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2 TEOLOGIA SISTEMÁTICA 1 A NATUREZA DA TEOLOGIA (1)  A teologia como doutrina: A doutrina cristã é a declaração das crenças fundamentais do cristianismo: crenças sobre a natureza de Deus, Sua ação sobre os homens, sobre o que Ele fez para nos trazer à comunhão consigo. São declarações sobre questões fundamentais da vida como: Quem sou eu? Qual é o sentido último do universo? Para onde vou? De onde vim? A doutrina trata de verdades atemporais sobre Deus e a realidade. O estudo da doutrina é chamado de teologia. Literalmente teologia significa a doutrina de Deus. É uma análise criteriosa e sistemática da doutrina cristã. 1. A teologia é bíblica: Seu fundamento principal são o V.T. e N.T. Também podemos obter informações teológicas da criação, mas o conteúdo principal é a Bíblia. 2. A teologia é sistemática: Isto é, ela não investiga os livros da Bíblia isoladamente, mas procura reunir toda a informação em um todo coerente sobre o que toda a Bíblia declara de um determinado assunto, como por exemplo, a doutrina da salvação. 3. A teologia é elaborada no contexto da cultura humana: Por essa razão ela deve relacionar os ensinos da Bíblia com as informações fornecidas em outras disciplinas que tratam do mesmo assunto em questão. Ex. A origem do homem. 4. A teologia é contemporânea: O trabalho da teologia é reconceituar verdades da Bíblia atemporais para que se tornem compreensíveis ao homem de hoje. 5. A teologia é prática: O que estudamos na teologia devemos colocar em prática. A NECESSIDADE DO ESTUDO DA DOUTRINA 1. Uma crença correta é fundamental no relacionamento entre o cristão e Deus. Ex. A doutrina da ressurreição de Cristo é a pedra de toque do cristianismo. Sem essa doutrina não há cristianismo verdadeiro. 2. Uma crença correta é fundamental devido à ligação existente entre a verdade e a experiência. A época em que vivemos da 3 muito valor a experiência. A experiência é o que norteia a vida de um homem. 3. Uma crença correta é fundamental porque existem muitos sistemas de pensamentos religiosos e seculares que lutam por nossa fidelidade. Ex. O marxismo exigiu durante muito tempo a devoção de muitas pessoas. A TEOLOGIA COMO CIÊNCIA Muitas pessoas questionam porque ensinar teologia em Instituições de ensino de curso superior. Na ótica de tais pessoas a teologia é uma ferramenta para doutrinamento religioso. Isto é verdade, para ser ensinada em instituições governamentais a teologia não pode ter ligações com nenhuma religião. Por exemplo, um professor de ensino religioso não pode favorecer a religião cristã, mas mostrar o conteúdo de todas as religiões. Porém, isto não impede que exista um estudo objetivo e científico do cristianismo e de outras religiões. Em instituições privadas e especialmente cristãs, o estudo doutrinário é bem adequado. A teologia deve usar os critérios tradicionais do conhecimento científico: 1. Um objeto definido de estudo; 2. Um método para investigar o objeto em questão e para verificar suas declarações; 3. Objetividade no sentido de que o estudo lida com fenômenos externos à experiência imediata do pesquisador, sendo, portanto acessível à investigação de outros; 4. Coerência entre as proposições do objeto em questão, de modo que o conteúdo forme um corpo definido de conhecimento, não uma série de fatos desconexos ou pouco relacionados entre si. A teologia que vamos enfocar nesta obra preenche os critérios acima relacionados: 1. Aceita as mesmas regras da lógica que as outras disciplinas. Surgindo dificuldades, a teologia não invoca simplesmente um paradoxo ou a incompreensibilidade; 2. É comunicável, pode ser expressa em forma verbal proposicional; 3. Emprega métodos usados por outras disciplinas específicas, especialmente a história e a filosofia. 4. Partilha alguns objetos de estudo com outras disciplinas. Assim, existe a possibilidade de pelo menos algumas de suas proposições serem confirmadas ou refutadas por outras disciplinas, tais como a ciência natural, a ciência do comportamento ou a história. O PONTO DE PARTIDA PARA O ESTUDO DA DOUTRINA CRISTÃ As fontes da doutrina cristã: 4 1. Teologia natural: O universo criado é estudado para determinar certas verdades acerca de Deus e da natureza humana. 2. Tradição: Pesquisa-se o que vem sendo adotado e ensinado por indivíduos e organizações que se identificam como cristãos. Assim, o que tem sido crido torna-se norma para o que deve ser crido. 3. As Escrituras: A Bíblia é tida como o documento definidor ou a constituição da fé cristã. Portanto, ela especifica em que se deve crer e o que se deve fazer. 4. Experiência: Considera-se que a experiência religiosa de um cristão hoje provê informações divinas autorizadas. Esta obra irá utilizar a terceira abordagem. Uma prática semelhante tem sido usada por várias instituições e organizações religiosas que possuem algum tipo de carta régia, constituição ou artigos de incorporação definindo o que deve ser a instituição e os procedimentos que deve seguir. O MÉTODO DA TEOLOGIA 1. A coleta dos materiais bíblicos: O primeiro passo será identificar todas as passagens bíblicas importantes que tratam do tópico que está sendo investigado e, depois, interpretá-las com muito critério. Esse é o processo conhecido como EXEGESE. O exegeta desejará usar os melhores instrumentos e métodos. Esses instrumentos incluem concordâncias, comentários, gramáticos e léxicos. Usando estas ferramentas o exegeta deve ser criterioso. Deve considerar a posição do autor do comentário, por exemplo. Deve pelo menos ter noção da perspectiva teológica do autor, a fim de que pressupostos incongruentes com a orientação geral do exegeta não sejam importados de forma inconsciente. Deve o exegeta determinar com precisão o que o autor estava dizendo à sua audiência específica. Isto implicará o estudo do contexto histórico da Bíblia, de modo que compreendamos, por assim dizer, o interlocutor do diálogo. Ler uma passagem bíblica é um pouco como ouvir metade de uma conversa telefônica. A pesquisa bíblica deve envolver o exame de vários tipos de materiais bíblicos. Em alguns casos, estudar palavras; por exemplo, pode-se determinar o significado de fé pelo estudo de todas as ocorrências do substantivo grego pistis e do verbo pisteuo. Muitas vezes será útil examinar passagens didáticas das Escrituras em que algum autor discorra de forma direta sobre um tópico em particular. As passagens narrativas são mais difíceis, mas muito importantes. Nelas obtemos descrições de ações divinas e frequentemente como ilustrações de verdades doutrinárias. Em alguns casos o autor fornece uma interpretação ou uma explicação em que se evidencia a implicação doutrinária. 5 A UNIFICAÇÃO DOS MATERIAIS BÍBLICOS É fundamental compreender o que um autor bíblico fala em diferentes contextos sobre um tema. A doutrina não é uma simples descrição do que os autores bíblicos declaram. Por esse motivo devemos reunir suas declarações formando um sistema coerente. Neste prisma, o teólogo, utiliza o mesmo procedimento adotado em outras disciplinas. Por exemplo, na psicologia o pesquisador primeiro observaria os pontos comuns entre os psicólogos de cada escola de pensamento e, logo após, averiguaria se as diferenças parecidas são divergências concretas. Este trabalho exegético tem como pressuposto a unidade e coerência entre os vários materiais e testemunhos bíblicos. A ANÁLISE DO SIGNIFICADO DOS ENSINOS BÍBLICOS Logo após os dados doutrinários serem reunidos e formado um sistema coerente o exegeta deve buscar o seu verdadeiro sentido. Aqui o exegeta deve ser criterioso para não atribuir os significados contemporâneos às referências bíblicas, estes erros chamaram de eisegese. Pode ocorrer quando debatemos com pessoas que estão habituadas com uma interpretação do texto bíblico, elaborar um conceito, como por exemplo, o novo nascimento, como sendo compreendido da mesma forma por todas as pessoas. Por essa razão o teólogo toda vez tem que repetir esta pergunta: Qual é o verdadeiro sentido disso? Para que os conceitos da Bíblia sejam interpretados com precisão para a nossa época, é fundamental que tenham sido compreendidos de forma correta. Senão haverá uma imprecisão ainda maior nas próximas etapas e o erro se multiplicará. O EXAME DAS INTERPRETAÇÕES HISTÓRICAS É fundamental para o teólogo a utilização da teologia histórica porque nesta ferramenta ele vai ter a oportunidade de comparar suas interpretações com as dos teólogos do passado. A razão desta comparação não extrair delas um denominador comum, mas compreender que nossas interpretações são paralelas a outras mais antigas. Outro benefício da utilização da teologia histórica é aprender a fazer teologia observando como os outros fizeram. A IDENTIFICAÇÃO DA ESSÊNCIA DA DOUTRINA A Bíblia não foi escrita para nós, mas para as pessoas daquela época. Devemos entender que o cenário histórico e cultural de nossa época é bastante diferente da época em que a Bíblia foi escrita. Por essa razão devemos ser criteriosos para não reexpressarmos a interpretação da mesma 6 forma original, porque nossa época é diferente e exige respostas diferentes. Se não observarmos isto poderemos sofrer duas consequências: a. Insistir em uma fórmula particular de determinado ensino. Por exemplo: Continuar utilizando o sistema sacrificial do Velho Testamento. b. Procurando declarar a mensagem, podemos alterá-la de tal forma que passe a ser, de fato, um novo gênero, ao invés de ser uma espécie diferente do mesmo gênero. Por exemplo: No sistema de sacrifícios do Velho Testamento, o que é permanente e imutável não é a forma do sacrifício, mas a verdade de que é necessário haver um sacrifício vicário pelos pecados da humanidade. O trabalho de identificar o que é permanente do que é temporário na Bíblia é de fundamental importância. A ILUMINAÇÃO POR MEIO DE FONTES EXTRABÍBLICAS As Escrituras são nossa principal fonte para fazer teologia, mas não é a única. Possuímos, também, a criação e a história humana. O exame destas fontes nos ajudará a compreender melhor a Bíblia. Por exemplo, a imagem de Deus no ser humano. A Bíblia nos ensina que Deus criou os homens à Sua própria imagem e semelhança. Apenas pelo texto bíblico não conseguimos identificar as implicações dessa imagem no homem. Com a ajuda das ciências do comportamento podemos coletar alguns dados que nos ajudarão com algumas informações acerca dessa imagem. Devemos observar, com protesto de muitos teólogos, que algumas disciplinas não bíblicas têm sido muito valiosas para o nosso conhecimento teológico. Por exemplo: O esforço acadêmico para identificar se os dias mencionados em Gênesis 1 são dias de 24 horas ou períodos mais longos. Outro exemplo: O estudo da Geologia tem contribuído muito para nosso conhecimento do que Deus fez. O teólogo deve ter critério nos seguintes aspectos: a. Ter a Bíblia como autoridade principal em seus estudos; b. Evitar conclusões precipitadas acerca da relação entre materiais bíblicos e não bíblicos; c. Não colocar a razão acima da fé. A EXPRESSÃO CONTEMPORÂNEA DA DOUTRINA Depois que o teólogo identificar o conteúdo permanente da doutrina chega a hora de expressá-la de forma inteligível para o homem moderno. Este é o grande desafio teológico para todas as épocas. 7 O primeiro passo é questionar a nossa época em que vivemos. Não se trata apenas de questões existenciais imediatas enfrentadas pelas pessoas, mas de todo o modo pelo qual a cultura vigente enxerga a realidade. Esse questionamento será o ponto de partida para a nossa apresentação da mensagem cristã; isto quer dizer que, devemos fazer a ligação entre o pensamento de nossa época e o pensamento da teologia bíblica. Não deixemos, porém, que a agenda não cristã dite as normas, porque muitas vezes possui pressupostos não cristãos. Contudo esse questionamento da nossa época é fundamental. Vários temas atuais são férteis para a expressão da mensagem cristã. Vivemos em uma época de indiferença, despersonalização e relativismo o que faz com que as pessoas rejeitem a mensagem bíblica com a mente, mas necessite dela com o coração, formando assim uma dicotomia neurotizante. É aqui que a mensagem cristã expressa adequadamente pode fazer a diferença na vida das pessoas. Depois do iluminismo a humanidade achou que a tecnologia poderia resolver todos os problemas dos homens, mas existe hoje a consciência de que os problemas humanos são muito mais amplos complexos e ameaçadores do que se imaginava. Os seres humanos são o maior problema para si mesmo. Neste contexto históricoexistencial o poder e a providência de Deus ganham uma importância relevante. Na teologia atual o conceito missiológico mais pertinente é a contextualização da mensagem cristã, é quando surge a necessidade de traduzir conceitos da cultura ocidental para as culturas do terceiro mundo. Existem três dimensões no processo da contextualização. a. A primeira é chamada de comprimento. Significa buscar a mensagem nos tempos bíblicos e trazer para o presente, reexpressando-a; b. A segunda é chamada de largura. O cristianismo pode assumir diferentes formas de expressão em diferentes culturas. Os missionários ocidentais devem ser criteriosos para não estarem simplesmente carregando a própria cultura a outras partes do mundo. O missionário deve identificar as características filosóficas de cada cultura para desenvolver a habilidade de expressar conceitos como pecado e expiação de maneira culturalmente relevante, pois esses conceitos formam a essência da mensagem cristã. c. A terceira é chamada de altura. Uma mensagem pode ser expressa em diferentes níveis de complexidade e refinamento. Isto depende da idade dos ouvintes. Por exemplo, não se pode comunicar da mesma forma, a mensagem cristã para uma criança e para um professor universitário. A habilidade de expressar a verdade bíblica em tempos e lugares diferentes para ouvintes diferentes é vital. 8 O DESENVOLVIMENTO DE UM TEMA CENTRAL INTERPRETATIVO Nem todas às vezes são necessárias que o cristão formule um tema central e sua teologia. Porém, na maioria das vezes é útil. Por vezes esse tema represente a denominação da qual a pessoa faz parte. Por exemplo, os calvinistas enfatizam a soberania de Deus enquanto os arminianos dão ênfase à justiça de Deus e o seu relacionamento com os homens. A forma como tratamos nossa teologia está relacionada com nossa personalidade e formação. A ESTRATIFICAÇÃO DOS TÓPICOS É fundamental decidirmos quais são os temas mais importantes da teologia e seus subpontos. Quanto maior a importância de um ponto, tanto maior deve ser o seu grau de tenacidade com que trabalharemos ele. Isto deve ser feito fazendo um esboço da teologia. A ATUALIZAÇÃO DA MENSAGEM CRISTÃ (2) O CONTEXTO CONTEMPORÂNEO DA TEOLOGIA A forma de se fazer teologia variou muito durante a história da igreja, existiram períodos de uniformidade teológica e metodológica. O período do escolasticismo católico romano é um exemplo dessa uniformidade. Do lado protestante o período pós-reforma também demonstrou uniformidade semelhante. Hoje existe uma considerável diversidade. A nossa época é marcada por teologias curtas. A teologia de Agostinho perdurou por oito séculos. A teologia de Tomás de Aquino durou dois séculos e meio. A teologia de João Calvino possuiu três séculos de duração. Depois do século XVIII o liberalismo de Friedrich Schleiermacher durou pouco mais de um século. A teologia de Karl Barth foi suprema durante vinte e cinco anos e a teologia de Rudolf Bultmann durou apenas doze anos. Na época atual ocorre a decadência das grandes escolas de pensamento teológico. Na década de 50 era possível identificar um teólogo através de sua escola teológica, fosse ele liberal neo-ortodoxo ou ortodoxo e etc. Hoje só existem teólogos e teologias individuais. A maioria dos teólogos não esposa um sistema teológico pronto. Mas, o que aconteceu? Os grandes da teologia já saíram de cena. Teólogos como Karl Barth, Paul Tillich e Reinhod Niebhur já se foram, e recentemente poucos se igualam a estes, e ninguém arrebanha seguidores como eles. Na maior parte é cada um por si. A teologia evangélica conservadora não participa desta decadência. Por terem a Bíblia como fonte, os evangélicos não sofrem com flutuações de pensamento quanto à sua experiência ou tradição, nem debatem se o foco da religião esta na experiência ou na ética. Surgem muitas variações 9 teológicas através das eras, mas a preocupação dos evangélicos é simplesmente investigar o que a Bíblia disse sobre um tema e reunir todas as conclusões em um todo coerente. A metodologia desta apostila mantém esta postura básica da teologia evangélica. Existem critérios que precisamos aprender com essa rápida visão da teologia contemporânea. a. Precisamos tomar cuidado para não nos identificarmos demais com a cultura contemporânea. Como a cultura está mudando muito rápido com a explosão do conhecimento e com as transformações nos fatores sociais, as teologias que se ligam de modo muito estreito às evoluções contemporâneas tornar-se-ão igualmente obsoletas. É fundamental se ter um equilíbrio entre a formulação da essência atemporal da doutrina cristã e a contextualização dela em uma situação específica. Se precisarmos decidir entre as duas devemos priorizar a primeira. b. Aprendemos com o cenário contemporâneo que é possível utilizarmos um pouco do ecletismo no fazer teológico. Isto não significa que podemos unir teologias contrárias de forma acrítica. Pelo contrário, o que estamos dizendo é que nenhum sistema possui um ponto de vendas exclusivo bem na esquina do mercado teológico, sendo possível, portanto, aprender de várias teologias diferentes. c. É importante manter algum grau de independência ao estudar as ideias de um teólogo. É valioso ser discípulo de alguém desde que analisemos tudo criticamente. ABORDAGENS PARA ATUALIZAR A MENSAGEM CRISTÃ Há um distanciamento muito grande do mundo atual para o mundo dos tempos bíblicos com diferenças significativas. Exemplo, os meios de transporte são muito diferentes. Na época da Bíblia se montava em cavalos e jumentos, isso restringia as viagens de longa distância. Em sua grande maioria as pessoas se restringiam ao local onde nasceram. Hoje o cenário é bem diferente, temos automóveis, aviões, trens, navios e etc., que podem percorrer grandes distâncias em pouco tempo. Viagens espaciais à lua já foram realizadas, e ainda, há projetos para se viajar para outros planetas do sistema solar. As comunicações progrediram assustadoramente, hoje podemos observar o mundo inteiro apenas de um único ponto. Possuímos satélites de televisão para isso, enquanto no mundo bíblico se levava semanas para se enviar uma mensagem de Roma até a Palestina. A cultura em seus vários aspectos sofreu mudanças astronômicas. A maneira de se ler o mundo é muito diferente hoje do que nos tempos da Bíblia. Exemplo, nos tempos bíblicos pensava-se em céu/alto e inferno/baixo: o céu ficava em algum lugar muito acima da terra. Hoje, 10 compreendemos que tal pensamento é relativo. Não vivemos em uma terra plana, colocada debaixo dos céus. Sabemos que o termo céu significa uma dimensão diferente que está distante de nós. Encontramos hoje um problema para resolver: expressar estas verdades da Bíblia usando figuras que façam sentido hoje para o homem pós-moderno. Algumas vezes esta tarefa é simples. Exemplo é fácil encontrarmos hoje equivalentes para as figuras bíblicas do pastor e das ovelhas. Contudo, outras vezes este labor torna-se difícil. Exemplo, hoje encontramos dificuldades de encontrar figuras equivalentes para explicar a possessão demoníaca. As pessoas pensam em doenças apenas sob o aspecto de bactérias e vírus e não acreditam em seres espirituais invisíveis. Existem algumas formas de transmitir o sentido da Bíblia para o homem moderno, vamos analisá-las agora: a. Devemos apresentar os conceitos bíblicos usando a terminologia da Bíblia (fundamentalistas). Não é tarefa do cristão tornar a Bíblia inteligível para o homem moderno, esta tarefa pertence ao Espírito Santo conforme Jo 16.8. Não precisamos fazer nenhuma tradução ou interpretação da mensagem para que ela tenha uma expressão contemporânea porque o mundo pós-moderno se opõe a tudo o que é sobrenatural. Tornar a mensagem bíblica inteligível para o mundo pós-moderna seria pervertê-la. b. Devemos eliminar algumas partes da Bíblia porque se tornaram obsoletas (Liberais). Não existem meios de se tornar a mensagem bíblica inteligível para o homem pós-moderno porque esta mensagem foi trazida de uma época onde predominava a ignorância humana. Exemplo: quem esta acostumado a usar a tecnologia moderna não deve ser instado a crer em respostas sobrenaturais a orações. Isso seria exigir um sacrifício do intelecto. Assim, devemos renunciar a certas partes da mensagem cristã. Crenças em mensagens antigas como anjos, demônios e inferno devem ser abandonadas. No processo de reformulação da mensagem cristã em certas ocasiões partes fundamentais da doutrina cristã precisaram ser alteradas. c. A abordagem dos tradutores da mensagem cristã (conservadores). É preciso manter a mensagem original da Bíblia e ao mesmo tempo traduzi-la para os conceitos modernos. Os tradutores se esforçam para tornar a mensagem da Bíblia compreensível para o homem pós-moderno, porém não é necessário que ela torne-se aceitável para os padrões pós-modernos. Fazer a mensagem bíblica aceitável aos padrões da pós-modernidade seria apostatar do verdadeiro evangelho. O ELEMENTO PERMANENTE NO CRISTIANISMO a. O permanente é institucional. Essa é a posição da Igreja Católica Romana. O que é permanente e permanece através dos tempos é 11 a instituição da Igreja Católica. Seu ensino é o que deve ser mantido. Segundo a Igreja Católica uma tradição oral que descende dos apóstolos foi confiada à Igreja Católica. Por meio da sua história, a igreja explicita o que está implícito na tradição e a promulga como doutrina. b. O permanente é a experiência. Harry Emerson Fosdick afirma que o cristianismo é, em essência, experiências duradouras que são expressas em categorias mutáveis. Isto quer dizer que, por exemplo, que não precisamos acreditar na segunda vinda de Cristo, porque ela é uma categoria temporária que foi usada para expressar a confiança no triunfo final de Deus. Fosdick acredita que a idéia de progresso substitui a doutrina da segunda vinda de Cristo. Não é um progresso automático e invariável, mas a idéia de que o mundo está avançando. Uma pessoa que tem esperança no futuro, o que lembra a esperança dos primeiros cristãos, guarda o elemento essencial do cristianismo, embora as categorias ou doutrinas tenham sofrido grandes mudanças. c. Outra abordagem defende que certas ações ou um certo tipo de vida constitui o elemento permanente. O teólogo Walter Rauschenbusch defendeu este pensamento, ele foi o principal expoente do evangelho social. Afirmou que são os ensinos de Jesus acerca da vida ética e do reino de Deus que constituem o fator duradouro ou permanente. Se por acaso a pessoa adotar conceitos particulares de Deus, do mundo e da vida ressurreta de Jesus, isso não é um problema crucial. O que interessa é se a pessoa segue os ensinos morais de Jesus e vive como Jesus e seus discípulos viveram. O fator permanente no ensino de Jesus é encontrado em “amarás ao teu próximo, como a ti mesmo” do que em “vou preparar-vos lugar [...] voltarei e vos receberei”. d. Por último existem os que ensinam que o elemento permanente encontra-se nas doutrinas. J. Gresham Machen defendeu com fervor essa posição. Destacou que não é suficiente apenas adotar os ensinamentos morais de Jesus. Tome-se, por exemplo, a regra áurea. Na realidade, ela pode não atuar para o bem, mas para o mal. Se, por exemplo, os antigos companheiros de um alcoólatra em recuperação fizessem a ele o que gostaram que lhes fosse feito, dariam outro drinque a ele. Dessa forma, a eficácia da regra áurea depende do caráter moral e espiritual da pessoa que a pratica. Quando se tenta separar o ato moral dos ensinos doutrinários de Jesus surgem dificuldades. Jesus ensinou regras éticas de tal forma que é virtualmente impossível separá-las dos seus ensinos acerca de si mesmo. Se alguém entende que Jesus não era o Filho de Deus, mas um mero professor de moral, então, ou ele declarava falsidades a respeito de si mesmo ou sofria perturbação mental. Tanto em um caso como em outro, haveria pouco sentido em seguir os seus ensinos éticos. 12 Outro problema similar é quando consideramos que o elemento permanente do cristianismo seja a experiência independente da doutrina. Além do que, no processo de migração da crença em um estabelecimento sobrenatural do reino divino pela volta do Senhor para a crença no progresso humano, estamos apenas trocando uma experiência por outra. Na segunda afirmação estamos colocando nossa confiança em uma avaliação da capacidade humana, já na primeira afirmação, colocamos a confiança na obra divina e sobrenatural. Ainda que a doutrina não seja todo o elemento permanente do cristianismo é um dos elementos indispensáveis. A NATUREZA DA ATUALIZAÇÃO A atualização da mensagem cristã deve manter o significado original do ensino bíblico e ao mesmo tempo aplicá-lo a situação contemporânea. Deve-se mudar a forma, não o conteúdo do ensino. Como encontrar equivalentes do século XXI para conceitos do século? Precisamos determinar a essência da doutrina do século I. A melhor maneira é adotar alguns princípios consagrados no ensino das línguas. Por exemplo: Ensinar que tal palavra em uma língua equivale a tal palavra em outra língua. Exemplo: estudando alemão as pessoas aprendem que der Stihl = a cadeira. Mas tal método não faz com que o aluno raciocine de fato em alemão. O melhor método é usado nos cursos em que os alunos não falam a mesma língua. O professor aponta para uma cadeira e diz der Stuhl, depois toca a parede e diz die Wand. O alvo é fazer com que os alunos pensem der Stuhl quando vêem uma cadeira. O que se focaliza é o significado comum que existe em todas as línguas. De uma forma parecida devemos distinguir entre a essência permanente de um conceito e suas formas temporárias de expressão. Usando o exemplo citado, a essência permanente do que conceito de que Deus habita no céu é a transcendência de Deus – Ele é diferente de nós e superior a nós em muitos aspectos. Essa é a verdade que deve ser mantida desde os tempos bíblicos até o presente. Dizer que Deus está muito acima de nós no aspecto espacial é simplesmente uma forma de expressar tal idéia em determinada época. OS CRITÉRIOS DE PERMANÊNCIA NA DOUTRINA Como distinguir entre a doutrina atemporal e suas expressões temporárias? Algumas vezes esta tarefa é fácil, exemplo: Sl 100.5 Por que o Senhor é bom, a sua misericórdia dura para sempre, e, de geração em geração a Sua fidelidade. Não é difícil saber que o texto fala da natureza atemporal divina. Em outros casos é difícil, vai ser necessário extrair a verdade atemporal de uma narrativa ou de um ensinamento escrito para certo grupo ou indivíduo, a fim de tratar de um problema específico. Nestes casos existem critérios que devem ser aplicados para facilitar a identificação do fator permanente: 13 1. Presença em várias culturas. O texto bíblico esta envolto em uma variedade de ambientes temporais, geográficos, linguísticos e culturais. Muitos séculos separam a escrita dos primeiros livros do Velho Testamento e os últimos livros do Novo Testamento. Os cenários geográficos e culturais abrangem desde ambientes pastoris na antiga Palestina até o ambiente urbano da Roma imperial. Apesar de muitas vezes ter sido exageradas, as diferenças entre as culturas e as línguas hebraicas e gregas são reais. Se, portanto, conseguirmos identificar fatores que são encontrados em vários desses ambientes, é bem possível que estejamos lidando com elementos permanentes ou imutáveis da mensagem. Ex. o princípio da expiação sacrificial juntamente com a rejeição de todo tipo de justificação por obras. Esse princípio é encontrado no sistema sacrificial do Velho Testamento e no ensino do Novo Testamento acerca da morte expiatória de Jesus. Outro exemplo é a centralidade da crença em Jesus Cristo, ensino reforçado tanto no contexto judaico como no gentílico. Pedro, por exemplo, pregou-a a judeus de várias culturas, em Jerusalém, no Pentecostes. Paulo a declarou em um ambiente gentílico ao carcereiro filipense (At 16.31). 2. Aplicação universal. Algumas doutrinas são ensinadas de maneira enfática demonstrando que possui uma aplicação universal. Por exemplo, a doutrina do batismo. Existem várias referências bíblicas a situações específicas em que o ritual era praticado, além disso, o batismo faz parte da grande comissão conf. Mt 28.18-20. Devemos observar que existem três aspectos com aplicação universal; a. A afirmação de Jesus dizendo que toda autoridade lhe foi dada insinua que, quando ele transfere autoridade para seus discípulos, tem em mente uma tarefa que deve ser desempenhada indefinidamente. b. Todas as nações dão a entender uma universalidade de lugar e cultura conforme At 1.8. c. Jesus estaria sempre com os discípulos, até o fim dos tempos. Isso indica que a grande comissão deve ser aplicada permanentemente. Fundamentados nestas considerações, podemos concluir que o batismo não foi praticado apenas em algumas épocas e lugares, mas possui aplicabilidade permanente. Muitos consideram o lava-pés como uma prática universal (Jo 13). Porém, no texto em apreço não existem afirmações gerais ou universais. É verdade que Jesus disse: “também vós deveis lavar os pés uns dos outros, v.14, contudo nada disse acerca da duração de tal ato”. Apesar de ter dito que tinha feito para deixar o exemplo para os discípulos, v.15, o motivo de sua ação era para afirmar que o servo não é maior que o seu senhor, v.16. Na realidade a verdadeira intenção de Jesus era ensinar aos seus discípulos o princípio da humildade. Naquela cultura lavar os pés dos outros 14 simbolizava muito bem este princípio. Em outra cultura outro ato pode expressar o princípio de modo mais eficaz. Outros textos bíblicos ensinam o princípio da humildade sem fazer menção do lava-pés, Mt 20.27; 23.10-12; Fp 2.3. Assim, chegamos a conclusão de que a atitude de humildade, não o ato específico de lavar os pés, é o elemento permanente no ensino de Jesus. 3. Um fator reconhecidamente permanente por fundamento. Citamos como exemplo o casamento. O que Jesus ensina sobre o casamento fundamenta-se no fato de que Deus criou os seres humanos em forma masculina e feminina, afirmando que os dois tornam-se um (Mt 19.4-6 citando Gn 2.24). Essa ação de Deus aconteceu de uma vez por todas, seu pronunciamento acerca da união de macho e fêmea deveria possuir valor permanente. Citando o pronunciamento de Deus, Jesus está declarando que o relacionamento conjugal deve ser permanente. 4. Ligação indissolúvel com uma experiência essencial. O teólogo Rudolf Bultmann tentou fazer separação entre a questão da veracidade da ressurreição de Jesus e a experiência de renovação da esperança e da abertura para o futuro. Porém, Paulo diz em 1 Co 15.17 que não é possível manter a experiência independente da ressurreição de Cristo. Além disso, se nossa experiência da ressurreição é real e permanente, a ressurreição de Cristo também deve ser real, permanente e universal. Qualquer modificação nessa doutrina resultará numa alteração correspondente na experiência. 5. Posição final dentro da revelação progressiva. Muitas formas de expressão da religião judaico-cristã foram substituídas porque eram apenas prenúncios imperfeitos da obra final de Deus na época do Novo Testamento ou da nova aliança. Quando Deus se revelou de forma mais completa, as expressões posteriores se desenvolveram e progrediram acima das expressões anteriores. Ex. nas bem aventuranças Jesus disse com frequência: “Ouvistes o que foi dito [...] Eu, porém, vos digo...” Nestas ocasiões Jesus deu expressão final de uma verdade que havia sido apresentada de forma incompleta. Ao realizarmos todos os passos acima mencionados devemos tomar o cuidado de compreender que a nossa interpretação é influenciada pelas nossas próprias circunstâncias históricas, para que não caiamos no erro de identificarmos erroneamente a forma pela qual expressamos um ensino bíblico com sua essência permanente. A REVELAÇÃO DE DEUS (3) A Revelação Universal de Deus A natureza da revelação 15   Sendo o homem finito e Deus infinito, não podemos conhecer a Deus a não ser que Ele se revele para nós, ou seja, a menos que Ele se manifeste aos homens de tal forma que estes possam conhecê-lo e ter comunhão com ele. Existem dois tipos de revelação: A revelação Geral que significa que Deus comunicando a respeito de si mesmo a todas as pessoas de todos os tempos e de todos os lugares. A revelação especial que abrange comunicações particulares e manifestações de Deus para pessoas específicas em épocas específicas, comunicações e manifestações estas a que, hoje, só existe acesso pela consulta a livros sagrados. A revelação geral é a auto manifestação de Deus por meio da natureza, da história e da personalidade do homem. É geral por causa de duas características: sua disponibilidade universal (é acessível a todas as pessoas em todos os tempos) e o conteúdo da mensagem (é menos particularizado e detalhado que o da revelação especial). Precisamos tratar de algumas questões. Primeiro a genuinidade da revelação. Ela de fato existe? Ela é eficaz? É possível construirmos uma teologia natural? Os Meios da Revelação Geral Nós temos: a natureza, a história e a constituição do ser humano. A Bíblia fala sobre a revelação geral: Sl 19.1; Rm 1.20. Essas e outras numerosas passagens deixam claro que Deus deixou provas a respeito de si mesmo no mundo que criou. O segundo meio de revelação geral é a história. O exemplo clássico de que Deus se revela na história é a preservação de Israel. Essa pequena nação vem sobrevivendo ao longo dos séculos, em ambientes hostis, muitas vezes enfrentando grandes oposições. Quem investigar a história de Israel vai encontrar um padrão notável. O terceiro meio da revelação geral é o homem. A revelação de Deus é vista na estrutura física, mental e moral do homem. Mas, é na parte moral que nós podemos perceber o caráter de Deus. Os homens fazem julgamentos morais, ou seja, julgamentos sobre o que é certo e o que é errado. Isto envolve mais do que preferência pessoal, gostar ou não gostar, e mais do que mero utilitarismo. A revelação geral também é encontrada na natureza religiosa do homem. Em todas as culturas, em todos os tempos e lugares, os homens vêm crendo na existência de uma realidade superior a si mesmo, e até em algo superior à raça humana como um todo. Embora a natureza exata da crença e as práticas de adoração variem de uma religião para outra, muitos vêem nessa tendência para a 16 adoração do que é santo a manifestação de um conhecimento de Deus no passado, uma percepção interna da deidade, a qual, embora talvez desfigurada e distorcida, ainda está presente e ativa na experiência humana. A realidade e a eficácia da revelação geral A teologia natural Existem revelação geral opiniões diferentes quanto à eficácia da A revelação geral é válida e objetiva em nos mostrar Deus na natureza, na história e na personalidade humana. Esta posição sustenta que é possível construir uma teologia natural. Para isso ela possui vários pressupostos: a. Deus se fez conhecer através da natureza de forma objetiva, mesmo que ninguém perceba, entenda, nem aceite essa revelação. b. A pessoa humana é íntegra e percebe e aprende a partir da criação. Nem as limitações do homem, nem os efeitos do pecado impedem as pessoas de reconhecer e interpretar corretamente a criação. c. Existe uma congruência entre a mente humana e a criação ao nosso redor. A ordem da mente humana é basicamente igual à ordem do universo. d. Pressupõe a validade das leis da lógica. A teologia natural nega assiduamente os paradoxos e as contradições lógicas, considerando que serão removidas. e. Entende que o paradoxo é um sinal de indigestão intelectual; caso fosse mais bem mastigado desapareceria. f. A essência da teologia natural é a idéia de que é possível chegar a um conhecimento genuíno de Deus tendo como base apenas a razão, sem um compromisso de fé anterior como as crenças do cristianismo e sem nenhuma dependência de alguma autoridade especial, tais como uma instituição (a igreja) ou um documento (a Bíblia). Razão neste caso refere-se à capacidade humana de descobrir, compreender, interpretar e avaliar a verdade. g. O teólogo mais notável que utilizou a teologia natural foi Tomás de Aquino. Para ele todas as verdades pertencem a dois campos. O campo inferior é o da natureza, o superior é o da graça. Apesar dos ensinos do campo superior estar submissos à autoridade, os ensinos do campo inferior podem ser conhecidos pela razão. h. Este teólogo elaborou argumentos para provar algumas crenças por intermédio da razão pura: a existência de Deus, a imortalidade da alma e a origem sobrenatural da 17 i. igreja católica. Elementos mais específicos da doutrina, como a trindade, não podiam ser conhecidos apenas pela razão, precisando ser aceitos em submissão à autoridade. São verdades da revelação e não da razão. A razão rege o nível inferior, enquanto a fé rege o nível superior. Sobre a existência de Deus Tomás elaborou alguns argumentos:  O argumento cosmológico: 1. no campo da nossa experiência tudo o que conhecemos é causado por algum outro fator. 2. Porém, não pode haver uma regressão infinita de causas, pois, nesse caso, toda essa série de causas jamais teria começado. 3. Portanto, deve existir alguma causa INCAUSADA (motor imóvel) ou um ser necessário. A este, nós (todas as pessoas) chamamos de Deus.  O argumento teleológico: 1. Ordem e adaptação implicam uma causa inteligente. 2. O universo caracteriza-se por ordem e adaptação útil. 3. O universo teve um causador inteligente.  O argumento antropológico: este foi formulado por Imannuel Kant. 1. Todos possuímos um impulso moral ou imperativo categórico. 2. A obediência a esses impulsos, traduzida num comportamento moral, nem sempre é bem compensada nesta vida. Ser bom nem sempre adianta. 3. Nesse caso, porque alguém deveria ser moral? Deve haver alguma base para a ética e a moralidade, algum tipo de prêmio que, por sua vez, envolva vários fatores – imortalidade e uma alma que não morra, um tempo futuro de julgamento e um Deus que estabeleça e sustente os valores e que premie o bem e castigue o mal. Assim a ordem moral (em contraste com a ordem natural) exige a existência de Deus.  O argumento Ontológico: Até aqui os argumentos apresentados, todos eles são empíricos, ou seja, surgem da observação do universo pela experiência sensorial. O argumento ontológico ele é intelectual: 1. Deus é o maior de todos os seres concebíveis. 2. Mas um ser que não existe não pode ser o maior de todos os seres concebíveis. 3. Portanto, é necessário que Deus exista. Este argumento foi formulado por Anselmo na sua obra Proslogion. Uma Crítica a Teologia Natural 18 A teologia natural teve um importante papel, e ainda tem, na defesa e na explicação racional da fé cristã, mas sozinha não é suficiente para levar o homem ao conhecimento de Deus. Seus argumentos são válidos, porém não são suficientes para convencer a todos, mesmo quando apresentados de modo adequado. Não são poucos os filósofos e teólogos que têm levantado críticas contra os argumentos da teologia natural sobre a existência de Deus. Se as provas sobre a existência de Deus forem apresentadas de forma inadequada trará mais dificuldades do que benefícios. Alguém ao criticar rejeitar tais provas poderá rejeitar também a mensagem cristã. O problema com estes argumentos estão situados nos seus pressupostos. Tomás de Aquino considerou como um axioma que não pode haver uma regressão infinita de causas. Hoje muitas pessoas discordam desta colocação alegam que não há necessidade de se buscar uma causa última, e, mesmo que se busque existe a possibilidade de um círculo de causas, em que cada causa dentro de um sistema fechado, provoca outra. Da mesma forma o pressuposto de que o movimento precisa ter uma causa ou explicação não aceita de forma universal em nossa época. A realidade pode muito bem ser dinâmica e não estática. Existem críticas contra o procedimento de estender o argumento do observável para o que está além da experiência. Por exemplo, quando encontramos um relógio na areia, temos algo que pode ser verificado pela experiência sensorial. Podemos conferir com a empresa cujo nome aparece no relógio e averiguar se foi por ela fabricado. Além disso, reconhecemos que o relógio é similar a outros relógios que já vimos antes. Dessa forma podemos transcender com base nas experiências passadas. No caso do universo, no entanto, não possuímos algo que possa ser tão facilmente verificado por outra experiência sensorial. Quantas vezes vimos algum universo sendo criado? A pressuposição é que o universo é um elemento de uma classe de objetos aos quais podemos compará-lo e que, assim, podemos fazer julgamentos racionais acerca de seu propósito. Só que isto deve ser estabelecido e não pressuposto, para que o argumento da analogia do relógio tenha resultado. Vamos supor que alguém consiga provar, com um argumento válido, que este mundo deve ter tido uma causa. Apesar disso não podemos concluir que tal causa precisa ser infinita. Podemos afirmar que existiu uma causa suficiente que foi responsável por esse efeito. O fato de alguém poder levantar um peso de 50 quilos não garante que possa levantar mais do que isso. De forma semelhante não podemos provar a existência de um criador infinito a partir da existência de um universo finito. Outro argumento é necessário para provar que a causa suficiente do universo é o Deus do cristianismo e, também, que os deuses que constituem as conclusões dos vários argumentos de Tomás são, todos, a mesma entidade. Se tivermos uma teologia natural, ela deve ser fundamentada somente na razão humana sem o auxílio de outra autoridade. 19 O argumento teleológico também sofreu e sofre críticas. Desde Charles Darwin, o apelo usual à complexidade e à beleza do reino biológico não exerce muito poder de persuasão sobre os que aceitam a teoria da evolução biológica. Os evolucionistas acreditam que as mudanças nas características surgiram de variações acidentais chamadas mutações. Algumas delas foram benéficas e outras prejudiciais. Na luta pela sobrevivência ocasionada pela fecundidade da natureza, qualquer característica que permita a sobrevivência da espécie será transmitida, enquanto os ramos da espécie que não possuem essa característica desaparecem. Nesse modelo, o processo de seleção natural produziu as qualidades notáveis que o argumento teleológico alega apontar para uma ordem e um Ordenador. A crítica contra o argumento teleológico possui falhas, mas as pessoas que aceitam a evolução não concordam com a afirmação de Tomás de que existe um caráter compulsório e necessário no agrupamento teleológico. O argumento teleológico também enfrenta a crítica disteteológica. Se o argumento deve ser totalmente empírico, deve, naturalmente, levar em conta todos os dados. Porém, o argumento se desenvolve com base em indicações visíveis de um Deus sábio e benevolente que controla a criação. Porém, existem aspectos no mundo que são perturbadores como, por exemplo, as catástrofes naturais, doenças, a crueldade e injustiça dos homens para com o seu semelhante. Se Deus é todo-poderoso e completamente bom, como pode haver tais coisas? Destacando esses pontos, é possível construir um argumento em favor tanto da inexistência de Deus como da existência de um Deus que não é bom. Ainda, o argumento teleológico pode se transformar em um argumento a favor, não da existência de Deus, mas do diabo. Analisando estas considerações esse argumento torna-se pouco expressivo. Uma análise de passagens bíblicas importantes Salmos 19.1-4, este texto ensina que a natureza declara a glória de Deus. Romanos 1.1-2 também se refere à revelação geral. O capítulo um nos versos 18 e 32 destacam a revelação de Deus na natureza, enquanto o capítulo dois dos versos quatorze aos dezesseis trata especificamente da revelação de Deus através da personalidade humana. O tema de romanos esta no capítulo um nos versos dezesseis e dezessete. A justiça de Deus é revelada de fé em fé. Essa justiça de Deus em prover a salvação pressupõe a ira de Deus revelada dos céus contra toda impiedade e perversão humana conforme o versículo dezoito. Paulo mostra a ira de Deus como sendo justa. As pessoas em que esta ira recai têm a verdade, mas a suprimem com a injustiça v. 18b. Deus lhes mostrou claramente o que se pode conhecer a respeito de si. Essa auto manifestação continua desde a criação do mundo, sendo percebida nas coisas que Deus fez. Deus nos deu uma revelação objetiva, válida e racional acerca de si mesmo por meio da natureza, da história e da personalidade humana. Ela é acessível a todas as pessoas que queiram observá-la. 20 Outra passagem é Atos 14.15-17. O povo pensou que Paulo e Barnabé eram deuses. Começaram a adorá-los. Tentando impedir a ação Paulo enfatizou que eles deveriam adorar a Deus que havia feito o céu e a terra. A última passagem é At 17.22-31. Paulo fala no areópago e apresenta o Deus desconhecido. Proclamou este como o verdadeiro Deus criador dos céus e da terra. Revelação geral, porém sem teologia natural. A revelação geral não é a natureza interpretada por aqueles que conhecem a Deus por outros meios, ela já está presente, pela criação e pela providência contínua de Deus. O pecador não percebe esta revelação por causa do pecado. A criação ficou sujeita a maldição Gn 3.17-19, á futilidade Rm 8.18-25 e aguarda ser liberta. O resultado é que seu testemunho ficou distorcido, borrado pelo pecado. O homem ficou cego espiritualmente 2 Co 4.4. A revelação geral não leva o pecador ao conhecimento de Deus. Para conhecer a Deus o homem precisa de acordo com Calvino dos “óculos da fé”. Quando o pecador olha para a natureza ele vê com uma visão embotada, quando ele coloca os óculos da fé sua visão fica clara. Quando o pecador recebe e aceita a revelação especial do evangelho sua mente é clareada pela obra da regeneração, a partir daí ele é capaz de reconhecer na natureza a Deus. Portanto, concluímos que existe uma revelação geral objetiva, mas que ela não pode ser usada para construir uma teologia natural. A Revelação Particular de Deus A definição e a necessidade da revelação especial Revelação especial é a auto manifestação de Deus para certas pessoas em tempos e lugares definidos, permitindo que tais pessoas entrem num relacionamento redentor com ele. A palavra hebraica para revelar é galah. A palavra grega usual é apokalypto. Estas palavras expressam a idéia de desvelar o que está encoberto. O grego phaneroo transmite a idéia de manifestação é usada, também, com frequência. Por que a revelação especial foi necessária? Devido à queda o homem perdeu seu relacionamento com Deus e perdeu o conhecimento de Deus. Esse conhecimento precisava ir além da revelação geral. O objeto da revelação especial está no campo do relacionamento. O propósito desta revelação é fazer o homem conhecer a Deus de forma plena. 21 No tocante a relação entre revelação geral e especial alguns teólogos ensinam que a revelação especial é posterior à revelação geral. Frequentemente ela é considerada remediadora. Contudo quando lemos o texto de gênesis observamos Deus à procura de Adão e Eva no jardim depois da queda deles Gn 3.8. Ficamos com a impressão de que esse foi um de vários encontros especiais que ocorreram. Também, as instruções dadas aos homens Gn 1.28 acerca da posição e da atividade deles na criação sugere uma comunicação especial do criador com a criatura. Não parece que tais instruções fossem meramente inferidas pela observação da ordem criada, sendo assim, a revelação especial anterior à queda. A insuficiência da revelação geral exige uma revelação especial. E a revelação especial exige uma revelação geral. Sem a revelação geral não teríamos os conceitos a respeito de Deus que nos permitem conhecer e compreender o Deus da revelação especial. A revelação especial constrói sobre a revelação geral. O estilo da revelação especial A natureza pessoal da revelação especial Esta revelação é pessoal. Um Deus pessoal apresenta-se a pessoas. Deus se revela anunciando o próprio nome. Nada é mais pessoal que o nome Ex 3.14. Deus firmou alianças pessoais com indivíduos e com a nação de Israel. Toda a Escritura é pessoal quanto à natureza. O que encontramos não é um conjunto de verdades universais, mas uma série de pronunciamentos particulares sobre ocorrências e fatos concretos. A Escritura também não é uma apresentação teológica formal, com argumentos e contra-argumentos. A Escritura não faz digressões sobre assuntos de interesse puramente histórico. Ela não preenche as lacunas no conhecimento do passado. Ela não se concentra em detalhes biográficos. O que Deus revela é principalmente a si mesmo, como pessoa e, em especial, suas dimensões mais significativas para a fé. A natureza antrópica da revelação especial Não podemos subir para encontrarmos a Deus, foi necessário que Ele descesse. Assim Deus se revela de forma antrópica. Isto não é um antropomorfismo, mas que Deus se revela com a linguagem humana e em categorias humanas de pensamento e ação. A natureza analógica da revelação especial Deus utiliza elementos do nosso universo de conhecimento que podem servir como paralelos da verdade no campo divino ou podem transmiti-la parcialmente. Sua revelação emprega linguagem analógica. A 22 palavra analogia significa comparar duas realidades para verificar as diferenças e as semelhanças. A revelação de Deus é assim ela compara a realidade do homem com a realidade divina, onde o divino desce até o humano. A analogia utilizada na revelação quer dizer “igual em qualidade”, isto quer dizer que a diferença é de grau, não de espécie ou gênero. Deus é todo-poderoso, o homem é apenas poderoso. O que torna possível a revelação analógica é o fato de que é Deus quem seleciona os componentes por ele usados. Os meios da revelação especial Os eventos históricos O discurso divino A encarnação A revelação especial: proposicional ou pessoal? Existem três conceitos a respeito da revelação divina: o conceito liberal que entende que não existe revelação sobrenatural, a revelação é simplesmente a capacidade racional de interpretar o mundo; o conceito neo-ortodoxo que ensina que a revelação é pessoal e não proposicional, a revelação consiste num encontro pessoal entre Deus e o homem, e não em palavras escritas ou livros publicados; o conceito ortodoxo que ensina que a revelação é tanto pessoal quanto proposicional, Deus se revela de forma pessoal para o homem e o inspira a registrar esta revelação de forma escrita através de proposições. A concepção liberal é completamente racionalista, a concepção neoortodoxa apresenta duas dificuldades. A primeira é estabelecer uma base sobra a qual possa firmar a fé. Quem defende a neo-ortodoxia podem ter certeza de que o que encontram é realmente o Deus de Abraão, Isaque e Jacó? Para confiarmos em uma pessoa, precisamos ter algum conhecimento a seu respeito. A segunda dificuldade é a teologia, os defensores da neo-ortodoxia, apesar de rejeitarem a revelação escrita, preocupam-se em fazer teologia. Isso não faz nenhum sentido. A revelação especial é tanto pessoal como proposicional: Deus se revela, dizendo-nos algo a respeito de si mesmo. A Preservação da Revelação: A Inspiração (4) Definição de inspiração: É uma influência sobrenatural do Espírito Santo sobre o pecador que o capacita a escrever a mensagem de Deus isenta de falhas ou erros. 23 A Bíblia foi escrita para o povo de sua época, mas era necessário uma revelação permanente de Deus para as gerações futuras. Deus escolheu a escrita para transmitir e preservar a revelação, e através da inspiração capacitou os homens a escrevê-la. Inspiração não é revelação. A revelação é o ato divino pelo qual Ele descobre a mente do homem verdades que de outra forma ele não poderia saber. A revelação não contém a idéia de preservação e transmissão da verdade revelada a outrem, essa tarefa compete a inspiração. Inspiração não é iluminação. A iluminação é ato divino pelo qual a mensagem de Deus se torna clara para o homem. Através da iluminação o homem regenerado passa a compreender as verdades sobre Deus. A revelação trata da origem do descobrimento e comunicação da verdade, a iluminação trata da compreensão da verdade já revelada e a inspiração trata do registro e garante a transmissão fiel da verdade. Em 1 Co 2.9-13 encontramos os três conceitos: Revelação, Deus no-la revelou pelo seu Espírito, v. 10; Iluminação, ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus... recebemos o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer, v. 11-12; Inspiração, falamos com as palavras que o Espírito Santo ensina, v. 13. Estes conceitos podem operar juntos ou de formas separadas, como por exemplo: Inspiração sem revelação, Lc 1.1-4 e o livro de Atos; Inspiração junto com revelação, o apóstolo João recebeu ordem para escrever o que lhe havia sido revelado, Ap 1.1-11; Inspiração e revelação sem iluminação, os profetas, 1 Ped 1.10-11 e 2 Ped 1.21; Inspiração e iluminação, 1 Co 2.12; Revelação sem inspiração, Ex 20.1-12 e Ap 10.3-4; Iluminação sem inspiração, os pregadores modernos. Definição Teológica de Inspiração Na única vez em que o NT usa a palavra inspiração, ela se aplica aos escritos, não aos escritores. A Bíblia que é inspirada, e não seus autores humanos. O adequado, então, é dizer que: o produto é inspirado, os produtores não. Os autores escreveram e falaram sobre muitas coisas, como, por exemplo, quando se referiram a assuntos mundanos, pertinentes a esta vida, os quais não foram divinamente inspirados. Todavia, visto que o Espírito Santo, conforme ensina Pedro, tomou posse dos homens que produziram os escritos inspirados, podemos, por extensão, referir-nos à inspiração em sentido mais amplo. Tal sentido mais amplo inclui o processo total por que alguns homens, movidos pelo Espírito Santo, enuncia ram e escreveram palavras emanadas da boca do Senhor; e, por isso mesmo, palavras dotadas da autoridade divina. É esse processo total da inspiração que contém os três elementos essenciais: a causalidade divina, a mediação profética e a autoridade escrita. 24 Causalidade divina Deus é a Fonte Primordial da inspiração da Bíblia. O elemento divino estimulou o elemento humano. Primeiro Deus falou aos profetas e, em seguida, aos homens, mediante esses profetas. Deus revelou-lhes certas verdades da fé, e esses homens de Deus as registraram. primeiro fator fundamental da doutrina da inspiração bíblica, e o mais importante, é que Deus é a fonte principal e a causa primeira da verdade bíblica. No entanto, não é esse o único fator. Mediação profética Os profetas que escreveram as Escrituras não eram autômatos1. Eram algo mais que meros secretários preparados para anotar o que se lhes ditava. Escreveram segundo a intenção total do coração, segundo a consciência que os movia no exercício normal de sua tarefa, com seus. Estilos literários e seus vocabulários individuais. As personalidades dos profetas não foram violentadas por uma intrusão sobrenatural. A Bíblia que eles produziram é a Palavra de Deus, mas também é a palavra do homem. Deus usou personalidades humanas para comunicar proposições divinas. Os profetas foram a causa imediata dos textos escritos, mas Deus foi a causa principal. Autoridade escrita O produto final da autoridade divina em operação por meio dos profetas, como intermediários de Deus, é a autoridade escrita de que se reveste a Bíblia. A Escritura "é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, repreender, corrigir, instruir em justiça”. A Bíblia é a última palavra no que concerne a assuntos doutrinários e éticos. Todas as controvérsias teológicas e morais devem ser trazidas ao tribunal da Palavra escrita de Deus. As Escrituras receberam sua autoridade do próprio Deus, que falou mediante os profetas. No entanto, são os escritos proféticos e não os escritores desses textos sagrados que possuem e retêm a resultante autoridade divina. Todos os profetas morreram; os escritos proféticos prosseguem. Em suma, a definição adequada de inspiração precisa ter três fatores fundamentais: Deus, o Causador original. Os homens de Deus, que serviram de 25 instrumentos A autoridade escrita, ou Bíblia Sagrada, que é o produto final Distinções Importantes (1) A inspiração em contraste com a revelação e a iluminação. Há dois conceitos inter-relacionados que nos ajudam a esclarecer, pela contraposição, o que significa inspiração, a saber:   A revelação diz respeito à exposição da verdade; A iluminação, à devida compreensão dessa verdade descoberta. No entanto, a inspiração não consiste nem em uma, nem em outra. A revelação prende-se à origem da verdade e à sua transmissão; a inspiração relaciona-se com a recepção e o registro da verdade. A iluminação ocupa-se da posterior apreensão e compreensão da verdade revelada. A inspiração que traz a revelação escrita aos homens não traz em si mesma garantia alguma de que os homens a entendam. É necessário que haja iluminação do coração e da mente. A revelação é uma abertura objetiva; a iluminação é a compreensão subjetiva da revelação; a inspiração é o meio pelo qual a revelação se tornou uma exposição aberta e objetiva. A revelação é o fato da comunicação divina; a inspiração é o meio; a iluminação, o dom de compreender essa comunicação. (2) Inspiração dos originais, não das cópias A inspiração e a consequente autoridade da Bíblia não se estendem automaticamente a todas as cópias e traduções bíblicas. Só os manuscritos originais, conhecidos por autógrafos, foram inspirados por Deus. Os erros e as mudanças efetuados nas cópias e nas traduções não podem ser atribuídos à inspiração original. Por exemplo: 2 Reis 8.26 (ARC) diz que Acazias tinha 22 anos de idade quando foi coroado rei, enquanto 2Crônicas 22.2 diz que tinha 42 anos. Não é possível que ambas as informações estejam corretas. O original é autorizado; a cópia errônea não tem autoridade. Outros exemplos desse tipo de erro podem encontrar-se nas atuais cópias das Escrituras (e.g., cf. lR s 4.26 e 2Cr 9.25). Portanto, uma tradução ou cópia só é autorizada à medida que reproduz com exatidão os autógrafos. O grandioso conteúdo doutrinário e histórico da Bíblia tem sido transmitido de geração a geração, ao longo da história, sem mudanças nem perdas substanciais. 26 As cópias e as traduções da Bíblia, encontradas no século XX, não detêm a inspiração original, mas contêm uma inspiração derivada, uma vez que são cópias fiéis dos autógrafos. De uma perspectiva técnica, só os autógrafos são inspirados; todavia, para fins práticos, a Bíblia nas línguas de nossa época, por ser transmissão exata dos originais, é a Palavra de Deus inspirada. Visto que os originais não mais existem, alguns críticos têm contestado a inerrância dos autógrafos que não podem ser examinados e nunca foram vistos. Eles perguntam como é possível afirmar que os originais não continham erro, se não podem ser examinados. A resposta é que a inerrância bíblica não é um fato conhecido empiricamente, mas uma crença baseada no ensino da Bíblia a respeito de sua inspiração, bem como baseada na natureza altamente precisa da grande maioria das Escrituras transmitidas e na ausência de qualquer prova em contrário. Afirma a Bíblia ser a declaração de um Deus que não pode cometer erro. É verdade que nunca se descobriram um único autógrafo original falível. Temos, pois, manuscritos que foram copiados com toda precisão e traduzidos para muitas línguas, dentre as quais o português. Portanto, para todos os efeitos de doutrina e de dever, a Bíblia como possuímos hoje é representação suficiente da Palavra de Deus, cheia de autoridade. Inspiração do ensino, mas não de todo o conteúdo da Bíblia. Cumpre ressaltar também que só o que a Bíblia ensina foi inspirado por Deus e não apresenta erro; nem tudo que está na Bíblia ficou isento de erro. Por exemplo, as Escrituras contêm o relato de muitos atos maus, pecaminosos, mas de modo algum a Bíblia os elogia; tampouco os recomenda. Ao contrário, condena essas práticas malignas. A Bíblia chega a narrar algumas das mentiras de Satanás (e.g., Gn 3.4). Portanto, a simples existência dessa narração não significa que a Bíblia ensine serem verdadeiras essas mentiras. A única coisa que a inspiração divina garante aqui é que se trata de um registro verdadeiro de uma mentira satânica, de uma perversidade real de Satanás. Às vezes não está perfeitamente claro se a Bíblia registra apenas um mero relato do que alguém disse ou fez, ou se ela está ensinando que devemos proceder de igual forma. Teorias da Inspiração Teorias a respeito da inspiração bíblica têm variado segundo as características de três movimentos teológicos: a ortodoxia, o modernismo e a neo-ortodoxia. 27 Mesmo que estas não se limitem a um único período, suas manifestações iniciais são características de três períodos sucessivos na História da Igreja.    Historicamente sempre prevaleceu a visão ortodoxa, a saber: a Bíblia é a Palavra de Deus. Surgindo o modernismo, muitos vieram a crer que a Bíblia meramente contém a Palavra de Deus. Recentemente, sob a influência do existencialismo contemporâneo, os teólogos neo-ortodoxos ensinam que a Bíblia torna-se a Palavra de Deus quando o indivíduo tem um encontro pessoal com Deus em suas páginas. Ortodoxia: A Bíblia é a Palavra de Deus. Em 18 séculos de História da Igreja, prevaleceu a opinião ortodoxa da inspiração divina. Os pais da Igreja, em geral, com raras manifestações menos importantes contrárias, ensinaram firmemente que a Bíblia é a Palavra de Deus escrita. Teólogos ortodoxos ao longo dos séculos vêm ensinando, todos de comum acordo, que a Bíblia foi inspirada verbalmente, isto é, o registro escrito por inspiração de Deus. No entanto, tem havido tentativas de procurar explicação para o fato de o registro escrito ser a Palavra de Deus e ao mesmo tempo em que o Livro foi composto por autores humanos, dotados de estilos diferentes; essas tentativas conduziram os estudiosos ortodoxos a duas opiniões divergentes: 1) Alguns abraçaram a idéia do "ditado verbal", afirmando que os autores humanos da Bíblia registraram apenas o que Deus lhes havia ditado, palavra por palavra. (2) Outros estudiosos que preferiam a teoria do "conceito inspirado", segundo qual Deus só concedeu aos autores pensamentos inspirados, e estes tiveram liberdade de revesti-los com palavras próprias. Modernismo: A Bíblia contém a Palavra Divina. Ao surgir o idealismo germânico e a crítica da Bíblia, surgiu uma nova visão evoluída da inspiração bíblica, junto ao modernismo ou liberalismo teológico. Opondo-se à opinião ortodoxa tradicional que a Bíblia é a Palavra de Deus, os modernistas ensinam que a Bíblia meramente contém a Palavra de Deus. Certas partes dela são divinas, expressam a verdade, outras são obviamente humanas e apresentam erros. Tais autores acham que a Bíblia foi vítima de sua época, como acontece a qualquer livro. Dizem que ela teria incorporado muito das lendas, dos mitos e das falsas crenças relacionadas à ciência. 28 Sustentam que, o fato dos elementos não terem sido inspirados por Deus, devem ser rejeitados pelos homens iluminados de hoje; tais erros seriam resquícios1 de uma mentalidade primitiva indigna de fazer parte do credo cristão. Somente as verdades divinas, entremeadas nessa mistura de ignorância antiga e erro grosseiro, é que de fato teriam sido inspiradas por Deus. Alguns modernistas afirmam que os homens que escreveram a Bíblia tiveram apenas uma intuição, dizendo que houve apenas manifestação do conhecimento natural da verdade. A intuição faz parte do ser humano normal, e muitas vezes leva-os a escreverem livros sagrados, científicos, filosóficos e desse modo se pode até conhecer a verdade, sem necessidade da inspiração do Espírito de Deus. Essa teoria, entretanto procura negar a pessoa de Deus, que é a verdade suprema e o Único que a possa revelar. Outra teoria diz que apenas foram inspiradas as ideias da Bíblia, ficando a palavra a cargo dos escritores. Neo-Ortodoxia: a Bíblia torna-se a Palavra de Deus. No início do século XX, a reviravolta nos acontecimentos mundiais e a influência do pai dinamarquês do existencialismo, Soren Kierkegaard, deram origem a uma nova reforma na teologia europeia. Estudiosos começaram a voltar-se de novo para as Escrituras, a fim de ouvir nelas a voz de Deus. Sem abrir mão de suas opiniões críticas a respeito da Bíblia, começaram a levar a Bíblia a sério, por ser a fonte da revelação de Deus aos homens. Criando um novo tipo de ortodoxia, afirmavam que Deus fala aos homens mediante a Bíblia; as Escrituras tornam-se a Palavra de Deus num encontro pessoal entre Deus e o homem. À semelhança das outras teorias a respeito da inspiração da Bíblia, a neo-ortodoxia desenvolveu duas correntes. (1) Na extremidade mais importante estavam os demitizadores, que negam todo e qualquer conteúdo religioso importante, factual ou histórico, nas páginas da Bíblia, e crêem apenas na preocupação religiosa existencial sobre a qual desenvolve os mitos. (2) Na outra, procuram preservar a maior parte dos dados factuais e históricos das Escrituras, mas sustentam que a Bíblia de modo algum é revelação de Deus. Antes, Deus se revela na Bíblia nos encontros pessoais, não, porém, de maneira proposicional. 29 Cremos que qualquer criatura pode experimentar o poder da Bíblia em sua vida, basta deixar as teorias e viver na prática a Palavra de Deus. Vamos, portanto observar algumas dessas teorias: Teoria da Inspiração Mecânica ou do Ditado Formulação do conceito: O autor bíblico é um instrumento passivo na transmissão da revelação de Deus. A personalidade do autor é posta de lado para preservar o texto de aspectos humanos falíveis. Objeções ao conceito: Se Deus houvesse ditado a Escritura, o estilo, o vocabulário e a redação seriam uniformes. Mas a Bíblia indica diferentes personalidades e modos de expressão nos seus escritores. Teoria da Inspiração da Intuição ou Natural Formulação do conceito: Indivíduos talentosos dotados de excepcional percepção foram escolhidos por Deus para escreverem a Bíblia. A inspiração é semelhante a uma habilidade artística ou ao talento natural. Objeções ao conceito: Esta concepção torna a Bíblia não muito diferente de outras obras literárias religiosas ou filosóficas inspiradoras. O texto bíblico afirma que a Escritura vem de Deus por meio de homens (2Pe 1.20-21). Teoria da Inspiração Verbal, Plenária Formulação do conceito: Elementos tanto divinos quanto humanos estão presentes na produção da Escritura. Todo o texto da Escritura, inclusive as próprias palavras, é um produto da mente de Deus expresso em termos e condições humanas. Objeções ao conceito: Se toda palavra da Escritura fosse uma palavra de Deus, então não existiria o elemento humano que se observa na Bíblia. Teoria da Inspiração Parcial Formulação do conceito: A inspiração diz respeito apenas às doutrinas da Bíblia que não podiam ser conhecidas pelos autores humanos. Deus proporcionou as ideias e tendências gerais da revelação, mas deu ao autor humano, liberdade ria maneira de expressá-la. Objeções ao conceito: Não é possível inspirar ideias gerais de modo infalível sem inspirar as palavras da Escritura. A maneira como as palavras de revelação foram dadas aos profetas e o grau de conformidade às próprias palavras da Escritura por parte de Jesus e dos escritores apostólicos indicam a inspiração de todo o texto bíblico, até das palavras. 30 Teoria da Inspiração - Graus de Inspiração Formulação do conceito: Certas partes da Bíblia são mais inspiradas que outras, ou inspiradas de modo diferente. Essa concepção admite erros de diferentes tipos na Escritura. Objeções ao conceito: Não se encontra no texto nenhuma sugestão de graus de inspiração (2Tm 3.16). Toda a Escritura é incorruptível e não pode falhar (Jo 10.35; IPe 1.23). Teoria da Inspiração da Iluminação ou Mística Formulação do conceito: Os autores humanos foram capacitados por Deus a redigirem a Escritura. O Espírito Santo intensificou as suas capacidades normais. Objeções ao conceito: O ensino bíblico indica que a revelação veio por meio de comunicações divinas especiais, e não por meio de capacidades humanas intensificadas. Os autores humanos expressam as próprias palavras de Deus, e não simplesmente as suas próprias palavras. 0 Ensino Bíblico a Respeito da Inspiração Objeções têm sido levantadas contra as teorias da inspiração, partindo de diferentes concepções, com variados graus de legitimidade, independentemente do ângulo de observação da pessoa que as formula. Visto que o objetivo deste estudo é levar ao leitor a compreender o caráter da Bíblia; o critério analítico que escolhemos, visa avaliar essas teorias, levando em consideração o que as Escrituras revelam a respeito de sua própria inspiração. Começaremos com o que a Bíblia ensina formalmente sobre essa questão e, depois, examinaremos o que se acha implícito nesse ensino. O que a própria Bíblia ensina a respeito de sua inspiração. A Bíblia declara ser um livro dotado de autoridade divina, resultante de um processo pelo qual, homens movidos pelo Espírito Santo escreveram textos inspirados (soprados) por Deus. Vamos agora examinar em minúcias1 o que significa essa declaração. No mesmo assunto, destacam-se ainda duas posições que os modernistas não conseguem negar, embora não concordem com: 1. A inspiração plena e verbal da Bíblia; 2. A inspiração e inerrância das Escrituras. Quando dizemos inspiração verbal é para denotar cada palavra, e, inspiração plena, para dar o sentido de completo, inteiro; o que contraria o conceito de inspiração parcial. 31 Compreendendo a inspiração divina Para que sua palavra chegasse a nós, Deus usou homens, que foram auxiliados e diretamente assistidos pelo Espírito Santo, a fim de não permitir que eles cometessem erros quando escreviam o registro fiel e verdadeiro da Palavra de Deus. Foram inspirados, nas ocasiões em que Deus pelo seu Espírito atuava em seus corações (2Pe 1.21). Eram homens cheios de fraquezas, dúvidas, negações, divergências, etc, mas quando estavam sob a atuação do Espírito de Deus, jamais falharam, pois estavam nas mãos de Deus. O apóstolo Paulo, homem de Deus, afirma a inspiração da Palavra dizendo: "toda a Escritura divinamente inspirada é proveitosa" (2Tm 3.16). Paulo cria na inspiração da Bíblia. Os autores dos livros históricos, por exemplo, puderam separar a verdade do erro quando buscavam as bases para suas narrativas. Na verdade, os livros históricos têm ensinos vitais para as nossas vidas. Paulo falou disso (ICo 10.11). Temos um livro que os registros foram inspirados por Deus e que todo o ensino necessário acerca das coisas da vida fosse transmitido de maneira singular. "Uma das artimanhas de Satanás é desacreditar a Bíblia, como a palavra inspirada, usando fatos e argumentos contra a ela". Entretanto, Deus (Hb 1.1) tem falado aos homens, inspirando outros, movidos pelo seu Espírito Santo para comunicar com exatidão a mensagem divina, tornando a Bíblia, O Livro Singular! "Conhecer a Inspiração Divina da Bíblia é conhecer o próprio Deus, movendo-se através do tempo, usando vidas chamadas e consagradas (Is 6.8) para realizar seus propósitos". Com inspiração queremos dizer que os manuscritos originais da Bíblia nos foram concedidos pela revelação de Deus, exatamente por isso, detêm a absoluta autoridade de Deus, para formar o pensamento e a vida cristã. Isso significa que tudo quanto a Bíblia ensina constitui tribunal de apelação infalível. A inspiração é verba!. O texto de 2 Timóteo 3.16 declara que as graphã, i.e., os textos, é que são inspirados. "Moisés escreveu todas as palavras do Senhor..." (Êx 24.4). O Senhor ordenou a Isaías que escrevesse num livro a mensagem eterna de Deus (Is 30.8). Davi confessou: "O Espírito do Senhor fala por mim, e a sua Palavra está na minha boca" (2 Sm 23.2). Era a Palavra do Senhor que chegava aos profetas nos tempos do AT. Jeremias recebeu esta ordem: "... não te esqueças de nenhuma Palavra" (Jr 26.2). 32 Jesus e seus apóstolos ressaltaram a revelação registrada ao usar repetidamente a expressão "está escrito" (Mt 4.4,7; Lc 24.27,44). Paulo testemunhou: "... falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina..." (ICo 2.13). João nos adverte quanto a não "t irar quaisquer palavras do livro desta profecia" (Ap 22.19). As Escrituras (i.e. os escritos) do AT são continuamente mencionadas como Palavra de Deus. No célebre sermão da montanha, Jesus declarou que não só as palavras, mas até mesmo os pequeninos sinais diacríticos de uma palavra hebraica vieram de Deus: "Em verdade vos digo que até que a terra e o céu passem nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido" (Mt 5.18). Portanto, o que se diz como teoria a respeito da inspiração das Escrituras, fica bem claro que a Bíblia reivindica para si mesma toda a autoridade verbal ou escrita. Diz a Bíblia que suas palavras vieram da parte de Deus. Inspiração verbal significa que, na preparação das Escrituras, a superintendência do Espírito Santo se estende às próprias palavras empregadas. A Bíblia constantemente afirma que as suas palavras foram dadas ou dirigidas pelo Espírito Santo (At 28.25; 1co 2.13; 2Pe 1.21). A inspiração é plena A inspiração plena da Bíblia é fato incontestável porque assuntos vitais como expiação, salvação, ressurreição, recompensas e castigo futuros requerem a direção de um Espírito infalível a fim de se evitarem informações que levem ao erro. Inspiração plena significa que toda a Bíblia é inspirada em todas as suas partes. Cristo nunca fez distinção entre os livros da Bíblia quanto à sua origem divina e autenticidade, mas aplica a expressão "Palavra de Deus" a todo o cânon do Antigo Testamento. O mesmo fez os apóstolos (2Tm 3.16). Na verdade, os escritores bíblicos escreveram suas mensagens com palavras de seu próprio vocabulário, porém, inspirados e influenciados pelo Espírito Santo. Ele guiou os escritores na escolha das palavras de acordo com a personalidade e o contexto cultural de cada um. Apesar de conter palavras humanas, a Bíblia é a Palavra de Deus. Deus deu a Palavra e providenciou o modo de garantir a autenticidade da sua Palavra, que os homens de Deus haveriam de escrever. Ele não escreveu nenhuma parte da Bíblia. Uma vez escreveu com o seu dedo os Dez Mandamentos em duas tábuas de pedra, em ambas as bandas (Êx 32.15,16), porém, Moisés quando viu o bezerro de ouro que os 33 israelitas haviam feito, arremessou as tábuas, quebrando-as ao pé do monte (Êx 32.19). Jesus escreveu uma só vez na terra (Jo 8.8). Deus, ao dar aos homens o Livro Divino, escolheu e preparou para isto servo seus, dando plena inspiração pelo Espírito Santo a eles (1 Pe 1.1012; 2Pe 1.21; l Tm 3.16, Jó 32.18-20, etc). Cada autor escreveu conscientemente conforme o seu estilo e vocabulário e a sua maneira individual de se expressar, mas todos sob a influência da inspiração do Espírito Santo. Assim as palavras, com que registraram o que receberam de Deus, foram-lhes ensinadas pelo Espírito ( I Co 2.13). Davi, que era rei e profeta, disse: "O Espírito de Deus falou por mim e a sua palavra esteve na minha boca" (2 Sm 23.2). Desta maneira ficou toda a Bíblia inspirada pelo Espírito Santo. É realmente um milagre! O mesmo Espírito que inspirou Moisés a escrever os primeiros cinco livros da Bíblia (Êx 24.1-4, Nm 33.2), cerca de 1.550 anos antes de Cristo, inspirou também o apóstolo João a escrever o seu Evangelho, e as suas três Epístolas e o Apocalipse, no ano 90 d.C. Esta inspiração plena atinge até as palavras usadas, inclusive a sua forma gramatical. Temos vários exemplos na Bíblia que mostram como a forma gramatical adequada, que os autores aplicaram, serviu para explicar grandes e importantes doutrinas (cf. Mt 22.32), onde Jesus empregou o verbo "ser", na forma de presente (Eu sou o Deus de Abraão, etc) para provar a real existência de vida após morte. Em Gálatas 3.16 vemos como a forma singular do substantivo "posteridade" foi usada para dar um importante ensino, como a promessa dada a Abraão se cumpriu na pessoa de Jesus. O mesmo pode ver também em Hebreus 12.27; João 8.57 e em muitos outros exemplos. A teologia modernista não aceita a doutrina sobre a inspiração plenária da Bíblia. Eles concordam em aceitar que as ideias ou pensamentos da Bíblia podem ser inspirados, mas que as palavras usadas, no texto, são um produto de autores, os quais estão sujeitos a erros. Outros reconhecem a Bíblia como autoridade em assuntos meramente espirituais, porém, em tudo que se relaciona com ciência, biologia, geologia, história, etc, a Bíblia não pode ser considerada uma autoridade. Eles dizem abertamente: "Errar é humano". Para dar uma aparência de piedade e respeito às coisas de Deus eles dizem: "A Bíblia contém a Palavra de Deus, mas ela não o é". Infelizmente esta crítica materialista contra a veracidade da Bíblia tem se espalhado. A falsamente chamada "ciência" faz com aqueles que a professem se desviem da fé ( l Tm 6.20,21). 34 Para os crentes convictos da sua salvação, que vivem em comunhão com Deus e sentem a operação do Espírito Santo em suas vidas, esta crítica não gera problemas. Eles simplesmente rejeitam terminantemente qualquer afirmativa contrária à Bíblia. Eles o fazem com convicção. A base desta rejeição é segura. Vejamos: Rejeitamos toda a crítica contra a Bíblia, porque Jesus considerou a Bíblia como a "Palavra de Deus” (Mc 7.13). E o apoio dEle vale mais que as ideias afirmativas de quem querem que seja. Rejeitamos a crítica modernista, contra a veracidade da Bíblia, porque seria uma ofensa contra Deus que é perfeito (Mt 5.48), afirmar que a sua Palavra contém erros e mentiras. A Bíblia afirma: "A lei do senhor é perfeita" (SI 19.7). "É provada" (SI 18.30), e "fiéis são todos os seus mandamentos" (SI 111.7). A Palavra da "Ciência" também nunca é a "última palavra". "O que hoje se afirma em nome da Ciência, amanhã outros o desfazem". Um grande teólogo alemão, A. Luescher constatou em uma de suas obras, que no ano de 1.850 os críticos contra a Bíblia apresentaram 700 argumentos científicos contra a veracidade da Bíblia. Hoje, 600 destes argumentos já foram deixados por descobertas mais atualizadas. O que a Bíblia afirma é como uma rocha, que não muda por causa das ondas do mar que se lançam contra ela. Não queremos trocar a nossa fé na Palavra de Deus levando em conta, homens que consideram a sua sabedoria mais que a de Deus, e sim, que a nossa fé se apoie não na sabedoria humana, mas no poder de Deus ( ICo 2.5). Negar a inspiração plena das Escrituras, portanto, é desprezar o testemunho fundamental de Jesus Cristo (Mt 5.18; 15.3-6; Lc 16.17; 24.2527,44 45; Jo 10.35), do Espírito Santo (Jo 15.26; 16.13; ICo 2.12-13; lTm 4.1) e dos apóstolos (2Tm 3.16; 2Pe 1.20,21). Além disso, limitar ou descartar a sua inerrância é depreciar sua autoridade divina. A inspiração atribui autoridade O termo "Escritura", conforme se encontra em 2 Timóteo 3.16, referese principalmente aos escritos do Antigo Testamento (2 Tm. 3.15). Há evidências, porém, que os escritos do Novo Testamento já eram considerados escritura divinamente inspirada por volta do período em que Paulo escreveu 2 Timóteo (l Tm 5.18, cita Lc 10.7; 2 Pe 3.15,16). Para nós, a Escritura refere-se aos escritos divinamente inspirados tanto do AT quanto do NT, isto é, a Bíblia. São (os escritos) as mensagens originais de Deus para a humanidade, e o único testemunho infalível da graça salvífica de Deus para todos. 35 Paulo afirma que toda a Escritura é inspirada por Deus. A palavra "inspirada" (gr. theopneustos) provém de duas palavras gregas:   Theos, que significa "Deus"; Pneuõ, que significa "respirar". Sendo assim, "inspirado" significa "aquilo que é soprado ou respirado por Deus". Toda a Escritura, portanto, é "respirada" por Deus; é a própria vida e Palavra de Deus. Deste modo, entendemos que o Espírito inspirou cada palavra da Bíblia, capacitando os escritores a registrarem de modo correto e preciso a revelação divina. A Bíblia, nas palavras dos seus manuscritos originais, é inerrante; sendo verdadeira fidedigna e infalível. Esta verdade permanece inabalável, não somente quando a Bíblia trata da salvação, valores éticos ou morais, como também está isenta de erro em tudo aquilo que ela trata inclusive a história e o cosmos (cf. 2 Pe 1.20,21). Os escritores do AT estavam conscientes em dizer e escrever ao povo que era realmente a Palavra de Deus (Dt 18.18; 2 Sm 23.2). Repetidamente os profetas iniciavam suas mensagens com a expressão: "Assim diz o Senhor". Jesus também ensinou que a Escritura é a inspirada Palavra de Deus até em seus mínimos detalhes (Mt 5.18). Afirmou que tudo quanto Ele disse foi recebido da parte do Pai e é verdadeiro (Jo 5.19,30, 31; 7.16; 8.26). Ele falou da revelação divina ainda futura (isto é, a verdade revelada do restante do NT), da parte do Espírito Santo através dos apóstolos (Jo 16.13; cf. 14.16,17; 15.26,27). Na sua ação de inspirar os escritores pelo seu Espírito, Deus, sem violar a personalidade deles, agiu neles de tal maneira que escreveram sem erro (2Tm 3.16; 2Pe 1.20,21; ver I Co 2.12,13). A inspirada Palavra de Deus é a expressão da sabedoria e do caráter de Deus e pode, portanto, transmitir sabedoria e vida espiritual através da fé em Cristo (Mt 4.4; Jo 6.63; 2Tm 3.15; IPe 2.2). A Bíblia é um testemunho infalível e verdadeiro de Deus, na sua atividade salvífica a favor da humanidade, em Cristo. Ela é incomparável, eternamente completa e incomparavelmente obrigatória. Nenhuma palavra de homens ou declarações de instituições religiosas iguala-se à autoridade delas. Qualquer comentário, explicação, doutrina, interpretação e tradição devem ser julgadas e validadas pelas palavras e mensagens da Bíblia (Dt 13.3). A Bíblia como Palavra divina deve ser recebida, crida e obedecida como a autoridade suprema em todas as coisas pertencentes à vida e à piedade (Mt 5.17-19; Jo 14.21; 15.10; 2Tm 3.15,16). 36 Na Igreja, a Bíblia deve ser a autoridade final em todas as questões: de ensino, repreensão, correção, doutrina e instrução na justiça (2Tm 3.16,17). Ninguém pode submeter-se ao senhorio de Cristo sem estar submisso a Deus e à sua Palavra como a autoridade máxima (Jo 8.31,32, 37). E só podemos entender devidamente a Bíblia se estivermos em harmonia com o Espírito Santo. Ele quem abre nossas mentes para compreendermos o seu sentido, e dá-nos testemunho em nosso interior de sua autoridade. Devemos nos firmar na inspirada Palavra de Deus para vencermos o poder do pecado, de Satanás e do mundo (Mt 4.4; Ef 6.12,17; Tg 1.21). Nota: Não devemos deixar de observar que a Bíblia é infalível na sua inspiração somente no texto original dos livros que lhe são inerentes. Logo, sempre que acharmos nas Escrituras alguma coisa que parece errada, ao invés de pressupor que o escritor daquele texto bíblico cometeu um engano, deve ter em mente três possibilidades no tocante a tal suposto problema: 1. As cópias existentes do manuscrito bíblico original podem conter inexatidão; 2. As traduções atualmente existentes do texto bíblico grego ou hebraico podem conter falhas; 3. A nossa própria compreensão do texto bíblico pode ser incompleta ou incorreta. A Credibilidade da Palavra de Deus: A Inerrância (5) Vários Conceitos de Inerrância 1. Inerrância Absoluta: Ensina que a Bíblia inclui análises bem detalhadas de assuntos científicos e históricos, é totalmente verdadeira. 2. Inerrância Plena: Ensina que a Bíblia é completamente verdadeira. O objetivo principal da Bíblia não é fornecer informações científicas e históricas, porém as informações científicas e históricas que ela fornece são completamente verdadeiras. A diferença desta afirmação para a anterior é somente como se entende as questões científicas e históricas na Bíblia. 3. Inerrância Limitada: Ensina que a Bíblia é inerrante e infalível em suas referências doutrinárias à salvação. Quanto às referências científicas e históricas contidas na Bíblia refletem o pensamento da época em que foi escrita. Os escritores bíblicos estavam sujeitos às limitações do seu tempo. A revelação e a inspiração não colocaram os escritores acima do conhecimento habitual. Deus não lhes revelou a ciência e a história. Por essa razão a Bíblia 37 pode conter equívocos nas declarações científicas e históricas, porém sem consequências doutrinárias. A Importância da Inerrância Por que a igreja deve se preocupar com a inerrância? Por que é importante para a teologia Jesus, Paulo e outras grandes personalidades no Novo Testamento entendiam que detalhes das Escrituras possuíam autoridade e os usavam como tal. Se Deus é onisciente, então ele conhece todas as coisas! Ele não pode ignorar um assunto nem se enganar a respeito de outro. Se Deus é onipotente, então ele é capaz de influenciar os escritores bíblicos, de tal forma que nenhum erro entre no produto final. Se Deus é verdadeiro, então com certeza desejará usar essas habilidades de um modo que os homens não sejam desorientados pelas Escrituras. Dessa forma a idéia de inspiração nos leva de forma lógica à inerrância bíblica. A inerrância é um corolário da doutrina da inspiração plena. Por que é importante para a história da igreja Historicamente a igreja tem se apegado à inerrância da Bíblia. Apesar de ser uma terminologia nova, não trata de algo novo dentro do cristianismo. Quando se abandona a doutrina da inerrância da Bíblia os teólogos com frequência começam a negar ou alterar doutrinas bíblicas tradicionais como a divindade de Cristo, a Trindade e etc. Uma vez que a história é um laboratório em que a teologia testa suas ideias, concluímos que o abandono da crença na completa fidedignidade da Bíblia é um passo muito sério para a apostasia. Por que é importante epistemologicamente Como sabemos? Se o nosso fundamento para conhecê-lo é o que a Bíblia ensina é muito importante que a Bíblia se prove fidedigna em todas as suas declarações. Se concluíssemos que qualquer ensino histórico ou científico contido na Bíblia não são verdadeiros, as implicações para as teses teológicas seriam inúmeras. À medida que os evangélicos abandonam a posição de que tudo o que é ensinado ou afirmado pelas Escrituras é verdadeiro, procuram-se outras bases para a doutrina. Podemos citar como exemplo o pai da teologia liberal Friedrich Schleiermacher que tirou o fundamento da religião da Bíblia e colocou em seu lugar a experiência. A Inerrância e os Fenômenos 38 A doutrina da inerrância das Escrituras não é fundamentada numa análise da natureza de toda a Bíblia, mas no ensino dos autores bíblicos acerca de sua inspiração. Esse ensino só nos diz que a Bíblia é plenamente veraz. Não diz qual é a natureza da inerrância e nem a maneira exata pela qual a Bíblia ensina sem incorrer em erros. Para isso, precisamos examinar os próprios fenômenos das Escrituras. Existem diversos tipos de narrativas bíblicas problemáticas. Por exemplo, o relato bíblico contém aparentes divergências com referências na história secular e com afirmações da ciência. Também há contradições entre passagens paralelas nas Escrituras, tais como nos livros de Samuel, Reis e Crônicas, no Antigo Testamento, e nos evangelhos no Novo Testamento. Essas contradições incluem questões de cronologia, números e outros detalhes. Existem, até, aparentes pontos discrepantes no campo ético. Pode-se ter idéia dos vários tipos de problemas comparando Marco 6.8 com Mateus 10.9-10 e Lucas 9.3; Atos 7.6 com Êxodo 12.40-41; 2 Samuel 10.18 com 1 Crônicas 19.18; 2 Samuel 24.1 com 1 Crônicas 21.1; Tiago 1.14 com 1 Samuel 18.10. Como tratar com estes problemas? Várias posições têm sido tomadas. Benjamin Warfield sustentou que o ensino doutrinário da inerrância bíblica é em si um fator tão forte que os fenômenos podem ser praticamente ignorados. Alguns teólogos como Dewey Beegle, ensinam que os fenômenos problemáticos exigem que abandonemos a crença na inerrância bíblica. Outros como Louis Gaussen tentam eliminar os fenômenos problemáticos harmonizando todas as diferenças, algumas de suas explicações parecem artificiais. Nenhuma destas formas de tratamento é satisfatória como solução. Devemos ser sábios e seguirmos o caminho da harmonização moderada. Nessa abordagem os problemas são resolvidos quando é possível ter acesso a informações que permitam explicações plausíveis. Com respeito a alguns problemas, entretanto, não temos informações suficientes para uma compreensão completa. Ainda assim, podemos continuar nos atendo à inerrância, fundamentados nas próprias alegações da Bíblia, sabendo que, se tivéssemos os dados, os problemas seriam resolvidos. Definição de Inerrância Significa que a Bíblia quando corretamente interpretada de acordo com o nível a que a cultura e os meios de comunicação haviam chegado na época em que foi escrita e de acordo com os propósitos a que foi destinada, é plenamente fidedigna em tudo o que afirma. Esta definição assume a posição de inerrância plena. 1. A inerrância diz respeito ao que é afirmado ou declarado, não ao que é apenas registrado. A Bíblia registra declarações falsas feitas por ímpios. A presença dessas declarações nas Escrituras não significa que sejam verdadeiras, garante apenas que estão 39 corretamente registradas. Ao afirmar que tudo o que está na Bíblia é verdade, a pessoa não é obrigada a afirmar que toda verdade está dentro da Bíblia. Assim, as referências de Judas a livros não canônicos v. 9, 14,15 não cria necessariamente um problema, pois não se exige com isso que a pessoa creia que Judas afirme em erro ou que Enoque e Assunção de Moisés sejam livros inspirados por Deus, devendo ser incluídos no cânon do Antigo Testamento. Será que a inerrância pode ser aplicada a perguntas? A Bíblia contém perguntas, desejos e ordens, bem como afirmações. As perguntas não suscetíveis ao julgamento do tipo verdadeiro ou falso. Dessa forma parece que a inerrância não se aplica a eles. Contudo dentro da Bíblia existem declarações ou afirmações (explícitas ou implícitas) de que alguém fez tal pergunta, expressou tal desejo ou pronunciou tal ordem. Por exemplo, embora a afirmação “Amai vossos inimigos” não possa ser considerada verdadeira ou falsa, a afirmação “Jesus disse: Amai os vossos inimigos” é suscetível de julgamento do tipo verdadeiro ou falso. E, sendo uma afirmação da Bíblia, é inerrante. 2. Precisamos julgar a fidedignidade da Bíblia de acordo com aquilo que as afirmações significavam no ambiente cultural em que foram expressas. Devemos julgar a Bíblia de acordo com as formas e os padrões de sua própria cultura. Por exemplo, não devemos esperar que os padrões de exatidão em citações a que estamos acostumados nesta nossa época de imprensa e distribuição em massa estejam presentes no primeiro século. Quando falamos em inerrância, queremos dizer que as afirmações da Bíblia são plenamente verdadeiras dentro da cultura da época. 3. As afirmações da Bíblia são plenamente verdadeiras quando julgadas de acordo com o propósito para o qual foram escritas. Neste caso a exatidão varia de acordo com o propósito do material específico. Um exemplo hipotético, suponhamos que a Bíblia registra uma batalha na qual 9.746 homens tenham-se envolvido. Qual seria o relato correto ou infalível? 10.000, 9.000, 9480, 9.475 ou 9.476 seria o único correto? A resposta é que isso depende do propósito do escritor. Se o relato for um documento militar oficial que um subalterno deve submeter a seu superior, o número deve ser exato. Esse seria o único meio de verificar se existiu algum desertor. Se por outro lado o propósito do escritor foi apenas dar uma idéia da dimensão da batalha, um número redondo como 10.000 seria o mais adequado e, nesse contexto, correto. Devemos considerar o propósito do texto quando se julga se algo é verdadeiro, e isso se aplica não apenas ao uso de números, mas também a temas como a ordem cronológica em narrativas históricas, a qual por vezes foi modificada nos evangelhos. 4. Os registros de acontecimentos históricos e assuntos científicos estão mais em linguagem fenomenológica que técnica. Ou seja, o escritor relata de acordo com o que as coisas aparentam aos seus olhos. 40 5. As dificuldades para explicar o texto bíblico não devem ser prejulgadas como indícios de erro. Exemplo, em Mateus 27.5 Judas cometeu suicídio, enforcando-se; At 1.18, no entanto, afirma que “ali caiu de cabeça, seu corpo partiu-se ao meio, e todas as suas vísceras se derramaram” (NVI). O termo grego específico usado em Atos, causando dificuldades com relação à morte de Judas é PRENES. Por um bom período, entendeu-se que significava cair de cabeça. No século XX, porém, as investigações de papiros antigos revelaram que essa palavra tem outro significado no grego coinê. Ela também significa inchar. Agora é possível tecer, sobre o fim de Judas, uma hipótese que parece acomodar todos os fatos. Depois de enforcado, o corpo de Judas não foi logo encontrado. Nessa situação, os órgãos viscerais começam a degenerar primeiro, provocando uma dilatação do abdome, característica de cadáveres que não foram devidamente embalsamados. Assim, inchando-se seu corpo partiu-se ao meio, e todas as suas vísceras se derramaram. Questões secundárias 1. Será que o termo inerrância é próprio ou deve ser evitado? Há certos problemas ligados a ele. Um, é que tem a tendência de implicar extrema especificidade; conotação que palavras como correção, confiabilidade, veracidade, fidedignidade e, em menor grau, precisão, não possuem. Entretanto, é sábio utilizar o termo inerrância, porque se tornou comum. Precisamos tomar cuidado com o que queremos dizer para não sermos mal interpretados. 2. Precisamos também definir o que entendemos por erro. Caso contrário, perde-se o significado de inerrância. 3. No sentido estrito, a doutrina da inerrância aplica-se apenas aos originais, mas no sentido secundário, também se aplica às cópias e às traduções, ou seja, naquilo que refletem os originais. O Poder da Palavra de Deus: A Autoridade (6) Autoridade Religiosa Por autoridade queremos dizer o direito de comandar a fé e/ou a ação. A autoridade externa não recebe reconhecimento e obediência, enquanto o julgamento da própria pessoa é considerado final. Por exemplo, muitos católicos romanos estão questionando o conceito tradicional que considera infalível a autoridade papal. No caso da autoridade religiosa existe alguma pessoa, instituição ou documento que possua o direito de prescrever a crença e a ação em assuntos religiosos? Em ultima análise, se existe um ser supremo acima dos homens e de tudo o mais na ordem criada, ele tem o direito de determinar o que devemos crer e como devemos viver. Este volume propõe que Deus é a autoridade final em questões religiosas. Ele tem o direito, tanto pelo que é 41 como pelo que faz, de estabelecer o padrão de fé e prática. Com respeito a assuntos importantes, porem, ele não exerce autoridade de forma direta. Antes, ele delegou tal autoridade criando um livro, a Bíblia tem o mesmo peso que ele teria, caso nos desse uma ordem pessoalmente. O Trabalho Interno do Espírito Santo Sendo a expressão da vontade de Deus, a Bíblia possui o direito de definir em que devemos crer no campo das questões religiosas e como devemos nos comportar. Para que a Bíblia funcione como Palavra de Deus para o homem é preciso que o leitor da Bíblia a compreenda e seja convencido de sua autoria divina. Esta obra é feita no coração do pecador por um trabalho interno do Espírito Santo que ilumina o entendimento do homem para que este entenda seu significado e cria uma certeza de que é a verdade e vem de Deus. Há várias razões para este trabalho interno do Espírito Santo no coração do pecador: 1. Há uma diferença ontológica entre Deus e os homens. Deus é transcendente, Ele está além das nossas categorias de entendimento. Nunca se pode compreendê-lo plenamente em nossos conceitos finitos e em nosso vocabulário humano. Podemos entendê-lo, mas não de forma completa. 2. Nós necessitamos de certeza acerca das coisas divinas. Em questões de vida e de morte é preciso ter mais do que meras probabilidades. Nossa necessidade de certeza é diretamente proporcional à importância do que está em jogo; em questões de consequências eternas, precisamos de uma certeza que a razão humana não pode prover. Se alguém está escolhendo o automóvel que vai comprar ou o tipo de tinta com que vai pintar a casa, em geral é suficiente alistar as vantagens de cada opção. Se, no entanto, o problema é em quem ou em que acreditar com respeito ao destino eterno, a necessidade de certeza é muito maior. 3. Como pecadores herdamos as tendências pecaminosas da raça humana e por isso somos limitados. Em Mateus 13.13-15 e em Marcos 8.18, Jesus fala dos que ouvem, mas nunca entendem e vêem, mas nunca enxergam. A condição deles é retratada em imagens vívidas em todo o Novo Testamento. O coração ficou endurecido, os ouvidos são tardios em ouvir e eles fecharam os olhos Mt 13.15. Conhecem a Deus, mas não o glorificam como Deus, e assim tornam-se fúteis em seus raciocínios e a mente insensata deles ficou obscurecida Rm 1.21. Romanos 11.8 atribui a condição deles a Deus que “lhes deu espírito de entorpecimento, olhos para não ver e ouvidos para não ouvir”. Por conseguinte, “escureceram-se-lhes os olhos” v. 10. Todas essas referências, bem como numerosas outras alusões, realçam a necessidade de 42 alguma obra especial do Espírito que intensifique a percepção e a compreensão humana. Componentes Objetivos e Subjetivos da autoridade A ortodoxia escolástica do século XVII sustentou que a autoridade é apenas da Bíblia. Esta também tem sido a posição fundamentalista dos americanos do século XX. Os que defendem essa posição vêem na Bíblia uma qualidade objetiva que leva automaticamente ao contato com Deus. Pensa-se que, em si e por si, a leitura diária da Bíblia tem valor. O velho ditado americano, “uma maçã por dia mantém o médico à distância”, tem seu paralelo teológico: “um capítulo por dia mantém o diabo à distância”. O perigo potencial aqui é que a Bíblia pode-se tornar um fetiche. Outros grupos têem o Espírito Santo como principal autoridade do cristão. Certos grupos carismáticos, por exemplo, crêem que as profecias especiais ocorrem hoje. Novas mensagens de Deus estão sendo dadas pelo Espírito Santo. Na maioria dos casos, considera-se que essas mensagens explicam o verdadeiro sentido de certas passagens bíblicas. Assim, o argumento é que, embora a Bíblia seja a autoridade, na prática, seu significado muitas vezes não pode ser encontrado sem a ação especial do Espírito Santo. A combinação dos fatores anteriores é que constituem a autoridade. A Palavra escrita, corretamente interpretada é a base objetiva da autoridade. A iluminação interior e o trabalho de persuasão do Espírito Santo é a dimensão subjetiva. Combinadas e juntas produzem uma maturidade que é necessária na vida cristã – mente arejada e coração aquecido. “Se você tiver a Bíblia sem ter o Espírito, acabará seco. Se você tiver o Espírito sem ter a Bíblia, acabará explodindo. Mas se você tiver os dois, a Bíblia e o Espírito, juntos, crescerá”. A Bíblia e a Razão Qual é a relação entre a autoridade bíblica e a razão? A autoridade é a Bíblia, mas vários métodos de interpretação lhe são impostos a fim de extrair seu significado. Se a razão é o método de interpretação, não seria ela, em lugar da Bíblia, a verdadeira autoridade, já que, na realidade, ela chega à Bíblia em posição de superioridade? Aqui é preciso fazer distinção entre autoridade legislativa e autoridade judicial. No governo federal, o congresso produz a legislação, mas o judiciário (em última instância, a Suprema Corte) determina o significado da legislação. São ramos distintos do governo, cada qual com a devida autoridade. Ao que parece, esse é um bom modo de entender a relação entre a Escritura e a razão. A Escritura é nossa suprema autoridade legislativa. Ela nos dá conteúdo de nossa crença e nosso código de conduta e prática. A razão nos diz o conteúdo de nossa crença. Ela não descobre a verdade. 43 Quando, porém, precisamos determinar o significado das Escrituras e, numa etapa posterior, avaliar se é a verdade, temos de utilizar o poder do raciocínio. Precisamos empregar os melhores métodos de interpretação ou a hermenêutica. E, então, precisamos decidir se o sistema de fé cristão é a verdade, examinando e avaliando racionalmente as provas. A isso chamamos de Apologética. Embora exista uma dimensão de auto explicação dentro da Escritura, ela, sozinha, não nos dará o sentido da Escritura. Portanto, não existe incoerência em ter a Escritura como nossa suprema autoridade, no sentido de nos dizer o que fazer e em que crer ao mesmo tempo em que empregamos métodos hermenêuticos e exegéticos para lhe determinar o significado. Autoridade Histórica e Normativa É preciso traçar e discutir outra distinção. Ela diz respeito à maneira pela qual a Bíblia é nossa autoridade. Com certeza, a Bíblia é autoridade para nos dizer qual era a vontade de Deus para certos indivíduos e grupos durante o período bíblico. A questão a considerar aqui é: Aquilo que se impunha àquelas pessoas também se impõe a nós? É necessário distinguir entre dois tipos de autoridade: a histórica e a normativa. A Bíblia nos diz o que Deus exigiu do povo no contexto bíblico e o que ele espera de nós. Naquilo que a Bíblia ensina o que ocorreu e o que se exigiu das pessoas nos tempos bíblicos, ela é autoridade histórica. Mas ela também é autoridade normativa? Somos obrigados a executar as mesmas ações que se exigiam daquelas pessoas? Aqui, é preciso ter muito cuidado pra não identificar prontamente a vontade de Deus para aquelas pessoas com sua vontade para nós. Será necessário determinar a essência permanente da mensagem e a sua forma temporária de expressão. É bem possível que algo tenha autoridade histórica sem ter autoridade normativa. O Cânon da Bíblia (7) Quais são os escritos pertencentes à Bíblia? Que diremos dos chamados: Livros ausentes? Como foi que a Bíblia veio a ser composta de 66 livros? Essa é a questão do cânon das Escrituras, que pode ser definido da seguinte maneira: Cânon ou Escrituras Canônicas é a coleção completa dos livros divinamente inspirados, que constituem a Bíblia. Esse assunto intitula-se canonicidade. Trata-se do segundo grande elo da corrente que vem de Deus até nós. A inspiração é o meio pelo qual a Bíblia recebeu sua autoridade; a canonização é o processo pelo qual a Bíblia recebeu sua aceitação definitiva. Uma coisa é o profeta receber uma mensagem da parte de Deus, bem diferente é tal mensagem ser reconhecida pelo povo de Deus. 44 Canonicidade é o estudo que trata do reconhecimento e da compilação dos que nos foram dados por inspiração de Deus. Não devemos subestimar a importância dessa questão. As palavras das Escrituras são as palavras pelas quais nutrimos nossa vida espiritual. Portanto, reafirmamos o comentário de Moisés ao povo de Israel a respeito da lei de Deus: "Porque esta palavra não é para vós outros, coisa vã; antes, é a vossa vida; e, por esta mesma palavra, prolongareis os dias na terra à qual, passando o Jordão, ides para possuí- la” (Dt 32.47). Aumentar ou diminuir as palavras de Deus impediria o seu povo de obedecer-lhe plenamente, pois as ordens retiradas não seriam conhecidas pelo povo, e as palavras acrescentadas poderiam exigir das pessoas coisas que Deus não ordenou. Por isso, Moisés advertiu o povo de Israel: "Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor, vosso Deus, que eu vos mando" (Dt 4.2). A determinação precisa da extensão do cânon das Escrituras é, portanto, de extrema importância. Para que possamos confiar em Deus e obedecer a Ele, precisamos de uma coleção de palavras sobre as quais temos certeza ser as palavras do próprio Deus para nós. Se houver qualquer trecho das Escrituras sobre os quais tenhamos dúvidas, não vamos aceitar que tenham autoridade divina absoluta nem confiar nelas na mesma medida em que confiamos no próprio Deus. O Termo "Cânon" O termo "cânon" é proveniente do grego, no qual kanon significa cana, regra, lista – um padrão de medida, que por sua vez, se origina do hebraico kaneh, palavra do Antigo Testamento que significa "vara ou cana de medir" (Ez 40.3). Em época anterior ao cristianismo, essa palavra era usada de modo mais amplo, com o sentido de padrão ou norma além de cana ou unidade de medida. Com relação à Bíblia, diz respeito aos livros que estavam de acordo com o padrão e foram dignos de inclusão. Desde o século IV, o vocábulo kanon é usado pelos cristãos para indicar uma lista autoritária de livros que pertencem ao Antigo ou ao Novo Testamento. No sentido religioso, cânon não significa aquilo que mede, mas aquilo que serve de norma, regra. Com este sentido, a palavra cânon aparece no original em vários lugares do Novo Testamento (GI 6.16; 2 Co 10.13,15; Fp 3.16). A Bíblia, como o cânon sagrado, é a nossa norma ou regra de fé e prática. Diz-se dos livros da Bíblia que são canônicos para diferençá-los dos apócrifos. O emprego do termo cânon foi primeiramente aplicado aos livros da Bíblia por Orígenes (185-254 d.C.). 45 A Canonicidade é Determinada Pela Inspiração Os livros da Bíblia são considerados valiosos porque provieram de Deus fonte de todo bem. O processo mediante o qual Deus nos concede sua revelação chama-se inspiração. E a inspiração de Deus num livro que determina sua canonicidade. Deus dá autoridade divina a um livro, e os homens de Deus o acatam; revela, e seu povo reconhece o que o Ele revelou. A canonicidade é determinada por Deus e descoberta pelos homens de Deus. A Bíblia constitui o "cânon", ou "medida" pela qual tudo mais deve ser medido e avaliado pelo fato de ter autoridade concedida por Deus. Sejam quais forem as medidas (i.e., os cânones) usadas pela Igreja para descobrir com exatidão que livros possuem essa autoridade canônica ou normativa, não se deve dizer que "determinam" a canonicidade dos livros. Dizer que o povo de Deus, mediante quaisquer regras de reconhecimento, "determina" que livros são autorizados por inspiração de Deus só confunde a questão. Só Deus pode conceder a um livro autoridade absoluta e, por isso mesmo, canonicidade divina. Veja abaixo dois sentidos importantes:   O sentido primário da palavra cânon aplicado às Escrituras é aplicado na acepção ativa, i.e., a Bíblia é a norma que governa a fé. O sentido secundário, segundo o qual um livro é julgado por certos cânones e é reconhecido como inspirado (o sentido passivo), não deve ser confundido com a determinação divina da canonicidade. Só a inspiração divina determina a autoridade de um livro, i.e., se ele é canônico, de natureza normativa. O Surgimento do Cânon A doutrina da inspiração bíblica foi completamente desenvolvida apenas nas páginas do Novo Testamento. Mas, muito antes disso, já encontramos na história de Israel certos escritos reconhecidos como autoridade divina e como regra escrita de fé e conduta para o povo de Deus. Identificamos isso na resposta do povo, quando Moisés leu para eles o livro do concerto (Ex 34.7), ou quando o livro da Lei, achado por Hilquias, foi lido primeiro para o rei e depois para a congregação (2Rs 22-23; 2Cr 34), ou ainda quando Esdras leu o Livro da Lei para o povo (Ne 8.9,14-17; 10.28-39; 13.1-3). Os escritos em questão são uma parte do Pentateuco ou ele todo - no primeiro caso, provavelmente uma parte bem pequena do Êxodo, capítulos 20 a 23. O Pentateuco é tratado com a mesma reverência em Josué 1.7,8; 8.31 e 23.6-8; Ireis 2.3; 2Reis 14.6 e 17.37; Oséias 8.12; Daniel 9.11,13; Esdras 3.2,4; l Crônicas 16.40, 2Crônicas 17.9; 23.18; 30.5,18; 31.3 e 35.26. Cânon do Antigo Testamento 46 Onde surgiu a idéia do cânon - a idéia de que o povo de Deus deve preservar uma coleção de palavras escritas de Deus? A própria Bíblia dá testemunho do desenvolvimento histórico do cânon. A coleção mais antiga das palavras de Deus é os Dez Mandamentos. Portanto, constituem o início do cânon bíblico. O próprio Deus escreveu sobre duas tábuas de pedra as palavras que Ele ordenou ao seu povo (Êx 32.16; cf. Dt 4.13; 10.4). As tábuas foram depositadas na Arca da Aliança (Dt 10.5) e constituíam os termos do pacto entre Deus e seu povo. Nem todos os escritores dos livros do AT eram profetas, no sentido estrito da palavra. Alguns eram reis e sábios. Mas, as experiências da inspiração que tiveram, fez com que seus escritos também encontrassem um lugar no cânon. A inspiração dos salmistas é mencionada em 2Samuel 23.1-3 e l Crônicas 25.1, e a dos sábios, em Eclesiastes 12.11,12. Note também as revelações feitas por Deus no livro de Jó (Jó 38.1; 40.6) e a inferência exarada1 em Provérbios 8.1-9.6, indicando que o livro de Provérbios é obra da Sabedoria divina. Na época patriarcal, a revelação divina era transmitida escrita e oralmente. A escrita já era conhecida na Palestina, séculos antes de Moisés; a arqueologia tem provado isto, inclusive tem encontrado inúmeras inscrições, placas, síntese documentos antediluvianos. O cânon do Antigo Testamento como temos atualmente, ficou completo desde o tempo de Esdras, após 445 a.C. Entre os judeus, tem ele três divisões, as quais Jesus citou em Lucas 24.44: Lei, Profetas, Escritos. A divisão dos livros no cânon hebraico é diferente da nossa. Consiste em 24 livros em vez dos nossos 39, isto porque é considerado um só livro cada grupo dos seguintes: Os dois de Samuel Os dois de Reis Os dois de Crônicas Esdras e Neemias Os demais livros do Antigo Testamento Total 1 1 1 1 19 24 A disposição ou ordem dos livros no cânon hebraico é também diferente da nossa. Damos a seguir essa disposição dentro da tríplice divisão do cânon, já mencionada (Lei, Profetas, Escritos). Divisão Lei Qtdade 5 Livros Gênesis; Êxodo; 47 Profetas 8 Escritos 11 Levítico; Números; Deuteronômio. Divididos em : Primeiros Profetas: Josué; Juizes; Samuel; Reis. Últimos Profetas: Isaías; Jeremias; Ezequiel; Os Doze Profetas Menores. Divididos em : Livros Poéticos: ^Salmos; Provérbios; Jó. Os Cinco Rolos: Cantares; Rute; Lamentações; Eclesiastes; Ester. Livros Históricos: Daniel; Esdras e Neemias; Crônicas. Os Cinco Rolos eram assim chamados por serem separados, lidos anualmente em festas distintas:      Cantares, na Páscoa, em alusão ao êxodo. Rute, no Pentecostes, na Celebração da Colheita, em seu início. Ester, na Festa do Purim, comemorando o livramento de Israel da mão do mau Hamã. Eclesiastes, na Festa dos Tabernáculos - festa de gratidão pela colheita. Lamentações, no mês de abibe, relembrando a destruição de Jerusalém pelos babilónicos. No cânon hebraico também os livros não estão em ordem cronológica. Os judeus não se preocupavam com um sistema cronológico. Também pode haver nisto um plano divino. A nossa divisão em 39 livros 48 vem da Septuaginta, através da Vulgata Latina. A Septuaginta foi a primeira tradução das Escrituras, feita do hebraico para o grego cerca de 285 a.C. Também a ordem dos livros por assuntos, do formato da Bíblia atual, vem dessa famosa tradução. Jesus em Lucas 24.44, Ele chamou "Salmos" à última divisão do cânon hebraico, certamente porque esse livro era o primeiro dessa divisão. Segundo a nossa divisão, o AT começa com Gênesis e termina em Malaquias, porém, segundo a divisão do cânon hebraico, o primeiro livro é Gênesis e o último é I e II Crônicas. Isto é visto claramente nas palavras de Jesus em Mateus 23.35 - o caso de Abel está em Gênesis e o do filho de Baraquias está em Crônicas. A formação canônica do Antigo Testamento. O cânon no Antigo Testamento foi formado num espaço aproximado de 1046 anos - de Moisés a Esdras. Moisés escreveu as primeiras palavras do Pentateuco por volta de 1491 a.C. Esdras entrou em cena em 445 a.C. Esdras não foi o último escritor na formação canônica do AT; os últimos foram Neemias e Malaquias, porém, de acordo com os escritos históricos, ele como escriba e sacerdote reuniu os rolos canônicos, ficando o cânon encerrado em seu tempo. A chamada Alta Crítica tem feito uma devastação com seu modernismo e suas contradições no que concerne à formação, fontes de autenticidade do cânon, especialmente do Antigo Testamento, mutilando quase todos os seus livros.   Alta Crítica é a discussão das datas e da autoria dos livros. Ela estuda a Bíblia do lado de fora, externamente, baseada apenas em fontes do conhecimento humano. Por outro ângulo, a Critica Textual, também conhecida por Baixa Crítica, estuda somente o texto bíblico, e, ao lado da arqueologia, vem alcançando um progresso valioso, posto à disposição do estudante das Escrituras. Por exemplo, a teoria de que a escrita era desconhecida nos dias de Moisés já foi destruída. E de ano em ano, aumentam os achados nas terras bíblicas, evidenciando e comprovando as narrativas e fatos do Antigo Testamento. Mediante tais provas ir refutáveis1, os homens estão respeitando mais às Sagradas Escrituras! Toda a Bíblia vem sendo confirmada pela pá do arqueólogo e pelos eruditos em antiguidades bíblicas. Coisas que pareciam as mais incríveis são hoje aceitas por todos, sem objeções. A formação gradual do cânon. 49 Houve, originalmente, a transmissão oral, como se vê em Jó 15.18. O livro de Jó é tido como o mais antigo da Bíblia. Mostraremos a seguir a sequência da formação gradual do cânon do Antigo Testamento. Convém ter em mente aqui que toda cronologia bíblica é apenas aproximada. Já o Novo Testamento há precisão de muitos casos. Essa cronologia vai sendo atualizada à medida que os estudos avançam e a arqueologia fornece informe oficial. 1. Moisés (cerca de 1491 a.C.). Começou a escrever o Pentateuco, concluindo-o por volta de 1451 a.C. (Nm 33.2). Mais textos relacionados com Moisés e sua escrita do Pentateuco: Êxodo 17.14; 24.4,7; 34.27. As partes do Pentateuco anteriores a Moisés, como o relato da Criação, todo o livro de Gênesis e parte de Êxodo, ele escreveu, ou lançando mão de fontes existentes (ver Gn 2.4; 5.1), ou por revelação divina. Gênesis 26.5 dá a entender que nesse tempo já havia "mandamentos, preceitos e estatutos" escritos. Algumas passagens do Pentateuco foram acrescentadas posteriormente, como: Êxodo 11.3; 16.35; Deuteronômio 34.1-12; 2. Josué. Sucessor de Moisés (1443 a.C.), escreveu uma obra que colocou perante o Senhor (Js 24.26); 3. Samuel (1095 a.C.), o último juiz e também profeta do Senhor, escreveu, pondo seus escritos perante o Senhor (ISm 10.25). Certamente "perante o Senhor" significa que seus escritos foram depositados na Arca do Concerto com os demais escritos sagrados (Êx 25.21); 4. Isaías (770 a.C.) fala do "Livro do Senhor " (Is 34.16), e "palavras do livro" (Is 29.18). São referências às Escrituras na sua formação; 5. Em 726 a.C. os Salmos já eram cantados (2Cr 29.30). O fato aí registrado teve lugar nesse tempo; 6. Jeremias, cuja chamada deu-se em 626 a.C., registrou a revelação divina (Jr 30.1,2). Tal livro foi queimado pelo rei Joaquim, em 607 a.C., porém, Deus ordenou que Jeremias preparasse um novo rolo, o que foi feito mediante seu amanuense1 Baruque (Jr 36.1,2,28,32; 45.1); 7. No tempo do rei Josias (621 a.C.), Hilquias achou o "Livro da Lei" (2Rs 22.8-10); 8. Daniel (553 a.C.) refere-se aos " livros" (Dn 9.2). Eram os rolos sagrados das Escrituras de então; 9. Zacarias (520 a.C.) declara que os profetas que o precederam falaram da parte do Espírito Santo (Zc 7.12). Não há aqui referência direta a escritos, mas há inferência. Zacarias foi o penúltimo profeta do Antigo Testamento. 10. Neemias, (445 a.C.), achou o livro das genealogias dos judeus que já haviam regressado do exílio (Ne 7.5); certamente havia outros livros; 50 11. Nos dias de Ester, o Livro Sagrado estava sendo escrito (Et 9.32); 12. Esdras. Contemporâneo de Neemias e foi hábil escriba da lei de Moisés, e leu o livro do Senhor para os judeus já estabelecidos na Palestina, de regresso do cativeiro babilónico (Ne 8.1-5). Conforme 2Macabeus e outros escritos judaicos, Esdras presidiu a chamada "Grande Sinagoga" , que selecionou e preservou os rolos sagrados, determinando, dessa maneira, o cânon das Escrituras do AT (cf. Ed 7.10-14).   Uma Grande Sinagoga era um conselho composto de 120 membros que se diz ter sido organizado por Neemias, cerca de 410 a.C., sob a presidência de Esdras. Essa entidade reorganizou a vida religiosa nacional dos repatriados e, mais tarde, deu origem ao Sinédrio1, cerca de 275 a.C. A Esdras é atribuída a tríplice divisão do cânon, já estudada. Foi nesse tempo, que os samaritanos foram expulsos da comunidade judaica (Ne 13) levando consigo o Pentateuco, que é até hoje a Bíblia dos samaritanos. Isto prova que o Pentateuco era escrito canônico; 13. Encontramos profeta citando outro profeta, do que se infere haver mensagem escrita (Cf. Miquéias 4.1-3 com Isaías 2.2-4.); 14. Filo, escritor de Alexandria (30 a.C. - 50 d.C.) possuía todo o cânon do Antigo Testamento. Em seus escritos ele cita quase todo o Antigo Testamento; 15. Josefo, o historiador judeu (37-100 d.C.), contemporâneo de Paulo, diz, escrevendo aos judeus, no livro " Contra Appion" "Nós temos apenas 22 livros, contando a história de todo o tempo; livros em que nós cremos, ou segundo se dizem, livros aceitos como divinos". Desde os dias de Artaxerxes ninguém se aventurou a acrescentar, tirar ou alterar uma única sílaba. Faz "parte de cada judeu, desde que nasce considerar estas Escrituras como ensinos de Deus". Josefo era um homem culto, judeu ortodoxo de linhagem sacerdotal, governou a Galiléia e foi comandante militar nas guerras contra Roma. Presenciou a queda de Jerusalém. Foi levado a Roma, onde se dedicou a escritos literários. Ora, o Artaxerxes que ele menciona é o chamado Longímano, que reinou de 465-424 a.C. Isso coincide com o tempo de Esdras e confirma as declarações de outras peças da literatura judaica que ensinam ter Esdras presidido a Grande Sinagoga que selecionou e preservou os rolos sagrados para a posterioridade. 51 Josefo conta os livros do AT como 22 porque considera Juízes e Rute como 1 (um) livro; Jeremias e Lamentações também. Isto, para coincidir com o número de letras do alfabeto hebraico: "22"; 16. Nos dias do Senhor, esse livro chamava-se Escrituras (Mt 26.54; Lc 24.27,45; Jo 5.39), com as suas três conhecidas divisões: Lei, Profetas, Salmos (Lc 24.44). Era também chamada "A Palavra de Deus" (Mc 7.13; Jo 10.34,35). Note bem este título aplicado pelo próprio Senhor Jesus! Outro fato notável é a citação feita por Jesus em Mateus 23.35 que autentica todo o Antigo Testamento! 17. Os escritores do Novo Testamento reconhecem como canônicos os livros do Antigo Testamento, pois este é amiúde citado naquele, havendo cerca de 300 referências diretas e indiretas. Os escritores do NT referem-se ao cânon do AT como sendo oráculos divinos (cf. Rm 3.2; 2Tm 3.16 e Hb 5.12). Cremos que, começando por Moisés, à proporção que os livros iam sendo escritos, eram postos no tabernáculo, junto ao grupo de livros sagrados. Esdras como já disse, após a volta do cativeiro, reuniu os diversos livros e os colocou em ordem, como coleção completa. Destes originais eram feitas cópias para as sinagogas largamente disseminadas. Data do reconhecimento e fixação do cânon do Antigo Testamento. Em 90 d.C. em Jâmnia, perto da moderna Jope, em Israel, os rabinos, num concílio sob a presidência de Johanan Ben Zakai, reconheceram e fixaram o cânon do Antigo Testamento. Houve muitos debates acerca da aprovação de certos livros, especialmente dos "Escritos". Note-se, porém que o trabalho desse concílio foi apenas ratificar aquilo que já era aceito por todos os judeus através de séculos. Jâmnia, após a destruição de Jerusalém (70 d.C.) tornou-se a sede do Sinédrio. Livros desaparecidos, citados no texto do Antigo Testamento. Notemos que a Bíblia faz referência a livros até agora desaparecidos (cf. Nm 21.14; Js 10.13 com 2Sm 1.18; IRe 11.41; lC r 27.24; 29.29; 2Cr 9.29; 12.15; 13.22; 33.19). São casos cujo segredo só Deus conhece. Talvez um dia eles venham à luz como o MSS de Qumran, Mar Morto, em 1947. Cânon do Novo Testamento Semelhante ao AT, homens inspirados por Deus escreveram aos poucos os livros que compõem o cânon do Novo Testamento. Sua formação levou apenas duas gerações: quase 100 anos. Em 100 d.C. todos os livros do NT estavam escritos. O que demorou foi o reconhecimento canônico, isto motivado pelo cuidado e escrúpulo das igrejas de então, que exigia provas concludentes da inspiração divina de cada um desses livros. Outra coisa que motivou a demora na canonização foi o surgimento de escritos heréticos e espúrios com pretensão de autoridade apostólica. Trata-se dos livros apócrifos do Novo Testamento, fato idêntico ao 52 acontecido nos tempos derradeiros do cânon do Antigo Testamento. Há também livros mencionados no NT até agora desaparecidos (I Co 5.9; Cl 4.16). A ordem dos 27 livros do NT, como é atualmente em nossas Bíblias, vem da Vulgata, e não leva em conta a sequência cronológica. As Epístolas Paulinas. Foram os primeiros escritos no Novo Testamento. São 13: de Romanos a Filemom. Foram escritas entre 52 e 67 d.C. Pela ordem cronológica, o primeiro livro do Novo Testamento é I Tessalonicenses, escrito em 52 d.C. 2Timóteo foi escrita em 67 d.C pouco antes do martírio do apóstolo Paulo em Roma. Esses livros foram também os primeiros aceitos como canônicos. Pedro chama os escritos de Paulo de "Escrituras" - título aplicado somente à palavra inspirada de Deus! (2Pe 3.15,16). Os Atos dos Apóstolos. Escrito em 63 d.C., no fim dos dois anos da primeira prisão de Paulo em Roma (At 28.30). Os Evangelhos. Estes, a princípio, foram propagados oralmente. Não havia perigos de enganos e esquecimento porque era o Espírito Santo quem lembrava tudo e Ele é infalível (Jo 14.26). Os Sinópticos foram escritos entre 60 a 65 d.C. João foi escrito em 85 d.C. Entre Lucas e João foram escritas quase todas as epístolas. Note-se que Paulo chama Mateus e Lucas de "Escrituras" ao citálos em I Timóteo 5.18. As Epístolas, de Hebreus a Judas, foram escritas entre 68 e 90 d.C. O Apocalipse. Foi escrito em 96 d.C., durante o governo do imperador Domiciano. Muitos livros antes de serem finalmente reconhecidos como canônicos foram duramente debatidos. Houve muita relutância quanto às epístolas de Pedro, João e Judas bem como quanto ao Apocalipse. Tudo isto tão-somente revela o cuidado da Igreja e também a responsabilidade que envolvia a canonização. Antes do ano 400 d.C., todos os livros estavam aceitos. Em 367, Atanásio, patriarca de Alexandria, publicou uma lista dos 27 livros canônicos, os mesmos que hoje possuímos; essa lista foi aceita pelo Concílio de Hipona (África) em 393. Data do reconhecimento e fixação do cânon do Novo Testamento. Isso ocorreu no III Concílio de Cartago, em 397 d.C. Nessa ocasião, foi definitivamente reconhecido e fixado o cânon do Novo Testamento. Como se vê, houve um amadurecimento de 400 anos. 53 A necessidade da mensagem escrita do Novo Testamento. A mensagem da Nova Aliança precisava ter forma escrita como a da Antiga. Após a ascensão do Senhor Jesus, os apóstolos pregaram por toda parte sem haver nada escrito. Suas Bíblias era o Antigo Testamento. Ao decorrer do tempo, o grupo de apóstolos diminuiu. O Evangelho espalhouse. Surge então a necessidade de reduzir a forma escrita, para ser transmitido às gerações futuras. Era o plano de Deus em marcha. Muitas igrejas e indivíduos pediam explicações acerca de casos difíceis surgidos por perturbações, falsas doutrinas, problemas internos, etc. (cf. ICo 1.11; 5.1; 7.1). Os judeus cumpriram sua missão de transmitir ao mundo os oráculos divinos (Rm 3.2). A Igreja também cumpriu sua parte, transmitindo as palavras e ensinos do Senhor Jesus, bem como as que Ele, pelo Espírito Santo inspirou aos escritores sacros. Jesus disse: “Tenho muito que vos dizer... mas o Espírito de verdade... dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que há de vir" (Jo 16.12,13). Testemunhas importantes. Dão testemunho da existência de livros do Novo Testamento, em seu tempo, os seguintes cristãos primitivos, cujas vidas coincidiram com as dos apóstolos ou com os discípulos destes: Clemente de Roma, na sua carta aos Coríntios, em 95 d.C. cita vários livros do NT; Policarpo, na sua carta aos Filipenses, cerca de 110 d.C., cita diversas epístolas de Paulo; Inácio, por volta de 110 d.C. cita grande número de livros em seus escritos; Justino Mártir, nascido no ano da morte de João, escrevendo em 140 d.C. cita diversos livros do Novo Testamento; Irineu (130-200 d.C.), cita a maioria dos livros do Novo Testamento, chamando-os de "Escrituras"; Origines (185-200 d.C.), homem erudito, piedoso e viajado, dedicou sua vida ao estudo das Escrituras, em seu tempo, os 27 livros já estavam completos; ele os aceitou, embora com dúvida sobre alguns: Hebreus, Tiago, 2Pedro, 2 e 3João. Datas e Períodos Sobre o Cânon em Geral O AT foi escrito no espaço de mais ou menos 1046 anos, de 1491 a 445 a.C. isto é de Moisés a Esdras. A data de 445 a.C. é apenas um ponto 54 geral de referência cronológica quanto ao encerramento do cânon do Antigo Testamento. Se entrarmos em detalhes sobre o último livro do Antigo Testamento em ordem cronológica - Malaquias, teremos uma variação de espaço de tempo como veremos a seguir. O Pentateuco, como já vimos, foi iniciado cerca de 1.491 a.C.. Malaquias, o último livro do Antigo Testamento por ordem cronológica, foi escrito entre 430 e 420 a.C., no final do governo de Neemias e do sacerdócio de Esdras. Ora, isto foi quando Neemias regressou a Jerusalém, procedendo da Pérsia, para onde tinha ido (430 - 425 a.C.) a fim de renovar sua licença (Ne 13.6). É a partir desse ano que Malaquias escreveu e talvez Neemias, não estivesse mais na Palestina, porque não o menciona em seu livro, como fazem Ageu e Zacarias, seus antecessores, os quais mencionam Zorobabel e Josué, respectivamente, governador e sacerdote dos reparos (cf. Zc 3; 4; Ag 1 .1). Malaquias não menciona nominalmente Neemias, apenas menciona o "Governador" (Ml 1.8). O próprio livro de Malaquias apresenta outras evidências internas que o colocam de 432 a.C. em diante, como passamos a mostrar:     Em Malaquias 2.10-16, vê-se que os casamentos ilícitos que Esdras corrigira antes de Neemias, 516 a.C. (Ed 9-10), estavam ocorrendo de novo. Isto coincide com o estado descrito em Neemias 13, acontecido em 432 a C. Em Malaquias 3.6-12, havia pobreza no tesouro do templo. Situação idêntica à de Neemias 13, reinante em 432 a.C. As referências de Malaquias 1.13; 2.17; 3.14, indicam que o culto Levítico já havia sido restaurado há bastante tempo. Temos essa restauração ampliada em Neemias 12.44 ss. Portanto, Malaquias (O livro) deve ter sido escrito cerca de 432 a.C. Repetimos: a data 445 a.C. é apenas um ponto de referência quanto ao encerramento do cânon do Antigo Testamento. Foi nesse ano que Esdras iniciou seu grande Ministério entre os repatriados de Israel. Se descermos a detalhes quanto ao livro de Malaquias, partiremos de 432 a.C. Malaquias é o último livro do Antigo Testamento, quanto à ordem cronológica. Quanto à disposição dos livros no corpo do cânon hebraico, o último livro é 2Crônicas, como já mostramos. O Novo Testamento foi completado em menos de 100 anos, pois seu último livro, o Apocalipse, foi escrito cerca de 96 d.C. Isto dá um total de 1.142 anos para a formação de ambos os Testamentos (1.046 + 96). 55 Leva-se em conta que a cronologia bíblica é sempre aproximada, pois os povos orientais não tinham um sistema fixo de anotar ou contar datas. Quando se fala do espaço de tempo, que vai da escrita do Pentateuco ao Apocalipse, é preciso intercalar os 400 anos do Período Interbíblico ocorrido entre os Testamentos, o que dará um total de 1.542 anos (1.046 + 96 + 400). Por isso se diz que a Bíblia foi escrita no espaço de dezesseis séculos. Este é o período no qual o cânon foi completado. Noutras palavras: o cânon abrange na história um total de 1.142 anos, aproximadamente. Os Livros Apócrifos Nas Bíblias de edição católico-romana, o total de livros é 73, porque essa igreja, desde o Concílio de Trento, em 1.546, incluiu no cânon do Antigo Testamento 7 livros apócrifos, além de 4 acréscimos ou apêndices canônicos, acrescentando ao todo, 11 escritos apócrifos. A palavra "apócrifo" significa, literalmente, "escondido", "oculto", isto em referência a livros que tratavam de coisas secretas, misteriosas, ocultas. No sentido religioso, o termo significa "não genuíno" ou "espúrio", desde sua aplicação por Jerônimo. Os apócrifos foram escritos entre Malaquias e Mateus, ou seja, entre o Antigo e o Novo Testamento, numa época em que cessara por completo a revelação divina; isto basta para tirar-lhes qualquer pretensão à canonicidade. Josefo rejeitou-os totalmente, nunca foram reconhecidos pelos judeus como parte do cânon hebraico. Jamais foram citados por Jesus nem foram reconhecidos pela Igreja Primitiva. Jerônimo, Agostinho, Atanásio, Júlio Africano e outros homens de valor para os cristãos primitivos, opuseram-se a eles na qualidade de livros inspirados. Apareceu pela primeira vez na Septuaginta, a tradução do Antigo Testamento feita do hebraico para o grego. Quando a Bíblia foi traduzida para o latim, em 170 d.C. seu Antigo Testamento foi traduzido do grego da Septuaginta e não do hebraico. Quando Jerônimo traduziu a Vulgata, no início do século V (405 d.C.), incluiu os apócrifos oriundos da Septuaginta, através da Antiga Versão Latina, de 170 d.C. porque isso lhe foi ordenado, mas recomendou que esses livros não poderiam servir como base doutrinária. São 14 os escritos apócrifos: 10 livros e 4 acréscimos a livros. Antes do Concílio de Trento, a Igreja Romana aceitava todos, mas depois passou a aceitar apenas 11: 7 livros e 4 acréscimos. A igreja Ortodoxa grega mantém os 14 até hoje. Os livros apócrifos constantes das Bíblias de edição católico-romana são: 1. Tobias (Após o livro canônico de Esdras); 56 2. Judite (Após o livro de Tobias); 3. Sabedoria de Salomão (Após o livro canônico de Cantares); 4. Eclesiástico (após o livro de Sabedoria); 5. Baruque (Após o livro canônico de Jeremias); 6. 1Macabeu (após o livro canônico de Malaquias); 7. 2Macabeu (após o livro IMacabeu). Os quatro acréscimos ou apêndices são: 1. Ester (Et 10.4-16.24); 2. Cântico dos três Santos Filhos (Dn 3.24-90); 3. A história de Suzana (Dn 13); 4. Bel e o Dragão (Dm 14). Como já foi dito dos 14 apócrifos, a Igreja Romana aceita 11, rejeita 3, isto, após 1.546 d C. Os livros rejeitados são: 3 e 4Esdras e "A Oração de Manassés". Os livros apócrifos de 3 e 4Esdras são assim chamados porque nas Bíblias de edição católico-romana o livro de Esdras, é chamado de l Esdras e o de Neemias, de 2Esdras. A Igreja Romana aprovou os apócrifos em 18 de abril de 1.546, para combater o movimento da Reforma Protestante, então recente. Nessa época, os protestantes combatiam violentamente as novas doutrinas romanistas: Purgatório, oração pelos mortos, salvação mediante obras, etc. A Igreja Romana via nos apócrifos bases para essas doutrinas, e, apelou para eles, aprovando-os como canônicos. Houve prós e contras dentro da própria Igreja de Roma. Nesse tempo os jesuítas exerciam muita influência no clero. Os debates sobre apócrifos motivaram os dominicanos contra os franciscanos. O Cardeal Pallavacini , em sua "História Eclesiástica", declara que em pleno concílio, 40 bispos, dos 49 presentes, travaram luta corporal, agarrados às barbas e batinas uns dos outros. Foi neste ambiente espiritual que os apócrifos foram aprovados! A primeira edição da Bíblia romana com os apócrifos deu-se em 1.592, com a autorização do Papa Clemente VIII. Os Reformadores protestantes publicaram a Bíblia com os apócrifos colocando-se entre o AT e o NT; não como livros inspirados, mas bons para leitura e de valor literários e históricos. Isto continuou até 1.629. A famosa versão inglesa King James, de 1.611, ainda os conservou. 57 Após 1.629, os evangélicos os omitiram de vez nas Bíblias editadas, para evitar confusão entre o povo simples que nem sempre sabe discernir entre um livro canônico e um apócrifo. A aprovação dos apócrifos pela Igreja Romana foi uma intromissão dos católicos em assuntos judaicos, porque, quanto ao cânon do Antigo Testamento, o direito é dos judeus e não de outros. Além disso, o cânon do Antigo Testamento estava completo e fixado há muitos séculos. Entre protestante evangélicos são iguais, tradução. os católicos corre a versão de que as Bíblias de edição são falsas. Quem, contudo, comparar a Bíblia editada pelos com a editada pelos católicos há de concordar em que as duas exceto na linguagem e estilo, que são peculiares a cada Outros Livros Apócrifos Há ainda outros escritos espúrios relacionados ao Antigo e Novo Testamento. São chamados de pseudo-epigráficos. Os do Antigo Testamento pertencem à última parte do período interbíblico. Todos os livros dessa classe apresentam-se como tendo sido escritos por santos de ambos os Testamentos, daí seu título: pseudoepigráficos. São na maioria, de natureza apocalíptica. Nunca foram reconhecidos por nenhuma Igreja. Os principais do Antigo Testamento chegam a 26. Os referentes ao período do NT também nunca foram reconhecidos por ninguém como tendo canonicidade. São cheios de histórias grotescas e até indignas de Cristo e seus apóstolos. Essas histórias são muito exploradas pela gente simplória e crédula. Desse período há de tudo: evangelhos, epístolas, apocalipse, etc. Os principais somam 24. O estudante da Bíblia deve estar acautelado, concernente aos livros canônicos e apócrifos em geral:    Os 39 livros canônicos do AT são chamados de protocanônicos pelos católicos; Os 7 livros que chamamos de apócrifos, são chamados de deuterocanônicos pelos católicos; Os livros que chamamos de pseudo-epigráficos, são chamados de apócrifos pelos católicos. A respeito dos livros apócrifos, seja qual for o valor devocional ou eclesiástico que tiverem, não são canônicos, comprova-se pelos seguintes fatores:  A comunidade judaica jamais os aceitou como canônicos; 58       Não foram aceitos por Jesus, nem pelos autores do Novo Testamento; A maioria dos primeiros grandes pais da Igreja rejeitou sua canonicidade; Nenhum concílio da Igreja os considerou canônicos senão no final do século IV; Jerônimo, o grande especialista bíblico e tradutor da Vulgata, rejeitou-os fortemente; Muitos estudiosos católicos romanos, ainda ao longo da Reforma, também os rejeitaram; Nenhuma Igreja ortodoxa grega, anglicana ou protestante, até a presente data, reconheceu os apócrifos como inspirados e canônicos, no sentido integral dessas palavras. A vista desses fatos importantíssimos torna-se absolutamente necessário que os cristãos de hoje jamais usem os livros apócrifos como se fossem Palavra de Deus, nem os citem em apoio autorizado a qualquer doutrina cristã. Com efeito, quando examinados segundo os critérios elevados de canonicidade, verificamos que aos livros apócrifos faltam os seguintes aspectos:        Os apócrifos não reivindicam ser proféticos; Não detêm a autoridade de Deus; Contêm erros históricos (ver Tobias 1.3-5; 14.11) e graves heresias teológicas, como a oração pelos mortos (2 Macabeus 12.45,46; 4); Embora seu conteúdo tenha algum valor para a edificação nos momentos devocionais, na maior parte se trata de texto repetitivo; são textos que já se encontram nos livros canônicos; Há evidente ausência de profecia, o que não ocorre nos livros canônicos; Nada acrescentam ao nosso conhecimento das verdades messiânicas; O povo de Deus, a quem os apócrifos teriam sido originariamente apresentados, recusou-os terminantemente. 59 Referências Bibliográficas 1. J. Erickson, Millard. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo. Editora Vida Nova, 1997. 2. Instituto Bíblico das Assembleias de Deus do Estado do Paraná. Bibliologia. Paraná. AEADEPAR, 2007. 60