pelo menos ao truir uma sociedade inclusiva e de
nível da escolaridade básica. Esta conseguir uma educação para to-
“classes especiais”.
mudança pressupõe que sejam fei- dos”.
tas alterações nas práticas, nas polí- Devemos convir que, se é con-
ticas e na cultura de escola (BOOTH sensual que uma Educação Inclusi-
& AINSCOW, 2001). Sabemos que a va deve ter por alvo todos os alunos
ausência de escolaridade, o insuces- e, em particular, os que se encon-
so e o abandono escolar são, numa tram mais vulneráveis à exclusão,
sociedade moderna, passaportes uma reforma com tal latitude se tor-
seguros para a exclusão social. na difícil de realizar. Por isso, alguns
Sendo uma reforma educacio- países têm procurado delimitar as
nal tão abrangente, a EI apresenta populações que deveriam receber
evidentes dificuldades à sua con- uma atenção educacional especí-
cretização. Como podem os siste- fica. Esta delimitação conduziu ao
mas educacionais efetuar mudan- estabelecimento de “categorias de
ças legislativas e organizacionais deficiência”, as quais deveriam po-
que lhes permitam tornar possível der usufruir de um apoio mais es-
a Inclusão na Educação? É este as- pecializado. Entende-se que a “ca-
sunto que vamos abordar neste ar- tegoria de deficiência” pode ser útil
tigo, com a preocupação de, ainda no sentido de prover a escola dos
que brevemente, cobrir os comple- meios humanos e materiais que

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 33-40, jan./jun. 2008 35


condição de deficiência podem ter sem segregar, não criando “gue- com NEE, devem ser consideradas e
necessidades educativas completa- tos” nem “classes especiais”. É nes- contabilizadas no campo geral das
mente diferentes, podem necessi- te sentido que, muitas vezes, digo políticas de avaliação; todos os alu-
tar de apoios, estratégias, objetivos que conceber uma classe como nos devem participar no processo
e serviços distintos (mesmo tendo tendo 26 alunos é muito diferente de avaliação inclusiva: tanto os que
a mesma condição). Desta forma, de conceber a mesma classe como têm NEE como os seus colegas de
organizar a escolarização com base tendo 24 alunos mais 2. Esta última classe”.
em “categorias de deficiência” pa- concepção pressuporia dividir a
rece não ser o mais correto. Preci- classe em duas categorias de alu- 2. Que modelos de apoio
samos de avaliar, face ao currículo, nos: “normais” (que deveriam ser
quais são as necessidades educa- sempre “normais”) e “deficientes” são mais freqüentes?
cionais que precisam de uma res- (que deveriam ter sempre dificul-
posta apropriada, em vez de criar dades). Ora, qualquer professor Já se sabe: não basta colocar os
respostas estandardizadas com alunos na escola regular; é preciso
base no tipo de deficiência que os que a escola, através de recursos e
alunos evidenciam. Assim, avalia- da sua organização, possa respon-
ções como as que são feitas com der às necessidades educacionais
base na classificação das condições que cada aluno apresenta. Quando
de deficiência são insuficientes os primeiros alunos com deficiência
para permitir o desenvolvimento chegaram às escolas regulares, o
de programas que visam responder apoio era concebido de forma indi-
às NEE. Tomando como exemplo a vidual. Professores (normalmente)
Classificação Internacional de Fun- com formação especializada retira-
cionalidade, Incapacidade e Saúde vam estes alunos da sala de aula e
(CIF), da Organização Mundial de os atendiam em salas de apoio. Era
Saúde, esta pode ser uma excelente como se a responsabilidade pela
ferramenta para identificar a popu- educação destes alunos continuas-
lação com deficiência, mas revela- se a não pertencer à escola nem ao
se mais que insuficiente para uma professor de ensino regular, sendo
identificação aprofundada e preci- esta assumida pelo professor de
sa das necessidades educacionais Educação Especial. Posteriormente,
que devem ser consideradas, no evoluiu-se para um modelo já não
âmbito de um programa educativo. centrado no aluno, mas no profes-
Precisamos, pois, de uma avaliação sor: os professores especializados
educacional que nos permita tomar trabalhavam preferencialmente
decisões sobre que respostas dar às com os seus colegas do ensino re-
necessidades dos alunos. gular, de forma a os apoiar na sele-
Diante disso, a resposta à per- experiente e competente sabe que ção de estratégias e objetivos ade-
gunta “A quem se destina a EI?” isto não acontece. A classe deve ser quados à diversidade de situações
parece ser: a Educação Inclusiva entendida como um grupo interde- que atendiam.
destina-se a todos os alunos da pendente e dinâmico, em todos os Atualmente, é cada vez mais
escola. Precisamos da colaboração níveis do processo educativo. Por comum pensar-se que o problema
de todos para que a aprendizagem exemplo, ao nível da avaliação dos de atender um aluno com NEE não
de todos seja a mais profícua pos- alunos em classes que incluam alu- deve ser focalizado nem só no alu-
sível. É claro que devemos dedicar nos com NEE, a European Agency no nem só no(s) seu(s) professor(es):
uma atenção especial àqueles que for Development in Special Needs é um problema de toda a escola.
são mais vulneráveis à exclusão. Education (EADSNE, 2007) é muito E porquê de toda a escola? Porque
Entretanto, esta atenção tem que clara quando recomenda: “[...] as esta, com o seu grupo de profes-
ser dada dentro de uma perspec- necessidades dos alunos vulnerá- sores, organização e recursos terá
tiva inclusiva: proporcionar apoio veis à exclusão, incluindo aqueles mais facilidade em encontrar, no

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seu conjunto, as soluções respon- escolas. Alguns países têm experi- paços públicos. Quase todos os pa-
dam às necessidades do aluno. mentado o modelo de “escolas de íses têm legislação e conhecimen-
Quando se concebe um apoio no referência” – tratam-se de escolas to sobre a forma como devem ser
contexto de toda a escola, o profes- que se encontram particularmen- construídos e adaptados os locais
sor de Educação Especial torna-se te apetrechadas, com recursos hu- e equipamentos públicos (nomea-
um recurso da escola no seu con- manos e materiais específicos para damente escolas) de forma a serem
junto, para promover a aprendiza- apoiar/atender alunos com um acessíveis. A acessibilidade física,
gem de alunos que, ao longo da determinados tipos de dificuldade a sinalética, a circulação e a segu-
sua vida escolar, podem evidenciar (alunos surdos, por exemplo). A rança podem, hoje, ser facilmente
dificuldades. Esta perspectiva glo- princípio, as escolas de referência uma realidade se... sim, se... as suas
bal de escola permite encontrar levariam a uma melhor racionaliza- regras forem cumpridas.
diversas formas de participação de ção de recursos e beneficiariam os De uma forma muito simples,
toda a comunidade escolar (alunos, alunos com esse tipo de dificuldade sugeriríamos que, cada vez que
pais, professores, etc.) nas soluções que frequentassem a escola. Entre- uma construção não estivesse em
que visam promover o sucesso da tanto, deve-se olhar com prudên- conformidade com as normas de
aprendizagem. Em alguns países cia para este modelo. Ao lado das acessibilidade, a responsabilidade
existem mesmo quadros de pro- aparentes vantagens, podem-se e os custos de correção desta irre-
fessores de Educação Especial (ou encontrar sérios inconvenientes: 1) gularidade fossem imputados, por
de Necessidades Educacionais Es- o fato de a criança ter que ser des- lei, ao construtor.
peciais) vinculados a cada escola. locada da sua escola de residência A organização da escola (horá-
A estes profissionais cabe, sobretu- tem custos economicos que deve- rios, instalações, serviços de apoio,
do, encontrar, recrutar e organizar riam ser comparados com os custos refeições, biblioteca etc.) pode cons-
o apoio que o aluno necessita, seja de colocar, na escola de origem, os tituir empecilhos e barreiras para
na escola ou na comunidade. Este recursos que lhe são necessários, 2) o aluno com dificuldades. Não se
apoio, se seguirmos a concepção o afastamento do aluno da sua es- deve confundir estas barreiras com
mais lata de Educação Inclusiva, cola de residência tem, certamente, o imprescindível empenhamento
deveria ser prestado a todos os alu- custos sociais elevados, dado que o e trabalho que os alunos precisam
nos que têm dificuldades. Daí que, mesmo está a ser afastado da sua de dedicar à aprendizagem. Remo-
em algumas regiões e países, estes rede social de apoio (família, vizi- ver as barreiras à aprendizagem
professores tenham designações nhos, comunidade etc.) que lhe vai não significa conceber a aprendi-
do tipo “Professor de Métodos e ser essencial ao longo da vida. zagem como “fácil” ou “divertida”;
Técnicas” ou “Professor de Apoio significa que devem ser removidos
ao Desenvolvimento da Escola”. do processo de aprendizagem, os
Noutros países, como vimos, este 3. Que alterações na constrangimentos que, a ela não se
apoio continua a ser organizado organização escolar encontrando diretamente ligados,
exclusivamente para os alunos que a podem afetar. Por exemplo: ter
têm uma condição de deficiência.
implica a EI? que completar uma prova de ava-
Localizar, em cada escola, um liação, dentro de um determinado
profissional com a responsabilida- A preocupação central deve ser tempo, em aprendizagens que não
de de promover o sucesso de alu- a de remover as barreiras que, de impliquem rapidez, pode criar uma
nos com dificuldades parece ser uma forma muitas vezes escondida, barreira que não tem a ver com o
um modelo comprovado de pro- existem na escola e que se tornam nível da aprendizagem em si. Pre-
moção da Inclusão. Conforme o nú- intransponíveis, quando se trata cisamos de pensar que a organiza-
mero de alunos da escola, o núme- de acolher um aluno com dificul- ção da escola deve servir o melhor
ro destes profissionais pode variar. dades. São, por exemplo, barreiras interesse do sucesso dos alunos e,
Em regiões com baixa densidade oriundas das condições de acessibi- assim, a escola deve organizar-se
e grande dispersão populacional, lidade, da organização escolar e do para que todos os alunos possam
continua-se ainda a desenvolver currículo. ter possibilidades de sucesso. É co-
o modelo de “professor itineran- Não existe nada de muito novo nhecida a história de um aluno com
te”, que pode apoiar duas ou mais em termos de acessibilidade a es- paralisia cerebral que, depois de ser

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 33-40, jan./jun. 2008 37


integrado numa escola regular, foi mobilizados. Outros recursos, ain- cativos, de pensar que a EI é uma
informado que não podia lá con- da, não fazem parte do repertório forma de baratear a educação. As
tinuar porque cada disciplina era habitual das escolas e precisam de escolas, para poderem responder
lecionada numa sala de aula dife- ser disponibilizados: qualificação competentemente à diversidade
rente e ele, devido aos seus pro- de profissionais, recursos materiais dos alunos, necessitam de dispor
blemas de locomoção, levava mui- e recursos humanos. de recursos que, em última instân-
to tempo a deslocar-se e chegava A qualificação profissional é cia, as possam tornar concorren-
sempre atrasado às aulas. “Porque fundamental para o desenvolvi- ciais com o nível de atendimento
não fazem as aulas todas na mes- mento da EI. É necessário desen- das escolas especiais. Em muitos
ma sala?” – perguntou a mãe. volver programas de formação em países (e.g. Estados Unidos) tem-
Finalmente, o currículo. Pre- serviço que qualifiquem os profes- se desenvolvido o modelo que
cisamos que o currículo escolar sores e outros profissionais para prevê o ensino, na mesma, classe
seja visto não como um conjunto trabalharem em EI. Muitos países por dois professores, num siste-
fechado mas como um documen- têm incentivado a criação de par- ma que poderíamos chamar de
to aberto e flexível. O conjunto cerias entre escolas ou agrupa- “co-ensino”. Estes dois professores
dos professores deve trabalhar no mentos de escolas e instituições de repartem as tarefas de ensinar to-
sentido de encontrar objetivos e ensino superior que possam fazer dos os alunos, e não de se organi-
estratégias que melhor sirvam a formação continuada e supervisão zarem em termos de “eu fico com
cada grupo de alunos. Sem altera- das políticas e práticas da escola. os ‘normais’ e você com os ‘NEE’”.
ções substanciais no currículo da Esta supervisão externa é feita na Para atender a esta diversidade de
escola (sobretudo nos objetivos, base do que o Reinio Unido desig- competências e necessidades é
nas atividades, nas estratégias e na por “critical friends” (“amigos necessário que a escola possa con-
nas oportunidades de aprendiza- críticos”), na convicção que ser crí- tar com outros técnicos, tais como
gem) será quase impossível a in- tico não significa que não se tenha fonoaudiólogos, fisioterapeutas,
clusão de um aluno com NEE. um sincero interesse e empenha- psicomotricistas, psicólogos, en-
mento para que as práticas melho- tre outros. A integração destes
4. Que recursos são rem (RODRIGUES, 2007). técnicos deve ser cuidadosamen-
Os recursos materiais são fre- te planejada, de modo a que o
necessários às escolas? quentemente importantes para seu trabalho possa constituir uma
poder responder com qualidade à mais-valia para o processo educa-
Quando pensamos em recur- diversidade dos alunos. Um exem- tivo dos diferentes alunos. Assim,
sos, talvez o primeiro passo seja plo destes recursos materiais são as avaliações e intervenções de-
que a escola identifique os re- os meios informáticos que per- vem ser do conhecimento da (e
cursos que já tem e pode dispor. mitem, em alguns casos (paralisia articuladas com a) escola. O traba-
Alguns professores são mais pro- cerebral e cegueira, por exemplo) lho de técnicos que permanecem
ficientes quando ensinam Portu- diminuir sensivelmente os proble- na escola como se estivessem num
guês, outros Matemática, outros mas que a deficiência coloca à es- consultório privado é pouco útil e,
Teatro… Mel Ainscow (in: LIMA- colarização. Outro exemplo seria até mesmo, prejudicial, na medida
RODRIGUES et al. 2007) diz que “as a existência de material adequado em que não contribui directamen-
escolas sabem bem mais do que à estimulação do desenvolvimen- te para a escolarização dos alunos
aquilo que usam”. Neste sentido, to psico-motor. São precisos mais e, além disso, cria “poderes para-
é preciso, antes de mais, que a es- recursos materiais para aumentar lelos” na escola. Todos os
cola faça uma reflexão para iden- a confiança e a diversidade de res- técnicos que intervêm na escola
tificar quais são os recursos que postas que a escola pode dar às estão ao serviço da escola e da
já tem disponíveis para trabalhar NEE. educação dos alunos, procurando
com alunos com dificuldades. De- O acréscimo de recursos hu- resolver, em ambiente de equipe,
pois, é preciso identificar quais são manos é também importante para os problemas de escolarização e
os recursos que não existem na es- o desenvolvimento de uma políti- de desenvolvimento. Precisamos,
cola, mas que estão disponíveis na ca de EI. Não deve haver a tenta- por exemplo, de psicólogos edu-
comunidade próxima para serem ção, por parte dos sistemas edu- cacionais que, em vez de trabalha-

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rem nos seus gabinetes, estejam ideia é que os conhecimentos se- em termos dos profissionais cujos
na sala de aula, contribuindo para deados, por exemplo numa APAE, serviços eventualmente necessi-
resolver aí os problemas de apren- podem e devem ser usados para tam. Ou seja, os alunos não preci-
dizagem ou de comportamento; melhorar a educação de todos os sam de um fisioterapeuta, mas sim
precisamos de fonoaudiólogos alunos na escola regular. Esta ideia de dispor de um apoio na locomo-
que usem, como material de traba- parece muito simples mas acarreta ção que pode ser feito, conforme
lho, a comunicação na sala de aula algumas dificuldades que têm de a casuística, por fisioterapeutas,
e que funcionem em coordenação ser resolvidas com diálogo, defen- por professores de educação fí-
com o professor. dendo-se, acima de tudo, os inte- sica, por psicomotricistas ou por
resses das crianças. Alguns destes vários técnicos em cooperação. A
problemas são: ideia não é, pois, ter um Centro de
5. Que relação há com a) Antes de mais, os padrões Recursos com serviços estandar-
as escolas especiais? de financiamento: para que as dizados, mas contar com um con-
escolas especiais se possam tornar junto de técnicos experientes que
Em muitos países, as escolas em CRI é preciso reconceptualizar podem colaborar e cooperar com
especiais foram as respostas pos- o seu sistema de financiamento, a escola regular na tarefa que só
síveis e generosas para situações ou seja, já não receberem financia- a ela cabe: escolarizar todos os
dramáticas de não-educação e mento face ao número de alunos alunos.
de não-escolarização de crianças que atendem, mas sim ao número Quando se fala em todos os
com deficiência. Estas escolas es- de apoios que proporcionam. alunos, surge de imediato a ques-
peciais, ao longo do tempo, de- b) Em segundo lugar, é preciso tão “mas todos podem estar na
senvolveram competências, cria- ter claro que não se trata de criar escola regular? E aqueles que têm
ram equipes muito especializadas, escolas especiais dentro de es- graves perturbações de saúde ou
usaram modelos inovadores e colas regulares. Se é certo que de comportamento?” O bom sen-
construíram formas de atendimen- os professores da escola regular so leva-nos a admitir que a meta
to de grande valia. Criaram todas precisam de aprender a trabalhar de 100% dos alunos incluídos tal-
estas soluções, mas não ficaram com alunos com certos tipos de vez seja irrealista, mas é importan-
imunes a alguns problemas. Por dificuldades, também é verdade te lembrar que os países europeus
exemplo, tornaram-se “espaços de que os técnicos e professores das que mais têm avançado em inclu-
conforto” e de “desenvolvimento escolas especiais têm de aprender são dispõem de percentagens de
separado” de crianças e jovens a trabalhar numa escola inclusiva. alunos com deficiência na escola
com deficiência que, facilmente, Por exemplo: trabalhar com jo- regular que ultrapassa os 95%. As-
desembocaram em ambientes vens com dificuldades intelectuais sim, ainda que seja razoável não
segregados. Por outro lado, ape- numa instituição ou numa escola pensar (atualmente) em 100%, te-
sar da competência do seu corpo regular, implica formas diferen- mos que considerar que qualquer
técnico e pedagógico, revelaram- tes de conceber e desenvolver situação em que se possa admitir
se menos estimulantes que as es- a aprendizagem. Algumas esco- a exclusão da escola regular é, e
colas regulares, pelo menos nos las especiais desenvolvem o seu deve ser, uma situação de grande
fatores inerentes à socialização e apoio como se apenas “o lugar” exceção e que tem de ser fruto de
participação social de crianças e onde este apoio se faz tivesse mu- uma análise multidisciplinar, apro-
jovens de nível etário semelhante, dado – o que é um grande equívo- fundada, objetiva e consensual,
sem deficiência. co. Mudou o lugar mas, sobretu- que conclua que nenhuma van-
O certo é que não se pode per- do, mudou o conceito e o projeto tagem pode advir, para a criança,
der a competência que as escolas educativo. da frequência da escola regular. A
especiais desenvolveram. Assim, c) Por fim, as escolas especiais pergunta que deve ser posta face
há algumas décadas (em particu- devem deixar de pensar em perfis a um caso difícil, deve ser: ”o que
lar nos países do norte da Euro- profissionais e centrar-se em ne- é preciso mudar e disponibilizar
pa), estas escolas começaram a cessidades a ser resolvidas. Nes- para que esta criança possa ser
ser concebidas como Centros de te aspecto, as necessidades dos educada junto com os seus ami-
Recursos para a Inclusão (CRI). A alunos não devem ser definidas gos, na escola do seu bairro?”.

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 33-40, jan./jun. 2008 39


Síntese de assegurar uma qualidade educa- É esta a missão dos responsáveis
cional relativamente homogenea. que atuam no campo da definição
O desenvolvimento da EI depen- Os países que mais avanços fizeram, de políticas educacionais inclusivas:
de, em grande parte, do desenvolvi- em termos da Inclusão, apostaram melhorar as respostas políticas de
mento do sistema educativo no seu no desenvolvimento de condições forma a contribuir para criar as con-
conjunto. É muito difícil desenvolver que mais facilmente poderiam dar dições para que a inclusão deixe de
um sistema que, coerentemente, sustentabilidade ao sistema: qualifi- ser discutida como uma eventual
opte pela EI sem fazer uma aposta cação profissional inicial e contínua, opção e passe a ser aceite como
decisiva no desenvolvimento da es- melhoria de condições laborais, uma questão de direitos humanos e
cola regular. Precisamos de escolas mais recursos para as escolas, me- uma reforma essencial ao desenvol-
com recursos, a funcionar os dois lhoria das condições do seu funcio- vimento da cidadania.
turnos do dia, com instalações dig- namento... É importante continuar a
nas, com lideranças positivas, com dizer que a EI não se faz por decreto
professores satisfatoriamente remu- e que, por isso, não é uma “conver- Referências
nerados e motivados para encarar são” que os professores devem fa-
novos desafios. A EI, enquanto refor- AINSCOW, M.; SANDILl, A. The big challen-
zer. As atitudes dos professores são
ma educacional, só poderá florescer ge: leadership for inclusion. International
importantes? Claro que sim. Mas de- Encyclopedia of Education, 3rd Edition,
em sistemas educativos capazes de vemos saber que as atitudes não Elsevier , 2007. ( no prelo)
aceitar uma mudança nos seus há- são só causa: elas constroem-se BOOTH, T. & AINSCOW, M. et al. Index for
bitos e paradigmas. Esta aceitação como consequência de práticas Inclusion: developing learning and parti-
dificilmente ocorre em sistemas bem sucedidas. cipation in schools. Manchester: Centre
que estão a funcionar no limite das Desencadear programas inclu- for Studies on Inclusive Education, 2002.
suas possibilidades, desmotivados sivos é um grande desafio para os EADSNE. Assessment in Inclusive Settings:
quanto à sua missão e sem recursos sistemas educacionais, sobretudo key issues for policy and practice. Brus-
que possam recrutar. Assim, deline- porque são processos cujo eventual sels: EADSNE, 2007.
ar uma política de EI pressupõe que retorno é muito problemático. Cito LIMA-RODRIGUES, L.; FERREIRA, A.; TRIN-
têm de ser criadas as condições de um exemplo verídico: um jovem, DADE, A.R.; RODRIGUES, D.; COLÔA, J.;
motivação e comprometimento depois de ter estado numa insti- NOGUEIRA, JH.; MAGALHÃES, MB. Percur-
por parte dos professores e esco- sos de Educação Inclusiva em Portugal: dez
tuição, foi colocado numa escola
estudos de caso. Lisboa: FEEI, 2007.
las, no seu conjunto, para atender regular que, por falta de recursos e
alunos com dificuldades. O projeto apoio, não pode suprir as suas ne- NOGUEIRA, J.; RODRIGUES, D. A Educa-
ção da Criança com Deficiência Mental
inclusivo não pressupõe que criem cessidades. Quando se pôs a hipó- Profunda na Escola Regular e na Escola
“vítimas” da inclusão mas sim pes- tese de ele regressar à instituição, o Especial. Avaliação de dois modelos. In:
soas (professores e alunos) que jovem escreveu uma carta à direção David Rodrigues (Org.) Investigação em
podem, todas elas, melhorar a sua da escola regular, a perguntar: “Por- Educação Inclusiva, vol 1. Lisboa: Edições
aprendizagem e ensino, em classes que é que me ensinaram a ler?” A FMH, 2006.
inclusivas. Não vamos usar o mode- inclusão é o caminho de futuro... e é MANTOAN, M.T. O direito de ser, sendo
lo que, ironicamente, Molière colo- muito penoso ter que regressar ao diferente na Escola. In: David Rodrigues
cou na sua peça “Le medcin malgré passado. (Org.) Inclusão e Educação: doze olhares
sobre a Educação Inclusiva. São Paulo:
lui” (“O médico à força”), quando o Uma última nota: por vezes se
Summus , 2005.
falso médico disse que era preciso diz que os pais dos alunos com NEE
queimar alguns doentes para, com ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS.
são muito reticentes face à inclusão
Convenção sobre os Direitos das Pessoas
as cinzas destes, curar os restan- do seu filho na escola regular. Os com Deficiência. Nova Iorque: ONU, 2006.
tes… A EI tem de ser uma aposta na resultados da nossa investigação
RODRIGUES, D. Dimensões da Formação
qualidade da escola pública e desti- não corroboram esta posição (NO- de Professores em Educação Inclusiva. In:
na-se a criar vantagens para todos GUEIRA & RODRIGUES, 2006) mas se David Rodrigues (Org.) Investigação em
os seus intervenientes. assim fosse, não será que esta resis- Educação Inclusiva, vol 2. Lisboa: Fórum
Para países com realidades so- tência quer dizer “Não quero esta de Estudos de Educação Inclusiva, 2007.
ciais muito heterogeneas, como é o Inclusão” em lugar de “Não quero a UNESCO. Open File on Inclusive Education.
Brasil, é compreensivelmente difícil Inclusão?” Paris: UNESCO, 2001.

40 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 33-40, jan./jun. 2008


ENFOQUE 41

CRIANÇA E ADOLESCENTE COM DEFICIÊNCIA:


impossibilidade de opção pela sua educação
exclusivamente no atendimento educacional especializado
Patrícia Albino Galvão Pontes*
Promotora de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte
patricia.albino@uol.com.br

Resumo
O texto faz uma análise sobre as disposições constitu- atendimento educacional especializado, enquanto
cionais e legais atinentes à educação e, mais especifi- modalidade. Os argumentos contrários são enfren-
camente, à obrigação dos pais em matricular os seus tados, demonstrando que os mesmos não subsistem
filhos na escola comum. É ressaltada a impossibilidade frente à nossa Constituição Federal.
de opção pela escola especial para as crianças e ado-
lescentes com deficiência, esclarecendo a diferença Palavras-chave: educação inclusiva, deficiência , es-
entre a escolarização, enquanto nível de ensino, e o cola especial

* Promotora de Justiça/RN, Coordenadora do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Defesa da Pessoa com Deficiência e do Idoso do Minis-
tério Público do Estado do Rio Grande do Norte. Tese aprovada, por unanimidade, no XVII Congresso Nacional do Ministério Público, em Salvador/BA,
no período de 26 a 29 de setembro de 2007.

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 41-48, jan./jun. 2008 41


Abstract

This text presents an analysis of the constitutional education, and special educacional attendence,
and legal provisions pertaining to education, and while modality. The opposites arguments are faced,
more specifically, the obligation of parents to en- showing that they will not prevail over the Federal
roll their children in regular school. It highlights Constitution.
the impossibility of choice of the special school for
children and adolescents with disabilities, explain- Key words: inclusive education, disability, special
ing the difference between schooling, as level of school.

1. Considerações Iniciais ce que a educação escolar compõe- especializado (e não a educação re-
se da Educação básica, formada por gular) seja prestado na rede regular
três etapas, quais sejam: educação de ensino.
A Constituição Federal de 1988 infantil, ensino fundamental e en- A Lei de Diretrizes e Bases da
reconhece a importância do direito sino médio; e Educação Superior. Educação Nacional deixa clara a
fundamental à educação ao pres- Portanto, esta é a educação regular distinção feita entre os níveis de en-
crevê-lo, em seu artigo 205, como que deve ser oportunizada a todas sino e as suas modalidades. No que
um direito de todas as pessoas, as pessoas, não se confundindo se refere ao atendimento educacio-
considerando-o como imprescin- com o atendimento educacional nal especializado, este é prestado
dível ao pleno desenvolvimento da especializado. pela educação especial, referindo-
pessoa, ao seu preparo para o exer- Interpretações equivocadas se a esta o art. 58 da LDB3 como
cício da cidadania e à sua qualifica- são levadas a efeito em razão da sendo ela uma modalidade educa-
ção para o trabalho1. redação do artigo 208, III da Consti- cional e, portanto, não se confunde
A educação é o primeiro dos tuição Federal, onde se afirma que com os níveis da educação escolar
direitos sociais a ser elencado pela “o dever do Estado com a educação (educação básica e superior). Esta
nossa Constituição Federal2, tendo será efetivado mediante a garantia conclusão se extrai da própria es-
este diploma legal reconhecido a de atendimento educacional espe- trutura tópica e organizacional da
sua importância na formação do cializado aos portadores de defici- mencionada LDB. Em seu Título
homem enquanto cidadão. Em ra- ência, preferencialmente, na rede V são apresentados os Níveis e as
zão da fundamentalidade desse regular de ensino” (grifamos). Tal Modalidades de Educação e Ensino,
direito, não é possível admitir que dispositivo tem sido utilizado para sendo a educação especial tratada
ele seja negado a qualquer pessoa, justificar que a freqüência dos alu- em capítulo destacado da Educa-
independentemente do motivo. nos com deficiência na rede regular ção Básica e Superior.
Ao tratar do direito à educação, de ensino é uma preferência e não A denominação ‘escola especial’
está a Carta Magna a se referir es- uma obrigatoriedade. Todavia, ape- tem relação com a expressão ‘edu-
pecialmente à educação escolar, sar de uma leitura desatenta do re- cação especial’. Assim, a escola é
responsável pelo desenvolvimento ferido dispositivo poder levar a esta definida como ‘especial’ em razão
da base nacional comum prevista errônea conclusão, o que o legisla- do serviço nela prestado, qual seja,
na Lei de Diretrizes e Bases da Edu- dor constitucional está a afirmar, na o oferecimento do atendimento
cacional Nacional (Lei nº 9.394/96). verdade, é que há uma preferência educacional especializado. Toda-
Esta lei, em seu artigo 21, estabele- em que o atendimento educacional via, apesar de nominada de escola,

1
Art. 205: A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao
pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
2
Art. 6º da Constituição Federal: “São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção
à maternidade e à infância; a assistência social aos desamparados, na forma desta Constituição”.
3
Art. 58 da LDB: Entende-se por educação especial, para os efeitos desta lei, a modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede
regular de ensino, para educando portadores de necessidades educacionais especiais (grifo nosso).

42 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 41-48, jan./jun. 2008


a matrícula do aluno na escola es-
pecial não dispensa a freqüência à
rede regular de ensino, pois o papel
da primeira é o de complementa-
ção à escolarização para os alunos
... a freqüência do
que necessitem de atendimento aluno com deficiência
educacional especializado. unicamente ao
Sendo uma modalidade educa-
cional, o atendimento educacional atendimento
especializado perpassa por todos educacional
os níveis escolares, desde a edu- especializado implica
cação infantil até o ensino supe-
rior. Desta forma, tal atendimento na violação do direito
diferencia-se substancialmente da fundamental à
escolarização, devendo ser ofere-
educação...
cido em horário diverso do desta,
justamente para possibilitar que
os alunos nela atendidos possam
freqüentar as turmas de ensino re-
gular, não podendo o mesmo fun-
cionar como um substitutivo da
educação escolar. classe regular, mas sim possibilitar alunos com e sem deficiência, bem
O atendimento educacional es- aos alunos com necessidades edu- como orientação para atividades
pecializado (ou educação especial) cacionais especiais o acesso ple- da vida autônoma e social.
não se constitui em um sistema pa- no ao conhecimento, oferecendo Tal atendimento é uma garantia
ralelo de ensino com níveis e etapas os instrumentos necessários para constitucional (artigo 208, III) que
próprias. Tal modalidade educacio- que ele desenvolva todas as suas serve para ser somada aos direitos
nal deve ser entendida como um potencialidades, seja no ambiente das pessoas com deficiência, e não
instrumento, um complemento que escolar, seja na vida diária, elimi- para excluir outras garantias pre-
deve estar sempre presente na Edu- nando-se as barreiras que àqueles vistas no mesmo artigo da Cons-
cação Básica e Superior para os alu- alunos têm para relacionar-se com tituição (FÁVERO, 2004, p. 64-65).
nos que dela necessitarem, visando o ambiente externo. Por exemplo: Portanto, não é admissível que o
à melhoria da qualidade das respos- ensino e interpretação da Língua atendimento educacional espe-
tas educativas que a escola pode brasileira de sinais (Libras) e do sis- cializado substitua a escolarização
oferecer e a conseqüente facilitação tema Braile, ensino da língua portu- nas classes comuns da rede regular
do processo de aprendizagem. guesa para surdos, uso de recursos de ensino, não se podendo aceitar
Desta forma, o atendimento de informática e outras ferramentas a prática de encaminhamento do
educacional especializado não tecnológicas, além de linguagens aluno que não “consegue apren-
pode ser utilizado como aula de que precisam estar disponíveis nas der” para uma escola especial, a fim
reforço. O seu objetivo não é re- escolas comuns para que elas pos- de que esta se encarregue do papel
passar o conteúdo ministrado na sam atender com qualidade aos do ensino regular.

4
Art. 227: “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à ali-
mentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de
colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.
5
Art. 229: “Os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores, e os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, ca-
rência ou enfermidade”.
6
Art. 22: “Aos pais incumbe o dever de sustento, guarda e educação dos filhos menores, cabendo-lhes ainda, no interesse destes a obrigação de cumprir
as determinações judiciais”.
Art. 55: “Os pais ou responsáveis têm a obrigação de matricular seus filhos ou pupilos na rede regular de ensino”.

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 41-48, jan./jun. 2008 43


2. Responsabilidade partir dos seis anos de idade, no en- concreta e materialmente efetiva-
sino fundamental (Art. 6º). dos. Do homem, não como o ma-
da família e/ou dos Diante da normativa constitu- cho da espécie, mas no sentido de
responsáveis legais na cional e legal, não cabe aos pais o pessoa humana.
garantia do direito à direito de escolha no que se refere
à matrícula de seus filhos com de- Desta forma, a freqüência do
educação das pessoas aluno com deficiência unicamente
ficiência na rede regular de ensino,
com deficiência se constituindo em uma obrigação, ao atendimento educacional es-
não podendo os mesmos optar pecializado implica na violação do
A Constituição Federal, reforça- apenas pelo atendimento educa- direito fundamental à educação,
da pelo Estatuto da Criança e do cional especializado (ou educação fato este de extrema gravidade. Im-
Adolescente, inova ao colocar esta especial). pedir o seu exercício pleno implica
parcela da população como sujeitos O titular do direito que aqui se em condenar alguém a viver à mar-
de direitos que podem ser opostos, pretende resguardar é a criança e gem da sociedade, privando-o do
inclusive, contra os seus próprios o adolescente e não os seus pais. crescimento pessoal que apenas o
pais ou responsáveis. Mais que isto, Estes são apenas os representantes convívio social, com toda a diversi-
o respeito a tais direitos deve ser legais daqueles e, por conseqüên- dade que lhe é inerente, é capaz de
exigido especialmente dos pais e cia, têm a obrigação de efetivar a oferecer.
responsáveis dos seus titulares. realização do mencionado direito. Sendo tal conduta praticada em
A família tem total responsabili- Sendo a educação um direito da desfavor de uma criança, esta se
dade no tocante à implementação criança e do adolescente, corres- reveste de especial crueldade, pois
do direito à educação de suas crian- ponde aos seus pais o dever de a infância é o momento em que o
ças e adolescentes. A Constituição matriculá-los na rede regular de indivíduo está mais apto ao apren-
Federal enfatizou, no Art. 227, a ensino. dizado. A simples negação deste
obrigação da família, da sociedade A educação é direito que se im- direito, nesta fase da vida, significa
e do Estado, de assegurar à crian- põe a todos, e a sua violação, por retirar-lhe toda e qualquer opor-
ça e ao adolescente, com absoluta parte dos pais, pode acarretar san- tunidade de desenvolver-se como
prioridade, o direito à educação4. ções de natureza civil (destituição pessoa. A criança não pode esperar
Tal obrigação foi reforçada no Art. ou suspensão do poder familiar) e pelo momento da escola, pois este
penal (crime de abandono intelec- é o seu momento. Amanhã, será
2295 da Carta Magna, reafirmando-
tual8). tarde demais e, todos os esforços
se o dever dos pais de educar os
Estamos a tratar de direito fun- porventura empreendidos já não
seus filhos menores. O Estatuto da
damental que, por sua própria na- farão mais tanto sentido.
Criança e do Adolescente repete tal
tureza, possui como umas de suas Sobre a necessidade de atenção
incumbência, ressaltando a obri-
características a irrenunciabilidade. imediata deste direito na infância,
gação dos pais ou responsáveis de
Neste sentido, José Afonso da Silva vale transcrever as sábias palavras
matricular os seus filhos ou pupilos
(1995, p. 176/177) ensina que: da poetisa Gabriel Mistral, ganha-
na rede regular de ensino (Art. 22 e
No qualitativo fundamental, acha- dora do prêmio Nobel de Literatura
556), sob pena de perda ou suspen-
se a indicação de que se trata de em 1945:
são do poder familiar, nos termos
situações jurídicas sem as quais a Nós somos culpados de muitos
do Art. 24 do mencionado diplo- pessoa humana não se realiza, não erros e muitas faltas, mas nosso
ma7. Neste mesmo sentido, a Lei convive e, às vezes, nem mesmo maior crime é abandonar as crian-
de Diretrizes e Bases da Educação sobrevive; fundamentais do ho- ças, negligenciando a fonte da
Nacional (Lei nº 9.394/96) afirma o mem no sentido de que a todos, vida. Muitas coisas que nós precisa-
dever dos pais ou responsáveis de por igual, devem ser, não apenas mos fazer podem esperar: a criança
efetuar a matrícula dos menores, a formalmente reconhecidos, mas não pode. Exatamente agora é o

7
Art. 24: “A perda e a suspensão do pátrio-poder serão decretadas judicialmente, em procedimento contraditório, nos casos previstos na legislação civil,
bem como na hipótese de descumprimento injustificado dos deveres e obrigações a que alude o art. 22”.
8
Art. 246 do Código Penal: “Deixar, sem justa causa, de prover à instrução primária de filho em idade escolar: Pena – detenção de 15 (quinze) dias a 01
(um) mês, ou multa”.

44 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 41-48, jan./jun. 2008


tempo em que os seus ossos estão
sendo formados, seu sangue está
sendo feito e seus sentidos estão
sendo desenvolvidos. Para ela, não
podemos responder “amanhã”. Seu
nome é hoje.

3. Argumentos contrários

Os defensores da idéia de que


cabe aos pais ou responsáveis a
escolha pela freqüência dos alunos
com deficiência à rede regular de
ensino ou ao atendimento educa-
cional especializado baseiam-se
em premissas da integração esco-
lar, justamente por entenderem
que existem alunos que, em razão
de suas limitações, não possuem
condições de se integrar na classe
comum da rede regular de ensino.
Os principais argumentos utili-
zados para se negar a possibilidade
da efetivação da educação inclusi- adaptar? A Constituição Federal, os alunos e não o contrário. Portan-
va são os seguintes: quando prescreve o direito à edu- to, a integração é a contraposição
1. O despreparo dos professores cação, não confere a ninguém o do atual movimento de inclusão.
para lidar com as diversidades é um poder de decidir quem dela pode- Neste, o esforço é bilateral, mas é
empecilho para a efetivação da in- rá desfrutar. Não se pode conceber principalmente a escola quem deve
clusão, devendo esta ser realizada um critério subjetivo de escolha impedir que a exclusão ocorra.
de forma responsável, sob pena de dos alunos onde, no período de A inclusão é total e incondicio-
prejuízo ao restante dos alunos. matrícula, será feita uma triagem: nal, significando, antes de tudo,
2. No tocante aos alunos com esse tem condições, esse não tem... deixar de excluir. Já a integração é
deficiência mental, se justifica a O processo de integração não parcial e condicionada às possibili-
preferência pelo atendimento edu- favorece a todas as pessoas, mas dades de cada pessoa.
cacional especializado em razão somente as que possuírem condi- As alegações de que a escola
de que aqueles não conseguiriam ções pessoais de se integrar. Porém, se encontra despreparada para a
acompanhar a turma e, por isto, a para estas últimas, se exigirá um es- inclusão e, por isso, não tem como
escola regular não teria nenhum forço unilateral para que possam promovê-la, isentam o estabele-
benefício para os mesmos. ser inseridas na classe comum da cimento de ensino da sua real res-
Inicialmente, vale lembrar que o rede regular de ensino. Já aquelas ponsabilidade, punindo os alunos
movimento de integração, no Bra- que não se adaptarem aos padrões com deficiência, pois, somente
sil, esteve bastante forte nas déca- exigidos, terão o seu direito funda- quando ‘for possível e desejado’
das de 1970 e 1980, daí a existência mental à educação negado, caben- por aquela, poderão os mesmos ser
de normas dessa época reconhe- do-lhes, unicamente, o atendimen- incluídos nas classes regulares.
cendo direitos de forma condicio- to segregado. Até quando se aceitará a alega-
nada: “sempre que possível”, “desde Diferentemente, na inclusão, a ção de que as escolas estão despre-
que capazes de se adaptar”, e assim escola tem que se modificar para in- paradas? E quando vão começar a
por diante. cluir a pessoa com deficiência, pois se preparar? Tal justificativa já não
Todavia, quem dirá se é possível é aquela que precisa ser capaz de é mais cabível nos dias atuais. Esta-
a inclusão ou quem é capaz de se atender às necessidades de todos mos falando de uma filosofia que

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 41-48, jan./jun. 2008 45


nasceu no início dos anos 90 e foi, Mantoan (In: Caminhos Peda- A preocupação do professor
implicitamente, adotada por nos- gógicos da Inclusão) afirma com deve a ser a de vislumbrar as di-
sa Constituição Federal de 1988. propriedade que os professores es- ficuldades dos alunos (quaisquer
Contamos com quase vinte anos peram aprender uma prática inclu- que sejam eles) e não as suas defi-
de atraso. E enquanto as escolas se siva, ou melhor, uma formação que ciências, pois os alunos não preci-
preparam, o que faremos com as lhes permita aplicar esquemas de sam de diagnóstico. É preciso que
crianças com deficiência em idade trabalho pré-definidos às suas salas se aborde, nos cursos de capacita-
escolar? O tempo passará, e este de aulas, garantindo-lhes a solução ção ou de aperfeiçoamento, uma
dano será irreversível. Já bastam dos problemas que presumem en- mudança de postura frente às di-
os prejuízos causados àquelas que contrar nas escolas inclusivas. ferenças, mostrando que todos são
tiveram o seu acesso negado ao en- Ora, não existe uma formação partes integrantes do sistema edu-
sino regular. capaz de conferir a um professor cacional.
É claro que é necessária uma um certificado de que ele saberá Passemos agora à análise do se-
qualificação dos profissionais, bem lidar com todas as situações que gundo argumento: a escola regular
como a inserção nos currículos dos poderão surgir em sala de aula. não serve aos alunos com deficiên-
cursos de magistério e de pedago- Ainda que seja oferecido um curso cia mental, tendo em vista que os
gia de uma disciplina que aborde bastante amplo em que se abor- mesmos não conseguiriam apreen-
as diferenças em sala de aula e o dem 100 situações, por exemplo, der todos os conteúdos ministrados
atendimento educacional especia- poderá o professor se deparar no em sala de aula, sendo para eles su-
lizado. Mas e enquanto isso não dia seguinte com a 101ª. Trata-se, ficiente o atendimento educacional
ocorre? Continuará sendo negado aqui, de convivência humana e não especializado.
o direito à educação às pessoas de uma ciência exata. Não há como Esta idéia errônea desconside-
com deficiência? se ensinar a prática na teoria. ra completamente os objetivos da

46 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 41-48, jan./jun. 2008


educação prescritos no artigo 205 Por que se retirar dessas crianças a 4. Considerações finais
da Constituição Federal. Este dis- oportunidade de convívio social? A
positivo constitucional estabelece simples alegação de que não irão Apesar da Constituição Federal
que tal direito visa ao pleno desen- apreender os conceitos ministrados Brasileira de 1988 não ter se utili-
volvimento da pessoa, o seu prepa- em sala de aula não convence, pos- zado da expressão inclusão, são os
ro para o exercício da cidadania e a to que este não é o único objetivo princípios dessa filosofia que se en-
sua qualificação para o trabalho. da educação. Ora, esta criança, den- contram albergados no texto cons-
Desta forma, as escolas não po- tro das suas limitações, pode, cer- titucional, e não os da integração.
dem ter como única preocupação tamente, evoluir. Se ela, ao chegar Veja-se bem: Está elencado como
a transmissão dos conteúdos curri- à escola, era incapaz de responder objetivo fundamental da Repúbli-
culares, pois a missão educacional a qualquer estímulo e, ao final do ca Federativa do Brasil (art. 3º), a
vai muito além disto. Assim, não se ano, em decorrência da convivência construção de uma sociedade livre,
pode restringir os objetivos da edu- e do contato com os outros alunos, justa e solidária, onde as desigual-
cação apenas à habilitação para ela sorri sempre quando alguém se dades sociais devem ser reduzidas,
o ingresso na Universidade e/ou a aproxima, é preciso reconhecer que, promovendo-se o bem de todos
qualificação para o trabalho. Existe dentro das suas limitações, houve sem qualquer tipo de preconceitos.
um aspecto muito mais abrangen- uma significativa evolução. Com Além disso, preconiza a Carta Maior
te, que é o do pleno desenvolvi- este resultado, pode-se afirmar que como princípios fundamentais: a
mento das potencialidades de cada
a escola cumpriu com a sua função dignidade da pessoa humana, a
um, além da formação do cidadão.
social de fornecer respostas a todos cidadania e a igualdade. Portanto,
As ressalvas para a aceitação
os alunos. não há margem no texto constitu-
de todos os alunos como parte
Tratando-se de pessoas sem cional para que qualquer pessoa te-
integrante do sistema regular de
quaisquer condições de interação nha negado o direito de fazer parte
ensino refletem um pensamento
com o meio externo, estas também da sociedade e, por conseqüência,
preconceituoso na medida em que
se confunde deficiência com inca- não são sequer públicos das chama- da rede regular de ensino.
pacidade, como se esta fosse uma das escolas especiais, necessitando, É interessante mencionar que os
conseqüência daquela, imaginan- no momento, de cuidados de saúde documentos legislativos, interna-
do que aquela expressão traduz o que as impedem, ao menos tempo- cionais e nacionais, por vezes utili-
antônimo de eficiência, quando na rariamente, de receberem educação zam a expressão integração como
verdade o oposto desta última é a em sala de aula. Caso ocorra uma sinônimo de inclusão9. Apesar disso,
ineficiência. melhora dessa condição de saúde, a ONU, através da Resolução 45/9110,
É preciso compreender a idéia ainda que pequena, por direito, es- consagrou a expressão uma ‘socie-
de ‘escola para todos’ no seu senti- sas pessoas deverão freqüentar as dade para todos’, demonstrando
do mais abrangente, de forma a não classes comuns da rede regular de qual o objetivo a se perseguir.
excluir ninguém do sistema educa- ensino. Nesses ambientes educati- A verdadeira escola é aquela
cional. Werneck (1999, p. 195) atenta vos, certamente elas terão melho- para onde todos os alunos daque-
que pode até parecer absurdo que res oportunidades de se desenvol- le bairro, daquela comunidade, vão
toda criança tenha o direito de fre- ver no aspecto social e, quanto aos estudar. Esse é o espaço privilegia-
qüentar a escola regular, incluindo aspectos educacionais escolares, do de preparação para a cidadania
aquela cuja única forma de comuni- esses alunos poderão aprender o e para o pleno desenvolvimento
cação seja piscar os olhos, mas esta que lhes for possível (MINISTÉRIO humano, objetivos previstos na
é a proposta da sociedade inclusiva. PÚBLICO, 2004, p. 22). Constituição Federal, que devem

9
A Resolução 49/153 (1995) tem em seu título: Em direção à plena integração de pessoas com deficiência na sociedade (grifo nosso).
10
Assembléia Geral das Nações Unidas, 68ª Sessão Plenária em Nova York, 14 de dezembro de 1990.

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 41-48, jan./jun. 2008 47


ser alcançados pelo ensino (FÁVE- norama escolar, poder-se-á falar em da criança e do adolescente, cor-
RO, 2004, p. 53). outra coisa, mas não de inclusão. responde aos seus pais o dever de
A inclusão educacional preten- Os professores precisam se matriculá-los na escola regular, não
de o que se deseja de uma escola: conscientizar de que o seu papel cabendo a estes optar, unicamente,
o favorecimento da convivência é educar os seus alunos. Não os pelo atendimento educacional es-
com a diversidade, a instituição do que ele escolhe, mas os que a ele pecializado em detrimento da es-
respeito e da fraternidade entre chegam. Os diretores das escolas colarização nas classes comuns da
as pessoas, sem excluir ninguém públicas também têm que assumir rede regular de ensino.
do ensino regular. Somente dessa a sua função, cobrando do Execu-
forma, preparar-se-ão verdadeiros tivo os suportes necessários para a
cidadãos, construindo uma escola concretização deste novo paradig- Referências
livre de preconceitos. ma educacional. As Secretarias de
A escola inclusiva é benéfica Educação têm que incluir em suas BRASIL. Ministério da Educação. Direito à
para todas as pessoas, devendo prioridades a formação continuada Educação: subsídios para a gestão dos sis-
o convívio com as diferenças ser dos docentes, pois não se deseja temas educacionais. Orientações gerais e
estimulado desde o início, desde transferir o desafio unicamente marcos legais. Brasília: MEC/SEESP, 2004.
a mais inicial das formas de convi- para o professor. Este desafio é de CARVALHO, Rosita Edler. A nova LDB e a
vência social: a educação infantil. A todos! Do mesmo modo, os pais ou Educação Especial. 2. ed. Rio de Janeiro: Ed.
partir do momento em que se favo- responsáveis precisam reivindicar WVA, 2000.
rece o convívio com a diversidade o direito de suas crianças e adoles- MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Caminhos
desde cedo, se ganha na constru- centes sem se conformar com as re- Pedagógicos da Inclusão. Disponível em:
ção da cidadania, pois o modo efi- jeições praticadas. Todos têm que <http://www.educacaoonline.pro.br/
caz de combater o preconceito é na art_caminhos_pedagogicos_da_inclusao.
se envolver nesse processo, que
asp>. Acesso em: 10 ago 2005.
infância, impedindo que o mesmo não é fácil, diga-se de passagem,
apareça. O convívio plural formará mas que é necessário e irreversível. ______.Ensinando a Turma Toda: as dife-
adultos conscientes de que o pro- renças na escola. Disponível em: http://in-
tervox.nce.ufrj.br/~elizabet/turma.htm.
cesso inclusivo é salutar e neces-
sário, pois aqueles que na infância 5. Conclusões MITTLER, Peter. Educação Inclusiva: contex-
desfrutaram da presença de crian- tos sociais. Traduzido por Windyz Brazão
Ferreira. Porto Alegre: Artmed, 2003.
ças e adolescentes com deficiência a) O artigo 208, III, da Constitui-
em sua escola, não duvidarão da ção Federal de 1988 não autoriza MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. O Acesso de
capacidade destas pessoas e, com Alunos com Deficiência às Escolas e Classes
que a educação regular das pes-
Comuns da Rede Regular. 2.ed. Brasília: Pro-
certeza, estimularão a inclusão de soas com deficiência seja prestada curadoria Federal dos Direitos do Cidadão,
todos em um mesmo ambiente em escolas especiais, mas sim que o 2004.
(seja escola, trabalho, lazer...). atendimento educacional especia-
SARLET, Ingo Wolfgang. A Eficácia dos Direi-
Mittler (2003, p. 17) acredita que lizado possa também ser oferecido tos Fundamentais. 4. ed. rev., atual. e ampl.
o maior obstáculo para a mudança fora da rede regular de ensino. Porto Alegre: Livraria do Advogado Edito-
está dentro de nós mesmos, seja b) Não há permissivo consti- ra, 2004.
nas nossas atitudes, seja nos nossos tucional e nem legal para que o SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: Cons-
medos. A nossa tendência é a de ensino seja prestado unicamente truindo uma Sociedade para Todos. 3. ed.
superestimar as dificuldades que em escolas especiais ou em clas- Rio de Janeiro: WVA Editora, 1997.
podem enfrentar as pessoas com ses especiais (ainda que nas esco- SILVA, José Afonso da. Curso de Direito
deficiência, assim como temer os las regulares), pois o atendimento Constitucional Positivo. 10. ed. São Paulo:
desapontamentos que eles podem educacional especializado, não Editora Malheiros, 1995.
experimentar se “falharem”. sendo nível de escolarização, não é WERNECK, Claudia. Sociedade Inclusiva:
É tempo de mudar as escolas, suficiente para garantir a plenitude Quem cabe no seu todos? Rio de Janeiro:
as atitudes, os pensamentos, o do direito à educação nos termos WVA Editora, 1999;
ambiente como um todo. Inclusão previstos na Constituição Federal ______. Ninguém mais vai ser bonzinho na
significa transformação. Sem este de 1988. sociedade inclusiva. 2. ed. Rio de Janeiro:
redimensionamento no atual pa- c) Sendo a educação um direito WVA Editora, 2000.

48 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 41-48, jan./jun. 2008


INFORMES 49

Conferência Nacional da Educação Básica

R
ealizou-se de 14 a 18 de abril eixos temáticos. No eixo “Inclusão deliberações, a atribuição da esco-
de 2008, em Brasília/DF, sob e Diversidade na Educação Básica”, la pública de receber a todos, re-
a Coordenação do Secreta- a plenária aprovou as propostas afirma o compromisso constitucio-
ria Executiva Adjunta do Ministé- que afirmam a construção de um nal do Estado brasileiro. Fortalece,
rio da Educação, a I Conferência sistema educacional inclusivo, em ainda, as ações de formação con-
Nacional da Educação Básica sintonia com a Política Nacional de tinuada de professores, a organi-
– CONEB, reunindo mais de mil re- Educação Especial na Perspectiva zação de equipamentos, recursos
presentantes dos estados e do Dis- da Educação Inclusiva (2008). Com e adequações dos prédios escola-
trito Federal. A Conferência trouxe esta resolução a CONEB reafirma res para a acessibilidade.. Também
como tema central “A construção o acesso às classes comuns do en- na Conferência foi aprovada uma
do sistema nacional articulado de sino regular e a oferta do atendi- moção de apoio à ratificação da
educação” e dentre seus objetivos mento educacional especializado, Convenção da ONU sobre os Direi-
tos da Pessoa com Deficiência que
estão: a implementação de um re- não substitutivo à escolarização. A
proíbe toda e qualquer forma de
gime de colaboração e da qualida- decisão fortalece a escola pública
discriminação. A ratificação desta
de social da educação básica; a de- na efetivação do direito à educa-
Convenção representa um gran-
finição de parâmetros e diretrizes ção as pessoas com deficiência,
de avanço no reconhecimento da
para contribuir com a qualificação transtornos globais do desenvol-
diversidade humana e à conquista
do processo de ensino e aprendi- vimento e altas habilidades/super- da cidadania plena pelos mais de
zagem e a definição de políticas dotação. Segundo Claudia Dutra, 24 milhões de brasileiros que têm
educacionais que promovam a in- Secretária da Educação Especial do algum tipo de deficiência.
clusão social, de forma articulada, MEC, uma conferência que reúne
entre os sistemas de Ensino. representantes de todos os setores
Estes propósitos nortearam as da educação e dos movimentos
discussões que aconteceram nos sociais do país e resgata, em suas

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 49-50, jan./jun. 2008 49


BPC na Escola
N o âmbito do Plano de De-
senvolvimento da Educação
– PDE foi criado o BPC na Es-
cola, um Programa de acompanha-
de 2008. Com esta adesão, os entes
federados se comprometem a con-
tribuir para a promoção, o acesso
e permanência na escola das pes-
(2) identificar as principais barrei-
ras para o acesso e permanência na
Escola das pessoas com deficiência
beneficiárias do BPC; (3) realizar
mento e monitoramento de acesso soas com deficiência beneficiárias estudos e desenvolver estratégias
e permanência na escola dos be- do BPC, articulando as ações das conjuntas para superação destas
neficiários com deficiência, de 0 áreas de assistência social, educa- barreiras; e (4) realizar acompanha-
a 18 anos, desenvolvido por meio ção, saúde e direitos humanos no mento sistemático das ações e pro-
de ação interministerial entre os âmbito de seus territórios. O Mi- gramas dos entes federados que
Ministérios da Educação, Desenvol- aderirem ao Programa. Além da
vimento Social e Combate à Fome, formação das equipes, os sistemas
Saúde e Secretaria Especial de Di- de ensino terão acesso aos Progra-
reitos Humanos. Dentre as ações mas de Implantação de Salas de
do Programa foi realizado o parea- Recursos Multifuncionais, Escola
mento dos dados do BPC/MDS com Acessível – adequação de prédios
o Censo Escolar INEP/MEC, defini- escolares e Formação Continuada
das ações de formação, de identifi- de Professores da Educação Espe-
cação das barreiras que impedem o cial.
acesso à escola, de estudos sobre a No decorrer do Programa, o MEC
temática, e de apoio aos estados e implantará um Sistema de Monito-
municípios para a inclusão escolar ramento visando conhecer as ini-
dos beneficiários. No pareamento, ciativas e difundir as ações exitosas
realizado em fevereiro de 2008 (da- nistério da Educação/Secretaria de dos sitemas de ensino com relação
dos preliminares do Censo Escolar Educação Especial realizará duas à inclusão escolar dos beneficiá-
INEP), do total de 369.735 benefici- etapas de formação nacional con- rios. A expectativa é de expandir as
ários de 0 a 18 anos foram identifi- templando os quatro eixos do Pro- ações da educação às pessoas com
cados 108.060 (29,23%) na escola e grama BPC na Escola: (1) identificar deficiência, para que possam fre-
261.685 (70,77%) fora da escola. entre os beneficiários do BPC até 18 qüentar a rede regular de ensino e
A adesão ao Programa BPC na anos aqueles que estão na Escola e conviver com os demais alunos, va-
Escola foi concluída em 7 de maio aqueles que estão fora da Escola; lorizando a diversidade humana.

50 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 49-50, jan./jun. 2008


OPINIÃO 51

N
esta seção os convidados, Rafael Miranda, assessor técnico, Perspectiva da Educação Inclusiva.
Maria do Pillar, Secretá- Eduardo Barbosa, Presidente da Esta política reposiciona a escola
ria da Educação Básica do FENAPAE, Cláudia Griboski, Direto- questionando os valores tradicio-
MEC, Ela Wiecko de Castilho, Sub- ra de Políticas de Educação Espe- nais de homogeneidade e norma-
procuradora-Geral da República e cial da SEESP/MEC, Clélia Brandão, lização que pautaram as práticas
Procuradora Federal dos Direitos Conselheira do Conselho Nacio- pedagógicas e visa garantir a uni-
do Cidadão, Alexandre Baroni, Pre- nal de Educação, manifestam seu versalização do ensino, a participa-
sidente do CONADE, Izabel Maior, posicionamento sobre a Política ção e a aprendizagem para todos
Coordenadora Geral da CORDE e Nacional da Educação Especial na os alunos.

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 51-58, jan./jun. 2008 51


Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva
Secretária de Educação Básica/MEC

A cada reflexão acerca da esco- nar o conhecimento para todas namento escolar sob a lógica da
la verdadeiramente inclusiva nos as crianças no espaço e no tem- inclusão. A inclusão exige, para
deparamos com um paradoxo: o po escolar, independente de suas além do campo das adaptações
inegável otimismo com que nos condições? Quais as mudanças e físicas e materiais, uma nova pos-
acenam as pesquisas que apon- as reformulações pedagógicas ne- tura da escola comum, que na sua
tam o crescimento histórico da cessárias para enfrentar o desafio real opção por práticas heterogê-
educação de meninos e meninas da inclusão? Como aprender com neas, passa a propor no projeto
com deficiência em ambiente de os excluídos? político pedagógico, no currículo,
ensino regular no País, esbarra- na metodologia de ensino, na ava-
se em questionamentos diversos liação e na atitude de professores
que nos remetem às barreiras que e estudantes, ações que favore-
ainda impedem as escolas de se çam a integração social e a dispo-
abrirem, incondicionalmente, às nibilidade de enfrentamento cole-
diferenças. tivo de um desafio: a convivência
Em um país acostumado à ex- O MEC tem uma política na diversidade.
clusão de negros, de mulheres, clara de inclusão de O MEC tem uma política clara
de índios, de pobres, podemos todas as crianças nas de inclusão de todas as crianças
dimensionar as dificuldades da nas escolas públicas do País. É fun-
inclusão de crianças com deficiên- escolas públicas do País. damental para o Plano de Desen-
cias nas escolas regulares. As ge- É fundamental volvimento da Educação que haja
rações anteriores foram educadas uma clareza de inclusão de todos.
em ambientes onde não existia “o
para o Plano de O MEC não abre mão de uma edu-
diferente”. Muitos de nós, que fo- Desenvolvimento da cação pública com qualidade para
mos crianças na década de 1960, Educação que haja uma todos, inclusive, para as crianças
só fomos conhecer pessoas com com deficiência.
síndrome de Down ou paralisado clareza de inclusão de A inclusão que sonhamos re-
cerebral ou cegos, depois de adul- todos. O MEC não abre quer que os sistemas educacio-
tos! Será que não existiam crianças nais modifiquem não apenas as
mão de uma educação
com deficiências ou elas estavam suas atitudes e expectativas em
segregadas, escondidas? pública com qualidade relação a esses alunos, mas que se
Os questionamentos, por outro para todos, inclusive, organizem para construir uma real
lado, sobre os obstáculos à univer- escola para todos, que dê conta
salização da educação inclusiva, para as crianças com das especificidades das diferen-
passam pela quebra de paradig- deficiência. ças. Projetos inovadores, avanços
mas numa instituição nascida sob tecnológicos e as novas concep-
o dogma da exclusão, em que o ções no campo pedagógico, assim
conhecimento historicamente era como a assimilação da educação
privilégio de alguns. Como fazer como direito, impõem uma mu-
com que a escola obtenha as con- dança irreversível em relação aos
dições essenciais para realmente modelos e parâmetros da inclusão
acolher e integrar as crianças, sem Práticas comprovadas em dife- na escola pública brasileira. O Cen-
um sistema educacional paralelo rentes regiões do País nos conven- so Escolar nos permite o otimismo,
ou segregado, em regime de edu- cem de que ainda há necessidade as diretrizes do PDE nos apontam
cação especial? Como proporcio- de se repensar o modo de funcio- os caminhos!

52 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 51-58, jan./jun. 2008


Ela Wiecko Volkmer de Castilho
Subprocuradora-Geral da República e Procuradora Federal dos Direitos do Cidadão – DF

A Procuradoria Federal dos Di- trito ao ensino fundamental, como


reitos do Cidadão, órgão do Mi- se as pessoas com deficiência não
nistério Público Federal, regozija- passassem dele. Entretanto, foi só
se com a publicação da Política dar a oportunidade e elas chegaram
A Política Nacional de
Nacional de Educação Especial na aos cursos superiores. A cada dia Educação Especial não
Perspectiva da Educação Inclusiva. surpreendo-me com as demandas, se direciona tão somente
É o resultado de uma caminhada antes impensáveis, que são levadas
lenta e gradual para fazer valer o aos membros do Ministério Público aos ensinos básico,
princípio da Constituição de 1988, Federal nos diversos estados. As médio e profissional.
de “igualdade de condições de pessoas com deficiência exigem o Visa também ao ensino
acesso e permanência na escola” e direito de freqüentar os cursos su-
as proclamações inseridas na De- periores e de participar das ativi- superior. O tema da
claração Mundial de Educação para dades acadêmicas regulares. Para educação inclusiva
Todos e na Declaração de Salaman- responder a essa demanda, os esta-
ca, na década de 1990. Não signifi- belecimentos de ensino vêm sendo
inicialmente parecia
ca o fim da caminhada, mas certa- obrigados a oferecer acessibilidade adstrito ao ensino
mente consolida o paradigma que em todos os sentidos e a capacitar fundamental, como se as
rompeu com a idéia de segregação seus docentes para um processo de
escolar das crianças com deficiên- ensino e aprendizagem diferencia- pessoas com deficiência
cia. Esse paradigma ainda é muito do. não passassem dele.
forte, como pudemos sentir nas Revelando a sensibilidade de
reações contrárias ao documento educadores e educadoras que têm
Entretanto, foi só dar
intitulado “O acesso de alunos com o compromisso com a inclusão e a oportunidade e elas
deficiência às escolas e classes co- respeitando as diferenças, os auto- chegaram aos cursos
muns da rede regular”, produzido res da proposta da Política Nacional
pelo Ministério Público Federal. de Educação Especial, não esquece- superiores.
A existência de um documento ram da interface da educação espe-
emanado do Ministério da Educa- cial na educação indígena, na edu-
ção, que estabelece diretrizes de cação do campo e na quilombola. É
sua atuação nos assuntos de edu- um aspecto pouco lembrado.
cação especial, vincula os servi- Temos, pois, um instrumento
dores públicos federais e constitui normativo meritório, que admite as
orientação para as administrações diferenças sem criar categorias so-
públicas estaduais e municipais. É ciais segregadoras (“deficientes” x
um documento, portanto, de refe- “não-deficientes”), o que dá a opor-
rência valorativa que induz a práti- tunidade de cada um ter sua identi-
ca da educação inclusiva no âmbito dade como pessoa.
público e privado.
A Política Nacional de Educação
Especial não se direciona tão so-
mente aos ensinos básico, médio
e profissional. Visa também ao en-
sino superior. O tema da educação
inclusiva inicialmente parecia ads-

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 51-58, jan./jun. 2008 53


Alexandre Carvalho Baroni
Presidente do Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência (Conade)

A partir da análise e considera- Assim, é para nós muito claro,


ção do objetivo da Política Nacional que a partir da implantação des-
de Educação Especial na Perspecti- ta política nacional pelo Governo
va da Educação Inclusiva de “asse- Federal, por meio da Secretaria
gurar a inclusão escolar de alunos de Educação Especial do Minis-
com deficiência, transtornos glo- tério da Educação (MEC) com o
bais do desenvolvimento e altas apoio de toda a sociedade brasi-
habilidades/superdotação, orien- leira, avançaremos naquilo que é
tando os sistemas de ensino para um dos mais importantes passos
garantir: acesso ao ensino regular para a conquista da nossa cidada-
com participação, aprendizagem e nia – a Educação.
continuidade nos níveis mais ele-
vados do ensino; transversalidade
da modalidade de educação espe-
cial desde a educação infantil até a
educação superior; oferta do aten-
dimento educacional especializa- ... a nossa opinião é de
do; formação de professores para que esta é uma política
o atendimento educacional espe-
cializado e demais profissionais construída sobre pilares
da educação para a inclusão; par- sólidos e incontestáveis
ticipação da família e da comuni- de direitos humanos.
dade; acessibilidade arquitetônica
nos transportes, nos mobiliários,
nas comunicações e informação; e
articulação intersetorial na imple-
mentação das políticas públicas”, a
nossa opinião é de que esta é uma Sem dúvida, muitos são os de-
política construída sobre pilares safios mas cabe a todos o dever
sólidos e incontestáveis de direitos de enfrentá-los e vencê-los, um
humanos. a um, para que num futuro muito
Neste sentido, nosso posicio- próximo possamos nos orgulhar
namento não poderia ser outro ainda mais de ser brasileiros.
senão o de acreditar e afirmar que
a educação pública brasileira dá
largos passos para consolidar-se
como uma educação de qualida-
de e para todos, sobretudo, para o
segmento dos cidadãos brasileiros
com deficiência, por muito tempo
marginalizados e totalmente ex-
cluídos do sistema educacional
do País.

54 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 51-58, jan./jun. 2008


Izabel Maria Madeira de Loureiro Maior
Coordenadora Geral da Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência – CORDE

José Rafael Miranda


Assessor Técnico da Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência – CORDE

A Coordenadoria Nacional para senvolvimento dos alunos, consti-


Integração da Pessoa Portadora de tuindo oferta obrigatória dos sis-
Deficiência – CORDE, instância da A Política Nacional de temas de ensino a ser realizado no
Secretaria Especial dos Direitos Hu- Educação Especial na turno inverso ao da classe comum,
manos da Presidência da República, na própria escola ou centro especia-
Perspectiva da Educação
criada pela Lei 7.853/89, que tem lizado que realize esse serviço edu-
como responsabilidade coordenar Inclusiva encontra-se em cacional.
as ações superiores governamen- perfeita sintonia com Tanto a Convenção da ONU
tais no que se refere às pessoas com como a Política de Educação ora
deficiência, ao se debruçar sobre a o documento da ONU, comentada trazem a formação dos
Política de Educação Especial Inclu- constituindo a educação docentes, os recursos de tecnologia
siva, o faz considerando o espectro inclusiva em um assistiva e demais meios e modos
mais amplo da inclusão social, obti- de apoio como elementos de base
da com a articulação interministe- paradigma educacional para a inclusão dos alunos com ne-
rial. Ressalta o papel de cada órgão fundamentado na cessidades educacionais especiais
de governo, não por meio de atua- ao sistema regular de ensino. Nesse
ção restrita, mas como uma parceria
concepção de direitos sentido, o governo federal lançou
de todos os setores governamentais humanos, que ações prioritárias para a educação
e dos movimentos sociais organiza- conjuga igualdade e especial inclusiva, tanto no Progra-
dos, para a garantia do acesso e da ma de Desenvolvimento da Educa-
permanência com sucesso dos alu- diferença como valores ção - PDE como na Agenda Social
nos na escola regular. indissociáveis. de Inclusão das Pessoas com Defi-
Em 13 de dezembro de 2006, a ciência.
Organização das Nações Unidas Assim, o Brasil que tem sido re-
– ONU adotou a Convenção sobre tra-se em perfeita sintonia com o conhecido mundialmente nas últi-
os Direitos das Pessoas com Defici- documento da ONU, constituindo mas décadas por seu marco legal,
ência, o mais recente tratado inter- a educação inclusiva em um para- deverá alcançar um novo patamar,
nacional de direitos humanos, que digma educacional fundamentado onde surgem as mudanças de ca-
dedica o Artigo 24 à Educação, as- na concepção de direitos humanos, ráter prático na vida das pessoas
severando que “Os Estados Partes que conjuga igualdade e diferença com deficiência, fruto de políticas
reconhecem o direito das pessoas como valores indissociáveis. sólidas, planejamento e orçamen-
com deficiência à educação. Para A Convenção traz as diretrizes to, dimensionado para assegurar
efetivar esse direito sem discrimi- gerais sobre cada um dos direitos, as ações consideradas prioridades
nação e com base na igualdade de cabendo ao Brasil transformá-las de governo. Estamos em um contí-
oportunidades, os Estados Partes em políticas e ações, tais como as nuo processo de transformação da
assegurarão sistema educacional preconizadas na Política de Edu- sociedade, deixando de ver a defi-
inclusivo em todos os níveis, bem cação Especial Inclusiva: fazer com ciência como um castigo, e alvo de
como o aprendizado ao longo de que em todas as etapas e modali- assistencialismo, para olhá-la como
toda a vida”. A Política Nacional de dades da educação básica, o aten- um fenômeno social. Estamos sain-
Educação Especial na Perspecti- dimento educacional especializado do do preconceito para o respeito
va da Educação Inclusiva encon- seja organizado para apoiar o de- às diferenças.

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 51-58, jan./jun. 2008 55


Eduardo Barbosa
Presidente da Federação Nacional das Apaes

O nosso entendimento é de clusão é irreversível, necessário tivas, assim como pela busca das
que uma política nacional de e possível. Para tanto, caberá às melhores condições para a sua
educação especial na perspecti- redes que respondem pelos pro- concretização. Afinal, a inclusão
va inclusiva deva apontar na di- cessos educativos dirigidos às nos termos defendidos requer o
reção da garantia da universaliza- pessoas com deficiência – sejam desenvolvimento de novas tec-
ção do ensino, que – vale ressaltar nologias e de novas metodolo-
– não implica exclusivamente na gias de ensino-aprendizagem; a
entrada dos estudantes com de- ampliação da oferta de recursos e
ficiência na rede comum de ensi- de apoio especializados; a revisão
no, como se as redes filantrópica e, também, a atualização da for-
e privada, por exemplo, não fi- ... o conceito de mação docente, especialmente
zessem parte do sistema nacio- inclusão escolar no que diz respeito à apropriação
nal de ensino. E nesse sentido é deve ser considerado de outros/novos conceitos que
importante também enfatizar possam vir a ter implicações im-
que as barreiras que impedem a como um processo portantes para o desenvolvimen-
escolarização das pessoas com de desenvolvimento to das pessoas com deficiências
deficiências intelectual e múl- intelectual e múltipla.
tipla não estão na entrada e/ou
institucional da Defendemos que uma esco-
na permanência de uma criança, escola e sujeito la especial não é uma escola se-
adolescente ou jovem na escola a um movimento gregada por que se destina a um
especial, mas – certamente – na determinado público. Quando
exclusão de qualquer possibili- endógeno, contínuo de necessário para garantir o direito
dade de seu ingresso no sistema evolução, que implica à educação, as escolas especiais
educacional. – enquanto uma escola inserida e
Por essa razão, o conceito de
em oportunidades respeitada no sistema regular de
inclusão escolar deve ser con- de construção, ensino – são também escolas in-
siderado como um processo de desconstrução e clusivas. Se hoje temos acúmulo
desenvolvimento institucional da histórico, maturidade política e
escola e sujeito a um movimento reconstrução, próprio cautela suficiente para construir-
endógeno, contínuo de evolução, dos processos mos uma política de educação
que implica em oportunidades evolutivos humanos e especial na perspectiva inclusiva,
de construção, desconstrução e não devemos permitir que ela se
reconstrução, próprio dos pro- institucionais. traduza ou se reduza a uma cru-
cessos evolutivos humanos e ins- zada contra as escolas especiais
titucionais. Temos afirmado que ou sequer venha a se prestar à
qualquer ruptura com o modelo desestruturação dessa rede, que
de escola especial, sem conside- por anos se dedicou à construção
rar a possibilidade de sua des- elas constituídas de escolas co- de propostas educacionais volta-
construção, reconstrução e/ou muns ou especiais, públicas, pri- das ao atendimento das distintas
ressignificação, é uma arbitrarie- vadas ou filantrópicas - a abertu- especificidades desse segmento
dade. ra para um diálogo permanente, populacional expressivo de crian-
A Federação Nacional das Apa- marcado pela troca de conheci- ças, adolescentes e jovens estu-
es entende que o processo de in- mentos e de boas práticas educa- dantes brasileiros.

56 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 51-58, jan./jun. 2008


Cláudia Maffini Griboski
Diretora de Políticas de Educação Especial da Secretaria de Educação Especial do MEC

A grande contribuição do do- de inclusão nos diferentes espa- gico da escola; nas secretarias de
cumento da Política Nacional de ços educacionais: nas instituições educação tem instigado o re-pla-
Educação Especial na Perspectiva especializadas tem provocado a nejamento de ações, a articulação
da Educação Inclusiva é a de escla- desestabilização entre o que está intersetorial, o monitoramento e a
recer e orientar os gestores dos sis- instituído e a mudança necessária avaliação da implementação das
temas de ensino, os educadores, as políticas públicas; na comunidade
famílias e a comunidade sobre os tem desafiado mudanças de atitu-
aspectos norteadores da proposta des que viabilizem a participação
de inclusão escolar. de pessoas com e sem deficiência
Esta proposta foi elaborada ... é preciso ter claro o em espaços comuns de aprendi-
com o objetivo de orientar a orga- zagem; e nas famílias tem opor-
nização de sistemas educacionais conceito de inclusão tunizado experimentar uma nova
inclusivos e, para isso, contou com que fundamenta realidade com acesso à informação
a contribuição de diversos colabo- e reconhecimento dos direitos fun-
radores, entre eles, pesquisadores,
o projeto político damentais de educação, cidadania
gestores, professores e represen- pedagógico de cada e convivência numa sociedade in-
tantes de instituições governamen- sistema educacional. clusiva.
tais e não governamentais. Com a Assim, para além de um docu-
finalidade de aprofundar o conhe- Um projeto que não mento orientador, a Política passa
cimento sobre educação para to- discrimina, que não a se constituir um marco na orga-
dos, direciona-se, principalmente, nização do sistema educacional
aos profissionais que trabalham
segrega e que se inclusivo, servindo de referencial
nas escolas de ensino regular, e organiza para receber para a formação de professores,
que por meio de ações articuladas cada aluno assumindo para a disponibilização dos servi-
entre a educação especial e o en- ços e recursos, e na ampliação da
sino regular poderão produzir mu- o compromisso da oferta do atendimento educacio-
danças significativas na qualidade gestão pública. É dessa nal especializado, fortalecendo
da escola. inclusão que falamos! o conceito de educação especial
Nesse sentido, a Política pro- que não concebe, nem em caráter
voca a reflexão da gestão e das extraordinário, a utilização desse
práticas educacionais para que atendimento em substituição à
dêem respostas às diferenças que escolarização realizada no ensino
os alunos apresentam no processo para a realização do atendimento regular.
de escolarização, por meio do rom- educacional especializado comple- Para garantir esses pressupos-
pimento com as concepções tradi- mentar ao ensino regular; nas esco- tos é preciso ter claro o conceito de
cionais de educação e constituindo las de ensino regular tem suscitado inclusão que fundamenta o proje-
a possibilidades de transformação a reflexão acerca da incorporação to político pedagógico de cada sis-
das escolas em suas dimensões pe- de metodologias e estratégias di- tema educacional. Um projeto que
dagógicas, culturais e sociais para ferenciadas que contemplem as não discrimina, que não segrega e
a concretização da inclusão. necessidades dos alunos com defi- que se organiza para receber cada
O impacto que a Política re- ciência, transtornos globais do de- aluno assumindo o compromisso
presenta é percebido na forma senvolvimento e altas habilidades/ da gestão pública. É dessa inclu-
como é compreendida a proposta superdotação no projeto pedagó- são que falamos!

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 51-58, jan./jun. 2008 57


Clélia Brandão Alvarenga Craveiro
Conselheira do Conselho Nacional de Educação / CNE

Ao externar meus agradecimen- blicas para garantir a educação de principalmente daqueles com defi-
tos pela oportunidade de apresen- pessoas com necessidades educa- ciência, ao atendimento educacio-
tar a minha opinião sobre a Política cionais especiais. Nesses marcos, nal especializado; d) o público-alvo
Nacional de Educação Especial na verifica-se um grande vácuo entre das ações da educação especial
Perspectiva da Educação Inclusiva, o período imperial e os meados do na perspectiva inclusiva: os alunos
destaco o importante papel que século XX, numa clara demonstra- com deficiência, com transtornos
a Revista Inclusão vem desempe- ção da omissão do Estado brasileiro globais do desenvolvimento e com
nhando como instrumento de in- frente à questão da exclusão educa- altas habilidades/superdotação.
formação à comunidade sobre a cional das pessoas com deficiência Explicitados estão os objetivos
diversidade e a inclusão, bem como no decorrer da nossa história e uma que essa Política pretende alcançar:
à educação continuada aos educa- retomada, com ênfase, a partir da assegurar a inclusão escolar de todos
dores e profissionais que atuam na os alunos; orientar os sistemas de en-
Educação Especial. Esse é um tema sino para garantir o acesso à escola-
que a Câmara de Educação Básica rização, à transversalidade da educa-
colocou entre as suas prioridades, Trata-se de um ção especial, à oferta do atendimento
portanto, no momento, as Diretrizes documento cuja educacional especializado, à forma-
Nacionais para a Educação Especial ção de professores, à participação da
na Educação Básica (Parecer CNE/ orientação promoverá família e da comunidade, à acessibili-
CEB nº 17/2001, Resolução CNE/CEB reformas nos sistemas dade e à articulação intersetorial.
nº 2/2001) encontram-se em fase As Diretrizes da Política de Edu-
de reavaliação no contexto da ela-
de ensino e nas cação Especial na Perspectiva da
boração das Diretrizes Curriculares Diretrizes Curriculares Educação Inclusiva define, entre
Nacionais da Educação Básica. A da Educação Básica, a outros aspectos, que a educação
publicação deste documento em especial é uma modalidade trans-
análise, resultado de estudos e ava- partir de mudanças nas versal que perpassa pelos níveis e
liações elaboradas com significativa concepções filosóficas pelas etapas e modalidades de en-
participação da comunidade, estri- e político-pedagógicas sino, sem o objetivo de substituir as
bado nas orientações de um grupo funções da educação infantil, do en-
de trabalho de excelência, chega que se embasam no sino fundamental, do ensino médio,
em boa hora. direito à educação. da educação de jovens e adultos, da
A Política Nacional de Educação educação profissional e da educa-
Especial na Perspectiva da Educa- ção superior; uma modalidade es-
ção Inclusiva destaca, entre outros, colar complementar, que completa
os seguintes pontos importantes: Constituição Federal/88, cujas defi- a formação dos alunos por ela aten-
a) os aspectos político-filosóficos e nições políticas são mais avançadas didos no atendimento educacional
pedagógicos da inclusão que a so- que a própria Política Nacional de especializado.
ciedade brasileira e a comunidade Educação Especial/1994; c) as leis, Trata-se de um documento cuja
escolar reconhecem e que algumas normas e documentos históricos orientação promoverá reformas
escolas ou municípios já estão reali- nacionais posteriores a 2001 que, nos sistemas de ensino e nas Diretri-
zando para promoção do direito de com base na Constituição Fede- zes Curriculares da Educação Básica,
todos à educação; b) os marcos his- ral/88, sinalizam para a questão de a partir de mudanças nas concep-
tóricos, nacionais e internacionais, direito de TODOS à educação em ções filosóficas e político-pedagó-
sobre os quais o Brasil construiu e espaços comuns de aprendizagem gicas que se embasam no direito à
está construindo suas políticas pú- e também para o direito dos alunos, educação.

58 Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 51-58, jan./jun. 2008


NORMAS PARA APRESENTAÇAO DE ARTIGOS

Política editorial reformulações necessárias. Em caso 4 Abstract e Key word: o resumo


de pareceres contrários à aceitação, em inglês deverá ser apresentado
1 A Revista Inclusão publica artigos o artigo é analisado pelos editores logo após o resumo em português
cujo foco seja a Educação Especial que definem ou não a sua publica- e seguindo as mesmas normas
na perspectiva da educação inclu- ção baseado nas indicações dos pa- apontadas anteriormente.
siva receres. A revisão da normalização
técnica é realizada pelos editores. 5 Texto: os artigos devem es-
2 As colaborações podem ser apre- tar organizados em: Introdução,
sentadas como: 5 Não há remuneração pelos tra- Desenvolvimento e Conclusão,
balhos, mas o autor de cada artigo podendo receber subdivisões.
2.1 Artigos inéditos de caráter opi- recebe 05 (cinco) exemplares da No caso de relatos de pesquisa,
nativo ou científico, fundamenta- revista; no caso do artigo assinado devem ter as seguintes seções:
dos em pesquisas e/ou relatos de por mais de um autor, serão entre- Introdução, Método, Resultados,
experiências; gues 5 (cinco) exemplares para cada Discussões e Conclusões (com
autor. Os artigos aprovados serão numeração). No caso de resenha
2.2 Resenhas. publicados na forma impressa e na de livros e teses, o texto deve
forma digital, na página do MEC/SE- conter todas as informações para
3 Os artigos devem ser inéditos (de ESP. Esta última condição faz parte a identificação do trabalho co-
preferência em português), caben- das normas para aceitação de tra- mentado.
do à revista a exclusividade da sua balhos a serem publicados.
publicação. Precisam atender aos OBS: Usar negrito somente em tí-
seguintes critérios: tulos ou subtítulos. Caso haja ne-
Constituição dos artigos
cessidade de ressaltar expressões
3.1 Adequação ao escopo da revista; 1 Identificação: folha de rosto con- ou palavras usar o itálico, e não
tendo o título (em português e in- o sublinhado ou negrito. O uso
3.2 Qualidade científica, atestada glês); autor (titulação, instituição, de aspas, segundo as normas da
pela Comissão Editorial e ouvido o departamento, quando for o caso), ABNT, deverá ser feito somente em
Conselho Consultivo; endereço completo e e-mail de to- citações bibliográficas no texto de
dos os autores); até três linhas.
3.3 Cumprimento das presentes
Normas; 2 Resumo: deverá ser informativo, 6 Subvenção: menção de apoio fi-
expondo o objetivo, metodologia, nanceiro eventualmente recebido
3.4 Após aceitos, os artigos podem resultados e conclusões, quando se (ao início do artigo);
sofrer alterações não substanciais tratar de relato de pesquisa. Deve-
(reparagrafações, correções grama- rá conter em torno de 250 palavras, 7 Agradecimentos: apenas se ab-
ticais e adequações estilísticas) na não conter parágrafos e nem conter solutamente indispensáveis (ao
etapa de editoração de texto. citações de autores e datas. início do artigo).

4 Aceitação e revisão dos textos: os 3 Palavras-Chave: fazer a indicação 8 Ilustrações (tabelas, gráficos, de-
artigos recebidos são enviados (com após o resumo (mínimo de três e senhos, mapas e fotografias): de-
exclusão do nome dos autores) a máximo de cinco palavras). Utili- vem estar incluídas ao longo do
dois pareceristas pertencentes ao zar o site do Thesaurus Brasileiro texto e também apresentadas à
Conselho Consultivo da Revista que da Educação do INEP no site www. parte e em material que permita a
indicam a aceitação, a recusa ou as inep.gov.br. reprodução.

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 59-61, jan./jun. 2008 59


9 Citações: deve aparecer com recuo à esquer- crianças com Síndrome de Down.3
da de quatro centímetros, em corpo ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.
9.1 Notas: as notas explicativas pre- menor, destacada em parágrafo
cisam ser dispostas no rodapé, re- isolado, não aparecer entre aspas e FERREIRO, E. & TEBEROSKY, A Psico-
metidas por números sobrescritos nem em itálico: gênese da língua escrita. Porto Ale-
no corpo do texto. gre: Artes Médicas, 1985.
Pernambuco indica que uma práti-
10 Citações no texto: ca significa: 11.3 Obras com mais de três auto-
[...] No sentido amplo, o objeto da res: após o sobrenome do primeiro
10.1 Citações incorporadas ao texto tecnologia assistiva é uma ampla autor, inserir a palavra latina et al.
dentro do parágrafo: a identificação variedade de recursos destinados Ex.:
das citações (sobrenome do autor, a dar suporte (mecânico, elétrico, NUNES, L. R. P.O. et al. A pesquisa
eletrônico, computadorizado, etc.) na pós-graduação em Educação Es-
ano) deverá aparecer logo após as
a pessoas com deficiência física, pecial. Rio de Janeiro: Sette Letras,
referentes citações. O nome do au-
visual, auditiva, mental ou múlti-
tor, quando dentro dos parênteses, 1998.
pla. Esses suportes podem ser, por
deve vir em maiúsculo, seguido do exemplo, uma cadeira de rodas (...),
ano da publicação. Nomes de au- uma órtese, e uma série infindável 11.4 Mais de uma citação de um
tores fora dos parênteses ficam em de adaptações, aparelhos e equipa- mesmo autor: após a primeira cita-
maiúscula somente na primeira le- mentos nas mais diversas áreas de ção completa, introduzir um traço
tra. Ex.: necessidade pessoal (comunicação, (equivalente a seis espaços) e um
alimentação, transporte, educação, ponto. Ex.:
Segundo Virgolim (2007) vários au- lazer, esporte, trabalho, elementos
tores concordam que, em se tratan- arquitetônicos e outras). (LAUAND, VYGOTSKY, L.S. El desarrollo de los
do de crianças superdotadas , altos 2005, p. 30). procesos psicológicos superiores. Bar-
níveis de desenvolvimento cogniti- celona: Crítica, 1979.
vo não necessariamente implicam Dessa forma, percebe-se que ...
em altos níveis de desenvolvimento ______. Pensamento e Linguagem.
afetivo (CLARK, 1992; NEIHART, REIS, 11 Referências: São Paulo: Martins Fontes, 1988.
ROBINSON & MOON, 2002; SILVER-
MAN, 1993). 11.1 Obedecerão as normas da ABNT 11.5 Obras com autor desconheci-
de agosto de 2000. Serão arroladas do, a entrada é feita pelo título:
10.2 Toda vez que a citação for li- ao final do texto com o título Refe-
teral, ou específica a um trecho da rências, em negrito (não usar Re- COIMBRA de outros tempos. Coim-
obra, e tiver menos que três linhas, ferências Bibliográficas). Esta lista bra: Coimbra editora, 1958.
ela deve aparecer entre aspas den- de fontes (livros, artigos, etc.) deve
tro do parágrafo. Ex.: aparecer em ordem alfabética pelo 11.6 Periódicos: SOBRENOME, N. Tí-
sobrenome do autor, sem numera- tulo de artigo. Título da Revista em
Nesse sentido, Peter Mittler em Edu- ção, sem parágrafos e sem desloca- itálico, cidade, volume, número, pá-
cação inclusiva – contextos Sociais,
mentos. ginas, ano. Ex.:
define a inclusão como um proces-
so de reformas nas escolas. Segun-
do o autor, o conceito de inclusão 11.2 Livros: Indicar SOBRENOME, N. FONSECA, R. T. Os Direitos Huma-
“[...] envolve um repensar radical da A (nomes do autor abreviados em nos e a pessoa com deficiência no
política e da prática e reflete um jei- caixa alta, sem espaçamentos entre mercado de trabalho. Inclusão- Re-
to de pensar fundamentalmente di- eles). Título (em itálico) subtítulo (se vista da Educação Especial, Brasília, v.
ferente sobre as origens da apren- houver, em letra sem itálico). Edição 1, n.1, n. 1, p. 19-24, 2006.
dizagem[...]. (MITTTER, 2003, p.25) (indicar o número da edição, co-
locar ponto, escrever ed. em caixa 11.7 Artigos Jornal: SOBRENOME, N,
10.3 Toda vez que a citação for li- baixa) Cidade: Editora, ano. Ex.: A Título do artigo, Título do Jornal,
teral, ou específica a um trecho da Cidade, data, seção, páginas, colu-
obra, e tiver mais que três linhas, ela VOIVODIC, M. A. Inclusão escolar de na. Ex.:

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ALCÂNTARA, C. Aula de Cidadania. meiro autor, segundo autor, etc..). revistainclusao@mec.gov.br
Correio Braziliense, Brasília, 23 de Carta modelo: Esplanada dos Ministérios
maio. 2007, p.34. Venho por meio desta ceder os direi- Bloco “L” – 6º andar – sala 600
tos autorais sobre o artigo (nome do CEP: 70047 – 900 – Brasília - DF
11.8 Dissertações e teses (Autor, títu- artigo) para a Revista Inclusão, a ser
lo em itálico, ano, número de folhas, publicado na forma impressa e ele- Normas para encaminhamento, ve-
tese ou dissertação, título, instituto, trônica, mantida pela Secretaria de rificar se:
depto, universidade, cidade). Educação Especial do Ministério da • o ofício de encaminhamento está
Educação. Declaro que o menciona- presente;
CORDEIRO, C. C. A Educação Inclusi- do artigo é inédito, como consta nas • carta de cessão de direitos auto-
va na Perspectiva dos Professores: a normas de publicação da referida rais foi elaborada de acordo com
ponta do iceberg. 2003. Tese (Dou- Revista, e não foi publicado nem em modelo proposto;
torado em Educação) – Universida- outra revista e nem em meio digital, • todos os autores assinaram carta
de de São Paulo, Faculdade de Edu- como páginas de Associações, sites de cessão dos direitos autorais;
cação, Programa de Pós-Graduação ou CDs de eventos. • foi providenciado xerox da carta
em Educação, São Paulo. de aprovação pelo comitê de ética
Assinatura do primeiro autor (somente para relatos de pesqui-
11.9 Meio eletrônico ou internet Nome completo (sem abreviatura) do sa);
primeiro autor • as duas cópias impressas estão
11.9.1 Artigo em jornal científico presentes;
Assinatura do segundo autor • está presente o CD ou disquete
KELLY, R. Eletronic publishing at Nome completo (sem abreviatura) do com o texto original (verificar se o
APS: its not just online journalism. segundo autor disquete abre);
APS News Online, Los Angeles, Nov. • há indicação de endereço comple-
1996. Disponível em: http://www. 1.2.2 Quando se tratar de relato de to de todos autores e e-mail (s).
aps.org/apsnews/1196/11965.html pesquisa deverá ser enviada uma
Acesso em 25 nov. 1998. cópia da autorização do comitê de Normas técnicas da ABNT, verificar
ética; se:
11.9.2 Trabalho em congresso • atende as normas para citação bi-
12.3 Formatação: papel A4 e com bliográfica;
PÉREZ, S. G. B. Criatividade e altas páginas numeradas em até 25 lau- • atende as normas sobre referên-
habilidades: um desafio para o pro- das incluindo as referências (espaço cias;
fessor. In: SEMINÁRIO DE PESQUI- um e meio, letra Times New Roman, • se todos os autores citados no
SA EM EDUCAÇÃO-REGIÃO SUL, 3, tamanho 12, justificado, parágrafos texto estão citados nas referên-
2000, Porto Alegre. Anais. Porto Ale- com 2 cm); cias;
gre: FACED, UFRGS, 2000. CD-ROM. • se todas as referências de autores
12.4 Após ser aprovado para publi- estão citadas no texto;
12. Apresentação de artigos cação, enviar uma cópia em papel • o texto impresso segue as normas
A4 e outra em disquete ou CD (em de formatação da revista.
12.1 Os artigos, para serem subme- editor de texto para Windows), nas
tidos à apreciação, devem ser en- quais tenham sido providenciadas Normas referentes ao conteúdo,
caminhados à Comissão Editorial, as eventuais adaptações exigidas verificar se:
acompanhados de: pela Comissão Editorial. • a revisão gramatical foi realizada a
a) ofício; contento;
13. Os artigos deverão ser enviados • foram utilizadas as palavras cha-
b) duas cópias do texto impresso;
para: ves do Thesaurus Brasileiro da
c) disquete ou CD; Ministério da Educação Educação do INEP no site www.
d) carta de cessão dos direitos au- Secretaria de Educação Especial inep.gov.br;
torais assinada por todos os autores Revista Inclusão – Revista da Educa- • resumo e abstract atendem às
segundo a ordem de autoria (pri- ção Especial normas especificadas pela revista.

Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v. 4, n. 1, p. 59-61, jan./jun. 2008 61


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1 - Quantas pessoas lêem a Revista que você recebe?

( ) Uma
( ) Duas
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( ) Mais de três, quantas? ______________________________________

2 – Função/Atividade

( ) Professor ( ) da educação básica ( ) da educação superior


( ) do atendimento educacional especializado ( ) da classe comum

( ) Estudante ( ) da educação básica ( ) da educação superior
( ) de pós-graduação

( ) Diretor de escola ( ) Coordenador pedagógico

( ) Outra

3 – Você consulta a Revista Inclusão para auxiliar em suas atividades?

( ) Sempre
( ) Com freqüência
( ) Raramente

4 - Escolaridade

( ) Fundamental
( ) Médio
( ) Superior
( ) Pós-Graduação

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