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ARTIGO

Fórmulas da sexuação1
Geraldo Natanael de Lima
Resumo: Na sexualidade não existe complementaridade entre um homem e uma
mulher, não existe relação sexual da vertente do ter, pois não há simetria/equivalência
entre o gozo masculino e o gozo feminino. É a falta individual que permite tornar
alguém objeto de desejo para o outro. O homem busca uma mulher, e uma mulher um
filho além do outro gozo, fazendo do homem o seu procurador. O homem, que busca
uma mulher, encontra nela outro sujeito barrado no lugar do suposto objeto a de sua
fantasia. O mesmo ocorre com uma mulher, pois ela obtém a criança, mas só pode viver
com seu filho as desilusões cotidianas de perdê-lo a cada dia, já que ele também não
poderá encarnar o que lhe falta.
Palavras-chaves: Fórmulas da Sexuação; A mulher não existe; Não existe relação
sexual.
O homem e cada mulher gozam da sua maneira. Na fórmula da sexuação, Lacan2
afirma que todo homem (∀x) está submetido à função fálica (Φx), pois todos os homens
(espécie humana) passaram pelo processo da castração (exceto o pai da horda
primitiva), assim todos os homens gozam falicamente e só tem esta opção de gozar.
O “falus” é um símbolo grego do pênis em ereção, porém a referência ao falo
não é a castração via pênis, mas a referência ao pai, ou seja, a referência a uma função
que mediatiza a relação da criança com a mãe e da mãe com a criança. Lacan aborda
que o pai não é o macho copulador, o pai é uma metáfora - um significante que substitui
outro significante - na sua função no Complexo de Édipo. O pai, o Nome-do-Pai, é uma
lei, uma função que instaura a proibição e com isso a falta, outro nome para a castração.
A função paterna é ocupada por tudo que interdita, que barra o sujeito, que barra o gozo,
e pode ser ocupada não necessariamente pelo pai genitor.
Todo gozo fálico pode ser escrito pelo neurótico, logo está suportado pelo
significante. Para ser homem, tem que gozar falicamente, para ser uma mulher não
necessita gozar falicamente, pois tem como opção o gozo a-mais, o gozo dos poetas.
Ao sair da fase identificatória do estádio do espelho, a criança, em quem já se
esboça um sujeito, nem por isso deixa de estar numa relação de indistinção quase
fusional com a mãe. Esta relação fusional é suscitada pela posição particular que a
criança mantém junto à mãe, buscando identificar-se com o que supõe ser o objeto de
seu desejo. Esta identificação, pela qual o desejo da criança se faz desejo do desejo da
mãe, é amplamente facilitada, e até induzida, pela relação de imediação da criança com
a mãe, a começar pelos primeiros cuidados e a satisfação das necessidades. Em outras
palavras, a proximidade dessas trocas coloca a criança em situação de se fazer objeto do
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Trabalho III, apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Psicanálise Lacaniana da Escola
Bahiana de Medicina e Saúde Pública, com fins de avaliação (Julho/2013). Coordenação: Célia
Sales e Orientador: Bernardino Horné. Respondendo a questão: "O que lhe interessou dentro da
problemática: da transferência ao real, interpretação, corte e formulas da sexuação. Justifique".
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LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: mais, ainda [1972-1973]. 2ª Ed. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed. 1996.

produzindo não uma possibilidade de completude. a qual indicaria a todas as outras mulheres o lugar de um gozo equivalente ao gozo do Pai simbólico. que possibilita a existência do conjunto dos homens. pois não existe um significante que dê conta. não existe agrupamento. Compreendemos assim que "O homem". ela é não-toda fálica (∀x Φx). ulher. a ontogênese recapitula a filogênese. são os faltantes (o sujeito dividido $)) e podem contar e ser contados. o gozo dos místicos. ou seja. ". Na lei dos conjuntos. pois é impensável. mostrando que a história individual de cada sujeito não é mais do que a repetição da história da própria humanidade. pois não passa pela castração toda oda (já ( nasce castrada.. ou seja. somos 2 . Todos aqueles submetidos à Na categoria homem lei fálica gozam ou tem acesso ao gozo fálico. sem o pênis. Não faz conjunto. omem inclui os machos e fêmeas. Édipo a proibição do incesto e a castração. Nestas condições. é real. exatamente o falo. pois também goza de um outro gozo. Nesta categoria se encontra a mulher. ou seja. a-mais. diferente do gozo fálico. mulheres Freud dá com esta abordagem um fundamento histórico ao mito de Édipo. surge o ódio que priva os outros machos ao acesso às fêmeas. excluído dos outros homens devido à castração. a verdade do desejo feminino está ligada ao real que apontaria a causa do desejo. ). Com o pai da horda morto ninguém pôde ocupar o seu lugar. humanidade. é o gozoo sem palavras. para se ter um conjunto é necessário que um elemento fique de fora e este é o pai da horda ou o pai morto. O único homem que não foi castrado foi o “pai da horda primitiva” (Totem ( e tabu). e não se pode contar neste conjunto. o objeto original fálico) e nenhum elemento mento está fora ou excluído (como o pai da horda). o mais forte (Charles Darwin) vai à frente e tem o direito de ter as fêmeas. ou seja. "A" no sentido universal seria necessário supor o mito de “ao menos uma mulher” que fosse exceção à função fu fálica. incesto Não-toda mulher ulher (∀x) ( está submetida à função fálica (Φx). exceto o pai da horda que possibilitou a existência dessa regra universal. Este objeto suscetível de preencher a falta do outro é. pois agora os homens não poderiam gozar de todas as mulheres. Φx). Existe outra categoria que não faz conjunto. que tem um gozo adicional. Os outros machos da horda selvagem serão os filhos e devem ser submissos ao pai ai da horda que lhe dá proteção. ao pai da horda". Para que “A mulher exista”. um “gozo inacessível e proibido”. pois apesar de todas as mulheres serem submetidas ao processo de castração (∃x ( Φx). porém juntos conseguiram realizar este ato. o que conhecemos como o gozo místico ou o gozo do corpo. a proibição ao incesto.. Na lei da selva ou horda primitiva. No mito do assassinato do pai da horda. pois ninguém poderia enfrentá-lo lo individualmente. pois na fórmula da sexuação no lado feminino. gozo do corpo. surgindo assim à lei do incesto in e da castração. Para Freud reud a verdade do desejo feminino estaria ligada à relação da mulher como a lei do desejo. filho Para ara Lacan. o que seria sempre presentificado pelo pai e na qual ela poderia vir a ser toda oda por meio de um filho. Afirmar que “A mulher não existe” equivale a evocar alguma coisa de sua relação com o gozo fálico. homens Todos os que têm acesso ao gozo fálico (x). todos os homens estão submetidos à lei fálica. somente pode ser contado um a um. não é o gozo da linguagem. pois pertencem ao conjunto. místicos O gozo do corpo é uma suposição. fálico.que é suposto faltar à mãe. teríamos então “A mulher” equivalente a “O “O Deus pai. é o gozo do real. mas um gozo a-mais..

mas não se usa o artigo definido d "A mulher". como o que se produz como resto da própria rópria articulação significante. pode se desdobrar de forma diferente sobre o significante mulher. suplementar um gozo a-mais. as histéricas que tentam o tempo todo estarem do d lado do significante masculino. Este gozo não pode ser escrito. Sendo assim. só pode experimentá-lo. acesso Lacan teoriza as fórmulas da sexuação. já que não há uma que seja exceção a essa função. Uma mulher não sabe falar desse outro gozo. significante como objeto a. formas pois tem acesso ao gozo fálico e ao outro gozo. mas existem mulheres. não “A mulher”. a parte enigmática. ou seja. uma mulher. ninguém decifra o enigma da feminilidade. ou melhor. para todos. e a feminina ao que está além do significante. uma mulher participa partici do universo do gozo fálico. O S(A) é o significante da falta no Outro... o gozo dos poetas. uma mulher. por sua vez. la. parcialmente não-toda na função fálica. de algum modo aberto por uma ausência do significante e constitui um dos polos de vetorização do gozo feminino. Nem todas as mulheres se colocam no lado feminino. no registro do real. "A mulher ulher" encontra-se na origem do mal-estar estar das mulheres e dos homens. experimentá Em todos os tempos os homens se interrogaram sobre sobre o enigma do que é ser e o quer uma mulher. mas têm uma abertura maior para esse lado. e sim à partilha entre a parte masculina e a feminina do ser falante. Assim como o enigma de seu gozo. Este outro gozo. Entretanto uma mulher não alcança o homem senão nas relações que mantém como falo Φ. que nos lembra que esse lugar é faltante. recuam horrorizados por se depararem com "A mãe" ou se decepcionam ao vê-las vê reduzidas a um objeto de gozo que se lhe escapa por dentre os dedos. existe uma mulher. “A mulher não existe” foi à formulação a que chegou Jacques Lacan para dar conta da posição feminina e da não existência de um significante capaz de definir "A mulher" como representação do tão idealizado eterno feminino. isto é. ulheres. nenhum significante escreve o gozo feminino. entre o gozo fálico e o outro gozo. Essa singularidade feminina é determinante tanto para o plano da identidade sexual do sujeito como para o plano de como esse sujeito goza. restando-lhe restando a condição de bascular de um lado para o outro. Cada mulher só se inscreve parcialmente. A possibilidade de a mulher gozar tanto do gozo fálico como do gozo do corpo confirma. que não correspondem à divisão entre homens e mulheres.. feminino como por exemplo. É o lugar do gozo místico. a impossibilidade de estabelecer uma relação sexual de equivalência. eal. Elas estão sempre na busca de uma identidade que lhes seria própria. ao Um.. não existe essa mulher universal.colocados no “impossível”. ao que não admite nenhuma universalidade. As mulheres não se colocam todas odas na parte direita das fórmulas. é o gozo suplementar. onde pode vir se desenvolver por excelência o que não procede do gozo fálico. gozando de diferentes formas. já que como sujeitos falantes estão no $ do lado masculino. masculino As fórmulas da sexuação mostram que a parte feminina do ser falante é indizível izível e a parte masculina é falante. ao buscá-la. pois não tem algum significante que a represente. Ou seja. própria enquanto ele. Assim. tal como é colocada pelo significante. melhor a que gozo ou gozos cada sujeito tem acesso. A A mulher não existe. ulher”. e que é oferecida aos neuróticos na forma de identificação com o falo... uma mulher e não todas as mulheres. que marca precisamente a afinidade efetiva do gozo da mulher à questão da falta no Outro. As mulheres encarnam. A parte masculina corresponde ao universal. com o 3 . pois o “A” é barrado... significante. A parte feminina se apresenta como não-toda não fálica.

com a outra e mais outra. mas que a relação sexual não é possível devido a impossibilidade impossibilidade de uma relação de equivalência. Isto determina que as mulheres se percebam mais claramente como uma mascarada. nenhuma o castra" (SORIA. o que imita é esse traço de afetação. e não um homem. Os homens também temem ser um engodo e se sentem obrigados a fingir ngir que têm o que sabem que não têm. É uma mulher. Mas a mascarada do lado das mulheres é tão evidente que. quando um homem pretende imitar mulheres. como as a mulheres. ao trepar com outros homens. Essa verdade evidente nas mulheres é a de todo ser ser falante. falicamente Compreendemos então que o aforisma de Lacan de que "não não existe relação sexual". no lugar da exceção e pensam que o outro homem é que tem o falo e é frequente a queixa sobre o tamanho do pênis. já que “só a máscara existe no lugar vazio da mulher”. Inibição. só só podem ser tomadas uma por uma. já que o pênis não é o falo. Mulheres. na verdade. Salvador: EBP. mas não perde a cabeça por nenhuma. 2013. sobretudo no mito feminino de Don Juan3. porque vai com uma. O enigma sobre o gozo da mulher é concretizado em dúvidas sobre a própria capacidade de fazêlas gozar.. como o que acontece com os analisandos. porque não está está castrado. então. sexual não está dizendo que não há ato sexual. de falsidade. Menos evidente é a mascarada masculina. 2013. Sintoma e Angústia: uma clinica nodal das neuroses.homem que só tem a opção de gozar falicamente. É o que o imaginário popular nos diz das mulheres. p. Muitas vezes se colocam intimamente. Isso reforça o terror de que elas os comparem. que são todos diferentes e devem ser tomados um por um. Nieves afirma que Don Juan é um mito feminino que as mulheres criaram para explicar o seu gozo e acrescenta que: "Don Juan é. 3 SORIA Dafunchio. 4 . Nieves. uma mulher.24/25). Seminários:: Clinica da Sexuação.