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PESSOAS, COISAS & GILBERTO FREYRE a co | = . IY, ‘ PESSOAS, COISAS & ANIMAIS. Gilberto Freyre Gilberto Freyre, “uma das glérias do pensa- mento brasileira", no dizer de mestre Celso Pedra Luft, é internacionalmente conhecido como sociélego. Sua obra principal nesse campo, Casa-Grande & Senzala, teva mais de uma edigdo em inglés e foi premiada nos Esta- des Unidos como a melhor obra sobre relagoes inter-raciais. Outro livro do autor muito apre- ciade no Brasil ¢ Sobrados @ Macambos. Dona Sinhé ¢ o Filho Padre, seminavela pu- blicada em 1964, projetou Gilberto Freyre como ficcionista. Dois anos antes surgira Tal- vez Poesia, antologia de poemas selecionados Por Ledo Ivo, Mauro Mota e Thiago de Melo, A Editora Globo, prestando mais um inesti- mavel servigo & cultura brasileira, langa agora Pessoas, Coisas & Animais, uma coletanea de ensaios, conferéncias e artigos de Gilberto Freyre reunidas e apresentados por Edson Nery da Fonseca, Registre-se que ¢ a primeira vez que a presente obra é publicada comer- cialmente, pois velo a lume no Natal de 1979 na forma de edi¢ao especial para MPM Propa- ganda — MPM Casabranca Propaganda fora de comércia. Vio portanto os leitores tomar contato com uma série interessantissima de trabalhos do "Mestre do Recife”, a maioria pu- blicada ha trés ou quatro décadas e por conse- guinte praticamente desconhecida. Constam alias escritos inéditos como, por exemplo, a conferéncia sobre Emilia Cardoso Ayres e 0 Siscurso sobre Rodrigo Melle Franco de An- drade. Num estilo simples e so alcance de todos, que @, diga-se de passagem, uma das suas ca- racteristicas, Gilberto Freyre aborda diversos assuntos. Na primeira parte da obra, “Pas- soas", destacam-se: 'S. Severino da Ramo’ reminiscéncia do tempo de menina; "0 Pe Ibigpins e suas maes-sinhds”, revelagdo de um {Continua na 2? abe} PESSOAS, COISAS & ANIMAIS 18 Série Gilberto Freyre Desenho de Getilio Delphin @ partir de uma fotografia de Berko, Alemanha Ocidental, GILBERTO FREYRE PESSOAS, COISAS & ANIMAIS 19 SERIE Enssios, conferéncias e artigos reunidos e apresentados por Edson Nery da Fonseca 24 Edigdo EDITORA GLOBO Porto Alegre + Rio de Janeiro 1981 Desta obra foi feita, no Natal de 1979, uma edi¢do especial para MPM Propaganda MPM — Casabranca Propaganda numeérada de 0001 a 8000, fora do comércio, Copyright © 1980 by Gilberto Freyre (Capa de Leonardo Menna Barreto Gomes Fotogratia de Clodomir Bezerra Planejamento gréfico de Maria Lais Fett Lima Direitos exclusivas de edi¢do, em lingua portuguesa, da Editora Globo S, A, Av, GetUlio Vargas, 1271 - 90000 Porto Alegre, RS. Rua Sarg. Silvio Hollenbach, 350 — 21510 Rio de Janeiro, RJ PESSOAS, COISAS & ANIMAIS 19 Série CIP-Brasii. Catalogacdo-ne-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RU, Freire, Gilberto, 1900- F933e — Passoas, coisas ¢ animais ; 1 série : ensaiog, conferincias e artigos / reunidos © spresentados Por Edson Nery da Fonseca, — 2. ed. — Porta Alegre — Ric de Janeiro ; Globo, 1981. 1, Freire, Gilberto, 1900+ — Coletanea |, Fonseca, Edson Nérl da Il, Tftulo DD — 869,98 CDU — 869.0 (81) Freire, G. 412 SUMARIO Apresentacdéo . . 1 PESSOAS Santos 6 quase santos §, Severino da Ramo 17 Sto, Antonio, militar no Brasil .. es 22 Um ortodoxo brasileiro do século XIX. . 25 O P.2 Ibiapina e suas Maes-Sinhas 30 Um homem que “‘seguiu Jesus”: Orlando Dantas . 35 Santos e homens . a ie 37 Um mundo necessitado de profetas, 1 41 Pai Addo, babalorixd ortodoxo .. . 44 Aco e contemplacdo dos franciscanos 47 Os carmelitas no Brasil 53 Santo e guerreiro ... auneate 56 Coro e outros CoreSes oii eee ee eee eee eee BD Poetas e ensaistas QO indianismo postico e cientifica de Goncalves TINGS po cia sscererauarorein a negecgyy: aceasta teal 62 O romantico Ribeiro Couto ...... seseeee 68 Augusto Frederico Schmidt, poeta e homem de agdO'.... wees came: 70 Moysés Vellinho e sua intarpretago do. Rio Grande do Sul . dae VET ew mney 73 Um critico na verdade criador: Roberto Alvim Corréa ........ aoe 76 Vianna Moog, ensaista literdrio e socio Tes Reena 81 Valdemar Cavalcanti, escritor . bees 83 O pensador Prudente de Morais, Neto | 86 Tobias Monteiro, mestre de jornalismo e de Historia do Brasil .... . 88 91 Quatro pintores e um inventor O drama de Pedro Américo ......, rors SF Telles Jdnior, mestre de Desenho e Hintor da mata pernambucana.......... 0.22.00 02008 101 0 esquecido Emilio, precursor, no comeco do século XX, da modernizacdo da pintura no Brasil .. 119 O brasileirismo teldrico de Portinari... 2.2.2.2... 130 O pessoal é 0 universal em Santos Dumont Santos Dumont é 6 mito do amarelinho eee 135 Universalidade de Santos Dumont . 138 Pensadores e homens de ac4o Martins Junior, jurista desgarrado num tempo que néo era aindao seu 2.0... ccc. eee eee ee ee 153 Teodoro Sampaio, colaborador de OR SEO ES: oo ccna csuouese sue eecer canna ea as eiaowre we aE 156 Monteiro Lobato e Urupés: uma revolugdo na literatura brasileira 60... cece eee eee eee 158 Silva Melo, cientistae humanista ..........-..... 161 Anisio Teixeira, renovador da educagdo e reformador social .. - 178 vill Rodrigo Mello Franco de Andrade, humanista e homem de acdo - 186 Epitacio Pessoa, bacharel antibacharelesco . . 197 Afranio de Mello Franco: seu bom-senso . . ve. 204 De Afranio a Gilberto Amado 6... 0... . eee a ees 209 Estadistas e politicos Ciéncia, humanismo e acao politica: o exemplo de José Bonifacio 211 OP Feijé e seu jansenismo caboclo , . 215 Rio Branco: a estatua ¢ o homem , . 220 Rui Barbosa: um quase défrogué desgarrado napolltiessss este Se eee as Joao Mangabeira, Rui Barbosa e a questdo social .. . Ruj Barbosa e a realidade brasileira Dois inimigos de Rui Barbosa .... Terei sido um anti-Rui? .......... Maua, m/stico do progresso industrial Maude Pedro ll ......0.5005 Virg (lio de Mello Franca: seu mado belo e leal de ser politico Getilio Vargas, artista pol{tico , COISAS Diarios e memérias . Citar ou ndo citar . Valores rotarianos e valores baianos A proposito de palavras inglesas na !{ngua portuguesa ,.,.. vette eee eee e ee SO Grandeza e decadéncia do charuto eae Bee O gaucho, parente do bedu/no . a seee. S41 Nacionalismo e internacionalismo t nas s historias em quadrinhas Paz, guerra e brinqueda A propésito de camas de noivos ........-... 2065. 350 Um circo e um antipalhago .... Em defesa da saudade . O pudor do lucro ...... 0.0. ANIMAIS Recordacao de Joujou ..... Arte de cavalgar no tempo dos flamengos . . Bichos reais e imaginarios Homens, casas, animais e barcos do S. Francisco .... 385 Os sultées das ruas do Rio de Janeiro .. Presenga do cavalo . APRESENTAGAO Na primeira edicdo de Uma Cultura Ameacada: a Luso-Brasileira (Recife, 1940) estéo anunciadas, entre as obras subseqiientes de Gilberto Freyre, algumas que no foram ainda e, talvez, jamais venham a ser publicadas, co- mo Um Srasileiro na Espanha e quias praticos, histéricos e sentimentais da Bahia, do Rio de Janeiro e de Belém do Pard, semelhantes aos dedicados ao Recife (1934) e a Olin- da (1939), Esses dois guias foram — diga-se de passagem — pioneiros no género em todo o mundo. E no Brasil talvez tenham sido os primeiros livros para bibliéfilos, assim cha- mados pela primorosa apresentag4o grdfica e tiragens limi- tadas. Dentre os livros anunciados em 1940 havia um com o titulo escolhido para esta coleténea de trabalhos inéditos e dispersos do autor, publicada pela MPM Propaganda no Natal de 1979, em continuidade a uma série de edicdes artfsticas pelas quais a literatura brasileira Ihe ficard para sempre devedora, Tanto a selecdo dos textos como sua sistematizacao ficaram sob minha exclusiva responsabilidade, por honrosa delegagao do autor e da casa publicadora: delegagdo que, aqui, desvanecido, agradego, Também s8o meus os titulos atribuidos a maior parte dos trabalhos escolhidos, embora o estilo gilbertiano seja neles evidente, pois foram colhi- dos nos respectivos textos, tal coma os indexadores esco- hem as palavras-chaves em determinado tipo de indice: o KWIC, ou Key World in Context. Embora Pessoas, Coisas & Animais tenha sido 0 titu- lo genérico da colaboragdo de Gilberto Freyre em O Cru- zeiro, este livra néo se constitui apenas de artigos publica- dos na referida revista, mas também de outros que, em di- ferentes épocas, foram divulgados no Didrio de Pernambu- co, no Jornal do Camércio do Recife, em O Jornal, A Manhé& @ Jornal de Brasil, do Rio de Janeiro. Foram ainda incluidos trabalhos inéditos como, por exemplo, a confe- réncia sobre Emilio Cardoso Ayres eo discurso sobre Ro- drigo Mello Franco de Andrade, As fontes e as datas estdo indicadas no fim de cada artigo. Destacam-se neste conjunto de inéditos e dispersos de Gilberto Freyre a variedade tematica e a originalidade estilistica. Tanto uma como outra podem ser observadas jé nos artigos da primeira fase de sua atividade jornalistica, recentemente reunidos em dois volumes da obra Tempo de Aprendiz (Sao Paulo, IBRASA, em convénio com o Insti- tuto Nacional do Livro, 1979). E pena que os editores da referida obra — graficamen- te elogidvel — ndo tenham acrescentado ao texto um indice Onomédstico € temdtico. A omissdo de (ndices é um dos pe- cados mais graves e constantes dos editores brasileiros. Um autor inglés reclama indices até em obras de ficcdo, para que os leitores possam encontrar facilmente certos perso- nagens e determinados episddios, O jndice onomastico e tematico é ainda mais indispensavel em obras como Tempo 2 de Aprendiz: tanto por seu carater compdsito como pela ordenacdo cronolégica dos textos reunidos. Além de facili- tar a consulta, um (ndice como o sugerido evidenciaria o generalismo que cedo madrugou em Gilberto Freyre., Nao © generalismo superficial de quem trata de tudo sem se aprofundar em nada, nem o generalismo puramente con- ceitual dos pensadores abstratos, mas generalismo como viséo global e interdisciplinar de cada tema ou problema estudado: a abordagem sistémica de que tanto se fala hoje em dia. Fosse Gilberto Freyre um generalista por pure e sim- ples diletantismo e ndo teria certamente se antecipade a varios autores, brasileiros e estrangeiros, na defesa de certas idéias, conceitos e iniciativas. Hd neste livro, por exemplo, uma antecipagdo que é oportuno salientar, face 4 publica- So recente de uma obra que vem sendog insistentemente considerada pelos noticiaristas literérios — neste ponto e em outros, melancélicos repetidores de press release — co- mo pioneira em destacar a participagdo do povo na His- toria do Brasil, Qu muito me engano, ou foi em 1933 e através de Casa-Grande & Senzala que 9 povo entrou em nossa Histo- ria, Isto foi, alias, reconhecido pelo antropdélogo Darcy Ribeiro no inteligentissimo prefacio que escreveu para a edigdo venezuelana daquela obra de Gilberto Freyre (Cara- cas, Biblioteca Ayacucho, 1977, p. XI et passim). Em arti- go de 1942 — agora reproduzido em Pessoas, Coisas & Ani- mais — Gilberto Freyre volta Aquela sua tese de 1933. Ca- mentando uma observacdo do Prof. Castro Rebelo endossa- da por Lidia Besouchet — a de que “em torno de Maud po- de-se escrever a historia econdmica do Império” — escreve ele: “Nao € em torno de nenhum grande homem de fraque e cartola — nem mesmo o Imperador — que se pode escre- ver a histéria econdmica do Império, mas — a termos que escrevé-la em torno de alguém — em volta do escravo ne- a gro. Pais o negro é que foi o alicerce vivo do sistema mono- cultor, escravocrata e latifundidrio em que consistiu a eco- nomia — na verdade a civilizagao inteira — do Império”. Ha varias outras antecipacdes de Gilberto Freyre que este livra recolhe. Duas delas esto na segunda parte e se referem ao fendmeno da criagdo cientifica e artistica e ao Problema das histérias em quadrinhos, Os dois assuntos vém sendo ultimamente muito debatidos pelos especialistas em ciéncia da informacao (information science) e em co- municaggo de massas (mass communication). No Brasil, a Prioridade no trato de tais temas cabe, sem duvida, ao au- tor deste livro, como se pode ver pelos anos de publicacdo do artigo Citar ou Nao Citar’ (1943) e das crénicas sobre quadrinhos (1948 a 1951). Embora graduado em Ciéncias Sociais e apesar de suas importantes contribuig6es 4 Sociologia, 4 Antropologia e & Historia Social, Gilberto Freyre poderia ser definido como antiespecialista. Emprego o verbo no candicional porque o prefixo anti néo me parece inteiramente adequa- do & Weltanschauung gilbertiana, que parece caracterizar-se antes pela concilia¢ao do que pela oposi¢go entre contrd- trios. Admirador de Marx, por exemplo, mas fazendo reser- vas a muitas das idéias do genial pensadar, ele sempre se considerou, néo antimarxista, mas pds-marxista. E com a mesma disposicéo de tudo compreender, ndo se considera catdlico nem anticatélico, mas acatdlico; nfo pré ou con- tra as academias, mas inacadémico, Um autor assim open minded, com uma Weiltans- chauung téo generosamente abrangente, sd poderia ter como lema o conhecide verso no qual Teréncio dizia que, por ser homem, nada de humano reputava alheio a si. Com 17 anos, em discurso de “Adeus ao Colégio” (depois in- cluido em Aegigo e Tracicdo), Gilberto Freyre | citava em latim 0 verso de Teréncio: Home sum: humani nihil ame ailienum puta. Creio mesmo que a cosmovisio gilbertiana é 4 ainda mais amplamente integradora do que a terenciana. Sobre sua evalucdo intelectual existe significativa confi- déncia, porventura esquecida em nota de abertura de um livro publicado em 1935: aquela em que o autor afirma terem suas idéias de adolescente se modificado em varios pontos, “num sentido que lhe parece mais humano e me- nos humanista’’ (cf, Artigas de Jornal, Recife, Edicdes Mozart, p. 9). Hoje ele talvez pudesse dizer, parafraseando Teréncio: sou vivo: nada do que & vivo repute alheio a mim, Pois sua abrangente curiosidade se estende a pessoas, coisas e animals. Da juventude inquieta de Gilberto Freyre nos Estados Unidas, sabernas que em vez de limitar-se 4 rotina académi- ca das aulas, semindrios e laboratarios, incluiu uma varieda- de enorme de impressdes e de contatos, como ele proprio recordou, em 1934, para estudantes que 0 convidaram a falar na velha Faculdade de Direito do Recife. Vale a pena reproduzir, jpsis litteris, essa recordacdo, porque ela se insere num contexto muito expressivo de um dos aspectos do estilo gilbertiana: sua proustianidade, se me permitem o neglogismo. Num escritor mais cartesiano do que proustiano, 2 recordacdo ficaria reduzida 4 seguinte frase: “De uma adolescéncia passada quase toda nos Estados Unidos, re- cordarei hoje algumas experiéncias de possivel interesse para os alunos desta Escola e para os seus amigos aqui reu- nidos". No estilo proustiano de Gilberto Freyre a enume- ragio exemplificativa — nele muito freqiiente — est4 como que suspensa entre dois travess6es que fazem a frase esten- der-se por quase trés paginas (estou citando a primeira adic3o da conferéncia, adiante referenciada): “De uma adolescéncia passada quase toda nos Estados Unidos — em universidades, principalmente na de Columbia — e um pou- co por toda a parte, até por Greenwich Vilfage, que é em New York o bairro de artistas e de intelectuais mais ou 5 Menos neurdticos, vitimas do puritanismo das cidades do interior, em busca de uma libertacdo que as vezes se resol- ve em pura libertinagem; em revivals de negros no Texas e em Kentucky; na Universidade Catélica, entre Dominica- nos e Beneditinos, ascetas magros, angulosos, estudando quimica e teologia; em Salt-Lake City, a cidade onde no tempo de Joseph Smith se praticou tamanho excesso de poligamia, cidade quase vizinha da de Reno, que vive, ao contrario, de verdadeiro turismo de gente 4 procura de di- Vorcio; de uma vida, na América do Norte, que me fez sentir © poema em que Vachel Lindsay — uma das maiores vozes na jovem poesia americana — vasou todo 0 lirismo da mobilidade transcontinental: They tour from Memphis, Atlanta, Savannah, Tallahassee and Texarkana, They tour from St. Louis, Columbus, Manistee They tour from Peoria, Davenport, Kankakee Cars from Concord, Niagara, Boston, Cars from Topeka, Emporia and Austin Cars from Chicago, Hannibal, Cairo, Cars from Alton, Oswego, Toledo Cars from Buffalo, Kokomo, Delphi, Cars from Lodi, Carmi, Loami, Ho for Kansas, land that restores us When houses choke us, and great books bore us e ndo 36 senti-lo com relacao 4s cidades e aos lugares, mas com relacdo as classes ¢ aos grupos que as vezes numa mes- ma cidade grande, vertical, se distanciam mais que os conti- nentes; senti-lo com relacao as distdncias sociais — que ain- da sdo enormes na suposta terra da democracia — conhecer poetas negros de Harlem, indios de Arizona, caboclos das Filipinas, John D. Rockefeller Junior no palacete de New York em que, mais de uma vez, no meu tempo de Colum- bia, ele recebeu os estudantes estrangeiros; Calvin Coolidge 6 na Casa Branca; e num segundo andar de suburbio de Brooklyn tomar ché da Russia com o romancista Leon Kobrin, judeu da Litudnia que foi companheiro de jornalis- mo de Trotsky em New York; ver-se matar boi e se fazer chourigo nos grandes matadouros de Armour @ Swift e se imprimir o New York Times; e sobretudo conhecer a vi- da intelectual e artistica na intimidade — poetas como Vachel Lindsay com quem mais de uma vez jantei no Brevoort — ele sempre com um olhar triste que talvez fosse de saudade do mundo que ia deixar té0 cedo — aquele seu pais de fords rodando de Norte a Sul, de Leste a Oeste, onde tantas vezes viajou sem dinheiro, cantando seus poe- mas pelos povoadas, pelas granjas, entre os negros dos al- godoais, entre os montanheses, tomando banho nos rigs, dependurando as roupas pra secar nas drvores, como Amy Lowell, de quem fui héspede na sua casa de Brookline, a velha casa dos Lowell onde ela vivia rodeada de livros ra- ros, de jarros chineses e dé caixas de charutos de Manilla; criticos como Mencken; escritores como Carl van Doren; cientistas como Boas: sébios como Giddings e Seligman; de uma vida de estudante que incluiu uma variedade de im- presses e de contatos fora dos livros, das aulas, dos semi- nérios, dos laboratérios — recordarei hoje algumas expe- riancias de possivel interesse para os alunos desta Escola e para os seus amigos aqui reunidos’’. (O Estuco das Clén- cias Sociais nas Universidades Americanas. Recife, Edigao de Momento, 1934, p. 20-23, 22 ed. publicada na hoje ex- tinta revista Rumo, Rio de Janeiro, v. |, n° 1, p, 4-24, 1° trimestre de 1943.) Foi Alvaro Lins quem primeiro comparou o estilo de Gilberto Freyre com o de Marcel Proust, esclarecendo: “Ambos se afastam da linha dos estilos tradicionais das suas linguas. Ambos estao determinados pela introspecc#o é pela busca do ‘tempo perdido’, um no homem, o outro na sociedade. Ambos estado sustentadas por uma unidade 7 interior que contrasta com a desconexdo exterior, Ambos se destinam a exprimir nuancas e detalhes em literaturas dominadas pelas idéias gerais. Ambos apresentam um de Ariadna’ no meio de construcdes ds vezes verdadeira- mente labirinticas’” (cf. Jorna/ de Critica, Sequnda série, Rio de Janeiro, José Olympio, 1943, p. 212). O estilo de Gilberto Freyre nao é simples imitagado do estilo de Proust, mas conseqliéncia do que hé de proustia- no em sua atividade criadora, definida por Diogo de Melo Menezes nesta sintese magistral: “Seu fim, o fim de sua ati- vidade criadora, seria este: o de ressuscitar passados perdi- dos, o de revelar vida, o de compreender personalidades, o de ser fiel a realidade nesse esforco de ressurreicao, revela- ao € compreensdo da vida humana, tal como essa vida se vem condensando no Brasil” (cf. Gilberto Freyre. Rio de Janeiro, Casa do Estudante do Brasil, 1944, p, 249), A disposicao de compreender pessoas, coisas e ani- mais leva Gilberto Freyre a como que introjetar-se no ser de cada pessoa, coisa e animal que, assim, acaba fazendo parte de sua circunstancia, como diria Ortega y Gasset, Entre ele e o objeto de sua observacdo passa a ocorrer o que os gregos charmmavam dé empatia. Somente esse poder poético explica o seu estilo, assim definido pelo erudito, inteligente e sensivel critico Roberto Alvim Corréa: “"Es- tilo de poeta, por ser visual. De pintor, ou de homem en- tendido em linhas e cores, que, para existir, precisa olhar, ver, saber o que pensa e sente, vendo. Vendo a natureza com olhos de pintor, contando-nos como nele a mesma repercute, ou simplesmente falando-nos de pintura, para ele um modo de por ordem em si préprio’”’ (cf. “Gilberto Freyre, Ensaista”, em Gilberto Freyre: Sua Ciéncia, Sua Filosofia, Sua Arte, Rio de Janeiro, José Olympio, 1962, p. 174-175). E indispensivel também recordar 0 fato biografico dele s6 ter conseguido aprender a escrever depois de mui- 8 to desenhar, Eratn desenhos expressionistas que irritavam © paisagismo realista de Telles Junior Lembrando tal fato, no ensaio sobre seu velho professor de Desenho, Gilberto Freyre informa que continua a haver dentro dele, secreta- mente colaborando com o escritor, “um aprendiz da arte de desenho que ndo se cansa de procurar reduzir a imagens suas sensacdes e até suas iddias. E ndo apenas suas observa- gdes de gentes e paisagens’’. Esse imagismo Luis Jardim ja salientara em 1935, ao observar que Gilberto Freyre "emprega palavras como quem quer reduzir tudo, des- de o mais abstrato ao mais concreto, ao maximo de suges- to ou mesmo de expresso plastica’. E concluindo seu prefécio a primeira edigdo dos Artigos de Jornal, escrevia Luis Jardim que “neste uso de imagens para exprimir idéias, quase sensualmente, como se a palavra ndo bastasse, é que também em parte consiste a sua forma original e for- te de expressdo”’ (op. c/t., p. 31 e 33). Neste livro — que organizei nao apenas desvanecido com a confianca do autor e do editor, mas deliciado coma releitura de algumas das melhores paginas do ensaismo em lingua portuguesa — hd exemplos abundantes do imagis- mo gilbertiano: um imagismo nada retérico ou superfi- cial, justamente porque responde a uma necessidade intima de expressdo; imagismo “claro, preciso e sintético”, tal como os poetas ingleses e americanos, que ele conheceu e com alguns dos quais conviveu na juventude, desejavam que fossem as imagens, Em seu livro The Poetic Image, Cecil Day-Lewis oferece uma definic¢go de imagem que caracteriza muito bem a prosa poética de Gilberto Freyre: “pintura feita com palavras”’, Veja-se como exemplo de “pinture feita com pala- vras’’ este pequeno trecho da obra-prima que é a evocacdo de uma “noite sinistra’’ em terras do Engenho S. Severino do Ramo: “Um desses passeios longos me fez voltar, tarde da noite, da cidade de Pau d’Alho ao engenho, a garupa do a meu tio Dedé, num cavalo chamado Bandinha, devido ao seu jeito caviloso de s6 andar de lado, Noite para os meus sete anos, sinistra, Tudo escuro. Chuva grossa. Trovdo. O rio j4 roneando de cheio, O vento gemendo nos pés de ca- na: gemidos de almas penadas. O préprio tio com medo; Mas — justica lhe seja feita agora — ndo tanto da furia dos elementos nem das almas do outro mundo como das se- nhoras furiosas € assustadas que nos receberiam na sala da frente do S. Severino, j4 com remédios caseiros contra os perigos do resfriamento ¢ indignadas com a doidice daque- le passeio em dia tao mau. Pois no vira 0 idiota do Dedé que a chuva estava se armando desde a hora do almoco? No vire o aluado isso? N&o vira aquilo? E patati-patata”, O curioso 6 que esses achados surgem de repente nos ensaios sobre temas, por assim dizer, mais severos, como, ao demonstrar que jd havia quest&o social entre nds, na época de Rui Barbosa, Gilberto Freyre fala de “‘um Brasil (. . .) j4 muito salpicado do negro e do pardo de bueiros de fabricas e de usinas; e no idilicamente verde em sua virgindade agréria ou sua castidade pastoril’”. Ndo sendo apreciador de retorica — “eu detesto teus oradores, Bahia de Todos os Santos!’ exclamou ele uma vez — Gilberto Freyre quase n3o qualifica os substantivos, como observou Lufs Jardim; substitui a superficialidade dos adjetivos pela forga dos advérbios; ou pela adverbiali- zacdo dos adjetivos e substantivos: adverbializagdo que, as vezes, se repete numa s6 frase, como, por exemplo, ao sa- lientar a dificuldade que teve Emilio Cardoso Ayres em “deseuropeizar-sé para integrar-se numa trans-Europa para ele, tao sofisticadamente europeu, paradoxalmente sedu- tora’; ou, ainda no mesmo ensaio-conferéncia sobre Emi- lio Cardoso Ayres, ao se referir 4 “mais tecnicamente civili- zada que artistica e intelectualmente sofisticada Escandi- ndvia"’, 10 A adverbializacdo em Gilberto Freyre daria pano para as mangas, isto é — falando menos gilbertianamente — for- neceria material para toda uma dissertac&o de mestrado em lingua portuguesa. Eis alguns exemplos, colhidos neste li- vro, aqui € ali: “monotonamente solene”, “livremente cri- tico”, “cruamente apologético”, ‘um pais virginalmente agricola’, um gato “orientalmente volutuoso”, “cores volutuosamente vivas”, “motivo rasgadamente ideolagico ou ostensivamente politico”, ‘‘solenemente ortodoxo em religido e em politica’, “'vitoriosamente solene’’, “civica e talvez artisticamente perfeito”, ‘‘rusticamente inacabado”’, “rigidamente académico ou corretamente oficial”, “figura convencionalmente herdica ou moral e civicamente exem- plar’, “melancolicamente secundarias”, "monotonamente correto”. E, como se vé, uma adverbializacdo que surpreende e agrada, porque apesar de, por vezes, insdlita, sempre se re- vela adequada. Inusitadas mas expressionisticamente opor- tunas sdo, por igual, suas associacées de elementos fisicos e morais, de que forne¢o, colhido neste livro, um s6 mas ge- nial exemplo: o "verde fidalgo dos canaviais”’. Talvez algum leitor preferisse que as pessoas, coisas e animais de que Gilberto Freyre fala neste livro se sucedes- sem sem qualquer critério de ordenacdo textual e como que aleatoriamente. O fator aleatdrio parece estar na mo- da, tanto em ciéncias exatas e bioldgicas como em cién- cias sociais e até nas artes: vide, como exemplos, 0 movi- mento browniano em Fisica, a biologia filosdfica de Monod e a musica estocdstica de Xenakis. Ao préprio Gil- berto Freyre néo agradam o que considera como excessos de ordenagdo que acabam “abafando virtudes bem mais interessantes qué a pura regularidade ou a simples boa or- dem” (cf. Prefécios Desgarrados, v. ||, p. 701). Mas a um biblidgrafo talvez deformado pelos estudos de classifica- cdo dos conhecimentos repugna misturar alhos ¢ bugalhos: "1 mistura gilbertiana de que resultaram — é forcoso reconhe- cé-lo — livros interessantissimos como Perfil de Euclydes e Outros Perfis (1944) e, mais recentemente, o proprio Alhos & Bugalhas (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1978). Optei, portanta, pela ordenagZo dos textos em trés Partes, subdividindo a primeira conforme cinco diferentes grupos de personalidades. Mas o classificador, como o antologista, acaba sendo o primeira a reconhecer as im- perfeigdes de seu trabalho. Creio, porém, que o critério sistematico é, no caso deste livro, muito mais expressivo do que teria sido o cronolégico, adequadamente adotado, entretanto, em Tempo de Aprendiz. A classificagZo dos textos por matérias chega a dispensar, em Pessoas, Coisas & Animais, o indice tematico, © maior numero de pessoas do que de coisas e ani- mais deve ser atribuido ao grande interesse do autor pelo género biogrdfico, do qual jé tratou em varias oportunida- des: inclusive em paginas incisivas de Sociofogia (12 ed., 1945, v. I, p. 183-184; 23 ed., 1973, v, |, p. 228-229) e, Posteriormente, nessa obra notdvel mas, infelizmente, quase desconhecida que é Contribuicdo Para Uma Socia- logia da Biografia (Lisboa, Academia Internacional da Cultura Portuguesa, 1968, v. Il; 28 ed.: Cuiabé, Fundacio Cultural de Mato Grosso, 1978, 404 p.). Varios dos perfis incluidos na primeira parte de Pessoas, Coisas & Animais foram escritos a propdsito de biografias de brasileiros ilustres. Sao verdadeiramente magistrais os comentarios de Gilberto Freyre sobre a ciéncia e a arte da biogratia, O que ele espera do biégrafo é que esteja sempre “ansioso por conhecer, compreender, interpretar, revelar, reviver per- sonalidades”; e ndo que nos apresente uma estdtua ou fotografia retocada. Procurando sempre o lado humana dos brasileiros que se destacaram nas letras, nas artes ou na politica, Gil- berto Freyre tornou-se autor de alguns dos melhores re- 12 trates desses nossas patricios, Em notdvel ensaio publica- do na edi¢do de 2 de julho de 1979 do semandrio Time (p. 40-41), depois de lembrar uma observacao de Lytton Strachey — para quem era talvez mais dificil escrever uma boa vida que vivé-la — Gerald Clarke escreve estas palavras que se aplicam muito bem aos perfis de Gilberto Freyre: A good biographer should combine the skills af the novelist and the detective, and add to them the patience and compassion af the priest. A maneira do Velasquez de Las Meninas — pintor e pintura que foram objeto de algumas de suas melhores pa- ginas — Gilberto Freyre se coloca entre varios dos perso- nagens que retrata, como que a espreitar-lhes detetivesca- mente as intimidades, a procurar em suas vidas o tracgo mais revelador, a qua/itd ma/tresse de que falava Taine, as “s(nteses draméticas’” 2 que ele mesmo alude nesta outra obra-prima de observagdo e de estilo com a qual conclui- mos a apresentaodo de Pessoas, Coisas & Animais: “Symons me parece ter inteira razéo quando diz que o biégrafo do futuro no serdé o puro scia/ar mas o indivi- duo ‘évido de personalidade’. Isto é — penso eu — ansioso por conhecer, compreender, interpretar, revelar, reviver personalidades. E sendo as personalidades, até mesmo para os sacidlogos, ‘sinteses dramaticas’ de épocas, meios, clas- ses, ragas, sub-racas, mowimentos, reacdes, revolugdes, o elemento dramdtico nunca Ihes falta, embora as vezes se es- conda dentro de grandes simulagdes ou aparéncias do que os ingleses chamam undramatic. Nem por nao ter havido tiro, duelo ou fome na vida de um Robert Browning ou na de um Thomas Hardy, deixaram eles de ter sido perso- nalidades dramaticas, E o mesmo é certo dos Mallarmé, dos Goncourt, dos Mark Twain, dos homens aparentemen- te mais tranquilos que tém criado obras literdrias superio- res ou realizado grandes experiéncias art/sticas’’, Edson Nery da Fonseca 13 PESSOAS Santos e quase santos S. SEVERINO DO RAMO* Alguém aludiu hé pouco ao fato de que, menino de sete ou oito anos, teria eu ido do Recife ao interior de Per- nambuco visitar a igreja de S. Severino do Ramo. Talvez para pedir alguma gra¢a a0 poderoso santo, hdo de concluir os maliciosos. Quando a verdade é que nem em tao remota meninice, nem depois de homem feito, fiz até hoje qual- quer viagem para pedir graca de santo ou obséquio de po- deroso, Gonheci a igrejinha de S. Severino do Ramo — 0 en- tdo “Rei dos Santos” do Brasil (Bahia acima, é claro, e res- peitados os direitos de N. Sr. do Bonfim) durante a longa temporada que passei no engenho do mesmo nome, per- tencente aos meus parentes Souza Mello, Descendentes de senhores de engenho arruinados do Sul de Pernambuco — que € a zona dos engenhos mais caracteristicos e tradicio- nais da velha provincia — mas nascidos ja no Recife, foi *Reproduzide de Autores & Livros (suplemento literario de A Manhé, Rio de Janeiro} v. II, n° 10, p. 156, 4 out, 1942, aquele engenho do Norte o primeiro que conhecernos, eu @ meus irmdos. Seguimos para §, Severino, perto de Pau-d‘Alho, de- pois da morte da nossa avé materna. E foi para todos nés uma aventura quase de meninos de romance de Robert Louis Stevenson, embora o preto de luto fechado nos as- semelhasse mais a orfaos desconsolados de Charles Dickens. Nao faltavam a S, Severino nem rio, nem mata, nem cava- los, nem negros velhos dos quais fomos logo aprendendo toadas que ainda hoje sabemos decor. Por exemplo, a que comeca; Ha quatro coisa no mundo que faz admiracdo. Uma dessas coisas era “‘quilograma dar aviso, antes do vapo chega’’. Lembro-me de que custei muito a me habi- tuar 4 denominagdo de “vapor” dada a “trem. A casa-grande esta ainda de pé. E 14 continuam a vi- ver, velhinhas, mas ainda fortes, as duas Souza Mello, se- nhoras do S. Severino da nossa meninice: nossas primas Calu e Marocas, Calu sempre magra; Marocas sempre gor- da. Jé nfo me lembro é do nome da parenta velha que fazia alfinim, Desapareceram os homens da familia que conhecemos ent&o, quase todos de délmas brancos sempre muito engo- mados, todos bigodudos come uns ciganos, tabicas na mao, um deles sempre de botas de montar a cavalo, Desapareceu Pedro Velho, também nosso parente, senhor da casa-grande vizinha que, alias, j& era um chalé; mas com um terraco téo alto que nos impressionou. Diferente de todos os chalés nossos -conhecidos: da Madalena, de Caxangd, de Dois Irmaos, dos Aflitos, da Capunga. Em S. Severino do Ramo nossa meninice se familiari- zou com a vida de engenho. Vimos fazer mel e acucar, tu- do explicado aos nossos alhos arregalados pelos primas ve- lhos; bebemas garapa; e os banhos de rio nos pareceram melhores que os de Caxanga, 18 Os passeios a cavalo eram, porém, a grande aventura, Passeios curtos, em cavalas pequenos, nanicos, quase do tamanho de carneiros, j& nossos conhecidos velhos; e assim mesmo com um ou dois moleques de lado, Passeios longos, os meninos 4 garupa das pessoas grandes, as vezes até a cidade de Pau-d'‘Alho, atravessando-se o rio e muitas terras de cana. ‘Um desses passeios longos me fez voltar tarde da noi- te, da cidade de Pau-d’Alho ao engenho, 4 garupa do meu tio Dedé, num cavalo chamado Bandinha, devido ao seu jeito cavilosa de sé andar de lado. Noite para os méus sete anos, sinistra. Tudo escuro. Chuva grossa. Trovao, O rio jd roncando de cheio, O vento gemendo nos pés de cana: gemidos de almas penadas. O préprio tio com medo; mas — justi¢a Ihe seja feita agora — nao tanto da furia dos ele- mentos nem das almas do outro mundo como das senhoras furiosas e assustadas que nos receberiam na sala da frente do S. Severino, j4 com remédios caseiros contra os perigos do resfriamento e indignadas com a doidice daquele pas- seio em dia téo mau. Pois nao vira o idiota do Dedé quea chuva estava se armando desde a hora do almoco? Nao vira o aluado isso? N&o vira aquilo? — patati-patata. Dessa “noite sinistra’’ guardo uma recordagdéo de aventura e de perigo, de que noite nenhuma, das minhas experiéncias de grande, sequer se aproxima. Nem da noite meio acre em que acompanhei Estdécio Coimbra na sua sai- da do Palacio da Governo de Pernambuco, debaixe de ba- las vindas da Rua da Aurora e vendo gente respeitavel cho- rar grosso; nem daquela, ainda mais dramatica, j4 na guerra atual, em que, no navio inglés Western Prince, a zigueza- guear ha dias, todo no escuro, pelos mares da costa da Afri- ca, 9 médico me chama meio misterioso 4 sua cabina para me encarregar de servicos de assisténcia numa das baleei- ras do vapor, em caso de torpedeamento; pois jamos atra- vessar dguas perigosissimas. Pelo que, passou 4s minhas 19 mos, num saco de borracha, os medicamentos de urgén- cia. Que eu fosse discreto e guardasse reserva para néo alarmar os passageiros, todos j4 com ordem de so dormir de salva-vidas. Creio que o meu grande medo naquela noite de chu- va e trovao, de volta de Pau-d’Alho a S. Severino pelo meio dos canaviais, vinha da impressfo da cantiga do Cabe- leira: Cada pé de cana era um pé de genie, Pais foi em canaviais de Pau-d’Alho — e talvez de S, Severino — que Cabeleira andou escondido, Cabeleira: um dos pavores da minha meninice. A voz de Fecha porta, Rosa, Cabeleira eh — vem Pegando mulheres Meninos também muitas vezes me encolhera cheio de medo, dentro de casa, E agora era aquela ‘‘Fecha porta, Rosa, Cabeleira eh-vem’’ que me dofa nos ouvidos a cada estrondo de trovdo, em pleno descampado de terras de engenho, sem porta ne- nhuma de casa que nos guardasse das garras do bicho: pois est4vamos nos préprios canaviais do monstro. Cabeleira morrera, sim, eu sabia que morrera, enforcado. Enforcado e dizendo que o pai é que lhe ensinara a matar. Mas isso de ter morrido néo contava para monstros. E eu sempre ouvira do bandido dos canaviais de Pau-d’Alho que tinha sido um monstro. Um monstro horrivelmente cabeludo, unhas enormes é amarelo que nem lobisomem. Rezei baixinho a Nossa Senhora e ao bom Deus; mas é espantoso que estando & sombra de S. Severino — o “Rei dos Santos’, cuja igreja era quasée a capela de engenho da casa j4 um pouco minha casa — no me pegasse com o Poderoso Severino, contra o perigo daqueles trovGes; contra o rumor de raiva daquele rio por onde talvez viesse 20 J4 descendo o Cabeleira, na sua canoa encantada, para nos apanhar de jeito quando féssemos atravessando as aguas. No sei se devo interpretar @ falta de fé em S. Severino como exemplo de que “santo de casa nao faz milagre’, O fato é que néo me entreguei 4 sua protegao. Sucede que dias antes me haviam mostrado, no alto da igreja, a meio caminho da torre, guardada numa espécie de sarcofago, a imagem do santo. Tivera o famoso S. Seve- tino do Ramo exposto aos meus olhos pelo ajudante do sa- cristéo, cujas melhores zumbalas ndo tinham sido para o santo, mas para nds, gente da casa-grande. Além do que, o Santo se chamava Severino, que era o nome do moleque com quem nos crigramos em casa, fazendo dele ora “‘ma- quina de trem”, que devia apitar, chiar e mover os bragos imitando locomotivas, enquanto nds o acompanhavamos como vagGes de luxo; ora simples cavalo de carro ou de cangalha. Tais associacées de idéias devem ter concorrido para diminuir, diante de minha imagina¢&o de menino, o prestigio m{stico do chamado Rei dos Santos, de modo a ngo me ter valido dele em noite t&0 angustiosa como a da volta daquele passeio a cavalo a cidade de Pau-d’Alho, Cabeleira. .. Este nem se chamava Severino — 0 nome do nosso leva-pancadas — nem tinha aquele rosto meio de moga, meio de mening, que eu vira um tanto desencantado dentro do sarcéfago da igreja. JA um negro do engenho me tinha dito, benzendo-se, mas sem as grandes demonstracdes de respeito pelo santo dos romeiras vindos de longe — até dos sertGes — que eu ja ver ’o alferes Severino’, O “alferes Severino’, que ha muitos anos os judeus tinham matado a bala. Onde? Ali mesmo, perto da casa-grande, Por isto os brances mandaram levantar uma igreja maior que todas as capelas de engenho. Outra diminuicdo de S. Severino diante do meu raciocinio de menino: “alferes Severino’, Simplas alferes @ morto a bala. Nem ao menos o corpo fe- chado as balas dos judeus, a Que me perdoe o bom santo — ainda hoje refugio de tanto cristo angustiado que lhe traz, em sinal de promessa cumprida, pés, m3os, cabecas, figados e rins de cera — por procurar explicagdes para a falta de fé que ndo deu anima 4 minha meninice de opor, sem hesitac#o nenhuma, sua do- ce figura a do terrfvel Cabeleira naquela noite de medo no meio dos canaviais de Pau-d’Alho. A verdade é que s6 me senti seguro junto de minha mie ja ansiosa por mim; e com as portas da casa-grande fechadas contra Cabeleira e outros monstros dos canaviais e das matas. Rezei mais a Nossa Senhora, pedi 2 béngdo a Papai do Céu e dormi sos- segadamente até o dia seguinte: um dia claro e de céu todo azul, com os passarinhos cantando nas drvores @ as lagarti- xas tomando sol no terrago da casa-grande. STO. ANTONIO, MILITAR NO BRASIL” O livro que o Sr. José Carlos de Macedo Soares acaba de publicar sobre Santo Anténio de Lisboa, Militar no Bra- sil, 6 dos que trazem ao acatolico novos motivos de enter- necimento por esse cristianismo mais do povo que dos dou- tores, que a Igreja sabiamente tem permitido 4 sombra de suas catedrais e abadias, dos seus seminarios e faculdades, Principalmente em Portugal ena Italia, os dois palses onde esse cristianismo liricamente popular mais tem rebentado em lendas cheias de significados profundos para os eruditos menos pedantes € para os tedlogos menos estreitos, Lendas que crescem com o vicgo, a frescura, a espontaneidade de flores do mato pelas pedras ilustres da ortodoxia, poeti- zando-se e fazendo-as confraternizar com a propria natu- reza. *Reproduzido da Jornal do Comércio (Recife) de 20 cur. 1842, 22 Esto neste caso as muitas lendas portuguesas e luso- brasileiras em torno dos trés santos mais queridos do nosso pove: Sto. Antdnio, 5. Jodo e S, Pedro. Sdo trés santos que a religiosidade do portugués e do brasileiro ha sé- culos vem associando a tudo que é significativo na nature- za e na vida do homem, seja qual for sua condi¢do: a dgua, a0 fogo, as ervas, aos passaros, aos peixes, ao carneiro, ao boi, as flores, aos frutos, aos cereais. E mais ainda, aos reis, 4s guerras, a defesa do solo contra toda a espécie de mou- ros, de hereges, de inimigos. Sao trés santos tao populares que em Portugal e no Brasil suas festas se tornaram, ha séculos, mais de patio de igreja, de largo de matriz, de praca publica, de rua larga, de ar livre, de quintal de casa, de campina de subiirbio, de al- deia, de engenho, do que de interior de igreja ou fundo de oratorio. Trés santos sem aquelas restricées no seu culto que tanto escandalizaram um dia certo pobre homem in- quieto que decidiu aproximar-se da igreja e dos santos mais ilustres que os populares; mas com tanta infelicidade que, chegando a porta da igreja exclusivista, dedicada nfo sei se a §, Francisco de Sales, perguntaram-Ihe se era irmao. Es- pantou-se o homem, inquieto com a pergunta, mas respon- deu que sim: que era irmao dos cristéos por ser como eles criaturas de Deus. Metafisica que desagradou ao interlo- cutor, para quem irméao $0 significava irmao do Sant{ssimo Sacramento, Por conseguinte, naquela época — foi isto ha largos setenta ou oitenta anos — homem branco e de alguns haveres era sO quem tinha direito a vestir a capa vermelha de irmao do Santissimo. O culto de Sto. Anténio é dos que nos fazem esque- cer e perdoar o que hé de burocratico, sectario, esnobe e até pouco cristdo nos antigos regulamentos e, hoje, nas tradic¢des de algumas confrarias e de alguns colégios — onde ainda se vé com maus olhos o irmao preto, o menino ou a menina de cor — pelo que ha de realmente cristéo, demo- 23 cratico, fraternal na verdadeira Igreja e no verdadeiro cristianismo. Nenhum santo esta mais associado a vida cotidiana do portugués e do brasileiro que Sto. Anténio; nenhum culto exprime melhor que o dele o cardter essen- cialmente democratico do nosso povo. Identificando-se, como se identificou, com o regozijo dos saldados pela entrada do santo querido no Exército e por sua ascensdo de sargento a tenente-coronel, o brasileiro dos tempos coloniais e do Império prolongou af a velha tradicéo sentimental do portugués de associar os santos 4s guerras contra os mouros, de unir os anjos aos exércitos empe- nhados na defesa da sua terra e do seu lar. E desse culto — o de Sto. Anténio, militar no Brasil — que o Sr, José Carlos de Macedo Soares nos fala em paginas que rednem & erudicao a sensibilidade, ao rigor de docu- mentacées © senso de pitoresco, a paciéncia de beneditino 0 lirismo de franciscano, ao entusiasmo pela eloquéncia ¢ bondade do santo o realismo com que recorda: “no fim da vida, homem exageradamente gordo |. . .)". Um ensaio, este, que 6 nova e alta expressdo daquele gosto aristocrati- co pelo livro esmeradamente art/stico que no ilustre ho- mem piblico e historiador se concilia com o sentido demo- cratico da vida publica e da religido, para ele sempre liga- das ao dever de servir ao Brasil, ao povo brasileiro e a boa causa das relagdes entre os povos americanos, animados de sentimentos de cordialidade internacional, A vida, a saiide, a beleza da Igreja Catdlica, esta na diversidade de tendéncias que 4 sombra do Papa e em tor- no dos dogmas sé concilia com a unidade magnifica, Esta no fato de seus santos serem t& diversos: S. Jerénimo, Sto, Agostinho, $. Tomas, Sta, Teresa de Jesus, Sto. An- tonio de Lisboa, $. Bento, S. Francisco de Assis. Esta no fato de dentro da Igreja haver dominicanos e franciscanos, padres do Oratorio e jesuitas, Esté na wariedade de ten- dancias pollticas dos seus préprios Iideres brasileiros, de 24 suas grandes figuras de leigos em nosso meio, um dos quais acaba de dedicar obra tao esmerada de erudicao e arte a reconstituigao da vida de Sto. Antonio de Lisboa, Enriquecido com ilustragdes do Sr, Perci Lau, o en- saio do Sr. José Carlos de Macedo Soares sobre Sto, An- tonio é dos que nos dao o direito a sorrir satisfeitas do aperfeigcoamento da arte do livro no Brasil, Vamo-nos libertando, néo hé divida, da longa tirania de mau gos- to que dos fins do século XIX aos nossos dias prejudicou n&o sé @ casa como o mével tradicional no Brasil, alean- cando também a arte da composicdo e impressao de livros. UM ORTODOXO BRASILFIRO DO SECULO XIX * A historia do Brasil é tao cheia de padre e de frade que de longe parece a “historia eclesiastica’’ de que ja fa- lou um dos nossos mais finos escritores catdlicos: 0 meu velho amigo Sr. Luiz Cedro Carneiro Lefo. Dai ser tdo di- ficil deixar de falar de padres e frades quando se escreve do Brasil e de sua historia. A luta contra os holandeses teve no Norte — parti- cularmente na Bahia e em Pernambuco — sabor acentuado de guerra contra herege; e a vitéria dos revoluciondrios de 1817, um ar quase de festa de igreja, Alias, a maior cabeca de 17 foi uma cabeca de padre, e a lista de implicados na *Reproduzido do Jornal da Comércia (Recife! de 17 set. 1942. Quem acabou escrevenda um ensaia sobre Lopes Gama foi, nda Olfvio Montenegro, ma Waldemar Valente: O padre carapuceiro (Recife, Departamento de Cultura da Secretaria de Estado da Educagao e Cultura, 1969]. Q prefacio de Gilberto Frevre @ esse livto de Weldemar Valente ast inctu(de em Prefécios desgarra dos, v. I, p. 449-454, 25 revolugdo esté cheia de nomes de padres. “Revolucdo de padres", chamou-a mesmo um historiador. Vem a revoluco de 24 e é ainda sangue de frade o que mais a avermelha, Sangue de frade além de tinta en. carnada de panfletos também escritos por frades patrioti- cos e exaltadamente liberais. Por tras de nomes mansos de religiosos — “Amor Divino”, “Purificagao", “Paz'’, "Encarnagao'’ e "Concei- io" — encontra-se, na histéria do Brasil, muita figura sur- preendente de revolucionaério polftico. Muito coragao consagrado menos a Jesus que a Danton. Devoto menos de Nossa Senhora que da deusa Liberdade. E o que de longe parece clericalismo é, na verdade, exemplo de brasileiros com pendor para a politica que se tornaram abades ou monges, sem auténtica vocacdo religiosa. Entretanto, 4 Igreja, no. Brasil, ndo tém faltado leais @ bons ortodoxos. O caso de D. Vital — 0 famoso “testa calda’’ — embora o bravo pernambucano talvez tenha pe- cado pelo excesso de ardor, vendo em macons docemente @ brasileira os mesmos anticlericais que foram os pedreiros- livres da Italia e da Franca. Encontram-se na histéria do Brasil, entre os Dons Vitais e os Freis Canecas, padres e frades que foram ad- miréveis mestres de bom-senso, de amor a tradi¢fo — a catélica e a brasileira, que quase ndo se pode separar da catélica — neutralizando com seus escritos e seus sermées a acdo da ideologia afrancesadamente liberal de bacharéis em Direito, em Letras e em Matematica, e mesmo de ou- tros frades e abades, por um lado; e a dos mais papistas que o Papa, por outro lado. O padre-mestre Miguel do Sacramento Lopes Gama foi um desses mestres de bom-senso e de amor a tradicao, 26 Embora as vezes com seus excessos de panfletério, em face dos problemas essenciais do Brasil e da Igreja, foi bom padre — bom no sentido ortodoxo — e bom brasi- leiro. Dificilmente se encontrard brasileiro que tenha feito da defesa da tradicéo e do bom-senso causa tao chesterto- hiamente romantica e ao mesmo tempo tao pratica, rea- lista, dtil, © Prof. Olfvio Montenegro promete-nos um estudo demorado sobre o autor dO Carapuceiro, de quem acaba de ler um quase desconhecido tratado sobre a elogiéncia. E bom que apareca este estudo de histéria e critica litera- ria, Berm o merece o P.® Lopes Gama, conhecido também por Padre Carapuceiro por causa do nome do jornal que por alguns anos publicou em Pernambuco. Filho de médico, Miguel do Sacramento Lopes Gama nasceu na dltima fase do perfodo colonial. Mais exatiddo: nasceu no ano de 1791. O pai formara-se em Medicina em Coimbra, Chama- va-se Jogo Lopes Cardoso Machado e parece que tudo que escreveu foi sobre Medicina. O ano do nascimento de Miguel foi'um ano terrivel para a Provincia do Ceara; apareceram febres das entéo. chamadas miasmaticas com um furor que causOu muito susto e fez que se rezassem muito Sentor Deus, Misericér- dia. A pedido do governador daquela provincia, Lufs da Mota Feo e Torres, o de Pernambuco enviou para l4 uma comissio de médicos da qual fez parte o Dr, Jodo, pai do futuro padre-mestre Miguel e residente na cidade do Re- cife, Parece que por gosto da mae, de quem tomou o no- me — D. Ana Bernarda do Sacramento Lopes Gama — Miguel foi estudar para frade. Frade beneditino, Concluiu 0 noviciado na Bahia e 1a recebeu ordens sacras, Comecou 27 logo a ensinar. Voltando a Pernambuco foi designado para ensinar Retérica no Seminario e depois no Colégio das Artes. Ali ensinou longo tempo, Jubilou-se em 1838. Nesse ano, por ter de sustentar a familia, pediu e obteve secula- rizacdo, Foi entZo nomeado professor de Eloquéncia Na- cional ¢ Literatura no Liceu do Recife e no Almanaque Civil e Eclesidstico Para 1845 (M. F. de Faria), se encontra ‘© seu nome como diretor do Curso Jurfdico de Olinda: “o Comendador Padre-Mestre Miguel do Sacramento Lopes Gama, Aterro da Boa Vista”. Foi ao Rio de Janeiro varias vezes como deputado e na Marmota Fluminense escreveu umas Cartas de critica de costumes, de “um provinciano ao compadre". Mas o que o celebrizou foi O Carapucerro, jornal de critica de costumes brasileiros publicado em Pernambuco, que foi, quanto & técnica, uma espécie de avé brasileiro dAs Farpas, com menos ciéncia, é certo, mas com igual humor e igual violéncia na critica e na caricatura. Um colaborador dO Jornal das Familias, que ainda conheceu pessoalmente o P.© Gama no seu sitio do Man- guinho, diz que af por 1849 ou 50, Lopes Gama era “uma das glérias literarias do Império e debaixo do pseudénimo de Carapuceiro merecia o conceito do escritor mais casti- gado e chistoso daquela quadra”, Conceito que caiu de- pressa para tornar-se o bom do padre uma figura que hoje sO um ou outro remexidor de papéis velhos ¢ livros esque- cidos conhece e admira. Aquele seu sitio do Manguinho, Lopes Gama — que chefiara na Faculdade de Olinda a reac&o contra Betham e Hobbes, traduzindo do francés ensaios filoséficos em sen- tido aposto ao dos pensadores ingleses — gostava de con- vidar estudantes do Curso Juridico, recebendo-os entre seus livros e expandindo a vontade seu talento de conver- 28 sador um tanto sem papas na lingua, Tanto que Ihes atri- buem até ditos meio obscenas sobre o padre Dr. Barreto, “absalutista’’ conhecide por Dowtorzinho, Mas ndo eram s6 visitas. Diz a tradicéo que o P. Gama gostava de ter héspedes em casa. Mandava busca-los de cabriolé. Ficara-Ihe decerto dos beneditinos aquele jeito largo de senhores de engenho que esses fredes ganharam no Brasil, Dos beneditinos e das tradicées de familia. A casa do P.® Gama parece que estava quase sempre em festa, E provdvel que ele continuasse no Manguinho a tradicgo do ché com sequilhos da avo. Tradig¢ao que ele proprio recorda numa de suas paginas de louvador do tem- po ido: ché servido pela propria dona da casa “ao pé de uma banquinha, ja destinada para isso, e ali, debaixo de certas regras e compassos, fazia o cha, que os serventes iam distribuindo ao mesmo tempo que as torradas, os sequilhos @ os bolinhos’’. Entretanto, nfo era o P,© Gama um homem que se gastasse todo na vida de sociedade ou na arte da conversa, Como bom beneditino estudava e lia largamente. E tinha sua vida interior. O visitante do padre a quem ja nos referi- mos salienta © enorme oratorio de jacarandé com uma grande cruz negra por cima e uma lampada de prata ilumi- nando trés imagens de santos, que viu na casa do Mangui- nho, Af o panfletério rezava e fazia as suas devogGes, Que santos seriam 6 que nfo sabemos. O que é certo é que ndo perturbavam a jovialidade as vezes rabelaisiana do padre. Nem Ihe quebravam o ardor de panfletario com que mais de uma ocasido investiu contra os poderosos de sua as vezes “bestial provincia’, alguns deles contrabandis- tas de escravos e assassinos, Contrabandistas e assassinos cujos nomes ilustres ndo hesitou em publicar no seu famo- so O Sete de Setembro, jornal politico que dirigiu depois de sua “campanha alegre’ nO Carapuceiro. O P¢ IBIAPINA E SUAS MAES-SINHAS* Acabo de ler o livro que o escritor Celso Mariz escre- veu sobre o P.© Ibiapina, E um livro que revela ao brasilei- ro de hoje a capacidade de realizagio de um brasileiro extraordinario do século passado. Sozinho e em luta aspera com obstdculos de toda a espécie, Ibiapina levantou nos sertées do Nordeste, entre mandacarus e chiquechiques, uma admiravel organizagdo cristd de assisténcia social ao sertanejo, de educacdo do- méstica e industrial da mulher do interior, de amparo a Orfaos & a doentes, de combate as secas e ao cangaceiris- mo, 45 supersticGes e 4s pestes. Que de tudo cuidou o bra- vo missionaério, em quem as virtudes de cearense se aguca- ram em virtudes de santo, sem que nessa diffcil sublimaggo se perdesse a capacidade pratica de organizar, de adminis- trar, de desenvolver industrias tao caracteristicas dos ho- mens do Ceara, Noutro pafs cristéo a obra do P.® Ibiapina — suas boas e santas “Casas de Caridade” — seria hoje uma forga organizada a servico da Igreja e da obra de civilizac&o cris- ta dos sertées, Seria uma forga organizada semelhante 4 dos salesianos, $6 a nossa imprevidéncia de mestic¢os ain- da indecisos e desconfiades dos nossos valores mais inti- mos deixaria desconjuntar-se a formidavel organiza¢do do padre cearense, notdvel como obra indistintamente crista e notavel camo realizagdo arrojadamente cristd de brasi- leiros. E como tal, impregnada do melhor e do mais sau- davel dos brasileirismos. “Reproduzide de A Manhd (Rio de Janeiro) de G nov, 1942 @ do Disrio oe Pernambuco de 11 jun, 1942, ande o segundo artigo salu sob 0 titulo “O axemplo de Ibiapina’, 30 Chega a nos comover o nome docemente brasileiro por que se tornaram conhecidas algumas superioras das comunidades de religiosas fundadas por lbiapina: Maes- sinhds. E essas M&es-sinhds davam as casas de caridade um brando rumor de casas-grandes de familia, ensinando as orfazinhas a cozinhar, a fiar, a tecer e tingir o algodéo, a tratar de doentes, a plantar sementes em tempo certo, a fazer chapéu de palha e rede, a ler, a escrever, a rezar 0 Padre-Nosso, a cantar as ladainhas em bom portugués, sem trocar os rr pelos //. Pois quase todas as Mdes-sinhds eram senhoras de familias ilustres que, tocadas pelos apelos e pelo exemplo do grande missionario, se dedicavam ao ser- vico de Deus e do proximo, A propria arquitetura das casas de caridade tinha algu- ma coisa de arquitetura doméstica que Ihes adogava os frontées aos olhos das meninas é das mocas confiadas aos cuidados das Mées-sinhds; alguma coisa que as torna sim: paticamente brasileiras aos olhos do observador de hoje que, em viagem pelos sertées do Nordeste, ainda surpreen- de alguma de pé: alguma das que tiveram a felicidade de ser aproveitadas para colégio ou escola por algum bispo ou vi- gario mais esclarecido, Porque a maioria delas — eram de- zoito ou vinte — no existe mais; esfacelaram-se, sds & abandonadas; tornaram-se casardes mal-assombrados. E faz pena contrastarmos esse abandono tristonho de hoje com o carinho vigilante de Ibiapina por todas as suas “casas”, Por todas as suas ‘casas brasileiras” espalhadas pelos sertdes do. Piaui, Ceara, Rio Grande do Norte, Paraiba, Pernambuco, Casas brasileiras de Sao José, que era o santo de todas. Bra- sileiras e, aa mesmo tempo, substancialmente cristas. Quando o apdstelo se delicia, numa de suas cartas agora publicadas pelo Sr. Celso Mariz, com o zelo de certa Mge-sinhd que reformara ¢ pintara de novo a casa sob o seu cuidado, ndo esquece de regozijar-se com as cores vivamen- te brasileiras, liricamente brasileiras, da pintura nova: “Nao at |he esqueceu a bela cor amarela com bom azul na frente do edificio”. Era cristo e era brasileiro, 0 bravo missionario fundador das “‘Casas de Caridade’’. Nao seria possivel restaurarmos hoje, com organiza gdo moderna, as velhas “Casas de Caridade”, para que se rea- tasse a obra de cristianizacio dos sert6es sem prejulzo de sua integridade brasileira, realizada por Ibiapina e por suas Mées-sinhds — hoje que no podemos confiar, sendo des- confiando, em grande namero dos missiondrios estrangei- ros, catolicos e protestantes, espalhados pelo interior do Brasil? Ainda sob a impressdo do livro que o Sr. Celso Mariz acaba de dedicar 4 boa figura cearense de padre e de educa- dor que foi Ibiapina, leio a circular em que o Cap, Severino Sombra — também cearense — convoca brasileiros “repre- sentatives na ciéncia, nas letras, no clero, no magistério, na administragdo publica, no comércio, na industria etc.” para o esforgo de “mobilizagdo total da Nagdo", cuja necessida- de julgo ter sido um dos primeiros a proclamar. A mobili- zacao dos “recursos e valores de cultura que nos sdo carac- teristicos’’ ao lado da mobilizac3o simplesmente militar, industrial, econémica, é idéia que defendo desde 1940. De modo que sé posso aplaudir agora a iniciativa do Cap, Se- verino Sombra, justificada nestas nftidas palavras: “A estratégia total de guerra moderna é (.. .) a conjugagao das diferentes estratégias — militar, econOmica, financeira, po- Iitica, diplomatica, intelectual, moral — que precisam ser estudadas, planejadas e conduzidas harmoniasamente. A envergadura da tarefa ultrapassa, pois, os limites profissio- nais dos militares, para interessar a todos os homens de responsabilidade na vida nacional, seja qual for a sua moda- lidade de agao"’. No momento em que nos preparamos para harmoni- zar valores e aproveitar energias que precisam de estar co- ordenados no interesse da nossa condi¢ao de povo mestico 32 com pretenses a livre, exemplos como o do P.£ Ibiapina — que sozinho fundou e organizou vinte casas de caridade nos sertGes do Nordeste — se imp&em aos brasileiros como grandes valores morais. Valores morais acima dos préprios recursos materiais julgados indispensaveis 4 defesa e ao aperfeicoamento da nossa personalidade nacional. Ibiapina foi realmente isto; uma enorme forga moral a servico da Igreja e do Brasil. Foi um D, Bosco a quem sé faltou maior espirito de cooperacao da parte dos catélicos e da parte dos brasileiros do seu tempo, para a sua obra perpetuar-se numa organizac3o semelhante a dos salesianos voltada com especial ternura para a educacio industrial da gente dos sertOes. Organizagdo que nos dias decisivos em que vamos nos empenhar em formidavel esforco de “mobi- lizagao total”, nos faz uma falta tremenda. Nunca o Brasil precisou tanto como hoje de padres que, ao ideal universalista de catdlicos, 4 larga simpatia hu- mana de cristdos, rednam, como Ibiapina reunia, a autenti- cidade de sua condi¢do, do seu sentimento e das suas preo- cupagdes de brasileiros, Nao que devamos desgjar o catoli- cismo fragmentado em seitas to numerosas quanto as re- publicas, para o seu clero e a sua doutrina corresponderem mesquinha e@ burocraticamente 4 contianca dos nacionalis- mos exaltados de hoje, De modo nenhum. Mas, por outro lado, o tempo é de nao nos entregar- mos a confiancas absolutas sempre que se trate da educa- ¢ao do menino brasileiro, da sua formacao moral e intelec- tual nas escolas, nos colégios, nas organizacGes de escotis- mo, tao faceis de se tornarem fogos de antibrasileirismo sob a orientacdo de falsos religiosos. De religiosos que sob os habitos de “franciscanos’’, de “‘jesuitas’’, de “benediti- nos”, tragam o corpo misticamente grudado a camisas po- Ifticas, a votas de propaganda no da Fé uma vez entregue aos santos, mas de doutrinas ferozmente etnocéntricas: anticristas e antibrasileiras, Conhego um Estado do Norte onde até o outro dia os escoteiros eram dirigidos por um religioso que nunca fez mistério do seu entusiasmo transocednico pela patria de origem ¢ pela mistica de superioridade de raca que tem ali © seu Tibete, Durante largos anos esse nérdico fantasiado de “bene- ditino’’ esteve a frente da formacao moral e cfvica de numeroso grupo de meninos e adolescentes brasileiros. Meninos € adolescentes brasileiros continuam, em varios Estados do Brasil, sob influéncias igu de indivfduos fantasiados de “jesuftas”, “‘beneditinos”, ‘franciscanos’’, de “‘professores de alemao", de “‘mestres’’ disso ou daquilo, mas devotos, quando ngo agentes, de doutrinas violenta- mente antibrasileiras e antidemocraticas. No exagero, Cada palavra que acabo de escrever baseia-se em conheci- mento de fatos que estdo a pedir, nesses Estados, provi- déncias tao sérias e vigorosas como as que vém sendo tomadas em Santa Catarina, no Estado do Rio, no Rio Grande do Sul; e ultimamente na Bahia, Paraiba, Alagoas, So Paulo, Parana, Contra essas mistificagdes do offcio de missiondrio, do ministério crist&o, do magistério publico e particular é que me parece oportuno opor o exemplo de Ibiapina, Do Ibiapina que fez quest&o de juntar ao nome de Maria um nome indigena; e que foi to brasileiro na alma, na a¢do, nas idéias quanto no nome de Indio e no sangue de mestico, N&o me venham com a pagina célebre de Carlos de Laet em defesa do frade estrangeiro. Em circunstancias normais, tudo o que af se diz é admiravelmente sensato e magnificamente cristdo. Nem a |greja de Cristo pode deixar balcanizar-se por édios de nacdo contra nacSo, de raga contra raga, de classe contra classe, Mas numa época em que os 6dios polfticos e os orgu- Ihos de raga sobrepGem-se a tude mais, quebrando até em religiosos a fidelidade aos ideais cristaos de fraternidade 34 humana, os povos, como o brasileiro, cuja organizago in- teira descansa sobre a mesti¢agem, sobre os direitos do pre- to, do indigena, do mesti¢o aos mesmos privilégios do branco, precisam de estar vigilantes. T3o vigilantes como outrora Ibiapina, o cearense que foi ao mesmo tempo pa- dre fiel 4 Igreja e brasileiro sinceramente preocupado com o futuro do Brasil. UM HOMEM QUE “SEGUIU JESUS”: ORLANDO DANTAS* Nao sei se devo recordar as circunstancias em que co- nheci no Recife esse admiravel Orlando Dantas que acaba de falecer no Rio, ainda mogo e em pleno prest{gio: 4 fren- te de uma grande empresa jornalistica que foi toda cons- trugZo sua, E & qual ele comunicou seu puritanismo mili- tante de cristao de fato & ndo apenas de nome. Conheci Orlando, ele homem ja feito mas desorien- tado na vida. Sem forga de vontade. Sem animo, Sem fé em coisa alguma. Doente por falta de fé, Eu, menino de dezesseis para dezessete anos, pretendendo orientar ho- mens feitos com um evangelismo de Exército de Salvagdo a0 qual acrescentava um socialismo romantico que poderia ser facilmente considerado comunismo. Cornunismo cris- téo. Tolstoiano. Daf meu empenho em procurar encontrar valores entre a gente do Recife, mais degradada pela misé- ria e pelo vicio, Ou mais devastada pela duvida, pela falta de animo, pela propria vontade de suicidio, Lembro-me de que um dia falei desse cristianismo socialista — cristianismo que eu, romantico de dezesseis “Reproduzida do Didrio de Pernambuco de 8 fev, 1953. 35 anos, imaginava poder desenvolver-se numa grande forca sem clero e até sem igreja — a um piblico que era o mais heterogéneo dos publicos. Bacharéis, doutores em Medi- cina, operarios, mendigos, prostitutas, os filhos de um funileiro pobre que morrera quase nos meus bracos de menine timido, deitando sangue de tfsico pela boca, nu- ma velha bacia, E dentro da técnica de Booth, que me parecia entdo — @ me parece ainda hoje — uma figura extraordindria de Tolstoi, que em vez de simplesmente escrever novelas so- ciais, como o russo, vivesse essas novelas, alterando o des- tino de personagens vivos, de gente de verdade, de homens @ mulheres de carne, eu terminei o discurso, dizendo: “Agora, quem quer seguir Jesus? Quem quiser seguir Jesus, venha apertar-me a mo’. Um colegial timido é que falava assim. Um colegial, talvez pedante, que lia os Evangelhos em grego, Dickens em inglés, Tolstoi e Pascal em francés. Que colecionava palavras latinas como outros coleciona- vam selos, Vieram mendigos, Vieram prostitutas. Vieram estu- dantes. Vieram doutores. Vieram operdrios. Tudo gente mais velha do qué eu, qué era um simples, embora alitera- tado, menino de dezesseis anos. Veio Mariano Costa. Veio @ Dr. Vicente Costa. Veio o Dr, Cristiano Cordeiro. Veio um rapaz que depois me disse chamar-se Orlando Dantas e ser do Rio Grande do Norte. Desde entao ficamos amigos. Passou minha fase de cristianismo romanticamente evangélico; durou menos de dois anos, Mas em Orlando Dantas, a memoria daquela decisdo de "seguir Jesus’ dura- ria a vida inteira, Triunfaria ele no jornalismo, na ind&stria de publicidade, na vida pUblica, fiel 4 decisio de ‘'sequir Jesus" na sua ética, que foi sempre a de um homem cris- tamente de bem, Mais de uma vez, nos nossos encontros no Rio, recordou-me ele aquele momento romantico no Recife em que, provinciano desorientado, homem em crise 6 de vontade, moco sem rumo na vida, decidira “seguir Je- sus’, tocado pela voz de um colegial de dezesseis anos. Seguiu Jesus. Nao convencionalmente mas no fnti- mo: de coragaéo. Tendo sempre o essencial da ética crista como © essencial do seu comportamento num meio turvo como o Rio desde o fim da Primeira Grande Guerra. Um Rio onde os triunfadores tantas vezes sO triunfam a custa do préximo: enganando, mistificando, traindo o préximo. Ganhando o mundo mas perdéndo a alma, Ele foi homem sempre integra no seu modo de ser diretor e proprietario de jornal, Deve ter errado com suas intransigéncias e suas asperezas; mas sempré de boa fé. Sempre limpo é claro nas suas atitudes, nos seus métodos, nos seus processos, SANTOS E HOMENS* Num ensaio publicado ha anos, procurei mostrar a importancia dos santos na vida portuguesa de familia e de campo, e também na brasileira, principalmente nos gran- des dias patriarcais: uma importancia que nunca importou nos santos serem considerados figuras duramente majes- tosas, mas, a0 contrario, verdadeiros mediadores entre Deus e os homens agricultores ou entre Deus e as familias, Principalmante as familias rurais. © assunto @ versado em ensaio publicado depois do meu, que é de 1933, por um pesquisador inglés enamorado das coisas portuguesas: o Sr. Rodney Gallop, no seu Portu- gal, a Book of Folk-Ways. Trata-se de um livro escrito com a maior das simpatias pela gente portuguesa; mas com essa simpatia que nao exclui o critério cientifico — no caso *Reproduzidos do Jornal do Brasit o¢ 9 set. ¢ 29 set, 1954, a7 0 do folclorista — numa combinacdo que é 0 encanta de tantos ensaios de ingleses sobre a vida, a arte ou a cultura de outros povos. Recorda o Sr. Rodney Gallop que na Peninsula Ibé- rica dos dias pag&os as populacdes dedicavam particular devocdo 4 Terra-Mae, através de um ritual, em esséncia falico, que tomou a forma de culto de pedras e rochedos, Desse culto encontram-se hoje vestigios ou reminiscéncias cruas ou sob formas ou aparéncias crist&s, constituindo, entdo, casos de “transculturagdo", como diria o Prof, Fer- nando Ortiz; ou aculturagdo, como diriam os antropologis- tas sociais norte-americanos. Daf as muitas Nossas Senho- ras da Rocha, da Penha, do Penedo, da Serra, da Lapa, or- dinariamente adoradas em algum rochedo ou perto de al- guma gruta, outrora habitada, entre os portugueses, por Moura ou por Mouras Encantadas, 0 Sr. Rodney Gallop da especial importaéncia aos cultos portugueses de N. Sra. da Satide, da Penha Longa, do Senhor de Belas, de N. Sra. do Socorro, N. Sra. do Castelo — todas ligacas ao culto de pe dras ou penhascos, enquanto a imagem de N. Sra. do Anti- me, em Fafe, no Minho — cuja romaria é conhecida como a da “Senhora do Sol’ — ndo é sendo uma pedra a que foi tudemente dada forma humana. No Brasil sfo igualmente numerosas as Nossas Senho- ras ligadas a pedras, a penhascos ou grutas, como ada La- pa, no Rio, e a da area do Sdo Francisco e as de varias gru- tas espalhadas pelo Pais inteiro, Numerosas sdo também no Brasil, como em Portugal, as Nossas Senhoras associadas a fontes e pogos — outrora habitados, segundo a crenca popular, por espfritos tutelares, mouras encantadas ou maes-d'agua — como as portuguesas de Atalaia, no Ribate- jo, e da Piedade, perto de Lamego, citadas pelo observador inglés no seu interessante ensaio, e a brasileira de N. Sra. da Satide do Pogo da Panela (Pernambuco), desde o século XVII adorada em lugar célebre pelas suas aguas, Essas 38 Aguas passaram a ser procuradas para banhos por doentes @ pessoas fracas da Capitania. ‘Com 6 tempo, tornou-se o Poco da Panela lugar ele- gante de passamento de festa acompanhado de banhos de rio, e, depois, de residéncia, de gente ilustre, tendo ai exis- tido, entre sobrados e casarGes ainda de pé, o sobrado habi- tado por José Mariano e D. Olegaria Carneiro da Cunha. José Mariano foi por algum tempo, para a populacao pobre do Recife, uma espécie de santo civico, que completasse a 8 famosa N. Sra. da Satde em sua obra mistica de prote- 80 dos desgragados. O Sr. Rodney Gallop refere-se, também, ao culto por- tugués de N. Sra. de Fatima que, segundo ele, j4 se tornou © equivalente portugués do culto francés de Lourdes, tais @$ curas consideradas milagrosas atribuidas a santa lusita- na, Os jesuttas portugueses, expulsos do seu pais pela Re- volugao Republicana, trouxeram esse culto para o norte do Brasil, onde, entretanto, parece ter N. Sra, de Fatima perdido sua associacdo com a paisagem rural. Urbanizou- se. Alias, no proprio Portugal vem o culto de Fatima per- dendo seu encanto rural e urbanizando-se. Escreve o Sr. Rodney Gallop que o homem do cam- po portugués é incapaz de conceber seus santos sem as vir- tudes e os defeitos humanos — o que se observa também no Brasil, E assim que §. Pedro de Rates tem a reputacio de ser vingativo, no Minho: ninguém deve trabalhar no seu dia, sob pena de ser vitima de vingancas do santo. O folclorista britanico destaca as “‘esferas de influén- cia’ dos varios santos em Portugal: Sto. Ant&o, por exem- plo, € o patrono do gado, como Sto. Anténio é patrono dos porcas. Sto. Antdo ¢ patrono de bois e vacas. Tanto que certa vez, tendo um padre e uns bois cafdo num pre- cipfcio perto de Tabua, o santo salvou os bois, porém nao Q padre, naturalmente porque o sacerdote escapava a sua esfera de influéncia; S. Frutuoso e S. Romao protegem os 39 seus devotos contra os cdes danados; S. Gil livra os seus dos naufragios e das cobras; S. Marcal age contra os incéndios; §. Dionisio, contra os terremotos; 5, Louren¢o e Sta. Bar- bara, contra raios, trovdes e tempestades, Deve-se notar que no Brasil € muito vivo o culto de S. Bento — e nao S. Gil — contra as cobras, havendo, como em Portugal, a devocao de Sta. Barbara (contra as tempes- tades), a de Sta, Luzia e S, Longuinhos (cegueira e doencas dos olhos}, a de Sto, Ovidio (ouvidos), a de S, Bras (gar- ganta). Quanto a Sto, Anténio e §, Goncalo, tém no Brasil © mesmo prestigio que em Portugal como santos casamen- teiros, sendo Sto. Antonio casamenteiro das mocas 2 5. Goncalo (do Amarante) das velhas, O observador britanico recorda, também, os castigos impostos a santos, em Portugal, quando deixam de aten- der promessas: serem postos contra as paredes, da mesmo modo que as criancas desobedientes; serem deitados em lugares onde sua situagao seria desagradavel se fossem ho- mens e nao imagens; serem insultados em publico; serem apedrejados; serem mergulhados em algum pogo ou poca dagua (castigo aos santos que deixam de fazer chover: “esfera de influéncia’, em Portugal, principalmente de S. Miguel: no Brasil, principalmente de Sta. Clara), Em certas regiGes de Portugal (Aveiro), escreve o Sr. Rodney Gallop que a imagem de S. Paio é alegremente mergulhada em vinho, em certa festa celebrada todos os anos, O vinho em que o santo é banhado, bebem-no depois as mu- Iheres, Camo diz Luiz d’Oliveira Guimaraes, citado pelo Sr. Rodney Gallop a propdsito dessa confraternizagao dos homens com os santos em Portugal (confraternizagdo que mais dé uma vez tem sido apontada como marca do cris- tianismo lirico, doméstico, festive, ja observado por Una- muno e outros estrangeiros em Portugal, e que se desenvol- veu, no Brasil, de tradi¢des ou estilos portugueses), a gente 40 do povo ou “trata um grande homem com familiaridade, chamando-o Tu, ou nao sabe quem ele 4”, E 0 que faz a gente do povo, no Brasil, com seus santos de estimacdo: trata-os com familiaridade, Liga-os aos seus doces, a0s seus namoros, as suas comidas, as suas festas mais alegres, como ado vinho, aos seus bois, aos seus porcos, ds suas lavouras. Desse aspecto das relacGes entre homens e santos em Portugal e no Brasil, ha anos que venho me ocupande em tentativas de interpretag3o ou de sintese sociologica dos fatos mais caracteristicos da formagdo brasileira. Fatos que sfo, tantas vezes, ndo os mais ostensivos, porém os mais in- timos, os mais domésticos, os mais escondidos da vista dos observadores. De modo que é um prazer encontrar um mo- derno pesquisador estrangeiro da importancia do Sr. Rod- ney Gallop que sé volta para as relagSes entre homens e santos em Portugal, com um carinho especial, @ procura in- terpreta-las com verdadeiro critério sociolégica. Alias, pre- cederam-no, com relacdo as observa¢Ges de “devocdes” no Brasil, 0 norte-americano Eubank, que aqui esteve no mea- do do século passado, e, em Portugal, o autor (A.P.D.G.) de Sketches of Portuguese Life, Manners etc, (1826), Mas estes apenas recolheram ou juntaram fatos interessantes. A tentativa de interpretacdo desses fatos 4 recente e vem iluminando muito aspecto curioso de carater lusitano e do ethos brasileiro. UM MUNDO NECESSITADO DE PROFETAS* Para 9 grande rabino Israel Goldstein — uma das maiores figuras modernas de lider religioso — n&o sdo os *Reproduzide de O Cruzeiro (Rio de Jangiro} 13 ago. 1960, p. 106. 41 homens de valor investidos de funcées oficiais que thes li- mitem a independéncia e |hes diminuam as vezes a propria autoridade moral, os mais capazes de concorrer hoje para a Paz entre Os povos e a harmonia entre as nagdes, E sim os homens de valor que nao se achem comprometidos de ma- neira t8o efetiva e de forma téo permanente com os seus governos, ou com os seus Estados-nacdes, Os homens que, a0 valor intelectual e moral, juntem a virtude, hoje rara, da independéncia, Dai o esforco em que se acha atualmente empenhado, com o seu alto prestigio de grande rabino e @ sua autoridade de intelectual ilustre: o da organizagao de uma academia ou colégio — colégio constitu{de por uma nova espécie de cardeais — que retina, dentre figuras re- presentativas das varias civilizagdes modernas, do Ociden- te e do Oriente, vinte ou vinte e cinco indivfduos notaveis pela inteligéncia e pelo saber, que se distingam também pela sua independéncia, pelo carater, pela conduta. Que possam se exprimir com independéncia — sem atender a conveniéncias oficiais ou a interesses de governos — sobre problemas de relacdes internacionais, influindo sobre a solug3o desses problemas ho sentido de serem solugdes Sticas e ndo apenas “‘politicas’’ no sentido convencional de “politicas’’, A idéia @ extremamente simpdtica a0 mesmo tempo que extremamente avangada. Audaciosa, até. Sera que tal grupo de homens, altamente representativos da moderna cultura universal, tal como ela se manifesta tanto no Orien- te como no Ocidente, reunidos, ¢ exprimindo-se com intei- ra independéncia sobre aqueles problemas, conseguiria influir sobre governos, Estados-nacdes e povos no sentido das relapdes éticas a que se refere o grande rabino? ‘Trata-se da iniciativa de homem conhecido no mundo inteiro pelo seu maduro saber e respeitado pela sua sabedo- ria de mestre de mestres, quer entre os israelitas, quer entre cristéos, Nao estamos diante do rompante de um intelec- 42 tual leviano ou do fmpeto de um pacifista apenas retdorico ou somente sentimental. E uma idéia, a lan¢ada pelo rabino Goldstein, que verm merecendo de outros Ifderes nacionais ¢ internacio- nais, por ele ja ouvidos, a melhor das atengdes. A maior das simpatias. E talvez seja, com efeito, 0 que se possa hoje realizar de mais atuante no sentido de um pacifismo que se eleve dos meios apenas politicos, diploméaticos, oficiais, para, noutro plano e com outras perspectivas, esclarecer problemas impossiveis de ser esclarecidos naqueles meios. Seriam esclarecidos, nesse outre plano, pela palavrade gran- des homens de pensamento e de saber, em cujas virtudes, integridade| independéncia, os demais homens confiassem mais do que nos politices, nos diplomatas, nos prdoprios estadistas sobrecarregados de compromissos com seus Estados-nacdes. Para o projetado colégio de uma nova espécie de car- deais, o rabino Goldstein propGe, de in{cio, grandes nomes do Ocidente: Bertrand Russell, Albert Schweitzer, Reinhold Niebuhr, Jacques Maritain, Noel Baker, a vidva F. D. Roosevelt, Arnold Toynbee. Inclui um nome de brasilei- ro — o Gnico latino-americano, alias, na sua lista — sub- linhando que é 0 nome de um brasileiro a quem no falta a condi¢ao essencial de independéncia. Condicdo que ca- racteriza aqueles saébios ja amadurecidos pelo tempo e de virtudes ja proclamadas, e de servicos 4 paz reconhecides pelos proprios contemporaneos — embora nenhum deles seja homem de Estado, politico ou diplomata. Uma condi¢ao essencial 4 atuagdo prestigiosa desses homens — e decorrente, alids, da sua independéncia basi- ca — seria a sua qualidade de cidadaos do mundo e nao apenas de suas republicas e de seus reinos particulares. Qualidade neles ja afirmada pelo seu comportamento, pelas suas idéias, pelo seu trabalho, e nao apenas pelas 43 suas palavras ou pela sua retérica de internacionalistas sO de boca, O novo colégio seria, num mundo hoje sem profe- tas — pensa o rabino Goldstein — uma espécie de “voz coletiva da profecia’’. Constitufdo por estadistas revesti- dos aos olhos da melhor opinigo mundial de uma autori- dade que de ordindério vem faltando aos outros estadis- tas — a autoridade moral — essa autoridade moral ndo Ihes faltaria. Nem ela nem o prestigio intelectual. PAI ADAO, BABALORIXA ORTODOXO* A Africa esté em foco. E nés, brasileiros, deveros nos lembrar das nossas muitas relagGes com a gente africana, Paul Marty, em seus Etudes sur islam au Dahomey (Paris, 1926), refere-se a presenga, na costa da Africa Ocidental, de mestigas conhecidos, segundo ele, por Créoles Portu- gais ou plus exactement, Créales Brésiliens, dos quais es- crave, a pagina 16, que sont des familles d'origine brasilo- portugaise, dant les ancétres sont venus s‘établir au cours des trois derniers siécles, sur les cOtes du Golf de Benir. Aqui viriam se sucedendo en s’a/lant aux femmes indi- genes, Entre estes, encontravam-se, no século XIX, numero- sos muculmanos, descendentes de Yorubas e Haussds. Bati- zados por padres catdlicos, no Brasil, nado haviam, entre- tanto, se desprendido de todo dos ritos e das crengas mao- metanas, Mas jd no se sentiam berm entre os ortodoxos *Reproduzide de O Cruzeiro (Rio de Janeiro) de 4 fev, 1961, p. 17, on- de saiu com 0 titula “@ propdsite de um babslarixé afro-brasilelro”, 44 de Maomé, O cristianismo 4 brasileira marcara-os de modo no de todo superficial. Marca ainda mais forte sobre os animistas. Voltando 4 Africa, nem todos esses “brasileiros'’ se sentiriam felizes entre populagdes e no meio de culturas puramente africanas. Mas havia o incentivo econdmico a permanéncia de alguns desses insatisfeitos na Africa: af podiam ganhar fortunas, quase impossiveis no Brasil, co- mo intermediarios entre o Brasil — principalmente a Bahia — e a Africa. Tal o caso de certo Santos que, no tempo ainda da escraviddo, deixou a Bahia pela Africa, onde se tornou negociante opulento. Como que se sentia Santos na Afri- ca num posto de sacrificio. Era necessario que ele la con- tinuasse, como negociante, no interesse da sua fortuna e do seu prestigio afro-baiano; mas que sua mae, para quem sé voltavam seus melhores pensamentos de devoto de N. Sra, do Bonfim, ficasse na doce paz da Bahia, servida brasileiramente por mucamas. Era o que dizia em carta a mae ja baiana, Outros “repatriados’’ do Brasil para a Africa assim acabaram pensando com relacdo aos filhos: iam a Africa mas n&o se empenhavam em se acompanhar dos filhos. Preferiam que os filhos permanecessem no Brasil, Tal o caso, de que M. Pierre Verger se inteirou recentemente na Bahia, de Marcolino Assungao, ou Assumpe¢ao, descenden- te de africanos nascides no Rio de Janeiro, Indo a Bahia adolescente, ali se casou com uma Maximiliana. Partiu para a Africa, Tinha, ao que parece, o que os ingleses cha- mam the rowing spirits. Tornou-se agente, em Lagos, de rico negociante afro-baiano, Manuel Santana. E foi quem primeiro plantou algoddo em Abeokuta, retomando entdo © titulo dos seus antepassados Alakija. Burguesia comer- cial e feudalismo agrario, 45 Por volta de 1886 enviou 4 Bahia um dos seus filhos, afro-brasileiramente chamado Porfirio de Assumpcdo — ¢ ndo apenas Assun¢do. Queria que o filho africano se abra- sileirasse. Mas para voltar a Africa e abrasileirar africanos. Conheci (na verdade foi um dos meus melhores ami- gos) velho babalorixa nascido no Brasil que, tendo “volta- do” & Africa, nunca se integrou de tode em meio africano, embora af durante anos tivesse se aperfeigoado nos seus conhecimentos como que teolégicos; € feito muitas amiza- des. Refiro-me a Pai Addo: o grande babalorixa do Fundéo, subarea do Recife inconfundivelmente africandide, prole- téria e plebéia na sua composic¢ao étnica e na sua estrutura sécio-cultural; e onde o Sr, Jénio Quadros, em sua recente campanha eleitoral, fol considerado uma espécie de S. Jor. ge. Subarea na qual viveu Ado, de volta da Africa, a vida inteira, sem mudar sequer de casa — nem de casa nem de profissio — ao contraério de borboleteantes ioiés brancos que em tantas casas residiram na mesma época. Conheci de perto o velho babalorixa de quem fui, re- pito, amigo intimo. Mais de uma vez almocei 4 sua mesa de sacerdote que tinha a dignidade de um bispo. Quis escre- ver-Ihe a biografia de perfeito afro-brasileiro. Sua morte impediu a realizagdo, ou tentativa de realizacao, da biogra- fia planejada; e para a qual cheguei a tomar notas como que taquigréficas de conversas. Seria ela trabalho de cara- ter menos histérico-social que psicossocial, embora igual- mente socioldgico nas suas pretensdes. Seria menos hist6- rico-secial e mais antropoldgico-social por ter de basear-sé principalmente em documentos pessoais orais, colhidas da boca do préprio biografado e de seus filhos, parentes, amigos, colaboradores, inimigos, rivais. Tentativa no sentido de dar-se sentido, se nao socio- légico, antropolégico, a documentos pessoais. Tanto no caso do Cavalcanti desgarrado no Recife — que procurei estudar em introdugdo 4s Memérias de um Cavaleanti — 48 como no do babalorix4 reintegrado na mesma cidade de- pois de longa permanéncia na Africa. AGAO E CONTEMPLACAO DOS FRANCISCANOS* Ainda é um cénego ilustre — que me Perdoem os or- todoxos mais intolerantes da “esquerda” chamar um cone- go de “lustre” — quem me oferece assunto para artigo: Pois outra coisa ndo é sendo sugesto para um artigo de jornal a palavra que o Rev. P. F. atenciosamente me diri- ge, curioso de saber “o porqué" de minhas simpatias pelos “franciscanos” e pelo “franciscanismo’’, pelos quais S. Rev.™@ contessa, aliés, o mais “alto respeita e particular afeto’’”. Apenas estranha que um intelectual que admira a Igreja ndo se sinta atraido de preferéncia pelo fulgor dos beneditinos, dos dominicanos, dos jesustas, estes “brilhan- temente associados 4 colonizacio e a historia da América’, Nao pretendo de modo nenhum explicar aqui aquele “porqué”’, nem acredito que o conseguisse — sé o preten- desse —, t&o dificil é sempre a inteira explicagaéo de “‘por- qués” daquele génera complexo e relacionado com varios outros, Mas um ponto desejo salientar 4 margem da palavra erudita do cénego; n3o me Parece exata a idéia suméria de “Os dois artigos equi reunides foram publicadas no Jornal do Comercio (Recife) da G out, 1943 e 17 out. 1943, sob os titulas “A Propdsita de fran- clscanos" e “Ainds 3 propdsite de franciscanos”, respectivamente, Outros tra- balhos de Gilberto Frevre sabre franciscenos e franciscanismo podem ser en contrados em sua obra A propdsito de srades (Salvador, Agular & Souza, Livre- tla Progresso Editora, edigdo conjunts com 2 Universidede da Bahia, 1959. 190 p. Col, de Estudos Brasileiros, Série Marajoara, n° 23. 29 ‘ed., Salvador, Woiversiciade da Behia, 1959, 180 p. Publicacties da Universidade da Behie, n? 9), a7 inferioridade intelectual — que seria, alias, compensada por um conjunto magnifico de outras virtudes — dos francis- canos, Ao contrario. Eles esto ligados de modo luminoso 4 historia intelectual do cristianismo e da Teologia, ao pro- prio desenvolvimento cientifico, literario e artistico da ci- vilizago e da sociedade crista; ¢ de maneira toda particular, 4 obra cientifica da descoberta das Américas e aos primei- ros e mais bravos e dificeis esforcos de colonizagao desta parte do mundo. De Scoto se sabe — e ainda hé pouco o recordou 0 Sr. Armando Alvarez Pedroso, em excelente estudo sobre as relagdes de Colombo com as franciscanos, seus grandes protetores e talvez colaboradores cient{ficos — que foi “precursor de Leibniz, Newton € Copérnico”, E ndo so- mente isto: também guia e mestre de Dante; de Roger Bacon é de suas teorias de método experimental; de Rai- mundo Lulio e de sua teoria de fluxo e refluxo. Lulio foi, aliés, um dos varios homens de génio que pertenceram @ Ordem Terceira de S. Francisco; que receberam estimulo ou inspiracdo cristé para as suas criagdes filosdficas, cien- titicas, literarias ou artisticas, nao de ordens aparentemen- te mais sébias, mais eruditas, mais amigas das letras, mas da Ordem de $, Francisco. Pois terceiros de S. Francisco — recorda Alvarez Pe- droso no seu ensaio sobre Colombo — foram Dante, Lope de Vega, Calderon de la Barca; Miguel Angelo, Rafael, Mi- guel de Cervantes; e ndo apenas Colombo. Deste nos diz Alvarez Pedroso que /a estrecha union de Calén con los frailes franciscanos se basd en la similitud de creencias que fos unieron, no sélo en el campo religioso, sino en ef cientifico, As estreitas relagdes dos franciscanos, ndo 56 no cam- po religioso como no cient/fico, com os desbravadores das Américas, se estenderam aos dias péscolombianos. No Brasil, ninguém ignora que foram franciscanos os primei- 48 ros missionarios cristéos que enfrentaram os perigos.do mato aspero, das feras terr(veis do sertéo desconhecido, para falar, ao gentio, de Jesus e levar 4 gente amer{ndia o cristianismo, “Operarios da primeira hora na vinha incul- ta do Senhor no vasto Brasil’, chama-os Fr, Basilio Rower no seu recente livro Paginas da Historia Franciscana no Brasil. A obra franciscana no Brasil foi herdica, E do pon- to de vista dos métodos de colonizacdo talvez tenha sido a orientagado franciscana na América — 9 aproveitamento, pelos frades, da habilidade manual dos indfgenas, o respei- to as preferéncias da maioria de indigenas para viverem nos sertées, a conciliacdo tanto quanto possivel das doutri- nas e praticas cristés com o gosto dos mesmos amerindios pela liberdade e pela vida em grupo — a orientacdo mais inteligente, ao mesmo tempo que a mais crista. O referido Fr. Basilio Rower recorda, no seu livro, expressive documento do século XVII publicado pelo his- toriador Alberto Lamego: uma informacdo que o Gen, Salvador Correia deu naquela 6poca ao Conselho Ultrama- rino sobre a catequese dos indios e na qual recomenda como ponto essencial, seguir-se a sugestdo dos franciscanos de se fundarem “'missGes pelo sertéo para os (ndios que n@o quisessem voluntariamente vir para o mar’, provando em seguida as vantagens desse sistema: “‘liberdade dos indios, povoamento do interior, seguranga para os mora- dores e intercambio comercial com as Indias de Castela’’. E certo que da obra realizada pelos franciscanos nas Américas ndo nos resta hoje documenta¢ao tio abundan- te como a que se refere ao esforco de outras ordens. A esse respeito, Fr. Basflio Rower néo hesita em transcrever a frase que hé anos escrevi sobre esses missionarios um tan- to boémios, tal o seu descuido pelo registro dos seus feitos: “Os franciscanos escreveram seus feitos na areia.. .". Mas na historia que se principia a escrever da colonizacdo das Américas sob critério mais amplo que o antigo — sob cri- 49 tério novo, em que a interpretacao ativamente psicoldgica e sociolégics dos fatos vem quebrar a passividade mucul- mana de “esta escrito’, dando importancia crescente aos problemas de “escrito por quem?", “escrito sob que cir- cunsténcia?’”, “escrito contra que evidancias de outra espécie?’’ — sou dos qué pensam que o esforco franciscano na colonizacao do Brasil resultara engrandecido, Engrande- cido pela procura honesta da verdade, antes turvada pelo excesso de documentos — documentos escritos — de um lado, que comprometida pela pobreza franciscana de do- cumentos — documentos escritos — do outro lado, A historia intelectual do cristianismo e da sociedade cristé sofreria diminuigao ou, pelo menos, deformacdo de elementos ou tracos essenciais se dela fosse possivel reti- rar a contribuicao franciscana. O sistema intelectual do cristianismo perderia o seu equilfbrio da tradi¢&o aristo- télica com a platénica, para tornar-se rit mente aristotélico. Pois quem diz platonismo cristo diz principalmente franciscanismo, Se da vida crista dizia Sto. Agostinho que era fei- ta de atividade e contemplacao (ex utroque genere compo- sita), do sistema intelectual crist&o poderd, talvez, dizer alguém o mesmo, considerando o referido sistema nos seus elementos historicamente intelectuais: é feito de “‘realis- mo” aristotélico e de “idealismo”’ ou ‘‘utopismo” platoni- co. E um lhe faria tanta falta quanto o outro. Tera o cristianismo figura que Ihe dé maior nobreza na historia intelectual do homem que Sto. Agostinho? Agostinho é mesmo considerado, como pensador e escri- tor, a mais alta inteligéncia que ja animou o cristianismo. Foi positivamente um génio. Sua obra intelectual de cria- dor ou transfigurador de valores ainda hoje nos espanta. Humanamente considerada, essa obra de criagdo lu- minosa e, ainda hoje, atual, se fez sobre esta base: a da assi- milagéo do platonismo pelo cristianismo ainda jovem. 50 igo desse encontro de forcas € que os franciscanos conservariam mais tarde, em suas atividades de misticos ¢ campedes da caridade evangélica alongados em mestres da mocidade, em guias de especulac&o filoséfica — e nao apenas teoldgica — ém amigos da pesquisa cientitica e nao apenas do devaneio Iirico. Ja Agostinho, safdo do platonismo para o cristianis- mo, tornara claro o seguinte: que ndo era inevitavel o an- tagonismo entre os elementos pessoal (ou espiritual), eo intelectual e institucional de vida ou da atividade crista. Elementos que nele — diz D, Cuthbert Butler num dos seus estudos admiraveis de teologia mistica — aparecem “triun- falmente conciliados"’, desmoralizando a idéia de que um vigoroso jogo de aptidées intelectuais torne impossfvel a “contemplagao mistica’, a pratica da caridade, a alegria do amor fraternal estendido até ao sacrificio do verdadei- ro cristéo pelos doentes, pelos leprosos, pelos miseraveis. Se a respeito de franciscanos se pode falar da “‘siste- matizacgo”, foi a Ordem de S. Francisco que primeiro “sistematizou’’ aquela conciliaggo de que Sto. Agostinho deixara o exemplo. Conciliac¢o de extremos que pareciam inconciliéveis aos olhos dos ldgicos e dos realistas. Conci liagGo do trabalho cotidiano ¢ terra-a-terra com a espiri tualidade, com o devaneio I[rico, com a especulagdo inte- lectual, com a “utopia” da fraternidade universal. Con- ciliagio do senso de deveres e responsabilidades sociais com um sentido quase boémio de liberdade pessoal e de movimento. Sabemos — e o P.® Butler o destaca em pagi- nas de extraordindrio vigor intelectual sobre Sto. Agosti- nho, $. Bernardo e $. Gregério — que a filosofia platonis- ta de Platino é que foi o instrumento de que habitualmen- te se serviu Agostinho para a expressdo de suas experién- cias de crist&o, nas quais se afirmaria a possibilidade de um intelectual da maior lucidez e da mais alta cultura gre- ga tornar-se homem da Igreja sem sacrificio de suas quali- 51 dades eminentemente intelectuais. Tornou-se m/stico, sem mesmo nos transes perder a capacidade de auto-ané| a mesma capacidade que revelaria Pascal, séculos depois de Agostinho, No desprezo franciscano por doutores convencionais, por académicos solenes, por légicos absolutos, por politi- cos exclusivamente realistas ¢ por homens préticos tam- bém, exclusivamente praticos, seria injustiga ver-se a ex- presséo da incapacidade de cristdos romanticamente mis- ticos para os jogos intelectuais mais dificeis e para as rea- lizacSes praticas mais dependentes do conhecimento da natureza humana & da realidade cotidiana. Parece que tal desprezo representa a constante ansia de conciliagdéo de extremos, talvez atingida melhor por Sto, Agostinho com sua formacdo platénica do que pelo grande Sto, Tomas, com seu rigido aristotelismo. Dos franciscanos, em geral, pode-se dizer o que de Lulio foi dito por um historiador da literatura crista da Idade Média: que sua vida foi a de um “cavaleiro errante de Jesus Cristo”. Fiel a um conjunto de fins e métedos que destacam o franciscanismo de qualquer outra corrente cris- 14, 0 franciscano tipico se salienta, entretanto, pela ausén- cia de rigidez; € essa auséncia de rigidez Ihe permite ser, em ponto pequeno, exemplo da conciliapéo de antagonismos atingida superior e magnificamente pelos Agostinhos. A técnica de “cavaleiro errante’’ dé ao franciscano o maximo de \iberdade de movimentos e de disponibilidade, contanto que essa liberdade ¢ essa disponibilidade nao o lever a ser- vir outro senhor sengo Jesus Cristo, Dé-lhe 4 acao roman- tismo, mas néo oportunismo; variedade, mas nao versa- tilidade, Ha quem diga desdenhosamente de tais “cavaleiros errantes'’ que tém sido uns “‘platénicos”. E € certo que sua atividade intelectual assenta sobre a assimilagao da filoso- fia platénica pelo cristianismo. Seria, entretanto, injusto 52 dizermos da atividade pratica dos franciscanos que tem si- do “platénica’’, no sentido vulgar de contrdria 4 realidade humana; humana é cotidiana. Nenhuma ordem crista esta mais em contato com o cotidiano. Nenhuma procurou fa- zer obra missionéria nas Américas mais genuinamente cris- té e mais de acordo com a natureza humana dos amerin- dios que a dos padres de S. Francisco. OS CARMELITAS NO BRASIL* Numa de suas vigorosas paginas sobre 0 Amazonas, Euclides da Cunha destaca “’o devotamento dos carmeli- tas” naquelas paragens. Os bons padres chegaram a zonas remotissimas do Brasil tropical com um desprezo pelos perigos que os coloca entre os maiores missionarios da América. Mas a aco dos carmelitas no Brasil nao foi 36 esse tra- balho formiddvel de campo: essa histéria escrita na areia e as vezes com agua como os versos do poeta romantico. Quem percorrer a histéria intelectual da América Portugue- sa encontrara, entre as grandes cabecas de eruditos e letra- dos na 4rea colonial e do Império, mais de uma coroa de frade do Carmo; entre as sobrecasacas de sabios e profes- sores de Ciéncias e de Filosofia, muito habito de carmelita. Fr, Leandro do Sacramento, Fr. Pedro de Santa Ma- riana, Fr. Carlos de Sdo José s8o apenas trés dos nomes se- raficos de carmelitas que concorreram para dar a histéria intelectual do Brasil do tempo colonial e do Império aque- “Infelizmeme, na recorts deste artiga nia fol indicads a fente mem a de- ta, Mas, a julgar pela publicagdo da série de apdsculos do haje P,° Romeu Perea, Os intelactua/s carmelitas luso-brasiielros, ela é.do ano de 1841. 53 le sabor de histéria eclesidstica destacado pelo Sr. Luiz Cedro na propria historia politica do nosso Pafs; ao estilo literario entre nds, estilo ou jeito de serm%o; a filosofia, gosto de apologética. Enquanto o nome de Fr. Joaquim do Amor Divino — outro carmelita — pertence menos 4 histéria de sua Ordem e da propria Igreja que a nossa his- téria polftica, marcada a vermelho de sangue pelo seu ci- vismo de revoluciondrio e de martir. Falei em historia escrita na areia. Nao é retérica. De grande parte da histéria missionaria dos franciscanos e dos carmelitas no Brasil, pode-se dizer exatamente isso: que foi escrita na areia. Enquanto os jesuftas juntaram sempre a admiravel organizacéo burocratica do que s40 mestres — inclusive seu maravilhoso aparelho de propagan- da néo sé da fé como das obras dos filhos da Companhia — a sua acdo missiondria, pedagdgica, literdéria e as vezes po- Iftica, os franciscanos e os carmelitas — para sO falar nes- ses — portaram-se, com relacio a posteridade, como uns boémios incautos e despreocupados. Nao registraram para os pésteros seus feitos admiraveis com a minticia, o esme- ro da caligrafia jesultica. Dessa sua boemia, nem sempre simpatica, resulta a pobreza de material histdrico organizado a respeito de duas ordens que, por conhecimento indireto, sabemos — to- dos os que lidamos com os fatos do passado brasileiro — terem desenvolvido entre nés uma atividade inconstante, irregular, romantica — em comparacdo com o método, a constancia, @ regularidade do esfor¢o dos jesuftas; mas com toda a inconstancia e a irregularidade, uma atividade fecunda, as vezes herdica e da qual nao se pode separar a histéria da gente e da cultura brasileira, Ainda hoje, franciscanos e carmelitas, no Brasil, por- tam-sé como uns boémios com relac¢So aos valores do seu passado. Um deles chegou a dizer-me uma vez que lhe pa- recia vaidade ostentar qualquer ordem religiosa as glérias 54 de sua histdria particular. Ostentar, talvez 0 seja; mas sim- plesmente juntar o material dessa historia me parece que & estrito dever. Trata-se, porém, de problema de ética — ou de estética religiosa — em que nao me atrevo a en- trar, O que sei é que 4 chamada vaidade de certos indiv/- duos devemos excelentes autobiografias puras ou disfar- Gadas em romances; ¢ 4 chamada vaidade de certas institui- ges, contribui¢des valiosas para a historia geral dos povos, Vaidade dessa espécie, eu gostaria de animar em pessoas ilustres como o Gen. Candido Rondon, cuja autebiografia viria enriquecer notavelmente a histéria do seu e¢ nosso Pals; e, pelo mesmo motivo, em instituicSes como a Ordem do Carmo no Brasil. Daj o interesse com que venho acompanhando a publicagdo da série de pequenos estudos biogrdficos — Os Intelectuais Carmelitas Luso-Brasileiros — escritos por um jovem e estudioso carmelita espanhol que se acha desde 1937 no Brasil: Fr. Romeu Peréa. A série principiou com a evocacao de uma figura um tanto distante de car- melita do século XVI, D. Fr. Amador Arraiz, Mas ja o dl- timo estudo publicado — o sexto da série — trata de pessoa muito nossa: Fr. Joaquim do Amor Divino, Fr, Caneca. O Fr. Caneca em quem tantos s6 enxergam o revolucioné- rio exaltado, o frade delirantemente liberal e exagerada- mente afrancesado, o religicso acusado de amores nem sempre divinos e de crengas nem sempre ortodoxamente catolicas. Fr, Romeu Peréa acredita serem tais acusagdes antes rumores do que fatos. E recorda da figura do padre recifense tragos geralmente esquecidos. Sua erudigao gre- ga e latina e nao apenas francesa e italiana, por exemplo. Sua concepeao austera de ciéncia, Os cargos de responsa- bilidade que lhe foram confiados na Provincia da Ordem a que pertenceu. Tragos que dao a figura de Fr. Caneca uma severidade mondstica que n&o Ihe é geralmente atribuida. Nem a ele nem a Ordem do Carmo no Brasil. 55 De qualquer maneira, 6 uma Ordem que tem dado ao nosso Pais numerosos homens de valor, Seria bom que Fr, Romeu Peréa alargasse sua iniciativa patica, incluin- do o estudo, mesmo ligeiro, de artistas e art(fices do Carmo na América Portuguesa, Desde Fr. Eusébio de Matos, pintor religioso do século XVII, que os carmelitas concorrem para o desenvolvimento das artes no Brasil, SANTO E GUERREIRO* Que dizer desse extraordinério Gustavo Coreao que o Brasil perdeu ha pouco? Que nele desapareceu um escritor até 4 véspera da morte em incessante e quase sempre com- bativa e de todo IUcida atividade é o que logo ocorre lem- brar, Um grande escritor brasileiro. Um romantico com todas as virtudes literdrias de um classico, Mas dizendo o que, diz-se pouco. Porque Gorgdo foi uma pessoa humana em que se reuniam um santo e um guerreiro. No seu modo de ser ve- ementemente religioso foi um escritor que escrevia |utan- do: lutando pela sua fé. Lutando contra os inimigos de sua fe. Convivi com ele no Conselho Federal de Cultura. No infcio de nossa amizade quis muito ver em mim um acaté- lice que em muita coisa fosse mais catélico que os catéli- cos convencionais. Tive mais dé uma vez que desencanta-lo a esse respeito. Ha em mim, com efeito, um enamorado do catolicismo, tocado pela estética do culto catélico. Marca- do desde menino nos olhos e nos ouvidos pela liturgia da missa: das missas que me fez ouvir — eu muito menino — *Artige publicado na Folhe de § Paula da 25 set, 1978. uma avé catolicissima: desejava que eu me tornasse padre Mas tudo isso sem que tivesse me integrade no catolicismo: na sua teologia e na sua moral. Néo me integrei. Nao per- tenga a nenhuma Igreja, a nenhum partide, a nenhuma doutrina fechada, Paradoxalmente, porém, assim como Oliveira Lima se dizia “catdlico histérico’’, eu poderia dizer-me ‘‘catdlico sociolagico”’. Sem conseguir separar sociolagicamente o Brasil, de sua formacéo catolica, De missas e de batizacos, De padres nem sempre ascéticos mas as vezes brasileira- mente patriarcais: pais, avds, ancestrais de alguns dos mais valorosos brasileiras; um deles, José de Alencar. Sou sensivel ao culto popular e até folclarico da Virgem ou dos santos no Brasil. A intimidade dos brasileiros catélicos com esses Santos: uma intimidade que chega a aparentes sacrilé- gios e a brasileir(ssimas sem-cerimonias, Catolicismo saciologico, esse meu que, por solidarie- dades, no plano intuitivo e poético de mitos — tenho uma nogo soreliana da importancia dos mitos — com esses va- lores mé tem levado a paradoxalmente defender o chama- do arcalsmo do catolicismo popular brasileiro das supostas sofisticagdes daqueles “liberais progressistas” que desejam um Brasil de todo légico, racional, cientificista nos seus modos de ser religiosa, politico, artistico, culinario. E, até, no seu futebol: o erro, a meu ver, do alias, sob varios aspec- tos — o de disciplinador, por exemplo — admiravel capitéo Claudio Coutinho, A também paradoxal afinidade que me prendeu a Gustavo Corc#o resultou — que me perdoem os "progres sistas’, os “racionalistas’’, os marxistas soviéticos o que vou dizer — do que encontrei de saudavelmente arcaico no seu catolicismo, sem que me atraisse no bravo escritor a rigidez da sua ortodoxia, Rara a ortodoxia que, para meu modo de pensar, nao seja insipida, Excec&o magnifica a defendida por Gilbert K. Chesterton: um Chesterton que, 37 alias, chegou a ter alguma influéncia sobre Gustavo Coreao, Sobre o Corcao da sua primeira fase catélica. Um Corcdo diferente do depois ortodoxg légico e como que matema- tico, com preju/zo do que nele era, contraditoriamente, vocacdo poética, Contraditério ele foi, Mas muito menos do que coe- rente. Vdrias vezes ele me fez lembrar aquele, no intimo, sempre catdlico que foi o défroqué Anténio Torres, Um Torres que eu, ainda adolescente, conheci em Londres: ele cénsul do Brasil. Ficamos amigos. Torres se antecipou a Corcao em ser um catdlico — ele se supunha um ex-catoli- co mas, na verdade, nunca deixou de ser catélico — em ser, como foi também Gilberto Amado, um brasileiro influen- ciado por Chesterton, O que Torres me revelou a base do seguinte fato: tinhamos os dois, Torres e eu, entrado certa vez, em Berlim, numa igreja ilustre, atraldos pela musica de poderoso drgao. La ficamos algum tempo, sob 0 enlevo de uma musica parenta da de Bach, Mas ao definir-se o culto pelo seu rito, Torres horrorizou-se: a igreija de Berlim em que tinhamos entrado, seduzidos pela mais religiosa das misicas, era luterana. Pediu-me Torres para sair com ele da igreja para ele infiel. Era o catdlico irredytivel den- tro do défroqué, tao veemente no seu modo de ser polemi- camente antiliberal. E a no querer tolerar o protestantis- mo. Do meu convivio de acatélico com Gustavo Coreao, no Conselho Federal de Cultura, guardo a impressdo de ter sido umm Contato com um santo; um santo catélico. Mas — alguém pode sé apressar em dizer — a Coredo faltava a docura dos santos, Quem pode afirmar da santida- de crist& que é sempre docura? Que deve ser sempre docu- ra para ser santidade? E Cristo nos seus momentos de ira, de violéncia, de protesto? Momentos que nao faltaram a $. Francisco de Assis. 5a Nesse intelectual 4 espanhola havia um homem em quem, como a Espanha a Unamuno, o Brasil doia, Nao the dofa apenas o Brasil: doialhe a Igreja de hoje a qual ele Opunha a para ele de sempre e que, para ele, ressurgiria. Ressurgiria deixando arcaicos “‘progressistas’’ como esse por vezes — sO por vezes — talvez juvenil cardeal Arns: um cardeal Arns que comentando a morte de Coredo viu na bravura intelectual do grande catélico em luta contra, para ele, ate/smos dentro e fora de sua Igreja amada, sinais de um intelectual brilhante que estivesse gagdé. Engano de Sua Eminéncia. CORCAO E OUTROS CORCOES* Ainda Corgao mas agora mais para comentar livro recém-aparecido em Paris de um Corgéo francés — Michel de Saint Pierre — do que para novos reparos sobre o escritor brasileiro, Escritor que ficaré na literatura brasi- leira pela sua expresso classica e pelo que foi o fogo romantico, bravo, anticonvencional de sua presenga metaliteraria na nossa cultura. Metaliterdria, por ter sido, além de cientifica, mistica. Ou tao cientifica quanto mistica, Conversei com Gustavo Coredo nos seus angustiados Ultimos anos de catdlico fiel 4 sua fé no meio de tantos in- fiéis ilustres: até purpurados, Até acad&micos. Ninguém mais lacido que Coredo, Suponho que nenhum dos atuais cardeais brasileiros se aproximne dele neste particular. Lucidez de légico que nele coincidia com o ardor de mistico. a a *Artigo publicada na Faiha de §, Pau de 30 set. 1978, Mais: ningugm mais atual, no Brasil de hoje, no seu saber cientifico, do que Gustave Corgao. Nao faz muito tempo, o Conselho Federal de Cultura ouviu dele notavel pronunciamento sobre a Fisica — ou as F {sicas — dos nos- sos dias. Nao era um desatualizado nem um esclerosado, Continuava a ser uma das inteligéncias mais vibrantemen- te lucidas que o Brasil j4 produziu. Capaz de atrair subitas e dificeis admiragdes de modernistas como Oswald de An- drade e Manuel Bandeira. Capaz de ser metaliterario pela ciéncia e pela mistica, Como outros metaliterdrios de hoje. 0 francés Michel de Saint Pierre, em seu também me- taliterério La Passion de |'‘Abbé Delane — seminovela — é outro que ndo faz por menos, Sua metaliteratura é tam- bém fogo vivo: expressdo ardente de um catélico que, para se afirmar catdlico mais-que-moderno de modo algum mo- dernista, viveria, dentro de si, sob um ardor gético proje- tado sobre o futuro. Ardor gotico porque, da prépria arquitetura catélica, Saint Pierre quer, ndo que volte a ser gética, mas que ndo. se confunda com garagem ou com barraco. Que tenha a coragem de ser igreia. Que seja arte de igreja. Arte-mensa- gem como foi a gética, Arte que irradie fé, crenca, orto- doxia, Com o que concordaria Gustavo CoreSo. Pena que o. escritor brasileiro néo tenha chegado a ler esse livro fla- mante escrito por francés tao sernelhante a ele, Corcdo, no modo de ser catélico, De combater padres quase défroqués sem que, entretanto, deixem a Igreja: deixando apenas a batina. Continuam valendo-se da Igreja para serem quase ateus, quase anticatdlicos, quase marxistas de todo, com aparéncia de catdlicos, Quase marxistas? Hd quem pense que os ultimos mar- xistas ortodoxos, plengs, extremos, absolutos sdo os pa- dres, os catélicos, os neocatélicos convertidos ao marxis- mo. 60 Que repercuss0 esté alcancando o livro do Corcdo francés sobre os seus leitores? E livro sobre um padre a maneira pré-Concilio. Contra ele levantam-se, na seminove- la simbélica, seus superiores, excecdo de um cardeal que Q ampara. Conforme essa repercussée, poderd se concluir se esta na Europa a surgir significative reagéo a um neocatolicismo para alguns observadores, dentro e fora da Franca, ja quase um ex-catolicismo no que nele @ socialmente burgués. Re: sistindo 4 marxizizacdo — 0 paradoxo! — gracas as suas rai- zes populares, tradicionais, miticas. Porque o catolicismo popular — no Brasil ocorre o mesmo que na prépria Fran¢a, na Espanha, em Portugal, na Italia — esté paradoxalmente a resistir 4 marxizizagao. do catolicismo burgués ou aristocratico. Como o marxismo, em suas formas ortodoxas, esté a resistir, de dentro para fora, aos neomarxistas e aos pos- marxistas: tio veementes na Franca, Sao eles outros pro- gressistas, O que indica nfo ser, de modo algum, facil, ge- neralizar-se sobre a espiritualidade no mundo de hoje, So- bre o Ocidente espiritual ou intelectual de agora, Sobre a atual Europa, quer latina, quer eslava, quer germénica, quer britdnica, para nado se considerar a mais que confusa, mais que turva, mais que tensa situac¢ao dos Estados Uni- dos: quer a moral, quer a intelectual. O assunto é terrivelmenie complexo, envolvendo, como envolve, o que se possa considerar o futuro espiritual e o futuro intelectual do homem moderno: particularmen- te o do Ocidente. Ume coisa parece certa e é que, enquan- to os ortodoxos cristfos estdo em aguda crise — a Catolica- Romana, a Grego-Ortodoxa, a Anglicana, a Protestante, o mesmo sucedendo 4 Judaica ¢ 4 Maometana — florescem na propria Paris os substitutos de fés religiosas tao ilustres: as astrologias, as buenas-dichas, os ocultismas, os espiri mos chamados baixos, No Brasil, florescem as seitas afro- 61 brasileiras, as pequenas seitas evangélicas, a umbanda, de modo sensacional. Sinal de que a 4nsia espiritual, a religio- sidade, o misticismo, subsistem. Quase ao mesmo tempo que 0 romance metaliterdrio de Saint Pierre aparece em francés — lingua que continua vefculo principal de inquietagdes — L‘Instant, JEternité (Jean Sulivan e Bernard Feuillet) e Mo/ne, de Guy Luzsens- ky. Metaliteratura da mais provocante. Psicaldégica. Socio- légica. Filos6fica. Tudo em torno do desafio religioso, Poetas e ensaistas O INDIANISMO POETICO E CIENTIFICO DE GONCALVES DIAS* Vamos ter em breve o estudo biogréfico que Gon- ¢alves Dias merece: a vida e a personalidade do grande ma- ranhense reconstitu(das e interpretadas pela Sra, Lucia Miguel Pereira. Hé jé em nossa lingua, e até noutras linguas, trabalhos de valor sobre o poeta e erudito que comunicou as letras e a ciéncia, no nosso Pais, alguma coisa de novo, abrindo caminhos mais largos @ expressdo do sentimento brasileiro enriquecendo com idéias e pontos de vista mais vigorosa- mente humanos e, ao mesmo tempo, americanos, a inter- pretag3o do nosso passado. *O primeiro artigo — “Atusliciads de Gongalves Di = foi reproduzi- da do Difirio de Pemambuea de 1 fev, 1942; 6 0 sequndo — “Um estudo bio- grafico” — do Jornal do Comércio (Recife) de 21 set. 1943, 62 Mas o estudo da escritora, a quem devemos algumas das paginas mais penetrantes que jad se escreveram entre nés sobre Machado de Assis, nos apresentara em conjunto, de ponto de vista moderno e baseado em novos recursos de interpretacdo psicolégica e cultural, a vida, a personalidade ea obra de uma das figuras mais sugestivas do movimento brasileiro de americanismo literario do século XIX. Movi- mento que se extremou na idealizacao, as vezes exagerada, do indigena, mas também no estudo, dentro de bom e ge- neroso humanismo cientffico, da gente amerindia, de sua cultura e de suas possibilidades. A obra poética de Goncalves Dias teré tido muito exagero no sentido daquele indianismo. A sua obra de pes- quisador, porém, se apresenta com qualidades surpreen- dentes de equil {brio cientifico. J4 um mestre ilustre como o Prof. Roquette Pinto salientou o valor cientifico dos estudos e pesquisas de Gongalves Dias. Da ciéncia do bacharel maranhense se po- de dizer apenas que no foi daquelas que se extremam, em trabalho chinés de miniaturista. Teve seus arrojos poéti- cos. Teve a animé-la interesse e até calor humano, Chegou a audacias romanticas. Mas, quem ler a histéria de qual- quer ciéncia vera que esse humanismo as vezes arrojado dos romanticos é que abre caminho 4 obra Util, mas secun- daria, dos ladrilhadores cheios de uma Unica paixdo: a de bem ladrilharem os caminhos abertos, pondo, repondo ou conservando cada pedrinha no seu lugar, fazendo de cada data, de cada nome, de cada sobrenome um motivo de vi- gilia, de angustia e de esmero. Se hoje é que se esta fazendo no Brasil obra mais am- pla de humanismo cientifico aplicado ao estudo e a valori- zagio — autorizada pela ciéncia — do nosso passado, da nossa natureza, da nossa vida, da nossa cultura, da nossa paisagem, da nossa gente, — inclusive o ind{gena, 0 negro 2 0 mestico — ndo nos devernos esquecer de que tal huma- 63 nismo teve seus pioneiros. Um deles bem remoto: Gabriel Soares de Sousa. Dos mais préximos de nds se destacam José Bonifacio ¢ Goncalves Dias. Um @ outro merecem estudos que revelem a inteligén- cia das novas geracGes brasileiras e americanas os aspectos mais significativos da obra qué realizaram aplicando ao Brasil e 4 América a ciéncia por eles adquirida em alguns dos meios universitarios mais adiantados da sua época. Mas aplicando-a néo $6 com uma compreensdo por vezes genial do meio nativo e das condicées americanas, como também com simpatia e até com amor. Coma “ternura humana” de que fala o poeta. Das o lugar que lhes toca — a José Bonifacio e a Gon- calves Dias e a Euclides — de pioneiros daquele humanismo cient!fico que da a ciéncia, ou melhor, a cultura, nos nos- sos dias, a oportunidade de intervir poderasamente na or- ganizacao social — e nao apenas cultural — do pove brasi- leiro, O Gongalves Dias de quem a Sra, Lucia Miguel Perei- ra nos vai dar agora uma interpretagdo ampla e moderna, teve o sentido da participagao do intelectual em tal movi- mento, Sua obra é das que ndo pertencem apenas a histd- tia literaria do nosso Pafs, mas 4 histéria cultural e social das Américas. A valorizagio do indigena — das sobrevivéncias da cultura indigena ¢ do sangue indigena — que parece apre- sentar-se como um motivo cada vez mais forte de unifica- ¢do dos povos americanos — encontra em Goncalves Dias um dos seus melhores apoios, No Gongalves Dias poeta e no Goncalves Dias erudito. Notavel o estudo que a Sra. Lucia Miguel Pereira deci- ca a Gongalves Dias, Diante dele, mais uma vez pergunto a mim mesme que 6, afinal, o estudo biografico. 64 © trabalho da Sra. Lucia Miguel Pereira é complexo. Da sua documentacéo nao ha exagero nenhum em dizer-se que 6 opulenta: tem mesmo qualquer coisa de academica- mente germanico. Mas, contra o perigo desse luxo de docu- mentos, a escritora reage com suas virtudes de sensibilidade e de discernimento; com seu poder de selecdo; e dd-nos um livro que néo somente recorda da vida vivida por Gon- calves Dias e da obra realizada por ele, fatos e momentos reconstitu(des sobre as melhores evidéncias convencio- nalmente histOricas, como se eleva 4 interpretagdo do todo. as vezes contraditério formado por aqueles varios fatos e momentos: 0s pessoais tanto quanto os literdrios, Sou dos que pensam que em estudos biograficos, como, alias, nos histérico-sociologicos, o ideal do pesqui- sador que pretende ser também intérprete da vida humana nao é ser “completo” nem “‘exaustiva’’; ndo é recordar tudo o que acontecéu; nao é registrar todos os atos do individuo ou da comunidade estudada. O melhor dos miniaturistas chineses ou o mais pachorrento dos especia- listas alemaes fracassaria na tentativa de recordar rigorosa- mente tudo que fez esse homem ou aquele grupo de homens: e mesmo que ndo fracassasse nesse esforco de reunir tao vaste material — material biografico completo — poucos seriam os leitores de obras t80 inutilmente com- pletas, Daf termos de nos conformar com o ideal — quanti- tativamente mais modesto — de biografia, proclamado por Miss Gertrude Stein: biografia é revelacdo. E quem diz re- velacdo, diz selecdo. Diz sintese: tentativa de s/ntese, Sucede, porém, que, substitufdo o ideal de quantida- de pelo de qualidade, a biografia dispensa as virtudes do miniaturista para exigir do pesquisador aptidées ainda mais raras: sem deixar de ser paciente na colheita de fatos e rigo- roso na analise e na critica das evidéncias, ele precisa de ter a capacidade de interpretagado e de sintese para realizar a 65 obra de “revelagdo’’ a que se refere Miss Stein. Esse con- junto rarissimo de qualidades encontra-se, decerto, na Sra. Lucia Miguel Pereira. A capacidade de interpretacdo implica, 6 claro, naque- le poder de empatia, sem o qual o historiador ou o bidgra- fo se reduz a copista melancélico do passado humano: n&o- consegue elevar-se a intérprete. Ndo consegue revelar a ins: tituiggo ou a pessoa que estuda, descreve, recorda, Pois ndo nos 6 possivel hoje pararmos no ideal de Taine € nos contentarmos com a biografia de escritor ou de artista que seja uma historia natural do escritor ou do artista, T&o estreito naturalismo ou objetivismo nos repug- na, embora ndo nos repugne servirmo-nos cautelosamente e com reservas, no estudo da vida de um grande homem, em particular, ¢ dos homens, em geral, de métodos desenvol- vidos e de evidéncias reunidas pela fisiologia, pela neurolo- gia, pela psicalogia fisiolégica, pela endocrinologia. Daf a obra biografica ser cada dia mais complexa: exi- ge de quem hoje se aventura a realiz4-la ndo s6 o contato com as ciéncias, que nos permitem ver nos grandes homens casos de histéria natural, como qualidades raras e delica- dissimas de intuicdo, de sensibilidade, de compreensSo do que ha de peculiarmente pessoal nos atos e motivos huma- nos. Sem essas qualidades, pode o pesquisador acumular sobre um indiv/duo vastissimo material clinicamente in- teressante, cientificamente valioso, cronologicamente per- feito, sem que a vida vivida ou a obra realizada pelo bio- grafado tenha sido compreendida, interpretada, revelada, O livro da Sra. Lucia Miguel Pereira ndo s6 recorda a vida de Gongalves Dias como nos revela as relagées entre a vida que ele viveu e a obra que escreveu. SO esta vitoria basta para lhe dar originalidade, ao lado de solidez. Confesso, porém, que certas paginas do estudo da ilustre escritora me comunicam a impresséo de estudo bio- Grafico tao objetivamente cronolégico, que se sente a preo- 6 cupagSo da autora de evitar a dramatizacéo do material que se desdobra pelo seu livro dentro dos rigores da cro- nologia. Sugestées de drama nao faltaram 4 vida de amoro- 50 insatisfeito e de mestigo intimamente trepidante que foi Goncalves Dias, A Sre. Lucia Miguel Pereira parece ter-se deixado dominar por um exagerado pudor de desenvolver, a revelia do equilfbrio cronolégico, aquelas sugestdes: ¢ mais de uma vez tem-se quase a impressdo de uma Lucia Miguel Pereira empenhada em subordinar de todo sua in- tuig3o de mulher de raro talento e suas qualidades de ro- mancista, superior, justamente pelas aptiddes psicoldgicas, a rigido critérig de biografia cronolégica. Sob esse critério o livre ganha decerto come obra de scholar: 6 um triunfo auténtico de inteligéncia reunida a erudicao, Mas ter-nos-ia a autora dado tudo o que nos podem dar sua intuigao, sua sensibilidade, seu poder de empatia, para nos fazer parti- cipar do drama da personalidade inquieta de Goncalves Dias? Creio que nao, Symons me parece ter inteira razéo quando diz que o biégrafo do futuro nao sera o puro scholar mas o individuo “4vido de descobrir personalidade”. Isto é — penso eu — ansioso por conhecer, compreender, interpretar, revelar, teviver personalidades, E sendo as personalidades, até mes- mo para os socidlogos, “sinteses dramaticas’’ de épocas, meios, classes, racas, sub-ragas, movimentos, reacdes, revo- lugGes, o elemento dramatico nunca lhes falta, embora as vezes se esconda dentro de grandes simulagdes ou aparén- cias do que os ingleses chamam undramatic, Nem por néo ter havido tiro, duelo ou fome na vida de um Robert Browning ou na de um Thomas Hardy, deixaram eles de ter sido personalidades dramaticas. E o mesmo € certo dos Mallarmé, dos Goncourt, dos Mark Twain, dos homens aparentemente mais tranqililos que tém criado obras lite- rarias superiores ou realizado grandes experiéncias artisti- cas, 67 Forte como € o estudo da Sra. Lucia Migue! Pereira sobre Gongalves Dias — um dos mais puros triunfos brasi- leiros, repita-se, da inteligéncia unida a erudicao — deixa- nos, precisamente por ser da Sra, Ldcia Miguel Pereira, sob © desejo de paginas que Ihe parecem faltar: as que nos pu- sessem em contato mais vivo com 4 personalidade do poeia mestico: com o seu drama, Estarei a desejar uma biografia de Gongalves Dias com toques de biografia 4 maneira dos Maureis? De modo nenhum. Uma biografia com alguma coisa da de Strachey sobre o cardeal Newman, isto sim. E possivel, entretanto, que esse desejo seja sé de ro- manticos inveterados. Inveterados € insaciaveis, Pois a ver- dade é que a Sra. Licia Miguel Pereira acaba de enriquecer a literatura brasileira e os estudos de historia da cultura e da prépria historia social do nosso Pafs com um livro que é verdadeiramente um exemplo de trabalho sério e inteli- gente, de pesquisa honesta e lucida, de biografia que vai as raizes do assunto. O ROMANTICO RIBEIRO COUTO* O poeta Ribeiro Couto — que é também Embaixador do Brasil na lugoslavia — me envia de Belgrado o seu mals recente livro de poemas: Longe. E me escreve generosa- mente dever a mim certas presencas brasileiras na sua sau- dade de paulista hd tantos anos distante do Brasil, Presen- ¢as que seriam “insistente visitacéo do Brasil nestas lonju- ras balcdnicas”, Lembra-se, a certa altura, de “linda lua” — a de Per. nambuco; e do seu “brilho na agua imensa’’, E imagina alguma “moca afogada no banho” e desaparecida nessa *Publicada cam 0 mesmo titulo no Jornal ao Comercio (Recife) de 10 fev, 1983, eB “gua imensa™’, com a “linda lua” a brilhar sobre a moca e sobre a agua. Mas também retrata a figura romantica — que poeta brasileiro mais romantico do que Ribeiro Couto? — de um menino de sobrado brasileiro, que ¢ outra imagem do Bra- sil em que sua saudade do Pais distante — distante para ele, tanto no espaco como no tempo — coincide com @ minha recordacdo de um Brasil distante mais no tempo que no espaco; e do qual nunca dever/amos nos desprender de to- do, os brasileiros, sejam quais forem as lonjuras a que nos levers missdes no estrangeiro ou adesGes a modernices vin- das do estrangeiro. Ha alguma coisa de simbdlico na figura do menino de sobrado brasileiro antigo, patriarcal, vendo “gs meninos da rua quando brincam de soldado” evocada pelo poeta de Longe. *’S6 se lhe va a cabeca, que mal se move € que espia.” Porque 6 um menino doente, o que a saudade do poeta evoca, intensificanda o simbolo. Um me- nino — do tipo que hd anos procuro evocar, lembrando-me de avds nao quando velhos, mas ainda meninos — “de lute da propria meninice”. As “lonjuras balcdnicas” nao afastaram Ribeiro Couto sendo superticialmente do Brasil. O Brasil vive nele em pro- fundidade. A lua que brilha para ele nao é nem a de Londres nem ade Moscou, mas a que aprendeu a amar, em certo comeca de noite tropicaimente brasileira, em Boa Viagem. O rumor de mar que chega aos seus ouvidos é o do mar do litoral do Brasil. Sobrados antigos de azulejos, dos que ainda restam as cidades mais velhas do Norte brasilairo e do préprie Rio Grande do Sul, continuam a existir brasileiramente, para ele, disfargados em ediffcios europeus. Chuvas paulistas, fantasiadas 4s vezes de neve, continuam a bater-ihe as vi- dragas das casas de embaixadas do Brasil, em frias cidades da Europa, onde vem residindo. Casas que, ocupadas por ele, tornam-se, ndo por uma fic¢do de Direito Internacional, 69 mas por uma profunda realidade poética, pedagos vivos, ardentes, vibrantes do Brasil tropical. Do Brasil patriarcal, Até mesmo do Brasil colonial dos seus bisavés, As vezes so ruas inteiras desse Brasil distante — dis- tante No espaco e no tempo — que de repente o envolvem no estrangeiro. A Rua Marqués de Abrantes, por exemplo. E uma rua que jé no existe — como Ribeiro Couto a co- nheceu — nem no espaco nem no tempo, Existe sé na sau. dade do poeta: Perdide de nove no meu devaneio Vi de novo aquela fachada E uma janela iluuminada De onde o riso de alguém me veio. Explica-se que o poeta Ribeiro Couto, hd anos fixa- do na Europa, sem ver palmeiras do Brasil nem ouvir sa- bids brasileiros, se sinta poeta afim desse outro grande romantico que foi Goncalves Dias: Murmuro debrucado sobre o Sena Tua cangao do extlio e, num instante, Sao Bento do Sapucaf me acena. AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT, POETA E HOMEM DE ACAO* O Schmidt mais vivo na minha lembranca é o me- ningo moreno, gordo, obeso mesmo, a quem um padri- nho rico dera uma livraria para o afilhado administrar. Uma vez senhor de uma livraria em rua ilustre do Rio, “Sob 0 titulo ““O brasileiro Augusto Frederice Schmidt’*, foi publicade no Jornal do Comercio (Recife) de 14 fav. 1965, 70 Augusto Frederico acrescentara a0 offcio de livreiro a aventura de editor. Foi quando o conheci. O meningo gordo era ja, contra todo esse seu fisico nada romantico de burgués de caricatura, um admiravel poeta, ora delicadamente Ifrico, ora biblicamente proféti- co, como se conservasse, ndo do sangue, mas da tradi¢&o, de avés remotos, além do nome alemdo e do romantismo germanico, alguma coisa de hebreu ou de israelita no seu misticismo. Alguns dos seus Inimigos j4 entéo se antecipa- vam em ver no poete-livreira ou no poeta-editor um ho- mem sequioso apenas de fortuna. O que atribufram, com evidente idiotice na sua interpretagéo predominantemente racista de tendéncias individuais, 4 origem étnica do poeta. Ninguém mais brasileiro, Ao se anunciar, ele proprio, num dos seus primeiros poemas, “o brasileiro Augusto Frederico Schmidt”, era come se, magoado com as insinu ges de ndo ser auténtico brasileiro, quisesse proclamar a sua condigSa de brasileirissimo brasileiro. Se veio a tornar-sé milionario, 6 que era um inquieto, Necessitava de ac3o. Chegou, por esse ativismo, adesdenhar, da boca para fora, das letras, da literatura, da propria poe- sia. Talvez seguisse, a seu modo, nessa atitude, o exemplo de Rimbaud. A verdade, porém, ¢ que permaneceu um poeta em quem ao fervor Ifrico continuou a juntar-se sempre aquele outro fervor: o profética, O messidnico. O pol/tico. Chegou a ter, como inspirador de a¢ao politica, posi- c&o saliente, no governo Kubitschek: na politica interna- cional desse governo. Foi o meu primeiro editor: 0 editor do meu livro inti- tulado Casa-Grande & Senzala, Nao posso dizer de Schmidt, editor, que fosse um modelo no género. Na fase em que es- crevi esse livro, estava eu em situacdo mais que precdria: angustiosa. Tendo, no exilio a que me forgara o movimento de 1930 — exilio de que nunca me mostrei ressentido a W ninguém: sempre © considerei justo — me extremado em repelir quanta genérosidade das que me foram oferecidas por membros do novo governo — um deles o excelente Jo- sé Américo de Almeida — e, de regresso ao Brasil, me ex- tremado, ainda mais, em ndo incomodar amigo algum com qualquer pedido de protegao ou de auxilio, é claro que nao podia ser outra minha situacdo, Pelo meu contrato com Schmidt para a publicacao do livro que se intitularia Casa- Grande & Senzala, ele se obrigava a pagar-me quinhentos mil-réis, por ms, enquanto eu estivesse no Rio empenhado na elaboracéo do livro: trabalho que deveria concluir no Recife, Raramente cumpriu Schmidt essa obrigagdo de edi- tor, Deixou-me mais de uma vez nas piores aflicdes, Obri- gou-me, por isto, a levar a casas de penhores quanto me restava de algum valor: relogio de platina, botdes de ouro, anel de avd, E 0 pior é que, uma vez editado 0 livro — do qual de- vo recordar ter tido, de subito, imensa aceitagao do publi- co brasileiro, a despeito dos siléncios deliberados da im- Prensa da época e da critica militante daqueles dias: um desses criticos, o hoje ultraliberal, mas muito meu conheci- do, sob outro aspecto, Prof, Alceu Amoroso Lima (Tristdo de Atafde) — ¢ das hostilidades, naqueles dias, quer de je- suftas ainda de feitio antigo, quer de comunistas, assom: brados com a forga revolucionaria do ensaio inclassifica- vel — Schmidt, 4 base desse sucesso, passou a outro sua edi- tora, incluindo na transagao a publicacdo bem-sucedida, Daf resultaram duas edicdes, das chamadas piratas, terem sido feitas do meu livro, sem que o autor fosse beneficiado com um Unico mil-réis. Foi o advogado Trajano de Miranda Valverde quem, por iniciativa propria, livrou-me dessa es- cravidéo, Anos depois, encontrando-me com Augusto Frederico Schmidt ja milionério, num almogo em casa de amigo co- mum — Nehemias Gueiros — disse, gracejando, ao meu pri- 72 “Lembre-se, Schmidt, que estou 4 base da sua fortuna’. Nao creio, de modo algum, que no seu procedimento para comigo e para com outros editados, houvesse de sua parte qualquer mesquinharia de cru “fazedor de dinheiro"; e sim boemia. Pura boemia. Havia nele um boémio nato que, aliado ao poeta, nao deixou que o miliondrio se bana- lizasse, em tempo algum, num ricago vulgar. Nunca Schmidt se vulgarizou num argentario preso $6 aos negdcios, Nesse extraordindrio Schmidt, tio homem de agdo quanto de imaginagdo, desaparece um brasileiro a quem ndo faltou nunca amor ao Brasil. Cantou, nos seus poemas, mulheres que amou romanticamente. Mas corm igual fervor romantico amou € cantou o seu e nosso Brasil. MOYSES VELLINHO E SUA INTERPRETACAO DO RIO GRANDE DO SUL* Outro escritor de provincia que em face das letras brasileiras ¢ da formaggdo da nossa cultura vai se revelando capaz de vigor e amplitude de interpretagaéo — interpreta- ¢&0 nado simplesmente literaria mas sociol6gica dos autores e dos livros — é o Sr. Moysés Vellinho. Como o Sr. Olfvio Montenegro, o Sr, Moysés Vellinho é gato borralheiro. Algum jornal ou revista metropolitana de irradiag%o nacional esté no dever de conquisté-lo, como a revista que conquistou ha pouco o Sr. Montenegro; e *Com o titula "Outre critica”, foi publicado no Didrie de Pernambuco de 23 abr, 1942, 73 obrigdé-lo 4 pratica constante e sistematica da critica lite- raria compreendida no seu sentido mais amplo e de reper- cussdo no Pafs inteiro. Ainda esta semana tive a alegria de ler numa revista do Rio Grande do Sul — Estudos, dirigida por um intelec- tual catélico de Porto Alegre, o Prof. Armando Camara — um ensaio deveras interessante do Sr. Moysés Vellinho so- bre Alcides Maya, Ensaio — ou, antes, conferéncia lida o ano passado na Faculdade de Filosofia de Porto Alegre e s6 agora publicada — que me parece um dos melhores es- tudos criticos jé aparecidos no Brasil sobre o ethos ric- grandense-do-sul surpreendido numa de suas expressdes mais provocantes: o gauchismo. Surpreendido como ex- pressdo literaria e como expressao social, O Sr. Moysés Vellinho observa nesse estudo que “g Brasil prolonga-se no Rio Grande e nele se revé gracas 4 aco aglutinadora da tradigao local’. E como se o narci- sismo regional fosse ali a intensificago que se explica pelo fato de ser o rio-grandense-do-sul fronteira viva da cultura luso-brasileira no seu sentido sociolégico. Sab esse critério é que se esclarecem aparentes absurdos como o fate de florescer na Rio Grande do Sul, e nfo na Bahia, a lenda brasileirissima do negrinho do pastoreio. O Sr. Moysés Vellinho contrasta com o que hé de romanesco, de dispersivo e de desintegrante no gaticho, “o que ha de organico no passado rio-grandense’’; e nesse gauchismo substancialmente brasileiro vamos encontrar combinac3o bem |uso-americana: a ‘‘combinacao do espi- rito de aventura dos pioneiros com o dnimo severo e or- deiro dos acoritas (. . .)’". O que faz com que o crftico admiravelmente Iiicido e, ao mesmo tempo, fraternalmente generoso, que é o Sr. Moysés Vellinho, ajuste a situapao do Rio Grande do Sul ao “binémio de tendéncias aparente- mente opostas’” sugerido em Uma Cultura Ameacada; a Luso-Brasileira para explicar e interpretar o drama da colo- 74 nizac¢Zo portuguesa da América: “‘o espirita de aventura e o habito sedentario”. O espfrito de aventura combinade com 0 espfrito de rotina. Ajustada aquele bindmio a situagdo regional de apa- réncia menos brasileira, vé-se que a combinagio caracteris- ticamente lusa das dois antagonismos ou das duas constan- tes foi particularmente intensa no Rio Grande do Sul. Don- de a condicao profundamente brasileira de sua gente quan- do examinada de perto e analisada nos seus mais (ntimos motivos de vida e nas suas manifestagdes mais genufnas de cultura, Nas suas proprias lendas, As dividas que, por algum tempo, turvaram o espirito do brasileiro do Rio, do Norte e do Centro acerca da au- tenticidade de brasileirismo do rio-grandense-do-sul, ba- seiam-se, evidentemente, em deformacGes literarias e his- téricas do passado e do cardter da gente de Extremo Sul. A agao das deformacies literarias, no sentido dessa incom- preensdo lamentavel, 6 agora sugerida pelo Sr. Moysés Vellinho, em estudo inteligente e justo. Falta quem desta- que a ac3o, no mesmo sentido, de deformacdes histéricas, prestigiadas por nomes magnificos. Ai estd uma tarefa para o Sr. Jodo Pinto da Silva, por exemplo. Ou para o Sr. Dante de Laytano, Porque no campo das deformacées historicas vamos encontrar mestres como o glorioso Capistrano e o bom P.€ Teschauer entre os maiores pecadores contra o esp{rito luso-brasileiro da formacdo do Rio Grande do Sul. Capis- trano por ter escrito sobre o assunto paginas que sdo antes de panfletdério zangado do que de historiador compreensi- vo. O padre, por ter comunicado aos brasileiros em geral, & aos rio-grandenses-do-sul em particular, uma concep¢ao ou imagem do Rio Grande do Sul que se baseia antes no estu- do do ponto de vista jesultico, de documentos jesu/ticos “castelhanos’’ do que na reconstituicdo das origens e da formacio social daquela provincia sob o critério, ao mes- 75 mo tempo psicolégico é histérico-social, de sua relacdo com 0 todo luso-americano. Que o diga, no que se refere & histéria econdmica do Rio Grande, o Sr. Rezende Silva, De semelhante critério psicolégico é histérico-social é que se encontra mais de uma sugest4o incisiva no comeco de analise socioldgica da gente do Extremo Sul e de sua formagao que nos deixou Rubens de Barcelos, Extraordi- nario provinciano cuja obra merece irradiagdo nacional. UM CRITICO NA VERDADE CRIADOR: ROBERTO ALVIM CORREA* Mais um livro do critico Roberto Alvim Corréa, E quem diz um livro de Roberto Alvim Corréa, diz qualquer coisa de extraordinario na atual produgdo literdria do Bra- sil. Pois © maior encanto desse escritor brasileiro que o longo contato com a Europa latina nao desabrasileirou, mas, a0 contrario, deu maior vigor e maior profundidade 4 sua condic&o de brasileiro, estd em ser, ao mesmo tempo, critico e artista. O que é tdo raro que chega a ser estranho. e até escandaloso, Had em literatura os que dancam e os que véem os ou- tros dancar. Ha criticos que apenas véem os outros dangar @ quando tém o sentido de ritmo, a sensibilidade a musica, “Com os titulos de “Lm cr/ticn, na verdade criador’’ 8 “Saudecgo a Ro- ‘berto Alvim Corrta", 0 artigo 8 9 discurso aqui reunides faram publicados no. Diério de Pernambuco de 30 maio 1962 ¢ de 3 ago, 1952, respactivamente, 76 dancam intensamente, mas s6 com os olhos. E dangar com os olhos nem sempre é menos do que danc¢ar com os pés: as vezes é mais, Ha no escritor auténtico que 4 Roberto Alvim Corréa um sentido t&o forte do ritmo ou da danca da vida, que ele é tao capaz, na sua critica, de dancar com os pés, 4 maneira dos dancarinos que contempla, como com os olhos, no es- tilo dos antigos sultées para quem o esforgo mecanico da danga era digno apenas de escravos. A critica permite aos grandes criticos serem ao mesmo tempo sultSes e escravos, ha literatura; e em Roberto Alvim Corréa é o que se sente; um dancarino capaz de dancar com o corpo inteiro, mas que prefere dancar apenas com os olhos, intensamente, re- tirando da contemplacado da danca alheia ou coletiva um gozo que nao é apenas contemplativo, mas criador. Foi Havelock Ellis quem escreveu da wida que era danga; e da literatura como expressdo da vida pode-se es- crever, com maior razfo, 0 mesmo: que é danca. E dentro da literatura a critica criadora & também dang¢a, por ser, ao mesmo tempo, expressdo e contemplacdo da vida. Mas cantemplacdo ativa, de quem participa ritmicamente do drama e nao apenas o considera com olhos distantes de turista literario, E assim que o escritor Roberto Alvim Corréa é crfti- co; fazendo da critica uma expressao intensa de vida e uma afirmacao daquele personalismo que esta a renascer na lite- ratura inglesa, entre os escritores mais jovens, com um vi- gor que significa clara repulsa aos excessos de coletivismo ‘ou politicismo em que resvalaram tantos dos escritores ho- je maduros, Dangando com os outros, mas parando para ver dancar a sua propria gerag¢do e comparando sua danca com as de outras geracdes. Parando para ver dancar para melhor dancar, 4 sua maneira, com os olhos. Olhos de quem contempla, de quem critica, de quem escolhe, de quem aceita da dan¢a coletiva ou alheia, o que Ihe convém 7 a personalidade e repele o que repugna ao seu sentido de vida, que ndo sendo um sentido individual mas coletivo — pelo que implica de adesio a valores do passado — 6, isto sim, pessoal, pela selecdo ou escolha que exerce sobre o coletivo ou 0 alheio ou a tradicional, Ora, nenhuma atividade literaria mais personalista, neste bom e alto sentido de personalismo, que nao deixa de ser social nem se afasta do humano, do que a critica que seja também criadora: critica extraordinaria ou inco- mum, mas que existe e é 0 sal das literaturas. E é essa a cri- tica que o escritor Roberto Alvim Corréa pratica hoje no Brasil com uma lucidez, uma sensibilidade, uma penetra- 80, que tornam os seus livros verdadeiros acontecimentos literarios. Jovens poetas, escritores ainda novos, estudantes ain- da adolescentes lembraram-se de trazer vocé, caro Roberto, a esta velha cidade de inquietos que 6, desde ontem, sua, Sua, nao por simples e convencional cortesia, mas por ser vocé também um inquieto. Todo brasileiro inquieto, por mais longe do Recife que tenha nascido, é um recifense por natureza ou por vocacao, Esta 6 por exceléncia a cidade no Brasil dos homens sempre inquietos. Cidade toda ela adolescentemente ma- gra, como Salvador é maternalmente gorda: “toda a Bahia é uma maternal cidade gorda’, escrevi em 1926, num arremedo de poema imagista e numa caracterizagao de bur- go, amado a primeira vista, desde entao repetida por mim por outros entusiastas da Bahia, Contrastei nessa caricatura de forma o magro das igre- jas do Recife com o gordo das dé Salvador: magro de igre- jas a que sempre correspondeu o de sobradas, o de coquei- ros, o de homens tipicamente recifenses, todos esquios como se um misterioso E] Greco a todos tivesse alongado grecoidemente. 7a Esté vocé, caro Roberto, na sua cidade, que é também a de outros inquietos seus amigos, e todos eles — repare — magros recifenses, uns pela carne ¢ ndo apenas pelo espiri- to, outros pelo espirito que aqui se fez carne: Manuel Ban- deira, Cicero Dias, Luts Jardim, Anténio Carneiro Ledo, Alvaro Lins, Os6rio Borba, Olegdrio Mariano, Jo#o0 Cabral de Melo Neto, Joaquim Cardoso, Walmir Maranhéo, Edson Nery, Mucio LeSo, Barbosa Lima Sobrinho, Odorico Tava- res, Josué de Castro, Nehemias Gueiros, todos magros e inquietos como magros e inquietos foram Fr. Caneca, 0 Vi- gario Barreto, Abreu e Lima, Maciel Monteiro, A, P. Fi- gueiredo, Aquino Fonseca, José Higino, Martins Junior, José de Vasconcelos, Barbosa Lima, Lucena, 0 Bispo Car- doso Ayres, Aprigio Guimaraes, Alfredo de Carvalho, Alberto Rangel, Emilio Cardoso Ayres, Pereira da Costa, Deolindo Tavares, Ulisses Pernambucano, o propria Joa- quim Nabuco. E certo que um dos mais recifenses dos re- cifenses — nascido aqui de corpo e ndo apenas de alma — foi homem imensamente gordo. Mas gordo sé de corpo, Canheci-o de perto e sei que sua alma era a de um agil adolescente sempre renovado no seu adolescentismo. Nun- ca se aquietou em burgués nem se arredondou em filisteu. Sua gordura nao era a dos gordos que o César de Shakes- peare gostava de ter ao pé de si por serem indivfduos sem- pre risonhos, sempre amaveis, sempre acomodaticios: pelo menos na presenc¢a de César. O recifense é um inquieto que ama e compreende os inquietos: o Recife, uma cidade magra e intensa, que pare- ce guardar seu melhor afeto para os homens magros ou intensos de outras origens, Sabe perdoar neles até os ex- cessos, a8 iras, as ingratiddes. Daf ter acolhido, como aco- lheu, 6 Morais do Dicionario, Nunes Machado, Ibiapina, Nabuco de Araujo, Borges da Fonseca, Vauthier, D. Vital, Franklin Tavora, Sflvio, Tobias, Castro Alves, Clovis Bevi- laqua, Augusto dos Anjos, Gilberto Amado, Assis Chateau- 79 briand, Joaquim Pimenta, Odilon Nestor, Raul Bopp, José Lins do Rego e Olfvio Montenegro. Acolheu-os, estimu- lou-os, completou-lhes a formacao da inteligéncia e sensi- bilidade. Creio que a vocé foi o que principalmente atraiu os mocos do Recife: o fato de ser vocé um inquieto igual a eles. Nés nos procuramos nos estranhos. Nds nos procura- mos nos outros. Nds nos procuramos até nos deuses, nos santos, nos herdis, nos demdnios, nos anjos. Esto os recifenses, seus admiradores, caro Roberto, felizes com a sua presenca, que ¢ a de um néo-recifense a quem nos prendem afinidades de sentir e de pensar. Presenca de um brasileiro célebre na Europa: o Corréa, editor do Gide e amigo de franceses ilustres. Presenca de um brasileiro, raro pela inteligncia compreensiva: autor de ensaios notavelmente argutos escritos uns em portugués, outros em francés. Presenga de um critico literario que se destaca dos outros mestres brasileiros da critica por uma extraordinaria capacidade de compreensao dos escritores ainda incompletos ou eternamente inacabados. Presenca de um intelectual, por esta mesma capacidade, mais proximo dos adolescentes e dos experimentais que dos autores plenamente maduros e tranqiilamente gloriosos, Nao adula vocé a nenhum deles. Nao corteja grupos inovadores nem geragdes novas, Mas compreende como ninguém os escritores mogos ou que a vida toda foram ou tém sido experimentais, Compreende-os néo como um sim- ples critico mas como uma espécie de confessor literdrio que conhecesse o que ha neles de mais secreto e de mais {ntimo. Vocé tem sido um intérprete licido de talentos inquietamente jovens e de vocac6es indecisas. Um orien- tador de sensibilidades desorientadas. A lucidez junta vocé, uma sensibilidade nado so incomum, como talvez Unica, en- tre nossos criticos literarios, a0 que hé de mais secretamen- te poético nos poetas: inclusive nos que se exprimem em 80 prosa, Também ao que hé neles de esquiva ou sutilmente religioso, Uma de suas especialidades 6 mesmo surpreen- der tais sutilezas de sentir e de pensar em autores retral- dos ou misteriosos, o que vocé faz sem ofender neles os pudores nem destruir os mistérios. Estamos todos os recifenses regozijados com a sua visita a esta cidade, caro Roberto. Nao é um estranho que co Recife moco, prestigiado por um prefeito também moco no espirito e nas iniciativas, hoje recebe e a seu modo fes- teja. E sim um brasileiro que por muitos dos seus tragos mais vivos de escritar e de homem é um recifense que de certa maneira regressa a “sua” cidade, Que fale agora sobre o francés Cocteau, o ja recifen- se Roberto Alvim Corréa, nesta casa amiga de intelectuais edo Recife que dirige Cesio Rigueira Costa, continuador do pai e dos avos, ilustres nas letras, ou nas boas causas recifenses, e que é pelas suas virtudes de homem de bem e de homem de letras uma flor da mais auténtica pernambu- canidade, VIANNA MOOG, ENSAISTA LITERARIO E SOCIOLOGICO* O escritor Vianna Moog acaba de publicar um ensaio em que se reafirma homem de letras nao apenas belas, po- rém fortes: voltado para a andlise, o estudo, a considera- ¢3o de problemas brasileiros de base. Problemas de forma- cao social do Brasil, interpretados como problemas de um passado de tal modo essencial, que se projeta sobre o futu- ro da gente brasileira. *“Repraduzide da Jornal do Brasil (Ri dé saiu com o titulo “Livre qué faz pensar de Janeira) de 6 abr, 1855, on- at A um ensaista da inteligéncia viva e atual do Sr, Vian- na Moog no era possivel que o passado interessasse como conjunto de fatos tristonhamente mortos. E ndo interessa. Para ele, o que hd de sedutor no estudo da histéria brasilei- ra € 0 que nessa histéria é antecipacdo de um futuro que comega a ser assunto de cogitac%o socioldgica, néo apenas para os brasileiros como para os demais povos do Conti- nente Americano, da Europa, de Orientes, de Africas. E natural que assim suceda: afinal, o Brasil ocupa es- paco vastissimo no Continente. Nao é quantidade despre- zivel nem como espaco, nem como populacdo. Ha uma América Portuguesa que se contrap6e a Espanhola e a Inglesa por um conjunto inconfundivel de particularida- des. Inclusive pelos seus processos de expansao no Conti- nente, que se distinguem tanto dos métodos dos conquista- dores espanhdis como dos que tornaram célebres os pio- neiros anglo-americanos, E ponho o verbo no presente — distinguem — porque nas trés areas — mas principalmente Na portuguesa e na espanhola — continua a haver expansao, s@ nao no espaco puramente fisico, como é 0 caso em cer- tas subdreas do Brasil, no espaco social, no econdmico e no cultural, A propria subarea metropolitana onde se verificam hoje, no Brasil, os arrojos paulistas de expressdo econdmica em sentido mais vertical do que horizontal, é uma area caracterizada por auténtico pioneirismo. Ou por “bandei- rismo” que, do espaco principalmente fisico, passasse a agir e a afirmar-se em espaco principalmente social. O ensa/sta Vianna Moog compara os fatos de pionei- rismo caracteristicos da expansao brasileira com os fatos que distinguem 0 pioneirismo da América Inglesa. E escre- ve sobre o assunto paginas que vém dar novo vigor 4 sua reputagao de ensaista preocupado, dentro da melhor tra- dicao brasileira — a dos José Bonifacio, a dos Euclides, a dos Aiberto Torres, a dos Nabuco, a dos Oliveira Lima, a 82 dos Capistrano, a dos Silvio Romero — com os problemas nacionais do Brasil, vistos néo apenas como problemas es- treitamente nacionais, mas na sua confluéncia com os pro- blemas de outros povos, de outras nagées, de outras cultu- ras, E essa amplitude de critério que dé a este novo livro brasileiro virtudes de ensaio ao mesmo tempo liter4rio & socioldgico. Digno, por conseguinte, de ser lido pelos americanos e brasileiros que nao sé contentam em ler os puros beletristas, para deleite ou regalo estético, mas pre- cisam, erm sua dieta intelectual, de acrescentar a tais leitu- fas a dos autores que movem idéias, provocam divergén- cias, fazem pensar. O novo livro do escritar gaticho é livro que faz pen- sar. Livro de brasileiro sério e sinceramente preocupado com os problemas da sua gente e da sua época. VALDEMAR CAVALCANTI, ESCRITOR* Jornal Literdrio € 0 titulo do livro em que o escritor Valdemar Cavalcanti acaba de reunir um grupo de créni- cas sobre “atualidades literérias'’ no Brasil dos dltimas cinco ou seis anos. Jornalismo literério do bom, Na verda- de, do melhor. O tipo de jornalisme em que desde jovem se vem aperfeicoando esse admirdvel intelectual brasileiro vindo de Alagoas para o Recife: nascido de novo como intelectual no Recife; e apés a experiéncia recifense *Publicado em O Cruzejro (Rio de Janeiro} de 7 out. 1961, p. 66. 83 (que nele agucou as qualidades alagoanas e as virtudes pro- vincianas, depurando-as apenas do que fosse mau provin- cianismo) instalado no Rio Mas instalado no Rio sem se fazer notar pela ganan- cia de sucesso; sem se distinguir por falsos brilhas; e sim com uma discricfo ma verdade exemplar. Sobria, e até elegantemente. Elegantemente, néo no modo de vestir-se, mas no de comportar-se numa cidade onde uns tantos brasileiros de provincia tém adquirido o gosto pelo trajar elegante e, 20 mesmo tempo, perdido o da outrora chama- da “‘elegancia moral”. Com excessiva modéstia, adverte o escritor Valdemar Cavalcanti no seu livro — seu primeiro € aventuroso livro! — que outra coisa ndo pretende ser sendo um testemunho, um depoimento “‘talvez Util ao estudioso das condicdes peculiares a atualidade literaria’’. Na verdade, é rnais do que isto. Bem mais do que isto. Pois em primeiro lugar é um livro escrito com uma atraente graca literdria que, quase a cada pagina, caracteriza o escritor no jornalista atento, por dever de officio, ao novo e ao atual. E uma afirmacdo de talento literdério capaz de resistir & prova de fogo do livro: prova tao diffeil de ser vencida pelo puro jornalista, por mais brilhante que seja na arte apenas jornalfstica. Varias de suas cronicas séo na verdade pequenos en- saios de um inconfundivel sabor literario, Pequenos en- saios nos quais se afirma um cr{tico que junta 4 sensibilida- de e a boa literatuia a seguranca na interpretacZo dos valo- res com que lida, Estdo neste caso “Antiescritores’’, Al- manaques”’, “Alencar”, “Padries de Poetas’’, “‘O Negro que Tinha a Poesia Branca”, “José Lins, Cronista”. E é pena que nao tenha desenvolvido o seu esboco de ensaio “Os Homens Asperos”, 84. So paginas todas elas de bom e algumas de excelen- te ensafsta. Paginas de alguém que sabe tratar assuntos sutilmente literérios com uma inteligéncia critica que as vezes falta aos criticos por assim dizer sacerdotais no seu modo, alias respeitavel, de exercerem a critica. Tenho a impressio de que Valdemar Cavalcanti de- veria ter-nos dado haé mais tempo o seu primeiro livro. A “aventura do livro” ocorreu-lhe jé em plena maturidade, O que raramente acontece num Pais como o Brasil: aqui os candidatos a escritor néo costumam esperar pelo amadure- cimento do seu talento ou pela plena definicéo da sua vo cacao. Antecipam-se em aparecer em livros dos quais as vezes se arrependem. Pois descobrem que fizeram imprimir em caro papel o que deveria ter sido garatujado em areia. O escritor Valdemar Cavalcanti nunea se arrepende- ré — penso eu — de ter publicado o seu Jornal Literdrio, E livro que o consagra escritor. Livro que o situa entre aqueles varios brasileiros que, escrevendo em jornais, fa- zem — 4s vezes até sem o saberem — prosa literaria,da boa e até da melhor. Ao contrario de uns tantos outros que se supdem esti- listas ou artistas literdrios de tao elevada categoria intelec- tual e de tao perfeita pureza estética que desdenham do. mais leve contato com as jornais, envolvendo no seu des- dém quantos escritores, seus contempordneos, escrevem para jornais. A verdade, porém, é que a prosa de tais este- tas nem sempre vem resistindo ao tempo com as virtudes de prosa superiormente antijornalistica por eles ambiciona- das do alto do seu esteticismo literdrio. Dai um Jo#o do Rio — por exemplo — vir sobrevivendo, como mestre de prosa brasileira, a académicos da sua época que, por puris- mo literdrio, se resquardaram quanto possivel dos, para eles, degradantés contatos com semanarios e jornais. 85