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Universidade de Coimbra

Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XXI – CEIS20

Relatório final de pesquisa
Pós-Doutorado

Uma história da universidade brasileira:
tensões, contradições e perspectivas de sua identidade
institucional

Prof. Dr. Angelo Brigato Ésther

Orientação
Prof. Dr. Luis Reis Torgal
CEIS20/UC

Junho/2012
Esta é uma versão condensada do relatório completo para uso em sala de aula, contendo apenas os dois primeiros
capítulos e as respectivas referências. O relatório completo pode ser obtido diretamente com o autor. A partir
deste relatório de pesquisa, foi publicado o livro: TORGAL, Luís Reis, ÉSTHER, Angelo Brigato. “Que
universidade? Interrogações sobre os caminhos da universidade em Portugal e no Brasil”, pela Editora da UFJF
(EDUFJF), em 2014.
1

INTRODUÇÃO
Tem sido recorrente a afirmação de que as universidades estão em crise. Talvez
reflexo das sucessivas crises econômicas que vêm sendo observadas nos últimos anos, o fato é
que as universidades têm sido colocadas em xeque diante dos supostos novos desafios que a
chamada “era do conhecimento”, no contexto da “globalização”, impõem aos países,
organizações, instituições e indivíduos. No Brasil, a instituição universitária – em particular as
públicas e, mais notadamente, as federais – têm sido alvo permanente de discussões
relativamente acaloradas, sobretudo a partir do governo de Fernando Henrique Cardoso
(1995-2002), quando se promove a chamada “Reforma do Estado”, dando continuidade ao
processo de abertura da economia brasileira iniciado pelo então Presidente Fernando Collor
de Mello. O fato é que, hoje, subjaz uma discussão profunda – mas ainda não seriamente
realizada, a nosso ver – sobre o que é a universidade, que papéis ela deve desempenhar e
como deve fazê-lo, tendo em vista as diversas crises apontadas por especialistas nas últimas
décadas1.
Se voltarmos no tempo e examinarmos a história da universidade desde seu
nascimento oficial, percebe-se que ela sempre foi uma questão confusa, complexa, paradoxal
e necessária. Assim, é comum afirmar que a universidade brasileira “está em crise”. No
entanto, cabe perguntar: Qual crise? Por quê? E mais: por que a universidade (em especial a
brasileira) parece estar sempre em crise? E, em geral, sempre que há uma crise, parece ser
necessária uma reforma. A título de ilustração, e considerando a criação oficial da
universidade em 1920, foram feitas três reformas entre os anos de 1930 e fins da década de
1960, sendo que o ensino sofrera diversas reformas anteriormente (1911, 1915, 1925).
Observe-se que a primeira reforma – 1931 – ocorre apenas 10 anos após a criação da primeira
universidade. A segunda ocorre em 1942, e em 1968 ocorre a terceira. Em outras palavras, a
universidade parece ter “nascido em crise”. Ou nascido “sem identidade”? Ela precisaria ser
“reinventada” dez anos após seu nascimento. Por quê?
Como bem aponta Torgal2, a crise é própria de uma sociedade em movimento, assim
como é própria do ser humano; representa, normalmente, um estado de passagem. Espera-se
que essa passagem seja para um estado “melhor”. Conforme o autor, em termos médicos,
significa, por assim dizer, passar de um estado de doença para um estado de saúde. No

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Ribeiro (1969), Santos (1995, 2004), Ristoff (1999), dentre outros.
Torgal (2010).
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entanto, a palavra “crise” suscita diversos significados conforme o critério utilizado. Do ponto
de vista social, a concepção mais abstrata associa o termo ao “ponto crucial” de um processo,
que marca a transição de uma situação para outra. Dito de outra forma,
a crise inclui, portanto, e sempre, um risco ou ameaça, em relação a uma situação
conceptualizada de acordo com a informação, saber, e valores adaptados pelo
observador, o qual, em função desta última componente, pode valorar positiva ou
negativamente as alterações em processo, uma atitude de empenhamento que neste
ponto suspende a neutralidade científica3.

Conforme Cordeiro, “quase não seria exagerado afirmar que a crise não só faz a
história como a funda. Uma história sem crises quase não é uma história, seja ela governada
pela Providência ou abandonada a um mecanismo cego”4.
Tal situação ocorre porque a história é construída pelos atores sociais, detentores de
objetivos, ideais, ideias, e recursos variáveis, que lutam por suas posições e interesses. Assim,
as indagações acima se fazem necessárias na medida em que a universidade representa uma
das instituições mais peculiares e indispensáveis da sociedade. Se a crise é própria da história,
então é reconfortante admitirmos e aceitarmos que a universidade está sempre em crise.
Mas, ao mesmo tempo, não se trata de adotar uma posição conformista nem banalizar
a existência de crises, pois corre-se o risco de tratá-las superficialmente, deixando as questões
centrais sempre em aberto, em nome de um processo ininterrupto e inevitável. No fundo,
parece que certas crises persistem justamente porque não são devidamente colocadas em
discussão, adotando-se soluções paliativas ou temporárias, que não colocam em causa o cerne
da questão. De todo modo, parece-nos fundamental compreender suas manifestações
empíricas e concretas, ou seja, compreender as razões, as motivações, as concepções, os
interesses e pontos de vista dos diversos sujeitos envolvidos ao longo da história da instituição
e de suas crises.
No nosso modo de ver, a crise fundamental da universidade é relativa à sua identidade
institucional, o que leva a dilemas e contradições em sua atuação. Se a identidade diz respeito
à forma como alguém ou um grupo se define e como é definida por outros, e se a universidade
não possui uma representação inequívoca de sua existência, então sua gestão fica, no mínimo,
dificultada. Isso implica que seus gestores – em todos os níveis – acabam por tomar decisões
que não representam adequadamente os diversos interesses em jogo e as diferentes
concepções acerca do papel e da forma de atuação da universidade. Nesse sentido, as soluções
3
4

Moreira (2010, p. 17-18).
Cordeiro (2010, p. 41).
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podem representar apenas o resultado de jogos de poder, ao invés de representar o acordo
negociado dos diversos interesses, concepções e ações. Em outras palavras, não se nega a
dimensão das relações de poder envolvida. Ao contrário, é no contexto das relações de poder
que a identidade é construída. Assim, “construção” é uma palavra-chave, pois indica um
processo “negociado” em diversas esferas e instâncias. Ao que parece, a identidade da
universidade parece ser mais “imposta” do que “negociada”. Talvez aí resida a principal
dificuldade de se chegar a um entendimento sobre a tão desejada e polêmica “autonomia da
universidade”. Tal discussão será retomada oportunamente.
Evidentemente, a crise da instituição universitária não se dá de forma isolada nem
descontextualizada. Ao contrário, ela está no bojo e constitui um espaço muito maior em que
diversas crises coexistem, sejam elas do modelo econômico, do modelo de sociedade e assim
por diante. Se há uma crise institucional da universidade, é porque há, simultaneamente, uma
crise mais ampla e profunda das instituições enquanto elemento mediador entre o homem e a
sociedade e a decorrente criação de sentido ou significado para os indivíduos e sociedades. Se
antes, as instituições – incluindo a universidade – eram fonte de significado para os
indivíduos, atualmente tal prerrogativa parece não funcionar muito bem. Se cabia à
universidade, enquanto instituição, realizar esta tarefa, e se hoje ela não mais realiza, a própria
identidade institucional da universidade está em crise.
É nesse sentido e dentro dessa perspectiva que se justifica a discussão da universidade,
pois sua atuação é correlacionada à concepção que dela se tem e dos papéis que deve
desempenhar, sempre num contexto de relações de poder. Pressupõe-se que as representações
e identidades da universidade podem ser diversas, variadas e contraditórias, o que consiste
num desafio ainda maior, uma vez que a articulação dessa diversidade de identidades
atribuídas implica fortes relações de poder de modo a se decidir por um curso de ação. Em
outras palavras, está um jogo uma “política de identidade”, envolvendo um embate entre
diversos atores sociais, detentores de recursos e posições variadas e variáveis no tempo e no
espaço.
No que diz respeito à identidade das universidades, tomá-la como um única
constituiria uma falácia e um erro. Ao contrário, as universidades têm origens e concepções
diversas ao longo da história. Nesse sentido, e embora não utilizem o conceito de identidade
institucional, Drèze e Debelle entendem a instituição universitária segundo cinco pontos de

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vista, que denominam “concepções da universidade” 5: centro de educação, comunidade de
pesquisadores, núcleo de progresso, modelo intelectual e fator de produção. As três primeiras
concepções compõem o que os autores chamam de “a universidade do espírito”, e que dizem
respeito aos ideais mais tradicionais da universidade, sendo representadas pela universidade
inglesa, pela alemã e pela norte-americana, respectivamente. As duas últimas concepções são
agrupadas sob o rótulo “a universidade do poder”, concernentes à universidade francesa e à
soviética.
Embora façam algum sentido, as concepções de Drèze e Debelle têm um caráter mais
sociológico do que histórico, na medida em seus tipos retratam universidades específicas no
tempo e no espaço, desconsiderando os diversos estágios de desenvolvimento pelos quais
passaram as universidades ao longo de sua história, desde sua criação no século XII.
Poderíamos definir tais concepções como “identidades emblemáticas”, dadas sua importância
e capacidade de representação e de influência sobre o entendimento acerca das universidades.
De todo modo, é fato que as universidades não apresentam um desenvolvimento uniforme e
único, nem uma concepção (identidade) única. Ao contrário, embora haja semelhanças, elas
possuem configurações e concepções diferentes significativas. Da mesma forma, sofreram
mudanças significativas ao longo de seus séculos de existência 6, sendo, inclusive, fechadas e
reabertas em momentos históricos diferentes com concepções diferentes 7. Nesse sentido,
alguns autores apontam para questões relevantes, como, por exemplo, no caso inglês, a
universidade ser considerada uma criação da modernidade, a despeito de sua antiguidade8.
Torgal, por sua vez, mostra alguns paradigmas acerca da universidade, como a “universidade
política” – que deveria seguir a lógica totalitária, ou as concepções políticas do Estado – e
“universidade cultural”, baseada no texto de Ortega y Gasset, cuja ideia central era de que a
universidade deveria transmitir cultura9.
Embora negando-se uma concepção “essencialista”, a universidade pode ser entendida
como uma instituição, dado seu modo de funcionamento e dinâmica particulares, que
governam determinados comportamentos dos seus atores. Como tal, fornecem modelos
morais e cognitivos que permitem a interpretação e a ação dos indivíduos. Nesse sentido,
fornecem não apenas informações úteis para uma ação estratégica, como também afetam a
5

Drèze e Debelle (1983).
Rüegg (2007).
7
Torgal (2008b).
8
Magalhães (2006).
9
Torgal (2008a; 2008b).
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Entretanto. Em outras palavras. 15 Nos termos de Whetten (2006). Taylor (2003. sua configuração é fruto de relações de poder mais amplas. que envolvem esferas externas e internas à própria instituição. Meyer. Isso é válido também para o caso da universidade brasileira. “a identidade e a imagem de si dos atores sociais são elas mesmas vistas como sendo constituídas a partir das formas. De modo a obter a legitimidade desejada. Também está longe de ter sido meramente determinada por uma ordem social vigente e onipotente. de modo a se tornarem mais semelhantes àquelas que lhes servem de referência14. mas porque visam obter legitimidade de suas estruturas formais racionalizadas11. 14 DiMaggio. Taylor (2003. quando é criada a primeira universidade brasileira. simplesmente conformando-se de acordo com o mainstream ideológico de sua época. “as organizações adotam formas e práticas institucionais particulares porque elas têm um valor largamente reconhecido num ambiente cultural mais amplo”12.identidade. 211). Powell(1991). 12 Hall. inclusive defendendo uma missão “clássica” e quase inequívoca para o campo: ensino. Provavelmente em função das diversas concepções ou identidades possíveis. ao mesmo tempo. as instituições acabam por adotar mecanismos isomórficos. 13 Hall. a história da universidade está longe de ter sido construída de forma linear e inequívoca como a reflexão acima pode sugerir. Talvez por isso haja uma sensação de que a instituição possui uma identidade essencial ou imutável ao longo do tempo. embora dotadas de certa racionalidade instrumental. Daí suas concepções poderem ser entendidas como identidades institucionais. Meyer. P. pesquisa e extensão. pode indicar a ausência da reflexão crítica sobre si mesma. Entretanto. Rowan (1991). as instituições adotam determinadas práticas culturais. Rowan (1991). 201). P. Ao contrário. É desse modo que as universidades podem se organizar de modo muito semelhante entre si. percebese que a instituição atravessa crises – no mundo e no Brasil – que têm colocado sua atuação e 10 Hall. comparadas aos mitos e às cerimônias. a imagem de si e as preferências que guiam a ação 10. imagens e signos institucionais fornecidos pela vida social”13. Desse modo. não necessariamente porque contribuem para aumentar sua eficácia (racionalidade). pois as instituições possuem a propriedade de manter suas características por um longo período de tempo – o aspecto “duradouro” da identidade 15. cuja origem formal remonta ao Século XX. Mas. 11 6 . Taylor (2003).

relativas a projetos de desenvolvimento de governos e pela demanda de mão-de-obra altamente qualificada. fica evidenciada a necessidade de equacionar as demandas. envolvendo a questão da alocação dos recursos. A crise do modelo tem a ver com a definição que se faz da função do ensino superior. Segundo o autor. o sistema de massas (até 40%) e o sistema universal (acima de 40%). educacional e mesmo financeiro que o investimento em educação representa”17. Diante dessas questões. de acordo com os preceitos da chamada “Nova Gestão Pública”. tal lógica permanece nos dias de hoje. outros autores também entendem que a universidade (e de resto todo o ensino superior) tem vivido “em crise” há muito tempo. alteram escalas de prioridades e são facilmente ideologizadas e tratadas como se fossem antagônicas. A crise financeira diz respeito aos baixos investimentos que o governo federal vem realizando na universidade. Entretanto. cerca de 10% da população está matriculada na educação superior. Ristoff (1999.O autor se refere ao contexto do final de década de 1990. Boaventura Santos. o sistema é considerado altamente elitista. do elitismo e do modelo. que estabelece três sistemas considerando a oportunidade de acesso à educação superior: o sistema de elite (15% da faixa etária entre 18 a 24 anos têm acesso). por 16 Ristoff (1999). a universidade enfrenta três crises fundamentais16: financeira. 18 Ristoff (2000. quando do governo do Presidente Fernando Henrique. forma de atuação e gestão. Ou seja. Segundo o autor. Em outras palavras. o “país está hoje tão obcecado pela ideia de eficiência e corte de gastos públicos que se tornou incapaz de atentar para o retorno social. o autor coloca que “cresce o sentimento de que a educação superior deve estar disponível para todos o que seriamente a procuram” 18. relativas ao seu desejo e direito de investir em si próprio. A educação superior é uma atividade de múltiplas funções. Da mesma forma. p.papel em xeque. o que vem ocasionando uma série de críticas quanto à sua identidade. O autor menciona a classificação Trow. No Brasil.203). que atende a três tipos de necessidades importantes e legítimas: a) A necessidade de garantir o avanço autônomo e desatrelado do conhecimento. alcançando a universidade de forma clara e profunda. No caso brasileiro em particular. Como se verá ao longo deste texto. considerando a faixa etária entre 18 e 24. que defendia a reforma do Estado. o que passa por uma discussão do modelo de educação superior e de universidade. A crise do elitismo da educação superior diz respeito ao acesso à universidade. c) As necessidades do indivíduo. essas necessidades podem até ser conflitantes em alguns casos. b) As necessidades do Estado. P.208). mas não são antagônicas. de inspiração inglesa. 17 7 .

embora com contornos bem específicos. Nussenzweig. apontando que uma de suas decorrências é a inserção da lógica gerencial. por Cowen23. Assim. Torgal também identifica tal crise. Trindade. Leher (2004). as universidades em todos os países. Chauí. isto não implica dizer que o processo se limita exclusivamente a esta dimensão. No Brasil. 24 Ribeiro (1969). anteriormente. Em outras palavras. algo apontado neste sentido. Nussenzweig (2004). e que estas crises são concomitantes à crise da modernidade 21. entende que a crise da instituição universitária está inserida no bojo de uma crise do sistema de educação superior. não se trata de um problema exclusivo da universidade. trata-se de analisar a universidade brasileira neste contexto mais amplo de transformações.exemplo. 2004). mas de uma questão muito mais complexa que envolve os sistemas educacionais e. É o que pretendemos mostrar neste trabalho. 2008b). Rodrigues. cujos argumentos serão abordados ao longo de todo este trabalho. o que. este trabalho está organizado de tal modo que fiquem claras as permanências e as mudanças nas concepções acerca da universidade ao longo de sua história. por sua vez.35). pretende-se descrever e analisar aquilo que nos parece mais relevante para a 19 Santos (2003. Leher. Rodrigues (2001). p. forças econômicas e ideologias políticas estão mudando muito rapidamente e construindo algo novo”25. 20 8 . 23 Cowen (2002). Trindade (1999). Portanto. Sguissardi. 2006). Magalhães. mas de modos e intensidades distintas. 22 Torgal (2008a. 25 Cowen (2002. ocasiona grandes ambiguidades e contradições em sua atuação22. em que as políticas de identidade assumem uma importância vital. não é possível aprofundar em todos os aspectos concernentes à estrutura e dinâmica universitárias ao longo de cerca de mil anos. Chauí (1999). como Ribeiro. por conseguinte. Ao contrário. as críticas têm assumido um tom semelhante ao de investigadores estrangeiros. Se aqui assumimos que a universidade passa por uma crise de sua identidade institucional. passamos por “momento de mudança histórica [em que] as estruturas culturais de sustentação educacional. aqui. Evidentemente. Calhoun (2006). aponta as crises de hegemonia. Sguissardi (2005. dentre outros24. Calhoun discute a questão do bem público versus privado20. 21 Magalhães (2006). empreendedora – termo consagrado por Burton Clark – e empresarial no seio da instituição universitária. Para tanto. de legitimidade e institucional da instituição universitária19. desde sua criação no século XII. pelo menos de uma forma geral. por sua vez.

no mínimo. por assim dizer. Por conta disto. enquanto nação e país. 26 Gauer (1995).000 habitantes no país. formaram-se 1777 pessoas em Coimbra durante do século XVIII. com a consequente abertura de cursos superiores por D. Aliás. contribuiu. também. Ainda. inclusive. crítica. a universidade assume contornos e significados distintos. os movimentos pela independência 26. Segundo a autora. mas que devem ser.000. além de 300. este trabalho começa com uma breve história da universidade. rendida a uma situação contra a qual não pode (ou não quer?) lutar. da mesma forma que não se analisarão universidades específicas. e cerca de 2. que a universidade está em ruínas. alcançando os dias de hoje. seja possível pensarmos em perspectivas mais realistas para o futuro. o Brasil. e apenas 817 durante o século seguinte.000 mestiços e 500. João VI. influenciando. no primeiro capítulo serão descritas suas principais características. Por outro lado. jamais viveu a Idade Média. além de sua influência na própria organização jurídica do território. a universidade brasileira nasceu na contramão dos ideais dos republicanos. ainda que inconsciente acerca daquela época. sirvam de referência para outras e sejam aqui minimamente abordadas e descritas. principalmente nos séculos XVIII e XIX. não tem uma espécie de “memória coletiva”.500. tal como sugerem diversos autores.compreensão das contradições e das tensões acerca da identidade institucional da universidade. a posse de um curso superior era revestida de especial importância social. Ao contrário. discutidas no presente. embora tenha sido capaz de manter alguns vivos por muito tempo. Diante do exposto. ou. Talvez. Ao longo dos séculos. é peculiar diante da universidade europeia da qual é herdeira.000 índios.000 em 1808. considerada uma criação europeia de modo basicamente unânime. simplesmente por representar uma expressão concreta de um regime falido. em 1750 havia uma população branca de 1. embora as universidades “fundadoras”. mas não sem combate. especialmente. O segundo capítulo descreve a história da Universidade de Coimbra. por sua vez. da transmigração da família real para o Brasil em 1808. 9 . desta forma. e que lhe impõe um paradigma de atuação completamente distinto daquele para o qual foi criada e mantida até então. Neste sentido. pois é o destino principal dos brasileiros durante a fase colonial. pois a universidade brasileira não nasceu nem cresceu na Idade Média. em função. e por outros fatores. o presente parece indicar. segundo a autora. para a construção da nacionalidade brasileira. de modo a deixar claro seu significado genérico em seus diversos períodos. Não é possível aprofundar em cada etapa histórica. necessariamente. para quem esta significava apenas uma instituição já fadada ao fracasso. portanto. chegando aos dias atuais. De todo modo. O caso brasileiro. resistência e conflitos.

como. após séculos de resistência por parte da coroa portuguesa. o que se refletiu. representantes sindicais – professores e servidores técnicoadministrativos – e representantes discentes. são descritas em seus aspectos essenciais. Além disto. envolvendo gestores. e a despeito das diversas propostas e tentativas formais. o governo federal. em todas as suas dimensões. por meio de seus órgãos. indubitavelmente. É multidimensional na medida em que envolve dimensões financeiras. embora não constitua objeto de análise específica deste trabalho. nos casos emblemáticos da Universidade do Rio de Janeiro (URJ). o discurso oficial dos republicanos. o presente e o passado mais recente da história da universidade. obviamente. e à universidade particular. há de se mencionar e considerar um tipo de interferência na gestão. tratam-se dos conflitos existentes entre ideologias e ideais distintos e contraditórios. Embora dotadas de autonomia administrativa. principalmente. que é aquela que diz respeito às influências ideológico-partidárias no interior da universidade. pois trata-se do período em que a universidade é criada. materiais e humanas. incluindo os inconfidentes e a fase mais inicial da república. por exemplo. conforme o que se está em jogo. com maior ou menos interferência e impacto. procura-se deixar claros tanto os motivos da negação bem como da criação tardia. em termos de sua identidade institucional. Ao contrário. Universidade de Brasília (UnB) e Universidade de São Paulo (USP). Universidade do Distrito Federal (UDF). tendo em conta. por assim dizer. quando Getúlio Vargas assume o poder. Se existe algo em comum em todas as fases de sua existência. As fases “intermediárias”. Para tanto. Nesta edição. A primeira fase é fundamental. estruturais.O capítulo seguinte descreve e analisa as fases históricas do Brasil no que diz respeito à educação superior em geral. desde a proclamação até o início da década de 1930. de modo a desenhar o “desenrolar” e as mutações (?) pelas quais passa a universidade brasileira. e a fase atual. sobretudo. a partir da emergência da chamada “Nova República”. 10 . na medida em que representa. Assim. de sua criação artificial e tardia. inclui-se a dimensão política. A gestão universitária não é tema menos complexo do que a identidade institucional. a polêmica questão da autonomia. Neste sentido. a gestão é multidimensional e multinível. nas formas e nas expressões que a instituição universitária assumiu no país. em grande medida gerencia o funcionamento da instituição universitária. destacam-se duas: a fase inicial. A fase atual é também melhor explorada. dentre estas fases. se assim podemos chamar. enfatizou-se. É multinível por não se limitar apenas à instância organizacional. O quarto capítulo aponta as principais questões envolventes da gestão universitária.

em que disciplinas como gestão. numa perspectiva assumidamente interdisciplinar. às organizações. são tecidas considerações finais ao tema. apontando-se tanto os limites do estudo quanto algumas possibilidades de desdobramentos e aprofundamentos. mas procura-se oferecer uma contribuição aos estudos organizacionais. Não se esgota o tema em sua complexidade. às universidades e aos indivíduos. 11 .Finalmente. Esperamos ter alcançado tal empreendimento. sociologia e história se interconectam para a compreensão acerca dos desafios que são colocados à sociedade.

o ensino era responsabilidade. 34). o Estado. basicamente. nos tempos modernos. Embora a universidade (escola) tenha se colocado em pé de igualdade com as demais instituições apenas a partir da Idade Média. vivendo. tamanha complexidade intelectual que. a Igreja e a Escola. 29 Teixeira (1988). a universidade é. visavam formar o monge e o padre. hoje. basicamente. por meio da escola monástica e da episcopal. ela hoje é entendida como uma das grandes responsáveis pelo florescer da civilização ocidental27. Assim. 32 Verger (2001). Segundo o autor. sem a qual não chega a existir um povo. a história das suas universidades. 28 12 . p. mas essa experiência atingiu. Ambas. À época. desde a queda do Império Romano do Ocidente.] a história de todos os países que floresceram é a história da sua cultura e a história da sua cultura é. Durante séculos. 31 Janotti (1992). ela participa da história e é por esta atravessada. Sempre a humanidade viveu utilizando a experiência do passado. Contribuíram muito para o crescimento das escolas episcopais – e depois as universidades – a luta da Igreja contra os inimigos da cristandade – as Cruzadas dos séculos XI a XIII – e o decorrente desenvolvimento do comércio. período em que os mercadores 27 Teixeira (1988). na sociedade moderna. 30 Teixeira (1988. sem a experiência das universidades. [. respectivamente31. o qual não teria uma existência autônoma. numa espécie de relação dialética28. são quatro as instituições fundamentais que constroem e condicionam a vida na sociedade: a Família. Assim. uma das instituições características e indispensáveis. Ao contrário. Fávero (1980). como um reflexo dos demais 29. grande parte dela se teria perdido e outra grande parte nem chegaria a ser formulada30. religiosas e essencialmente técnicas. o ensino medieval se dava. a escola no ocidente foi uma instituição monástica 32. Desde o século VI. Anteriormente ao advento das universidades.A CRIAÇÃO DA UNIVERSIDADE NA EUROPA Segundo Anísio Teixeira. de modo a preparar os indivíduos para o clero e outras atividades.. O texto original é de 1935. Na visão de Anísio Teixeira. a Igreja decidiu abrir escolas em suas paróquias e bispados. e desde então. uma biblioteca e um ateliê de cópia de manuscritos. da Igreja. os mosteiros eram fundamentalmente compostos por uma escola.. a universidade não está à margem da história de um país. tão-somente.

Para alguns autores. logo ela é suplantada por uma nova escola: a universidade 34. a retórica e a dialética. os historiadores concordam que a universidade “não desceu dos céus sobre a sociedade nem emanou pura e simplesmente dela como uma função das forças sociais de produção. Sem o estímulo intelectual da procura racionalmente controlada do conhecimento não existiria a universidade [.. necessidades de conhecimentos técnicos para as práticas contábeis e de registro da época33. a universidade surge para manter a dominação da classe dirigente. contrariamente às perspectivas anteriores. o conhecimento atual ainda não permite conclusões nem explicações definitivas sobre quais fatores ou quais combinações de fatores fizeram com que acadêmicos principiantes e maduros se fundissem numa pessoa jurídica coletiva à qual fossem garantidos direitos e privilégios por parte das autoridades públicas da época 37.alcançam grande influência e poder na sociedade. por sua vez. ainda. 35 Rüegg (1996). envolvia a gramática. No entanto. por ser tipicamente urbana. a astronomia e a música. o amor sciendi35. para outros ela aparece em função do florescimento do comércio e transportes fomentados pelas cruzadas. Janotti (1992). Em relação ao seu surgimento. De todo modo. a universidade surge pelo interesse erudito e científico. 10-11). apenas poderia ter surgido nas circunstâncias econômicas. havia as chamadas “artes liberais”. divididas em dois grupos: o Trivium e o Quadrivium. com o objetivo de habilitar o futuro eclesiástico a compreender e expor as Escrituras Canônicas e outros escritos. p. O primeiro grupo. 37 Rüegg (1996). 34 13 .. a universidade. As artes liberais eram sete. enquanto o segundo era uma instrução avançada. Atualmente. pode-se perguntar se a universidade é um resultado da sociedade em que existe ou se ela é um fator na formação dessa sociedade. Por outro lado. Existem uma interacção e uma influência mútua entre a universidade e a sociedade na qual ela está integrada. devido ao renascimento urbano e cultural. Os estudos eram dirigidos prioritariamente para as ciências sagradas ou estudos teológicos. e.] A nova instituição social. a geometria. mas no decorrer do século XII. políticas e sociais particulares de certas cidades européias no início da Idade Média”36 . A escola monástica preponderou sobre a episcopal até o século XI. ficando as ciências desleixadas e as questões filosóficas centrais evitadas. pelo desejo de aprender e de saber. herança da cultura antiga. envolvendo a aritmética. o que vai acarretar. 36 Rüegg (1996. a escola episcopal se sobressai. Para completar o ensino teológico. parece ser 33 Le Goff (1995). considerado como instrução elementar.

Os papas tinham três interesses principais na existência da universidade. Em segundo lugar. já crescentes. 38 39 Verger (1996). Em terceiro lugar. embora muitas das vezes justificassem a fundação de uma universidade como alternativa para que os súditos não precisassem estudar no estrangeiro. pretendiam reforçar a posição de uma doutrina racionalmente inteligível. em função de seus privilégios e benefícios legais. administrativos e comerciais. sob sua jurisdição e proteção diretas. a cúria já havia reconhecido a importância da educação erudita na formação de pessoal. para enviar seus decretos para tratamento e difusão nas aulas. usavam as universidades. o que lhes era muito caro economicamente. Diante destes objetivos. os colocavam em dívida para com a Igreja. “os poderes político e eclesiástico esperavam obter apoio e reforço para o domínio de que usufruíam. o pagamento de prebendas e benefícios eclesiásticos aos monges ou padres. serviriam como meio de controle e organização dos estudos da época. de modo a resolver problemas dogmáticos e legais da política eclesiástica. Os reis e monarcas esperavam uma ajuda intelectual e individual no estabelecimento e consolidação das instituições que enfrentavam oposição das aristocracias. Da mesma forma. todos os atores sociais esperavam encontrar apoio do saber acadêmico e científico para a luta por sua existência (Quadro 1). de modo a evitar que as heresias. Assim. Em termos gerais. 14 . Assim. As universidades também serviam aos seus propósitos de manter seu domínio territorial. Embora houvesse um nível elevado de conflitos entre a cidade e os estudantes das universidades. século XII. se espalhassem ainda mais. as cidades passaram a perceber vantagens em possuir uma universidade em seu território. p. a necessidade de recrutar pessoal para seus serviços.13). Rüegg (1996. num ambiente repleto de ordens religiosas e de homens de cultura. desejam consolidar os poderes centrais do pontificado face aos poderes terrenos e interesses feudais das diversas regiões. uma instituição original que só pode ser compreendida em termos de sua história de surgimento e do seu modo de funcionamento em termos concretos38. os papas viam a universidade como uma instituição que. os habitantes das cidades universitárias pretendiam um bem-estar acrescido39”.uma unamidade que a universidade é uma criação europeia da Idade Média. os estudantes e os professores procuravam saber e vantagens sociais. por exemplo. A esta altura. Em primeiro lugar. na medida em que esta formava pessoal capacitado a resolver problemas legais. e embora a existência da universidade não fosse necessária para alcançar seus objetivos.

A maioria dos alunos esperava. levando os professores a se distinguirem na sociedade. inicialmente. num ambiente repleto de ordens religiosas e de homens de cultura. sobretudo ao final da Idade Média. basicamente. distância. Mesmo com toda a obsessão em torno dos estatutos. a pessoa poderia ingressar desde que possuísse os recursos necessários. as razões para tal facilidade de acesso: a característica fundamental da universidade. Em seus períodos iniciais. Ajuda intelectual e individual no estabelecimento e consolidação das instituições que enfrentavam oposição das aristocracias. nem mesmo deficiências físicas. Professores Oportunidades de nomeação para cargos públicos compensadores. irmandades. os conhecimentos superiores se mostrariam importantes. o que lhes era muito caro economicamente. Com o tempo. o que lhes conferia segurança e liberdade para seus estudos. fosse advogado. além de proporcionar status e reconhecimento social. Baseado em Rüegg (1996). Recrutar pessoal qualificado para seus serviços. por sua vez. oportunidades de nomeação para cargos públicos compensadores. corporações comunais. Consolidar os poderes centrais do pontificado face aos poderes terrenos e interesses feudais Papas das diversas regiões. Assim. médico ou teólogo. 15 . A universidade foi concebida. características da vida coletiva das associações. sobretudo se não fossem Alunos de classes economicamente mais privilegiadas. gozavam dos benefícios garantidos pela Igreja. em nada influenciando sua origem. embora muitas das vezes justificassem a fundação Monarcas de uma universidade como alternativa para que os súditos não precisassem estudar no estrangeiro. também. riqueza ou pobreza.Os professores e estudantes. Quadro 1 – Expectativas dos atores sociais quanto à Universidade durante a Idade Média Atores sociais Expectativas Reforçar a posição de uma doutrina racionalmente inteligível. a Cidadãos despeito dos níveis de conflito que existiam. 40 A história subsequente da universidade é “a história da progressiva Schwinges (1996). administrativos e comerciais. e o sistema geral de educação que existia na Idade Média40. embora não tivesse precedência sobre aqueles que não tivessem grau acadêmico para exercício da profissão. Garantia de privilégios e benefícios. as universidades aceitavam todos os que desejassem se tornar membrum universitatis. como uma associação de indivíduos. Ajudar a manter seu domínio territorial. status. eram duas. sobretudo se não fossem de classes economicamente mais privilegiadas. Os professores adquiriram estatuto especial. Formar pessoal capacitado a resolver problemas legais. colégios e famílias. incluindo a cegueira.

o único critério segundo o qual alguém era admitido na universidade. avaliar o estudante. A rigor. Schwinges (1996. O elo entre o estudante e o magister era. Boécio etc. algo que só vai acontecer a partir de meados do século XVI. não havia requisitos prévios quanto a conhecimentos ou certos padrões de educação para ingresso na universidade. a associação de estudantes em torno do professor era a regra geral. não se provou ainda se todos os que frequentavam a universidade sabiam ler e escrever. Em sua maior parte. O ensino não foi profissão acadêmica durante os séculos XIII a XV. independentemente de se basear no modelo de Paris ou de Bolonha. Era tarefa do professor universitário enquanto indivíduo. que ficavam sob sua proteção.institucionalização. 42 16 . cujo “aparecimento constitui um enorme passo em frente no sentido do conceito da universidade como instituição. ‘despersonalização’ dos universitas studii”41. Não havia uma sucessão de estágios nem dependência de formação em uma escola para frequentar outra. controle e poder. Ao ingressar. Não havia um edifício principal. Quanto ao sistema educacional da Idade Média. A frequência às aulas não eram obrigatórias nem absolutamente necessárias. As transferências eram comuns. ao quais tinham como inspiração Aristóteles e Cícero. p. portanto. incluindo da universidade para outras escolas. A grande virtude das universidades em relação a outras escolas era o fato de que ela habilitava o seu mestre ou doutor a ministrar aulas em outras escolas e universidades de qualquer parte44. 173) 43 Schwinges (1996). em geral muito jovens. 172). finalmente. 41 Schwinges (1996.). O magister desempenhava um papel de garantir a disciplina dos estudantes. as universidades estavam estruturadas em termos de concepções pedagógicas e classificações de conhecimentos herdados dos reformadores carolíngios (Alcuíno). dos Padres da Igreja (Santo Agostinho. em oposição ao conceito da universidade como uma associação de indivíduos em torno de um professor”42. São Jerônimo) e dos teóricos da Antiguidade (Quintiliano. quando os estatutos tornaram-se mais rigorosos43. As universidades eram constituídas por comunidades de indivíduos. que continuou até os tempos modernos. p. e não da universidade como um todo. racionalização e. e que continuou como o padrão generalizado até fins da Idade Média. a despeito das crises e transformações por que passaram as universidades em toda a Europa. o estudante escolha seu magister de acordo com um conjunto de regras. 44 Schwinges (1996).

É.] Os bedéis marchavam à frente dos reitores e dos professores transportando bastões de comprimentos diferentes. insígnias e festividades: A complexa participação nos acontecimentos das universidades exigia a ordenação simbólica das ideias em rituais e cerimónias. As disciplinas eram classificadas por uma autoridade (textos básicos e comentadores reconhecidos). registos e livros de estatutos. tais como o caráter religioso de cada uma. lições. chaves. objectos. determinada por critérios positivos.. serviços religiosos e até mesmo as refeições e as festividades observavam sequências rituais de palavras. ficavam excluídas disciplinas como história. correntes. excluindo-se todas aquelas que parecessem “profanas”. Artes46. gestos. a despeito de só se receber o estatuto de Universidade aquela que tivesse uma faculdade de Teologia. seguida do Direito e da Medicina e. defender ou refutar uma tese de todos os gêneros – filosóficos. aberturas do ano lectivo. dentre outras. Congregações. exames. ou seja. basicamente escolástico. que compreende uma classificação. Os ceptros eram os sinais visíveis do poder autônomo e. p. togas e gorros. Em Bolonha. os doutores acabados de nomear recebiam anéis de ouro. um debate oral conduzido segundo as regras do silogismo aristotélico. Os métodos de ensino tendiam a ser os mesmos em todas as universidades da Idade Média.. anéis. 46 17 . 48 Gieysztor (1996. “lucrativas” (que proporcionasse rendimento a alguém) ou “mecânicas” (relacionada com a matéria). Consistia no uso corrente do latim como língua de debate erudito. jurisdicional dos reitores [. uma hierarquia e um método45. medicina. primeiro vinha a Teologia. 47 Verger (1996). 45 Verger (1996). para que este pudesse participar da disputa. portanto. Desde o início. direito e artes liberais. música. que servia para estabelecer. direito consuetudinário. Por serem determinadas. juntamente com a sua licentia docente”48. o studium generale expressava seu caráter e imagem por meio dos seus trajes. 138). procedimentos jurisdicionais. de sua utilidade social e sua dignidade intelectual. proporcionando o domínio das “autoridades” ao estudante. uma herança tripla. por fim. selos. judiciais. Verger (1996) afirma que não se deve tomar as Artes Liberais como meras faculdades preparatórias. Direito ou Medicina. poesia. cálices. Nesta hierarquia. que funcionavam como base para outras disciplinas como a teologia. tomadas de posse. As insígnias universitárias abrangiam um número bastante grande de objectos simbólicos usados de muitas maneiras e em diferentes ocasiões pelos membros dos órgãos académcos: ceptros e bastões. teológicos etc47. Entre aquelas disciplinas havia uma hierarquia. primando-se pelo exercício de duas práticas: a lição e a disputa. especialmente. A lição consistia na leitura dos textos básicos e seus comentários de cada disciplina. luzes e mobiliários e formas de vestir precritas.

o amor sciendi e sua respectiva forma institucional: a universidade52: 1. respeitando a ordem pública do reitor50. jurava cumprir e preservar os estatutos vigentes e futuros. tinham em comum a busca de uma autonomia legal e da manutenção de prestígio profissional e corporativo da sociedade da época 51. e as cores assumindo significados diferentes mais adiante. Por volta do final da Idade Média. Rüegg procura estabelecer. social e legalmente. hipoteticamente. daí o papel da investigação científica e acadêmica como uma tentativa de entender esta ordem racional da criação divina. A crença numa ordem do mundo criada por Deus.O traje acadêmico também surge nesta época. Bolonha e Oxford. Também na era medieval surge a prática do juramento. No século XV era visível a influência da moda laica no vestuário acadêmico. A antiga concepção do homem como um ser imperfeito e a ideia judaico-cristã de uma criatura caída em pecado. o que serviu para a manutenção da cooperação colegial. enquanto instituições. É desta moda que nasceu a toga de mangas em forma de asa usada na Alemanha e Inglaterra. por outro lado. sendo a regra canônica a idade de 14 anos. adquirindo um corte próprio no século XIV. Schwinges (1996). A cappa clausa – uma capa com capuz e buraco para a cabeça – foi introduzida no século XIII para uso clerical fora de casa. sendo adotado em Paris. gorros e capelos. jurava promover o bem-estar da universidade independente de seu grau ou posto acadêmico. tendo origem no vestuário do clero secular. que podia ser recusada pelo reitor caso o estudante não o fizesse. O juramento tinha quatro características básicas: o recém-chegado jurava ao reitor até fosse lícito. 49 Gieysztor (1996). 2. e jurava renunciar a qualquer forma de vingança pessoal. racional e acessível ao entendimento e explicada pela razão.incluindo bonés. idade comum entre os estudantes. o juramento tinha de ser feito para concretização da matrícula. A idade mínima para o juramento era variável conforme a universidade. de onde deriva a ideia da limitação cognitiva do homem. baseada em valores éticos tais como a modéstia. a reverência e a autocrítica. Se as universidades. 51 Gieysztor (1996). Embora houvesse diversas possibilidades de não fazê-lo. tinham estatutos muito diferentes em fins da Idade Média. os valores que legitimaram. na Idade Média. moral. em termos religiosos. numa faixa entre 10 e 16. cada faculdade usava trajes de formato e de cores distintas 49. 50 18 . 52 Rüegg (1996).

bem como a abertura às objeções a um argumento pessoal. No entanto. o caso da universidade portuguesa será demonstrado adiante. tais como a negação de conhecimentos provados. universidade de mestres. uma dádiva de Deus. No entanto. seu valor econômico é maior no âmbito das profissões cultas exercidas fora da universidade. Foi somente no decorrer do século XV que a distinção entre universitas e studium generale desapareceu e os termos passaram a ser praticamente sinônimos (JANOTTI. Daí o fato de o termo ser usado sempre de forma relativa: universidade de estudantes. abarcando certos domínios do saber. 54 19 . sendo assim o progresso do conhecimento um processo contínuo de reformatio. tanto melhor a universidade cumpria seu papel. são valores básicos e gerais. 5. a autonomia e a liberdade acadêmica serem consideradas a essência da 53 Trindade (2000). Daí o corporativismo. não evitou que o ensino e o estudo fossem motivados pelo dinheiro. o termo universitas é utilizado para designar corporações de professores e estudantes. Evidentemente. que já havia conduzido na escolástica às normas básicas de ensino e investigação. Trindade entende a universidade em quatro fases. 7. 1992). mesmo na era medieval. No fim do século XII e início do século XIII. Para ele. universidade de comerciantes etc. mas continuou a ser aplicada a outras corporações. Na Idade Média. a sujeição das afirmativas às regras da evidência. eles dão uma demonstração do que consistiam os fundamentos da universidade na Idade Média.3. o que seria. e que se implanta em todo o território europeu sob a proteção da Igreja romana 53. a partir das experiências precursoras de Paris e Bolonha. tal como visto acima. a universidade se organiza a partir de um modelo corporativo e em torno de uma catedral. em última instância. Quanto maior o nível dessa igualdade e quanto mais de perto se ligava à responsabilidade comum do progresso do conhecimento. as universidades tornaram-se estéreis e algumas deixaram de existir. A corporação de professores e estudantes é a base da universidade 54. Nesse aspecto. baseando-se em conhecimentos anteriores. 4. O conhecimento científico e acadêmico cresce de forma cumulativa. como a Teologia. o termo que mais tecnicamente corresponde à universidade não era universitas. 6. o que não impedia diferenças significativas entre as universidades nem uma série de conflitos internos. O respeito pelo indivíduo como um reflexo do macrocosmo ou tendo sido criado à imagem e semelhança de Deus. A igualdade e solidariedade entre os universitários permitiram às universidades se tornarem centros institucionais da comunidade científica. O absoluto imperativo da verdade científica. e o caráter público da argumentação e debate. o que lançou as bases para a liberdade de investigação e do ensino. o primeiro período é aquele que vai do século XII até o Renascimento e corresponde ao período de invenção da universidade tradicional. O reconhecimento da sabedoria enquanto bem público. mas studium generale. Em sua fase áurea. o Direito Romano e o Canônico e as Artes. Quando isso não acontecia.

O humanismo atinge a Europa de forma heterogênea. A Renascença tem seu epicentro na Itália. com o desaparecimento do feudalismo. A universidade de Louvain (Bélgica). situada entre a civilização francesa e a alemã. Oxford e Cambridge (Inglaterra). 56 Janotti (1992) destaca as principais universidades que surgiram de forma espontâena (ex-consuetudine): Bolonha. bem como o processo ultramarino de Portugal e Espanha59. Nápoles. Cambridge (Inglaterra) e Valladolid (Espanha). Essa questão será retomada o longo do trabalho. Siena (Itália). Oxford e Montpelier (século XII). as universidades passam para o controle dos príncipes. O desenvolvimento de suas principais universidades (Roma. imperial ou real (ex-privilegio). 109): Nápoles (fundação imperial em 1224). Siena. vários papas e imperadores começaram a atribuir privilégios àquela instituição. 59 Serrão (1983). tratando-se apenas de retratar a visão do autor nesse momento. Salamanca. O autor destaca aquelas que foram criadas por meio de bula papal. Salamanca (antes 1230) e Sevilha (1254). em 1244 e 1248). de Toulouse (fundação papal em 1229). a instituição se constitui espontaneamente por bula papal ou imperial. de modo a preservar sua autonomia. Na Alemanha. A concepção da universidade medieval possui três elementos básicos: voltada para uma formação teológico-jurídica que responde às necessidades de uma sociedade cuja cosmovisão é católica. Paris. Neste período. particularmente no capítulo sobre a universidade brasileira. 57 Trindade (2000). influindo especialmente nas universidades inglesas. Nápoles e Pavia (Itália). além dos efeitos da Reforma e da Contra-Reforma (século XVI)58. quando a universidade renascentista sente o impacto das transformações comerciais do capitalismo e do humanismo literário e artístico. organização corporativa que detém seu significado medieval original. e preservação da autonomia diante do poder político e da Igreja57. Em função de conflitos entre a universidade e os poderes locais da Igreja ou do governo. Pádua. 20 . É neste período que surgem as universidades de Toulouse (França). Vercelli. Orléans e Angers (França). da Cúria Romana e Piacenza (fundação papal. Arezzo. 58 Trindade (2000). e da universidade de Lisboa-Coimbra (fundação real em 1290). O segundo período inicia-se no século XV. das universidades espanholas (fundações reais) de Palência (1212-1214). e a vinculação ao Estado 55 Não estamos adotando uma perspectiva essencialista da identidade da instituição universitária. Surgiram ainda (século XIII) de forma espontânea as universidades de Vicenza. que são “o resultado dos desejos pessoais submetidos às exigências da política” (p. Valência e Valladolid (Espanha) – a primeira a ter uma legislação elaborada por um Estado – e Coimbra (Portugal) 56. sobretudo devido à influência do poder real que é fortalecido nesta época. tornando-se um importante centro do renascimento literário da Europa.universidade medieval55. realiza a transição para o humanismo sem romper a tradição medieval. Florença) e da Academia Neoplatônica é fundamental para o fim da hegemonia teológica e para o advento do humanismo antropocêntrico.

Cambridge. Assim. mas as universidades não se deixaram influenciar tão rapidamente. Neste sentido. Salamanca e Lisboa (Coimbra) 61. A Reforma e a Contra-Reforma introduzem um corte religioso radical entre as universidades. Com exceção das grandes metrópoles.se estabelece no século XVI como um dos padrões da universidade européia. Inglaterra e Alemanha. por meio das quais os reis ampliaram seu poder. Assim. o protestantismo não deixou de se apoiar nas universidades. a tendência no fim do século XV foi a da valorização das universidades “nacionais”. O terceiro período abrange os séculos XVII e XVIII. o que vai permitir sua inserção nas universidades a partir da pesquisa. 61 21 . marcando a transição para os modelos que irão se desenvolver no século XIX. a despeito das mudanças que vinham se processando na Igreja 63. especialmente com a universidade Gregoriana. são fundadas as primeiras cátedras científicas e surgem os primeiros observatórios. 63 Serrão (1983). Astronomia. 62 Serrão (1983. as universidades entram em crise. jardins botânicos. enquanto a ordem jesuíta amplia o campo da Contra-Reforma na Alemanha. em função do desenvolvimento e descobertas no campo da Física. Serrão (1983). Até o século XVII o cientista não possui um papel especializado na sociedade. museus e laboratórios científicos. enquanto na península ibérica a “tradição religiosa era vigilante contra todas as formas de ortodoxia” 62. que reage por meio da Contra-Reforma. A Reforma tem desdobramentos calvinistas e anglicanos. que ainda procuram manter a tradição medieval. os debates mais intensos se deram em França. França. Neste período. como no caso de Oxford. O humanismo abre uma nova perspectiva para o ensino universitário. com a criação das academias científicas. rompendo com a hegemonia tradicional da Igreja. como Paris e Bolonha. Matemática (século XVII). Também se intensifica a profissionalização das ciências. Lutero funda as primeiras universidades desde 1544. em Roma (1533) 60. Itália.71). a ContraReforma se sustenta nas universidades portuguesa e espanhola. Na transição entre aqueles séculos. época em que começa a acontecer uma profunda mudança no sistema de valores e normas da universidade. reconhecendo-se – ainda que de forma conflituosa – a legitimidade de uma atividade relacionada com as ciências em geral. a universidade começa a institucionalizar a ciência. que são marcados sobretudo por descobertas científicas em vários campos do saber. Neste período. pelo Iluminismo e pela Revolução Industrial inglesa. Química e Ciências Naturais (século XVIII). Ao mesmo tempo. p. A 60 Trindade (2000).

No final das contas. o século XVIII também foi muito importante para o desenvolvimento de Portugal. Tal movimento continua ainda durante o século XIX65. Inicia-se o que chama de “papel social das universidades”. sobretudo com a reforma da Universidade de Coimbra em 1772. começando no século XIX e estendendo-se aos dias de hoje. sobretudo o século XVIII. é instituída a universidade moderna. a universidade napoleônica rompe com a tradição medieval e renascentista. surgem novas ferramentas mentais para se encarar de forma diferente os conceitos de homem e de mundo. e organiza-se subordinada ao Estado. confunde-se com as vicissitudes das relações entre a universidade. Após a Revolução Francesa. 66 Serrão (1983). que se intensifica a migração de brasileiros para Coimbra. da Astronomia e da Matemática. até então limitada às ciências ensinadas nas faculdades de medicina e artes sob a denominação de filosofia natural64. no Iluminismo o avanço se dá no campo da Química e das Ciências Naturais. 66 Finalmente. e apesar das resistências – inclusive nas universidades – irá mudar substancialmente a universidade. Há uma tendência para a estatização e abolição do monopólio corporativo dos professores. 65 22 . com o objetivo de garantir que a doutrina acadêmica esteja imune às febres da moda. o que melhor definiria as universidades neste período foi a abertura aos métodos do racionalismo e da ciência experimental. se o século XVII foi marcado pelas descobertas da Física. economista e diplomata. Evidentemente. no quarto período. todo este avanço. a partir do século XVII. Em função das guerras napoleônicas e 64 Trindade (2000). na qual discute a formação da nacionalidade brasileira a partir do século XIX. com o desenvolvimento de três novas profissões: engenheiro. período em que se introduz uma nova relação entre Estado e universidade. a Etnografia e a Anatomia passam a constituir um importante campo de reflexão. expandindo-se pelos Países Baixos e Itália. que nomeia os professores e é assessorado por um Conselho. tendo em vista a influência da Universidade de Coimbra sobre os estudantes brasileiros nesse processo.inserção das ciências na instituição universitária altera de forma irreversível sua estrutura. Como se verá adiante. a ciência e o Estado. Ou seja. Esta não segue um modelo único e a sua história. pelo Marquês de Pombal. principalmente. Com o conceito de “natural”. É durante este período. a Geografia. Assim. Se antes a Filologia. a finalidade da universidade viria se constituir no “progresso do conhecimento e na valorização mental do homem”. a Política e o Direito reinavam enquanto campo de estudos. Gauer (1995) sugere esse movimento em sua tese.

a Alemanha realiza uma profunda mudança em suas instituições. É sob o impulso do Estado que a concepção de universidade. como se verá adiante.] É na Alemanha. oficialmente. Embora houvesse um sistema de ensino no Brasil desde o século XVI.. amadurece. fundada sobre o princípio das pesquisas e no trabalho científico. em 1809. Teixeira (1988.. ou seja. levando consigo a sede política do reino. A característica central desta universidade é a integração das faculdades – ao contrário das faculdades isoladas napoleônicas –. com os jesuítas. com efeito. inclusive as universitárias. A Universidade de Berlim torna-se o centro da luta pela hegemonia intelectual e moral na Alemanha. que a universidade brasileira é criada apenas na “última fase”. O marco pode ser considerado a nomeação de Humboldt. de investigação e pesquisa. 67 68 Trindade (2000). dado o modelo adotado de ensino superior implementado ainda na época de Pombal. mas a criação de um conhecimento novo 68. não a exegese. Observe-se.revolucionárias. não o comentário sobre a verdade existente. p. portanto. na era moderna. O Quadro 2. 23 . somente na década de 1920 o país irá criar sua primeira universidade. não o comentário sobre o conhecimento existente. em que o sincretismo religioso predominou sobre o confessionalismo protestante ou católico 67. não é criada nenhuma universidade no país. que se opera a grande renovação da universidade. sendo seu primeiro reitor o filósofo Fichte. 85). a seguir. voltando a ser o centro da busca da verdade. para assumir o Departamento de Cultos e Instrução Pública do Ministério do Interior. Anísio Teixeira compartilha da noção de que [. a interpretação e a consolidação desse conhecimento.. Apesar disto. resume as principais características gerais das universidades ao longo de sua história..] a universidade de Berlim representa realmente os primórdios da nossa universidade contemporânea [. É digno de nota que nos primeiros anos do século XIX a família real portuguesa transmigra para o Brasil.

a ciência e o Estado. 114) 24 . com a criação das academias científicas. Renascimento vários papas e imperadores começaram a atribuir privilégios àquela instituição de modo a preservar sua autonomia. com o desenvolvimento de XIX aos dias de três novas profissões: engenheiro.  A universidade não segue um modelo único e a sua história. Nápoles. a partir do século XVII. Florença) e da Academia Neoplatônica é fundamental para o fim da hegemonia teológica e para o advento do humanismo antropocêntrico. em função do desenvolvimento e descobertas no campo da Séculos XVII e Física. Impactos profundos: o Iluminismo e a Revolução Industrial inglesa.  Também se intensifica a profissionalização das ciências. Século XV ao  O humanismo (Renascimento) atinge a Europa de forma heterogênea. jardins botânicos museus e laboratórios científicos. p. que reage através da Contra-Reforma.  A Universidade de Berlim torna-se o centro da luta pela hegemonia intelectual e moral na Alemanha. Na transição entre aqueles séculos. rompendo com a hegemonia tradicional da Igreja. A característica central desta universidade é a integração das faculdades – ao contrário das faculdades isoladas napoleônicas –. XVI  A Reforma e a Contra-Reforma introduzem um corte religioso radical entre as universidades. em que o sincretismo religioso predominou sobre o confessionalismo protestante ou católico. o que vai permitir sua inserção nas universidades a partir da pesquisa. Oxford e Cambridge (Inglaterra). Século XII ao  Em função de conflitos entre a universidade e os poderes locais da Igreja ou governo. Matemática (século XVII).  Período em que se introduz uma nova relação entre Estado e universidade. segundo Trindade (2000) Fase Características   Corresponde ao período de invenção da universidade tradicional. A Reforma tem desdobramentos calvinistas e anglicanos. Valladolid (Espanha) e Coimbra (Portugal). Há uma tendência para sua estatização e a abolição do monopólio corporativo dos professores. a autonomia e a liberdade acadêmica serem a essência da universidade medieval. Nápoles e Pavia (Itália).economista e diplomata. são fundadas as primeiras cátedras científicas e surgem os primeiros observatórios. Valencia. Química e Ciências Naturais (século XVIII XVIII). É neste período que surgem as universidades de Toulouse (França). A corporação de professores e estudantes é a base da universidade.  Institucionalização da ciência marcando a transição para os modelos que irão se desenvolver no século XIX.Quadro 2 – Desenvolvimento da instituição universitária. e organiza-se subordinada ao Estado. a universidade napoleônica rompe com a tradição medieval e renascentista. Astronomia. Salamanca. Baseado em Trindade (2000). Daí o corporativismo. em que o termo studium significava o estabelecimento do ensino superior. hoje  Após a Revolução Francesa. confunde-se com as vicissitudes das relações entre a universidade. Fonte: Ésther (2007. Siena. Início no século  Inicia-se o que se chama de “papel social das universidades”.  O desenvolvimento das principais universidades italianas (Roma.

Como o pagamento dos lentes deveria sair da renda de certos mosteiros e igrejas. era necessária a autorização do Papa. pois havia centros religiosos que se dedicavam à ciência e à cultura. Brandão e Almeida (1937) insistem na afirmação de que a Universidade de Lisboa (depois Coimbra) foi fundada por D. o grau atribuído aos alunos não ultrapassaria as fronteiras do reino em que tivesse sido criada. para uma universidade ser reconhecida como tal. Além disto. ressalta-se a necessidade de resolver outra questão fundamental: o financiamento. a universidade criada pelos reis seria considerada um studium generale respectu regni. que isentava seus membros da alçada dos juízes leigos. Em 9 de agosto daquele ano. uma vez que os estudos gerais começaram sem a anuência formal de Roma. 70 25 . ou seja. a última vantagem de se pertencer a uma universidade era a regalia do foro clerical. o Papa Nicolau IV expede a bula de confirmação da universidade fundada por D. era necessária a sanção de Roma. por 69 Brandão e Almeida (1937). 71 Rodrigues (1991). não interessava a Portugal criar uma universidade que não tivesse autorização papal. como as de Roma. em função da demora da resposta papal à súplica do rei D. Diniz. a menos que tivessem uma concessão papal especial (atribuída apenas aos studia generale . Assim. Em Portugal. licença para lecionar em qualquer instituição sem ter de prestar novo exame. os escolares não possuiriam a ubique docendi. Se assim não fosse. havia em toda a Europa um conjunto de escolas laicas. Por fim. Sobre o ambiente favorável à criação da universidade europeia. talvez até antes de 1288 71. além do ensino de medicina em Salerno. Diniz em Lisboa 70. Portanto. É por isso que os autores afirmam se tratar de uma bula de confirmação.universidades) para recebê-los enquanto estudassem. Além do aspecto “acadêmico” envolvido. onde se ensinavam as artes liberais (Trivium e Quadrivium) e elementos de arte notarial e do direito privado. a despeito de uma universidade somente ser reconhecida como tal graças a bula papal. Ao que parece. e por se tratar. o Estudo Geral já havia começado a funcionar de fato antes de 1290. portanto. Em outras palavras. ver capítulo 1 deste material. e não pelo Papa. ficando estes sujeitos apenas ao juiz eclesiástico 69.A UNIVERSIDADE DE COIMBRA O nascimento da universidade em Portugal: os primeiros séculos Até próximo ao fim do século XIII. ou seja. e Ridder-Symoens (1996) para uma análise mais detalhada desse contexto. Diniz. por meio do diploma emitido em 1 de março de 1290. na Sicília. este anuncia a criação da universidade. os mestres e escolares só poderiam auferir das prebendas e benefícios que receberiam se servissem nas respectivas igrejas. de bens eclesiásticos. Bolonha e outras.

quando este passa. nova universidade. Henrique é o grande protetor da universidade75. provavelmente. João III assume o trono em 1521. Assim. compondo um ambiente favorável à criação de uma universidade. o monarca lança as bases de uma reforma do ensino no país. Diniz cria. dentre outras atividades (RODRIGUES. o infante D. 74 Brandão e Almeida (1937). Diniz. A universidade permanece em Lisboa até 1308. até que. o que deixou a universidade em segundo plano durante alguns anos. em 1537. desde os fins do século X. pela conservação e aumento de suas receitas e patrimônio (BRAGA. como zelar pelos estatutos. Portugal vivia tempos difíceis de fome e peste. Provavelmente para evitar a associação da imagem de desprestígio da universidade de Lisboa. pela liberdade. 25 de março. após a morte de D. dando estatutos. sua memória deveria ser evocada. pelos privilégios. em definitivo. a assumir e a decidir seu destino por si só. Para os fins deste estudo. A análise contempla a influência portuguesa até por volta da independência do Brasil. régia e formalmente. bem como. de modo a se desenhar e compreender aquele momento histórico em diante. interessa mais profundamente o contexto a partir do descobrimento do Brasil. na qual investe dinheiro e bens para sua consolidação. em 1527. 76 Rodrigues (1991). Embora não se saiba claramente porquê. realizada até os dias atuais76. pelo menos em tese. 73 26 . os mesmos privilégios e modo de funcionamento 73. defendendo-a durante cerca de 30 anos77. por meio da Magna Charta de 15 de fevereiro de 1309. Durante 160 anos a universidade permanece em Lisboa. cuja autorização papal ocorre meses depois74. Durante parte deste período. Por sua determinação. as atividades realizadas em Lisboa são transferidas para Coimbra. por causa dos sucessivos conflitos existentes entre os escolares e os cidadãos de Lisboa. João III a transfere. Manuel. Por meio da carta de 16 de agosto de 1338. a universidade é novamente transferida para Lisboa. 1898). D. 72 Rodrigues (1991). Àquela época – por volta de 1522 –. Na prática. para Coimbra. Afonso IV transfere a universidade para Lisboa.exemplo. 75 O Protetor da universidade tinha autoridade máxima na universidade. D. No entanto. talvez por causa dos mesmos tipos de problemas que ocorreram lá no tempo de D. Brandão e Almeida (1937). 1991). a Igreja dominava amplamente a oferta do ensino naquela época 72. o que provavelmente originou a chamada “Oração De Sapientia”. nomeando professores. pelos usos e costumes adotados. quando é transferida para Coimbra. No entanto. D. sempre no dia da Anunciação de Nossa Senhora. D. 77 Brandão e Almeida (1937).

diretor do Colégio de Santa Barbara. acabam por encontrar em Inácio de Loiola o nome oportuno para tentar reverter a situação. Tal movimento constitui o que os historiadores chamam de Contra-Reforma. que se feriu gravemente em combate. após negociações. seus dogmas são colocados fortemente sob crítica. o Colégio do Espírito 78 79 Carvalho (1986). levando-o a adotar uma nova postura diante da vida. Também fora criado. porém. No entanto. com o tempo. em 1517. Embora questionado e suspeito pela Inquisição. em oposição à Reforma proposta por Lutero. apenas um deles. com a chegada dos dois jesuítas enviados por Loiola. permanece em Coimbra. a Igreja sempre exerceu papel decisivo na vida em sociedade. 27 . João III muda os planos e. em Lisboa – o Colégio de Santo Antão. que ocorre entre 1545 e 1563. reconhecida formalmente em 1540. acaba por fundar a Companhia de Jesus. Lutero abre um espaço para seguidores como Calvino e Henrique VIII. o que lhe permitiu a leitura de obras religiosas. Em 1540. a incumbência de se tornarem missionários na Índia. segue para a Índia. No entanto. Durante esse período. o qual proclama a Igreja Anglicana da qual se nomeia chefe supremo 78. e após ter sido forçado a concluir seus estudos formalmente. D. quando este afixa à porta da catedral de Vitenbergue suas noventa e cinco proposições contrárias à venda de indulgências por parte da Igreja. nascido em 1491. É convocado o Concílio de Trento. junto ao respectivo mosteiro. sob ordens de D. João III. pelo Papa Paulo III. que acatara sugestão de Diogo de Gouveia. o que o manteve imobilizado durante muito tempo. tal venda constitui o detonador de todo o processo de contestação dos dogmas que o catolicismo estabelecera. junto da universidade. o Vaticano se vê obrigado a reagir. e o outro. sob a promessa de que lhe seria dado um colégio. inicialmente. em Paris. Aliás. incluindo sua influência no ensino de conhecimentos. em 1553. Francisco Xavier. Ao contrário. chega a Portugal dois membros da Companhia de Jesus. para se encontrar uma solução para a situação. Com tal nível de contestação e de perda de poder e prestígio – espiritual e material –. Apesar de excomungado. o que acaba por ocorrer em 1553. especialmente com Lutero. nada lhe foi imputado de negativo ou perigoso 79. para acolhimento e preparação espiritual daqueles que ingressassem na ordem jesuíta. Carvalho (1986). Loiola. que teriam. Simão Rodrigues.A Universidade de Coimbra nos Séculos XVI e XVII: a ação dos jesuítas Conforme mostrado anteriormente. valores e crenças. fora um fidalgo e cavaleiro espanhol.

sendo autorizadas todas as ciências exceto Medicina. D. acirrou-se por diversas vezes. incluindo o descumprimento a ordens régias. explicava-lhes a doutrina cristã. Catarina. na defesa de seus bens. em 1557. finalmente o colégio passa para o controle dos jesuítas. inclusive junto à Coroa portuguesa. No reinado de D. a formação de teólogos. Curiosamente. 81 28 . [. em 1560. Carvalho (1986. da rainha e dos infantes. nem mesmo o rei o poderia fazer 83. Gonçalo da Silveira.Santo. D. É nesse momento que aos jesuítas é colocada sob jurisdição a recém-criada Universidade de Évora82. Com o tempo. e não em Coimbra. Catarina.302). apenas os jesuítas poderiam intervir na universidade. Simão Rodrigues foi confessor e mestre do príncipe herdeiro. decorrente do crescente poder desta última. muitas vezes com a presença da rainha e grande número de moradores do paço. Direito Civil e a parte contenciosa do Direito Canônico. e apesar dos problemas e críticas. época em que cresce o apoio aos jesuítas e o conflito com a universidade. Suas aulas começam em 1 de outubro de 1559 – no mesmo ano em que são publicados os novos Estatutos da Universidade de Coimbra –. que sucedia o avô no trono por falecimento prematuro do pai. a viúva regente. recaiu no referido Luís Gonçalves da Câmara que tomou conta do pupilo. 82 Brandão e Almeida (1937). Sebastião é apenas uma criança). João. A escolha. uma perseverança. João III. O plano de educação do pequeno rei alargou-se aos jovens fidalgos pajens de D. um poder de insinuação tão raros que deixaram ficar na história a figura do jesuíta como um tipo psicológico inconfundível. A luta dentre a Universidade de Coimbra e a Companhia de Jesus. Catarina (que governa enquanto D. Conforme afirma Carvalho. mas apenas verbalmente pela palavra do rei. Sebastião. a Universidade resistiu a todas as intervenções alheias.] depois da morte do rei. João III e também do príncipe quando Simão Rodrigues se ausentou de Portugal. os jesuítas vêem seu prestígio crescer em toda a Europa. outro jesuíta. Teologia. 81 Em 1557. 83 Carvalho (1986). Miguel de Torres foi confessor da rainha D. o príncipe D. e Casos de Consciência (Teologia Moral).. insistiu na escolha de um padre jesuíta para a educação do neto. pois não convinha que houvesse desacertos entre as educações de todos eles. João. então com seis anos de idade. Um dos motivos era o Colégio das Artes. onde o ensino ainda era privado 80. Sebastião. Para garantir sua posição e prestígio. sendo organizada nos mesmos moldes da de Coimbra. foi verdadeiramente assombrosa e revela um tacto.. Artes ou Filosofia. p. junto do rei. Gonçalo Vaz de Melo. Luis Gonçalves da Câmara foi confessor de D. instruía as damas da rainha em práticas espirituais. basicamente. também jesuíta. D. em Évora. morre D. o ensino público jesuíta começa em Lisboa e em Évora. já desejada e sugerida por D. Do ponto de vista da autoridade. João III e assume D. Sebastião. Foram abertas quatro faculdades: Humanidades. Seu objetivo era. É graças a esse poder 80 Carvalho (1986). a intromissão dos jesuítas na corte e a preponderância que nela alcançaram. que fazia parte da universidade.

pelas decisões do Concílio de Trento. Newton. Carvalho (1986. A Universidade de Coimbra permanece mais ou menos imune à agitação da época das contestações religiosas e à ação mais direta dos jesuítas em seu interior. em Roma 84 85 Carvalho (1986). Nessa época. no mínimo. Em Portugal. no século seguinte. foi universalizado um texto solene de profissão de fé. cresce o movimento intelectual dissonante em relação aos valores e conhecimentos da época. unidos para o mesmo fim. bem como por participar ativamente das viagens ultramarinas. No entanto. É o século em que surgem pensadores como Francis Bacon. Foi um momento conturbado e difícil para Portugal. Em Coimbra. com o Concílio de Trento. assim ficava completado o cerco defensor das heresias e supostamente garantida a perenidade do pensamento católico sem mácula. No entanto. La Fontaine e muitos outros. toda a vida pedagógica nacional ia decorrer tranquila durante quase dois séculos85. Ainda nas palavras de Carvalho.330). Espinosa. implantando sua filosofia. Todos militavam na mesma hoste. marca um regime de terror sobretudo em função das punições impostas pelo Santo Ofício. no ensino universitário. Kepler. 29 . alicerçados na tradição e coesos nos intuitos.conquistado que os jesuítas acabaram por ampliar o ensino por todo o país. com os quais os professores teriam de se comprometer por meio de juramento. Neste panorama geral não havia distinção entre jesuítas e mestres universitários de Coimbra. durante todo o século XVII e parte do XVIII. No entanto. Também é neste século que são criadas as Academias – como a Royal Society of London (1657). Leibniz. o século XVII presencia o surgimento de um conjunto de pensadores cujas ideias revolucionárias ou. a dei Lincei. o domínio espanhol. apesar de alguns pequenos conflitos com a coroa. Galileu. p. vários professores foram acusados pela Inquisição e condenados à morte. Descartes. especialmente no caso brasileiro84. pela mão da Companhia de Jesus. Pascal. era o da defesa activa da Igreja Católica por via do ensino. por assim dizer. basicamente. Hobbes. que há pouco tempo havia conquistado a nova colônia e agora a perdia para a Espanha. foi realizada a primeira cerimônia de juramento em 16 de janeiro de 1565. iniciado em 1580 e terminado em 1640. a vida escolar dos jesuítas não é afetada. na capela da Universidade. entretanto. Nesse contexto. na Europa. Agora. críticas começa a descortinar uma mudança profunda que somente será totalmente processada. As dissidências que tantas vezes os tinham posto em luta foram sempre de natureza pragmática ou económica mas nunca ideológica. Assim a situação permanece. com a presença de todos os lentes que juraram obediência às decisões do Concílio. Toda a ascensão por via escolar era obrigatória a ajustar-se ao mesmo molde: no ensino preparatório.

para que Pombal possa cumprir seu intento. mesmo minimamente. De certo modo. reuniam-se publicamente para exporem o resultado das suas meditações e experiências87. se desviassem das regras impostas pela religião. No entanto. 87 30 . na medida em que todos os campos são 86 Carvalho (1986). por exemplo. ainda que com muita censura e adaptações 88. 1898. “n’este periodo systematico da decomposição do regime catholico-feudal o século XVIII não apresenta aquella poderosa evocação do passado greco-recomano que fizeram os Humanistas no seculo XVI. é preciso que a Ilustração dê sequência ao movimento intelectual dos séculos XVI e XVII. pelo menos em Portugal. pelas consequencias do seu audacioso negativismo. No entanto. Assim. quando Sebastião José de Carvalho e Mello. a Academia de Ciências de Paris (1666). Carvalho (1986). nem elabora as vastas syntheses philosophicas e creações scientificas do seculo XVII. e culmina com a Revolução Francesa ao final do século89.(1600).” (BRAGA. com o tempo. embora também sujeitos à vigilância e censuras. consequentemente. com profundos impactos sobre a visão de mundo e. 2-3). Embora fossem estudiosos e tivessem acesso aos livros. promove a reforma da Universidade de Coimbra. a Universidade de Coimbra ainda permanece presa aos dogmas religiosos até quase o final do século XVIII. tais como a Descartes. dentre outras – e as publicações científicas periódicas86. a despeito dos avanços da época. Assim. consiste na continuidade da renovação do pensamento dos séculos anteriores. já iniciados pelo Renascimento do século XVI. mantinham-nos privados e discutidos entre si. A Universidade de Coimbra no Século XVIII Antes da Reforma de Pombal O século XVIII é um dos mais ativos e intensos no que diz respeito às transformações por que passa a Europa. A universalidade do livre-exame ou a liberdade de pensamento é uma das características mais marcantes do século. os outros lá fora. mas é-lhes superior como excepcional. fosse ficando cada vez mais difícil evitar alguma disseminação mesmo entre os jesuítas. 89 Conforme afirma Teophilo Braga. mas jamais divulgados nos colégios. após expulsar os jesuítas dos domínios lusitanos. embora. o então Marquês de Pombal. justifica-se a vigilância quanto ao ensino de ideias revolucionárias. enquanto na Península Ibérica se impedia a expressão da opinião individual sentando no banco dos réus todos aqueles que. sobre a educação daí decorrente. p. 88 Carvalho (1986).

Rousseau e Montesquieu. partindo do pressuposto de que o homem se aperfeiçoaria por meio da instrução. Braga (1898). 31 . a herança crítica dos movimentos humanistas dos séculos anteriores. Na prática. dentro do espírito crítico do pensamento da época. Diderot exerceu especial influência na questão educacional. Para Teophilo Braga91. a natureza moral e material. Tendendo a deixar as letras e as humanidades em segundo plano. obra na qual propõe a separação dos três poderes em Legislativo. colocando em xeque os dogmas tradicionais religiosos. A esse movimento dá-se o nome de Iluminismo ou Ilustração. São diversos os pensadores que influenciaram e marcaram o pensamento da época. As ciências passam a assumir um caráter experimental. Montesquieu. começam a surgir as especialidades científicas. o homem e a sociedade. defendem que a sociedade deve ser governada pelo Estado e pelas leis. a filosofia. bem como o poder monárquico. De modo geral. cabendo ao Estado – e não mais à Igreja – a responsabilidade de garanti-la. o pensador que mais representaria esse período seria Montesquieu. As antigas ciências são demolidas e novas passam a ser arquitetadas90. O Iluminismo também é marcado pelos enciclopedistas. com seu célebre “Espírito das Leis”. assim. Adam Smith e Kant. Foram publicadas na França por Diderot e D’Alembert. Executivo e Judiciario. como forma de sistematizar e aglutinar o conhecimento crescente e sistematizado até então. o princípio básico é que somente pela razão e pela experimentação se chega ao conhecimento. que editaram as primeiras enciclopédias de que se tem notícia. De um maneira geral. Rosseau. D’Alembert. defendendo. pai do empirismo inglês – junto com David Hume –. como John Locke (ao fim do século XVII). tendo colaborado nas reformas da imperatriz da Rússia. Para tanto. como o deísmo (razão como o meio para se chegar a Deus) e o ateísmo (negação da existência de Deus). com contribuições de Voltaire. Dado o volume de conhecimento decorrente do exercício do livre pensar e dos experimentos. política. estabelece a instrução primária obrigatória e gratuita. quer tornar as novas ciências o 90 91 Braga (1898). Diderot. dentre outros. Emergem e se fortalecem doutrinas contrárias à herança católica. que toda a qualquer pessoa soubesse ler. da Reforma Protestante e da profusão da imprensa influenciou todo o pensamento do século XVIII. notavelmente a física e a química.questionados: religião. certamente influenciadas pelo pensamento de Descartes e Newton. Voltaire. Para Teophilo Braga. escrever e contar.

o que lhes garantia alguma influência política nesse sentido. no caso da educação. o progresso da sociedade passava. os jesuítas eram próximos da realeza e da nobreza. há que se destacar que os iluministas eram unânimes em suas ideias basicamente no que diz respeito ao aperfeiçoamento contínuo do indivíduo e do meio social. sem o controle e monopólio da Igreja. Há certa tolerância da Igreja para com os livres pensadores. a ideia subjacente é que a ação do homem pode transformar o mundo em prol de seu bem-estar. tinham restrições à escolarização dos pobres. 93 32 . Para se difundir e concretizar um novo modo de pensamento. 95 Veiga (2007). buscam defender publicamente o ideal eclesiástico. No entanto. o Iluminismo tinha como pressuposto a vida social baseada na razão. regulando as atividades dos pensadores e a difusão de suas idéias. posteriormente. por exemplo. 94 Braga (1898). ou seja. os iluministas divergiam entre si quanto a educação da população mais pobre. de modo geral. É no século XVIII que surgem as indústrias. No entanto. Em outras palavras. Diderot estabeleceu cursos especiais correspondentes ao tipo politécnico. e o trabalho passa a ser encarado sob uma nova perspectiva. essa influência termina quando são expulsos de Portugal e das colônias em 175994. tidas como revolucionárias. A eletricidade é descoberta. culminando. Nesse sentido. No nível da universidade russa. bem como solicitava o ensino da economia política92. são testadas aplicações da máquina a vapor. a relação é íntima entre instituições políticas.conteúdo quase exclusivo do ensino. a educação despida de dogmas religiosos. com o legado de Adam Smith – e. ou seja. frutos da Revolução Industrial que se processa nesse período. De certo modo impotentes em impedir o avanço das novas idéias. econômicas e pedagógicas. No entanto. pelo progresso material. os quais deveriam alcançar seu conforto por meio do trabalho 95. era de cunho eclesiástico – os 92 Braga (1898). Em Portugal. não mais amparado por crenças e dogmas metafísicos. tal como a “Enciclopédia”. fundado na derrubada do antigo regime – que. por exemplo.o que exigiria a adaptação das instituições às exigências da época. embora suas idéias sejam rechaçadas e seus livros proibidos. Como se pode perceber. a racionalização do Estado e autonomia dos saberes frente às crenças e preconceitos 93. Locke e Voltaire. surgem os economistas com suas ideias e conceitos relativos ao financiamento da economia como um todo – a corrente dos fisiocratas é influente nesse momento. Veiga (2007). também.

que havia trabalhado em Londres. mesmo com toda a efervescência do movimento humanista/racionalista. fortemente combatida pela Igreja. No entanto. foi “necessária” uma revolução – a Revolução Francesa – para que houvesse uma mudança significativa ampla. Nesse contexto. referindo-se às universidades inglesas. responsável pela condução dos rumos do país. As universidades não deixaram de manter suas tradições. depois. portanto. porém defensores de uma ordem monárquica. O título de Marquês de Pombal foi outorgado a Sebastião José de Carvalho – então Conde de Oeiras – em 1769. Sebastião José de Carvalho e Mello representava.pensadores necessitavam que a educação também mudasse. A Universidade de Coimbra. contrárias às novidades científicas e filosóficas que ocorriam fora delas. mesmo porque muitas haviam sido criadas apenas como faculdade de teologia – e apesar de terem anexadas faculdades científicas. O Iluminismo em Portugal é marcado pela atuação de Sebastião José de Carvalho e Mello – futuro Conde de Oeiras e. José. aos 71 anos de idade. descrito mais adiante. era controlada pela Igreja. 97 Braga (1898). em seu país. como compensação pela intervenção no caso do atentado ao rei. em 1772. é fundamental que se tenha em vista que o desenvolvimento científico do século XVIII e de suas premissas iluministas ocorreu fora das universidades e sem elas. a educação – ou a instrução – seria o caminho para legitimar os novos conceitos e visões de mundo. incluindo o Brasil. nos salões e academias literárias e científicas97. Segundo alguns autores. encontrava-se decadente sob diversos aspectos. Ou seja. em 1759. Teophilo Braga assim descreve aquele momento. Antes da reforma promovida por Pombal. incluindo a educação. dos economistas e da revolução industrial. a educação em Portugal e colônias. a grande actividade fabril e commercial. ainda que com consequências desastrosas num futuro não muito distante. espanholas. decorrentes das teses iluministas. defensores de certos princípios do Iluminismo. como o progresso. a participação do cidadão na vida publica. Marquês de Pombal 96 – que promove uma série de reformas no âmbito político. temperavam os espiritos para as superiores iniciativas scientificas e philosophicas. ou seja. desejava implantar os avanços que observara na Inglaterra. e emquanto os sábios e pensadores inglezes 96 Sebastião José de Carvalho (1699-1782) recebe o título de Conde de Oeiras do Rei D. É uma perspectiva mais materialista da sociedade. A reforma educacional pode ser considerada parte de um projeto mais amplo. fundamentalmente pelos jesuítas. Sebastião José de Carvalho. 33 . econômico e social. a perspectiva dos “déspotas esclarecidos”. mas estendendo sua afirmação para as francesas. italianas e mesmo alemãs: A energia do caracter individual. tal como outras da Europa.

conhecendo “a vida íntima da corporação academica”. na medida em que o poder local. p. por isso mesmo que ellas eram impotentes para embaraçarem esta revolução da intelligencia98. a feição e as matrículas incertas.. de maneira geral. dentre outras coisas. o que lhes garantia grande movimentação e impunidade. que lhe dará o diploma pelo dinheiro e não pela sciencia (grifos do autor)99. deixavam as Universidades vegetarem no seu automatismo tradicional. p. o que confere fidelidade e confiabilidade de suas declarações. citando Antonio Nunes Ribeiro Sanches. 100 Braga (1898). em especial. A autonomia universitária da época implicava. 111).] cada qual procura graduar-se conforme se acha capaz. o que garantia tanto o referido foro privilegiado. o que fazia com que a maioria andasse “armada até os dentes” pelas ruas.. era comum os monarcas se declararem “Protetores” da universidade. que se refere a uma sociedade de estudantes de Coimbra. Em 98 Braga (1898. Em 20 de junho de 1722 foi degolado em praça pública o chefe da quadrilha. relativas aos privilégios dos escolares. Dentre os costumes dos estudantes da universidade àquela época. em que predominava o gozo dos privilégios e das riquezas que tinham sido doadas à universidade100. realizado pelos mais antigos. sabendo muito bem que perderão os honorários. Quase todos os dezessete cúmplices morreram na cadeia (BRAGA. ressalta-se o trote. 145). em julho daquele ano. sendo violentos em suas investidas. o que facilitava e proporcionava uma vida dissoluta e o gosto pela impunidade. p. Certa vez. e não a ciência. Destaca-se uma citação de Teophilo Braga acerca das universidades italianas. cujas práticas conduziam até ao assassinato101. tentaram sequestrar a sobrinha do reitor da época. a atitude dos estudantes era de grande valentia. Além disto. não tinha nenhuma jurisdição sobre os atos cometidos pelos professores e estudantes.do seculo XVII e XVIII renovavam e impulsionavam as sciencias physicas e as syntheses philosophicas. Na prática. até o momento em que finalmente foram presos. Esta he a razão porque os estudos d’estas universidades estão hoje na maior decadência: porque os Professores ordinariamente approvam todos. 101 Teophilo Braga descreve em detalhes o episódio do Rancho da Carqueja. A tradição era o valor mais importante da universidade. 1898). incluindo tentativas de sedução que podiam envolver a violência em relação às mulheres. Método para aprender e estudar a Medicina (1763. 99 34 . Braga (1898. o foro privilegiado dos estudantes e professores. e dos honorarios que recebem do graduando. que aterrorizou a cidade nos anos de 1719 e 1720. Seus costumes eram depravados e dissolutos. Naquela época não era comum se chamar a presença dos alunos em aula. cuja cabeça foi espetada num poste na praça de São Bartolomeu. porque estão certos que se não se graduarem este candidato. e tudo depende do exame dos Professores. à época: [. O trote era chamado de “investidas aos novatos” ou “canellão à porta férrea”. o Doutor Ribeiro Sanches frequentou a Universidade de Coimbra entre 1716 e 1719. 160). Segundo Teophilo Braga. que procurará outra Universidade. quanto as práticas dos “annos de mercê” ou “perdões de acto”. o que desencadeou uma série de tentativas de detê-los.

outra em dezembro. é a “Universidade mais uma eschola de facção e de intrigas e formalidades do que de letras e virtudes” (BRAGA. incluindo os brasileiros que lá viviam. 200) 105 Braga (1898). a universidade e todo o seu pessoal docente valorizavam as insígnias e ornamentos. Havia uma matrícula em outubro. dois meses na universidade. obtidas até por meio de lutas. no total. os alunos mal ficavam. a frequência dos alunos e o tempo dedicado as aulas eram exíguos. As datas de matrícula eram uma espécie de confirmação de que o aluno estudava na universidade. Francisco foi um dos maiores aliados de Pombal para a realização da reforma da universidade que iria ocorrer em 1772. Na prática. As compras de votos eram escancaradas. 104 Braga (1898. implicava o comportamento esperado dos novatos. p. esse estado de coisas começou a mudar. A feição. citado por Teophilo Braga. ocorriam denúncias à Inquisição e todo tipo de corrupção103. A modalidade da “feição geral” consistia em gastar dinheiro rapidamente com os amigos. os professores ministravam uma hora de aula por dia. D. por sua vez. 103 35 . Nesses intervalos os estudantes voltavam para suas casas 102. Braga (1898). os professores não estavam em situação mais digna do que os alunos. Segundo Braga. Naquela época. prevalecendo a pompa doutoral sobre a ciência 105. era o tempo da lição diminutissimo” 104. o que levou a formação do citado Rancho da Carqueja. 102 Braga (1898). autenticadas mesmo nos registros oficiais. “aos tiros e espadagadas dos lentes uns nos outros”. Nos termos de D. Após o dito episódio. sobretudo aqueles que tinham muito dinheiro. E. Finalmente. e uma última em maio. A relação entre os estudantes e os lentes também era um tanto espúria. Como afirma Teophilo Braga. ou promover rifas. Francisco de Lemos (em Relação Geral do Estado da Universidade de Coimbra). passaram-se às “boas feições”. 1898. Somente mais tarde. Os mais pobres mal tinham dinheiro para sobreviver. efetivamente.193 (grifos do autor)). mantinham a mesma atitude. insultar e até matar. com a reforma de Pombal. Os alunos votavam em professores nos concursos em troca de respostas prévias dos exames a que seriam submetidos. a ausência nas aulas se dava por conta do medo das investidas. e de lerem perpetuamente o mesmo dictado. sobretudo em festas religiosas. entre eles havia uma relação de dependência e desleixo. Além disso.parte. que incluíam comportamento de brincadeiras e atitudes infantis. “não se contentando de estarem na inercia pela ausencia dos estudantes. Mesmo tendo seus salários aumentados numerosas vezes. que envolvia ferir. p.

quando D. 1898). e sob o reitorado de D. como tal representava uma reação contra os jesuítas. Quando D. o que mostra a tensão ainda existente. 108 Braga (1898).Uma das principais causas que atuaram na decadência da Universidade de Coimbra foi a efervescência religiosa chamada de “Jacobêa” 106. e que não perdia oportunidades de difundir os ideais da Jacobêa ou do Sigillismo 107. Na essência. Tratava-se de uma posição pessoal de Pombal quanto aos jesuítas. Tal influência atingiu a Universidade de Coimbra. Francisco em continuar como reitor e reformador. começa a reforma do ensino pelo Marques de Pombal. que consegue expulsar os jesuítas privando-os de todo o ensino. Francisco da Annunciação é preso por conta das suas doutrinas sigillistas (BRAGA. adoece. diante da recusa de D. Tal iniciativa fundamental partiu de Portugal. é convocado D. sendo o estabelecimento de uma instrução pública com o caráter secular e nacional uma das consequências mais significativas. em detrimento da influência jesuíta. em 1769. Miguel da Annunciação. seu irmão. por meio do alvará de 28 de junho de 1759108. assume como ministro o Frei Gaspar da Encarnação. cujo nome é emprestado à seita. sobretudo quando o Prior Geral dos cônegos regrantes. Embora dirimidas. era a aplicação das doutrinas da “Graça” em oposição a das “Obras” e. 107 Dentre outras ações. o próprio D. os jesuítas buscaram apoio do papa. para assumir o posto. ou atenuadas. em 1742. foi nomeado reitor e reformador da universidade. na medida em que o penitente era obrigado a delatar seu pecado e denunciar seu cúmplice. relata-se um processo de provimento de concurso cancelado para que outro lente pudesse assumir no lugar de um forte opositor da seita. há algum tempo as disputas entre os jesuítas e a seita Jacobêa. das quais a “Escada de Jacob” era o símbolo. Mais tarde. Nesse contexto. que passa a proteger os seguidos da Jacobêa. A ordem havia entrado no 106 A Jacobêa era a prática mística de exercícios religiosos tendentes a provocar visões. Em 1757. A Reforma de Pombal No século XVIII. Miguel da Annunciação teve a posse da sede episcopal e criou a seita dos “sigillistas”. João V. Gaspar de Saldanha e Albuquerque. D. sob pena de não ser absolvido de seu pecado. 1898). A forma de confissão singularizava a seita. a expulsão inicial dos jesuítas dos países “que mais incondicionalmente mantinham o regime católico-feudal” pode ser considerada tão importante ou capital quanto o foi a criação da Companhia de Jesus como reação ao Protestantismo no século XVI. Gaspar. por ordem de Frei Gaspar. onde os jesuítas tinham dominado a política e o ensino por cerca de dois séculos. 36 . o que favorecia a propagação as intrigas e o ódio entre as famílias (BRAGA. Tratava-se de uma seita relativa aos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho que atingiu seu nível maior de fanatismo por volta de 1741.

Teophilo Braga ressalta que os redatores assumiram a “jesuitofobia” de Pombal. a ideia é realizar uma 109 Braga (1898). que governa de forma absoluta em nome do rei e que goza do prestígio sagrado da soberania. “elles [os jesuítas] continuavam a ser a sua preoccupação máxima. Em seu livro. em outras universidades europeias. Porto: Lopes e Cia. no Colégio dos Nobres. nas quais nunca tiveram influência alguma. com a eliminação dos jesuítas. lhe provocava a irritabilidade. incluindo uma armação de atentado ao rei para incriminar os jesuítas e seus demais inimigos. Perfil do Marquez de Pombal. quando os autores afirmam que “já não há por felicidade nossa neste presente tempo quem possa duvidar com apparencia de razão. 1900). Camillo Castelo Branco traça um perfil extremamente negativo de Pombal. Pombal logo tratou de reestruturar o ensino.país simultaneamente à decadência da monarquia no país. o autor descreve em pormenores o empreendimento levado a cabo por Pombal. 111 Por exemplo. Sem dúvida. como vimos. antes sob sua responsabilidade. os responsaveis. no qual preponderava o caráter científico moderno.. culpando os jesuítas por toda a decadência do ensino. Dentre os estudos acerca dos jesuítas. e. em que o direito divino dava lugar ao direito natural. Em relação ao Compêndio Histórico. conseguiu. sua expulsão em 1759110. D’Azevedo (1922) coloca que para Pombal. e que serviu de base para a reforma por ele empreendida no ano seguinte. a decadência pedagógica era basicamente a mesma (BRAGA. em algumas das suas mais notáveis resoluções” (p. exteriorizada a cada passo em actos e palavras. de que todos os estragos.. Outros autores compartilham da concepção de que Pombal tinha uma verdadeira obsessão pelos jesuítas111. embora Teophilo Braga se recuse a colocar dessa maneira. De todo modo. o perpetuo inimigo que muito importava combater” (p. A ideia era implantar a organização de uma sociedade civil. sob a supervisão do Marquês de Pombal. considerando-o uma espécie de déspota que zela pela liberdade.283). de 1771. destacamos uma passagem do Prelúdio I do Compêndio Histórico. O próprio autor insinua que seu ódio por Pombal é tão grande quanto o de Pombal pelos jesuítas (Ver Camillo Castelo Branco. De maneira mais contundente. Uma das primeiras iniciativas foi a criação da Diretoria Geral dos Estudos e um novo ensino médio. Após tramar uma série de situações. em detrimento da eclesiástica. 37 . 1898). e publicaçoes dos novos estatutos por elles fabricados”. tendo em vista a emergência de uma burguesia poderosa. Apenas para se ter uma ideia do desprezo pelos jesuítas naquele momento. realizado pela Junta de Providência Literária. dada a ascensão da indústria e das reformas agrárias112. Em outras palavras. O ministro Sebastião José de Carvalho e Mello dedicou boa parte do seu tempo no cargo elaborando um estudo para derrubar os jesuítas de sua influência sobre a coroa109. 1771. Com o fim do controle jesuítico sobre o ensino. cada vez que um inesperado estorvo á sua politica. 284). e que “(. a atitude de Pombal tanto denunciou o atraso em que se encontrava Portugal quanto criou um corpo social responsável por isso. 1).. para Gauer. o próprio Marques de Pombal é tão controverso quanto suas medidas e ações. 110 Braga (1898) aponta o século XVIII como uma época marcada tanto pelo espírito crítico especulativo quanto uma impetuosidade reformada na ação ministerial. uma critica aos seus actos. o poder real monárquico é cindido em um novo poder ministerial. os jesuítas eram. que no fysico desta Monarquia se viram no meio della amontoados pelo longo periodo dos ultimos dous Seculos. e que á legislação pombalina impoz o seu cunho. ver “Compêndio histórico do estado da Universidade de Coimbra no tempo da invasao dos denominados jesuítas e dos estragos feitos nas sicencias e nos professores.. Segundo o autor.. sentindo-se livre para glorificar o seu despotismo. e directores que a regiam pelas maquinaçoes. finalmente. Daí a postura e as ações de Pombal refletirem um corrente da época: a reforma pela arbitrariedade. Assim.) era uma permanente obsessão. 112 Gauer (1995). p. foram horrorosos effeitos das façanhosas atrocidades dos denominados jesuitas” (ver COMPÊNDIO HISTÓRICO.

a reforma da Universidade de Coimbra. foram publicados os novos Estatutos da Universidade de Coimbra. o Colégio dos Nobres. efetivamente. como defensor da monarquia. a reforma. manejo de espingarda. risco. Por meio de carta régia de 28 de agosto daquele ano. equitação. economia política do Estado. instala. Assim. direito civil e medicina 116. reformadas: teologia. Ainda segundo o autor. constituirão a base das faculdades de matemática e filosofia moral da Universidade de Coimbra. fortificação. arquitetura militar. de alguma forma. Foi introduzido o conteúdo de direito pátrio e história do direito português. estruturado na razão humana. investido com plenos poderes delegados. esgrima. filosofia moral. Dinamarca. 38 . sagrada e militar. em 1761. que seria dirigida por um delegado do rei. agricultura geral. dança. Pombal. o Jardim 113 Médico e intelectual português de caráter iluminista. natação. baseado no referido Compêndio Histórico preparado pela Junta de Providência Literária. responsável por manter a uniformidade da doutrina – a partir da proibição de certos livros e adoção de outros – e das diretrizes a serem implantadas. privilegiou-se o direito natural. além de inspecionar e selecionar o corpo docente por meio de concurso114. Suécia e Prússia) cujos conhecimentos envolveriam línguas estrangeiras. Pombal é nomeado para visitar a universidade e implantar. Mais adiante. acrescentou-se a corrente do individualismo crítico. libertando o homem do teocentrismo aristotélico-escolástico. A partir deste documento. navegação e comércio 115. somente em 1765 são organizadas as disciplinas científicas que. álgebra. político e prático. mais tarde. e supervisionada por ele próprio e o Cardeal de Cunha. cujas ideias influenciaram a elaboração da reforma da universidade por Pombal. buscou-se um transmitir um saber científico baseado na observação da natureza e na experiência através da sistematização. Foram criados o Teatro Anatômico. e com alguma resistência. 115 Braga (1898). aritmética. direito canônico (jurisprudência canônica). Somente em 1772 é que Pombal irá promover. No curso de Direito. geometria. 116 Braga (1898). naval e civil. direito das gentes. em fins do século XVIII e início do XIX. o Diretor dos Estudos.reforma baseada na secularização da instrução nacional – sob forte influência do Doutor Ribeiro Sanches113–. que é onde os homens são iguais. de modo a educar a “nobreza e a fidalguia” (nos moldes dos colégios militares da França. Todas as faculdades foram. criou-se uma nova concepção antropológica. 114 Braga (1898). geografia. que foi a expressão do liberalismo político e econômico difundidos por toda a Europa a partir da Revolução Francesa. hidrografia e náutica. criada em 1770. direito civil. história profana. trigonometria. Na medicina.

Origens e Evolução da Universidade. Pombal promove duas inovações importantes e emblemáticas: a criação da Faculdade de Matemática e da Faculdade de Filosofia. concedendo-se maior significado a determinadas matérias que se encontravam na linha do Progresso que o Estado e a burguesia pretendiam estimular. da mineração. pode-se afirmar que a reforma de Pombal. 118 39 . Pombal teria fornecido um projeto 117 Gauer (1995). 119 Gauer (1995). 121 Gauer (1995). sobretudo. o Observatório Astronômico. É nesse momento – século XVIII. etc. da agrimensura. p.34-45). a valorização de medicina e a concessão de uma maior importância às ciências exactas e naturais. à medida que se observa a crescente intervenção dos monarcas na administração das universidades. da indústria. os Gabinetes de Física Experimental e História Natural. sendo a observação sistemática um aspecto fundamental 119. A primeira recebeu o estatuto de Faculdade Maior. O objetivo da criação do curso de matemática era a formação de professores e profissionais para atuarem na Marinha como engenheiros. O estudo do corpo dessacralizado é um aspecto fundamental da reforma nesse campo 117. Neste ponto. e não apenas em Portugal. inclusive no nível superior. uma produção e uma reprodução de saber integradas numa ordem feudal-eclesiástica da sociedade. A Faculdade de Filosofia substituiu a de Artes. In Ensaios Universitários. Se até às reformas iluministas se verificava. Tal perda de autonomia não implicou perda de liberdade de pensamento. Seria com a Contra-Reforma que as universidades teriam perdido sua autonomia intelectual121. em termos gerais – que as universidades católicas começam a perceber o poder do Estado. ou ocuparem cargos de arquiteto e medidores 118. Lisboa. Logos. de alguma forma. portanto. Guilherme Braga da. Gauer (1995). surgiu um tendência para a laicização régia e burguesa do conhecimento. p. referindo-se ao argumento de Guilherme Braga da Cruz (CRUZ. consideradas como elementos fundamentais ao serviço do desenvolvimento. é importante assinalar que a proposta de laicização do Estado assume seus contornos no ensino. representa o ápice de um amplo movimento que vinha tolhendo a autonomia da universidade desde os séculos XIV e XV. Nesse sentido. e foi tratada pelos reformadores como a base do conhecimento das ciências naturais. Segundo Torgal120.Botânico. 1964. mas perda de liberdade política. na sua perspectiva “despótica”. 120 Torgal (2008b. o Hospital. com o Iluminismo.25-26). É neste sentido que surge a tendência para a subalternização do direito eclesiástico. Era um curso independente e vista como subsídio para as demais ciências. A natureza é concebida como um espaço em que o homem poderia atuar visando o progresso. a Imprensa da Universidade.

político-ideológico – era mais fácil atribuir aos jesuítas a responsabilidade pela conservação de uma autonomia universitária que eles mesmos construíram e da qual exigiam dos reis serem seus protetores. Nesse sentido. apenas um ódio pessoal contra os jesuítas provavelmente não seria suficiente para alcançar tal intento. implicando uma completa intervenção em sua atuação. de criar as condições para que a reforma pudesse vir a ser implantada. Em 23 de dezembro do mesmo ano é criada a Junta de Providência Literária. embora tenha. um deputado da Mesa Censória e o reitor (D. ou eram seus membros. de modo a realizar os trabalhos preparatórios da reforma. Francisco de Lemos Faria. Cruzeiro (1988). A autora não nega que o Estado tenha seu papel no processo de decadência. de acordo com o que isso significava em sua época. Assim. Tudo começa com a nomeação de D. 125 Cruzeiro (1988. Desta forma. para isso. na medida em que buscou um direcionamento para a ciência e a tecnologia. ou eram suficientemente prestigiadas para se lhes imporem”125. Francisco fará parte. Era presidida pelo bispo de Beja e presidente da Mesa Real Censória. mas se recusa a atribuir a ele a criação de tal situação. na elaboração das críticas e das reformas. por assim dizer. Francisco de Lemos Faria) 124. do ponto de vista discursivo – e de resto. o que absolveria e reduziria a Companhia de Jesus a meras vítimas impotentes do Estado123. Francisco de Lemos Faria e de alguns intelectuais dispostos a promover a mudança considerada necessária. dava-se cobertura a uma ação que.coerente e uma definição clara de sua estrutura e objetivos122. parece-nos mais plausível ter havido uma estratégia política eficaz para a implantação de uma nova filosofia de sociedade. do que imputar as causas da decadência da instituição a um Estado centralizador e burocrático. 122 Torgal (2000). em 14 de maio de 1770. basicamente.178) 123 40 . ponderar sobre os “remédios” e apontar os métodos a serem implantados. o franciscano Frei Manuel do Cenáculo. embora pudesse ser um motivador. e integrada por outros seis membros (todos doutores. sem dúvida. Tal estratégia consistiu. Portanto. p. de personalidade que. “para ser aceita. com o apoio do reitor D. conforme se afirmou antes. da qual D. A Junta tinha o objetivo de encontrar os as causas da ruína da universidade. ao mesmo tempo em que se garantiam apoios numa pluralidade de instâncias poderosas. aos seus 35 anos. pelo comprometimento. 124 Cruzeiro (1988). atrelado a universidade ao Estado. não deveria aparecer como obra de um só homem. sendo um deles irmão do reitor).

p. como bem sublinha a autora. capacidade de criar. Além disto. muitas. querer-se-ia como expressão de uma vontade que.Ao mesmo tempo em que a Junta preparou o Compêndio Histórico. isto é. A espetacularidade da acção enquadra e sublinha aqui o que já está contido na autoridade da palavra que “legalmente” se anuncia128. desde os primeiros passos da formação do Estado absoluto – a afirmação do direito de “dizer o direito”. O que já vinha detrás. não apenas pelas obras materiais.. se propõe como intérprete indiscutível do “Bem Comum” e que. tal como já havia sido feito em outras instituições públicas do país. o saco de veludo em que estavam os Estatutos. que. garantisse as competências desejadas. levando mais um ano até sua conclusão. emanada de um poder que se pretende de origem divina. incluindo demissões e novas contratações. a encenação do poder tende a anular a distância que a metáfora supõe entre o objeto material e o seu símbolo. o que evitaria indesejáveis resistências e. como poder do déspota esclarecido. A lei. [. de formular a lei e de a impor. Dito de forma mais clara. He Minha Vontade”. incluindo os simbólicos. entre outras. sua chegada em Coimbra com beija-mão como se fosse o próprio rei. ocorre com especial insistência nas fórmulas do direito iluminista. esta força de expressão. me praz.] isto. além de proceder à reforma do sistema de administração financeira. em 1772). da fórmula “para sempre” e de abolir o passado “como se nunca tivesse existido”. 127 41 . 128 Cruzeiro (1988. a reforma previa a renovação do quadro docente. expressão da força capaz de fazer de uma ficção arbitrária um dado do real. Na época. Daí o frenesi pleonástico do “Quero. no limite. como o Erário Real. como a de Deus. como componente fundamental. foram elaborados os Estatutos. como 126 Cruzeiro (1988). é comum a toda a ordem jurídica. o que permite a possibilidade de implantação do novo regime na universidade no ano seguinte (o que acaba por não ocorrer. de gerar realidade pela palavra autorizada e. se assume como potência da razão vontade de civilizar e. seguiram-se outros documentos que viabilizariam a reforma. à Casa de Bragança e outras126. Cruzeiro (1988). ao mesmo tempo. mas de tirar do nada. estatuindo o futuro. Assim. para sempre. até o cortejo que levou o Marquês até o Paço das Escolas127. como todo o poder. de uma forma particularmente viva.. supremo dom. Desde a cara régia lhe outorgando plenos poderes para implantar a reforma. é já realidade. Daí a ousadia de criar para a eternidade. formas de redundância. poder real sobre corpos e bens. Juntamente com a carta régia de “roboração” dos Estatutos.182). trata-se de um caso exemplar de exercício do poder que. Por isso ele se atribui um poder de vida e de morte. ao ser enunciada. há que se destacar o aspecto e o caráter “espetacular” da reforma pombalina. como se pela expressão se exconjurasse a ameaça das crenças vacilantes. como realidade natural. Por fim. O reitor foi nomeado por mais três anos como reitor reformador. passando pelas vestimentas e rituais.

a partir da república. José I. profusamente expresso a propósito de todas as iniciativas reformadoras. de fato. de modo a implementar aquilo que ele e seus apoiadores acreditavam ser o caminho adotado por Portugal. como se pode perceber. “em que se cruzavam o espírito burguês ainda não desperto para a revolução e o espírito tradicionalista”. a ação de Pombal foi devidamente planejada. onde uma burguesia em busca de estabilidade se deixava instilar por concepções conservadoras e propendia para uma visão técnica da cultura e do ensino”130. O país é invadido três vezes pelo exército francês entre 1808 e 1810. a estruturação de um ensino “oficial”. e “com a sociedade europeia pós-Revolução francesa. quando a 129 130 Torgal e Vargues (1984).28). embora com alguma distância em relação àquilo que fora pretendido originariamente. em especial jesuítica. econômicas e científicas. Torgal e Vargues (1984. a universidade ganhou mais autonomia e relevância institucional no quadro geral do ensino. em função da pressão de Napoleão para ter o apoio de Portugal contra a Inglaterra. tanto por razões ideológicas quanto práticas. Na prática. ou seja. a que o “zelo” real de “iluminar a nação”. por seu sentido estatista. acima de tudo. De todo modo. em 1808. com a transmigração da família real para o Brasil. confere a aura épica de um modero Genesis. Mas. o fato é que a reforma alterou a universidade para sempre. De todo modo. contrário ao ensino livre da Igreja católica. Com a queda de Pombal e a morte de D. com o devido apoio político. Tal situação era compatível com o clima da época. havia muita reação ao ideal pombalino. alguma coisa vai mudar. Assim. embora reações conservadoras e o desgaste natural das instituições proporcionadas pela instabilidade da vida nacional tenham gerado algum retrocesso.prerrogativa do imperante – reveste-se agora de um novo vigor. no século XX. Portanto. A reforma realizada por Pombal é caracterizada. quando o ideal pombalino é efetivamente posto em causa. p. A Universidade de Coimbra no Século XIX O século XIX é marcado. apesar dos esforços do século XIX. numa época marcada por transições ideológicas. houve a tendência da Igreja controlar novamente o ensino. o ensino continua a pautar-se no modelo pombalino. 42 . Avançase no sentido de algumas experiências pedagógicas e escolas especiais – no espírito do Iluminismo – ao mesmo tempo em que se afrouxa a concepção “oficial” de ensino com a clericização e a liberação das atividades educacionais 129. inicialmente.

foram nomeadas as Cortes Constituintes. cerca de um ano e meio depois. em nome da “Santíssima e Indivisível Trindade”. as aulas foram seriamente prejudicadas. o que acaba por levar à Revolução de 1820. definitivamente. João VI. Obviamente. Para a instrução. saiu a Constituição Política da Monarquia Portuguesa. De todo modo. a chamada Revolução Liberal. dada a inércia por parte do Estado português e da estrutura política vigente. 133 Torgal e Vargues (1984). o Colégio das Artes de Coimbra132. como é o caso do valor iluminista da instrução como índice de civilização e liberdade. que assumem. inclusive. as discussões parlamentares não chegaram a tomar atitudes revolucionárias no que concerne à instrução pública. cuja meta era a criação de um parlamento de onde saísse uma Constituição de direitos e deveres dos cidadãos. D. proclama o estado de rebelião. Parte das críticas inspirava-se nas ideias francesas a respeito da educação. inclusive com o retorno da censura e fechamento de escolas. embora tais ideias fossem um tanto difusas e certos conceitos tenham perdido força. D. As discussões recolocavam a questão debatida à época da Revolução Francesa: controle do ensino pelo Estado ou liberdade de ensino?133. Tal conceito poderia implicar tanto uma consciência revolucionária quanto representar uma forma estereotipada de uso corrente. eclode a revolução. a instrução pública ocupa o último lugar e abrange quatro artigos. Enquanto em França a ideia era derrubar 131 Carvalho (1985). dada a ausência do rei. nomeadas por sufrágio universal. observa-se uma forte crítica ao ensino em Portugal. Em 1832. somadas à independência do Brasil em 1822. havendo repercussões sobre a instrução pública. Carvalho (1985). que é extinto o Tribunal do Santo Ofício e abolida a censura131. Sob a orientação ideológica de Fernandes Tomás. É neste período. O clima em Portugal não era dos melhores. ainda. Miguel. em 1811. filho de D. Miguel é proclamado rei e Portugal vive em regime absoluto até 1834. e com respeito pela monarquia e pela religião. Em janeiro de 1821. No entanto. Ferreira Borges e Silva Carvalho. em função das alterações na vida portuguesa desde a revolução de 1820. das quais. Neste contexto. Após uma série de situações políticas. 132 43 .Universidade foi saqueada pelo inimigo – que foram expulsos. foi criada uma Comissão de Instrução Pública. com data de 23 de setembro de 1822. Nesta. os jesuítas passam a ter existência legal novamente no país.

previa a criação de escolas superiores em Coimbra. 137 Carvalho (1985). o status quo não se altera135. desde que chegou ao poder. diferentemente das demais propostas que apenas a modificariam sem. cria a Escola Politécnica de Lisboa e a Academia Politécnica do Porto. ao se desvincular por completo das orientações pombalinas. 135 44 . com a inclusão do próprio autor. o mesmo não sucede em Portugal. 136 Torgal e Vargues (1984). o que representava uma espécie de ataque ao monopólio da Universidade de Coimbra quanto ao ensino superior137. Torgal e Vargues (1984). assentando-se numa concepção liberalista que deve basear todo o sistema da vida nacional. e o professor entendido como um funcionário público. para quem a “universidade proprietária” era um “monstro”. ela jamais atuou134. A despeito de ser sido criada uma comissão para discutir a proposta. Torgal e Vargues admitem que a inércia foi a característica principal das Cortes e das Comissões de Instrução – órgãos responsáveis pela instrução pública em Portugal – do primeiro liberalismo português. Seu desejo é oficializar o ensino. de extinguir as universidades e criar as Escolas Centrais em seu lugar. Assim. Apesar das críticas por ele formuladas e de alguma adesão a suas ideias. que privilegiava os ensinos primário e secundário em relação ao superior. deixaria de existir a “universidade proprietária” vigente. Seu objetivo é tanto a desclericização do ensino oficial quanto a independência do ensino eclesiástico. A reforma de 1836. O mesmo ocorre com o projeto menos radical de Luis Mousinho de Albuquerque. em 1837. No bojo da discussão.o sistema escolar do “antigo regime”. tornando-a instituição pública. Da mesma forma. Neste sentido. jamais foi levada e cabo. sendo a de Santos do Vale a de cunho mais radical. 134 Torgal e Vargues (1984). Em conclusão. e levada a cabo pelo deputado Passos Manuel (Manuel da Silva Passos). questionar seus pressupostos – tal como as propostas de Serpa Machado e de Soares Franco. Para Carvalho. posto que não havia um ambiente político propício para uma mudança radical transformada 136. jornalista de Coimbra. Lisboa e Porto. o liberalismo português. a proposta radical de Rebelo de Carvalho. inclusive propondo seu fechamento – proposta de Borges Carneiro –. mostrou-se hostil ao fortalecimento da universidade. e apesar de ter sido levada ao nível parlamentar. e influenciadas pela Revolução Francesa – sobretudo da fase da Convenção – surgiram algumas propostas mais ousadas. por considerá-la inútil. no entanto.

No entanto. foge ao escopo deste trabalho abordar tal fase. dado nosso objetivo de estabelecer alguma conexão entre a Universidade de Coimbra e a universidade brasileira. em 1889. criada dentro de um clima de rejeição e de resistência ao “modelo” português. somente com o advento da república – a despeito de sua prioridade pelo ensino primário 138 – é que o país irá experimentar uma nova alteração talvez tão profunda quanto aquela empreendida por Pombal. 138 139 Torgal (2010). tão combatido pela nascente república brasileira. ainda inspirado no “antigo regime”. Torgal (2012).A despeito de uma pequena reforma da Universidade de Coimbra em 1901. inclusive durante o Estado Novo de Salazar 139. 45 .

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