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CENTRO UNIVERSITÁRIO DA FEI

MARCOS CESAR WEISS

CIDADES INTELIGENTES COMO NOVA PRÁTICA PARA O GERENCIAMENTO

DOS SERVIÇOS E INFRAESTRUTURAS URBANOS: estudo de caso da cidade de Porto

Alegre.

São Paulo

2013

MARCOS CESAR WEISS

CIDADES INTELIGENTES COMO NOVA PRÁTICA PARA O GERENCIAMENTO

DOS SERVIÇOS E INFRAESTRUTURAS URBANOS: estudo de caso da cidade de Porto

Alegre.

Dissertação de Mestrado apresentada ao Centro Universitário da FEI, como parte dos requisitos necessários para obtenção do título de Mestre em Administração de Empresas, área de concentração de Gestão da Inovação, sob orientação do Prof. Dr. Roberto Carlos Bernardes.

São Paulo

2013

Weiss, Marcos Cesar Cidades inteligentes como nova prática para o gerenciamento dos serviços e infraestruturas

Weiss, Marcos Cesar Cidades inteligentes como nova prática para o gerenciamento dos serviços e infraestruturas urbanos: estudo de caso da cidade de Porto Alegre / Marcos Cesar Weiss. – São Paulo, 2013. 167 f. : il.

Dissertação – Centro Universitário da FEI. Orientador: Prof. Dr. Roberto Carlos Bernardes.

1. Cidades inteligentes. 2. Inovação em TIC. 3. Sustentabilidade. I. Bernardes, Roberto Carlos; orient. II. Título.

CDU 577.4

Candidato: Marcos Cesar Weiss   Matrícula: 311202-6 Título do Trabalho: Cidades inteligentes como nova

Candidato: Marcos Cesar Weiss

 

Matrícula: 311202-6

Título do Trabalho: Cidades inteligentes como nova prática para o gerenciamento dos serviços e infraestrutura urbanos: estudo de caso da cidade de Porto Alegre

Área:

Área: Capacidades Organizacionais Mercados e Consumo Sustentabilidade

Capacidades Organizacionais

Área: Capacidades Organizacionais Mercados e Consumo Sustentabilidade

Mercados e Consumo

Área: Capacidades Organizacionais Mercados e Consumo Sustentabilidade

Sustentabilidade

Orientador: Prof. Roberto Carlos Bernardes

 

Data da realização da prova: 12 / 08 / 2013

 

ORIGINAL ASSINADA

A Banca Julgadora abaixo-assinada, atribuiu ao candidato o seguinte:

APROVADO

A Banca Julgadora abaixo-assinada, atribuiu ao candidato o seguinte: APROVADO REPROVADO

REPROVADO

A Banca Julgadora abaixo-assinada, atribuiu ao candidato o seguinte: APROVADO REPROVADO

São Paulo, 12 / 08 / 2013

MEMBROS DA BANCA JULGADORA

PROF. DR. ROBERTO CARLOS BERNARDES

ASS.:

PROFª. DRª. FLAVIA LUCIANE CONSONI

ASS.:

PROF. DR. LUIS PAULO BRESCIANI

ASS.:

Versão Final da Dissertação

Endosso do Orientador após a inclusão das recomendações da Banca Examinadora

Aprovação do Coordenador do Programa de Pós-Graduação

Prof. Dr. Edmilson Alves de Moraes

Dedico esta dissertação ao meu amado e eterno pai, Arnaldo Alberto Weiss (in memoriam) e à minha amada e eterna mãe, Cordélia Gomes Weiss (in memoriam). Obrigado por tudo. Eu nunca vou esquecê-los, eu nunca vou desapontá-los.

AGRADECIMENTOS

Primeiramente agradeço a Deus, a quem aprendi a chamar de Grande Arquiteto do Universo, por todos os dons que tem me concedido ao longo da minha vida. Agradeço a minha esposa, Rosana, e as minhas filhas, Gabriela e Juliana, pela paciência, tolerância, incentivo e amor incondicional. Vocês são a razão da minha existência. Ao Professor Doutor Roberto Carlos Bernardes por toda orientação para a realização deste trabalho. Aos ilustres Professores Doutores Flavia Luciane Consoni e Luis Paulo Bresciani por tomarem parte em minha banca examinadora. Ao Centro Universitário da FEI, a todos os eminentes professores do Programa de Pós-Graduação em Administração e aos colaboradores do campus Liberdade, pela generosidade e profissionalismo em todos os momentos. Meu agradecimento a Sra. Carmen Carlos, secretária da pós-graduação, pela sempre disponibilidade em cuidar para que nada ficasse sem uma solução. Aos meus colegas de turma, Thaise Schoneborn, Marcelo Palhares, Tamara Martin, Jorge Hellu, Helder Aguiar, Eryka Fernandes e Luis Alfredo, pelo convívio, pelas trocas de experiências e conhecimentos e pela amizade. Vocês agora também são parte da minha história. Aos ilustres Professores Doutores Denise Pereira Curi, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e Adilson Oliveira, da Universidade de Guarulhos, pelo incentivo e provocações para que eu prosseguisse com meus estudos. Meu especial agradecimento aos amigos de todos os tempos, todas as necessidades, todas as horas e muitas reflexões: José Oscar Maturano, José Luiz Diniz, Rosicler Sanvido, Wills Damasio, Marco Pozam, Tânia Cecan, Alcely Strutz Barroso, Rubens Jesus, Mauro Rodrigues, Alexandre Pereira, Antonio Cipriano, Roberta Panzera, Marco Antonio Ferreira de Souza, Denis Marçon e Marco Antonio Chiarioni (in memoriam). Finalmente, agradeço a IBM Brasil, nas pessoas de Ana Claudia Vieira e Alexandre Magno Gonçalves Mendes, pela oportunidade e pelo incentivo para a realização do meu mestrado.

RECONHECIMENTO

Meu agradecimento e reconhecimento à Cidade de Porto Alegre, na pessoa de seu prefeito, Sr. José Fortunati, e à sua equipe que, com gentileza, interesse e generosidade, atenderam ao meu pedido e não mediram esforços para que eu pudesse realizar e atingir aos objetivos deste trabalho.

Adriane Vianna Aline Czarnobay Ana Maria Madeira Mattos Cristina Leipnitz Daisy Fornari Daniely Votto Júlio César Lopes Abrantes Luis Canabarro Cunha Mariana Kruse Mauro Gomes de Moura Mirian Bravo Núbia Silveira Poti Silveira Campos da Cunha Renato Arioli

Muito obrigado.

Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que podemos solucioná-los. Isaac Asimov

RESUMO

O

crescimento das populações vivendo em cidades é um fenômeno sem precedentes. Estima-

se

que em 2050 a população global ultrapasse os 9 bilhões de pessoas e que aproximadamente

70% delas estarão vivendo em cidades. Com isso, novas formas de geração de energia, preservação de recursos naturais, transportes eficientes, educação e saúde, segurança e alimentação se apresentam como grandes desafios a serem vencidos nos próximos anos. Neste contexto, as tecnologias da informação e comunicação (TIC) assumem importante papel como facilitadoras para a tomada de decisão e, principalmente, para a criação de inovações que melhorem as capacidades de gestão das infraestruturas e o provimento de serviços aos cidadãos, estimulando a criação de cidades inteligentes. Este trabalho tem por objetivo conhecer e demonstrar o atual estágio da cidade de Porto Alegre relativamente à materialização do conceito de cidade inteligente. Para tanto, utilizou-se uma abordagem metodológica de caráter qualitativo, baseada em estudo de caso, com coleta de dados realizada por meio de pesquisa bibliográfica, entrevistas e análise documental. Os resultados

obtidos sugerem que a implementação sistemática das TIC nas atividades de gerenciamento

dos serviços e das infraestruturas públicas proporciona ao poder público maior eficiência nas atividades que envolvem a gestão da cidade com importantes resultados em favor dos atores que ali atuam, embora ainda possam ser encontradas restrições de caráter socioeconômico e

na infraestrutura tecnológica do país. A pesquisa concentrou-se exclusivamente na perspectiva do poder público sobre a iniciativa. Não obstante as limitações, pretendeu-se com este trabalho contribuir com a agenda de pesquisas e discussões sobre a gestão dos espaços urbanos, trazendo o conceito de cidade inteligente como uma prática viabilizadora para o desenvolvimento sustentável das cidades brasileiras.

Palavras-chave: Cidades inteligentes. Inovação em TIC. Sustentabilidade. Governança. Inovação urbana. Cidades digitais. Gestão das cidades. Gestão de serviços públicos.

ABSTRACT

The growth of the population living in cities is an unprecedented phenomenon. It is estimated that by 2050 the global population will exceed 9 billion people and around 70% of them will be living in cities. Consequently, new forms of energy generation, preservation of natural resources, efficient transport, education and health, safety and food are presented as challenges to be overcome in the coming years. In this context, information and communication technologies (ICT) play an important role as enablers for decision making, and especially for creating innovations which can improve the management capabilities of infrastructure and services provisioning to citizens, encouraging the creation of smart cities. This work aims to understand and to demonstrate the current stage of smart city concept implementation in Porto Alegre city. This way, it was used a qualitative methodological approach, based on a case study with data collection carried out by literature, interviews and document analysis. The results suggest that systematic implementation of ICT in the management activities of public services and infrastructure, provides the government greater efficiency in activities involving the management of the city with significant results in favor of actors who act there, although it may be restrictions found in nature socioeconomic and technological infrastructure of the country. The research focused exclusively on the perspective of the government regarding the initiative. Despite the limitations, this work seeks to contribute to the research agenda and discussions about the management of urban space, bringing the concept of smart city as a practical enabler for sustainable development of cities.

Key words: Smart cities. ICT innovation. Sustainability. Governance. Urban innovation. Digital cities. Cities management. Public services management.

LISTA DE FIGURAS

FIGURA 01 – Relacionamento pergunta de pesquisa X objetivos

20

FIGURA 02 – Distribuição da população urbana por classe de tamanho

27

FIGURA 03 – Dinâmica da prosperidade das cidades

51

FIGURA 04 – Arquitetura de sistemas de gerenciamento para as cidades inteligentes

FIGURA

11

Portal ObservaPOA

61

FIGURA 05 – Características e índices do modelo

67

FIGURA 06 – Critérios para delimitação da pesquisa

75

FIGURA 07 – Categorias de análise

83

FIGURA 08 - Organograma da Estrutura de Governo de Porto Alegre

91

FIGURA 09 - Visão Sistêmica de Governo

93

FIGURA 10 - Mapa Estratégico de Porto Alegre -

96

104

FIGURA 12 - Centro Integrado de Comando (CEIC) de Porto Alegre

105

LISTA DE GRÁFICOS

GRÁFICO 01 – Projeção do crescimento populacional global GRÁFICO 02 – Projeção de crescimento das populações urbana e rural GRÁFICO 03 - Evolução da População Brasileira GRÁFICO 04 – Distribuição das publicações por tipo GRÁFICO 05 – Distribuição das publicações por assunto GRÁFICO 06 – Distribuição das publicações por período de tempo GRÁFICO 07 – Distribuição das publicações por origem GRÁFICO 08 – Tipo de publicação X Idioma de origem

tempo GRÁFICO 07 – Distribuição das publicações por origem GRÁFICO 08 – Tipo de publicação X
tempo GRÁFICO 07 – Distribuição das publicações por origem GRÁFICO 08 – Tipo de publicação X
tempo GRÁFICO 07 – Distribuição das publicações por origem GRÁFICO 08 – Tipo de publicação X
tempo GRÁFICO 07 – Distribuição das publicações por origem GRÁFICO 08 – Tipo de publicação X
tempo GRÁFICO 07 – Distribuição das publicações por origem GRÁFICO 08 – Tipo de publicação X
tempo GRÁFICO 07 – Distribuição das publicações por origem GRÁFICO 08 – Tipo de publicação X
tempo GRÁFICO 07 – Distribuição das publicações por origem GRÁFICO 08 – Tipo de publicação X

24

25

26

78

78

79

80

80

LISTA DE QUADROS

QUADRO 01 - Evolução proporcional das populações urbana e rural

25

QUADRO 02 – Definição de inovação

38

QUADRO 03 - Definições de cidades inteligentes

54

QUADRO 04 – Aplicações de TIC para cidades inteligentes

62

QUADRO 05 – Critério de inclusão de cidades no Projeto Cidades Europeias Inteligentes

67

QUADRO 06 – Cidades participantes do Projeto Cidades Europeias Inteligentes

68

QUADRO 07 - Membros plenos da iniciativa EUROCITIES

71

QUADRO 08 - EUROCITIES: áreas temáticas para cidades inteligentes

72

QUADRO 09 – Respondentes preliminarmente escolhidos

77

QUADRO 10– Respondentes delegados efetivamente entrevistados

77

QUADRO 11 – Agenda de entrevistas realizadas

81

QUADRO 12 – Detalhamento das categorias de análise

84

QUADRO 13 – Categorias de análise X Principais autores

85

QUADRO 14 - Distância entre Porto Alegre e capitais dos países do Sul

90

QUADRO 15 – Distância entre Porto Alegre e as capitais brasileiras

90

QUADRO 16 – Conceito de cidade inteligente em Porto Alegre

108

LISTA DE ABREVIATURAS

CEIC

Centro Integrado de Comando

CMMAD

Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento

IBGE

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

IFC

International Finance Corporation

IPCC

Intergovernamental Panel on Climate Change

ISE

Índice de Sustentabilidade Empresarial

OCDE

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico

ONU

Organização das Nações Unidas

P&D

Pesquisa e Desenvolvimento

PIB

Produto Interno Bruto

PNUMA

Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente

PROCEMPA

Empresa de Processamento de Dados de Porto Alegre

TIC

Tecnologia da Informação e Comunicação

UN-HABITAT

Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos

UNESCO

United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization

SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO

15

1.1

Pergunta de pesquisa

19

1.2

Objetivos

19

1.2.1

Objetivo geral

19

1.2.2

Objetivos específicos

19

1.3

Justificativa e contribuição do trabalho

20

1.4

Delimitação do estudo

21

1.5

Estrutura do trabalho

21

2

REFERENCIAL TEÓRICO

23

2.1

O fenômeno do crescimento populacional e da urbanização

23

2.2

As cidades no contexto global

28

2.2.1

As cidades como polos de diversidade, singularidade e globalização

33

2.2.2

Cidades criativas, cidades inovadoras e o papel do setor público

36

2.2.3

Os desafios do desenvolvimento sustentável nas cidades

42

2.3

As cidades do futuro: cidades inteligentes

50

2.3.1

A visão da prosperidade nas cidades

50

2.3.2

Cidades inteligentes: conceitos e dinâmicas de ações

53

2.3.3

Viabilizando cidades inteligentes com o uso das TIC

56

2.4

Construindo cidades inteligentes: exemplos na Europa

62

2.4.1

Smart Cities Project

63

2.4.2

The European Smart Cities Project

67

2.4.3

European Platform for Intelligent Cities

69

2.4.4

EUROCITIES

70

3

METODOLOGIA DE PESQUISA

73

3.1

Estratégia de pesquisa

73

3.2

Definição e descrição da unidade de análise

75

3.2.1

Definição do objeto de estudo

75

3.2.2

Descrição do ambiente de pesquisa e perfil dos respondentes

76

3.3.1

Pesquisa bibliográfica

77

3.3.2

Análise documental

80

3.3.3

Entrevistas

81

3.4

Plano de análise e interpretação dos dados

82

3.5

Comunicação dos resultados

 

85

3.6

Limitações

86

4

RESULTADOS DA PESQUISA

 

87

4.1

Caracterização do objeto de pesquisa

87

4.1.1

Breve história da cidade de Porto Alegre

87

4.1.2

Características socioeconômicas

 

89

4.1.3

Estrutura organizacional do centro de governo

91

4.1.4

Modelo de gestão e plano de governo

91

4.2

Apresentação do caso: Porto Alegre, cidade inteligente

97

4.3

Análise dos resultados

 

106

4.3.1

Categoria de análise A: conceito de cidade inteligente

107

4.3.2

Categoria de análise B: estratégia e abrangência

111

4.3.3

Categoria de análise C: gestão de prioridades e planos de seguimento

123

4.4

Resposta à pergunta de pesquisa

 

126

5

CONSIDERAÇÕES

FINAIS

130

5.1

Limitações e contribuição do

trabalho

132

5.2

Recomendações para futuros estudos

133

REFERÊNCIAS

 

134

APÊNDICE A – Mensagem de pedido de autorização para pesquisa

150

APÊNDICE B – Roteiro de entrevista

152

ANEXO A – Composição do Governo de Porto Alegre

155

ANEXO B – Programas Estratégicos do Eixo Ambiental

158

ANEXO C – Programas Estratégicos do Eixo Social

160

ANEXO D – Programas Estratégicos do Eixo Econômico-Financeiro

162

ANEXO E – Programas Estratégicos do Eixo Gestão

164

15

1 INTRODUÇÃO

Importantes fenômenos sociais têm marcado o início deste século e a alta concentração de pessoas nos ambientes urbanos provavelmente seja um dos mais importantes. Estudos realizados pela Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que as populações urbanas

crescerão em mais de 2 bilhões de pessoas nos próximos 40 anos: serão mais de 9 bilhões pessoas e 70% delas estarão vivendo em cidades até lá (ONU, 2012).

O crescimento das cidades impacta diretamente na economia global e na qualidade de

vida das pessoas.

Segundo a ONU (2012):

a)

perto de 55% da população vive em cidades que ocupam 2% da superfície do planeta e essa taxa de concentração populacional deverá alcançar o patamar de 70% até 2050;

b)

do total de cidades no mundo, 450 delas já contam com população acima de 1 milhão de habitantes, sendo que 20 delas abrigam mais de 10 milhões;

c)

a migração de pessoas para os ambiente urbanos deverá alcançar 350 milhões de pessoas até 2015;

d)

a persistir o atual ritmo de crescimento da China, 500 novas cidades deverão ser criadas nos próximos 20 anos;

e)

de toda emissão de gases de efeito estufa (GEE), mais de 70% são gerados nas cidades;

f)

mais de 60% de toda água potável do planeta é destinada às residências e as projeções dão conta que essa demanda de multiplicará em seis vezes nos próximos 50 anos;

g)

a demanda por energia elétrica ultrapassará de forma significativa os atuais níveis de capacidade-consumo.

O

crescimento populacional não é um fenômeno que se possa interromper de forma

fácil e imediata, assim como a manutenção ou o deslocamento das pessoas em direção aos

ambientes urbanos em busca de melhoria na qualidade de vida.

A intensa urbanização que se presencia, resulta em significativa perda de capacidades

para que as cidades sejam consideradas como lugares adequados à vida saudável das pessoas:

tratamento adequado de resíduos; escassez e má gestão de recursos naturais; poluição;

16

carências nos sistemas de saúde, educação e segurança; congestionamentos nas vias urbanas e deficiências em logística; pobreza, desemprego e exclusão social; inadequação, envelhecimento e manutenção inadequada das infraestruturas entre outras restrições à qualidade de vida da população (FRIEDMANN, 1986; TOPPETA, 2010; BATAGAN, 2011). Essas mesmas cidades, entretanto, são os polos onde se realizam as interações entre as pessoas, onde as transações comerciais ocorrem e onde se desenvolvem pesquisas e inovações que podem ajudar a projetar e construir soluções para a maioria destes e de outros problemas globais (GUPTA, 2002; TOPPETA; 2010; HAMMER et al., 2011; BATAGAN, 2011). A concentração de pessoas nas cidades representa desafios particularmente importantes para os governos. Esses desafios, resultantes das permanentes demandas das populações – infraestrutura, água, energia, saúde, alimentos, segurança, educação, lazer e cultura – podem se configurar como oportunidades para que novas abordagens sejam consideradas nos esforços para a constituição e realização de alternativas para atender a estas demandas (BOYKO et al., 2006; HARRISON; DONNELLY, 2011; RASOOLIMANESH; BADARULZAMAN; JAAFAR, 2011). Nestas oportunidades incluem-se a gestão mais eficiente e transparente dos investimentos governamentais (NAM; PARDO, 2011a; CADENA; DOBBS; REMES, 2012), a observância às restrições de natureza legal- institucional e a atenção à competição global cada vez mais agressiva entre regiões, cidades e grandes metrópoles para a atração de investimentos (STORPER, 1997; DIRKS; GURDGIEV; KEELING, 2010). Ainda assim, as cidades podem ser altamente produtivas, inovadoras e ecologicamente corretas e, consequentemente, mais desejadas porquanto são capazes de propiciar boas condições de prosperidade social, atendendo de forma significativa às necessidades e expectativas de todos os atores que nelas atuam (DURANTON; PUGA, 1999; WOLFE; BRAMWELL, 2008; QUIGLEY, 2009; DOGDSON; GANN, 2011). O cenário assim observado faz com que as atenções se voltem de forma particular para as demandas presentes e futuras das populações, cabendo ao poder público promover com assertividade a constituição de políticas que estimulem a inovação e a universalização dos serviços públicos, orientadas por valores contemporâneos de desenvolvimento solidário e inclusivo (BOYKO et al., 2006; BATAGAN, 2011; RASOOLIMANESH; BADARULZAMAN; JAAFAR, 2011). Como afirmado no relatório Cities and Green Growth: A Conceptual Framework, se não houver ações políticas firmes nas próximas décadas, as sociedades poderão ter suas bases

17

de recursos necessários à prosperidade econômica irreversivelmente comprometidas (HAMMER et al., 2011). Estas reflexões remetem a dois aspectos que podem sugerir a visão da cidade do futuro: primeiro, o fenômeno da globalização que tem conectado cidades localizadas em diferentes geografias do planeta, motivando o surgimento de novas formas de transações comerciais, de concorrência e inovações (STORPER, 1997; SCOTT, 1998; BENKO; LIPIETZ, 2000; HENDERSON, 2007; HARRISON; DONNELLY, 2011), promovendo mudanças nas estruturas de comando da economia, nas formas de mobilidade e liquidez do capital e nas capacidades regulatórias dos Estados sobre setores-chave de suas economias (SASSEN, 1998). Segundo, os riscos inerentes às mudanças climáticas, que se configuram como a principal motivação para os crescentes esforços em busca do desenvolvimento sustentável, onde as cidades assumem papel preponderante (ROMAN, 2010; ONU, 2012). Discutir as cidades, então, torna-se um tema crítico e de significativa importância, particularmente com vistas ao cenário do crescimento populacional e da urbanização. Elas são importantes fontes e canais de geração e troca de conhecimento, pontes de acesso às transações econômicas e geração de riqueza e criação de valor que se desenvolvem por meio de sistemas técnicos e científicos públicos, privados e arquiteturas empresariais propícias ao fomento de soluções inovadoras, inclusivas e sustentáveis. Nesse contexto, novas expressões tais como “cidades globais”, “cidades informacionais” ou ainda “cidades inovadoras, científicas e criativas” surgem como reflexões sobre essa nova ordem mundial, buscando direções e soluções para o enfrentamento dos problemas que envolvem a dinâmica urbana (CASTELLS; HALL, 1994; SCOTT, 1998; BENKO; LIPIETZ, 2000; COOKE, 2008; COOKE; PORTER; 2009; CASTELLS, 2012). Como as cidades estão cada dia mais interconectadas e instrumentalizadas (HARRISON; DONNELLY, 2011), o seu sucesso se direciona sobre dois eixos principais. Primeiro, o gerenciamento dos recursos a partir de uma perspectiva sustentável para que elas, cidades, sejam capazes de se tornar ambientalmente sustentáveis e atraentes para os cidadãos e empresas, implementando um tipo de gerenciamento dos serviços e das infraestruturas que seja inovador, que possa ajudar as cidades a ser mais preditivas, integrando o conjunto dos seus ativos de forma ágil e com custos aceitáveis (AL-HADER; RODZI, 2009; ARUP, 2010; WASHBURN et. al., 2010; HARRISON; DONNELLY, 2011;WOLFRAM, 2012; TOPPETA, 2010). Segundo, pela criação de um ambiente atrativo do ponto de vista econômico-social, onde os atores possam interagir de forma satisfatória, sem restrições que

18

mereçam intervenções drásticas (STORPER, 1997; EGER, 2009; CADENA; DOBBS; REMES, 2012), imprimindo maior eficiência e reformulando a organização da dinâmica

urbana, tendo as tecnologias da informação e comunicação (TIC) como viabilizadoras de um sistema nervoso que possa implementar maior inteligência nessas cidades (GUPTA, 2002; JOHNSON, 2008; TOPPETA, 2010; WASHBURN et al., 2010; NAM; PARDO, 2011a; BATAGAN, 2011; DOGDSON; GANN, 2011; DUTTA et al., 2011).

A visão de inteligência das cidades emerge da convergência entre a sociedade do

conhecimento - onde a informação e a criatividade têm grande ênfase e que considera os capitais humano e social como seus mais valiosos ativos (CASTELLS, 2012) - e a cidade digital - que faz extensivo uso de sistemas de telecomunicações e recursos da internet - como meio para transformar significativamente as formas de relacionamento e de vida (KANTER; LITOW, 2009; COELHO, 2010, NAM; PARDO, 2011b). Caracterizada usualmente pelas capacidades de aprendizagem, desenvolvimento tecnológico e inovação aplicados nos processos de gestão da dinâmica urbana, a cidade

inteligente se sustenta nas infraestruturas digitais de forma a materializar esta inteligência (HERNÁNDEZ-MUÑOZ et al., 2011; KOMNINOS, 2011). Nesse sentido, a cidade digital não é necessariamente inteligente, mas a cidade inteligente tem, obrigatoriamente, componentes digitais (ALLWINKLE; CRUICKSHANK, 2011; NAM; PARDO, 2011b).

A cidade inteligente é aquela, portanto, que se utiliza da cidade digital como

infraestrutura para implementar sistemas e aplicativos que melhorem o fornecimento e o gerenciamento dos serviços e infraestruturas públicos, incrementando suas capacidades de crescimento e desenvolvimento econômicos, porquanto estimula a inovação e o desenvolvimento sustentável (HALL et al., 2000, KANTER; LITOW, 2009; TOPPETA,

2010; GIFFINGER; GUDRUN, 2010; WASHBURN et al., 2010; ALLWINKLE; CRUICKSHANK, 2011; DUTTA et al., 2011; HARRISON; DONNELLY, 2011; NAM; PARDO, 2011a; SCHAFFERS et al., 2011; HERNÁNDEZ-MUÑOZ et al., 2011; CHOURABI et al., 2012; CADENA; DOBBS; REMES, 2012). Observa-se atualmente que organizações governamentais e não governamentais (ROMAN, 2010; HAMMER et al., 2011; ONU, 2012; UN-HABITAT, 2012), firmas de consultoria especializadas por meio de suas áreas de pesquisas e desenvolvimento (ARUP, 2010; ACCENTURE, 2011; ERNST & YOUNG, 2011; PWC, 2011; McKINSEY, 2012) e os principais provedores globais de tecnologias (CISCO, 2012; IBM, 2012; SAP, 2012; SIEMENS, 2012) têm se debruçado sobre as questões que envolvem a manutenção das

19

condições e funcionalidades dos espaços e infraestruturas urbanos, buscando desenvolver soluções que atendam de forma plena às crescentes demandas dos atores que atuam nas cidades, apoiando-se sobre as TIC como a principal ferramenta para a realização das expectativas e objetivos da dinâmica global contemporânea.

1.1 Pergunta de pesquisa

Colocadas essas reflexões iniciais e considerada a literatura utilizada para a elaboração desse trabalho de pesquisa, formula-se a seguinte pergunta: como o conceito de cidades inteligentes vem sendo aplicado como uma nova prática para o gerenciamento dos serviços e infraestruturas urbanos?

1.2 Objetivos

Esta seção apresenta os objetvos geral e específicos a serem alcançados.

1.2.1 Objetivo geral

A pesquisa tem como objetivo geral conhecer e demonstrar o atual estágio de uma cidade brasileira relativamente ao conceito de cidade inteligente à luz das TIC, tendo como vetores a inovação e o desenvolvimento sustentável.

1.2.2 Objetivos específicos

Complementarmente ao objetivo geral, a pesquisa tem como objetivos específicos:

20

a) conhecer e descrever como a cidade interpreta o conceito de cidade inteligente, dadas suas características e particularidades;

b) apresentar e analisar as estratégias para a implementação de práticas de gerenciamento dos serviços urbanos com base no conceito de cidade inteligente;

c) apresentar as prioridades e planos definidos para o estabelecimento da cidade inteligente.

A Figura 1 apresenta o relacionamento entre a pergunta de pesquisa e os objetivos

geral e específicos, tendo como principal direcionador a literatura selecionada para a

sustentação teórica.

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PERGUNTA DE PESQUISA
PERGUNTA DE PESQUISA
PERGUNTA DE PESQUISA
PERGUNTA DE PESQUISA
Como o conceito de cidades inteligentes está sendo aplicado nas cidades brasileiras?
Como o conceito de cidades inteligentes está sendo aplicado nas cidades brasileiras?
Como o conceito de cidades inteligentes está sendo aplicado nas cidades brasileiras?
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PERGUNTA DE PESQUISA
PERGUNTA DE PESQUISA
PERGUNTA DE PESQUISA
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Como o conceito de cidades inteligentes está sendo aplicado nas cidades brasileiras?
Como o conceito de cidades inteligentes está sendo aplicado nas cidades brasileiras?
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Objetivo
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Objetivo
Objetivo
Conhecer e demonstrar o atual estágio das cidades brasileiras relativamente ao conceito de cidade
Conhecer e demonstrar o atual estágio das cidades brasileiras relativamente ao conceito de cidade
Conhecer e demonstrar o atual estágio das cidades brasileiras relativamente ao conceito de cidade
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Objetivo
Objetivo
Objetivo
Objetivo
Conhecer e demonstrar o atual estágio das cidades brasileiras relativamente ao conceito de cidade
Conhecer e demonstrar o atual estágio das cidades brasileiras relativamente ao conceito de cidade
Conhecer e demonstrar o atual estágio das cidades brasileiras relativamente ao conceito de cidade
Principal
Principal
Principal
Principal
inteligente e com vistas ao estímulo à inovação e ao desenvolvimento sustentável.
inteligente e com vistas ao estímulo à inovação e ao desenvolvimento sustentável.
inteligente e com vistas ao estímulo à inovação e ao desenvolvimento sustentável.
inteligente e com vistas ao estímulo à inovação e ao desenvolvimento sustentável.
Principal
Principal
Principal
Principal
inteligente e com vistas ao estímulo à inovação e ao desenvolvimento sustentável.
inteligente e com vistas ao estímulo à inovação e ao desenvolvimento sustentável.
inteligente e com vistas ao estímulo à inovação e ao desenvolvimento sustentável.
Apresentar e analisar as
Apresentar e analisar as
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Apresentar e analisar as
Apresentar e analisar as
Apresentar e analisar as
Apresentar e analisar as
Apresentar e analisar as
Conhecer e descrever como a
Conhecer e descrever como a
Conhecer e descrever como a
Conhecer e descrever como a
Conhecer e descrever como a
Conhecer e descrever como a
Conhecer e descrever como a
Conhecer e descrever como a
estratégias para a
estratégias para a
estratégias para a
estratégias para a
Apresentar as prioridades e
Apresentar as prioridades e
Apresentar as prioridades e
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estratégias para a
estratégias para a
estratégias para a
estratégias para a
Apresentar as prioridades e
Apresentar as prioridades e
Apresentar as prioridades e
Apresentar as prioridades e
cidade interpreta o conceito de
cidade interpreta o conceito de
cidade interpreta o conceito de
cidade interpreta o conceito de
cidade interpreta o conceito de
cidade interpreta o conceito de
cidade interpreta o conceito de
cidade interpreta o conceito de
Objetivos
Objetivos
Objetivos
Objetivos
implementação de práticas de
implementação de práticas de
implementação de práticas de
implementação de práticas de
planos definidos para o
planos definidos para o
planos definidos para o
planos definidos para o
Objetivos
Objetivos
Objetivos
Objetivos
implementação de práticas de
implementação de práticas de
implementação de práticas de
implementação de práticas de
planos definidos para o
planos definidos para o
planos definidos para o
planos definidos para o
cidade inteligente, dadas suas
cidade inteligente, dadas suas
cidade inteligente, dadas suas
cidade inteligente, dadas suas
cidade inteligente, dadas suas
cidade inteligente, dadas suas
cidade inteligente, dadas suas
cidade inteligente, dadas suas
gerenciamento dos serviços
gerenciamento dos serviços
gerenciamento dos serviços
gerenciamento dos serviços
estabelecimento da cidade
estabelecimento da cidade
estabelecimento da cidade
estabelecimento da cidade
Específicos
Específicos
Específicos
Específicos
gerenciamento dos serviços
gerenciamento dos serviços
gerenciamento dos serviços
gerenciamento dos serviços
estabelecimento da cidade
estabelecimento da cidade
estabelecimento da cidade
estabelecimento da cidade
Específicos
Específicos
Específicos
Específicos
características e particularida-
características e particularida-
características e particularida-
características e particularida-
características e particularida-
características e particularida-
características e particularida-
características e particularida-
urbanos com base no conceito
urbanos com base no conceito
urbanos com base no conceito
urbanos com base no conceito
inteligente.
inteligente.
inteligente.
inteligente.
urbanos com base no conceito
urbanos com base no conceito
urbanos com base no conceito
urbanos com base no conceito
inteligente.
inteligente.
inteligente.
inteligente.
des.
des.
des.
des.
des.
des.
des.
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de cidade inteligente.
de cidade inteligente.
de cidade inteligente.
de cidade inteligente.
de cidade inteligente.
de cidade inteligente.
de cidade inteligente.
de cidade inteligente.
REFERENCIAL TEÓRICO
REFERENCIAL TEÓRICO
REFERENCIAL TEÓRICO
REFERENCIAL TEÓRICO
TEÓRICO
TEÓRICO
TEÓRICO
TEÓRICO
REFERENCIAL
REFERENCIAL
REFERENCIAL
REFERENCIAL
Coleta e análise de dados Coleta e análise de dados Coleta e análise de dados
Coleta e análise de dados
Coleta e análise de dados
Coleta e análise de dados
Coleta e análise de dados
Coleta e análise de dados
Coleta e análise de dados
Coleta e análise de dados
Coleta e análise de dados

Comunicação de resultados, considerações finais e futuras pesquisas

Comunicação de resultados, considerações finais e futuras pesquisas

Comunicação de resultados, considerações finais e futuras pesquisas

Comunicação de resultados, considerações finais e futuras pesquisas

Comunicação de resultados, considerações finais e futuras pesquisas

Comunicação de resultados, considerações finais e futuras pesquisas

Comunicação de resultados, considerações finais e futuras pesquisas

Figura 1 – Relacionamento pergunta de pesquisa X objetivos Fonte: Autor.

1.3 Justificativa e contribuição do trabalho

O crescimento populacional global tem sido a principal agenda das organizações

governamentais e não governamentais, empresas, academia e, também, tem se apresentado como preocupação da sociedade contemporânea. As projeções de fragilização e esgotamento das infraestruturas urbanas, de alimentos e recursos naturais, associados às necessidades primárias das populações – saúde, educação, moradia e segurança – têm impulsionado os

atores da sociedade a buscar alternativas para fazer face aos tempos que estão por vir.

O tema ‘cidades inteligentes’ tem sido pauta de estudos e ações em muitas cidades

europeias, norte-americanas e já começa a tomar força em muitas cidades asiáticas. No Brasil,

21

algumas iniciativas começam a ser notadas em algumas cidades – Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro, Búzios, Aparecida, Belo Horizonte –, assim como o esforço de diferentes entidades que têm promovido fóruns de discussão e cooperação com vistas ao futuro das cidades brasileiras. É importante, portanto, trazer à reflexão o conceito de cidade inteligente à luz das TIC, contribuindo para o incremento da discussão e para a agenda de pesquisa deste contemporâneo assunto. No campo da Administração, este trabalho busca contribuir para a arena de debates sobre a gestão das cidades, incrementando as reflexões sobre como as inovações em TIC podem ser aplicadas de forma a possibilitar o pleno sucesso no enfrentamento dos desafios e maior aproveitamento de oportunidades com vistas ao desenvolvimento sustentável.

1.4 Delimitação do estudo

O trabalho aborda o conhecimento e entendimento do conceito de cidade inteligente aplicado no contexto particular da cidade escolhida para o estudo, detendo-se a aspectos relacionados à aplicação dessas tecnologias como ferramentas para o aprimoramento dos processos de prestação de serviços aos atores que atuam na cidade e no gerenciamento das infraestruturas urbanas sem, no entanto, aprofundar-se nas características de engenharia e de funcionamento técnico das mesmas. Para o presente trabalho foi escolhida a cidade de Porto Alegre. Essa cidade foi escolhida por representar uma das principais e mais importantes iniciativas em curso no Brasil atualmente e por participar do rol das cidades inteligentes no mundo, conforme descrito no tópico 3.2 – Definição e justificativa do objeto do estudo.

1.5 Estrutura do trabalho

Este trabalho está dividido em 5 capítulos. No capítulo 1, esta introdução, são apresentados as considerações iniciais sobre o tema, os objetivos geral e específicos, a justificativa e a delimitação da abrangência da pesquisa.

22

No capítulo 2, é apresentada a fundamentação teórica sobre a qual se alicerça o estudo, retratando aspectos do crescimento populacional e da urbanização, buscando-se contextualizar

as cidades no cenário global como polos propícios à inovação e ao desenvolvimento sustentável, culminando com o conceito de cidade inteligente. Discute-se, também, a inserção das TIC para a alavancagem de cidades inteligentes, ilustrando-se o tema com a apresentação de iniciativas em curso na Europa.

O capítulo 3 aborda a metodologia de pesquisa empregada, descrevendo os métodos

para coleta de dados, modelo de análise e de comunicação dos resultados.

O capítulo 4 é dedicado à apresentação dos resultados da pesquisa, abordando as

características do ambiente de pesquisa, a apresentação do caso de Porto Alegre, a análise dos

resultados e finalizando com a resposta à pergunta de pesquisa.

O capítulo 5 apresenta as considerações finais, refletindo sobre os desafios para

implementação de cidades inteligentes no Brasil. O capítulo é finalizado com a apresentação das limitações do trabalho e proposições para futuras pesquisas.

23

2 REFERENCIAL TEÓRICO

Este capítulo tem por objetivo abordar os principais conceitos e reflexões sobre questões relativas ao crescimento populacional e à urbanização como motivadores para os processos de inovação e para o desenvolvimento sustentável. Essa visão, aliada aos avanços e aplicações das tecnologias da informação e comunicação podem auxiliar de forma inexorável a criação de cidades mais atrativas e desejadas para o presente e para o futuro: as cidades inteligentes. Busca-se também, nesse capítulo, refletir sobre como o poder público, a classe empresarial, o meio acadêmico e os cidadãos de uma forma geral podem promover as combinações necessárias para a formulação de uma nova dinâmica para a gestão das cidades. Pretende-se que o conteúdo desenvolvido nesse capítulo contribua para o bom entendimento sobre os conceitos, possibilidades, motivações e implicações relativos à implementação de cidades inteligentes.

2.1 O fenômeno do crescimento populacional e da urbanização

Desde a revolução industrial, a partir do século XVIII, as cidades têm oferecido melhores condições para a vida humana comparativamente às áreas rurais, atraindo pessoas que passam a se qualificar para atender às expectativas e exigências de progresso em diferentes setores da atividade humana (CADENA; DOBBS; REMES, 2012). Melhores condições de vida – trabalho menos penoso, acessos a alimentos e água, socialização e expectativas de prosperidade - que foram sendo criadas com o passar do tempo fizeram com que os ambientes urbanos passassem a ser mais buscados do que as áreas de produção rural, a despeito das exigências e indiscriminação na aquisição de mão de obra que incluía mulheres e crianças. O advento de novas práticas médicas, drogas e vacinas e a introdução de condições mínimas de saneamento básico reduziram gradualmente as taxas de mortalidade e aumentaram a expectativa de vida das pessoas, somando-se a isso a carência de programas de controle da natalidade, complementando-se, assim, o conjunto das situações que contribuíram para os atuais níveis populacionais.

24

População em milhares

1950

1985
1990

2035
2040

1965
1970

2015
2020

1995
2000

2005
2010

1955
1960

1975
1980

2025
2030

2045
2050

A população global atual é um fenômeno sem precedentes na história da humanidade. Foram necessários apenas 60 anos, desde a década de 1950, para que a população global saltasse de 2,5 bilhões para aproximadamente 7 bilhões de pessoas. Previsões da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que serão mais de 9 bilhões de pessoas vivendo no planeta até o ano de 2050 (ONU, 2012), como se pode observar no Gráfico 1. Esse crescimento significa que a população quase triplicou em um período de tempo infinitamente menor do que em toda a história conhecida da humanidade e, a se realizarem as expectativas da ONU, de 2010 a 2050 um ser humano nascerá a cada minuto.

10.000.000

9.000.000

8.000.000

7.000.000

6.000.000

5.000.000

4.000.000

3.000.000

2.000.000

1.000.000

Ano

Gráfico 1 – Projeção do crescimento populacional global Fonte: Autor Nota: Baseado com informações de: ONU, 2012

Se o crescimento global por si já se apresenta como um grande desafio, a migração das pessoas e o próprio crescimento populacional urbano se traduzem em desafios ainda maiores. Estudos da ONU mostram que a população rural global em 2050 terá crescido aproximadamente 70% em relação a 1950, enquanto que a população urbana terá crescido mais de 700%, considerado o mesmo período. Em 1950, a população urbana representava 29% da população global e, segundo os mesmos estudos, ela representará 67% da população em 2050, correspondente a aproximadamente 6 bilhões de pessoas, como se pode observar no Gráfico 2 e no Quadro 1. O crescimento esperado em certas regiões do planeta deverá acontecer inexoravelmente, ao passo que em outras regiões ele deverá se estabilizar ou mesmo

25

decrescer. Ainda assim, a migração para áreas urbanas será observada e com significativo aumento na expectativa de vida e nos níveis educacionais (ONU, 2012). De acordo com o relatório World Urbanization Prospects: the 2011 revision, publicado pela ONU em 2012, muitos governos - 58% entre os países em desenvolvimento e 29% entre os países desenvolvidos - quando confrontados com os desafios e oportunidades trazidos pela urbanização, mostram preocupações com a distribuição espacial da população, considerando, inclusive, promover mudanças nesta forma de distribuição (ONU, 2012).

10.000.000 9.000.000 8.000.000 7.000.000 6.000.000 5.000.000 4.000.000 3.000.000 2.000.000 1.000.000 —
10.000.000
9.000.000
8.000.000
7.000.000
6.000.000
5.000.000
4.000.000
3.000.000
2.000.000
1.000.000
População Rural
População Urbana
População Global Total
Gráfico 2 – Projeção de crescimento das populações urbana e rural
Fonte: Autor
Nota: Baseado com informações de: ONU, 2012
1950
1955
1960
1965
1970
1975
1980
1985
1990
1995
2000
2005
2010
2015
2020
2025
2030
2035
2040
2045
2050
   

População Global (em milhares)

 

Ano

Total

Urbana

Rural

1950

2.532.229

745.495

29%

1.786.734

71%

1955

2.772.882

871.932

31%

1.900.950

69%

1960

3.038.413

1.019.638

34%

2.018.775

66%

1965

3.333.007

1.184.646

36%

2.148.361

64%

1970

3.696.186

1.352.419

37%

2.343.767

63%

1975

4.076.419

1.537.668

38%

2.538.751

62%

1980

4.453.007

1.753.229

39%

2.699.779

61%

1985

4.863.290

2.004.497

41%

2.858.793

59%

1990

5.306.425

2.281.405

43%

3.025.020

57%

1995

5.726.239

2.564.133

45%

3.162.107

55%

2000

6.122.770

2.858.632

47%

3.264.138

53%

2005

6.506.649

3.197.534

49%

3.309.115

51%

2010

6.895.889

3.558.578

52%

3.337.311

48%

2015

7.284.296

3.926.793

54%

3.357.503

46%

2020

7.656.528

4.289.818

56%

3.366.710

44%

2025

8.002.978

4.642.582

58%

3.360.397

42%

2030

8.321.380

4.983.908

60%

3.337.472

40%

2035

8.611.867

5.314.161

62%

3.297.706

38%

2040

8.874.041

5.636.226

64%

3.237.815

36%

2045

9.106.022

5.949.984

65%

3.156.038

35%

2050

9.306.128

6.252.175

67%

3.053.953

33%

Quadro 1 - Evolução proporcional das populações urbana e rural Fonte: Autor Nota: Baseado com informações de: ONU, 2012

O fenômeno da urbanização também se reflete no Brasil e aparenta ser irreversível visto os consideráveis recursos investidos ao longo do tempo e que não podem ser

26

simplesmente abandonados. O censo demográfico recentemente divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que a população brasileira já ultrapassa 190 milhões de pessoas e aproximadamente 80% dessas pessoas vivem em ambientes urbanos. Segundo o mesmo Instituto, a população rural em 2010 é, em termos absolutos, a mesma de 1940, embora a população do país tenha quase que se multiplicado por cinco, considerando o mesmo período de comparação (IBGE, 2012), conforme se pode observar no Gráfico 3.

200.000 180.000 160.000 140.000 120.000 100.000 80.000 60.000 40.000 20.000 0 1940 1950 1960 1970
200.000
180.000
160.000
140.000
120.000
100.000
80.000
60.000
40.000
20.000
0
1940
1950
1960
1970
1980
1991
1996
2010
População (em milhares)
1970 1980 1991 1996 2010 População (em milhares) Urbana Ano Rural Total Gráfico 3 - Evolução

Urbana

Ano Rural
Ano
Rural

Total

Gráfico 3 - Evolução da População Brasileira Fonte: Autor Nota: Baseado com informações de: IBGE, 2012

Dos 5565 municípios brasileiros existentes em 2010, 273 deles contam população acima de 100 mil habitantes e mais de 62% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional é gerado por apenas 100 municípios (IBGE, 2012). Voltando ao cenário global, como apresentado na Figura 2, em 1960 apenas duas cidades contavam com população com mais de 10 milhões de habitantes; em 1980 esse número subiu para quatro; em 2011, para vinte e duas e em 2025 serão trinta e seis cidades. Se em 1960, apenas 10 cidades contavam com população entre 5 e 10 milhões de habitantes, em 2025 serão mais de 40 cidades no planeta (ONU, 2012). A rápida transição para ambientes estritamente urbanos cria muitos desafios para o planejamento, desenvolvimento e operação das cidades. Esses desafios estimulam a criação de novas áreas de conhecimento para a prevenção ou solução dos intrincados problemas decorrentes desse fenômeno (BOLLIER, 1998; HARRISON; DONNELLY, 2011),

27

particularmente quando as atenções se voltam para as atividades humanas que causam o esgotamento ou o uso inadequado dos recursos naturais, degradação do meio ambiente, aquecimento global e, consequentemente, o declínio da qualidade de vida das pessoas (BATAGAN, 2011). Não sem razão, Chefes de Estado e de Governo, reunidos em junho de 2012 na cidade do Rio de Janeiro, por ocasião da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), declararam:

Reconhecemos que as cidades podem promover sociedades sustentáveis no plano econômico, social e ambiental, se bem planejadas e desenvolvidas, inclusive por meio de métodos de planejamento e de gestão integrados. Nesse sentido, reconhecemos a necessidade de uma abordagem holística para o desenvolvimento

que forneça habitação e infraestrutura a preços acessíveis e priorize a

urbanização de favelas e revitalização urbana. Nós nos comprometemos a trabalhar para melhorar a qualidade dos assentamentos humanos, incluindo as condições de vida e de trabalho dos moradores urbanos e rurais no contexto da erradicação da pobreza, de forma que todas as pessoas tenham acesso a serviços básicos, habitação e transporte (RIO+20, 2012, p. 26, tradução nossa).

urbano (

),

1960 1960 1960 1960 1980 1980 1980 1980 Percentagem urbana Percentagem urbana Percentagem urbana Percentagem
1960
1960
1960
1960
1980
1980
1980
1980
Percentagem urbana
Percentagem urbana
Percentagem urbana
Percentagem urbana
Percentagem urbana
Percentagem urbana
Percentagem urbana
Percentagem urbana
Percentagem urbana
Percentagem urbana
População das cidades
População das cidades
População das cidades
População das cidades
População das cidades
População das cidades
População das cidades
População das cidades
População das cidades
População das cidades
1-5 milhões
1-5 milhões
1-5 milhões
1-5 milhões
1-5 milhões
1-5 milhões
1-5 milhões
1-5 milhões
1-5 milhões
1-5 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
10
10
10
10
milhões ou mais
milhões ou mais
milhões ou mais
milhões ou mais
10
10
10
10
10
10
milhões ou mais
milhões ou mais
milhões ou mais
milhões ou mais
milhões ou mais
milhões ou mais
2011
2011
2011
2011
2025
2025
2025
2025
Percentagem urbana
Percentagem urbana
Percentagem urbana
Percentagem urbana
Percentagem urbana
Percentagem urbana
Percentagem urbana
Percentagem urbana
População das cidades
População das cidades
População das cidades
População das cidades
População das cidades
População das cidades
População das cidades
População das cidades
1-5 milhões
1-5 milhões
1-5 milhões
1-5 milhões
1-5 milhões
1-5 milhões
1-5 milhões
1-5 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
5-10 milhões
10
10
10
10
milhões ou mais
milhões ou mais
milhões ou mais
milhões ou mais
10
10
10
10
milhões ou mais
milhões ou mais
milhões ou mais
milhões ou mais

Figura 2 – Distribuição da população urbana por classe de tamanho Fonte: ONU, 2012

De fato, as cidades desempenham importante e vital papel no desenvolvimento social e econômico dos países. Cidades eficientes e produtivas geram os recursos necessários para a

28

realização de investimentos em infraestrutura e serviços que promovem as melhorias nas condições de vida das populações (QUIGLEY, 2009; JOHNSON, 2008). Isto exige de líderes, em todas as esferas de governo, a construção de um novo modelo de gestão urbana com o engajamento, não somente do poder público, mas também de outras partes interessadas (stakeholders), visando ao estreitamento das suas relações e o desenho e execução de planos adequados para a manutenção dos espaços urbanos, em colaboração, inclusive, com atores de outras regiões em uma bem ajustada dinâmica de colaboração (KANTER; LITOW, 2009; RASOOLIMANESH; BADARULZAMAN; JAAFAR, 2011; AHMAD; COLIN; AHMED,

2012).

Para Klink (2009),

As novas formas de governança metropolitana que vêm surgindo como tendência mundial, precisam provar a sua efetividade em termos de equacionar os verdadeiros problemas metropolitanos. Ou seja, além de se caracterizarem pela legitimidade política (pois são embasadas no próprio protagonismo dos atores públicos e privados), as novas formas de governança regional e metropolitana deveriam reduzir os congestionamentos, a poluição ambiental e proporcionar um conjunto de projetos voltados para a competitividade sistêmica das cadeias produtivas regionais, para mencionar alguns dos desafios (KLINK, 2009, p.223).

Essas constatações, não obstante as dificuldades e riscos, fazem com que a rápida urbanização global se transforme em estímulo à inovação (DOGDSON; GANN, 2011) e o desenvolvimento de comunidades sustentáveis uma das mais efetivas soluções para os problemas deles decorrentes (EKINS, 2010; BATAGAN, 2011).

2.2 As cidades no contexto global

Como resultado do intenso crescimento e movimento das pessoas em direção aos ambientes urbanos, a dinâmica das cidades se torna ainda mais proeminente, fazendo desses ambientes não somente o local onde as pessoas vivem, mas também onde se dá o desenvolvimento da humanidade em sentido mais amplo (UN-HABITAT, 2012). Com isto, governos, academia e iniciativa privada celebram o ressurgimento da importância das cidades (MARKUSEN, 2006), colocando-as como a chave da nova configuração do mundo capitalista (BRENNER, 1998; SCOTT et al., 2001; PASTOR; LESTER; SCOGGINS, 2009; QUIGLEY, 2009).

29

Hammer et al.(2011) lembram que o crescimento da economia em áreas urbanas é fortemente alicerçado no capital humano, nas infraestruturas, na localização física e proximidade a mercados e, finalmente, na capacidade de inovação por meio de estratégias que privilegiem as questões ambientais e sociais. Essas áreas urbanas são ambientes favoráveis para a produção e para o desenvolvimento e crescimento globais e são os pontos de destino para um grande número de migrantes, sejam eles domésticos ou estrangeiros (FRIEDMANN,

1986).

Embora possam ser consideradas como espaços intrinsecamente complexos e desordenados (JOHNSON, 2008), as cidades são lugares onde as pessoas encontram e satisfazem suas necessidades e aspirações, materiais e não materiais, a despeito da competição por investidores privados, turistas e estímulo à migração de profissionais qualificados, trazidos pelas mudanças tecnológicas e na economia global (BOLLIER, 1998; STORPER, 1997; BEGG, 1999; DIRKS; GURDGIEV; KEELING, 2010; JONAS, 2012). Essa competição não considera, em geral, somente os aspectos econômicos, mas também as condições de vida ali encontradas (moradia, saúde, segurança, alimentos e água, educação, lazer e cultura), a coerência da distribuição social e de distribuição e ocupação dos espaços, sejam eles públicos ou privados (BEGG, 1999; DIRKS; GURDGIEV; KEELING, 2010) 1 . Scott (2006), afirma que:

As origens do desenvolvimento urbano e o crescimento na moderna sociedade urbana residem, antes de tudo, nas dinâmicas da produção econômica e do trabalho. Embora contestável, essa proposição é defensável. Essas dinâmicas governam o movimento das fortunas de cada área urbana individual, assim como contam de forma significativa para os resultados mais gerais de outras cidades no cenário global. Por certo, as cidades são sempre algo muito mais do que apenas acumulações nuas de capital e trabalho, pois elas são também espaços em que muitos outros tipos de fenômenos, sociais, culturais e políticos – acontecem (SCOTT, 2006, p. 2, tradução nossa).

Tal cenário exige criatividade e capacidades de inovação dos atores que atuam nas cidades, para o melhor desenvolvimento da ordem urbana (BOYKO, 2006; SCOTT, 2006; JOHNSON, 2008; BARNES, 2010) e para motivar os governos a orientarem sua missão e ações nessa direção de forma a potencializar as chances de êxito (BARNES, 2010).

1 Estudo realizado pela consultoria Ernst & Young, aponta que: “A competição por recursos - pessoas talentosas e capital direcionado à inovação – nunca foi tão feroz. Esses recursos são agora mais móveis do que nunca. Então, eles vão migrar para aqueles lugares que tenham o melhor alinhamento de oferta, em termos de “marca”, estratégia, investimento, infraestrutura, serviços e cultura. As cidades também enfrentam um conjunto único de desafios e questões de seus stakeholders, competindo em lados opostos, por demanda e fornecimento (ERNST & YOUNG, 2011, p.6, tradução nossa).

30

Como afirmara Begg (1999), enquanto as empresas competem em termos de preços e características associadas aos seus produtos, as cidades competem em termos de oferta de qualidade de vida, disponibilidade de mão de obra qualificada e ambiente de negócios favorável. Alguns autores (FRIEDMANN, 1986; BRENNER, 1998; BOLLIER, 1998; SCOTT et al., 2001; CHASE-DUNN; JORGENSON, 2001; PARKINSON et al., 2004; SASSEN, 2005; COHEN, 2011) postulam que é de fundamental importância relacionar as tendências socioeconômicas com as características das cidades. Para esses autores, as cidades funcionam como espaços-chave da economia mundial onde se pode observar os efeitos da globalização:

forte acúmulo de capital, desindustrialização, fluxo de capital, expansão e concentração espacial de setores financeiro e manufatureiro e de serviços, segmentação do mercado de trabalho, conflitos étnicos e de classes, polarização socioespacial. Cohen (2011), por exemplo, ao analisar a crise econômica de 2008 que afetou boa parte das economias do planeta, afirma que as cidades foram os principais pontos de impactos negativos trazidos pela crise. Muitas delas, entretanto, se beneficiaram da crise com o retorno de muitos de seus cidadãos que estavam vivendo e trabalhando em outros lugares e com a criação de novas formas de realizar negócios. Se, por um lado, grandes cidades são mais propícias e intensivas em termos de conhecimentos e especializações comparativamente às menos urbanizadas (DURANTON; PUGA, 1999; QUIGLEY, 2009), essas últimas reúnem condições favoráveis à produção e ao crescimento, visto que alguns fatores importantes para a produção (capital e mão de obra) tendem a estar relativamente mais disponíveis (JOHNSON, 2008; EVANS, 2009; BRENNER, 1998). Como afirma Fernandes (2009), entretanto, a capacidade de inovação, o investimento e a população mais bem qualificada vão se concentrar nas grandes cidades, nos níveis mais elevados da rede urbana ou nos demais pontos vantajosos do território para a maximização do lucro e do crescimento. Afirma, ainda, a mesma autora, que essa tendência ao desequilíbrio da rede urbana é tanto maior quanto menos desenvolvidas forem a região e a cidade que a polariza, justo porque a menor renda média e a pouca importância atribuída às competências inovativas da população forçam a concentração ainda maior dos investimentos e serviços nos poucos núcleos superiores da rede urbana (FERNANDES, 2009). Com isto, muitas cidades ao redor do planeta vão se posicionando como importantes polos de geração de oportunidades e riqueza, com expressiva representatividade na economia

31

dos países onde se localizam e, aos poucos, vão se agrupando a outras próximas e que compartilhem de sua vocação e disponibilidade para competir e se projetar no contexto do desenvolvimento nacional e global (PASTOR; LESTER; SCOGGINS, 2009; PWC, 2011). Os processos de integração econômica transnacionais e o crescimento acelerado da urbanização exigem novas estratégias e planejamento com vistas a soluções inovadoras que beneficiem as cidades e seus atores enquanto estabelecem controle e ações de mitigação aos problemas que emergem em igual proporção (LANDRY, 2008; SCOTT et al., 2001). Neste contexto, construtos como “cidade global” e “cidade-região” passam a compor o marco conceitual que busca conhecer, entender e explicar o fenômeno da expansão e da importância dessa nova forma de agrupamento no contexto do crescimento e desenvolvimento econômico, decorrente da globalização da atividade econômica (SASSEN, 2005). A constituição das cidades globais – aquelas que são consideradas os mais importantes pontos no sistema econômico global - motiva a reconfiguração da organização do modelo econômico, conectando de forma inequívoca a globalização do capital a uma nova forma de distribuição espaço-territorial (BRENNER, 1998; SASSEN, 2005) e, graças ao desenvolvimento de novas tecnologias e sistemas de informação, presencia-se a proximidade das atividades econômicas e a intensificação dos fluxos de capital, fazendo crescer em escala global a interação entre as cidades, todas elas (BRENNER, 1998; CASTELLS, 2012). Friedmann (1986) argumenta que as funções globais de controle das cidades globais são diretamente refletidas nas estruturas e nas dinâmicas de seus setores produtivos e de geração de empregos, visto que são os principais locais para a concentração e acumulação de capital internacional. As cidades globais, entretanto, não devem ser concebidas apenas como lugares urbanos globalizados, rígidos e incapazes de sofrer mudanças como decorrência do exercício do poder governamental, mas sim como lugares onde é possível estabelecer uma dinâmica socioeconômica justa e que transcenda as fronteiras geográficas (BRENNER, 1998). Vê-se atualmente a expansão das cidades-região, o que tem se apresentado como grande desafio para todos os atores que nelas atuam, em especial para o poder público. O conceito de cidade-região tem base nas proposições sobre cidades mundiais (FRIEDMANN, 1986) e nas ideias de cidades globais (SASSEN, 1998). Representa um dado aglomerado geográfico que congrega diversas cidades em um espaço, cujas fronteiras são imperceptíveis, conta com alto nível de urbanização e onde estão presentes as principais condições e resultados derivados desse aglomerado, particularmente geração de inovações,

32

riquezas e vida urbana similar e que as transforma em motores da economia regional e global (SCOTT et al., 2001). Essas cidades-região, com populações que ultrapassam os 8 milhões de habitantes, contribuem de forma significativa para o Produto Interno Bruto (PIB) de seus países, como é o caso de Tóquio, no Japão, com mais de 25% de participação ou mesmo Seul, na Coreia, com mais de 69% de participação no PIB nacional ou ainda como no caso do Brasil, em que as cidades-região de São Paulo e Rio de Janeiro respondem por mais de 25% do PIB nacional, com taxas acima de 19% e 7%, respectivamente. Elas se constituem como polos de competição interna e externa, ao mesmo tempo em que são altamente motivadoras para que pessoas migrem para lá em busca de oportunidades de trabalho e boas condições de vida. Isso potencializa os desafios para o poder público em termos de provimento de infraestruturas e serviços aos cidadãos e empresas, ao mesmo tempo em que se reveste de oportunidades de prosperidade para todos os atores, locais ou não. A força dessas cidades-região pode ser observada na Tabela 1 em que se apresenta o ranking populacional e um comparativo entre o PIB do país apurado em 2011 e o PIB da cidade-região projetado para 2012.

Tabela 1 – Ranking das cidades-região Dados da Cidade-região - 2012 (1) Ranking País População
Tabela 1 – Ranking das cidades-região
Dados da Cidade-região - 2012 (1)
Ranking
País
População
PIB
(em US$ BI)
PIB País-2011 (2)
(em BI USS$)
Participação no
PIB do País
Cidade-região
(em mil)
1 Tóquio
Japão
36.933
1.520
5.867
25,91%
2 India
Delhi
21.935
211
1.848
11,43%
3 Mexico
Cidade do México
20.142
411
1.153
35,67%
4 Estados Unidos
Nova Iorque
20.104
1.210
14.991
8,07%
5 Brasil
São Paulo
19.649
473
2.477
19,10%
6 China
Shangai
19.554
517
7.318
7,06%
7 India
Mumbai
19.422
125
1.848
6,76%
8 China
Beijing
15.000
427
7.318
5,84%
9 Bangladesh
Dhaka
14.930
78
112
69,72%
10 India
Calcutá
14.283
46
1.848
2,49%
11 Paquistão
Karachi
13.500
116
210
55,18%
12 Argentina
Buenos Aires
13.370
384
446
86,18%
13 Estados Unidos
Los Angeles
13.223
787
14.991
5,25%
14 Brasil
Rio de Janeiro
11.867
195
2.477
7,87%
15 Filipinas
Manila
11.654
154
225
68,39%
16 Rússia
Moscou
11.472
520
1.858
28,00%
17 Japão
Osaka-Kobe
11.430
655
5.867
11,16%
18 Egito
Cairo
11.031
128
230
55,94%
19 Turquia
Istambul
10.953
301
775
38,85%
20 Nigéria
Lagos
10.788
45
244
18,44%
21 França
Paris
10.516
669
2.773
24,13%
22 China
Guangzhou
10.486
320
7.318
4,38%
23 China
Shenzhen
10.222
302
7.318
4,13%
24 República da CoreaSeoul
9.751
774
1.116
69,33%
25 China
Chongqing
9.732
265
7.318
3,62%
26 Indonésia
Jacarta
9.630
225
847
26,56%
27 Estados Unidos
Chicago
9.545
525
14.991
3,50%
28 Perú
Lima
8.950
35
177
19,78%
29 Reino Unido
Londres
8.923
731
2.445
29,90%
30 China
Wuhan
8.904
178
7.318
2,44%

Fonte: Autor Nota: Baseado com informações de:

(1) Brookings Institution em http://www.brookings.edu/research/interactives/global-metro-monitor-3, 2012. (2) National Accounts Main Aggregates Database em http://unstats.un.org/unsd/snaama/dnllist.asp, 2012.

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Há que se reconhecer, neste caso, que as riquezas já não estão circunscritas às fronteiras geográficas dessas cidades-região, mas se refletem em todo o planeta, direta ou indiretamente. Como afirma Sassen (1998), as cidades são a espinha dorsal da economia mundial, funcionando como espaços vitais para que a integração local-global se estabeleça de forma plena, alimentando o crescimento das matrizes de empresas multinacionais que, por consequência, estimulam um complexo sistema de prestação de serviços.

2.2.1 As cidades como polos de diversidade, singularidade e globalização.

A diversidade de características nas cidades é um elemento crítico para o incremento das suas capacidades de inovação e enfrentamento dos desafios próprios da urbanização, isso por que a inovação é altamente interativa e se baseia na recombinação de diferentes elementos de conhecimento e competências (FELDMAN; AUDRETSCH, 1999; CORIAT; DOSI,

2002).

Para Storper (1997), a natureza da cidade contemporânea pode ser qualificada como uma socioeconomia local ou regional, cuja utilidade para as forças do capitalismo global é precisamente o conjunto de relações sociais específicas, diferenciadas e localizadas que nela ocorrem. De acordo com Markusen (2006), as cidades podem ser pensadas com base em três dimensões que as distinguem umas das outras: produção (trabalho, terra, capital e tecnologia), consumo (padrões de consumo por parte dos residentes urbanos, refletidos na distribuição geral da atividade social) e identidade (como as cidades são reconhecidas por seus residentes e não residentes como sendo culturalmente únicas). Essas dimensões englobam os contextos enfrentados e as decisões tomadas por parte de governos, empresas, cidadãos e outros atores que atuam na cidade. As proposições desses autores reforçam a ideia de que a similaridade entre as cidades é algo possível, mas a diferença entre elas é uma realidade. Cada cidade é única, embora guarde similaridades com outras quanto a aspectos próprios das dinâmicas urbanas (sistemas de educação formal; saúde, transportes públicos, estrutura etária, cultural, ocupação, habilidades; competências e gostos da população; na organização da produção em termos de dimensão e modo de organização das empresas; na

34

variedade institucional, nas formas de produção e de fornecimento de serviços públicos e privados) e das estratégias que adota para atingir o desenvolvimento econômico e se posicionar globalmente no cenário da competitividade (BOLLIER, 1998; DURANTON; PUGA, 1999; MARKUSEN, 2006; JOHNSON, 2008; JONAS, 2012). Para Wolfe e Bramwell (2008), se o crescimento econômico das cidades se dá por sua especialização na área industrial, por exemplo, seu destino econômico está mais vinculado a outros setores mais específicos. Esta constatação pode trazer impactos significativos para a localidade e, nesse tipo de situação, as estruturas institucionais são vitais para a manutenção de níveis aceitáveis de atividades. As cidades que contam e desenvolvem suas capacidades de intensificar o conhecimento e a inovação, estão mais propensas a obter sucesso, mesmo que em condições de competição intensa contra outras cidades mais proeminentes (WOLFE; BRAMWELL,

2008).

Segundo Klink (2009, p. 218), “particularmente nas regiões metropolitanas e nas cidades-região com maior densidade populacional e complexidade das cadeias produtivas, presenciamos o surgimento de uma agenda estratégica em torno dos temas de cooperação, ação coletiva e mobilização produtiva de atores públicos e privados”. Porter (1999) já afirmara que a competição e a expectativa de vantagem competitiva extrapolam o âmbito empresarial puramente para assumir dimensões que envolvem também as localidades onde se baseiam. Segundo esse autor, o relacionamento entre os governos e outras organizações deveria fomentar novos pensamentos sobre as políticas governamentais considerando que empresas, que se estabelecem no âmbito local, competem para além de seus perímetros geográficos e, portanto, hão de se basear em estratégias que vão do local para o global.

Para Porter (1999),

O desenvolvimento de estratégias internacionais (ou além de determinada localidade) exige dois novos conjuntos de ideias. O primeiro diz respeito ao papel da localização na competição. À medida que começa a competir além-fronteiras, a empresa desenvolve a capacidade de localizar suas atividades em qualquer lugar. Assim, a estratégia internacional deve envolver o conhecimento de como a localização afeta a vantagem competitiva. O segundo tema, decorrente da competição internacional, é a oportunidade de conquistar vantagem competitiva através da coordenação das atividades além-fronteiras em redes regionais ou globais. Trata-se da integração da teoria econômica e a prática gerencial, ou seja, o entendimento da essência da competição (PORTER, 1999, p.12-13).

As cidades se apresentam como solução para as crises globais e a combinação de investimentos, recursos naturais e recursos humanos colocam muitas delas em condições mais

35

vantajosas do que outras (STORPER, 1997; CHASE-DUNN; JORGENSON, 2001; MARKUSEN, 2006). As estratégias de inserção das cidades no cenário global vão se configurando de forma mais intensa, resultando em maior participação dos atores locais, regionais e globais, promovendo um intensivo intercâmbio de produtos, serviços e modos de vida (HUANG; LEUNG; SHEN, 2007; PURCELL, 2007). Como afirma Jonas (2012, p. 266, tradução nossa), “as discussões sobre concorrência, globalização e desenvolvimento econômico são prioritárias em relação às discussões sobre políticas territoriais, visto que muitas cidades estão se tornando muito mais competitivas, eficientes e resilientes”. De acordo com o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (UN- HABITAT):

As cidades fornecem plataformas prontas, flexíveis e criativas, que podem mitigar os efeitos das crises regionais e globais, de forma pragmática e equilibrada. Elas podem agir como os fóruns onde os vínculos de confiança, respeito e inclusão, que são parte de qualquer solução de crises, podem ser construídos. Agindo localmente em diferentes áreas e espaços urbanos, as respostas para as crises podem ser estruturadas e incluídas nas agendas nacionais para obter mais eficiência, com maiores chances de respostas flexíveis e efeitos sociais mais benéficos. Apesar de não serem imunes ao partidarismo divisionista e ideologias que podem paralisar a tomada de decisões, as cidades se encontram em posições mais privilegiadas do que governos nacionais para negociar e concordar sobre respostas com as partes interessadas locais. Elas podem criar novas parcerias e pactos sociais locais que, por sua vez, podem fortalecer os governos nacionais em face dos desafios globais (UN-HABITAT, 2012, p. 11, tradução nossa).

No atual contexto da diminuição das fronteiras e impulsionadas pelas interdependências das atividades econômicas de forma colaborativa e complementar, as cidades se colocam em posição de assumir novos papéis no cenário global, assim como suas estruturas de gestão se posicionam como coordenadores e articuladores das funções públicas junto aos atores que atuam ou que podem atuar nessas cidades (BRENNER, 1998; SCOTT et al., 2001; SASSEN, 2005; HUANG; LEUNG; SHEN, 2007). Embora não seja recente, o tema globalização ainda tem estado no centro das discussões nas esferas governamentais, empresariais e acadêmicas. Ela se configura como uma força que organiza os mercados e os sistemas de produção de forma alinhada a critérios de competição supranacional, impulsionando as cidades ao interrelacionamento doméstico e internacional (STORPER, 1997; PARKINSON et al. 2004), influenciando comportamentos dos governos, cidadãos, empresas e outros atores. Este fenômeno tem exigido que os formuladores de políticas fiquem atentos a possíveis ações que lhes permitam mitigar as ameaças e potencializar as oportunidades, levando em conta as possíveis limitações de compreensão e de ação (SCOTT, 2006).

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Nesse contexto, as cidades têm se configurado como uma importante arena de competição e promoção de estratégias, assumindo papel preponderante nos rumos dos países enquanto se observa o declínio do papel desses no cenário global (HUANG; LEUNG; SHEN,

2007).

O novo papel das cidades, motivado pelo aumento da escala e complexidade das transações e pela crescente intensidade da demanda por serviços na organização de todos os setores da economia (SASSEN, 1998; SCOTT et al., 2001), mostra sua importância no cenário da economia global.

2.2.2 Cidades criativas, cidades inovadoras e o papel do setor público

As necessidades presentes e futuras das cidades impulsionam a busca e o desenvolvimento de novas soluções que façam frente a essas necessidades. O crescimento das economias, motivado pelo crescimento das demandas decorrentes do aumento populacional e da urbanização não significa que o processo de desenvolvimento esteja presente e, portanto, garantir crescimento com desenvolvimento passa a ser primordial para o sucesso das cidades e dos países. As cidades enfrentam importantes desafios e mudanças dramáticas em suas dinâmicas econômicas e sociais. Se o reflorescimento das cidades é assunto largamente discutido (BRAY, 1993; MARKUSEN, 2006; LANDRY, 2008), a manutenção desse reflorescimento só pode ser alcançado se elas, cidades, aproveitarem ao máximo os talentos e a criatividade dos atores que nelas atuam (SCOTT, 2006). Para Landry (2008), a ideia de uma cidade criativa é um “toque de clarim” que objetiva chamar as pessoas e as organizações, governamentais ou não, para a criação de novas formas de desenvolvimento e melhoria da vida urbana, reativando e revitalizando seus espaços. Ainda segundo este autor, não importa qual é a fonte dessa criatividade, mas há que se considerar que as condições mínimas para que ela surja devem ser criadas e comunicadas a todos os atores (LANDRY, 2008). Esta dinâmica estabelecida de forma plena pode ajudar ao poder público a vislumbrar soluções para problemas até então aparentemente insolúveis e, portanto, propiciar o surgimento de inovações que façam sentido para o contexto onde se realiza. Desta forma, a

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inovação, fundamentada em consistentes e exequíveis planos estratégicos, passa a ser fator crítico de sucesso não somente para o ressurgimento da importância das cidades, mas também para sua existência através dos tempos e com desenvolvimento econômico consistente. Na visão de Evans (2009), a criatividade econômica nas cidades, em seu contexto de conteúdo e conhecimento, compreende o desenho de produtos e serviços e o aprendizado com as experiências e esses aspectos devem estar intimamente ligados ao ambiente cultural onde acontecem. As velhas formas de tratar os novos problemas, estes decorrentes do crescimento e envelhecimento da população e da crescente urbanização, parecem não produzir os resultados esperados. Ao se estabelecer um ambiente urbano criativo – a creative milieu – as cidades podem se beneficiar de um fluxo contínuo de geração de ideias e invenções (HALL, 2000; SCOTT, 2006; LANDRY, 2008; EVANS, 2009), de forma a entender e implementar novas dinâmicas de gestão e liderança, de educação, de atividade econômica e de inserção no contexto global, com flexibilidade, adaptabilidade e resiliência. As cidades criativas são modernamente organizadas ao redor de sistemas produtivos, marcados pela rede de intercâmbio entre empresas e mercados de trabalho flexíveis, que oferecem um contexto importante para a geração de informações de muito alto nível, produzindo experimentações e conhecimentos fundamentais para os processos produtivos. Segundo Scott (2006),

Nas cidades onde grandes grupos de trabalhadores criativos são empregados em diferentes setores, muitas vezes podemos observar algo como um equilíbrio emergente entre o sistema de produção de um lado e do ambiente cultural urbano no outro. Em condições ideais, de cada lado desta dualidade aumenta-se e potencializa- se o funcionamento qualitativo do outro, e, em conjunto, constituem uma das mais importantes bases da cidade criativa. Os formuladores de políticas ao redor do mundo estão começando a reconhecer esta dualidade interdependente, estabelecendo programas locais de desenvolvimento econômico, em combinação com os esforços de promoção cultural de vários tipos (SCOTT, 2006, p. 10, tradução nossa).

A visão schumpeteriana de desenvolvimento econômico mostra que este só é possível se “as mudanças da vida econômica não lhe forem impostas de fora, mas que surjam de dentro, por iniciativa própria” (SCHUMPETER, 1997, p. 74). Esta afirmação fortalece a proposição de que a exploração bem sucedida de ideias é fundamental para a realização de resultados de longo prazo e que o desenvolvimento econômico, portanto, só é possível de ser alcançado por meio da inovação. Este estudioso ensina que a inovação é um ato empreendedor. Segundo ele, a inovação é caracterizada pela introdução de um novo bem ou serviço no mercado; pelo incremento de qualidade neste bem ou serviço e com a qual os consumidores ainda não estejam

38

acostumados; pela introdução de um novo processo produtivo, que não tenha sido ainda provado pela indústria e que tenha base em uma descoberta científica nova; pela abertura de um novo mercado; pela obtenção de uma nova fonte de matérias-primas, ou; pela implementação de uma nova forma de organização (SCHUMPETER, 1997). Ao longo dos anos, outros autores foram se somando à Schumpeter, mostrando que a inovação é um processo transformacional contínuo, que contém vários estágios, desde a ideia até sua implementação, capaz de produzir resultados de curto e longo prazos e que implica em intuição e quebra de paradigmas, como se pode observar no Quadro 2.

Autor

 

Definição

 

Kline; Rosenberg (1986)

Inovação é algo novo, não necessariamente inédito, para quem fará uso e é controlada por dois conjuntos de forças distintas que interagem entre si: as forças do mercado e as forças do progresso nas fronteiras científicas e tecnológicas.

Davila; Epstein; Shelton (2007)

A

inovação é um processo de gestão que exige instrumentos, regras e

disciplina específicos, requerendo sistemas de avaliação e incentivos para

que possa proporcionar rendimentos consideráveis e continuados, de forma a redefinir uma indústria pelas combinações de modelos de negócios e tecnologias.

Freeman (2008)

A

inovação é o processo que inclui as atividades técnicas, concepção,

desenvolvimento, gestão e que resulta na comercialização de novos (ou melhorados) produtos, ou na primeira utilização de novos (ou melhorados) processos.

Tidd; Bessant; Pavit (2008)

A

inovação é um processo de fazer de uma oportunidade uma nova ideia e

de

colocá-la em uso da maneira mais ampla possível.

 

Figueiredo (2009)

A

inovação

é

a

implementação

de

ideias

criativas

dentro

de

uma

organização.

 

Dogdson; Gann (2011)

A

inovação é a aplicação de novas ideias, como novas tecnologias,

capazes de produzir resultados tangíveis.

 

Jalonen (2012)

A

inovação é definida como uma ideia, prática ou objeto percebido por

quem adota como algo novo e como uma melhoria, desde que implementada.

Quadro 2 – Definição de inovação Fonte: Autor.

Todas essas visões conceituais, independentemente do momento histórico em que foram declaradas, se resumem na definição trazida pelo Manual de Oslo:

Uma inovação é a implementação de um produto (bem ou serviço) novo ou significativamente melhorado, ou um processo, ou um novo método de marketing, ou um novo método organizacional nas práticas de negócios, na organização do local de trabalho ou nas relações externas (FINEP, 2005, p. 55).

Embora seja possível notar muitos aspectos positivos associados ao conceito de inovação, há que se considerar que o seu valor potencial pode ou não ser realizado no futuro. Essa incerteza pode inibir a implementação das mudanças pretendidas, particularmente em

39

ambientes que apresentem instabilidade e pressões na dinâmica política, empresarial e até mesmo cultural (HURST, 1982; KLINE; ROSENBERG, 1986; JALONEN, 2012) ou ainda no descompasso entre o ritmo do progresso e a oferta de tecnologias e a certeza de sua aplicabilidade presente ou futura (CRISTENSEN, 1997). Governos e empresas, historicamente, enfrentam dificuldades em realizar investimentos de longo prazo, tendo em vista os curtos ciclos políticos e as pressões de acionistas (MACHIBA, 2010). Os possíveis efeitos indesejáveis causados pela incerteza, no contexto da inovação, também podem ser positivos, na medida em que ela é parte do processo e desperta as atenções para os riscos de se fazer ou de não se fazer algo novo. Embora a inovação seja largamente impulsionada pelo ímpeto criativo do inovador, é uma hipótese para a qual a verdade não pode ser estabelecida com certeza (JALONEN, 2012). A criatividade e a inovação não estão restritas às empresas. Elas podem ter origem em quaisquer atores da sociedade: empresas, governos e serviços públicos, academia ou na sociedade civil como um todo (HALL, 2000; SCOTT, 2006; GAWEL, 2012) e podem acontecer em quaisquer lugares geográficos, sem privilégio deste ou daquele (JOHNSON, 2008; AHMAD; COLIN; AHMED, 2012). Como afirmam Dutta et al. (2011), esses atores usualmente desenvolvem atividades complementares como, por exemplo, um protótipo que pode ser construído em uma universidade e introduzido no mercado por um determinada indústria. No âmbito do setor público, consideradas as características deste setor relativamente a riscos, experimentação (CATS-BARIL; THOMPSON, 1995; NAM; PARDO, 2011b) e à sua organização burocrática estruturada para executar tarefas com estabilidade e consistência, resistindo a mudanças ou interrupções de suas tarefas (MOTTA; VASCONCELLOS, 2006), a inovação pode ser estimulada e facilitar de forma significativa as atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D), promovendo projetos-piloto dentro de um quadro que especifica claramente as metas, resultados e indicadores, de modo a permitir o seu monitoramento e avaliação. Projetos bem sucedidos podem se qualificar para o acesso a diversas fontes de financiamento privadas (HARTLEY, 2005; BARNES, 2010; DUTTA et al., 2011; HAMMER

2011), além de ser capazes de transformar e desenvolver a forma como a dinâmica

et al

, social acontece, resultando em crescimento e desenvolvimento econômico e gerando conhecimento que possa ser compartilhado e utilizado por outras cidades (JOHNSON, 2008; DOGDSON; GANN, 2011). Evitar o insucesso é fundamental no setor público, tendo em

40

vista sua obrigatoriedade da prestação de contas à sociedade (DAWES et al., 2004; POTTS; KASTELLE, 2010). A exigência para que as inovações tenham sucesso está na existência de ambientes legais e político-institucionais estáveis e modernos; nas dinâmicas organizacionais e nas práticas de gestão e de governança consistentes; na disponibilidade de recursos técnicos, humanos e financeiros (CATS-BARIL; THOMPSON, 1995; BROWN; BRUDNEY, 1998; HARTLEY, 2005; JOHNSON, 2008; DUTTA et al., 2011; NAM; PARDO, 2011b). Contemporaneamente, as cidades são os maiores contribuidores para o relacionamento fornecedor-consumidor de inovações. A inovação nas cidades é estimulada pela alta concentração de pessoas com grande proximidade, criando vantagens econômicas nos custos de transações e incrementando o processo de difusão e motivando mais inovações (WOLFE; BRAMWELL, 2008; DOGDSON; GANN, 2011). Desta forma, as cidades propícias à inovação devem coordenar as combinações necessárias de recursos técnicos, financeiros e administrativos, competências e gestão para criar e implementar as inovações necessárias à ordem urbana. A perspectiva de vários aspectos das soluções é especialmente necessária quando os problemas estão relacionados à sustentabilidade econômica, ambiental e social, e resolvê-los só é possível em ambientes de cidades criativas que apoiem a aprendizagem interativa e a inovação e constantemente recriem novos tipos de ordem urbana (DIRKS; GURDGIEV; KEELING, 2010; EKINS, 2010; MACHIBA, 2010; RASOOLIMANESH; BADARULZAMAN; JAAFAR, 2011; AHMAD; COLIN; AHMED, 2012). Cada cidade é um conjunto particular de ativos, distribuídos e gerenciados de formas diferentes. Algumas cidades são mais bem equipadas do que outras, o que colabora para as suas capacidades de competição e de provimento de serviços. Diferenças entre as cidades em termos de apetite para a inovação ou implementação de novas tecnologias definem as diferenças no ambiente econômico entre elas (BEGG, 1999; DIRKS; GURDGIEV; KEELING, 2010; TOPPETA, 2010; RASOOLIMANESH; BADARULZAMAN; JAAFAR,

2011).

Para Nam; Pardo (2011a), a inovação nas cidades ocorre nas infraestruturas e nos processos, viabilizando a realização da visão de inteligência do poder público para os cidadãos. Alguns autores (KANTER; LITOW, 2009; EGER, 2009; BATAGAN, 2011; McKINSEY, 2012) afirmam que a inovação no âmbito das cidades é caracterizada como uma iniciativa que visa promover a interação entre os diferentes atores por meio do

41

compartilhamento e integração de conhecimentos e informações, o que requer do poder público a implementação de políticas e de infraestruturas tecnológicas que permitam que cidadãos e organizações juntem esforços com vistas à implantação de sistemas urbanos eficientes e inteligentes para além das fronteiras e jurisdições. Cada cidade trata as inovações em contextos únicos, capazes de influenciar a forma como ela desenha e desenvolve suas estratégias para se tornar mais inteligente (TOPPETA, 2010). Respeitados os contextos e particularidades, as estratégias para a criação de cidades inteligentes se direcionarão pela inovação em tecnologias - como mecanismo para mudar e atualizar ferramentas tecnológicas que possam melhorar os serviços e criar condições onde elas possam ser mais bem usadas; pela inovação em organização - como mecanismos para criar as capacidades organizacionais e gerenciais para o efetivo uso das ferramentas tecnológicas; e pela inovação em políticas - como um mecanismo para endereçar os problemas urbanos técnicos e não técnicos e criar as condições para o estabelecimento de cidades inteligentes (NAM; PARDO, 2011b). A existência de um sistema de inovação, entretanto, não garante que a cidade posicione todas as suas capacidades em direção ao desenvolvimento sustentável. Para Johnson (2008), é fundamental que a cidade reconheça a premência do desenvolvimento sustentável e desenhe estratégias que o tenham como principal motivador. Introduzir inovações que atendam às três dimensões da sustentabilidade – econômico, social e ambiental - é imprescindível para que sejam criadas alternativas às abordagens convencionais que privilegiam apenas o foco financeiro sem maiores atenções aos impactos ambientais e sociais positivos que novas tecnologias possam trazer (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008; MACHIBA, 2010; ELKINGTON, 2012). Para Hansen; Grosse-Dunker; Reichwald (2009), a inovação é um processo de grande relevância e importância para que as organizações atinjam o desenvolvimento sustentável e este para aquele, criando um circulo virtuoso. As demandas por recursos e a crescente consciência dos governos, empresas e cidadãos com relação às questões ambientais e sociais estão estimulando novos comportamentos, exigindo maior eficiência e inovação com vistas à sustentabilidade (ALMEIDA, 2007; BARBIERI et al., 2010). Colocadas essas reflexões, fica evidente que a inovação é pré-requisito para o desenvolvimento e as cidades afetam e são afetadas diretamente por ela, determinando o ritmo e a escala deste desenvolvimento. Assim como a inovação é a chave para o desenvolvimento

42

econômico (SCHUMPETER, 1997), as cidades são a chave para o desenvolvimento e prosperidade dos países (JOHNSON, 2008). Como locais propícios à inovação, as cidades podem ser os principais geradores de soluções para os problemas que lá também surgem (GUPTA, 2002; JOHNSON, 2008). Se a globalização e o advento de tecnologias trouxeram perda de postos de trabalhos e o desaparecimento de empresas, trouxeram também maior proximidade entre mercados e pessoas, além de abrir novas possibilidades de especialização e ocupação para as pessoas (FELDMAN; AUDRETSCH, 1999; BOSCHMA, 2005; HENDERSON, 2007). Entender e convergir tais perspectivas em busca de soluções significa intensificar os esforços em inovação. Inovação que possa trazer novas práticas e aplicações para coisas nem tão novas, determinando a forma como as cidades serão operadas no futuro próximo.

2.2.3 Os desafios do desenvolvimento sustentável nas cidades

As arenas de debate contemporâneas têm sido marcadas por discussões acerca da manutenção do equilíbrio entre economia, meio ambiente e equidade social. Questões como combate à pobreza, concentração populacional, saúde, água e alimentos, equilíbrio econômico entre sociedades e impacto das atividades humanas sobre o meio ambiente, são temas que têm dominado as agendas de governos, empresas, academia e também o dia-a-dia do cidadão comum (YOON; TELLO, 2009; ELKINGTON, 2012). Os esforços rumo ao desenvolvimento sustentável são refletidos em grandes marcos havidos nos últimos cinquenta anos, como se pode observar na linha de tempo que segue, de acordo com Pezzoli (1997), Almeida (2007), Louette (2007), Veiga (2008), Dunn (2010), Elkington (2012) e Rio+20 (2012).

Década de 1960

Marco inicial em que a contextualização dos fundamentos da sustentabilidade – economia, meio ambiente e sociedade – passam a ser tratados de forma conjunta. O ano de 1962 é tido como o ano em que se tem a primeira tentativa de sistematização dos princípios de sustentabilidade, com a publicação da obra de Rachel Carson intitulada “Primavera Silenciosa”. Essa autora lança as primeiras

43

 

reflexões para o entendimento das relações entre economia, meio ambiente e as questões sociais, combatendo a criação de produtos nocivos à saúde e ao meio ambiente enquanto chama a atenção da opinião pública para a vulnerabilidade da natureza frente às ações do homem.

1972

A Organização das Nações Unidas (ONU) realiza em Estocolmo, na Suécia, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente. Essa conferência global declarou 26 princípios que deveriam ser perseguidos pelos países signatários, com particular atenção à manutenção, recuperação e melhoria das capacidades de o planeta produzir recursos renováveis essenciais à vida. Como resultado principal dessa conferência, cria-se, então, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), com a missão de prover liderança e encorajar parcerias para a preservação do meio ambiente, inspirando, informando e permitindo às nações e pessoas melhorarem sua qualidade de vida sem comprometer a vida das futuras gerações. Sob o patrocínio do Clube de Roma 2 , especialistas publicam um importante relatório intitulado “Os Limites do Crescimento”. Esse relatório apresenta estudos sobre os limites do crescimento industrial, face ao crescimento populacional e ao intenso uso de

recursos naturais, concluindo com severas críticas à busca incessante

do

crescimento econômico a qualquer custo. Seguem-se inúmeros

estudos e discussões a respeito das questões socioambientais e para

estabelecimento de um novo modelo de desenvolvimento econômico.

o

1983

A

ONU cria a Comissão Mundial para o Meio Ambiente e

Desenvolvimento (CMMAD).

2 Criado em 1968 por Aurélio Pecci (industrial e acadêmico italiano, top manager da Fiat e Olivetti) e Alexander King (cientista escocês) com recursos da Volkswagen, Ford, Olivetti entre outras, era formado por pessoas ilustres que se reuniam para debater questões mundiais relacionadas à política, economia, meio ambiente e desenvolvimento sustentável.

44

1987

Como resultado dos esforços de vários países, a CMMAD lança em 1987 um documento conhecido por Relatório Brundtland 3 , onde se

define, pela primeira vez, o conceito de desenvolvimento sustentável: atender as necessidades presentes sem comprometer as gerações futuras em terem suas necessidades igualmente atendidas.

1988

A

Organização Meteorológica Mundial e o PNUMA constituem o

Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC - Intergovernamental Panel on Climate Change), com a missão de fornecer informações científicas, técnicas, ambientais, sociais e econômicas para o entendimento dos fenômenos causadores das

mudanças climáticas. Ao longo de sua existência, o IPCC tem disponibilizado importantes estudos sobre as causas prováveis e suas consequências relativamente ao aquecimento global, além de propor medidas de adaptação e mitigação em diferentes cenários.

1992

A

ONU promove a Conferência das Nações Unidas sobre Meio

Ambiente e Desenvolvimento, conhecida também como Eco-92 ou Rio-92, realizada na cidade do Rio de Janeiro. Essa conferência estabeleceu importantes discussões e marcos para o desenvolvimento sustentável, estando entre eles a Declaração do Rio (Carta da Terra) com 27 princípios que orientam a interação pessoas-planeta, os princípios orientadores para o posterior estabelecimento do Protocolo de Kyoto e a Agenda 21, primeiro documento a ter alcançado convergência dos líderes mundiais e que apresenta os fundamentos para que se pudesse atingir a sustentabilidade do planeta do século XXI.

1997

Na cidade de Kyoto, Japão, líderes mundiais de 84 países firmam pela primeira vez um acordo em que se comprometem a reduzir as emissões de gases de efeito estufa em seus países. Por esse acordo, conhecido por Protocolo de Kyoto, os países, principalmente os industrializados, se comprometiam a reduzir em aproximadamente

3 O Relatório Brundtland é também conhecido por Nosso Futuro Comum (Our Common Future) e foi publicado em 1987, como decorrência das discussões da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Recebeu este nome em homenagem à primeira-ministra da Noruega, Sra Gro Harlem Brundtland, que teve a missão de chefiar esta comissão.

45

 

5,2% de suas emissões entre os anos de 2008 e 2012, tendo como linha de base as aferições obtidas em 1990 e características específicas de cada país relativamente às emissões (países com mais emissões estavam obrigados a maiores níveis de redução): União Europeia em 8%; Estados Unidos em 7% e Japão em 6%; países em franco desenvolvimento como Brasil, México, Argentina, Índia e principalmente a China, não receberam metas de redução.

1999

Surgem importantes movimentos congregando de forma mais contundente a iniciativa privada. Nesse ano é lançado o Índice Dow Jones de Sustentabilidade, com o objetivo de acompanhar o desempenho financeiro das empresas que lideram o movimento de sustentabilidade no mundo e que têm papéis comercializados na Bolsa de Valores de Nova Iorque, EUA. No mesmo ano, o então secretário geral da ONU, Kofi Annan 4 , lança um desafio aos líderes empresariais mundiais durante o Fórum Econômico Global: o Pacto Global propunha a mobilização da iniciativa privada em torno do alinhamento aos princípios dos direitos humanos, trabalho, meio ambiente e combate à corrupção.

2000

Na cidade de Nova Iorque, EUA, ocorre a Cúpula do Milênio da ONU e que deu origem ao documento conhecido por Declaração do Milênio. Nesse documento, os 191 países membros da ONU concordam com metas concretas a serem atingidas até o ano de 2015, estabelecendo a erradicação da pobreza absoluta como prioridade número 1 da ONU.

2002

Na cidade de Johanesburgo, África do Sul, acontece a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, também conhecida como Cúpula do Milênio ou Rio+10. O objetivo da conferência foi prosseguir com as ações da Agenda 21 e avaliar as realizações e dificuldades decorrentes das metas propostas na conferência Eco-92.

2003

É um ano marcado pelo lançamento do documento conhecido por Princípios do Equador. Nesse documento, o Banco Mundial e a

4 Kofi Atta Annan, nascido 8/4/1938, é um diplomata de Gana e foi, entre 1/1/1997 e 1/1/2007, o sétimo secretário-geral da Organização das Nações Unidas e Nobel da Paz em 2001.

46

 

International Finance Corporation (IFC) estabeleceram, em trabalho conjunto com inúmeros bancos privados, os critérios de análise de risco socioambiental para a concessão de financiamentos de projetos com investimentos acima de 50 milhões de dólares. Esse limite para análise de risco foi, em 2006, reduzido para 10 milhões de dólares, por conta da atualização do documento inicial e que é conhecido por Princípios do Equador II.

2005

As empresas brasileiras passam a ser averiguadas quanto a suas práticas de sustentabilidade, a exemplo do que já acontecia nos EUA desde 1999. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) lança o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), cujo objetivo é acompanhar o desempenho financeiro das empresas líderes em sustentabilidade e que têm ações negociadas na Bovespa.

2012

Vinte anos depois da Eco-92, acontece na cidade do Rio de Janeiro a

conferência conhecida por Rio+20. Esta conferência objetivava renovar e assegurar o comprometimento político para o desenvolvimento sustentável, avaliando o progresso feito até aquele momento e as lacunas existentes na implementação dos objetivos declarados nos principais encontros sobre desenvolvimento sustentável anteriores. Além disso, pretendeu abordar os desafios emergentes, com foco na implementação de uma economia verde, na erradicação da pobreza e no estabelecimento de um quadro institucional para o desenvolvimento sustentável. Como resultado da conferência, um documento conhecido por ‘O Futuro Que Nós Queremos’ foi reconhecido e promulgado por líderes mundiais, onde

estão 280 princípios para o almejado desenvolvimento sustentável. Esta narrativa sobre os avanços nos esforços dos líderes globais a respeito do direcionamento para o desenvolvimento sustentável coloca as cidades em posição de grande importância no contexto da perpetuação do planeta. Sua importância foi declarada pelos líderes globais, signatários do documento intitulado ‘O Futuro Que Queremos’, em que se comprometem a promover as cidades como polos para o desenvolvimento sustentável:

Comprometemos-nos a promover uma estratégia integrada para o planejamento e construção de cidades e assentamentos urbanos sustentáveis, nomeadamente mediante o apoio das autoridades locais, de forma a aumentar a sensibilização do público e a participação dos residentes urbanos, incluindo os pobres, na tomada de

47

decisões. Também nos comprometemos a promover políticas de desenvolvimento sustentável que suportem a habitação e serviços sociais inclusivos; um ambiente de vida seguro e saudável para todos, especialmente para as crianças, jovens, mulheres, idosos e deficientes; energia e transporte viáveis e com preços acessíveis; promoção, proteção e restauração de espaços verdes seguros nas cidades; água potável e limpa e saneamento; qualidade do ar; geração de empregos decentes; melhoria do planejamento urbano; e urbanização de favelas. Apoiamos ainda a gestão sustentável dos resíduos através da aplicação do princípio dos 3R (reduzir, reutilizar e reciclar). (Rio+20, 2012, p. 26, tradução nossa).

A discussão sobre o desenvolvimento sustentável, outrora um assunto sem prioridade, tem se tornado pauta constante da agenda de governantes, empresários, dirigentes de

organizações não governamentais, academia e até da mídia (YOON; TELLO, 2009; PRATTIPATI, 2010; CRITTENDEN et al., 2010; ELKINGTON, 2012), que buscam encontrar possibilidades e oportunidades para enfrentar a escassez e o desperdício de recursos naturais e promover o equilíbrio entre demanda e oferta, particularmente com relação aos bens e serviços necessários à vida (GUPTA, 2002; ALMEIDA, 2007; VETTORAZZI; EDDINE; FREITAS, 2008; DUNN, 2010). Não encontrar sucessos nessa busca implica importantes danos aos meios produtivos e à capacidade de competição das cidades. Alcançar

a sustentabilidade é um problema complexo a ser tratado por todos os atores: organizações e pessoas (BEDDOE et al., 2009 apud METCALF; BENN, 2013). De acordo com a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD), medidas importantes devem ser adotadas e implementadas para se promover o desenvolvimento sustentável. Entre essas medidas é importante que se tenha atenção à

preservação da biodiversidade e dos ecossistemas; à garantia de recursos naturais necessários

à vida (água, alimentos, energia) em longo prazo; à urbanização e integração entre o campo e

a cidade; o atendimento às necessidades básicas das populações (saúde, escola, moradia); à

utilização consciente de energia com o incentivo ao desenvolvimento de tecnologias com uso de fontes renováveis; ao uso de tecnologias ecologicamente adaptadas como base para o aumento da produção industrial nos países não industrializados (CMMAD, 1991). Para que se possa compreender de forma mais efetiva a extensão e profundidade destas recomendações, é fundamental ter-se presente que o desenvolvimento sustentável deve ser “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras de atenderem às suas próprias necessidades” (CMMAD, 1991, p. 9). Ao se ingressar na discussão sobre desenvolvimento sustentável, consideradas as perspectivas interpostas pela CMMAD, é fundamental que o conceito de sustentabilidade esteja presente. A sustentabilidade representa a expansão do modelo tradicional de realizar transações de qualquer natureza para um novo modelo, que passa a considerar o desempenho

48

ambiental e social dessas transações, além do desempenho econômico (GUPTA, 2002; ROBERT; THOMAS; ANTHONY, 2005; VETTORAZZI; EDDINE; FREITAS, 2008; CRITTENDEN et al., 2010; ECCLES; PERKINS; SERAFEIM, 2012; ELKINGTON, 2012; METCALF; BENN, 2013). As organizações, incluindo as governamentais, atentas ao desenvolvimento sustentável são aquelas capazes de proteger e preservar o meio ambiente, ao mesmo tempo em que implementam melhorias na vida das pessoas por meio da justiça social, sem abandonar a missão de gerar os resultados financeiros esperados pelos stakeholders (ESTY; WINSTON, 2009; ECCLES; PERKINS; SERAFEIM, 2012; ELKINGTON, 2012; GAWEL, 2012). Como lembrado por Barbieri et al. (2010), esse conceito representa uma nova forma de desenvolvimento econômico, que leva em conta o meio ambiente e deve ser assimilado pelas lideranças como uma nova forma de realização dos processos produtivos, sem degradação do meio ambiente e estendendo essa cultura a todos os níveis das organizações. As cidades são os principais e maiores consumidores de recursos naturais e também os principais geradores de gases de efeito estufa. De acordo com Hammer et al. (2011), as cidades são responsáveis por dois terços da demanda por energia elétrica e por iguais dois terços da geração de CO 2 globais. Bilhões de dólares são desperdiçados anualmente por ineficiência dos sistemas de transportes, por deficiências na antecipação e reação a desastres naturais ou por falhas nas infraestruturas de fornecimento e nos padrões de consumo de água e energia, desaparecimento de postos de trabalho e retração das atividades de comércio (ALMEIDA, 2007; HAMMER et al. , 2011; CADENA; DOBBS; REMES, 2012). Como afirma Bray (1993), o movimento de sustentabilidade ambiental não pode pretender apenas proteger o ar, a água, a terra, mas também criar uma consciência plena dos valores da natureza para a vida urbana. Sob tais perspectivas, é fundamental que medidas como o uso de novos materiais e sistemas construtivos em todos os setores; reestruturação e revitalização de zonas residenciais, comerciais e industriais; aproveitamento de fontes alternativas de energia (solar, eólica, termoelétrica.); reciclagem de materiais; consumo racional de água e de alimentos; redução do uso de produtos químicos prejudiciais à saúde na produção de alimentos e de produtos; distribuição de riquezas de forma mais equânime e novas formas de realizar estejam na pauta das discussões dos governos e outras organizações que visam o desenvolvimento sustentável (CMMAD, 1991; JOHNSON, 2009; MACHIBA, 2010; HAMMER et al., 2011). Isto

49

significa explorar importantes oportunidades para incrementar a capacidade de inovação das pessoas e das organizações, governamentais e não governamentais. Para que se possa atingir a sustentabilidade, é importante que os líderes reconheçam que as organizações operam em ambientes complexos, interconectados por intensos e dinâmicos sistemas ambientais, sociais e econômicos, dentro dos quais estão embarcados ambientes de negócios, influenciando cada um desses sistemas como se fossem verdadeiros atores nesses mesmos ambientes (METCALF; BENN, 2013). Entender as responsabilidades das organizações e da sociedade no contexto do desenvolvimento sustentável das cidades deve ser a principal prioridade para o futuro próximo (ALMEIDA, 2007). No cenário da aceleração do crescimento populacional e da concentração das pessoas em ambientes urbanos, considerar as questões que envolvem a sustentabilidade é fundamental e somente por meio do consistente diálogo entre os governos, empresários, universidades e a sociedade civil, no sentido de entender as realidades culturais, sociais e políticas, serão criadas as condições necessárias para que as se alcance o desenvolvimento sustentável (PEZZOLI, 1997; JOHNSON, 2008; BARBIERI et al., 2010; AHMAD; COLIN; AHMED, 2012). É fundamental pensar as cidades não somente do ponto de vista do desempenho econômico, mas, também, com base nos aspectos ambientais e sociais, garantindo que existam todas as condições para o pleno desenvolvimento sustentável (BOYKO et al., 2006; ALMEIDA, 2007; HAMMER et al., 2011; ELKINGTON, 2012). Ela s têm se transformado em ponto focal para o desenvolvimento sustentável porque representam os maiores polos de concentração de distribuidores e consumidores de bens e serviços, mas que nem sempre estão atentos aos limites da disponibilidade de recursos e ao progresso tecnológico (YOON; TELLO, 2009; BATAGAN, 2011). Engajar os atores que atuam nas cidades ao redor dos objetivos do desenvolvimento sustentável é uma forma de estabelecer melhor posição no cenário competitivo do mundo contemporâneo (GUPTA, 2002; ESTY; WINSTON, 2009; DUNN, 2010; ELKINGTON, 2012; AHMAD; COLIN; AHMED, 2012). Esse engajamento de atores pode ser sentido em muitas iniciativas já existentes no mundo, com especial menção à iniciativa conhecida por C40. Esta é uma iniciativa de âmbito global que congrega 40 cidades-membro e outras 19 outras grandes cidades. Essa rede de cidades está comprometida e empenhada em desenhar e implementar boas práticas para a gestão e o desenvolvimento urbano, de forma sustentável e consciente. A rede ajuda as

50

cidades a identificar, desenvolver e implementar políticas e programas locais cujo impacto se poderá perceber globalmente. As áreas de foco da rede estão concentradas em sete grandes blocos temáticos:

a) transportes;

b) energia;

c) gerenciamento de resíduos sólidos;

d) comunidades sustentáveis;

e) medição e planejamento,

f) drenagem hídrica e infraestrutura;

g) finanças sustentáveis, e;

h) crescimento verde.

2.1 As cidades do futuro: cidades inteligentes

Essa sessão discute a questão da prosperidade nas cidades e, posteriormente, introduz o conceito de cidade inteligente e as possibilidades oferecidas pelas TIC para a sua implementação.

2.1.1 A visão da prosperidade nas cidades

Os debates sobre o papel das cidades na economia global têm se intensificado e tomado o dia-a-dia de muitas pessoas e organizações (SASSEN, 1998), particularmente quando se observa a intensa concentração das pessoas nos centros urbanos e as transformações que esse fenômeno provoca. Se por um lado essa concentração se apresenta como um enorme desafio, por outro lado ela traz consigo muitas oportunidades para que governos, iniciativa privada e o meio acadêmico colaborem entre si na busca por soluções inovadoras criando uma dinâmica de desenvolvimento econômico baseada na busca e compartilhamento de conhecimentos, nas estratégias que atravessem as fronteiras institucionais e na criação de organizações híbridas –

51

governo, empresas e academia - voltadas para a pesquisa, desenvolvimento e inovação (ETZKOWITZ, 2002; LOMBARDI et al., 2011; LEYDESDORFF; DEAKIN, 2010). Para Wolfe e Bramwell (2008), a prosperidade econômica das cidades está diretamente ligada às relações e capacidades de interação e transferência de conhecimento entre os atores especializados, no sentido de construir e manter as condições para as transformações necessárias para uma nova ordem urbana que faça frente aos desafios do desenvolvimento sustentável. Essa visão, corroborada por Dogdson e Gann (2011), projeta o futuro das cidades para um ambiente colaborativo, dentro e fora das suas fronteiras geográficas 5 . Segundo a Un-habitat (2012), as cidades do futuro devem ser capazes de se constituir como lugares prósperos, onde estejam presentes e em pleno equilíbrio cinco perspectivas, como observado na Figura 3.

Sustentabilidade Sustentabilidade Desenvolvimento Desenvolvimento Ambiental Ambiental das Infraestruturas das
Sustentabilidade
Sustentabilidade
Desenvolvimento
Desenvolvimento
Ambiental
Ambiental
das Infraestruturas
das Infraestruturas
Governo, Leis
Governo, Leis
e e
Planejamento
Planejamento
Equidade e
Equidade e
Urbano
Urbano
Produtividade
Produtividade
Inclusão Social
Inclusão Social
Qualidade de Vida
Qualidade de Vida

Figura 3 – Dinâmica da prosperidade das cidades Fonte: Autor “adaptado de” Un-habitat, 2012.

Essas perspectivas podem ser descritas como: a) o desenvolvimento das infraestruturas, que forneça instalações públicas adequadas – ruas e estradas, saneamento básico, energia e tecnologias da informação e comunicação – a fim de melhorar as condições

5 Recente relatório publicado pela consultoria Accenture, afirma que: “Em um mundo de mudanças de poder econômico, de padrões demográficos e de pressões de longo prazo por recursos, as cidades estão surgindo como pontos críticos de ação e transformação no mapa global. Com mais e mais pessoas vivendo em cidades, o seu potencial para impactar a qualidade de vida das populações, a forma de atividade econômica para estimular o crescimento sustentável está se tornando cada vez mais clara. Em paralelo, o potencial para os desafios decorrentes da superpopulação, exploração de recursos e polarização econômica também é crescente. Como as cidades competem cada vez mais por cidadãos, empresas e investimentos em um mundo interdependente, o nível de exigência também está sendo levantado quanto a suas capacidades intrínsecas, infraestruturas e competências para permitir o desenvolvimento de longo prazo (ACCENTURE, 2011, p. 4, tradução nossa).

52

de vida urbana e incrementar a produtividade, mobilidade e conectividade; b) produtividade, que contribua para o crescimento e desenvolvimento econômico, gerando resultados financeiros positivos, fornecendo postos de trabalho decentes e oportunidades iguais para todos; c) qualidade de vida, pelo uso adequado dos espaços públicos, a fim de incrementar a coesão da comunidade, sua identidade cívica e que propicie segurança à vida e à prosperidade; d) equidade e inclusão social, que garanta a distribuição e redistribuição equitativa dos benefícios gerados na cidade, reduza a pobreza e a incidência de favelas, proteja os direitos de minorias e grupos menos favorecidos, fortaleça a igualdade de gêneros e garanta a participação das pessoas nas esferas sociais, políticas e culturais, e; e) sustentabilidade ambiental, que valorize a proteção dos ambientes urbanos e dos bens naturais, buscando o uso eficiente de energia e água minimizando as pressões sobre o planeta

e os recursos naturais, por meio da geração de soluções criativas que visem manter e melhorar

a qualidade do ambiente. No contexto das cidades do futuro, a inovação tecnológica tem importante papel a ser desempenhado, principalmente por demandar e envolver muitas diferentes competências e especializações – engenheiros, arquitetos, acadêmicos, especialistas em tecnologias da

informação e comunicação, técnicos em geral – que são encontradas nas cidades e estão preparadas para avaliar e entender de forma muito particular as características e necessidades dessas cidades. Essa confluência de competências e tecnologias é crítica para a prosperidade das cidades e dos países, como consequência. Do ponto de vista das TIC, estas assumem papel relevante, na medida em que podem fornecer os meios para o monitoramento e o gerenciamento dos serviços e recursos das infraestruturas urbanos, além das possibilidades de encurtar as distâncias entre o poder público e os cidadãos, por meio de serviços eletrônicos pela internet (COELHO, 2010; MEIER; ULFERTS; HOWARD, 2011) que têm se tornado o principal e mais importante canal de comunicação da sociedade contemporânea (COELHO, 2010; PALLOT et al., 2011), permitindo que cada organização marque presença no universo cibernético por meio de um portal com alta sofisticação tecnológica ou de uma simples página digital. Com seus avanços,

a velocidade na disponibilização de informações de toda natureza tem aproximado as mais distantes regiões do planeta colocando-as em proximidade praticamente geográfica, propiciando o desenvolvimento de relações de colaboração comercial e tecnológica e promovendo discussões sobre a flexibilização das legislações e das regulamentações internacionais (BOSCHMA, 2005).

53

Segundo Castells (2012), o mundo virtual trazido pelas TIC possibilitou que o mundo se estruturasse como uma sociedade em rede, em que os fenômenos econômicos e sociais acontecem de forma quase instantânea, e essa rede que se multiplica em novas e novas redes amplia e impulsiona a produção-regulamentação de forma simultânea. Ainda para Castells (2012), as possibilidades trazidas pelas TIC determinam a gênese de uma nova forma urbana – a cidade informacional – que se caracteriza pelo predomínio de uma infinidade de formas urbanas, onde a informação e o acesso a ela são seus principais pilares. As cidades são os motores do desenvolvimento dos países onde se localizam e determinam o desempenho e o destino desses mesmos países, quaisquer que sejam eles, porque elas são centros de inovação e pontos de conexão às redes globais de todos os tipos e em todos os lugares do planeta. Estas possibilidades sugerem que as cidades, no futuro, poderão se configurar como plataformas de serviços, sobre as quais os atores poderão atuar e ver suas demandas atendidas. Esses serviços poderão cobrir desde a oferta de redes de comunicação sem fio até a disponibilização por meio da internet de aplicações específicas, construídas seguindo uma arquitetura tecnológica escalável, segura e consistente (ARUP, 2010; CROMER, 2010; KOMNINOS et al., 2011; HERNÁNDEZ-MUNÕZ et al., 2011; SCHAFFERS et al., 2011; RASOOLIMANESH; BADARULZAMAN; JAAFAR, 2011).

2.1.2 Cidades inteligentes: conceitos e dinâmicas de ações

A proposição que afirma que a crise é a alavanca da inovação (TUSHMAN; SMITH,

2004) se aplica também às cidades e para se evitar que a rápida urbanização se transforme em

uma crise sem precedentes, é vital operar as cidades de forma inteligente, inovadora e sustentável (BATAGAN, 2011). Para isso, a adoção dos princípios de cidades inteligentes se apresenta como uma abordagem viável para suportar o desenvolvimento urbano.

O conceito de cidade inteligente teve sua primeira declaração como decorrência do

movimento conhecido por crescimento inteligente, por volta de meados da década de 1990, e que defendia a criação e implantação de políticas urbanas inovadoras (BOLLIER, 1998 apud HARRISON; DONNELLY, 2011) e desde então o tema tem evoluído para significar formas de gestão urbana alicerçadas em TIC.

54

O Quadro 3 apresenta a evolução do conceito de cidade inteligente.

Autor

Definição

Hall et al. (2000b, p. 1)

As cidades inteligentes são aquelas que monitoram e integram as condições de operações de todas as infraestruturas críticas da cidade, atuando de forma preventiva para a continuidade de suas atividades fundamentais.

Kanter; Litow

As cidades inteligentes são aquelas capazes de conectar de forma inovativa as infraestruturas físicas e de TIC, eficiente e eficazmente, convergindo os aspectos organizacionais, normativos, sociais e tecnológicos a fim de melhorar as condições de sustentabilidade e de qualidade vida da população.

(2009, p.2)

Toppeta (2010, p. 4)

São aquelas que combinam as facilidades das TIC e da Web 2.0 com os esforços organizacionais, de design e planejamento, para desmaterializar e acelerar os processos burocráticos, ajudando a identificar e implementar soluções inovadoras para o gerenciamento da complexidade das cidades.

Giffinger; Gudrun (2010, p. 13)

São aquelas que bem realizam a visão de futuro em várias vertentes – economia, pessoas, governança, mobilidade, meio ambiente e qualidade de vida -, e são construídas sobre a combinação inteligente de atitudes decisivas, independentes e conscientes dos atores que nelas atuam.

Washburn et al. (2010, p.5)

As cidades inteligentes são aquelas que usam tecnologias de smart computing para tornar os componentes das infraestruturas e serviços críticos – os quais incluem a administração da cidade, educação, assistência à saúde, segurança pública, edifícios, transportes e utilities – mais inteligentes, interconectados e eficientes.

Dutta et al. (2011, p. 87)

As cidades inteligentes têm foco em um modelo particularizado, com visão moderna do desenvolvimento urbano e que reconhecem a crescente importância das tecnologias da informação e comunicação no direcionamento da competitividade econômica, sustentabilidade ambiental e qualidade de vida geral; esse conceito vai além dos aspectos puramente técnicos que caracterizam as cidades como cidades digitais.

Quadro 3 - Definições de cidades inteligentes Fonte: Autor.

Outros autores afirmam que as cidades inteligentes são aquelas que reconhecem a importância e se utilizam das tecnologias da informação e da comunicação para alavancar competitividade econômica, promover suporte às ações de gestão ambiental e proporcionar melhoria da qualidade de vida dos cidadãos (SCHAFFERS et al., 2011; HERNÁNDEZ- MUÑOZ et al., 2011; CHOURABI et al., 2012; CADENA; DOBBS; REMES, 2012). Refletindo esses conceitos, Nam; Pardo (2011a, p. 286) lembram que

as cidades inteligentes são aquelas que têm por objetivo a melhoria na qualidade dos serviços aos cidadãos. O simples estabelecimento de um sistema integrado não é um fim em si mesmo, mas um mecanismo por meio do qual os serviços são fornecidos e informações são compartilhadas.

A própria iniciativa C40 reconhece a importância das TIC no contexto das cidades inteligentes:

As cidades são consideradas inteligentes quando são identificadas contendo investimentos inteligentes ao longo dos eixos: economia, mobilidade, meio ambiente, recursos humanos e estilos de vida inteligentes. Os significativos avanços

55

tecnológicos e das tecnologias da informação e comunicação (TIC) agora fazem das plataformas tecnológicas embarcadas um instrumento potencialmente significativo para sensorizar e monitorar a funcionalidade e o desempenho das cidades, permitindo ampliar sobremaneira suas capacidades de gerenciar recursos com mais eficiência e prover conectividade e informações de forma transparente aos seus cidadãos e visitantes. Estas estratégias permitem também que se compreendam melhor os custos financeiros e ambientais de seus próprios consumos. Torna-se assim possível que os gestores urbanos criem novos serviços e melhorem aqueles já existentes coletando e analisando informações sobre infraestruturas essenciais, como energia, água, transporte e saúde, entre outros de interesse da comunidade local (C40 SÃO PAULO CLIMATE SUMMIT, 2011, p. 32).

Com vistas a essas definições é relevante notar que a importância das TIC é indiscutível e suas implicações são profundas e benéficas, mesmo que ainda possa haver opiniões diferentes sobre as suas consequências (DODGSON; GANN, 2011). Essas tecnologias estão diariamente aperfeiçoando os modos de produção, as formas de realizar negócios e incrementando as interações sociais, com profundos impactos transformacionais nos governos, porquanto promovem a transparência, as melhorias nos serviços e a comunicação entre os atores que atuam nas cidades (DUTTA et al., 2010; ROMAN, 2010; CHOURABI et al., 2012; WOLFRAM, 2012). Criar cidades inteligentes não se trata de uma revolução, de uma organização orientada a sistemas, de um conceito tecnológico ou de um fenômeno localizado particularmente. Trata- se, ao contrário, de uma evolução, de uma orientação a serviços, de desenvolvimento socioeconômico e de um fenômeno global (NAM; PARDO, 2011b) em que se busca não a substituição das estruturas físicas, mas a harmonização entre o mundo material e o mundo virtual, entre todos os subsistemas do sistema urbano, no melhor interesse dos atores que atuam nas cidades em suas características particulares e da proximidade saudável das cidades (BOSCHMA, 2005; BOYKO et al., 2006; MARKUSEN, 2006; NAM; PARDO, 2011a; TOPPETA, 2010; RASOOLIMANESH; BADARULZAMAN; JAAFAR, 2011). As novidades em TIC podem ajudar a resolver muito dos problemas urbanos, combinando, como em toda inovação schumpeteriana, diversas perspectivas, bases de conhecimento e recursos tecnológicos (DODGSON; GANN, 2011). As cidades estão crescendo em ritmo bastante acelerado, particularmente nos mercados emergentes, e muitas delas buscam adaptar ou criar infraestruturas integradas e com capacidade adequada para fazer frente às demandas, transformando e acelerando o progresso em direção à visão da urbanização sustentável (UN-HABITAT, 2012). Os avanços tecnológicos, com soluções modulares e pragmáticas, baseadas em arquiteturas abertas, escaláveis e colaborativas, vêm permitindo ao poder público e às empresas estabelecer

56

estratégias e programas para melhorar a qualidade das cidades, no melhor interesse de todos os atores que nelas atuam (BEDDOE, 2009; ARUP, 2010). As tecnologias-chave para o desenvolvimento das cidades são aquelas, então, que utilizam sistemas e organizações para ajudar a lidar com as tensões provocadas pelo aumento massivo da urbanização e que usam soluções de colaboração para tirar proveito da diversidade, produzindo cidades eficientes além de lugares agradáveis para se viver e trabalhar (DIRKS; GURDGIEV; KEELING, 2010; DODGSON; GANN, 2011; SCHAFFERS et al., 2011; KOMNINOS et al., 2011).

2.1.3 Viabilizando cidades inteligentes com o uso das TIC

As distâncias e os tempos têm sido diminuídos, graças aos avanços nos sistemas computacionais, redes de telecomunicações, telefonia móvel, sistemas de armazenamento de informações mais eficientes e pela internet, além de toda tecnologia embarcada nos produtos e que influenciam o dia-a-dia das pessoas como nos eletrodomésticos e veículos, por exemplo (WEBBER; WALLACE, 2009; BENITEZ-AMADO; PEREZ-AROSTEGUI; TAMAYO- TORRES, 2010; DUTTA et al. 2010, CASTELLS, 2012). Isto tudo não exime a indústria de TIC, assim como aqueles que dela se beneficiam, de olhá-la sob a perspectiva do conceito de sustentabilidade e da inovação sustentável. Como afirma Barbieri e Simantob (2007, p. 105), a “organização inovadora sustentável não é a que introduz novidades de qualquer tipo, mas novidades que atendam às múltiplas dimensões da sustentabilidade em bases sistemáticas e colham resultados positivos para ela, para a sociedade e o meio ambiente”. Não obstante as facilidades e possibilidades que as TIC já oferecem, elas deverão ser exigidas de forma mais intensa nos próximos anos (WEBBER; WALLACE, 2009; BULATOV; KLEME, 2010), quer seja na sua utilização em meios de produção mais efetivos quer seja na possibilidade de estilos de vida mais sustentáveis e voltadas para o desenvolvimento social (COELHO, 2010). Mudar os métodos produtivos e introduzir um novo modelo de consumo, como fundamento basilar para o desenvolvimento de uma nova sociedade, com um novo modo de vida, exigirá das empresas e dos governos investimentos significativos em inovação com vistas à sustentabilidade (BEDDOE, 2009; WEBBER;

57

WALLACE, 2009; BENITEZ-AMADO; PEREZ-AROSTEGUI; TAMAYO-TORRES, 2010; PRATTIPATI; 2010). Para os consumidores, usuários e fabricantes de TIC o desafio se projeta de forma ainda mais intensa. Aos poucos, os potenciais em campos como gerenciamento eficiente de recursos, logística e desmaterialização devem deixar de ser desenvolvidos apenas em caráter experimental para ganhar o portifólio das empresas, potencializando a vantagem competitiva dos usuários dessas tecnologias (DUTTA et al. 2010; GRANT; ROYLE, 2011). De acordo com a Global e-Sustainability Initiative (GeSI 6 ) o maior auxílio das TIC para o futuro próximo será possibilitar eficiência a vários setores da economia, principalmente na área energética, contribuindo de forma significativa para a redução das emissões de carbono na atmosfera. Para Webber e Wallace (2009, p. 12, tradução nossa), “as chamadas TIC verdes implicam mudanças na forma como se faz negócios; elas proporcionam economia de custos e, ao mesmo tempo, reduzem os impactos sobre o meio ambiente”. Ou seja, fornecedores e consumidores devem trabalhar para buscar soluções que aliem os benefícios econômicos, ambientais e sociais. Segundo Lamb (2009, p. 205, tradução nossa), “o futuro da TIC verde está sendo moldado agora - em universidades, empresas, governo e pesquisa, regulamentos, incentivos, e assim por diante. Por causa do aspecto dinâmico da TIC, já se fez progressos significativos com a computação verde e se pode construir novos modelos sobre o passado”. O advento da internet, por exemplo, tem possibilitado o surgimento de novas formas de fazer negócios, de comunicar os acontecimentos, de aproximar as pessoas, as pessoas e as empresas, as pessoas e os governos (HERNÁNDEZ-MUÑOZ et al., 2011; KOMNINOS et al., 2011; PALLOT et al., 2011). As pessoas, de todas as idades e condições econômicas, estão ingressando nesse universo com suas próprias páginas pessoais nos ambientes das redes sociais ou mesmo utilizando sistemas de busca na internet para resolver suas questões, que podem ser desde a simples curiosidade por um assunto até a realização de transações comerciais, independentemente do tempo ou da geografia onde estejam. Segundo Mitchell (2007),

6 A Global e-Sustainability Initiative (gesi.org) é um organização não governamental de abrangência internacional que congrega as maiores empresas e organizações do setor de tecnologia da informação e comunicação com o objetivo de prover, de forma imparcial, informações, recursos e melhores práticas para se alcançar o desenvolvimento sustentável, com especial atenção à integração das dimensões social e ambiental, por meio das TIC.

58

A chamada bolha da internet, no final dos anos 90, fez com que muitos vissem essa

nova tendência como uma simples aglomeração de componentes, reduzindo a era digital que se iniciava de forma mais intensa a computadores pessoais com acessos a algumas páginas informativas – geralmente empresarias - disponibilizadas na rede de comunicações e com muitas críticas à possibilidade de tornar a tecnologia da

internet como um lugar propício à realização de negócios. Com o passar do tempo,

as críticas foram sendo minimizadas com o aprendizado pelas empresas e pelas

pessoas sobre os potenciais oferecidos pelas TIC, com especial atenção a aquelas que se utilizam da internet como meio preferencial (MITCHELL, 2007, p. 4, tradução nossa).

Como apresentado no relatório The Global Information Technology Report, sobre a aplicação das TIC, refletindo estudos entre 2008 e 2009:

A recente crise econômica reforçou a importância de fundamentos sólidos para a

competitividade dos países, de forma a se poder atingir o crescimento de forma

sustentável. A capacidade de se adotar novas tecnologias, entre elas as tecnologias

da informação e comunicação, provou ser a chave para as economias desenvolvidas

manterem sua vantagem competitiva e apoiar o potencial de crescimento de longo prazo, bem como para os países em desenvolvimento facilitar transformações estruturais em suas economias e sociedades, aumentando a eficiência e permitindo se alcançar estágios mais altos de desenvolvimento. A TIC é crucial para a promoção da sustentabilidade econômica. O mesmo é verdade para a sustentabilidade ambiental e social: as TIC têm grande responsabilidade e um importante papel a desempenhar neste cenário, tanto como uma indústria em si como na habilitação das infraestruturas. Mais e mais governos de todo o mundo reconhecem o poder revolucionário das TIC como um motor de crescimento

econômico sustentável e um facilitador de melhores condições de vida para seus cidadãos. Esses governos têm cada vez mais colocado as TIC em posição de destaque em suas estratégias de competitividade geral e agendas nacionais (DUTTA et al., 2010, p. 26, tradução nossa).

A abordagem de cidades inteligentes emerge como uma maneira de resolver os intrincados problemas organizacionais, sociais e materiais advindos da rápida urbanização (WOLFRAM, 2012). Não sem razão, empresas gigantes do setor de tecnologia da informação, como IBM, SAP, Siemens, CISCO, entre outras, têm realizado investimentos significativos em P&D visando à construção de soluções tecnológicas para o gerenciamento dos serviços e infraestruturas urbanos (IBM, 2012; SAP, 2012; SIEMENS, 2012; CISCO, 2012). Estas e outras inúmeras empresas vêm sistematicamente desenvolvendo tecnologias que possam proporcionar maior eficiência energética e otimização na produção de bens e serviços, muitas vezes se utilizando da internet: sistemas inteligentes para o monitoramento e gerenciamento das infraestruturas urbanas e antecipação a acidentes naturais; terceirização e consolidação de data centers; virtualização de servidores; computação em nuvem (cloud computing); soluções de colaboração e redes sociais; documentação eletrônica; componentização de baixo carbono (terminais de plasma, virtualização de desktops,

59

eliminação de impressão, data centers inteligentes); tecnologias para a criação de escritórios virtuais e de home-offices; sistemas, métodos e práticas para o gerenciamento integrado de serviços de qualquer natureza; sistemas para o tratamento de grandes volumes de dados (LAMB, 2009; WEBBER; WALLACE, 2009; DIRKS; GURDGIEV; KEELING, 2010; PRATTIPATI, 2010; ALLWINKLE; CRUICKSHANK, 2011). Sensores, câmeras digitais e microfones passam a ser integrados aos sistemas de computação e transmissão de dados e o sistema de posicionamento global e outras tecnologias de localização e georreferenciamento passam a integrar toda sorte de bens, de automóveis a telefones celulares. Com o uso de tecnologias de identificação por radiofrequência e etiquetas digitais colocadas em produtos, os processos logísticos e as transações comerciais são significativamente otimizadas. Sistemas de inteligência artificial passam a perceber e responder rapidamente às condições e eventos ocorridos no mundo físico, enquanto que os processos digitais passaram a ter consequências cada vez mais imediatas e significativas no mundo físico (MITCHELL, 2007; ARUP, 2010; DIRKS; GURDGIEV; KEELING, 2010; ALLWINKLE; CRUICKSHANK, 2011; WOLFRAM, 2012), conectando pessoas, empresas e o poder público a qualquer tempo e em qualquer lugar. Observa-se uma crescente rede de conexões diretas com os sistemas eletrônicos e eletromecânicos em edifícios, eletrodomésticos, máquinas de produção, plantas de processos industriais, sistemas de transporte, redes de geração e distribuição de energia elétrica, sistemas de fornecimento e tratamento de água, remoção de resíduos, sistemas de monitoramento e manutenção de funções vitais em hospitais, segurança pública e sistemas de gerenciamento para praticamente todas as imagináveis atividades humanas (IBM, 2012; CISCO, 2012; SIEMENS, 2012; SAP, 2012). No cenário da prestação de serviços aos cidadãos, o uso da internet tem estreitado a relação cidadão-governo, criando uma nova forma de relacionamento, evitando o afluxo de pessoas aos postos de atendimento ao público, fornecendo aos cidadãos todas as informações das quais eles precisam para ter uma vida mais inteligente, ao mesmo tempo em que vivem, portanto, em uma cidade mais inteligente (DIRKS; GURDGIEV; KEELING, 2010; SCHAFFERS et al., 2011; ALLWINKLE; CRUICKSHANK, 2011; CHOURABI et al.,

2012).

De fato, a internet conecta pessoas e organizações entre si, permitindo que interajam e compartilhem, a qualquer hora e a qualquer dia, tudo o que for de utilidade para ambos. Com uma infinidade de possibilidades, a internet deve ser vista como uma oportunidade singular,

60

sem precedentes, para que as empresas, e principalmente os governos, criem e incrementem o provimento de serviços à população (HERNÁNDEZ-MUÑOZ et al., 2011; KOMNINOS et al., 2011). Ao mesmo tempo, a internet propicia aos governos mais oportunidades para engajar a população em um ambiente transparente e de aprendizagem, que facilita e melhora as condições de governança e de vida dos cidadãos (CROMER, 2010). Na visão de Coelho (2010),

A rede mundial de computadores não somente reduz e entrelaça fronteiras de países,

de saberes, de culturas e de linguagens como também recria padrões de acumulação

e de organização territorial a partir dos novos fluxos globais de acumulação. As

cidades mundiais se desconectam de suas contiguidades territoriais e ao lado de redes econômicas de grande competitividade conformam grandes espaços de exclusão em regiões metropolitanas ou em áreas antes polarizadas por essas cidades (COELHO, 2010, p. 339).

Para criar cidades inteligentes, as tecnologias devem estar prontamente integradas, conectando diferentes sistemas em diferentes organizações. Nestas cidades as TIC são responsáveis por tornar os dados da vida urbana tangíveis, por meio da criação e execução de projetos voltados para a sua captura, tratamento e disponibilização em tempo real. Elas fornecem as interfaces adequadas para que os cidadãos possam se envolver com sua cidade, por meio de serviços digitais e para que o poder público possa atuar de forma preventiva – ou preditiva, idealmente – por meio do uso de sistemas de monitoramento, gerenciamento e sistemas analíticos (HALL et al., 2000; KANTER; LITOW, 2009; ARUP, 2010; CROMER, 2010; TOPPETA, 2010; HARRISON; DONNELLY, 2011; CHOURABI et al., 2012). A todas essas possibilidades alia-se o desenvolvimento de sistemas especializados em grande escala, que unem todos estes componentes para funcionar de forma inteligentemente coordenada. Esses sistemas especializados são fundamentais e imperativos para o gerenciamento da dinâmica urbana, cujos efeitos econômicos, sociais e culturais são inegáveis e são cada vez mais o foco de pesquisa e desenvolvimento (P&D) do setor de TIC (HALL et al., 2000; HARISSON; DONNELLY, 2011; CHOURABI et al., 2012). Construir cidades inteligentes significa entender de forma plena como as características e particularidades da cidade se realizam no dia-a-dia e, independentemente delas, atender às necessidades de interação cidadão-governo que é crescente e absolutamente crítica (HAWKINS, 2011; WOLFRAM, 2012). Então, a medida da inteligência que as cidades podem desenvolver está diretamente ligada às suas características particulares traduzidas em sistemas de informações que sejam robustos, plenamente integrados e que, principalmente, se valham dos avanços promovidos pela indústria de tecnologia da informação. As aplicações de TIC para a criação de cidades inteligentes são inúmeras e

61

começam a ser disponibilizadas de forma adaptada às necessidades e características de cada cidade. A Figura 4 apresenta uma proposição para um framework de sistemas integrados de gerenciamento para as cidades inteligentes.

Poder Público – Estratégia e Planejamento

Poder Público – Estratégia e Planejamento

Serviços Digitais à Comunidade

Serviços Digitais à Comunidade

Informações

Informações

Informações

Gerenciais

Gerenciais

Gerenciais

Governança & Gestão

Governança & Gestão

Governança & Gestão

Conformidade &

Conformidade &

Conformidade &

Riscos

Riscos

Riscos

Finanças

Finanças

Finanças

Ativos &

Ativos &

Ativos &

Suprimentos

Suprimentos

Suprimentos

Gerenciamento dos Serviços Públicos

Gerenciamento dos Serviços Públicos

Gerenciamento dos Serviços Públicos

Centro Integrado de Operações

Centro Integrado de Operações

Centro Integrado de Operações

Serviços à Comunidade

Serviços à Comunidade

Serviços à Comunidade

Saúde

Saúde

Saúde

Informações

Informações

Informações

Segurança

Segurança

Segurança

Suporte &

Suporte &

Suporte &

Ouvidoria

Ouvidoria

Ouvidoria

Educação

Educação

Educação

Mobilidade

Mobilidade

Mobilidade

Infraestrutura Pública

Infraestrutura Pública

Infraestrutura Pública

Transportes

Transportes

Transportes

&

& &

Tráfego

Tráfego

Tráfego

Meio

Meio

Meio

ambiente

ambiente

ambiente

Energia

Energia

Energia

Edifícios &

Edifícios &

Edifícios &

Espaços

Espaços

Espaços

Água &

Água &

Água &

Saneamento

Saneamento

Saneamento

Resíduos &

Resíduos &

Resíduos &

Lixo

Lixo

Lixo

Infraestrutura de Tecnologia da Informação e Comunicação

Infraestrutura de Tecnologia da Informação e Comunicação

Figura 4 – Arquitetura de sistemas de gerenciamento para as cidades inteligentes Fonte: Autor.

A combinação cada vez mais eficaz das capacidades de integração entre os sensores e os sistemas computacionais tem permitido a criação e identificação de inúmeras oportunidades para o enfrentamento dos principais problemas que afetam as cidades do presente e do futuro. Como descrito no Quadro 4, essas aplicações estão em diferentes e importantes campos da dinâmica das cidades.

Área

 

Aplicações

Informações Gerenciais

Inteligência de negócios; Planejamento; Projetos; Relatórios operacionais.

 

Conformidade e Riscos

Legislação;

Licenciamento;

Regulamentação

e

Riscos;

Segurança

e

saúde

ocupacional.

Finanças

Contabilidade; Contas a pagar; Contas a receber; Orçamento; Recursos humanos; Tesouraria; Tributos.

Ativos & Suprimentos

Ativos; Localização e rastreamento; Manutenção (preventiva e corretiva); Ordens de serviço; Ordens de compras; Planejamento; Suprimentos.

Serviços digitais à comunidade

Colaboração; Portal transacional; Redes sem fio de alta velocidade; Redes sociais; Telecentros.

Centro Integrado de Operações

Ponto central para o gerenciamento da infraestrutura e de prestação de serviços.

 

Saúde

Agendamento; Água e energia; Análise estatística; Atendimento a usuários; Ativos; Campanhas; Força de trabalho; Manutenção; Medicina preventiva; Ordens de serviços; Pedido e acompanhamento de exames; Planejamento e uso de instalações; Prontuário único; Rastreamento de pacientes; Resíduos e rejeitos; Suprimentos.

Segurança

Ativos; Despacho de atendimento policial; Grandes eventos; Informações policiais; Inteligência policial; Localização e georreferenciamento; Monitoramento policial; Ordens de serviços; Planejamento de contingente e escala; Prevenção de desastres e incidentes; Relacionamento com a comunidade; Suprimentos.

continua

62

continuação

Área

Aplicações

Educação

Agendamento e matrícula; Água e energia; Ativos; Boletim eletrônico; Cadastro de discentes; Cadastro de docentes; Colaboração; Convênios; Currículo; Dados estatísticos; Educação à distância; Gerenciamento de projetos de pesquisa; Monitoramento de ambientes; Ordens de serviços; Planejamento e uso de instalações; Planejamento escolar; Relacionamento com a comunidade.

Informações

Anuário; Cultura e Lazer; Notícias; Políticas e procedimentos; Prestação de contas; Sistema educacional; Suporte às empresas; Turismo e eventos.

Suporte & Ouvidoria

Cadastro de usuários; Ordens de serviços; Relacionamento com a comunidade; Atendimento aos atores.

Mobilidade

Acessibilidade; Informações de transportes/intermodais; Itinerários e rotas; Localização e georreferenciamento; Transportes alternativos.

Transportes

Ativos; Bagagens e cargas; Bilhetagem; Itinerários e rotas; Manutenção (preventiva e corretiva); Monitoramento de Tráfego; Operações; Planejamento de transportes; Suprimentos; Transporte seletivo (escolar, idosos, etc.).

Energia

Análise de padrões de consumo; Ativos; Bilhetagem; Controle de fornecimento; Gestão de Reservatórios ou de Parques Eólicos; Manutenção (preventiva e corretiva); Monitoramento; Sensoreamento; Smart grid; Suprimentos.

Água & Saneamento

Análise de padrões de consumo; Ativos; Bilhetagem; Captação e distribuição; Controle de fornecimento; Estações de tratamento; Manutenção (preventiva e corretiva); Monitoramento; Sensoreamento.

Meio ambiente

Controle de emissões; Controle de poluição; Programas de reuso, redução e reciclagem; Áreas verdes, mananciais.

Edifícios & Espaços

Prédios inteligentes; Planejamento e uso de espaços; Logradouros; Manutenção (preventiva e corretiva); Ativos imobiliários.

Resíduos & Lixo

Agendamento; Planejamento de coleta; Coleta seletiva; Destinação; Planejamento e controle de depósitos.

Quadro 4 – Aplicações de TIC para cidades inteligentes Fonte: Autor.

Todas essas possibilidades proporcionadas pelas TIC, e outras ainda a serem exploradas, contribuem de forma significativa para a redução nas emissões de CO 2 e de gases de efeito estufa porquanto viabilizam maior eficiência no uso dos recursos materiais, técnicos, humanos e financeiros (SCHLUEP et al., 2009; BULATOV; KLEME, 2010). Criam novos canais de comunicação entre os cidadãos e o poder público, melhoram a eficiência no gerenciamento das infraestruturas públicas e possibilitam a implementação de práticas de governança, contribuindo para que as melhores escolhas sejam feitas e as melhores decisões sejam tomadas (WEBBER; WALLACE, 2009).

2.2 Construindo cidades inteligentes: exemplos na Europa

De forma geral, as iniciativas na Europa se alicerçam sobre os seguintes pilares:

63

a) criação de uma rede de inovação que engloba o poder público, a iniciativa privada

e o meio acadêmico para a proposição e discussão de melhorias e alternativas para

a melhoria da qualidade de vida e de negócios nas cidades;

b) especificação e implementação de uma arquitetura tecnológica padronizada, escalável e compartilhável internamente e/ou externamente às cidades, com forte tendência ao uso de computação em nuvem;

c) extensivo uso da internet como canal de comunicação e de prestação de serviços entre o poder público e os cidadãos, empresas, academia e outros atores que contribuem para a prosperidade das cidades, de forma a incrementar a qualidade de vida dos cidadãos e a competitividade das cidades;

d) implantação de sistemas integrados para o gerenciamento das infraestruturas de transportes e mobilidade urbana, energia e água, incluindo o uso de sensores em diferentes aplicações;

e) implantação de métricas e indicadores de desempenho para aprimorar as capacidades de gestão das cidades e estabelecer benchmarking.

2.2.1 Smart Cities Project

Uma das iniciativas na Europa é o Projeto Cidades Inteligentes Smart Cities Project 7 . Ela contempla a implementação de uma rede de líderes de TIC – particularmente aqueles envolvidos com projetos de governo eletrônico – que tenham como objetivo estratégico a oferta de serviços públicos inovadores e de excelência, contemplando a mensuração da melhoria da qualidade de vida e da competitividade de suas respectivas cidades; uma rede acadêmica e de pesquisa que apoia as autoridades locais na realização de suas ambições; uma abordagem única de desenvolvimento de serviços eletrônicos por meio de um processo de co-design, capaz de combinar a abordagem acadêmica, a visão de governo e o conhecimento e prática comprovados em tecnologia, resultando em uma metodologia transferível e útil para as redes de inovação da União Europeia; a definição de uma nova linha de base de serviços na região do Mar do Norte, focada no cidadão, personalizada, rica em informações e georreferenciada, que combina soluções já desenvolvidas com aquelas

7 http://www.smartcities.info/

64

resultantes do processo de co-design, novas aplicações móveis e estratégias para a implantação de acessos por múltiplos canais. A abordagem da iniciativa pode ser resumida em três objetivos fundamentais definidos para o projeto: 1º) nova rede de inovação por meio da colaboração: que incorpora as capacidades de inovação das infraestruturas e das pessoas em rede, contemplando conteúdos de tecnologias, criatividades, processos de aprendizagem e redes de pessoas, por meio da integração entre governos, empresas e academia ao redor desses objetivos. Essa rede de inovação colaborativa, nos melhores moldes da hélice tripla proposta por Etzkowitz (2002), deve garantir as condições de competitividade das cidades da região do Mar do Norte; 2º) troca de informações para o planejamento e design de metodologias e serviços eletrônicos: para fortalecer as mudanças já em curso nas cidades e organizações públicas da região em suas estratégias de governo eletrônico. A distinção dessa ou daquela cidade em um ou em vários aspectos dos serviços digitais à comunidade requer forte conhecimento das particularidades e necessidades dessa comunidade, sob pena de se criar algo que não seja reconhecidamente útil. Esse cenário reforça a necessidade de uma rede colaborativa de pessoas e atores da hélice tripla no sentido de definir melhores práticas adaptáveis a cada realidade em particular. Os idealizadores desse projeto entendem que os serviços devem ser construídos de forma compartilhada e constantemente aperfeiçoados e que todas as lições aprendidas devem estar disponibilizadas para que outros possam aprender com elas; 3º.) co- design, pensamento integrado e envolvimento acadêmico para liderar a transferência transnacional de metodologias e serviços eletrônicos: visto que algumas regiões estão mais avançadas do que outras e podem ser utilizadas como benchmarking transnacional, desenvolvimento conjunto e transferência documentada e treinamento em tecnologias e práticas implementadas com sucesso. Essa rede de colaboração tem produzido vários documentos e manuais de referência que determinam os padrões e guias gerais para as cidades de forma a minimizar os esforços em novas investigações, garantir padrões de escalabilidade e interoperabilidade e transferir conhecimentos já adquiridos em projetos anteriores. Entre esses documentos, disponibilizados por meio do portal na internet, estão: Smart Cities Project Guide; Co-Design in Smart Cities; Creating Municipal ICT Architectures; ICT architecture - supporting service delivery in Smart Cities; Improving Business Processes and Delivering Better E-Services; My City Online; Customer Insight Profiling and Service Design Guide; Creating Customer Contact

65

Centres; Using GIS for better e-services; Creating Smarter Cities - Lessons from the Smart Cities project. Fazem parte da rede de inovação treze organizações de seis países do Mar do Norte:

Intercommunale Leiedal (organização pública), Kortrijk, Bélgica; Stad Kortrijk (municipalidade), Kortrijk, Bélgica; Stadt Osterholz-Scharmbeck (municipalidade), Osterholz-Scharmbeck, Alemanha; BIS GmbH (organização pública), Bremerhaven, Alemanha; Gemeente Groningen (organização pública), Groningen, Holanda; Cidades de Kristiansand e Lillesand (municipalidades), Noruega; Karlstads Kommun Municipality (municipalidade), Karlstad, Suécia; Norfolk County Council (autoridade), Norwich, Inglaterra; City of Edinburgh (municipalidade), Edinburgh, Escócia; Edinburgh Napier University (universidade), Edinburgh, Escócia; Mechelen University College (universidade), Mechelen, Bélgica; Jade University of Applied Sciences of Wilhelmshaven /Oldenburg/Elsfleth (universidade), Oldenburg, Alemanha; Improvement and Development Agency for local Government (organização pública), Londres, Inglaterra. Ao redor de 35 projetos, em diferentes cidades, estão em curso na região de cobertura dessa iniciativa. Esses projetos vão desde a implantação de centros de atendimento aos cidadãos por meio da internet até projetos complexos de gerenciamento de transportes públicos, energia elétrica, saúde e educação além de iniciativas que visam a universalização do acesso à internet por meio de redes sem fio e a implantação de terminais de autoatendimento. Várias cidades da região já anotam benefícios derivados dos estudos, recomendações e padrões definidos pela iniciativa, com forte apelo à utilização dos recursos da internet para a criação de canais de comunicação com os atores da cidade, entre outras aplicações tecnológicas implantadas, independentemente do tamanho de suas populações. Karlstad, Suécia, com população próxima a 64 mil habitantes e economia baseada em comércio e serviços, proporciona informações e canais de comunicação para cidadãos, visitantes e estudantes, abrangendo o sistema educacional e assistência infantil; saúde e assistência social; edificações e condições de vida urbana; ambiente, energia (geração, preservação e uso racional) e zeladoria urbana; tráfego e infraestrutura de transportes; negócios e trabalho; acesso pleno à internet por meio de conexões com fibra ótica e cobertura de rede sem fio em toda a cidade, e; informações e interações sobre políticas e demonstrações realizadas pelo poder público.

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Bremerhaven, Alemanha, com aproximadamente 113 mil habitantes e economia baseada em serviços logísticos (porto de cargas), comércio e turismo, proporciona aos residentes e visitantes uma vasta gama de serviços digitais que envolvem informações sobre as condições gerais de operação da cidade e formas de contato com o poder público; informações sobre clima e condições de maré; informações vindas dos principais pontos da cidade por meio de acesso a imagens provenientes de câmeras de monitoração e sensores; informações aos turistas (pontos turísticos, rede hoteleira, programação de eventos, centros de compras, restaurantes); situação das estradas e do tráfego urbano, incluindo informações sobre mobilidade e sistemas de transportes (itinerários, horários e condições de operação dos modais); ingressos para eventos de lazer e comerciais; iniciativas de pesquisa, desenvolvimento e inovação em andamento, com informações sobre resultados, entidades envolvidas e seus respectivos endereços e serviços aos cidadão e georreferenciamento.

A cidade de Edinburgo, na Escócia, com população próxima a 495 mil habitantes, com

economia diversificada baseada em serviços, indústrias, comércio, turismo e educação, conta

com avançados padrões tecnológicos para o gerenciamento das infraestruturas urbanas.

O poder público disponibiliza serviços digitais que contemplam informações e canais

de comunicação com e para os cidadãos, empresários, instituições educacionais, visitantes, abrangendo: sistemas e facilidades de transportes em diversos modais e mobilidade urbana; zeladoria urbana, incluindo manutenção de vias, sistema de fornecimento de energia elétrica, coleta convencional e seletiva de lixo e outras opções constantes em extenso catálogo de serviços; serviços de saúde e atendimento à população, incluindo serviços domiciliares de atenção à saúde; planejamento urbano, desenvolvimento e sustentabilidade; registro de alunos para o sistema educacional público; solicitações de assistência social, incluindo programas de moradia e recolocação profissional; princípios de governança, demonstrações e relatórios de realizações e situação financeira do poder público; taxas, tarifas e tributos, incluindo meios de pagamento disponíveis, portais integrados e especificamente desenvolvidos para atender necessidades particulares de diferentes atores (investidores, cidadão, estudantes e turistas); locais e horários de atendimento à população que necessariamente tenha que se deslocar a uma agência de atendimento; sistema para automação de fluxo de trabalho interno, imprimindo maior eficiência na comunicação entre os usuários e o poder público.

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2.2.2 The European Smart Cities Project

Ainda na Europa, o Projeto Cidades Europeias Inteligentes The European Smart Cities Project 8 – é uma iniciativa que congrega 70 cidades europeias ao redor de um modelo comparativo alicerçado sob seis características distintas, subdivididas em 33 índices, como descrito na Figura 5 .

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